APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. com várias gerações por dia. ou menos “aptas”. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. aquilo que se conhece. Mas. ou melhor ainda. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. pois. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. deveria ocorrer um colapso. segundo acrescentaria Darwin. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. intitulado abreviadamente Teoria das populações. que produzem várias gerações por ano. essa mesma questão. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. isto é. se surgir outra teoria que explique melhor. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. mas sim de um processo de seleção passiva. ou com maior abrangência. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. A teoria científica representa. Por conseguinte. em favor das que. em favor da segunda. no entanto. pois. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. Se essas características mudarem. veio 4 . Seriam. em dado momento. por força de alterações de clima. Os fatos da teoria evolucionista. Dizia Malthus. sobre um assunto determinado. Em 1838. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. Darwin imaginou. a fome generalizada. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. muitos deles com características “humanóides”. em microorganismos.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. por alguma singularidade constitucional. Se isto não ocorria. pois. a teoria anterior tem que ser abandonada.

O Homo sapiens sapiens. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. da Índia. Com relação ao ser humano. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. Brain: “Parece razoável admitir-se que. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. De fato. Estes são considerados hominídeos. desde os últimos 50 milhões de anos. e 650. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. segundo alguns. sabemos que a Terra. 1350 centímetros cúbicos. Na verdade. segundo outros. há cerca de 300 milhões de anos. vivendo sob as árvores”. sempre. Por outro lado. K. Essas significativas alterações de relevo. mas também da superfície do cérebro. ao longo do tempo. por meio da seleção natural. Em conseqüência das transformações climáticas. Como conseqüência. ainda. dentro de uma mesma espécie. As condições vigentes. observa-se um aumento gradual não só do volume. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. a maior parte de Europa. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. pois. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. Entre esses fósseis. em média. ao longo da série dos vertebrados. disse o antropólogo sul-africano C. Nessa época. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. como. entre outros fatores. por exemplo. iniciado há 200 milhões de anos. inúmeras espécies de símios arborícolas. como existiam no Mioceno. desde a sua formação.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. embora o nível de inteligência. levando à formação do homem. constituindo o Vale do Grande Rift. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. mas esse valor pode variar muito. unto à costa oriental africana. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. por exemplo. ou seja. possui. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre. do processo de separação dos continentes. no sentido norte-sul. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. há 12 milhões de anos. no Período Carbonífero. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo.

hoje. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. o que. entretanto. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. Há cerca de 2 milhões de anos.menor porte. Há cerca de 1. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. descoberto há poucos anos na Etiópia. primeiramente descoberto na Ilha de Java. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. o contato com o frio. porém dotados de capacidade cerebral bem maior. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. nas grandes glaciações que 6 . típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. e essa espécie. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. pelo antropólogo africano Louis Leakey. além disso. Nos últimos anos. proporcionava-lhe a liberação das mãos. ans mesmas regiões. ao que tudo indica.6 milhões de anos. outros tipos de hominídeos. A partir de Lucy. surge um novo personagem nesse cenário. como os leões e outros felinos. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. São os do gênero Homo. sendo os primeiros. Também nessa época. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. Particularmente. que vieram a constituir as savanas de hoje. O primeiro espécime encontrado. Trata-se do Homo erectus. 2 milhões de anos. começaram a aparecer. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. com grande capacidade para trituração. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. uma fêmea. em 1960. mais que de frutos carnosos. em média. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. Estas. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. pois. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). que atualmente se estendem por grande parte do território africano. descoberto. da qual são conhecidos. 30% maiores e 45% mais pesados. como os símios arborícolas. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos.

Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. 7 . As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. há cerca de 220 mil anos. porém mais robusto e que não deixou descendentes. contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. Migrando para regiões frias. Finalmente. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. porém. denominada Homo neandertalensis). como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. estão longe de ser bem conhecidas. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística. aprendeu a viver em cavernas. muito semelhante ao atual.ocorreram durante o último milhão de anos. o Homo sapiens sapiens.

Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. que essas diferenças se explicam. se transportarmos para o Brasil. que os judeus são avarentos e negociantes. Em 1950. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. Segundo Felix Keesing.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. de fato. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. 15. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. e. que os alemães têm mais habilidade para mecânica. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. Ou ainda. que os ciganos são nômades por instinto. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. Eles nos informam. uma das características específicas do Homo sapiens. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. que os japoneses são muito trabalhadores. pelo contrário. logo após o seu nascimento. antropólogos físicos e culturais. biólogos e outros especialistas. pela história cultural de cada grupo. Ela constitui. finalmente. Em outras palavras. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. antes de tudo. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. geneticistas. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. traiçoeiros e cruéis. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. b) No estado atual de nossos conhecimentos.

A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. do tipo das formuladas por Pollio. E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. um esforço físico considerável. de um processo que chamamos de endoculturação. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. ganharam uma grande popularidade. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. É ele que se recolhe à rede. entre outros. Ibn Khaldun. Bodin e outros. eram exclusivamente masculinos. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. São explicações existentes desde a Antiguidade. Wissler. Kroeber. como vimos anteriormente. Resumindo. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. Até muito pouco tempo. arma de uso exclusivo dos homens. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. e não a mulher.traços psicologicamente inatos. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. A partir de 1920. Estas teorias. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. mas em decorrência de uma educação diferenciada. em seu livro Civilization and Climate (1915). E mais: que é possível e comum 9 . A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. antropólogos como Boas. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. quer se trate de inteligência ou temperamento. entre outros exemplos. na verdade.

colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. Era de se esperar. p. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. vivem em tendas de peles de rena. Posteriormente. pastoreio – no mesmo ambiente natural. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. Os grupos Pueblo são aldeões. desvencilhar-se das pesadas roupas. do sudoeste americano. sementes de capins e de caça. os lapões e os esquimós. 33). Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. Kalapalo. Vivem. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. Em compensação. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. Os lapões. no mesmo habitat. Waurá. Trumai. Quando desejam mudar os seus acampamentos. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. 1967. 1978. Mas. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. os lapões são excelentes criadores de renas. cultivo. então. ocupam essencialmente o mesmo habitat. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. pois. Tomemos. Quando deseja. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. caracterizados por um longo e rigoroso inverno.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. como primeiro exemplo. Ambos habitam a calota polar norte. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. Um segundo exemplo. obtendo ovinos dos europeus. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. É possível. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. portanto. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. 22). os Navajo são hoje mais pastoreadores. por sua vez. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. que se alimentavam de castanhas selvagens. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. p. transcrito de Felix Keesing. (Cliford Geertz. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. em ambientes geográficos muito semelhantes. A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores.

arte. etc. portanto. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. sobre o meio ambiente. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos.existentes nos grandes mamíferos. Os Kayabi. Mas. em 1690. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. definido pela primeira vez por Tylor. crenças. O conceito de Cultura. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. o veado. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. com efeito. leis. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. As diferenças existentes entre os homens. como a anta. sem guelras ou membranas próprias. portanto. a caititu. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. moral. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. Com esta definição. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. ou seja. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. que habitam o Norte do Parque. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. examinar por toda parte as várias 11 . provido de insignificante força física. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. Sem asas. e não casualmente. dominou os ares. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. foi. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. conquistou os mares. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. A idéia de cultura. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. transmitida por mecanismos biológicos. pelo menos como utilizado atualmente.

comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”.. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé. Em 1871. Em outras palavras. Em 1917. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. como diríamos hoje. hoje clássico. mais de um século depois. Jacques Turgot (1727-1781). Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido.. em 1950. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. (O grifo é nosso). Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que. ou regra de virtude para ser considerada. Tanto é que. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. gorila e orangotango) e os homens. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . Esta definição é equivalente às que foram formuladas. Meio século depois. Completava-se. “O Superorgânico”. II. então. na verdade. em1973. com referência a John Locke. Mas. em 1775. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. um processo iniciado por Lineu. que não seja em alguma parte ou outra. cap. Finalmente. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). parágrafo 10). governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor.

representou o afastamento crescente dos dois domínios. Esta vida arborícola. entretanto. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. a nossa espécie tinha conseguido. com um odor tautológico. construído a partir de uma visão da natureza humana. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. Mas. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. um mundo tridimensional. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. abriu para os primatas. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. Esta. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. Em outras palavras. elaborada no período iluminista. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. onde o faro perdeu muito de sua importância. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. combinada com a capacidade de utilização das mãos. principalmente os superiores. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. ou melhor. o cultural e o natural. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. Os fundadores de nossa ciência. inexistente para qualquer outro mamífero. no decorrer de sua evolução. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. O segundo passo deste processo. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. através dessa explicação. Em suma. em 1950. foi capaz de assim proceder. Neste trabalho. A reconstrução deste momento conceitual. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 .

Sem o símbolo não haveria cultura. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. a primeira norma.... então. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). antropólogo norte-americano contemporâneo. A cultura seria. Para Lévi-Strauss. esta seria a proibição do incesto. Explicações de natureza física e social. a mãe. A seguir considera que o bipedismo foi. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. o mais destacado antropólogo francês. e o homem seria apenas animal. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. Como. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. por exemplo. e uma bandeira desfraldada. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. Toda cultura depende de símbolos. E a chave deste mundo. a filha e a irmã). Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. Com efeito. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. fornecendo uma nova percepção. possibilitada pela posição erecta. Leslie White. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. sacudido ao vento. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. “todos os símbolos devem ter uma forma física. não um ser humano. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. afirma ele. Claude Lévi-Strauss. provavelmente. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante.. como afirmou o próprio White. Isto porque. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. Oakley destaca a importância da habilidade manual. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. e o meio de participação nele. O comportamento humano é o comportamento simbólico. Ou seja. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. Kenneth P. é o símbolo.

na moderna acepção da palavra. A cultura desenvolveu-se. consequentemente. embora mais atrasado do que a fala humana -. num dado momento. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples.admitir que a cultura apareceu de repente. portanto. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. caça esporádica. como ironizou um antropólogo físico. entretanto. num sentido especificamente biológico. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. 15 . de cultura. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. o produto da cultura”. Assim. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. O primata. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. por isso mesmo.20m. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. mais do que um evento maravilhoso. O ponto crítico. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. compreendida como uma das características da espécie. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. assim. Clifford Geertz. mas também. antropólogo norte-americano. Devido à dimensão do seu cérebro parece. O Australopiteco parece ser. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). porém incapaz de adquirir outros. improvável que possuísse uma linguagem. pois. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. Em essência. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. não apenas o produtor da cultura. aprender. Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito.

É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. que subdivide em três diferentes abordagens. isto é. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. Meggers. etc. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. padrões de estabelecimento. divergências sobre como opera este processo. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. Assim. entretanto. Rappaport. crenças e práticas religiosas. como todos os animais. produto dos chamados “novos etnógrafos”. Existem. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. no início deste trabalho. 3 “A tecnologia. fragmentado por numerosas reformulações. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. inicialmente.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. da manutenção do ecossistema. Roger Keesing. como Steward. e assim por diante. Carneiro.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. refere-se às teorias idealistas de cultura. esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. B. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. Goodenough. 1977). desenvolvido por Marvin Harris. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. Vayda e outros que. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 . Neste capítulo. Keesing refere-se. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. de agrupamento social e organização política. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. Harris.” Em segundo lugar. da subsistência. para W. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. na dialética social dos marxistas.

situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. regras. Assim. arte. Para isto. será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. receitas. mas não dentro deles. Assim procedendo. por exemplo.tais como a lógica de contrastes binários. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. e este programa é o que chamamos cultura. Esta amplitude de possibilidades. entre as teorias idealistas. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. entretanto. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. Assim. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. Lévi-Strauss. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. A última das três abordagens. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. portanto. ou seja. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. como um evento observável. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. São públicos e não privados. Voltando a Keesing. a análise componencial. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . como. Para isto. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. E. Com isto. para Geertz. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. um conjunto de princípios . ou seja. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. Estudar a cultura é. para Geertz. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. a seu modo. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. planos. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras.

Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. Por isso. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. no final desta primeira parte. e era. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. David Schneider tem uma abordagem distinta. portanto. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. Por exemplo. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. tema perene da incansável reflexão humana. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”.captar o código cultural em uma gramática. constituído de formas vegetais bem definidas. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. desenvolvida através de inúmeras gerações. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. Esta atitude varia em outras culturas. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. discriminamos o comportamento desviante. e provavelmente nunca terminará. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. portanto. Assim. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. Neste ponto. por exemplo. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. respeitado. têm visões desencontradas das coisas. Até recentemente. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. a floresta é vista como um conjunto ordenado. Assim. A nossa herança cultural. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial.

a fim de acumular um dote para o casamento. pode ser bem diversa. profundamente alta. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. Os alunos de nossa sala de aula. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. as diferenças percebidas pelos estudantes. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. comer. e não pelo observador de fora. primariamente. no qual analisa as formas como os homens. A partir do que foi dito acima. nessa mesma situação. quando não está comendo. sabem servir-se de seus corpos. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. que ela é inglesa. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. Todos os homens riem. tais como o modo de agir. produtos de uma herança cultural. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. Enfim. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. as apreciações de ordem moral e valorativa. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. de sociedades diferentes. A emissão sonora. ou seja. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. o riso. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. são variações de um mesmo padrão cultural. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. assim. O modo de ver o mundo. Na verdade. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . Segundo Mauss.relações sexuais em troca de moedas de ouro. o fato de mais imediata observação empírica. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. O riso se expressa. o resultado da operação de uma determinada cultura. vestir. por exemplo. caminhar. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. Tomemos. apesar de toda a sua fisiologia. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. por exemplo. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver.

depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. em outras uma atividade privada. reta. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. a família deve toda se sentar à mesa. entre nós. Nas várias culturas. no início do século. em alguns casos. após a prece. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. em horas determinadas. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. caminham. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. As mulheres sentam. Como utilizamos garfos. mas a utilização do mesmo. Para nós. entre os ocidentais. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. pelos travestis. Tal fato. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. Segundo ele. agarrada. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. etc. assim. provavelmente. e somente iniciar a alimentação. como indicador de má educação. como sinal de agrado da mesma. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. no mínimo. a um ramo de árvore. Entre os latinos. após a refeição. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. através da alimentação. a sua força de trabalho. Estas posturas femininas são copiadas. 20 . a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. Ela deu à luz em pé. Dentro de uma mesma cultura. de maneiras diferentes das dos homens. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. com o chefe na cabeceira. Freqüentemente. segundo o qual. seria considerado. o ato de comer é um verdadeiro rito social. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Resumindo. gesticulam. entretanto. “Buda nasceu estando sua mãe. Mãya.obstetrícia. mas também pela maneira como agem à mesa.

sua visão de mundo. Daí a reação. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. grupo Tupi do Sul do Pará. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. Esta parábola. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). O ponto fundamental de referência não é a humanidade. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. reflete a condição humana. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. denominada de etnocentrismo. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. Finalmente. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. ou mesmo sua única expressão. índios das planícies norte-americanas. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. Dentro de uma mesma sociedade. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. Tal tendência. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . O estudante asiático aceitou um segundo prato. é um fenômeno universal. ou pelo menos a estranheza. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. e. conforme o costume de seu país”. os esquimós também se denominavam “os homens”. O costume de discriminar os que são diferentes. em relação aos estrangeiros. colegas de seu marido. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. freqüentemente. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. e entre eles foi convidado um jovem asiático. acrescenta Keesing. mas o grupo. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. Entre os romanos. Após os convidados terem terminado os seus pratos. se autodenominavam “os entes humanos”. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. O etnocentrismo. consideravam-se “os homens”. de fato. porque pertencem a outro grupo.Roger Keesing. seus costumes e expectativas. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. os Akuáwa. separado em pequenos grupos. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. cada um com sua própria linguagem. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. Os Cheyene.

o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. e mesmo os seus seres sobrenaturais. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. Ela morre de choque. que é a apatia. Diante de uma situação crítica. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. estes índios perderam a crença em sua sociedade. O principal protagonista de um filme. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. fomos procurados por uma mulher. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. habitada por pessoas de fenotipia. Em 1967. e até físicas. Muitos foram os suicídios praticados. Confiante nos poderes do branco. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. também. a pressão sanguínea cai. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. neste e em outros casos. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. Foi. Muitos abandonaram a tribo. que foi considerado muito eficaz. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. Entre os índios Kaapor. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. perdiam toda a motivação de continuar vivos. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. grupo Tupi do Maranhão. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades.o início da relação afim. que teria visto um fantasma (um “anan”). nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. costumes e línguas diferentes. Traduzido como saudade. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. acaba realmente morrendo. Um outro exemplo são as agressões verbais. A vítima. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. conseqüentemente. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. em estado de pânico. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. deprimentes e imorais.

A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. Finalmente. insetos mortos. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. E de fato. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. Basicamente. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). primeiro sobre as próprias mãos e. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. em seguida. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. em alguns casos. Após muitas massagens no doente. Após cerca de uma hora de cantar. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). Nas curas a que assistimos. Ajoelhando-se junto a ele. uma idéia mais detalhada do processo. Repetiu as massagens e sucções. dessa vez dirigidas para o ombro.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. entretanto. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. sobre o corpo do paciente. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. por exemplo. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. esfregou-lhe o peito e o pescoço. o pajé soprou fumaça. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. e em muitos casos a cura se efetiva. diz um ditado popular. A descrição da cura dará. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. Em muitas sociedades humanas. não é importante. quem não almoça assobia”. que fez desaparecer na mão. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. etc. Muitos brasileiros. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. dançar e puxar no cigarro. “Meio-dia.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. dizem padecer de doenças do fígado. desde o início do ritual. o pajé recebeu o espírito. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. talvez. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. reais ou imaginárias. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Guardavam-nos por 23 . por maior que tenha sido o nosso desjejum.

A generalidade do etnocentrismo Assim definido. E. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano.. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum.. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente. como por vezes se supõe. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado.”. O seu sentido de solidariedade depende. 2.”.”. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal.. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. para fazê-lo desaparecer após. livre do cigarro. “uma tribo”. as restrições 24 . “Eu faço aquilo. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade. geralmente. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. à audiência a sua natureza.. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo.algum tempo dentro da mão. Num sentido que não é precisamente determinado. ao mesmo tempo.”. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas. pelo menos em parte. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”.. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum.. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. porém. a população em causa é. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. “uma comunidade aldeã”. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural... o que parecia bastante. Explicavam. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares. Face aos objetivos do presente artigo. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto. qualquer que seja a sua identidade cultural. “Nós fazemos aquilo.

Isso acontece em todas as sociedades humanas. inferiores. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. por vezes. mas. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. apesar de tudo. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. como a cor da pele e o tipo de cabelo. 25 . em estreita interdependência econômica. freqüentemente. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. não só porque tem costumes diferentes. a que olhemos “os outros” com desprezo e. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. ao mesmo tempo. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. freqüentemente. em que o setor b4anco da comunidade. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. como animais. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. como bárbaros. 4) estilo de vida em geral. Em Israel. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. com o andar dos tempos. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. mas também a inveja. O traço essencial de tais sistemas reside em que. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. politicamente dominante. diferentes de nós. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. contudo. são “pessoas como nós”. Isso leva. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos.] Se “nós” estamos no centro do universo. a conotação “homens’. Eles não são homens verdadeiramente”. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. etc. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. 3) práticas religiosas. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. como deuses. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. nós não somos “os outros”. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. contrair matrimônio entre si. econômica e politicamente dominante. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. como noutros lados. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. mas porque são de uma espécie diferente. eles são. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. O fenômeno é geral. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. a todo e qualquer nível de identificação. com temor. [Em várias sociedades tribais]. mas que recusam. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. 5) língua e dialeto.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar.

Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. Desde os tempos do Profeta. em certos casos. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. 4. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. de alguma forma. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. mas pagãos. A tarefa do missionário como salvador das almas. mas a maior parte dos missionários protestantes. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. etnocêntricas. Etnocentrismo. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. Neste tipo de contexto. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. mas também a de “destruir as obras do demônio”. especialmente os da ala evangélica do movimento. colonialismo e missionários. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. 3. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. Há um pequeno número de missões cristãs. geralmente de fé católica romana que. Analogamente. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas.

erotismo/ascetismo. As duas faces da mesma moeda. limpeza/sujidade. quem é que se pode sentar à mesma mesa. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. quase sempre. sobretudo. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. No mundo real. 27 . a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. a questões políticas e econômicas. O resultado é muitas vezes. Na África do Sul contemporânea. reforçam-se uma à outra. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. ou antes. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. deplorável. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. procriação/esterilidade.

...............................O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade..............34 A cultura em nossa sociedade.............................29 O que se entende por cultura...........44 Cultura e relações de poder..........................................57 28 .....................55 Indicações para leitura.........................

já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. Assim. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. bem viva nos tempos atuais. Entendido assim. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. sociedades e grupos humanos. Na verdade. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. As variações nas formas de família. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. De fato. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. sociedades e grupos humanos. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. e a cultura as expressa. 29 . Por isso. é porque eles estão em interação. nações. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. costumes. são o resultado de sua história. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. nações. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. Se não estivessem não haveria necessidade. mais freqüentemente por ambos os motivos. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. por exemplo. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. Notem. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. porém. logo se constata a sua grande variação.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. de conceber a realidade e expressá-la. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. ou nas maneiras de habitar. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos.

a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. por exemplo. criando novas possibilidades de desenvolvimento. Para muitas delas. o contato entre grupos humanos foi freqüente. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. De fato. São também variadas as formas de organização social. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. por exemplo. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. pois. Assim. bem-sucedidos. Assim. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. Nesse processo. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. no entanto. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. A partir de uma origem biológica comum. a viver em aldeias e vilas. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas. Cada cultura é o resultado de uma história particular. Isso se aplica. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. e isso inclui também suas relações com outras culturas.Vejam. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. O aceleramento desses contatos é recente. as 30 . por exemplo. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. como para a européia ou a chinesa. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. não obstante a constatação de certas tendências globais. como a domesticação de animais e plantas o prova. os grupos humanos se expandiram progressivamente. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. isto é.

No primeiro caso. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. Ou então. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. 31 . não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. dessa evolução em linha única.quais podem ter características bem diferentes. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. Segundo aquele argumento. as tecnologias de metais. falar. Por exemplo. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. uma nômade praticando a caça e a coleta. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. por exemplo. Por exemplo. sobre o resto do mundo. no estágio da barbárie. reinos africanos. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. existentes ou extintas. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. dada a multiplicidade de critérios culturais. vamos pensar em duas culturas primitivas. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. Assim. por exemplo. Segundo as versões mais comuns desses estudos. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. Nesse caso. nas etapas humanas da selvageria. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. Assim.

segundo essa visão. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. pois. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. conquistando e destruindo povos e nações. pois. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. Vemos. Ou seja. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. sua civilização avançava implacavelmente. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. Observe o quanto essa equação é enganosa. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural. em que esse confronto de idéias se consolidou. Existem. no entanto. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. por exemplo. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. poderia ser aplicado. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. indicava os caminhos de 32 . substitui-se um equívoco por outro. Consideremos um pouco mais este segundo. Cultura e relativismo Em outras palavras. Por outro lado. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. unidade biológica da espécie humana. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. O século XIX. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa.

os quais hierarquizam de fato os povos e nações. tem regiões de características bem diferentes. Assim. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. de agir sobre essa realidade. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. e muitas vezes o são. sua capacidade de emitir pronunciamentos. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. a população difere ainda internamente segundo. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. ou segundo seu grau de escolarização. cujas razões podem ser estudadas. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. Tudo isso se reflete no plano cultural. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. existe no interior de uma sociedade dinâmica. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. como se fossem culturas estranhas. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. por exemplo. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. um grupo religioso. de interpretar a realidade que as produz. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . numa sociedade como a brasileira. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. por exemplo. suas faixas de idade. Pensem. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. Além disso. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. por exemplo. quando não seu fim.

como o teatro. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. formação escolar. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas.cultural. a televisão. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. a escultura. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. o cinema. à sua comida. Por cultura se entende muita coisa. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. a pintura. a um novo idioma e a novos problemas. a novas técnicas. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. no estudo da cultura em nossa sociedade. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. Vejamos alguns desses sentidos comuns. em discutir sobre cultura. nem sempre pacíficos. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. Em geral. Assim. entre povos e nações. Contudo. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. mostrar como eles se desenvolveram. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. Vamos então cercar o assunto. a música. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. Afinal. educação. a seu idioma. Outras vezes. De modo que. 34 . ou a seu modo de se vestir. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. às lendas e crenças de um povo. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. A lista pode ser ampliada. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura. A partir disso. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. tais como o rádio. cultura está associada a estudo.

Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. a um domínio. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. Conforme já dissemos. e que tem por temas principais a ecologia. parada. preocupando-se com a totalidade dessas características. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. de localizar traços e características que as distingam. Vamos à segunda. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. já que não se pode falar em conhecimento. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. as re1ações pessoais e a espiritualidade. e da mesma forma seus meios de divulgação. fechado. Esse é um ponto muito importante. da vida social. as culturas humanas são dinâmicas. estagnado. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. idéias. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. Nesses casos. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. com os quais partilhamos de poucas características em comum. ou então de grupos no interior de uma sociedade. Assim. seja na organização da sociedade. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. Neste caso. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. às idéias e crenças. assim como às maneiras como eles existem na vida social. Como veremos a seguir. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. ao conhecimento filosófico. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. à sua literatura. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. No entanto. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. o corpo. De acordo com esta segunda concepção. De fato. O esforço de entender as culturas. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. Tanto assim que é 35 . a alimentação.

procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. Vem do verbo latino c o l e r e. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. Nesse sentido. Observem porém que se essa preocupação já existia. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. quer dizer. que quer dizer cultivar. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. ou seja. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . não-religiosa. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. sofisticação pessoal. Em primeiro lugar. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. educação elaborada de uma pessoa. industrializadas e sedentas de novos mercados. modos de vida. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. Como sinônimo de refinamento. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. porém. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Roma e China antigas. por exemplo. e isso está presente na expressão cultura da alma. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. e populações do resto do mundo. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. bem mais recentes. do mundo social e da vida humana. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. práticas e crenças de povos diferentes.

a idéia é muito genérica. 37 . Trata-se de uma idéia muito ampla. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. É que até então essas questões podiam ser respondidas. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX.materiais que podiam ser estudados. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. quando se comparava povos diferentes. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. de cunho religioso. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Nesse sentido. Há um segundo. como na visão de evolução linear das sociedades. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. Além disso. como vocês podem ver. várias vezes. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. Novamente. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. Se fosse só por isso. Assim. Lembrem que. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. e tudo que é humano é cultural. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. De fato. Assim. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. Esta é uma relação muito íntima. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. difícil de precisar.

Assim. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. tais como comidas. período em que a Inglaterra e França eram econômica. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. por exemplo. na falta de uma unidade política comum. O mesmo pode ser dito da América Latina. Foi assim na Alemanha do século XVIII. específico. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. Assim foi na Rússia do século XIX. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. Assim. Nestes casos todos. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. um país em posição inferior às potências européias. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. ou que para cá foram trazidas como escravas. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. Na América Latina. nas Américas do século XX. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. podemos mencionar a Rússia do século XIX. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. roupas. lendas. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. 38 . Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. De fato. e o Brasil é bem um caso. No caso. em relação às nações política e economicamente dominantes. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. nomes.

pois. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. No segundo caso. crenças. concepções e modos de conhecimentos. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. Como veremos numa sessão posterior. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. à cultura dominante. nação. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. cultura competiu com a idéia de civilização. ou à falta de acesso à ciência. cultura é então a própria marca da civilização. grupo ou sociedade humana. cultura surge em oposição à selvageria. Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. se opõe à falta de domínio da língua escrita. mas também em grupos no seu interior. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. Ou ainda. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. Com o passar do tempo. o que não ocorre com civilização. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. que mencionei anteriormente. No primeiro caso. à estrutura da família. e por outro. qual seja. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. a qualquer cultura. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. Além do mais. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura.Assim. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. concepções. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. à organização da sociedade. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. ao direito e às idéias. de conquista e incorporação 39 . Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. à barbárie. Assim. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz.

nações. a civilização mundial. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. vinda da relação de cultura com erudição. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. nas técnicas.acelerada de povos e nações. é uma idéia muito ampla para cultura. Com a aceleração da interação entre povos. nos instrumentos e nos utensílios. de regular o casamento e a reprodução. Quênia e Indonésia. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. É uma situação bem diferente. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. Assim. na produção do necessário para a sobrevivência. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. Assim. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. Apesar disso. Falar da totalidade das características de um povo. pois não seria essa realidade comum. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. por exemplo. resultados de experiências históricas muito diferentes. o Peru. buscam desenvolver suas economias dependentes. Vejamos como isso ocorre. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. que vai poder distinguir suas experiências particulares. nações. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. nação. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. nas suas concepções. sociedade. povo. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. o da cultura e o da sociedade de classes. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. vejam bem. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. refinamento pessoal. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. Os dois planos de estudo. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 . andam muitas vezes separados. crenças e em tantos outros aspectos. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. culturas particulares.

uma dimensão totalizadora. Assim. tecnologia. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. religião. que permitem. Ou seja. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. através de palavras. esportes e jogos. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. Não é de se estranhar. Em primeiro lugar. em cada produto cultural. idéias. Assim. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. Isso pode atrapalhá-los. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. De fato. Assim. que uma idéia expresse um acontecimento. Não se entusiasmem muito. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. práticas costumeiras e rituais. De fato. por exemplo. ou seja. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. que as informações sejam processadas. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. ela foi transformada. ciência. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. Na verdade. descreva um sentimento ou uma paisagem. pois. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. teorias.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. sobre outras sociedades. em cada elemento da cultura. com os exemplos acima. como é o caso de sua arte. política. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. a dimensão não-material. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. Vejamos por quê. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. doutrinas. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. porém. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. Há diferenças de renda. de limites imprecisos e características variadas. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. mais complexa. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. no entanto. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. centros de lazer. Além do mais. de estilos de vida. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura.fábricas. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. Nesses recortes da realidade social comum. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. contudo. É que. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. A diferenciação é. as quais são rotuladas de classes médias. ou alimentares. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. Da mesma forma. ou segundo as práticas médicas. a partir do exposto acima. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. na organização da vida familiar. bancos. ou então dos comerciários. fazendas. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. jovens e velhos. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. ao estudarmos cultura no Brasil. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. Algumas preocupações são. dos bancários. das mulheres de classe média. hospital. Se a cultura é dimensão do processo social. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. ou da vizinhança. na cultura dos jovens. crianças. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. A lista não teria fim. dos católicos. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . Assim. de acesso às instituições públicas tais como escola. por exemplo. ou da amizade. empresas em geral.

atrasado. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. uma realidade que não depende de formas externas. manifestações diferentes da cultura dominante. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. superado. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. as academias. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. Entende-se. a ampliação de seus domínios como. que existem independentemente delas. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. Da mesma forma. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. que estão fora de suas instituições. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. Nesse sentido. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. expresso pela filosofia. ainda 46 . Por um lado porque. que desenvolve a concepção de cultura popular. as implicações políticas que possam ter. tais como a universidade. De fato. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. a cultura popular. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. Assim. na formação de seu próprio universo de legitimidade. por exemplo. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. as ordens profissionais (de médicos. participante de suas instituições dominantes. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. então. advogados. procurando entender a sua lógica interna. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. um conhecimento que se supunha inferior. à alta cultura. principalmente. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. buscando o que há de específico nelas. mesmo sendo suas contemporâneas. sua dinâmica e. Para ser pensada assim. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. engenheiros e outras).

e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. Quando se procura estudar a cultura popular. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. E. o que mina na base aquela polarização. de esboçar com clareza. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. das ciências físicas e biológicas.que se opondo a elas. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. outrora restrito a setores das classes dominantes. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. por exemplo. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. literatura. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. Surgem associadas ao 47 . para a literatura. com modos de interpretar a comida. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. Parecem. Ela se sustenta em bases frágeis. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. Ela cria problemas falsos. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. e se esvazia em confronto com a realidade social. seus limites se perdem na complexidade da vida social. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. De fato. dominante. da matemática. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. tende a se generalizar. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. para a religião. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. Assim. Assim. Criam-se assim modelos de religião. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. o domínio da escrita e da leitura. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. no entanto. Isso vale para a medicina. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. para a música. medicinas populares. fundamentalmente. um popular intocado e definitivamente original. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. não são homogêneas nas classes oprimidas. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura.

Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. hospitalar. Da mesma forma. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. por exemplo. é um produto dessa história coletiva.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. tornando-se um legado de toda a população. o sistema escolar. o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. generalizadas e reconhecidas. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. E se a educação. hospitalar e jurídico. as instituições dominantes de origem européia. e introduzidos pelas elites. toda a produção cultural. seja na sua organização. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar. uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. como a umbanda e o candomblé. como as citadas anteriormente. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. Apesar de sua origem. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. do qual não detêm o controle. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. a 48 . e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. e a justiça . Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. De fato. transformaram-se com o processo de transformação do país. a saúde. estes de origem européia. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. seja na sua prática. Assim. é o resultado dessa existência comum. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. A produção cultural. partilham um processo social comum. próprias.

à habitação etc. por exemplo. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. mas nem sempre é esse o caso. à qual a expressão faz menção. Ao contrário. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. Em certo sentido. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. Assim. em outro. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. conseguiram acesso à escolarização. A categoria povo. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural. isso sim. procurar localizar características da cultura operária. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. como toda a população trabalhadora.justiça não atendem aos interesses de toda a população. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . Falar. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. que seja característico dela. que seja mesmo um patrimônio seu. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. Assim. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. São populações bem diversas. em outro. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. Para tentar reter o que é popular na cultura. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. ainda. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. as características sociais básicas da sociedade. como a população mais pobre. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. isso não se deve à sua origem. como se vê. levando aquela polarização ao limite. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. nós estaríamos enfatizando. É preciso assinalar. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. nunca entendimento da vida social. porém. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. à saúde pública. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. Isso produziria apenas confusão. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte.

as relações que definem essa existência. Ela é produto dessa sociedade. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. De qualquer modo. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. não é um espelho amorfo. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. As próprias classes sociais. têm contornos imprecisos na prática. demonstram grande variação interna. procurando a expressão cultural deles. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. fazê-las produzir. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. quanto porque está ligada à transformação destas. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. Elas também têm sua dinâmica própria. A cultura é criativa. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. mas também ajuda a produzi-la. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. por essas 50 . que seja homogêneo para toda uma classe social. entender como se realiza a desigualdade social. como já disse. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. Assim. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. definitivo.valorizar esse patrimônio. como se dá o exercício do poder na sociedade. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo.

É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções.razões. de arrumar a casa. No entanto. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. de pensar. Ela seria uma característica vital deste século. modos de organizar a vida cotidiana. Eles também difundem maneiras de se comportar. a indústria cultural. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. com inversões de capital. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. Assim. a televisão. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. o controle das massas. Tais instrumentos seriam. de lutar. recrutamento de mão-de-obra especializada. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. no lazer. a imprensa e o cinema. essas sociedades industriais têm 51 . com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. de se vestir. principalmente. Além do mais. Do mesmo modo. Eles penetram em todas as esferas da vida social. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. é o amaciamento dos conflitos sociais. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. desenvolvimento de novas técnicas. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. não só apregoam mensagens. São meios de comunicação poderosos. ainda que muito forte. o rádio. centrada nesses meios de comunicação de massa. de sonhar. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. nas atividades religiosas. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. O ritmo acelerado de produção e consumo. Examinemos um pouco essas questões. o controle sobre as mensagens transmitidas. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. maneiras de falar e de escrever. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. propõem estilos de vida. Da mesma forma. não é absoluto. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. produção de bens e serviços. niveladora. Por todas essas razões. de sofrer. na educação. Essa cultura homogeneizadora. na participação política. Assim. na vida profissional. Não há dúvida de que a indústria da cultura. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. no meio urbano ou rural. de amar.

a Rússia. as tradições de um povo. As mensagens da indústria cultural. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. em seus modos de agir. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. Ela é. já falamos disso exemplificando com a Alemanha.mudado. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. sem levar em consideração a ambas. códigos de ação. mas não se pode dizer que prescinda delas. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. que as possa ignorar. em seus planos de vida. conseqüência das formas como a nação se produziu. como uma dimensão da sociedade e de sua história. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. É uma realidade histórica. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. também sofrem alterações constantes. os países das Américas. 52 . projetos de desenvolvimento. dessa maneira. Se não fizermos isso. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. resultado e aspecto de um processo histórico particular. Nesse sentido. corremos o risco de nos enganarmos. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. A cultura nacional é. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. mais do que a língua. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. portanto. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. os quais de resto são também dinâmicos. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. Antes. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. com propósitos de homogeneização e controle das populações. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. Mesmo assim. os costumes. elementos que não são absolutos. mas não são a cultura dessa sociedade.

portanto. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos.Pode-se. ser uma maneira de tentar alterá-la. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. apesar de sua presença maciça na população durante séculos. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. Seja 53 . As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. uma dimensão dinâmica e viva. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. da mesma forma. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. sujeitas a transformação. então. Mas. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. importante nos processos internos dessa sociedade. por exemplo. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. para definir os aspectos que a fazem única. de mudar seu desenvolvimento. importante para entender as relações internacionais. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. sempre valorativas. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. assim. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. de uma hierarquia entre eles. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. ao menos provisoriamente. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. Discutir sobre a cultura comum pode. Vejam. No entanto. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. desigual. para delinear suas características. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. pois. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios.

Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. Assim. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. resultado de um século de existência no país. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. Voltemos a eles. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. Assim. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. diferentemente de outros países. das instituições existentes e de sua dinâmica. por exemplo. de caridade. nas universidades e centros de pesquisa. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade. 54 . pois. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. instituições se relacionam. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. matéria de produção. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. de decisões tomadas no passado. Assim. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. Ao pensarmos sobre cultura. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. de ensino. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. e que derivam da história de cada sociedade particular. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. as maneiras como seus setores. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. formas. suas concepções. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. o conhecimento em geral. produtos. técnicas. por exemplo. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. como vimos ao longo desta parte. Há aspectos importantes. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. É enganoso. Nesse período.como for. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima.

Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. Além disso. ela deve ser por isso jogada fora. como dimensão do processo social. por exemplo. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . Mas é ingênuo pensar que. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. E também porque. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. Há outras maneiras de estudar a cultura. O que interessa é que a sociedade se democratize. por exemplo. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. tem sua dinâmica. Podemos. de atendimento à doença. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. é claro. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. econômica e cultural seja eliminada. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural.editoriais e outras. e que a opressão política. como. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. outros recortes a fazer. as mensagens políticas que contêm. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. as concepções nela presentes. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. Por tudo isso. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. outras ênfases a dar. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. categorias de pessoas. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. por exemplo. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. aos menores abandonados. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. à experiência histórica. mas também com os sistemas públicos de educação. de grupos. A discussão de cultura sempre remete ao processo.

que rompia com o domínio da interpretação religiosa. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. procuram defini-la. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. entendê-la. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. Também os aspectos da história comum 56 . É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. Da mesma forma. da mesma forma.social. Como vocês podem ver. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. o analfabetismo. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. Há instituições públicas encarregadas disso. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. Por outro lado. controlá-la. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. como no caso da oposição entre erudito e popular. de características acabadas. fazem parte da própria organização social. Assim. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. agir sobre seu desenvolvimento. Expressam seus conflitos e interesses. com empresas diretamente voltadas para ela. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. Cultura e equívoco Com tudo isso. como. por exemplo. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. a cultura é uma esfera de atuação econômica. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura.

mas sim que são históricas e sujeitas a transformação.de um povo podem ser selecionados e valorizados. Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. 57 . São lutas pela transformação da cultura. desigualdades no plano cultural. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. E como conseqüência disso. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. É uma relação pequena. Retomamos. pois podemos concluí-lo. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. apropriação. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. É importante insistir. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. Assim. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. a compreensão de que suas características não são absolutas. assim. cultura é o legado comum de toda a humanidade. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. os temas com que iniciamos este trabalho. no entanto. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. Quanto à cultura nacional. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. de Antônio Augusto Arantes Neto. Há aí controle. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. não respondem a exigências naturais. É bom que seja dessa forma.

Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. Dirigido ao público universitário. Editora Ática. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. Zahar Editores. de Peter Fry. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. arte e educação. e outra. de Dante Moreira Leite. de Florestan Fernandes. O Caráter Nacional Brasileiro. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. Os Brasileiros: 1. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. O Negro no Mundo dos Brancos. seu povo e cultura. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. Editora Tempo Brasileiro.O que é ideologia. Zahar Editores. Interpretação abrangente da formação do país. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. Os textos têm linguagem acessível. reunindo escritos de épocas diferentes. preocupados com identidade e política. política internacional. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. Carnavais. de Darcy Ribeiro. Os textos têm graus variados de complexidade. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. Para Inglês Ver. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. 58 . de leitura mais acessível. A Cultura do Povo. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. de CIaude Lévi-Strauss. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". de Marilena Chauí. Editora Pioneira. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. Cortez e Moraes Editores. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. Mariátegui. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. Difusão Européia do Livro. São textos no geral claros e de fácil leitura. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. de Roberto da Matta. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. política americana. Teoria do Brasil. Malandros e Heróis. cultura de classes e suas relações. Dirigido a um público amplo. Editora Vozes.

esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. no caso do antropólogo. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. que se ajustar. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. tendo. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. conforme disse Malinowski. ele costuma fugir e. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. começou a abandonar a postura evolucionista. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. às vezes. para Malinowski. tais como: “Entre os brobdignacianos. como o laboratório do antropólogo social. “Na antiga Caledônia. tudo isso em condições específicas. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . Em outras palavras. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. no limiar do século XX. Tal mudança de atitude. Deste modo. isso não poderia ocorrer. O controle da experiência. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. rituais exóticos e “costumes irracionais”. Assim. ainda. a Antropologia Social não poderia. o etnólogo o experimentava de modo diverso. transformou nossa ciência. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. portanto. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. Freqüentemente. o urso o persegue”. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. ou. portanto. na sua observação participante. não somente a novos valores e ideologias.

tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. gente do porte de Franz Boas. articulações e valores. teorizar. ridículos”. entretanto. com sorte. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. porém. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. Essa sábia reflexão de Malinowski. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. sobretudo. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. reflexões. logo a seguir: “Há. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo.garrafa de uísque pela estrada. gestos. como disse Malinowski. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. sobretudo em outra sociedade. discernir e. Deste modo. 1978: 22). um conjunto coerente de vozes. Evans-Pritchard. basicamente. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. isto é. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. traduz a essência da perspectiva antropológica. um conjunto coerente em si mesmo. em qualquer ponto do planeta. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. bebe tudo de um só gole. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. teórico ou filosófico. de 60 . o que. o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. Ou seja. Como diz o mesmo Malinowski. Trata-se. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. 1976: 374). É. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. como um autêntico ponto de vista. Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. com qualquer tipo de tecnologia. onde a idéia de classificar e. seja do ponto de vista pessoal. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. como vimos. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. permite localizar.

“ideologias” etc. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. seja porque as novas descobertas. Ou melhor. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. “classes sociais”. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. seitas. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. a meu ver. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. classe social ou sociedade. sejam elas as dos cronistas. como também o ponto de vista daquele grupo. até as mais “complicadas”. “comunidades”. definindo (ou melhor. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. De fato. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. neste contexto. o seu próprio “repensar a antropologia”. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. na geração seguinte. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. “favelas”. inclusive da nossa própria cultura. E isso pode provocar novas revelações teóricas. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. quando há uma intervenção das igrejas. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. dos viajantes. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. Assim. sacerdotes e sacrifícios.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. “mitos”. que eles podem falar de “suas tribos”. segmento. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. Durkheim. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. portanto. Isso porque. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. a escola de Durkheim situa a 61 . bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. Assim. Seja porque a definição anterior era por demais estreita.

que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. Mas. Será. deixou de submeter à sua pressão modificadora. um idioma. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. assim. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. de “sincronia”. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. 62 . muito importante constatar como a Antropologia Social. pela qual o fenômeno humano é estudado. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. como queria Morgan e seus contemporâneos. não obstante. Em parte. e não parcelas de relações que o tempo. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. saudável e tradicional base pluralista. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). por algum capricho. pois. moral ou filosófica preestabelecida. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. Assim. culturas e civilizações. de “estrutura”. É. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. De fato. A história. de “funcionalidade”. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. pois. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. portanto. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. para utilizar a noção de “sistema”.

se há material político.desconhece. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. se existem fatos econômicos. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. estudando-o por todos os meios disponíveis. as experiências humanas. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. 63 . Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. isso também entra na reflexão. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. Mas tudo isso. da Ciência Política e da Economia. qual a racionalidade dos grupos tribais. Se existem fatos históricos. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. problemas e paradoxos. da Geografia Humana. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. da História. então. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. enfim. Diferentemente. eles são usados. qualquer que seja a sua aparência. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. enquanto antropólogo. com a grande tradição democrática. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. É. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. da Psicologia. portanto. Ou seja. ele não fica de fora. descobrir. para um diálogo fecundo. na postura às vezes difícil de ser entendida. Em tudo. da Sociologia.sobretudo pela prática de viagens. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. convém sempre acentuar. mas muito próxima da Lingüística. como pensam os “primitivos”. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente .

Essa apreensão da sociedade. o observador deve ficar com a última palavra. que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. Quanto a isso. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. Para compreender o candomblé. se procura. Recolhe e analisa os testemunhos. o indígena”. na qual. Nunca encontra testemunhas vivas. escreve Roger Bastide. proclame que. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. de fato. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. de quem se considera um “aluno”. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. a cipós vivos”.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. de suas angústias. “contra o teórico. e algo frio. de seus ideais. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. através de um método estritamente indutivo. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). O historiador. a sociedade tem preocupações religiosas. Assim. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. Pois a etnografia. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. Não se pode. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. isto é. por exemplo. 64 . como o antropólogo. e “desencarnado”. e contra o observador. é significativo que Lévi-Strauss. pelo menos em suas principais tendências clássicas. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. uma grande quantidade de informações. mais ainda. o autor da Antropologia Estrutural. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. análoga a organizações vegetais. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. de fato. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. Quanto à prática da Sociologia. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. Se.

Não nos enganemos. ser o caso do antropólogo. anotado. As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. isto é. de condições necessárias. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. Com a diferença. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas). constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. De outro. os processos cognitivos e afetivos. tem algo de errante. c) O antropólogo evita. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência. os erros cometidos no campo. bem como a utilização de protocolos rígidos. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. vivido.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. as ciências econômicas. não apenas por temperamento. demográfica. é claro. artificialmente isolados em relação à 65 . o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. tudo deve ser observado. se tornar um especialista. pelo contrário. é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. um outro: o sistema de produção e troca de bens. de fato. O antropólogo não pode. os sistemas de crenças. Objetar-se-á que pode. porém. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta.. as ciências jurídicas.. Trata-se. as ciências psicológicas. político.. De um lado. porém. isto é. Como escreve Mauss (1960). uma programação estrita de sua pesquisa. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal. cultural. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. um perito de uma área particular (econômica. No campo. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. porém. As tentativas abordadas. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. as ciências religiosas. o evento que ocorre quando não esperávamos. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. social. psicológico. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. quanto às virtudes do campo. etc. jurídica.). A busca etnográfica. isto é. o direito. de que este se esforça. de estar atenta para que nada lhe seja escapado. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista..

nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social. consumidor. cidadão. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente. a partir de um fenômeno concreto singular. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano. a ciência e a filosofia. ser o especialista em uma única área. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. o alcoolismo. o projeto que foi o da filosofia clássica. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. de fazer surgir um questionamento mútuo.. 2) tentar. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. o marxismo e a Antropologia. é claro. antagonistas da reflexão. paradoxalmente. É a razão pela qual somos provavelmente. de maneira pragmática. de fato. por exemplo. A prática da Antropologia. como mostrou Husserl.. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. 66 . mas que corre o risco de cair no vazio. das condutas suicidas. toda prática hiperespecializada. e. O projeto antropológico retoma hoje. o divórcio. apenas três formas de pensamento são. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. Pessoalmente. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. enquanto antropólogos. mas a observação direta de suas produções concretas). no horizonte científico contemporâneo. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. de fato. do esporte. O parcelamento disciplinar comporta. A meu ver. em primeiro lugar. mais tocados do que outros. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço).. no mundo contemporâneo. mas pouco reflexiva. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. parente..totalidade do social. Se olharmos mais de perto. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. Assim. o que nos levaria à posição de. A própria Antropologia.. a ciência e a religião. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral).. e uma cientificidade extremamente positiva. por mais aperfeiçoados que sejam. Como escreve Lévi-Strauss. a criminalidade. para além de todos mos questionários. supõe também. capazes de responder a essa definição: islamismo. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano.

lidos depois do jantar. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora.LAPLANTINE. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. talvez ainda sem tê-lo visto. 67 . PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. E não era mesmo com ele. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. Era o sambista seu amigo. a) Identifique o estado anterior e o posterior. São Paulo: Brasiliense. com o gringo ali a seu lado. chegara a passar fome. jornalistas. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. que não era com ele. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. um bom sujeito. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. De repente. vale dizer. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. vendo o preto aproximar-se. haveria de compreender. Aprender Antropologia. todo branco e sardento. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. Era seu amigo. Porque antes de cumprimentá-lo. Sendo assim. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. ao americano. mas. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. velho companheiro. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. e sem credores à porta. 1996. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. Por via das dúvidas. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. já distraído dos seus passados tropeços. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto.

uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro. a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação. 68 . já esquecido dos dias de desempregado. Parágrafo). a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. o personagem central sente-se ameaçado. do texto. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o.b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central.

existe sempre um posicionamento crítico do narrador. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 . o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. Com base no sentido global dessa narrativa. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. por detrás dos fatos narrados. Se soubesse desse desfecho. d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes.7 – O desfecho da narrativa é inesperado.

...... Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João.. Do povo oprimido nas filas Nas vilas. Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.De tuas meninas.. favelas Da força da grana que ergue 70 . E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso. mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes.

Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa..E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva... 71 ..

Grosso modo. nossos modelos. nossas definições do que é a existência. mora no mesmo estilo. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. enfim. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. da sua visão a única possível ou. veste igual.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. as formas. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. dentre os fatos humanos. a vida deles não presta. pois. mais discretamente se for o caso. é selvagem. ainda que diferente. Aí. às vezes. conhecemos um grupo do “eu”. este “outro” também sobrevive à sua maneira. empresta à vida significados em comum e procede. Assim. de repente. Talvez o etnocentrismo seja. O grupo do 72 . acredita nos mesmos deuses. nos deparamos com um “outro”. casa igual. bárbara. os caminhos e razões. talvez. por muitas maneiras. No etnocentrismo. no plano afetivo. etc. então. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. De um lado. também está no mundo e. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. que come igual. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. a superior. a certa. a melhor. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. também exista. então. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. o grupo do “diferente” que. distribui o poder da mesma forma. o “nosso” grupo. semelhantemente. hostilidade. medo. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. pensamentos. No plano intelectual. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. como sentimentos de estranheza. na constatação das diferenças. gosta dela. gosta de coisas parecidas. pois. E. O monólogo etnocêntrico pode. um mal-entendido sociológico. um daqueles de mais unanimidade. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. conhece problemas do mesmo tipo. mais grave ainda. a natural.

Tempos depois. de alguma maneira. da selva que lembra. Dias depois. infalível. do barulhento. O que importa realmente. pentes. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. após alguns meses. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. ainda por cima. anormal ou ininteligível. de uma única sociedade. o trabalho. De qualquer forma. apesar de que. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. espelhos. por um lado. etc. estes somos nós. é o fato de que. muito feliz. absurdo. meio sem jeito e a contragosto. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. como sendo engraçado. a sociedade do “eu” é a melhor. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. a vida animal. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Ao chegar. agora mínimo e sem nenhuma função. por vir. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. É o espaço da natureza. São os selvagens. Forase o relógio. Existe realmente. como já disse. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. O barbarismo evoca a confusão. seu trabalho. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. a desarticulação. chamam. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. vencido por insistentes pedidos. ao jovem índio. muito simplesmente.. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. O selvagem é o que vem da floresta. por vezes. o progresso. nunca o “igual” ao “eu”. pois. no etnocentrismo. na nossa. Um dia. fazer contas. Quase indistinguível em meio às penas e contas e.“outro” fica. o índio fez o pastor divisar. neste conjunto de idéias. A surpresa maior estava. venceu as burocracias inevitáveis e. por fim. alarmes. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. pendurado a vários metros de altura. O etnocentrismo não é propriedade. ao estrangeiro. É onde existe o saber. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. não sem dificuldade. nessa lógica. porém. “excelentes” ou. especialmente. a superior. comprou para os selvagens contas. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. “ser humano” e ao “outro”. o relógio. A sociedade do “outro” é atrasada. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. São qualquer coisa menos humanos. Muito generoso. No limite. a desordem. 73 . marcar segundos. os bárbaros. modesto. A atitude etnocêntrica tem. o pastor perdeu seu relógio dando-o.

Como já vimos. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. trazia-lhe estranhas lembranças. Privilegiaram ambos as funções estéticas. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. porém. tanto aqui como em vários outros lugares. se isso fosse possível. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. Em segundo lugar. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. porque somos os autores destes filmes e livros. naquela manhã. No mais das vezes. e até uma flauta formavam uma bela decoração. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. Assim. na matança dos índios). Em primeiro lugar. Em terceiro lugar. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. Esta estória. flechas. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. Isso lembra o comentário. decorativas de objetos que. Levantou-se. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. da qual falamos na nossa sociedade. de um etnocentrismo “cordial”. um famoso cientista do início do século vinte. Era hora de ir.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. os personagens de cada uma delas fizeram. por exemplo. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. aliás. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. infinitas vezes. de uma criança de um grande centro urbano que. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. deu uma olhada no relógio novo. Também. seja em casa. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. diretor do Museu Paulista. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. tristemente exemplar. pode colocá-lo como “primitivo”. Tanto no presente como no passado. seja nos livros didáticos. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. cocares. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. não necessariamente verdadeira. inteligente e 74 . muito comum e de uso geral no etnocídio. na cultura do “outro”. neste choque de culturas. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. a lógica do extermínio regulou. ornamentais. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. a mesma coisa. Nelas. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Hermann von Ihering. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. esta estória representa o que se poderia chamar. quinze para as dez. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. bordunas. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. seja na indústria cultural. são apenas uma representação. de toda evidência. como “algo a ser destruído”. obviamente. Para o pastor. bastante plausível. arcos. tacapes.

existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. Nesse sentido. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. como o marciano não diz nada. na verdade. sinal de saúde mental. A figura do louco. no mínimo. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. muito pelo contrário. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. esta recusa é. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. na nossa sociedade. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. determinados estereótipos. Os estudantes são testados. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. pois são lidos e. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. por exemplo. mas também em diferentes contextos no presente. há alguns anos. que se recuse a trabalhar como escravo. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. num corpo. em face do seu conteúdo. Isto não só ao longo da história. Os livros didáticos. Eu mesmo realizei. Ora. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. de um ponto de vista do grupo do “eu”. carregam um valor de autoridade. Este “escândalo” esconde. posso pensar dele o que quiser. mais ainda. um ovo ou uma pessoa. A estória do nosso 75 . Claro. “sério” e “científico”. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. numa lavoura que não é a sua. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. Aliás. ela deve mostrar e esconder. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. Assim. em outros. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. que são permanentemente aplicados a estes índios. via de regra. Na nossa chamada “civilização ocidental”.

. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. Assim são as sutilezas. Relativizar é não 76 . para o livro didático. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. Assim. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. certo tipo de cinema. os “negros”. como o “outro” é alguém calado. estamos relativizando. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. “primitivo”. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. cheio de “amor à liberdade”. as “dondocas”. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. jornais. num passe de mágica etnocêntrica. os “doidões”. Da mesma maneira. estamos relativizando. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. etc. mera imagem sem voz.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. “inocente”. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. vira “corajoso”. revistas. persistências do que chamamos etnocentrismo. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. o índio é. manipulado de acordo com desejos ideológicos. capaz de ter um fim ou uma transformação. por oposição. os “paraíbas de obras”. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. são uma espécie de “conhecimento”. “pré-histórico”. os “vagabundos”. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. “infantil”. etc. “altivo”. muitas vezes. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. os “empregados”. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. Mas. os “surfistas”. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. um “saber”. “antropófago”. os “caretas”. publicidade. É no capítulo “Etnia brasileira”. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. ele aparece como “selvagem”. os “colunáveis”. Nele o papel do índio é o de “criança”. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. Enfim. violências. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. Em outras palavras. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. O terceiro papel é muito engraçado. os “velhos”. estamos relativizando. a quem não é permitido dizer de si mesmo. Uma das mais importantes é a da relativização. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. mas no contexto em que acontece. “almas virgens”. baseado em formulações ideológicas. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. Ali. A “indústria cultural” – TV.

uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. Acredito até que. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. em superiores e inferiores ou em bem e mal. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. XVI e XVII com suas navegações. há alguns séculos. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. A diferença das escolhas humanas se fixa. O percurso que. De fato. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. expedições. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. Esta ciência chama-se Antropologia Social. espantos. se quisermos. colonizações. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. aqui e pelo mundo afora. É um momento básico de encontro com o “outro”. nasceu marcada pelo etnocentrismo. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. com maior ou menor grau de dificuldade. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. compenetrado e falante.transformar a diferença em hierarquia. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. mas com a alternativa. a diferença não se equaciona com a ameaça. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. Antes. ser observado a partir de vários ângulos. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. construindo um conhecimento ou. porém. Ela não é uma hostilidade do “outro”. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. Diferentemente do saber de “senso comum”. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. monstros. num certo nível. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. Mesmo com as novas 77 . agora. alucinações. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. no plano da sociedade mais geral. Buracos sem fundo. no mínimo. na Antropologia. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. Ela. serpentes. A nossa sociedade já vem. gostaria. sacações e aberturas. Assim. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. Assim. no conhecimento antropológico.Trata-se dos séculos XV. O mestre.

cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. O mundo do “eu” se via obrigado. e que procuram explicar a diferença. discute-se e especula-se.tecnologias. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. Que costumes. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. a cada vez. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. pouco a pouco. pouco a pouco.”. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. Muita violência. que era preciso. à outra a própria natureza humana. vão assumindo novas formas. um conjunto radical de novas questões. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. E é esta perplexidade que vai. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . Ninguém entendia nada. T. se não por todos. nos centros avançados de estudo. (que aí já não era mais preciso!).. o risco era imenso. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. que lei. um esforço de compreensão da diferença. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. interesses. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. sempre mais matizados. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. para o pensamento ocidental. paradoxos. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. ele foi sendo superado. ao menos dentro da Antropologia. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. freqüentemente. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. a pensar a diferença. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. procurando compreender as diferenças que. é conhecido como Evolucionismo. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. Destes encontros. frente ao “outro”. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. nascia ali. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. mesmo sem viver. num certo sentido. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. Assim. As novas técnicas empolgavam os alunos.

o que é. no nível biológico do desenvolvimento. nos séculos XV e XVI. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . no seu sentido mais amplo. avanço no tempo. Assim. E foi toda uma geração de antropólogos que. evolução. encontra. Tudo isso forma um campo intelectual. O homem a caminho. A lógica do raciocínio é simples. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. Progresso. exatamente. por sua vez. Mas. sua potencialidade. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. biológica de evolução. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. sua formulação clássica. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. então. de Darwin. O resultado disso. Para o evolucionismo antropológico. mais e mais absoluta em suas conquistas. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. nos Estados Unidos. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. equivale a desenvolvimento. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. nos séculos XVIII e XIX. evolução? Evolução. Mas. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. a noção de progresso torna-se fundamental. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. em outras palavras. Assim.teoria antropológica e. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. quase que como uma âncora. vai ser a permanência do etnocentrismo. por exemplo. Explicando melhor. então. na história dos saberes sobre o ser humano. uma segunda forma. um espaço correto para um tipo de pensamento que. Evolução. começou a produzir seus estudos. em plena metade do século XIX. tem um lugar de destaque. na direção do progresso. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. a Inglaterra do século XIX era. contemporânea dos aborígenes australianos. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. Lewis Morgan -. é claro. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. pelo processo evolutivo. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. mostrando. a esta noção orgânica. de fato. se transforma numa terceira e assim sucessivamente.

“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. o século XIX. mais cedo ou mais tarde. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. moral. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. postulavam uma permanência. dentro da cultura. diz o seguinte: “Cultura ou civilização. no entanto. logo na primeira página. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. por exemplo. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. Se pensarmos nesta definição. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. Faz-se. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. Que. O que e Arte? Lei? Moral?. em certas sociedades. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. no mínimo um clássico. Aqui. etc. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. estas idéias eram nítidas e claras. Para os evolucionistas. o mais famoso da Antropologia e. então. para eles. arte. a melhor por definição. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Sabemos que são relativos. unitários. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. no seu sentido etnográfico estrito. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . talvez. restava ainda um problema teórico. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. é este todo complexo que inclui conhecimento. em toda parte os mesmos. que formam um “todo complexo”. Mas. que em plena época da rainha Vitória. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. Este conceito é. Ainda mais. Também transparece uma espécie de princípio geral. separados. leis. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. uma lei. Sim. tendo aceitação. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. a era vitoriana. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. porque se compararmos Brasil. podese dizer que é. crença.

Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. temos dois marcos básicos. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. Dessa forma. barbárie e civilização. pouco a pouco. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. por via do progresso. No extremo inferior. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. qualquer “trabalho de campo”. por trás do ser “civilizado”. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução.. Estudando invenções. encontramos ainda. “família”. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. o espanto. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. etc. De fato. evidentemente. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. a visão caótica do “outro”. ele nunca achou o cavalo. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. “religião”. os povos primitivos e no extremo superior. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”. A relativização não tinha espaço. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. Ou. fortemente entrincheirada. a visão etnocêntrica. como eu faria isto ou aquilo?”. a hipótese que coloco aqui é simples. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. paradoxalmente. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. Este espírito teria. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. Diz uma anedota que Sir James Frazer. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. pois que tudo já estava pronto.. “arquitetura”. chegando ao pólo “civilizado”. os povos ditos “civilizados”. a falta ou excesso de 81 . importante antropólogo da época. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que.. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças.. pelo menos.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. “meios de subsistência”. para onde teria ido?” Claro. o medo oculto. Dessa maneira. Para Morgan. “propriedade”.. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. aqui no evolucionismo. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução. Mas. descobertas e instituições. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”.

Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. mas muito mais mesmo. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. mais sabemos o quanto falta saber. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. apresentam diferenças e. num primeiro momento. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. Todos os três. já apresenta alguma diferença. me parece que nesse sentido o evolucionismo. Entretanto. já traz em si alguma semente de relativização. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. cenários. mas nem “deus” nem “diabo”. mas pode-se ver qual se distancia mais.significações do “outro”. interessantes. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. num resumo. multiplicando muito. seu campo de estudos. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. para o crescimento. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. complexos do que isto. enredo. Sabemos que ambos não são bons. Menos evoluído. controvertidas.] Assim. entre si. Todos eles tinham personalidades peculiares. exatamente. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. juntamente com Boas. Durkheim. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. A magia. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. para a maturidade e complexidade da disciplina e. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. neste processo. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. Tanto aqui. Malinowski. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. É certo que a escolha. 82 . por assim dizer. Se o “eu” negava. Neste processo. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. Agora. o que nos interessa mais de perto. relativizando: é claro que a época do novo mundo. É o que veremos a seguir. um “outro” tão humano quanto o “eu”. que foram os séculos XV. vê-lo como atrasado e primitivo. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. E vai ser. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. a sua maneira. Cada um. VOANDO ALTO Diferentes atores. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. e muito. contribuiu. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui.

que a hipótese evolucionista criava. bispos. estaríamos analisando sincronicamente. duas seriam as ações possíveis dessa partida. etc. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. dessa maneira. cada uma a sua maneira. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. Para estes dois movimentos. de cada cultura particular. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. diferentemente. desde o primeiro até o vigésimo. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. Em termos mais técnicos. os processos próprios de mudança. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. Passando para a análise das culturas humanas. uma idêntica concepção da natureza da história. no entanto. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. É uma história com “h” minúsculo. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. via de regra. Mais 83 . efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. aí. Não se pode dizer. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. das posições das peças no vigésimo movimento. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. por eles. Como se. Se. nos dois movimentos. dos valores atuais dos peões. A sincronia. faríamos uma análise diacrônica. específica. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. estabelece seu conhecimento do vigésimo. que a existência de uma preocupação com a história indicasse.. O longo caminho da história. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. Por outro lado. que era o do “progresso”. se interessa pelas posições. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. no entanto. a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . era uma única para toda a humanidade. A história. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental.história. de Adão e Eva ao Juízo Final. torres. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. por seu turno. demonstravam a permanência de um tema. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. forças e significados internos a este movimento. o da “evolução”. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. todos caminhassem num mesmo sentido. troca e empréstimo que as caracterizavam.

Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. radcliffe-Brown. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. ao certo. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. A nossa sociedade. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. seja ele difusionista ou evolucionista. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. Assim. A realidade concreta a ser estudada. A Antropologia. com seu corte teórico. ao menos. nem entre estes e o evolucionismo. para o historicista. por mais míope que seja. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. mais complexa. Em primeiro lugar. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. mais relativa. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. inexoravelmente. a discussão realmente importante. antes de tudo. histórico. O verdadeiro ponto de ruptura. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. neste sentido. Sim. Para ele.simplesmente. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. Nesta linha. como no evolucionismo. se obriga. como já disse. é importante que se saiba o que. a história conjetural. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. de ter na hierarquia sua regra número um. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. a sociedade do “eu”. definitivamente. especulativa. Para ele. da “diferença”. que nem sempre poderá ser lá encontrada. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. E. o estudioso. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. Ao fazer esta opção. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. veremos que a preocupação com a história é. o que a levava. descrita. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. para fora do etnocentrismo. O funcionalismo. dá outras dimensões à Antropologia. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. É o caso de noções como “processo”. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . Com isso. Com isso. não concordou Radcliffe-Brown. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. observada. agora. e uma preocupação com ele. feito de acontecimentos sucessivos. se constituía no objeto antropológico por excelência. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. “estrutura” e “função”. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. se pensarmos bem.

outras “funções” cruciais. Nela. recorrente. mas. como um organismo complexo que é. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. Comparava o sistema social ao corpo humano. por sua vez. por exemplo. onde outras instituições terão. termina o processo vital e a estrutura orgânica. me parece. atacada numa função básica. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. Este organismo. enquanto estrutura viva. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. A sociedade não morreria. das ações. sutis. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. também desaparece. Uma de tais analogias. Mas. o processo vital. Por outro lado. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. procuro apenas demonstrar que. muito mais complexas. podemos perceber a existência de formas regulares. Se estas funções forem suprimidas. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. repetitivas. conseqüentemente teve de procurar. etc. na produção teórica. a sociedade se transformará numa outra diferente. aqui. ao colocar novas questões em jogo. o coração. A vida caracteriza um constante processo.permanente. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. 85 . mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. É nesse quadro. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. pagou o preço de uma forte relativização. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. Espero que ele me perdoe. novos instrumentos para pensá-las. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. tecidos. Na sociedade. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. E. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. Isto significou que. tão a seu gosto. Transportava termos da Ciências Naturais e. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. Se parar de executá-lo. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. Este. por analogia. por exemplo – aponte uma outra dimensão. Assim. a da “estrutura social”. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. os aplicava ao estudo da sociedade humana. fluidos. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. possui uma estrutura composta de ossos. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. histórico. além de mais amplas. Dentro desse “processo social”. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. é um processo: o “processo social”. por seu turno.

vou utilizar o próprio Durkheim que. tem de viajar. Contando. 86 . no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. um tema aparece e se repete. por períodos significativos de tempo. no sentido de sua concretude que independe da natureza. Explicando melhor. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. apresentando uma existência própria. na questão do etnocentrismo e de sua superação. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. livre para estudar a sincronia. Antes. na sincronia. Os fatos sociais são externos. experimentando-se a si próprio como diferente. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. Conhecer a diferença. O antropólogo. autônomos. então. fixa ou não. e não menos importante para a autonomia antropológica. vai ser desatado por Émile Durkheim. obrigado aos estudos sincrônicos. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. mas seus projetos tinham rumos diversos. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. principalmente. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. São “coisas” porque autônomos. E. independente do indivíduo. São “coisas”. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. Um outro nó. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. Neste sentido. que independe do indivíduo. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. assim. o complexo pelo simples. o superior pelo inferior. por estar. com instrumentos teóricos que eram criados. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. que é geral na extensão de uma sociedade dada. Tem de ir morar. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. independente das manifestações individuais que possa ter”. mas também se afirma como entidade autônoma. experimentar a existência junto ao “outro”. ou então ainda. A Antropologia. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo.produzido na sociedade do “eu”. Com isto. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. para a Antropologia e para o processo de relativização. em diferentes momentos e de várias formas. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. principalmente. um outro lado do laço. intitulado “Que é Fato Social”. Qualquer estudante da vasta. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”.

de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. A “diferença” cara a cara.Acompanhando esta definição. o fato social pressiona o indivíduo. a ser traçado. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. um longo esforço de relativização. em primeiro lugar. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. outro. no entanto. neste contato com a “diferença”. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. uma “coisa” que ultrapassa cada um. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. É. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. Estas conquistas que podem parecer. novamente. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. A nós. Em terceiro lugar. por todos e para todos. parece tudo muito simples e óbvio. (2) extenso e (3) externo. no repto lançado pela experimentação do relativismo. à primeira vista. viajar o “outro”. exigiram. De repente. Possui força autônoma. O social tem seu próprio caminho. vemos que o fato social é (1) coercitivo. pode dele se ausentar. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História.diante de explicações. Em segundo lugar. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. independente e própria. Para Malinowski. uma nave lendária da mitologia. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. evidentes em si mesmas. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. E. Malinowski foi nosso grande viajante. para além das manifestações individuais. 87 . o fato social. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. Com isto ele queria demonstrar. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. O fato social é. Para a Antropologia. no intrincado bolo do saber. agora. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. É. Ninguém. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. Um argonauta era um tripulante de Argo. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. profundo. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. o “outro” com todos os seus desafios. Aqui. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. também. Em outras palavras. Na verdade. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. que o fato social coage. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. se tornava mais “verdadeira”. pelo trabalho de campo. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. a definição de história era legitimada. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. uma outra . quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. mais que isto. essa forma de ver a passagem do tempo. ou seja. Ora. Assim. ou melhor. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. são reciprocamente definíveis. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. Quando esse conceito.tempo é dedicado a atividades econômicas. dados obtidos pelo trabalho de campo. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. Isto se torna possível. é perceber o “outro” na sua autonomia. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. encaixada com os conceitos de cultura. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. em vários momentos da teoria antropológica. que não pratica essa acumulação. quando havia uma determinada visão de cultura. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. uma máquina produtiva que. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. seria necessariamente pobre e miserável. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . Parece que. porque fizeram uma opção diferente. em larga medida. vice-versa. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte.a deles -. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. foi. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. Três ou quatro horas por dia. Ainda mais. que podem transformar a teoria antropológica. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. mas porque não querem. Assim. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. então. Muito pelo contrário. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. E. a complicação se tornou ainda maior. sobrevivência ou miséria.

É. na verdade. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. como capaz de explicá-la inteiramente. Ainda assim. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. progredi. Numa palavra: o “diferente”. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. Neste questionamento. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. também particular. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. o coração por assim dizer. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. o conceito de tempo linear. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. o “outro” é atrasado.concretamente existente numa única. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. porque evoluí. Com Durkheim. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. grande e completa explicação. mas ainda bastante problemática. pois. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. Colocava-se. 92 . numa idéia de história. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades. tudo se relativiza. totalizador das “diferenças”. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. Passamos. ou pelo indivíduo. pode passar a ser questionado. A cultura vai ser entendida como moldada. É. de trajetórias distintas. sua contraparte. Outra vez os dois conceitos se conjugam. É um passado pelo qual já passei. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. ou pela linguagem. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. também. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. ou pelo ambiente. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. qualquer que seja. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. simplesmente. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. para conhecê-la. Assim. Em outras palavras. Nesta perspectiva. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. assim. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. No plano teórico. através dela. É o próprio Lévi-Strauss quem. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. histórico.

revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. diz ele. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. É. o que se quer saber é como os Apinayé. tipo causa e conseqüência. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. mas de maneira errada. de relativizar. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. Em termos mais simples. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. outro no chão. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. Ou seja. um jogo de espelhos. seu tempo. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. nossa existência. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. Mais fácil. ele demonstra. nos capítulos anteriores. estranho e ininteligível até. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. O tempo não é. no caso. Dá para sentir. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. de uma redefinição de seu papel como ciência. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. que são como dois momentos fixos. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. pensado e vivido como descontinuidade. o fluxo. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. Antes. Um no céu. Para um Apinayé. tal como para nós. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. até mesmo. enfim. pensam o seu mundo. Este é o último capítulo do livro. leitor. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. para um Apinayé. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. uma linearidade ininterrupta. se sente fazendo história. o quanto é difícil o processo de relativização. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. Esse tempo se contrapõe. sendo parte dela. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. Por incrível que possa parecer. Talvez isso possa parecer extremamente complexo. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. um fluxo. a unidade. Para elas.Você. foram realizados pela Antropologia. desdobrar-se. o tempo é sentido. tentando explicar poeticamente. mas. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. Mas. sua existência. E é mesmo. métodos e. nosso tempo. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. 93 .

as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. Aquela de ser uma ciência. a cultura “fala” da existência. classificar e praticar sua experiência. mas das interpretações relativas. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. destinos próprios. O mundo muda. seu “corpo”. um conhecimento ou. à qual nos referimos no capítulo anterior. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. Cada um de nós. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. estudada por Malinowski. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. trocamos mensagens. etc.As culturas são “versões” da vida. seja ao seu “tempo”. teias. Melhor dizendo. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. enquanto ator social. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. como que mapas. uma literatura que não é das verdades absolutas. sentidos. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. destrói sociedades. escolhas de uma “política” dos 94 . utilizando símbolos de diferentes tipos. Tal como um código. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. metáfora explorada por Clifford Geertz. um saber. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. Assim. sua “sexualidade”. pela qual “falamos” uns com os outros. No entanto. os trobriandeses estão aí vivos. nessa linha. tanto humilde quanto generosa. não existem mais. enfatizando sua dimensão interpretativa. imposições. Pode também ser vista como uma teia. Esta tarefa. A cultura. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. se quisermos. por assim dizer. A Antropologia. Nesse sentido.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. do antropólogo americano Clifford Geertz. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. ao contrário. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. Para se pensar o fenômeno cultura. cada cultura atribui significados. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. sua “morte”. pelo trabalho de Malinowski. Este código é a cultura. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. cria outras.

livrou-se. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. sistemas de parentesco. etc. seria interpretar este fluxo do discurso social. é trilhado na medida em que. parentes afins. quem serão meus amigos e aliados. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. encontrados nas sociedades do “outro”. Lévi-Strauss vai mostrar. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. uma escolha psicológica. direitos e deveres. ao menos. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. pareciam. absurdos. o caso do domínio das relações de parentesco. O que faz. do etnocentrismo à relativização. Isto quer dizer que. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. e às vezes principalmente. definitivamente. Este é. enfim. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. o sistema de comunicação mais amplo. portanto. irmãos. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. Este caminho. então. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. Assim. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. como o cônjuge.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. por exemplo. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. Mas. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. Herança. guardar. o lado da afinidade do parentesco é. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. As Estruturas Elementares do Parentesco. Se entre nós a escolha do cônjuge. que seria a própria cultura de determinada sociedade. propriedade. o que pensamos e fazemos. decidida individualmente. num famoso livro. Em termos mais precisos. – mas também. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. para dizer o mínimo. para entender estes sistemas de 95 . em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura.

se transformam. no jogo de seus movimentos. também. Tudo isso é muito pouco. por vezes quase invisíveis. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. o etnocentrismo é exorcizado. problematizada e generosa. Aqui voltamos direto ao nosso tema. conceitos. realmente. Nas relações internacionais. Enfim. a chave para a sua compreensão. Devem estar. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. A afinidade nestes sistemas. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. Este. se relativizam. na indústria cultural. morais. Tudo isso indica que a Antropologia. seja no “parentesco” ou na “economia”. seja na “individualidade” ou na “história”. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. mostra ele. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. 96 . na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. Aí também. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. nos costumes políticos. enfim. sentimentos. O que se passou na Antropologia. conjuntos de idéias. acredito. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. frente a um sem-número de ideologias. é necessário ver que o coração. não é um dado psicológico. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. interétnicas. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. a um só tempo. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. esperança e generosidade. movimentos que aconteceram na Antropologia. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. muito pouco se relativiza.parentesco. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. para compreender o “outro”. nos próprios termos de Lévi-Strauss. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. de “foro íntimo”. no encontro entre o “eu” e o “outro”. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. descendência e afinidade. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. o centro deste sistema. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. está numa unidade que inclua também a afinidade. A Antropologia reflete. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. métodos e técnicas que. Disso resulta. O que é. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. emerge uma compreensão do ser humano. Aí.

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