APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. a fome generalizada. que produzem várias gerações por ano. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. muitos deles com características “humanóides”. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. pois. Seriam. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. se surgir outra teoria que explique melhor. ou com maior abrangência. essa mesma questão. Por conseguinte. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. deveria ocorrer um colapso. intitulado abreviadamente Teoria das populações. sobre um assunto determinado. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. em microorganismos. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. veio 4 . Dizia Malthus. Se essas características mudarem. ou menos “aptas”. no entanto. Se isto não ocorria. mas sim de um processo de seleção passiva. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. Os fatos da teoria evolucionista. por alguma singularidade constitucional. Mas. segundo acrescentaria Darwin. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. em dado momento. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. por força de alterações de clima. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. aquilo que se conhece. pois. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. Darwin imaginou. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. ou melhor ainda. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. isto é. em favor das que. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. pois. A teoria científica representa. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. Em 1838.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. a teoria anterior tem que ser abandonada. com várias gerações por dia. em favor da segunda.

vivendo sob as árvores”. como. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. sabemos que a Terra. observa-se um aumento gradual não só do volume. possui. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. desde os últimos 50 milhões de anos. disse o antropólogo sul-africano C. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. Brain: “Parece razoável admitir-se que. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. por exemplo.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. mas também da superfície do cérebro. embora o nível de inteligência. ao longo da série dos vertebrados. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. Por outro lado. ao longo do tempo. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. iniciado há 200 milhões de anos. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. levando à formação do homem. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. por meio da seleção natural. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. a maior parte de Europa. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. K. e 650. desde a sua formação. unto à costa oriental africana. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . há cerca de 300 milhões de anos. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. Em conseqüência das transformações climáticas. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. mas esse valor pode variar muito. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. segundo outros. Estes são considerados hominídeos. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. ainda. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. segundo alguns. Nessa época. inúmeras espécies de símios arborícolas. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. O Homo sapiens sapiens. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. Essas significativas alterações de relevo. sempre. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. no Período Carbonífero. De fato. constituindo o Vale do Grande Rift. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. por exemplo. dentro de uma mesma espécie. pois. no sentido norte-sul. do processo de separação dos continentes. Entre esses fósseis. há 12 milhões de anos. como existiam no Mioceno. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. ou seja. 1350 centímetros cúbicos. Na verdade. Como conseqüência. da Índia. entre outros fatores. em média. Com relação ao ser humano. As condições vigentes. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre.

Trata-se do Homo erectus. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. que atualmente se estendem por grande parte do território africano. em média. além disso. surge um novo personagem nesse cenário. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. São os do gênero Homo. pelo antropólogo africano Louis Leakey. Há cerca de 1. 30% maiores e 45% mais pesados. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus.6 milhões de anos.menor porte. pois. uma fêmea. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. sendo os primeiros. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. como os símios arborícolas. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). O primeiro espécime encontrado. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. A partir de Lucy. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. o contato com o frio. da qual são conhecidos. em 1960. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. Nos últimos anos. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. hoje. Há cerca de 2 milhões de anos. Particularmente. descoberto há poucos anos na Etiópia. nas grandes glaciações que 6 . que vieram a constituir as savanas de hoje. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. entretanto. o que. ans mesmas regiões. como os leões e outros felinos. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. mais que de frutos carnosos. primeiramente descoberto na Ilha de Java. com grande capacidade para trituração. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. descoberto. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. Estas. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. 2 milhões de anos. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. Também nessa época. ao que tudo indica. começaram a aparecer. outros tipos de hominídeos. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. proporcionava-lhe a liberação das mãos. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. e essa espécie. porém dotados de capacidade cerebral bem maior.

porém. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente.ocorreram durante o último milhão de anos. contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. há cerca de 220 mil anos. Finalmente. denominada Homo neandertalensis). 7 . Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. aprendeu a viver em cavernas. deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. Migrando para regiões frias. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. estão longe de ser bem conhecidas. porém mais robusto e que não deixou descendentes. o Homo sapiens sapiens. muito semelhante ao atual. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística.

Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. de fato. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. que essas diferenças se explicam. 15. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . Ou ainda. geneticistas. Em outras palavras. finalmente. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. que os alemães têm mais habilidade para mecânica. pelo contrário. b) No estado atual de nossos conhecimentos. antropólogos físicos e culturais. Eles nos informam. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. Ela constitui. uma das características específicas do Homo sapiens. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. biólogos e outros especialistas. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. logo após o seu nascimento. Segundo Felix Keesing. que os japoneses são muito trabalhadores. se transportarmos para o Brasil.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. que os ciganos são nômades por instinto. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. Em 1950. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. pela história cultural de cada grupo. antes de tudo. e. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. que os judeus são avarentos e negociantes. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. traiçoeiros e cruéis. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação.

do tipo das formuladas por Pollio. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. ganharam uma grande popularidade. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. Resumindo. E mais: que é possível e comum 9 . mas em decorrência de uma educação diferenciada. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. de um processo que chamamos de endoculturação. entre outros exemplos. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. É ele que se recolhe à rede. um esforço físico considerável. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. Wissler. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. arma de uso exclusivo dos homens. Bodin e outros. como vimos anteriormente. Kroeber. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. Ibn Khaldun. A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. Estas teorias. entre outros. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. em seu livro Civilization and Climate (1915). A partir de 1920. eram exclusivamente masculinos. na verdade. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. e não a mulher. quer se trate de inteligência ou temperamento. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. antropólogos como Boas. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto.traços psicologicamente inatos. Até muito pouco tempo. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. São explicações existentes desde a Antiguidade.

necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. Os grupos Pueblo são aldeões. obtendo ovinos dos europeus.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. (Cliford Geertz. pastoreio – no mesmo ambiente natural. cultivo. como primeiro exemplo. que se alimentavam de castanhas selvagens. pois. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. p. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. 33). Era de se esperar. 1967. os lapões e os esquimós. desvencilhar-se das pesadas roupas. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . É possível. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. portanto. Tomemos. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. p. Quando desejam mudar os seus acampamentos. Ambos habitam a calota polar norte. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. Kalapalo. Quando deseja. 1978. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. ocupam essencialmente o mesmo habitat. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. vivem em tendas de peles de rena. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. do sudoeste americano. 22). que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. sementes de capins e de caça. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. Trumai. os Navajo são hoje mais pastoreadores. Vivem. no mesmo habitat. Em compensação. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. os lapões são excelentes criadores de renas. Waurá. Um segundo exemplo. então. Mas. Posteriormente. por sua vez. transcrito de Felix Keesing. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. Os lapões. em ambientes geográficos muito semelhantes.

A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. As diferenças existentes entre os homens. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. dominou os ares. portanto. portanto. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. examinar por toda parte as várias 11 . transmitida por mecanismos biológicos. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. Mas. moral. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. arte. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. pelo menos como utilizado atualmente. como a anta. sem guelras ou membranas próprias. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. sobre o meio ambiente. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. ou seja. O conceito de Cultura. etc. definido pela primeira vez por Tylor. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. e não casualmente. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. foi. Os Kayabi. A idéia de cultura. Com esta definição. a caititu. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento.existentes nos grandes mamíferos. que habitam o Norte do Parque. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. Sem asas. o veado. provido de insignificante força física. em 1690. com efeito. conquistou os mares. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. leis. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. crenças.

menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. em 1950. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. um processo iniciado por Lineu.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação.. era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. cap. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. como diríamos hoje. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. mais de um século depois. as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Esta definição é equivalente às que foram formuladas. em 1775. ou regra de virtude para ser considerada. hoje clássico. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. então. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). com referência a John Locke. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). na verdade. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. em1973. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . “O Superorgânico”. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. Tanto é que. Em outras palavras. Meio século depois. Finalmente. Mas. Em 1871. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”. Em 1917. II. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. parágrafo 10). será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados.. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé. Jacques Turgot (1727-1781). Completava-se. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. gorila e orangotango) e os homens. que não seja em alguma parte ou outra. (O grifo é nosso). comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I.

A reconstrução deste momento conceitual. inexistente para qualquer outro mamífero. Mas. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. um mundo tridimensional. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 .sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. a nossa espécie tinha conseguido. onde o faro perdeu muito de sua importância. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. foi capaz de assim proceder. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. abriu para os primatas. Esta vida arborícola. principalmente os superiores. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. ou melhor. construído a partir de uma visão da natureza humana. combinada com a capacidade de utilização das mãos. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. através dessa explicação. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. Neste trabalho. Em outras palavras. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. em 1950. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. Esta. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. Os fundadores de nossa ciência. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. O segundo passo deste processo. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. representou o afastamento crescente dos dois domínios. entretanto. no decorrer de sua evolução. Em suma. elaborada no período iluminista. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. com um odor tautológico. o cultural e o natural.

A cultura seria. a filha e a irmã). Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . A seguir considera que o bipedismo foi. como afirmou o próprio White.. Kenneth P. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. O comportamento humano é o comportamento simbólico. fornecendo uma nova percepção. não um ser humano. Explicações de natureza física e social. Toda cultura depende de símbolos. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). por exemplo. afirma ele. E a chave deste mundo. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. Como. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. “todos os símbolos devem ter uma forma física. Para Lévi-Strauss. então. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. Oakley destaca a importância da habilidade manual.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos.. e o meio de participação nele. possibilitada pela posição erecta. Isto porque. é o símbolo. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. a primeira norma. Claude Lévi-Strauss. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. Com efeito. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. a mãe. Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. e o homem seria apenas animal. provavelmente.. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. sacudido ao vento. Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. Leslie White. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. esta seria a proibição do incesto. Sem o símbolo não haveria cultura. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. Ou seja. antropólogo norte-americano contemporâneo. o mais destacado antropólogo francês. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. e uma bandeira desfraldada..

Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. num dado momento. Em essência. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. de cultura. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade.admitir que a cultura apareceu de repente. Clifford Geertz. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. antropólogo norte-americano. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. Devido à dimensão do seu cérebro parece. consequentemente. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. não apenas o produtor da cultura. embora mais atrasado do que a fala humana -. compreendida como uma das características da espécie. pois. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. mas também. o produto da cultura”. mais do que um evento maravilhoso. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. improvável que possuísse uma linguagem. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. num sentido especificamente biológico. O primata.20m. assim. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. na moderna acepção da palavra. entretanto. O Australopiteco parece ser. O ponto crítico. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. caça esporádica. A cultura desenvolveu-se. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. porém incapaz de adquirir outros. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. Assim. por isso mesmo. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). 15 . expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. como ironizou um antropólogo físico. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. portanto. aprender. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é.

deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. fragmentado por numerosas reformulações. Rappaport. Existem. no início deste trabalho. divergências sobre como opera este processo. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. entretanto. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins. etc. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. como Steward. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. na dialética social dos marxistas. refere-se às teorias idealistas de cultura. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. inicialmente. da manutenção do ecossistema. produto dos chamados “novos etnógrafos”. Roger Keesing. de agrupamento social e organização política. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. Neste capítulo.” Em segundo lugar.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. 3 “A tecnologia. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. para W. Goodenough. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. Assim. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. Carneiro. da subsistência. que subdivide em três diferentes abordagens. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 . isto é. B. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. Keesing refere-se. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. desenvolvido por Marvin Harris. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. como todos os animais. Vayda e outros que. Meggers. crenças e práticas religiosas. padrões de estabelecimento. Harris. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. 1977). e assim por diante.

perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. receitas. como um evento observável. São públicos e não privados. e este programa é o que chamamos cultura. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. ou seja. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. portanto. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. Para isto. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. a seu modo. arte. para Geertz. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. Lévi-Strauss. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. a análise componencial.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. como. Assim. A última das três abordagens. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. planos. regras. entre as teorias idealistas. para Geertz. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. Assim. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. Esta amplitude de possibilidades. será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. por exemplo. entretanto. Com isto. Voltando a Keesing. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. Estudar a cultura é. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. Para isto. ou seja.tais como a lógica de contrastes binários. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. E. mas não dentro deles. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. Assim procedendo. um conjunto de princípios . ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider.

constituído de formas vegetais bem definidas. têm visões desencontradas das coisas. discriminamos o comportamento desviante. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. portanto. tema perene da incansável reflexão humana. no final desta primeira parte. desenvolvida através de inúmeras gerações. Por exemplo. respeitado. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. Por isso.captar o código cultural em uma gramática. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. Até recentemente. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. por exemplo. A nossa herança cultural. a floresta é vista como um conjunto ordenado. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. Assim. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. portanto. Neste ponto. Assim. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. e era. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. Esta atitude varia em outras culturas. David Schneider tem uma abordagem distinta. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. e provavelmente nunca terminará. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”.

tais como o modo de agir. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. e não pelo observador de fora. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos.relações sexuais em troca de moedas de ouro. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. o resultado da operação de uma determinada cultura. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. sabem servir-se de seus corpos. primariamente. pode ser bem diversa. caminhar. profundamente alta. Na verdade. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . no qual analisa as formas como os homens. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. que ela é inglesa. produtos de uma herança cultural. são variações de um mesmo padrão cultural. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. A partir do que foi dito acima. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. comer. O riso se expressa. o fato de mais imediata observação empírica. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. Enfim. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. por exemplo. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. Os alunos de nossa sala de aula. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. quando não está comendo. de sociedades diferentes. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. Todos os homens riem. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. apesar de toda a sua fisiologia. assim. Tomemos. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. O modo de ver o mundo. por exemplo. o riso. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. a fim de acumular um dote para o casamento. as diferenças percebidas pelos estudantes. as apreciações de ordem moral e valorativa. vestir. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. A emissão sonora. ou seja. Segundo Mauss. nessa mesma situação. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir.

Resumindo. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Para nós. 20 . após a prece. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. com o chefe na cabeceira. provavelmente. de maneiras diferentes das dos homens. agarrada. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). reta. caminham. segundo o qual. e somente iniciar a alimentação. após a refeição. Tal fato. como sinal de agrado da mesma. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. Mãya. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. a sua força de trabalho. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. Entre os latinos. no início do século. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. pelos travestis. como indicador de má educação. Nas várias culturas. a um ramo de árvore. o ato de comer é um verdadeiro rito social. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. gesticulam.obstetrícia. através da alimentação. mas a utilização do mesmo. entre os ocidentais. Estas posturas femininas são copiadas. a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. Como utilizamos garfos. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. Segundo ele. etc. Freqüentemente. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. assim. “Buda nasceu estando sua mãe. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. entretanto. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. mas também pela maneira como agem à mesa. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. em horas determinadas. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. Ela deu à luz em pé. em alguns casos. no mínimo. As mulheres sentam. em outras uma atividade privada. seria considerado. entre nós. a família deve toda se sentar à mesa. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. Dentro de uma mesma cultura.

O etnocentrismo. Os Cheyene. Daí a reação. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. Entre os romanos. e. denominada de etnocentrismo. freqüentemente. se autodenominavam “os entes humanos”. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. ou pelo menos a estranheza. sua visão de mundo. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. e entre eles foi convidado um jovem asiático. seus costumes e expectativas. conforme o costume de seu país”. em relação aos estrangeiros. separado em pequenos grupos. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida.Roger Keesing. porque pertencem a outro grupo. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. mas o grupo. Tal tendência. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. Esta parábola. Finalmente. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. é um fenômeno universal. acrescenta Keesing. cada um com sua própria linguagem. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. Dentro de uma mesma sociedade. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. Após os convidados terem terminado os seus pratos. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. O estudante asiático aceitou um segundo prato. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. ou mesmo sua única expressão. O costume de discriminar os que são diferentes. consideravam-se “os homens”. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. grupo Tupi do Sul do Pará. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. de fato. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). índios das planícies norte-americanas. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. os Akuáwa. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. reflete a condição humana. os esquimós também se denominavam “os homens”. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . colegas de seu marido. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia.

Ela morre de choque. também. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. Um outro exemplo são as agressões verbais. A vítima. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. a pressão sanguínea cai. Muitos abandonaram a tribo. que teria visto um fantasma (um “anan”). Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. Em 1967. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. que é a apatia. Entre os índios Kaapor. Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. Muitos foram os suicídios praticados. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo.o início da relação afim. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. grupo Tupi do Maranhão. em estado de pânico. conseqüentemente. habitada por pessoas de fenotipia. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. Foi. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. estes índios perderam a crença em sua sociedade. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). e até físicas. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. perdiam toda a motivação de continuar vivos. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. e mesmo os seus seres sobrenaturais. O principal protagonista de um filme. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. neste e em outros casos. Confiante nos poderes do branco. fomos procurados por uma mulher. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. acaba realmente morrendo. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. que foi considerado muito eficaz. costumes e línguas diferentes. deprimentes e imorais. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. Traduzido como saudade. Diante de uma situação crítica. Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann.

Basicamente. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. talvez. diz um ditado popular. e em muitos casos a cura se efetiva. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Após cerca de uma hora de cantar. “Meio-dia. esfregou-lhe o peito e o pescoço. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. uma idéia mais detalhada do processo. quem não almoça assobia”. desde o início do ritual. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. dizem padecer de doenças do fígado. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. reais ou imaginárias. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. primeiro sobre as próprias mãos e. em alguns casos. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. em seguida. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). que fez desaparecer na mão. por maior que tenha sido o nosso desjejum. Após muitas massagens no doente. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. Finalmente. sobre o corpo do paciente. E de fato. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. entretanto. dessa vez dirigidas para o ombro. insetos mortos. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. dançar e puxar no cigarro. Em muitas sociedades humanas. A descrição da cura dará. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. por exemplo. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. Ajoelhando-se junto a ele. os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. etc. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. Nas curas a que assistimos. o pajé soprou fumaça. não é importante. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. Muitos brasileiros. conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. Repetiu as massagens e sucções. Guardavam-nos por 23 . Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. o pajé recebeu o espírito. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa.

as restrições 24 . à audiência a sua natureza.”. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. o que parecia bastante.algum tempo dentro da mão. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade.. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. geralmente.”.. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado.”. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. 2. “Nós fazemos aquilo.. “Eu faço aquilo. “uma comunidade aldeã”. Explicavam. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. como por vezes se supõe.. qualquer que seja a sua identidade cultural. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé. para fazê-lo desaparecer após. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas. O seu sentido de solidariedade depende.. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural.. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal. ao mesmo tempo. E. A generalidade do etnocentrismo Assim definido. porém. eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum..”. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. Face aos objetivos do presente artigo. Num sentido que não é precisamente determinado. a população em causa é. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”. pelo menos em parte.. “uma tribo”. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. livre do cigarro.

desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. a que olhemos “os outros” com desprezo e. a conotação “homens’. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. O traço essencial de tais sistemas reside em que. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. contrair matrimônio entre si. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. 25 . “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. como bárbaros. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. O fenômeno é geral. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. são “pessoas como nós”. a todo e qualquer nível de identificação. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. econômica e politicamente dominante. contudo. como a cor da pele e o tipo de cabelo. em que o setor b4anco da comunidade. com temor. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. mas também a inveja. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. etc. não só porque tem costumes diferentes. inferiores. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. mas.] Se “nós” estamos no centro do universo.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. por vezes. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. Em Israel. nós não somos “os outros”. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. como noutros lados. freqüentemente. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. como animais. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. em estreita interdependência econômica. Isso leva. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. mas porque são de uma espécie diferente. mas que recusam. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. 4) estilo de vida em geral. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. Isso acontece em todas as sociedades humanas. politicamente dominante. diferentes de nós. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. ao mesmo tempo. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. com o andar dos tempos. 3) práticas religiosas. eles são. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. como deuses. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. 5) língua e dialeto. freqüentemente. [Em várias sociedades tribais]. Eles não são homens verdadeiramente”. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. apesar de tudo.

etnocêntricas. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. Neste tipo de contexto.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. mas também a de “destruir as obras do demônio”. de alguma forma. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. geralmente de fé católica romana que. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. colonialismo e missionários. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. 3. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. mas a maior parte dos missionários protestantes. Desde os tempos do Profeta. 4. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. Etnocentrismo. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. A tarefa do missionário como salvador das almas. Analogamente. mas pagãos. especialmente os da ala evangélica do movimento. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. em certos casos. Há um pequeno número de missões cristãs. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento.

reforçam-se uma à outra. 27 . a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. limpeza/sujidade. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. deplorável. a questões políticas e econômicas. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. sobretudo. No mundo real. procriação/esterilidade. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. ou antes. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. Na África do Sul contemporânea. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. As duas faces da mesma moeda. quase sempre. erotismo/ascetismo.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. quem é que se pode sentar à mesma mesa. O resultado é muitas vezes.

.....................34 A cultura em nossa sociedade....44 Cultura e relações de poder..................................55 Indicações para leitura.............57 28 ..............O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade....29 O que se entende por cultura...................................................................................

e a cultura as expressa. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. por exemplo. Assim. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. logo se constata a sua grande variação. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. Na verdade. Por isso. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. costumes. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. bem viva nos tempos atuais. sociedades e grupos humanos. é porque eles estão em interação. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. ou nas maneiras de habitar. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. de conceber a realidade e expressá-la. porém. mais freqüentemente por ambos os motivos. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. Se não estivessem não haveria necessidade. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. As variações nas formas de família. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. nações. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. 29 . nações. são o resultado de sua história. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. sociedades e grupos humanos. De fato. Notem. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. Entendido assim. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam.

e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. como para a européia ou a chinesa. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. A partir de uma origem biológica comum. Isso se aplica. não obstante a constatação de certas tendências globais. Assim.Vejam. Nesse processo. Assim. Para muitas delas. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. De fato. no entanto. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. por exemplo. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. por exemplo. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. O aceleramento desses contatos é recente. o contato entre grupos humanos foi freqüente. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. pois. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. São também variadas as formas de organização social. as 30 . pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. Cada cultura é o resultado de uma história particular. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. os grupos humanos se expandiram progressivamente. bem-sucedidos. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. e isso inclui também suas relações com outras culturas. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. a viver em aldeias e vilas. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. por exemplo. criando novas possibilidades de desenvolvimento. como a domesticação de animais e plantas o prova. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. isto é.

mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. dessa evolução em linha única. existentes ou extintas. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. dada a multiplicidade de critérios culturais. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. por exemplo. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. falar. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. por exemplo. no estágio da barbárie. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. sobre o resto do mundo. Segundo aquele argumento. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. Nesse caso. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra.quais podem ter características bem diferentes. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. as tecnologias de metais. reinos africanos. uma nômade praticando a caça e a coleta. 31 . Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. vamos pensar em duas culturas primitivas. No primeiro caso. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. Por exemplo. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. Assim. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. Assim. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. Segundo as versões mais comuns desses estudos. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. Ou então. nas etapas humanas da selvageria. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. Por exemplo.

O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa. por exemplo. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. Ou seja. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. Cultura e relativismo Em outras palavras. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. O século XIX.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. Existem. poderia ser aplicado. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. Observe o quanto essa equação é enganosa. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. Vemos. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. indicava os caminhos de 32 . como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. substitui-se um equívoco por outro. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. pois. Consideremos um pouco mais este segundo. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. no entanto. pois. conquistando e destruindo povos e nações. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. em que esse confronto de idéias se consolidou. Por outro lado. a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. unidade biológica da espécie humana. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. segundo essa visão. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. sua civilização avançava implacavelmente. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural.

Assim. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. quando não seu fim. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. tem regiões de características bem diferentes. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. de interpretar a realidade que as produz. por exemplo. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. os quais hierarquizam de fato os povos e nações. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. de agir sobre essa realidade. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. existe no interior de uma sociedade dinâmica. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. Além disso. suas faixas de idade. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. numa sociedade como a brasileira. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. ou segundo seu grau de escolarização. a população difere ainda internamente segundo. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. e muitas vezes o são. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. por exemplo. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. Pensem. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . como se fossem culturas estranhas.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. sua capacidade de emitir pronunciamentos. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. um grupo religioso. por exemplo. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. cujas razões podem ser estudadas. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. Tudo isso se reflete no plano cultural.

Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. o cinema. Vejamos alguns desses sentidos comuns. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. Outras vezes. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. De modo que. entre povos e nações. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. Assim. a música. mostrar como eles se desenvolveram. a seu idioma. nem sempre pacíficos. a televisão. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. a novas técnicas. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura. a escultura. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. às lendas e crenças de um povo. Vamos então cercar o assunto. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. como o teatro. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. tais como o rádio. 34 . em discutir sobre cultura. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. Afinal. a um novo idioma e a novos problemas. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. ou a seu modo de se vestir. à sua comida.cultural. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. a pintura. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. educação. A partir disso. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. Contudo. Por cultura se entende muita coisa. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. A lista pode ser ampliada. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. cultura está associada a estudo. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. no estudo da cultura em nossa sociedade. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. Em geral. formação escolar.

cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. estagnado. Assim. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. as re1ações pessoais e a espiritualidade. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. seja na organização da sociedade. De acordo com esta segunda concepção. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. Vamos à segunda. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. ao conhecimento filosófico. as culturas humanas são dinâmicas. a alimentação. assim como às maneiras como eles existem na vida social. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. às idéias e crenças. No entanto. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. a um domínio. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. Como veremos a seguir. e da mesma forma seus meios de divulgação. o corpo. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. O esforço de entender as culturas. com os quais partilhamos de poucas características em comum. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. De fato. já que não se pode falar em conhecimento. fechado. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. Conforme já dissemos. preocupando-se com a totalidade dessas características. de localizar traços e características que as distingam. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. e que tem por temas principais a ecologia. Nesses casos.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. idéias. Tanto assim que é 35 . ou então de grupos no interior de uma sociedade. à sua literatura. Esse é um ponto muito importante. parada. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. da vida social. Neste caso. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas.

em compreender a particularidade dos costumes e crenças. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. por exemplo. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. e populações do resto do mundo. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. que quer dizer cultivar. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Vem do verbo latino c o l e r e. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. Roma e China antigas. porém. práticas e crenças de povos diferentes. não-religiosa. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. modos de vida. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. sofisticação pessoal. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. Observem porém que se essa preocupação já existia. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. e isso está presente na expressão cultura da alma. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. ou seja. educação elaborada de uma pessoa. Nesse sentido. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. bem mais recentes. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. industrializadas e sedentas de novos mercados. Como sinônimo de refinamento. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. do mundo social e da vida humana. Em primeiro lugar. quer dizer. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes.

contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. Esta é uma relação muito íntima. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Assim. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. difícil de precisar. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. como vocês podem ver. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. Se fosse só por isso. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. a idéia é muito genérica. como na visão de evolução linear das sociedades. de cunho religioso. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. É que até então essas questões podiam ser respondidas. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. De fato. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. quando se comparava povos diferentes. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. 37 . Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. Lembrem que. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. Assim. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes.materiais que podiam ser estudados. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. Trata-se de uma idéia muito ampla. Além disso. Nesse sentido. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. várias vezes. e tudo que é humano é cultural. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. Novamente. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Há um segundo. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente.

De fato.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. tais como comidas. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. Assim. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. Na América Latina. e o Brasil é bem um caso. roupas. lendas. por exemplo. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Assim. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. ou que para cá foram trazidas como escravas. No caso. período em que a Inglaterra e França eram econômica. nomes. podemos mencionar a Rússia do século XIX. específico. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. nas Américas do século XX. 38 . a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. O mesmo pode ser dito da América Latina. Assim foi na Rússia do século XIX. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. em relação às nações política e economicamente dominantes. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. Foi assim na Alemanha do século XVIII. na falta de uma unidade política comum. um país em posição inferior às potências européias. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. Nestes casos todos. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores.

a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. No primeiro caso. o que não ocorre com civilização. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. à barbárie. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. a qualquer cultura. qual seja. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. se opõe à falta de domínio da língua escrita. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. No segundo caso. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. cultura surge em oposição à selvageria. cultura competiu com a idéia de civilização. Assim. à cultura dominante. concepções. pois. Ou ainda. Como veremos numa sessão posterior. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. e por outro. mas também em grupos no seu interior. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. de conquista e incorporação 39 . as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. nação. ao direito e às idéias. à organização da sociedade. concepções e modos de conhecimentos. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. Além do mais. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura.Assim. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. Com o passar do tempo. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. ou à falta de acesso à ciência. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. que mencionei anteriormente. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. grupo ou sociedade humana. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. crenças. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. cultura é então a própria marca da civilização. à estrutura da família.

o da cultura e o da sociedade de classes.acelerada de povos e nações. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. é uma idéia muito ampla para cultura. Assim. nas suas concepções. nas técnicas. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. Assim. Com a aceleração da interação entre povos. É uma situação bem diferente. nos instrumentos e nos utensílios. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. nação. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. Quênia e Indonésia. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. na produção do necessário para a sobrevivência. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. que vai poder distinguir suas experiências particulares. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. crenças e em tantos outros aspectos. nações. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. de regular o casamento e a reprodução. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. resultados de experiências históricas muito diferentes. refinamento pessoal. Apesar disso. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. o Peru. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. povo. buscam desenvolver suas economias dependentes. pois não seria essa realidade comum. por exemplo. Falar da totalidade das características de um povo. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. vejam bem. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. andam muitas vezes separados. Os dois planos de estudo. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. sociedade. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. vinda da relação de cultura com erudição. culturas particulares. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. a civilização mundial. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 . por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. Vejamos como isso ocorre. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. nações. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social.

Assim. Ou seja. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. como é o caso de sua arte. que permitem. ela foi transformada. esportes e jogos. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. práticas costumeiras e rituais. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. que as informações sejam processadas. por exemplo. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . uma dimensão totalizadora. Na verdade. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. Não é de se estranhar. política. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. através de palavras. De fato. Não se entusiasmem muito. pois. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. descreva um sentimento ou uma paisagem. em cada elemento da cultura. idéias. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. religião. Assim. Isso pode atrapalhá-los. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. ou seja. teorias. Vejamos por quê. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. em cada produto cultural. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. doutrinas. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. a dimensão não-material. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. ciência. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. Em primeiro lugar. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. Assim. porém. que uma idéia expresse um acontecimento. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. com os exemplos acima. De fato. tecnologia. sobre outras sociedades.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. É que. bancos. no entanto. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. Assim. dos católicos. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. hospital. A lista não teria fim. de limites imprecisos e características variadas. ou então dos comerciários. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. empresas em geral.fábricas. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. ao estudarmos cultura no Brasil. a partir do exposto acima. na organização da vida familiar. de estilos de vida. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. contudo. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. mais complexa. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. fazendas. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. por exemplo. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. dos bancários. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. Se a cultura é dimensão do processo social. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. centros de lazer. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. ou segundo as práticas médicas. as quais são rotuladas de classes médias. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . de acesso às instituições públicas tais como escola. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. ou da amizade. ou da vizinhança. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. Há diferenças de renda. jovens e velhos. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. ou alimentares. Algumas preocupações são. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. Da mesma forma. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. A diferenciação é. na cultura dos jovens. Além do mais. das mulheres de classe média. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. crianças. Nesses recortes da realidade social comum.

É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. uma realidade que não depende de formas externas. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. atrasado. que desenvolve a concepção de cultura popular. tais como a universidade. Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. as academias. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. Por um lado porque. Para ser pensada assim. Entende-se. a ampliação de seus domínios como. advogados. superado. buscando o que há de específico nelas. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. De fato. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. participante de suas instituições dominantes. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. principalmente. manifestações diferentes da cultura dominante. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. as implicações políticas que possam ter. por exemplo. um conhecimento que se supunha inferior. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. na formação de seu próprio universo de legitimidade. a cultura popular. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. mesmo sendo suas contemporâneas. engenheiros e outras). que existem independentemente delas. procurando entender a sua lógica interna. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. Nesse sentido. ainda 46 . mas como um universo de saber em si mesmo constituído. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. à alta cultura. Da mesma forma. então. sua dinâmica e. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. expresso pela filosofia. Assim. que estão fora de suas instituições. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. as ordens profissionais (de médicos. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social.

tende a se generalizar. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. literatura. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. das ciências físicas e biológicas. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. o domínio da escrita e da leitura. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. o que mina na base aquela polarização. Ela cria problemas falsos. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. De fato. Surgem associadas ao 47 . um popular intocado e definitivamente original. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. para a música. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. seus limites se perdem na complexidade da vida social. Assim. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. da matemática. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. no entanto. medicinas populares. dominante. outrora restrito a setores das classes dominantes. não são homogêneas nas classes oprimidas.que se opondo a elas. Isso vale para a medicina. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. por exemplo. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. com modos de interpretar a comida. Assim. para a literatura. de esboçar com clareza. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. Ela se sustenta em bases frágeis. fundamentalmente. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. e se esvazia em confronto com a realidade social. Quando se procura estudar a cultura popular. para a religião. Criam-se assim modelos de religião. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. E. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Parecem. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial.

Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. a saúde.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. seja na sua prática. uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. tornando-se um legado de toda a população. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. De fato. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. hospitalar. E se a educação. o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. a 48 . Assim. é o resultado dessa existência comum. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. como as citadas anteriormente. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. seja na sua organização. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. por exemplo. as instituições dominantes de origem européia. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. toda a produção cultural. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. do qual não detêm o controle. como a umbanda e o candomblé. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. A produção cultural. o sistema escolar. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. e introduzidos pelas elites. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. partilham um processo social comum. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. Apesar de sua origem. e a justiça . transformaram-se com o processo de transformação do país. Da mesma forma. próprias. estes de origem européia. hospitalar e jurídico. é um produto dessa história coletiva. generalizadas e reconhecidas. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes.

em outro. São populações bem diversas. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. procurar localizar características da cultura operária. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. Isso produziria apenas confusão. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. porém. mas nem sempre é esse o caso. isso não se deve à sua origem. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. Em certo sentido. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. Assim. Falar. à saúde pública.justiça não atendem aos interesses de toda a população. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. que seja mesmo um patrimônio seu. nunca entendimento da vida social. como toda a população trabalhadora. Ao contrário. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. como a população mais pobre. isso sim. que seja característico dela. conseguiram acesso à escolarização. como se vê. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. levando aquela polarização ao limite. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. por exemplo. É preciso assinalar. as características sociais básicas da sociedade. Para tentar reter o que é popular na cultura. à qual a expressão faz menção. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. à habitação etc. nós estaríamos enfatizando. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. A categoria povo. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. Assim. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. ainda. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. em outro. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural.

as relações que definem essa existência. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. A cultura é criativa. As próprias classes sociais. como se dá o exercício do poder na sociedade. que seja homogêneo para toda uma classe social. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. mas também ajuda a produzi-la. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. Ela é produto dessa sociedade. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. entender como se realiza a desigualdade social. quanto porque está ligada à transformação destas. não é um espelho amorfo. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. Elas também têm sua dinâmica própria. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades.valorizar esse patrimônio. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. procurando a expressão cultural deles. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. fazê-las produzir. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. demonstram grande variação interna. por essas 50 . É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. como já disse. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Assim. têm contornos imprecisos na prática. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. De qualquer modo. definitivo.

na participação política. Da mesma forma. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. no lazer. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. de se vestir. nas atividades religiosas. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. Assim. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. na vida profissional. não só apregoam mensagens. niveladora. ainda que muito forte. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. Assim. essas sociedades industriais têm 51 . principalmente. É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. o rádio. de lutar. no meio urbano ou rural. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. maneiras de falar e de escrever. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. No entanto. desenvolvimento de novas técnicas. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. O ritmo acelerado de produção e consumo. Eles penetram em todas as esferas da vida social. o controle das massas. na educação. produção de bens e serviços. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. não é absoluto. de sofrer. Tais instrumentos seriam. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. Essa cultura homogeneizadora. Por todas essas razões. Não há dúvida de que a indústria da cultura. o controle sobre as mensagens transmitidas. Examinemos um pouco essas questões. centrada nesses meios de comunicação de massa. a televisão.razões. propõem estilos de vida. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. recrutamento de mão-de-obra especializada. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. a indústria cultural. de sonhar. Além do mais. modos de organizar a vida cotidiana. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. é o amaciamento dos conflitos sociais. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. São meios de comunicação poderosos. a imprensa e o cinema. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. de arrumar a casa. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. Ela seria uma característica vital deste século. Do mesmo modo. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. com inversões de capital. de pensar. Eles também difundem maneiras de se comportar. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. de amar.

a Rússia. mas não são a cultura dessa sociedade. que as possa ignorar. mas não se pode dizer que prescinda delas. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. os quais de resto são também dinâmicos. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. códigos de ação. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. elementos que não são absolutos. projetos de desenvolvimento. portanto. já falamos disso exemplificando com a Alemanha. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. Nesse sentido. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. corremos o risco de nos enganarmos. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. os países das Américas. A cultura nacional é. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. em seus modos de agir. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. com propósitos de homogeneização e controle das populações. sem levar em consideração a ambas. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. resultado e aspecto de um processo histórico particular. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. dessa maneira. Se não fizermos isso. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. como uma dimensão da sociedade e de sua história. Ela é. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. As mensagens da indústria cultural. também sofrem alterações constantes. mais do que a língua. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. É uma realidade histórica. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. 52 . Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. em seus planos de vida. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. conseqüência das formas como a nação se produziu. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. Antes. Mesmo assim. os costumes.mudado. as tradições de um povo. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais.

No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. importante para entender as relações internacionais. para delinear suas características. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. uma dimensão dinâmica e viva. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. Discutir sobre a cultura comum pode. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. de mudar seu desenvolvimento. pois. então. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. da mesma forma. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. Mas. de uma hierarquia entre eles. ao menos provisoriamente. desigual. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. sempre valorativas. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. para definir os aspectos que a fazem única. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu.Pode-se. por exemplo. portanto. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. sujeitas a transformação. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. No entanto. importante nos processos internos dessa sociedade. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. Seja 53 . e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. Vejam. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. apesar de sua presença maciça na população durante séculos. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. assim. ser uma maneira de tentar alterá-la.

a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. resultado de um século de existência no país. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. Ao pensarmos sobre cultura. nas universidades e centros de pesquisa. Voltemos a eles. das instituições existentes e de sua dinâmica. de caridade. instituições se relacionam. Assim. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. matéria de produção. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. Nesse período. o conhecimento em geral. técnicas. Assim. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. por exemplo. diferentemente de outros países. suas concepções. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. as maneiras como seus setores. e que derivam da história de cada sociedade particular. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. de ensino. Assim. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. de decisões tomadas no passado. produtos. formas. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. como vimos ao longo desta parte. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. 54 . Há aspectos importantes. É enganoso. por exemplo. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. pois. desenvolveram uma rede de instituições religiosas.como for.

A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. Há outras maneiras de estudar a cultura. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. as mensagens políticas que contêm. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. Podemos. Mas é ingênuo pensar que. é claro. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. aos menores abandonados. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. por exemplo. econômica e cultural seja eliminada. Além disso. e que a opressão política. de grupos. ela deve ser por isso jogada fora. tem sua dinâmica. como dimensão do processo social. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. como. A discussão de cultura sempre remete ao processo.editoriais e outras. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. E também porque. outras ênfases a dar. categorias de pessoas. mas também com os sistemas públicos de educação. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. outros recortes a fazer. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. por exemplo. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. de atendimento à doença. Por tudo isso. por exemplo. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. à experiência histórica. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . as concepções nela presentes. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. O que interessa é que a sociedade se democratize.

não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. com empresas diretamente voltadas para ela. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. de características acabadas. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. como no caso da oposição entre erudito e popular. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. Há instituições públicas encarregadas disso. Expressam seus conflitos e interesses. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. Também os aspectos da história comum 56 . controlá-la. Cultura e equívoco Com tudo isso. como. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. da mesma forma. Como vocês podem ver. procuram defini-la. entendê-la. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. por exemplo. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. Da mesma forma. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações.social. o analfabetismo. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. agir sobre seu desenvolvimento. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. Por outro lado. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. a cultura é uma esfera de atuação econômica. fazem parte da própria organização social. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. Assim. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo.

cultura é o legado comum de toda a humanidade. Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. assim. É uma relação pequena. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. É bom que seja dessa forma. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. apropriação. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. a compreensão de que suas características não são absolutas. 57 . É importante insistir. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura.de um povo podem ser selecionados e valorizados. Retomamos. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. os temas com que iniciamos este trabalho. pois podemos concluí-lo. no entanto. Assim. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. não respondem a exigências naturais. E como conseqüência disso. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. de Antônio Augusto Arantes Neto. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. desigualdades no plano cultural. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. Quanto à cultura nacional. São lutas pela transformação da cultura. Há aí controle.

de Roberto da Matta. Malandros e Heróis. O Negro no Mundo dos Brancos. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. arte e educação. e outra. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. 58 . de Darcy Ribeiro. reunindo escritos de épocas diferentes. Editora Tempo Brasileiro. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. de leitura mais acessível. O Caráter Nacional Brasileiro. de Florestan Fernandes. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. Zahar Editores. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. Carnavais. Editora Vozes. de CIaude Lévi-Strauss. de Peter Fry. Dirigido a um público amplo. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. A Cultura do Povo. Zahar Editores. São textos no geral claros e de fácil leitura. Difusão Européia do Livro. Os textos têm graus variados de complexidade. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. de Dante Moreira Leite. cultura de classes e suas relações. Cortez e Moraes Editores. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. preocupados com identidade e política. Dirigido ao público universitário. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". Para Inglês Ver. de Marilena Chauí. Editora Pioneira. política americana. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. política internacional. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. Interpretação abrangente da formação do país.O que é ideologia. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. seu povo e cultura. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. Os textos têm linguagem acessível. Os Brasileiros: 1. Editora Ática. Teoria do Brasil. Mariátegui.

ainda. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. Deste modo. o etnólogo o experimentava de modo diverso. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . portanto. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. rituais exóticos e “costumes irracionais”. no caso do antropólogo. o urso o persegue”. a Antropologia Social não poderia. portanto. O controle da experiência. como o laboratório do antropólogo social. Assim. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. ele costuma fugir e. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. na sua observação participante. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. Tal mudança de atitude. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. isso não poderia ocorrer. que se ajustar. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. tudo isso em condições específicas. conforme disse Malinowski. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. Em outras palavras.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. tais como: “Entre os brobdignacianos. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. tendo. começou a abandonar a postura evolucionista. transformou nossa ciência. para Malinowski. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. no limiar do século XX. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. “Na antiga Caledônia. ou. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. às vezes. Freqüentemente. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. não somente a novos valores e ideologias. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados.

bebe tudo de um só gole. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. Trata-se. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. o que. em qualquer ponto do planeta. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. É. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. onde a idéia de classificar e. basicamente.garrafa de uísque pela estrada. ridículos”. reflexões. Ou seja. entretanto. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. seja do ponto de vista pessoal. com sorte. um conjunto coerente de vozes. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. permite localizar. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. 1976: 374). logo a seguir: “Há. como vimos. Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. como disse Malinowski. de 60 . traduz a essência da perspectiva antropológica. gestos. Evans-Pritchard. Essa sábia reflexão de Malinowski. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. Deste modo. como um autêntico ponto de vista. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. teorizar. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. articulações e valores. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. isto é. sobretudo em outra sociedade. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. teórico ou filosófico. Como diz o mesmo Malinowski. 1978: 22). um conjunto coerente em si mesmo. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. discernir e. com qualquer tipo de tecnologia. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. porém. sobretudo. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. gente do porte de Franz Boas.

postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. Assim. segmento. sejam elas as dos cronistas. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. até as mais “complicadas”. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. que eles podem falar de “suas tribos”. “comunidades”. Assim. E isso pode provocar novas revelações teóricas. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. dos viajantes. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. como também o ponto de vista daquele grupo. inclusive da nossa própria cultura. Ou melhor. seitas. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. De fato. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. “classes sociais”. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. a meu ver.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. o seu próprio “repensar a antropologia”. na geração seguinte. a escola de Durkheim situa a 61 . Durkheim. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. neste contexto. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. sacerdotes e sacrifícios. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. “mitos”. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). “favelas”. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. quando há uma intervenção das igrejas. Isso porque. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. definindo (ou melhor. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. classe social ou sociedade. seja porque as novas descobertas. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. Seja porque a definição anterior era por demais estreita. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. portanto. “ideologias” etc.

seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. de “estrutura”. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. deixou de submeter à sua pressão modificadora. É. para utilizar a noção de “sistema”. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. de “sincronia”. moral ou filosófica preestabelecida. muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. pela qual o fenômeno humano é estudado. muito importante constatar como a Antropologia Social. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. culturas e civilizações. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. assim. Assim. pois. pois. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. como queria Morgan e seus contemporâneos. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. De fato. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. 62 .problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. não obstante. por algum capricho. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. portanto. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). um idioma. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. de “funcionalidade”. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. Em parte. e não parcelas de relações que o tempo. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. A história. saudável e tradicional base pluralista. Será. Mas.

para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. enfim. estudando-o por todos os meios disponíveis. problemas e paradoxos. 63 . posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . para um diálogo fecundo. qual a racionalidade dos grupos tribais. convém sempre acentuar.desconhece. se há material político. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. da História. com a grande tradição democrática. isso também entra na reflexão. que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. da Sociologia. qualquer que seja a sua aparência. se existem fatos econômicos. da Geografia Humana. Em tudo. as experiências humanas. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. descobrir. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. ele não fica de fora. Ou seja.sobretudo pela prática de viagens. Se existem fatos históricos. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. enquanto antropólogo. como pensam os “primitivos”. portanto. da Psicologia. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. mas muito próxima da Lingüística. É. na postura às vezes difícil de ser entendida. Mas tudo isso. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. então. Diferentemente. da Ciência Política e da Economia. eles são usados.

que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. como o antropólogo. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. e algo frio. 64 . análoga a organizações vegetais. a cipós vivos”. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. Recolhe e analisa os testemunhos. proclame que. o indígena”. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. escreve Roger Bastide. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. Para compreender o candomblé. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. Quanto a isso. mais ainda.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. Nunca encontra testemunhas vivas. de quem se considera um “aluno”. se procura. e “desencarnado”. pelo menos em suas principais tendências clássicas. “contra o teórico. Quanto à prática da Sociologia. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. Essa apreensão da sociedade. Pois a etnografia. e contra o observador. Assim. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. é significativo que Lévi-Strauss. Não se pode. na qual. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. de fato. Se. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. isto é. uma grande quantidade de informações. de seus ideais. por exemplo. de suas angústias. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. o autor da Antropologia Estrutural. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. o observador deve ficar com a última palavra. O historiador. através de um método estritamente indutivo. de fato. a sociedade tem preocupações religiosas.

As tentativas abordadas. porém. Objetar-se-á que pode. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”. os sistemas de crenças. A busca etnográfica. o direito.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. psicológico. No campo. as ciências psicológicas. as ciências jurídicas. isto é.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. social. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica. anotado. O antropólogo não pode. de condições necessárias.. não apenas por temperamento. isto é. bem como a utilização de protocolos rígidos. artificialmente isolados em relação à 65 . político. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. porém. Não nos enganemos. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. cultural. de estar atenta para que nada lhe seja escapado. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência. se tornar um especialista. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. demográfica. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal. um perito de uma área particular (econômica. de que este se esforça. ser o caso do antropólogo. os erros cometidos no campo. De outro.. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. um outro: o sistema de produção e troca de bens. os processos cognitivos e afetivos. o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. pelo contrário. de fato. etc. o evento que ocorre quando não esperávamos. é claro.. c) O antropólogo evita. Trata-se. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. porém. constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. Como escreve Mauss (1960). isto é. As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. as ciências religiosas. jurídica. uma programação estrita de sua pesquisa. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. as ciências econômicas.). tem algo de errante. quanto às virtudes do campo. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas).. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. Com a diferença. tudo deve ser observado. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. vivido. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. De um lado. é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento.

modificar ou transformar os fenômenos que estuda. mas a observação direta de suas produções concretas). consumidor. O projeto antropológico retoma hoje. 2) tentar. capazes de responder a essa definição: islamismo. o alcoolismo. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. mas pouco reflexiva. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano. no mundo contemporâneo. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. de fato. antagonistas da reflexão. O parcelamento disciplinar comporta. A própria Antropologia. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. A meu ver. ser o especialista em uma única área. no horizonte científico contemporâneo. É a razão pela qual somos provavelmente. toda prática hiperespecializada. A prática da Antropologia. paradoxalmente.. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social.. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. apenas três formas de pensamento são. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. a ciência e a filosofia. e uma cientificidade extremamente positiva. Pessoalmente. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. a criminalidade. do esporte. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. supõe também. 66 . um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). das condutas suicidas. o projeto que foi o da filosofia clássica. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se.totalidade do social. de fazer surgir um questionamento mútuo.. é claro. o divórcio. de fato. a partir de um fenômeno concreto singular. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. de maneira pragmática. mais tocados do que outros. cidadão. e. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. em primeiro lugar. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano. o que nos levaria à posição de. por mais aperfeiçoados que sejam. para além de todos mos questionários. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. Assim. o marxismo e a Antropologia. por exemplo. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente.. como mostrou Husserl. Se olharmos mais de perto... a ciência e a religião. enquanto antropólogos. mas que corre o risco de cair no vazio. parente. Como escreve Lévi-Strauss. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta.

para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. vale dizer. Por via das dúvidas. chegara a passar fome. lidos depois do jantar. De repente. talvez ainda sem tê-lo visto. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. Porque antes de cumprimentá-lo. vendo o preto aproximar-se. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. um bom sujeito. e sem credores à porta. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. a) Identifique o estado anterior e o posterior. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. haveria de compreender. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. São Paulo: Brasiliense. velho companheiro. Era seu amigo. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. ao americano. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. 1996. todo branco e sardento. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. E não era mesmo com ele. mas. Sendo assim. já distraído dos seus passados tropeços. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. com o gringo ali a seu lado. Aprender Antropologia. jornalistas. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. 67 . correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. Era o sambista seu amigo. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera.LAPLANTINE. que não era com ele. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa.

que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. já esquecido dos dias de desempregado. do texto. o personagem central sente-se ameaçado. Parágrafo). a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação. uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro. 68 .b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva.

b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. Se soubesse desse desfecho. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. Com base no sentido global dessa narrativa. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 . existe sempre um posicionamento crítico do narrador. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes. por detrás dos fatos narrados.

Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.. mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes. E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso. Do povo oprimido nas filas Nas vilas..De tuas meninas... Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João. favelas Da força da grana que ergue 70 .....

. 71 .E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva... Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa..

estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. semelhantemente. é selvagem. enfim. da sua visão a única possível ou. mais discretamente se for o caso. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. um mal-entendido sociológico.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. o grupo do “diferente” que. hostilidade. No plano intelectual. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. às vezes. um daqueles de mais unanimidade. pois. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. veste igual. gosta dela. Talvez o etnocentrismo seja. nossos modelos. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. O grupo do 72 . na constatação das diferenças. nossas definições do que é a existência. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. de repente. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. talvez. acredita nos mesmos deuses. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. De um lado. as formas. E. mais grave ainda. a vida deles não presta. O monólogo etnocêntrico pode. medo. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. bárbara. que come igual. a melhor. distribui o poder da mesma forma. também exista. Assim. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. etc. pois. empresta à vida significados em comum e procede. casa igual. pensamentos. então. este “outro” também sobrevive à sua maneira. a superior. Aí. os caminhos e razões. no plano afetivo. mora no mesmo estilo. conhecemos um grupo do “eu”. dentre os fatos humanos. então. conhece problemas do mesmo tipo. ainda que diferente. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. a certa. a natural. também está no mundo e. como sentimentos de estranheza. Grosso modo. No etnocentrismo. o “nosso” grupo. gosta de coisas parecidas. por muitas maneiras. nos deparamos com um “outro”.

absurdo. O selvagem é o que vem da floresta. pentes. comprou para os selvagens contas. na nossa. etc. não sem dificuldade. estes somos nós. neste conjunto de idéias. a sociedade do “eu” é a melhor. Ao chegar. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. ao estrangeiro. A surpresa maior estava. “excelentes” ou. nessa lógica. por vezes. A sociedade do “outro” é atrasada. vencido por insistentes pedidos. São os selvagens. O barbarismo evoca a confusão. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. por um lado. Dias depois. o índio fez o pastor divisar. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. como já disse. fazer contas. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. anormal ou ininteligível. modesto. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. o progresso. Existe realmente. apesar de que. De qualquer forma. ao jovem índio. O etnocentrismo não é propriedade. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. ainda por cima. do barulhento. no etnocentrismo. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. os bárbaros. infalível. O que importa realmente. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. seu trabalho. porém. 73 . de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. São qualquer coisa menos humanos. a vida animal. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. A atitude etnocêntrica tem. a superior. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. Um dia. Forase o relógio. como sendo engraçado. agora mínimo e sem nenhuma função. após alguns meses. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. meio sem jeito e a contragosto. é o fato de que. por vir. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. “ser humano” e ao “outro”. especialmente. de uma única sociedade. Muito generoso. É o espaço da natureza.“outro” fica. muito simplesmente. muito feliz. marcar segundos. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. de alguma maneira. o pastor perdeu seu relógio dando-o. espelhos. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. por fim. o relógio.. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. No limite. a desordem. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. alarmes. chamam. nunca o “igual” ao “eu”. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. venceu as burocracias inevitáveis e. pendurado a vários metros de altura. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. da selva que lembra. o trabalho. É onde existe o saber. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. a desarticulação. Tempos depois. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. pois.

muito comum e de uso geral no etnocídio. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. pode colocá-lo como “primitivo”. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. naquela manhã. Em terceiro lugar. trazia-lhe estranhas lembranças. seja nos livros didáticos. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. de um etnocentrismo “cordial”. porém. tanto aqui como em vários outros lugares. seja em casa. aliás. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. seja na indústria cultural. Também. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. tristemente exemplar. Tanto no presente como no passado. de uma criança de um grande centro urbano que. Esta estória. Nelas. diretor do Museu Paulista. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. esta estória representa o que se poderia chamar. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. Privilegiaram ambos as funções estéticas. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. como “algo a ser destruído”. Em segundo lugar. obviamente. Levantou-se. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. a mesma coisa. da qual falamos na nossa sociedade. inteligente e 74 . grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. por exemplo. Hermann von Ihering. bordunas. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. Isso lembra o comentário. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. Como já vimos. neste choque de culturas. Era hora de ir. a lógica do extermínio regulou. quinze para as dez. não necessariamente verdadeira. ornamentais. cocares. são apenas uma representação. Para o pastor. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. Assim. na matança dos índios). se isso fosse possível. flechas. tacapes. deu uma olhada no relógio novo. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. e até uma flauta formavam uma bela decoração. infinitas vezes. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. os personagens de cada uma delas fizeram. um famoso cientista do início do século vinte. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. decorativas de objetos que. de toda evidência. porque somos os autores destes filmes e livros. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. Em primeiro lugar. arcos. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. No mais das vezes. bastante plausível. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. na cultura do “outro”. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”.

Na nossa chamada “civilização ocidental”. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. por exemplo. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. via de regra. na nossa sociedade. esta recusa é. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. Os livros didáticos. A figura do louco. Ora. em face do seu conteúdo. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. Aliás. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. Isto não só ao longo da história. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. mas também em diferentes contextos no presente. no mínimo. carregam um valor de autoridade. um ovo ou uma pessoa. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. ela deve mostrar e esconder. A estória do nosso 75 . “sério” e “científico”. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. determinados estereótipos. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. num corpo. Os estudantes são testados. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. sinal de saúde mental. de um ponto de vista do grupo do “eu”. pois são lidos e. numa lavoura que não é a sua. mais ainda. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. na verdade. Este “escândalo” esconde. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. Nesse sentido. que se recuse a trabalhar como escravo. em outros. há alguns anos. Assim. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. Claro. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. posso pensar dele o que quiser. como o marciano não diz nada. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. Eu mesmo realizei. que são permanentemente aplicados a estes índios. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. muito pelo contrário.

as “dondocas”. são uma espécie de “conhecimento”. Uma das mais importantes é a da relativização. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. “almas virgens”. capaz de ter um fim ou uma transformação. manipulado de acordo com desejos ideológicos. cheio de “amor à liberdade”. os “velhos”. vira “corajoso”. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. os “doidões”.. violências. mera imagem sem voz. publicidade. os “negros”. como o “outro” é alguém calado. “primitivo”. os “surfistas”. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. estamos relativizando. Em outras palavras. Ali. O terceiro papel é muito engraçado. Assim. revistas. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. estamos relativizando. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. persistências do que chamamos etnocentrismo. certo tipo de cinema. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. baseado em formulações ideológicas. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. “altivo”. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. Da mesma maneira. Mas. ele aparece como “selvagem”. muitas vezes. por oposição. Assim são as sutilezas. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. “infantil”. “antropófago”. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. Nele o papel do índio é o de “criança”. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. etc. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. num passe de mágica etnocêntrica. a quem não é permitido dizer de si mesmo. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. o índio é.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. Relativizar é não 76 . Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. estamos relativizando. os “colunáveis”. etc. “inocente”. A “indústria cultural” – TV. os “empregados”. “pré-histórico”. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. para o livro didático. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. É no capítulo “Etnia brasileira”. os “paraíbas de obras”. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. os “caretas”. um “saber”. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses. mas no contexto em que acontece. Enfim. jornais. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. os “vagabundos”. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento.

Trata-se dos séculos XV. Antes. Mesmo com as novas 77 . O percurso que. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. a diferença não se equaciona com a ameaça. Ela. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. em superiores e inferiores ou em bem e mal. A nossa sociedade já vem. compenetrado e falante. no mínimo. espantos. Buracos sem fundo. mas com a alternativa. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. aqui e pelo mundo afora. serpentes. Esta ciência chama-se Antropologia Social. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. Diferentemente do saber de “senso comum”. construindo um conhecimento ou. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. colonizações. na Antropologia.transformar a diferença em hierarquia. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. com maior ou menor grau de dificuldade. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. num certo nível. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. ser observado a partir de vários ângulos. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. porém. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. no plano da sociedade mais geral. expedições. É um momento básico de encontro com o “outro”. Assim. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. no conhecimento antropológico. se quisermos. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. De fato. gostaria. Acredito até que. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. Ela não é uma hostilidade do “outro”. O mestre. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. há alguns séculos. Assim. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. XVI e XVII com suas navegações. agora. nasceu marcada pelo etnocentrismo. A diferença das escolhas humanas se fixa. sacações e aberturas. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. alucinações. monstros.

tecnologias. discute-se e especula-se. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. freqüentemente. que era preciso. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. que lei. sempre mais matizados. Muita violência. procurando compreender as diferenças que. interesses. é conhecido como Evolucionismo. pouco a pouco. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. O mundo do “eu” se via obrigado. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos.. o risco era imenso. As novas técnicas empolgavam os alunos. num certo sentido. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. Ninguém entendia nada. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. E é esta perplexidade que vai. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. e que procuram explicar a diferença. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. Destes encontros. nos centros avançados de estudo. mesmo sem viver. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. Que costumes. um conjunto radical de novas questões. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . T. ao menos dentro da Antropologia. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. à outra a própria natureza humana. a cada vez. (que aí já não era mais preciso!). O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. pouco a pouco. para o pensamento ocidental. paradoxos. nascia ali. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença.”. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. um esforço de compreensão da diferença. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. ele foi sendo superado. se não por todos. a pensar a diferença. vão assumindo novas formas. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. Assim. frente ao “outro”.

já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. Tudo isso forma um campo intelectual. é claro. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. equivale a desenvolvimento. por exemplo. Assim. Evolução. por sua vez. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. Explicando melhor. Para o evolucionismo antropológico. a Inglaterra do século XIX era. em outras palavras. em plena metade do século XIX. mais e mais absoluta em suas conquistas. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. A lógica do raciocínio é simples. mostrando. nos séculos XVIII e XIX. começou a produzir seus estudos. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . avanço no tempo. a noção de progresso torna-se fundamental. vai ser a permanência do etnocentrismo. Mas. o que é. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. quase que como uma âncora. evolução. no nível biológico do desenvolvimento. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. biológica de evolução. na história dos saberes sobre o ser humano. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. Assim. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. um espaço correto para um tipo de pensamento que. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência.teoria antropológica e. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. no seu sentido mais amplo. na direção do progresso. então. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. Progresso. a esta noção orgânica. sua potencialidade. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. evolução? Evolução. nos Estados Unidos. encontra. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. contemporânea dos aborígenes australianos. uma segunda forma. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. nos séculos XV e XVI. de fato. pelo processo evolutivo. O homem a caminho. Mas. então. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. exatamente. tem um lugar de destaque. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. E foi toda uma geração de antropólogos que. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. de Darwin. Lewis Morgan -. O resultado disso. sua formulação clássica.

Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. Que. que em plena época da rainha Vitória. uma lei. restava ainda um problema teórico. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. Faz-se. por exemplo. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. a era vitoriana. para eles. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. separados. a melhor por definição. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. tendo aceitação. no seu sentido etnográfico estrito. Para os evolucionistas. Aqui. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. logo na primeira página. que formam um “todo complexo”. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. Este conceito é. o mais famoso da Antropologia e. então. Ainda mais. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. crença. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. Sabemos que são relativos. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. etc. diz o seguinte: “Cultura ou civilização. no mínimo um clássico. postulavam uma permanência. o século XIX. arte. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. é este todo complexo que inclui conhecimento. talvez. moral. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. Sim. Mas. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. Também transparece uma espécie de princípio geral. leis. unitários. dentro da cultura. estas idéias eram nítidas e claras. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. Se pensarmos nesta definição. porque se compararmos Brasil. podese dizer que é. no entanto. mais cedo ou mais tarde. em toda parte os mesmos. O que e Arte? Lei? Moral?. em certas sociedades. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso.

Diz uma anedota que Sir James Frazer. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. Dessa forma. Dessa maneira. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. como eu faria isto ou aquilo?”. ele nunca achou o cavalo. Ou. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. encontramos ainda. por trás do ser “civilizado”. pelo menos. importante antropólogo da época. o espanto. para onde teria ido?” Claro.. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. No extremo inferior. evidentemente. chegando ao pólo “civilizado”. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. os povos ditos “civilizados”. De fato. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. a hipótese que coloco aqui é simples. Para Morgan. a visão caótica do “outro”. temos dois marcos básicos. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução. “religião”. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. etc. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. descobertas e instituições. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. a falta ou excesso de 81 . barbárie e civilização. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. Este espírito teria. qualquer “trabalho de campo”. a visão etnocêntrica. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. fortemente entrincheirada. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”... Estudando invenções. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. A relativização não tinha espaço. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. Mas. os povos primitivos e no extremo superior. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. o medo oculto. por via do progresso. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. “propriedade”.. “arquitetura”. paradoxalmente. aqui no evolucionismo. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. “família”. pois que tudo já estava pronto. “meios de subsistência”. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que.. pouco a pouco. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem.

Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. É certo que a escolha. Se o “eu” negava. Durkheim. 82 . interessantes. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. Menos evoluído. num resumo. mais sabemos o quanto falta saber. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. seu campo de estudos. vê-lo como atrasado e primitivo. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. complexos do que isto. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. Todos eles tinham personalidades peculiares. a sua maneira. relativizando: é claro que a época do novo mundo. E vai ser. que foram os séculos XV. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. A magia.] Assim. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. Todos os três. apresentam diferenças e. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. já traz em si alguma semente de relativização. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. multiplicando muito. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. Sabemos que ambos não são bons. mas nem “deus” nem “diabo”. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. Entretanto. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. Tanto aqui. enredo. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. o que nos interessa mais de perto. para a maturidade e complexidade da disciplina e. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. já apresenta alguma diferença. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. exatamente. e muito. mas muito mais mesmo. VOANDO ALTO Diferentes atores. mas pode-se ver qual se distancia mais. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. controvertidas. juntamente com Boas. neste processo. É o que veremos a seguir. um “outro” tão humano quanto o “eu”. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. entre si. por assim dizer. contribuiu. Malinowski. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. me parece que nesse sentido o evolucionismo. num primeiro momento. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. Neste processo. para o crescimento. Agora. Cada um. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. cenários. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”.significações do “outro”.

no entanto. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. por eles. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. estabelece seu conhecimento do vigésimo. Se. via de regra. específica. Por outro lado. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. de Adão e Eva ao Juízo Final. por seu turno.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. das posições das peças no vigésimo movimento. era uma única para toda a humanidade. Para estes dois movimentos. É uma história com “h” minúsculo. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. os processos próprios de mudança. faríamos uma análise diacrônica. Como se.história. etc.. demonstravam a permanência de um tema. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. que a hipótese evolucionista criava. que era o do “progresso”. de cada cultura particular. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. todos caminhassem num mesmo sentido. cada uma a sua maneira. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. diferentemente. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. se interessa pelas posições. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. dos valores atuais dos peões. duas seriam as ações possíveis dessa partida. forças e significados internos a este movimento. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. dessa maneira. Mais 83 . troca e empréstimo que as caracterizavam. Em termos mais técnicos. nos dois movimentos. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. uma idêntica concepção da natureza da história. Não se pode dizer. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. O longo caminho da história. o da “evolução”. A sincronia. aí. bispos. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. A história. Passando para a análise das culturas humanas. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. desde o primeiro até o vigésimo. estaríamos analisando sincronicamente. no entanto. a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. torres.

e uma preocupação com ele. o estudioso. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. como no evolucionismo. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. como já disse. seja ele difusionista ou evolucionista. por mais míope que seja. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. definitivamente. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. Ao fazer esta opção. Para ele. dá outras dimensões à Antropologia. da “diferença”. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica.simplesmente. feito de acontecimentos sucessivos. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. Assim. o que a levava. A realidade concreta a ser estudada. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . Com isso. É o caso de noções como “processo”. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. ao menos. ao certo. veremos que a preocupação com a história é. a sociedade do “eu”. histórico. se pensarmos bem. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. Com isso. para fora do etnocentrismo. inexoravelmente. mais relativa. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. neste sentido. de ter na hierarquia sua regra número um. O verdadeiro ponto de ruptura. se obriga. Em primeiro lugar. radcliffe-Brown. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. observada. a discussão realmente importante. descrita. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. E. agora. Para ele. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. nem entre estes e o evolucionismo. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. é importante que se saiba o que. Nesta linha. com seu corte teórico. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. “estrutura” e “função”. A Antropologia. A nossa sociedade. a história conjetural. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. mais complexa. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. O funcionalismo. se constituía no objeto antropológico por excelência. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. não concordou Radcliffe-Brown. antes de tudo. que nem sempre poderá ser lá encontrada. para o historicista. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. Sim. especulativa.

no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. sutis. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. E. Se estas funções forem suprimidas. me parece. como um organismo complexo que é. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. por exemplo. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. das ações. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. atacada numa função básica. Na sociedade. outras “funções” cruciais. na produção teórica. além de mais amplas. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. Este organismo. conseqüentemente teve de procurar. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. tão a seu gosto. mas. Este. ao colocar novas questões em jogo. Comparava o sistema social ao corpo humano. Dentro desse “processo social”. Nela. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. procuro apenas demonstrar que. histórico. Assim. tecidos. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. possui uma estrutura composta de ossos. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”.permanente. repetitivas. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. por sua vez. Transportava termos da Ciências Naturais e. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. Uma de tais analogias. a sociedade se transformará numa outra diferente. pagou o preço de uma forte relativização. também desaparece. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. termina o processo vital e a estrutura orgânica. Espero que ele me perdoe. muito mais complexas. recorrente. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. 85 . Mas. a da “estrutura social”. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. Isto significou que. Se parar de executá-lo. enquanto estrutura viva. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. podemos perceber a existência de formas regulares. o coração. onde outras instituições terão. é um processo: o “processo social”. Por outro lado. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. por analogia. os aplicava ao estudo da sociedade humana. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. aqui. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. É nesse quadro. o processo vital. por seu turno. etc. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. novos instrumentos para pensá-las. A sociedade não morreria. A vida caracteriza um constante processo. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. por exemplo – aponte uma outra dimensão. fluidos.

bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. o superior pelo inferior. em diferentes momentos e de várias formas. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. na questão do etnocentrismo e de sua superação. no sentido de sua concretude que independe da natureza. que é geral na extensão de uma sociedade dada. fixa ou não. ou então ainda. vou utilizar o próprio Durkheim que.produzido na sociedade do “eu”. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. Um outro nó. independente do indivíduo. Com isto. principalmente. assim. Neste sentido. Os fatos sociais são externos. O antropólogo. Explicando melhor. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. então. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. São “coisas” porque autônomos. para a Antropologia e para o processo de relativização. experimentando-se a si próprio como diferente. principalmente. autônomos. na sincronia. São “coisas”. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. por estar. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. Antes. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. tem de viajar. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. E. o complexo pelo simples. que independe do indivíduo. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. intitulado “Que é Fato Social”. livre para estudar a sincronia. e não menos importante para a autonomia antropológica. com instrumentos teóricos que eram criados. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. um tema aparece e se repete. independente das manifestações individuais que possa ter”. apresentando uma existência própria. Qualquer estudante da vasta. por períodos significativos de tempo. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. Contando. vai ser desatado por Émile Durkheim. um outro lado do laço. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. 86 . Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. A Antropologia. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. mas também se afirma como entidade autônoma. Tem de ir morar. Conhecer a diferença. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. obrigado aos estudos sincrônicos. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. mas seus projetos tinham rumos diversos. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. experimentar a existência junto ao “outro”.

que o fato social coage. Em segundo lugar. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. Com isto ele queria demonstrar. O fato social é. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização.Acompanhando esta definição. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. também. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. vemos que o fato social é (1) coercitivo. exigiram. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . Aqui. Em terceiro lugar. um longo esforço de relativização. outro. no repto lançado pela experimentação do relativismo. no intrincado bolo do saber. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. A nós. Estas conquistas que podem parecer. neste contato com a “diferença”. uma nave lendária da mitologia. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. viajar o “outro”. uma “coisa” que ultrapassa cada um. o “outro” com todos os seus desafios. A “diferença” cara a cara. Possui força autônoma. em primeiro lugar. (2) extenso e (3) externo. Em outras palavras. o fato social pressiona o indivíduo. O social tem seu próprio caminho. Malinowski foi nosso grande viajante. É. 87 . independente e própria. Ninguém. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. à primeira vista. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. Para a Antropologia. o fato social. E. agora. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. Para Malinowski. parece tudo muito simples e óbvio. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. a ser traçado.diante de explicações. Um argonauta era um tripulante de Argo. É. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. Na verdade. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. De repente. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. novamente. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. pode dele se ausentar. no entanto. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. por todos e para todos. para além das manifestações individuais. evidentes em si mesmas. profundo.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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Muito pelo contrário. quando havia uma determinada visão de cultura. são reciprocamente definíveis. Assim. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. Ora. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. uma outra . é perceber o “outro” na sua autonomia. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . sobrevivência ou miséria. então. mais que isto. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. dados obtidos pelo trabalho de campo. que podem transformar a teoria antropológica. Assim. vice-versa. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. mas porque não querem. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. ou melhor. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. se tornava mais “verdadeira”. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. porque fizeram uma opção diferente. pelo trabalho de campo. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. em vários momentos da teoria antropológica. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. seria necessariamente pobre e miserável.tempo é dedicado a atividades econômicas. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. Parece que. a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. Isto se torna possível. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. ou seja. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. foi. em larga medida.a deles -. Três ou quatro horas por dia. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. uma máquina produtiva que. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. E. Quando esse conceito. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. encaixada com os conceitos de cultura. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. que não pratica essa acumulação. essa forma de ver a passagem do tempo. a definição de história era legitimada. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. a complicação se tornou ainda maior. Ainda mais.

A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. No plano teórico. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. também. Neste questionamento. simplesmente. 92 . A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. através dela. tudo se relativiza. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. numa idéia de história. o conceito de tempo linear. sua contraparte. o coração por assim dizer. Colocava-se. de trajetórias distintas. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. histórico. É o próprio Lévi-Strauss quem. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. Em outras palavras. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. assim. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. Numa palavra: o “diferente”. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. Assim. Outra vez os dois conceitos se conjugam. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. pode passar a ser questionado. Ainda assim. porque evoluí. Com Durkheim. também particular. ou pelo ambiente. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. progredi. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. qualquer que seja. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. mas ainda bastante problemática. o “outro” é atrasado. grande e completa explicação. É um passado pelo qual já passei. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. ou pelo indivíduo. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. Nesta perspectiva. É. A cultura vai ser entendida como moldada. totalizador das “diferenças”. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. como capaz de explicá-la inteiramente. para conhecê-la. Passamos. pois. na verdade. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. É. ou pela linguagem. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra.concretamente existente numa única.

na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. estranho e ininteligível até. uma linearidade ininterrupta. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. a unidade. tipo causa e conseqüência. O tempo não é. Esse tempo se contrapõe. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. Para elas. Em termos mais simples. Talvez isso possa parecer extremamente complexo. de relativizar. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. mas de maneira errada. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. um jogo de espelhos. desdobrar-se. o fluxo. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. um fluxo. tentando explicar poeticamente. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. 93 . Um no céu. enfim. É. pensam o seu mundo. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. nosso tempo. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. mas. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. no caso. pensado e vivido como descontinuidade. sua existência. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. leitor. outro no chão. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. métodos e. Mas. Mais fácil. nos capítulos anteriores. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. para um Apinayé. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta.Você. seu tempo. diz ele. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. o tempo é sentido. tal como para nós. o que se quer saber é como os Apinayé. até mesmo. de uma redefinição de seu papel como ciência. Para um Apinayé. ele demonstra. Por incrível que possa parecer. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. E é mesmo. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. Ou seja. Dá para sentir. nossa existência. o quanto é difícil o processo de relativização. Antes. que são como dois momentos fixos. se sente fazendo história. Este é o último capítulo do livro. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. foram realizados pela Antropologia. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. sendo parte dela.

destinos próprios. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. destrói sociedades. enquanto ator social. A Antropologia. se quisermos. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. sentidos. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. seja ao seu “tempo”. enfatizando sua dimensão interpretativa. Aquela de ser uma ciência. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. Tal como um código. escolhas de uma “política” dos 94 . Este código é a cultura. nessa linha. a cultura “fala” da existência. pela qual “falamos” uns com os outros. Assim. tanto humilde quanto generosa. cada cultura atribui significados. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. utilizando símbolos de diferentes tipos. Melhor dizendo. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. Para se pensar o fenômeno cultura. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. A cultura. mas das interpretações relativas. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. Esta tarefa. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. teias. O mundo muda. do antropólogo americano Clifford Geertz. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. classificar e praticar sua experiência. metáfora explorada por Clifford Geertz. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. ao contrário. não existem mais. por assim dizer.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. um conhecimento ou. sua “sexualidade”. No entanto. à qual nos referimos no capítulo anterior. uma literatura que não é das verdades absolutas. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. cria outras. como que mapas. pelo trabalho de Malinowski. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. trocamos mensagens. seu “corpo”. sua “morte”. Cada um de nós. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. estudada por Malinowski. imposições.As culturas são “versões” da vida. etc. um saber. Pode também ser vista como uma teia. Nesse sentido. os trobriandeses estão aí vivos. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. enquanto uma experiência social alternativa à nossa.

Assim. O que faz. Se entre nós a escolha do cônjuge. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. Isto quer dizer que. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. e às vezes principalmente. como o cônjuge. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. – mas também. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. enfim. parentes afins. direitos e deveres. uma escolha psicológica. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. para entender estes sistemas de 95 . Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. quem serão meus amigos e aliados. Herança. As Estruturas Elementares do Parentesco. encontrados nas sociedades do “outro”. irmãos. Lévi-Strauss vai mostrar. Este é. por exemplo. decidida individualmente. Este caminho. que seria a própria cultura de determinada sociedade. definitivamente.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. propriedade. o sistema de comunicação mais amplo. ao menos. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. o caso do domínio das relações de parentesco. absurdos. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. guardar. etc. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. sistemas de parentesco. o lado da afinidade do parentesco é. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. portanto. num famoso livro. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. do etnocentrismo à relativização. pareciam. para dizer o mínimo. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. seria interpretar este fluxo do discurso social. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. Em termos mais precisos. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. o que pensamos e fazemos. então. é trilhado na medida em que. Mas. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. livrou-se.

sentimentos. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. seja no “parentesco” ou na “economia”. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. problematizada e generosa. Aqui voltamos direto ao nosso tema. muito pouco se relativiza. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. no jogo de seus movimentos. a chave para a sua compreensão. Nas relações internacionais. se relativizam. mostra ele. de “foro íntimo”. conceitos. 96 . interétnicas. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. é necessário ver que o coração. acredito. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. descendência e afinidade. se transformam. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. também. Tudo isso é muito pouco. O que é. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. A Antropologia reflete. Este. Tudo isso indica que a Antropologia. realmente. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. métodos e técnicas que. nos costumes políticos. para compreender o “outro”. a um só tempo. não é um dado psicológico. Enfim. o etnocentrismo é exorcizado. no encontro entre o “eu” e o “outro”. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. Aí. o centro deste sistema. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. Disso resulta. por vezes quase invisíveis. O que se passou na Antropologia. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. emerge uma compreensão do ser humano. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. seja na “individualidade” ou na “história”. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. na indústria cultural. morais. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. está numa unidade que inclua também a afinidade. enfim. frente a um sem-número de ideologias. esperança e generosidade. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social.parentesco. Devem estar. nos próprios termos de Lévi-Strauss. Aí também. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. conjuntos de idéias. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. movimentos que aconteceram na Antropologia. A afinidade nestes sistemas.

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