APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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a teoria anterior tem que ser abandonada. por alguma singularidade constitucional. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. sobre um assunto determinado. no entanto. em favor da segunda. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. Se essas características mudarem. mas sim de um processo de seleção passiva. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. a fome generalizada. Por conseguinte. deveria ocorrer um colapso. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. Mas. Se isto não ocorria. Darwin imaginou. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. essa mesma questão. ou melhor ainda. em favor das que. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. pois. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. isto é. em microorganismos. aquilo que se conhece. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. com várias gerações por dia. por força de alterações de clima. Seriam. ou menos “aptas”. se surgir outra teoria que explique melhor. muitos deles com características “humanóides”. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. Em 1838. Dizia Malthus. em dado momento. ou com maior abrangência. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. Os fatos da teoria evolucionista. A teoria científica representa. segundo acrescentaria Darwin. pois. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. veio 4 . que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. pois. intitulado abreviadamente Teoria das populações. que produzem várias gerações por ano.

As condições vigentes. no sentido norte-sul. O Homo sapiens sapiens. ou seja. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. há cerca de 300 milhões de anos. Na verdade. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. sabemos que a Terra. inúmeras espécies de símios arborícolas. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. desde a sua formação.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. por exemplo. mas também da superfície do cérebro. levando à formação do homem. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. Como conseqüência. por exemplo. sempre. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. em média. há 12 milhões de anos. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. K. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. da Índia. desde os últimos 50 milhões de anos. 1350 centímetros cúbicos. Estes são considerados hominídeos. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. possui. unto à costa oriental africana. embora o nível de inteligência. a maior parte de Europa. observa-se um aumento gradual não só do volume. e 650. dentro de uma mesma espécie. De fato. Essas significativas alterações de relevo. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. Com relação ao ser humano. ao longo do tempo. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. como. Por outro lado. Em conseqüência das transformações climáticas. disse o antropólogo sul-africano C. segundo alguns. como existiam no Mioceno. ao longo da série dos vertebrados. Brain: “Parece razoável admitir-se que. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. no Período Carbonífero. constituindo o Vale do Grande Rift. Nessa época. Entre esses fósseis. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. entre outros fatores. segundo outros. mas esse valor pode variar muito. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. do processo de separação dos continentes. ainda. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. vivendo sob as árvores”. por meio da seleção natural. pois. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. iniciado há 200 milhões de anos. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral.

porém dotados de capacidade cerebral bem maior. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. que vieram a constituir as savanas de hoje. uma fêmea. em média. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. outros tipos de hominídeos. hoje. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. como os leões e outros felinos. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. Há cerca de 1. ans mesmas regiões. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. proporcionava-lhe a liberação das mãos. descoberto há poucos anos na Etiópia. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. O primeiro espécime encontrado. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. 2 milhões de anos. São os do gênero Homo. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. surge um novo personagem nesse cenário. primeiramente descoberto na Ilha de Java. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. Há cerca de 2 milhões de anos. além disso.menor porte. mais que de frutos carnosos. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. começaram a aparecer. e essa espécie. nas grandes glaciações que 6 . 30% maiores e 45% mais pesados.6 milhões de anos. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. descoberto. pelo antropólogo africano Louis Leakey. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). da qual são conhecidos. pois. que atualmente se estendem por grande parte do território africano. Estas. o contato com o frio. sendo os primeiros. A partir de Lucy. Trata-se do Homo erectus. ao que tudo indica. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. o que. com grande capacidade para trituração. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. Particularmente. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. Nos últimos anos. como os símios arborícolas. Também nessa época. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. entretanto. em 1960. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores.

porém mais robusto e que não deixou descendentes. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. muito semelhante ao atual. como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. há cerca de 220 mil anos. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. aprendeu a viver em cavernas. Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. 7 . denominada Homo neandertalensis). deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. o Homo sapiens sapiens. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. Finalmente.ocorreram durante o último milhão de anos. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística. porém. estão longe de ser bem conhecidas. Migrando para regiões frias.

Ou ainda. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. se transportarmos para o Brasil. que os ciganos são nômades por instinto. uma das características específicas do Homo sapiens. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. geneticistas. Em outras palavras. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. Segundo Felix Keesing. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. que essas diferenças se explicam. biólogos e outros especialistas. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . Em 1950. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. que os judeus são avarentos e negociantes. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. pelo contrário. pela história cultural de cada grupo. de fato. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. b) No estado atual de nossos conhecimentos.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. 15. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. logo após o seu nascimento. que os alemães têm mais habilidade para mecânica. Eles nos informam. Ela constitui. e. finalmente. traiçoeiros e cruéis. antropólogos físicos e culturais. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. antes de tudo. que os japoneses são muito trabalhadores. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos.

A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. quer se trate de inteligência ou temperamento. E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. São explicações existentes desde a Antiguidade. e não a mulher. Ibn Khaldun. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. arma de uso exclusivo dos homens. em seu livro Civilization and Climate (1915). A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. Até muito pouco tempo. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. um esforço físico considerável. A partir de 1920. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. ganharam uma grande popularidade. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. de um processo que chamamos de endoculturação. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. Kroeber. E mais: que é possível e comum 9 . Bodin e outros. entre outros. na verdade. antropólogos como Boas. Estas teorias. como vimos anteriormente. Resumindo. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. mas em decorrência de uma educação diferenciada. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. do tipo das formuladas por Pollio. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). eram exclusivamente masculinos. Wissler.traços psicologicamente inatos. É ele que se recolhe à rede. entre outros exemplos.

Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. os Navajo são hoje mais pastoreadores. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. Era de se esperar. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. É possível. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. então. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. p. Quando desejam mudar os seus acampamentos. desvencilhar-se das pesadas roupas. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. (Cliford Geertz. como primeiro exemplo. do sudoeste americano. Mas. 22). os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. 1967. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. vivem em tendas de peles de rena. Vivem. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. Quando deseja. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. 33). colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. Waurá. transcrito de Felix Keesing. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. obtendo ovinos dos europeus. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. pois. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. portanto. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. pastoreio – no mesmo ambiente natural. no mesmo habitat. Um segundo exemplo. Em compensação. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. sementes de capins e de caça. que se alimentavam de castanhas selvagens. Ambos habitam a calota polar norte. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . Os lapões. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. ocupam essencialmente o mesmo habitat. em ambientes geográficos muito semelhantes. Tomemos. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. Trumai. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. os lapões são excelentes criadores de renas. por sua vez. p. cultivo. os lapões e os esquimós. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. Posteriormente. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. Os grupos Pueblo são aldeões. 1978. Kalapalo.

examinar por toda parte as várias 11 . A idéia de cultura. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. e não casualmente. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. como a anta. que habitam o Norte do Parque. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. transmitida por mecanismos biológicos. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. O conceito de Cultura. arte. conquistou os mares. pelo menos como utilizado atualmente. em 1690. com efeito. ou seja. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. dominou os ares. foi. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. sobre o meio ambiente. provido de insignificante força física. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. sem guelras ou membranas próprias. Os Kayabi. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. leis. As diferenças existentes entre os homens. Com esta definição. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. Sem asas. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. Mas. o veado. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. moral. definido pela primeira vez por Tylor. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores.existentes nos grandes mamíferos. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. etc. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. a caititu. portanto. portanto. crenças.

o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. Tanto é que. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. Em 1871. Meio século depois. Esta definição é equivalente às que foram formuladas. mais de um século depois. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. ou regra de virtude para ser considerada. que não seja em alguma parte ou outra. Em outras palavras. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. cap. Mas. parágrafo 10). Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). como diríamos hoje. II. na verdade.. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . em 1950. Jacques Turgot (1727-1781). em1973. Finalmente. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. em 1775. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. (O grifo é nosso). um processo iniciado por Lineu. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. “O Superorgânico”. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. então. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens.. Em 1917. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”. era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Completava-se. com referência a John Locke. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. gorila e orangotango) e os homens. hoje clássico.

é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. principalmente os superiores. inexistente para qualquer outro mamífero. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. no decorrer de sua evolução. Neste trabalho. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. foi capaz de assim proceder. entretanto. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. em 1950. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. Esta. elaborada no período iluminista. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. Esta vida arborícola. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. onde o faro perdeu muito de sua importância. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. Em suma. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. o cultural e o natural. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. Em outras palavras. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. Os fundadores de nossa ciência. construído a partir de uma visão da natureza humana. através dessa explicação. a nossa espécie tinha conseguido. Mas. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. A reconstrução deste momento conceitual. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. ou melhor. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. representou o afastamento crescente dos dois domínios. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. O segundo passo deste processo.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. combinada com a capacidade de utilização das mãos. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 . um mundo tridimensional. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. abriu para os primatas. com um odor tautológico.

E a chave deste mundo. a filha e a irmã).. é o símbolo. então. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. afirma ele. “todos os símbolos devem ter uma forma física. antropólogo norte-americano contemporâneo. O comportamento humano é o comportamento simbólico. Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. esta seria a proibição do incesto. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. possibilitada pela posição erecta.. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. Isto porque. por exemplo. Como. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. como afirmou o próprio White. Com efeito. provavelmente. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. a mãe. temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. A seguir considera que o bipedismo foi. o mais destacado antropólogo francês. Oakley destaca a importância da habilidade manual.. e o meio de participação nele. Leslie White. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. fornecendo uma nova percepção. Sem o símbolo não haveria cultura. Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. sacudido ao vento. Claude Lévi-Strauss. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. a primeira norma. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. Explicações de natureza física e social. e o homem seria apenas animal. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. para transportar objetos (alimentos ou filhotes).. Kenneth P. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. Para Lévi-Strauss. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . Toda cultura depende de símbolos. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. e uma bandeira desfraldada. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. Ou seja. não um ser humano.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). A cultura seria. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem.

ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. assim. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. Assim. num sentido especificamente biológico. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. antropólogo norte-americano. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. de cultura. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. porém incapaz de adquirir outros. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. improvável que possuísse uma linguagem. O Australopiteco parece ser. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. portanto. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). embora mais atrasado do que a fala humana -. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. o produto da cultura”. O ponto crítico. compreendida como uma das características da espécie. mas também. Clifford Geertz. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. Em essência. não apenas o produtor da cultura. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais.20m. entretanto. O primata.admitir que a cultura apareceu de repente. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. pois. mais do que um evento maravilhoso. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. como ironizou um antropólogo físico. num dado momento. consequentemente. caça esporádica. por isso mesmo. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. na moderna acepção da palavra. aprender. Devido à dimensão do seu cérebro parece. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. 15 . a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. A cultura desenvolveu-se.

refere-se às teorias idealistas de cultura. B. que subdivide em três diferentes abordagens. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. fragmentado por numerosas reformulações. Keesing refere-se. Carneiro. como Steward. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 . Assim. inicialmente. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. como todos os animais.” Em segundo lugar. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. Vayda e outros que. na dialética social dos marxistas. isto é. Harris. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. 3 “A tecnologia. esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins. etc. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. desenvolvido por Marvin Harris. divergências sobre como opera este processo. padrões de estabelecimento. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. para W. Existem. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. crenças e práticas religiosas. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. da manutenção do ecossistema. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. de agrupamento social e organização política. produto dos chamados “novos etnógrafos”.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. 1977). Goodenough. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Rappaport. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. da subsistência. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. entretanto. no início deste trabalho. Neste capítulo. Meggers. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. e assim por diante. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. Roger Keesing.

planos. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. regras. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. Assim procedendo. Para isto. como um evento observável. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. Voltando a Keesing.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. e este programa é o que chamamos cultura. a seu modo. por exemplo. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras. Estudar a cultura é. a análise componencial. portanto. entre as teorias idealistas. ou seja. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. um conjunto de princípios . E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. Para isto. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. ou seja. São públicos e não privados. será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. para Geertz.tais como a lógica de contrastes binários. Lévi-Strauss. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. arte. como. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. Assim. mas não dentro deles. Com isto. Esta amplitude de possibilidades. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. entretanto. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. A última das três abordagens. E. receitas. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. para Geertz. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. Assim.

e era. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. têm visões desencontradas das coisas. portanto. discriminamos o comportamento desviante. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. Assim. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. e provavelmente nunca terminará. portanto. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. a floresta é vista como um conjunto ordenado. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. Assim.captar o código cultural em uma gramática. constituído de formas vegetais bem definidas. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. tema perene da incansável reflexão humana. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. David Schneider tem uma abordagem distinta. Até recentemente. Neste ponto. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. A nossa herança cultural. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. Por isso. no final desta primeira parte. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. respeitado. Por exemplo. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. por exemplo. Esta atitude varia em outras culturas. desenvolvida através de inúmeras gerações.

Todos os homens riem. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. tais como o modo de agir. O riso se expressa. Enfim. que ela é inglesa. comer. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. pode ser bem diversa. vestir. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. A emissão sonora. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . a fim de acumular um dote para o casamento. no qual analisa as formas como os homens. assim. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. e não pelo observador de fora.relações sexuais em troca de moedas de ouro. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. o resultado da operação de uma determinada cultura. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. nessa mesma situação. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. A partir do que foi dito acima. Tomemos. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. caminhar. Segundo Mauss. de sociedades diferentes. primariamente. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. profundamente alta. o riso. Na verdade. ou seja. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. apesar de toda a sua fisiologia. sabem servir-se de seus corpos. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. por exemplo. as apreciações de ordem moral e valorativa. O modo de ver o mundo. as diferenças percebidas pelos estudantes. produtos de uma herança cultural. quando não está comendo. o fato de mais imediata observação empírica. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. por exemplo. são variações de um mesmo padrão cultural. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. Os alunos de nossa sala de aula. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis.

após a refeição. e somente iniciar a alimentação. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. Estas posturas femininas são copiadas. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Mãya. após a prece. com o chefe na cabeceira. reta. Dentro de uma mesma cultura. depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. entre nós. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. agarrada. no mínimo. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. Resumindo. Freqüentemente. entretanto. Ela deu à luz em pé.obstetrícia. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. Tal fato. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. Como utilizamos garfos. entre os ocidentais. o ato de comer é um verdadeiro rito social. 20 . pelos travestis. no início do século. a família deve toda se sentar à mesa. de maneiras diferentes das dos homens. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. seria considerado. etc. As mulheres sentam. caminham. através da alimentação. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. em outras uma atividade privada. assim. como sinal de agrado da mesma. provavelmente. em horas determinadas. mas também pela maneira como agem à mesa. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. Segundo ele. Para nós. a sua força de trabalho. como indicador de má educação. em alguns casos. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. mas a utilização do mesmo. gesticulam. a um ramo de árvore. Entre os latinos. segundo o qual. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). Nas várias culturas. “Buda nasceu estando sua mãe. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis.

grupo Tupi do Sul do Pará. O estudante asiático aceitou um segundo prato. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. mas o grupo. O costume de discriminar os que são diferentes. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. Os Cheyene. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. porque pertencem a outro grupo. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. separado em pequenos grupos. é um fenômeno universal. e entre eles foi convidado um jovem asiático. Entre os romanos. Tal tendência. de fato. em relação aos estrangeiros. ou pelo menos a estranheza. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. Finalmente. Esta parábola. reflete a condição humana. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. Dentro de uma mesma sociedade. seus costumes e expectativas. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. e. acrescenta Keesing. consideravam-se “os homens”. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. conforme o costume de seu país”. se autodenominavam “os entes humanos”. os esquimós também se denominavam “os homens”. sua visão de mundo. Daí a reação. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. ou mesmo sua única expressão. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. denominada de etnocentrismo. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. colegas de seu marido. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. os Akuáwa. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. Após os convidados terem terminado os seus pratos. índios das planícies norte-americanas. cada um com sua própria linguagem. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância.Roger Keesing. O etnocentrismo. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . freqüentemente.

habitada por pessoas de fenotipia. costumes e línguas diferentes. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. Foi. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. conseqüentemente. acaba realmente morrendo. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. Muitos foram os suicídios praticados. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. Traduzido como saudade. Ela morre de choque.o início da relação afim. O principal protagonista de um filme. Muitos abandonaram a tribo. Um outro exemplo são as agressões verbais. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. deprimentes e imorais. fomos procurados por uma mulher. e mesmo os seus seres sobrenaturais. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. a pressão sanguínea cai. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. Entre os índios Kaapor. perdiam toda a motivação de continuar vivos. estes índios perderam a crença em sua sociedade. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. também. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. A vítima. neste e em outros casos. Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. Em 1967. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. que é a apatia. que teria visto um fantasma (um “anan”). Confiante nos poderes do branco. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. e até físicas. o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. que foi considerado muito eficaz. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. Diante de uma situação crítica. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. em estado de pânico. grupo Tupi do Maranhão. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas.

Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. dizem padecer de doenças do fígado. Em muitas sociedades humanas. em seguida. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. desde o início do ritual. não é importante. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. Guardavam-nos por 23 . a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. por exemplo. entretanto. talvez. dançar e puxar no cigarro. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. Após cerca de uma hora de cantar. reais ou imaginárias. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. Muitos brasileiros. primeiro sobre as próprias mãos e. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. sobre o corpo do paciente. dessa vez dirigidas para o ombro. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. etc. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. por maior que tenha sido o nosso desjejum. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. “Meio-dia. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. e em muitos casos a cura se efetiva. que fez desaparecer na mão. Nas curas a que assistimos. Basicamente. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. o pajé soprou fumaça. E de fato. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. insetos mortos. diz um ditado popular. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Ajoelhando-se junto a ele. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. esfregou-lhe o peito e o pescoço. uma idéia mais detalhada do processo. em alguns casos. conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. o pajé recebeu o espírito. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. quem não almoça assobia”. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. Finalmente. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). Repetiu as massagens e sucções. Após muitas massagens no doente. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. A descrição da cura dará.

Face aos objetivos do presente artigo. Explicavam. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. E. para fazê-lo desaparecer após.. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”. “Nós fazemos aquilo. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas. pelo menos em parte. “uma comunidade aldeã”.. qualquer que seja a sua identidade cultural. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé.. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural.. “Eu faço aquilo. à audiência a sua natureza. Num sentido que não é precisamente determinado. as restrições 24 . Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente. “uma tribo”. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade.”. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum. O seu sentido de solidariedade depende. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares..”. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”.. geralmente. a população em causa é. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. porém. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. A generalidade do etnocentrismo Assim definido.”.algum tempo dentro da mão... o que parecia bastante. como por vezes se supõe. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. livre do cigarro.”. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. ao mesmo tempo. 2.

[Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. com o andar dos tempos. como noutros lados. 5) língua e dialeto. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. contudo. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. 4) estilo de vida em geral. não só porque tem costumes diferentes. mas porque são de uma espécie diferente. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. nós não somos “os outros”. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. 25 . a todo e qualquer nível de identificação. apesar de tudo. Isso leva. como a cor da pele e o tipo de cabelo. 3) práticas religiosas. mas que recusam. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. etc. diferentes de nós. mas.] Se “nós” estamos no centro do universo. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. inferiores. a que olhemos “os outros” com desprezo e. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. como animais. por vezes. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. com temor. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. são “pessoas como nós”. a conotação “homens’.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. eles são. em estreita interdependência econômica. contrair matrimônio entre si. mas também a inveja. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. [Em várias sociedades tribais]. em que o setor b4anco da comunidade. politicamente dominante. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. freqüentemente. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. Em Israel. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. como deuses. como bárbaros. O traço essencial de tais sistemas reside em que. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. ao mesmo tempo. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. Eles não são homens verdadeiramente”. Isso acontece em todas as sociedades humanas. freqüentemente. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. O fenômeno é geral. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. econômica e politicamente dominante. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo.

em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . 4. mas pagãos. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. geralmente de fé católica romana que. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. colonialismo e missionários. Desde os tempos do Profeta. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. Neste tipo de contexto. mas também a de “destruir as obras do demônio”. Etnocentrismo. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas. etnocêntricas. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. especialmente os da ala evangélica do movimento. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. mas a maior parte dos missionários protestantes. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. Analogamente. 3. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. A tarefa do missionário como salvador das almas. em certos casos. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. de alguma forma. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. Há um pequeno número de missões cristãs.

procriação/esterilidade. quem é que se pode sentar à mesma mesa. quase sempre.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. reforçam-se uma à outra. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. O resultado é muitas vezes. No mundo real. ou antes. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. As duas faces da mesma moeda. erotismo/ascetismo. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. deplorável. sobretudo. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. Na África do Sul contemporânea. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. a questões políticas e econômicas. limpeza/sujidade. 27 . com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”.

...................................................29 O que se entende por cultura...O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade..34 A cultura em nossa sociedade.......44 Cultura e relações de poder......................................................................................57 28 .......................55 Indicações para leitura.

por exemplo. bem viva nos tempos atuais. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. é porque eles estão em interação. Na verdade. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. são o resultado de sua história. sociedades e grupos humanos. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. sociedades e grupos humanos. 29 . de conceber a realidade e expressá-la. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. As variações nas formas de família. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. De fato. Entendido assim. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. Por isso. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. e a cultura as expressa. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. nações. ou nas maneiras de habitar. mais freqüentemente por ambos os motivos. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. costumes. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. Notem. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. Assim. Se não estivessem não haveria necessidade. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. nações. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. logo se constata a sua grande variação. porém. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós.

como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. Isso se aplica. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. como para a européia ou a chinesa. São também variadas as formas de organização social. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. como a domesticação de animais e plantas o prova. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. bem-sucedidos. no entanto. isto é. por exemplo. A partir de uma origem biológica comum. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. O aceleramento desses contatos é recente. Assim. Para muitas delas. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. De fato. Assim.Vejam. Nesse processo. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. e isso inclui também suas relações com outras culturas. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. pois. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. o contato entre grupos humanos foi freqüente. não obstante a constatação de certas tendências globais. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. a viver em aldeias e vilas. criando novas possibilidades de desenvolvimento. Cada cultura é o resultado de uma história particular. por exemplo. por exemplo. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. as 30 . pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. os grupos humanos se expandiram progressivamente. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram.

No primeiro caso. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. as tecnologias de metais. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. dessa evolução em linha única. Ou então. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. por exemplo. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. existentes ou extintas. por exemplo. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. nas etapas humanas da selvageria. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério.quais podem ter características bem diferentes. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. falar. sobre o resto do mundo. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. 31 . Assim. reinos africanos. Nesse caso. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. Segundo as versões mais comuns desses estudos. Por exemplo. vamos pensar em duas culturas primitivas. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. Segundo aquele argumento. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. Assim. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. no estágio da barbárie. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. dada a multiplicidade de critérios culturais. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. Por exemplo. uma nômade praticando a caça e a coleta.

poderia ser aplicado. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. Observe o quanto essa equação é enganosa. indicava os caminhos de 32 . Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. Existem. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. sua civilização avançava implacavelmente. Consideremos um pouco mais este segundo. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. Vemos. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. por exemplo. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. O século XIX. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. Ou seja. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. unidade biológica da espécie humana. Cultura e relativismo Em outras palavras. pois. pois. conquistando e destruindo povos e nações. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. no entanto. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. substitui-se um equívoco por outro. Por outro lado. em que esse confronto de idéias se consolidou. segundo essa visão. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza.

cujas razões podem ser estudadas. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. por exemplo.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. Assim. por exemplo. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. sua capacidade de emitir pronunciamentos. como se fossem culturas estranhas. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. de agir sobre essa realidade. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. por exemplo. tem regiões de características bem diferentes. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. a população difere ainda internamente segundo. Tudo isso se reflete no plano cultural. Além disso. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. os quais hierarquizam de fato os povos e nações. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. quando não seu fim. existe no interior de uma sociedade dinâmica. e muitas vezes o são. numa sociedade como a brasileira. suas faixas de idade. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . de interpretar a realidade que as produz. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. um grupo religioso. Pensem. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. ou segundo seu grau de escolarização. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas.

Afinal. A partir disso. a música. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. como o teatro. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. entre povos e nações. a escultura. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. Por cultura se entende muita coisa. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. Vamos então cercar o assunto. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. Vejamos alguns desses sentidos comuns. cultura está associada a estudo. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. a televisão. Assim. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. as culturas movem-se não apenas pelo que existe.cultural. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. o cinema. no estudo da cultura em nossa sociedade. nem sempre pacíficos. tais como o rádio. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. Em geral. a pintura. em discutir sobre cultura. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. à sua comida. às lendas e crenças de um povo. A lista pode ser ampliada. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. Outras vezes. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. De modo que. formação escolar. 34 . ou a seu modo de se vestir. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. a um novo idioma e a novos problemas. Contudo. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. educação. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. a seu idioma. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. mostrar como eles se desenvolveram. a novas técnicas. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura.

com os quais partilhamos de poucas características em comum. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. de localizar traços e características que as distingam. ou então de grupos no interior de uma sociedade. ao conhecimento filosófico. a um domínio. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. o corpo. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. estagnado. preocupando-se com a totalidade dessas características. as culturas humanas são dinâmicas. Conforme já dissemos. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. fechado. e que tem por temas principais a ecologia. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. às idéias e crenças. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. O esforço de entender as culturas. já que não se pode falar em conhecimento. Vamos à segunda. e da mesma forma seus meios de divulgação. De fato. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. a alimentação. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. Como veremos a seguir. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. Tanto assim que é 35 . parada. De acordo com esta segunda concepção. assim como às maneiras como eles existem na vida social. as re1ações pessoais e a espiritualidade. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. Neste caso. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. No entanto. seja na organização da sociedade. à sua literatura. idéias. Esse é um ponto muito importante. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. Assim. da vida social. Nesses casos. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa.

Como sinônimo de refinamento. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. porém. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. sofisticação pessoal. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. Vem do verbo latino c o l e r e. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. que quer dizer cultivar. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. e isso está presente na expressão cultura da alma. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. Roma e China antigas. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. Nesse sentido. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. não-religiosa. educação elaborada de uma pessoa. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. bem mais recentes. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. quer dizer. Em primeiro lugar. industrializadas e sedentas de novos mercados. modos de vida. e populações do resto do mundo. práticas e crenças de povos diferentes. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. do mundo social e da vida humana. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. Observem porém que se essa preocupação já existia. ou seja. por exemplo. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 .

como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. de cunho religioso. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. a idéia é muito genérica. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. Lembrem que. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. várias vezes. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. Assim. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. Se fosse só por isso. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. Esta é uma relação muito íntima. como na visão de evolução linear das sociedades. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. De fato. Assim. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. difícil de precisar. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. Nesse sentido. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. quando se comparava povos diferentes. Trata-se de uma idéia muito ampla. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. Vamos pensar um pouco mais sobre isso.materiais que podiam ser estudados. É que até então essas questões podiam ser respondidas. Há um segundo. Além disso. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. 37 . e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. Novamente. como vocês podem ver. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. e tudo que é humano é cultural. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente.

e o Brasil é bem um caso.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. roupas. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. Nestes casos todos. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores. 38 . Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. Assim. específico. No caso. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. um país em posição inferior às potências européias. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. nomes. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. ou que para cá foram trazidas como escravas. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. por exemplo. nas Américas do século XX. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. em relação às nações política e economicamente dominantes. Na América Latina. período em que a Inglaterra e França eram econômica. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. Assim foi na Rússia do século XIX. Assim. lendas. Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. podemos mencionar a Rússia do século XIX. tais como comidas. O mesmo pode ser dito da América Latina. Foi assim na Alemanha do século XVIII. De fato. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. na falta de uma unidade política comum.

Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. mas também em grupos no seu interior. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. Com o passar do tempo. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. que mencionei anteriormente. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. No segundo caso. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. à cultura dominante. concepções. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. ou à falta de acesso à ciência. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. Como veremos numa sessão posterior. Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. nação. à estrutura da família. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. ao direito e às idéias. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. pois. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. e por outro. cultura surge em oposição à selvageria. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. concepções e modos de conhecimentos. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. No primeiro caso. de conquista e incorporação 39 . grupo ou sociedade humana.Assim. à organização da sociedade. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. o que não ocorre com civilização. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. à barbárie. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. cultura competiu com a idéia de civilização. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. cultura é então a própria marca da civilização. qual seja. se opõe à falta de domínio da língua escrita. Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. a qualquer cultura. crenças. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. Além do mais. Assim. Ou ainda.

que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. Com a aceleração da interação entre povos. Apesar disso. por exemplo. É uma situação bem diferente. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. Assim. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. povo. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. vejam bem. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. é uma idéia muito ampla para cultura. de regular o casamento e a reprodução. o Peru. refinamento pessoal. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. na produção do necessário para a sobrevivência. culturas particulares. nações. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. Assim. Quênia e Indonésia. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. a civilização mundial. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. nas técnicas. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. pois não seria essa realidade comum. Falar da totalidade das características de um povo. crenças e em tantos outros aspectos.acelerada de povos e nações. sociedade. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. que vai poder distinguir suas experiências particulares. nações. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 . nos instrumentos e nos utensílios. Vejamos como isso ocorre. resultados de experiências históricas muito diferentes. buscam desenvolver suas economias dependentes. andam muitas vezes separados. vinda da relação de cultura com erudição. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. nação. nas suas concepções. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. o da cultura e o da sociedade de classes. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. Os dois planos de estudo. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade.

em cada produto cultural. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. Não se entusiasmem muito. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. Não é de se estranhar. que uma idéia expresse um acontecimento. práticas costumeiras e rituais. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. Assim. sobre outras sociedades. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. De fato. Na verdade. Assim. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. a dimensão não-material. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. Ou seja. ela foi transformada. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. que as informações sejam processadas.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. porém. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. tecnologia. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. descreva um sentimento ou uma paisagem. esportes e jogos. idéias. com os exemplos acima. em cada elemento da cultura. Vejamos por quê. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. Isso pode atrapalhá-los. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. uma dimensão totalizadora. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . ciência. Assim. teorias. através de palavras. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. religião. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. Em primeiro lugar. ou seja. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. doutrinas. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. política. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. como é o caso de sua arte. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. por exemplo. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. que permitem. De fato. pois.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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de estilos de vida. de acesso às instituições públicas tais como escola. na cultura dos jovens. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. crianças. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. Além do mais. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. Nesses recortes da realidade social comum. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. contudo. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. dos bancários. fazendas. das mulheres de classe média. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. jovens e velhos. de limites imprecisos e características variadas. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. por exemplo. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. É que. ao estudarmos cultura no Brasil. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. ou da vizinhança.fábricas. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. ou da amizade. mais complexa. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. Da mesma forma. ou segundo as práticas médicas. as quais são rotuladas de classes médias. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. ou alimentares. A lista não teria fim. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. hospital. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. no entanto. Assim. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. Há diferenças de renda. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. na organização da vida familiar. Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . centros de lazer. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. empresas em geral. A diferenciação é. Algumas preocupações são. bancos. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. Se a cultura é dimensão do processo social. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. ou então dos comerciários. dos católicos. a partir do exposto acima.

manifestações diferentes da cultura dominante. uma realidade que não depende de formas externas. principalmente. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. Assim. atrasado. procurando entender a sua lógica interna. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. Entende-se. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. que existem independentemente delas. a cultura popular. advogados. tais como a universidade. mesmo sendo suas contemporâneas. engenheiros e outras). Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. Da mesma forma. De fato. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. então. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. sua dinâmica e. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. à alta cultura. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. expresso pela filosofia. buscando o que há de específico nelas. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. a ampliação de seus domínios como. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. na formação de seu próprio universo de legitimidade. Nesse sentido. as implicações políticas que possam ter. as ordens profissionais (de médicos. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. por exemplo. Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. que estão fora de suas instituições. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. Para ser pensada assim. que desenvolve a concepção de cultura popular. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. as academias. ainda 46 . como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. participante de suas instituições dominantes. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. um conhecimento que se supunha inferior. Por um lado porque. superado. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação.

para a música. Parecem. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. Surgem associadas ao 47 . literatura. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. das ciências físicas e biológicas. por exemplo. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. Criam-se assim modelos de religião. outrora restrito a setores das classes dominantes. para a literatura. não são homogêneas nas classes oprimidas. Assim. Quando se procura estudar a cultura popular. o que mina na base aquela polarização. que se tente localizar na cultura o popular mais puro.que se opondo a elas. fundamentalmente. Assim. dominante. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. da matemática. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. E. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. de esboçar com clareza. seus limites se perdem na complexidade da vida social. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. com modos de interpretar a comida. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. o domínio da escrita e da leitura. De fato. Ela se sustenta em bases frágeis. no entanto. Ela cria problemas falsos. e se esvazia em confronto com a realidade social. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. um popular intocado e definitivamente original. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. tende a se generalizar. medicinas populares. para a religião. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. Isso vale para a medicina. a primeira dificuldade é a de como tratá-la.

o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. é o resultado dessa existência comum. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. Da mesma forma. e a justiça . do qual não detêm o controle. tornando-se um legado de toda a população. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. como a umbanda e o candomblé. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. por exemplo. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. A produção cultural. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. a 48 . De fato. o sistema escolar. toda a produção cultural. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. próprias. Apesar de sua origem. partilham um processo social comum. como as citadas anteriormente. Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. E se a educação. a saúde. transformaram-se com o processo de transformação do país. Assim. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. hospitalar e jurídico. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. e introduzidos pelas elites.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. as instituições dominantes de origem européia. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. seja na sua prática. hospitalar. estes de origem européia. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar. é um produto dessa história coletiva. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. generalizadas e reconhecidas. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. seja na sua organização.

ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. nós estaríamos enfatizando. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. por exemplo. mas nem sempre é esse o caso. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. Assim. É preciso assinalar. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. em outro. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. conseguiram acesso à escolarização. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. como toda a população trabalhadora. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. que seja mesmo um patrimônio seu. que seja característico dela. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. como se vê. à habitação etc. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. Em certo sentido. Falar. porém. isso sim. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. São populações bem diversas. à qual a expressão faz menção. nunca entendimento da vida social. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. à saúde pública. isso não se deve à sua origem. A categoria povo. ainda. Isso produziria apenas confusão. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. Assim. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. como a população mais pobre.justiça não atendem aos interesses de toda a população. Ao contrário. as características sociais básicas da sociedade. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. Para tentar reter o que é popular na cultura. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. procurar localizar características da cultura operária. em outro. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. levando aquela polarização ao limite. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 .

consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. procurando a expressão cultural deles. De qualquer modo. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. fazê-las produzir. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. que seja homogêneo para toda uma classe social. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. por essas 50 . O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. as relações que definem essa existência. entender como se realiza a desigualdade social. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. como já disse. Ela é produto dessa sociedade. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. não é um espelho amorfo. As próprias classes sociais. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. mas também ajuda a produzi-la. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. demonstram grande variação interna. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. Elas também têm sua dinâmica própria. Assim. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. como se dá o exercício do poder na sociedade. definitivo.valorizar esse patrimônio. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. quanto porque está ligada à transformação destas. têm contornos imprecisos na prática. A cultura é criativa.

Examinemos um pouco essas questões. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. ainda que muito forte. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. São meios de comunicação poderosos. não é absoluto. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. modos de organizar a vida cotidiana. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. é o amaciamento dos conflitos sociais. nas atividades religiosas. essas sociedades industriais têm 51 . centrada nesses meios de comunicação de massa. É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. na participação política. Além do mais. principalmente. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. o controle sobre as mensagens transmitidas. Não há dúvida de que a indústria da cultura. desenvolvimento de novas técnicas. de lutar. de pensar. a televisão. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. com inversões de capital. Tais instrumentos seriam. No entanto. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. o controle das massas. o rádio. na vida profissional. O ritmo acelerado de produção e consumo. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. niveladora.razões. no lazer. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. Eles penetram em todas as esferas da vida social. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. não só apregoam mensagens. Essa cultura homogeneizadora. Assim. a imprensa e o cinema. Por todas essas razões. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. de sofrer. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. na educação. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. de amar. a indústria cultural. de se vestir. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. de arrumar a casa. recrutamento de mão-de-obra especializada. produção de bens e serviços. Ela seria uma característica vital deste século. maneiras de falar e de escrever. Eles também difundem maneiras de se comportar. Da mesma forma. de sonhar. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. propõem estilos de vida. no meio urbano ou rural. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. Do mesmo modo. Assim.

A cultura nacional é. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. dessa maneira. códigos de ação. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. já falamos disso exemplificando com a Alemanha.mudado. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. elementos que não são absolutos. as tradições de um povo. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. Mesmo assim. os quais de resto são também dinâmicos. mas não são a cultura dessa sociedade. como uma dimensão da sociedade e de sua história. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. os costumes. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. Antes. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. Nesse sentido. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. mais do que a língua. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. com propósitos de homogeneização e controle das populações. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. 52 . Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. os países das Américas. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. também sofrem alterações constantes. mas não se pode dizer que prescinda delas. portanto. É uma realidade histórica. projetos de desenvolvimento. Se não fizermos isso. em seus planos de vida. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. corremos o risco de nos enganarmos. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. em seus modos de agir. sem levar em consideração a ambas. Ela é. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. a Rússia. resultado e aspecto de um processo histórico particular. As mensagens da indústria cultural. conseqüência das formas como a nação se produziu. que as possa ignorar.

de mudar seu desenvolvimento. ser uma maneira de tentar alterá-la. No entanto. Seja 53 . pois. Discutir sobre a cultura comum pode.Pode-se. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. ao menos provisoriamente. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. assim. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. importante nos processos internos dessa sociedade. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. uma dimensão dinâmica e viva. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. da mesma forma. sujeitas a transformação. então. sempre valorativas. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. para delinear suas características. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. Vejam. Mas. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. para definir os aspectos que a fazem única. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. por exemplo. portanto. desigual. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. importante para entender as relações internacionais. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. de uma hierarquia entre eles. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. apesar de sua presença maciça na população durante séculos.

Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. Assim. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. de decisões tomadas no passado. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. nas universidades e centros de pesquisa. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. Voltemos a eles. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade.como for. de ensino. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. de caridade. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. instituições se relacionam. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. Assim. o conhecimento em geral. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. Há aspectos importantes. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. diferentemente de outros países. e que derivam da história de cada sociedade particular. É enganoso. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. técnicas. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. as maneiras como seus setores. das instituições existentes e de sua dinâmica. resultado de um século de existência no país. matéria de produção. por exemplo. Assim. produtos. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. formas. suas concepções. Ao pensarmos sobre cultura. como vimos ao longo desta parte. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. por exemplo. 54 . Nesse período. pois.

a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. E também porque. categorias de pessoas. outras ênfases a dar. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. econômica e cultural seja eliminada. Por tudo isso. de atendimento à doença.editoriais e outras. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . as concepções nela presentes. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. tem sua dinâmica. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. Além disso. por exemplo. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. outros recortes a fazer. Podemos. A discussão de cultura sempre remete ao processo. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. mas também com os sistemas públicos de educação. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. O que interessa é que a sociedade se democratize. Mas é ingênuo pensar que. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. de grupos. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. como. aos menores abandonados. como dimensão do processo social. por exemplo. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. à experiência histórica. e que a opressão política. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. é claro. ela deve ser por isso jogada fora. por exemplo. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. as mensagens políticas que contêm. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. Há outras maneiras de estudar a cultura.

Cultura e equívoco Com tudo isso. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. fazem parte da própria organização social. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. como no caso da oposição entre erudito e popular.social. procuram defini-la. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. Há instituições públicas encarregadas disso. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. Também os aspectos da história comum 56 . o analfabetismo. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. entendê-la. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. a cultura é uma esfera de atuação econômica. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. Como vocês podem ver. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento. da mesma forma. Por outro lado. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. Assim. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. controlá-la. Da mesma forma. com empresas diretamente voltadas para ela. Expressam seus conflitos e interesses. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. por exemplo. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. de características acabadas. agir sobre seu desenvolvimento. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. como. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado.

as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. 57 . E como conseqüência disso. cultura é o legado comum de toda a humanidade. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. Retomamos. É importante insistir. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. pois podemos concluí-lo. Quanto à cultura nacional. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. Assim. Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. Há aí controle. apropriação. a compreensão de que suas características não são absolutas. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. os temas com que iniciamos este trabalho. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. não respondem a exigências naturais. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso.de um povo podem ser selecionados e valorizados. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. São lutas pela transformação da cultura. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. desigualdades no plano cultural. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. É bom que seja dessa forma. É uma relação pequena. no entanto. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. assim. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. de Antônio Augusto Arantes Neto.

arte e educação. Editora Tempo Brasileiro. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. de Roberto da Matta. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. Editora Vozes. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. Os textos têm graus variados de complexidade. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. preocupados com identidade e política. seu povo e cultura. Os Brasileiros: 1. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. de Darcy Ribeiro. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. Zahar Editores. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. O Caráter Nacional Brasileiro. Cortez e Moraes Editores. Malandros e Heróis. O Negro no Mundo dos Brancos. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. de Dante Moreira Leite. 58 . Editora Ática. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. Para Inglês Ver. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. de Peter Fry. Os textos têm linguagem acessível. política americana. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. de CIaude Lévi-Strauss. A Cultura do Povo. Dirigido ao público universitário. cultura de classes e suas relações. Carnavais. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. Mariátegui. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. Difusão Européia do Livro. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. e outra. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. reunindo escritos de épocas diferentes. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. Editora Pioneira. de leitura mais acessível. política internacional. Zahar Editores. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". Dirigido a um público amplo. Teoria do Brasil. de Florestan Fernandes. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. de Marilena Chauí. São textos no geral claros e de fácil leitura. Interpretação abrangente da formação do país.O que é ideologia.

no limiar do século XX. a Antropologia Social não poderia. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. ele costuma fugir e. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. para Malinowski. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. rituais exóticos e “costumes irracionais”. ainda. não somente a novos valores e ideologias. Deste modo. como o laboratório do antropólogo social. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. o urso o persegue”. ou. começou a abandonar a postura evolucionista. o etnólogo o experimentava de modo diverso. Tal mudança de atitude. que se ajustar. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. portanto. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. Em outras palavras. O controle da experiência. às vezes. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. tais como: “Entre os brobdignacianos. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. isso não poderia ocorrer. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. “Na antiga Caledônia. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. Freqüentemente. portanto. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. no caso do antropólogo. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. transformou nossa ciência. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. tendo. conforme disse Malinowski. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. na sua observação participante.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. tudo isso em condições específicas. Assim. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis.

lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. como um autêntico ponto de vista. bebe tudo de um só gole. articulações e valores. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. reflexões. basicamente. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. Trata-se. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade.garrafa de uísque pela estrada. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. porém. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. Ou seja. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. gestos. com sorte. teorizar. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. como vimos. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. sobretudo. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. gente do porte de Franz Boas. teórico ou filosófico. de 60 . o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. ridículos”. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. Essa sábia reflexão de Malinowski. permite localizar. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. logo a seguir: “Há. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. Evans-Pritchard. isto é. discernir e. como disse Malinowski. entretanto. Deste modo. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. seja do ponto de vista pessoal. 1978: 22). como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. um conjunto coerente em si mesmo. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. o que. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. traduz a essência da perspectiva antropológica. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. um conjunto coerente de vozes. onde a idéia de classificar e. sobretudo em outra sociedade. É. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. com qualquer tipo de tecnologia. Como diz o mesmo Malinowski. em qualquer ponto do planeta. 1976: 374).

“comunidades”. De fato. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. portanto. segmento. como também o ponto de vista daquele grupo. Seja porque a definição anterior era por demais estreita. Durkheim. a escola de Durkheim situa a 61 . tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. “classes sociais”. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. neste contexto. seja porque as novas descobertas. até as mais “complicadas”. a meu ver. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. definindo (ou melhor. “mitos”. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). Assim. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. Assim. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. na geração seguinte. Ou melhor. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. dos viajantes. classe social ou sociedade. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. inclusive da nossa própria cultura. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. “ideologias” etc. sacerdotes e sacrifícios. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. sejam elas as dos cronistas. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. Isso porque. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. que eles podem falar de “suas tribos”.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. “favelas”. quando há uma intervenção das igrejas. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. seitas. o seu próprio “repensar a antropologia”. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. E isso pode provocar novas revelações teóricas.

saudável e tradicional base pluralista. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. assim. De fato. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. um idioma.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. como queria Morgan e seus contemporâneos. pela qual o fenômeno humano é estudado. 62 . pois. culturas e civilizações. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. moral ou filosófica preestabelecida. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. portanto. muito importante constatar como a Antropologia Social. por algum capricho. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. Será. pois. muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. e não parcelas de relações que o tempo. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. Assim. Em parte. não obstante. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). de “funcionalidade”. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. A história. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. Mas. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. para utilizar a noção de “sistema”. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. de “sincronia”. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. deixou de submeter à sua pressão modificadora. de “estrutura”. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. É. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica.

Ou seja. Mas tudo isso.desconhece. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . Se existem fatos históricos. na postura às vezes difícil de ser entendida. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. se há material político. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. da Ciência Política e da Economia.sobretudo pela prática de viagens. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. então. Em tudo. ele não fica de fora. enfim. da Geografia Humana. estudando-o por todos os meios disponíveis. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. enquanto antropólogo. que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. da História. É. com a grande tradição democrática. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. eles são usados. mas muito próxima da Lingüística. 63 . da Sociologia. isso também entra na reflexão. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. para um diálogo fecundo. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. descobrir. convém sempre acentuar. Diferentemente. as experiências humanas. como pensam os “primitivos”. portanto. qual a racionalidade dos grupos tribais. qualquer que seja a sua aparência. da Psicologia. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. problemas e paradoxos. se existem fatos econômicos.

como o antropólogo. a sociedade tem preocupações religiosas. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. O historiador. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. através de um método estritamente indutivo. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. Essa apreensão da sociedade. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. de seus ideais. Se. Para compreender o candomblé. e “desencarnado”. pelo menos em suas principais tendências clássicas. por exemplo. Assim. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. o autor da Antropologia Estrutural. de fato. de quem se considera um “aluno”. Nunca encontra testemunhas vivas. escreve Roger Bastide. de fato. proclame que. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. Quanto a isso. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. uma grande quantidade de informações. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). se procura. Pois a etnografia. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. o observador deve ficar com a última palavra. análoga a organizações vegetais. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. e contra o observador. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. a cipós vivos”. e algo frio. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. isto é. na qual. “contra o teórico. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. mais ainda. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. Não se pode. 64 . e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. de suas angústias. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. o indígena”. Recolhe e analisa os testemunhos. Quanto à prática da Sociologia. é significativo que Lévi-Strauss.

arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência.. ser o caso do antropólogo.). de estar atenta para que nada lhe seja escapado. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. isto é. os sistemas de crenças. constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. isto é. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica. A busca etnográfica. artificialmente isolados em relação à 65 . os erros cometidos no campo. Com a diferença. cultural. bem como a utilização de protocolos rígidos. vivido. de que este se esforça. porém. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. Como escreve Mauss (1960). é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”. o direito. demográfica. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. isto é. porém. um perito de uma área particular (econômica. um outro: o sistema de produção e troca de bens. De outro. c) O antropólogo evita. as ciências jurídicas. as ciências psicológicas. é claro. se tornar um especialista. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal. de fato. Não nos enganemos. de condições necessárias. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. não apenas por temperamento. pelo contrário. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas).) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. social. De um lado. porém.. No campo. as ciências religiosas. psicológico.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. Objetar-se-á que pode.. etc. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. tudo deve ser observado. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. anotado. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. As tentativas abordadas. uma programação estrita de sua pesquisa. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista.. o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. o evento que ocorre quando não esperávamos. jurídica. tem algo de errante. as ciências econômicas. quanto às virtudes do campo. político. O antropólogo não pode. Trata-se. os processos cognitivos e afetivos.

do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente. A própria Antropologia.. a criminalidade. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. e. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. A prática da Antropologia. e uma cientificidade extremamente positiva. O parcelamento disciplinar comporta. a ciência e a religião. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. enquanto antropólogos. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. o alcoolismo. É a razão pela qual somos provavelmente. supõe também. em primeiro lugar. por exemplo. Pessoalmente. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. mais tocados do que outros. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. A meu ver. de maneira pragmática.. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. como mostrou Husserl.. consumidor. o que nos levaria à posição de. no horizonte científico contemporâneo. cidadão. de fato. parente. o divórcio. 2) tentar. de fazer surgir um questionamento mútuo.. mas pouco reflexiva. 66 . de fato. das condutas suicidas.. O projeto antropológico retoma hoje. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano. capazes de responder a essa definição: islamismo.totalidade do social. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano. é claro. e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. para além de todos mos questionários. nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social. no mundo contemporâneo. paradoxalmente. Como escreve Lévi-Strauss. do esporte. a ciência e a filosofia. o marxismo e a Antropologia. antagonistas da reflexão.. Assim. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. apenas três formas de pensamento são. toda prática hiperespecializada. o projeto que foi o da filosofia clássica. mas que corre o risco de cair no vazio. por mais aperfeiçoados que sejam. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). Se olharmos mais de perto. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. a partir de um fenômeno concreto singular. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. ser o especialista em uma única área. mas a observação direta de suas produções concretas).

mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. e sem credores à porta. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Era seu amigo. Sendo assim. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. 1996. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. Era o sambista seu amigo. chegara a passar fome. com o gringo ali a seu lado. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. E não era mesmo com ele. talvez ainda sem tê-lo visto. Aprender Antropologia. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. jornalistas.LAPLANTINE. velho companheiro. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. Porque antes de cumprimentá-lo. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. a) Identifique o estado anterior e o posterior. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. ao americano. haveria de compreender. todo branco e sardento. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. 67 . mas. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. vendo o preto aproximar-se. já distraído dos seus passados tropeços. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. que não era com ele. São Paulo: Brasiliense. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. um bom sujeito. lidos depois do jantar. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Por via das dúvidas. vale dizer. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. De repente.

o personagem central sente-se ameaçado. 68 .b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. do texto. Parágrafo). uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. já esquecido dos dias de desempregado. a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação.

existe sempre um posicionamento crítico do narrador. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. Se soubesse desse desfecho. Com base no sentido global dessa narrativa. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. por detrás dos fatos narrados. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 .

mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes.. E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso.. Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João..... favelas Da força da grana que ergue 70 .. Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.De tuas meninas. Do povo oprimido nas filas Nas vilas..

Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa... 71 ..E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva..

no plano afetivo. Talvez o etnocentrismo seja. pois. enfim. a superior. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. de repente. mais grave ainda. então. O monólogo etnocêntrico pode. pensamentos. bárbara. De um lado. empresta à vida significados em comum e procede. na constatação das diferenças. gosta dela. o grupo do “diferente” que. este “outro” também sobrevive à sua maneira. dentre os fatos humanos. distribui o poder da mesma forma. as formas. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. casa igual. ainda que diferente. um daqueles de mais unanimidade. Assim. acredita nos mesmos deuses. que come igual. mais discretamente se for o caso. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. mora no mesmo estilo. a certa. da sua visão a única possível ou. Aí. Grosso modo.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. o “nosso” grupo. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. E. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. nossas definições do que é a existência. nossos modelos. como sentimentos de estranheza. conhecemos um grupo do “eu”. talvez. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. a vida deles não presta. nos deparamos com um “outro”. também está no mundo e. semelhantemente. pois. às vezes. etc. a natural. também exista. é selvagem. a melhor. O grupo do 72 . No plano intelectual. veste igual. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. um mal-entendido sociológico. No etnocentrismo. gosta de coisas parecidas. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. então. conhece problemas do mesmo tipo. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. os caminhos e razões. hostilidade. por muitas maneiras. medo.

É onde existe o saber. neste conjunto de idéias. por vir. pentes. nessa lógica. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. estes somos nós. Forase o relógio. absurdo. da selva que lembra. Existe realmente. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. após alguns meses. alarmes. pois. a vida animal. é o fato de que. ao estrangeiro. a sociedade do “eu” é a melhor. A atitude etnocêntrica tem. infalível. no etnocentrismo. o progresso. É o espaço da natureza. na nossa. de uma única sociedade.. a superior. chamam. anormal ou ininteligível. espelhos. Muito generoso. o índio fez o pastor divisar. o trabalho. São qualquer coisa menos humanos. O selvagem é o que vem da floresta. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. porém. o relógio. A sociedade do “outro” é atrasada. por vezes. Dias depois. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. a desarticulação. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. seu trabalho. O etnocentrismo não é propriedade. No limite. O barbarismo evoca a confusão. muito feliz. ainda por cima. Tempos depois. Ao chegar. agora mínimo e sem nenhuma função. pendurado a vários metros de altura. de alguma maneira. como sendo engraçado. 73 . marcar segundos. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. São os selvagens. por um lado. a desordem. como já disse. por fim. meio sem jeito e a contragosto. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. o pastor perdeu seu relógio dando-o. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. apesar de que. ao jovem índio. fazer contas. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. especialmente. vencido por insistentes pedidos. não sem dificuldade. nunca o “igual” ao “eu”. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. A surpresa maior estava. De qualquer forma. os bárbaros. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. comprou para os selvagens contas. modesto. O que importa realmente. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. “excelentes” ou. muito simplesmente.“outro” fica. do barulhento. etc. Um dia. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. venceu as burocracias inevitáveis e. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. “ser humano” e ao “outro”.

neste choque de culturas. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. quinze para as dez. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. Era hora de ir. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. da qual falamos na nossa sociedade. seja na indústria cultural. Esta estória. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. de uma criança de um grande centro urbano que.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Privilegiaram ambos as funções estéticas. a lógica do extermínio regulou. na cultura do “outro”. tacapes. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. Nelas. como “algo a ser destruído”. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. cocares. por exemplo. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. Assim. de um etnocentrismo “cordial”. Isso lembra o comentário. Em terceiro lugar. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. a mesma coisa. inteligente e 74 . esta estória representa o que se poderia chamar. Hermann von Ihering. naquela manhã. tanto aqui como em vários outros lugares. Em segundo lugar. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. de toda evidência. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. bastante plausível. tristemente exemplar. seja em casa. ornamentais. muito comum e de uso geral no etnocídio. os personagens de cada uma delas fizeram. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. na matança dos índios). e até uma flauta formavam uma bela decoração. diretor do Museu Paulista. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. se isso fosse possível. decorativas de objetos que. deu uma olhada no relógio novo. Em primeiro lugar. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. um famoso cientista do início do século vinte. flechas. trazia-lhe estranhas lembranças. infinitas vezes. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Para o pastor. Tanto no presente como no passado. Também. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. Como já vimos. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. são apenas uma representação. aliás. bordunas. não necessariamente verdadeira. No mais das vezes. obviamente. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. seja nos livros didáticos. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. porém. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. porque somos os autores destes filmes e livros. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. Levantou-se. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. arcos. pode colocá-lo como “primitivo”.

Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. num corpo. esta recusa é.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. mais ainda. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. A figura do louco. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. A estória do nosso 75 . sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. Este “escândalo” esconde. ela deve mostrar e esconder. Os estudantes são testados. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. Os livros didáticos. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. no mínimo. Isto não só ao longo da história. via de regra. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. numa lavoura que não é a sua. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. em outros. Claro. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. em face do seu conteúdo. Na nossa chamada “civilização ocidental”. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. determinados estereótipos. Ora. Assim. na verdade. posso pensar dele o que quiser. há alguns anos. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. por exemplo. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. Eu mesmo realizei. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. de um ponto de vista do grupo do “eu”. Aliás. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. muito pelo contrário. pois são lidos e. carregam um valor de autoridade. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. um ovo ou uma pessoa. como o marciano não diz nada. Nesse sentido. sinal de saúde mental. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. que se recuse a trabalhar como escravo. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. mas também em diferentes contextos no presente. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. na nossa sociedade. “sério” e “científico”. que são permanentemente aplicados a estes índios. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada.

muitas vezes. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. por oposição. certo tipo de cinema. Assim são as sutilezas. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. “altivo”. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. “almas virgens”. os “vagabundos”. “antropófago”. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. ele aparece como “selvagem”. os “paraíbas de obras”. estamos relativizando. etc. um “saber”. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. para o livro didático. É no capítulo “Etnia brasileira”. baseado em formulações ideológicas. revistas. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. as “dondocas”. estamos relativizando. Ali. os “doidões”. violências. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. capaz de ter um fim ou uma transformação. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. são uma espécie de “conhecimento”. Mas. Uma das mais importantes é a da relativização. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. “primitivo”. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos.. persistências do que chamamos etnocentrismo. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. manipulado de acordo com desejos ideológicos. vira “corajoso”. jornais. “pré-histórico”. Nele o papel do índio é o de “criança”. “infantil”. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. O terceiro papel é muito engraçado. como o “outro” é alguém calado. mas no contexto em que acontece. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. cheio de “amor à liberdade”. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. publicidade.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. os “empregados”. os “colunáveis”. etc. os “caretas”. estamos relativizando. os “velhos”. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. os “negros”. A “indústria cultural” – TV. num passe de mágica etnocêntrica. “inocente”. o índio é. Enfim. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. Da mesma maneira. mera imagem sem voz. a quem não é permitido dizer de si mesmo. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. Assim. Em outras palavras. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. os “surfistas”. Relativizar é não 76 . negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses.

Ela não é uma hostilidade do “outro”. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. no mínimo. há alguns séculos. com maior ou menor grau de dificuldade. A diferença das escolhas humanas se fixa. no plano da sociedade mais geral. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. Ela. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. Buracos sem fundo. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. monstros. A nossa sociedade já vem. gostaria. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. nasceu marcada pelo etnocentrismo. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. se quisermos. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. Diferentemente do saber de “senso comum”. Assim. a diferença não se equaciona com a ameaça. agora. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. na Antropologia. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. colonizações.transformar a diferença em hierarquia. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. alucinações. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. sacações e aberturas. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. O percurso que. no conhecimento antropológico. Esta ciência chama-se Antropologia Social. De fato. aqui e pelo mundo afora. Assim. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. mas com a alternativa. O mestre. XVI e XVII com suas navegações. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. num certo nível. espantos. Antes. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. em superiores e inferiores ou em bem e mal. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. Mesmo com as novas 77 . faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. Acredito até que. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. expedições. ser observado a partir de vários ângulos. É um momento básico de encontro com o “outro”. compenetrado e falante. serpentes. porém.Trata-se dos séculos XV. construindo um conhecimento ou. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns.

Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. O mundo do “eu” se via obrigado. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. a pensar a diferença. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. interesses. freqüentemente. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. Que costumes.”. Assim. (que aí já não era mais preciso!). Destes encontros. e que procuram explicar a diferença. procurando compreender as diferenças que. T. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. nascia ali. sempre mais matizados. que lei. nos centros avançados de estudo. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). para o pensamento ocidental.. um conjunto radical de novas questões. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. frente ao “outro”. a cada vez. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. um esforço de compreensão da diferença. o risco era imenso. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. As novas técnicas empolgavam os alunos. pouco a pouco. é conhecido como Evolucionismo. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. discute-se e especula-se. ao menos dentro da Antropologia. que era preciso. paradoxos. à outra a própria natureza humana. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. ele foi sendo superado. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. mesmo sem viver. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. Ninguém entendia nada. E é esta perplexidade que vai. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. pouco a pouco. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. vão assumindo novas formas. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. num certo sentido. Muita violência.tecnologias. se não por todos. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações.

para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. O homem a caminho. então. no nível biológico do desenvolvimento. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. evolução? Evolução. Mas. por exemplo. um espaço correto para um tipo de pensamento que. Assim. na direção do progresso. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. nos séculos XVIII e XIX. nos Estados Unidos. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. mais e mais absoluta em suas conquistas. biológica de evolução. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. Para o evolucionismo antropológico. encontra. sua potencialidade. quase que como uma âncora. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. Mas. a esta noção orgânica. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. exatamente. evolução. o que é. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. então. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. uma segunda forma. em plena metade do século XIX. de fato. em outras palavras. Lewis Morgan -. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. sua formulação clássica. na história dos saberes sobre o ser humano. de Darwin. contemporânea dos aborígenes australianos. vai ser a permanência do etnocentrismo. Assim. tem um lugar de destaque. equivale a desenvolvimento. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. pelo processo evolutivo. é claro. mostrando. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. nos séculos XV e XVI. avanço no tempo. começou a produzir seus estudos. A lógica do raciocínio é simples. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. por sua vez. no seu sentido mais amplo. Progresso. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. Explicando melhor. O resultado disso. a noção de progresso torna-se fundamental. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. Evolução. a Inglaterra do século XIX era. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. E foi toda uma geração de antropólogos que. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo.teoria antropológica e. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. Tudo isso forma um campo intelectual. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado.

logo na primeira página. arte. crença. tendo aceitação. mais cedo ou mais tarde. no entanto. Também transparece uma espécie de princípio geral.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. é este todo complexo que inclui conhecimento. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. restava ainda um problema teórico. uma lei. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. por exemplo. em toda parte os mesmos. que formam um “todo complexo”. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. porque se compararmos Brasil. estas idéias eram nítidas e claras. dentro da cultura. a era vitoriana. moral. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. no seu sentido etnográfico estrito. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. em certas sociedades. diz o seguinte: “Cultura ou civilização. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. então. o século XIX. unitários. Que. podese dizer que é. que em plena época da rainha Vitória. Mas. o mais famoso da Antropologia e. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. separados. talvez. no mínimo um clássico. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. Ainda mais. Se pensarmos nesta definição. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . Este conceito é. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. Aqui. Sabemos que são relativos. O que e Arte? Lei? Moral?. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. Faz-se. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. etc. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. para eles. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. Para os evolucionistas. a melhor por definição. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. leis. postulavam uma permanência. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. Sim.

De fato. pois que tudo já estava pronto. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. qualquer “trabalho de campo”. aqui no evolucionismo. Diz uma anedota que Sir James Frazer. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. chegando ao pólo “civilizado”. Este espírito teria. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças.. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. os povos ditos “civilizados”. encontramos ainda.. Para Morgan. Dessa forma. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. o espanto. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. etc.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. o medo oculto. a falta ou excesso de 81 . acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”. Estudando invenções. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. ele nunca achou o cavalo. pelo menos. pouco a pouco. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. Ou. a hipótese que coloco aqui é simples. importante antropólogo da época. barbárie e civilização. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia.. “religião”. para onde teria ido?” Claro. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução.. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. a visão caótica do “outro”. por trás do ser “civilizado”. Mas. paradoxalmente. descobertas e instituições. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. No extremo inferior. “arquitetura”. temos dois marcos básicos. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. evidentemente. os povos primitivos e no extremo superior. “propriedade”. “família”. “meios de subsistência”. Dessa maneira. como eu faria isto ou aquilo?”. por via do progresso. A relativização não tinha espaço. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem.. a visão etnocêntrica. fortemente entrincheirada.

Sabemos que ambos não são bons. interessantes. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. contribuiu. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. mas nem “deus” nem “diabo”. cenários. controvertidas. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. o que nos interessa mais de perto. enredo. juntamente com Boas. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. E vai ser. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. apresentam diferenças e. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. Entretanto.significações do “outro”. Cada um. já traz em si alguma semente de relativização. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. Tanto aqui. Neste processo. 82 . É o que veremos a seguir. Menos evoluído. Agora. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. num resumo. mas muito mais mesmo. vê-lo como atrasado e primitivo. mais sabemos o quanto falta saber. mas pode-se ver qual se distancia mais. um “outro” tão humano quanto o “eu”. exatamente. relativizando: é claro que a época do novo mundo. para a maturidade e complexidade da disciplina e. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. me parece que nesse sentido o evolucionismo. já apresenta alguma diferença. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. seu campo de estudos. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. Se o “eu” negava. A magia. VOANDO ALTO Diferentes atores.] Assim. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. Todos os três. Todos eles tinham personalidades peculiares. e muito. neste processo. entre si. para o crescimento. complexos do que isto. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. Durkheim. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. multiplicando muito. É certo que a escolha. que foram os séculos XV. por assim dizer. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. Malinowski. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. num primeiro momento. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. a sua maneira.

desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. faríamos uma análise diacrônica. desde o primeiro até o vigésimo. forças e significados internos a este movimento. Mais 83 . efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. torres. que era o do “progresso”. das posições das peças no vigésimo movimento. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. se interessa pelas posições. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. Em termos mais técnicos. estabelece seu conhecimento do vigésimo. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. Passando para a análise das culturas humanas. Para estes dois movimentos. Se. dos valores atuais dos peões. troca e empréstimo que as caracterizavam. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. O longo caminho da história. por eles. bispos.história. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. duas seriam as ações possíveis dessa partida. por seu turno. diferentemente. demonstravam a permanência de um tema. via de regra. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. uma idêntica concepção da natureza da história. Não se pode dizer. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. aí. que a hipótese evolucionista criava. cada uma a sua maneira. no entanto.. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. os processos próprios de mudança. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. A sincronia. dessa maneira. etc. a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . específica. Como se. era uma única para toda a humanidade. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. A história.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. de Adão e Eva ao Juízo Final. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. todos caminhassem num mesmo sentido. de cada cultura particular. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. nos dois movimentos. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. no entanto. o da “evolução”. estaríamos analisando sincronicamente. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. É uma história com “h” minúsculo. Por outro lado.

mais complexa. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. como já disse. o estudioso. se obriga. Para ele. descrita. O funcionalismo. como no evolucionismo. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . com seu corte teórico. Nesta linha. histórico. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. A nossa sociedade. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. radcliffe-Brown. se constituía no objeto antropológico por excelência. e uma preocupação com ele. Com isso. Sim. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. de ter na hierarquia sua regra número um. antes de tudo. A realidade concreta a ser estudada.simplesmente. Em primeiro lugar. Para ele. definitivamente. nem entre estes e o evolucionismo. observada. é importante que se saiba o que. feito de acontecimentos sucessivos. a sociedade do “eu”. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. veremos que a preocupação com a história é. dá outras dimensões à Antropologia. inexoravelmente. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. por mais míope que seja. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. E. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. que nem sempre poderá ser lá encontrada. especulativa. neste sentido. Ao fazer esta opção. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. É o caso de noções como “processo”. a história conjetural. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. A Antropologia. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. Assim. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. a discussão realmente importante. ao menos. Com isso. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. “estrutura” e “função”. agora. o que a levava. para fora do etnocentrismo. seja ele difusionista ou evolucionista. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. ao certo. mais relativa. da “diferença”. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. se pensarmos bem. não concordou Radcliffe-Brown. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. O verdadeiro ponto de ruptura. para o historicista.

formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. por exemplo – aponte uma outra dimensão. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. por seu turno. Nela. por analogia. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. Uma de tais analogias. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. tecidos. Se parar de executá-lo. na produção teórica. a sociedade se transformará numa outra diferente. novos instrumentos para pensá-las. possui uma estrutura composta de ossos. conseqüentemente teve de procurar. muito mais complexas. enquanto estrutura viva. fluidos. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. tão a seu gosto. procuro apenas demonstrar que. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. também desaparece. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. outras “funções” cruciais. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. Este organismo. os aplicava ao estudo da sociedade humana. Este. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. atacada numa função básica. Por outro lado. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. o processo vital. Mas. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. histórico. etc. me parece. aqui. sutis. podemos perceber a existência de formas regulares. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. Dentro desse “processo social”. além de mais amplas. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. repetitivas. Assim. Transportava termos da Ciências Naturais e. termina o processo vital e a estrutura orgânica. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. pagou o preço de uma forte relativização. Isto significou que. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. o coração. A sociedade não morreria. tem a vida como um fluxo permanente que o habita.permanente. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. Se estas funções forem suprimidas. onde outras instituições terão. a da “estrutura social”. mas. como um organismo complexo que é. 85 . Comparava o sistema social ao corpo humano. por exemplo. recorrente. das ações. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. Na sociedade. É nesse quadro. por sua vez. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. A vida caracteriza um constante processo. ao colocar novas questões em jogo. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. E. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. Espero que ele me perdoe. é um processo: o “processo social”.

a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. para a Antropologia e para o processo de relativização. principalmente. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. mas também se afirma como entidade autônoma. Qualquer estudante da vasta. O antropólogo. que é geral na extensão de uma sociedade dada. A Antropologia. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. intitulado “Que é Fato Social”. independente do indivíduo. independente das manifestações individuais que possa ter”. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. Contando. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. principalmente. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. Conhecer a diferença. em diferentes momentos e de várias formas. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. Um outro nó. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. assim. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. um outro lado do laço. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. apresentando uma existência própria. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. na sincronia. então. Tem de ir morar. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. mas seus projetos tinham rumos diversos. Antes. vou utilizar o próprio Durkheim que. o superior pelo inferior. por estar. obrigado aos estudos sincrônicos. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. livre para estudar a sincronia. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. Os fatos sociais são externos. no sentido de sua concretude que independe da natureza. que independe do indivíduo. o complexo pelo simples. por períodos significativos de tempo. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. Neste sentido. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. um tema aparece e se repete. Explicando melhor. Com isto. São “coisas” porque autônomos.produzido na sociedade do “eu”. autônomos. São “coisas”. E. experimentando-se a si próprio como diferente. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. com instrumentos teóricos que eram criados. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. vai ser desatado por Émile Durkheim. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. tem de viajar. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. e não menos importante para a autonomia antropológica. ou então ainda. experimentar a existência junto ao “outro”. fixa ou não. 86 . na questão do etnocentrismo e de sua superação.

Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. Aqui. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. o “outro” com todos os seus desafios. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. 87 . Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. O fato social é. De repente. um longo esforço de relativização. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. independente e própria. Para Malinowski. Possui força autônoma. também. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. Um argonauta era um tripulante de Argo. E. profundo. Malinowski foi nosso grande viajante. para além das manifestações individuais. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. Em terceiro lugar. à primeira vista. Para a Antropologia. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. viajar o “outro”. Em segundo lugar. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. outro. a ser traçado. novamente. uma “coisa” que ultrapassa cada um. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. o fato social. (2) extenso e (3) externo. A “diferença” cara a cara. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. É. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. pode dele se ausentar. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. em primeiro lugar. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. Estas conquistas que podem parecer. vemos que o fato social é (1) coercitivo. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. O social tem seu próprio caminho. neste contato com a “diferença”. agora. o fato social pressiona o indivíduo. de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. exigiram. Ninguém. no repto lançado pela experimentação do relativismo. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental.Acompanhando esta definição. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. É. uma nave lendária da mitologia. A nós. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . por todos e para todos. que o fato social coage. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. evidentes em si mesmas. Na verdade. no entanto. Em outras palavras. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. parece tudo muito simples e óbvio. no intrincado bolo do saber.diante de explicações. Com isto ele queria demonstrar. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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tempo é dedicado a atividades econômicas. ou seja. em vários momentos da teoria antropológica. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. Assim. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. então. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. Quando esse conceito. seria necessariamente pobre e miserável. Parece que. Ora. ou melhor. encaixada com os conceitos de cultura. vice-versa. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. são reciprocamente definíveis. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”.a deles -. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. a complicação se tornou ainda maior. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. dados obtidos pelo trabalho de campo. a definição de história era legitimada. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. que podem transformar a teoria antropológica. quando havia uma determinada visão de cultura. mais que isto. Assim. sobrevivência ou miséria. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. que não pratica essa acumulação. uma outra . essa forma de ver a passagem do tempo. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. mas porque não querem. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. E. foi. em larga medida. Isto se torna possível. Ainda mais. Muito pelo contrário. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. se tornava mais “verdadeira”. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. é perceber o “outro” na sua autonomia. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. pelo trabalho de campo. uma máquina produtiva que. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. Três ou quatro horas por dia. porque fizeram uma opção diferente. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância.

92 . uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. No plano teórico. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. É um passado pelo qual já passei.concretamente existente numa única. ou pelo ambiente. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. progredi. Nesta perspectiva. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. totalizador das “diferenças”. Numa palavra: o “diferente”. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. também particular. pode passar a ser questionado. simplesmente. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. sua contraparte. pois. através dela. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. porque evoluí. É. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. qualquer que seja. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. Ainda assim. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. Com Durkheim. ou pelo indivíduo. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. É. Assim. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. Colocava-se. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. para conhecê-la. o coração por assim dizer. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. Passamos. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. como capaz de explicá-la inteiramente. ou pela linguagem. Outra vez os dois conceitos se conjugam. histórico. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades. numa idéia de história. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. também. É o próprio Lévi-Strauss quem. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. tudo se relativiza. mas ainda bastante problemática. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. assim. de trajetórias distintas. grande e completa explicação. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. o “outro” é atrasado. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. Neste questionamento. A cultura vai ser entendida como moldada. o conceito de tempo linear. Em outras palavras. na verdade.

Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. Antes. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. o que se quer saber é como os Apinayé. 93 . Talvez isso possa parecer extremamente complexo. que são como dois momentos fixos. uma linearidade ininterrupta. outro no chão. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. O tempo não é. Um no céu. E é mesmo. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. seu tempo. diz ele. Mais fácil. É. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. sua existência. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. no caso. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. nos capítulos anteriores. Para elas. nosso tempo. para um Apinayé. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. leitor. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. Para um Apinayé. pensam o seu mundo. desdobrar-se. métodos e. ele demonstra. tentando explicar poeticamente. se sente fazendo história. foram realizados pela Antropologia. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. o tempo é sentido. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. sendo parte dela. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. Em termos mais simples. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. Este é o último capítulo do livro.Você. a unidade. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. Esse tempo se contrapõe. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. mas de maneira errada. enfim. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. o quanto é difícil o processo de relativização. Mas. estranho e ininteligível até. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. Dá para sentir. até mesmo. Por incrível que possa parecer. Ou seja. de relativizar. pensado e vivido como descontinuidade. tipo causa e conseqüência. de uma redefinição de seu papel como ciência. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. um jogo de espelhos. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. o fluxo. mas. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. um fluxo. tal como para nós. nossa existência.

No entanto. uma literatura que não é das verdades absolutas. cria outras. Para se pensar o fenômeno cultura. etc. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. à qual nos referimos no capítulo anterior. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. Assim. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. utilizando símbolos de diferentes tipos. Cada um de nós. do antropólogo americano Clifford Geertz. teias. pelo trabalho de Malinowski. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. pela qual “falamos” uns com os outros. nessa linha. Nesse sentido. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. sentidos. A Antropologia.As culturas são “versões” da vida. como que mapas. escolhas de uma “política” dos 94 . Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. sua “sexualidade”. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. destinos próprios. tanto humilde quanto generosa. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. não existem mais. Esta tarefa. enquanto ator social. se quisermos. metáfora explorada por Clifford Geertz. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. imposições. seja ao seu “tempo”. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. por assim dizer. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. a cultura “fala” da existência. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. os trobriandeses estão aí vivos. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. Aquela de ser uma ciência. A cultura. classificar e praticar sua experiência. Pode também ser vista como uma teia. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. destrói sociedades. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. Melhor dizendo. Este código é a cultura. sua “morte”. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. O mundo muda. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. enfatizando sua dimensão interpretativa. um saber.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. cada cultura atribui significados. um conhecimento ou. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. mas das interpretações relativas. seu “corpo”. ao contrário. estudada por Malinowski. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. Tal como um código. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. trocamos mensagens.

Em termos mais precisos. o caso do domínio das relações de parentesco. irmãos. Herança. – mas também. parentes afins. quem serão meus amigos e aliados. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. uma escolha psicológica. direitos e deveres. O que faz. que seria a própria cultura de determinada sociedade. por exemplo. definitivamente. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. o que pensamos e fazemos. livrou-se. é trilhado na medida em que. As Estruturas Elementares do Parentesco. sistemas de parentesco. Este é. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. etc. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. o lado da afinidade do parentesco é. e às vezes principalmente. decidida individualmente. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. Mas. do etnocentrismo à relativização. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. ao menos. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. Lévi-Strauss vai mostrar. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. Este caminho. o sistema de comunicação mais amplo. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. Se entre nós a escolha do cônjuge. portanto. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. encontrados nas sociedades do “outro”. propriedade. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. seria interpretar este fluxo do discurso social. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. pareciam. Isto quer dizer que. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. Assim. então. num famoso livro. como o cônjuge. para dizer o mínimo. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. para entender estes sistemas de 95 . enfim. guardar. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. absurdos.

O que se passou na Antropologia. esperança e generosidade. métodos e técnicas que. seja no “parentesco” ou na “economia”. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. Nas relações internacionais. no encontro entre o “eu” e o “outro”. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. se relativizam. o etnocentrismo é exorcizado. a chave para a sua compreensão. conceitos. Disso resulta. Tudo isso indica que a Antropologia. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. na indústria cultural. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. A Antropologia reflete. nos próprios termos de Lévi-Strauss. morais. no jogo de seus movimentos. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. muito pouco se relativiza. emerge uma compreensão do ser humano. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. está numa unidade que inclua também a afinidade. Enfim. Tudo isso é muito pouco. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. para compreender o “outro”. se transformam. seja na “individualidade” ou na “história”. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. movimentos que aconteceram na Antropologia. Aí também. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. Este. mostra ele. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. conjuntos de idéias. nos costumes políticos. O que é. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. Devem estar. enfim. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. por vezes quase invisíveis. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. também. a um só tempo. de “foro íntimo”.parentesco. frente a um sem-número de ideologias. realmente. Aí. o centro deste sistema. sentimentos. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. 96 . A afinidade nestes sistemas. problematizada e generosa. é necessário ver que o coração. não é um dado psicológico. Aqui voltamos direto ao nosso tema. acredito. descendência e afinidade. interétnicas.

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