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Apostila de homem e sociedade

Apostila de homem e sociedade

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  • A TEORIA EVOLUCIONISTA
  • CULTURA: um conceito antropológico
  • ETNOCENTRISMOS
  • O QUE É CULTURA
  • CULTURA E DIVERSIDADE
  • O QUE SE ENTENDE POR CULTURA
  • A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE
  • CULTURA E RELAÇÕES DE PODER
  • INDICAÇÕES PARA LEITURA
  • TRABALHO DE CAMPO
  • UMA RUPTURA METODOLÓGICA:
  • PRETO E BRANCO
  • O QUE É ETNOCENTRISMO

APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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intitulado abreviadamente Teoria das populações. veio 4 . o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. em microorganismos. por força de alterações de clima. Em 1838. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. se surgir outra teoria que explique melhor. Se isto não ocorria. Mas. ou com maior abrangência. Dizia Malthus. ou menos “aptas”. Por conseguinte. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. com várias gerações por dia. a fome generalizada. no entanto. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. que produzem várias gerações por ano. por alguma singularidade constitucional. Seriam. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. pois. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. em dado momento. Se essas características mudarem. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. Os fatos da teoria evolucionista. A teoria científica representa. segundo acrescentaria Darwin. aquilo que se conhece. a teoria anterior tem que ser abandonada. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. Darwin imaginou. deveria ocorrer um colapso. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. essa mesma questão. em favor da segunda.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. pois. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. isto é. ou melhor ainda. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. sobre um assunto determinado. mas sim de um processo de seleção passiva. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. muitos deles com características “humanóides”. pois. em favor das que. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos.

Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. Em conseqüência das transformações climáticas. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre. inúmeras espécies de símios arborícolas. há 12 milhões de anos. 1350 centímetros cúbicos. ao longo do tempo. constituindo o Vale do Grande Rift. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. De fato. possui. entre outros fatores. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . Por outro lado. como existiam no Mioceno. a maior parte de Europa. há cerca de 300 milhões de anos. Brain: “Parece razoável admitir-se que. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. As condições vigentes. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. vivendo sob as árvores”. segundo alguns. e 650. da Índia. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. mas também da superfície do cérebro. ao longo da série dos vertebrados. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. Nessa época. O Homo sapiens sapiens. pois. mas esse valor pode variar muito. disse o antropólogo sul-africano C. Essas significativas alterações de relevo. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. sempre. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. sabemos que a Terra. unto à costa oriental africana. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. por meio da seleção natural. K. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. por exemplo. levando à formação do homem. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. Como conseqüência. ainda. Na verdade. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. Estes são considerados hominídeos. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. Com relação ao ser humano. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. dentro de uma mesma espécie. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. como. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. por exemplo. iniciado há 200 milhões de anos. no Período Carbonífero. do processo de separação dos continentes. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. embora o nível de inteligência. segundo outros. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. desde a sua formação. ou seja. observa-se um aumento gradual não só do volume. em média. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. desde os últimos 50 milhões de anos. no sentido norte-sul. Entre esses fósseis.

Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. que vieram a constituir as savanas de hoje. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. além disso. como os leões e outros felinos. nas grandes glaciações que 6 . Estas. pois. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. Há cerca de 1. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. mais que de frutos carnosos. Particularmente. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. descoberto há poucos anos na Etiópia. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. da qual são conhecidos. que atualmente se estendem por grande parte do território africano. proporcionava-lhe a liberação das mãos. ans mesmas regiões. com grande capacidade para trituração. começaram a aparecer. A partir de Lucy. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. 30% maiores e 45% mais pesados. ao que tudo indica. O primeiro espécime encontrado. e essa espécie. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. em 1960. em média. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. primeiramente descoberto na Ilha de Java. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. porém dotados de capacidade cerebral bem maior. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. Há cerca de 2 milhões de anos.6 milhões de anos. entretanto. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. como os símios arborícolas. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. hoje. o contato com o frio. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). outros tipos de hominídeos. o que. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. Trata-se do Homo erectus. pelo antropólogo africano Louis Leakey. 2 milhões de anos. Também nessa época. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. descoberto. Nos últimos anos.menor porte. uma fêmea. sendo os primeiros. São os do gênero Homo. surge um novo personagem nesse cenário. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores.

contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. muito semelhante ao atual. deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. aprendeu a viver em cavernas. Finalmente. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística. denominada Homo neandertalensis). porém. estão longe de ser bem conhecidas. porém mais robusto e que não deixou descendentes. o Homo sapiens sapiens.ocorreram durante o último milhão de anos. há cerca de 220 mil anos. Migrando para regiões frias. 7 .

Segundo Felix Keesing.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. que essas diferenças se explicam. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. que os alemães têm mais habilidade para mecânica. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. 15. Em 1950. se transportarmos para o Brasil. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . traiçoeiros e cruéis. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. e. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. que os judeus são avarentos e negociantes. Em outras palavras. b) No estado atual de nossos conhecimentos. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. antropólogos físicos e culturais. Ela constitui. geneticistas. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. biólogos e outros especialistas. Eles nos informam. finalmente. Ou ainda. pelo contrário. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. antes de tudo. que os japoneses são muito trabalhadores. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. que os ciganos são nômades por instinto. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. de fato. pela história cultural de cada grupo. logo após o seu nascimento. uma das características específicas do Homo sapiens.

Wissler. mas em decorrência de uma educação diferenciada. em seu livro Civilization and Climate (1915). na verdade. antropólogos como Boas. E mais: que é possível e comum 9 . É ele que se recolhe à rede. Até muito pouco tempo. ganharam uma grande popularidade. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. como vimos anteriormente. do tipo das formuladas por Pollio.traços psicologicamente inatos. Kroeber. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. Estas teorias. e não a mulher. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. entre outros exemplos. arma de uso exclusivo dos homens. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. A partir de 1920. A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. entre outros. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. São explicações existentes desde a Antiguidade. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. Ibn Khaldun. um esforço físico considerável. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. de um processo que chamamos de endoculturação. eram exclusivamente masculinos. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. Resumindo. quer se trate de inteligência ou temperamento. Bodin e outros. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização.

Os grupos Pueblo são aldeões. Quando desejam mudar os seus acampamentos. então. vivem em tendas de peles de rena. Waurá. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. p. que se alimentavam de castanhas selvagens. Posteriormente. 22). A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. os Navajo são hoje mais pastoreadores. Ambos habitam a calota polar norte. Os lapões. do sudoeste americano. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. no mesmo habitat.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . cultivo. em ambientes geográficos muito semelhantes. Trumai. ocupam essencialmente o mesmo habitat. Vivem. portanto. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. os lapões e os esquimós. Era de se esperar. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. p. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. os lapões são excelentes criadores de renas. pastoreio – no mesmo ambiente natural. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. como primeiro exemplo. (Cliford Geertz. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. Um segundo exemplo. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. Tomemos. pois. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. Mas. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. 1978. sementes de capins e de caça. 1967. 33). na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. Em compensação. desvencilhar-se das pesadas roupas. É possível. colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. obtendo ovinos dos europeus. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. transcrito de Felix Keesing. por sua vez. Quando deseja. Kalapalo.

moral. sobre o meio ambiente. a caititu. portanto. crenças. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. Mas. pelo menos como utilizado atualmente. leis. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. o veado. examinar por toda parte as várias 11 . sem guelras ou membranas próprias. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. definido pela primeira vez por Tylor. A idéia de cultura. foi. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. Os Kayabi. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. que habitam o Norte do Parque. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. etc. e não casualmente. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. portanto. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. como a anta. arte. transmitida por mecanismos biológicos.existentes nos grandes mamíferos. Com esta definição. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. As diferenças existentes entre os homens. conquistou os mares. ou seja. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Sem asas. dominou os ares. provido de insignificante força física. em 1690. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. com efeito. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. O conceito de Cultura. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais.

Finalmente. Em 1871. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. em 1950. na verdade. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. mais de um século depois. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. Em outras palavras. “O Superorgânico”. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. um processo iniciado por Lineu. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. em 1775. ou regra de virtude para ser considerada. Completava-se. comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. II. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé. então.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”. em1973. parágrafo 10). Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que.. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. Esta definição é equivalente às que foram formuladas.. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. Em 1917. Meio século depois. Tanto é que. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). com referência a John Locke. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . Jacques Turgot (1727-1781). hoje clássico. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). cap. como diríamos hoje. (O grifo é nosso). era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Mas. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. que não seja em alguma parte ou outra. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. gorila e orangotango) e os homens. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas.

Os fundadores de nossa ciência. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. com um odor tautológico. foi capaz de assim proceder. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. a nossa espécie tinha conseguido. ou melhor. através dessa explicação. Em outras palavras. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. representou o afastamento crescente dos dois domínios. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Em suma. em 1950. no decorrer de sua evolução. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. onde o faro perdeu muito de sua importância. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. combinada com a capacidade de utilização das mãos. Esta. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. Neste trabalho. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 . O segundo passo deste processo. entretanto. Esta vida arborícola. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. o cultural e o natural. inexistente para qualquer outro mamífero. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. um mundo tridimensional. construído a partir de uma visão da natureza humana. elaborada no período iluminista. abriu para os primatas. principalmente os superiores. Mas. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. A reconstrução deste momento conceitual. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado.

é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. então. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. e uma bandeira desfraldada. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. E a chave deste mundo. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. Toda cultura depende de símbolos. esta seria a proibição do incesto. afirma ele. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Claude Lévi-Strauss. Ou seja. Sem o símbolo não haveria cultura. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). não um ser humano. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. Com efeito. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. o mais destacado antropólogo francês. sacudido ao vento. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. possibilitada pela posição erecta. e o meio de participação nele.. Explicações de natureza física e social. e o homem seria apenas animal. Como. a primeira norma.. “todos os símbolos devem ter uma forma física. Kenneth P. a filha e a irmã). Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . é o símbolo. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. a mãe. A cultura seria. Isto porque. provavelmente. fornecendo uma nova percepção. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. Para Lévi-Strauss. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra.. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. Oakley destaca a importância da habilidade manual. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. Leslie White. Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. O comportamento humano é o comportamento simbólico. antropólogo norte-americano contemporâneo. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento.. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. por exemplo. A seguir considera que o bipedismo foi. como afirmou o próprio White.

O ponto crítico. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. por isso mesmo. mais do que um evento maravilhoso. entretanto. aprender. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. portanto. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. consequentemente. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. O Australopiteco parece ser. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. na moderna acepção da palavra. como ironizou um antropólogo físico. improvável que possuísse uma linguagem. pois. assim. o produto da cultura”. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. antropólogo norte-americano. Em essência. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. mas também. porém incapaz de adquirir outros. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. Devido à dimensão do seu cérebro parece. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. O primata. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. num sentido especificamente biológico. num dado momento. não apenas o produtor da cultura. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. Clifford Geertz. de cultura. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. embora mais atrasado do que a fala humana -.20m.admitir que a cultura apareceu de repente. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. A cultura desenvolveu-se. Assim. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. compreendida como uma das características da espécie. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. 15 . Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. caça esporádica. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna.

esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins. Harris. 1977). Vayda e outros que. como Steward. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. Roger Keesing. Assim. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. Rappaport. da subsistência. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. divergências sobre como opera este processo. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. da manutenção do ecossistema. Carneiro. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. desenvolvido por Marvin Harris. produto dos chamados “novos etnógrafos”. como todos os animais. refere-se às teorias idealistas de cultura. Neste capítulo. Goodenough. Existem. e assim por diante.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. isto é. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. Meggers. na dialética social dos marxistas.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. padrões de estabelecimento. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. entretanto. 3 “A tecnologia. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. fragmentado por numerosas reformulações. inicialmente.” Em segundo lugar. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. para W. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. Keesing refere-se. no início deste trabalho. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. de agrupamento social e organização política. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. etc. B. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. que subdivide em três diferentes abordagens. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. crenças e práticas religiosas. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 .

será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. ou seja. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. Esta amplitude de possibilidades. de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. São públicos e não privados. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . ou seja. e este programa é o que chamamos cultura. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. como. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. a análise componencial. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. Com isto. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. Para isto. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. entretanto. a seu modo. A última das três abordagens. Estudar a cultura é. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. arte. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. regras. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. Assim. por exemplo. E.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. como um evento observável. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Voltando a Keesing. planos. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. mas não dentro deles. para Geertz. Lévi-Strauss. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. entre as teorias idealistas. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. para Geertz. um conjunto de princípios . O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. portanto.tais como a lógica de contrastes binários. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. Assim procedendo. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. Para isto. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. Assim. receitas. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss.

Assim. A nossa herança cultural. têm visões desencontradas das coisas. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. por exemplo. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. e provavelmente nunca terminará. Neste ponto. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. discriminamos o comportamento desviante. tema perene da incansável reflexão humana. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”.captar o código cultural em uma gramática. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. Até recentemente. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. Por isso. no final desta primeira parte. portanto. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. portanto. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Assim. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. respeitado. Esta atitude varia em outras culturas. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. David Schneider tem uma abordagem distinta. desenvolvida através de inúmeras gerações. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”. e era. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. constituído de formas vegetais bem definidas. a floresta é vista como um conjunto ordenado. Por exemplo. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural.

produtos de uma herança cultural. por exemplo. tais como o modo de agir. Enfim. primariamente. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis. ou seja. Os alunos de nossa sala de aula. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. que ela é inglesa. Todos os homens riem. assim. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. as diferenças percebidas pelos estudantes. A emissão sonora. A partir do que foi dito acima. sabem servir-se de seus corpos. profundamente alta. comer. são variações de um mesmo padrão cultural. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. Segundo Mauss. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. caminhar. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas.relações sexuais em troca de moedas de ouro. no qual analisa as formas como os homens. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. quando não está comendo. o fato de mais imediata observação empírica. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . vestir. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. O modo de ver o mundo. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. pode ser bem diversa. o resultado da operação de uma determinada cultura. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. a fim de acumular um dote para o casamento. e não pelo observador de fora. Na verdade. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. nessa mesma situação. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. O riso se expressa. por exemplo. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. as apreciações de ordem moral e valorativa. de sociedades diferentes. apesar de toda a sua fisiologia. o riso. Tomemos. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal.

como sinal de agrado da mesma. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. a sua força de trabalho. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. Dentro de uma mesma cultura. a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. Como utilizamos garfos. entre nós. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. mas a utilização do mesmo. seria considerado. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. Nas várias culturas. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). gesticulam. segundo o qual. a família deve toda se sentar à mesa. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. através da alimentação. Para nós. Ela deu à luz em pé. o ato de comer é um verdadeiro rito social. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. etc. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. em horas determinadas. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. “Buda nasceu estando sua mãe. Estas posturas femininas são copiadas. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. no mínimo. caminham. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. como indicador de má educação. em outras uma atividade privada. mas também pela maneira como agem à mesa. As mulheres sentam. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. entretanto. entre os ocidentais. 20 . depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. agarrada. Freqüentemente. no início do século.obstetrícia. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. reta. assim. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. após a refeição. Entre os latinos. Segundo ele. Mãya. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. de maneiras diferentes das dos homens. após a prece. Tal fato. a um ramo de árvore. provavelmente. em alguns casos. pelos travestis. Resumindo. com o chefe na cabeceira. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. e somente iniciar a alimentação. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”.

incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). cada um com sua própria linguagem. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. O costume de discriminar os que são diferentes. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. conforme o costume de seu país”. Após os convidados terem terminado os seus pratos. Tal tendência. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. Esta parábola. freqüentemente. Os Cheyene. consideravam-se “os homens”. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. reflete a condição humana. Finalmente. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. mas o grupo. Daí a reação. Dentro de uma mesma sociedade. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. em relação aos estrangeiros. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . colegas de seu marido. os Akuáwa. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. é um fenômeno universal. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. porque pertencem a outro grupo. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha.Roger Keesing. Entre os romanos. ou pelo menos a estranheza. acrescenta Keesing. O etnocentrismo. os esquimós também se denominavam “os homens”. ou mesmo sua única expressão. separado em pequenos grupos. O estudante asiático aceitou um segundo prato. seus costumes e expectativas. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. índios das planícies norte-americanas. e entre eles foi convidado um jovem asiático. se autodenominavam “os entes humanos”. denominada de etnocentrismo. de fato. grupo Tupi do Sul do Pará. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. e. sua visão de mundo. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea.

a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. fomos procurados por uma mulher. Muitos foram os suicídios praticados. Ela morre de choque. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. Muitos abandonaram a tribo. grupo Tupi do Maranhão. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. também. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. deprimentes e imorais. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. estes índios perderam a crença em sua sociedade. e até físicas. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. Traduzido como saudade. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. neste e em outros casos. que foi considerado muito eficaz. e mesmo os seus seres sobrenaturais. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . a pressão sanguínea cai. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). Um outro exemplo são as agressões verbais. que é a apatia. Foi. em estado de pânico. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. costumes e línguas diferentes. O principal protagonista de um filme. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. Entre os índios Kaapor. A vítima. Confiante nos poderes do branco. conseqüentemente. Diante de uma situação crítica. acaba realmente morrendo. perdiam toda a motivação de continuar vivos. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. que teria visto um fantasma (um “anan”). Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo.o início da relação afim. habitada por pessoas de fenotipia. o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. Em 1967.

os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. que fez desaparecer na mão. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). dançar e puxar no cigarro. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. Após cerca de uma hora de cantar. diz um ditado popular. o pajé recebeu o espírito. entretanto. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. Muitos brasileiros. por exemplo. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. uma idéia mais detalhada do processo. o pajé soprou fumaça. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Finalmente. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. Após muitas massagens no doente. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. “Meio-dia. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. dizem padecer de doenças do fígado. Nas curas a que assistimos.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. talvez.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. em seguida. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. em alguns casos. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. dessa vez dirigidas para o ombro. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. E de fato. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. não é importante. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. e em muitos casos a cura se efetiva. quem não almoça assobia”. primeiro sobre as próprias mãos e. A descrição da cura dará. sobre o corpo do paciente. Repetiu as massagens e sucções. desde o início do ritual. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. reais ou imaginárias. insetos mortos. etc. Guardavam-nos por 23 . Ajoelhando-se junto a ele. Em muitas sociedades humanas. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. por maior que tenha sido o nosso desjejum. Basicamente. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. esfregou-lhe o peito e o pescoço. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais.

qualquer que seja a sua identidade cultural... tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto.. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. Num sentido que não é precisamente determinado. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. “uma tribo”. A generalidade do etnocentrismo Assim definido.. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”. livre do cigarro.”. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares. ao mesmo tempo. Face aos objetivos do presente artigo. “Eu faço aquilo. o que parecia bastante.”. E. geralmente. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis.. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. pelo menos em parte. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente.. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural.algum tempo dentro da mão.”. 2. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado. “uma comunidade aldeã”. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. porém. a população em causa é. as restrições 24 . à audiência a sua natureza. para fazê-lo desaparecer após. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto.. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas.. “Nós fazemos aquilo. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”. como por vezes se supõe. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé. eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. O seu sentido de solidariedade depende.”. Explicavam.

] Se “nós” estamos no centro do universo. por vezes. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. ao mesmo tempo. freqüentemente. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. Isso acontece em todas as sociedades humanas. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. politicamente dominante. com o andar dos tempos. econômica e politicamente dominante. nós não somos “os outros”. diferentes de nós. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. como bárbaros.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. em que o setor b4anco da comunidade. contrair matrimônio entre si. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. contudo. a conotação “homens’. O fenômeno é geral. são “pessoas como nós”. Isso leva. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. freqüentemente. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. com temor. inferiores. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. 5) língua e dialeto. apesar de tudo. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. em estreita interdependência econômica. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. como deuses. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. 4) estilo de vida em geral. [Em várias sociedades tribais]. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. a que olhemos “os outros” com desprezo e. etc. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. Eles não são homens verdadeiramente”. mas porque são de uma espécie diferente. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. mas também a inveja. como noutros lados. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. como a cor da pele e o tipo de cabelo. a todo e qualquer nível de identificação. mas. 3) práticas religiosas. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. O traço essencial de tais sistemas reside em que. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. não só porque tem costumes diferentes. como animais. Em Israel. 25 . a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. eles são. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. mas que recusam.

geralmente de fé católica romana que. A tarefa do missionário como salvador das almas. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. Etnocentrismo. especialmente os da ala evangélica do movimento. Desde os tempos do Profeta. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. mas a maior parte dos missionários protestantes. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. Há um pequeno número de missões cristãs. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. etnocêntricas. mas pagãos. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. 3. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. Analogamente. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. colonialismo e missionários. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. 4. de alguma forma. em certos casos. mas também a de “destruir as obras do demônio”. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. Neste tipo de contexto.

reforçam-se uma à outra. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. Na África do Sul contemporânea. quase sempre. quem é que se pode sentar à mesma mesa. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. sobretudo. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. a questões políticas e econômicas. As duas faces da mesma moeda. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”. deplorável. No mundo real. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. O resultado é muitas vezes. ou antes.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. procriação/esterilidade. 27 . os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. limpeza/sujidade. erotismo/ascetismo. e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. as relações de domínio intergrupos dizem respeito.

..........................44 Cultura e relações de poder.............................O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade.............55 Indicações para leitura..............57 28 ...............34 A cultura em nossa sociedade......................29 O que se entende por cultura......................................................

sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. nações. Notem. nações. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. Assim. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. As variações nas formas de família. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. e a cultura as expressa. Se não estivessem não haveria necessidade. De fato. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. bem viva nos tempos atuais. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. mais freqüentemente por ambos os motivos. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. é porque eles estão em interação. sociedades e grupos humanos. porém. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. ou nas maneiras de habitar. são o resultado de sua história. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. Por isso. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. Entendido assim. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. Na verdade. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. logo se constata a sua grande variação. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. de conceber a realidade e expressá-la. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. por exemplo. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. sociedades e grupos humanos. costumes. 29 . Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante.

Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. por exemplo. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. no entanto. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação.Vejam. De fato. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. Isso se aplica. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. o contato entre grupos humanos foi freqüente. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. não obstante a constatação de certas tendências globais. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. como para a européia ou a chinesa. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. Assim. pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. Para muitas delas. por exemplo. O aceleramento desses contatos é recente. e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. as 30 . isto é. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. Assim. a viver em aldeias e vilas. pois. por exemplo. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. criando novas possibilidades de desenvolvimento. Nesse processo. Cada cultura é o resultado de uma história particular. como a domesticação de animais e plantas o prova. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. e isso inclui também suas relações com outras culturas. os grupos humanos se expandiram progressivamente. A partir de uma origem biológica comum. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. São também variadas as formas de organização social. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. bem-sucedidos. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas.

Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. no estágio da barbárie. Segundo aquele argumento. 31 . Nesse caso. existentes ou extintas. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. Por exemplo. No primeiro caso. nas etapas humanas da selvageria. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. vamos pensar em duas culturas primitivas. dada a multiplicidade de critérios culturais. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. dessa evolução em linha única. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. as tecnologias de metais. Assim. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. uma nômade praticando a caça e a coleta. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. Assim.quais podem ter características bem diferentes. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. sobre o resto do mundo. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. reinos africanos. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. Por exemplo. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. por exemplo. Ou então. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. Segundo as versões mais comuns desses estudos. falar. por exemplo. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade.

O século XIX. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. poderia ser aplicado. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. no entanto. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. unidade biológica da espécie humana. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. Existem. Cultura e relativismo Em outras palavras. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa. Por outro lado. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. por exemplo. Ou seja. conquistando e destruindo povos e nações. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. substitui-se um equívoco por outro. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. pois. Consideremos um pouco mais este segundo. em que esse confronto de idéias se consolidou. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. segundo essa visão. Vemos. Observe o quanto essa equação é enganosa. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. pois. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. sua civilização avançava implacavelmente. indicava os caminhos de 32 . a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais.

Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. um grupo religioso. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. Pensem. existe no interior de uma sociedade dinâmica. sua capacidade de emitir pronunciamentos. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. e muitas vezes o são. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. como se fossem culturas estranhas. por exemplo. suas faixas de idade. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Assim. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. de interpretar a realidade que as produz. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. a população difere ainda internamente segundo. cujas razões podem ser estudadas. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. quando não seu fim. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. de agir sobre essa realidade. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. Além disso. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. tem regiões de características bem diferentes. ou segundo seu grau de escolarização. numa sociedade como a brasileira. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. por exemplo. Tudo isso se reflete no plano cultural. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. por exemplo. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. os quais hierarquizam de fato os povos e nações.

a pintura. a escultura. como o teatro. Vejamos alguns desses sentidos comuns. formação escolar. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. Outras vezes. Contudo. a um novo idioma e a novos problemas. no estudo da cultura em nossa sociedade. Em geral. educação. cultura está associada a estudo. entre povos e nações. A partir disso. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. ou a seu modo de se vestir. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. mostrar como eles se desenvolveram. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura. a música. tais como o rádio. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. De modo que. 34 . nem sempre pacíficos. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. a seu idioma. Vamos então cercar o assunto. em discutir sobre cultura. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. a televisão. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. às lendas e crenças de um povo. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. A lista pode ser ampliada. o cinema. à sua comida. a novas técnicas. Assim. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. Por cultura se entende muita coisa. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado.cultural. Afinal.

crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. De acordo com esta segunda concepção. ao conhecimento filosófico. a um domínio. O esforço de entender as culturas. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. as culturas humanas são dinâmicas. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. idéias. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. No entanto. assim como às maneiras como eles existem na vida social. Nesses casos. já que não se pode falar em conhecimento. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. fechado. Assim. e da mesma forma seus meios de divulgação. Tanto assim que é 35 . De fato. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. Vamos à segunda. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. preocupando-se com a totalidade dessas características. à sua literatura. as re1ações pessoais e a espiritualidade. às idéias e crenças. seja na organização da sociedade. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. Esse é um ponto muito importante. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. com os quais partilhamos de poucas características em comum. parada. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. a alimentação. estagnado. Conforme já dissemos. Como veremos a seguir. o corpo. ou então de grupos no interior de uma sociedade. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. Neste caso. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. de localizar traços e características que as distingam. da vida social. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. e que tem por temas principais a ecologia.

da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. que quer dizer cultivar. educação elaborada de uma pessoa. industrializadas e sedentas de novos mercados. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. bem mais recentes. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. Roma e China antigas. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. Observem porém que se essa preocupação já existia. e isso está presente na expressão cultura da alma. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. práticas e crenças de povos diferentes. sofisticação pessoal. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. não-religiosa. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. Nesse sentido. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. do mundo social e da vida humana. ou seja. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. Em primeiro lugar. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. quer dizer. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. modos de vida. por exemplo. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Como sinônimo de refinamento. e populações do resto do mundo. Vem do verbo latino c o l e r e.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. porém. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas.

e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. Assim. Novamente. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. 37 . podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Há um segundo. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. várias vezes. Assim. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. Trata-se de uma idéia muito ampla. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. de cunho religioso. difícil de precisar. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. Além disso. Lembrem que. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. Nesse sentido.materiais que podiam ser estudados. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. Esta é uma relação muito íntima. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. a idéia é muito genérica. como na visão de evolução linear das sociedades. É que até então essas questões podiam ser respondidas. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. Se fosse só por isso. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. como vocês podem ver. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. quando se comparava povos diferentes. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. De fato. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. e tudo que é humano é cultural. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão.

lendas. em relação às nações política e economicamente dominantes. Assim. um país em posição inferior às potências européias. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. Foi assim na Alemanha do século XVIII. Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. podemos mencionar a Rússia do século XIX. nas Américas do século XX. específico. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. Assim foi na Rússia do século XIX. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. na falta de uma unidade política comum. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. tais como comidas. Nestes casos todos. O mesmo pode ser dito da América Latina. De fato. e o Brasil é bem um caso. por exemplo. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. Na América Latina. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. nomes. roupas. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. Assim. 38 . diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores. período em que a Inglaterra e França eram econômica. ou que para cá foram trazidas como escravas. No caso.

Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. concepções e modos de conhecimentos. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. pois. crenças. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. ou à falta de acesso à ciência. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. Com o passar do tempo. concepções. o que não ocorre com civilização. de conquista e incorporação 39 . à estrutura da família. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. cultura é então a própria marca da civilização. nação. qual seja. Assim. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. No segundo caso. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. mas também em grupos no seu interior. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. Como veremos numa sessão posterior. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. e por outro. à barbárie. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. ao direito e às idéias. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. No primeiro caso. grupo ou sociedade humana. a qualquer cultura. à organização da sociedade. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. cultura surge em oposição à selvageria. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. que mencionei anteriormente. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. à cultura dominante. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui.Assim. cultura competiu com a idéia de civilização. Ou ainda. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. Além do mais. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. se opõe à falta de domínio da língua escrita. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura.

Assim. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. de regular o casamento e a reprodução. nos instrumentos e nos utensílios. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. crenças e em tantos outros aspectos. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. na produção do necessário para a sobrevivência. É uma situação bem diferente. refinamento pessoal. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. Apesar disso. nações. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. Os dois planos de estudo. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. Vejamos como isso ocorre. nas técnicas. a civilização mundial. por exemplo. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 .acelerada de povos e nações. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. culturas particulares. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. nação. povo. nações. resultados de experiências históricas muito diferentes. vinda da relação de cultura com erudição. o da cultura e o da sociedade de classes. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. pois não seria essa realidade comum. Com a aceleração da interação entre povos. é uma idéia muito ampla para cultura. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. Assim. Quênia e Indonésia. sociedade. buscam desenvolver suas economias dependentes. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. Falar da totalidade das características de um povo. o Peru. que vai poder distinguir suas experiências particulares. andam muitas vezes separados. nas suas concepções. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. vejam bem.

De fato. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. Não se entusiasmem muito. como é o caso de sua arte. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. em cada produto cultural. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. De fato. por exemplo. doutrinas. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. Ou seja. através de palavras. Em primeiro lugar. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. sobre outras sociedades. Assim. idéias. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. descreva um sentimento ou uma paisagem. ciência. que uma idéia expresse um acontecimento. em cada elemento da cultura. ou seja. uma dimensão totalizadora. Na verdade. Assim. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. Não é de se estranhar. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. esportes e jogos. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. Assim. que as informações sejam processadas. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. política. ela foi transformada. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. com os exemplos acima. pois. teorias. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. tecnologia. que permitem. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. Isso pode atrapalhá-los. porém. a dimensão não-material. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. Vejamos por quê. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. religião. práticas costumeiras e rituais. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. Se a cultura é dimensão do processo social. Nesses recortes da realidade social comum. A diferenciação é. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. crianças. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. empresas em geral. na cultura dos jovens. Além do mais. contudo. fazendas. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. dos bancários. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. Assim. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. Da mesma forma. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. por exemplo. de estilos de vida. no entanto. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. ou então dos comerciários. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. A lista não teria fim. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. as quais são rotuladas de classes médias. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. das mulheres de classe média. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. a partir do exposto acima. Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. de acesso às instituições públicas tais como escola. hospital.fábricas. mais complexa. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. ou da amizade. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. Algumas preocupações são. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. de limites imprecisos e características variadas. ou segundo as práticas médicas. jovens e velhos. ao estudarmos cultura no Brasil. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. Há diferenças de renda. dos católicos. ou da vizinhança. na organização da vida familiar. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. bancos. É que. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. centros de lazer. ou alimentares.

sua dinâmica e. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. que desenvolve a concepção de cultura popular. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. engenheiros e outras). ainda 46 . Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. um conhecimento que se supunha inferior. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. mesmo sendo suas contemporâneas. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. buscando o que há de específico nelas. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. De fato. Da mesma forma. as ordens profissionais (de médicos. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. Nesse sentido.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. a cultura popular. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. Para ser pensada assim. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. uma realidade que não depende de formas externas. Assim. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. principalmente. que existem independentemente delas. Entende-se. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. as academias. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. a ampliação de seus domínios como. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. manifestações diferentes da cultura dominante. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. participante de suas instituições dominantes. então. tais como a universidade. superado. por exemplo. expresso pela filosofia. advogados. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. à alta cultura. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. as implicações políticas que possam ter. que estão fora de suas instituições. Por um lado porque. atrasado. procurando entender a sua lógica interna. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. na formação de seu próprio universo de legitimidade.

ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. para a religião. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. por exemplo. De fato. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. tende a se generalizar. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. Ela se sustenta em bases frágeis. não são homogêneas nas classes oprimidas. Assim. no entanto. literatura. Surgem associadas ao 47 . medicinas populares. das ciências físicas e biológicas. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. Assim.que se opondo a elas. da matemática. de esboçar com clareza. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. o que mina na base aquela polarização. para a literatura. outrora restrito a setores das classes dominantes. para a música. um popular intocado e definitivamente original. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. E. Parecem. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. dominante. o domínio da escrita e da leitura. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. fundamentalmente. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. e se esvazia em confronto com a realidade social. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. Criam-se assim modelos de religião. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. Ela cria problemas falsos. com modos de interpretar a comida. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. seus limites se perdem na complexidade da vida social. Quando se procura estudar a cultura popular. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. Isso vale para a medicina.

uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. como as citadas anteriormente. como a umbanda e o candomblé. o sistema escolar. e introduzidos pelas elites. tornando-se um legado de toda a população. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. a 48 . E se a educação. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. do qual não detêm o controle. seja na sua organização. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. hospitalar. Assim. De fato. generalizadas e reconhecidas. a saúde. estes de origem européia. partilham um processo social comum. A produção cultural. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar. é o resultado dessa existência comum. próprias. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. hospitalar e jurídico. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. e a justiça . o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. transformaram-se com o processo de transformação do país. Apesar de sua origem. é um produto dessa história coletiva. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. toda a produção cultural. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. Da mesma forma. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. as instituições dominantes de origem européia. por exemplo. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. seja na sua prática. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população.

teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. como se vê. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. à qual a expressão faz menção. as características sociais básicas da sociedade. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. levando aquela polarização ao limite. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. à saúde pública. Ao contrário.justiça não atendem aos interesses de toda a população. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. isso não se deve à sua origem. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . como a população mais pobre. É preciso assinalar. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. por exemplo. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. em outro. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. Falar. conseguiram acesso à escolarização. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. Para tentar reter o que é popular na cultura. São populações bem diversas. Assim. A categoria povo. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural. Isso produziria apenas confusão. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. porém. procurar localizar características da cultura operária. à habitação etc. que seja característico dela. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. Em certo sentido. mas nem sempre é esse o caso. nós estaríamos enfatizando. ainda. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. que seja mesmo um patrimônio seu. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. Assim. isso sim. em outro. nunca entendimento da vida social. como toda a população trabalhadora.

devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. por essas 50 . Ela é produto dessa sociedade. quanto porque está ligada à transformação destas. como se dá o exercício do poder na sociedade. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. As próprias classes sociais. que seja homogêneo para toda uma classe social. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. A cultura é criativa. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. mas também ajuda a produzi-la. entender como se realiza a desigualdade social. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. procurando a expressão cultural deles. Elas também têm sua dinâmica própria. têm contornos imprecisos na prática.valorizar esse patrimônio. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. demonstram grande variação interna. De qualquer modo. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. como já disse. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. não é um espelho amorfo. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. Assim. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. as relações que definem essa existência. fazê-las produzir. definitivo. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações.

Essa cultura homogeneizadora. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. no lazer. Do mesmo modo. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. maneiras de falar e de escrever. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. a indústria cultural. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. não é absoluto. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. na participação política. a imprensa e o cinema. desenvolvimento de novas técnicas. não só apregoam mensagens. Eles penetram em todas as esferas da vida social. essas sociedades industriais têm 51 .razões. a televisão. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. principalmente. Tais instrumentos seriam. Além do mais. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. nas atividades religiosas. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. centrada nesses meios de comunicação de massa. Ela seria uma característica vital deste século. Assim. no meio urbano ou rural. recrutamento de mão-de-obra especializada. de se vestir. de arrumar a casa. propõem estilos de vida. com inversões de capital. o controle das massas. No entanto. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. Não há dúvida de que a indústria da cultura. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. O ritmo acelerado de produção e consumo. o controle sobre as mensagens transmitidas. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. de sofrer. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. de lutar. São meios de comunicação poderosos. ainda que muito forte. Da mesma forma. de pensar. modos de organizar a vida cotidiana. produção de bens e serviços. Por todas essas razões. é o amaciamento dos conflitos sociais. na educação. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. Assim. de sonhar. de amar. Eles também difundem maneiras de se comportar. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. o rádio. Examinemos um pouco essas questões. na vida profissional. niveladora.

já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. corremos o risco de nos enganarmos. sem levar em consideração a ambas. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. projetos de desenvolvimento. Ela é. portanto. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. códigos de ação. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. dessa maneira. as tradições de um povo. já falamos disso exemplificando com a Alemanha. em seus modos de agir. As mensagens da indústria cultural. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. os costumes. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. É uma realidade histórica. Se não fizermos isso. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. os quais de resto são também dinâmicos. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. com propósitos de homogeneização e controle das populações. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. como uma dimensão da sociedade e de sua história. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. A cultura nacional é. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. os países das Américas. também sofrem alterações constantes. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. conseqüência das formas como a nação se produziu. em seus planos de vida.mudado. Mesmo assim. Antes. elementos que não são absolutos. que as possa ignorar. mas não se pode dizer que prescinda delas. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. mais do que a língua. mas não são a cultura dessa sociedade. 52 . resultado e aspecto de um processo histórico particular. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. a Rússia. Nesse sentido. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população.

sujeitas a transformação. desigual. Mas. para definir os aspectos que a fazem única. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. uma dimensão dinâmica e viva. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. assim. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. No entanto. de uma hierarquia entre eles. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. Vejam.Pode-se. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. pois. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. então. importante nos processos internos dessa sociedade. portanto. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. para delinear suas características. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. por exemplo. Seja 53 . Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. de mudar seu desenvolvimento. importante para entender as relações internacionais. apesar de sua presença maciça na população durante séculos. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. sempre valorativas. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. Discutir sobre a cultura comum pode. ao menos provisoriamente. da mesma forma. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. ser uma maneira de tentar alterá-la. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional.

Ao pensarmos sobre cultura. por exemplo.como for. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. 54 . podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. técnicas. formas. por exemplo. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. o conhecimento em geral. Assim. É enganoso. pois. de ensino. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. Há aspectos importantes. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. resultado de um século de existência no país. das instituições existentes e de sua dinâmica. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. Assim. de caridade. e que derivam da história de cada sociedade particular. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. suas concepções. nas universidades e centros de pesquisa. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. as maneiras como seus setores. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. produtos. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. diferentemente de outros países. Assim. de decisões tomadas no passado. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. Voltemos a eles. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade. matéria de produção. instituições se relacionam. Nesse período. como vimos ao longo desta parte.

categorias de pessoas. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. é claro. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. de atendimento à doença. A discussão de cultura sempre remete ao processo. como. e que a opressão política. Além disso. outras ênfases a dar. por exemplo. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. à experiência histórica. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. as mensagens políticas que contêm. Mas é ingênuo pensar que. econômica e cultural seja eliminada. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. de grupos. outros recortes a fazer. aos menores abandonados. por exemplo. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. tem sua dinâmica. Por tudo isso. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada.editoriais e outras. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. as concepções nela presentes. como dimensão do processo social. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. ela deve ser por isso jogada fora. E também porque. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. por exemplo. O que interessa é que a sociedade se democratize. Há outras maneiras de estudar a cultura. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. mas também com os sistemas públicos de educação. Podemos. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam.

Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. Da mesma forma. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. por exemplo. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. agir sobre seu desenvolvimento. procuram defini-la. o analfabetismo. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. a cultura é uma esfera de atuação econômica. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. Como vocês podem ver. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. de características acabadas. Cultura e equívoco Com tudo isso. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. controlá-la. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. da mesma forma. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. com empresas diretamente voltadas para ela.social. entendê-la. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. Há instituições públicas encarregadas disso. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. Também os aspectos da história comum 56 . Por outro lado. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. como. Assim. Expressam seus conflitos e interesses. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. como no caso da oposição entre erudito e popular. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. fazem parte da própria organização social.

INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. É importante insistir. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. não respondem a exigências naturais. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. É uma relação pequena. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. no entanto. Quanto à cultura nacional. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. Retomamos. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos.de um povo podem ser selecionados e valorizados. apropriação. Há aí controle. pois podemos concluí-lo. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. os temas com que iniciamos este trabalho. Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. assim. desigualdades no plano cultural. a compreensão de que suas características não são absolutas. E como conseqüência disso. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. Assim. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. 57 . e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. São lutas pela transformação da cultura. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. É bom que seja dessa forma. cultura é o legado comum de toda a humanidade. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. de Antônio Augusto Arantes Neto. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações.

Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. Editora Tempo Brasileiro. Cortez e Moraes Editores. Editora Vozes. São textos no geral claros e de fácil leitura. de Darcy Ribeiro. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. arte e educação. Editora Ática. Zahar Editores. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. reunindo escritos de épocas diferentes. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. Dirigido a um público amplo. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. Os textos têm linguagem acessível. Os textos têm graus variados de complexidade.O que é ideologia. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. Os Brasileiros: 1. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. de Florestan Fernandes. política americana. preocupados com identidade e política. Mariátegui. Para Inglês Ver. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. Dirigido ao público universitário. Editora Pioneira. Malandros e Heróis. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". Carnavais. O Negro no Mundo dos Brancos. O Caráter Nacional Brasileiro. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. de Peter Fry. cultura de classes e suas relações. de Marilena Chauí. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. de CIaude Lévi-Strauss. de leitura mais acessível. e outra. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. de Dante Moreira Leite. Teoria do Brasil. 58 . Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. Difusão Européia do Livro. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. Interpretação abrangente da formação do país. Zahar Editores. de Roberto da Matta. seu povo e cultura. A Cultura do Povo. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. política internacional. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa.

Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. ainda. no caso do antropólogo. às vezes. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. portanto. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. isso não poderia ocorrer. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. portanto. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. não somente a novos valores e ideologias. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. tendo. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. tais como: “Entre os brobdignacianos. Em outras palavras. conforme disse Malinowski. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. transformou nossa ciência. para Malinowski. que se ajustar. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. Deste modo. ele costuma fugir e. “Na antiga Caledônia. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. a Antropologia Social não poderia. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. começou a abandonar a postura evolucionista. como o laboratório do antropólogo social. Tal mudança de atitude. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. na sua observação participante. o urso o persegue”. tudo isso em condições específicas. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. no limiar do século XX. esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. ou. O controle da experiência. rituais exóticos e “costumes irracionais”. Freqüentemente. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. Assim. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . o etnólogo o experimentava de modo diverso. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”.

na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. permite localizar. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. discernir e. onde a idéia de classificar e. 1978: 22). como vimos. Trata-se. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. Como diz o mesmo Malinowski. 1976: 374). seja do ponto de vista pessoal. com qualquer tipo de tecnologia. gente do porte de Franz Boas. como um autêntico ponto de vista. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. em qualquer ponto do planeta. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. isto é. Evans-Pritchard. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. de 60 . o que. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. gestos. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. articulações e valores. bebe tudo de um só gole. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. teórico ou filosófico. Deste modo. reflexões. um conjunto coerente de vozes. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. É. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. porém. um conjunto coerente em si mesmo. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. teorizar. Ou seja. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. traduz a essência da perspectiva antropológica. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. basicamente. logo a seguir: “Há. sobretudo em outra sociedade. o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. sobretudo. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. como disse Malinowski. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. Essa sábia reflexão de Malinowski. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. com sorte. ridículos”. Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente.garrafa de uísque pela estrada. entretanto.

inclusive da nossa própria cultura. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. “comunidades”. seja porque as novas descobertas. na geração seguinte. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. neste contexto. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). o seu próprio “repensar a antropologia”. Assim. sacerdotes e sacrifícios. quando há uma intervenção das igrejas. portanto. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. que eles podem falar de “suas tribos”.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. seitas. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. classe social ou sociedade. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. como também o ponto de vista daquele grupo. a escola de Durkheim situa a 61 . imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. a meu ver. “mitos”. dos viajantes. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. “classes sociais”. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. Ou melhor. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. De fato. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. “ideologias” etc. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. Durkheim. E isso pode provocar novas revelações teóricas. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. Assim. “favelas”. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. definindo (ou melhor. Seja porque a definição anterior era por demais estreita. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. Isso porque. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. sejam elas as dos cronistas. até as mais “complicadas”. segmento. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social.

domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. culturas e civilizações. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. Assim. Mas. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. e não parcelas de relações que o tempo. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. de “estrutura”. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. como queria Morgan e seus contemporâneos. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. pois.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. pois. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. 62 . É. deixou de submeter à sua pressão modificadora. saudável e tradicional base pluralista. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. assim. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. de “funcionalidade”. um idioma. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. muito importante constatar como a Antropologia Social. por algum capricho. de “sincronia”. De fato. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. pela qual o fenômeno humano é estudado. não obstante. Em parte. A história. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. moral ou filosófica preestabelecida. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. Será. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. portanto. para utilizar a noção de “sistema”. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla.

como pensam os “primitivos”. com a grande tradição democrática. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. para um diálogo fecundo. se existem fatos econômicos. Mas tudo isso. ele não fica de fora. qual a racionalidade dos grupos tribais. da Ciência Política e da Economia. enquanto antropólogo. estudando-o por todos os meios disponíveis. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. qualquer que seja a sua aparência. as experiências humanas.desconhece. que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. Diferentemente. Em tudo. 63 . isso também entra na reflexão. portanto. se há material político. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço.sobretudo pela prática de viagens. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. então. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. É. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . descobrir. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. na postura às vezes difícil de ser entendida. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. Ou seja. da Geografia Humana. da História. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. problemas e paradoxos. da Sociologia. eles são usados. da Psicologia. enfim. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. convém sempre acentuar. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. mas muito próxima da Lingüística. Se existem fatos históricos. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente.

mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. e algo frio. por exemplo. de suas angústias. de fato. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. Não se pode. proclame que. através de um método estritamente indutivo. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. Para compreender o candomblé. e contra o observador. uma grande quantidade de informações. Pois a etnografia. O historiador. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. o observador deve ficar com a última palavra. na qual. é significativo que Lévi-Strauss. Essa apreensão da sociedade. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. Recolhe e analisa os testemunhos. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. se procura. o autor da Antropologia Estrutural. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. pelo menos em suas principais tendências clássicas. mais ainda. o indígena”. Quanto à prática da Sociologia. Se. Assim. a cipós vivos”. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). Nunca encontra testemunhas vivas. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. escreve Roger Bastide. como o antropólogo. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. e “desencarnado”. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. análoga a organizações vegetais. Quanto a isso.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. a sociedade tem preocupações religiosas. isto é. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. “contra o teórico. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. de quem se considera um “aluno”. 64 . de fato. de seus ideais.

jurídica. isto é. Como escreve Mauss (1960). um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar.. os processos cognitivos e afetivos. demográfica.). um outro: o sistema de produção e troca de bens. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. um perito de uma área particular (econômica. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. etc. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista. o direito.. anotado. quanto às virtudes do campo. social. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. pelo contrário.. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas). de fato. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. No campo.. Trata-se. c) O antropólogo evita. tem algo de errante. isto é. As tentativas abordadas. Com a diferença. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. as ciências econômicas. Não nos enganemos. de estar atenta para que nada lhe seja escapado. se tornar um especialista. vivido. psicológico. cultural. porém. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. de que este se esforça. artificialmente isolados em relação à 65 . não apenas por temperamento. de condições necessárias.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal. A busca etnográfica. tudo deve ser observado. As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. os erros cometidos no campo. De um lado. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. as ciências psicológicas.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. uma programação estrita de sua pesquisa. o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. os sistemas de crenças. as ciências religiosas. porém. constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. isto é. político. o evento que ocorre quando não esperávamos. ser o caso do antropólogo. Objetar-se-á que pode. é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. é claro. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. as ciências jurídicas. O antropólogo não pode. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica. De outro. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência. porém. bem como a utilização de protocolos rígidos. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”.

cidadão. a criminalidade. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. O projeto antropológico retoma hoje. supõe também. capazes de responder a essa definição: islamismo. o marxismo e a Antropologia.. o alcoolismo.. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. A prática da Antropologia. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. o que nos levaria à posição de. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. a ciência e a filosofia. mais tocados do que outros. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. por mais aperfeiçoados que sejam. parente. enquanto antropólogos. É a razão pela qual somos provavelmente. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. por exemplo. no horizonte científico contemporâneo. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. apenas três formas de pensamento são. de fazer surgir um questionamento mútuo. o divórcio. O parcelamento disciplinar comporta.. A meu ver. das condutas suicidas. antagonistas da reflexão. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. é claro.. paradoxalmente. em primeiro lugar. Pessoalmente. ser o especialista em uma única área. A própria Antropologia. consumidor. Se olharmos mais de perto. e. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente.. Assim. mas a observação direta de suas produções concretas). de fato. mas pouco reflexiva. o projeto que foi o da filosofia clássica. de fato. mas que corre o risco de cair no vazio. para além de todos mos questionários. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. Como escreve Lévi-Strauss. toda prática hiperespecializada. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano. 66 . de maneira pragmática. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. do esporte. e uma cientificidade extremamente positiva. no mundo contemporâneo.totalidade do social. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. a partir de um fenômeno concreto singular. a ciência e a religião. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa.. como mostrou Husserl. 2) tentar. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social.

E não era mesmo com ele. todo branco e sardento. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. 1996. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. Porque antes de cumprimentá-lo. chegara a passar fome. e sem credores à porta. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. vale dizer. talvez ainda sem tê-lo visto. mas. a) Identifique o estado anterior e o posterior. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. Era o sambista seu amigo. um bom sujeito. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. Por via das dúvidas. haveria de compreender. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. com o gringo ali a seu lado. Aprender Antropologia. que não era com ele. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. 67 . Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. Era seu amigo. De repente. já distraído dos seus passados tropeços. lidos depois do jantar. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. ao americano. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. São Paulo: Brasiliense.LAPLANTINE. velho companheiro. jornalistas. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. vendo o preto aproximar-se. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. Sendo assim.

a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro. Parágrafo).b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central. do texto. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o. o personagem central sente-se ameaçado. já esquecido dos dias de desempregado. 68 .

d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes. por detrás dos fatos narrados. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. Com base no sentido global dessa narrativa. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 . Se soubesse desse desfecho.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. existe sempre um posicionamento crítico do narrador. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor.

. Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João.. mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes. E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso... Do povo oprimido nas filas Nas vilas.. favelas Da força da grana que ergue 70 ... Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.De tuas meninas..

. Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa..E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva... 71 .

Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. veste igual. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. a melhor. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. o grupo do “diferente” que. o “nosso” grupo. De um lado. O monólogo etnocêntrico pode. ainda que diferente. bárbara. Talvez o etnocentrismo seja. um mal-entendido sociológico. etc. pois. O grupo do 72 . seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. os caminhos e razões. como sentimentos de estranheza. gosta dela. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. pensamentos. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. então. Assim. um daqueles de mais unanimidade. mais grave ainda. nossas definições do que é a existência. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. medo. que come igual. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E. enfim. é selvagem. conhece problemas do mesmo tipo. na constatação das diferenças. acredita nos mesmos deuses. nossos modelos. a superior. casa igual. também está no mundo e. distribui o poder da mesma forma. então. a vida deles não presta. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. por muitas maneiras. talvez. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. no plano afetivo. Grosso modo. às vezes. da sua visão a única possível ou. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. mais discretamente se for o caso. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. mora no mesmo estilo. dentre os fatos humanos. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. No plano intelectual. semelhantemente. a certa. de repente. nos deparamos com um “outro”. também exista. pois. empresta à vida significados em comum e procede. a natural. No etnocentrismo. conhecemos um grupo do “eu”. as formas. este “outro” também sobrevive à sua maneira. Aí. hostilidade. gosta de coisas parecidas. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores.

nessa lógica. a vida animal. estes somos nós. a sociedade do “eu” é a melhor. apesar de que. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. no etnocentrismo. Muito generoso. os bárbaros. como já disse. São qualquer coisa menos humanos. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Um dia. de alguma maneira. seu trabalho. de uma única sociedade. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. agora mínimo e sem nenhuma função. absurdo. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. fazer contas. Forase o relógio. muito simplesmente. Dias depois. ao estrangeiro. não sem dificuldade. É onde existe o saber. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. Ao chegar. A atitude etnocêntrica tem. comprou para os selvagens contas. a desordem. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. De qualquer forma. do barulhento. pois. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. por fim. a desarticulação. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. da selva que lembra. O selvagem é o que vem da floresta. modesto. infalível. anormal ou ininteligível. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. nunca o “igual” ao “eu”. após alguns meses. O etnocentrismo não é propriedade. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. alarmes. O barbarismo evoca a confusão. por um lado. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. pendurado a vários metros de altura. especialmente. meio sem jeito e a contragosto. na nossa. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. 73 . um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio.“outro” fica. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. espelhos. o trabalho. vencido por insistentes pedidos. No limite. muito feliz.. por vir. como sendo engraçado. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. neste conjunto de idéias. por vezes. ao jovem índio. o relógio. a superior. o progresso. marcar segundos. o índio fez o pastor divisar. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. São os selvagens. chamam. A surpresa maior estava. É o espaço da natureza. etc. O que importa realmente. “ser humano” e ao “outro”. porém. o pastor perdeu seu relógio dando-o. Tempos depois. Existe realmente. ainda por cima. venceu as burocracias inevitáveis e. pentes. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. é o fato de que. “excelentes” ou. A sociedade do “outro” é atrasada. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra.

de uma criança de um grande centro urbano que. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. Em segundo lugar. deu uma olhada no relógio novo. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. Era hora de ir. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. muito comum e de uso geral no etnocídio. não necessariamente verdadeira. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. seja em casa. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. arcos. a mesma coisa. Privilegiaram ambos as funções estéticas. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. esta estória representa o que se poderia chamar. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. porém. ornamentais. Como já vimos. inteligente e 74 . de um etnocentrismo “cordial”. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. Em primeiro lugar. tacapes. flechas. No mais das vezes. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. bastante plausível. e até uma flauta formavam uma bela decoração. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. se isso fosse possível. quinze para as dez. naquela manhã. a lógica do extermínio regulou. tanto aqui como em vários outros lugares. Isso lembra o comentário. seja na indústria cultural. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. Levantou-se. Hermann von Ihering. tristemente exemplar. na cultura do “outro”. os personagens de cada uma delas fizeram. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. de toda evidência. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. trazia-lhe estranhas lembranças. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. por exemplo. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. cocares. pode colocá-lo como “primitivo”. Assim.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. obviamente. seja nos livros didáticos. Também. como “algo a ser destruído”. bordunas. decorativas de objetos que. Esta estória. Em terceiro lugar. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Nelas. Tanto no presente como no passado. porque somos os autores destes filmes e livros. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. são apenas uma representação. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. Para o pastor. infinitas vezes. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. na matança dos índios). aliás. um famoso cientista do início do século vinte. da qual falamos na nossa sociedade. neste choque de culturas. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. diretor do Museu Paulista.

em outros. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. esta recusa é. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. via de regra. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. Este “escândalo” esconde. Assim. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. A figura do louco.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. ela deve mostrar e esconder. na nossa sociedade. sinal de saúde mental. A estória do nosso 75 . por exemplo. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. no mínimo. pois são lidos e. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. mas também em diferentes contextos no presente. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. Eu mesmo realizei. numa lavoura que não é a sua. Na nossa chamada “civilização ocidental”. Nesse sentido. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. em face do seu conteúdo. Os livros didáticos. um ovo ou uma pessoa. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. Isto não só ao longo da história. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. determinados estereótipos. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. “sério” e “científico”. como o marciano não diz nada. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. num corpo. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. carregam um valor de autoridade. Aliás. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. na verdade. que se recuse a trabalhar como escravo. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. Os estudantes são testados. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. Ora. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. Claro. que são permanentemente aplicados a estes índios. posso pensar dele o que quiser. há alguns anos. de um ponto de vista do grupo do “eu”. muito pelo contrário. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. mais ainda.

os “caretas”. os “doidões”. etc. os “vagabundos”. Nele o papel do índio é o de “criança”. “inocente”. mera imagem sem voz. os “paraíbas de obras”. o índio é. para o livro didático. “pré-histórico”. muitas vezes. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. “almas virgens”. são uma espécie de “conhecimento”. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. revistas. Uma das mais importantes é a da relativização. jornais. persistências do que chamamos etnocentrismo. etc. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. por oposição. A “indústria cultural” – TV. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. É no capítulo “Etnia brasileira”. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. publicidade. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. estamos relativizando. como o “outro” é alguém calado. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. ele aparece como “selvagem”. as “dondocas”. estamos relativizando. a quem não é permitido dizer de si mesmo. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. violências. os “surfistas”. os “colunáveis”. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. cheio de “amor à liberdade”. “altivo”. Ali. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. Em outras palavras. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. Da mesma maneira. num passe de mágica etnocêntrica. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. mas no contexto em que acontece. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento.. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. Assim. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. Enfim. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. os “empregados”. O terceiro papel é muito engraçado. baseado em formulações ideológicas. estamos relativizando. os “negros”. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. “primitivo”. capaz de ter um fim ou uma transformação. vira “corajoso”. Relativizar é não 76 . um “saber”. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. Mas. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. “antropófago”. os “velhos”. manipulado de acordo com desejos ideológicos. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. “infantil”. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. certo tipo de cinema. Assim são as sutilezas. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta.

Antes. em superiores e inferiores ou em bem e mal. A nossa sociedade já vem. a diferença não se equaciona com a ameaça. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. com maior ou menor grau de dificuldade. no conhecimento antropológico. Buracos sem fundo. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. nasceu marcada pelo etnocentrismo. se quisermos. XVI e XVII com suas navegações. Ela não é uma hostilidade do “outro”. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. há alguns séculos. mas com a alternativa. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse.Trata-se dos séculos XV. monstros. Assim. compenetrado e falante. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. Ela. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. A diferença das escolhas humanas se fixa. no plano da sociedade mais geral. O mestre. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. num certo nível. expedições. aqui e pelo mundo afora. O percurso que. Mesmo com as novas 77 .transformar a diferença em hierarquia. no mínimo. porém. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. Esta ciência chama-se Antropologia Social. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. É um momento básico de encontro com o “outro”. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. ser observado a partir de vários ângulos. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. Acredito até que. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. alucinações. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. agora. De fato. construindo um conhecimento ou. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. espantos. na Antropologia. Diferentemente do saber de “senso comum”. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. colonizações. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. Assim. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. sacações e aberturas. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. serpentes. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. gostaria.

pouco a pouco. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. nascia ali. As novas técnicas empolgavam os alunos. que lei. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. um conjunto radical de novas questões. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. ao menos dentro da Antropologia. um esforço de compreensão da diferença. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. T. se não por todos. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. discute-se e especula-se. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. E é esta perplexidade que vai. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. Muita violência. (que aí já não era mais preciso!). freqüentemente. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). frente ao “outro”. Assim. o risco era imenso. O mundo do “eu” se via obrigado. paradoxos. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. ele foi sendo superado. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. Que costumes. sempre mais matizados. vão assumindo novas formas.. mesmo sem viver. para o pensamento ocidental. procurando compreender as diferenças que. é conhecido como Evolucionismo. Ninguém entendia nada. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. nos centros avançados de estudo. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. pouco a pouco. que era preciso. interesses. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. a pensar a diferença.tecnologias. Destes encontros. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. à outra a própria natureza humana. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. e que procuram explicar a diferença. a cada vez. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”.”. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. num certo sentido.

Sabedores dessa origem remota dos antepassados. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. mais e mais absoluta em suas conquistas. uma segunda forma. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. em outras palavras. de Darwin. mostrando. Evolução. sua potencialidade. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. Lewis Morgan -. nos Estados Unidos. é claro. Progresso. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. a Inglaterra do século XIX era. E foi toda uma geração de antropólogos que. O resultado disso. então. encontra.teoria antropológica e. nos séculos XV e XVI. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. começou a produzir seus estudos. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. no seu sentido mais amplo. na direção do progresso. O homem a caminho. biológica de evolução. equivale a desenvolvimento. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. sua formulação clássica. no nível biológico do desenvolvimento. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. um espaço correto para um tipo de pensamento que. Tudo isso forma um campo intelectual. Para o evolucionismo antropológico. em plena metade do século XIX. Assim. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. vai ser a permanência do etnocentrismo. pelo processo evolutivo. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. de fato. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. evolução. então. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. contemporânea dos aborígenes australianos. por exemplo. tem um lugar de destaque. Mas. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. nos séculos XVIII e XIX. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. a esta noção orgânica. na história dos saberes sobre o ser humano. avanço no tempo. Mas. exatamente. a noção de progresso torna-se fundamental. por sua vez. Explicando melhor. Assim. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. evolução? Evolução. A lógica do raciocínio é simples. quase que como uma âncora. o que é. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que.

o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. então. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. podese dizer que é. tendo aceitação. Também transparece uma espécie de princípio geral. Se pensarmos nesta definição. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. mais cedo ou mais tarde. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. por exemplo. Este conceito é. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. Sabemos que são relativos. etc. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. Mas. que formam um “todo complexo”. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. o século XIX. a melhor por definição. Sim. diz o seguinte: “Cultura ou civilização. Faz-se. o mais famoso da Antropologia e. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. é este todo complexo que inclui conhecimento. crença. uma lei. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. Aqui. restava ainda um problema teórico. para eles. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. no seu sentido etnográfico estrito. no entanto. leis. no mínimo um clássico. a era vitoriana. estas idéias eram nítidas e claras. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. arte. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. dentro da cultura. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. Ainda mais. moral. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . O que e Arte? Lei? Moral?.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. unitários. que em plena época da rainha Vitória. talvez. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. logo na primeira página. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. porque se compararmos Brasil. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. postulavam uma permanência. Para os evolucionistas. em toda parte os mesmos. em certas sociedades. separados. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. Que. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério.

É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. a visão etnocêntrica. temos dois marcos básicos. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. “propriedade”. Para Morgan. No extremo inferior. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. “família”. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. “religião”.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. por trás do ser “civilizado”. os povos ditos “civilizados”. evidentemente. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. aqui no evolucionismo. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. o medo oculto. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. Diz uma anedota que Sir James Frazer. encontramos ainda. etc. ele nunca achou o cavalo. qualquer “trabalho de campo”. De fato. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. A relativização não tinha espaço. “arquitetura”. pois que tudo já estava pronto.. como eu faria isto ou aquilo?”. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. descobertas e instituições. o espanto. a falta ou excesso de 81 . “meios de subsistência”. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. importante antropólogo da época. pelo menos. Dessa maneira. chegando ao pólo “civilizado”. Estudando invenções.. Mas. Este espírito teria. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. a visão caótica do “outro”. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. Ou. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. paradoxalmente. a hipótese que coloco aqui é simples. por via do progresso. Dessa forma.. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. para onde teria ido?” Claro. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”.. os povos primitivos e no extremo superior. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. pouco a pouco. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. fortemente entrincheirada. barbárie e civilização..

É o que veremos a seguir. um “outro” tão humano quanto o “eu”. A magia. interessantes. Sabemos que ambos não são bons. neste processo. num primeiro momento. mais sabemos o quanto falta saber. relativizando: é claro que a época do novo mundo. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. E vai ser. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. para a maturidade e complexidade da disciplina e. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. num resumo.] Assim. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. Neste processo. complexos do que isto. Todos eles tinham personalidades peculiares. entre si. o que nos interessa mais de perto. enredo. mas pode-se ver qual se distancia mais. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. que foram os séculos XV. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. Entretanto. exatamente. para o crescimento. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. juntamente com Boas. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. Durkheim. apresentam diferenças e. já traz em si alguma semente de relativização. Se o “eu” negava. a sua maneira. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. 82 . Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. Malinowski. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. Cada um. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. É certo que a escolha. Tanto aqui. me parece que nesse sentido o evolucionismo. por assim dizer. multiplicando muito. vê-lo como atrasado e primitivo. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. já apresenta alguma diferença. VOANDO ALTO Diferentes atores.significações do “outro”. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. controvertidas. seu campo de estudos. contribuiu. e muito. Menos evoluído. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. Agora. mas nem “deus” nem “diabo”. cenários. Todos os três. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. mas muito mais mesmo.

Não se pode dizer. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. no entanto. Como se. É uma história com “h” minúsculo. forças e significados internos a este movimento. era uma única para toda a humanidade. torres. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. estabelece seu conhecimento do vigésimo. todos caminhassem num mesmo sentido. se interessa pelas posições. duas seriam as ações possíveis dessa partida. demonstravam a permanência de um tema. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. etc. nos dois movimentos. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. Em termos mais técnicos. uma idêntica concepção da natureza da história. diferentemente. bispos. no entanto. faríamos uma análise diacrônica. cada uma a sua maneira. aí. de Adão e Eva ao Juízo Final. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. de cada cultura particular. que a hipótese evolucionista criava. Passando para a análise das culturas humanas. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. Por outro lado. por seu turno. A história. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. Se. O longo caminho da história. a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . desde o primeiro até o vigésimo. via de regra. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. por eles. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. troca e empréstimo que as caracterizavam. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. que era o do “progresso”. o da “evolução”. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema.. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. dos valores atuais dos peões. A sincronia. das posições das peças no vigésimo movimento. específica. Mais 83 . os processos próprios de mudança. estaríamos analisando sincronicamente.história. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. Para estes dois movimentos. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. dessa maneira.

A nossa sociedade. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. veremos que a preocupação com a história é. Em primeiro lugar. se pensarmos bem. mais relativa. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. de ter na hierarquia sua regra número um. dá outras dimensões à Antropologia. Para ele. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra.simplesmente. para o historicista. por mais míope que seja. A realidade concreta a ser estudada. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. como no evolucionismo. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. como já disse. mais complexa. Nesta linha. Para ele. a sociedade do “eu”. e uma preocupação com ele. E. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. com seu corte teórico. observada. O verdadeiro ponto de ruptura. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. A Antropologia. Sim. se obriga. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. se constituía no objeto antropológico por excelência. ao menos. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. a discussão realmente importante. o que a levava. nem entre estes e o evolucionismo. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. Com isso. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. descrita. ao certo. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. que nem sempre poderá ser lá encontrada. não concordou Radcliffe-Brown. para fora do etnocentrismo. a história conjetural. Assim. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. seja ele difusionista ou evolucionista. agora. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. É o caso de noções como “processo”. inexoravelmente. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. especulativa. o estudioso. radcliffe-Brown. “estrutura” e “função”. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. antes de tudo. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. é importante que se saiba o que. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . neste sentido. Com isso. histórico. Ao fazer esta opção. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. feito de acontecimentos sucessivos. da “diferença”. definitivamente. O funcionalismo.

É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. etc. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. É nesse quadro. Mas. enquanto estrutura viva. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. Uma de tais analogias. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. é um processo: o “processo social”. Dentro desse “processo social”. os aplicava ao estudo da sociedade humana. como um organismo complexo que é. tecidos. histórico. possui uma estrutura composta de ossos. Se estas funções forem suprimidas. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. mas. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. Este organismo. por seu turno. Este. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. na produção teórica. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. por sua vez. Se parar de executá-lo. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. 85 . procuro apenas demonstrar que. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. recorrente. Na sociedade. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. sutis. aqui. também desaparece. ao colocar novas questões em jogo. Isto significou que. Transportava termos da Ciências Naturais e. por exemplo – aponte uma outra dimensão. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. fluidos. Espero que ele me perdoe. além de mais amplas. A vida caracteriza um constante processo. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. podemos perceber a existência de formas regulares.permanente. muito mais complexas. termina o processo vital e a estrutura orgânica. tão a seu gosto. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. o coração. Comparava o sistema social ao corpo humano. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. a sociedade se transformará numa outra diferente. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. Assim. por analogia. a da “estrutura social”. Nela. por exemplo. me parece. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. das ações. A sociedade não morreria. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. E. conseqüentemente teve de procurar. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. onde outras instituições terão. o processo vital. novos instrumentos para pensá-las. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. pagou o preço de uma forte relativização. outras “funções” cruciais. atacada numa função básica. Por outro lado. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. repetitivas.

apresentando uma existência própria. Explicando melhor. A Antropologia. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. Um outro nó. São “coisas”. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. um outro lado do laço. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. vou utilizar o próprio Durkheim que. principalmente. Os fatos sociais são externos. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. Conhecer a diferença. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. Antes. independente das manifestações individuais que possa ter”. autônomos. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. assim. que independe do indivíduo. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. o complexo pelo simples. intitulado “Que é Fato Social”. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. experimentar a existência junto ao “outro”. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. obrigado aos estudos sincrônicos. mas também se afirma como entidade autônoma. São “coisas” porque autônomos. e não menos importante para a autonomia antropológica. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. Neste sentido. em diferentes momentos e de várias formas. no sentido de sua concretude que independe da natureza. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. O antropólogo. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. para a Antropologia e para o processo de relativização. E. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. independente do indivíduo. com instrumentos teóricos que eram criados. livre para estudar a sincronia.produzido na sociedade do “eu”. Contando. o superior pelo inferior. principalmente. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. Com isto. por períodos significativos de tempo. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. ou então ainda. então. que é geral na extensão de uma sociedade dada. fixa ou não. na sincronia. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. na questão do etnocentrismo e de sua superação. vai ser desatado por Émile Durkheim. tem de viajar. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. um tema aparece e se repete. experimentando-se a si próprio como diferente. 86 . mas seus projetos tinham rumos diversos. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Qualquer estudante da vasta. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. por estar. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. Tem de ir morar.

um longo esforço de relativização. O fato social é. (2) extenso e (3) externo. no intrincado bolo do saber. de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. evidentes em si mesmas. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. A nós. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. parece tudo muito simples e óbvio. independente e própria. o fato social pressiona o indivíduo. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. Para a Antropologia. profundo.diante de explicações. o nome que se dá a qualquer navegador ousado.Acompanhando esta definição. Aqui. outro. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. É. novamente. Malinowski foi nosso grande viajante. neste contato com a “diferença”. o “outro” com todos os seus desafios. 87 . agora. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. pode dele se ausentar. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. Um argonauta era um tripulante de Argo. para além das manifestações individuais. exigiram. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. o fato social. por todos e para todos. Em outras palavras. Na verdade. Possui força autônoma. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. uma nave lendária da mitologia. A “diferença” cara a cara. É. à primeira vista. Para Malinowski. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. também. De repente. no repto lançado pela experimentação do relativismo. Com isto ele queria demonstrar. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. uma “coisa” que ultrapassa cada um. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. viajar o “outro”. Ninguém. E. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . Estas conquistas que podem parecer. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. Em segundo lugar. no entanto. a ser traçado. vemos que o fato social é (1) coercitivo. em primeiro lugar. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. que o fato social coage. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. O social tem seu próprio caminho. Em terceiro lugar.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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a complicação se tornou ainda maior. porque fizeram uma opção diferente. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. Muito pelo contrário. em larga medida. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. ou seja. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. ou melhor. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. uma outra .a deles -. E. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. dados obtidos pelo trabalho de campo. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. foi. Isto se torna possível. quando havia uma determinada visão de cultura. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. se tornava mais “verdadeira”. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. sobrevivência ou miséria. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. Parece que. que não pratica essa acumulação. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. Quando esse conceito. que podem transformar a teoria antropológica. vice-versa. Três ou quatro horas por dia. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. Assim. mas porque não querem. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. Assim. são reciprocamente definíveis. então. Ora. Ainda mais. pelo trabalho de campo. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade.tempo é dedicado a atividades econômicas. é perceber o “outro” na sua autonomia. essa forma de ver a passagem do tempo. mais que isto. em vários momentos da teoria antropológica. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. a definição de história era legitimada. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. encaixada com os conceitos de cultura. seria necessariamente pobre e miserável. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. uma máquina produtiva que.

ou pelo ambiente. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. No plano teórico. Assim. Ainda assim. qualquer que seja. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. Outra vez os dois conceitos se conjugam. É. Colocava-se. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. totalizador das “diferenças”. numa idéia de história. É um passado pelo qual já passei. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença.concretamente existente numa única. como capaz de explicá-la inteiramente. o conceito de tempo linear. para conhecê-la. Neste questionamento. É o próprio Lévi-Strauss quem. o coração por assim dizer. pois. Numa palavra: o “diferente”. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. pode passar a ser questionado. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. A cultura vai ser entendida como moldada. grande e completa explicação. É. Com Durkheim. ou pela linguagem. progredi. também particular. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. Em outras palavras. Passamos. simplesmente. sua contraparte. assim. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. ou pelo indivíduo. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. Nesta perspectiva. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. o “outro” é atrasado. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades. porque evoluí. na verdade. de trajetórias distintas. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. 92 . Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. através dela. também. histórico. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. tudo se relativiza. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. mas ainda bastante problemática.

É. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. pensado e vivido como descontinuidade. tentando explicar poeticamente. Ou seja. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. nossa existência. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. Este é o último capítulo do livro. seu tempo. tipo causa e conseqüência. mas. outro no chão. que são como dois momentos fixos. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. uma linearidade ininterrupta. até mesmo. para um Apinayé. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. Dá para sentir. estranho e ininteligível até. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. pensam o seu mundo. diz ele. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. no caso. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. tal como para nós. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. Um no céu. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. se sente fazendo história. nosso tempo. Antes. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. Esse tempo se contrapõe. Mas. mas de maneira errada. desdobrar-se. um jogo de espelhos. o fluxo. 93 . Para um Apinayé. nos capítulos anteriores. sua existência. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. foram realizados pela Antropologia. o que se quer saber é como os Apinayé. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. Talvez isso possa parecer extremamente complexo. de uma redefinição de seu papel como ciência. Por incrível que possa parecer. Mais fácil. Para elas. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. métodos e. o quanto é difícil o processo de relativização. E é mesmo. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. o tempo é sentido.Você. sendo parte dela. ele demonstra. a unidade. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. Em termos mais simples. de relativizar. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. O tempo não é. leitor. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. enfim. um fluxo. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”.

As culturas são “versões” da vida. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. seja ao seu “tempo”. A Antropologia. utilizando símbolos de diferentes tipos. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. como que mapas. trocamos mensagens. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. estudada por Malinowski. classificar e praticar sua experiência. Para se pensar o fenômeno cultura. tanto humilde quanto generosa. à qual nos referimos no capítulo anterior. destrói sociedades. destinos próprios. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. No entanto. Assim. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. não existem mais. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. Esta tarefa. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. seu “corpo”. teias. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. ao contrário. pelo trabalho de Malinowski. do antropólogo americano Clifford Geertz. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. etc. escolhas de uma “política” dos 94 . Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. cada cultura atribui significados. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. Nesse sentido. Pode também ser vista como uma teia. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. sentidos. pela qual “falamos” uns com os outros. se quisermos. Tal como um código. imposições. cria outras. A cultura. metáfora explorada por Clifford Geertz. mas das interpretações relativas. um saber. enquanto ator social. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. Aquela de ser uma ciência. os trobriandeses estão aí vivos. Melhor dizendo. O mundo muda. uma literatura que não é das verdades absolutas. sua “sexualidade”. nessa linha. Este código é a cultura. sua “morte”. a cultura “fala” da existência. um conhecimento ou. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. Cada um de nós. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. enfatizando sua dimensão interpretativa. por assim dizer.

conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. o caso do domínio das relações de parentesco. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. Este é. para entender estes sistemas de 95 . que seria a própria cultura de determinada sociedade. Mas. como o cônjuge. do etnocentrismo à relativização. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. o lado da afinidade do parentesco é. parentes afins. Assim. quem serão meus amigos e aliados. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. é trilhado na medida em que. uma escolha psicológica. guardar. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. Herança. Lévi-Strauss vai mostrar. definitivamente. Isto quer dizer que. irmãos. portanto. Se entre nós a escolha do cônjuge. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. direitos e deveres. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. enfim. O que faz. propriedade. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. Este caminho. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. ao menos. e às vezes principalmente. As Estruturas Elementares do Parentesco. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. por exemplo. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. num famoso livro. sistemas de parentesco. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. decidida individualmente. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. etc. absurdos. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. – mas também. encontrados nas sociedades do “outro”. então. o sistema de comunicação mais amplo. livrou-se. pareciam. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. Em termos mais precisos. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. seria interpretar este fluxo do discurso social. o que pensamos e fazemos. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. para dizer o mínimo.

esperança e generosidade. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. a um só tempo. seja na “individualidade” ou na “história”. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. é necessário ver que o coração. interétnicas. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. A afinidade nestes sistemas. A Antropologia reflete. muito pouco se relativiza. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. se relativizam. mostra ele. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. Tudo isso é muito pouco. na indústria cultural. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. Aí. realmente. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. 96 . conjuntos de idéias. Devem estar. o etnocentrismo é exorcizado. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. não é um dado psicológico. nos próprios termos de Lévi-Strauss. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. o centro deste sistema. nos costumes políticos. também. métodos e técnicas que. conceitos. por vezes quase invisíveis. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. enfim. para compreender o “outro”. movimentos que aconteceram na Antropologia. descendência e afinidade. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. seja no “parentesco” ou na “economia”. de “foro íntimo”. emerge uma compreensão do ser humano. no encontro entre o “eu” e o “outro”. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. acredito. morais. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. Aqui voltamos direto ao nosso tema. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. O que é. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. Este. Tudo isso indica que a Antropologia. Disso resulta. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. a chave para a sua compreensão. O que se passou na Antropologia. no jogo de seus movimentos. se transformam. Nas relações internacionais. problematizada e generosa. Aí também. sentimentos. frente a um sem-número de ideologias.parentesco. está numa unidade que inclua também a afinidade. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. Enfim.

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