APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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isto é. veio 4 . a fome generalizada. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. em microorganismos. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. Se isto não ocorria. a teoria anterior tem que ser abandonada. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. que produzem várias gerações por ano. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. pois. em dado momento. aquilo que se conhece. segundo acrescentaria Darwin. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. pois. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. Dizia Malthus. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. por alguma singularidade constitucional. Em 1838. no entanto. sobre um assunto determinado. intitulado abreviadamente Teoria das populações. com várias gerações por dia. Darwin imaginou. ou melhor ainda. Mas. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. deveria ocorrer um colapso. ou com maior abrangência. Seriam. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. Se essas características mudarem. em favor da segunda. em favor das que. Os fatos da teoria evolucionista. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. muitos deles com características “humanóides”. por força de alterações de clima. mas sim de um processo de seleção passiva. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. essa mesma questão. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. A teoria científica representa. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. se surgir outra teoria que explique melhor. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. pois. Por conseguinte. ou menos “aptas”.

não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. constituindo o Vale do Grande Rift. embora o nível de inteligência. mas esse valor pode variar muito. iniciado há 200 milhões de anos. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. sempre. 1350 centímetros cúbicos. inúmeras espécies de símios arborícolas. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. por meio da seleção natural. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. ao longo da série dos vertebrados. por exemplo. ou seja. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. a maior parte de Europa. vivendo sob as árvores”. Entre esses fósseis. observa-se um aumento gradual não só do volume. desde os últimos 50 milhões de anos. mas também da superfície do cérebro. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. entre outros fatores. Brain: “Parece razoável admitir-se que. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. dentro de uma mesma espécie. segundo alguns. possui. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. Essas significativas alterações de relevo. do processo de separação dos continentes. pois. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. em média. sabemos que a Terra. O Homo sapiens sapiens. no Período Carbonífero. desde a sua formação. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. Estes são considerados hominídeos. Nessa época. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. como. da Índia. disse o antropólogo sul-africano C. Como conseqüência. como existiam no Mioceno. levando à formação do homem. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. As condições vigentes. Na verdade. ainda. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. Em conseqüência das transformações climáticas. segundo outros. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. e 650. Por outro lado. unto à costa oriental africana. K. por exemplo. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . no sentido norte-sul. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. Com relação ao ser humano. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. há 12 milhões de anos. há cerca de 300 milhões de anos. ao longo do tempo. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. De fato. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos.

Há cerca de 1. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. Também nessa época. Trata-se do Homo erectus. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. Estas. em média. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. começaram a aparecer. A partir de Lucy. como os leões e outros felinos. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. sendo os primeiros. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. ans mesmas regiões. descoberto. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. que atualmente se estendem por grande parte do território africano.menor porte. entretanto. São os do gênero Homo. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores. mais que de frutos carnosos. descoberto há poucos anos na Etiópia. primeiramente descoberto na Ilha de Java. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. nas grandes glaciações que 6 . porém dotados de capacidade cerebral bem maior. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). outros tipos de hominídeos.6 milhões de anos. que vieram a constituir as savanas de hoje. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. Particularmente. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. proporcionava-lhe a liberação das mãos. uma fêmea. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. da qual são conhecidos. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. Nos últimos anos. Há cerca de 2 milhões de anos. surge um novo personagem nesse cenário. e essa espécie. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. pois. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. com grande capacidade para trituração. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. pelo antropólogo africano Louis Leakey. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. como os símios arborícolas. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. O primeiro espécime encontrado. ao que tudo indica. o que. além disso. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. 2 milhões de anos. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. o contato com o frio. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. 30% maiores e 45% mais pesados. em 1960. hoje.

Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. Finalmente. muito semelhante ao atual. Migrando para regiões frias. aprendeu a viver em cavernas. denominada Homo neandertalensis). contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. porém mais robusto e que não deixou descendentes. 7 . deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. o Homo sapiens sapiens.ocorreram durante o último milhão de anos. há cerca de 220 mil anos. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. porém. como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. estão longe de ser bem conhecidas. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística.

biólogos e outros especialistas. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. 15. traiçoeiros e cruéis. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. que os japoneses são muito trabalhadores.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. e. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. de fato. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. finalmente. Em 1950. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. logo após o seu nascimento. Ou ainda. uma das características específicas do Homo sapiens. pela história cultural de cada grupo. se transportarmos para o Brasil. geneticistas. antropólogos físicos e culturais. Segundo Felix Keesing. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. que os judeus são avarentos e negociantes. Eles nos informam. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. que os alemães têm mais habilidade para mecânica. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. antes de tudo. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. b) No estado atual de nossos conhecimentos. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. pelo contrário. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. Ela constitui. que os ciganos são nômades por instinto. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. que essas diferenças se explicam. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. Em outras palavras. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco.

de um processo que chamamos de endoculturação. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. um esforço físico considerável. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. arma de uso exclusivo dos homens. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. entre outros exemplos. Ibn Khaldun. São explicações existentes desde a Antiguidade. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. A partir de 1920. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. Bodin e outros. como vimos anteriormente. antropólogos como Boas. eram exclusivamente masculinos. A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. do tipo das formuladas por Pollio. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. É ele que se recolhe à rede. na verdade. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. E mais: que é possível e comum 9 . Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. quer se trate de inteligência ou temperamento. Estas teorias. e não a mulher. ganharam uma grande popularidade. Wissler. Até muito pouco tempo. A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra.traços psicologicamente inatos. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. Kroeber. entre outros. em seu livro Civilization and Climate (1915). O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. Resumindo. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. mas em decorrência de uma educação diferenciada. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos.

etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . vivem em tendas de peles de rena. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. Um segundo exemplo. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. Mas. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. desvencilhar-se das pesadas roupas. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. Tomemos. Quando desejam mudar os seus acampamentos. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. p. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. Kalapalo. A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. 1978. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. do sudoeste americano. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. em ambientes geográficos muito semelhantes. 1967. Em compensação. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. sementes de capins e de caça. os lapões e os esquimós. os Navajo são hoje mais pastoreadores. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. no mesmo habitat. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. 33). como primeiro exemplo. Era de se esperar. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. pastoreio – no mesmo ambiente natural. então. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. Waurá. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. Trumai. 22). é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. Os grupos Pueblo são aldeões. obtendo ovinos dos europeus. p. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. É possível. Ambos habitam a calota polar norte. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. portanto. por sua vez. Posteriormente. colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. ocupam essencialmente o mesmo habitat. (Cliford Geertz. Quando deseja. Vivem. pois. que se alimentavam de castanhas selvagens. transcrito de Felix Keesing. cultivo. os lapões são excelentes criadores de renas. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. Os lapões.

além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. portanto. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. em 1690. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. examinar por toda parte as várias 11 . sobre o meio ambiente. e não casualmente. portanto. crenças. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. Sem asas. a caititu. arte. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais.existentes nos grandes mamíferos. foi. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. pelo menos como utilizado atualmente. Mas. provido de insignificante força física. Os Kayabi. transmitida por mecanismos biológicos. A idéia de cultura. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. leis. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. como a anta. com efeito. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. ou seja. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. etc. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. dominou os ares. conquistou os mares. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. Com esta definição. que habitam o Norte do Parque. o veado. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. sem guelras ou membranas próprias. As diferenças existentes entre os homens. definido pela primeira vez por Tylor. O conceito de Cultura. moral. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte.

. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. Meio século depois. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. Em 1871. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. Em 1917. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. parágrafo 10). que não seja em alguma parte ou outra. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”. um processo iniciado por Lineu. Completava-se. Em outras palavras. Jacques Turgot (1727-1781). hoje clássico. comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. gorila e orangotango) e os homens. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. II. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que. ou regra de virtude para ser considerada.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). mais de um século depois. (O grifo é nosso). com referência a John Locke. Finalmente. em 1775. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. na verdade. era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. em1973. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. então. cap. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. Mas. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. “O Superorgânico”. como diríamos hoje. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo.. Esta definição é equivalente às que foram formuladas. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. em 1950. Tanto é que.

entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. onde o faro perdeu muito de sua importância. abriu para os primatas. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. A reconstrução deste momento conceitual. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. no decorrer de sua evolução. entretanto. construído a partir de uma visão da natureza humana. o cultural e o natural. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. combinada com a capacidade de utilização das mãos. Mas. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. a nossa espécie tinha conseguido. Esta. através dessa explicação. com um odor tautológico. Em outras palavras. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 . foi capaz de assim proceder. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. representou o afastamento crescente dos dois domínios. Neste trabalho. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. Esta vida arborícola. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. um mundo tridimensional. elaborada no período iluminista. em 1950. Em suma. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. principalmente os superiores. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. O segundo passo deste processo.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. ou melhor. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. inexistente para qualquer outro mamífero. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Os fundadores de nossa ciência. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração.

o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. “todos os símbolos devem ter uma forma física.. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. e o homem seria apenas animal.. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. Para Lévi-Strauss. O comportamento humano é o comportamento simbólico. possibilitada pela posição erecta. como afirmou o próprio White. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. Com efeito. provavelmente. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. e o meio de participação nele. sacudido ao vento. Sem o símbolo não haveria cultura. Explicações de natureza física e social. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). esta seria a proibição do incesto. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”.. Oakley destaca a importância da habilidade manual. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. não um ser humano. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. E a chave deste mundo. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. então. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. e uma bandeira desfraldada. fornecendo uma nova percepção. a mãe. Como. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. o mais destacado antropólogo francês. antropólogo norte-americano contemporâneo. Ou seja. a primeira norma. Toda cultura depende de símbolos. Kenneth P. Leslie White. temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. a filha e a irmã). A cultura seria. Isto porque. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos.. afirma ele. Claude Lévi-Strauss. é o símbolo. A seguir considera que o bipedismo foi. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. por exemplo. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 .

O primata. Em essência. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. não apenas o produtor da cultura. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. O ponto crítico. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. embora mais atrasado do que a fala humana -. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. entretanto. compreendida como uma das características da espécie. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. Clifford Geertz. por isso mesmo. portanto. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. num sentido especificamente biológico.admitir que a cultura apareceu de repente. Assim. Devido à dimensão do seu cérebro parece. pois. o produto da cultura”. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. porém incapaz de adquirir outros. caça esporádica. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. A cultura desenvolveu-se. mas também. consequentemente. assim. antropólogo norte-americano. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. aprender. num dado momento.20m. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. na moderna acepção da palavra. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. improvável que possuísse uma linguagem. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. 15 . um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. de cultura. mais do que um evento maravilhoso. como ironizou um antropólogo físico. O Australopiteco parece ser.

que subdivide em três diferentes abordagens. B. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. Neste capítulo. de agrupamento social e organização política.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. Goodenough. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. fragmentado por numerosas reformulações. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. e assim por diante.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. entretanto. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. no início deste trabalho. padrões de estabelecimento. Carneiro. como Steward. Vayda e outros que. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. divergências sobre como opera este processo. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. produto dos chamados “novos etnógrafos”. na dialética social dos marxistas. como todos os animais. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. 3 “A tecnologia. Existem. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. isto é. 1977). da subsistência. desenvolvido por Marvin Harris. refere-se às teorias idealistas de cultura. crenças e práticas religiosas. Rappaport. da manutenção do ecossistema. inicialmente. Keesing refere-se. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 . Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. Harris. Roger Keesing. Assim. Meggers. para W. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. etc.” Em segundo lugar. esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins.

de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. para Geertz. um conjunto de princípios . e este programa é o que chamamos cultura. São públicos e não privados. receitas. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. Para isto. por exemplo. para Geertz. Assim. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. a seu modo. Esta amplitude de possibilidades. como. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem.tais como a lógica de contrastes binários. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. portanto. entretanto. A última das três abordagens. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. mas não dentro deles. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. Assim procedendo. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. Assim. como um evento observável. arte. Para isto. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Lévi-Strauss. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. a análise componencial. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. E. ou seja. O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. entre as teorias idealistas. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. planos. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. Estudar a cultura é. Voltando a Keesing. regras. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras. ou seja. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. Com isto. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 .

A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. Assim. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. e era. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. Assim. Por exemplo. Por isso. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. no final desta primeira parte. David Schneider tem uma abordagem distinta. Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”. A nossa herança cultural. Neste ponto. por exemplo. portanto.captar o código cultural em uma gramática. desenvolvida através de inúmeras gerações. a floresta é vista como um conjunto ordenado. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. Até recentemente. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. respeitado. tema perene da incansável reflexão humana. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. discriminamos o comportamento desviante. Esta atitude varia em outras culturas. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. têm visões desencontradas das coisas. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. constituído de formas vegetais bem definidas. portanto. e provavelmente nunca terminará.

Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. O riso se expressa. são variações de um mesmo padrão cultural. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais.relações sexuais em troca de moedas de ouro. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. tais como o modo de agir. caminhar. a fim de acumular um dote para o casamento. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. o riso. as diferenças percebidas pelos estudantes. profundamente alta. apesar de toda a sua fisiologia. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. Os alunos de nossa sala de aula. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. que ela é inglesa. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. comer. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. O modo de ver o mundo. Segundo Mauss. e não pelo observador de fora. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. Todos os homens riem. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. A partir do que foi dito acima. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. as apreciações de ordem moral e valorativa. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. vestir. o fato de mais imediata observação empírica. o resultado da operação de uma determinada cultura. por exemplo. sabem servir-se de seus corpos. nessa mesma situação. por exemplo. produtos de uma herança cultural. assim. primariamente. quando não está comendo. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. de sociedades diferentes. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. no qual analisa as formas como os homens. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. A emissão sonora. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . pode ser bem diversa. Enfim. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. Na verdade. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. ou seja. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. Tomemos. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis.

muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. gesticulam. a um ramo de árvore. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. o ato de comer é um verdadeiro rito social. 20 . através da alimentação. mas a utilização do mesmo. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. etc. provavelmente. Para nós. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. Freqüentemente. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). mas também pela maneira como agem à mesa. caminham. Entre os latinos. em alguns casos. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. Nas várias culturas. seria considerado. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. de maneiras diferentes das dos homens. em outras uma atividade privada. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. entretanto. a sua força de trabalho. “Buda nasceu estando sua mãe. Ela deu à luz em pé. em horas determinadas. após a prece. agarrada. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. a família deve toda se sentar à mesa. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. após a refeição. Segundo ele. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. entre nós.obstetrícia. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. como sinal de agrado da mesma. no início do século. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. Estas posturas femininas são copiadas. entre os ocidentais. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Como utilizamos garfos. Tal fato. reta. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. assim. e somente iniciar a alimentação. pelos travestis. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. segundo o qual. As mulheres sentam. como indicador de má educação. Dentro de uma mesma cultura. no mínimo. Resumindo. Mãya. com o chefe na cabeceira.

O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. de fato. Os Cheyene. e entre eles foi convidado um jovem asiático. os Akuáwa. reflete a condição humana. os esquimós também se denominavam “os homens”. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. é um fenômeno universal. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. ou pelo menos a estranheza. O estudante asiático aceitou um segundo prato. seus costumes e expectativas. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. consideravam-se “os homens”. O costume de discriminar os que são diferentes. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. grupo Tupi do Sul do Pará. e. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. índios das planícies norte-americanas. acrescenta Keesing. denominada de etnocentrismo.Roger Keesing. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. Daí a reação. separado em pequenos grupos. ou mesmo sua única expressão. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. colegas de seu marido. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. Tal tendência. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. Após os convidados terem terminado os seus pratos. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. cada um com sua própria linguagem. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. conforme o costume de seu país”. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. Dentro de uma mesma sociedade. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. sua visão de mundo. se autodenominavam “os entes humanos”. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. mas o grupo. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. em relação aos estrangeiros. freqüentemente. Esta parábola. Finalmente. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. Entre os romanos. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. O etnocentrismo. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. porque pertencem a outro grupo. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo.

que foi considerado muito eficaz. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. A vítima. Ela morre de choque. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. que é a apatia. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. Traduzido como saudade. Em 1967. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. perdiam toda a motivação de continuar vivos. Foi. em estado de pânico. Muitos abandonaram a tribo. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. conseqüentemente. fomos procurados por uma mulher. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. costumes e línguas diferentes. eram impotentes diante do poder da sociedade branca.o início da relação afim. habitada por pessoas de fenotipia. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. grupo Tupi do Maranhão. Confiante nos poderes do branco. neste e em outros casos. Muitos foram os suicídios praticados. Um outro exemplo são as agressões verbais. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. e até físicas. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. e mesmo os seus seres sobrenaturais. também. a pressão sanguínea cai. acaba realmente morrendo. deprimentes e imorais. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. Entre os índios Kaapor. O principal protagonista de um filme. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. estes índios perderam a crença em sua sociedade. que teria visto um fantasma (um “anan”). o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). Diante de uma situação crítica. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo.

e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. quem não almoça assobia”. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. por maior que tenha sido o nosso desjejum. Ajoelhando-se junto a ele. diz um ditado popular. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. uma idéia mais detalhada do processo.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. esfregou-lhe o peito e o pescoço. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. desde o início do ritual. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. dançar e puxar no cigarro. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. que fez desaparecer na mão. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. Após cerca de uma hora de cantar. Guardavam-nos por 23 . além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. entretanto. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. Repetiu as massagens e sucções. reais ou imaginárias. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. em seguida. em alguns casos. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. Muitos brasileiros. insetos mortos. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. sobre o corpo do paciente. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. talvez. dizem padecer de doenças do fígado. os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. não é importante. etc. o pajé recebeu o espírito. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. dessa vez dirigidas para o ombro. o pajé soprou fumaça. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. e em muitos casos a cura se efetiva. Basicamente. “Meio-dia. Em muitas sociedades humanas. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. por exemplo.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. Nas curas a que assistimos. Finalmente. A descrição da cura dará. E de fato. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. primeiro sobre as próprias mãos e. Após muitas massagens no doente.

pelo menos em parte. 2..algum tempo dentro da mão. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. “uma tribo”.. “Eu faço aquilo. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. como por vezes se supõe. “uma comunidade aldeã”. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto.”. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. A generalidade do etnocentrismo Assim definido. ao mesmo tempo. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. o que parecia bastante. livre do cigarro. as restrições 24 . apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. Explicavam. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto...”. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. O seu sentido de solidariedade depende. Num sentido que não é precisamente determinado. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo.. eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum. à audiência a sua natureza. para fazê-lo desaparecer após. qualquer que seja a sua identidade cultural. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”. geralmente.. porém. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal. Face aos objetivos do presente artigo. “Nós fazemos aquilo. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural. a população em causa é. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado...”. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé.”. E. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”.

5) língua e dialeto. Eles não são homens verdadeiramente”. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. como deuses. em estreita interdependência econômica. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. diferentes de nós. mas. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. Em Israel. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. eles são. [Em várias sociedades tribais]. econômica e politicamente dominante. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. a que olhemos “os outros” com desprezo e. politicamente dominante. Isso leva. mas também a inveja. nós não somos “os outros”. O fenômeno é geral. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. contudo. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. contrair matrimônio entre si. a todo e qualquer nível de identificação. em que o setor b4anco da comunidade. como a cor da pele e o tipo de cabelo. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. 25 . a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. como animais. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. freqüentemente. como bárbaros. freqüentemente. por vezes. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. 4) estilo de vida em geral. a conotação “homens’.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. O traço essencial de tais sistemas reside em que. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. ao mesmo tempo. com temor. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes.] Se “nós” estamos no centro do universo. como noutros lados. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. com o andar dos tempos. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. etc. Isso acontece em todas as sociedades humanas. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. mas porque são de uma espécie diferente. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. apesar de tudo. inferiores. são “pessoas como nós”. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. não só porque tem costumes diferentes. 3) práticas religiosas. mas que recusam.

as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. mas também a de “destruir as obras do demônio”. Neste tipo de contexto. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 .A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. geralmente de fé católica romana que. Há um pequeno número de missões cristãs. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. etnocêntricas. mas a maior parte dos missionários protestantes. A tarefa do missionário como salvador das almas. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. colonialismo e missionários. 4. mas pagãos. de alguma forma. em certos casos. Analogamente. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. 3. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. especialmente os da ala evangélica do movimento. Desde os tempos do Profeta. Etnocentrismo.

e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. As duas faces da mesma moeda. O resultado é muitas vezes. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. No mundo real. procriação/esterilidade. Na África do Sul contemporânea. erotismo/ascetismo. deplorável. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. ou antes. quase sempre. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. sobretudo. a questões políticas e econômicas. limpeza/sujidade. a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. 27 . A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. quem é que se pode sentar à mesma mesa. reforçam-se uma à outra.

................................................34 A cultura em nossa sociedade................57 28 .......O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade.........................29 O que se entende por cultura......................44 Cultura e relações de poder.....................................55 Indicações para leitura..................

Na verdade. é porque eles estão em interação. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. e a cultura as expressa. nações. 29 . oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. de conceber a realidade e expressá-la. bem viva nos tempos atuais. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. mais freqüentemente por ambos os motivos. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. sociedades e grupos humanos. Notem. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. por exemplo. sociedades e grupos humanos. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. De fato. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. logo se constata a sua grande variação. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. Por isso. nações. porém. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos. costumes. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. As variações nas formas de família. Se não estivessem não haveria necessidade. Entendido assim. Assim. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. ou nas maneiras de habitar. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. são o resultado de sua história. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte.

e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. Cada cultura é o resultado de uma história particular. Assim. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. A partir de uma origem biológica comum. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. como a domesticação de animais e plantas o prova. isto é. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. pois. Nesse processo. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. não obstante a constatação de certas tendências globais. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. De fato. a viver em aldeias e vilas. por exemplo. por exemplo. Assim. Isso se aplica. no entanto. o contato entre grupos humanos foi freqüente. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. criando novas possibilidades de desenvolvimento. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. Para muitas delas. bem-sucedidos. as 30 . São também variadas as formas de organização social. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. O aceleramento desses contatos é recente. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. por exemplo. os grupos humanos se expandiram progressivamente. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. e isso inclui também suas relações com outras culturas. como para a européia ou a chinesa. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas.Vejam. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural.

Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. Por exemplo. Por exemplo. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. reinos africanos. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade.quais podem ter características bem diferentes. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. No primeiro caso. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. por exemplo. Assim. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. falar. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. Segundo aquele argumento. nas etapas humanas da selvageria. por exemplo. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. Assim. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. existentes ou extintas. uma nômade praticando a caça e a coleta. vamos pensar em duas culturas primitivas. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. as tecnologias de metais. Ou então. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. Segundo as versões mais comuns desses estudos. no estágio da barbárie. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. dessa evolução em linha única. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. Nesse caso. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. sobre o resto do mundo. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. dada a multiplicidade de critérios culturais. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. 31 . a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria.

pois. O século XIX. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. sua civilização avançava implacavelmente. conquistando e destruindo povos e nações. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. segundo essa visão. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. pois. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. em que esse confronto de idéias se consolidou. por exemplo. Existem. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. no entanto. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. Consideremos um pouco mais este segundo. indicava os caminhos de 32 . substitui-se um equívoco por outro. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. poderia ser aplicado. a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa. Vemos. Cultura e relativismo Em outras palavras.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. unidade biológica da espécie humana. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. Ou seja. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. Observe o quanto essa equação é enganosa. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural. Por outro lado. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores.

A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. quando não seu fim. Tudo isso se reflete no plano cultural. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. Pensem. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. Assim. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. e muitas vezes o são. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. por exemplo. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. sua capacidade de emitir pronunciamentos. tem regiões de características bem diferentes. os quais hierarquizam de fato os povos e nações. ou segundo seu grau de escolarização. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. suas faixas de idade. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. numa sociedade como a brasileira. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. por exemplo. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. cujas razões podem ser estudadas. a população difere ainda internamente segundo. um grupo religioso. de agir sobre essa realidade. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. de interpretar a realidade que as produz. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . como se fossem culturas estranhas. Além disso. por exemplo. existe no interior de uma sociedade dinâmica.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino.

cultural. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. nem sempre pacíficos. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. entre povos e nações. A partir disso. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. à sua comida. o cinema. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. a novas técnicas. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. Vamos então cercar o assunto. A lista pode ser ampliada. Por cultura se entende muita coisa. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. a televisão. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. em discutir sobre cultura. a música. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. mostrar como eles se desenvolveram. a um novo idioma e a novos problemas. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. Contudo. Afinal. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. 34 . As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. a escultura. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. cultura está associada a estudo. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. Outras vezes. a seu idioma. no estudo da cultura em nossa sociedade. tais como o rádio. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. a pintura. De modo que. formação escolar. Em geral. educação. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. como o teatro. ou a seu modo de se vestir. às lendas e crenças de um povo. Assim. Vejamos alguns desses sentidos comuns. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura.

quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. Neste caso. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. ao conhecimento filosófico. Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. a um domínio. estagnado.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. já que não se pode falar em conhecimento. O esforço de entender as culturas. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. De fato. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. Assim. de localizar traços e características que as distingam. e da mesma forma seus meios de divulgação. preocupando-se com a totalidade dessas características. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. idéias. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. parada. Conforme já dissemos. as re1ações pessoais e a espiritualidade. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. fechado. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. e que tem por temas principais a ecologia. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. às idéias e crenças. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. No entanto. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. à sua literatura. as culturas humanas são dinâmicas. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. da vida social. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. Como veremos a seguir. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. assim como às maneiras como eles existem na vida social. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. Nesses casos. De acordo com esta segunda concepção. Esse é um ponto muito importante. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. Vamos à segunda. ou então de grupos no interior de uma sociedade. a alimentação. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. com os quais partilhamos de poucas características em comum. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. seja na organização da sociedade. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. o corpo. Tanto assim que é 35 .

do mundo social e da vida humana. porém. Nesse sentido. quer dizer. práticas e crenças de povos diferentes. Vem do verbo latino c o l e r e. industrializadas e sedentas de novos mercados. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. educação elaborada de uma pessoa. bem mais recentes. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. Roma e China antigas. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. por exemplo. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. e populações do resto do mundo. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. Como sinônimo de refinamento. não-religiosa. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. e isso está presente na expressão cultura da alma.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. ou seja. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. que quer dizer cultivar. Em primeiro lugar. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. Observem porém que se essa preocupação já existia. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. sofisticação pessoal. modos de vida.

quando se comparava povos diferentes. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. várias vezes. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. Se fosse só por isso. como vocês podem ver. Trata-se de uma idéia muito ampla. É que até então essas questões podiam ser respondidas. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. Lembrem que. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. e tudo que é humano é cultural. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. Nesse sentido. Esta é uma relação muito íntima. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. Além disso. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. Assim. 37 . de cunho religioso. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. como na visão de evolução linear das sociedades. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. a idéia é muito genérica. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Assim. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. Novamente. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. Nesse contexto de discussão sobre evolução. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. De fato. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. Há um segundo.materiais que podiam ser estudados. difícil de precisar.

Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. em relação às nações política e economicamente dominantes. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. roupas. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. nas Américas do século XX. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. 38 . tais como comidas. ou que para cá foram trazidas como escravas. Na América Latina. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. e o Brasil é bem um caso. Nestes casos todos. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. De fato. Foi assim na Alemanha do século XVIII. O mesmo pode ser dito da América Latina. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. No caso. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. lendas. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. na falta de uma unidade política comum. um país em posição inferior às potências européias. nomes. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores. Assim. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. Assim foi na Rússia do século XIX. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. podemos mencionar a Rússia do século XIX. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. período em que a Inglaterra e França eram econômica. por exemplo. específico. Assim.

a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. à organização da sociedade. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. pois. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. de conquista e incorporação 39 . Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. Assim. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. à cultura dominante. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. à estrutura da família. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura. concepções. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. nação. crenças. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. Além do mais. a qualquer cultura. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. Como veremos numa sessão posterior. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. se opõe à falta de domínio da língua escrita. cultura é então a própria marca da civilização. e por outro. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. Ou ainda. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. No segundo caso. ou à falta de acesso à ciência. concepções e modos de conhecimentos. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. ao direito e às idéias. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. qual seja. No primeiro caso. à barbárie. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. mas também em grupos no seu interior. entre a matéria e o espírito de uma sociedade.Assim. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. o que não ocorre com civilização. que mencionei anteriormente. cultura surge em oposição à selvageria. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. cultura competiu com a idéia de civilização. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. Com o passar do tempo. grupo ou sociedade humana. Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura.

Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. que vai poder distinguir suas experiências particulares. refinamento pessoal. Com a aceleração da interação entre povos. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. é uma idéia muito ampla para cultura. buscam desenvolver suas economias dependentes. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 . por exemplo. crenças e em tantos outros aspectos. culturas particulares. a civilização mundial. Vejamos como isso ocorre. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. o da cultura e o da sociedade de classes. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. nos instrumentos e nos utensílios. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. resultados de experiências históricas muito diferentes. Os dois planos de estudo. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX.acelerada de povos e nações. povo. sociedade. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. Assim. Quênia e Indonésia. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. É uma situação bem diferente. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. na produção do necessário para a sobrevivência. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. nas suas concepções. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. Assim. andam muitas vezes separados. Apesar disso. nações. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. nações. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. vejam bem. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. Falar da totalidade das características de um povo. pois não seria essa realidade comum. nas técnicas. nação. vinda da relação de cultura com erudição. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. de regular o casamento e a reprodução. o Peru. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura.

esportes e jogos.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. em cada produto cultural. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. tecnologia. práticas costumeiras e rituais. Ou seja. Na verdade. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. através de palavras. ou seja. idéias. teorias. em cada elemento da cultura. a dimensão não-material. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. política. que permitem. porém. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. sobre outras sociedades. Assim. Em primeiro lugar. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. como é o caso de sua arte. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. que uma idéia expresse um acontecimento. Isso pode atrapalhá-los. por exemplo. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. Não é de se estranhar. religião. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. ciência. De fato. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. descreva um sentimento ou uma paisagem. doutrinas. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. Assim. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. Assim. ela foi transformada. que as informações sejam processadas. Não se entusiasmem muito. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. uma dimensão totalizadora. com os exemplos acima. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. pois. Vejamos por quê. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. De fato.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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Algumas preocupações são. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. Assim. ou segundo as práticas médicas. a partir do exposto acima. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. empresas em geral. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. por exemplo. Além do mais. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. É que. contudo. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. das mulheres de classe média. na organização da vida familiar. de acesso às instituições públicas tais como escola. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. jovens e velhos. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. dos católicos. fazendas. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . ou então dos comerciários. as quais são rotuladas de classes médias. ou alimentares. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. centros de lazer. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. Da mesma forma. Nesses recortes da realidade social comum. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. Se a cultura é dimensão do processo social. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. no entanto. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. dos bancários. A lista não teria fim.fábricas. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. Há diferenças de renda. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. na cultura dos jovens. mais complexa. de estilos de vida. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. bancos. crianças. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. ao estudarmos cultura no Brasil. de limites imprecisos e características variadas. hospital. ou da amizade. A diferenciação é. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. ou da vizinhança.

por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. as ordens profissionais (de médicos. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. ainda 46 . uma realidade que não depende de formas externas. advogados. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. Assim. superado. sua dinâmica e. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. manifestações diferentes da cultura dominante. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. Da mesma forma. procurando entender a sua lógica interna. então. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. por exemplo. atrasado. a ampliação de seus domínios como. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. na formação de seu próprio universo de legitimidade. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. principalmente. Por um lado porque. engenheiros e outras). buscando o que há de específico nelas. que desenvolve a concepção de cultura popular. expresso pela filosofia. Nesse sentido. um conhecimento que se supunha inferior. as academias. participante de suas instituições dominantes. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. que existem independentemente delas. Entende-se. que estão fora de suas instituições. tais como a universidade. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. a cultura popular. as implicações políticas que possam ter. mesmo sendo suas contemporâneas. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. De fato. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. Para ser pensada assim. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. à alta cultura.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países.

Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. tende a se generalizar. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. seus limites se perdem na complexidade da vida social. Assim. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. das ciências físicas e biológicas. Ela se sustenta em bases frágeis. o domínio da escrita e da leitura. De fato. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. Parecem. Assim. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. Quando se procura estudar a cultura popular. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. um popular intocado e definitivamente original. literatura. Ela cria problemas falsos. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. não são homogêneas nas classes oprimidas.que se opondo a elas. Isso vale para a medicina. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. para a música. fundamentalmente. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. da matemática. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. E. outrora restrito a setores das classes dominantes. medicinas populares. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. com modos de interpretar a comida. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. por exemplo. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. dominante. de esboçar com clareza. o que mina na base aquela polarização. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. para a literatura. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. Surgem associadas ao 47 . deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. no entanto. para a religião. e se esvazia em confronto com a realidade social. Criam-se assim modelos de religião. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso.

com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. por exemplo. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. seja na sua organização. seja na sua prática. hospitalar. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. Da mesma forma. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. estes de origem européia. a saúde. toda a produção cultural. tornando-se um legado de toda a população. Assim. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. próprias. hospitalar e jurídico. transformaram-se com o processo de transformação do país. as instituições dominantes de origem européia. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. a 48 . e a justiça . Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. como a umbanda e o candomblé. partilham um processo social comum. Apesar de sua origem. uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. E se a educação.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. do qual não detêm o controle. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. generalizadas e reconhecidas. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. é um produto dessa história coletiva. De fato. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. é o resultado dessa existência comum. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. e introduzidos pelas elites. A produção cultural. como as citadas anteriormente. o sistema escolar. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente.

Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. em outro. São populações bem diversas. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. isso não se deve à sua origem. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. Para tentar reter o que é popular na cultura. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. conseguiram acesso à escolarização. que seja característico dela. à habitação etc. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . nunca entendimento da vida social. Ao contrário. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. levando aquela polarização ao limite. à qual a expressão faz menção. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. Falar. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. Assim. É preciso assinalar.justiça não atendem aos interesses de toda a população. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural. à saúde pública. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. que seja mesmo um patrimônio seu. como se vê. por exemplo. Em certo sentido. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. como toda a população trabalhadora. como a população mais pobre. Assim. nós estaríamos enfatizando. procurar localizar características da cultura operária. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. Isso produziria apenas confusão. as características sociais básicas da sociedade. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. porém. A categoria povo. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. mas nem sempre é esse o caso. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. ainda. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. isso sim. em outro.

não é um espelho amorfo. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. Assim. mas também ajuda a produzi-la. fazê-las produzir. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. por essas 50 . entender como se realiza a desigualdade social. demonstram grande variação interna. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo.valorizar esse patrimônio. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. quanto porque está ligada à transformação destas. definitivo. como se dá o exercício do poder na sociedade. procurando a expressão cultural deles. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. Elas também têm sua dinâmica própria. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. De qualquer modo. as relações que definem essa existência. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. que seja homogêneo para toda uma classe social. A cultura é criativa. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. como já disse. devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. Ela é produto dessa sociedade. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. As próprias classes sociais. têm contornos imprecisos na prática.

na vida profissional. não só apregoam mensagens. de sonhar. produção de bens e serviços. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. de arrumar a casa. Além do mais. É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. Eles penetram em todas as esferas da vida social. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. O ritmo acelerado de produção e consumo. o controle das massas.razões. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. desenvolvimento de novas técnicas. Assim. Examinemos um pouco essas questões. com inversões de capital. Essa cultura homogeneizadora. Por todas essas razões. essas sociedades industriais têm 51 . no meio urbano ou rural. a indústria cultural. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. de sofrer. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. nas atividades religiosas. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. niveladora. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. a imprensa e o cinema. Não há dúvida de que a indústria da cultura. centrada nesses meios de comunicação de massa. de pensar. Do mesmo modo. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. Assim. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. não é absoluto. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. o rádio. de amar. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. no lazer. Tais instrumentos seriam. é o amaciamento dos conflitos sociais. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. modos de organizar a vida cotidiana. o controle sobre as mensagens transmitidas. na participação política. ainda que muito forte. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. Eles também difundem maneiras de se comportar. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. principalmente. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. No entanto. na educação. maneiras de falar e de escrever. Ela seria uma característica vital deste século. propõem estilos de vida. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. Da mesma forma. a televisão. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. de lutar. São meios de comunicação poderosos. de se vestir. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. recrutamento de mão-de-obra especializada. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente.

mudado. já falamos disso exemplificando com a Alemanha. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. códigos de ação. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. os costumes. A cultura nacional é. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. os países das Américas. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. mais do que a língua. Antes. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. com propósitos de homogeneização e controle das populações. as tradições de um povo. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. mas não se pode dizer que prescinda delas. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. a Rússia. como uma dimensão da sociedade e de sua história. resultado e aspecto de um processo histórico particular. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. É uma realidade histórica. em seus modos de agir. Ela é. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. 52 . em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. Mesmo assim. As mensagens da indústria cultural. sem levar em consideração a ambas. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. Nesse sentido. dessa maneira. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. mas não são a cultura dessa sociedade. também sofrem alterações constantes. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. Se não fizermos isso. que as possa ignorar. conseqüência das formas como a nação se produziu. elementos que não são absolutos. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. corremos o risco de nos enganarmos. em seus planos de vida. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. projetos de desenvolvimento. os quais de resto são também dinâmicos. portanto.

assim. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. apesar de sua presença maciça na população durante séculos.Pode-se. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. sujeitas a transformação. de uma hierarquia entre eles. sempre valorativas. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. importante para entender as relações internacionais. Mas. portanto. por exemplo. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. uma dimensão dinâmica e viva. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. da mesma forma. então. desigual. Seja 53 . não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. ao menos provisoriamente. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. para delinear suas características. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. importante nos processos internos dessa sociedade. pois. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. Discutir sobre a cultura comum pode. No entanto. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. de mudar seu desenvolvimento. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. ser uma maneira de tentar alterá-la. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. para definir os aspectos que a fazem única. Vejam. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população.

resultado de um século de existência no país. de ensino. diferentemente de outros países. Voltemos a eles. e que derivam da história de cada sociedade particular. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. formas. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. Há aspectos importantes. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. como vimos ao longo desta parte. Assim. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. de decisões tomadas no passado. instituições se relacionam. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. É enganoso. pois. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. Nesse período. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. o conhecimento em geral. por exemplo. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. Ao pensarmos sobre cultura. suas concepções. técnicas. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. nas universidades e centros de pesquisa. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. Assim. produtos. por exemplo. matéria de produção. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais.como for. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. 54 . formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. das instituições existentes e de sua dinâmica. de caridade. Assim. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. as maneiras como seus setores. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade.

Além disso. de grupos. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. por exemplo. por exemplo. categorias de pessoas. Mas é ingênuo pensar que.editoriais e outras. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. à experiência histórica. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. aos menores abandonados. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. mas também com os sistemas públicos de educação. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. econômica e cultural seja eliminada. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. por exemplo. Há outras maneiras de estudar a cultura. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. as mensagens políticas que contêm. como. ela deve ser por isso jogada fora. outras ênfases a dar. O que interessa é que a sociedade se democratize. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. as concepções nela presentes. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. tem sua dinâmica. é claro. como dimensão do processo social. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. outros recortes a fazer. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. A discussão de cultura sempre remete ao processo. Podemos. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. e que a opressão política. Por tudo isso. E também porque. de atendimento à doença.

Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. Cultura e equívoco Com tudo isso. Também os aspectos da história comum 56 . as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. Por outro lado. a cultura é uma esfera de atuação econômica. Assim. como no caso da oposição entre erudito e popular. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. Como vocês podem ver. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. com empresas diretamente voltadas para ela. Expressam seus conflitos e interesses. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. entendê-la. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. Da mesma forma. É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. Há instituições públicas encarregadas disso. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. o analfabetismo. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. de características acabadas.social. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. por exemplo. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. procuram defini-la. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. agir sobre seu desenvolvimento. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. fazem parte da própria organização social. da mesma forma. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento. como. controlá-la. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias.

Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. Retomamos. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. 57 .de um povo podem ser selecionados e valorizados. É bom que seja dessa forma. no entanto. apropriação. Há aí controle. cultura é o legado comum de toda a humanidade. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. assim. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. a compreensão de que suas características não são absolutas. E como conseqüência disso. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. Quanto à cultura nacional. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. de Antônio Augusto Arantes Neto. desigualdades no plano cultural. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. os temas com que iniciamos este trabalho. São lutas pela transformação da cultura. É importante insistir. não respondem a exigências naturais. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. Assim. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. É uma relação pequena. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. pois podemos concluí-lo. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho.

Difusão Européia do Livro. Os textos têm linguagem acessível. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. seu povo e cultura. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. Dirigido ao público universitário. de Peter Fry. preocupados com identidade e política. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. Mariátegui. O Caráter Nacional Brasileiro. Os Brasileiros: 1. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. e outra. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. de Florestan Fernandes. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. política internacional. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. de Darcy Ribeiro. de Dante Moreira Leite. de leitura mais acessível. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. São textos no geral claros e de fácil leitura. arte e educação. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. Editora Ática. Carnavais. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. Editora Vozes. Editora Tempo Brasileiro. Zahar Editores. de Marilena Chauí. Teoria do Brasil. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. Cortez e Moraes Editores. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. Dirigido a um público amplo. 58 . de CIaude Lévi-Strauss. Zahar Editores. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. política americana. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. de Roberto da Matta. A Cultura do Povo. cultura de classes e suas relações. Interpretação abrangente da formação do país. O Negro no Mundo dos Brancos. reunindo escritos de épocas diferentes. Editora Pioneira.O que é ideologia. Para Inglês Ver. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. Os textos têm graus variados de complexidade. Malandros e Heróis.

a Antropologia Social não poderia. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. no caso do antropólogo. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. tendo. Em outras palavras. que se ajustar. para Malinowski. o etnólogo o experimentava de modo diverso. às vezes. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. ainda. na sua observação participante. portanto. isso não poderia ocorrer. como o laboratório do antropólogo social. O controle da experiência. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. começou a abandonar a postura evolucionista. ele costuma fugir e. conforme disse Malinowski. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. Assim. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. transformou nossa ciência. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. Tal mudança de atitude. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. rituais exóticos e “costumes irracionais”. tudo isso em condições específicas. tais como: “Entre os brobdignacianos. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . não somente a novos valores e ideologias. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. “Na antiga Caledônia. portanto. no limiar do século XX. Freqüentemente. o urso o persegue”. Deste modo. ou.

É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. como um autêntico ponto de vista. como vimos. discernir e. gestos. Ou seja. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. Deste modo. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. isto é. Trata-se. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. porém. articulações e valores. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. É. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. logo a seguir: “Há. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. sobretudo. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. bebe tudo de um só gole. em qualquer ponto do planeta. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. 1976: 374). traduz a essência da perspectiva antropológica. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. com sorte. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. reflexões. teorizar. 1978: 22). Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. o que. gente do porte de Franz Boas. seja do ponto de vista pessoal. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. permite localizar. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. de 60 . Como diz o mesmo Malinowski. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. ridículos”. Essa sábia reflexão de Malinowski.garrafa de uísque pela estrada. com qualquer tipo de tecnologia. entretanto. como disse Malinowski. teórico ou filosófico. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. um conjunto coerente de vozes. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. basicamente. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. sobretudo em outra sociedade. onde a idéia de classificar e. o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. um conjunto coerente em si mesmo. Evans-Pritchard. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social.

sacerdotes e sacrifícios. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. “favelas”. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. na geração seguinte. seitas. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. classe social ou sociedade. De fato. quando há uma intervenção das igrejas. Assim. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. “classes sociais”. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. Durkheim. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. a escola de Durkheim situa a 61 . trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. Ou melhor. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. segmento. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). E isso pode provocar novas revelações teóricas. definindo (ou melhor. que eles podem falar de “suas tribos”. Isso porque.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. neste contexto. sejam elas as dos cronistas. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. dos viajantes. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. “comunidades”. inclusive da nossa própria cultura. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. Seja porque a definição anterior era por demais estreita. até as mais “complicadas”. portanto. o seu próprio “repensar a antropologia”. “ideologias” etc. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. seja porque as novas descobertas. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. “mitos”. Assim. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. como também o ponto de vista daquele grupo. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. a meu ver. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa.

De fato. muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. e não parcelas de relações que o tempo. Assim. A história. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. Em parte. Será. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. por algum capricho. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. É. moral ou filosófica preestabelecida. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. pela qual o fenômeno humano é estudado. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. pois. de “estrutura”. deixou de submeter à sua pressão modificadora. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. um idioma. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. portanto. saudável e tradicional base pluralista. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. culturas e civilizações. como queria Morgan e seus contemporâneos. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. Mas. não obstante. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. 62 . ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. de “sincronia”. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. muito importante constatar como a Antropologia Social. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. para utilizar a noção de “sistema”. de “funcionalidade”. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. pois. assim. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco.

É. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. com a grande tradição democrática. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. da Sociologia. como pensam os “primitivos”. mas muito próxima da Lingüística. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. ele não fica de fora.desconhece. eles são usados. se existem fatos econômicos. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. Ou seja. isso também entra na reflexão. Mas tudo isso. na postura às vezes difícil de ser entendida. Em tudo. enfim. descobrir. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. da Geografia Humana. qual a racionalidade dos grupos tribais. Se existem fatos históricos. enquanto antropólogo. estudando-o por todos os meios disponíveis.sobretudo pela prática de viagens. 63 . que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. Diferentemente. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. as experiências humanas. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. portanto. se há material político. qualquer que seja a sua aparência. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. convém sempre acentuar. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. problemas e paradoxos. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. da História. para um diálogo fecundo. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. então. da Psicologia. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. da Ciência Política e da Economia. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas.

Se. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. Quanto à prática da Sociologia. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. a cipós vivos”. Não se pode. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. Quanto a isso. Nunca encontra testemunhas vivas. o indígena”. é significativo que Lévi-Strauss. de seus ideais. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. proclame que. de suas angústias. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. o observador deve ficar com a última palavra. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. de fato. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. Para compreender o candomblé. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. o autor da Antropologia Estrutural. 64 . que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. de quem se considera um “aluno”. Assim. pelo menos em suas principais tendências clássicas. na qual. mais ainda. Essa apreensão da sociedade. se procura. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. escreve Roger Bastide. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. a sociedade tem preocupações religiosas. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). de fato. Pois a etnografia. análoga a organizações vegetais. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. como o antropólogo. e contra o observador. uma grande quantidade de informações. “contra o teórico. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. por exemplo. isto é. através de um método estritamente indutivo. O historiador. Recolhe e analisa os testemunhos. e “desencarnado”. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. e algo frio. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda.

mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. os erros cometidos no campo. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. ser o caso do antropólogo. Com a diferença. psicológico.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. um perito de uma área particular (econômica. o evento que ocorre quando não esperávamos. social. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”.). as ciências religiosas. etc. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. de fato. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. político. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. isto é. porém. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. as ciências econômicas. jurídica. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal.. os processos cognitivos e afetivos. é claro. não apenas por temperamento. demográfica. Como escreve Mauss (1960). quanto às virtudes do campo. c) O antropólogo evita. um outro: o sistema de produção e troca de bens. Objetar-se-á que pode.. de estar atenta para que nada lhe seja escapado. porém. anotado. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. vivido. de que este se esforça. de condições necessárias. isto é. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. se tornar um especialista. as ciências psicológicas. bem como a utilização de protocolos rígidos.. De um lado. tudo deve ser observado. cultural. No campo. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. o direito. De outro. pelo contrário. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto.. constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. As tentativas abordadas. O antropólogo não pode. Trata-se. porém. tem algo de errante. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas). As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. Não nos enganemos. artificialmente isolados em relação à 65 . as ciências jurídicas. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. A busca etnográfica. isto é. o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. os sistemas de crenças. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. uma programação estrita de sua pesquisa.

A prática da Antropologia. Como escreve Lévi-Strauss. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. A própria Antropologia. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). como mostrou Husserl. por mais aperfeiçoados que sejam. ser o especialista em uma única área.. Assim.. O projeto antropológico retoma hoje. para além de todos mos questionários. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. 66 . por exemplo. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. parente. mas que corre o risco de cair no vazio. O parcelamento disciplinar comporta. a criminalidade. a ciência e a religião. Se olharmos mais de perto. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. no mundo contemporâneo. do esporte. mais tocados do que outros. o que nos levaria à posição de. o divórcio. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica.. paradoxalmente. é claro. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. 2) tentar. a ciência e a filosofia. e. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. e uma cientificidade extremamente positiva. de fazer surgir um questionamento mútuo. nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social. no horizonte científico contemporâneo. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. em primeiro lugar. capazes de responder a essa definição: islamismo. de fato. o marxismo e a Antropologia. das condutas suicidas. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. apenas três formas de pensamento são. a partir de um fenômeno concreto singular. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. cidadão. A meu ver. toda prática hiperespecializada. o projeto que foi o da filosofia clássica.. mas a observação direta de suas produções concretas). por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. mas pouco reflexiva.totalidade do social. antagonistas da reflexão. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. É a razão pela qual somos provavelmente. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano.. o alcoolismo. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. supõe também.. consumidor. enquanto antropólogos. de fato. Pessoalmente. de maneira pragmática. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano.

São Paulo: Brasiliense. Sendo assim. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. e sem credores à porta. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. 1996. jornalistas. E não era mesmo com ele. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. talvez ainda sem tê-lo visto. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. que não era com ele. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência.LAPLANTINE. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. velho companheiro. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. chegara a passar fome. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. com o gringo ali a seu lado. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. lidos depois do jantar. haveria de compreender. um bom sujeito. todo branco e sardento. Porque antes de cumprimentá-lo. Por via das dúvidas. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. De repente. mas. vendo o preto aproximar-se. Era seu amigo. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. já distraído dos seus passados tropeços. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. 67 . a) Identifique o estado anterior e o posterior. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. vale dizer. ao americano. Era o sambista seu amigo. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. Aprender Antropologia. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível.

5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro.b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central. já esquecido dos dias de desempregado. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. 68 . o personagem central sente-se ameaçado. Parágrafo). do texto. a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação.

e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. Com base no sentido global dessa narrativa. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 . Se soubesse desse desfecho.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. existe sempre um posicionamento crítico do narrador. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. por detrás dos fatos narrados.

.... favelas Da força da grana que ergue 70 ...De tuas meninas. E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso. Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João... mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes. Do povo oprimido nas filas Nas vilas. Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.

. Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa.E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva.. 71 ...

semelhantemente. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. acredita nos mesmos deuses. empresta à vida significados em comum e procede. Aí. dentre os fatos humanos. pois. gosta dela. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. o grupo do “diferente” que. distribui o poder da mesma forma. Talvez o etnocentrismo seja. bárbara. os caminhos e razões. Assim. então. Grosso modo. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. talvez. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. então. na constatação das diferenças. a vida deles não presta. a certa. a melhor. E. é selvagem. conhece problemas do mesmo tipo. conhecemos um grupo do “eu”. casa igual. mora no mesmo estilo. também está no mundo e. um daqueles de mais unanimidade. gosta de coisas parecidas. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. nossas definições do que é a existência. hostilidade. medo. da sua visão a única possível ou. a natural. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. às vezes.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. nos deparamos com um “outro”. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. O grupo do 72 . No plano intelectual. enfim. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. nossos modelos. pensamentos. etc. as formas. ainda que diferente. que come igual. De um lado. no plano afetivo. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. o “nosso” grupo. mais discretamente se for o caso. este “outro” também sobrevive à sua maneira. de repente. O monólogo etnocêntrico pode. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. por muitas maneiras. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. pois. também exista. como sentimentos de estranheza. mais grave ainda. a superior. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. um mal-entendido sociológico. No etnocentrismo. veste igual.

É o espaço da natureza. Muito generoso. é o fato de que. vencido por insistentes pedidos. da selva que lembra. A sociedade do “outro” é atrasada. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. fazer contas. São os selvagens. etc. o pastor perdeu seu relógio dando-o. a sociedade do “eu” é a melhor. O que importa realmente. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. O barbarismo evoca a confusão. por vezes. a superior. a vida animal. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. espelhos. porém. como já disse.“outro” fica. O etnocentrismo não é propriedade. Forase o relógio. muito feliz. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. de uma única sociedade. após alguns meses. nessa lógica. ao jovem índio. ao estrangeiro. 73 . de alguma maneira. venceu as burocracias inevitáveis e. muito simplesmente. alarmes. por vir. No limite. De qualquer forma. no etnocentrismo. absurdo. do barulhento. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. pendurado a vários metros de altura. o trabalho. neste conjunto de idéias. marcar segundos. pentes. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. estes somos nós. o índio fez o pastor divisar. chamam. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. A atitude etnocêntrica tem. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Existe realmente. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. infalível. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. especialmente. como sendo engraçado. por fim. São qualquer coisa menos humanos. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. Tempos depois. por um lado. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. modesto. agora mínimo e sem nenhuma função. meio sem jeito e a contragosto. ainda por cima. o progresso. É onde existe o saber. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. pois. A surpresa maior estava. comprou para os selvagens contas. Ao chegar. a desordem. O selvagem é o que vem da floresta. “excelentes” ou. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. nunca o “igual” ao “eu”. “ser humano” e ao “outro”. não sem dificuldade. a desarticulação. anormal ou ininteligível. o relógio. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. apesar de que. Um dia. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. seu trabalho. Dias depois. na nossa.. os bárbaros.

tristemente exemplar. quinze para as dez. aliás. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. como “algo a ser destruído”. de um etnocentrismo “cordial”. inteligente e 74 . ornamentais. Em terceiro lugar. os personagens de cada uma delas fizeram. Hermann von Ihering. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Isso lembra o comentário. deu uma olhada no relógio novo. seja nos livros didáticos. cocares. Levantou-se. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. Era hora de ir. esta estória representa o que se poderia chamar. de uma criança de um grande centro urbano que. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. Rústica e sóbria ao mesmo tempo.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. por exemplo. seja em casa. e até uma flauta formavam uma bela decoração. Privilegiaram ambos as funções estéticas. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. Também. da qual falamos na nossa sociedade. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. um famoso cientista do início do século vinte. Em segundo lugar. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Para o pastor. seja na indústria cultural. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. Assim. decorativas de objetos que. Como já vimos. na cultura do “outro”. bordunas. não necessariamente verdadeira. Nelas. bastante plausível. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. de toda evidência. tanto aqui como em vários outros lugares. a lógica do extermínio regulou. Esta estória. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. flechas. obviamente. se isso fosse possível. arcos. Em primeiro lugar. trazia-lhe estranhas lembranças. infinitas vezes. na matança dos índios). No mais das vezes. muito comum e de uso geral no etnocídio. a mesma coisa. pode colocá-lo como “primitivo”. neste choque de culturas. tacapes. porém. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. naquela manhã. porque somos os autores destes filmes e livros. diretor do Museu Paulista. Tanto no presente como no passado. são apenas uma representação. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”.

um ovo ou uma pessoa. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. Este “escândalo” esconde. mas também em diferentes contextos no presente. em face do seu conteúdo. de um ponto de vista do grupo do “eu”. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. no mínimo. via de regra. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. A estória do nosso 75 . Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. na verdade. “sério” e “científico”. esta recusa é. Os estudantes são testados. na nossa sociedade. que são permanentemente aplicados a estes índios. A figura do louco. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. Os livros didáticos. determinados estereótipos. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. por exemplo. Ora. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. numa lavoura que não é a sua. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. Aliás. há alguns anos. posso pensar dele o que quiser. carregam um valor de autoridade. sinal de saúde mental. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. Assim. muito pelo contrário. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. Claro. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. ela deve mostrar e esconder. Nesse sentido. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. Eu mesmo realizei. Na nossa chamada “civilização ocidental”. Isto não só ao longo da história. num corpo. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. como o marciano não diz nada. pois são lidos e. que se recuse a trabalhar como escravo. mais ainda. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. em outros. ocupam um lugar de supostos donos da verdade.

rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. “antropófago”. violências. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. A “indústria cultural” – TV. os “empregados”. “infantil”. os “caretas”. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses. Assim. estamos relativizando. capaz de ter um fim ou uma transformação. num passe de mágica etnocêntrica. O terceiro papel é muito engraçado. mas no contexto em que acontece. persistências do que chamamos etnocentrismo. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. jornais. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. são uma espécie de “conhecimento”. os “colunáveis”. o índio é. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. os “velhos”. estamos relativizando. Mas. Da mesma maneira. “altivo”. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. revistas. os “paraíbas de obras”. “inocente”. “almas virgens”. vira “corajoso”. Relativizar é não 76 . muitas vezes. Enfim. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. cheio de “amor à liberdade”.. etc. a quem não é permitido dizer de si mesmo. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. os “negros”. Assim são as sutilezas. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. como o “outro” é alguém calado. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. baseado em formulações ideológicas. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. Em outras palavras. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. os “vagabundos”. etc. “pré-histórico”. “primitivo”. para o livro didático. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. É no capítulo “Etnia brasileira”. estamos relativizando. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. os “doidões”. mera imagem sem voz. um “saber”. publicidade. por oposição. certo tipo de cinema. ele aparece como “selvagem”.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. Nele o papel do índio é o de “criança”. Ali. Uma das mais importantes é a da relativização. os “surfistas”. manipulado de acordo com desejos ideológicos. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. as “dondocas”. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade.

porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. serpentes. no mínimo. Assim. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. sacações e aberturas. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. monstros. no plano da sociedade mais geral. XVI e XVII com suas navegações. O percurso que. a diferença não se equaciona com a ameaça. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. A nossa sociedade já vem. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. gostaria. porém. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. compenetrado e falante. expedições. em superiores e inferiores ou em bem e mal. colonizações.Trata-se dos séculos XV. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. De fato. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. Assim. nasceu marcada pelo etnocentrismo. na Antropologia. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. A diferença das escolhas humanas se fixa. Mesmo com as novas 77 . com maior ou menor grau de dificuldade. agora. Antes. aqui e pelo mundo afora. Ela. mas com a alternativa. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. Ela não é uma hostilidade do “outro”. no conhecimento antropológico. Diferentemente do saber de “senso comum”. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar.transformar a diferença em hierarquia. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. É um momento básico de encontro com o “outro”. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. Esta ciência chama-se Antropologia Social. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. num certo nível. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. há alguns séculos. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. Buracos sem fundo. construindo um conhecimento ou. alucinações. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. Acredito até que. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. espantos. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. ser observado a partir de vários ângulos. O mestre. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. se quisermos.

Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença.. nascia ali. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. pouco a pouco.”. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto.tecnologias. a cada vez. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. nos centros avançados de estudo. Ninguém entendia nada. As novas técnicas empolgavam os alunos. um esforço de compreensão da diferença. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). paradoxos. a pensar a diferença. Muita violência. discute-se e especula-se. O mundo do “eu” se via obrigado. se não por todos. um conjunto radical de novas questões. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. e que procuram explicar a diferença. mesmo sem viver. procurando compreender as diferenças que. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . vão assumindo novas formas. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. sempre mais matizados. interesses. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. Que costumes. que lei. ele foi sendo superado. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. Destes encontros. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. pouco a pouco. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. (que aí já não era mais preciso!). entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. num certo sentido. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. ao menos dentro da Antropologia. é conhecido como Evolucionismo. O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. E é esta perplexidade que vai. à outra a própria natureza humana. para o pensamento ocidental. o risco era imenso. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. Assim. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. que era preciso. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. frente ao “outro”. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. freqüentemente. T. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido.

E foi toda uma geração de antropólogos que. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. Mas. no seu sentido mais amplo. no nível biológico do desenvolvimento. Assim. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. nos séculos XVIII e XIX. vai ser a permanência do etnocentrismo. nos séculos XV e XVI. então. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. A lógica do raciocínio é simples. quase que como uma âncora. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. biológica de evolução. de fato. equivale a desenvolvimento. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. de Darwin. a Inglaterra do século XIX era. sua potencialidade. na direção do progresso. mostrando. por sua vez. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. O resultado disso. a noção de progresso torna-se fundamental. um espaço correto para um tipo de pensamento que. começou a produzir seus estudos. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. evolução? Evolução. Lewis Morgan -. então. contemporânea dos aborígenes australianos. O homem a caminho. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII.teoria antropológica e. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. sua formulação clássica. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. pelo processo evolutivo. na história dos saberes sobre o ser humano. evolução. a esta noção orgânica. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. uma segunda forma. tem um lugar de destaque. avanço no tempo. nos Estados Unidos. Explicando melhor. exatamente. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. mais e mais absoluta em suas conquistas. Mas. Assim. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. em outras palavras. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. por exemplo. Tudo isso forma um campo intelectual. em plena metade do século XIX. Evolução. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. Para o evolucionismo antropológico. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. é claro. o que é. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. encontra. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. Progresso.

podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. estas idéias eram nítidas e claras. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. que formam um “todo complexo”. então. a era vitoriana. logo na primeira página. Ainda mais. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. Mas. restava ainda um problema teórico. a melhor por definição. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. Se pensarmos nesta definição. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. podese dizer que é. moral. no seu sentido etnográfico estrito. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . crença. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. em toda parte os mesmos. Que. uma lei. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. para eles. no entanto. que em plena época da rainha Vitória. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. Faz-se. em certas sociedades. é este todo complexo que inclui conhecimento. Aqui. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. por exemplo. Para os evolucionistas. no mínimo um clássico. o mais famoso da Antropologia e. postulavam uma permanência. separados. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. Sabemos que são relativos. tendo aceitação. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. mais cedo ou mais tarde. etc. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. talvez. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. porque se compararmos Brasil. arte. O que e Arte? Lei? Moral?. Também transparece uma espécie de princípio geral. Este conceito é. o século XIX. Sim. leis. dentro da cultura. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. unitários. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. diz o seguinte: “Cultura ou civilização.

a visão etnocêntrica. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. importante antropólogo da época. ele nunca achou o cavalo. por via do progresso. Estudando invenções. Diz uma anedota que Sir James Frazer. chegando ao pólo “civilizado”. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução. qualquer “trabalho de campo”. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. Para Morgan. “meios de subsistência”. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. fortemente entrincheirada. Ou. Mas. pois que tudo já estava pronto. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. a visão caótica do “outro”.. o medo oculto. Este espírito teria. temos dois marcos básicos. a hipótese que coloco aqui é simples. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. No extremo inferior. A relativização não tinha espaço. pelo menos. “propriedade”. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos... os povos primitivos e no extremo superior. “arquitetura”. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. encontramos ainda. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. para onde teria ido?” Claro. pouco a pouco. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. evidentemente. “família”. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. “religião”. aqui no evolucionismo. os povos ditos “civilizados”. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. a falta ou excesso de 81 . Dessa forma. paradoxalmente. como eu faria isto ou aquilo?”. Dessa maneira. por trás do ser “civilizado”. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia.. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. De fato. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. descobertas e instituições. o espanto.. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. barbárie e civilização. etc.

por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. que foram os séculos XV. mas muito mais mesmo. complexos do que isto. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. apresentam diferenças e. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. controvertidas. a sua maneira. contribuiu. E vai ser. Menos evoluído. por assim dizer. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. Sabemos que ambos não são bons. Cada um.] Assim. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. VOANDO ALTO Diferentes atores. Neste processo. o que nos interessa mais de perto. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. para o crescimento. me parece que nesse sentido o evolucionismo. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. relativizando: é claro que a época do novo mundo. 82 . para a maturidade e complexidade da disciplina e. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. mas pode-se ver qual se distancia mais. um “outro” tão humano quanto o “eu”. É certo que a escolha. já traz em si alguma semente de relativização. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. num primeiro momento. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. juntamente com Boas. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. multiplicando muito. Todos os três. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. mais sabemos o quanto falta saber. num resumo. Todos eles tinham personalidades peculiares. exatamente. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. Durkheim. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. Agora. seu campo de estudos. Entretanto.significações do “outro”. enredo. neste processo. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. A magia. vê-lo como atrasado e primitivo. já apresenta alguma diferença. cenários. Malinowski. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. Tanto aqui. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. entre si. interessantes. É o que veremos a seguir. e muito. Se o “eu” negava. mas nem “deus” nem “diabo”.

das posições das peças no vigésimo movimento. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. de cada cultura particular. por eles. A história. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. no entanto. faríamos uma análise diacrônica. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. forças e significados internos a este movimento. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. estaríamos analisando sincronicamente. dessa maneira. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. os processos próprios de mudança. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. o da “evolução”. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. nos dois movimentos. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. torres. no entanto. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. Passando para a análise das culturas humanas. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. aí. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. de Adão e Eva ao Juízo Final. Se. cada uma a sua maneira. Em termos mais técnicos. Por outro lado. Para estes dois movimentos.. etc. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. desde o primeiro até o vigésimo. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. que a hipótese evolucionista criava. se interessa pelas posições. por seu turno. Não se pode dizer. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. Como se. bispos.história. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. duas seriam as ações possíveis dessa partida. diferentemente. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. todos caminhassem num mesmo sentido. A sincronia. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. O longo caminho da história. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. É uma história com “h” minúsculo. demonstravam a permanência de um tema. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. uma idêntica concepção da natureza da história. troca e empréstimo que as caracterizavam. estabelece seu conhecimento do vigésimo. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. específica. Mais 83 . a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. que era o do “progresso”. dos valores atuais dos peões. era uma única para toda a humanidade. via de regra.

Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. ao certo. e uma preocupação com ele. Com isso. descrita. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. para o historicista. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. que nem sempre poderá ser lá encontrada. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. observada. A Antropologia. a discussão realmente importante. mais complexa. nem entre estes e o evolucionismo. mais relativa. Ao fazer esta opção.simplesmente. a sociedade do “eu”. como já disse. histórico. o que a levava. O verdadeiro ponto de ruptura. Sim. Assim. de ter na hierarquia sua regra número um. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. com seu corte teórico. neste sentido. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. a história conjetural. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. É o caso de noções como “processo”. definitivamente. seja ele difusionista ou evolucionista. Para ele. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. se pensarmos bem. Para ele. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. inexoravelmente. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. O funcionalismo. A realidade concreta a ser estudada. é importante que se saiba o que. especulativa. dá outras dimensões à Antropologia. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. Em primeiro lugar. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. se constituía no objeto antropológico por excelência. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. se obriga. não concordou Radcliffe-Brown. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . a pensar esta sociedade em seus próprios termos. radcliffe-Brown. agora. Nesta linha. da “diferença”. veremos que a preocupação com a história é. antes de tudo. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. feito de acontecimentos sucessivos. Com isso. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. o estudioso. como no evolucionismo. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. E. A nossa sociedade. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. ao menos. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. “estrutura” e “função”. para fora do etnocentrismo. por mais míope que seja.

aqui. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. onde outras instituições terão. também desaparece. Comparava o sistema social ao corpo humano.permanente. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. repetitivas. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. possui uma estrutura composta de ossos. das ações. procuro apenas demonstrar que. Por outro lado. recorrente. muito mais complexas. Isto significou que. a sociedade se transformará numa outra diferente. fluidos. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. os aplicava ao estudo da sociedade humana. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. histórico. etc. Se estas funções forem suprimidas. como um organismo complexo que é. 85 . Espero que ele me perdoe. o processo vital. É nesse quadro. podemos perceber a existência de formas regulares. A sociedade não morreria. Nela. mas. A vida caracteriza um constante processo. E. o coração. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. ao colocar novas questões em jogo. além de mais amplas. na produção teórica. Uma de tais analogias. por exemplo. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. por analogia. tão a seu gosto. Mas. atacada numa função básica. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. enquanto estrutura viva. Assim. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. termina o processo vital e a estrutura orgânica. Se parar de executá-lo. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. sutis. por exemplo – aponte uma outra dimensão. Dentro desse “processo social”. pagou o preço de uma forte relativização. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. Transportava termos da Ciências Naturais e. tecidos. Este. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. por sua vez. me parece. Na sociedade. novos instrumentos para pensá-las. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. por seu turno. outras “funções” cruciais. é um processo: o “processo social”. a da “estrutura social”. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. Este organismo. conseqüentemente teve de procurar. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”.

na questão do etnocentrismo e de sua superação. com instrumentos teóricos que eram criados. por períodos significativos de tempo. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. Qualquer estudante da vasta. vai ser desatado por Émile Durkheim. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. experimentando-se a si próprio como diferente.produzido na sociedade do “eu”. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. experimentar a existência junto ao “outro”. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. 86 . Tem de ir morar. e não menos importante para a autonomia antropológica. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. um outro lado do laço. por estar. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. que independe do indivíduo. E. principalmente. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. Antes. Conhecer a diferença. São “coisas”. um tema aparece e se repete. o superior pelo inferior. mas seus projetos tinham rumos diversos. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. A Antropologia. Um outro nó. fixa ou não. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. Neste sentido. Explicando melhor. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. então. São “coisas” porque autônomos. tem de viajar. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. autônomos. assim. independente das manifestações individuais que possa ter”. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. mas também se afirma como entidade autônoma. livre para estudar a sincronia. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. intitulado “Que é Fato Social”. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. na sincronia. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. em diferentes momentos e de várias formas. O antropólogo. principalmente. que é geral na extensão de uma sociedade dada. ou então ainda. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. independente do indivíduo. o complexo pelo simples. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. vou utilizar o próprio Durkheim que. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. apresentando uma existência própria. obrigado aos estudos sincrônicos. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. Contando. para a Antropologia e para o processo de relativização. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. Com isto. no sentido de sua concretude que independe da natureza. Os fatos sociais são externos.

que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. profundo. Para Malinowski. Um argonauta era um tripulante de Argo. outro. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. Com isto ele queria demonstrar. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. O social tem seu próprio caminho. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. neste contato com a “diferença”. também. E. à primeira vista. que o fato social coage. A “diferença” cara a cara. parece tudo muito simples e óbvio. Para a Antropologia. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. A nós. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. Ninguém. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. É. Na verdade. exigiram. pode dele se ausentar. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. De repente. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. a ser traçado. o fato social pressiona o indivíduo. (2) extenso e (3) externo. Possui força autônoma. viajar o “outro”. uma nave lendária da mitologia. Malinowski foi nosso grande viajante. um longo esforço de relativização. o fato social. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. O fato social é. vemos que o fato social é (1) coercitivo. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. Estas conquistas que podem parecer. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. É. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. 87 . uma “coisa” que ultrapassa cada um. novamente. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. Em outras palavras. no repto lançado pela experimentação do relativismo.Acompanhando esta definição. por todos e para todos. agora. Em terceiro lugar. Em segundo lugar. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. evidentes em si mesmas. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. no intrincado bolo do saber. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. em primeiro lugar. independente e própria. no entanto. o nome que se dá a qualquer navegador ousado.diante de explicações. para além das manifestações individuais. o “outro” com todos os seus desafios. Aqui. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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Ainda mais. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. em vários momentos da teoria antropológica. dados obtidos pelo trabalho de campo. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. a definição de história era legitimada. Parece que. Quando esse conceito.tempo é dedicado a atividades econômicas. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. são reciprocamente definíveis. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. sobrevivência ou miséria. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. vice-versa. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. Isto se torna possível. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. ou melhor. mas porque não querem. quando havia uma determinada visão de cultura. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. que podem transformar a teoria antropológica. que não pratica essa acumulação. Muito pelo contrário. mais que isto. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. é perceber o “outro” na sua autonomia. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. encaixada com os conceitos de cultura. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. foi. se tornava mais “verdadeira”. Ora. a complicação se tornou ainda maior. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. então. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. Assim. essa forma de ver a passagem do tempo. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. porque fizeram uma opção diferente. uma máquina produtiva que. Assim. ou seja. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. em larga medida. E. seria necessariamente pobre e miserável.a deles -. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. Três ou quatro horas por dia. uma outra . Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. pelo trabalho de campo.

Em outras palavras. mas ainda bastante problemática. simplesmente. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. É. o conceito de tempo linear. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. É. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. também particular. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. Nesta perspectiva. Neste questionamento. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. assim. No plano teórico. Colocava-se. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. Assim. qualquer que seja. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. 92 . Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. É o próprio Lévi-Strauss quem. sua contraparte. também. grande e completa explicação. o coração por assim dizer. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades. A cultura vai ser entendida como moldada. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. Numa palavra: o “diferente”. o “outro” é atrasado. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. Ainda assim. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. numa idéia de história. na verdade. como capaz de explicá-la inteiramente. através dela. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. progredi. porque evoluí. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. Outra vez os dois conceitos se conjugam.concretamente existente numa única. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. ou pela linguagem. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. pois. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. Com Durkheim. ou pelo ambiente. histórico. de trajetórias distintas. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. tudo se relativiza. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. Passamos. ou pelo indivíduo. totalizador das “diferenças”. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. para conhecê-la. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. pode passar a ser questionado. É um passado pelo qual já passei.

O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. outro no chão. Antes. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. sua existência. Para elas. Este é o último capítulo do livro. É. que são como dois momentos fixos. desdobrar-se. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. Esse tempo se contrapõe. de uma redefinição de seu papel como ciência. estranho e ininteligível até. a unidade. um jogo de espelhos. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. tal como para nós. pensam o seu mundo. o quanto é difícil o processo de relativização. Por incrível que possa parecer. nossa existência.Você. se sente fazendo história. o fluxo. diz ele. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. Para um Apinayé. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. mas. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. o que se quer saber é como os Apinayé. mas de maneira errada. para um Apinayé. Dá para sentir. métodos e. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. Ou seja. O tempo não é. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. nos capítulos anteriores. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. tentando explicar poeticamente. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. ele demonstra. uma linearidade ininterrupta. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. um fluxo. 93 . leitor. pensado e vivido como descontinuidade. até mesmo. seu tempo. foram realizados pela Antropologia. Um no céu. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. no caso. E é mesmo. de relativizar. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. Mais fácil. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. sendo parte dela. Em termos mais simples. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. Talvez isso possa parecer extremamente complexo. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. o tempo é sentido. tipo causa e conseqüência. nosso tempo. enfim. Mas.

passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. Este código é a cultura. enquanto ator social. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. à qual nos referimos no capítulo anterior. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. seu “corpo”. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. teias. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. Aquela de ser uma ciência. Esta tarefa. do antropólogo americano Clifford Geertz. destinos próprios. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. não existem mais. Para se pensar o fenômeno cultura. sua “morte”. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. os trobriandeses estão aí vivos. por assim dizer. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. Assim. destrói sociedades. sua “sexualidade”. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. Tal como um código. utilizando símbolos de diferentes tipos. No entanto. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. se quisermos. O mundo muda. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. um conhecimento ou. escolhas de uma “política” dos 94 . A Antropologia. classificar e praticar sua experiência. A cultura. seja ao seu “tempo”. nessa linha. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. enfatizando sua dimensão interpretativa. pelo trabalho de Malinowski. imposições. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. trocamos mensagens. como que mapas. Cada um de nós. cria outras. estudada por Malinowski. tanto humilde quanto generosa. Pode também ser vista como uma teia.As culturas são “versões” da vida. Nesse sentido. etc. um saber. cada cultura atribui significados. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. uma literatura que não é das verdades absolutas. sentidos. pela qual “falamos” uns com os outros. Melhor dizendo. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. ao contrário. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. mas das interpretações relativas.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. a cultura “fala” da existência. metáfora explorada por Clifford Geertz.

em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. quem serão meus amigos e aliados. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. para dizer o mínimo. etc. é trilhado na medida em que. num famoso livro. e às vezes principalmente. o lado da afinidade do parentesco é. ao menos. sistemas de parentesco. propriedade. irmãos. Mas. livrou-se. o que pensamos e fazemos. guardar. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. Em termos mais precisos. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. que seria a própria cultura de determinada sociedade. As Estruturas Elementares do Parentesco. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. como o cônjuge. definitivamente. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. direitos e deveres. decidida individualmente. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. O que faz. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. o sistema de comunicação mais amplo. Assim. parentes afins. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. por exemplo. pareciam. então. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. Herança. para entender estes sistemas de 95 . – mas também. Este é. seria interpretar este fluxo do discurso social. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. Lévi-Strauss vai mostrar. do etnocentrismo à relativização. Se entre nós a escolha do cônjuge. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. Este caminho. portanto. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. encontrados nas sociedades do “outro”. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. enfim. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. o caso do domínio das relações de parentesco. absurdos. Isto quer dizer que. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. uma escolha psicológica.

Este. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. Aí. para compreender o “outro”. movimentos que aconteceram na Antropologia. a um só tempo. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. se relativizam. de “foro íntimo”. o centro deste sistema. seja no “parentesco” ou na “economia”. no encontro entre o “eu” e o “outro”. emerge uma compreensão do ser humano. O que é. Tudo isso é muito pouco. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. na indústria cultural. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. O que se passou na Antropologia. Aqui voltamos direto ao nosso tema. é necessário ver que o coração. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. também. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. A afinidade nestes sistemas. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. interétnicas. no jogo de seus movimentos. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. nos costumes políticos. Devem estar. 96 . seja na “individualidade” ou na “história”. A Antropologia reflete. enfim. esperança e generosidade. a chave para a sua compreensão.parentesco. muito pouco se relativiza. Tudo isso indica que a Antropologia. frente a um sem-número de ideologias. conceitos. o etnocentrismo é exorcizado. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. Nas relações internacionais. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. acredito. Disso resulta. sentimentos. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. nos próprios termos de Lévi-Strauss. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. não é um dado psicológico. está numa unidade que inclua também a afinidade. conjuntos de idéias. Enfim. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. descendência e afinidade. problematizada e generosa. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. morais. por vezes quase invisíveis. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. mostra ele. se transformam. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. Aí também. métodos e técnicas que. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. realmente.