APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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segundo acrescentaria Darwin. Os fatos da teoria evolucionista. isto é. Seriam. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. Se essas características mudarem. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. por alguma singularidade constitucional. no entanto. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. em dado momento. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. Se isto não ocorria. Darwin imaginou. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. em favor das que. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. Em 1838. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. Dizia Malthus. essa mesma questão. que produzem várias gerações por ano. aquilo que se conhece. pois. ou melhor ainda. com várias gerações por dia. intitulado abreviadamente Teoria das populações. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. Mas. Por conseguinte. pois. em favor da segunda. a teoria anterior tem que ser abandonada. a fome generalizada. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. mas sim de um processo de seleção passiva. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. pois. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. sobre um assunto determinado.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. deveria ocorrer um colapso. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. A teoria científica representa. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. ou menos “aptas”. veio 4 . Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. ou com maior abrangência. por força de alterações de clima. muitos deles com características “humanóides”. em microorganismos. se surgir outra teoria que explique melhor. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos.

espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. constituindo o Vale do Grande Rift. há 12 milhões de anos. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. disse o antropólogo sul-africano C. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . entre outros fatores. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. e 650. O Homo sapiens sapiens. há cerca de 300 milhões de anos. Em conseqüência das transformações climáticas. iniciado há 200 milhões de anos. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. possui. observa-se um aumento gradual não só do volume. sabemos que a Terra. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. ao longo da série dos vertebrados. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. ao longo do tempo. desde a sua formação. 1350 centímetros cúbicos. inúmeras espécies de símios arborícolas. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. Na verdade. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. Por outro lado. por exemplo. segundo alguns. dentro de uma mesma espécie. desde os últimos 50 milhões de anos. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. Com relação ao ser humano. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. De fato. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. ou seja. Entre esses fósseis. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. mas também da superfície do cérebro. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. embora o nível de inteligência. há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. ainda. levando à formação do homem. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. no Período Carbonífero. a maior parte de Europa. como. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. no sentido norte-sul. como existiam no Mioceno. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. As condições vigentes. Essas significativas alterações de relevo. mas esse valor pode variar muito. Brain: “Parece razoável admitir-se que. K. Estes são considerados hominídeos. por exemplo. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. Como conseqüência. pois. do processo de separação dos continentes. da Índia. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. sempre. Nessa época. em média. unto à costa oriental africana. vivendo sob as árvores”. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. por meio da seleção natural. segundo outros.

constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores. entretanto. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais.menor porte. que atualmente se estendem por grande parte do território africano. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. da qual são conhecidos. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. Há cerca de 2 milhões de anos. A partir de Lucy. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. proporcionava-lhe a liberação das mãos. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos. pelo antropólogo africano Louis Leakey. primeiramente descoberto na Ilha de Java. com grande capacidade para trituração. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. O primeiro espécime encontrado. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. Particularmente. como os símios arborícolas. descoberto há poucos anos na Etiópia. começaram a aparecer. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. além disso. Há cerca de 1. descoberto. em 1960. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. 30% maiores e 45% mais pesados. porém dotados de capacidade cerebral bem maior. pois. uma fêmea. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. surge um novo personagem nesse cenário. outros tipos de hominídeos. Nos últimos anos. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. ans mesmas regiões. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. nas grandes glaciações que 6 . mais que de frutos carnosos. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. 2 milhões de anos. o contato com o frio. o que. Estas. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola.6 milhões de anos. hoje. como os leões e outros felinos. sendo os primeiros. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. em média. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. Também nessa época. São os do gênero Homo. Trata-se do Homo erectus. e essa espécie. ao que tudo indica. que vieram a constituir as savanas de hoje.

ocorreram durante o último milhão de anos. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida. 7 . muito semelhante ao atual. deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. o Homo sapiens sapiens. Finalmente. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. Migrando para regiões frias. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. porém. denominada Homo neandertalensis). como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. porém mais robusto e que não deixou descendentes. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística. Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. aprendeu a viver em cavernas. há cerca de 220 mil anos. estão longe de ser bem conhecidas.

geneticistas. uma das características específicas do Homo sapiens. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. logo após o seu nascimento. pela história cultural de cada grupo. Em 1950. b) No estado atual de nossos conhecimentos. finalmente. se transportarmos para o Brasil. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . que os alemães têm mais habilidade para mecânica. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. Eles nos informam. traiçoeiros e cruéis. Ou ainda. Segundo Felix Keesing. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. Em outras palavras. que essas diferenças se explicam. antropólogos físicos e culturais. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. antes de tudo.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Ela constitui. biólogos e outros especialistas. e. de fato. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. que os judeus são avarentos e negociantes. pelo contrário. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. que os ciganos são nômades por instinto. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. 15. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. que os japoneses são muito trabalhadores. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja.

em seu livro Civilization and Climate (1915). mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. ganharam uma grande popularidade. um esforço físico considerável. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. Resumindo.traços psicologicamente inatos. eram exclusivamente masculinos. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. do tipo das formuladas por Pollio. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). quer se trate de inteligência ou temperamento. entre outros. E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. na verdade. como vimos anteriormente. É ele que se recolhe à rede. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. e não a mulher. A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. Wissler. entre outros exemplos. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. Kroeber. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. Bodin e outros. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. de um processo que chamamos de endoculturação. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. mas em decorrência de uma educação diferenciada. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. Ibn Khaldun. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. antropólogos como Boas. arma de uso exclusivo dos homens. Estas teorias. E mais: que é possível e comum 9 . A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. A partir de 1920. São explicações existentes desde a Antiguidade. Até muito pouco tempo.

Posteriormente. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. É possível. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. no mesmo habitat. como primeiro exemplo. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. p. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. Mas. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. 1978. obtendo ovinos dos europeus. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. Quando desejam mudar os seus acampamentos. então. 22). Os lapões. Quando deseja. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. desvencilhar-se das pesadas roupas. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. ocupam essencialmente o mesmo habitat. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. os Navajo são hoje mais pastoreadores. 33). em ambientes geográficos muito semelhantes. Waurá. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . vivem em tendas de peles de rena. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. do sudoeste americano. Os grupos Pueblo são aldeões. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. por sua vez. Ambos habitam a calota polar norte. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. Em compensação. Trumai. sementes de capins e de caça. Kalapalo. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. os lapões são excelentes criadores de renas. transcrito de Felix Keesing. os lapões e os esquimós. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. que se alimentavam de castanhas selvagens. enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. (Cliford Geertz. pastoreio – no mesmo ambiente natural. Um segundo exemplo. cultivo.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. Vivem. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. 1967. portanto. Tomemos. Era de se esperar. pois. p.

ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. com efeito. dominou os ares. e não casualmente. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. O conceito de Cultura. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. que habitam o Norte do Parque. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. arte. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. Os Kayabi. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. em 1690. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. portanto. como a anta. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais. Sem asas. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. crenças. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. transmitida por mecanismos biológicos. As diferenças existentes entre os homens. portanto. etc. examinar por toda parte as várias 11 . o veado. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. pelo menos como utilizado atualmente. foi. Mas. sobre o meio ambiente. conquistou os mares. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. provido de insignificante força física. definido pela primeira vez por Tylor. sem guelras ou membranas próprias. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. leis. Com esta definição. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. A idéia de cultura. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. a caititu. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. moral.existentes nos grandes mamíferos. costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. ou seja.

hoje clássico. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. com referência a John Locke. então. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. por Bronislaw Malinowski e Leslie White. II. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. parágrafo 10). como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. Tanto é que. um processo iniciado por Lineu. seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. Em outras palavras. Em 1871. Em 1917. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. como diríamos hoje. ou regra de virtude para ser considerada. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . (O grifo é nosso). Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). Finalmente. cap. em 1775. as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. mais de um século depois. “O Superorgânico”. em1973. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. Mas. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé.. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. Completava-se. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que.. Meio século depois. Esta definição é equivalente às que foram formuladas. era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. gorila e orangotango) e os homens. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. que não seja em alguma parte ou outra.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. em 1950. Jacques Turgot (1727-1781). na verdade. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”.

produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. Mas. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. entretanto. combinada com a capacidade de utilização das mãos. Em suma. foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. construído a partir de uma visão da natureza humana. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 . representou o afastamento crescente dos dois domínios. foi capaz de assim proceder. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. principalmente os superiores. inexistente para qualquer outro mamífero. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. através dessa explicação. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. Os fundadores de nossa ciência. Esta vida arborícola. com um odor tautológico. a nossa espécie tinha conseguido. O segundo passo deste processo. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. em 1950. Esta. Em outras palavras.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. no decorrer de sua evolução. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. ou melhor. elaborada no período iluminista. A reconstrução deste momento conceitual. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. onde o faro perdeu muito de sua importância. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. o cultural e o natural. um mundo tridimensional. abriu para os primatas. Neste trabalho. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos.

É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. Kenneth P. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”. afirma ele.. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. “todos os símbolos devem ter uma forma física. provavelmente. a mãe.. Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. antropólogo norte-americano contemporâneo. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. Como. Claude Lévi-Strauss. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. possibilitada pela posição erecta. fornecendo uma nova percepção. temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. o mais destacado antropólogo francês. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano.. não um ser humano. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. O comportamento humano é o comportamento simbólico. a filha e a irmã). esta seria a proibição do incesto.. Isto porque. Oakley destaca a importância da habilidade manual. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). E a chave deste mundo. a primeira norma. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. Toda cultura depende de símbolos. por exemplo. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. Leslie White. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . e o homem seria apenas animal. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. Para Lévi-Strauss. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. então. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. como afirmou o próprio White. e uma bandeira desfraldada. Ou seja. Sem o símbolo não haveria cultura. é o símbolo. Explicações de natureza física e social. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. A seguir considera que o bipedismo foi. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. sacudido ao vento. Com efeito. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. e o meio de participação nele.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). A cultura seria.

num sentido especificamente biológico. caça esporádica. aprender. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). O ponto crítico. O Australopiteco parece ser. pois. de cultura. 15 . O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. A cultura desenvolveu-se.20m. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. mais do que um evento maravilhoso. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. por isso mesmo. compreendida como uma das características da espécie. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. porém incapaz de adquirir outros. entretanto. antropólogo norte-americano. Devido à dimensão do seu cérebro parece. O primata. portanto. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. Em essência. improvável que possuísse uma linguagem. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. Assim. embora mais atrasado do que a fala humana -. Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. num dado momento. consequentemente. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. como ironizou um antropólogo físico. o produto da cultura”. não apenas o produtor da cultura. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. assim. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. na moderna acepção da palavra. mas também. Clifford Geertz.admitir que a cultura apareceu de repente.

que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. e assim por diante. fragmentado por numerosas reformulações. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. Carneiro. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. de agrupamento social e organização política. Harris. Roger Keesing. etc. B. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. Existem. padrões de estabelecimento. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. Assim. na dialética social dos marxistas. entretanto. no início deste trabalho. divergências sobre como opera este processo.TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. que subdivide em três diferentes abordagens. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. refere-se às teorias idealistas de cultura. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. Keesing refere-se.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. Rappaport. esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. inicialmente. da subsistência. Goodenough. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura.” Em segundo lugar. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. isto é. Vayda e outros que. para W. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. como todos os animais. da manutenção do ecossistema. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. Meggers. desenvolvido por Marvin Harris. 1977). Neste capítulo. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 . como Steward. 3 “A tecnologia. crenças e práticas religiosas. produto dos chamados “novos etnógrafos”. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual.

será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. Estudar a cultura é. O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. Para isto.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. para Geertz. São públicos e não privados. entre as teorias idealistas. Esta amplitude de possibilidades. ou seja. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras.tais como a lógica de contrastes binários. planos. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. por exemplo. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. Para isto. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . entretanto. portanto. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. Assim. arte. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas. de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. como um evento observável. Voltando a Keesing. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. para Geertz. E. a seu modo. Lévi-Strauss. a análise componencial. ou seja. Com isto. é a que considera cultura como sistemas simbólicos. regras. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. e este programa é o que chamamos cultura. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. A última das três abordagens. Assim procedendo. um conjunto de princípios . Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. receitas. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. Assim. como. mas não dentro deles.

Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”. Por exemplo. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. têm visões desencontradas das coisas. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. por exemplo.captar o código cultural em uma gramática. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. respeitado. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. e era. desenvolvida através de inúmeras gerações. portanto. Assim. Assim. e provavelmente nunca terminará. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. Por isso. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. Esta atitude varia em outras culturas. Neste ponto. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. David Schneider tem uma abordagem distinta. a floresta é vista como um conjunto ordenado. constituído de formas vegetais bem definidas. portanto. discriminamos o comportamento desviante. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. tema perene da incansável reflexão humana. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. no final desta primeira parte. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Até recentemente. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. A nossa herança cultural. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e.

o riso. tais como o modo de agir. Todos os homens riem. Enfim. de sociedades diferentes. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. e não pelo observador de fora. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. o fato de mais imediata observação empírica. pode ser bem diversa. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. A partir do que foi dito acima. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. Os alunos de nossa sala de aula. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. o resultado da operação de uma determinada cultura. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. ou seja. Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. A emissão sonora. as apreciações de ordem moral e valorativa. apesar de toda a sua fisiologia. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis. nessa mesma situação. Na verdade. quando não está comendo.relações sexuais em troca de moedas de ouro. que ela é inglesa. Tomemos. profundamente alta. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. no qual analisa as formas como os homens. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. vestir. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. assim. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. O modo de ver o mundo. Segundo Mauss. são variações de um mesmo padrão cultural. por exemplo. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. a fim de acumular um dote para o casamento. por exemplo. produtos de uma herança cultural. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. caminhar. O riso se expressa. primariamente. as diferenças percebidas pelos estudantes. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. sabem servir-se de seus corpos. comer. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são.

em outras uma atividade privada. Como utilizamos garfos. 20 . Mãya. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. a família deve toda se sentar à mesa. seria considerado. Entre os latinos. após a prece. Dentro de uma mesma cultura. assim. gesticulam. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. com o chefe na cabeceira. etc. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. caminham.obstetrícia. Tal fato. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. mas a utilização do mesmo. e somente iniciar a alimentação. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. em alguns casos. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Segundo ele. reta. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). Resumindo. como indicador de má educação. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. entretanto. Estas posturas femininas são copiadas. entre nós. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. entre os ocidentais. pelos travestis. Freqüentemente. a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. mas também pela maneira como agem à mesa. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. As mulheres sentam. Nas várias culturas. a sua força de trabalho. em horas determinadas. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. Ela deu à luz em pé. no início do século. segundo o qual. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. no mínimo. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. provavelmente. após a refeição. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. de maneiras diferentes das dos homens. “Buda nasceu estando sua mãe. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. através da alimentação. Para nós. agarrada. como sinal de agrado da mesma. a um ramo de árvore. o ato de comer é um verdadeiro rito social.

de fato. O etnocentrismo. em relação aos estrangeiros. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. é um fenômeno universal. separado em pequenos grupos. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). mas o grupo. Entre os romanos. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. porque pertencem a outro grupo. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. Finalmente. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. O costume de discriminar os que são diferentes. e. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. e entre eles foi convidado um jovem asiático. ou mesmo sua única expressão. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. Tal tendência. freqüentemente. sua visão de mundo. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. consideravam-se “os homens”. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais.Roger Keesing. cada um com sua própria linguagem. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology. conforme o costume de seu país”. reflete a condição humana. acrescenta Keesing. colegas de seu marido. Dentro de uma mesma sociedade. Os Cheyene. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. índios das planícies norte-americanas. ou pelo menos a estranheza. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. denominada de etnocentrismo. seus costumes e expectativas. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . se autodenominavam “os entes humanos”. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. os esquimós também se denominavam “os homens”. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. grupo Tupi do Sul do Pará. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. Esta parábola. Após os convidados terem terminado os seus pratos. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. O estudante asiático aceitou um segundo prato. Daí a reação. os Akuáwa. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade.

para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. fomos procurados por uma mulher. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). A vítima. costumes e línguas diferentes. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. grupo Tupi do Maranhão. e até físicas. Entre os índios Kaapor. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. Um outro exemplo são as agressões verbais. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. a pressão sanguínea cai. Confiante nos poderes do branco. também. o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. que teria visto um fantasma (um “anan”). Ela morre de choque. e mesmo os seus seres sobrenaturais. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. em estado de pânico. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). O principal protagonista de um filme. que foi considerado muito eficaz. deprimentes e imorais. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. habitada por pessoas de fenotipia. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. Foi. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. Em 1967. Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos.o início da relação afim. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. neste e em outros casos. Muitos abandonaram a tribo. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. perdiam toda a motivação de continuar vivos. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. Muitos foram os suicídios praticados. a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. Traduzido como saudade. estes índios perderam a crença em sua sociedade. Diante de uma situação crítica. conseqüentemente. que é a apatia. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. acaba realmente morrendo. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá.

podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. dançar e puxar no cigarro. entretanto. os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. A descrição da cura dará. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. em seguida. desde o início do ritual. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. reais ou imaginárias. Em muitas sociedades humanas. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). insetos mortos. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. Ajoelhando-se junto a ele. e em muitos casos a cura se efetiva. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. por exemplo. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. não é importante.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. o pajé recebeu o espírito. Guardavam-nos por 23 . etc. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. Finalmente. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. diz um ditado popular. Muitos brasileiros. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. dizem padecer de doenças do fígado. por maior que tenha sido o nosso desjejum. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. Nas curas a que assistimos. Basicamente. primeiro sobre as próprias mãos e. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. em alguns casos. uma idéia mais detalhada do processo. esfregou-lhe o peito e o pescoço. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. talvez. “Meio-dia. Após cerca de uma hora de cantar. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. estes horários foram estabelecidos diferentemente e.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. quem não almoça assobia”. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). E de fato. Após muitas massagens no doente. que fez desaparecer na mão. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. Repetiu as massagens e sucções. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. dessa vez dirigidas para o ombro. sobre o corpo do paciente. o pajé soprou fumaça.

”. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”. para fazê-lo desaparecer após. “uma comunidade aldeã”.”. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. 2. O seu sentido de solidariedade depende. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade. A generalidade do etnocentrismo Assim definido.. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. pelo menos em parte.. tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado.. qualquer que seja a sua identidade cultural. à audiência a sua natureza.”. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto.algum tempo dentro da mão. Face aos objetivos do presente artigo. geralmente. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. o que parecia bastante. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente. livre do cigarro. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto.”. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural. “Eu faço aquilo. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo.. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares. Num sentido que não é precisamente determinado.. as restrições 24 . Explicavam. ao mesmo tempo... eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum. a população em causa é. porém. E. “Nós fazemos aquilo. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. “uma tribo”. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1.. como por vezes se supõe. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”.

apesar de tudo. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. em estreita interdependência econômica. etc. como bárbaros. mas que recusam. nós não somos “os outros”. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. inferiores. mas também a inveja. Isso leva. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. são “pessoas como nós”. freqüentemente. 5) língua e dialeto. contrair matrimônio entre si. se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. como a cor da pele e o tipo de cabelo. como deuses. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. como animais. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. contudo. a conotação “homens’. Em Israel. O fenômeno é geral. Eles não são homens verdadeiramente”. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. a todo e qualquer nível de identificação. econômica e politicamente dominante. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. 4) estilo de vida em geral. eles são. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. o nome que as pessoas dão a si próprias tem. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. [Em várias sociedades tribais]. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”.] Se “nós” estamos no centro do universo. Isso acontece em todas as sociedades humanas. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. não só porque tem costumes diferentes. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. 25 . por vezes. O traço essencial de tais sistemas reside em que. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. em que o setor b4anco da comunidade. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. com temor. como noutros lados. ao mesmo tempo. freqüentemente. 3) práticas religiosas. a que olhemos “os outros” com desprezo e. diferentes de nós. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. mas porque são de uma espécie diferente. mas. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. com o andar dos tempos. politicamente dominante. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros.

mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. em certos casos. especialmente os da ala evangélica do movimento. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. Há um pequeno número de missões cristãs. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. mas pagãos. geralmente de fé católica romana que. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. 3. mas a maior parte dos missionários protestantes. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. colonialismo e missionários. mas também a de “destruir as obras do demônio”. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. Etnocentrismo. Desde os tempos do Profeta. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas. Neste tipo de contexto. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. de alguma forma. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. A tarefa do missionário como salvador das almas. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. Analogamente. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. 4. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. etnocêntricas.

e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. ou antes. 27 . erotismo/ascetismo. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”. No mundo real. quase sempre. sobretudo. quem é que se pode sentar à mesma mesa. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. reforçam-se uma à outra. limpeza/sujidade. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. procriação/esterilidade. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. deplorável. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. As duas faces da mesma moeda. Na África do Sul contemporânea. a questões políticas e econômicas. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. O resultado é muitas vezes. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia.

....................44 Cultura e relações de poder......29 O que se entende por cultura....................57 28 ......O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade...............................................................................................55 Indicações para leitura..................34 A cultura em nossa sociedade........

Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. de conceber a realidade e expressá-la. As variações nas formas de família. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. logo se constata a sua grande variação. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. Na verdade. costumes. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. De fato. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. porém. bem viva nos tempos atuais. nações. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. e a cultura as expressa. por exemplo. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. mais freqüentemente por ambos os motivos. são o resultado de sua história. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. sociedades e grupos humanos. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. Se não estivessem não haveria necessidade. Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. Assim. nações. Por isso. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. Notem. é porque eles estão em interação. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos. ou nas maneiras de habitar. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. Entendido assim. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. sociedades e grupos humanos. 29 .

pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. bem-sucedidos. como para a européia ou a chinesa. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. De fato. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. Cada cultura é o resultado de uma história particular. no entanto. criando novas possibilidades de desenvolvimento. e isso inclui também suas relações com outras culturas. A partir de uma origem biológica comum.Vejam. Isso se aplica. Nesse processo. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. a viver em aldeias e vilas. não obstante a constatação de certas tendências globais. e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. Assim. as 30 . Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. São também variadas as formas de organização social. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. pois. O aceleramento desses contatos é recente. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. por exemplo. Para muitas delas. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. por exemplo. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. isto é. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. como a domesticação de animais e plantas o prova. os grupos humanos se expandiram progressivamente. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. por exemplo. Assim. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. o contato entre grupos humanos foi freqüente. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades.

Assim. Ou então. vamos pensar em duas culturas primitivas. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. por exemplo. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. por exemplo. nas etapas humanas da selvageria. dessa evolução em linha única. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. Assim. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. No primeiro caso. Nesse caso. sobre o resto do mundo. 31 . Por exemplo. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. uma nômade praticando a caça e a coleta. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. falar. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. Segundo aquele argumento. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. Segundo as versões mais comuns desses estudos. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. reinos africanos. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. Por exemplo. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. as tecnologias de metais.quais podem ter características bem diferentes. dada a multiplicidade de critérios culturais. no estágio da barbárie. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. existentes ou extintas. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização.

isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. substitui-se um equívoco por outro. pois. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. em que esse confronto de idéias se consolidou. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. Vemos. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. indicava os caminhos de 32 . que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. por exemplo. segundo essa visão. poderia ser aplicado. mas fundamentalmente entender a história da humanidade.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa. sua civilização avançava implacavelmente. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. Existem. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. Observe o quanto essa equação é enganosa. no entanto. pois. Por outro lado. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. Ou seja. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. unidade biológica da espécie humana. O século XIX. conquistando e destruindo povos e nações. Cultura e relativismo Em outras palavras. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. Consideremos um pouco mais este segundo. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural.

de agir sobre essa realidade.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. como se fossem culturas estranhas. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. Assim. de interpretar a realidade que as produz. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. tem regiões de características bem diferentes. a população difere ainda internamente segundo. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. por exemplo. um grupo religioso. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. cujas razões podem ser estudadas. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. ou segundo seu grau de escolarização. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. suas faixas de idade. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . é um elemento que faz parte das relações sociais no país. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Além disso. sua capacidade de emitir pronunciamentos. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. quando não seu fim. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. numa sociedade como a brasileira. os quais hierarquizam de fato os povos e nações. existe no interior de uma sociedade dinâmica. por exemplo. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. Tudo isso se reflete no plano cultural. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. por exemplo. e muitas vezes o são. Pensem. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta.

apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. a escultura. a música. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. cultura está associada a estudo. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. o cinema. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. 34 . Contudo. Assim. às lendas e crenças de um povo. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. Em geral. Vejamos alguns desses sentidos comuns. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. a pintura. Afinal. De modo que. Vamos então cercar o assunto. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. tais como o rádio.cultural. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. no estudo da cultura em nossa sociedade. a um novo idioma e a novos problemas. nem sempre pacíficos. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. a seu idioma. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. educação. entre povos e nações. em discutir sobre cultura. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. formação escolar. a televisão. Por cultura se entende muita coisa. A partir disso. e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. a novas técnicas. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura. à sua comida. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. mostrar como eles se desenvolveram. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. A lista pode ser ampliada. ou a seu modo de se vestir. Outras vezes. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. como o teatro. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos.

Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. assim como às maneiras como eles existem na vida social. e que tem por temas principais a ecologia. Nesses casos. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. seja na organização da sociedade. De acordo com esta segunda concepção. Neste caso. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. Como veremos a seguir. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. estagnado. a um domínio. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. da vida social. No entanto. idéias. já que não se pode falar em conhecimento. Tanto assim que é 35 . Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. as culturas humanas são dinâmicas. ao conhecimento filosófico. o corpo. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. O esforço de entender as culturas. Conforme já dissemos. com os quais partilhamos de poucas características em comum. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. à sua literatura. Assim. de localizar traços e características que as distingam. às idéias e crenças. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. e da mesma forma seus meios de divulgação. parada. Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. De fato. ou então de grupos no interior de uma sociedade. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. preocupando-se com a totalidade dessas características. a alimentação. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. Vamos à segunda. fechado. Esse é um ponto muito importante. as re1ações pessoais e a espiritualidade. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos.

Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura. sofisticação pessoal. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. industrializadas e sedentas de novos mercados. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. práticas e crenças de povos diferentes. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. ou seja. Em primeiro lugar. Como sinônimo de refinamento. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. porém. Vem do verbo latino c o l e r e. Observem porém que se essa preocupação já existia. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. e isso está presente na expressão cultura da alma. não-religiosa. Nesse sentido. bem mais recentes. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. educação elaborada de uma pessoa. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. modos de vida. do mundo social e da vida humana. e populações do resto do mundo. Roma e China antigas. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. que quer dizer cultivar. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. quer dizer. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. por exemplo.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal.

Esta é uma relação muito íntima. Há um segundo. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. Se fosse só por isso. já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. de cunho religioso. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. De fato. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. É que até então essas questões podiam ser respondidas. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. e tudo que é humano é cultural. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. Nesse sentido. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Assim. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. 37 . há um sentido em que tudo que é cultural é humano. várias vezes. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. Novamente. como na visão de evolução linear das sociedades. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade.materiais que podiam ser estudados. Trata-se de uma idéia muito ampla. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. a idéia é muito genérica. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. Além disso. difícil de precisar. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. como vocês podem ver. quando se comparava povos diferentes. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. Lembrem que. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. Assim.

tais como comidas. nas Américas do século XX. Assim. Assim foi na Rússia do século XIX. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. um país em posição inferior às potências européias. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. Foi assim na Alemanha do século XVIII. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. nomes. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. roupas. em relação às nações política e economicamente dominantes. De fato. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. ou que para cá foram trazidas como escravas. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. O mesmo pode ser dito da América Latina. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores. por exemplo. na falta de uma unidade política comum. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. lendas. 38 . específico. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. Assim. No caso.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. e o Brasil é bem um caso. período em que a Inglaterra e França eram econômica. podemos mencionar a Rússia do século XIX. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. Na América Latina. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. Nestes casos todos.

crenças. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. à organização da sociedade. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. concepções e modos de conhecimentos. No primeiro caso. ao direito e às idéias. cultura surge em oposição à selvageria. pois. e por outro. mas também em grupos no seu interior. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. Além do mais. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. cultura competiu com a idéia de civilização. Ou ainda. à cultura dominante. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. nação. o que não ocorre com civilização. que mencionei anteriormente. se opõe à falta de domínio da língua escrita. a qualquer cultura. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. Com o passar do tempo. No segundo caso. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. à barbárie. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. à arte e à religião daquelas camadas dominantes. Como veremos numa sessão posterior. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. Assim. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. à estrutura da família. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura. concepções. ou à falta de acesso à ciência. cultura é então a própria marca da civilização. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo.Assim. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. grupo ou sociedade humana. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades. qual seja. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. de conquista e incorporação 39 . e é neste sentido que tenho falado dela aqui. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou.

mas nada impede que os pensemos conjuntamente. que vai poder distinguir suas experiências particulares. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. nações. Os dois planos de estudo. É uma situação bem diferente. é uma idéia muito ampla para cultura. nas suas concepções. buscam desenvolver suas economias dependentes. andam muitas vezes separados. Assim. resultados de experiências históricas muito diferentes. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. Falar da totalidade das características de um povo. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. Assim. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. nas técnicas. de regular o casamento e a reprodução. culturas particulares. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. a civilização mundial. refinamento pessoal. povo. Com a aceleração da interação entre povos. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. crenças e em tantos outros aspectos. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. por exemplo. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. o Peru. nação. o da cultura e o da sociedade de classes. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. vinda da relação de cultura com erudição. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. Quênia e Indonésia. Vejamos como isso ocorre. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. sociedade. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. na produção do necessário para a sobrevivência. vejam bem. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 .acelerada de povos e nações. pois não seria essa realidade comum. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. nos instrumentos e nos utensílios. Apesar disso. nações. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica.

De fato. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. Não é de se estranhar. só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. ela foi transformada. Ou seja. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. Vejamos por quê. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. pois. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. Em primeiro lugar. porém. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. como é o caso de sua arte. ciência. Na verdade.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. em cada produto cultural. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. doutrinas. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. em cada elemento da cultura. De fato. por exemplo. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. ou seja. Assim. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. tecnologia. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. Não se entusiasmem muito. Assim. Assim. religião. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. descreva um sentimento ou uma paisagem. que uma idéia expresse um acontecimento. teorias. idéias. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. que permitem. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. práticas costumeiras e rituais. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. a dimensão não-material. política. uma dimensão totalizadora. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. com os exemplos acima. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. sobre outras sociedades. esportes e jogos. através de palavras. que as informações sejam processadas. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. Isso pode atrapalhá-los.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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a partir de uma idéia de refinamento pessoal. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. ou segundo as práticas médicas. de estilos de vida. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. ou alimentares. Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. É que. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . no entanto. Há diferenças de renda. na organização da vida familiar. ou da vizinhança. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. Algumas preocupações são. Se a cultura é dimensão do processo social. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. Da mesma forma. Nesses recortes da realidade social comum. de limites imprecisos e características variadas. de acesso às instituições públicas tais como escola. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar. dos católicos. ou então dos comerciários. as quais são rotuladas de classes médias. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. centros de lazer. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. A diferenciação é. por exemplo. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. dos bancários. mais complexa. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. ao estudarmos cultura no Brasil. ou da amizade. das mulheres de classe média. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. a partir do exposto acima. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. na cultura dos jovens. Além do mais. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. empresas em geral. fazendas. hospital.fábricas. Assim. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. contudo. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. jovens e velhos. A lista não teria fim. crianças. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. bancos.

advogados. superado. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. manifestações diferentes da cultura dominante. sua dinâmica e. a ampliação de seus domínios como. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. uma realidade que não depende de formas externas. um conhecimento que se supunha inferior. participante de suas instituições dominantes. a cultura popular. principalmente. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. as implicações políticas que possam ter. Da mesma forma. tais como a universidade. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. Por um lado porque. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. que estão fora de suas instituições. que desenvolve a concepção de cultura popular. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. ainda 46 . buscando o que há de específico nelas. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. as ordens profissionais (de médicos. então. por exemplo. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. Entende-se. as academias. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. De fato. Assim. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. engenheiros e outras). sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. à alta cultura. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. atrasado. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. que existem independentemente delas. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. procurando entender a sua lógica interna. Nesse sentido. mesmo sendo suas contemporâneas. e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. Para ser pensada assim. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. na formação de seu próprio universo de legitimidade. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. expresso pela filosofia.

antes privilégio indiscutível de pequenas elites. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. da matemática. por exemplo. Assim. E. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. para a religião. de esboçar com clareza. literatura. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país. não são homogêneas nas classes oprimidas. medicinas populares. Surgem associadas ao 47 . De fato. um popular intocado e definitivamente original. Isso vale para a medicina. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. e se esvazia em confronto com a realidade social. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. Parecem. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. Ela se sustenta em bases frágeis. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. fundamentalmente. o que mina na base aquela polarização. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. com modos de interpretar a comida. Quando se procura estudar a cultura popular. Assim. outrora restrito a setores das classes dominantes. para a música. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. o domínio da escrita e da leitura. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. Ela cria problemas falsos. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas.que se opondo a elas. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. seus limites se perdem na complexidade da vida social. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. dominante. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. no entanto. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. para a literatura. das ciências físicas e biológicas. tende a se generalizar. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores. Criam-se assim modelos de religião.

uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros. generalizadas e reconhecidas. hospitalar. a saúde. como a umbanda e o candomblé. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. seja na sua organização. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. é um produto dessa história coletiva. Da mesma forma. a 48 . tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. por exemplo. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. é o resultado dessa existência comum. estes de origem européia. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. toda a produção cultural. o sistema escolar. transformaram-se com o processo de transformação do país. hospitalar e jurídico. Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. Assim. próprias. como as citadas anteriormente. partilham um processo social comum. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. tornando-se um legado de toda a população. e a justiça . Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. do qual não detêm o controle. De fato. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. A produção cultural. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia. Apesar de sua origem. seja na sua prática. E se a educação. e introduzidos pelas elites. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. as instituições dominantes de origem européia.

Pode revelar preocupações que não são as mesmas. como toda a população trabalhadora. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. em outro. Em certo sentido. Ao contrário. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. à saúde pública. levando aquela polarização ao limite. Assim. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. procurar localizar características da cultura operária. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. à qual a expressão faz menção. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. as características sociais básicas da sociedade. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. que seja mesmo um patrimônio seu. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. Falar. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. por exemplo. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. à habitação etc. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. em outro. mas nem sempre é esse o caso. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. nunca entendimento da vida social. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . Para tentar reter o que é popular na cultura. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. isso não se deve à sua origem. porém. Assim. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. ainda. A categoria povo. como a população mais pobre. conseguiram acesso à escolarização. isso sim. São populações bem diversas. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. Isso produziria apenas confusão. nós estaríamos enfatizando. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. como se vê. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos.justiça não atendem aos interesses de toda a população. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. que seja característico dela. É preciso assinalar. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural.

Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. quanto porque está ligada à transformação destas. fazê-las produzir. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. procurando a expressão cultural deles. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade. Assim. por essas 50 . as relações que definem essa existência. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. como já disse. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. demonstram grande variação interna. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. As próprias classes sociais. Elas também têm sua dinâmica própria. definitivo. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. como se dá o exercício do poder na sociedade. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. mas também ajuda a produzi-la. pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. não é um espelho amorfo. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas.valorizar esse patrimônio. Ela é produto dessa sociedade. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. entender como se realiza a desigualdade social. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando. que seja homogêneo para toda uma classe social. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. têm contornos imprecisos na prática. De qualquer modo. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. A cultura é criativa. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida.

embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. Além do mais. nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. Da mesma forma. propõem estilos de vida. na educação. Assim. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. Examinemos um pouco essas questões. No entanto. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. no meio urbano ou rural. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. São meios de comunicação poderosos. o controle das massas. na participação política. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. modos de organizar a vida cotidiana. Por todas essas razões. Não há dúvida de que a indústria da cultura. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. de amar. ainda que muito forte. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. desenvolvimento de novas técnicas. produção de bens e serviços. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. principalmente. essas sociedades industriais têm 51 . É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. de pensar. na vida profissional. O ritmo acelerado de produção e consumo. recrutamento de mão-de-obra especializada. maneiras de falar e de escrever. é o amaciamento dos conflitos sociais. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. Eles também difundem maneiras de se comportar. de sofrer. a imprensa e o cinema. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. no lazer. Assim. Do mesmo modo. Essa cultura homogeneizadora. Ela seria uma característica vital deste século. de se vestir. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. o rádio. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. nas atividades religiosas. niveladora.razões. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. de arrumar a casa. a indústria cultural. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. o controle sobre as mensagens transmitidas. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. Tais instrumentos seriam. a televisão. centrada nesses meios de comunicação de massa. não só apregoam mensagens. Eles penetram em todas as esferas da vida social. de lutar. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. com inversões de capital. não é absoluto. de sonhar.

as tradições de um povo. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. Nesse sentido. os costumes. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. portanto. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. com propósitos de homogeneização e controle das populações.mudado. A cultura nacional é. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. corremos o risco de nos enganarmos. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. resultado e aspecto de um processo histórico particular. Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. Se não fizermos isso. os países das Américas. 52 . em seus planos de vida. também sofrem alterações constantes. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. elementos que não são absolutos. como uma dimensão da sociedade e de sua história. dessa maneira. Antes. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. mais do que a língua. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. os quais de resto são também dinâmicos. códigos de ação. mas não se pode dizer que prescinda delas. em seus modos de agir. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. já falamos disso exemplificando com a Alemanha. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. conseqüência das formas como a nação se produziu. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. As mensagens da indústria cultural. a Rússia. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. Mesmo assim. mas não são a cultura dessa sociedade. projetos de desenvolvimento. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. Ela é. que as possa ignorar. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. É uma realidade histórica. sem levar em consideração a ambas. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais.

de mudar seu desenvolvimento. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. No entanto. Mas. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. sempre valorativas. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. ao menos provisoriamente. importante nos processos internos dessa sociedade. de uma hierarquia entre eles. desigual. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites.Pode-se. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. Discutir sobre a cultura comum pode. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. pois. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos. apesar de sua presença maciça na população durante séculos. assim. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. para definir os aspectos que a fazem única. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. então. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. da mesma forma. uma dimensão dinâmica e viva. por exemplo. para delinear suas características. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. Seja 53 . Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. portanto. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. Vejam. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. importante para entender as relações internacionais. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. sujeitas a transformação. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. ser uma maneira de tentar alterá-la. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares.

dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade.como for. produtos. e que derivam da história de cada sociedade particular. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. as maneiras como seus setores. matéria de produção. Há aspectos importantes. É enganoso. de caridade. o conhecimento em geral. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. das instituições existentes e de sua dinâmica. pois. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. formas. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. nas universidades e centros de pesquisa. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. Assim. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. Ao pensarmos sobre cultura. por exemplo. 54 . posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. suas concepções. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. instituições se relacionam. Voltemos a eles. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. resultado de um século de existência no país. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. de decisões tomadas no passado. como vimos ao longo desta parte. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. por exemplo. Nesse período. A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. de ensino. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. diferentemente de outros países. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. Assim. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento. técnicas. Assim. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade.

tem sua dinâmica. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. como. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. e que a opressão política. A discussão de cultura sempre remete ao processo. é claro. E também porque. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. de atendimento à doença. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. por exemplo. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. ela deve ser por isso jogada fora. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. categorias de pessoas. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. aos menores abandonados. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. as mensagens políticas que contêm. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. à experiência histórica. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. Há outras maneiras de estudar a cultura. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. de grupos. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. O que interessa é que a sociedade se democratize. Podemos. Mas é ingênuo pensar que. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. por exemplo. as concepções nela presentes.editoriais e outras. mas também com os sistemas públicos de educação. outras ênfases a dar. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . outros recortes a fazer. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. por exemplo. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. econômica e cultural seja eliminada. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. como dimensão do processo social. Além disso. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. Por tudo isso.

e estariam justificadas assim as suas relações de poder. agir sobre seu desenvolvimento. com empresas diretamente voltadas para ela. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. Como vocês podem ver. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. de características acabadas. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. a cultura é uma esfera de atuação econômica. entendê-la. Há instituições públicas encarregadas disso. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. por exemplo. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. da mesma forma. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento.social. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. Por outro lado. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. Também os aspectos da história comum 56 . o analfabetismo. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. como no caso da oposição entre erudito e popular. Expressam seus conflitos e interesses. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. procuram defini-la. fazem parte da própria organização social. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. como. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. controlá-la. Da mesma forma. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. Assim. Cultura e equívoco Com tudo isso. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade.

A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. apropriação. de Antônio Augusto Arantes Neto. os temas com que iniciamos este trabalho. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. cultura é o legado comum de toda a humanidade. no entanto. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. 57 . Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. É bom que seja dessa forma. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. É uma relação pequena. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. assim. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. Há aí controle. pois podemos concluí-lo. Retomamos. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional.de um povo podem ser selecionados e valorizados. não respondem a exigências naturais. São lutas pela transformação da cultura. desigualdades no plano cultural. E como conseqüência disso. a compreensão de que suas características não são absolutas. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. Quanto à cultura nacional. É importante insistir. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. Assim. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais.

Editora Tempo Brasileiro.O que é ideologia. seu povo e cultura. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. preocupados com identidade e política. Dirigido a um público amplo. de CIaude Lévi-Strauss. Editora Pioneira. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. Zahar Editores. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. A Cultura do Povo. Mariátegui. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. e outra. arte e educação. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. Os Brasileiros: 1. cultura de classes e suas relações. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. Carnavais. Os textos têm linguagem acessível. de Florestan Fernandes. política americana. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. Interpretação abrangente da formação do país. Editora Vozes. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. Difusão Européia do Livro. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. Zahar Editores. Para Inglês Ver. 58 . Editora Ática. de Peter Fry. de leitura mais acessível. de Roberto da Matta. política internacional. de Darcy Ribeiro. O Caráter Nacional Brasileiro. Teoria do Brasil. São textos no geral claros e de fácil leitura. reunindo escritos de épocas diferentes. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. Cortez e Moraes Editores. O Negro no Mundo dos Brancos. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. de Marilena Chauí. de Dante Moreira Leite. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. Dirigido ao público universitário. Malandros e Heróis. Os textos têm graus variados de complexidade.

tais como: “Entre os brobdignacianos. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. não somente a novos valores e ideologias. no caso do antropólogo. ou. tudo isso em condições específicas. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. no limiar do século XX. que se ajustar. Deste modo. para Malinowski. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. Em outras palavras. Tal mudança de atitude. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. portanto. ainda. “Na antiga Caledônia. na sua observação participante. transformou nossa ciência. como o laboratório do antropólogo social. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. rituais exóticos e “costumes irracionais”. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. Assim. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. tendo. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. portanto. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. o urso o persegue”. conforme disse Malinowski. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. Freqüentemente. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. a Antropologia Social não poderia. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. às vezes. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. ele costuma fugir e. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. o etnólogo o experimentava de modo diverso. isso não poderia ocorrer. começou a abandonar a postura evolucionista. O controle da experiência.

não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. sobretudo em outra sociedade. teorizar. um conjunto coerente em si mesmo. onde a idéia de classificar e. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. seja do ponto de vista pessoal. gestos. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. entretanto. o que. sobretudo. logo a seguir: “Há. discernir e. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. Evans-Pritchard. reflexões. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. em qualquer ponto do planeta. um conjunto coerente de vozes. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. Trata-se. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. com sorte. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. Ou seja. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho. Como diz o mesmo Malinowski. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. gente do porte de Franz Boas. como um autêntico ponto de vista. Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. basicamente. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. Essa sábia reflexão de Malinowski. bebe tudo de um só gole. É. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. 1978: 22). de 60 . o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. porém. com qualquer tipo de tecnologia. como disse Malinowski. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. Deste modo. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. traduz a essência da perspectiva antropológica. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. ridículos”. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. articulações e valores. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema. como vimos. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. isto é. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica.garrafa de uísque pela estrada. permite localizar. teórico ou filosófico. 1976: 374).

nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. definindo (ou melhor. “mitos”. Isso porque. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. o seu próprio “repensar a antropologia”. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. neste contexto. seja porque as novas descobertas. Assim. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). inclusive da nossa própria cultura. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. De fato. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. Ou melhor. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. “favelas”. segmento. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. “classes sociais”. que eles podem falar de “suas tribos”. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. “ideologias” etc. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. Durkheim. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. na geração seguinte. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”. dos viajantes. “comunidades”. E isso pode provocar novas revelações teóricas. Seja porque a definição anterior era por demais estreita. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. a escola de Durkheim situa a 61 . portanto. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. até as mais “complicadas”. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. seitas. como também o ponto de vista daquele grupo. sejam elas as dos cronistas. a meu ver. Assim. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. classe social ou sociedade. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. quando há uma intervenção das igrejas. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. sacerdotes e sacrifícios. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas.

muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). de “estrutura”. pois. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. saudável e tradicional base pluralista. um idioma. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. e não parcelas de relações que o tempo. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. É. pela qual o fenômeno humano é estudado. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. moral ou filosófica preestabelecida. muito importante constatar como a Antropologia Social. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. De fato. como queria Morgan e seus contemporâneos. por algum capricho.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. Mas. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. para utilizar a noção de “sistema”. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. não obstante. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. portanto. culturas e civilizações. assim. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. de “sincronia”. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. 62 . deixou de submeter à sua pressão modificadora. Assim. Será. pois. Em parte. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. de “funcionalidade”. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. A história.

que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. Se existem fatos históricos. enquanto antropólogo. problemas e paradoxos. se há material político. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. eles são usados. da História. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. Em tudo. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”.sobretudo pela prática de viagens. É. ele não fica de fora. da Ciência Política e da Economia. como pensam os “primitivos”. mas muito próxima da Lingüística. descobrir. Mas tudo isso. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . 63 . qualquer que seja a sua aparência. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. enfim. Diferentemente. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. se existem fatos econômicos. estudando-o por todos os meios disponíveis. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. Ou seja. as experiências humanas. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. para um diálogo fecundo.desconhece. da Geografia Humana. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas. portanto. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. da Sociologia. então. com a grande tradição democrática. qual a racionalidade dos grupos tribais. na postura às vezes difícil de ser entendida. isso também entra na reflexão. convém sempre acentuar. da Psicologia.

nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. de seus ideais. pelo menos em suas principais tendências clássicas. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. o indígena”. Essa apreensão da sociedade. proclame que. Assim. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. uma grande quantidade de informações. se procura. o observador deve ficar com a última palavra. Pois a etnografia. Quanto à prática da Sociologia. na qual. 64 . Nunca encontra testemunhas vivas. isto é. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. Para compreender o candomblé. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. e “desencarnado”. a cipós vivos”. e contra o observador. “contra o teórico. análoga a organizações vegetais. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. o autor da Antropologia Estrutural. de suas angústias. de quem se considera um “aluno”. e algo frio. por exemplo. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. escreve Roger Bastide. longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. é significativo que Lévi-Strauss. como o antropólogo. Recolhe e analisa os testemunhos. a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. Se. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. O historiador. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. Não se pode. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. de fato. a sociedade tem preocupações religiosas. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. mais ainda. Quanto a isso. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. de fato. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. através de um método estritamente indutivo.

tem algo de errante. de fato. O antropólogo não pode. é claro. A busca etnográfica. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. os sistemas de crenças. de estar atenta para que nada lhe seja escapado. porém. jurídica. as ciências religiosas. anotado. as ciências jurídicas. porém. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. De um lado. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas). As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. pelo contrário. um outro: o sistema de produção e troca de bens. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso. cultural. tudo deve ser observado. Objetar-se-á que pode. se tornar um especialista. isto é. político. o evento que ocorre quando não esperávamos. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica.. etc. demográfica. uma programação estrita de sua pesquisa. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. c) O antropólogo evita. No campo. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue.. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal.. As tentativas abordadas. não apenas por temperamento. Como escreve Mauss (1960). constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. os processos cognitivos e afetivos. Com a diferença. os erros cometidos no campo. vivido. as ciências econômicas. Não nos enganemos. de que este se esforça. bem como a utilização de protocolos rígidos. as ciências psicológicas.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. ser o caso do antropólogo. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. o direito. porém. Trata-se. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. quanto às virtudes do campo..). é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência. de condições necessárias.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. um perito de uma área particular (econômica. social. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”. de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos. psicológico. isto é. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista. De outro. isto é. artificialmente isolados em relação à 65 . o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico.

o divórcio. 66 . consumidor. de fato. a ciência e a filosofia. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. a partir de um fenômeno concreto singular. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). no horizonte científico contemporâneo. paradoxalmente. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem. a criminalidade. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. ser o especialista em uma única área. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente. É a razão pela qual somos provavelmente. o projeto que foi o da filosofia clássica. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. é claro. mas a observação direta de suas produções concretas). o marxismo e a Antropologia. mas que corre o risco de cair no vazio. Como escreve Lévi-Strauss. o alcoolismo. o que nos levaria à posição de. no mundo contemporâneo. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social. Assim. antagonistas da reflexão. em primeiro lugar. supõe também.. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. mas pouco reflexiva.. para além de todos mos questionários. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). A própria Antropologia. O parcelamento disciplinar comporta. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. das condutas suicidas. como mostrou Husserl. por mais aperfeiçoados que sejam.totalidade do social. A prática da Antropologia. de fato. cidadão. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. por exemplo.. A meu ver. Se olharmos mais de perto. mais tocados do que outros. Pessoalmente. e uma cientificidade extremamente positiva. toda prática hiperespecializada. enquanto antropólogos. apenas três formas de pensamento são.. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. parente. a ciência e a religião. 2) tentar. de fazer surgir um questionamento mútuo. do esporte. capazes de responder a essa definição: islamismo. O projeto antropológico retoma hoje.. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano.. e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. de maneira pragmática. e. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento.

jornalistas. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Por via das dúvidas. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. vale dizer. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. São Paulo: Brasiliense. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. Era seu amigo. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. E não era mesmo com ele. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. um bom sujeito. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. a) Identifique o estado anterior e o posterior. que não era com ele. lidos depois do jantar. Porque antes de cumprimentá-lo. e sem credores à porta. De repente. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. Sendo assim. 67 .LAPLANTINE. talvez ainda sem tê-lo visto. Aprender Antropologia. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. velho companheiro. mas. chegara a passar fome. o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. todo branco e sardento. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. com o gringo ali a seu lado. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. Era o sambista seu amigo. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. já distraído dos seus passados tropeços. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. haveria de compreender. vendo o preto aproximar-se. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. ao americano. 1996.

já esquecido dos dias de desempregado. uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro. 68 . Parágrafo). do texto. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o. o personagem central sente-se ameaçado. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação.b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central.

Se soubesse desse desfecho. existe sempre um posicionamento crítico do narrador. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. Com base no sentido global dessa narrativa. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. por detrás dos fatos narrados. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 . d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes.

E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso.. mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes...De tuas meninas.. Do povo oprimido nas filas Nas vilas.. Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto. favelas Da força da grana que ergue 70 . Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João....

... Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa.. 71 .E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva.

conhece problemas do mesmo tipo. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. medo. também está no mundo e. o “nosso” grupo. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. nos deparamos com um “outro”. no plano afetivo. empresta à vida significados em comum e procede. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. mora no mesmo estilo. bárbara. Grosso modo. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. Aí. é selvagem. os caminhos e razões. Assim. enfim. a natural. este “outro” também sobrevive à sua maneira. Talvez o etnocentrismo seja. veste igual. também exista. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. mais discretamente se for o caso. a melhor. como sentimentos de estranheza. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. nossos modelos. distribui o poder da mesma forma. às vezes. casa igual. as formas. de repente. hostilidade. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. por muitas maneiras. um mal-entendido sociológico. a vida deles não presta. nossas definições do que é a existência. pois. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. gosta dela. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. então. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. pensamentos. semelhantemente. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. que come igual. a certa. um daqueles de mais unanimidade. ainda que diferente. O grupo do 72 . etc. o grupo do “diferente” que. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. No plano intelectual. a superior. No etnocentrismo. E. talvez. então. O monólogo etnocêntrico pode. gosta de coisas parecidas. pois. mais grave ainda. conhecemos um grupo do “eu”. da sua visão a única possível ou. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. na constatação das diferenças. acredita nos mesmos deuses. dentre os fatos humanos. De um lado.

Um dia. marcar segundos. A sociedade do “outro” é atrasada. De qualquer forma. muito feliz. “excelentes” ou. o progresso. após alguns meses. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. nunca o “igual” ao “eu”. o relógio. comprou para os selvagens contas. Tempos depois. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. nessa lógica. anormal ou ininteligível.“outro” fica. de alguma maneira. “ser humano” e ao “outro”. É o espaço da natureza. a desarticulação. pentes. seu trabalho. por um lado. o pastor perdeu seu relógio dando-o. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. não sem dificuldade. meio sem jeito e a contragosto. O “outro” é o “aquém” ou o “além”. neste conjunto de idéias. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. espelhos. Forase o relógio. como sendo engraçado. absurdo. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. muito simplesmente. pois. o trabalho. vencido por insistentes pedidos. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. do barulhento. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. A atitude etnocêntrica tem. ao estrangeiro. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. venceu as burocracias inevitáveis e. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. fazer contas. A surpresa maior estava. modesto. no etnocentrismo. Ao chegar. porém. chamam. É onde existe o saber. No limite. a superior. por vir. é o fato de que. Existe realmente. por fim. Muito generoso. da selva que lembra. de uma única sociedade. etc. ainda por cima. Dias depois. a vida animal. São qualquer coisa menos humanos. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. ao jovem índio. a sociedade do “eu” é a melhor. alarmes. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. O barbarismo evoca a confusão. por vezes. estes somos nós. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. pendurado a vários metros de altura. o índio fez o pastor divisar. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. apesar de que. os bárbaros. infalível. São os selvagens. especialmente. na nossa.. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. O que importa realmente. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. a desordem. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. agora mínimo e sem nenhuma função. 73 . O selvagem é o que vem da floresta. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos. como já disse. O etnocentrismo não é propriedade. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto.

seja em casa. No mais das vezes. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. inteligente e 74 . o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. e até uma flauta formavam uma bela decoração. porque somos os autores destes filmes e livros. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. da qual falamos na nossa sociedade. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. Para o pastor. Como já vimos. Em primeiro lugar. os personagens de cada uma delas fizeram. Nelas. flechas.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. se isso fosse possível. na matança dos índios). bordunas. trazia-lhe estranhas lembranças. Em terceiro lugar. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. ornamentais. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. Era hora de ir. bastante plausível. porém. na cultura do “outro”. Assim. a lógica do extermínio regulou. Tanto no presente como no passado. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. um famoso cientista do início do século vinte. neste choque de culturas. diretor do Museu Paulista. obviamente. de toda evidência. deu uma olhada no relógio novo. seja nos livros didáticos. Privilegiaram ambos as funções estéticas. Levantou-se. tacapes. Hermann von Ihering. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. cocares. aliás. Em segundo lugar. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. decorativas de objetos que. arcos. tristemente exemplar. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. pode colocá-lo como “primitivo”. por exemplo. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. de uma criança de um grande centro urbano que. são apenas uma representação. não necessariamente verdadeira. esta estória representa o que se poderia chamar. como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. de um etnocentrismo “cordial”. a mesma coisa. como “algo a ser destruído”. seja na indústria cultural. naquela manhã. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. muito comum e de uso geral no etnocídio. infinitas vezes. Esta estória. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. tanto aqui como em vários outros lugares. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. Também. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. Isso lembra o comentário. quinze para as dez. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo.

Assim. Claro. Os estudantes são testados. por exemplo. muito pelo contrário. que se recuse a trabalhar como escravo. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. há alguns anos. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. Aliás. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. mais ainda. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. na nossa sociedade. Ora. ela deve mostrar e esconder.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. que são permanentemente aplicados a estes índios. A estória do nosso 75 . pois são lidos e. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. via de regra. um ovo ou uma pessoa. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. “sério” e “científico”. mas também em diferentes contextos no presente. A figura do louco. carregam um valor de autoridade. esta recusa é. numa lavoura que não é a sua. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha. posso pensar dele o que quiser. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. Nesse sentido. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. como o marciano não diz nada. Na nossa chamada “civilização ocidental”. de um ponto de vista do grupo do “eu”. num corpo. Este “escândalo” esconde. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. em outros. sinal de saúde mental. Os livros didáticos. na verdade. no mínimo. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. Isto não só ao longo da história. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. em face do seu conteúdo. Eu mesmo realizei. determinados estereótipos.

como o “outro” é alguém calado. mera imagem sem voz. os “surfistas”. Nele o papel do índio é o de “criança”. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. jornais. Uma das mais importantes é a da relativização. são uma espécie de “conhecimento”. os “paraíbas de obras”. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. “almas virgens”. Enfim. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. mas no contexto em que acontece. para o livro didático. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade.. ele aparece como “selvagem”. Em outras palavras. muitas vezes. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. É no capítulo “Etnia brasileira”. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. os “velhos”. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. num passe de mágica etnocêntrica. estamos relativizando. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. os “negros”. os “caretas”. etc. manipulado de acordo com desejos ideológicos.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. “pré-histórico”. os “colunáveis”. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. as “dondocas”. etc. certo tipo de cinema. Mas. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. estamos relativizando. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. estamos relativizando. Assim são as sutilezas. “infantil”. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. os “doidões”. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. o índio é. O terceiro papel é muito engraçado. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. Da mesma maneira. A “indústria cultural” – TV. Relativizar é não 76 . “inocente”. revistas. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. publicidade. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. um “saber”. persistências do que chamamos etnocentrismo. “antropófago”. os “empregados”. vira “corajoso”. os “vagabundos”. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. Assim. cheio de “amor à liberdade”. Ali. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. por oposição. baseado em formulações ideológicas. “primitivo”. a quem não é permitido dizer de si mesmo. capaz de ter um fim ou uma transformação. violências. “altivo”.

É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente. Ela. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. Acredito até que. com maior ou menor grau de dificuldade. serpentes. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. ser observado a partir de vários ângulos. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns.transformar a diferença em hierarquia. há alguns séculos. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. construindo um conhecimento ou. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. O mestre. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. A diferença das escolhas humanas se fixa. Buracos sem fundo. Diferentemente do saber de “senso comum”. nasceu marcada pelo etnocentrismo. num certo nível. O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. na Antropologia. colonizações. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. espantos. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença. alucinações. Ela não é uma hostilidade do “outro”. no mínimo. em superiores e inferiores ou em bem e mal.Trata-se dos séculos XV. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. monstros. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. a diferença não se equaciona com a ameaça. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. Mesmo com as novas 77 . Assim. no plano da sociedade mais geral. agora. sacações e aberturas. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. O percurso que. Antes. Esta ciência chama-se Antropologia Social. expedições. aqui e pelo mundo afora. gostaria. A nossa sociedade já vem. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. Assim. mas com a alternativa. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. compenetrado e falante. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. porém. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. De fato. se quisermos. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. XVI e XVII com suas navegações. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. É um momento básico de encontro com o “outro”. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. no conhecimento antropológico. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa.

o risco era imenso. T. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). que era preciso. pouco a pouco. procurando compreender as diferenças que. Ninguém entendia nada. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. Muita violência.”. a pensar a diferença. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. se não por todos. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. paradoxos. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. sempre mais matizados. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. é conhecido como Evolucionismo. a cada vez. vão assumindo novas formas. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. freqüentemente. e que procuram explicar a diferença. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. que lei. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. Isto é a Antropologia Social ou Cultural. à outra a própria natureza humana. num certo sentido. Assim. E é esta perplexidade que vai. Destes encontros. interesses. ele foi sendo superado. para o pensamento ocidental. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. mesmo sem viver. ao menos dentro da Antropologia. nos centros avançados de estudo. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. um conjunto radical de novas questões. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. Que costumes. frente ao “outro”. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões.. O mundo do “eu” se via obrigado. um esforço de compreensão da diferença. nascia ali. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. As novas técnicas empolgavam os alunos. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. pouco a pouco. discute-se e especula-se. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam.tecnologias. (que aí já não era mais preciso!).

mais e mais absoluta em suas conquistas. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. Explicando melhor. nos séculos XV e XVI. nos séculos XVIII e XIX. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. Mas. Evolução. quase que como uma âncora. avanço no tempo.teoria antropológica e. no nível biológico do desenvolvimento. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. evolução. a esta noção orgânica. de fato. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. mostrando. Tudo isso forma um campo intelectual. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. então. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. A lógica do raciocínio é simples. exatamente. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. Assim. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. nos Estados Unidos. na história dos saberes sobre o ser humano. então. por exemplo. em outras palavras. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. Lewis Morgan -. uma segunda forma. Para o evolucionismo antropológico. o que é. Mas. na direção do progresso. começou a produzir seus estudos. em plena metade do século XIX. por sua vez. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. O resultado disso. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. Assim. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. tem um lugar de destaque. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. O homem a caminho. equivale a desenvolvimento. de Darwin. biológica de evolução. evolução? Evolução. pelo processo evolutivo. E foi toda uma geração de antropólogos que. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. vai ser a permanência do etnocentrismo. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 . no seu sentido mais amplo. contemporânea dos aborígenes australianos. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução. a noção de progresso torna-se fundamental. Progresso. a Inglaterra do século XIX era. sua potencialidade. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. sua formulação clássica. encontra. é claro. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. um espaço correto para um tipo de pensamento que.

Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. o século XIX. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. em toda parte os mesmos. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. crença. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. talvez. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. para eles. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. então. estas idéias eram nítidas e claras. em certas sociedades. por exemplo. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. Para os evolucionistas.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. Sim. Também transparece uma espécie de princípio geral. leis. moral. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. a era vitoriana. que em plena época da rainha Vitória. que formam um “todo complexo”. tendo aceitação. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . etc. postulavam uma permanência. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. o mais famoso da Antropologia e. Se pensarmos nesta definição. logo na primeira página. uma lei. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. a melhor por definição. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. Que. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. mais cedo ou mais tarde. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. Este conceito é. Mas. separados. é este todo complexo que inclui conhecimento. no entanto. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. podese dizer que é. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. Faz-se. Sabemos que são relativos. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. unitários. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. dentro da cultura. Ainda mais. no seu sentido etnográfico estrito. Aqui. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas. arte. porque se compararmos Brasil. no mínimo um clássico. restava ainda um problema teórico. O que e Arte? Lei? Moral?. diz o seguinte: “Cultura ou civilização.

O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. ele nunca achou o cavalo... divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. a visão caótica do “outro”. o espanto. A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. a hipótese que coloco aqui é simples. por trás do ser “civilizado”. “meios de subsistência”. pelo menos. neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. Este espírito teria. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. Ou. De fato. Dessa maneira. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. importante antropólogo da época. como eu faria isto ou aquilo?”. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. etc. Dessa forma. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. pouco a pouco. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos.. pois que tudo já estava pronto. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. “arquitetura”. a falta ou excesso de 81 . Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. descobertas e instituições. barbárie e civilização. os povos ditos “civilizados”. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. temos dois marcos básicos. os povos primitivos e no extremo superior. chegando ao pólo “civilizado”. aqui no evolucionismo. A relativização não tinha espaço. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. Para Morgan. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução.. “religião”. paradoxalmente. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”. No extremo inferior. evidentemente. qualquer “trabalho de campo”.pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. “propriedade”. Estudando invenções. Diz uma anedota que Sir James Frazer. por via do progresso. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. para onde teria ido?” Claro.. fortemente entrincheirada. o medo oculto. encontramos ainda. “família”. Mas. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo. a visão etnocêntrica. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos.

Se o “eu” negava. num resumo. A magia. para a maturidade e complexidade da disciplina e. para o crescimento. num primeiro momento. me parece que nesse sentido o evolucionismo. Malinowski. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. Tanto aqui. 82 . encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. É certo que a escolha. exatamente. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber. a sua maneira. contribuiu. controvertidas. apresentam diferenças e. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. enredo. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. vê-lo como atrasado e primitivo.significações do “outro”. E vai ser. interessantes. Sabemos que ambos não são bons. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. e muito. mas pode-se ver qual se distancia mais. neste processo. já traz em si alguma semente de relativização. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. É o que veremos a seguir. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. cenários. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. VOANDO ALTO Diferentes atores. complexos do que isto. um “outro” tão humano quanto o “eu”. Neste processo. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. Cada um. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. Todos eles tinham personalidades peculiares. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. Durkheim. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. que foram os séculos XV. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. mais sabemos o quanto falta saber. Agora.] Assim. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. Menos evoluído. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. já apresenta alguma diferença. por assim dizer. multiplicando muito. relativizando: é claro que a época do novo mundo. Todos os três. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. juntamente com Boas. Entretanto. mas muito mais mesmo. seu campo de estudos. entre si. o que nos interessa mais de perto. mas nem “deus” nem “diabo”.

específica. uma idêntica concepção da natureza da história. dos valores atuais dos peões. A história. estaríamos analisando sincronicamente. Por outro lado. cada uma a sua maneira. os processos próprios de mudança. das posições das peças no vigésimo movimento. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. Em termos mais técnicos. bispos. que era o do “progresso”. de Adão e Eva ao Juízo Final. no entanto. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. forças e significados internos a este movimento. via de regra. Passando para a análise das culturas humanas. Mais 83 . A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e.. estabelece seu conhecimento do vigésimo. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . É uma história com “h” minúsculo. aí. Não se pode dizer. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. duas seriam as ações possíveis dessa partida.história. Se. no entanto. demonstravam a permanência de um tema. nos dois movimentos. etc. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. por seu turno. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. Como se. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. O longo caminho da história. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. que a hipótese evolucionista criava. Para estes dois movimentos. por eles. dessa maneira. se interessa pelas posições. era uma única para toda a humanidade. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. o da “evolução”. diferentemente. desde o primeiro até o vigésimo. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. troca e empréstimo que as caracterizavam. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. torres. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. A sincronia. faríamos uma análise diacrônica. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. de cada cultura particular. todos caminhassem num mesmo sentido.

para o historicista. como já disse. Para ele. a sociedade do “eu”. inexoravelmente. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. a discussão realmente importante. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. ao menos. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. que nem sempre poderá ser lá encontrada. Com isso. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. neste sentido. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. a história conjetural. nem entre estes e o evolucionismo. dá outras dimensões à Antropologia. se pensarmos bem. mais complexa. Para ele. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. com seu corte teórico. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. E. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. é importante que se saiba o que. radcliffe-Brown. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. histórico. veremos que a preocupação com a história é. O verdadeiro ponto de ruptura. “estrutura” e “função”. se obriga. por mais míope que seja. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. não concordou Radcliffe-Brown. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. A nossa sociedade. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. definitivamente. É o caso de noções como “processo”. O funcionalismo. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. especulativa. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. e uma preocupação com ele. de ter na hierarquia sua regra número um. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. seja ele difusionista ou evolucionista. Nesta linha. feito de acontecimentos sucessivos. ao certo. Ao fazer esta opção.simplesmente. mais relativa. da “diferença”. se constituía no objeto antropológico por excelência. Sim. Em primeiro lugar. A Antropologia. A realidade concreta a ser estudada. observada. agora. o que a levava. como no evolucionismo. o estudioso. antes de tudo. Com isso. Assim. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. descrita. para fora do etnocentrismo.

outras “funções” cruciais. a da “estrutura social”. Isto significou que. por seu turno. termina o processo vital e a estrutura orgânica. a sociedade se transformará numa outra diferente. como um organismo complexo que é. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. é um processo: o “processo social”. atacada numa função básica. tão a seu gosto. Este organismo. onde outras instituições terão. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. me parece. procuro apenas demonstrar que. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. tecidos. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. na produção teórica. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. Nela. o processo vital. Se parar de executá-lo. Este. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. conseqüentemente teve de procurar. enquanto estrutura viva. sutis. por analogia. Na sociedade. Mas. etc.permanente. repetitivas. possui uma estrutura composta de ossos. histórico. Comparava o sistema social ao corpo humano. Espero que ele me perdoe. Por outro lado. das ações. o coração. mas. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. 85 . por exemplo – aponte uma outra dimensão. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. pagou o preço de uma forte relativização. Se estas funções forem suprimidas. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. E. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. A vida caracteriza um constante processo. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. Assim. aqui. Transportava termos da Ciências Naturais e. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. muito mais complexas. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. Dentro desse “processo social”. além de mais amplas. podemos perceber a existência de formas regulares. A sociedade não morreria. por exemplo. É nesse quadro. também desaparece. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. ao colocar novas questões em jogo. fluidos. recorrente. novos instrumentos para pensá-las. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são. os aplicava ao estudo da sociedade humana. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. Uma de tais analogias. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. por sua vez. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear.

Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. experimentar a existência junto ao “outro”. mas também se afirma como entidade autônoma. ou então ainda. Um outro nó. o superior pelo inferior. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. 86 . transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. com instrumentos teóricos que eram criados. apresentando uma existência própria. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. experimentando-se a si próprio como diferente. então. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. principalmente. tem de viajar. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Contando. por períodos significativos de tempo. em diferentes momentos e de várias formas. Com isto. E. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. um tema aparece e se repete. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. que é geral na extensão de uma sociedade dada.produzido na sociedade do “eu”. autônomos. Conhecer a diferença. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. fixa ou não. independente das manifestações individuais que possa ter”. um outro lado do laço. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. por estar. na sincronia. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. vou utilizar o próprio Durkheim que. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. O antropólogo. Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. para a Antropologia e para o processo de relativização. Qualquer estudante da vasta. São “coisas”. o complexo pelo simples. assim. Neste sentido. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. que independe do indivíduo. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. Tem de ir morar. no sentido de sua concretude que independe da natureza. vai ser desatado por Émile Durkheim. Antes. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. livre para estudar a sincronia. São “coisas” porque autônomos. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. intitulado “Que é Fato Social”. Os fatos sociais são externos. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. A Antropologia. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. Explicando melhor. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. mas seus projetos tinham rumos diversos. principalmente. independente do indivíduo. e não menos importante para a autonomia antropológica. na questão do etnocentrismo e de sua superação. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. obrigado aos estudos sincrônicos.

Com isto ele queria demonstrar. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. Em terceiro lugar. Em outras palavras. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. o “outro” com todos os seus desafios. É. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. independente e própria. E. pode dele se ausentar. o fato social pressiona o indivíduo. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade. no entanto. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. uma “coisa” que ultrapassa cada um. Ninguém. em primeiro lugar. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. que o fato social coage. O social tem seu próprio caminho. por todos e para todos. Para a Antropologia. 87 . também. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. no intrincado bolo do saber. uma nave lendária da mitologia. É. à primeira vista. exigiram. profundo. A nós. um longo esforço de relativização. novamente. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. Malinowski foi nosso grande viajante. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. De repente. A “diferença” cara a cara. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. vemos que o fato social é (1) coercitivo. Aqui. (2) extenso e (3) externo. Estas conquistas que podem parecer. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. o fato social. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. Possui força autônoma. no repto lançado pela experimentação do relativismo. outro. Na verdade. a ser traçado. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. para além das manifestações individuais.diante de explicações. viajar o “outro”. evidentes em si mesmas. O fato social é. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. Em segundo lugar. neste contato com a “diferença”. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . Um argonauta era um tripulante de Argo. agora. parece tudo muito simples e óbvio.Acompanhando esta definição. Para Malinowski.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. em vários momentos da teoria antropológica. quando havia uma determinada visão de cultura. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. E. mas porque não querem. vice-versa. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. uma outra . Parece que. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. pelo trabalho de campo. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. que podem transformar a teoria antropológica. Três ou quatro horas por dia. Isto se torna possível. Muito pelo contrário. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. a complicação se tornou ainda maior. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. a definição de história era legitimada. Assim. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. Ora. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas. mais que isto. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. se tornava mais “verdadeira”. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 .tempo é dedicado a atividades econômicas. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. seria necessariamente pobre e miserável. encaixada com os conceitos de cultura. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. ou melhor. dados obtidos pelo trabalho de campo. ou seja. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. foi. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. Ainda mais. uma máquina produtiva que. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido.a deles -. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. que não pratica essa acumulação. Assim. então. Quando esse conceito. essa forma de ver a passagem do tempo. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. são reciprocamente definíveis. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. porque fizeram uma opção diferente. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. em larga medida. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. é perceber o “outro” na sua autonomia. sobrevivência ou miséria. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente.

através dela. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. sua contraparte. totalizador das “diferenças”. porque evoluí. qualquer que seja. É um passado pelo qual já passei. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. Numa palavra: o “diferente”. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. 92 . A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades.concretamente existente numa única. como capaz de explicá-la inteiramente. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. Neste questionamento. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. simplesmente. Em outras palavras. para conhecê-la. pode passar a ser questionado. o “outro” é atrasado. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. Ainda assim. o coração por assim dizer. Com Durkheim. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. mas ainda bastante problemática. da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. de trajetórias distintas. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. Passamos. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. Outra vez os dois conceitos se conjugam. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. na verdade. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. É. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. No plano teórico. progredi. É. grande e completa explicação. É o próprio Lévi-Strauss quem. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. o conceito de tempo linear. ou pela linguagem. pois. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. ou pelo indivíduo. histórico. Colocava-se. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. também. assim. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. A cultura vai ser entendida como moldada. ou pelo ambiente. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. também particular. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. Assim. tudo se relativiza. Nesta perspectiva. numa idéia de história.

Para um Apinayé. um fluxo. nossa existência. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. sua existência. 93 . Por incrível que possa parecer. Para elas. que são como dois momentos fixos. para um Apinayé. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. a unidade. tipo causa e conseqüência.Você. o fluxo. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. no caso. um jogo de espelhos. Mas. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. ele demonstra. até mesmo. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. Em termos mais simples. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. mas. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. nos capítulos anteriores. outro no chão. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. leitor. o tempo é sentido. seu tempo. diz ele. o quanto é difícil o processo de relativização. pensado e vivido como descontinuidade. É. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. uma linearidade ininterrupta. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. de relativizar. Dá para sentir. Esse tempo se contrapõe. Ou seja. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. de uma redefinição de seu papel como ciência. tal como para nós. sendo parte dela. E é mesmo. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. se sente fazendo história. estranho e ininteligível até. Talvez isso possa parecer extremamente complexo. foram realizados pela Antropologia. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. Mais fácil. mas de maneira errada. Este é o último capítulo do livro. pensam o seu mundo. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. desdobrar-se. enfim. Antes. o que se quer saber é como os Apinayé. tentando explicar poeticamente. métodos e. nosso tempo. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. Um no céu. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. O tempo não é. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo.

Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. se quisermos. do antropólogo americano Clifford Geertz. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. destinos próprios. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. pelo trabalho de Malinowski. sentidos. escolhas de uma “política” dos 94 . imposições. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. cada cultura atribui significados. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. Assim. Este código é a cultura. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. ao contrário. Para se pensar o fenômeno cultura. Melhor dizendo. metáfora explorada por Clifford Geertz. Esta tarefa. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. nessa linha. A cultura. sua “sexualidade”. tanto humilde quanto generosa. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. teias. A Antropologia. Cada um de nós. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. Aquela de ser uma ciência. por assim dizer. à qual nos referimos no capítulo anterior. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. classificar e praticar sua experiência. destrói sociedades. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Nesse sentido. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. cria outras. uma literatura que não é das verdades absolutas. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. a cultura “fala” da existência. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. Pode também ser vista como uma teia. seu “corpo”. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. como que mapas. Tal como um código. um conhecimento ou. mas das interpretações relativas. utilizando símbolos de diferentes tipos. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. estudada por Malinowski. um saber. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. enquanto ator social. O mundo muda. etc. enfatizando sua dimensão interpretativa. os trobriandeses estão aí vivos. pela qual “falamos” uns com os outros. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. No entanto. não existem mais. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. trocamos mensagens. sua “morte”.As culturas são “versões” da vida. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. seja ao seu “tempo”.

seria interpretar este fluxo do discurso social. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. para entender estes sistemas de 95 . o caso do domínio das relações de parentesco. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. parentes afins. do etnocentrismo à relativização. então. portanto. Se entre nós a escolha do cônjuge. Este é. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. Herança. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. uma escolha psicológica. propriedade. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. As Estruturas Elementares do Parentesco. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. quem serão meus amigos e aliados. e às vezes principalmente. ao menos. direitos e deveres. irmãos. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. Assim. o lado da afinidade do parentesco é. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. o que pensamos e fazemos. como o cônjuge. Em termos mais precisos. decidida individualmente.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. encontrados nas sociedades do “outro”. absurdos. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. definitivamente. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. por exemplo. sistemas de parentesco. é trilhado na medida em que. Lévi-Strauss vai mostrar. – mas também. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. O que faz. num famoso livro. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. Este caminho. o sistema de comunicação mais amplo. para dizer o mínimo. Isto quer dizer que. enfim. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. Mas. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. pareciam. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. livrou-se. etc. que seria a própria cultura de determinada sociedade. Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. guardar.

foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. se relativizam. morais. métodos e técnicas que. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. O que se passou na Antropologia. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. também. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. é necessário ver que o coração. problematizada e generosa. enfim. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. a chave para a sua compreensão. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. a um só tempo. Tudo isso é muito pouco. por vezes quase invisíveis. Aí também. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. conjuntos de idéias. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. de “foro íntimo”. Aqui voltamos direto ao nosso tema. A afinidade nestes sistemas. está numa unidade que inclua também a afinidade. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. nos próprios termos de Lévi-Strauss. não é um dado psicológico. O que é. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. Este. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. seja no “parentesco” ou na “economia”. sentimentos. no jogo de seus movimentos. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. no encontro entre o “eu” e o “outro”. mostra ele. nos costumes políticos. na indústria cultural.parentesco. o etnocentrismo é exorcizado. realmente. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. Tudo isso indica que a Antropologia. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. conceitos. frente a um sem-número de ideologias. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. Disso resulta. 96 . descendência e afinidade. seja na “individualidade” ou na “história”. A Antropologia reflete. Aí. interétnicas. para compreender o “outro”. o centro deste sistema. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. emerge uma compreensão do ser humano. acredito. Enfim. se transformam. Nas relações internacionais. esperança e generosidade. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. muito pouco se relativiza. Devem estar. movimentos que aconteceram na Antropologia.

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