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Apostila de homem e sociedade

Apostila de homem e sociedade

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  • A TEORIA EVOLUCIONISTA
  • CULTURA: um conceito antropológico
  • ETNOCENTRISMOS
  • O QUE É CULTURA
  • CULTURA E DIVERSIDADE
  • O QUE SE ENTENDE POR CULTURA
  • A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE
  • CULTURA E RELAÇÕES DE PODER
  • INDICAÇÕES PARA LEITURA
  • TRABALHO DE CAMPO
  • UMA RUPTURA METODOLÓGICA:
  • PRETO E BRANCO
  • O QUE É ETNOCENTRISMO

APOSTILA DE HOMEM E SOCIEDADE

2009 – PRIMEIRO SEMESTRE

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ÍNDICE

A teoria evolucionista..........................................03 Cultura: um conceito antropológico...................08 Etnocentrismos.....................................................24 O que é cultura......................................................28 Trabalho de Campo...............................................59 Uma ruptura metodológica...................................64 Preto e Branco.......................................................67 Sampa.....................................................................68 O que é etnocentrismo..........................................72

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A TEORIA EVOLUCIONISTA
Porque existe um número tão grande de espécies, freqüentemente tão semelhantes entre si que só podem se distinguir aos olhos de um especialista? As espécies se modificaram, ao longo de sua história, por meio de transformações lentas e progressivas, num processo de permanente adaptação às circunstâncias do meio externo. As formas dos vegetais e animais de hoje são originadas de formas anteriores, muitas delas já extintas.

EVOLUÇÃO A palavra evoluir tem origem latina, significando literalmente desenrolar, isto é, passar progressivamente de um a outro estado. Aplica-se a inúmeras circunstâncias, como quando dizemos: “a evolução das idéias”, ou “evolução de duma doença”. Aplicada ao estudo dos seres vivos, porém, a palavra evolução tem o significado bem preciso de transformação de espécies vegetais ou animais em novas espécies. Foi o francês Georges-Louis-Marie Le Clerc de Buffon (1707-1788), um grande naturalista, quem primeiro demonstrou a existência de uma série de substituições de espécies ao longo dos tempos. Ele chegou à conclusão de que “a forma da espécie animal não é inalterável. Ela pode mudar e até mesmo transformar-se completamente, acompanhando a mudança do meio onde vive”. Um aspecto muito importante da concepção de Buffon é que ele relacionou essas mudanças a alterações ocorridas na conformação geológica dos continentes, tendo sido, pois, o primeiro cientista a contestar a idade atribuída à terra pela Bíblia, admitindo que ela é, na verdade, muito mais antiga. Buffon chegou a comparar a fauna de diversas regiões do planeta, concluindo que a história da Terra compreende diversas etapas geológicas e que o Novo Mundo já esteve ligado ao Antigo. A observação dos fósseis, encontrados em diversos lugares em todo o mundo, constituía, já havia muito tempo, uma fonte de enigmas indecifráveis. Foi Buffon quem apresentou, pela primeira vez, uma teoria transformista unificada da natureza. Seu importante trabalho Épocas da natureza mostra, apoiado na observação dos fósseis e na comparação de animais de diferentes regiões do planeta, que o universo inteiro nasceu de um lento processo de transformação. Foi ele quem, finalmente, abriu para os naturalistas o caminho para a compreensão evolucionista do mundo vivo. O QUE É UMA TEORIA CIENTÍFICA A ciência, aos reunir uma grande quantidade de informações a respeito do objeto de sua pesquisa, ordena-as segundo uma seqüência lógica ou histórica e

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em microorganismos. era devido à existência de limitações naturais (ou sociais. Mas. mas sim de um processo de seleção passiva. por força de alterações de clima. Seriam. em que seria viável apenas a forma que melhores condições apresentasse em função das características do meio ambiente. que produzem várias gerações por ano.cria uma teoria explicativa do fenômeno em questão. a teoria anterior tem que ser abandonada. ou menos “aptas”. é necessário que ela explique o maior número possível de fatos e que não apresente incoerências internas e nem contradições em relação aos fatos. fossem mais capazes de se ajustar às peculiaridades ambientais. as causas da destruição das formas de vida menos adaptadas. Ela usa outras maneiras para comprovação de suas afirmações. o naturalista inglês Charles DARWIN publicou um livro de impacto imediato e gigantesco: Origens das espécies através da seleção natural. As únicas alterações de caráter evolutivo que podem ser presenciadas ou experimentadas pelos cientistas são as que ocorrem em pequenos animais invertebrados. Dizia Malthus. ou com maior abrangência. no entanto. Se essas características mudarem. sobreviveriam sempre – e apenas – as espécies mais capazes de aproveitá-las. intitulado abreviadamente Teoria das populações. por alguma singularidade constitucional. DARWIN E A TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL Em 1859. principalmente o recolhimento pelos cientistas de evidências materiais na forma ossos e objetos fossilizados. sobre um assunto determinado. não podem ser submetidos à experimentação de laboratório nem repetidos para verificação – o que também acontece com os fatos astronômicos e históricos. com várias gerações por dia. Nessa obra era demonstrado que os meios de subsistência na natureza e na sociedade não conseguem crescer na mesma proporção em que se multiplicam as populações. isto é. de disponibilidade de alimentos ou outras quaisquer. se surgir outra teoria que explique melhor. aquilo que se conhece. Para que essa teoria seja válida e aceita pela exigente comunidade científica. que a transformação das espécies não seria resultado de um “esforço ativo” da própria espécie no sentido de adaptar-se – como afirmava nessa época Lamarck -. no caso humano) restringindo a natalidade ou a proporção de nascidos que chegam à idade adulta. pois. a fome generalizada. a descoberta de um grande número de antropóides fósseis no leste da África. Por conseguinte. Darwin teve a oportunidade de ler o livro de um sociólogo – o reverendo Malthus. UMA VISÃO PANORÂMICA SOBRE O SURGIMENTO DO HOMEM NA TERRA Nas últimas décadas. a escassez de alimentos e outras formas de restrições impostas ao ambiente. pois. deveria ocorrer um colapso. segundo acrescentaria Darwin. veio 4 . Em 1838. A teoria científica origina-se da observação e experimentação dos fatos e fenômenos da natureza. Darwin imaginou. ou melhor ainda. em favor da segunda. pois. em dado momento. muitos deles com características “humanóides”. em favor das que. Os fatos da teoria evolucionista. A teoria científica representa. essa mesma questão. Se isto não ocorria. se os povos de todo o mundo continuassem a crescer continuamente.

se não tivessem ocorrido grandes mudanças ligadas à temperatura do ambiente em que viviam os primeiros hominídeos. sabemos que a Terra. desde a sua formação. ou seja. essas florestas foram se tornando mais rarefeitas. De fato. Tais mudanças climáticas progressivas constituíram. espécie à qual pertencemos e que representa a única sobrevivente do gênero. ainda. Brain: “Parece razoável admitir-se que. por meio da seleção natural. no sentido de transformar-se adaptativamente de maneira contínua. Essas significativas alterações de relevo. no sentido norte-sul. há cerca de 300 milhões de anos. iniciado há 200 milhões de anos. inúmeras espécies de símios arborícolas. vem sofrendo várias modificações climáticas que fatalmente teriam causado a extinção da vida terrestre se esta não fosse dotada de uma grande plasticidade. e 650. o principal fator selecionador das novas formas que “espontaneamente” foram surgindo. pois. a maior parte de Europa. grandes deformações de relevo ocorreram na África e na Ásia. por exemplo. Nessa época. K. Há cerca de 12 milhões de anos ocorreu na África uma série de importantes modificações na superfície terrestre. Nesse gênero são incluídos apenas os hominídeos de maior capacidade cerebral. desde os últimos 50 milhões de anos. disse o antropólogo sul-africano C. parece que episódios de grande resfriamento do planeta foram acompanhados. mas também da superfície do cérebro. da Índia. ao longo da série dos vertebrados. O Homo sapiens sapiens. Passaram a predominar as espécies herbáceas e arbustos de 5 . há várias espécies que apresentam postura ereta permanente. sendo que os especialistas divergem quanto a um valor mínimo: 750 centímetros cúbicos. sempre. segundo alguns. por exemplo. unto à costa oriental africana. devido à sua alta temperatura e às elevadas concentrações de gás carbônico. vivendo sob as árvores”. da Arábia e do oriente africano era coberta por espessas florestas onde viviam. Já vimos que as características ambientais – em particular o clima – constituem o principal fator que irá determinar. como se tratasse de “experiências novas” realizadas pela natureza. observa-se um aumento gradual não só do volume. há 12 milhões de anos. porém não pertencentes ainda ao gênero Homo. Em conseqüência das transformações climáticas. como. nós ainda estaríamos ao abrigo de algumas floresta quente hospitaleira. a modificação adaptativa das espécies vegetais e animais. 1350 centímetros cúbicos. o levantamento da cordilheira do Himalaia e a abertura de uma enorme brecha. As condições vigentes. em média. constituíram as causas principais de severas modificações climáticas em toda aquela vasta região. Estes são considerados hominídeos. porém um volume cerebral não superior a 500 centímetros cúbicos. acompanhadas de um resfriamento constante da superfície terrestre. como existiam no Mioceno. as quais teriam desempenhado um papel decisivo no processo de transformações adaptativas de antropóides. seriam totalmente incompatíveis com as formas de vida hoje existentes. Na verdade. Por outro lado. substituídas na maior parte por vegetação mais rala e rasteira. segundo outros. constituindo o Vale do Grande Rift. dentro de uma mesma espécie. embora o nível de inteligência.trazer novas luzes para a questão da origem do homem. mas esse valor pode variar muito. do processo de separação dos continentes. no Período Carbonífero. Com relação ao ser humano. de extinções em massa de espécies e significativas modificações adaptativas. entre outros fatores. levando à formação do homem. Como conseqüência. não possa ser deduzido a partir desse parâmetro. possui. ao longo do tempo. Entre esses fósseis.

surge um novo personagem nesse cenário. A capacidade craniana do Homo habilis era de apenas 680 centímetros cúbicos. Nos últimos anos. Também nessa época. nas grandes glaciações que 6 . ans mesmas regiões. típica de animais que se alimentam de sementes e outras partes fibrosas. não oferecem as mesmas condições de proteção a um animal arborícola. Há cerca de 2 milhões de anos. Essas migrações parecem ter tido uma grande influência na evolução do homem. ao que tudo indica. em média. o contato com o frio. há cerca de 1 milhão de anos começou a espalhar-se pelo mundo. entretanto. que vieram a constituir as savanas de hoje. Não há muitos frutos nem grandes árvores onde se esconder e. Há cerca de 1. aquela região da África era habitada por inúmeros hominídeos. antigamente conhecido como Pithecantropus erectus. que tinham em comum a bipedia e uma notável diferença de talhe entre machos e fêmeas. por terem colocado essa espécie primitiva em confronto com diferentes situações ambientais. além disso. Esses animais teriam vivido na África oriental há cerca de 5 milhões de anos. O mais antigo deles parece ter sido o Australopithecus afarensis. proporcionava-lhe a liberação das mãos. que passaram a ser utilizadas em sua defesa. um grande número de esqueletos fósseis dessa espécie tem sido desenterrado na África oriental por Richard Leakey e seus colaboradores. hoje.6 milhões de anos. foi batizado com o cognome afetivo de “Lucy”. e essa espécie. Particularmente. descoberto. principalmente pertencentes ao gênero Australopithecus. Sua estatura era um pouco mais de 1 metro e seu cérebro tinha cerca de 500 centímetros cúbicos.menor porte. mais que de frutos carnosos. constituem um ambiente muito favorável aos grandes predadores. além de lhe permitir realizar longas caminhadas à procura de alimentos. o que. como os símios arborícolas. condicionou várias modificações importantes na morfologia e hábitos desses animais. Estas. descoberto há poucos anos na Etiópia. primeiramente descoberto na Ilha de Java. A partir de Lucy. Trata-se do Homo erectus. 30% maiores e 45% mais pesados. Animais com essas características constituíram a família dos hominídeos primitivos. vários representantes fósseis (nenhum sobrevivente). 2 milhões de anos. porém dotados de capacidade cerebral bem maior. A capacidade craniana do Homo erectus é de 900 centímetros cúbicos. outros tipos de hominídeos. que atualmente se estendem por grande parte do território africano. dos quais o mais antigo que se conhece foi denominado Homo habilis. com grande capacidade para trituração. em 1960. da qual são conhecidos. Eram animais com uma estrutura social semelhante à dos chimpanzés atuais e sua dentição indica uma alimentação vegetariana. como os leões e outros felinos. pois. O primeiro espécime encontrado. pelo antropólogo africano Louis Leakey. UMA NOVA “OPÇÃO” ADAPTATIVA O novo ambiente favorecia particularmente outro tipo de adaptação. sendo os primeiros. São os do gênero Homo. uma fêmea. originaram-se várias outras espécies de Australopithecus. Era a situação ideal para um símio capaz de caminhar em pé. sobretudo com o uso de artefatos que ele começou a elaborar e a empregar com habilidade crescente. começaram a aparecer.

muito semelhante ao atual. aprendeu a viver em cavernas. denominada Homo neandertalensis). Finalmente. contemporâneo ao anterior e provável causador da sua extinção. As relações entre essas diversas variedades de Homo erectus. deve ter exercido forte pressão no sentido de uma hominização mais rápida.ocorreram durante o último milhão de anos. tendo como característica singular uma grande habilidade manual e artística. há cerca de 220 mil anos. porém. estão longe de ser bem conhecidas. deixou seus primeiros traços nas cavernas dos Pirineus e outras regiões da Europa e da Ásia. O Homo erectus parece ter sido o primeiro hominídeo a utilizar o fogo. Dessa espécie ter-seiam originado diferentes variedades de Homo sapiens. o Homo sapiens sapiens. Migrando para regiões frias. 7 . como o neandertalense (antigamente considerado uma espécie diferente. porém mais robusto e que não deixou descendentes.

Os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais. que essas diferenças se explicam. geneticistas. antes de tudo. que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros. e. Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura. de fato. não foi ainda provada a validade da tese segundo a qual os grupos humanos diferem uns dos outros pelos 8 . que os alemães têm mais habilidade para mecânica. que os japoneses são muito trabalhadores. traiçoeiros e cruéis. Em outras palavras. se transportarmos para o Brasil. finalmente. reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco. se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de classe média alta de Ipanema. biólogos e outros especialistas. redigiram uma declaração da qual extraímos dois parágrafos: 10. quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista. pela história cultural de cada grupo. antropólogos físicos e culturais. pelo contrário. b) No estado atual de nossos conhecimentos. Ou ainda. que os judeus são avarentos e negociantes. 15. Os fatores que tiveram um papel preponderante na evolução do homem são a sua faculdade de aprender e a sua plasticidade. o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos. ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seus irmãos de criação. que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes. Eles nos informam. a imprevidência dos índios e a luxúria dos portugueses. que os brasileiros herdaram a preguiça dos negros. Segundo Felix Keesing.CULTURA: um conceito antropológico Roque de Barros Laraia O DETERMINISMO BIOLÓGICO São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacidades específicas inatas a “raças” ou a outros grupos humanos. Em 1950. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais inteligentes que os negros. uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja. uma das características específicas do Homo sapiens. logo após o seu nascimento. Os dados científicos de que dispomos atualmente não confirmam a teoria segundo a qual as diferenças genéticas hereditárias constituiriam um fator de importância primordial entre as causas das diferenças que se manifestam entre a s culturas e as obras das civilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Ela constitui. que os ciganos são nômades por instinto. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado”.

O DETERMINISMO GEOGRÁFICO O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. mas é falso que as diferenças de comportamento existentes entre as pessoas de sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. ganharam uma grande popularidade. Mesmos as diferenças determinadas pelo aparelho reprodutor humano determinam diferentes manifestações culturais. em seu livro Civilization and Climate (1915). Até muito pouco tempo. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e não em função de uma racionalidade biológica. entre outros. As pesquisas científicas revelam que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em todos os grupos étnicos. Kroeber. A espécie humana se diferencia anatômica e fisiologicamente através do dimorfismo sexual. mas em decorrência de uma educação diferenciada. como vimos anteriormente. e não a mulher. É ele que se recolhe à rede. Carregar cerca de vinte litros de água sobre a cabeça implica.traços psicologicamente inatos. Margareth Mead (1971) mostra que até a amamentação pode ser transferida a um marido moderno por meio da mamadeira. refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. que foram desenvolvidas principalmente por geógrafos no século XIX e no início do século XX. um esforço físico considerável. E mais: que é possível e comum 9 . Ibn Khaldun. de um processo que chamamos de endoculturação. e faz o resguardo considerado importante para a sua saúde e à do recém-nascido. entre outros exemplos. considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso. eram exclusivamente masculinos. no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização. Um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios. a carreira diplomática e o quadro de funcionários do Banco do Brasil. Wissler. Bodin e outros. mesmo depois da maciça admissão de mulheres soldados. o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado. Estas teorias. na verdade. A Antropologia tem demonstrado que muitas atividades atribuídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas aos homens em outra. antropólogos como Boas. O transporte de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu (como nas favelas cariocas). E os índios Tupis mostram que o marido pode ser o protagonista mais importante do parto. do tipo das formuladas por Pollio. O exército de Israel demonstrou que a sua eficiência bélica continua intacta. quer se trate de inteligência ou temperamento. A partir de 1920. São explicações existentes desde a Antiguidade. arma de uso exclusivo dos homens. muito maior do que o necessário para o manejo de um arco. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington. Resumindo.

enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos. Ambos habitam a calota polar norte. Tomemos. na agricultura irrigada e na urbanização (Pertti Pelto. (Cliford Geertz. que encontrassem as mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. desvencilhar-se das pesadas roupas. por sua vez. O espírito criador do homem pode assim envolver três alternativas culturais bem diferentes – apanha víveres. necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo desmonte. pois. os Navajo são hoje mais pastoreadores. 22). Os grupos Pueblo são aldeões. Kalapalo. Em compensação. Quando deseja. ocupam essencialmente o mesmo habitat. Quando desejam mudar os seus acampamentos. os lapões e os esquimós. caracterizados por um longo e rigoroso inverno. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. transcrito de Felix Keesing. obtendo ovinos dos europeus. Mas. como primeiro exemplo. dentro dos limites do Parque Nacional Xingu. os primeiros no norte da Europa e os segundos no norte da América. pastoreio – no mesmo ambiente natural. Posteriormente. Trumai. sementes de capins e de caça. etc) desprezam toda a reserva de proteínas 10 . em ambientes geográficos muito semelhantes. é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: Os índios Pueblo e Navajo. Era de se esperar. do sudoeste americano. p. Os Navajo são descendentes de apanhadores de víveres. 33). A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores. p. pela secagem das mesmas e o seu transporte para o novo sítio. então. os lapões são excelentes criadores de renas. com uma economia agrícola baseada principalmente no milho. colonizadores americanos tiveram que criar outros sistemas de vida baseados na pecuária. de sorte que não foram fatores de habitat que proporcionaram a determinante principal. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá. que se alimentavam de castanhas selvagens. sendo que alguns índios Pueblo até vivem hoje em “bolsões” dentro da reserva Navajo. Waurá. vivem em tendas de peles de rena. O terceiro exemplo pode ser encontrado no interior de nosso país. É possível. pela retirada de gelo que se acumulou sobre as peles. no mesmo habitat. enquanto no exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado. Por dentro a cãs é forrada com peles de animais e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. Um segundo exemplo. 1978. Os lapões. vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos de famílias. Mas isto não ocorre: Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. o esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro. portanto. Vivem. mais ou menos como os Apache e outros grupos vizinhos têm feito até os tempos modernos. cultivo.existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. 1967.

e se dedicam mais intensamente à pesca e caça de aves. O conceito de Cultura. enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. não podem ser explicadas em termos de limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. transmitida por mecanismos biológicos. Com esta definição. sem guelras ou membranas próprias. o que é cultura? ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA No final do século XVII e no princípio do seguinte. dominou os ares. Locke refutou fortemente as idéias correntes da época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana. são excelentes caçadores e pretendem justamente os mamíferos de grande porte. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. sobre o meio ambiente. com efeito. ao escrever o Ensaio acerca do entendimento humano. A posição da moderna Antropologia é que a “cultura age seletivamente”. cuja caça lhe é interditada por motivos culturais. como a anta. portanto. crenças. o veado. ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade. examinar por toda parte as várias 11 . costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos. Estes três exemplos mostram que não é possível admitir a idéia do determinismo geográfico. a admissão da “ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. Sem asas. que habitam o Norte do Parque. moral. pelo menos como utilizado atualmente. dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. foi. portanto. o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. etc.existentes nos grandes mamíferos. leis. e não casualmente. Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que. ou seja. em 1690. provido de insignificante força física. procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil. Mas. A idéia de cultura. Os Kayabi. par o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura”. definido pela primeira vez por Tylor. “explorando determinadas possibilidades e limites de desenvolvimento. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture. a caititu. além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata. conquistou os mares. As diferenças existentes entre os homens. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura. através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. arte.

seguiu os passos de Locke e de Turgot ao atribuir um grande papel à educação. gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas. Tanto é que. como o leitor constatará no decorrer deste trabalho. Em outras palavras. com referência a John Locke. Tylor definiu cultura como sendo todo comportamento aprendido. como diríamos hoje. então. Em 1871. tudo aquilo que independe de uma transmissão genética. chegando mesmo ao exagero de acreditar que este processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé.. menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedades de homens. governadas por opiniões práticas e regras de conduta bem contrárias umas às outras” (Livro I. Meio século depois. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). por Bronislaw Malinowski e Leslie White. Jacques Turgot (1727-1781). Em 1917. II. hoje clássico. Finalmente. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que.tribos de homens e com indiferença observar as suas ações. em 1775. um processo iniciado por Lineu. escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura”. em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens. parágrafo 10). ou regra de virtude para ser considerada. mais de um século depois. que consistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal 12 . Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico. “O Superorgânico”. que não seja em alguma parte ou outra. Mas. Esta definição é equivalente às que foram formuladas. Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”. ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre a história universal. será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade para serem designados. era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo. em1973. Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocábulo). as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. afirmou: Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente. Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor. Completava-se. o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica. o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas. em 1950. cap.. na verdade. comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. gorila e orangotango) e os homens. uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento”. (O grifo é nosso).

foi destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito. a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos. No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber. construído a partir de uma visão da natureza humana. foi capaz de assim proceder. Esta. combinada com a capacidade de utilização das mãos. e que não deixa de nos conduzir a uma outra pergunta: mas como e por que o cérebro do primata foi modificado. Não resta dúvida de que se trata de uma resposta insatisfatória. principalmente os superiores. A reconstrução deste momento conceitual. pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura em relação à natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica. Em outras palavras. onde o faro perdeu muito de sua importância. estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. produziu cultura a partir do momento em que seu cérebro. com um odor tautológico. ou melhor. abriu para os primatas. a ponto de atingir a dimensão e a complexidade que permitiriam o aparecimento do homem? Segundo diversos autores. entre eles Richard Leackey e Roger Lewin. seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração. capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Esta vida arborícola. tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem. foi responsável pela eclosão de uma visão estereoscópica. Mas. O segundo passo deste processo. modificado pelo processo evolutivo dos primatas. A forma e a cor podem ser correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a 13 . em 1950. Os fundadores de nossa ciência. o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade. o cultural e o natural. o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus remotos antepassados. iniciado por Tylor e completado por Kroeber. entretanto. a nossa espécie tinha conseguido. é uma das tarefas primordiais da Antropologia moderna. IDÉIA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA Uma das primeiras preocupações dos estudiosos com relação à cultura refere-se a sua origem. através dessa explicação. um mundo tridimensional. como o homem adquiriu este processo extra-somático que o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privilegiado na vida terrestre? Uma resposta simplificada da questão seria a de que o homem adquiriu. estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Em suma. elaborada no período iluminista. representou o afastamento crescente dos dois domínios. no decorrer de sua evolução.sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natureza. Neste trabalho. O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor dias notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos. inexistente para qualquer outro mamífero.

a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento.. fornecendo uma nova percepção. esta seria a proibição do incesto. A cultura seria. como afirmou o próprio White.tradicional forma de investigação dos mamíferos: o olfato). O comportamento humano é o comportamento simbólico. A seguir considera que o bipedismo foi.. considera que a cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra. Todas elas proíbem a relação sexual de um homem com certas categorias de mulheres (entre nós. Algumas delas tendem implícita ou explicitamente a 14 . Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura.. Leslie White. Kenneth P. Explicações de natureza física e social. Com efeito. Foi o símbolo que transformou nossos ancestrais antropóides em homens e fê-los humanos. David Pilbeam refere-se ao bipedismo como uma característica exclusiva dos primatas entre todos os mamíferos. Oakley destaca a importância da habilidade manual. e o meio de participação nele. é oportuno tomar conhecimento do pensamento de dois importantes antropólogos sociais contemporâneos a respeito do momento em que o primata transforma-se em homem. então. Toda cultura depende de símbolos. Sem o símbolo não haveria cultura. padrão de comportamento comum a toas as sociedades humanas. pois do contrário não podem penetrar em nossa experiência. Deixando de lado as explicações da paleontologia humana. “Quase todos os primatas vivos se comportam como bípedes de vez em quando”. provavelmente. a primeira norma. sacudido ao vento. para utilizar armas (cacete ou lança) e para aumentar a visibilidade”. “todos os símbolos devem ter uma forma física. para transportar objetos (alimentos ou filhotes). por exemplo. ao proporcionar maiores estímulos ao cérebro. o resultado de todo um conjunto de pressões seletivas: “para o animal parecer maior e mais intimidante. para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. com o conseqüente desenvolvimento da inteligência humana. E a chave deste mundo. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. Uma criança do gênero Homo torna-se humana somente é introduzida e participa da ordem de fenômenos superorgânico que é a cultura. Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. é o símbolo. É o exercício da capacidade de simbolização que cria a cultua e o uso de símbolos que torna possível a sua perpetuação. a filha e a irmã). considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. antropólogo norte-americano contemporâneo. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano. mas seu significado não pode ser percebido pelos sentidos”.. possibilitada pela posição erecta. a mãe. Todas as civilizações se espalharam e perpetuaram somente pelo uso de símbolos. e o homem seria apenas animal. não um ser humano. afirma ele. o mais destacado antropólogo francês. Ou seja. Como. e uma bandeira desfraldada. temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de uma cultura. Para Lévi-Strauss. Isto porque. Claude Lévi-Strauss.

Tal postura implica a aceitação de um ponto crítico. ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. já manufaturava objetos e caçava pequenos animais. Assim. antropólogo norte-americano. caça esporádica. O fato de que o cérebro do Australopiteco media 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que “logicamente a maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e não anterior ao início da cultura”. o produto da cultura”. num dado momento. mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos. o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. a explanação acima não é muito diferente da formulada por alguns pensadores católicos. mais do que um evento maravilhoso. compreendida como uma das características da espécie. O Australopiteco parece ser. ensinar e de fazer generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e objetivos isolados”. O Australopiteco Africano (cujas datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem-lhe uma antiguidade muito maior que 2 milhões de anos). um ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tornou-se capaz de “exprimir-se. preocupados com a conciliação entre a doutrina e a ciência. Em essência. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. segundo a qual o homem adquiriu cultura no momento em que recebeu do Criador uma alma imortal. de cultura. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. na moderna acepção da palavra. uma espécie de homem que evidentemente era capaz de adquirir alguns elementos da cultura – fabricação de instrumentos simples. um salto quantitativo na filogenia dos primatas: em um dado momento. 15 . portanto.20m. embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nosso e uma estatura não superior a 1. porém incapaz de adquirir outros. e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos. como ironizou um antropólogo físico. O ponto crítico. embora mais atrasado do que a fala humana -. E esta somente foi atribuída ao primata no momento em que a Divindade considerou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente o suficiente para tornar-se digno de uma alma e. A cultura desenvolveu-se. Devido à dimensão do seu cérebro parece. improvável que possuísse uma linguagem. num sentido especificamente biológico. O conhecimento científico atual está convencido de que o salto da natureza para a cultura foi contínuo e incrivelmente lento. mas também. entretanto. O primata. Clifford Geertz. consequentemente. não foi promovido da noite para o dia ao posto de homem. assim. expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ao conceber a eclosão da cultura como um acontecimento súbito. por isso mesmo.admitir que a cultura apareceu de repente. é hoje considerado uma impossibilidade científica: a natureza não age por saltos. aprender. pois. continua: “O fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desenvolvimento cultural já vinha se processando bem antes de cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fundamental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do homem que se torna. não apenas o produtor da cultura.

esta posição foi reformulada criativamente por Sahlins.” Em segundo lugar. fragmentado por numerosas reformulações. e assim por diante. entretanto. como Steward. a análise dos modelos construídos pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo. É neste domínio que usualmente começam as mudanças adaptativas que depois se ramificam. Existem. Roger Keesing. cultura é um sistema de conhecimento: “consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”. Harris. inicialmente. crenças e práticas religiosas. concordam que: 1 “Culturas são sistemas (de padrões de comportamento socialmente transmitidos) que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos. Assim. A nossa missão será facilitada com a utilização do esquema elaborado pelo antropólogo Roger Keesing em seu artigo “Theories of Culture”. Embora ele consiga esta adaptação através da cultura. o processo é dirigido pelas mesmas regras de seleção natural que governam a adaptação biológica. 4 “Os componentes ideológicos dos sistemas culturais podem ter conseqüências adaptativas no controle da população. produto dos chamados “novos etnógrafos”. Carneiro. que uma das tarefas da antropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito de cultura. etc. 3 “A tecnologia. Esta abordagem antropológica tem se distinguido pelo estudo dos sistemas de classificação folk. apesar das fortes divergências que apresentam entre si. como todos os animais.” 2 “Mudança cultural é primariamente um processo de adaptação equivalente à seleção natural” (“O homem é um animal e. a economia de subsistência e os elementos da organização social diretamente ligada à produção constituem o domínio mais adaptativo da cultura. Goodenough. B. 1977). Rappaport. Neste capítulo. deve manter uma relação adaptativa com o meio circundante para sobreviver. no início deste trabalho. no qual classifica as tentativas modernas de obter uma precisão conceitual. Difundida por neo-evolucionistas como Leslie White. Keesing refere-se. Meggers. A primeira delas é a dos que consideram cultura como sistema cognitivo. procuraremos sintetizar os principais esforços para a obtenção deste objetivo. Vayda e outros que. para W. que subdivide em três diferentes abordagens. da manutenção do ecossistema. Esse modo de vida das comunidades inclui tecnologias e modos de organização econômica. refere-se às teorias idealistas de cultura. na dialética social dos marxistas. padrões de estabelecimento. às teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo. desenvolvido por Marvin Harris. de agrupamento social e organização política. Keesing comenta que se a cultura for assim concebida ela fica 16 .TEORIAS MODERNAS SOBRE A CULTURA Vimos. da subsistência. isto é. Estas divergências podem ser notadas nas posições do materialismo cultural. no evolucionismo cultural de Elman Service e entre os ecologistas culturais. divergências sobre como opera este processo.

é a que considera cultura como sistemas simbólicos. Geertz considera que a Antropologia busca interpretações. O primeiro deles busca uma definição de homem baseada na definição de cultura. os paralelismos culturais são por ele explicados pelo fato de que o pensamento humano está submetido a regras inconscientes. Assim procedendo. a seu modo. a análise componencial. E. Voltando a Keesing. Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações. Lévi-Strauss. por exemplo. Assim. mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Esta amplitude de possibilidades. ou seja. ou seja. todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa. perto da qual as demais eram distorções ou aproximações. mas não dentro deles. os símbolos e significados são partilhados pelos atores (os membros do sistema cultural) entre eles. a criança está apta ao nascer a ser socializada em qualquer cultura existente. “que define cultura como um sistema simbólico que é uma criação acumulativa da mente humana. Esta posição foi desenvolvida nos Estados Unidos principalmente por dois antropólogos: o já conhecido Clifford Geertz e David Schneider. decorrente do iluminismo e da Antropologia clássica. entre as teorias idealistas. a perspectiva desenvolvida por Lévi-Strauss. de relações e transformações – que controlam as manifestações empíricas de um dado grupo. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito. receitas. Estudar a cultura é. formula uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade. portanto. e este programa é o que chamamos cultura. mas terminamos no fim tendo vivido uma só!” Em outras palavras. instruções (que os técnicos de computadores chamam programa) para governar o comportamento”. será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer. para Geertz. Daí o fato de que a Antropologia cognitiva (a praticada pelos “novos etnógrafos”) Tem se apropriado dos métodos lingüísticos. São públicos e não privados. a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle. Keesing é muito sucinto na análise dessa abordagem. A segunda abordagem é aquela que considera cultura como sistemas estruturais. entretanto. Para isto. E esta formulação – que consideramos uma nova maneira de encarar a unidade da espécie – permitiu a Geertz afirmar que “um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas. e tente resolver o paradoxo (citado no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que contrasta com a unidade da espécie humana. Com isto. arte. planos. estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. este nos mostra que Geertz considera a abordagem dos novos etnógrafos como um formalismo reducionista e espúrio. Para isto. um conjunto de princípios . Assim. A última das três abordagens. como. que em um dado momento teve uma grande aceitação no meio acadêmico brasileiro. refuta a idéia de uma forma ideal de homem. para Geertz. ele abandona o otimismo de Goodenough que pretende 17 . parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais”. como um evento observável. regras.situada epistemologicamente no mesmo domínio da linguagem.tais como a lógica de contrastes binários. porque aceitar simplesmente os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que os significados estão na cabeça das pessoas.

e provavelmente nunca terminará. constituído de formas vegetais bem definidas. O ponto de vista de Schneider sobre a cultura está claramente expresso na introdução do seu livro American Kinship: A Cultural Account: “Cultura é um sistema de símbolos e significados. Por exemplo. o homossexual era visto como um ser dotado de propriedades mágicas. Neste ponto. sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Assim. o homossexual corria o risco de agressões físicas quando era identificado numa via pública e ainda hoje é objeto de termos depreciativos. ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento”. discriminamos o comportamento desviante. respeitado. A visão que um índio Tupi tem deste mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem um significado qualitativo e uma referência espacial. David Schneider tem uma abordagem distinta. A interpretação de um texto cultural será sempre uma tarefa difícil e vagarosa. Compreende categorias ou unidades e regras sobre relações de modos de comportamento. a floresta amazônica não passa para o antropólogo – desprovido de um razoável conhecimento de botânica – de um amontoado confuso de árvores e arbustos. tema perene da incansável reflexão humana. Assim. e era. Esta atitude varia em outras culturas. Tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. portanto. Até recentemente. Um outro exemplo de atitude diferente de comportamento desviante encontramos entre alguns povos da Antiguidade. no final desta primeira parte. têm visões desencontradas das coisas. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e. O status epistemológico das unidades ou ‘coisas’ culturais não depende da sua observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem ser categorias culturais”. capaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrenatural. portanto. ou a pretensão de Lévi-Strauss em decodificá-lo. a floresta é vista como um conjunto ordenado. onde a prostituição não constituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam 18 . pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. Entre algumas tribos das planícies norte-americanas. por exemplo. embora em muitos pontos semelhante à de Geertz. dos mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de tonalidades verdes. Por isso. eles freqüentemente usam determinadas árvores como ponto de referência. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. Ao invés de dizer como nós: “encontro-lhe na esquina junto ao edifício X”. desenvolvida através de inúmeras gerações. A nossa herança cultural. o leitor já deverá ter compreendido que a discussão não terminou – continua ainda -.captar o código cultural em uma gramática.

Todos os homens riem. Voltando aos japoneses: riem muitas vezes por uma questão de etiqueta. Não é difícil imaginar que a posição das crianças brasileiras. apesar de toda a sua fisiologia. o riso. as diferenças percebidas pelos estudantes. Enfim. assemelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamos acostumados a ver. A emissão sonora. são variações de um mesmo padrão cultural. Como exemplos dessas diferenças culturais em atos que podem ser classificados como naturais. mesmo em momentos evidentemente desagradáveis. assim. Por isso é que acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesma maneira. Os alunos de nossa sala de aula. podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características. ou seja. Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são. sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas. Rir é uma propriedade do homem e dos primatas superiores. no qual analisa as formas como os homens. estão convencidos de que cada um deles tem um modo particular de rir. A partir do que foi dito acima. Na verdade. comer. quando não está comendo. Temos certeza que os japoneses também estão convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduo dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de um modo igual. produtos de uma herança cultural. Tal fato se explica porque cada cultura tem um determinado padrão para este fim. e não pelo observador de fora. Ainda com referência às diferentes maneiras culturais de efetuar ações fisiológicas. vestir. que ela é inglesa. O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica italiana. tais como o modo de agir. O riso exprime quase sempre um estado de alegria. Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cultura. podemos admitir com certeza que se “uma criança senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e permanece com as mãos nos joelhos. Segundo Mauss. o fato de mais imediata observação empírica. através da contração de determinados músculos da face e da emissão de um determinado tipo de som vocal. primariamente. porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. caminhar. Tomemos. por exemplo. mas um observador estranho a nossa cultura comentará que todos eles riem da mesma forma. mas o fazem de maneira diferente por motivos diversos. O modo de ver o mundo. de sociedades diferentes. sabem servir-se de seus corpos. profundamente alta. o resultado da operação de uma determinada cultura. gostaríamos de citar o clássico artigo de Marcel Mauss (1872-1950) “Noção de técnica corporal”. O riso se expressa.relações sexuais em troca de moedas de ouro. A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi um motivo de susto. poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente condicionado pelos padrões culturais. pode ser bem diversa. por exemplo. Mauss cita ainda as técnicas de nascimento e da 19 . Um jovem francês não sabe mais se dominar: ele abre os cotovelos em leque e apóia-os sobre a mesa”. as apreciações de ordem moral e valorativa. a fim de acumular um dote para o casamento. nessa mesma situação.

a posição normal é a mãe deitada sobre as costas. e somente iniciar a alimentação. em outras uma atividade privada. Resumindo. Não pretendemos nos estender nesse ponto porque os exemplos seriam inumeráveis. como sinal de agrado da mesma. Ela deu à luz em pé. etc. esta diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Segundo ele. As mulheres sentam. o ato de comer é um verdadeiro rito social. após a prece. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas diferentes. Dentro de uma mesma cultura. Nas várias culturas. mas também pela maneira como agem à mesa. Em algumas sociedades o ato de comer pode ser público. em alguns casos. todos os homens são dotados de um mesmo equipamento anatômico. pelos travestis. de maneiras diferentes das dos homens. “Buda nasceu estando sua mãe. entretanto. a utilização do corpo é diferenciada em função do sexo. Para nós. Como utilizamos garfos. a sua força de trabalho. Entre estas técnicas pode-se incluir o chamado parto sem dor e. provavelmente. a um ramo de árvore. entre os ocidentais. segundo o qual. Mãya. com o chefe na cabeceira. esta é realizada de formas múltiplas e com alimentos diferentes. Entre os latinos. a família deve toda se sentar à mesa. mas a utilização do mesmo. agarrada. Em algumas regiões do meio rural existem cadeiras especiais para o parto sentado. 20 .obstetrícia. no início do século. assim. depende de um aprendizado e este consiste na cópia de padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. É evidente e amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. no mínimo. como indicador de má educação. caminham. Alguns rituais de boas maneiras exigem um forte arroto. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. seria considerado. surpreendemos-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos da nossa sociedade: Vida de Pará Vida de descanso Comer de arremesso E dormir de balanço. Freqüentemente. Boa parte das mulheres da Índia ainda dá à luz desse modo”. Tal fato. Estas posturas femininas são copiadas. muitas outras modalidades culturais que estão à espera de um cadastramento etnográfico. ao invés de ser determinada geneticamente (todas as formigas de uma dada espécie usam os seus membros uniformemente). através da alimentação. em horas determinadas. gesticulam. reta. e entre os Tupis e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. após a refeição. mas vamos acrescentar mais um exemplo: o homem recupera a sua energia. entre nós. mas resta uma dúvida lingüística desde que em Tupi ela soa muito próximo da palavra que significa “comedores de fezes”. Os índios Kaapor discriminam os Timbira chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”.

Os Cheyene. da mesma forma que os Navajo se intitulavam “o povo”. A relação de parentesco consangüíneo afim pode ser tomada como exemplo. começa com uma parábola que aconteceu ser verdadeira: “Uma jovem da Bulgária ofereceu um jantar para os estudantes americanos. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia. a divisão ocorre sob a forma de parentes e não-parentes. a maneira de neutralizar os inconvenientes da afinidade consistia em transformar a noiva em consangüínea. As autodenominações de diferentes grupos refletem este ponto de vista. acrescenta Keesing. denominada de etnocentrismo. O homem tem despendido grande parte da sua história na Terra. O estudante asiático aceitou um segundo prato. são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. e entre eles foi convidado um jovem asiático. é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. e. convencido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela recusa de comida que lhe era oferecida. de fato. Entre os romanos. Dentro de uma mesma sociedade. se autodenominavam “os entes humanos”. O etnocentrismo. Finalmente. O costume de discriminar os que são diferentes. grupo Tupi do Sul do Pará. pode ser encontrado no interior de uma mesma sociedade. cada um com sua própria linguagem. pois uma anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem famintos estaria desgraçada. em relação aos estrangeiros. é um fenômeno universal. sua visão de mundo. e um terceiro – enquanto a anfitriã ansiosamente preparava mais comida na cozinha. Após os convidados terem terminado os seus pratos. A projeção desta dicotomia para o plano extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou formas extremadas de xenofobia. reflete a condição humana. freqüentemente. separado em pequenos grupos. porque pertencem a outro grupo. Os primeiros são melhores por definição e recebem um tratamento diferenciado. ou pelo menos a estranheza. os Akuáwa. seus costumes e expectativas. incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carrega-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por Hollywood). colegas de seu marido. a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir. índios das planícies norte-americanas. consideravam-se “os homens”. A dicotomia “nós e os outros” expressa em níveis diferentes essa tendência. Daí a reação. Tais crenças contêm o germe do racismo e da intolerância. a fim de purifica-los e torna-los inofensivos. A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um véu alto que esconde os “chifres” que representam a discórdia a ser implantada na família do noivo com 21 . Tal tendência. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade. O ponto fundamental de referência não é a humanidade. conforme o costume de seu país”. mas o grupo. ou mesmo sua única expressão. A chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural. Esta parábola. pois não acreditavam que estes (os ingleses) fossem parte da humanidade. e os nossos Xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo. em seu manual News Perspectives in Cultural Antropology.Roger Keesing. no meio do seu quarto prato o estudante caiu ao solo. Os australianos chamavam as roupas dos ingleses de “peles de fantasmas”. os esquimós também se denominavam “os homens”. O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar seu modo de vida como o mais correto e o mais natural.

A vítima. A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOLÓGICO Vimos acima que a cultura interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. O jovem índio deitou em uma rede e dois dias depois estava morto. o plasma sanguíneo escapa para os tecidos e o coração deteriora. Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo. o que é fisiologicamente a mesma coisa 22 . que foi considerado muito eficaz.o início da relação afim. fomos procurados por uma mulher. deprimentes e imorais. Em lugar da superestima dos valores da sua própria sociedade. Veremos agora como ela pode condicionar aspectos biológicos e até mesmo decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença na mesma e. costumes e línguas diferentes. Ela morre de choque. neste e em outros casos. Em 1967. em estado de pânico. de seu ecossistema e de seu contexto cultural) e transportados como escravos para uma terra estranha. acaba realmente morrendo. acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo morrerá. Foi. que teria visto um fantasma (um “anan”). e mesmo os seus seres sobrenaturais. Diante de uma situação crítica. O principal protagonista de um filme. perdiam toda a motivação de continuar vivos. Entre os índios Kaapor. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mortes causadas por feitiçaria. durante a nossa permanência entre esses índios (quando a história acima nos foi contada). Os africanos removidos violentamente de seu continente (ou seja. Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. que é a apatia. também. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como sendo conseqüência de um profundo choque psicofisiológico: “A vítima perde o apetite e a sede. Muitos abandonaram a tribo. Muitos foram os suicídios praticados. habitada por pessoas de fenotipia. e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. estes índios perderam a crença em sua sociedade. grupo Tupi do Maranhão. Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos. acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas. ao regressar de uma caçada contou ter visto a alma do seu falecido pai perambulando pela floresta. a pressão sanguínea cai. conseqüentemente. a apatia que dizimou parte da população Kaingang de são Paulo. para neutralizar o malefício provocado pela visão de um morto. o banzo é de fato uma forma de morte decorrente da apatia. praticadas contra os estranhos que se arriscam em determinados bairros periféricos de nossas grandes cidades. perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. nos solicitou um “anan-puhan” (remédio para fantasma). realizado em 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann. Confiante nos poderes do branco. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas. quando teve o seu território invadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. e até físicas. outros simplesmente esperavam pela morte que não tardou. Traduzido como saudade. acreditando efetivamente no poder do mágico e de sua magia. eram impotentes diante do poder da sociedade branca. Diversos exemplos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história. Um outro exemplo são as agressões verbais.

o pajé recebeu o espírito. A mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Guardavam-nos por 23 . os pajés jamais mostraram o ymaé que extraíam dos doentes. A descrição da cura dará. em alguns casos. estamos condicionados a sentir fome no meio do dia. Quem acredita que o leite e a manga constituem uma combinação perigosa. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente esses alimentos. que fez desaparecer na mão. reais ou imaginárias. etc. Nas curas a que assistimos. além da defumação do paciente com a fumaça de seus grandes charutos (petin). Aproximando-se do doente que estava sentado em um banco. Muitos brasileiros. levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. quem não almoça assobia”. Após muitas massagens no doente. e em muitos casos a cura se efetiva. insetos mortos. A sensação de fome depende dos horários de alimentação que são estabelecidos diferentemente em cada cultura. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. esfregou-lhe o peito e o pescoço. Estas são fortemente influenciadas pelos padrões culturais. diz um ditado popular. estes horários foram estabelecidos diferentemente e. Finalmente.que choque de ferimento na guerra e nas mortes de acidente na estrada”. e o pajé esfregava as mãos como se tivesse juntado qualquer coisa. Repetiu as massagens e sucções. primeiro sobre as próprias mãos e. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença. desde o início do ritual. Um desses agentes é o xamã de nossas sociedades tribais (entre os Tupi. dessa vez dirigidas para o ombro. intercalando-as com baforadas de cigarro e contrações como se fosse vomitar. talvez. entretanto. Ajoelhando-se junto a ele. Basicamente. como se quisesse livrá-las de uma substância invisível. É de se supor que em todos os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao desenlace tenha sido o mesmo. sobre o corpo do paciente. O fato de que esse pequeno objeto (pedaço de osso. Em muitas sociedades humanas. em seguida. e a posterior retirada de um objeto estranho do interior do corpo do doente por meio de sucção. O que importa é que o doente é tomado de uma sensação de alívio. E de fato. Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre a atuação da cultura sobre o biológico. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá-las uma na outra. dizem padecer de doenças do fígado.) tenha sido ocultado dentro de sua boca. aquilo que um ser sobrenatural faz ao entrar no corpo da vítima) do doente para o seu próprio corpo. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. “Meio-dia. Estas curas ocorrem quando existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder dos agentes culturais. podemos agora nos referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: o das doenças psicossomáticas. a técnica da cura do xamã consiste em uma sessão de cantos e danças. dançar e puxar no cigarro. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens. o indivíduo pode passar um grande número de horas sem se alimentar e sem sentir a sensação de fome. não é importante. o pajé soprou fumaça. por maior que tenha sido o nosso desjejum. embora grande parte dos mesmos ignore até a localização do órgão. conseguiu extrair e vomitar o Ymaé. Após cerca de uma hora de cantar. por exemplo. conhecidos pelo nome de pai’é ou pajé). uma idéia mais detalhada do processo.

. “Nós fazemos aquilo. e algumas pessoas guardam pequenos objetos que acreditam terem sido retirados de seu corpo por um pajé.algum tempo dentro da mão. E. pelo menos em parte. c) A limitação dos recursos econômicos exclui a possibilidade de existência de uma diferença substancial entre o nível material de vida daqueles que governam e dos que são governados. “uma tribo”.. geralmente. as restrições 24 . tem a sensação de se encontrar no centro de um universo privado.”. qualquer que seja a sua identidade cultural. ao mesmo tempo. Explicavam. da convicção que daí deriva de que “nós somos todos parentes”. Num sentido que não é precisamente determinado. a população em causa é. para fazê-lo desaparecer após.”. inferior a quinhentas pessoas e raramente vai além de alguns milhares.. como por vezes se supõe. em detrimento da escrita ou de outros meios de expressão não-verbal.. A generalidade do etnocentrismo Assim definido. Nas sociedades com uma diferente tradição cultural. “uma comunidade aldeã”. o que parecia bastante. o etnocentrismo é uma característica humana universal e não.. o indivíduo está mais facilmente disposto a identificar-se com os membros do seu grupo: “Nós fazemos isto. Dizem que os pajés mais poderosos o fazem. 2. ETNOCENTRISMOS (EDMUND LEACH) 1. Os traços distintivos comuns a esses micro-sistemas políticos incluem as seguintes características: a) Os membros individuais da sociedade acreditam partilhar uma história comum e uma origem biológica comum. apenas uma peculiaridade do recente imperialismo capitalista. à audiência a sua natureza. a grande maioria das comunidades que funcionaram como coletividades políticas corporativas era de dimensões extremamente reduzidas.. Ao longo de toda a história humana e até muito recentemente.”... eles afirmam-se descendentes de um antepassado comum. Na parte do mundo ocidental contemporâneo que é dominada pela ética do individualismo competitivo. O nosso interesse incidirá nas representações simbólicas de tais etnocentrismos e nas suas conseqüências no comportamento cultural aos mais diversos níveis. O seu sentido de solidariedade depende. b) A comunicação de pessoa para pessoa é feita de modo direto através da oralidade. “Eu faço aquilo. Quando os antropólogos se referem a “um bando de caçadores”. Introdução: o conceito de etnocentrismo Todo ser humano. Face aos objetivos do presente artigo. porém. livre do cigarro. etnocentrismo será entendido como referência a todo o âmbito de extensão do egocentrismo em que o “nós” tende a substituir o “eu” como centro de identificação.”. tal egocentrismo é assinalado pelo uso extremamente freqüente de expressões na primeira pessoa do singular: “Eu faço isto.

] Se “nós” estamos no centro do universo. a desprezar as capacidades intelectuais dos seus vizinhos negros. Nas nossas atitudes em relação a eles misturam-se o medo e o ódio. como animais. nós não somos “os outros”. mas também a inveja. Isso acontece em todas as sociedades humanas. diferentes de nós. seja na África do sul ou nos Estados Unidos. freqüentemente. Eles não são homens verdadeiramente”. Nos clássicos casos de racismo do mundo moderno. 2) maneiras diferentes de vestir e pentear. como deuses. 25 . se outros grupos tribais são por nós reconhecidos. Grupos de pessoas que vivem em contato umas com as outras. desencadeiam uma hostilidade etnocêntrica mútua que.econômicas impõem limites aos modos pelos quais as distinções “nós”/”eles” implícitas na hierarquia social e o etnocentrismo se podem manifestar. [ESTE É O MODELO NO QUAL SE BASEIA O COMPORTAMENTO ETNOCÊNTRICO]. Uma multiplicidade de sinais pode servir como característica distintiva para esse fim: 1) diferenças raciais evidentes. a conotação “homens’. está em posição de explorar os “outros” não-brancos. por vezes. etc. de certo modo “outra coisa” em relação ao humano. são “pessoas como nós”. em estreita interdependência econômica. a que olhemos “os outros” com desprezo e. politicamente dominante. logo “os outros” que se encontram em contraste conosco são. ambas as partes se comportam como se os outros se excluíssem da categoria de “seres humanos”. 5) língua e dialeto. Em Israel. ao mesmo tempo. não só porque tem costumes diferentes. Reconhecemos quem são os “nós” com base em critérios negativos. mas porque são de uma espécie diferente. [Em várias sociedades tribais]. inferiores. Na Irlanda do Norte o modelo é o mesmo. católicos e protestantes comportam-se uns com os outros como se cada grupo seguisse o princípio segundo o qual só “nós” é que somos humanos. o etnocentrismo leva os membros da cultura branca. 4) estilo de vida em geral. a todo e qualquer nível de identificação. “nós” estamos em condições de reconhecer a nossa existência como grupo agregado através da percepção de um contraste. Ambas as partes tratam os “outros” não só como inimigos que. freqüentemente. eles são. O traço essencial de tais sistemas reside em que. com temor. com base em dogmas religiosos ou de outro gênero de preconceitos. como noutros lados. [Podemos até classificar os outros fora da categoria de humanos. contrair matrimônio entre si. [Casos freqüentes de etnocentrismo podem ser observados entre grupos de diferentes filiações religiosas]. O fenômeno é geral. conduz à violência de tipo mais brutal e irracional. contudo. a tradicional hostilidade entre judeus e cristãos foi agora transformada numa nova hostilidade entre judeus e muçulmanos. enquanto “eles” não passam de animais daninhos. apesar de tudo. Isso leva. com o andar dos tempos. a atribuir-lhes uma potência sexual verdadeiramente excepcional! Esse tipo de comportamento não é exclusivo das modernas sociedades industriais ou coloniais e pós-coloniais. 3) práticas religiosas. econômica e politicamente dominante. mas. mas que recusam. como a cor da pele e o tipo de cabelo. e somos os únicos verdadeiros seres humanos. em que o setor b4anco da comunidade. “Nós” e “os outros” formamos grupos opostos entre si. como bárbaros. mas como animais selvagens a exterminar sem hesitações. o nome que as pessoas dão a si próprias tem.

um processo que implica a imposição total dos valores europeus e americanos aos seus cristãos conversos. não é só a de converter os pagãos ao cristianismo. O etnocentrismo dos missionários continua a ser explícito. especialmente os da ala evangélica do movimento. Etnocentrismo. Conclusão: divisões sociais “reais” e “imaginárias”. mas as mais poderosas imagens etnocêntricas são aquelas que aliam a solidariedade do “nós” étnico às paixões do “eu” etnocêntrico. Os conquistadores massacraram e escravizaram indiscriminadamente os habitantes locais. mas o tipo de etnocentrismo que realmente conta e que culmina na guerra santa. desde que existam instrumentos especiais de propaganda. de alguma forma. os missionários cristãos eram um braço da administração e eram sempre encarados como uma força civilizadora e era-lhes dado todo o tipo de encorajamento. a fim de preservar a pureza e a integridade do “nosso grupo”. tem defendido rigorosamente a posição de se encarar a cultura indígena em todas as suas manifestações como uma invenção do demônio. mas pagãos. Desde os tempos do Profeta. em grande escala) extrai sempre os seus símbolos 26 . 3. geralmente de fé católica romana que. os homens podem ser levados a acreditar que qualquer categoria de seres humanos semelhantes é tão “outra” que poderá ser classificada de parasitária. Há um pequeno número de missões cristãs. Apesar de todas as formas de imperialismo e de dominação colonial serem. em certos casos. as represálias de Hitler contra os judeus e os ciganos) foram justificadas pelas características raciais e religiosas.A maior parte das tentativas históricas de exterminar “os outros’ à escala do genocídio (por exemplo. “Nós” podemos diferenciar-nos em relação aos “outros” de todas as maneiras reais e imaginárias. colonialismo e missionários. A tarefa do missionário como salvador das almas. mas também a de “destruir as obras do demônio”. do “nosso povo” (com o correspondente massacre e a exploração dos “outros”. 4. a única maneira de poderem ser qualificados como seres humanos era através da conversão ao cristianismo. especialmente nas áreas em que as autoridades coloniais consideravam os habitantes locais mais atrasados e primitivos. Voltemos ao ponto de partida: o etnocentrismo pode manifestar-se nos mais diversos campos e das mais diversas maneiras. Neste tipo de contexto. etnocêntricas. o grau com que os conquistadores insistem em impor os seus próprios valores morais aos conquistados é muito variável. as guerras espanhola e portuguesa de conquista e colonização das Américas no século XVI foram absolutamente impiedosas. mas a maior parte dos missionários protestantes. a maior parte das guerras de conquista muçulmana forma seguidas de uma forçada conversão religiosa da população conquistada. mas a ferocidade sem conta com que a atividade bélica internacional e o terrorismo interno têm sido conduzidos em todo o mundo nos últimos cinqüenta anos demonstra claramente que. A justificação residia no princípio de que os nativos americanos não só eram selvagens. se dispõe a reconhecer que a cultura indígena das populações entre as quais desenvolve a sua obra tem certo valor moral e estético que merece ser respeitado. Analogamente.

ou antes. deplorável. mas somente numa Utopia poderá tal desvario encontrar o seu fim. sobretudo. No mundo real. reforçam-se uma à outra. O tema geral deste artigo incidiu no fato de o presente estado de coisas ser extensivo a toda a humanidade. com a exploração do trabalho dos “outros” em proveito “nosso”. Na África do Sul contemporânea. 27 . procriação/esterilidade. O resultado é muitas vezes.das experiências privadas diretas do “eu”: nutrição/defecação. a questões políticas e econômicas. As duas faces da mesma moeda. a realidade da exploração econômica e a irrealidade da diferenciação étnica. limpeza/sujidade. com a exploração dos recursos naturais ocupados pelos “outros”. quem é que se pode sentar à mesma mesa. quem é que pode ou não utilizar as mesmas instalações sanitárias. as questões etnocêntricas “imaginárias” ligam-se a quem é que pode ter relações sexuais com quem. a atmosfera acha-se altamente carregada de ficções saturadas de conteúdo emocional que pouco terão a ver com a economia. as relações de domínio intergrupos dizem respeito. A exploração econômica e política de grupos de seres humanos por outros sucede por toda a parte. mas no mundo imaginário dos valores etnocêntricos. no qual as divisões cruciais são feitas depender da identidade nacional ou étnica. e em toda parte se verifica que a exploração encontra expressão simbólica em sintomas que foram aqui apresentados como marcas de etnocentrismo. quase sempre. erotismo/ascetismo. os problemas políticos “reais” residem em saber até que ponto e durante quanto tempo poderá a minoria dominante manter a sua posição atual de extremo privilégio econômico.

..................29 O que se entende por cultura.................34 A cultura em nossa sociedade.......................O QUE É CULTURA JOSÉ LUÍS DOS SANTOS ÍNDICE Cultura e diversidade.............................57 28 .........................................................55 Indicações para leitura.......................44 Cultura e relações de poder......

Por enquanto quero salientar que é sempre fundamental entender os sentidos que uma realidade cultural faz para aqueles que a vivem. São complexas as realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam. Por isso. se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos. ou nas maneiras de habitar. Saber em que medida as culturas variam e quais as razões da variedade das culturas humanas são questões que provocam muita discussão. de se vestir ou de distribuir os produtos do trabalho não são gratuitas. e a cultura as expressa. é porque eles estão em interação. a questão da cultura torna-se tanto mais concreta quanto adquire novos contornos. mais freqüentemente por ambos os motivos. Do mesmo modo evidencia-se a necessidade de relacionar as manifestações e dimensões culturais com as diferentes classes e grupos que a constituem. logo se constata a sua grande variação. 29 . Ao trazermos a discussão para tão perto de nós. Na verdade. sejam essas transformações movidas por suas forças internas ou em conseqüência desses contatos e conflitos. Cada realidade cultural tem uma lógica interna. De fato. ao discutirmos sobre cultura temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e multiplicidade de formas de existência.CULTURA E DIVERSIDADE Cultura é uma preocupação contemporânea. costumes. de conceber a realidade e expressá-la. sociedades e grupos humanos. nações. já que convidam a que nos vejamos como seres sociais. relacionam-se com as condições materiais de sua existência. nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós. oferecendo uma plataforma firme para o respeito e a dignidade nas relações humanas. A história registra com abundância as transformações por que passam as culturas. bem viva nos tempos atuais. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre modos diferentes de organizar a vida social. Assim. sociedades e grupos humanos. cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. É uma preocupação em entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro. que o convite a que se considere cada cultura em particular não pode ser dissociado da necessidade de se considerar as relações entre as culturas. nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte. o estudo da cultura contribui no combate a preconceitos. Se não estivessem não haveria necessidade. porém. Quando se considera as culturas particulares que existem ou existiram. Notem. por exemplo. nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. nações. concepções e as transformações pelas quais estas passam façam sentido. são o resultado de sua história. As variações nas formas de família. a preocupação em entender isso é uma importante conquista contemporânea. que devemos procurar conhecer para que as suas práticas. Elas fazem sentido para os agrupamentos humanos que as vivem. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade torna-se uma questão importante. Entendido assim.

Isso se aplica. É também um tema repleto de equívocos e armadilhas. criando novas possibilidades de desenvolvimento. no entanto. como ainda territórios semelhantes foram ocupados de modo diferente por populações diferentes. Nesse processo. acompanhando o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais. e os grupos isolados vão desaparecendo com a tendência à formação de uma civilização mundial. a sedentarização que mencionei antes não é uma simples resposta às condições dos recursos naturais. Espero tê-los já convencidos de que o tema é importante e que vale a pena estudá-lo e seguir seus desdobramentos. Assim. Muito já se discutiu sobre as maneiras de ordenar essas culturas de tanta variação. Não apenas os recursos naturais devem ser considerados quando se pensa no desenvolvimento dos grupos humanos. como para a européia ou a chinesa. como a de formação de poderosas sociedades com instituições políticas centralizadas. que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. São também variadas as formas de organização social. O aceleramento desses contatos é recente. Não só esses recursos são heterogêneos ao longo das terras habitáveis. ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta. ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade. Assim.Vejam. pois. e isso inclui também suas relações com outras culturas. De fato. e ao fazer isso conseguiram inclusive alterar as condições dos recursos naturais. Apesar da existência de tendências gerais constatáveis nas histórias das sociedades. pode-se traçar longas seqüências históricas e localizar etapas mostrando as transformações nas relações da sociedade com a natureza e principalmente nas relações de seus membros entre si. mas do mesmo modo há aqui tendências dominantes. A minha preocupação principal aqui é contribuir para esclarecer esse assunto. não é possível estabelecer seqüências fixas capazes de detalhar as fases por que passou cada realidade cultural. o contato entre grupos humanos foi freqüente. Mais importante ainda é observar que o destino de cada agrupamento esteve marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida em sociedade e de superar os conflitos de interesse e as tensões geradas na vida social. mas a intensidade desses contatos foi de forma a permitir muito isolamento. e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios. isto é. por exemplo. como a domesticação de animais e plantas o prova. Cada cultura é o resultado de uma história particular. e muitas histórias paralelas marcaram o desenvolvimento dos grupos humanos. às formas de utilização e transformação dos recursos naturais disponíveis. as 30 . O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis. Apesar dessa variabilidade são notórias algumas tendências dominantes. os grupos humanos se expandiram progressivamente. Para muitas delas. Os esforços para colocar todas as culturas humanas num único e rígido esquema de etapas não foram. Ela só se tornou viável porque os grupos humanos envolvidos conseguiram reorganizar sua vida social de modo satisfatório. bem-sucedidos. não obstante a constatação de certas tendências globais. por exemplo. A partir de uma origem biológica comum. a viver em aldeias e vilas. por exemplo. Convém desde já que situemos um de seus principais focos de confusão: o de por que as culturas variam tanto e de quais os sentidos de tanta variação. em vários lugares e épocas grupos humanos inicialmente nômades e dependentes da caça e da coleta para sua sobrevivência passaram a se sedentarizar.

e essa segundo perspectiva que mencionei acima criticou-as fortemente. que naqueles esquemas globais apareciam no topo da humanidade. mas não é suficiente para dar conta de culturas que por longo tempo se desenvolveram fora do âmbito dessa civilização. outra habitando em vilas e praticando a agricultura. a humanidade passaria por etapas sucessivas de evolução social que a conduziria desde um estágio primordial onde se iniciaria a distinção da espécie humana de outras espécies animais até a civilização tal como conhecida na Europa ocidental de então. por exemplo. 31 . Ou então. uma visão que utilizava concepções européias para construir a escala evolutiva. uma nômade praticando a caça e a coleta. a diversidade de sociedades existentes no século XIX representaria estágios diferentes da evolução humana: sociedades indígenas da Amazônia poderiam ser classificadas no estágio da selvageria. barbárie e civilização pode ajudar a entender o aparecimento da sociedade burguesa na Europa. Quanto à Europa classificada no estágio da civilização. no estágio da barbárie. Segundo as versões mais comuns desses estudos. vamos pensar em duas culturas primitivas. existentes ou extintas. Nesse caso. falar. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. pensa-se em hierarquizar essas culturas segundo algum critério. Na segunda possibilidade de relacionar diferentes culturas.quais podem ter características bem diferentes. as tecnologias de metais. No primeiro caso. consideravase que ela já teria passado por aqueles outros estágios. e que além do mais servia aos propósitos de legitimar o processo que se vivia de expansão e consolidação do domínio dos principais países capitalistas sobre os povos do mundo. Tais esforços de classificação de culturas não implicavam apenas a justificação do domínio das sociedades capitalistas centrais. já que a domesticação de plantas da qual a agricultura é resultado não faz parte da primeira cultura. não haveria como julgá-la menos desenvolvida que a segunda com base nesse critério de comparação. Não foi difícil perceber nessa concepção de evolução por estágios uma visão européia da humanidade. usando-se o critério de capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada do que outra. Por exemplo. dessa evolução em linha única. Cultura e evolução No século XIX foram feitos muitos estudos procurando hierarquizar todas as culturas humanas. Assim. Todas as sociedades humanas fariam necessariamente parte dessa escala evolutiva. sobre o resto do mundo. nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização. nas etapas humanas da selvageria. reinos africanos. por exemplo. Argumenta-se aqui que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e que para tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios de outra. Assim. Por exemplo. duas são as possibilidades básicas de relacionarmos diferentes culturas entre si. dada a multiplicidade de critérios culturais. Até aqui estamos falando de cultura como tudo aquilo que caracteriza uma população humana. Segundo aquele argumento. As concepções de evolução linear foram atacadas com a idéia de que cada cultura tem sua própria verdade e que a classificação dessas culturas em escalas hierarquizadas era impossível. poderemos pensar que uma é mais desenvolvida do que a outra. se compararmos essas culturas de acordo com seu controle de tecnologias específicas como.

no entanto. Ou seja. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto. A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana. na avaliação de culturas e traços culturais tudo é relativo. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora. que a questão não é só pensar na evolução de sociedades humanas. em que esse confronto de idéias se consolidou. isso diria respeito a qualquer caso e não só ao da visão européia de evolução social única dos grupos humanos. Estudos sistemáticos e detalhados de muitas culturas permitiram destruir os falsos argumentos dessas concepções preconceituosas. O absurdo daquela equação acima referida se manifesta no fato de que enquanto a ciência social dos países capitalistas centrais elaborava teorias relativistas da cultura. Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural. pois. Por outro lado. não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza. nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da. e isso era usado como justificativa para seu domínio e exploração. àquela comparação entre duas sociedades primitivas de que falei atrás. processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas. mas fundamentalmente entender a história da humanidade. tendo como instrumento uma capacidade de produção material que não é nem um pouco relativa.Idéias racistas também se associaram àqueles esforços. Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais. Vemos. Existem. Cultura e relativismo Em outras palavras. teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. substitui-se um equívoco por outro. Ele deriva da constatação de que a avaliação de cada cultura e do conjunto das culturas existentes varia de acordo com a cultura particular da qual se efetue a observação e análise. segundo essa visão. como é o caso da constatação de regularidades nos processos de transformação dos grupos humanos e da importância da produção material na história dessas transformações. O século XIX. Consideremos um pouco mais este segundo. que os critérios que se usa para classificar uma cultura são também culturais. poderia ser aplicado. Observe o quanto essa equação é enganosa. Verifica-se assim que a observação de culturas alheias se faz segundo pontos de vista definidos pela cultura do observador. indicava os caminhos de 32 . a relativização total do estudo das culturas desvia a atenção de indagações importantes a respeito da história da humanidade. muitas vezes os povos não-europeus foram considerados inferiores. ingênua e esteve ligada ao preconceito e discriminação raciais. A idéia de uma linha de evolução única para as sociedades humanas é. por exemplo. pois. conquistando e destruindo povos e nações. unidade biológica da espécie humana. sua civilização avançava implacavelmente.

Assim. de agir sobre essa realidade. existe no interior de uma sociedade dinâmica. e sempre se coloca a questão de como tratar esse assunto. Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro. por exemplo. É importante considerar a diversidade cultural interna à nossa sociedade. Pensem. Elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Já agora a compreensão dessa civilização mundial exige o entendimento dos múltiplos percursos que levaram a ela. quando não seu fim. a população nacional foi constituída com contingentes originários de várias partes do mundo. suas faixas de idade. como se fossem culturas estranhas. é um elemento que faz parte das relações sociais no país. tem regiões de características bem diferentes. numa sociedade como a brasileira. A sociedade nacional tem classes e grupos sociais. cujas razões podem ser estudadas. Também aí a variedade de formas culturais se manifesta. contribuindo dessa forma para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. ou segundo seu grau de escolarização. sua capacidade de emitir pronunciamentos. Observem que também no estudo de uma sociedade particular não faria sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes. os quais hierarquizam de fato os povos e nações. As relações internacionais registram desigualdades de poder em todos os sentidos. mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade. É necessário reconhecê-las e buscar sua superação. de interpretar a realidade que as produz. Tudo isso se reflete no plano cultural. Mesmo porque essa diversidade não é só feita de idéias. a população difere ainda internamente segundo. por exemplo. cujas características e cujos problemas ele não pode evitar. O estudo das culturas e de suas transformações é fundamental para isso. Mesmo as sociedades indígenas mais afastadas têm seu destino ligado à sociedade nacional que em sua expansão as envolve. Enfatizar a relatividade de critérios culturais é uma questão estéril quando se depara com a história concreta. um grupo religioso. e muitas vezes o são. Este é um fato evidente da história contemporânea e não há como refletir sobre cultura ignorando essas desigualdades. A diversidade também se constitui de maneiras diferentes de viver. Cultura e sociedade Há muito em comum entre essas discussões sobre as relações entre culturas de sociedades diferentes quando se pensa sobre a cultura de uma sociedade particular. que faz com que essas realidades culturais se relacionem e se hierarquizem. isso é de fato essencial para compreendermos melhor o país em que vivemos. por mais particulares que sejam suas concepções e práticas de vida social. Além disso. coloca em risco sua sobrevivência física e 33 . por exemplo.uma civilização mundial em que as muitas culturas humanas deveriam inevitavelmente encontrar o seu destino. sejam lugares isolados de características peculiares ou agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. ela está também relacionada com as maneiras de atuar na vida social. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas. As culturas e sociedades humanas se relacionam de modo desigual.

e a maneira como falei dela nas páginas anteriores é apenas um entre muitos sentidos comuns de cultura. tanto no estudo de culturas de sociedades diferentes quanto das formas culturais no interior de uma sociedade. O QUE SE ENTENDE POR CULTURA Desde o século passado tem havido preocupações sistemáticas em estudar as culturas humanas. preocupado com tudo o que caracteriza uma população humana. tais como o rádio. 34 . como o teatro. à sua comida. Observem que vivemos numa sociedade que tem uma classe dominante cujos interesses prevalecem. Afinal. Não há por que nos confundirmos com tanta variação de significado. ou a seu modo de se vestir. a pintura. ao se falar na cultura da nossa época ela é quase que identificada com os meios de comunicação de massa. no estudo da cultura em nossa sociedade. apenas entender as realidades culturais no contexto da história de cada sociedade. Nem tudo que é diverso o é da mesma forma. a música. o cinema. mostrar que a diversidade existe não implica concluir que tudo é relativo. cultura está associada a estudo. educação. em discutir sobre cultura. nós poderemos entender afinal o que é cultura e dar andamento às nossas discussões. As preocupações com cultura se voltaram tanto para a compreensão das sociedades modernas e industriais quanto daquelas que iam desaparecendo ou perdendo suas características originais em virtude daqueles contatos. formação escolar. localizar os sentidos básicos da concepção de cultura. Por vezes se fala de cultura para se referir unicamente às manifestações artísticas. Vamos então cercar o assunto. As duas concepções básicas de cultura As várias maneiras de entender o que é cultura derivam de um conjunto comum de preocupações que podemos localizar em duas concepções básicas. Contudo. toda essa preocupação não produziu uma definição clara e aceita por todos do que seja cultura. a seu idioma. a televisão. O que importa é que pensemos sobre os motivos de tanta variação. Já eu tenho falado de cultura de maneira mais genérica. que localizemos as idéias e temas principais sobre os quais elas se sustentam. entre povos e nações. a um novo idioma e a novos problemas. Por cultura se entende muita coisa. Se fôssemos relativizar os critérios culturais existentes no interior da sociedade acabaríamos por justificar as relações de dominação e o exercício tradicional do poder: eles também seriam relativos. a novas técnicas.cultural. A partir disso. A lista pode ser ampliada. das relações sociais dentro de cada qual e das relações entre elas. Vejamos alguns desses sentidos comuns. mas também pelas possibilidades e projetos do que pode vir a existir. nem sempre pacíficos. às lendas e crenças de um povo. De modo que. Assim. Em geral. Outras vezes. conduz a mudanças em sua forma de viver e as introduz a novas concepções de vida. Esses estudos se intensificaram na medida em que se aceleravam os contatos. Ou então cultura diz respeito às festas e cerimônias tradicionais. Não há razão para querer imortalizar as facetas culturais que resultam da miséria e da opressão. a escultura. valem as mesmas observações feitas atrás em relação ao relativismo. as culturas movem-se não apenas pelo que existe. mostrar como eles se desenvolveram.

estagnado. ela é mais usual quando se fala de povos e de realidades sociais bem diferentes das nossas. ao conhecimento filosófico. Assim. o corpo. compreendendo tendências de pensar a vida e a sociedade na qual a natureza e a realização individual são enfatizadas. a alimentação. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. e que tem por temas principais a ecologia. Esse é um ponto muito importante. O esforço de entender as culturas. Neste caso. O que ocorre é que há uma ênfase especial no conhecimento e dimensões associadas. De acordo com esta segunda concepção. cultura refere-se a realidades sociais bem distintas. Mas eu disse que havia duas concepções básicas de cultura. parada. Observem que mesmo aqui a referência à totalidade de características de uma realidade social está presente. às idéias e crenças. Conforme já dissemos. o sentido em que se fala de cultura é o mesmo: em cada caso dar conta das características dos agrupamentos a que se refere. ou então de grupos no interior de uma sociedade. como lojas de produtos naturais e clínicas de medicina alternativa. fechado. preocupando-se com a totalidade dessas características. Desenvolvimento das preocupações com cultura A constatação da variedade de modos de vida entre povos e nações é um elemento fundamental das preocupações com cultura.A primeira dessas concepções preocupa-se com todos os aspectos de uma realidade social. e da mesma forma seus meios de divulgação. De fato. Devo alertá-los de que ambas as concepções levam muitas vezes a que se entenda a cultura como uma realidade estanque. com os quais partilhamos de poucas características em comum. Nesses casos. seja na organização da sociedade. No entanto. idéias. na forma de produzir o necessário para a sobrevivência ou nas maneiras de ver o mundo. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas. as re1ações pessoais e a espiritualidade. da vida social. crenças sem pensar na sociedade à qual se referem. Ao se falar em cultura alternativa inclui-se também as instituições associadas. cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação. Vamos à segunda. científico e artístico produzido na França e às instituições mais de perto associadas a eles. quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa. as próprias concepções de cultura estão ligadas muito de perto a esses processos. Como veremos a seguir. a um domínio. Entendemos neste caso que a cultura diz respeitei a uma esfera. à sua literatura. Tanto assim que é 35 . Outro exemplo comum desta segunda concepção de cultura é a referência à cultura alternativa. pode acabar levando a que se pense a cultura como algo acabado. quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento. assim como às maneiras como eles existem na vida social. digam elas respeito às maneiras de conceber e organizar a vida social ou aos seus aspectos materiais. a principal vantagem de estudá-las é por contribuírem para o entendimento dos processos de transformação por que passam as sociedades contemporâneas. de localizar traços e características que as distingam. as culturas humanas são dinâmicas. já que não se pode falar em conhecimento. Embora essa concepção de cultura possa ser usada de modo genérico.

numa humanidade com uma vida social também sujeita à evolução em virtude de fatores 36 . É muito importante que vocês notem que a Alemanha era então uma nação dividida em várias unidades políticas. quer dizer. Cultura era então uma preocupação de pensadores engajados em interpretar a história humana. em compreender a particularidade dos costumes e crenças. porém. procurando dar conta sistematicamente de uma diversidade de maneiras de viver que já havia sido motivo de reflexão por séculos. da humanidade como uma espécie animal produzida por transformações a partir de outras formas de vida. ou seja. Sociedades antes isoladas foram subjugadas e incorporadas ao âmbito de influência européia. bem mais recentes. por exemplo. Nesse sentido.impossível discutirmos sobre cultura sem fazermos referência a ela. em entender o desenvolvimento dos povos no contexto das condições materiais em que se desenvolviam. a visão de mundo cristã oferecia à Europa os modelos principais que ordenavam o conhecimento e a interpretação do mundo e das relações sociais. educação elaborada de uma pessoa. industrializadas e sedentas de novos mercados. Roma e China antigas. Desenvolveram-se a partir de século XVIII na Alemanha. sofisticação pessoal. Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa. Como sinônimo de refinamento. foi a partir de então que as ciências humanas passaram a tratar sistematicamente dela. Até então o cristianismo tivera força para se impor na definição de práticas e comportamentos. Essa é sem dúvida uma constatação registrada entre muitos povos desde a antiguidade. A ruptura com essa visão religiosa se fez através de preocupações com o entendimento da origem e transformação da sociedade e também das espécies de vida. foi no século XIX que se tornou dominante uma visão laica. Foi nessa época que a preocupação com cultura se generalizou como uma questão científica. A discussão sobre cultura tinha assim um sentido muito especial: ela procurava expressar uma unidade viva daquela nação não unificada politicamente. modos de vida. As preocupações sistemáticas com a questão da cultura são. Essas preocupações que cultura passou a expressar tornaram-se tanto mais importantes quanto a partir do século XIX foi-se intensificando o poderio das nações européias frente aos povos do mundo. Pode-se encontrar reflexões sobre esses temas em autores da Grécia. servia para falar de todos os alemães na falta de uma organização política comum. não-religiosa. e populações do resto do mundo. Observem porém que se essa preocupação já existia. e isso está presente na expressão cultura da alma. Em primeiro lugar. Sabe-se também que de longa data se indagou sobre as razões que explicavam a existência de costumes. Pensadores romanos antigos ampliaram esse significado e a usaram para se referir ao refinamento pessoal. do mundo social e da vida humana. Cultura é palavra de origem latina e em seu significado original está ligada às atividades agrícolas. que quer dizer cultivar. a palavra cultura percorreu um longo caminho até adquirir esse sentido. práticas e crenças de povos diferentes. É preciso considerar dois aspectos principais aos quais a consolidação das preocupações com cultura esteve associada. as novas teorias biológicas e sociais desse século culminaram com uma visão da humanidade firmemente ancorada numa teoria da evolução das espécies. Mas retornemos ao significado moderno de cultura. Vem do verbo latino c o l e r e. cultura foi usada constantemente desde então e o é até hoje. Caminhou-se dessa maneira para consolidar as modernas preocupações com cultura.

já que é importante para discutir sobre cultura em países como o nosso. não teria sido necessário esperar tantos séculos para que a discussão sobre cultura se firmasse. quando se comparava povos diferentes. incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar. Assim. e também da imposição de suas próprias concepções culturais aos povos sob domínio e controle. há um sentido em que tudo que é cultural é humano. várias vezes. Lembrem-se que as potências européias encontravam-se então em marcado processo de expansão. Isso ia contra as idéias anteriormente dominantes. Além disso. de cunho religioso. É que até então essas questões podiam ser respondidas. Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. e que pregavam ter sido o homem criado diretamente pela divindade. as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. As preocupações sistemáticas com cultura nasceram associadas a novas formas de conhecimento. pois além de a própria Europa ser diversificada em povos e nações. este é um dos aspectos principais com que a consolidação das preocupações com cultura esteve associada: a sua vinculação com as novas preocupações de conhecimento científico do século XIX. como cultura estava ligada à distinção entre o humano e o animal. uma divindade que atuava também na história das sociedades humanas. como vocês podem ver. A discussão sobre cultura estava ligada às preocupações de entender os povos e nações que se subjugava. Novamente. Lembrem que. o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões sobre cultura. De fato. que lhe fornecia campo de observação e possibilitava o acesso a material para estudo. contatos com povos muito diversos eram antigos e as conquistas coloniais já tinham estabelecido relações sistemáticas com outras culturas desde o século XVI. cultura era uma palavra usada para expressar a totalidade das características e condições de vida de um povo. Trata-se de uma idéia muito ampla. Essa posição se realizou através da dominação política e econômica. Há um segundo. Assim. associei a discussão sobre cultura com a questão da variedade dos povos e modos de vida. Se fosse só por isso. Esta é uma relação muito íntima. e tudo que é humano é cultural. Nesse contexto de discussão sobre evolução. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. podiam ser enquadradas pela interpretação de cunho religioso. Nesse sentido. difícil de precisar. 37 . como na visão de evolução linear das sociedades. Lembrem-se que o debate intelectual ao qual as preocupações com cultura estavam associadas fornecia interpretações. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. a idéia é muito genérica.materiais que podiam ser estudados. que permitiam fosse considerado superior tudo que fosse ocidental. As preocupações com cultura tinham essa marca de legitimadoras da dominação colonial. cultura servia tanto para diferenciar populações humanas entre si quanto para distinguir o humano de outras formas animais. Daí derivam muitas das dificuldades em definir cultura. O desenvolvimento dessas teorias científicas sobre a vida e a sociedade é de fato muito importante para entendermos as preocupações sistemáticas com cultura. Ela era alimentada por essa expansão política e econômica das sociedades industrializadas.

De fato. e dos Estados Unidos antes que este país atingisse a condição de potência dominadora que hoje ocupa. No caso. em relação às nações política e economicamente dominantes. em que fornecem elementos e características que dão a esta um caráter particular. Para citar ainda outro exemplo dessa relação entre cultura e nação. diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores. Nos Estados Unidos da América do Norte e na América Latina. na Alemanha dos séculos XVIII e XIX a idéia de que havia uma cultura comum unindo as várias unidades políticas que constituíam a Alemanha servia para estabelecer um plano objetivo de unidade. por exemplo. Da mesma forma são tratadas as contribuições culturais das populações que vieram para cá como imigrantes de outras partes do mundo. Na América Latina. Elas servem de referências no processo de incorporação às sociedades nacionais de populações nativas dominadas pela conquista européia e de imigrantes de toda parte do mundo que para as Américas vieram. um império contendo uma diversidade de povos e que estava igualmente preocupado em estabelecer uma realidade cultural comum. um país em posição inferior às potências européias. São discussões que procuram saber o que há na cultura de especificamente estadunidense ou peruano ou brasileiro. período em que a Inglaterra e França eram econômica. entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade.Cultura e nação Já vimos antes que em seu desenvolvimento a concepção de cultura esteve relacionada às particularidades da nação alemã. Foi assim na Alemanha do século XVIII. roupas. nas Américas do século XX. na falta de uma unidade política comum. política e intelectualmente as mais poderosas nações européias. lendas. tais como comidas. cultura podia ser vista como a expressão de uma nação que não tinha Estado. Sua importância para essas culturas nacionais só costuma ser reconhecida na medida em que contribuem para esta última. as culturas de povos e nações que habitavam suas terras antes da conquista européia foram sistematicamente tratadas como mundos à parte das culturas nacionais que se desenvolveram. específico. Assim foi na Rússia do século XIX. podemos mencionar a Rússia do século XIX. a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente. e o Brasil é bem um caso. a preocupação com cultura continuou mesmo após a revolução comunista de 1917 e esteve presente na definição da política das nacionalidades do Estado soviético. as preocupações com cultura têm feito parte constantemente das reflexões sobre a realidade desses países. Notem que em todas essas experiências históricas em que a discussão sobre cultura foi parenta da questão da nação houve um importante ponto em comum: tratavam-se de unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio. Assim. as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização européia dessas terras. nomes. Essas discussões estão mesmo ligadas ao processo de constituição de nações modernas. Assim. ou que para cá foram trazidas como escravas. O mesmo pode ser dito da América Latina. Nestes casos todos. 38 .

à arte e à religião daquelas camadas dominantes. No primeiro caso. concepções. o mesmo ocorrendo com o universo de idéias. cultura é então a própria marca da civilização. muito embora seus conteúdos fossem freqüentemente trocados. à cultura dominante. Quanto àquela preocupação em distinguir aspectos da vida social. pode-se falar de cultura a respeito de qualquer povo. qual seja. ela permaneceu associada às discussões sobre cultura. e é neste sentido que tenho falado dela aqui. que a discussão sobre cultura tem a humanidade como referência e ao mesmo tempo procura dar conta de particularidades de cada realidade cultural. Assim. à estrutura da família. Com o passar do tempo. com o processo de expansão dos centros de poder contemporâneos. que mencionei anteriormente. Apesar de todas as variações na maneira de conceber cultura. se bem que usualmente se reserve civilização para fazer referência a sociedades poderosas. as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade. quero ressaltar que sua discussão contém tendências fortes e importantes. mas também em grupos no seu interior. grupo ou sociedade humana. à organização da sociedade. de longa tradição histórica e grande âmbito de influência. a qualquer cultura. ao direito e às idéias. Além do mais. e por outro. as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica. concepções e modos de conhecimentos.Assim. Essa tensão entre referir-se a uma cultura dominante ou a qualquer cultura permanece. ou à falta de acesso à ciência. Até que o uso moderno de cultura se sedimentasse. o que não ocorre com civilização. Cultura pode por um lado referir-se à alta cultura. Preocupações da cultura Há algumas preocupações por assim dizer embutidas nas discussões sobre cultura que vêm de longa data e convém mencionar aqui. cultura competiu com a idéia de civilização. cultura surge em oposição à selvageria. de conquista e incorporação 39 . Nas transformações da idéia de cultura durante os séculos XVIII e XIX. Notem que é no segundo sentido que as ciências sociais costumam falar de cultura. pois. nação. a preocupação com os aspectos materiais não a abandonou. a discussão sobre cultura surgiu associada a uma tentativa de distinguir entre aspectos materiais e não-materiais da vida social. crenças. e explica em parte a multiplicidade de significados do que seja cultura. Como veremos numa sessão posterior. cultura e civilização ficaram quase sinônimas. Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana. se opõe à falta de domínio da língua escrita. civilização e cultura serviam para significar os aspectos materiais da vida social. Embora esta seja com freqüência entendida como a dimensão não-material da sociedade. a alta cultura surge como marca das camadas dominantes da população de uma sociedade. Pensem também que essa humanidade não é só uma idéia vaga. entre a matéria e o espírito de uma sociedade. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. é comum que na América Latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem. Ou ainda. o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz. No segundo caso. à barbárie. usa-se cultura para falar não apenas em sociedades.

de regular o casamento e a reprodução. Já a associação de cultura com conhecimento é mais antiga. da civilização mundial que cada vez mais toma corpo. Relações entre as duas concepções básicas de cultura Como as páginas anteriores sugerem. sociedade. Com a aceleração da interação entre povos. É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaramse no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista. ou dizem respeito ao conhecimento que a sociedade. dos contatos iniciais da sociedade inglesa 40 . refinamento pessoal. a preocupação com a totalidade sedimentou-se na concepção de cultura da ciência do século XIX. pois não seria essa realidade comum. que pode ser um instrumento de estudo das sociedades contemporâneas. mas nada impede que os pensemos conjuntamente. É do relacionamento entre essas duas concepções básicas que se origina a maneira de entender cultura. povo.acelerada de povos e nações. Preocupar-se com a totalidade dessas características é inevitável em casos assim. Assim. a humanidade surge com força no panorama da história comum a todos. nas suas concepções. todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social. buscam desenvolver suas economias dependentes. a civilização mundial. nos instrumentos e nos utensílios. culturas particulares. Falar da totalidade das características de um povo. é urna idéia útil quando estão em comparação realidades sociais muito distintas. que vai poder distinguir suas experiências particulares. nações. diminui a possibilidade de falar em cultura como totalidade. nação ou grupo social tem da realidade e à maneira como o expressam. vinda da relação de cultura com erudição. Vejamos como isso ocorre. Apesar disso. andam muitas vezes separados. pois a tendência à formação de uma civilização mundial faz com que os povos. nas maneiras de definir as relações de parentesco entre seus membros. nação. Quênia e Indonésia. por exemplo. superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. Assim. o Peru. já que é tudo isso que torna cada uma das sociedades diferente. algo muito vasto e difícil de operacionalizar. crenças e em tantos outros aspectos. Mas o encontro entre sociedades assim vai-se tornando raro. nações. vejam bem. é uma idéia muito ampla para cultura. resultados de experiências históricas muito diferentes. Falar de culturas isoladas e únicas vai perdendo a viabilidade. do estabelecimento de relações perduráveis de interdependência e de processos comuns de mudança política. culturas particulares existentes partilhem características comuns fundamentais. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica. a expansão do capitalismo e seus fundamentos. na produção do necessário para a sobrevivência. desde muito tempo as preocupações com cultura orientam-se pelas duas concepções básicas que já havíamos discutido: ou tratam da totalidade das características de uma realidade social. É uma situação bem diferente. nas técnicas. Os dois planos de estudo. Sociedades assim comparadas podem diferir fundamentalmente em sua organização da vida social. por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil. em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. o da cultura e o da sociedade de classes.

só se pode entender a importância das brincadeiras infantis estudando toda a formação cultural que se dá às crianças e localizando-as dentro desta. Da mesma maneira mais importante que localizar o significado da 41 . Na verdade. uma dimensão totalizadora. por exemplo. esportes e jogos. cultura tende a se transformar numa área de reflexão sobre a realidade onde aquelas duas preocupações básicas se mesclam. Não é de se estranhar. ou então que a distribuição de pessoas numa sala durante uma conversa formal possa expressar as relações de hierarquia entre elas. É a simbolização que permite que o conhecimento seja condensado.com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África. cultura passa a ser entendida como uma dimensão da realidade social. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. Não se entusiasmem muito. De fato. Lembrem-se de que a discussão de cultura está muito ligada à constatação da diversidade. teorias. E é nesses aspectos não-materiais que a diversidade se expressa com mais vigor. Mas notem que a preocupação em entender toda a vida social não foi abandonada nas discussões sobre cultura. buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade. pois. sobre outras sociedades. cultura diz sempre respeito a processos globais dentro da sociedade. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. práticas costumeiras e rituais. que uma idéia expresse um acontecimento. Vejamos por quê. doutrinas. a dimensão não-material. ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia. Ou seja. em cada elemento da cultura. Em primeiro lugar. Assim. porém. Cultura inclui ainda as maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade. que a experiência acumulada seja transmitida e transformada. que permitem. descreva um sentimento ou uma paisagem. ciência. Uma maneira mais complicada de apresentar essa dimensão é dizer que a cultura inclui o estudo de processos de simbolização. a idéia de uma divindade única pode ser vista como significando a unidade da sociedade. a ponto de saírem por aí localizando significados ocultos em cada prática cultural. tecnologia. ou seja. em cada produto cultural. pois entrecorta os vários aspectos dessa realidade. com os exemplos acima. ao invés de contribuir para que vocês conheçam sua sociedade. idéias. De fato. religião. política. ela foi transformada. como é o caso de sua arte. através de palavras. que as informações sejam processadas. fala-se agora em cultura como a totalidade de uma dimensão da sociedade. Assim. Isso pode atrapalhá-los. de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa. os processos de simbolização são muito importantes no estudo da cultura. tais elementos só fazem sentido dentro daqueles. em vez de se falar em cultura como a totalidade de características. nas brincadeiras infantis tradicionais numa sociedade como a nossa pode-se mostrar a presença simbólica de mecanismos de competição e hierarquia do mundo dos adultos. e ficar enfatizando relações miúdas de significado pode fazer com que vocês percam de vista aqueles. sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. Essa dimensão é a do conhecimento num sentido ampliado. que prevaleça nas preocupações com cultura aquela tendência a procurar localizar e entender os aspectos da vida social não diretamente materiais. é todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma. Assim.

divindade única é entender o que significa a religião numa sociedade, estudar o conjunto de suas concepções, ver corno ela se organiza, que conflitos carrega, que interesses expressa. Em segundo lugar, uma ênfase desse tipo pode desviar a atenção do fato de que cultura está associada a conhecimento, o qual tem uma característica fundamental: o de ser fator de mudança social, de servir não apenas para descrever a realidade e compreendê-la, mas também para apontar-lhe caminhos e contribuir para sua modificação. Ou seja, reduzindo a cultura ao estudo do simbolismo de seus elementos pode-se acabar entendendo cultura como uma dimensão mecânica da vida social, algo que sempre expressa apaticamente alguma outra coisa, e com isso obscurecer o caráter transformador do conhecimento. Em terceiro lugar, esse tipo de ênfase simbolista pode induzir vocês a entender cultura como uma dimensão neutra, cujos elementos expressam, por exemplo, a desigualdade porque existe desigualdade na vida social. No entanto é preciso considerar que a própria cultura é um motivo de conflito de interesses nas sociedades contemporâneas, um conflito pela sua definição, pelo seu controle, pelos benefícios que pode assegurar. Vemos assim que cultura está sempre associada a outras preocupações do estudo da sociedade, leva a pensar nas relações de poder, exige que se considere a organização social. Isso faz com que as duas concepções básicas de cultura de que lhes falei permaneçam presentes: ao falarmos de cultura nos referimos principalmente à dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. O estudo da cultura exige que consideremos a transformação constante por que passam as sociedades, uma transformação de suas características e das relações entre categorias, grupos e classes sociais no seu interior. A essa transformação constante me referi falando de processo social. Então, o que é cultura? Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não diz respeito apenas a um conjunto de práticas e concepções como, por exemplo, se poderia dizer da ate. Não é apenas uma parte da vida social como, por exemplo, se poderia falar da religião. Não se pode dizer que cultura seja algo independente da vida social, algo que nada tenha a ver com a realidade onde existe. Entendida dessa forma, cultura diz respeito a todos os aspectos da vida social, e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros. Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade.

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As preocupações contemporâneas com cultura estão muito relacionadas com a civilização ocidental. Nela se desenvolveram, com seu crescimento se espalharam. A discussão de cultura não tem, por exemplo, a mesma relevância nas sociedades tribais que tem nas sociedades de classe, da mesma maneira que o próprio estudo da sociedade tribal é mais relevante aqui do que lá. Em ambos os casos, tanto na discussão sobre cultura, quanto na preocupação em estudar sociedades diferentes, os impulsos se localizam na civilização dominante. É pelos olhos dessa civilização que a ciência vê o mundo e procura compreender a ela e a seus destinos. Por exemplo, o estudo de sociedades e culturas estranhas é também uma forma de, por comparação, entender o que é mais de perto conhecido. Notem que se pensarmos em cultura como dimensão do processo social podemos também falar em cultura numa sociedade primitiva, em cultura das sociedades indígenas brasileiras, por exemplo. Mas notem também que nem cultura é a mesma coisa lá e aqui, nem seu significado é igual em ambos os casos. Apenas nesse sentido genérico de serem dimensão do processo social é que se pode falar igualmente em cultura. Como se tratam de sociedades com características que as diferenciam bastante, o conteúdo do que é cultura, a dinâmica da cultura, a importância da cultura − tudo isso deve variar bastante. Mas vejam que essas sociedades indígenas encontram-se em interação crescente com a sociedade nacional, passam a participar de processos sociais comuns, a partilhar de uma mesma história. Nesse processo, suas culturas mudam de conteúdo e de significado. Elas podem ser marcas de resistência à sociedade que as quer subjugar, tomar suas terras, colocá-la sob controle. Ao mesmo tempo, é inevitável que incorporem novos conhecimentos para que possam melhor resistir, que suas culturas se transformem para que as sociedades sobrevivam. Assim, discutir sobre cultura implica sempre discutir o processo social concreto. É uma discussão que sempre ameaça extravasar para outras discussões e preocupações. Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas o dizem enquanto parte de uma cultura, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social de que faz parte, à história de sua sociedade. Quero insistir na idéia de processo. Isso porque é comum que cultura seja pensada como algo parado, estático. Vejam o caso de eventos tradicionais, que por serem tradicionais podem convidar a serem vistos como imutáveis. Apesar de se repetirem ao longo do tempo e em vários lugares, não se pode dizer que esses eventos sejam sempre a mesma coisa. Assim, o carnaval brasileiro, por exemplo, tanto se transformou do início do século para cá, quanto se realiza de modo diverso em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. O fato de que as tradições de uma cultura possam ser identificáveis não quer dizer que não se transformem, que não tenham sua dinâmica. Nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental. No entanto, às vezes fala-se de uma cultura como se fosse um produto, uma coisa com começo, meio e fim, com características definidas e um ponto final. Facilmente encontramos referências à cultura grega, à cultura germânica, à cultura francesa e tantas outras. Nesses casos, o que se faz é extrair da experiência histórica de um povo produtos, estilos, épocas, formas, e constrói-se com isso um modelo de cultura. Essas construções podem servir a fins políticos,

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como, por exemplo, tornar ilustre a imagem de uma potência dominadora. Ao mesmo tempo, é comum que os interesses dominantes de uma sociedade veiculem uma definição para a cultura dessa sociedade que seja de seu agrado. É preciso considerar que nem todos esses modelos se esgotam nesses fins. Eles podem também servir para que se meça o desenvolvimento das sociedades humanas e suas direções. Esses modelos podem registrar desenvolvimentos particulares, por exemplo, na arte, na agricultura, na ciência; e ser também matéria de reflexão sobre a história. Podem, enfim, ser maneiras de formação de um repertório universal de conhecimento humano. Elementos de uma história da humanidade gerados no processo de formação de uma civilização mundial. Quase não preciso dizer que mesmo esses modelos mudam: não se entende o que é cultura grega hoje do mesmo modo que no século passado, por exemplo. E é claro que esses modelos não são a cultura como a estamos entendendo aqui; são eles mesmos elementos culturais, que podem ser entendidos em relação ao processo social mais amplo. Há outras maneiras correntes de falar sobre cultura, as quais são diferentes das que estamos desenvolvendo aqui, e iniciei esta parte mostrando várias delas. Antes de concluir, quero registrar mais uma para que o sentido em que vamos continuar falando de cultura fique, por contraste, bem claro. Cultura é com freqüência tratada como um resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes na vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo as áreas da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, a escultura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro. Muitas vezes as políticas oficiais de cultura são especificamente voltadas para essas atividades, já que para as outras áreas da vida social, que nós estamos aqui considerando como parte da cultura, desenvolvem-se políticas específicas. Essa maneira de tratar a cultura é para nós, ela mesma, um tema de estudo, revela um modo pelo qual se atua sobre a dimensão cultural, indicando, no caso, um dos sentidos da atuação dos órgãos públicos, um sentido freqüentemente fracionador da dimensão cultural, que trata de modo diferente a vários aspectos desta. Que fique então claro que para nós a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas. A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE Uma das características de muitas das sociedades contemporâneas, inclusive a nossa própria, é a grande diversificação interna. A diferenciação básica decorre do fato de que a população se posiciona de modos diferentes no processo de produção. Basicamente há setores que são proprietários das

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empresas em geral. Algumas preocupações são. ou das mulheres de classe média na região Sul na década de 1960. bancos. mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. e há aqueles que constituem os trabalhadores dessas organizações. crianças. pois não se pode dizer que as maneiras de viver sejam homogêneas nem dentro da classe trabalhadora nem dentro da classe proprietária. ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país. Esse aspecto das preocupações com a cultura nasce assim voltado 45 . É que. A realidade social enfrentada por trabalhadores rurais e suas famílias é diferente em muitos aspectos daquela enfrentada pelo operariado dos setores industriais de ponta. a partir de uma idéia de refinamento pessoal. ou da vizinhança. ao estudarmos cultura no Brasil. Há diferenças de renda. de limites imprecisos e características variadas. A diferenciação é. no entanto. Popular x erudito Comecemos por esta última indagação. contudo. a qual é bem antiga na história das preocupações com cultura. Isso pode ser exemplificado pelo fato de que as grandes concentrações urbanas costumam registrar uma larga faixa de camadas sociais intermediárias. dos católicos. ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. mais complexa. basta que aproximemos o foco de nossa atenção do colorido da vida social concreta. a diversificação acompanha a variedade de paisagens regionais do país. A lista não teria fim. jovens e velhos. Além do mais. Poderemos nos indagar sobre as diferenciações que se notam segundo as afiliações e práticas religiosas. Essas classes sociais têm formas de viver diferentes. Assim. mesmo porque teria de incluir as variações de cada um desses recortes no tempo. ou então dos comerciários. ou segundo as práticas médicas. Nesses recortes da realidade social comum. Quando se fala sobre classe social é freqüentemente a respeito dessa diferenciação que se está fazendo referência. Observem que os parágrafos acima podem ser ainda mais detalhados. ou indagarmos sobre a cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular. dos bancários. as distinções entre as classes sociais nem sempre são tão nítidas na vida cotidiana como podem ser na definição acima. podem ser localizadas maneiras de ver o mundo que prevalecem mais em alguns do que em outros. podemos nos preocupar em saber o que seria a cultura nacional. a partir do exposto acima. A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. na organização da vida familiar. por exemplo. de acesso às instituições públicas tais como escola. centros de lazer. hospital. Se a cultura é dimensão do processo social. as quais são rotuladas de classes médias. ou da amizade. fazendas. Estou falando isso para que possamos iniciar uma reflexão sobre como tratar a dimensão cultural em nossa própria sociedade. de estilos de vida. ou então localizadas maneiras diferentes de se relacionar socialmente.fábricas. das mulheres de classe média. enfrentam problemas diferentes na sua vida social. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos. cultura se transformou na descrição das formas de conhecimento dominantes nos Estados nacionais que se formavam na Europa a partir do fim da Idade Média. Da mesma forma. Poderemos então notar a diferenciação na vida social entre homens e mulheres. ou alimentares. na cultura dos jovens. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar.

tais como a universidade. Nesse sentido. por cultura popular as manifestações culturais dessas classes. É importante ressaltar que é a própria elite cultural da sociedade. muitas manifestações culturais são deixadas de fora. um conhecimento que se supunha inferior. o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação. advogados. e que aos poucos passou também a ser entendido como uma forma de cultura. mesmo sendo suas contemporâneas. superado. principalmente. pode ser entendida como uma ampliação das formas de controle social. essas instituições estão fora do controle das classes dominadas. Devido à própria natureza da sociedade de classes em que vivemos. à alta cultura. uma realidade que não depende de formas externas. Logo se nota que a polarização entre cultura popular e cultura erudita pode levar a conclusões complicadas. Entende-se. ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria. sua expansão pode ser vista como uma expansão colonizadora. mas como um universo de saber em si mesmo constituído. As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações mais pobres de uma sociedade. a qual é de perto associada tanto no passado como no presente às classes dominantes. a cultura popular tem de ser encarada não como uma criação das instituições dominantes. ainda 46 . Por outro lado porque é o conhecimento dominante que decide o que é cultura popular. a cultura popular.para o conhecimento erudito ao qual só tinham acesso setores das classes dominantes desses países. Esta é assim duplamente produzida pelo conhecimento dominante. como a cultura erudita é desde sempre associada com as classes dominantes. Esse conhecimento erudito se contrapunha ao conhecimento havido pela maior parte da população. as ordens profissionais (de médicos. manifestações diferentes da cultura dominante. a ampliação de seus domínios como. que existem independentemente delas. as implicações políticas que possam ter. De fato. através da expansão da rede de escolas e de atendimento médico. ou seu caráter revolucionário em relação a esta. as academias. que estão fora de suas instituições. sua cultura pode ser vista como tendo um conteúdo transformador. Da mesma forma. Aquela origem antiga dessas preocupações continua a influenciá-la. expresso pela filosofia. que desenvolve a concepção de cultura popular. Para ser pensada assim. engenheiros e outras). e a cultura popular é pensada sempre em relação à cultura erudita. Por um lado porque. por exemplo. participante de suas instituições dominantes. atrasado. sua dinâmica e. como a existência das classes dominadas denuncia as desigualdades sociais e a necessidade de superá-las. pela ciência e pelo saber produzido e controlado em instituições da sociedade nacional. Elas se desenvolvem a partir da polarização entre o erudito e o popular. que mantêm as desigualdades básicas da sociedade em benefício da minoria da população. então. na formação de seu próprio universo de legitimidade. a qual transfere para a dimensão cultural a oposição entre os interesses das classes sociais na vida da sociedade. buscando o que há de específico nelas. Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. Assim. Vejamos como a cultura erudita e a cultura popular podem ser relacionadas nessas preocupações. procurando entender a sua lógica interna.

medicinas populares. Na maior parte dos casos estão ausentes instituições e núcleos de sistematização. Ela cria problemas falsos. E. da matemática. Será que tudo que sobra é medicina popular? Essas práticas e concepções são difíceis de caracterizar. é óbvio que a luta política tem manifestações culturais. Isso vale para a medicina. e como estamos entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. das ciências físicas e biológicas. Notem que essa oposição permanece mesmo mudando o conteúdo do que pode ser considerado erudito ou popular. antes privilégio indiscutível de pequenas elites. O mesmo se pode dizer a respeito do conhecimento da história. objetivos ainda longe de serem adequadamente alcançados em países como o nosso. um popular intocado e definitivamente original. com as relações entre pessoas de sexo e idade diferentes ou de posições familiares diferentes. Assim. e apenas algumas delas têm o beneplácito da aprovação oficial. Vale a pena pensar mais um pouco sobre essa questão. deixando de ser um privilégio e não podendo mais ser considerado erudito. Pode-se a partir daí considerar como as religiões populares podem servir aos propósitos de defender os interesses das classes oprimidas. com modos de interpretar a comida. e se esvazia em confronto com a realidade social. o domínio da escrita e da leitura. para a literatura. que se tente localizar na cultura o popular mais puro. não são homogêneas nas classes oprimidas. A única maneira de tratá-las é a partir de classificações que fazem sentido na cultura. tende a se generalizar. a primeira dificuldade é a de como tratá-la. seus limites se perdem na complexidade da vida social. Essa constatação pode levar a que nessas preocupações de que estamos falando se busque o mais popular do popular. literatura. Outro problema é que é muito difícil numa sociedade como a nossa estudar manifestações culturais que não estejam relacionadas às poderosas instituições dominantes e suas concepções. fundamentalmente. de esboçar com clareza. no entanto. De fato. Isso tudo nos leva a pensar quão enganosa pode ser a polarização entre cultura popular e cultura erudita. Quando se procura estudar a cultura popular. outrora restrito a setores das classes dominantes. para a religião. pois as preocupações com a cultura popular são preocupações da cultura dominante e suas elites. que contenha ele sim o caráter revolucionário do saber popular em seu estado mais absoluto. Criam-se assim modelos de religião. tênues os argumentos a favor desse tipo de ênfase na cultura popular e seu poder revolucionário. O poder transformador da luta dos oprimidos contra os opressores é um fundamento das ciências sociais contemporâneas. dominante. Assim. por exemplo. não faria sentido taxar de eruditas as exigências das classes trabalhadoras de alfabetização e de educação universal e gratuita. o que mina na base aquela polarização. Parecem. Ela se sustenta em bases frágeis. Surgem associadas ao 47 . como começar a discutir o que possa ser medicina popular? Vocês sabem por sua própria experiência de vida que há uma vasta gama de práticas e concepções de curas no país.que se opondo a elas. ou à explicação da doença e seu curso: estão associadas com práticas religiosas. Entre outros motivos porque elas não dizem respeito só à cura. para a música. O que devemos reter dessas discussões é o quanto as concepções de cultura e o próprio conteúdo da cultura estiveram sempre associados às relações entre as classes sociais: a oposição entre cultura erudita e cultura popular é um produto dessas relações. ou como festas populares podem ser momentos de manifestação da repulsa dos oprimidos contra os opressores.

como a umbanda e o candomblé. é um produto dessa história coletiva. e introduzidos pelas elites. Da mesma forma. embora seus benefícios e seu controle se repartam desigualmente. tanto em sua organização interna quanto em suas concepções. encontram forte expressão nos centros políticos e econômicos mais importantes. se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante. partilham um processo social comum. As classes dominadas existem em relação com as classes dominantes. Nesse sentido pode-se estabelecer um contraste com. transformaram-se com o processo de transformação do país. toda a produção cultural. não sei bem como se poderia insistir em que o futebol não é popular no Brasil. seja na sua organização. e nos dá indicações de como a população oprimida emerge na cultura com expressões fortes. por exemplo. O popular na cultura Deixando assim para trás essas preocupações polarizadoras. e a justiça . as instituições dominantes de origem européia. o sistema escolar. introduzidos no século passado entre setores das classes dominantes e provenientes da França. Mas é claro que nem o carnaval nem os cultos afro-brasileiros podem ser entendidos exclusivamente da ótica dessa origem que se pode chamar de popular. uma questão permanece: o que é ou pode ser considerado popular na cultura? Os cultos afro-brasileiros.processo político e representam projetos para as classes dominadas que partem das classes dominantes. será notado que o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras. como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro. tornando-se um legado de toda a população. seja na sua prática. Esse tipo de constatação é importante na medida em que nos leve a considerar as relações entre nossa cultura e nossa história. E se a educação. estes de origem européia. Raciocínios parecidos poderiam ser feitos em relação ao espiritismo e à homeopatia. De fato. são populares? E o carnaval? E o futebol? E o sistema escolar. com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações. é o resultado dessa existência comum. hospitalar e jurídico. como as citadas anteriormente. hospitalar. a 48 . Desfaz-se assim a idéia frágil de que uma parcela tão fundamental da sociedade possa ser vista como uma realidade isolada no plano cultural. Este sim é o cerne da questão da cultura em nossa sociedade. Afinal é obviamente como parte do processo histórico da sociedade como um todo que ambos encontram condições de generalização.o que disso tudo é popular? Vemos pelo simples anunciado das questões que a indagação sobre o que é popular na cultura deve ser considerada com cuidado. Apesar de sua origem. Transformam-se com o país e deixam de ser exclusivamente associados a uma parte da população. o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem. do qual não detêm o controle. As confusões que esse tipo de polarização podem provocar nos convidam a considerar a cultura nos processos sociais comuns desta sociedade de tantas contradições e conflitos de interesse. próprias. generalizadas e reconhecidas. Assim. Pode-se dizer que as questões acima dizem respeito a dimensões de nossa vida social que têm origens históricas diferentes. a saúde. Consolidamse com o crescimento das cidades do país. A produção cultural.

buscando sua manifestação nos processos culturais comuns. Ao falarmos então do popular na cultura nós tentaríamos ver em que medida essas características se manifestam culturalmente. Pode-se assim discutir o que seja cultura de classe. que seja mesmo um patrimônio seu. Em certo sentido. ainda. nunca entendimento da vida social.justiça não atendem aos interesses de toda a população. Para tentar reter o que é popular na cultura. em cultura popular ou cultura de classe pode ter implicações diferentes. procurar localizar características da cultura operária. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população. De modo que para resgatar essas preocupações com cultura popular será necessário relacioná-las sempre com os processos sociais que são próprios às populações às quais se referem. Falar. para indagarmos a respeito de qual é exatamente o recorte da vida social ao qual cultura popular se refere. definiríamos o setor da população de acordo com a realidade cultural. São populações bem diversas. à saúde pública. em outro. falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população. conseguiram acesso à escolarização. só tem algum sentido falar em popular na cultura para marcar tudo que tenha a ver com o crescimento e fortalecimento das classes dominadas. nós estaríamos enfatizando. por exemplo. Pode revelar preocupações que não são as mesmas. teríamos de separar do popular os setores operários que através de suas lutas. Retomemos agora aquelas questões com as quais iniciei esta parte. que seja característico dela. mas nem sempre é esse o caso. Isso produziria apenas confusão. Ao contrário. porém. isso sim. Julgo que essa atitude básica deva ser mantida quando se pensar em cultura em relação a outros recortes da vida social. A categoria povo. mas às desigualdades sociais que mercam a nossa sociedade. levando aquela polarização ao limite. Notem que isso é bem diferente de inventar uma cultura popular oposta a uma cultura erudita. isso não se deve à sua origem. à habitação etc. incluindo-se nela os pequenos proprietários rurais ou urbanos. Mesmo com toda a falta de homogeneidade de que já falei. A mensagem política pode ser a de preservar e 49 . É preciso assinalar. que nem todo recorte da vida social tem o mesmo significado para a análise cultural. como a população mais pobre. Observem que uma insistência em opor popular e erudito acabaria por operar às avessas: ao invés de nos preocuparmos com a realidade cultural de um setor da população. Assim. Assim. Nós não estaríamos esperando encontrar formas de conhecimento e instituições necessariamente separadas de acordo com as classes sociais. é ainda mais difícil de definir do que classe social de que falamos no início. como toda a população trabalhadora. processos que exigem sempre que se refira à sociedade como um todo. à qual a expressão faz menção. as características sociais básicas da sociedade. quando falei sobre as relações entre aspectos da vida social e a cultura. nós poderíamos considerar que essas populações têm algumas características básicas derivadas de sua posição comum de inferioridade nas relações de poder na sociedade. povo pode ser entendido como sendo toda a população de um país. indicar visões diversas da sociedade e da vida política. nós poderíamos procurar entender quais são as expressões culturais dos processos sociais vividos pelas classes dominadas. em outro. como se vê. ver enfim como a opressão e a luta para superá-la marcam a esfera cultural.

pode implicar a consideração da relação das classes sociais entre si. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversificadas populações que formam essas sociedades. da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas. mas também ajuda a produzi-la. como já disse. A comunicação de massa No caso das modernas sociedades industrializadas é comum que elas sejam consideradas como sociedades de massa. Na dimensão cultural é sempre possível antever e propor alterações nas condições de existência da sociedade. não é um espelho amorfo. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. A cultura é criativa. entender como se realiza a desigualdade social. fazê-las produzir. A questão principal aqui é saber como as características centrais da sociedade como um todo podem ser detectadas no plano cultural. tanto porque está ligada à manutenção de concepções e de formas de organização e de vida. Assim. que seja homogêneo para toda uma classe social. Apesar das diferenças que pode haver entre as duas preocupações. pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura. Elas também têm sua dinâmica própria. quanto porque está ligada à transformação destas. A discussão sobre cultura de classe pode ter uma ênfase diferente. falar em cultura de classe tem dificuldades em comum com o estudo da cultura popular. demonstram grande variação interna. As manifestações culturais não podem ser totalmente reduzidas às relações sociais de que são produto. De qualquer modo. O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar localizar os núcleos mais importantes de sua existência social. têm contornos imprecisos na prática. ultrapassando barreiras de classe social e facilitando.valorizar esse patrimônio. Tenho insistido em que ao pensar em cultura é preciso considerar os processos sociais que dizem respeito à sociedade como um todo. procurando a expressão cultural deles. como se dá o exercício do poder na sociedade. Uma sociedade assim exige mecanismos culturais adequados. A mensagem política pode ser aí a da transformação dessas relações sociais. As próprias classes sociais. a cultura não é um mero reflexo dos outros aspectos da sociedade. por essas 50 . devemos ficar atentos para o fato de que o modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela. capazes de transmitir mensagens com rapidez para grandes quantidades de pessoas. também é fato que mantém com estas relações fundamentais. É difícil elaborar um rol de suas características que seja acabado. Ela é produto dessa sociedade. onde as instituições dominantes têm de prover e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos. Mas se a cultura não está presa a uma camisa-de-força das outras dimensões da sociedade. consumir e se conformar com seus destinos e sonhos. A cultura mantém relações complicadas com a sociedade de que faz parte. as relações que definem essa existência. definitivo. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo. É preciso ressaltar que nem sempre as preocupações com cultura popular ou cultura de classe têm exatamente essas implicações políticas e de visão da sociedade.

Assim. O ritmo acelerado de produção e consumo. Eles também difundem maneiras de se comportar. recrutamento de mão-de-obra especializada. esses meios de comunicação de massa fazem parte da paisagem social moderna. produção de bens e serviços. Tais meios de comunicação não só transmitem informações. niveladora. não só apregoam mensagens. de pensar. principalmente. Da mesma forma. é um elemento muito importante dessas sociedades modernas. no lazer. na educação. Ela seria uma característica vital deste século. no meio urbano ou rural. modos de organizar a vida cotidiana. de arrumar a casa. e estão sem dúvida associados ao exercício do poder e à ordenação da vida coletiva. propõem estilos de vida. a indústria cultural. Tais instrumentos seriam. Assim. na vida profissional. com todo suposto poder de homogeneização que têm os meios de comunicação de massa. Eles penetram em todas as esferas da vida social. Parecem dirigir-se a cada indivíduo particularmente. a televisão. de lutar. não parece que sejam capazes de produzir uma massificação tão eficaz a ponto de substituir totalmente a percepção que seus consumidores têm de suas relações sociais e de suas vidas. de amar. o controle das massas. ainda que muito forte. teria o núcleo de sua existência num setor específico de atividade. o controle sobre as mensagens transmitidas. de sonhar. o rádio. principalmente nos períodos de expansão das economias desses países. Há também que considerar que as populações a que esses meios de comunicação se dirigem estão expostas a dificuldades sociais concretas e às tensões da vida cotidiana. embora suas mensagens sejam comuns a todos e procurem gerar necessidades e expectativas massificadas. essas sociedades industriais têm 51 . nem a lógica do funcionamento da indústria cultural é necessariamente uma descrição da dimensão cultural da sociedade. Mas por mais homogêneo que fosse seu conteúdo. Além do mais. nas atividades religiosas. Do mesmo modo. essas sociedades continuam fortemente diferenciadas internamente. centrada nesses meios de comunicação de massa. Essa cultura homogeneizadora. e suas histórias recentes são marcadas por conflitos de interesses entre classes e grupos sociais diversos. é o amaciamento dos conflitos sociais. a começar do fato de que nela mesma os conflitos entre proprietários e empregados são comuns. São meios de comunicação poderosos. A própria indústria cultural não é imune às contradições da vida social. na participação política. Não há dúvida de que a indústria da cultura. Examinemos um pouco essas questões. desenvolvimento de novas técnicas. No entanto. As mensagens e informações circulam com velocidade compatível com a dos produtos materiais dessas sociedades. Por todas essas razões.razões. A lógica de sua maneira de funcionar é a homogeneização da sociedade. a cultura na sociedade contemporânea não se reduz ao conteúdo dos meios de comunicação de massa. uma marca indiscutível da civilização mundial que se forma. de se vestir. a indústria cultural é ela mesma uma esfera de atividade econômica. esses meios de comunicação são elementos fundamentais da própria organização social. não é absoluto. a imprensa e o cinema. Na sua produção há muita padronização de formas e controle do conteúdo do que é transmitido. É certo que os meios de comunicação também trabalham sobre essas esferas e procuram dar-lhes explicações e soluções. de sofrer. anda acompanhado de uma comunicação rápida e generalizada. com inversões de capital. maneiras de falar e de escrever.

conseqüência das formas como a nação se produziu. dessa maneira. códigos de ação. Observem que mesmo o confronto entre as classes sociais e seus interesses tem a cultura e a nação como marcos e panos de fundo inevitáveis. também sofrem alterações constantes. mas não são a cultura dessa sociedade. Podemos observar com firmeza que o confronto entre as classes sociais transforma tanto a cultura quanto a nação. Mesmo assim. resultado de processos seculares de trabalho e produção de lutas sociais. apesar do suposto monolitismo e da suposta eficácia totalitária da cultura que produz para as massas. e acreditando que a cultura da sociedade contemporânea está sintetizada naquilo que esses meios dizem. mais do que a língua. sem levar em consideração a ambas. Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social. mas não se pode dizer que prescinda delas. Mas para entendermos adequadamente a sua importância é preciso considerar os meios de comunicação de massa como elementos da vida social. portanto. As mensagens da indústria cultural. projetos de desenvolvimento.mudado. já falamos disso exemplificando com a Alemanha. os costumes. Cultura e nação são dimensões de referência necessárias para se entender o mundo contemporâneo. ambas são áreas de preocupação que estiveram associadas de perto em seu desenvolvimento. em que medida podemos falar de cultura nacional? Já vimos que entre cultura e nação há relações antigas. Nesse sentido. os quais de resto são também dinâmicos. podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. resultado e aspecto de um processo histórico particular. podem fazer parte de um projeto dos interesses dominantes da sociedade. que as possa ignorar. Antes. A cultura nacional é. corremos o risco de nos enganarmos. em seus planos de vida. as tradições de um povo. em seus modos de agir. com propósitos de homogeneização e controle das populações. Ela é. Do mesmo modo não se pode compreender as tendências constatáveis na atualidade de fortalecimento de vínculos internacionais e de formação de uma civilização mundial. a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais. estudando apenas as mensagens que esses meios de comunicação expressam. mas que se realizam em contextos sociais mais amplos. Mas a relação entre ambas é mais ampla do que isso. os países das Américas. não há dúvida de que essa cultura voltada para as massas é um elemento importante da discussão a respeito de cultura na sociedade moderna. já que ambas lhe fornecem arenas institucionais. como uma dimensão da sociedade e de sua história. cultura é um conteúdo do que se entende por nação. o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. Sua presença produz conseqüências objetivas nas visões de mundo das várias camadas da população. elementos que não são absolutos. a transformação da sociedade exige sempre que o potencial tanto da cultura quanto da nação seja considerado. a Rússia. Cultura nacional Se considerarmos cultura em relação à sociedade como um todo. 52 . É uma realidade histórica. Se não fizermos isso.

estão sempre ligadas a uma maneira de encarar a sociedade. É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos comportamentos. e esteve ligado à busca de diferenciação em relação às sociedades européias.Pode-se. então. sujeitas a transformação. Esses dois exemplos que dei podem assim vir acompanhados de uma visão conservadora da sociedade. portanto. mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder. o que faz parte da cultura comum? Pode-se argumentar que se cultura é dimensão do processo social. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro. entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional. valorizam de modo diferente aspectos da dimensão cultural. para definir os aspectos que a fazem única. e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. importante para entender as relações internacionais. Notem que nem por isso as populaç5es indígenas existentes conseguiram garantir a posse de suas terras. pois. importante nos processos internos dessa sociedade. apesar de sua presença maciça na população durante séculos. e isso sugere que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. Discutir sobre a cultura comum pode. e sua ênfase pode: levar a ignorar as lutas sociais em prol de uma vida melhor para a população. ser uma maneira de tentar alterá-la. a pergunta não se justifica muito: todas as manifestações dessa dimensão fazem parte da cultura comum. indígenas e africanos na formação da cultura brasileira. A discussão sobre cultura nacional tem sido um terreno fértil para a legitimação das relações de poder na sociedade. de mudar seu desenvolvimento. ao menos provisoriamente. Vejam. As definições sobre o que venha a ser a cultura brasileira são. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática. havendo então certa disputa sobre o grau de importância de europeus. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho. Por razões diferentes as elites brasileiras deram muito valor no passado à herança indígena de nossa cultura: isso se deu acompanhando a consolidação da independência do país do domínio colonial europeu. Essa discussão implica sempre como se entende os destinos de uma sociedade. os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. da mesma forma. Mas. por exemplo. assim. É claro que isto está ligado a uma maneira de ver a sociedade enfatizando suas elites. para delinear suas características. de uma hierarquia entre eles. No entanto. Seja 53 . Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão. não é assim que as coisas se passam: ao se falar em cultura brasileira. No entanto um aspecto foi comum: a tendência a minimizar a importância das populações de origem africana. No passado foi muito comum atribuir valores diferentes às contribuições dos grupos humanos que constituíram a população brasileira. mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. uma dimensão dinâmica e viva. sempre valorativas. que há problemas para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional. desigual. Isso porque não faz sentido discutir sobre cultura sem explicitar a visão que se tem da sociedade e as opiniões que se tem sobre seu futuro. há uma disputa para saber quais manifestações dessa dimensão cultural devem ser consideradas como fazendo parte dela. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode encontrar exemplos.

Nesse período. mas também para pensarmos as próprias relações internacionais. formas. É importante ressaltar que a ciência e a tecnologia são aspectos da cultura por causa do impacto direto que têm nos destinos das sociedades atuais. e que derivam da história de cada sociedade particular. por exemplo. as maneiras como a ciência e a tecnologia existem no país são também resultado de outros fatores além dos mencionados acima. pensar que a cultura comum seja um conjunto delimitado de características consagradas. instituições se relacionam. nas universidades e centros de pesquisa. posto que há uma concentração de desenvolvimento científico e tecnológico nas nações mais poderosas. desenvolveram uma rede de instituições religiosas. É enganoso. pois. produtos. Ele é uma das bases da continuidade e da transformação de uma sociedade. Ao pensarmos sobre cultura. há sempre uma seleção ou rejeição de elementos de dentro da experiência histórica acumulada. técnicas. Voltemos a eles. Assim. matéria de produção. É que o legado cultural comum é um bem do qual diferentes tendências dentro da sociedade procuram se apropriar. Essas instituições são controladas pelas classes dominantes da sociedade. das relações entre a cultura e a sociedade no Brasil que são comuns a outros países semelhantes. Notem que nesse sentido o controle do conhecimento é relevante não só para pensarmos as relações entre as classes sociais no interior da sociedade. as maneiras como seus setores. O seu controle é um dos aspectos das relações de poder contemporâneas. das instituições existentes e de sua dinâmica. As disputas no interior de uma sociedade a respeito das alternativas para sua existência tanto se expressam na dimensão cultural como se beneficiam de sua riqueza. de decisões tomadas no passado. É dessas disputas que fazem parte os modos diferentes de entender a cultura comum. Isso é muito importante nessas sociedades e temos de considerá-la ao pensarmos em sua cultura. formando uma teia que condiciona seu próprio desenvolvimento. diferentemente de outros países. Entre a cultura e a sociedade há também planos de relacionamento mais específicos. suas concepções. resultado de um século de existência no país. Assim. pois a delimitação desses conjuntos e a sua própria consagração fazem parte de movimentos contemporâneos. como vimos ao longo desta parte. a ciência e a tecnologia em particular são objeto de trabalho. Assim. Apenas para dar um exemplo bem diferente daquele plano de relacionamento: o espiritismo e o espiritualismo têm uma presença bem marcada na vida cultural do Brasil. É a história de cada sociedade que pode explicar as particularidades de cada cultura. podemos estabelecer entre ela e a sociedade vários planos de relacionamentos. o conhecimento em geral. Da mesma forma é enganoso pensar que a história da sociedade seja irrelevante para entender a sua cultura. Estão sempre ligados ao confronto de interesses em curso. de caridade. que são transformados em esferas de atuação separadas dentro da sociedade. O conhecimento acumulado e suas manifestações são produtos históricos da vida de uma sociedade e de suas relações com outras sociedades. de ensino. 54 . A tendência a pensar na cultura como algo meio separado do processo produtivo leva a ignorar essa questão importante. por exemplo. Poderosas instituições consolidam essa dissociação. dos setores em que a capacidade e a necessidade de investigação mais se desenvolveram. Há aspectos importantes.como for. podemos notar que nas sociedades de classe se opera uma dissociação entre a produção material e o conhecimento.

econômica e cultural seja eliminada. ao mesmo tempo a expressa e a modifica. aos menores abandonados. indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural. quais as instituições a ela ligadas mais de perto. as mensagens políticas que contêm. como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve. tem sua dinâmica. mas esta é uma realidade que sempre se impõe. Nunca é demais ressaltar que nenhum grupo no interior de uma sociedade tem uma cultura autônoma ou isolada. as concepções nela presentes. Competiram com o catolicismo e as religiões afro-brasileiras no plano religioso. CULTURA E RELAÇÕES DE PODER Podemos entender cultura como uma dimensão do processo social e utilizá-la como um instrumento para compreender as sociedades contemporâneas. como. a questão merece que pensemos um pouco mais sobre ela. Por tudo isso. como dimensão do processo social. categorias de pessoas. Há outras maneiras de estudar a cultura. Eu mesmo iniciei esta parte mostrando que a diversidade da vida social poderia sugerir uma multiplicidade de manifestações da cultura. E também porque. mas também com os sistemas públicos de educação. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação. por exemplo. A cultura em nossa sociedade não é imune às relações de dominação que a caracterizam. Saber e poder O que quer dizer que as preocupações com cultura desenvolveram-se associadas às relações de poder? Lembrem-se que elas se consolidaram junto com o processo de formação de nações modernas dominadas por uma classe 55 . se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes. à experiência histórica. Além disso. O que interessa é que a sociedade se democratize. O que não podemos fazer é discutir sobre cultura ignorando as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam. Assim é porque as próprias preocupações com cultura nasceram associadas às relações de poder. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. Podemos. outros recortes a fazer. Expressaram uma mensagem de progresso lento e inevitável de larga aceitação pelas camadas sociais que se formaram no panorama urbano brasileiro no último século. por exemplo. Notem bem: o estudo da cultura não se reduz a isso. por exemplo. e que a opressão política. é claro. Desenvolveram sistemas adequados de divulgação de suas idéias e formação em suas doutrinas.editoriais e outras. Mas é ingênuo pensar que. de atendimento à doença. A discussão de cultura sempre remete ao processo. a cultura registra as tendências e conflitos da história contemporânea e suas transformações sociais e políticas. outras ênfases a dar. de grupos. É sempre necessário fazermos referência aos processos sociais mais amplos ao discutirmos questões culturais. ela deve ser por isso jogada fora. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação. Para entender o seu crescimento no país tudo isso precisa ser levado em consideração. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado.

o analfabetismo. então não haverá como emitirmos juízos de valor sobre o que ocorre na história: também a opressão. As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. ou a uma idéia de onipotência dos interesses dominantes. com empresas diretamente voltadas para ela. pois se encararmos o que ocorre na dimensão cultural como relativo a cada cultura ou a cada pequeno contexto cultural. Por outro lado. da mesma forma. capaz de explicar a vida da sociedade e o comportamento de seus membros: se a cultura não mudasse não haveria o que fazer senão aceitar como naturais as suas características. Da mesma forma.social. junto ainda com uma marcada expansão de mercados das principais potências européias. entendê-la. que rompia com o domínio da interpretação religiosa. e continuam sendo instrumentos de conhecimento ligados ao progresso social. por exemplo. e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força. procuram defini-la. Também os aspectos da história comum 56 . É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. Note que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura. Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso. Continuam associadas com as formas de dominação na sociedade. Assim. Cultura e equívoco Com tudo isso. como pode ser o caso com a maneira de encarar a indústria cultural ou as instituições públicas diretamente ligadas à cultura. de características acabadas. Como vocês podem ver. a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações. não é surpresa constatar que o modo de conduzir a discussão sobre cultura possa ser entendido pela associação que tenha com essas relações de poder. controlá-la. Vimos como o relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e da relação entre povos e nações. as preocupações com a cultura são institucionalizadas. a cultura é uma esfera de atuação econômica. agir sobre seu desenvolvimento. como no caso da oposição entre erudito e popular. Expressam seus conflitos e interesses. Há instituições públicas encarregadas disso. acompanhando o desenvolvimento industrial do século passado. transformando a sociedade e a vida em esferas que podiam ser sistematicamente estudadas para que se pudesse agir sobre elas. e estariam justificadas assim as suas relações de poder. como. a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque. Vimos como a discussão sobre cultura pode conduzir a falsas polarizações. também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. Nesse sentido podemos constatar como os interesses dominantes da sociedade podem ser beneficiados por tratamentos equivocados da cultura. respondem a necessidades de conhecimento da sociedade. consolidaram-se integrando a nova ciência do mundo contemporâneo. fazem parte da própria organização social. as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder. o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite. as preocupações com a cultura mantêm sua proximidade com as relações de poder. as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento.

a compreensão de que suas características não são absolutas.de um povo podem ser selecionados e valorizados. apropriação. de Antônio Augusto Arantes Neto. mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos. como ocorre em discussões sobre a cultura nacional. desigualdades no plano cultural. assim. as quais estão cada vez mais interligadas pelos processos históricos que vivenciamos. 57 . afirmando que num sentido mais amplo e também mais fundamental. e contra as desigualdades básicas das relações sociais no interior das sociedades. INDICAÇÕES PARA LEITURA São inúmeros os textos que tratam de temas abordados neste trabalho. É bom que seja dessa forma. A relação a seguir destina-se àqueles que estão se iniciando nessas preocupações. mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas. não respondem a exigências naturais. É uma relação pequena. Retomamos. Elas se dão no contexto das muitas sociedades existentes. e procurei indicar trabalhos que me parecem de fácil acesso. Da mesma maneira vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais. O que nesse aspecto ocorre no interior das sociedades contemporâneas ocorre também na relação entre as sociedades. os temas com que iniciamos este trabalho. e vocês poderão constatar que nem sempre expressam opiniões coincidentes com as apresentadas aqui. Isso se deve ao fato de que as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas. e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. Cultura e mudança social A cultura é uma produção coletiva. São lutas pela transformação da cultura. no entanto. de tal modo que a apropriação dessa produção comum se faz em benefício dos interesses que dominam o processo social. Quanto à cultura nacional. É importante insistir. não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. cultura é o legado comum de toda a humanidade. pois podemos concluí-lo. e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura. Eles incluem maneiras diferentes de tratar os temas da cultura. podemos destacar os seguintes: O que é cultura popular. É por isso que as lutas pela universalização dos benefícios da cultura são ao mesmo tempo lutas contra as relações de dominação entre as sociedades contemporâneas. de modo a ressaltar interesses estabelecidos. a própria cultura acaba por apresentar poderosas marcas de desigualdade. Há aí controle. Assim. E como conseqüência disso. Dentre os incluídos na Coleção Primeiros Passos.

onde o estudo dos carnavais ocupa posição de relevo. A Cultura do Povo. reunindo escritos de épocas diferentes. seu povo e cultura. Os textos têm graus variados de complexidade. Zahar Editores. Editora Tempo Brasileiro. Editora Ática. Cortez e Moraes Editores. Os Brasileiros: 1. de Peter Fry. preocupados com identidade e política. Editora Pioneira. Difusão Européia do Livro. Análise aprofundada da formação da sociedade brasileira. e outra. Malandros e Heróis. política americana. Mariátegui. Interpretação abrangente da formação do país.O que é ideologia. de Roberto da Matta. Zahar Editores. centrando nas relações entre as desigualdades raciais e sociais do país. Carnavais. organizado por Edênio Vale e José Queiroz. Coletânea de textos do pensador e político peruano agrupados em 4 sessões: ideologia. As dificuldades que o texto pode oferecer aos que se iniciam nessas reflexões são superáveis através de uma leitura dedicada. organizado por Manoel Bellotto e Anna Maria Correa. Contém textos de vários autores sobre as questões da cultura popular. O Negro no Mundo dos Brancos. política internacional. onde desenvolve uma análise sistemática das concepções sobre o Brasil e o caráter nacional brasileiro desde o século XVI. discute as diferenças entre as culturas humanas e as maneiras de ordená-las. de CIaude Lévi-Strauss. Interpretação do Brasil a partir de uma análise de sua cultura. São também analisados dois heróis da cultura a partir de fontes literárias. de Dante Moreira Leite. Situa o Brasil em relação aos países das Américas e discute suas estruturas sociais e de poder. procurando desvendar seus conteúdos ideológicos. da qual destaco o texto intitulado "Raça e História". 58 . de Darcy Ribeiro. São textos no geral claros e de fácil leitura. partindo de uma comparação com as paradas e as procissões. Os textos têm linguagem acessível. O Caráter Nacional Brasileiro. Contém uma sessão de discussão teórica das concepções de cultura nacional. Coletânea de ensaios abordando temas da cultura brasileira. Editora Vozes. Para Inglês Ver. cultura de classes e suas relações. e focalizados em aspectos da influência africana no Brasil. de leitura mais acessível. Teoria do Brasil. ainda que contenham vocabulário específico ao meio acadêmico. de Florestan Fernandes. A compreensão do texto pode ser dificultada se o leitor não tiver familiaridade com a linguagem sociológica. arte e educação. de Marilena Chauí. Coletânea de trabalhos do antropólogo francês. Escrito para a UNESCO e destinado a um público geral. Sugiro também: Antropologia Estrutural II. Dirigido a um público amplo. Dirigido ao público universitário.

Em outras palavras. quando um homem encontra sua sogra os dois se agridem mutuamente e cada um se retira com um olho roxo”. às vezes. justamente por levar o estudioso a tomar contato direto com seus pesquisados. isso não poderia ocorrer. para Malinowski. ligar-se a nenhuma compilação de costumes exóticos e na qual o etnólogo teria como objetivo a reprodução de uma lista infindável de “fatos”. tais como: “Entre os brobdignacianos. Assim. ficou patente a importância do trabalho de campo ou pesquisa de campo como um modo característico de coleta de novos dados para reflexão teórica ou. Nós já vimos como essa virada metodológica que se cristaliza na pesquisa de campo (e a constelação de valores que chega com ela) está profundamente associada ao chamado funcionalismo ou ao que denomino “revolução funcionalista”. qual seja: como uma vivência longa e profunda com outros modos de vida. que se ajustar. portanto. ao fazer com que a Antropologia deixasse de colecionar e classificar curiosidades ordenadas historicamente. rituais exóticos e “costumes irracionais”. como o laboratório do antropólogo social. para lançálo nas incertezas das viagens em mares povoados de recifes de coral. ou “Quando um brodiag encontra um urso polar. transformou nossa ciência. O controle da experiência. o etnólogo realizava a sua experiência em solidão existencial e longe de sua cultura de origem. “Na antiga Caledônia. já que o antropólogo social seria o último a buscar sua alteração como um teste para suas teorizações. o urso o persegue”. do tipo realizado pelo psicólogo experimental na sua prática. Enquanto o cientista natural poderia repetir seu experimento. mas a todos os aspectos práticos que tais mudanças demandam. Tal postura conseguiu arrancar o pesquisador de sua confortável poltrona fixa numa biblioteca em qualquer ponto da Europa Ocidental. como gostavam de colocar certos estudiosos de visão mais empiricista. Na sua disciplina estava fora de questão a experiência desenhada e fechada. introduzindo ou retirando para propósito de controle suas variáveis. mas ficava inteiramente aberta a experimentação num sentido mais profundo. no caso do antropólogo. ou. Deste modo. no limiar do século XX. ele costuma fugir e. conforme chamou nossa atenção tantas vezes Radcliffe-Brown. conforme disse Malinowski. Tal mudança de atitude. na sua observação participante. ainda. quando um nativo acidentalmente encontra uma 59 . esclarecedoras e dignificantes para a pesquisa científica”. a Antropologia Social não poderia. começou a abandonar a postura evolucionista. a pesquisa estava limitada pelo próprio ritmo da vida social. teria que ser feito pela comparação de uma sociedade com outra e também pela convivência com o mundo social que se desejava conhecer cientificamente. se o cientista natural tinha o seu aparato instrumental concreto para repetir experiências no teste de suas hipóteses de trabalho. obrigando-o a entrar num processo profundamente relativizador de todo o conjunto de crenças e valores que lhe é familiar. não somente a novos valores e ideologias. tudo isso em condições específicas. com outros valores e com outros sistemas de relações sociais. Freqüentemente. o etnólogo o experimentava de modo diverso.TRABALHO DE CAMPO Roberto da Matta O Trabalho de Campo na Antropologia Social A partir do momento em que a Antropologia. “numa das disciplinas mais profundamente filosóficas. tendo. portanto.

teórico ou filosófico. como o instrumento básico na transformação da Antropologia Social numa disciplina social. Ou seja. caso a nossa tarefa fosse a de traçar uma detalhada história do método antropológico. entretanto. porém. compreender nossa própria natureza e refina-la intelectual e artisticamente. isto é. um conjunto coerente de vozes. gente do porte de Franz Boas. Como diz o mesmo Malinowski. A base do trabalho de campo como técnica de pesquisa é fácil de justificar abstratamente. É. Deste modo. como vimos. lembra o modo pelo qual os evolucionistas clássicos escreviam seus relatórios de pesquisa: como uma espécie de catálogo telefônico cultural. Trata-se. basicamente. na listagem dos costumes humanos dispostos em linha histórica. implacavelmente satirizada por Malinowski na citação anterior. a qual poder-se-iam somar outras feitas por antropólogos pioneiros. articulações e valores. logo a seguir: “Há. sobretudo. não há nenhum antropólogo contemporâneo que não tenha sido submetido a essa experiência tão importante quanto enriquecedora. um conjunto coerente em si mesmo. o que. de 60 . Ao captar a visão essencial dos outros com reverência e verdadeira compreensão que se deve mesmo aos selvagens. De tudo o que permite tornar qualquer sociedade. essa descoberta tão simples e tão crítica que permitirá o nascimento da visão antropológica moderna. Nosso objetivo final ainda é enriquecer e aprofundar nossa própria visão de mundo. ridículos”. após o que começa imediatamente procurar outra garrafa” (cf. um ponto de vista mais profundo e ainda mais importante do que o desejo de experimentar uma variedade de modos humanos de vida: o desejo de transformar tal conhecimento em sabedoria. traduz a essência da perspectiva antropológica. Evans-Pritchard. estamos contribuindo para alargar nossa própria visão” (Malinowski. É a descoberta desta coerência interna que torna a vida suportável e digna para todos. como disse Malinowski. como um autêntico ponto de vista. com sorte. em qualquer ponto do planeta. o papel da Antropologia e produzir interpretações das diferenças enquanto elas formam sistemas integrados. Embora possamos por um momento entrar na alma de um selvagem e através de seus olhos ver o mundo exterior e sentir como ele deve sentir-se ao sentir-se ele mesmo. Essa sábia reflexão de Malinowski. na sua busca daquilo que é essencial na vida dos outros. com qualquer tipo de tecnologia. olhá-lo como uma curiosidade e colecioná-lo no museu da própria memória ou num anedotário – essa atitude sempre me foi estranha ou repugnante”. seja do ponto de vista pessoal. reflexões. “fazia com que nós antropólogos parecêssemos idiotas e os selvagens. gestos. sobretudo em outra sociedade. onde a idéia de classificar e. de colecionar todos os costumes era um objetivo evidente. permite localizar. 1976: 374). teorizar. tornava-se impossível reduzir uma sociedade (ou uma cultura) a um conjunto de frases soltas entre si. deleitar-se com ele e ver sua singularidade aparente. Isso porque a vivência propriamente antropológica – aquela nascida no contato direto do etnógrafo com o grupo em estudo por um período relativamente longo – dava a perceber o conjunto de ações sociais dos nativos como um sistema.garrafa de uísque pela estrada. bebe tudo de um só gole. Tal estilo de reproduzir a experiência com os nativos. discernir e. 1978: 22). dando-lhes um sentido pleno que a experiência de trabalho de campo. A partir do advento do trabalho de campo sistemático. Como disse Malinowski num dos seus grandes momentos de reflexão: “Deter-se por um momento diante de um fato singular e estranho.

que eles podem falar de “suas tribos”. quando a experiência da disciplina está voltada para o estudo de novas sociedades. bem como revoluções nos esquemas interpretativos utilizados até então. como queria Tylor na sua colocação mínima e clássica do domínio religioso. “classes sociais”. na geração seguinte. realizando essa dialética da experiência concreta com as teorias aprendidas na universidade. Todo antropólogo realiza (ou tenta realizar). O resultado é que a Antropologia é certamente a disciplina que mais tem posto em dúvida e risco alguns dos seus conceitos e teorias básicas. destes dilemas que a disciplina tende a se nutrir. Assim. nada mais representam do que a própria sociedade na sua totalidade. Durkheim. trazidas pela pesquisa de campo em profundidade. E isso pode provocar novas revelações teóricas. Ou melhor. em vez de buscar a religião como uma relação entre homem e Deus (ou nós os mortais e os espíritos. dos viajantes. sejam elas as dos cronistas. seja porque as novas descobertas. Pois que se trata realmente de um treinamento onde se dá uma forte ênfase às conseqüências teóricas desta apropriação vivenciada nos conceitos e teorias aprendidos nos bancos da escola pós-graduada. Uma dessas contradições é o fato da disciplina renovar sistematicamente sua carga de experiências empíricas a cada geração. Mauss e outros situaram a problemática da religiosidade numa escala muito mais ampla e mais complexa. É porque os antropólogos conduzem sua existência como profissionais. é difícil não produzir sistematicamente esse “estado de dúvida teórica”.um modo de buscar novos dados sem nenhuma intermediação de outras consciências. Forçado pela orientação mais geral da disciplina – a de se renovar – os antropólogos têm duvidado de vários conceitos considerados básicos ao longo de muitas gerações. o seu próprio “repensar a antropologia”. “mitos”. forçam sempre uma nova abertura dos instrumentos anteriormente utilizados. “favelas”. tudo isso a partir de sua experiência concreta com o “seu” grupo tribal ou segmento de uma sociedade moderna por ele estudada. tentamos conduzir o neófito para que venha a desenvolver um diálogo com as outras correntes. quando há uma intervenção das igrejas. até as mais “complicadas”. “ideologias” etc. Esse contato direto do estudioso bem preparado teoricamente com o seu objeto de trabalho coloca muitos problemas e dilemas e é. Cada estudo desses traz não só a possibilidade de testar todos os conceitos anteriormente utilizados naquele domínio teórico específico. imortais por oposição e definição) e classificar o fenômeno religioso numa escala que ia de relações mais simples e mais diretas entre homens e deuses. Assim. De fato. seitas. portanto. a meu ver. pois é a partir dos seus próprios paradoxos que a Antropologia tem contribuído para todas as outras ciências do social. inclusive da nossa própria cultura. definindo (ou melhor. “comunidades”. segmento. Em vez de encorajar uma ampliação teórica no limite de certos problemas ou teorias já estabelecidas. como também o ponto de vista daquele grupo. a escola de Durkheim situa a 61 . classe social ou sociedade. dos historiadores ou dos missionários que andaram antes pela mesma área ou região. buscamos orientar o jovem pesquisador para uma perspectiva realmente pessoal e autêntica de cada problema. postura que – como nos revelou explicitamente Edmund Leach – é uma tarefa absolutamente fundamental para o bom desenvolvimento da disciplina. duvidamos das definições clássicas de religião “como crenças em seres espirituais”. neste contexto. conceituando) o fato religioso como uma relação entre os homens e grupos humanos estabelecida por meio dos deuses que. sacerdotes e sacrifícios. Isso porque. Seja porque a definição anterior era por demais estreita.

portanto. mas indicar como na antropologia – mais do que em qualquer outra disciplina – há uma longa. muito importante constatar como a Antropologia Social. Nossa intenção aqui não é resolvê-los. a não ser aquela que constitui talvez seu próprio esqueleto e que diz que nós sabemos apenas que não sabemos! A Antropologia Social é uma disciplina sem ídolos ou heróis. domínio considerado como especificamente antropológico desde que Morgan o fundou como esfera de reflexão sobre a singularidade social humana. para utilizar a noção de “sistema”. de “inconsciente” e revelar as diferenças entre sistemas sociais como formas específicas de combinações e de relações que são mais ou menos explícitas em sociedades e culturas segregadas pelo tempo e pelo espaço. de “funcionalidade”. de “sincronia”. Mas. não obstante. pois. Em parte. Tais problemas têm ocorrido em quase todos os domínios tradicionalmente estudados pelos antropólogos sociais e são variadas as suas respostas. essa multiplicidade da antropologia diz respeito à sua substância. e não parcelas de relações que o tempo. demonstrando como as formas mais elementares da vida religiosa reproduziam no plano ideológico as formas mais elementares de relacionamento social. Será. moral ou filosófica preestabelecida. De fato. muitas vezes de modo mais consciente do que se poderia imaginar. pois. Não pode ser o “sangue” ou outra substância básica. Trata-se de uma verdadeira postura filosófica. se ela é uma em seus objetivos e na sua posição de respeito extremo por todas as formas de sociabilidade diferentes (por mais “primitivas” e “selvagens” que possam parecer). sugerindo muitas vezes a sua substituição por uma noção de “campo” ou de “inconsciente”. seria o movimento pelo qual o inconsciente estrutural seria realizado e limitado e não somente a zona de sua invenção e criação. sem messias e teorias indiscutíveis e patenteadas. gerada pela contradição básica da disciplina: o fato de a Antropologia Social ao mesmo tempo uma e múltipla. saudável e tradicional base pluralista. É. uma língua pela qual se pode totalizar e expressar uma dada problemática? Mas e as relações primárias que todo ser humano desenvolve desde o seu nascimento? Todas estas dúvidas metodológicas acabaram por permitir que o pensamento antropológico abrigasse uma nova via de conhecimento do homem. muito embora tenha um enorme coração onde cabem todas as sociedades e culturas. Outro repensar se deu no campo dos estudos de parentesco. Hoje as discussões giram sobre qual o sentido e qual a essência disto que nós chamamos parentesco. pela qual o fenômeno humano é estudado. que permite vê-las como formas derivadas umas das outras. ela é múltipla na busca de seus dados de reflexão. assim. já que ela é uma filha dileta do colonialismo ocidental e é também uma ciência muita bem marcada pelos ideais do cientificismo europeu. deixou de submeter à sua pressão modificadora. ela tem crescido ao sabor das lições aprendidas em outras sociedades.problemática do fenômeno dentro da própria sociedade. de “estrutura”. um idioma. Múltipla justamente no sentido de não se prender a nenhuma doutrina social. Tais formas são transformações umas das outras num sentido mais complexo do que aquele dado pelo eixo exclusivo do tempo. caminho que pode abandonar o questionamento historizante. culturas e civilizações. Assim. Esta postura crítica tem permitido à Antropologia Social relativizar a própria idéia de tempo concebido historicamente. zona onde todas as possibilidades e todas as relações humanas seriam encontradas de forma virtual. como queria Morgan e seus contemporâneos. a Antropologia sugere que estas variações combinatórias são “escolhas” que cada grupo pode realizar diante dos desafios históricos concretos. A história. por algum capricho. 62 .

É. isso também entra na reflexão. estudando-o por todos os meios disponíveis. tem levado muito a sério o que dizem os “selvagens”. Pois foi realizando esse trabalho de aprender a “ouvir” e a “ver” todas as realidades e realizações humanas que ela pode efetivamente juntar a pequena tradição da aldeia perdida na floresta amazônica. da Psicologia. qualquer que seja a sua aparência. mas muito próxima da Lingüística. problemas e paradoxos. para um diálogo fecundo. submetida a todas as explorações políticas e econômicas. posto que se baseia num ponto crucial: que o nativo. eles são usados. se existem fatos econômicos. qual a racionalidade dos grupos tribais.sobretudo pela prática de viagens. portanto. tem razões que a nossa teoria pode desconhecer e – freqüentemente . enfim. da Ciência Política e da Economia. para chegar a esta postura (ou para chegar próximo a ela) que o etnólogo empreende sua viagem e realiza sua pesquisa de campo. Diferentemente. ele não fica de fora. fundada na compreensão e na tolerância que forma a base de uma verdadeira perspectiva da sociedade humana. dentro da perspectiva segundo a qual a intermediação do conhecimento produzido é realizada pelo próprio nativo em relação direta com o investigador. Ou seja. descobrir. da Geografia Humana. na postura às vezes difícil de ser entendida. da História. Nada deve ser excluído do processo de entendimento de uma forma de vida social diferente. então. Se existem fatos históricos. Mas tudo isso. as experiências humanas. enquanto antropólogo. Pois é ali que ele pode vivenciar sem intermediários a diversidade humana na sua essência e nos seus dilemas. a Antropologia Social toma como ponto de partida a posição e o ponto de vista do outro. Em tudo. como pensam os “primitivos”. que o “selvagem” tem uma lógica e uma dignidade que é minha obrigação. que permitirá relativizar-se e assim ter a esperança de transformar-se num homem verdadeiramente humano. 63 . convém sempre acentuar. da Sociologia. com a grande tradição democrática. se há material político.desconhece. pois com ela ocorre a possibilidade de recuperar e colocar lado a lado. desconhecida e ignorada no tempo e no espaço. Isso fez com que a Antropologia Social desenvolvesse uma tradição distinta das outras ciências humanas.

a que todo pesquisador considera hoje como incontornável (ou necessária). análoga a organizações vegetais. como diz Lévi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. de suas angústias. provém de uma ruptura inicial em relação a qualquer modo de conhecimento abstrato e especulativo. quaisquer que sejam as suas opções teóricas. que não estaria baseado na observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. “contra o teórico. uma grande quantidade de informações. ele próprio deve rezar com aqueles que o hospedam. comece sua exposição por uma “homenagem” ao “pensamento supersticioso”. na qual. O historiador. isto é. mais ainda. e que alguns ainda hoje preferem qualificar-se de “etnógrafos” – não consiste apenas em coletar. Não se pode. de seus ideais. o observador deve ficar com a última palavra. escreve Roger Bastide. Assim.UMA RUPTURA METODOLÓGICA: A Prioridade Dada à Experiência Pessoal do “Campo” François Laplantine A abordagem antropológica de base. só se pode fazê-lo comunicando-se com eles: o que supõe que se compartilhe a sua existência de maneira durável ou transitória. acrescentando: “Eu procurava uma compreensão mineralógica e. a etnografia é antes a experiência de uma imersão total. por exemplo. o indígena”. de fato. Pois a etnografia. se procura. mas em impregnarse dos temas obsessionais de uma sociedade. devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos. várias características a distinguem da prática antropológica considerada sob o ângulo que detém aqui a nossa atenção. e contra o observador. 64 . longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores”. de quem se considera um “aluno”. e “desencarnado”. Nunca encontra testemunhas vivas. estudar os homens à maneira do botânico examinando a samambaia ou do zoólogo observando o crustáceo. a cipós vivos”. como o antropólogo. e algo frio. O etnógrafo é aquele que deve ser capaz de viver nele mesmo a tendência principal da cultura que estuda. Quanto à prática da Sociologia. Para compreender o candomblé. dar conta o mais cientificamente possível da alteridade à qual é confrontado. “foi-me preciso mudar completamente minhas categorias lógicas”. de fato. através de um método estritamente indutivo. e termine o seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses índios do Brasil. Essa apreensão da sociedade. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres da sociedade que estuda. é que distingue essencialmente a prática antropológica – prática de campo – da do historiador ou do sociólogo. a sociedade tem preocupações religiosas. Recolhe e analisa os testemunhos. pelo menos em suas principais tendências clássicas. o autor da Antropologia Estrutural. Quanto a isso. A prática sociológica: a) Comporta um distanciamento em relação a seu objeto. que é fundadora da Etnologia e da Antropologia – a tal ponto que alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda síntese é sempre prematura. tal como é percebida de dentro pelos atores sociais com os quais mantenho uma relação direta. proclame que. Se. consistindo em uma verdadeira aculturação invertida. é significativo que Lévi-Strauss.

de estar atenta para que nada lhe seja escapado. de fato. De outro. tem algo de errante. Como também o encontro que surge freqüentemente com o imprevisto. em colocar-se o mais próximo possível do que é vivido por homens de carne e osso.. O antropólogo não pode.) sem correr o risco de abolir o que é a base da própria especialidade da sua prática. as ciências jurídicas. isto é. os erros cometidos no campo. pelo contrário. ser o caso do antropólogo.). anotado. as ciências econômicas. se tornar um especialista. constituem informações que o pesquisador deve levar em conta. de que este se esforça. Com a diferença. Não nos enganemos. isto é. com uma experiência que comporta uma parte de aventura pessoal.b) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. parece ser capaz de encontrar uma explicação e fornecer soluções. Trata-se. As ciências políticas se dão por objeto de investigação um certo aspecto do real: as instituições que regem as relações do poder. político. De um lado. as ciências psicológicas. demográfica. por razões metodológicas (e evidentemente afetivas). de que a sociologia clássica pensou poder tirar tantos benefícios científicos.. os processos cognitivos e afetivos. mesmo que não diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. A busca etnográfica. é claro. tudo deve ser observado. UMA EXIGÊNCIA: O Estudo da Totalidade Uma das características da abordagem antropológica é o seu esforço em levar tudo em conta. um grande número de temporadas passadas em contato com uma sociedade que se procura compreender não o transformará ipso facto em um antropólogo. No campo. Da mesma forma que o fato de ter alcançado uma analítica não garante que você possa um dia se tornar psicanalista. artificialmente isolados em relação à 65 . um perito de uma área particular (econômica.. o evento que ocorre quando não esperávamos. uma programação estrita de sua pesquisa. Objetar-se-á que pode. só adquire significação antropológica sendo relacionado à sociedade como um todo no qual se inscreve e dentro da qual constitui um sistema complexo. porém. A especialização científica é mais problemática para o antropólogo do que para qualquer outro pesquisador em ciências humanas. vivido. mas também em conseqüência de especificidade do modo de conhecimento que persegue. etc. cultural. quanto às virtudes do campo. isto é. porém. “o homem é indivisível” e “o estudo do concreto é o estudo do complexo”. não apenas por temperamento. social. porém.. As tentativas abordadas. c) O antropólogo evita. E a razão pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentalmente objetos não cabe no modo de conhecimento próprio da Antropologia. um outro: o sistema de produção e troca de bens. Pois a prática antropológica só pode se dar com uma descoberta etnográfica. jurídica. o direito. bem como a utilização de protocolos rígidos. o menor fenômeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dimensões (todo comportamento humano tem um aspecto econômico. é a rede densa das interações que estas constituem com a totalidade social em movimento. pois o que esta pretende estudar é o próprio contexto no qual se situam esses objetos. arriscando-se a perder em algum momento sua identidade e a não voltar totalmente ileso dessa experiência. os sistemas de crenças. Como escreve Mauss (1960). as ciências religiosas. de condições necessárias. Mas todos estes são para os antropólogos fenômenos parciais. psicológico.

que consiste em: 1) cumprir sempre a mesma tarefa. modificar ou transformar os fenômenos que estuda. do esporte. esta última disciplina não é mais hoje um pensamento da totalidade dando-se como objetivo compreender os múltiplos aspectos do homem.. por estar baseada no parcelamento de territórios e sobre uma forma de objetividade que as próprias ciências exatas descartaram há muito tempo. consumidor. Pessoalmente. é freqüentemente levada a participar desse processo que pode causar uma verdadeira mutilação do ser humano. sobre bases completamente diferentes (não mais a especulação sobre as categorias do espírito humano.. de fazer surgir um questionamento mútuo. supõe também. do multidimensionamento de seus aspectos e da totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significação inconsciente. A meu ver. a ciência e a filosofia. mas que corre o risco de cair no vazio. mais tocados do que outros. É a razão pela qual somos provavelmente. e o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia do lazer. é claro. É a razão pela qual muitos entre nós se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecialização. por meio da fragmentação e do desmembramento que impõe ao real. paradoxalmente. um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender e em relação à sociedade a qual pertenço). 2) tentar. em primeiro lugar. dada a fraca positividade dos seus objetos de investigação. O drama das ciências humanas contemporâneas é a fratura entre uma atitude extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral). Se olharmos mais de perto. o alcoolismo. Tal preocupação diz respeito também à natureza das sociedades nas quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogêneos. a criminalidade. de fato. o divórcio.. a partir de um fenômeno concreto singular. cidadão. e uma cientificidade extremamente positiva. para além de todos mos questionários. ser o especialista em uma única área. A prática da Antropologia. mais surpreendidos pela disjunção histórica absolutamente única que a nossa cultura realizou entre a ciência e a moral. como mostrou Husserl. baseada numa extrema proximidade da realidade social estudada. parente. o projeto que foi o da filosofia clássica. mas a observação direta de suas produções concretas). A própria Antropologia. a ciência e a religião. das condutas suicidas. nos quais as atividades são pouco especializadas e nos quais uma ideologia mestra (de tipo mitológico) dá conta da totalidade social. O projeto antropológico retoma hoje. e. enquanto antropólogos. O parcelamento disciplinar comporta. capazes de responder a essa definição: islamismo. de fato. está relacionada à abordagem menos diretiva e pragmática da própria prática etnográfica. comparada a outros modos de coleta de informações: trata-se. acaba destruindo o próprio objeto que pretende estudar. apenas três formas de pensamento são. por exemplo. o que nos levaria à posição de. a pesquisa sociológica está cada vez mais especializada: estuda fenômenos particulares: a delinqüência. 66 . antagonistas da reflexão. Assim. de maneira pragmática... por mais aperfeiçoados que sejam. Como escreve Lévi-Strauss. no horizonte científico contemporâneo.. Essa preocupação que tem a Antropologia de dar conta. a antropologia me parece ser o antídoto não filosófico de uma concepção tayloriana da pesquisa. e chegar até a impedir o próprio exercício do pensamento. mas pouco reflexiva.totalidade do social. um risco fundamental: o de um desmantelamento do homem em produtor. no mundo contemporâneo. o marxismo e a Antropologia. toda prática hiperespecializada.

tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo. para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. com o gringo ali a seu lado. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México. Aprender Antropologia. todo branco e sardento. vale dizer. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade. Sendo assim. mas. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsum. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Porque antes de cumprimentá-lo.LAPLANTINE. haveria de compreender. talvez ainda sem tê-lo visto. chegara a passar fome. vendo o preto aproximar-se. dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora. a salvação lhe apareceu na forma de um americano que lhe oferecia emprego numa agência. afastara-se da roda boêmia que antes costumava freqüentar – escritores. e mais ainda: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível. e sem credores à porta. é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. Era o sambista seu amigo. Era seu amigo. PRETO E BRANCO Fernando Sabino Perdera o emprego. De repente. jornalistas. o sambista abriu os braços para acolher o americano – também seu amigo. velho companheiro. São Paulo: Brasiliense. um bom sujeito. EXERCÍCIOS: 1 – No primeiro parágrafo do texto. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade. ao americano. 1996. sem que ninguém soubesse: por constrangimento. 67 . o narrador relata uma mudança de estado que ocorreu na vida do personagem central da narrativa. um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o americano também se detivera. tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam – quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. sorriso aberto e braços prontos para um abraço. Por via das dúvidas. já distraído dos seus passados tropeços. Não teve dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via. E não era mesmo com ele. lidos depois do jantar. que não era com ele. mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção. a) Identifique o estado anterior e o posterior.

uma passagem em que o personagem procura justificar sua indiferença perante o negro.b) Qual a atitude desse personagem diante do novo estado? 2 – O segundo parágrafo relata ainda uma nova mudança de estado referente ao personagem central. a) Em que consiste essa ameaça? b) Explique porque ele se sente ameaçado. Parágrafo). já esquecido dos dias de desempregado. 5 – Como o personagem central correspondeu ao cumprimento do sambista? 6 – Quando pensou que o sambista vinha ao seu encontro para abraçá-lo: a) Qual a atitude que tomou? b) Transcreva. a) Em que consiste essa mudança? b) Que personagem basicamente desencadeou essa mudança? 3 – Considerando que o emprego na agência era a sua salvação. do texto. 68 . o personagem central sente-se ameaçado. que expediente adotou o novo empregado para garantir sua estabilidade? 4 – Numa passagem posterior (3o.

podemos concluir que: a) A insegurança e a condição de dependência podem levar o homem a agir contra os seus princípios. que se manifesta por meio da seleção dos episódios que relata.7 – O desfecho da narrativa é inesperado. c) Não corresponde à verdade dos fatos dizer que os americanos têm preconceitos de cor. por detrás dos fatos narrados. d) A diferença cultural entre os povos leva a desentendimentos desconcertantes. b) São próprias da natureza humana a ingratidão e a traição dos amigos. o personagem teria tomado a atitude que tomou? 8 – Como se sabe. existe sempre um posicionamento crítico do narrador. e) Os brancos são mais traiçoeiros que os pretos. Se soubesse desse desfecho. Com base no sentido global dessa narrativa. Sampa Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João É que quando eu cheguei por aqui Eu nada entendi Da dura poesia concreta De tuas esquinas Da deselegância discreta 69 .

. Do povo oprimido nas filas Nas vilas. favelas Da força da grana que ergue 70 . mau gosto É que Narciso acha feio O que não é espelho E a mente apavora o que ainda Não é mesmo velho Nada do que não era antes Quando não somos mutantes.De tuas meninas... E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho Feliz de cidade Aprende depressa A chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso Do avesso do avesso. Quando eu te encarei Frente a frente Não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi De mau gosto.. Ainda não havia Para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece No meu coração Que só quando cruza a Ipiranga E a Avenida São João.....

.. 71 .E destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe Apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas De campos e espaços Tuas oficinas de florestas Teus deuses da chuva. Panaméricas De Áfricas utópicas Túmulo do samba Mais possível novo Quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam Na tua garoa E novos baianos te podem Curtir numa boa...

mais grave ainda. conhecemos um grupo do “eu”. E. da sua visão a única possível ou. semelhantemente. a natural. Este choque gerador do etnocentrismo nasce. O monólogo etnocêntrico pode. este “outro” também sobrevive à sua maneira. No etnocentrismo. pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença. veste igual. então. enfim.O QUE É ETNOCENTRISMO Everardo P. a certa. casa igual. empresta à vida significados em comum e procede. seguir um caminho lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar? Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não. também exista. os caminhos e razões. pelos quais tantas e tão profundas distorções se perpetuam nas emoções. primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz. etc. indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. Assim. Grosso modo. então. um mal-entendido sociológico. nossos modelos. na constatação das diferenças. talvez. por muitas maneiras. que come igual. acredita nos mesmos deuses. medo. mora no mesmo estilo. a melhor. Guimarães Rocha PENSANDO EM PARTIR Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores. nossas definições do que é a existência. de repente. pois. como sentimentos de estranheza. Como uma espécie de pano de fundo da questão etnocêntrica está a experiência de um choque cultural. pensamentos. a superior. conhece problemas do mesmo tipo. ainda que diferente. o grupo do “diferente” que. um daqueles de mais unanimidade. mais discretamente se for o caso. hostilidade. De um lado. bárbara. também está no mundo e. no plano afetivo. pois. gosta de coisas parecidas. a vida deles não presta. as formas. dentre os fatos humanos. distribui o poder da mesma forma. Perguntar sobre o que é etnocentrismo é. imagens e representações que fazemos da vida daqueles que são diferentes de nós. nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. às vezes. é selvagem. gosta dela. a colocação central sobre o etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos. O grupo do 72 . nos deparamos com um “outro”. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria identidade cultural. Aí. No plano intelectual. estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das sociedades como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. Este problema não é exclusivo de uma determinada época nem de uma única sociedade. Talvez o etnocentrismo seja. o “nosso” grupo.

“excelentes” ou. colorida e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. da selva que lembra. neste conjunto de idéias. por vir. muito feliz. Muito generoso. De qualquer forma. chamam. o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe. anormal ou ininteligível. apesar de que. O etnocentrismo não é propriedade. Este processo resulta num considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. Quase indistinguível em meio às penas e contas e. na nossa. o pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra para dizer algo de si mesmo. especialmente. São qualquer coisa menos humanos. pendurado a vários metros de altura. os bárbaros. infalível. o trabalho. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. marcar segundos. “ser humano” e ao “outro”. absurdo. uma mesma atitude informa os diferentes grupos. Um dia. alarmes. é o fato de que. a desarticulação. muito simplesmente. nunca o “igual” ao “eu”. um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”. pentes. do barulhento. modesto. Existe realmente. de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. não sem dificuldade. ainda por cima. Ao chegar. estes somos nós. A surpresa maior estava. meio sem jeito e a contragosto. a superior. etc. encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. O que importa realmente. nessa lógica. como já disse. como sendo engraçado. venceu as burocracias inevitáveis e. O “outro” é o “aquém” ou o “além”.“outro” fica. agora mínimo e sem nenhuma função. vencido por insistentes pedidos. o progresso. Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. 73 . O barbarismo evoca a confusão. Creio que é necessário examinar isto melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar.. a desordem. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia. no etnocentrismo. seu trabalho. Forase o relógio. A atitude etnocêntrica tem. fazer contas. por vezes. porém. o índio fez o pastor divisar. fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas. ao estrangeiro. Tempos depois. espelhos. por fim. paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra. comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes. o relógio. a sociedade do “eu” é a melhor. No limite. Dias depois. algumas sociedades chamam-se por nomes que querem dizer “perfeitos”. de alguma maneira. a vida animal. A sociedade do “outro” é atrasada. após alguns meses. cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa. pois. É o espaço da natureza. de uma única sociedade. comprou para os selvagens contas. É onde existe o saber. o pastor perdeu seu relógio dando-o. É representada como o espaço da cultura e da civilização por excelência. O selvagem é o que vem da floresta. ao jovem índio. São os selvagens. por um lado. revestiu-se de um caráter ativista e colonizador com os mais diferentes empreendimentos de conquista e destruição de outros povos.

Tanto no presente como no passado. Isso lembra o comentário. a mesma coisa. o uso inusitado do seu relógio causou tanto espanto quanto o que causaria ao jovem índio conhecer o uso que o pastor deu a seu arco e flecha. arcos. a estória ainda ensina que o “outro” e sua cultura. Hermann von Ihering. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. Como já vimos. como “algo a ser destruído”. não é necessário ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor) para perceber que. obviamente. Privilegiaram ambos as funções estéticas. de toda evidência. tacapes. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar de si mesmo. No mais das vezes. seja nos livros didáticos. não necessariamente verdadeira. neste choque de culturas. ornamentais. dar uma revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. tanto aqui como em vários outros lugares. bordunas. desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas. muito comum e de uso geral no etnocídio. inteligente e 74 . Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio. Era hora de ir. demonstra alguns dos mais importantes sentidos da questão do etnocentrismo. diretor do Museu Paulista. cocares.Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para casa. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. o etnocentrismo implica uma apreensão do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. da qual falamos na nossa sociedade. de um etnocentrismo “cordial”. por exemplo. já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem maiores conseqüências. grotesca e monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. acabou por defini-los dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. os personagens de cada uma delas fizeram. seja na indústria cultural. na matança dos índios). como “atraso ao desenvolvimento” (fórmula. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e. Rústica e sóbria ao mesmo tempo. quinze para as dez. infinitas vezes. seja em casa. as relações entre a chamada “civilização ocidental” e as sociedades tribais. e até uma flauta formavam uma bela decoração. porque somos os autores destes filmes e livros. uma imagem distorcida que é manipulada como bem entendemos. trazia-lhe estranhas lembranças. Levantou-se. se isso fosse possível. flechas. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do deu escritório. Em terceiro lugar. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. naquela manhã. decorativas de objetos que. Também. aliás. Em primeiro lugar. Esta estória. tristemente exemplar. justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. porém. são apenas uma representação. um famoso cientista do início do século vinte. de uma criança de um grande centro urbano que. Para o pastor. Em segundo lugar. na cultura do “outro”. Nelas. Assim. Cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”. bastante plausível. nada nos impede de criarmos um marciano simpático. pode colocá-lo como “primitivo”. deu uma olhada no relógio novo. de tanto ouvir absurdos sobre o índio. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel. esta estória representa o que se poderia chamar. a lógica do extermínio regulou.

pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram determinadas visões básicas. A estória do nosso 75 . muito pelo contrário. Este “escândalo” esconde. em função mesmo do seu destino e de sua natureza. Ora. Com ela se fixam também imagens extremamente etnocêntricas. “sério” e “científico”. foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada. ela deve mostrar e esconder. que se recuse a trabalhar como escravo. Aqueles que são diferentes do grupo do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si mesmos. Na nossa chamada “civilização ocidental”. para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu amigo: antes. a nossa noção absolutizada do que deva ser uma roupa e o que. que são permanentemente aplicados a estes índios. na nossa sociedade. Alguns destes livros alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. Aliás. sinal de saúde mental. mais ainda. pois são lidos e. Os estudantes são testados. estudados por milhões de alunos pré-universitários nos mais diversos recantos do país. em outros. um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil. mas também em diferentes contextos no presente. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado. acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas ideológicas de determinados momentos. posso pensar dele o que quiser. é manipulada por uma série de representações que oscilam entre dois pólos. Isto não só ao longo da história. o que faz com que as informações neles contidas acabem se fixando no fundo da memória de todos nós. ocupam um lugar de supostos donos da verdade. na verdade. Através deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os índios. via de regra.superpoderoso que com incrível perícia salva a Terra de uma colisão fatal com um meteoro gigante. Eu mesmo realizei. de um ponto de vista do grupo do “eu”. Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio. seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”. num corpo. existem diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de representações negativas do “outro”. como o marciano não diz nada. esta recusa é. Outro fato também interessante é que um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação: os índios andavam nus. em face do seu conteúdo. A expressão “fulano é muito louco” pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. determinados estereótipos. por exemplo. Assim. numa lavoura que não é a sua. O caso dos índios brasileiros é bastante ilustrativo. “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o “estado” de várias tribos de índios ou de escravos negros. Alguns livros colocavam que os índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes e preguiçosos. há alguns anos. A figura do louco. Sua informação obtém este valor de verdade pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. nas sociedades complexas e industriais contemporâneas. carregam um valor de autoridade. um ovo ou uma pessoa. Nesse sentido. Claro. os que estão fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e bondosos. como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçosos” a alguém. Os livros didáticos. no mínimo. sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das intenções que se tenha.

Mas. estamos relativizando. baseado em formulações ideológicas. Nele o papel do índio é o de “criança”. O segundo papel do índio é no capítulo da catequese. manipulado de acordo com desejos ideológicos. os “colunáveis”. Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com as diferenças. jornais. que no fundo transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente etnocêntrico. para o livro didático. como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses. cheio de “amor à liberdade”. Ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado. a quem não é permitido dizer de si mesmo. mera imagem sem voz. A “indústria cultural” – TV. Quando compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos. publicidade. etc. violências. o índio é. os “surfistas”.. apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. estamos relativizando. As idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”. “inocente”. Quando o significado de um ato é visto não na sua dimensão absoluta. o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três vezes em três papéis diferentes. capaz de ter um fim ou uma transformação. O primeiro papel que o índio representa é no capítulo do descobrimento. Assim. Em outras palavras. mas no contexto em que acontece. Se o índio já havia aparecido como “selvagem” ou “criança”. são uma espécie de “conhecimento”. Da mesma maneira. negros e “crianças” ou um povo formado por portugueses. Enfim. Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das coisas e mais uma questão de posição. por oposição. “antropófago”. revistas. certo tipo de cinema. os “velhos”. Isto era para mostrar o quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. uma série de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. para fazer parecer que os índios é que precisam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio. os “caretas”. Nossas próprias atitudes frente a outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são. Ali. persistências do que chamamos etnocentrismo. É no capítulo “Etnia brasileira”. “primitivo”. existem idéias que se contrapõem ao etnocentrismo. estamos relativizando.amigo missionário serviu para a constatação das dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos seus contextos culturais. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar. os “negros”. um “saber”. os “vagabundos”. os “doidões”. os “empregados”. Relativizar é não 76 . como o “outro” é alguém calado. “infantil”. as “dondocas”. “almas virgens”. etc. ele aparece como “selvagem”. relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento. vira “corajoso”. os gays e todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade. num passe de mágica etnocêntrica. “pré-histórico”. Uma das mais importantes é a da relativização. os “paraíbas de obras”. rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de etnocentrismo. “altivo”. nada garante que os índios andem nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. Ver as coisas do mundo como a relação entre elas. Assim são as sutilezas. repletas de resquícios de atitudes etnocêntricas. Os exemplos se multiplicam no nosso cotidiano. muitas vezes. O terceiro papel é muito engraçado.

O “velho” mundo buscando coisas cujas dimensões talvez nem soubesse. no conhecimento antropológico. se quisermos. como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”. com maior ou menor grau de dificuldade. Alguém já disse que o antropólogo é aquele que pensa sobre as questões da cultura humana. num certo nível. Antes. A nossa sociedade já vem. mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o “eu”. colonizações. esta superação que ocorre na ciência que é a ponta de lança do conhecimento do “outro” possa. o movimento da Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. porque esta já se impunha na força de sua radicalidade. mas com a alternativa. De fato. Momento marcante a exigir que se começasse a pensar a diferença. sacações e aberturas. O “novo” mundo um tanto indefeso frente ao furacão que começava a envolve-lo. gostaria. ser traduzida num humanismo de olhar mais conseqüente. a diferença não se equaciona com a ameaça. agora. espantos. de acompanhar alguns movimentos pelos quais passou a Antropologia neste jogo de refletir sobre a diferença.transformar a diferença em hierarquia. Ela. XVI e XVII com suas navegações. há alguns séculos. compenetrado e falante. Mesmo com as novas 77 . na Antropologia. Assim. O percurso que.Trata-se dos séculos XV. como alternativa e testemunho de muitos “outros”. alucinações. É um momento básico de encontro com o “outro”. A exposição do professor é acompanhada com a máxima atenção e versa sobre os limites do mundo. Assim. faz uma análise da diferentes teorias sobre o que poderia ser encontrado pelo navegante que se aventurasse em linha reta mar adentro. Optei por traçar o caminho em torno de algumas visões do conceito de “cultura” dentro da Antropologia. monstros. porém. nasceu marcada pelo etnocentrismo. Buracos sem fundo. A diferença das escolhas humanas se fixa. ser observado a partir de vários ângulos. construindo um conhecimento ou. Ela não é uma hostilidade do “outro”. aqui e pelo mundo afora. de ver tudo isso – os conceitos da cultura nas teorias formais da Antropologia -. Diferentemente do saber de “senso comum”. PRIMEIROS MOVIMENTOS As aulas apenas começaram. seguindo a pista dada pelos diferentes conceitos de cultura que a Antropologia dispõe perceberemos como esta foi vista de maneiras mais etnocêntricas que cederam espaço a outras visões mais relativizadoras. Entender alguns movimentos deste jogo é acompanhar a superação do etnocentrismo na arena do intelecto e da razão e na arena da emoção e do sentimento. no mínimo. no plano da sociedade mais geral. uma ciência sobre diferença ente os seres humanos. Ela também possui o compromisso da procura de superá-lo. serpentes. mas vê-la na sua dimensão de riqueza por ser diferença. O mestre. busca a superação do etnocentrismo implicou diferentes movimentos e pode. expedições. Acredito até que. Povos assustados com o olhar o “outro” frente a frente. convém fazer rápida passagem pelo panorama de uma época que acho ter sido fundamental para a constituição de um “sentimento” da Antropologia. cujas formas de existência sempre a presença do humano em sua singularidade. quedas no vazio e a quase total impossibilidade de voltar. em superiores e inferiores ou em bem e mal. Esta ciência chama-se Antropologia Social. É de manhã e a agitação nos corredores da Escola de Sagres – menina dos olhos do rei – cessa completamente.

se não por todos. pouco a pouco. vão assumindo novas formas. Destes encontros. A bússola e o astrolábio de complexo manejo eram armas ainda pequenas frente a perigos tamanhos. Neste Portugal do final do século XV e início do século XVI. interesses. T. a cada vez. O mundo do “eu” se via obrigado. e que procuram explicar a diferença. O objetivo deste livro sobre o etnocentrismo é o de mostrar como. Que costumes. Os financiamentos eram conseguidos para pesquisas e explorações. O que significaria o “novo mundo”? Seriam “seres humanos” os seus habitantes ou uma versão “extraterrestre” modelo século XVI? Tal como um “E. procurando compreender as diferenças que.. As novas técnicas empolgavam os alunos. o nativo do “novo mundo” teria alma? Lei? Poder? Política? Deus? Rei? Amor? Amizade? Casamento? Até o próprio Camões numa passagem de Os Lusíadas. mesmo sem viver. sociedades e culturas tão impressionantemente diferentes a ponto de uma negar. mas ali se esboçava algo que se tornaria uma constante: as formas pelas quais as diferenças foram pensadas. pouco a pouco. num certo sentido. seu esforço é no sentido de não torná-lo absoluto. um conjunto radical de novas questões. Em que pese a Antropologia ter nascido no chamado mundo ocidental. o risco era imenso. O que existe para além da Europa? Quem habita os espaços do outro mundo? Como navegar. sempre mais matizados. As verbas da grande potência corriam soltas para a ampliação do universo e do domínio português até sobre coisas as quais ainda não se sabia o que seriam.tecnologias. Do palco do encontro inicial no século XVI fica marcada a idéia de uma forte perplexidade. ao menos dentro da Antropologia. Ali se inicia a busca dos modelos explicativos da diferença. o século XVI constituiu-se em uma das arenas principais. é conhecido como Evolucionismo. Vamos procurar ver as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua imensa literatura e da amplitude de seus estudos e reflexões. poema épico aos navegantes e às aventuras portuguesas. sobre as possibilidades teóricas e os desenvolvimentos técnicos necessários à dilatação do império e à conseqüente alteração das fronteiras do mundo conhecido. que rei teriam?” Quantas questões se colocavam para aquela gente naquele tempo. E é esta perplexidade que vai. um esforço de compreensão da diferença. que era preciso.”. a pensar a diferença. à outra a própria natureza humana. nascia ali. que lei. freqüentemente. para o pensamento ocidental. frente ao “outro”. (que aí já não era mais preciso!). ele foi sendo superado. paradoxos. dizia o professor aos seus alunos (pilotos e comandantes supertrinados). O primeiro destes pensamentos ocorridos na Antropologia. de compreensão ente as sociedades sem pensar que uma delas deva ser “dona da verdade”. Vai aparecer como idéia básica para toda uma grande fase da 78 . Muita violência. nos centros avançados de estudo. escrevia sobre estas dúvidas: Que gente será esta? Em si diziam. A noção de evolução é um marco fundamental para o pensamento antropológico. espanto e perplexidade iriam regular as relações entre povos. Ninguém entendia nada. Assim. entre a sociedade do “eu” e a sociedade do “outro”. discute-se e especula-se. cedendo lugar a novos conjuntos de idéias. Isto é a Antropologia Social ou Cultural.

uma segunda forma. consciente de que a presença do homem sobre a Terra remontava a uma idéia muito mais antiga. Explicando melhor. O evolucionismo biológico e o evolucionismo social se encontram e o segundo passa a ser o novo modelo explicador da diferença entre o “eu” e o “outro”. começou a produzir seus estudos. por sua vez. no seu sentido mais amplo. Assim. a diferença que se travestia em espanto e perplexidade. então. a noção de progresso torna-se fundamental. no nível biológico do desenvolvimento. é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. O resultado disso. pois é no seu rumo que a história do homem se faz. equivale a desenvolvimento. evolução? Evolução. é claro. Numa palavra: transformar sociedades contemporâneas em retratos do passado. para os trabalhos e estudos que procuraram fazer da Antropologia uma ciência. Este compromisso da idéia de evolução com o crescimento e a formação dos organismos tem no livro A Origem das Espécies. É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. Mas. Sabedores dessa origem remota dos antepassados. Progresso. a esta noção orgânica. de Darwin. exatamente. É o caminho da manifestação plena do que estava oculto. na história dos saberes sobre o ser humano. Tudo isso forma um campo intelectual. Evolução. pelo processo evolutivo. em meados do século XIX – na Inglaterra de Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor e. tem um lugar de destaque. de fato. Lewis Morgan -. Acredita-se na unidade básica da espécie humana e o fator tempo passa a ser bastante importante. Mas isto é o fim da estória e é importante que possamos ver mais a fundo o sistema de idéias que se monta em torno da idéia de evolução.teoria antropológica e. uma nova explicação: o outro é diferente porque possui diferente grau de evolução. biológica de evolução. Assim. procuraram escalonar as etapas de evolução das sociedades que encontravam pelo mundo. O homem a caminho. contemporânea dos aborígenes australianos. Ao afirmar que todas as formações sociais humanas tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. o que é. na direção do progresso. encontra. A lógica do raciocínio é simples. iria contagiar todos os estudos sobre as sociedades humanas. Para o evolucionismo antropológico. E foi toda uma geração de antropólogos que. É a transformação progressiva no sentido da realização completa de algo latente. avanço no tempo. agora traduzido na sociedade do “eu” como o estágio mais adiantado e a sociedade do “outro” como o estágio mais atrasado. a Inglaterra do século XIX era. então. A noção de evolução pode estar ligada ao orgânico. um espaço correto para um tipo de pensamento que. por exemplo. em outras palavras. quase que como uma âncora. mais e mais absoluta em suas conquistas. Mas. sua formulação clássica. mostrando. O caminho é na direção de um estágio superior de civilização. vai ser a permanência do etnocentrismo. em plena metade do século XIX. evolução. nos séculos XV e XVI. nos séculos XVIII e XIX. Saindo de estádios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução. sua potencialidade. já se juntavam os pensamentos s discussões filosóficas dos chamados iluministas do século XVIII. nos Estados Unidos. os evolucionistas pensavam que os australianos haviam parado num estádio 79 .

diz o seguinte: “Cultura ou civilização. então. unitários. Se o medidor for o número de grupos de rock a ordem já é outra e assim haverá tantas ordenações da hierarquia das culturas quanto os “medidores” escolhidos. logo na primeira página. uma eterna valorização destes itens para qualquer cultura. crença. o mais famoso da Antropologia e. no mínimo um clássico. no entanto. Se pensarmos nesta definição. que formam um “todo complexo”. é bom lembrar o missionário do primeiro capítulo. em certas sociedades. mais cedo ou mais tarde. separados. Também transparece uma espécie de princípio geral. talvez. porque se compararmos Brasil. podese dizer que é. é este todo complexo que inclui conhecimento. Sim. como se os problemas colocados pelos seres humanos fossem. Era necessário um instrumento comparativo tipo um “medidor” de progresso. o Uruguai como intermediário e os Estados Unidos no estádio “primitivo”. Este conceito é. arte. Postulavam uma unidade entre as culturas como se todas tivessem de dar conta de problemas idênticos e que. Que. Também podiam pensar assim norte-americanos e outros europeus que se sentiam fazendo parte de uma civilização absoluta. em toda parte os mesmos. Ele aparece no livro A Origem das Culturas de Sir Edward Tylor que. Ainda mais. É claro que quem assim pensava eram os ingleses. tendo aceitação. Mas. restava ainda um problema teórico. moral. etc. lógica e possibilidade para o estudo comparativo. por exemplo. Sabemos que são relativos. Acredito que a solução está no próprio conceito de cultura adotado pelos evolucionistas. dentro da cultura. os “primitivos” chegariam às formas da “civilização”. uma lei. Lembram um pouco o que dizia uma autoridade há alguns anos: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Para os evolucionistas. Aqui. estas idéias eram nítidas e claras. a era vitoriana. leis. O que fosse importante para a sua sociedade – a sociedade do “eu” – seria importante para todas as demais – as sociedades do “outro”. os conteúdos destas idéias talvez nem existam. O que e Arte? Lei? Moral?. a melhor por definição. espalhavam militarmente seu império pelo mundo inteiro. postulavam uma permanência. teríamos o Brasil como o mais “civilizado”. dentre mais de cento e cinqüenta definições da cultura que a disciplina produziu. para eles. podemos constatar que transparece uma visão da cultura como uma série de itens identificáveis. Assumiam que os itens da cultura se assemelhavam onde quer que se encontrasse a cultura. o século XIX. que em plena época da rainha Vitória. de modo a que estes e outros itens pudessem ser 80 . Faz-se.“primitivo” e os ingleses tinham avançado para um estádio “civilizado”. A escolha e a definição dos critérios pelos quais seria possível medir o estágio de “avanço” de cada uma das sociedades existentes. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”. no seu sentido etnográfico estrito. fundamental a criação de algo que fizesse as vezes de critério. Estados Unidos e Uruguai e o “medidor” for “futebol”. Extraídas dos seus contextos eles as absolutizavam e assumiam como se as idéias de sua própria sociedade fossem não apenas universais como as melhores e mais bem acabadas.

“religião”. Ou. descobertas e instituições... A ausência de um pensamento sistemático sobre o “outro”. Mas.. Os itens culturais faziam papel de régua com a qual se media a distância histórica entre os povos. “arquitetura”. encontramos ainda. pouco a pouco. Dessa maneira. a visão etnocêntrica. Lembra o cow-boy que perdeu seu cavalo e desesperado sentou e meditou: “se eu fosse um cavalo. Para Morgan. O etnocentrismo estava em achar que o “outro” era completamente dispensável como elemento de transformação da teoria. por trás do ser “civilizado”. aqui no evolucionismo. barbárie e civilização. a “acumulação do saber” e o progresso das “faculdades mentais e morais dos homens” vão marcando as mudanças de estádios no caminho da evolução. Estudando invenções. temos dois marcos básicos. De fato. Assim como os evolucionistas ao dispensarem o “trabalho de campo” e a relativização. etc. ao ser perguntado se falaria algum dia com um selvagem. Algo assim como se fosse possível saber a reação das crianças apenas porque um dia fomos crianças. Isto fez com que os evolucionistas pudessem pensar o “selvagem” sem conhecê-lo de perto. os povos primitivos e no extremo superior. como eu faria isto ou aquilo?”. A mudança nas sociedades se daria pela invenção. evidentemente. soprado muito mais na sociedade do “eu” de modo a que. pelo menos. Este espírito teria. Não é preciso dizer que a sociedade dele mesmo ocupava exemplarmente o lugar destinado à mais alta civilização. o medo oculto. a visão caótica do “outro”. pois que tudo já estava pronto. A relativização não tinha espaço. para onde teria ido?” Claro. paradoxalmente. Como pode ser isto? Como um dos movimentos teóricos mais marcados pela ideologia da superioridade pode trazer dentro de si mesmo os germes da superação dessa ideologia? Acredito que a resposta é simples. a falta ou excesso de 81 . neste mesmo evolucionismo se armam as bases que virão. “meios de subsistência”. acreditando-se capazes de ter todo o conhecimento do “outro” dentro de si mesmos. ele procurou ordenar os estádios evolutivos em períodos que caracterizavam as fases passadas culturas humanas. a hipótese que coloco aqui é simples. No extremo inferior. qualquer “trabalho de campo”..pensados como uma linha da evolução partindo de um pólo “primitivo” e. minando o etnocentrismo dentro da Antropologia. conseqüência do aperfeiçoamento do espírito científico. por via do progresso. importante antropólogo da época. É uma questão de sentar e meditar: “se eu fosse um primitivo. fortemente entrincheirada. “propriedade”. Diz uma anedota que Sir James Frazer. ele nunca achou o cavalo. divide os cem mil anos de história humana em três períodos básicos – selvageria. pois ele era visto como uma fase passada de mim mesmo.. A contribuição de um dos antropólogos mais famosos da época – Lewis Morgan – foi exatamente calcular as sociedades segundo seu grau de evolução. Dessa forma. “família”. Era uma questão de encaixar as culturas nos estádios já predeterminados da evolução. Avaliando itens culturais tais como: “governo”. fôssemos encontrando séries de homens até seu irmão mais “primitivo”. o espanto. chegando ao pólo “civilizado”. Cada item da cultura serve para demonstrar o percurso do primitivismo à civilização e encontrar para as sociedades um lugar neste caminho. os povos ditos “civilizados”. respondeu muito simples e sinceramente: “Deus me livre!”. acabaram impossibilitados de achar alguns “cavalos” importantes. a sua teoria dispensava qualquer contato com o “outro”.

juntamente com Boas. me parece que nesse sentido o evolucionismo. a sua maneira. já traz em si alguma semente de relativização. Alguns nomes fundamentais para ávida da disciplina fazem sua entrada aqui. Neste processo. seu campo de estudos. enredo. XVI e XVII com seus novos e velhos mundos. vê-lo como atrasado e primitivo. num primeiro momento. Radcliffe-Brown são pesos-pesados dentro da Antropologia e das Ciências Sociais em geral. Cada um. esta consciência que vai levar a antropologia a explodir os esquemas simplificadores do evolucionismo e a ampliar. controvertidas. Tivemos também um pequeno quadro do encontro fundamental. É certo que a escolha. participar da mesma “natureza” humana do “outro”. relativizando: é claro que a época do novo mundo. Tanto aqui. mas nem “deus” nem “diabo”. reside aí mesmo: na consciência de quão pouco se sabe. temos o que foi o evolucionismo como primeiro eixo sistemático de pensamento sobre o “outro” dentro da Antropologia. São importantes a ponto de ninguém deixar de ler ao menos parte de suas obras se quiser fazer uma iniciação à Antropologia. Malinowski. Menos evoluído. estavam vivos para assistir a passagem do século XIX para o XX. Ainda comparamos as duas coisas em termos do que poderiam ter significado. neste processo. Se o “eu” negava. e muito. cenários. contribuiu. o que nos interessa mais de perto. para uma visão menos etnocêntrica e parcial do “outro”. entre si. A história da passagem do etnocentrismo à relativização assume contornos insuspeitados. Para a Antropologia é o momento de adquirir uma autonomia que vai render preciosos resultados. mas pode-se ver qual se distancia mais. por assim dizer. pois que ambos são etnocêntricos na sua maneira de ver o “outro”. como de resto em todas as coisas sobre as quais procuramos saber.] Assim. que foram os séculos XV. por se propor a “pensar” o “outro” e discuti-lo como sócio do clube da humanidade. Relativiza-se mais e com isto complexifica-se o “outro” como objeto de estudo. entre o ruim e o pior é sempre muito difícil. o evolucionismo e a comparação entre ambos são muito mais. multiplicando muito. complexos do que isto. VOANDO ALTO Diferentes atores. num resumo. para a maturidade e complexidade da disciplina e. interessantes. Todos os três. Entretanto. exatamente. mais sabemos o quanto falta saber. 82 . Todos eles tinham personalidades peculiares. um “outro” tão humano quanto o “eu”. podem ser mais etnocêntricos do que a reflexão sobre o “outro”. encontra-se uma lógica parecida: quanto mais sabemos. A magia. em termos da experiência do “eu” e do “outro”. É o que veremos a seguir. já apresenta alguma diferença. que passa rapidamente a alcançar limites jamais pensados até então. mas dotado de uma “natureza” humana da qual também participo. Durkheim. Aqui fica um dilema interessante: dois sistemas de idéias – o “espanto” do século XVI e o “evolucionismo” do século XIX – são igualmente inadequados. apresentam diferenças e. a sociedade do “eu” começa até a questionar a si própria. E vai ser. Agora. mas muito mais mesmo. Sabemos que ambos não são bons.significações do “outro”. para o crescimento.

Tanto num – o evolucionismo – quanto noutro – o difusionismo – os trabalhos produzidos. desde o mais “primitivo” até o dito homem “civilizado”. todos caminhassem num mesmo sentido. demonstravam a permanência de um tema. se interessa pelas posições. como um desafio permanente para o corpo teórico da Antropologia que dava seus primeiros passos. os processos próprios de mudança. Radcliffe-Brown discordou dessa vinculação que existia entre a compreensão do presente de uma cultura e o estudo do seu passado. centra sua análise no momento determinado pelo vigésimo movimento e. de cada cultura particular.. A história. específica. cada uma a sua maneira.Vamos começar com Radcliffe-Brown porque fica mais nítido entender as idéias que vou retirar dele logo após termos visto o evolucionismo e o difusionismo. estabelece seu conhecimento do vigésimo. Por mais distantes que pareçam ter sido – e eu espero que isso tenha ficado claro – evolucionismo e difusionismo tinham algo ainda em comum. Por outro lado. evolucionismo e difusionismo trataram diferentemente o problema. duas seriam as ações possíveis dessa partida. uma idêntica concepção da natureza da história. Era a história sempre a permear os estudos e reflexões em quase toda a literatura sobre as culturas humanas. troca e empréstimo que as caracterizavam. era como uma estrada onde cada sociedade acumularia “progresso”. Em termos mais técnicos. que era o do “progresso”. o da “evolução”. A diferença é que a diacronia analisa o vigésimo movimento partindo da história dos dezenove movimentos anteriores e. das posições das peças no vigésimo movimento. no entanto. nos dois movimentos.história. dos valores atuais dos peões. por eles. dessa maneira. faríamos uma análise diacrônica. bispos. Se analisarmos os movimentos e sua seqüência. O presente não precisava ser necessariamente explicado pelo passado. Para os que pensavam na história como a via explicativa do presente cultural. uma mesma preocupação se fixou como questão fundamental. estaríamos analisando sincronicamente. o centro da reflexão estava menos na compreensão teórica das instituições e mais nas transformações diacrônicas pelas quais passaram estas instituições. via de regra. era uma única para toda a humanidade. Se estivermos jogando uma partida de xadrez e pararmos no vigésimo movimento para analisá-la. efetivássemos uma análise das forças dentro do tabuleiro. que a existência de uma preocupação com a história indicasse. o pensamento difusionista propunha o estudo da história concreta de cada cultura. Passando para a análise das culturas humanas. Como se. diferentemente. etc. Mais 83 . a sincronia – presente – não está submetida à diacronia . aí. A sincronia. torres. Uma mesma preocupação com a história não se confunde com uma mesma história das preocupações e. desde o primeiro até o vigésimo. Recapitulando: para o evolucionismo a história tinha “H” maiúsculo. por seu turno. É uma história com “h” minúsculo. que a hipótese evolucionista criava. Estes dois termos exigem uma melhor explicação. Não se pode dizer. O longo caminho da história. forças e significados internos a este movimento. Explicaríamos o estado atual da partida através dos seus movimentos pregressos. permanece como tema de importância central no estudo das culturas para as duas escolas. Para estes dois movimentos. no entanto. de Adão e Eva ao Juízo Final. Se. estas duas abordagens resultam em perspectivas diferentes de como conduzir um estudo antropológico.

veremos que a preocupação com a história é. como já disse. mais complexa. como uma forma lógica e interessante para pensar sua própria existência. que são cuidadosamente definidas para formarem um esquema interpretativo da realidade social. feito de acontecimentos sucessivos. A realidade concreta a ser estudada. da “diferença”. O jogo entre o “eu” e o “outro” deixa. Para ele. A nossa sociedade. agora. e uma preocupação com ele. que genericamente pode ser visto como um movimento que recobre uma parte muito significativa da produção antropológica. a história conjetural. Assim. Com isso. histórico. neste sentido. O funcionalismo. a sociedade do “eu”. especulativa. como no evolucionismo. situava-se no plano das escolhas ou de uma abordagem historicista ou de uma abordagem funcional. a discussão realmente importante. A Antropologia. E. por mais míope que seja. nem entre estes e o evolucionismo. antes de tudo. Sim. comparada e classificada pela Antropologia é um fluxo 84 . inexoravelmente. a diferença deixa de ser equacionada em torno do tempo histórico. Quando Radcliffe-Brown desamarra a Antropologia da História abre um imenso espaço para que a sociedade do “outro” se mostre tal como ela é. Com isso. o que a levava. com seu corte teórico. radcliffe-Brown. descrita. de ter na hierarquia sua regra número um. não concordou Radcliffe-Brown. para o historicista. para fora do etnocentrismo. como que contrabandeava para a sociedade do “outro” uma concepção de tempo. seja ele difusionista ou evolucionista.simplesmente. ao menos. o presente se conhece pelo passado e estudar a história das culturas significa conhecer a verdadeira dimensão da cultura. Ao procurar ver o “funcionamento” de uma sociedade. Chegou mesmo a escrever que o verdadeiro conflito teórico na Antropologia não acontecia nem entre os diferentes tipos de difusionismo. porque nem todas as sociedades buscaram valorizar o tempo linear. a pensar esta sociedade em seus próprios termos. vamos ver que a busca de rigor teórico e precisão conceitual têm um papel importante a desempenhar no conjunto de sua obra. se pensarmos bem. Ao fazer esta opção. se obriga. caminha inexoravelmente no sentido de empurrar o estudo do “outro”. mais relativa. É na trilha aberta por ele que a comparação dos diferentes se faz menos etnocêntrica. ao certo. uma preocupação típica da sociedade do “eu”. A Antropologia se desvincula da história e parte para o estudo da sociedade do “outro” sem se preocupar com o passado dessa sociedade. é importante que se saiba o que. tem nesta forma de conceber o tempo um instrumento básico para sua apreensão da vida. observada. Isto é uma relativização fundamental na medida em que. É o caso de noções como “processo”. para uma hierarquia de sociedades atrasadas e avançadas. “estrutura” e “função”. que nem sempre poderá ser lá encontrada. o estudioso. a sincronia deveria ser analisada por conceitos bem precisos. O verdadeiro ponto de ruptura. A razão pela qual o funcionalismo relativizou pode ser encontrada no fato de que ele iria se opor ao estudo diacrônico e se conjugar com os estudos sincrônicos. dá outras dimensões à Antropologia. Em primeiro lugar. E vai ser este adjetivo funcional que vai deixar uma marca profunda na opção da Antropologia em direção a relativizar. definitivamente. Para ele. Nesta linha. contrastava fortemente com sua proposta de estudo funcional das sociedades. se constituía no objeto antropológico por excelência.

procuro apenas demonstrar que. desempenha a função de bombear o sangue através do corpo. tecidos. dentro dessa imensa diversidade de fatos do “processo social”. a constância de determinados tipos de relações – a disposição de pessoas num certo número de famílias. Na sociedade. Espero que ele me perdoe. recorrente. mais significativas que outras e que podem ser percebidas pela observação direta das ações cotidianas. por sua vez. Mas. é um processo: o “processo social”. Dentro desse “processo social”. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção do “processo” e da “estrutura”. ao colocar novas questões em jogo. além de mais amplas. o processo vital. a sociedade se transformará numa outra diferente. Transportava termos da Ciências Naturais e. mas. formam redes complexas de relações sociais onde cada um e todos se encontram envolvidos sistematicamente. tem a vida como um fluxo permanente que o habita. das interações entre seres humanos ocupando “papéis sociais”. no mesmo sentido em que o corpo morre suprimida a função do coração. de permanência obrigatória para a manutenção do organismo. compondo-se com os conceitos de “processo” e “estrutura”. inteligentes e profundas que esta pretensa explicação. por exemplo – aponte uma outra dimensão. Se parar de executá-lo. muito mais complexas. serve para explicar o conceito de “função” e sua relação com “processo” e “estrutura”. possui uma estrutura composta de ossos. A função estabelece a correlação entre o processo vital e a estrutura orgânica. que a idéia de “função” complementa o esquema teórico. A sociedade não morreria. abalaram o etnocentrismo principalmente por liberarem a explicação antropológica do “outro” de uma noção de tempo linear. etc. Este. Por outro lado. É nesse quadro. Nela. enquanto estrutura viva. o coração. É esta amplitude de contato que acontece na vida em sociedade. termina o processo vital e a estrutura orgânica. por seu turno. outras “funções” cruciais. aqui. 85 . por analogia. podemos perceber a existência de formas regulares. Assim. Isto significou que. das ações. Se estas funções forem suprimidas. onde outras instituições terão. como um organismo complexo que é. atacada numa função básica. Pode ser percebido como o encadeamento das relações. Este organismo. me parece. O importante aqui não é entrarmos em difíceis e detalhadas discussões de seu pensamento. na produção teórica. A vida caracteriza um constante processo. se descaracterizaria ao ponto de se transformar profundamente. pagou o preço de uma forte relativização. histórico. os aplicava ao estudo da sociedade humana. tão a seu gosto. mas percebermos o quanto suas idéias repercutiram num abalo do etnocentrismo. repetitivas. Radcliffe-Brown achava conveniente estabelecer uma comparação entre a Antropologia e as Ciências Naturais. É ela que irá fazer a ligação entre “processo” e “estrutura”. Comparava o sistema social ao corpo humano. ao fazer a opção pelo estudo sincrônico. as ações e interações do “processo social” que se tornam significativamente repetitivas. Uma de tais analogias. É evidente que as colocações teóricas de Radcliffe-Brown são.permanente. sutis. E. fluidos. novos instrumentos para pensá-las. a da “estrutura social”. conseqüentemente teve de procurar. também desaparece. por exemplo. É a ponte que permite o encadeamento lógico dos dois conceitos.

Isto quer dizer que não pode ser reduzido a explicações de natureza diferente. São “coisas”. principalmente. Explicando melhor. intitulado “Que é Fato Social”. na sincronia. mas seus projetos tinham rumos diversos. Contra a tentação de explicar o fato social pela consciência individual. independente das manifestações individuais que possa ter”.produzido na sociedade do “eu”. no sentido de sua concretude que independe da natureza. o complexo pelo simples. ou então ainda. Investe contra a possibilidade de se diluir o objeto específico da Sociologia e da Antropologia a simples conseqüências de outros tipos de fenômenos. então. Qualquer estudante da vasta. bela e complexa obra deste grande mestre francês pode perceber que. assim. vou utilizar o próprio Durkheim que. Durkheim afirma categoricamente uma ruptura: o social não se explica pelo individual. o social como objeto de estudo não apenas se afirma no presente. São “coisas” ainda no sentido de que seu conhecimento requer certa atitude mental. Malinowski foi o grande viajante da Antropologia. por períodos significativos de tempo. A Antropologia. procura defini-lo com muita clareza: “É fato social toda maneira de agir. por estar. apresentando uma existência própria. Conhecer a diferença. para a Antropologia e para o processo de relativização. que independe do indivíduo. em diferentes momentos e de várias formas. Um outro nó. um tema aparece e se repete. também o todo – a sociedade – não se explica pela parte – o indivíduo. fazendo “trabalho de campo” no “mundo do outro”. 86 . independente do indivíduo. na questão do etnocentrismo e de sua superação. nesta afirmação Durkheim investe contra o reducionismo. Colocou ele com precisão que as duas disciplinas poderiam cooperar de diversas maneiras. experimentar a existência junto ao “outro”. fixa ou não. transformados ou suprimidos no contato direto do antropólogo com sociedades diversas. são fenômenos de natureza tal que recusam explicações outras que não a própria sociedade. O antropólogo. um outro lado do laço. Neste sentido. e não menos importante para a autonomia antropológica. Tem de ir morar. é necessário entendermos o quanto foi penoso e fundamental. que é geral na extensão de uma sociedade dada. E. obrigado aos estudos sincrônicos. Com isto. suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior. Já vimos o papel aí desempenhado pela ruptura que Radcliffe-Brown estabeleceu entre Antropologia e História. São “coisas” porque autônomos. passa a poder esboçar uma tentativa mais solta de compreender o “outro”. principalmente. é de extrema importância e será visto um pouco mais adiante. mas também se afirma como entidade autônoma. tem de viajar. a conquista de um espaço autônomo de movimento para a Antropologia. autônomos. Antes. Contando. Os fatos sociais são externos. O significado de seus estudos e da expressão “trabalho de campo”. experimentando-se a si próprio como diferente. Assim como os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos. Fatos sociais são dotados de uma Sócio-lógica. no primeiro capítulo do seu livro As Regras do Método Sociológico. o superior pelo inferior. vai ser desatado por Émile Durkheim. com instrumentos teóricos que eram criados. livre para estudar a sincronia.

Ninguém. torna-se uma força diante da qual este é coagido a uma participação independente da sua vontade. à primeira vista. em primeiro lugar. no repto lançado pela experimentação do relativismo.Acompanhando esta definição. Para a Antropologia. novamente. Estas conquistas que podem parecer. para além das manifestações individuais.diante de explicações. Diante de fatos sociais que me envolvam não me é possível deles me excluir. neste contato com a “diferença”. Sua obra Os Argonautas do Pacífico Ocidental fala sobre o arquipélago formado pelas Ilhas Trobriand e das sociedades que as habitavam. evidentes em si mesmas. dentre os fatos humanos ele é um tipo único que não pode ser reduzido a nenhum outro tipo. exigiram. Malinowski foi nosso grande viajante. uma nave lendária da mitologia. Alguém mais – Durkheim – mostra que o social tem uma particularidade que não se confunde com a soma dos indivíduos. E. Esta autonomia de um fenômeno e de uma disciplina para estudá-lo tem a equivalência de um corte longo. pode dele se ausentar. independente e própria. envolvido dentro da extensão de um determinado fato social. que o fato social coage. O social tem seu próprio caminho. viajar o “outro”. Em outras palavras. A nós. que embarcamos neste turismo antropológico procurando pensar juntos a passagem do etnocentrismo à relativização. no intrincado bolo do saber. Na definição de fato social está cristalizada a independência deste tipo específico de realidade – a social . (2) extenso e (3) externo. por todos e para todos. As regras do jogo exigem muito mais dos parceiros. a ser traçado. algo externo a cada membro de uma sociedade enquanto uma consciência particular. o “outro” com todos os seus desafios. Em segundo lugar. Com isto ele queria demonstrar. O estudioso dos fenômenos da sociedade recebe destas mãos a tarefa extremamente difícil de desvendar uma face da realidade – a face do social – cujo perfil mais radical começa. É. interessa antes de tudo ver que Durkheim levantou a questão da autonomia do social. Um argonauta era um tripulante de Argo. no entanto. outro. alguém – Radcliffe-Brown – mostra que a Antropologia tem um projeto e a História. A “diferença” cara a cara. o nome que se dá a qualquer navegador ousado. O fato social é. o fato social pressiona o indivíduo. o fato social. Na verdade. Possui força autônoma. profundo. De repente. Esta autonomia tem a trajetória de um vôo alto. parece tudo muito simples e óbvio. 87 . Esta é o clima que se espelha logo na introdução do seu livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental. Malinowski foi a grande ousadia de navegar a “diferença”. um longo esforço de relativização. o fato social se estende por todo o agrupamento onde ele acontece. Em terceiro lugar. agora. pressiona os indivíduos com uma autonomia que os submete à sua lógica. Para Malinowski. me limito a rápidas pinceladas num aspecto do pensamento de Durkheim. É. Aqui. no abandono dos confortos e seguranças do etnocentrismo. vemos que o fato social é (1) coercitivo. os índios trobriandeses eram navegadores e viajantes ousados. ele é extenso ao querer e ao poder do indivíduo. uma “coisa” que ultrapassa cada um. de um entendimento do “outro” e da “diferença” sem precedentes até então. também. racionalizações e interpretações provindas de um nível de lógica diverso desta realidade.

Imagine-se, leitor, sozinho, rodeado apenas pelo seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar a te desaparecer de vista. Imaginou-se? Pois é, eis aí! Está inaugurado, assim, na Antropologia, aquele que é provavelmente o seu maior instrumento de relativização: o “trabalho de campo”. Com Malinowski, pela primeira vez, a grande “viagem” do “trabalho de campo” se realiza. Não que antes dele não se tivesse visitado o mundo do “outro” com o intuito de conhecê-lo. Mas, a força da passagem realizada por Malinowski á a transformação da visita ao mundo do “outro” pelo efetivo “trabalho de campo”. Os trinta e um meses vividos por ele nas aldeias das Ilhas Trobriand marcam a qualificação desta passagem. Lá, Malinowski dedicou-se, entre outras tarefas, ao estudo de uma “festa”. Esta “festa” chamava-se Kula e consistia muito simplesmente numa troca de presentes entre parceiros predeterminados, escolhidos de Antemão, nas ilhas circunvizinhas. No circuito do Kula, trocavam-se braceletes e colares que, para os parceiros, eram plenos de valor e significado. Os braceletes, feitos de conchas brancas, e os colares, de conchas vermelhos, são sempre mantidos no circuito de cerca de duas dezenas de ilhas e demoram de 2 a 10 anos para dar a volta completa e retornar ao ponto de partida. O ideal é que, no fim de cada ciclo, os indivíduos participantes das trocas fiquem de posse dos objetos que tinham no início. Qualquer um que, neste processo, tentasse obter mais do que aquilo que deu no início pagaria a pena de uma desonra dura e definitiva. Como estas transações, que mais caracterizavam o Kula, não eram comerciais, qual seria o sentido desta troca de braceletes e colares? Qual o valor que tinham? Por que eram tão importantes para os ilhéus de Trobriand? Aqui começa a grande viagem, o Vôo alto de Malinowski na sociedade do “outro”, de onde consegue, finalmente, fechar o ciclo e repensar o próprio “eu”. Neste momento, procurando o sentido dos objetos do Kula, ele vê que estes objetos possuem, na sociedade do “eu”, similares que podem ser comparados. Visitando o castelo de Edimburgo, observava as jóias da Coroa do Império Britânico e o guia da excursão começa a contar as estórias vinculadas a cada objeto. Nisto, Malinowski teve a sensação de ser transportado para Trobriand e ouvir, dos seus amigos nativos, belas estórias ligadas aos braceletes e colares de conchas.. Objetos de valor britânicos e trobriandeses se equivalem se pensados na relação com seus contextos. O importante, nas duas culturas, é que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Pelas estórias de feitos heróicos de lendários possuidores, eles valem pela glória, pelos sentimentos ligados ao prazer de possuí-los. Acompanhando Malinowski, todos os leitores já devem ter percebido que ele abriu o caminho de um novo tipo de comparação possível; a comparação relativizadora. Diferentemente do nosso missionário do primeiro capítulo que retirou objetos de um contexto cultural e aplicou-os em outro, fazendo com isso um uso estético de objetos originalmente técnicos, Malinowski comparou objetos com seus respectivos contextos e destes para outra cultura onde também examinou contexto e objetos. Esquematicamente falando, a comparação de Malinowski foi dos braceletes e colares do Kula com seu significado na sociedade trobriandesa

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versus jóias da Coroa Britânica com seu significado na sociedade inglesa. Comparou relativizando o “eu” e o “outro”. A comparação relativizadora, o trabalho de campo, a autonomia da Antropologia diante da História e do fato social frente ao individual são passos gigantescos. Passos gigantescos nessa disciplina que, a cada momento, ousou sempre. Do etnocentrismo à relativização, a Antropologia foi criando seus instrumentos de abertura. Idéias, métodos, teorias de compreensão da diferença foram fazendo das sociedades do “outro” um espelho para a sociedade do “eu” e não um fantasma a ser exorcizado. O “outro” é, cada vez mais, a “diferença” feita alternativa possível de existência. Com os vôos altos de Durkheim, Radcliffe-Brown e Malinowski começa a se impor esta perspectiva relativizadora no jogo da Antropologia. Resta agora confirmar esta perspectiva, dar a volta por cima do etnocentrismo e eleger a diferença como conquista. A viagem de Malinowski e sua afirmação do trabalho de campo obrigam a ida na direção do “outro”. Ele mesmo, comparando com o relativismo, aponta para um caminho fundamental: o “outro” é, também, uma fonte possível de reflexão, de transformação até, da própria sociedade do “eu”. A VOLTA POR CIMA Em 1908 muitos nomes citados ao longo dos capítulos anteriores estavam produzindo sua Antropologia. Claude Lévi-Strauss estava nascendo. Com ele iriam nascer, também, algumas das mais importantes obras da literatura antropológica. Cerca de cinqüenta anos depois, ao dar a aula inaugural da cátedra de Antropologia Social no Collège de France, faria uma homenagem a todos os grandes mestres, fundadores e pioneiros da disciplina. Encerrou, porém, sua palestra falando do “outro”. No caso, Lévi-Strauss homenageia os “índios dos trópicos e seus semelhantes pelo mundo afora”, que são, para ele, merecedores de muita ternura. Diz-se, ainda, devedor do que aprendeu com eles, e suas últimas palavras, nesta aula,são, para lembrar que destes “outros” gostaria de ser, entre nós, “discípulo e testemunha”. Tudo isso indica muito daquilo que venho procurando demonstrar deste longo caminho que a Antropologia percorreu no sentido da relativização. Em todos os passos dados por esta “ciência da diferença” você, leitor, pode ter observado a existência constante de uma tentativa, quase um compromisso. Trata-se de escapar ao etnocentrismo, a uma percepção do “outro” que fosse centrada no próprio “eu”. Trata-se, acredito, ao longo de todas as diversas formas de se pensar antropologicamente, de uma busca de compreensão do sentido positivo da diferença. Acho que a Antropologia sempre soube, mesmo em seus momentos mais distantes, que conhecer a diferença, não como ameaça a ser destruída, mas como alternativa a ser preservada, seria uma grande contribuição ao patrimônio de esperanças da humanidade. Foi este o lado da Antropologia que tentei buscar na medida em que o vejo como o principal motor, a força fundamental, que cedo se instaurou como capaz de contrabalançar o etnocentrismo. O etnocentrismo está calcado em sentimentos fortes como o reforço da identidade do “eu”. Possui, no caso particular da nossa sociedade ocidental,

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aliados poderosos. Para uma sociedade que tem poder de vida e morte sobre muitas outras, o etnocentrismo se conjuga com a lógica do progresso, com a ideologia da conquista, com o desejo da riqueza, com a crença num estilo de vida que exclui a diferença. Mas, a “diferença” é generosa.Ela é o contraste e a possibilidade de escolha. É alternativa, chance, abertura e projeto no conjunto que a humanidade possui de escolhas de existência. Creio que foi isto que o jogo da Antropologia, de alguma forma, sempre soube. A própria opção de ser o estudo do “outro”, estando ele na porta da rua, numa ilha do Pacífico ou nas savanas do Brasil central, já atesta, de toda evidência, esta “vocação” da Antropologia de preservar a experiência da diversidade. Assim, ao falar sobre o tema do etnocentrismo procurei fazê-lo exatamente por dentro de uma ciência, de um campo de conhecimento, de uma disciplina que foi obrigada a sentir mais de perto, à flor da pele, essa questão do etnocentrismo. Nesta série de pequenas viagens pelo interior da Antropologia, acompanhamos como um dos seus conceitos centrais – o de cultura – foi se relativizando. E o foi precisamente porque mais e mais a Antropologia alçava seu vôo autônomo, independente, mais e mais repassava esta autonomia para a compreensão do “outro”. Se não vejamos: de todo este retrospecto de algumas das principais vertentes da Antropologia Social vimos sempre o conceito de cultura como que articulado, conjugado, preso a uma determinada viso da história humana.. Isto, me parece, colocou sempre problemas para uma compreensão relativizadora da sociedade do “outro” O paradoxo da Antropologia está no fato de ser um tipo de ciência, de reflexão, nascida e criada na sociedade do “eu” com vista ao estudo das formas diversas com que os seres humanos assumiram sua existência humana na terra. Este paradoxo levou, muitas vezes, a Antropologia a ter como parâmetro, modelo, norma constante, para pensar o mundo do “outro”, os costumes, comportamentos e idéias do mundo do “eu”. A Antropologia havia de pensar com instrumentos do mundo do “eu” porque este é o mundo onde se criou. Com o “trabalho de campo” o mundo do “outro” começa a ter presença, na vida concreta dos antropólogos, como uma experiência da diversidade. Esta experiência começa a invadir a própria teoria antropológica que passa assim a se influenciar pelo mundo do “outro”. Por exemplo, durante muito tempo os primitivos, os índios, ou melhor, as sociedades tribais, como menos etnocentricamente convém chamá-las, foram vistas como sociedades de economia de subsistência. Isto, na verdade, seria o óbvio, pois o objetivo de qualquer sistema de produção é fazer subsistir os indivíduos que dele fazem parte. Mas o que estava por trás desta idéia era a imagem da sociedade tribal como que lutando frente ao meio ecológico, utilizando seus parcos recursos técnicos para não morrer miseravelmente de fome. Esta imagem de uma sociedade esmagada por uma incapacidade de maior produção é que se encontra por trás da noção de economia de subsistência. Economia de subsistência se traduz, neste sentido, em economia de sobrevivência ou, mais diretamente, de miséria. Mas, será esta uma verdade integral e indiscutível? Parece que não! Observando, comparando, estudando a vida destas sociedades, um professor americano, antropólogo Marshall Sahlins, comprova que, nelas,muito pouco

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ou seja. se tornava mais “verdadeira”. a Antropologia contrariou sua vocação de preservar a experiência da diversidade. está muito longe da imagem de uma economia de subsistência. Três ou quatro horas por dia. esta economia permite a existência de uma sociedade de abundância. essa forma de ver a passagem do tempo. encaixada com os conceitos de cultura. A esta visão da história correspondia a visão da cultura como listagem de fenômenos que definiriam o sentido da vida em qualquer lugar. Esta perspectiva só é possível quando se leva fé num caminho da humanidade em busca de um desenvolvimento acumulativo permanente. como um grande rio no qual todas as sociedades navegavam juntas. se desincumbe dela de forma tal que não falta nada para ninguém. foi. vice-versa. pelo trabalho de campo.a deles -. À visão de cultura como listas de itens corresponde a da história como trajetória única. Assim. Isto se torna possível. é perceber o “outro” na sua autonomia. em vários momentos da teoria antropológica. quando havia uma determinada visão de cultura. Como se a nossa maneira de conceber o tempo – a história – fosse um modelo eficaz para o estudo de todas as formas da experiência humana – a cultura. Todas as culturas teriam de viver experiências iguais. Parece que. Lembram das aulas de história? Do vestibular? Do livro didático? Pois é. a definição de história era legitimada. desta para Roma e por aí vai até um capítulo final tipo “Panorama do Mundo Atual”. uma outra . a complicação se tornou ainda maior. Quando esse conceito. porque fizeram uma opção diferente. Ora. são reciprocamente definíveis. sempre que estas certezas foram os modelos exportados como valor de verdade. Com o evolucionismo tudo isso fica muito nítido. Nesta perspectiva o mundo é mostrado do Egito para a Grécia. mais que isto. que não pratica essa acumulação. aconteceu uma exigência de compatibilidade entre os conceitos de cultura e história. Assim. quando a Antropologia se deixou guiar pelas certezas da sociedade do “eu”. em larga medida. Esta perspectiva – da história e da cultura – é o que podemos chamar de totalizadora. dedicando-se tão pouco a esta tarefa. Perceber que as sociedades tribais não acumulam não porque não podem. uma máquina produtiva que. então. quando se admite que a cultura é feita de itens iguais em toda parte. mas porque não querem. Isso se deu de forma muito clara quando o modelo da Antropologia foi o conceito de história. já que todas eram impulsionadas pelo mesmo motor histórico. quando se acredita que todos sempre procuraram respostas para as mesmas perguntas.tempo é dedicado a atividades econômicas. sobrevivência ou miséria. com muitas interrupções e com apenas parte da população se empregando na tarefa. ou melhor. seria necessariamente pobre e miserável. Muito pelo contrário. Ainda mais. Aqui podemos ter o exemplo do significado do respeito aos dados etnográficos. Ali se definia a história da humanidade como uma trajetória única. as noções de cultura estavam vinculadas à contrapartida de uma definição de história. parecem ser suficientes para satisfazer materialmente a necessidades do grupo. A cultura evolucionista e a história evolucionista são solidárias. Totalizadora porque explica tudo e encaixa qualquer diferença 91 . dados obtidos pelo trabalho de campo. que podem transformar a teoria antropológica. Para uma sociedade – a nossa – que tem o objetivo da acumulação sistemática. E. É o que comumente se convencionou chamar “História da Civilização”.

da maneira pela qual a nossa sociedade concebe a existência. nitidamente a possibilidade de um entendimento da cultura humana de um ponto de vista não histórico. de um “movimento” onde a História era ordenadora dos estádios das culturas humanas para outro onde se torna particular a cada uma delas e chegamos ao movimento onde entender uma cultura dela independe. Numa palavra: o “diferente”. Neste questionamento. ou pelo indivíduo. No plano da observação do “outro” a regra do jogo é a sincronia e. ser a interpretação filosófica feita tanto sobre a história dos homens quanto sobre a dos historiadores. a noção de fato social consagra a autonomia do objeto de estudo das ciências sociais. Agora chega o “movimento” em que a Antropologia e. No plano teórico. ou pelo ambiente. progredi. Outra vez os dois conceitos se conjugam. A Antropologia se permite mostrar que a nossa concepção de tempo não é absoluta nem universal. tudo se relativiza. a sociedade do “outro” deixam de ser pensadas por categorias. uma perspectiva nada relativizadora de pensar a diferença. É. Em outras palavras. grande e completa explicação. no fundo está a se fazer uma redução da cultura global a um efeito reflexo deste lado privilegiado. qualquer que seja. Passamos. assim. É claro que a acentuação num ou noutro destes fatores faz diferença. Com Durkheim. como capaz de explicá-la inteiramente. Do momento em que se privilegia um lado da cultura. também particular. porque evoluí. através dela. mas ainda bastante problemática. o coração por assim dizer. numa idéia de história. totalizador das “diferenças”. o “outro” é atrasado. a Antropologia vai atingir um dos centros principais. A cultura deixa de ser uma lista de itens e é afogada na escolha de um único aspecto que domina tudo e acaba por defini-la. Assim. noções e concepções da sociedade do “eu” e passam a poder pensá-las e relativizá-las. as noções da Antropologia tornam-se capazes de pensar igualmente a nossa sociedade e aquelas que dela diferem. Radcliffe-Brown e Malinowski a idéia de cultura ganha uma força extraordinária e se desprende da História. Nesta perspectiva.concretamente existente numa única. É. É o próprio Lévi-Strauss quem. pois. mas um traço comum atravessa todas estas abordagens. também. A cultura vai ser entendida como moldada. se pergunta sobre qual história estamos falando quando nossa sociedade quer fazer dela a principal forma de entender o “outro”. na verdade. Já com o difusionismo de Boas e seus alunos a coisa parece menos etnocêntrica. histórico. 92 . esta idéia de culturas particulares com problemas e soluções diversas tem. simplesmente. É um passado pelo qual já passei. o conceito de tempo linear. Colocava-se. deve-se experimentar a barra da “diferença” através do trabalho de campo. ou pela linguagem. a concepção de uma sociedade entre outras e que vale tanto quanto qualquer outra. de trajetórias distintas. para conhecê-la. pode passar a ser questionado. mas pagando o preço de reduzir a cultura a uma espécie de conseqüência de um de seus próprios lados. Ainda assim. sem descartar o valor da história como instrumento de conhecimento. Será história aquilo que os homens fazem no seu cotidiano sem saberem que estão fazendo? Ou será o que fazem os historiadores sabendo que estão fazendo uma história dos homens? Pode. sua contraparte. A noção de história deixa de ser a da humanidade como um todo e passa a ser procurada nos homens concretos com todas as suas diversidades.

o que se quer saber é como os Apinayé. possuem muito pouco sentido no seu entendimento da existência. uma linearidade ininterrupta. Tudo o que foi realizado no “presente anterior” é o mesmo que se realiza no “presente atual”. tal como para nós. Para elas. Mais fácil. na medida em que esta concepção do tempo nos exige que relativizemos a nossa. e não explicar os Apinayé pelo nosso mundo. a continuidade do seu mundo não é fruto de uma noção de tempo. O tempo não é. o tempo e a sua passagem não são a cadeia onde se entrelaçam os acontecimentos. que são como dois momentos fixos. O Apinayé concebe a existência de um “presente anterior” onde o mundo se forma. mas. Esse tempo se contrapõe. a existência de uma forma alternativa de se conceber o tempo. seria aplicar ao “outro” a nossa concepção de tempo pura e simplesmente. para isto a Antropologia foi obrigada a municiar-se de teorias. por esta pequena experiência de entender algo tão fundamental para o “outro” como o tempo. Este é o último capítulo do livro. Para um Apinayé. Dá para sentir o quanto a Antropologia foi obrigada a batalhar. mas de maneira errada. outro no chão. nos capítulos anteriores. 93 . leitor. Estes e outros exercícios de sair de si mesmo. de relativizar. no caso. Por incrível que possa parecer. um fluxo. E é mesmo. Houve o tempo da aurora onde se fixou a existência e há o tempo do agora onde se pratica aquela forma de existir. O passado é um tempo que se reflete no de hoje como um ciclo que permanentemente oscila entre dois pontos – “presente anterior” e “presente atual” -. o quanto é difícil o processo de relativização. estranho e ininteligível até. É. Uma espécie de “tempo da aurora” universal onde o homem adquiriu sua existência. ele demonstra. métodos e. O antropólogo brasileiro Roberto Da Matta conviveu com e estudou um grupo de índios do Brasil central chamado Apinayé. pensam o seu mundo. Em termos mais simples. é espelho do “presente atual” que procura reproduzi-lo. Dá para sentir. de uma redefinição de seu papel como ciência. enfim. sendo parte dela. para um Apinayé. foram realizados pela Antropologia. desdobrar-se. Um exemplo pode nos facilitar muito aqui. Um no céu. a unidade. Mas. revirar-se para atingir uma compreensão de coisas como esta. pensado e vivido como descontinuidade. Ou seja. sua existência. o fluxo. estudando o que fazem aqueles que você acha que fazem história ou simplesmente pensando sobre tudo isso filosoficamente? O livro onde Lévi-strauss se faz estas perguntas chama-se Pensamento Selvagem. o tempo é sentido. tipo causa e conseqüência. um jogo de espelhos. Antes. diz ele. nossa existência. tentando explicar poeticamente. se sente fazendo história. A cada novo estudo antropológico que se realiza temos como que um movimento no sentido de procurar conhecer o “outro” na forma como esse “outro” experimenta a vida. nosso tempo. Talvez isso possa parecer extremamente complexo.Você. muitas culturas e sociedades ao redor do mundo não acharam a perspectiva histórica (nossa maneira de pensar o tempo) suficientemente interessante para adotá-la. seu tempo. Muito mais simples seria dizer que o “outro” não sabe o que é o tempo ou que sabe. Nas páginas onde se questiona sobre a história está travando um debate com as idéias de Jean-Paul Sartre. entre outras coisas muito importantes para o conhecimento do ser humano. até mesmo.

Leva ainda adiante esta idéia apontando que uma das finalidades da disciplina é ser uma espécie de “arquivo universal”. as culturas humanas constituem-se de conjuntos de verdades relativas aos atores sociais que nela aprenderam por que e como existir. cria outras. as formas de experimentar a riqueza da vida que amanhã podem não estar mais disponíveis. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas. passa a ser possível quando a Antropologia encontra o que parece ser uma espécie de vocação. enquanto ator social. não existem mais. pode ser vista como um texto de teatro que aprendemos e representamos e os outros atores nos entendem e conosco contracenam porque também conhecem o texto. de “catálogo geral” das alternativas humanas de existência. por assim dizer. A cultura. Este código é a cultura. Tal como um código. destrói sociedades. Pode também ser vista como uma teia. fixa de maneira recuperável as existências que se esvaem. à qual nos referimos no capítulo anterior. um saber. Para tanto foi fundamental uma nova definição de cultura onde diferentes possibilidades foram exploradas. enfatizando sua dimensão interpretativa. pela qual “falamos” uns com os outros. nessa linha. Cada um de nós. classificar e praticar sua experiência. conjuntos de regras para o pensamento e a ação. a cultura “fala” da existência. um conhecimento ou. Melhor dizendo. Sendo entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Um código é uma espécie de “linguagem” compartilhada. trocamos mensagens. do antropólogo americano Clifford Geertz. cada cultura atribui significados. onde o homem tece seus significados e está a eles preso e dentro deles vive. tanto na sociedade do “eu” quanto do “outro”. utilizando símbolos de diferentes tipos. vários e importantes antropólogos procuraram juntar o conceito de cultura com a idéia de um código. mas das interpretações relativas. imposições. escolhas de uma “política” dos 94 . estudada por Malinowski.As culturas são “versões” da vida. A Antropologia. seja ao seu “tempo”. metáfora explorada por Clifford Geertz. enquanto uma experiência social alternativa à nossa. pelo trabalho de Malinowski. Esta tarefa. ao contrário. um conceito de cultura suficientemente aberto permitindo o encontro com o “outro”. teias. Aniquila experiências sociais e propões novos projetos de viver. como que mapas. O mundo muda. Aquela de ser uma ciência. Ela simboliza esta existência segundo as regras do seu jogo. Ela é uma ciência interpretativa que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. sua “sexualidade”. Numa palavra: procura colocar ao alcance do ser humano as respostas existenciais que deram os vários “outros” pelo mundo afora. Qualquer coisa pode se tornar um símbolo e estes se organizam em sistemas que são. Assim. etc. existe e troca mensagens dentro de um código fundamental que temos em comum. destinos próprios.Uma das idéias mais importantes nesta perspectiva foi colocada em discussão num livro chamado A Interpretação das Culturas. Nesse sentido. seu “corpo”. Para se pensar o fenômeno cultura. No entanto. Ele diz que a Antropologia não é uma ciência do tipo experimental que tenha como objetivo a procura de leis gerais e constantes. o fenômeno das culturas humanas vai ser visto como a alternativa que sociedades concretas escolheram de organizar. uma literatura que não é das verdades absolutas. Os ilhéus de Trobriand que faziam a cerimônia do Kula. se quisermos. tanto humilde quanto generosa. sentidos. sua “morte”. os trobriandeses estão aí vivos.

Todas as dimensões de uma cultura – da comida à música. absurdos. uma escolha psicológica. dita livre e guiada pela ideologia do amor romântico. Este caminho. e às vezes principalmente. o lado da afinidade do parentesco é.significados que orientam e constroem nossas alternativas de ser e de estar no mundo. Se entre nós a escolha do cônjuge. então. é trilhado na medida em que. definitivamente. que a nossa visão da família nuclear como coração do sistema e unidade auto-suficiente é etnocêntrica. em todos e cada um dos domínios dentro de uma cultura. como o cônjuge. Quaisquer que sejam as possibilidades da Antropologia ela. do etnocentrismo à relativização. nome e até mesmo um estilo de corpo e traços do rosto ou certa forma de personalidade e sentimento. conhecer as diferentes realidades confeccionadas pelo homem. a Antropologia discorda do princípio da sociedade do “eu” como medida de todas as coisas. as alternativas existenciais através das quais a humanidade se move. Em termos mais precisos. por exemplo. Herança. mulher e filhos) como o centro a partir do qual se deveria pensar todo o parentesco. direitos e deveres. que significa o questionamento de noções como “economia de subsistência” ou “tempo como história”. a Antropologia diante da cultura assim definida? Qual sua forma para conhecer estes sistemas de comunicação nos quais vivem os seres humanos? O ofício do antropólogo é captar as lógicas e as práticas através das quais todos nós atualizamos os códigos de nossas culturas. em muitas sociedades do “outro” esta escolha é fortemente determinada. Assim. seria interpretar este fluxo do discurso social. – mas também. Na nossa sociedade o casamento é assumido como um ato individual. O que faz. da arquitetura à roupa e tantas mais – são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. O nosso sistema supõe que a família deva transmitir e localizar toda uma série de bens. Lévi-Strauss vai mostrar. o que pensamos e fazemos. de jeito nenhum supõe que ela determine com quem devo casar. o sistema de comunicação mais amplo. de confundir a singularidade cultural da sociedade do “eu” com todas as formas possíveis de existência do “outro”. vemos o quanto a Antropologia já percorreu do caminho no sentido do “outro”. decidida individualmente. O sentimento que une os cônjuges expressa tendências. encontrados nas sociedades do “outro”. Estes conjuntos são logicamente entrelaçados e compõem o código. que seria a própria cultura de determinada sociedade. para dizer o mínimo. Mas. o caso do domínio das relações de parentesco. num famoso livro. Estes sistemas ficavam praticamente incompreensíveis aos nossos olhos ocidentais sempre que se tentava entendê-los tomando a família nuclear (marido. guardar. para entender estes sistemas de 95 . etc. que determinam não apenas os parentes consangüíneos – pais. irmãos. pareciam. parentes afins. livrou-se. portanto. ao menos. Isto quer dizer que. As Estruturas Elementares do Parentesco. enfim. sistemas de parentesco. propriedade. preferências e escolhas que pertencem ao indivíduo. quem serão meus amigos e aliados. Este é. Quando pensamos na fuga ao etnocentrismo.

O que se passou na Antropologia. Devem estar. de “foro íntimo”. enfim. A Antropologia reflete. Chegamos ao ponto de voltar dessa viagem. um outro tipo de “átomo de parentesco” que junta os elos da fraternidade. acredito. Disso resulta. Tudo isso é muito pouco. O plano onde as diferenças se encontram (onde o “eu” e o “outro” se podem olhar como iguais e onde a comparação é traduzida num enriquecimento de possibilidades existenciais) é o plano mais amplo e profundo de um humanismo do qual o etnocentrismo se ausenta. mais longe das hierarquias que se traduzem em formas de dominação. é o plano para onde a Antropologia encaminha nosso pensamento. no jogo de seus movimentos. Nas relações internacionais. morais. Aí também.parentesco. descendência e afinidade. Tudo isso indica que a Antropologia. o etnocentrismo? Acredito que a resposta está dada em cada um destes pequenos. Qualquer que seja a arena onde se discute a cultura humana. conceitos. emerge uma compreensão do ser humano. por vezes quase invisíveis. O ser da sociedade do “eu” e os da sociedade do “outro” devem estar mais perto do espelho onde as diferenças se olham como escolha. não é um dado psicológico. se obriga sistematicamente a sair das concepções da sociedade do “eu”. A ida ao “outro” se faz alternativa para o “eu”. A Antropologia é uma pequena ilha num oceano de pensamentos e práticas sociais marcadamente etnocêntricas. Enfim. Este. na tensão do relacionamento entre o “eu” e o “outro”. realmente. O que é. A afinidade nestes sistemas. o centro deste sistema. para compreender o “outro”. no lugar em que ela exerce seu esforço de aprendizado. se relativizam. a compreensão do “outro” chega a um ponto irreversível: a recusa de assumir a sociedade do “eu” como juízo final onde se encontra a verdade. interétnicas. frente a um sem-número de ideologias. sua exploração econômica e até mesmo na observação do comportamento do nosso vizinho ou em vários outros espaços de pensamento e de ação social. também. Aqui voltamos direto ao nosso tema. se transformam. seja no “parentesco” ou na “economia”. conjuntos de idéias. Aí. nos próprios termos de Lévi-Strauss. métodos e técnicas que. procuram a relativização como possibilidade de conhecimento. mas um fator estrutural sem o que não se compreende sua lógica e seu sentido social. mostra ele. sentimentos. princípios e juízos espalhados na nossa sociedade. foi ao preço de enfrentar a complexidade que significa sair do etnocentrismo. O mundo no qual a Antropologia pensa se torna complexo e relativo. a um só tempo. muito pouco se relativiza. a chave para a sua compreensão. nos costumes políticos. pensamentos e práticas etnocêntricas se complexificam. na indústria cultural. esperança e generosidade. o etnocentrismo é exorcizado. 96 . movimentos que aconteceram na Antropologia. no encontro entre o “eu” e o “outro”. seja na “individualidade” ou na “história”. é necessário ver que o coração. constituindo um sem-número de estereótipos sobre o “outro”. como vimos nesta pequena viagem por algumas paisagens. está numa unidade que inclua também a afinidade. problematizada e generosa.

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