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Livro - Comportamento Seguro

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Comportamento Seguro
a Psicologia da Seg urança no Trabalho e a educaç para a ão prevenç de doenças e ão acidentes

Colaboradores: Julio Cézar Ferri Turbay Odilon Cunha Jr.

2a edição – 2007

©
COMPORTAMENTO EDITORA SOL

Aos meus pais, irmãos, familiares e ao meu amor, minha mais profunda gratidão por compreenderem minhas ausências, estimularem minha busca e compartilharem comigo das pequenas (mas valiosas) vitorias do caminho ...

Projeto gráfico: Fab Tacahashi Lau dos Santos rício Silvio Gabriel Spannenberg Revisão: Eliane Mara Alves Chaves

Bley, Juliana Zilli Comportamento seguro: a psicologia da segurança no trabalho e a educação a para a prevenção de doenças e acidentes. Juliana Zilli Bley e colaboradores - 2 ed. - Curitiba: Sol, 2007. 160p.; 210mm x 140mm. ISB N 85-89484-09 -2 Inclui bibliografia . 1. Psicologia do Trabalho. 2 Segurança do Trabalho 3. Prevenção de Acidentes 4 Analise do Comportamento. I. Titulo. . CDD -159 Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Sol. R. Capitão Souza Franco 881, .cj 80730-420 - Curitiba 142 - PR Telefone/fax(41) 3335 : .5087 e-mail: editorasol@editorasol.com.br

Dedico este livro aos trabalhadores brasileiros, que tem o perigo como "colega de trabalho", e a todos aqueles que assumem, profissionalmente, 0 desafio da construção de um cotidiano de trabalho mais saudável e seguro para os cidadãos deste país.

Enquanto contemplava o que havia feito. pois. De comum acordo. Exigiu que Fosse imposto o seu nome. teve uma idéia inspirada: tomou um pouco de barra e começou a dar-lhe forma. Enquanto júpiter e o Cuidado discutiam. Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado. Quis. deu-lhe o corpo. feita de húmus. material do corpo da Terra. Terra. Cuidado. 0 que Júpiter fez de bom grado. Logo. isto e. também ela. há acalorada discussão acerca do nome. de volta. uma discussão generalizada. deu-lhe o espírito. "Você. traduzida livremente por Leonardo Boff) . Este tomou a seguinte decisão.Certo dia. recebera. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. portanto. Cuidado viu um pedaço de barra. que pareceu justa. moldou a criatura. ao atravessar um rio. ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. surgiu. a Terra. apareceu Júpiter. então. foi quem. Quando. porem. por primeiro. pois fora feita de barro. Você. entre vocês. este espírito por ocasião da morte dessa criatura. decido eu: esta criatura será chamada Homem. Como você. pediram a Saturno que funcionasse como arbitro. recebera. Originou-se. que significa terra fértil. E uma vez que. também de volta. o seu corpo quando essa criatura morrer. de repente. conferir o seu nome à criatura. Júpiter." (Fábula de Higino. Júpiter o proibiu.

com repercussões geralmente graves sobre a sobrevivência dos trabalhadores. Lança um exame crítico sobre as relações entre comportamento humano e prevenção. Compreender essa tendência histórica significa avaliar que os processos de intervenção sobre os problemas que envolvem a segurança no trabalho nem sempre partem do entendimento da multideterminação de . necessidades e aprendizagens vividas por esses profissionais. os desafios à prevenção e à educação para a prevenção. pode ser considerada. uma variável de incidência contínua sobre a base das organizações do trabalho. A ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho é. Avançar na produção do conhecimento. assim como suas implicações com as dificuldades enfrentadas na promoção e manutenção comportamento seguro no trabalho é.A Psicologia da Segurança no Trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes. curiosidades. cada vez mais. uma necessidade a ser enfrentada na compreensão dos problemas e objetivos que envolvem a noção de segurança no trabalho. em cada operação de diagnóstico. o papel dos treinamentos no gerenciamento de riscos. treinamento. assim como nos processos de gestão e de avaliação disseminadas nas organizações. a noção de segurança comportamental e de percepção de risco. além dos fatores críticos ao processo ensinoaprendizagem na prevenção de acidentes e agravos à saúde. portanto. Sua principal característica é reunir um conjunto de achados e elaborações teóricas resultantes das angústias. no sentido da humanização do trabalho. hoje. como a principal obra sobre Psicologia da Segurança no Trabalho no Brasil. historicamente. A obra reflete. desenvolvimento e avaliação dos processos comportamentais implicados na instalação e manutenção de taxas de acidentes e doenças profissionais. competências profissionais desenvolvidas nos processos de interação com o trabalho e seus atores. sobre os múltiplos aspectos que contribuem para a ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. tudo isso com base na necessidade de ampliar os meios científicos para compreender os processos de constrangimentos à saúde e à segurança dos trabalhadores.Prefácio Comportamento Seguro . no Brasil. a qualidade do trabalho e os custos organizacionais e do Estado. de Juliana Zilli Bley e colaboradores.

o que pode não ser complexo. é possível afirmar que a natureza do trabalho produtivo é um complexo arranjo de variáveis e suas implicações. no cotidiano das análises do trabalho. em seus diferentes planos de análise do sistema de trabalho (micro. em quaisquer desses planos de análise e nas relações entre eles. a Psicologia da Segurança no Trabalho têm objetivado suas investigações e construído modos de intervenção no âmbito das organizações. tem sido o horizonte factual e estratégico por meio do qual a Psicologia do Trabalho e. nas empresas brasileiras. os programas de prevenção nesse âmbito. que se revela. meso e macro). idéias. muitas vezes. ao mesmo tempo. simplistas. sociais e econômicos na ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. organizacionais. a priori. nas empresas. As organizações de trabalho são microsociedades que refletem. crenças e valores acerca das necessidades de gestão e de avaliação do trabalho. geralmente são criados de forma emergencial e não contínua. mais recentemente. um sistema da ação e da instrumentalização das condutas humanas de acordo com as condições e os meios de realização de trabalho. de criar programas de gerenciamento das condições de risco e da prevalência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho não têm se mostrado eficientes porque partem da . uma relativa autonomia para executar o trabalho orientado por esses princípios. espera-se um vínculo efetivo do trabalhador com os objetivos da empresa e. Infelizmente. tecnológicos. psicológicos. os sistemas de trabalho são regidos pelos princípios da competitividade. O maior ou o menor conhecimento das condutas humanas nos sistemas de trabalho. bem como determinações e efeitos. da redução de custos. é o ponto de vista de quem estuda ou empreende uma intervenção visando o controle ou a prevenção de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. Visto dessa maneira. no cotidiano do trabalho. do desperdício e do valor qualitativo do produto do trabalho. Geralmente. que enfatizam a co-responsabilidade do trabalhador pelos produtos e serviços gerados. dificultando o engajamento dos interessados e o gerenciamento de incidentes críticos associados a tais acidentes e patologias. bem como suas decorrências. As tentativas. emerge o entendimento de que cada trabalhador faz parte das estratégias de melhoria contínua das organizações que devem ser flexíveis e adaptadas ao mercado global. cada vez mais freqüentes e.aspectos fisiológicos. pressupostos das diferentes formas de gestão da produção e de organização do trabalho. Desses princípios e entendimento. Derivado desses princípios.

dificuldade em estar envolvido. metas. tempo) e as competências profissionais desenvolvidas. os graus de satisfação. o regime de metas. além dos processos intuitivos (que permitem associar as experiências vividas sobre os objetos disponíveis). uma análise das características dos sistemas técnicos de gerenciamento. nas diferentes configurações da organização do trabalho e determina a maior ou menor possibilidade da prevalência de acidentes de trabalho. controlando seus efeitos sobre o organismo. Essas manifestações. que influenciam na avaliação e promoção de comportamentos seguros no trabalho. dores. os processos culturais instalados. certamente. Os sinais para a investigação de incidentes ao acidente de trabalho. aqueles que resultam da instrução . os sentimentos de identificação e pertencimento. doenças ocupacionais. do meio ambiente físico e social e dos meios de aprendizagem. perda da capacidade inventiva. revelam desequilíbrios na relação entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador para respondê-las eficazmente. O conjunto dessas manifestações. tais como as características da gestão do trabalho e dos trabalhadores. geralmente associados às demais dimensões da vida fora do trabalho. dificuldades para aquisição de novos conhecimentos. erros. o que tende a intensificar a busca de diagnóstico de procedimentos. pois envolve o desenvolvimento de métodos mais eficazes de investigação das variáveis envolvidas. tais como a fisiologia do processo de trabalho. conflitos). sistematicamente. ao invés de incentivar a leitura das situações pelas quais se estruturam as conseqüências. pressupõe.lógica de controle das conseqüências das condutas (acidentes. por exemplo. as condições e os meios de realização do trabalho. muitas vezes definidas como expressões da carga de trabalho. tendência a isolar-se. das condições de salubridade. b) de micro variáveis ocupacionais. a percepção de risco e de segurança no trabalho. O conjunto dessas variáveis co-varia. marcas no corpo. Compreender essas manifestações e suas implicações com as características do sistema de trabalho evita o reducionismo nos processos de análise do trabalho. a capacidade de negociar com as diferentes formas de pressão produtiva (ritmo. a capacidade de controle e monitoramento de riscos e incidentes no trabalho. podem ser manifestados por trabalhadores através de qualidade nas inapetências relativas. explorando. Podemos afirmar que a noção moderna de segurança no trabalho pressupõe uma verificação e uma compreensão integradas: a) de macro variáveis do sistema organizacional. esquecimentos.

(que são construídos pelo processo intelectual diretamente envolvido na interpretação das variáveis envolvidas e suas tendências). este livro auxiliará aos interessados a ampliarem a percepção e o conhecimento sobre os aspectos do comportamento humano que definem o campo da Segurança no Trabalho. Com base nisso. que indica um campo promissor para pesquisadores e profissionais do ramo. Florianópolis. professor e pesquisador da UFSC nos Departamentos de Engenharia de Produção e de Psicologia. certamente. especialmente os psicólogos do trabalho: construir a ciência da Psicologia da Segurança no Trabalho. São aspectos que. maio de 2006 Roberto Moraes Cruz. refletindo a construção de respostas a antigas e novas necessidades de examinar criticamente os aspectos constituintes do comportamento seguro no trabalho e o dimensionamento de ações voltadas à melhoria das condições de vida e de trabalho nas organizações. suas fronteiras e interfaces com as demais ciências do trabalho. Psicólogo do trabalho. . Dr. Desenvolver métodos e técnicas para aferir e auxiliar o processo de diagnóstico e interpretação dos problemas que envolvem a manutenção do comportamento seguro e a redução sistemática da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho é um desafio constante para os que atuam nos sistemas organizacionais. espera-se que novas contribuições no domínio da Psicologia da Segurança no Trabalho possam ser organizadas. Certamente. merecem serem aprofundados com a leitura desta obra.

oferecidos pelas empresas.Apresentação A dificuldade de encontrar respostas para enigmas. recurso dos mais utilizados pelas organizações com o objetivo de conscientizar e mudar os comportamentos dos trabalhadores frente aos riscos. Em 2002. O Brasil é um país de pouca tradição de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia da Segurança no Trabalho. Após digerir tal dado de realidade. altamente qualificada e treinada. Dr. este responsável pelo . Por que as pessoas machucam-se em acidentes "bobos"? Por que uma pessoa. iniciei um curso de Mestrado em Psicologia com a missão clara e definida em minha mente: vasculhar o que a ciência já havia produzido atrás das respostas que procurava. estava disposta a desvendar novos caminhos para a solução dos enigmas que me assombravam. Roberto Moraes Cruz. O produto desta pesquisa (dissertação defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em fevereiro de 2004) é o carro chefe deste livro e não teria sido possível sem a bússola e a lupa oferecidas por meus orientadores e inspiradores: Dra. é culpa das pessoas. que encontrei como psicóloga atuando no campo da segurança do trabalho. eu foquei meus esforços e minhas esperanças em poder contribuir para desvendar alguns dos problemas e dificuldades do processo de educar para a prevenção. Caso não encontrasse. como se um "gato descesse pela minha garganta". do gerenciamento ou das instalações? À medida que o tempo passava e eu mergulhava. tive que dar conta da primeira grande aprendizagem: eu não resolveria todos os problemas de segurança das empresas nem salvaria a saúde e a vida de todos os trabalhadores brasileiros com a minha pesquisa. Olga Mitsue Kubo. comete erros pífios e machuca-se em função disso? Por que algumas empresas fazem tanto pela prevenção e não conseguem "zerar acidentes"? No fim da história. Sílvio Paulo Botomé e Dr. O conhecimento já produzido (no Brasil e em outros países) serviu de base para que fosse possível estudar um pequeno pedaço dessa realidade e sistematizar algumas contribuições para uma análise mais criteriosa dos fatores de sucesso e de fracasso dos treinamentos e das palestras de comportamento seguro. foi um dos fatores definidores da minha escolha por aprofundar meus estudos. e havia muito por fazer.

discussão e análise de alguns aspectos centrais no que diz respeito ao estudo e à gestão de processos e programas de prevenção em saúde e segurança. baseadas em aprofundamento teórico-científico e na vivência que temos tido nos chãos de fábrica. aquilo que é produzido "dentro dos muros" da universidade mobilizou sua concretização. Eu resistia à idéia de publicar uma obra tratando somente de um assunto tão específico. as quais eu conhecia e sabia. de incômodos. encarando os desafios da prevenção junto com tantos outros bravos profissionais. No entanto. baseados nas pessoas. respectivamente. de buscas para agregarem a esta obra o valor de seus estudos e descobertas. o desejo de tornar acessível. aproveitando-se esta oportunidade. baseados no comportamento humano. Julio Cézar Ferri Turbay e Odilon Cunha Jr. como treinamento. àqueles que se interessam pelo assunto. trata-se de uma fonte de consulta. uniram-se a mim nesta discussão. Juliana Zilli Bley . ou melhor. de trabalho. desde sempre. Por fim. do Brasil. complementares às que eu havia feito durante esses anos dedicados ao tema Comportamentos Seguros. Foi quando convidei dois companheiros de jornada. Havia questões complementares sobre educar para prevenir que poderiam ser contempladas. Psic. Em última análise. tratando dos temas Clima e Cultura de Segurança e Percepção de Riscos. formando um gratificante mosaico de abordagens e perspectivas de análise. deixando tantas outras lacunas sobre comportamento humano e prevenção sem sistematização. MS. um incômodo permanecia: a desconfortável escassez de livros publicados sobre Psicologia da Segurança no nosso país.prefácio.

A Noção de Comportamento Humano 44 .Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos 67 .Clima de Segurança: História e Conceito 126 .A Natureza Humana e a Segurança 107 .Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade 71 .Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança (JULIO CÉZAR FERRI TURBAY) 117 .Referências «+» 149 . Risco e Ser Humano 111 .O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção 56 .Percepção de riscos (ODILON CUNHA JR.Mudança de Comportamento 59 . gestão de pessoas e cidadania «*» 141 .Conclusões do Estudo << 5 >> 103 .Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional << 4 >> 77 .Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática << 7 >> 137 .A Percepção de Risco << 6 >> 117 .Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção 95 .Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança 81 .) 104 .Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico 79 .Obras consultadas .Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" 41 .Sumário << 1 >> 25 .Um Estudo sobre Como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura 84 . Incidentes e Desvios 112 .A Prevenção ao Longo dos Tempos 106 .Cuidar do ser: considerações sobre ciência.Psicologia e segurança do trabalho no Brasil: uma introdução << 2 >> 35 .Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? S1 Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? << 3 >> 55 .Sensação e Percepção 109 .Acidentes.Perigo.

1991. atualmente. contribuições da psicologia do trabalho. como ciência e também como profissão. e outros 1 DELA COLETA. Atividades de Prevenção. 1936. 2003). 1955. . do psicólogo José Augusto Dela Coleta' (BLEY. vem se dedicando a estudar e intervir sobre o comportamento humano no contexto do trabalho desde. a revolução industrial. Como ciência estruturada. mais precisamente. apesar do tempo de regulamentação e da proporção da categoria. principalmente no oriente. Dela Coleta. São Paulo: Atlas. 1925. seus primeiros e importantes experimentos datam de meados do século XIX. é possível dizer que desde Aristóteles (300 a. 1957. No Brasil. como processo de conhecer o funcionamento da subjetividade humana. Acidentes de trabalho . o estereótipo clínico (aquele do divã) e a idéia de que "psicólogo é médico de louco" ainda persistem no imaginário popular. Hersey. uma das mais significativas obras publicadas sobre a Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho é Acidentes de Trabalho . inicialmente nomeados como sendo "da alma" (etimologicamente.Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução Contratando somente as mãos dos trabalhadores. infelizmente. praticamente. No Brasil. Este é o caso da Psicologia do Trabalho e. A. 1944. J.c. com quase 200 mil profissionais registrados em conselhos profissionais e atuantes. Kerr. Ombredane e Faverge. atividades de prevenção. A Psicologia. Psicólogo aqui no Serviço' Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT)? Não tem ninguém louco por aqui! Psicologia e segurança no trabalho? Uma nova invenção? Modismo recente? O que o psicólogo tem a ver com prevenção de acidentes? A Psicologia. distanciando sua imagem profissional de contextos menos conhecidos da sua atuação. Davis e Mahoney.) procura-se compreender e explicar esse conjunto de fenômenos. No entanto. 1979. Em registros conhecidos.fator humano. as empresas perdem um precioso retorno' dos seus investimentos nas pessoas (Cecília Whitaker Bergamini). da Psicologia da Segurança no Trabalho. data de tempos imemoriais. Contribuições da Psicologia do Trabalho. Ao sistematizar estudos como os de Schorn. psicologia significa estudo da alma). Dunbar. 1957. é profissão regulamentada há pouco mais de 40 anos e conta.Fator Humano. não suas mentes e corações.

histórica e cientificamente. também se dá pelo fato de que as intervenções para a prevenção da ocorrência dos acidentes requerem humanização do trabalho e valorização do trabalhador. no cuidado com crianças. entre eles os relacionados às situações de trabalho. A importância da participação da Psicologia. ele apresenta a Psicologia como uma das áreas produtoras de conhecimento sobre a ocorrência de acidentes desde as primeiras descobertas científicas relacionadas ao trabalho. A obra citada de Dela Coleta (BLEY. ainda há muito espaço a ocupar e muito a contribuir. em contrapartida à relação linear de causa-efeito própria de uma concepção aristotélica (LEWIN. No entanto. como área de conhecimento. 1948. Esta é uma noção de causalidade circular. É utilizada em diferentes contextos como no trânsito. 1941. já discutiam as características de personalidade envolvidas na produção das fatalidades. na prevenção de diferentes tipos de males e perdas. como Freud. inicialmente. A Psicologia da Segurança é definida por Meliá (1998) como aquela parte da Psicologia que se ocupa do componente de segurança da conduta humana. Pode ser vista. 3) o de reafirmar a presença do profissional da Psicologia neste campo de atuação profissional. como de atuação do psicólogo nas organizações de trabalho. como o resultado da impossibilidade de se criar ambientes plenamente seguros. 2003) é um raro esforço da Psicologia brasileira em três sentidos: 1) o de demonstrar sua importância no cenário da produção científica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho. o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. componente das propostas paradigmáticas daquilo que se tem chamado de nova ciência. mas de variáveis que determinam a probabilidade de ocorrência de características de um evento. torna-se uma Psicologia da Segurança no Trabalho. resultando no exame não de uma causa. bem como a atuação de profissionais psicólogos nesse campo de atuação têm crescido no Brasil (como funcionários e como prestadores de serviço). Estudiosos e teóricos. Nesse contexto. É bem verdade que o volume de pesquisas nessa área de conhecimento. o da Psicologia da Segurança. campos reconhecidos.citados pelo autor. em conjunto com os demais profissionais que atuam com a saúde e a segurança dos trabalhadores. 1975). Assim como o comportamento humano. Cardella (1999). 2) o de demonstrar para os psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento científico sobre o fenômeno. . ocupado de forma tão tímida. e Adler. A noção de multideterminação diz respeito à tendência de conceber os fenômenos e seus aspectos como sendo causados por múltiplas relações entre variáveis de diferentes tipos ou naturezas.

são recursos utilizados por organizações para "ensinar" aos seus funcionários sobre os meios de realizar suas atividades considerando os riscos existentes. em desenvolver seus processos de trabalho de forma a favorecer a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. uma vez que prevenir é uma dimensão do comportamento de trabalhar. com grandes possibilidades de sucesso. psicológicos. as empresas têm ensinado aos trabalhadores sobre comportarse de forma segura (ou preventiva) ao realizar suas atividades profissionais? Se o processo de ensinar tem sido efetivo no âmbito educativo (do treino. é possível levantar algumas questões. de cada membro da organização. como palestras. Dela Coleta (1991) reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. no âmbito dos fatores relativos aos acidentes que podem ser chamados de psicológicos. Certamente. culturais. sociais. Esse papel pode ser desempenhado. com a segurança e com o desenvolvimento de uma cultura global de segurança(GELLER2. citado por MELlÁ. . as contingências naturais presentes no cotidiano de trabalho do aprendiz (dia-a-dia de trabalho) têm permitido a ocorrência dos comportamentos ensinados? Quais aspectos do planejamento e da realização dos eventos de segurança influenciam (favorecendo ou prejudicando) na aprendizagem dos comportamentos seguros necessários à promoção da 2 GELLER. identificada pela organização. treinamentos e reuniões. Nesse caso. Radnor. S. o conjunto de variáveis do fenômeno comportamento que precisa ser examinado é aquele que caracteriza sua dimensão preventiva. por meio das estratégias que objetivam a capacitação do trabalhador. a utilização dessas estratégias educativas (assim como dos recursos didáticos) é desencadeada por uma necessidade. Ao examinar criticamente os recursos e estratégias. USA: Chilton Book Company. de fato. Um dos papéis da Psicologia da Segurança é o de estar implicada em aumentar a possibilidade de envolvimento pessoal. resultante de interações complexas entre fatores físicos. 1996. cursos. Isso remete a uma análise das condições de segurança da conduta do trabalhador. do exercício). Os eventos relacionados com segurança. 1999). ·The psychology of saféty: how to improve behaviors and attitudes on the job. É possível afirmar que. cabe o exame da inAuência dos comportamentos humanos na sua prevenção. biológicos. define o acidente como um fenômeno multifacetado.ao articular a segurança do trabalho ao que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos). O que.

elas pouco podem produzir frente ao poder de manutenção das coisas como sempre estiveram que o arranjo das variáveis existentes pode representar. cursos. . utilizadas de forma descontextualizada e sem considerar as variáveis contingentes aos comportamentos relacionados com a prevenção. A cultura da organização. cria-se um ambiente favorável ao aparecimento de comportamentos considerados preventivos não só por parte dos indivíduos. naquilo que as pessoas aprendem como sendo sinônimo de seguro ao trabalhar em situações de risco. Dessa forma. nas políticas corporativas. pode ser a responsável pelo insucesso de estratégias e ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. porém. Entretanto. nas definições orçamentárias. 1999). Essa cultura favorável é definida como sendo aquela em que ocorre o que ele denomina de cuidado ativo. e esse aprender acontece não só dentro. das lideranças e também da cúpula da organização. ser entendido por comportamento seguro? Treinamentos. A característica preventiva pode ser identificada nos mais diferentes processos de uma organização como no planejamento estratégico da empresa. sobremaneira. como também fora das salas de treinamento e auditórios. Essa trama complexa de relações. palestras. permite que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer. Cuidar de si mesmo. Segundo Geller (2001). mas também dos pequenos grupos/setores. procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de comportamento em segurança. É o contexto influenciando os comportamentos dos indivíduos. após um período de tempo. que é caracterizado.segurança no trabalho? O que pode. que é invisível aos olhos à primeira vista. cuidar do outro e deixar-se cuidar pelo outro podem ser considerados como sendo um tripé no qual se apóia uma cultura organizacional que tem como característica essencial a prevenção (cultura de saúde e segurança). nos treinamentos e nos processos internos. inicialmente. exatamente. um dos mais importantes estudiosos da psicologia da segurança norte-americana. os estilos de liderança e os valores praticados por seus integrantes fazem parte de um amplo conjunto de contingências que influenciam. pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. a forma como são tomadas as decisões. um contexto organizacional favorável à prevenção caracteriza-se pelo cuidado como atitude essencial. Uma mudança efetiva e duradoura de padrões comportamentais dá-se por meio do processo de aprender.

suas relações. O mundo mudou. e não seu ser inteiro. Nessa perspectiva quadridimensional. Também vai além da. educadores e gestores ao construir o processo de aprendizagem de trabalhadores e organizações. É de uma educação do indivíduo. será preciso contar com o tempo (longo prazo) e com a atualização (mudança de paradigma) . o que se procura na educação do ser integral é que. tão criticada e. Vale salientar que. isto é. num período histórico no qual o mundo coloca novos paradigmas para a educação. sua capacidade de construir-se autonomamente e. político. vinha sendo o grande objetivo de ensino na educação de trabalhadores). até então. além de saber fazer. seu contexto. a relacionar-se e a desenvolver autonomia no seu processo de pensar e produzir conhecimento. realizando processos de aprendizagem de espectro ampliado (integral). e a educação precisa formar e instrumentalizar as pessoas ao redor do planeta para viver e sobreviver neste contexto social. ao mesmo tempo. ele acesse as dimensões do aprender a ser. científico. Portanto. em toda sua inteireza. Aprender a Aprender e Aprender a Fazer (OELORS. 1998).Os processos de conscientizar e educar têm sido os grandes carros-chefes das estratégias de prevenção de acidentes e doenças do trabalho com foco nos aspectos humanos. o que precisa ser preparado são seus braços. é isso que se busca nos primeiros anos do século XXI. fórmula do treinamento reprodutor das coisas como sempre foram e reprodutor da ideologia reinante. Aprender a Conviver. cultuada por empresas e profissionais. por meio da Comissão Internacional para Educação no Século XXI. sua capacidade de fazer (que. Falar de educação. treinar. Considerando os quatro pilares. a ação de educar transcende às tradicionais noções de instruir. qualificar para fazer algo profissionalmente. está longe de terminar. espiritual tão peculiar. na virada do milênio. o desenvolvimento de um ser humano deve ocorrer de forma integral. para que seja possível deparar-se com organismos públicos e privados. Vai além de uma noção clássica de que a mão de obra tem de ser preparada. sendo essa uma ampliação significativa sobre pensar e fazer educação (especialmente a educação no campo do trabalho). ou seja. ciência e cultura) declarou. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para educação. pela sua amplitude e importância. sem deixar de lado seu mundo interno. econômico. que se fala e precisa-se. é um convite à revisão daquilo que se entende como sendo o papel de cientistas. convergentes com os pilares da educação para o século XXI. que os quatro pilares que deverão sustentar as propostas de educação em todo o mundo são: Aprender a Ser. finalmente. há que se considerar o intenso processo de transformação que está em curso e que.

de técnicos e dirigentes organizacionais. onde o cenário de doenças e acidentes de trabalho está longe do que se considerado aceitável (se é que isso existe). estudada por cientistas e profissionais das áreas afins e influenciada por ambos na direção da promoção das melhores condições de saúde para aqueles que atuam em situações de risco. 1998). Tal tendência é originária da consistência entre três componentes: cognitivo (do pensar. será possível traduzir diretrizes inovadoras em práticas coerentes e eticamente pautadas. ter atitude segura significa pensar. sentir e agir com segurança sempre que o indivíduo encontrar-se numa situação de risco (noção de tendência). Capacitar e desenvolver pessoas para que se tornem competentes em pensar. do conhecer). é preciso que governantes e dirigentes de organizações revejam suas políticas de gestão de pessoas. especialmente no que diz respeito às estratégias de treinamento e desenvolvimento (T&D). Existe uma máxima entre os profissionais de Saúde e . desde que a organização de trabalho crie condições para que isso ocorra. mas sim uma tendência a comportar-se de uma determinada forma. Essa revisão deve ter como ponto de partida o questionamento acerca do papel desempenhado pelas pessoas no processo de prevenir. bem como atuar como elemento cessionário de poder e desencadeado r das pessoas que compõem um grupo nessa direção. Atitude não é sinônimo de comportamento. amplamente utilizada em campanhas e treinamentos de prevenção e considerada essencial para esse processo. O vocábulo comportamental diz respeito a essa dimensão. Isso posto. Isso pode ser verificado ao comparar a proposta da educação do ser integral com a noção de atitude. e as formas de evitar lesões e perdas. Em última análise. Só assim. sentir e agir cuidando de si mesmas. principalmente. desenvolver atitudes seguras (objetivo de grande parte dos treinamentos) significa criar condições para que as pessoas conheçam os riscos. ajam de acordo com os dois primeiros fatores. aos quais estão expostas. dos outros e deixando-se cuidar pelos outros parecem ser o grande objetivo da segurança baseada no comportamento humano. Para que isso se torne realidade em nosso país. sendo considerada por empregadores. capaz de participar e assumir responsabilidades quanto a ela. A integração dos quatro pilares na perspectiva da educação para saúde e segurança no trabalho coloca-a num nível maior de coerência com aquilo que hoje se entende por segurança comportamental que é a dimensão humana da prevenção de doenças e acidentes. sintam-se identificadas com e motivadas pela idéia de que "prevenir é realmente melhor do que remediar" e. afetivo (do sentir) e de ação (do fazer) (RODRIGUES. Esse papel é o de sujeito da preservação da sua integridade.

do andar mais alto do prédio da diretoria até a última bancada do último galpão no fundo da fábrica.Segurança no Trabalho (SST) que confirma o caráter participativo e cessionário de poder que uma cultura de prevenção deve assumir. mas começa no olhar. É isso. A responsabilidade é de todos. no sentimento e na ação cada um. . defendendo que segurança é responsabilidade de todos.

presentes na ocorrência dos acidentes de trabalho. . saber que se está fazendo isso é outra coisa (Burrhus Frederic Skinner). evitar. [ . e não no campo da ciência. ao examinar o conhecimento produzido sobre a noção de comportamento... Dela Coleta (1991. Botomé (2001). No âmbito da segurança no trabalho. Da mesma forma que é um objeto de estudo. ] o acidente de trabalho. o que requer mais do que o senso comum para examiná-lo e intervir sobre ele. neste sentido. ao sistematizar as contribuições da Psicologia para a prevenção dos acidentes de trabalho. com os companheiros de trabalho e com a organização. examina alguns aspectos do homem. o estudo da influência humana no acidente de trabalho necessita considerar o conjunto de relações que se estabelecem entre um organismo e o seu ambiente de trabalho para ser considerado como comportamental. equívocos e preconceitos acerca da sua conceituação e do seu uso.Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" Caminhar sobre um terreno acidentado é uma coisa. é um fenômeno presente no dia a dia de qualquer pessoa. 77). Os verbos utilizados para nomear os comportamentos (como prevenir. p. afirma que ela evoluiu ao longo do último século em meio a confusões.. Ele é um fenômeno de alta complexidade e variância. incluindo o meio. os comportamentos. Isso quer dizer que a máxima "de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco" pode manter a discussão sobre comportamento e segurança no campo dos "achismos". afirmando que: .. pode ser visto como expressão da qualidade da relação do indivíduo com o meio social que o cerca. analisar) podem levar a pensar que as relações que compõem esse fenômeno são simples. O comportamento das pessoas é objeto de preocupação do homem há muito tempo. o grupo de trabalho e a própria organização como um todo. todas as interrelações entre as diferentes variáveis. as atitudes e as reações dos indivíduos em ambiente de trabalho não podem ser interpretados de maneira válida e completa sem se considerar a situação total a que eles estão expostos. e seus níveis de complexidade. o que não é verdade.

com o objetivo de torná-las capazes de prevenir acidentes de trabalho. É possível afirmar que os conhecimentos produzidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho (e áreas afins dentro da Psicologia) assumem funções distintas quando se trata do trabalho de psicólogos e demais profissionais da saúde e segurança. sem o devido preparo técnico-científico. pormenorizado. equipamentos. com máquinas. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se como uma Área de Conhecimento. de diferentes áreas de conhecimento. o que confere um alto grau de complexidade a essa análise. De posse desses conhecimentos. empresas de prestação de serviços e grandes corporações brasileiras têm utilizado o termo segurança comportamental para referir-se ao conjunto de estratégias que utilizam para atuar sobre os comportamentos dos trabalhadores. à luz do código de ética) para realizar tal atividade como uma profissão. Já no caso dos demais profissionais voltados para saúde e segurança. Ele pode ser considerado um técnico. sobre os aspectos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. outras pessoas e até com a sociedade. esses profissionais poderão atuar nos seus respectivos campos (um médico do trabalho. julgamento de profissionais. a atuação das organizações sobre os comportamentos do trabalhador em relação aos riscos do seu trabalho tem enfrentado alguns obstáculos como: reduzida oferta de profissionais adequadamente capacitados para lidar com comportamento humano em segurança. dos grupos e da própria organização. de empresas e de profissionais no que diz respeito à segurança no trabalho. intervenção de profissionais de outras áreas de conhecimento sobre o comportamento. isto é.Essa afirmação merece destaque e reflexão uma vez que toma o acidente de trabalho como um produto da forma pela qual o ser humano interage com o mundo à sua volta. um conjunto de saberes e conhecimentos que podem conferir a esse profissional um entendimento diferenciado. de que o comportamentalismo tem como propósito "manipular" os trabalhadores. autorizado e fiscalizado (pelo conselho profissional. Para o psicólogo. um conjunto teórico-técnico que subsidia sua intervenção nos fenômenos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. isto é. isto é. Entretanto. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se com um Campo de Atuação Profissional. um especialista formado. por exemplo) com um alto grau de compreensão dos aspectos . Os fenômenos comportamentais relativos à prevenção dos acidentes têm sido fonte de interesse e investimento por parte do governo. ou mesmo gestores e técnicos de outras profissões. Profissionais (de diferentes formações) do campo da segurança.

em muito.humanos. muitas vezes. a aplicação de técnicas de dinâmica de grupo sem a devida preparação técnica e com pouco controle sobre as conseqüências desse tipo de intervenção. funcionam como um verdadeiro condensado de "psicologia do senso comum". atitudes. além de serem utilizadas. É importante posicionar adequadamente tais funções. correndo-se o risco do uso simplista do termo. ao mesmo tempo. comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e . que são expoentes da Psicologia do Trabalho na atualidade. Isso se deve. comportamento. Dos equívocos na concepção e na intervenção sobre os comportamentos em segurança pode decorrer o baixo grau de controle sobre os resultados das intervenções (prometer resultados que jamais ocorrerão) e da aplicação de técnicas sem o devido preparo profissional (o que pode gerar efeitos colaterais indesejados durante o processo). consideram que expressões como fator humano. tendo sido registrados até casos de descompensação emocional por parte de integrantes do grupo. podendo elevar a qualidade e a efetividade da sua atuação em função disso. Conceitos genéricos sobre os comportamentos das pessoas têm servido como base para intervenções em segurança que se intitulam "focadas no aspecto humano". em seu compêndio Manual de Psicologia da Segurança. fascinante e perigoso. Outros exemplos de equívocos são a utilização do conceito de atitude (tendência a comportar-se de uma determinada forma) como sendo sinônimo de comportamento (conjunto de relações que se estabelecem entre o indivíduo e o meio). A respeito da intervenção de profissionais de outros campos de atuação sobre o comportamento humano. Geller (2001). Trabalhar com pessoas é. a nomeação de gestão de aspectos humanos em segurança para referir-se a comportamento humano. que acaba por punir ou expor colegas e subordinados. Como já foi abordado no capítulo anterior. a atuação de psicólogos no campo da saúde e segurança no trabalho no Brasil é bastante reduzida. o estímulo de feedbacks entre pessoas despreparadas para tal. uma vez que é grande o risco de terem-se perdidos os critérios que diferenciam a utilização profissional da Psicologia da Segurança no Trabalho da sua utilização como fonte de conhecimento. Trata-se do cuidado adotado para com as questões éticas e de responsabilidade profissional. Referindo-se ao uso indiscriminado das estratégias de prevenção relacionadas com os aspectos humanos. à escassez de propostas de formação específica para esse campo e também à sua pequena expressão junto à formação profissional básica (graduação em Psicologia). como sinônimo de Psicologia por quem não é psicólogo. Dejours (1999) e Geller (2001).

ainda na década de 70. um de seus principais ícones. Intervenções dessa natureza deixam para trás um "rastro" de resistências e descrenças para com esse tipo de proposta e. é possível afirmar que a probabilidade de sucesso da intervenção de um profissional com apropriados conhecimentos relativos ao comportamento humano é alta. incluindo mudanças de atitudes e comportamentos. são selecionadas e ouvidas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque soam bem. independente da qualificação teórica e técnica apresentada pelo profissional por ocasião de uma nova oportunidade de intervenção. trata-se de caracterizar a natureza de diferentes tipos de intervenção profissional sobre essa dimensão: a dos profissionais que podem (e devem) utilizar o que há de conhecimento mais recente e confiável na Psicologia para instrumentar sua prática e a dos psicólogos que têm na dimensão humana o fenômeno que caracteriza e justifica a sua atuação profissional de forma central. Não são raros os programas de natureza comportamental concebidos e implementados por pessoas com formações profissionais para atuar sobre outros fenômenos que não o comportamento humano. Possuir um diploma de Psicologia não garante a efetividade da atuação do psicólogo sobre o comportamento das pessoas. Para o exame aqui apresentado. na ausência de alterações nas situações de intervenção. Não significa. Os riscos de implementar conceitos e técnicas psicológicas nos processos de intervenção sobre os grupos de trabalhadores sem a devida consciência do alcance das suas implicações podem constituir-se na obtenção de resultados insuficientes. dificultam atuações futuras nesse campo. e não porque são estratégias de trabalho com base em conhecimentos científicos. a crítica sempre presente de que atuar sobre o comportamento humano no trabalho é o mesmo que manipular o trabalhador parece infundada quando se conhece a fundo a análise do comportamento como proposta científica. como conseqüência. Não se trata de restringir a atuação dos profissionais de outros campos de atuação no que diz respeito à dimensão humana do processo de segurança (isso não seria possível).desenvolvimento. porém. na influência sobre o desequilíbrio emocional dos participantes do processo. Um livro inteiro poderia ser produzido somente apoiado no debate acerca de intervenção sobre o comportamento x manipulação de pessoas. até mesmo. oferecia argumentos esclarecedores acerca desse tipo de "acusação". na provocação de situações contrárias aos objetivos propostos (fortalecimento de resistências) e. Ainda sobre os obstáculos. preconceituosamente. Skinner (1983). afirmar que esses profissionais realizarão intervenções equivocadas. é suficiente citar Skinner . No entanto.

temperatura). Mais do que a ação visível de uma pessoa. p. pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos. tecnológicos. crenças e traços de personalidade). desarticuladora da idéia de manobrar as pessoas para onde bem se entende sem que elas possam participar com suas próprias opiniões e seus próprios anseios. 21): “ . O comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo . destaca três domínios que requerem atenção para que a segurança seja um valor em uma organização: fatores ambientais (equipamentos. fatores comportamentais (práticas de segurança e de risco no trabalho). normas e procedimentos. legais e organizacionais foram alcançados. Para ele. principalmente com relação aos aspectos humanos dos processos de segurança industrial. Autores como Dejours (1999) e Davies e Shackleton (1977) afirmam que o homem é o elemento relativamente estável do processo. as normas e os procedimentos de trabalho da atuação concreta dos trabalhadores? Quem pode oferecer tal resposta? Geller (1994). relação com colegas e supervisores. por si só. ao referir-se a uma cultura de segurança total. o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação. o mundo seria diferente.. com certeza. entre outros. mas ainda há muito a ser feito.. ferramentas. fatores pessoais e comportamentais representam a dinâmica humana da segurança ocupacional. as orientações dadas nos treinamentos. Tal premissa já é. fatores pessoais (atitudes. pois de nada adianta capacete de última geração se o trabalhador não souber ou não quiser colocá-lo (adequadamente) em sua cabeça. ferramentas. Se isso fosse fácil e possível. sendo o meio caracterizado como máquinas. estou mais preocupado com interpretação do que com previsão e controle". grandes avanços relativos a aspectos ambientais.(1983. complementada e inter-relacionada com os fatores ambientais. necessariamente. A utilização da análise do comportamento e suas possibilidades como recurso para o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa. Essa é uma das grandes interrogações do mundo da segurança: o que separa os equipamentos modernos. A Noção de Comportamento Humano Quando se trata de prevenção de acidentes.

1996). Podemos chamar de comportamento todo o processo de inter-relação entre as variáveis. Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? . criando uma outra realidade. 2001). p. Dessa forma. Figura 1 Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento o conjunto de relações possíveis entre o que um organismo faz e o ambiente (anterior e resultante da ação) no qual ele faz Situação O que acontece antes ou junto à ação de um organismo Ação Aquilo que um organismo faz Consequência O que acontece depois da ação de um organismo FONTE: Botomé (2001. A figura 1 apresenta as relações possíveis entre os componentes de um comportamento. considerando-se as situações. como resultado da ação (Botomé. Em segurança. Entender o comportamento como uma relação entre a realidade de inserção de uma pessoa. a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois. Uma análise do comportamento de prevenção (um estudo das variáveis que afetam o comportamento em exame) significa identificação das variáveis contingentes às respostas do organismo relacionadas aos riscos presentes. o tipo de comportamento desejável em segurança é aquele que possui como resultado a não ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. Identificar e analisar aquilo que interfere na ocorrência dos comportamentos de trabalho podem ser uma maneira de conhecer as relações funcionais existentes. permite afirmar que um profissional. tem maior probabilidade de gerar resultados relevantes por meio da sua atuação no trabalho (STÉDILE. as relações de influência recíproca que se estabelecem entre elas e o que aconteceu como resultado desse processo. que influem sobre a probabilidade do comportamento ocorrer no futuro. ao agir levando em conta esses três elementos. as suas ações perante a realidade e as decorrências de sua ação. os resultados relevantes de um comportamento são todos aqueles que podemos relacionar com prevenção.(ou junto com ela). 697). que elevam ou que reduzem as probabilidades de ocorrerem acidentes de trabalho.

Essa definição é útil à medida que contém em si as principais propriedades do comportamento que produz como conseqüência a não ocorrência de acidentes. garantindo-se o caráter. que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influência que exerce sobre as mesmas variáveis. oferecendo a essa análise um caráter compatível com seu nível de complexidade (que é grande). de um grupo ou de uma organização. então. normalmente. Há dificuldade em pesquisar sobre a noção de comportamento seguro devido à escassez de produções (científicas ou não) que tratem do que se entende por lado oposto do ato inseguro. internas e externas ao indivíduo. o resultado objetivado para o comportamento (redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis). p. O chamado comportamento de risco poderia. 23). a relação entre tempo da ação e tempo do resultado (presente e futuro). ao mesmo tempo. aquilo que não se deve fazer. pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro. torna pouco recomendável a utilização da expressão ato. o que já revela a existência de uma tendência de iniciar-se a análise tomando como ponto de partida o erro. O conceito de comportamento como conjunto das relações entre o que um organismo faz e o meio em que faz permite avançar no entendimento da dimensão comportamental da segurança no trabalho. os aspectos do meio que devem receber intervenção (os riscos da atividade). utiliza-se. para si e para o outro (BLEY. individual e coletivo desse comportamento. os adjetivos . ao mesmo tempo. a noção de ato inseguro como forma de referir-se aos aspectos comportamentais em segurança.Nas discussões no âmbito da segurança no trabalho. Deveria esse ser chamado de ato seguro? O comportamento seguro de um trabalhador. São elas: os verbos que indicam as ações que devem ser realizadas (identificar e controlar). excluindo os demais fatores também constituintes do fenômeno. os comportamentos relacionados com a segurança também são considerados como determinados por múltiplas causas. ser definido por meio da relação com sua conseqüência. como afirma Skinner (1983. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. 2004). Dessa forma. pois ela remete o exame somente aos fatores externos ou observáveis do comportamento. Tal entendimento de que comportamento é algo que existe. e os agentes envolvidos (si mesmo e o outro). dentro e fora da "pele de cada um de nós".

negligência e imprudência são algumas das expressões comumente utilizadas para qualificar os comportamentos próprios e impróprios das pessoas diante dos mais variados perigos. Se ele subestimou o tamanho do buraco. Tal compreensão permite examinar a possibilidade de prevenir danos (acidentes e doenças) à saúde como um processo. 1999.seguro e inseguro podem ser vistos como graus da segurança de um mesmo comportamento. Ato inseguro. P. é possível considerar que ele comportouse de maneira segura. e o resultado dessa ação pode caracterizar o risco ao qual ele foi exposto. Se ele evitou passar pelo buraco. Esse exame permite utilizar os adjetivos seguro e preventivo para referir-se a comportamentos que resultam na redução da probabilidade de algo indesejável acontecer. os adjetivos seguro e inseguro podem ser entendidos como aspectos do comportamento de "trabalhar" de um sujeito (figura 2). O fator de risco de uma atividade pode ser concebido como a representação de diferentes graus de exposição de um indivíduo a um agente perigoso ou como a probabilidade de ocorrência de conseqüência indesejável ser reduzida. é dito que ele comportou-se de maneira insegura. Figura 2 Graus das condições de segurança de um comportamento Seguro Inseguro Graus de Segurança do Comportamento FONTE: adaptação da autora a partir do esquema de graus das condições de saúde de organismo (REBELATTO. Assim. . atitude preventiva. teme ou evita um grande buraco na estrada. cuida. É possível exemplificar esse processo: quando um motorista desafia. Evitar o acidente de trabalho é. o que significa dispô-los num continuum que pode variar do mais seguro ao menos seguro (ou de risco). BOTOMÉ. controla. 1999). ele está se comportando em relação ao perigo (buraco). enfrenta. a finalidade do comportamento que recebe o adjetivo seguro. e não como uma ação fixa. em última análise. 62). caiu no buraco e teve seu veículo avariado. O conceito de risco está associado à relação entre a freqüência da exposição e as conseqüências que podem ocorrer em função da exposição (CARDELLA. dizendo "ele é bem menor do que parece".

. A segurança no trabalho como área de conhecimento seria. as decisões organizacionais. a dimensão comportamental do trabalho seguro pode influenciar nos diferentes graus de segurança possíveis para o trabalhador. Não se trata de culpar o trabalhador da ocorrência de acidentes. os procedimentos de trabalho e também o tipo de relação que o trabalhador estabelece com os perigos inerentes à sua atividade. Essa compreensão traz à tona a influência decisiva do homem na exposição ao risco e contraria o senso comum da vitimização do homem. isto é. que o remete a um papel desprovido de qualquer participação na ocorrência indesejável. Não basta estar de posse de um anteparo para impedir que as fagulhas produzidas por uma máquina atinjam os olhos do operador. No entanto. das condições de trabalho. Sob essa raiz. diretamente. muitas das ações de controle necessitam da participação das pessoas para serem efetivas. é possível dizer também que. assim como em outras atividades consideradas arriscadas. mas de identificar os níveis de influência que as pessoas envolvidas na realização de uma atividade arriscada exercem sobre as ocorrências na intenção de tornar possível a reorganização das variáveis presentes. extinta.Essa exposição depende. Ao desconsiderar a possibilidade que o homem possui de influenciar nas variáveis que elevam a probabilidade de ocorrer acidentes. é preciso posicionar o anteparo entre o centro gerador da fagulha e os olhos para que o resultado aconteça: olhos protegidos de corpos estranhos. dessa forma. e não um destino divinamente traçado. o risco pode ser examinado como uma opção do ser humano. Ações de controle são realizadas por empresas e profissionais da segurança para que a probabilidade de ocorrer acidentes seja reduzida ao mínimo possível. cujo significado resume-se em ousar. Nesse exemplo. em decorrência dessa concepção. Identificar e rearranjar os aspectos envolvidos permitem agir sobre os determinantes dos problemas antes que eles aconteçam para que não aconteçam. o ser humano desconsidera a possibilidade de influir sobre a prevenção dos acidentes. Risco significa a combinação da probabilidade e da conseqüência de ocorrer um evento perigoso especificado. definição que permite encobrir o exame dos aspectos humanos envolvidos e pode significar a ênfase nos aspectos de natureza estatística dos riscos. para prevenir acidentes. Isso poderia significar que o homem não exerce poder sobre os graus de segurança das suas atividades. as quais podem envolver a disponibilidade e a adequação do maquinário. Bernstein (1998) afirma que a palavra risco é uma derivação italiana antiga para risicare.

pois o ruído é um sinal de que poderá haver uma explosão. originado da parte inferior do equipamento. no qual já realizou reparos em outras oportunidades. ferindo-o gravemente. O colega sabe disso porque. reiniciando o ciclo de investigação. não ocorrer o acidente (como decorrência de evitálo de forma efetiva) enfraquece o comportamento de evitar. Por outro lado. uma seqüência de acidentes ocorre. Skinner (1967) explica que.Ao sistematizar os conhecimentos provenientes da Análise do Comportamento sobre o que ele chama de reforço negativo condicionado. a não ocorrência do aversivo (danos à saúde causados por acidente) tende a enfraquecer. com pessoas significativas ou visto por meio de fotos e vídeos). Um trabalhador de manutenção realiza um reparo num equipamento. O trabalhador desliga o equipamento e retoma os reparos para que o problema que causou o ruído fosse descoberto e resolvido. um funcionário havia sofrido um acidente ao realizar reparos num equipamento semelhante quando um ruído semelhante ocorreu e foi seguido de uma explosão. plano de ação para evitar que . a ocorrência da resposta (desligar o equipamento) que. O autor ressalta. o comportamento de evitar é fortalecido. gradativamente. Se o indivíduo fizer isso e. o fato de. Tal fenômeno pode ser representado pelas tradicionais comemorações por período sem acidentes. se houver um estímulo (um sinal) que precede uma situação desagradável. evitar a situação aversiva. eleva a probabilidade do aversivo (danos à saúde causados por acidente) ocorrer. que o contato com o estímulo aversivo (sofrer acidente) pode recondicionar o poder do estímulo anterior (ruído grave e baixo) e fazer com que o organismo volte a comportar-se de forma a evitar o contato com o aversivo. o indivíduo pode perceber o sinal e agir para evitar essa situação. A seguinte situação pode exemplificar a possibilidade de aplicar o exame do conjunto de relações descrito pelo autor ao exame do problema dos comportamentos para segurança do trabalho. repetidamente. possivelmente. Considerando a análise sobre a resposta de evitar. realmente. Dias após o bolo e os balões decorativos. feita por Skinner (1967). o que faz com que o ciclo· repita-se. Um colega que trabalha num outro equipamento ao lado orienta-o para que desligue imediatamente o aparelho. Pode-se dizer que o ruído ajudou o trabalhador a evitar um acidente naquele momento e. ajudará a evitar outros em condições semelhantes. Em última análise. é possível afirmar que a ameaça de sofrer acidentes pode ser útil para evitá-los quando o comportamento do indivíduo está sob controle do acidente ocorrido (com ele. na empresa em que trabalhava anteriormente. Ao testar o equipamento após a intervenção. ainda. percebe um ruído grave e baixo. por sua vez.

prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência. é adequado afirmar que esse tipo de comportamento tem como propriedade definidora a sua capacidade de reduzir (e manter baixa) a probabilidade de acidentes para o indivíduo. O verbo reduzir. Assumindo a análise dos aspectos que compõem o processo de evitar como ponto de partida. Por isso. 1999. mesmo em graus mínimos. Conhecer as relações que compõem o ciclo analisado possibilita a interpretação de fenômenos como o da alternância entre períodos com e períodos sem a ocorrência de acidentes nas empresas. uma vez que as duas noções costumam ser utilizadas como sinônimos. ed. em função das propriedades que foram descritas.ocorra novamente etc. ao ser aplicado ao estudo da segurança no trabalho. . Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? A característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. que tem como um dos significados "tornar menor". P. o da ocorrência de acidentes com funcionários que foram submetidos a muitas horas de treinamentos de segurança e até o do insucesso de campanhas e programas na redução da quantidade de acidentes ocorridos nas empresas. S. pode representar a capacidade de influenciar na probabilidade do acidente ocorrer de forma a torná-la menos provável. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e perspectivas profissionais.. entre elas a natureza estatística. 2. principalmente por ser este um dos principais paradigmas do campo da saúde e da segurança no trabalho. nem todas as 3 REBELATTO. Ao tratar de forma detalhada da causalidade circular que define o comportamento preventivo. Considerando que o comportamento seguro ocorre na presença de riscos. A comparação permite afirmar que o processo de redução parece ser mais apropriado como propriedade definidora do comportamento seguro em função da semelhança que apresenta em relação às características definidoras da noção de risco. a fim de impedir sua ocorrência. R. visto que não seria possível obter o mesmo tipo de conseqüência de forma duradoura por meio do processo de evitar. j. parece importante examinar aquilo que tem sido considerado como prevenção. BOTOMÉ. Analogamente. é possível identificar a necessidade de diferenciá-lo do que significa o processo de reduzir. São Paulo: Manole.

e não apenas em relação aos problemas ou suas conseqüências. Manutenção de características adequadas nas condições de saúde. São eles: atenuar. Prevenção da existência de danos nas características das condições de saúde. 1996) sistematizaram os diferentes tipos de atuação profissional possíveis em relação aos graus de condição de saúde apresentados. Ao proporem essa definição. manter e promover. tais procedimentos são mais condizentes com os tipos de atuação tratar. Reabilitação (limitação. É possível afirmar que grande parte das estratégias de prevenção adotadas em nível governamental. Compensação dos danos produzidos nas condições de saúde dos organismos. compensar. Sua representação pode ser examinada na figura 3. As distorções naquilo que se entende como prevenção podem implicar importantes conseqüências para os resultados de treinamentos e palestras que têm por objetivo ensinar a prevenir. redução) de danos produzidos nas condições de saúde dos organismos Recuperação (eliminação) de danos produzidos na qualidade das condições de saúde dos organismos. EPIS. reabilitar.formas de atuar sobre os graus de saúde de um organismo podem ser chamadas de prevenção. tratar. procedimentos. prevenir implica em agir em relação aos determinantes dos problemas. FONTE: Stédile (1996. 1996) permite visualizar equívocos e acertos nos processos utilizados para gerenciar os acidentes de trabalho. prevenir. o que muda o foco de atuação: do problema existente (o acidente) para fatores que alteram a probabilidade da sua ocorrência (dispositivos de segurança. Promoção de melhores condições de saúde existentes. Figura 3 Tipos de atuações profissionais possíveis Atenuar Compensar Reabilitar Tratar Prevenir Manter Promover Atenuação do sofrimento produzido por danos definitivos nas condições de saúde dos organismos. Conhecer os tipos de atuação propostos por Rebelatto e Botomé (STÉDILE. Rebelatto e Botomé3 (STÉDILE. empresarial e de intervenção profissional (entre as diferentes especialidades do campo da saúde e da segurança no trabalho) sustenta-se por meio do . uma vez que grande parte das empresas afirma fazer prevenção em segurança apenas calculando taxas de freqüência de ocorrências e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. supervisão no caso da segurança no trabalho). reabilitar. 48) Conforme pode ser examinado na figura 3. compensar e atenuar. p.

. é relevante examinar a importância do processo de ensino-aprendizagem para a prevenção dos acidentes de trabalho.paradigma da doença e do acidente. e não da saúde. Se prevenir acidentes pode. pode-se considerar que o campo da saúde e da segurança tem se especializado mais em morte do que em vida. também. Correndo o risco da generalização. ser considerado um processo comportamental e aprender representa a possibilidade de ocorrerem comportamentos significativos para a segurança dos trabalhadores. Uma das conseqüências disso para a segurança comportamental foi uma ênfase nas iniciativas muito mais caracterizada pela descoberta e correção dos comportamentos inadequados do que pela identificação de suas causas e capacitação dos trabalhadores e dirigentes para gerar um ambiente de trabalho saudável Essa mudança de paradigma é necessária e urgente.

é possível afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho. quanto para outros países do mundo: o acidente de trabalho. antes. A educação para a saúde e a segurança é uma das tradicionais estratégias utilizadas em políticas públicas e programas de prevenção de doenças e acidentes relacionados ao trabalho como meio de capacitar trabalhadores. além da forma como isso pode ocorrer. precisa ser ensinado e aprendido. À luz do conhecimento produzido sobre o comportamento humano. no texto das leis que tratam da prevenção de doenças e acidentes. . para si e para os colegas com os quais trabalha. Isso evidencia uma crença coerente dos profissionais do campo da segurança e dos legisladores na importância do papel da educação na melhoria das condições de saúde dos trabalhadores à medida que o processo oferece a possibilidade real de promovê-la. efetivamente. É certo que a prevenção dos acidentes e das doenças ocupacionais é a principal via de acesso à mudança deste que se configura como um verdadeiro problema de saúde pública tanto para o Brasil. É possível encontrar. Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho. é necessário. compreender o que. algumas ações educativas obrigatórias (para algumas organizações) como o curso de integração de novos funcionários na empresa. alguma coisa fundamental a educação pode (Paulo Freire). a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (SIPAT) com suas palestras e campanhas educativas e até o curso de formação para membros da Comissão Interna para a Prevenção de Acidentes (CIPA).O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção Se a educação não pode tudo.

elas restringem o exame dos aspectos comportamentais. reorganizar as relações que. Ao examinar a importância do comportamento humano para a formulação de objetivos organizacionais. falta de cuidado. estabelecidas entre as variáveis.Mudança de Comportamento Uma expressão é bastante comum nos debates acerca de aspectos humanos relativos à prevenção de acidentes de trabalho: mudança de comportamentos. pois isso constitui um aspecto básico para administrar comportamento humano. é necessário identificar as variáveis das quais o comportamento é função (aspectos internos e externos ao indivíduo que mantém aquele comportamento) e criar condições para que as relações existentes entre elas possam ser reorganizadas. imprudência. negligência. o que se observa nas considerações feitas sobre as causas humanas é à forte presença de explicações orientadas para aspectos internos ao indivíduo: falta de percepção de risco. o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais. abalo emocional. É certo que. que são externos ao organismo (estão do lado de fora da pele de cada um). 700). uma vez que eliminam a possibilidade de considerarem-se os aspectos externos ao indivíduo. Tais aspectos do comportamento. compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado. p. distração. o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação. Kienen e Wolf (2002. consiste em estabelecer novas relações entre um organismo. p. .. Para que seja possível. tais fenômenos estão associados a outros na construção do cenário de um acidente. isto é. Normalmente. superar a crença de que as principais variáveis determinantes do comportamento são internas e identificar as variáveis ambientais mais significativas para alterar o comportamento. o que realmente significa mudar comportamentos? É possível criar um treinamento ou um evento que mude os comportamentos das pessoas? Para Botomé (2001. mas que também influenciam no comportamento. Por outro lado. falta de atenção. podem ser: • interpessoais: relacionamento com colegas. em muitos casos. sentimento de pertencer à equipe. Tão utilizada e com tantas finalidades que se torna raro chegar a um nível de análise em que os debatedores perguntem a si mesmos: Afinal. alterando o resultado desse comportamento. 19) afirmam a necessidade de: . com liderança..

é possível dizer que esse indivíduo mudou seu comportamento. é preciso examinar de que forma e em que contexto essas estratégias têm sido utilizadas. cursos. também. políticas motivacionais. Da necessidade de administrar o comportamento humano para evitar os acidentes de trabalho (e da complexidade que isso representa). treinamentos. feiras. Essa mudança ocorre em razão da reorganização das variáveis das quais o comportamento é função.• • • • ambientais (ambiente físico): iluminação. . sócio-culturais: condições de vida da população que compõe o grupo de trabalhadores de uma organização. A discussão sobre métodos eficazes de modificar comportamentos não esteve restrita somente ao mundo do trabalho. códigos disciplinares. equipamentos. obtém a redução da probabilidade do evento ocorrer. Muitas tentativas de modificar os comportamentos no trabalho podem ser inúteis se os aspectos do ambiente organizacional não forem considerados. hábitos regionais. Por outro lado. o que caracteriza a complexidade e a diversidade das variáveis que podem influenciar nos comportamentos das pessoas no trabalho. A mudança de comportamento em segurança pode ser entendida como uma alteração naquilo que o trabalhador consegue produzir na interação com seu meio. Se um indivíduo obtém. essa análise aplica-se. metas. aos comportamentos relativos à segurança. alta probabilidade de ocorrer um evento indesejável (acidente) num momento e. o que pode ser decorrência de modificações nos equipamentos. no momento seguinte. nas normas que regem as atividades e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização com o propósito de prevenir a ocorrência de acidentes de trabalho. Palestras. uma vez que não podem ser consideradas eficazes em si. de gestão: sistemas de gestão. da tarefa a ser desenvolvida: tempo e recursos compatíveis. como conseqüência do seu comportamento de trabalhar. jornais. mas também aos movimentos sociais. piso. normas e procedimentos. valores e tradições culturais. peças de teatro são exemplos de estratégias utilizadas com a finalidade de influenciar na conduta do trabalhador com relação à segurança no trabalho. na organização do trabalho. mas em função do resultado que produzem (aprendizagem) para seus participantes. originou-se a busca por mecanismos capazes de mudar os comportamentos das pessoas de modo que eles passassem de condutas pouco seguras para condutas muito seguras na realização das atividades.

Ao terse a obediência como objetivo de ensino. educadores dividem-se nas opiniões acerca do que deve ser aprendido pelos trabalhadores para que sejam capazes de não se acidentar. No entanto. Conhecer e respeitar as regras de segurança é importante. acontece no campo da segurança: Após quantos atos inseguros flagrados eu devo advertir um funcionário? Se deixar de promover o acidentado a um cargo melhor. Se essa mudança for relativamente permanente. em alguns casos. mas fazê-lo desprovido de análise pode ser tão arriscado quanto não cumprir as regras. nem contribuir para o acidente dos colegas.políticos. passa a ser possível organizar o ensino de forma a fazer novas sínteses comportamentais. o que deve ser definido como aprendizagem necessária para que tal capacidade seja desenvolvida? Cumprir regras? Seguir normas e procedimentos? Tomar decisões seguras? Antecipar-se aos problemas? Todas as possibilidades juntas? Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia. Instrutores. é possível dizer que houve aprendizagem (CATANIA. pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando (indispensável para poder se comportar considerando os riscos presentes) e até no . diminuem as chances de ele sofrer outro acidente? Como fazer para que todos cumpram as normas de segurança? Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos A idéia do acidente como expressão da qualidade da relação indivíduo-meio evidencia a análise do comportamento humano como uma alternativa para identificar e analisar aquilo que influencia na capacidade de um trabalhador prevenir a ocorrência de danos à sua saúde. A maior parte dos instrutores e participantes de treinamentos de comportamentos seguros estudados por Bley (2004) afirma ser cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa. Dessa forma. objetivo principal da capacitação para segurança. religiosos e à educação dos filhos: A palmada educa? O castigo é menos traumático? É útil passar pimenta nos dedos para deixar de roer unhas? Esses são questionamentos que pais e educadores fazem até hoje. 1999). gestores. o que caracteriza mudança de comportamento. os trabalhadores tornaram-se capazes de realizar suas atividades de forma mais segura. Da mesma forma.

podendo até levá-la a níveis mínimos mas. o trabalhador tende a colocar o equipamento na presença do técnico e a retirá-lo tão logo perceba que o mesmo não está mais presente. o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência e do controle. a fazer escolhas com relação a elas. penitências. O adequado equilíbrio entre a ocorrência de comportamentos controlados por regras e de comportamentos modelados por contingências parece ser um arranjo mais indicado quando se trata de comportamentos preventivos (Skinner. ao observar-se atentamente a realidade. o qual pode ser chamado de punição. ao longo do tempo. Em nome da modificação do comportamento do trabalhador.prejuízo da sua atuação com relação à criação de meios mais seguros de trabalho devido ao faro de estar condicionado a um único conjunto de regras. Multas. mas sim de um equilíbrio saudável e importante entre autoridade e liberdade (caminho do meio). Quando o efeito passar. o comportamento punido tende a recuperar a freqüência antiga. no caso das multas. No caso de um técnico de segurança advertir duramente um trabalhador que não esteja utilizando protetor auricular. que vão da difusão de informações às medidas disciplinares. castigos. isso revela . prisão. p. desvalorização são exemplos comuns no dia a dia e existem com o objetivo de acabar com a ocorrência de determinado comportamento não aceitável – excesso de velocidade. defendido por sábios e cientistas. censura. de Lao Tsé a Paulo Freire. Também não se trata de baderna e subversão. por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade. Assim posto. Entretanto. necessariamente. assaltos. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa. foram (e são) tomadas providências de diferentes naturezas. desaprovação. Entretanto. ela pode não ser permanente. passando por cursos e treinamentos. nem as multas acabaram com as infrações de trânsito. Isso significa que ensinar o trabalhador a tomar decisões por meio de escolhas conscientes e de qualidade é tão importante para a educação para a segurança quanto deixá-lo ciente das regras que precisam ser seguidas. ao observaremse as práticas mais difundidas nas organizações para esse fim. considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam. 1980. 294). Isso acontece porque a punição influencia na diminuição da freqüência do comportamento. a existência das prisões não fez reduzir a criminalidade. no caso da prisão. é possível perceber a forte presença de um mecanismo de controle bastante comum na nossa sociedade.

que requeira providências imediatas. frustração e revolta. como emergências. Avaliar a utilização de punição sob o aspecto da baixa eficiência na mudança de comportamentos não significa que esse mecanismo não tenha função no processo de segurança. Como é possível ensinar alguém a se proteger de algo que não existe (acidente não existe até que aconteça)? Uma das formas é criar um sistema de reforço de comportamentos com base no que a Análise do Comportamento chama de . na qual seja necessário evitar alguns comportamentos que representem alta probabilidade de acidente. falhas e paradas de equipamentos. no exemplo. Ser capaz de comportar-se de forma a reduzir a probabilidade de que um acidente aconteça é o objetivo maior de uma proposta de segurança com ênfase no comportamento humano. 113): . além das desvantagens da punição como agente de controle e modificação de comportamentos. a fim de que ele continue não existindo (o acidente).. do técnico. se for situação atípica. Entretanto. a punição realmente não elimina o comportamento de um repertório. Conforme Skinner (1967. pode reduzir a espontaneidade e a criatividade. por exemplo.outro aspecto importante sobre a punição: há uma tendência a fazer efeito somente na presença do agente punidor. Advertir uma pessoa ou proibir sua entrada em determinado local onde há perigo é claramente diferente de agredi-la (verbal ou fisicamente) por não ter utilizado uma máscara de proteção contra gases. é necessário que as pessoas aprendam à trabalhar considerando algo que não existe. submeter os trabalhadores a situações de tal natureza pode gerar efeitos indesejáveis como aumento da ansiedade e do medo. não é aconselhável a utilização desse procedimento no cotidiano do trabalho porque. e seus efeitos temporários são conseguidos com tremendo custo na redução da eficiência e felicidade geral do grupo. em longo prazo. o uso desse sistema de controle pode ser recomendável devido ao poder de suspender imediatamente algumas condutas. a fim de que seja possível a preservação da integridade das pessoas envolvidas. pode gerar raiva. Da mesma forma. ou se for qualquer outra situação de elevado potencial de risco. Para que isso seja possível. p. É evidente que só se justifica tal procedimento quando outros recursos de segurança não tiverem se mostrado eficazes para impedir a ocorrência de um comportamento que represente ameaça iminente às condições de saúde de uma pessoa.. Se a situação for considerada crítica. é preciso fazer isso sempre considerando e resguardando a dimensão ética do que o fato representa.

Apesar de ser um procedimento que tende a ser duradouro. pois afasta o organismo da probabilidade de sofrer conseqüências indesejáveis. Essa possibilidade justifica a . mas que não se aplica à análise da prevenção porque consiste em eliminar um estímulo aversivo que já está ocorrendo e que. a ausência do evento afeta o comportamento de forma a torná-lo mais permanente. pois ele não sofreu as conseqüências desagradáveis do acidente (lesões. por si só. pois é caracterizado pela apresentação de um estímulo reforçador ao organismo enquanto que o negativo consiste na remoção de um estímulo reforçador. p. Ou seja.reforço negativo do tipo esquiva. programas motivacionais. estabelecê-lo representa um elevado grau de dificuldade. pois requer que a instância promotora da mudança (gerências. sem uma profunda e minuciosa análise de todos os fatores que influenciam no comportamento daqueles indivíduos. é improvável que se consiga conhecer e controlar as variáveis mais apropriadas para estimular comportamentos preventivos como campanhas. Sua utilização na criação de condições para a ocorrência de comportamentos desejáveis (no caso da segurança. que é uma premissa do processo de prevenir. Um outro processo estudado pela Análise do Comportamento que pode influenciar na ocorrência de comportamentos é o reforço positivo. nesse sistema de mudança de comportamentos. códigos de valores e conduta. A conseqüência de um comportamento efetivamente seguro é que nada acontece. os comportamentos capazes de prevenir) é possível à medida que são conhecidas as conseqüências capazes de reforçar tais comportamentos. Na esquiva. elimina a possibilidade de agir antes que aconteça. O processo de fuga (em Análise do Comportamento) só é possível quando se trata da análise das causas de acidentes e doenças que já ocorreram. É diferente do reforço negativo. o que reafirma a educação como eixo central do processo de prevenção. profissionais de segurança. Uma outra forma de reforçar negativamente um comportamento é aquilo que pode ser chamado de fuga. Pode ser observado quando um comportamento tem como conseqüência um estímulo que o reforça e passa a ocorrer com mais freqüência. Catania (1999. 121) afirma que isso pode explicar por que medidas de segurança e outros procedimentos preventivos não são modelados naturalmente com muita freqüência. consultores) avalie e discrimine os aspectos que compõem as contingências (sistema de relações que facilitam ou dificultam a manutenção de comportamentos) e que poderão contribuir para que isso aconteça. dor. naquele grupo. sofrimento). a não ocorrência do acidente aumenta a chance do indivíduo comportar-se de forma segura novamente.

quanto no dia-a-dia de trabalho para que seja possível fazer com que a busca pela mudança de comportamento não fique restrita às paredes do centro de treinamento. pois não é obra do acaso). O ajuste das estratégias às características de cada grupo é eficiente uma vez que. isto é. Tal aprofundamento na análise permite alcançar o objetivo de tornar o indivíduo mais bem preparado para lidar com os riscos das suas atividades. A Análise do Comportamento já descobriu (SKINNER. em muitos casos. . quando se trata de comportamento humano. CATANIA. comemoração de conquistas como a de períodos sem acidentes (reconhecendo como foram construídas. e criar condições pessoais e organizacionais para que ele torne-se o agente do seu processo de segurança. elogios e diplomas de reconhecimento são considerados como recompensas a priori. as necessidades e as características do público a ser gerenciado. envolvendo estimulação de condutas desejáveis. sem que isso lhe pareça aversivo. descobriu evidências de que a empresa utilizava recompensas com o objetivo de fazer com que todos se comportassem da forma como ela estabelecia ser a adequada. e não um expectador. limitação (de forma saudável e cuidadosa) de condutas indesejáveis. O problema é que. construção coletiva de regras. os prêmios. aquilo que estimula comportamentos seguros em uma pessoa pode não estimular a mesma conduta em outra. partindo-se do pressuposto que esses tipos de conseqüências influenciam na ocorrência de comportamentos desejáveis para todas as pessoas. Conhecendo com profundidade os valores. 1967. Bernardo (2001). 1999) que um determinado estímulo que é reforçador para o comportamento apresentado por um organismo pode não exercer o mesmo tipo de influência sobre o comportamento de outro. vale a máxima de que cada caso é um caso. após realizar um estudo sobre as representações dos trabalhadores de uma indústria química sobre acidentes e contaminações. Isso pode (e deve) ser estabelecido tanto no âmbito dos programas de formação.utilização de recompensas por líderes e organizações na tentativa de estimular os funcionários a conduzirem suas atividades com segurança. é possível construir (ou adaptar) um conjunto de ações mais coerentes. difícil ou desagradável.

Quando o propósito é garantir a aprendizagem do participante. caminhão é diferente de carro. ocorra em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional. algo poderá ser aproveitado. Do outro lado das estratégias educativas. Certamente. É a antiga (e ainda sem solução) incoerência entre teoria e prática. mas uma pequena parte. com base nas situações concretas com as quais o trabalhador precisa ser capaz de lidar. em treinamento. os exemplos seguidos. Tão importante quanto educar em espaço diferenciado (sala de treinamento. mas isso nem sempre ocorre por má qualidade dos cursos ou dos instrutores. conforme aquilo que foi ensinado em sala. Expor o aprendiz às contingências que estarão presentes nas situações com as quais terá de lidar no exercício profissional eleva a probabilidade desse aprendiz atuar conforme os objetivos comportamentais que orientaram o planejamento do ensino (BOTOMÉ. Se o processo de capacitação for concebido com base no tipo de trabalho a ser desenvolvido e em seus respectivos riscos. o trabalhador terá mais condições de agir. Normalmente. É muito comum organizações contarem com um baixo nível de eficácia de suas ações educativas. a baixa eficácia das ações de educação está relacionada com a incompatibilidade que elas têm com a cultura e o clima da organização. Na sala de treinamento. as políticas e estratégias do negócio. o estilo de liderança e de relações de poder estabelecidos na organização. na prática. o trabalhador aprende que não se deve intervir na máquina quando ela está . Essa análise permite questionar a utilização de carga horária de treinamento por ano como indicador de desenvolvimento de pessoas. 1977). a natureza do processo produtivo. reduzir o volume e investir na qualidade da estratégia e do instrutor podem produzir resultados mais significativos. mas estrada é diferente do centro da cidade.Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade As estratégias de aprendizagem e a melhoria das condições de segurança de uma indústria precisam ser concebidas. estão a cultura da organização. planejamento do ensino. no que se referem ao comportamento humano. Não é o que acontece quando existem caminhoneiros participando de um curso de direção defensiva elaborado para taxistas. as características do vínculo empregatício. é ter clareza da importância de educar no cotidiano. isto é. realização do curso. aplicação do conhecimento desenvolvido. auditório). É necessário que o processo de levantamento de necessidades. Trânsito é trânsito. trata-se da vida real.

seu supervisor pressiona para ele fazer um reparo com a máquina funcionando mesmo. nesse caso. diz que é importante. 1999).ligada. é ele a vítima da lesão ou do acidente decorrente dessa ação. esta. é caracterizada pelo que o aluno é capaz de fazer em seu meio. transformando-a. porém. . por sua vez. Ao examinar o planejamento e a execução de eventos promovidos com o objetivo de capacitar os trabalhadores para atuarem de forma preventiva. no Brasil (se estivessem preocupados com o ensino de comportamentos preventivos). criticar e intervir sobre a sua realidade de trabalho. é possível identificar a influência de modelos da educação escolar e a ênfase na transmissão de conteúdos e informações. Partindo do princípio que a mudança de comportamento é um dos indicadores da ocorrência de aprendizagem. mesmo após ter assistido a uma palestra sobre o assunto? A característica educativa de uma determinada ação está relacionada a uma intenção de ensinar e a um objetivo final de que o público de interesse (o aluno) aprenda algo. ensinar consiste na relação entre o que o professor faz e a efetiva aprendizagem do aluno. pois não há tempo e a produção tem que ser entregue a qualquer preço. deveriam orientar-se para a construção de uma consciência crítica que proporcionasse ao trabalhador uma maior capacidade de compreender. os programas de educação em SST. num equipamento impregnado de gás tóxico. ao retomar às atividades. recebeu óculos de proteção. só desta vez. é possível afirmar que os recursos educativos utilizados para ensinar os trabalhadores a realizarem suas atividades com segurança só poderiam ser assim chamados quando verificada a ocorrência de mudanças no comportamento dos trabalhadores em relação aos riscos das suas atividades. A aprendizagem é caracterizada pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. pouco efetiva no desenvolvimento de competências. sem máscara de ar. É uma pena que quem acabe pagando o preço seja o próprio trabalhador. em decorrência do fazer do professor. será possível começar a desvendar algumas inquietações prevencionistas do tipo: Por que não cumpriu com os procedimentos de segurança? Foi treinado. Botomé e Kubo (2001) defendem que ensinar (o que o professor faz) e aprender (o que acontece com o aluno como resultado do fazer do professor) são complexos processos comportamentais intimamente inter-relacionados. aprenda a prevenir acidentes de trabalho. No lugar da ênfase nos conteúdos. A partir do momento em que os aspectos externos ao indivíduo forem considerados como parte integrante daquilo que chamamos comportamento. Segundo os autores. mas não usa por quê? Por que razão um sujeito ultrapassa uma barreira de isolamento e entra.

conhecimento e troca de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. facilitadores de processos de disseminação de informação. uma vez que são eles que exercem atividades de ensino que mais se assemelham àquelas tradicionalmente conhecidas. escrevendo num quadro branco afixado na parede. A resposta mais imediata aponta para os instrutores de treinamento. O significado comumente associado à função de educador ainda segue a figura tradicional da professora de crianças pequenas. indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. informação. as palestras. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto.Quanto aos tipos de objetivos de ensino. cumpra os procedimentos. as abordagens de conscientização. autores de livros. entre outros). O que não está incorreto. os treinamentos. até nas mesmas organizações em que foram afixados. orientadores de carreira. Dar ordens e educar são coisas diferentes. em pé. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão da AIDS. Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional Quando se trata de educação para a prevenção no ambiente de trabalho (industrial. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito à própria segurança. Somente nas últimas décadas é que o entendimento acerca da figura do educador no contexto do trabalho tem sido ampliado (ainda que discretamente) para elementos como palestrantes motivacionais. . Mensagens como: use o cinto. como sendo sinônimos de objetivos de ensino ou de coisas que os aprendizes precisam ser capazes de fazer após o processo ensino-aprendizagem. os diálogos de segurança. Em muitos casos. na informalidade. A continuidade das ocorrências da mesma natureza daquelas apresentadas nos cartazes. pessoas queimadas. os cartazes e as campanhas são amplamente apresentados como ações educativas aos trabalhadores. especialistas. não só no contexto da segurança do trabalho. não é comum que se tenha clareza de quem são os educadores. previna-se. parecem ter sido concebidos para dar ordens ou alertar. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. Não há dúvida de que consciência. O equívoco reside em considerá-las como sendo eficazes por si só. diante de uma sala cheia. de serviços. mas também no trânsito. no lugar de educar o seu público de interesse. como expor idéias. nem sempre surtindo o efeito desejado. agrícola. comercial.

orientando para a realização correta do serviço. no melhor tempo possível. a crença na experiência como sendo "vacina para não ocorrer". Ao analisar as características comuns à categoria de instrutores de treinamentos e palestras de prevenção. São considerados educadores aqueles que adentram as salas de treinamento e os auditórios.Entretanto. É preciso ter clareza acerca da complexidade do que é considerado como educar trabalhadores para prevenção em saúde e segurança para que seja possível examinar as lacunas do processo e propor meios para seu aprimoramento e sua efetividade. necessariamente. é possível identificar variáveis relevantes para a precisão do processo educativo. O primeiro ganha contornos bastante complexos quando se consideram os hábitos já sedimentados. afirmando que há muitas formas de atuar como educador numa organização. apontando problemas e auxiliando na construção de soluções que preservem as vidas envolvidas. os equipamentos. Em última análise. desdobrando políticas e diretrizes que deverão permear toda a organização. e atendendo os prazos acordados. . atingindo até a "senhora do cafezinho". assim como o são aqueles que acompanham um trabalhador na realização de suas atividades. é possível ampliar ainda mais o conceito. ao tomar-se o educador por aquele que cria condições para que alguém aprenda e considerando a complexidade do contexto do trabalho. as mesmas características de capacitar tecnicamente para operar uma Iixadeira. a tradição da especialidade: "quem é da manutenção não se acidenta". De início. utilizando-se de exposição de slides e atividades em grupo com objetivo de desenvolver competências específicas. influenciando e sendo por eles influenciado. São educadores aqueles que definem os "rumos do negócio". basta afirmar que um processo que visa capacitar uma pessoa a prevenir acidentes não tem. oferecendo condições apropriadas para sua realização. clareza acerca dos objetivos de ensino (competências e habilidades a desenvolver). autonomia de planejamento. Esses fatores requerem que o planejamento e a execução do processo ensino-aprendizagem ocorram considerando-se o cuidado com variáveis específicas como: • • • formação didática do instrutor. é educador no contexto do trabalho todo aquele que se dedicar a favorecer o desenvolvimento pessoal e profissional daqueles que estão a ele interligados. Também são educadores aqueles que definem as políticas de avaliação de desempenho das equipes.

1999). como o de Bley (2004). o que pode não ser suficiente para conduzir um processo ensino-aprendizagem bem-sucedido. entre as variáveis que têm caracterizado os eventos promovidos pelas organizações com o objetivo de capacitar o trabalhador para atuar com segurança no trabalho. Em sua maioria. consonância com a cultura da organização e os interesses de ambos os atores (funcionários e direção). uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos. A reduzida formação didático-pedagógica pode resultar na atuação de instrutores que têm sua prática baseada num misto de experiência profissional. em segurança do trabalho ou outras especialidades industriais. recursos materiais e didáticos compatíveis. tempo e método de ensino apropriados aos objetivos. uso de expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem). com grande ênfase. prejudicar o atendimento das demandas organizacionais que provocaram a realização dos treinamentos e das reuniões de segurança. Alguns dos equívocos verificados no estudo quanto ao processo de ensinoaprendizagem em prevenção são: indicação de meios para promoção da aprendizagem como sendo os fins.• • • • conhecimento acerca do repertório existente entre os participantes (nível de capacidade de atuar anterior ao evento). . Estudos. principalmente nos cursos técnicos em segurança do trabalho. descobriram que. por conseguinte. pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e. a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com aquilo que se entende por comportamentos seguros no trabalho. são profissionais com formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou superior em áreas técnicas. algum talento para a atividade docente e a reprodução criativa de modelos de ensino-aprendizagem que experimentaram quando alunos (LIMA. há uma predominância de instrutores (profissionais que coordenam as atividades educativas) com reduzida formação didático-pedagógica para exercerem a função de educadores. e. em decorrência de participar dos eventos de segurança. As informações apresentadas indicam a necessidade de reformular o processo de capacitação técnica. A utilização de objetivos de ensino divergentes no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes.

cursos. do que o ambiente de sala de aula. mas não são menos poderosos. Isso pode ter como conseqüência a não percepção da correlação existente entre o que representa ser instrutor de eventos de segurança e ser um agente de ensino. colegas de equipe) presentes no contexto do trabalho. Não significa. essencialmente. aquele que ensina vivendo de acordo com aquilo que acredita e prega aos outros. as orientações estratégicas. supervisores. O instrutor que não foi devidamente capacitado para desempenhar o papel de professor pode não ser capaz de estabelecer correlação entre o que a ciência entende por ensinar e aquilo que ele faz (ministrar evento de segurança). enfraquecendo a estratégia educativa. que alguns desses objetivos não possam ser atingidos. chegando até mesmo às conversas informais. É necessário que considerem seus processos interativos como oportunidades de ensino-aprendizagem. Escrituras orientais antigas (como as do Budismo Tibetano) afirmam que "o verdadeiro mestre é aquele que ensina com as costas". É preciso investir na formação didática dos instrutores (empregados e terceirizados) e no esclarecimento das tarefas relativas ao ensino de prevenção. as atitudes de cada um. O desenvolvimento de competências em segurança e saúde para o fortalecimento de uma cultura preventiva é um processo lento e de longo prazo que depende. isto é. sob pena de correr o risco de proporcionar aos participantes condições de aprendizagem insuficientes em relação ao que é preciso aprender para prevenir acidentes. de como é conduzido dentro e fora de sala. O mesmo ocorre com as demais categorias de educadores (diretores. o qual pode ocasionar decorrências negativas para a qualidade e a efetividade dos eventos. é claro. porém.considerando a possibilidade de os alunos virem a tornar-se instrutores. gerentes. podem ser formulados cursos específicos de capacitação para a docência. como um elemento transversal no comportamento organizacional. O resultado da falta de capacitação pode ser a realização de eventos educacionais (treinamentos. palestras. campanhas) construídos sobre estratégias e técnicas decididas de modo intuitivo e que perseguem objetivos de ensino distorcidos. Para os profissionais de outras formações e funções. o que se questiona é o baixo nível de controle das variáveis que compõem os processos de ensinar e aprender. . incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho. A preocupação com a prevenção precisa permear o processo de tomada de decisão. a reunião de análise crítica. que atuam como instrutores. já que são menos formais.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico
Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia (Michel de Montaigne). Num processo de análise e investigação de acidente de trabalho, qual é a providência geralmente indicada quando é caracterizada a influência humana como uma das causas do ocorrido? Uma vez decretada a causa do acidente, os envolvidos no evento, normalmente, têm um destino único: a sala de treinamento. Como verdadeiros instrumentos de correção, os eventos educativos têm sido utilizados na tentativa de tornar os seus participantes mais capacitados para realizar suas atividades, considerando a segurança no trabalho. Entretanto, a grande quantidade de horas despendidas em treinamentos e reuniões de segurança nem sempre demonstra correlação direta com a redução das ocorrências de acidentes verificadas nas empresas. É possível afirmar que funcionário que tenha passado pelo treinamento em segurança é um funcionário capacitado para prevenir acidentes? As formas pelas quais os eventos de segurança têm sido planejados e realizados permitem produzir os resultados objetivados? Os instrutores que ministram e coordenam os eventos de segurança estão preparados para gerenciar os processos de ensino e de aprendizagem de competências para a prevenção? Para construir respostas, ainda que incompletas, a essas perguntas é necessário identificar as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho para que esse conhecimento possa servir de subsídio para a elaboração de programas de formação e intervenção de natureza preventiva que sejam verdadeiramente educativos, éticos e coerentes com as necessidades de segurança dos trabalhadores. Diante dos questionamentos, parece oportuno um estudo orientado para identificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. Um exame dessa natureza permite detalhar os aspectos que compõem o processo ensino-aprendizagem aplicado à segurança no trabalho visto que, de acordo com o conhecimento sistematizado sobre esses fenômenos, só se pode afirmar que um

professor ensinou quando, em decorrência do fazer do professor, ocorreu a aprendizagem do aluno (BOTOMÉ; KUBO, 2001). O detalhamento das variáveis presentes no planejamento do ensino, na escolha dos temas, nos critérios de avaliação de aprendizagem, na formulação dos objetivos de ensino, nos conceitos utilizados e em outras etapas da promoção de eventos de segurança poderá oferecer decorrências para a qualidade do que tem sido oferecido como capacitação aos funcionários e também para sua efetividade como recurso auxiliar na gestão da segurança da organização. O conhecimento produzido por meio da análise de processos de ensino de comportamentos seguros permite subsidiar o aperfeiçoamento dos programas de educação, de conscientização e de mudança de atitudes frente aos riscos das atividades de trabalho e também dos profissionais envolvidos na sua realização.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança
Para a formação de um profissional, os objetivos de ensino podem ser interpretados como competências que precisam ser desenvolvidas por meio da participação do aprendiz num processo ensino-aprendizagem. As competências profissionais são definidas por Botomé e Kubo (2002) como graus da capacidade de atuar de um organismo. Sendo assim, é possível afirmar que as competências relacionadas com segurança do trabalho referem-se aos graus da capacidade de um trabalhador de controlar os riscos das suas atividades de modo a reduzir a probabilidade de sofrer acidentes. Serve, portanto, de base para a aprendizagem de práticas mais seguras de trabalho. O processo que pretende ensinar os funcionários a se comportar de forma segura parte da definição do que se entende por comportamento seguro. Em seguida, é necessário transformar as propriedades essenciais do comportamento seguro em objetivos de ensino. Isso norteará a escolha das condições de ensino mais adequadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias à construção desta competência: capacidade de comportar-se no trabalho de forma a reduzir a probabilidade de ocorrer conseqüências indesejáveis para si e para aqueles com os quais interage, ou seja, comportar-se de forma segura. Assim como as competências, as habilidades são graus de uma determinada capacidade de atuar (figura 4).

Figura 4 Noção de competência como grau da capacidade de atuar de um organismo

FONTE: Bartomé e Kubo (2002, p.89)

Os objetivos de ensino genéricos, mal definidos, geram dificuldades para a identificação das competências que devem ser aprendidas por um trabalhador e, por conseqüência, problemas para o controle das variáveis que interferem nos processos de ensinar e aprender. Os problemas podem ocorrer tanto na clareza sobre aquilo que deve ser ensinado e aprendido, quanto nas decisões sobre os métodos de ensino adequados. Instrutores que não têm clareza sobre o fenômeno que devem ensinar e alunos que desconhecem as propriedades definidoras daquilo que precisam aprender correm o risco de produzirem, juntos, uma seqüência de equívocos que pode ser perigosa quando se trata da saúde e da segurança do trabalho que realizam. Sendo assim, descobrir o que instrutores e funcionários entendem por comportamentos seguros no trabalho parece ser o ponto de partida para a proposição de enunciados que contenham as propriedades definidoras do fenômeno ao qual se referem e a formulação de estratégias de informação e ensino condizentes com a natureza do que o conceito significa.

situadas em diferentes municípios da região metropolitana de uma grande cidade do Estado do Paraná. Ou seja. Treinamento de Integração de Novos Funcionários (tipo B) e Reunião Semanal de Segurança (tipo C). Os procedimentos de coleta de dados utilizados foram caracterizados por meio da análise de documentos relacionados com políticas e processos de gerenciamento de segurança das duas empresas. como é o caso dos cursos e treinamentos organizados com finalidade de conscientizar o trabalhador. para ser "produzida". Um Estudo sobre como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura Caracterizar as variáveis do processo de ensinar comportamentos seguros é o problema de pesquisa que orientou o estudo exploratório realizado por Bley (2004) em duas empresas do setor metalúrgico. As empresas foram escolhidas em função de atuarem no mesmo setor produtivo. que repercutirá sobre a probabilidade da ocorrência de ações correspondentes dos alunos àquilo que foi ensinado. de apresentarem semelhante nível de risco e de possuírem programas e ações de gerenciamento de segurança além dos estabelecidos pela legislação. atuação dos instrutores e participação dos funcionários) e entrevistas co. Sendo assim. recursos. mas também do fato de ele ter aprendido ou não a operar a máquina de forma segura (sem causar dano à sua saúde. . Foram estudados três tipos de eventos de segurança. Foram escolhidos em função de apresentarem como um dos temas ou objetivos de ensino o comportamento seguro e de terem sido realizados entre os meses de junho e outubro de 2003. compostos por uma unidade de ensino (encontro). a competência de um operador de empilhadeira em carregar uma carga sem atropelar ninguém ou deixar cair a carga depende não só das informações que ele recebeu no curso técnico ou no de segurança.m instrutores e participantes. necessita mais do que informações a serem transmitidas em um determinado espaço de tempo. os conteúdos são insumos de um processo de ensino que tem como produto a aprendizagem. observação direta dos eventos (condições. período da coleta de dados. divididos em Treinamento de Comportamentos Seguros (tipo A). Segundo Botomé e Kubo (2002). nem à dos colegas).A capacidade de atuar de maneira segura. a competência é um grau da capacidade de atuar do operador que pode ser desenvolvida por meio de um processo de ensino-aprendizagem efetivo.

foram utilizados dois roteiros de entrevista semi-estruturados. O outro conjunto de entrevistados foi composto por 20 funcionários das duas empresas.Dentre os sujeitos das entrevistas. escolhidos em função deterem participado de um dos eventos. nas entrevistas. foram desenvolvidos protocolos de registro com base num quadro de variáveis consideradas como necessárias para responder ao problema de pesquisa. sendo quatro funcionários permanentes das respectivas empresas e um prestador de serviço. As entrevistas ocorreram em diferentes momentos. 65% tinha a manutenção como função principal na empresa. num período que compreende desde as primeiras horas após o evento educativo até dois meses depois de ocorrido. algumas tarefas relacionadas com a manutenção industrial. sendo um para instrutores e um para participantes. Na caracterização. realizarem tarefas ou desempenharem funções relacionadas com manutenção de equipamentos e manifestarem disponibilidade para ser sujeito da pesquisa durante o período de tempo estipulado para a coleta dos dados. observação direta e entrevista). nas observações diretas. Os dados coletados foram tratados e categorizados em função dos aspectos necessários à caracterização das variáveis relacionadas com ensino de comportamentos seguros no trabalho. Os demais ocupavam funções operacionais apesar de realizar. As categorias foram organizadas em função da distribuição das proporções nas quais ocorreram em cada uma das variáveis examinadas. Para cada um dos três procedimentos de coleta de dados (caracterização por meio da análise de documentos. De acordo com a natureza dos processos das duas empresas. No que diz respeito à formação. Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção Quais os aspectos que merecem ser examinados para que seja possível identificar as condições de aprendizagem oferecidas aos funcionários sobre saúde e segurança no trabalho? . 60% apresentou formação específica para atuar como instrutores (curso de Técnico de Segurança). o instrumento de coleta foi um roteiro de observação. as especialidades de maior ocorrência entre os entrevistados foram manutenção elétrica e mecânica. em suas rotinas. foram utilizadas fichas de registro. Da amostra de participantes. estavam cinco instrutores.

O conhecimento produzido e sistematizado sobre o processo ensino-aprendizagem permite destacar aspectos relacionados com o planejamento e a realização das condições de ensino que tendem a favorecer a aprendizagem. O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de educadores e aprendizes para identificar em que medida houve aprendizagem. adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos sobre prevenção de acidentes. responderam com expressões como: "mudar o comportamento e as atitudes". para você. Ao comparar respostas coletadas nas entrevistas feitas com funcionários e instrutores dos treinamentos. Partindo do pressuposto de que o principal objetivo de ensino de um evento de segurança com foco em mudança de comportamento seja desenvolver. A natureza dos objetivos derivados remete à mudança de comportamentos relacionados com segurança. o conhecimento já produzido sobre ensino por competências e didática. comportamentos seguros. tornou-se fundamental conhecer aquilo que os instrutores e também os participantes entendiam como sendo sinônimo de comportamento seguro. em algum grau. Isso permite inferir que os mesmos realizaram os eventos de posse de propósitos que levaram em conta a segurança. a segunda entre todas as concepções apresentadas pelos entrevistados e o conceito de comportamento seguro apresentado como referencial para a pesquisa. quando questionados sobre o que os participantes deveriam ser capazes de fazer após participarem dos eventos. comportamento seguro?". em boa parte. Os objetivos de ensino (competências a desenvolver) extraídos dos materiais apresentados caracterizam-se pela generalidade do que pretendem oferecer como aprendizagem aos participantes. O que precisa ser ensinado: os objetivos de ensino No exame dos eventos de segurança estudados. Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. houve a necessidade de derivar os objetivos de ensino do material coletado devido ao fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes (ver tabela 2). é possível observar (tabela 1) os resultados da análise de conteúdo das respostas à seguinte pergunta: "O que significa. Uma das evidências disso é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os . mas que foram operacionalizados sem considerar. "obedecer aquilo que foi dito em sala" e "atuar com segurança na área". Os instrutores.

quanto por funcionários. e isso pode causar prejuízo ao processo de capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho. para definir o conceito. referirem-se. Expressões como cuidado e atenção oferecem pouca informação a respeito das propriedades essenciais do processo de prevenir acidentes considerando o comportamento daquele que executa . os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores. que participaram dos eventos de segurança. Tabela 1 Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por "comportamento seguro" Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Trabalho com cuidado e atenção Obedecer às normas de segurança Ter atitude consciente e agir com bom senso Trabalhar com foco na segurança Usar equipamento de Proteção Individual (EPI) e Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) Não cometer “atos inseguros” Saber trabalhar sob pressão e receber críticas Cuidar dos colegas Ter conhecimento técnico do trabalho realizado Analisar os riscos das tarefas Participar das reuniões e treinamentos de segurança Preocupar-se com a própria segurança e aprender com os exemplos Nunca achar que sabe tudo Total de ocorrências FONTE: Dados coletados na pesquisa. em sua maioria. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de comportamentos seguros é divergente entre si e também está distante do conceito. Além disso.funcionários (trabalhar com cuidado e atenção) não foi sequer indicado pelos instrutores. ao conceito de comportamento seguro como sendo "trabalhar com cuidado e atenção" caracteriza o grau de generalidade com o qual esses trabalhadores lidam com a dimensão preventiva do comportamento de trabalhar. o que permite afirmar que há pouca clareza sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro. Funcionários (n = 20) n % 10 8 7 6 4 4 3 3 3 2 2 1 1 54 18 15 14 12 7 7 5 5 5 4 4 2 2 100 Instrutores n 0 4 2 2 1 0 0 0 0 0 0 1 0 10 (n = 5) % 40 20 20 10 10 100 O fato dos funcionários. em nenhuma proporção.

apresentar e expor são aspectos evidentes entre os procedimentos de ensino utilizados pelos instrutores. A preocupação com aquilo que o professor faz no processo ensino-aprendizagem não assume conotação negativa à medida que o processo de ensinar caracteriza-se por aquilo que o aprendiz passa a ser capaz de fazer em decorrência do fazer do professor. Ainda sobre os dados da tabela 2. é possível perguntar: Se os aprendizes não são capazes de identificar.as tarefas consideradas de risco. Portanto. se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. aluno . considerando-se a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento. para que seja possível definir aquilo que precisa ser ensinado para que o aprendiz seja capaz de prevenir. os procedimentos de ensino utilizados. o que evidencia a ênfase dada à atuação do professor no processo de ensino dos eventos estudados. distribuídos conforme os instrutores que ministraram os eventos e as empresas nas quais ocorreram. Quanto maior a amplitude da representação de um conceito. os tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos e a verificação formal da aprendizagem derivam da observação direta dos eventos de segurança e servem para ilustrar a apresentação dos tipos de eventos estudados. menor a quantidade de informações que apresenta sobre o que caracteriza o fenômeno ao qual se refere. a ênfase na atuação do professor em detrimento da atuação no aluno no contexto do processo ensino-aprendizagem pode significar a repetição do padrão do professor ensina. estão apresentados os aspectos considerados importantes sobre o planejamento educacional dos eventos de segurança. Como ensinar: a escolha dos métodos de ensino Na tabela 2. é pouco provável que os funcionários que participaram dos referidos treinamentos passem a se comportar de forma segura devido ao fato de terem participado dos eventos. é preciso rever o alto grau de generalidade apresentado pelos termos utilizados para se referir ao comportamento de prevenir acidentes. Por outro lado. Os dados relativos aos tipos de objetivos de ensino. as unidades. Nos casos estudados. serão eles capazes de comportar-se de acordo com os fatores necessários à prevenção dos acidentes de trabalho? Da mesma forma. na sua conduta. os aspectos que caracterizam o trabalho seguro. Diante dos termos utilizados pela maioria dos funcionários para conceituar comportamentos seguros no trabalho.

FONTE: Dados coletados na pesquisa Não há. relegando ao aprendiz um papel caracterizado pela passividade (BOTOMÉ. vídeos de segurança. A utilização de demonstrações de equipamentos e os breves debates parecem ser utilizados numa tentativa (que pode ser equivocada) de conferir ao evento um pouco daquilo que muitos chamam de parte prática. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. experimentar EPI. Não há. Assistir a explicação. Expor um caso real de acidente. Não há. coordenar discussão em grupo. Equivocada à medida que levantar da poltrona e fazer algo que utilize partes do corpo pode não expor o aprendiz às . repassar materiais para que os participantes os manuseiem.aprende. A participação ativa do aprendiz pode ser um importante fator de efetividade do processo. demonstrar EPI. filme institucional. apresentando informações sobre segurança. enfocar ato e condição insegura Apresentar slides e comentários sobre eles. Assistir à explicação do instrutor. ser informado sobre usos adequados e inadequados de alguns EPIs. Tabela 2 Apresentação dos aspectos do planejamento educacional observados diretamente relativos aos eventos de segurança ministrados por 5 instrutores nas empresas 1 e 2 Aspectos Empresa 1 Empresa 2 observados Instrutor 1 Instrutor 2 Instrutor 3 Instrutor 4 Instrutor 5 Tipos de objetivos de ensino que forma extraídos do material apresentado Procedimentos de ensino utilizados Corrigir atitudes e comportamentos. Tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos Assistir a explicação. Assistir à explicação do instrutor. forma da aprendizagem. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. Expor o assunto. apontamentos em flip chart. o que reduz a complexidade do processo de ensinar e aprender. apresentando informações sobre segurança. Verificação da Não há. Integrar novos empregados. ser informado sobre usos adequados de alguns EPIs. Integrar novos empregados e prestadores de serviço. KUBO. Apresentar slides e comentários sobre eles. discutir o assunto. responder às perguntas do instrutor. usar exemplos práticos. responder às perguntas do instrutor. 2001). fazer perguntas aos participantes. Assistir à explicação. assistir aos vídeos de segurança. Não há. responder às perguntas do instrutor. elevando as chances de aplicação daquilo que foi aprendido no evento no dia a dia de trabalho. demonstrar uso de extintor de incêndio. Apresentar temas.

o que pode indicar um baixo nível de adaptação dos planos de ensino às características do público ao qual se destina. considerando-se a semelhança existente entre eles em decorrência da natureza que os caracterizava. o que reduz as possibilidades de verificar a eficácia da aprendizagem em bases objetivas. Os instrutores sem formação técnica apresentaram maior convergência entre os objetivos de ensino propostos (competências) e a observação dos comportamentos dos participantes durante e após o evento. fazendo com que o aprendiz finalize sua participação no evento sem que a aprendizagem daquilo que é realmente importante tenha ocorrido. p. pode indicar incompatibilidade com a promoção das aprendizagens necessárias à obtenção das competências que motivaram sua realização. os objetivos de ensino e a natureza dos eventos são diferentes. o estudo permite apontar uma certa ênfase dada aos procedimentos de avaliação que ocorrem após a realização dos eventos. apesar das atividades propostas pelos diferentes instrutores serem semelhantes. Outro dado que merece destaque é que. A comparação entre o produto final e o tempo destinado à realização dos eventos de segurança.contingências necessárias à experimentação e ao treino de condutas adequadas às necessidades de ensino que motivaram a realização do evento. Os exemplos coletados foram tratados por meio de análise de discurso e classificados em categorias de ocorrências. Ensinamos segurança por meio da insegurança Um exame dos exemplos oferecidos pelos instrutores durante os eventos de segurança estudados chama a atenção para o fato de que os meios utilizados para proporcionar a aprendizagem da segurança tendem a apresentar características contrárias ao seu objetivo central. Essa avaliação costuma ser feita de modo informal e utilizando critérios subjetivos. Como afirma Freire (1996. As duas categorias principais receberam as denominações comportamentos seguros e comportamentos de risco em função dos tipos de conseqüências (positivas e negativas) . 106). seria preciso promover urna quantidade maior de unidades de ensino (módulos) para dar conta de proporcionar tamanho feito. Sobre a avaliação da aprendizagem dos participantes. Isso pode indicar a importância da aproximação entre os processos de identificação de necessidades de aprendizagem e de escolha dos meios pelos quais a demanda será atendida. De acordo com a quantidade de comportamentos que deveria ser aprendida para que as competências indicadas fossem desenvolvidas. "é decidindo que se aprende a decidir".

Ocorrência Comportamento de Risco Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. os exemplos relativos àquilo que não deve ser feito permitem caracterizar as bases sobre as quais a capacitação dos trabalhadores . emprego. emprego. Referência a condutas inseguras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Ênfase no cumprimento de normas e regras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. amigos. amigos. Referência a condutas insegura Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos. Suposições sobre a influência de causas humanas no risco de acidentes. Independente do instrutor.evidenciadas pelos instrutores para as condutas exemplificadas. Referências ao tratamento de problemas já instalados. Ênfase no cumprimento de normas e regras.8 A = Treinamento de Comportamentos Seguros B =Treinamento de Integração de Novos Funcionários C = Reunião Semanal de Segurança FONTE: Dados coletados na pesquisa É possível constatar que 80% dos exemplos referem-se àquilo que pode ser considerado "comportamento de risco". quantidade de ocorrências e proporção dos exemplos oferecidos por instrutores durante os eventos de segurança observados diretamente. família). Ênfase nas perdas que o trabalha-dor poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. Ênfase nas perdas que o trabalhador poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. As categorias secundárias (subdivisões das categorias principais) foram constituídas em função do exame da natureza de cada um dos exemplos coletados (tabela 3). Referência a condutas inseguras. Tabela 3 Natureza. Ocorrência 1 4 2 1 1 1 7 6 3 2 1 2 1 1 1 1 A Correlação dos comportamentos seguros com exemplos positivos externo ao trabalho 3 1 1 1 1 B Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. em detrimento de exemplos de comportamento seguro. os quais indicam a necessidade de apresentar comportamentos seguros no trabalho Categorias de exemplos que se referem a: Evento Comportamento Seguro Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes.20 Total de ocorrência Proporção Total 34 0. Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. do formato do treinamento e dos participantes. família). Isso indica uma tendência à utilização de exemplos de comportamento considerado inseguro com maior freqüência. Indicação de comportamentos desejáveis Evidências do compromisso da liderança com a segurança Indicação de comportamentos desejáveis C Total de ocorrência Proporção Total 8 0.

o contra-exemplo). a redução da criatividade e dos níveis de felicidade do aprendiz (sente-se ameaçado) e a dificuldade do aprendiz em generalizar o que foi aprendido para outras situações devido ao caráter mecânico do cumprimento de regras. a apresentação da conduta desejada somente mediante a presença do "agente punidor" (só cuida quando o líder está por perto). o que implica nas decorrências já descritas por Skinner (1967) e Sidman (2001) sobre os aprendizes. pois as contingências presentes no seu meio de trabalho. que favorecem o seu comportamento de risco. é necessário que modelos de aprendizagem que utilizem. ao examinar a esquiva (mudar o comportamento para evitar conseqüências ruins) como forma de promover mudança de comportamento. A escolha do método de ensino implica em conseqüências significativas para aquilo que precisa ser produzido como resultado do processo de ensinar. o aprendiz escolheria se comportar de forma segura para evitar ser acometido pelos mesmos resultados. Como é possível só falar de comportamentos errados num evento especialmente desenvolvido para ensinar às pessoas a maneira correta de se comportar? A observação dos exemplos apresentados nos eventos de segurança permite questionar se a utilização dessa forma de representar a importância da prevenção estaria relacionada a um tipo de expectativa por parte do instrutor de que. ao conhecer ou relembrar as possíveis conseqüências de um comportamento de risco. com maior freqüência. Skinner (1967). Parece oportuno . a comoção) da tragédia apresentada ao aprendiz (a foto de acidente. o reforço positivo sejam utilizados pelos instrutores. que são: a baixa durabilidade da conduta aprendida (volta logo ao que fazia antes). passado o efeito (o susto. O predomínio do contra-exemplo (casos de acidentes e de condutas de risco). afirmou que é alta a probabilidade de. Isso inclui apresentar exemplos de condutas seguras em maior quantidade e proporção. ele retome ao seu padrão de comportamento anterior à exposição.tem sido promovida. Criar condições para que os participantes aprendam a comportar-se de forma segura deveria ser o foco de um evento de segurança que tem esse tipo de comportamento como objetivo e. permanecem inalteradas. para que isso seja possível. caso o propósito seja educar para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. isto é. da sinalização de conseqüências negativas e da ênfase no cumprimento de regras como meios para produzir aprendizagens de comportamentos preventivos representa a utilização de modelos de aprendizagem marcados pela punição e pelo reforço negativo (fuga e esquiva). os instrutores têm utilizado a insegurança para (tentar) ensinar a segurança.

utilizando métodos prontos ou copiados de outros eventos ou escolhendo em função das preferências pessoais. tendem a planejar o ensino escolhendo a partir de preferências pessoais. empresas. para os possíveis resultados sociais sob a forma de prejuízos à integridade dos trabalhadores e implicações econômicas para pessoas. Podem ser consideradas como variáveis definidoras dos processos de planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros as informações que serviram como ponto de partida para o planejamento. São formas de escolher que tendem a desconsiderar as características essenciais dos participantes. nesse caso instrutores dos eventos de segurança estudados. governo e sociedade. de modo geral. decorrem problemas para os programas de conscientização e educação. dos objetivos de ensino e da demanda a partir da qual o evento foi planejado e realizado.perguntar: Quais critérios têm servido como orientações para tomar decisões sobre o método que deverá ser realizado? O método escolhido é capaz de proporcionar condições adequadas à aprendizagem das competências definidas nos objetivos de ensino? A natureza dos critérios indicados revela que os instrutores. Conclusões do Estudo O estudo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho passou pelo exame dos meios e critérios utilizados pelos agentes do ensino. a escolha dos recursos (didáticos. É preciso considerar as características dos aprendizes e dos objetivos de ensino como ponto de partida para planejar o método e realizar o ensino (BOTOMÉ. Dessas lacunas. a escolha de temas abordados e métodos de ensino. apesar de complexo. esse conjunto. para planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros. principalmente. As expressões e os exemplos apresentados por instrutores durante a realização dos eventos e as concepções relatadas por instrutores e funcionários em resposta ao questionamento sobre o significado do conceito comportamento seguro no trabalho evidenciam lacunas importantes para a construção de uma cultura de segurança no trabalho. os procedimentos de avaliação da aprendizagem dos alunos. físicos e ambientais). KUBO. 2001). para a gestão dos comportamentos em uma organização e. os tipos de objetivos de ensino e as características da formação dos instrutores para desempenhar a função de professor. Naturalmente. não esgota . comprometendo a obtenção dos resultados esperados.

é pertinente a utilização das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros como insumo para avaliar a qualidade e a efetividade de seus programas e de suas políticas. Uma das análises mais significativas para esse estudo é orientada pelo dado revelador de que aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de comportamentos seguros no trabalho apresenta divergências. Também para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco. esse e outros estudos têm evidenciado algumas distorções no encaminhamento dos processos de treinamento que podem acabar por comprometer. que os materiais educativos utilizados podem estimular o medo dos trabalhadores em sofrer lesões e levar à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima. No entanto. podem resultar em comprometimento da modificação das práticas de segurança dos trabalhadores ao realizar suas tarefas.todas as variáveis relevantes. cumprir regras é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa se comportar de forma segura. ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros. do modelo de ensino que se pretende utilizar. O estudo permite inferir a existência de lacunas entre aquilo que um professor precisa ser capaz de fazer para promover o ensino (competências para ensinar) e as características da formação profissional daqueles que exercem a função de instrutores . de acidentes e de contra-exemplos (o que não deve ser feito) como forma de aprender confirma a inadequação de alguns dos procedimentos apresentados para o contexto do ensino de comportamentos seguros. Almeida (2001) concluiu. tais divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. sua efetividade. Da mesma forma. dos riscos presentes. o planejamento e a realização do ensino. Elas podem variar em função do tipo de atividade. em algum nível. Tais afirmações permitem perguntar: Por que se utiliza a insegurança para ensinar segurança? Quais os efeitos de se utilizar a doença como meio para ensinar a saúde? Ter o conceito de comportamento seguro como objetivo de ensino é um fator central na concepção de programas educativos focados no desenvolvimento de competências para a segurança no trabalho. O uso excessivo de regras. Questionar a respeito do quê e de que forma tem sido ensinado aos trabalhadores sobre comportamentos seguros no trabalho parece ser um importante ponto de partida para as empresas na busca pela capacitação de seus funcionários em segurança do trabalho. quando são incoerentes com as competências adequadamente definidas. Para os instrutores estudados.

Mais uma vez. Tal contribuição corrobora para aferição do grau de importância que o desenvolvimento de competências preventivas pode representar para o gerenciamento das perdas. é apresentada na tabela 4. É possível afirmar que as propriedades essenciais que caracterizam um comportamento considerado preventivo ou seguro. constituído com objetivo de identificar as competências intermediárias que poderão servir de ponto de partida para o planejamento do ensino desse tipo de competência para a realização de uma atividade de manutenção de equipamentos. O enunciado dos comportamentos intermediários apresentados (de primeiro nível) permite levantar hipóteses a respeito dos efeitos significativos que tais competências poderiam gerar no gerenciamento de aspectos considerados como sendo técnicos da lida com as falhas e as perdas em manutenção. principalmente no que diz respeito à gestão das falhas. quanto os funcionários de operação e manutenção que ministraram eventos e não tinham formação em segurança apresentaram desempenhos considerados incompatíveis com aquilo que já é conhecido em didática e programação de ensino. no contexto da manutenção industrial. ao discorrer sobre a importância estratégica da manutenção para a competitividade das empresas. do ponto de vista da segurança industrial. é possível examinar um exemplo de Análise Comportamental daquilo que é entendido como sendo comportamento seguro. Nela. são originários das mesmas disfunções organizacionais. Em última análise. É importante ressaltar que falhas e acidentes. afirma que a capacitação é um elemento fundamental na determinação dos níveis de qualidade dos trabalhos realizados por profissionais da função de manutenção. Arouca (2003). os profissionais formados em segurança apresentaram desempenhos mais próximos do que pode ser chamado de ensinar do que os profissionais sem a formação técnica em segurança. ao comparar os dois grupos. são fortemente semelhantes àquelas que definem um comportamento preventivo no que diz respeito ao funcionamento de um equipamento ou processo produtivo. é reforçada a necessidade de investimento na formação didática dos educadores para o trabalho seguro. também por meio da capacitação para a segurança. tanto humanas quanto de processo e de equipamentos.dos eventos de segurança. geralmente. Uma maneira de evidenciar a possibilidade de aperfeiçoamento dos serviços realizados por profissionais de manutenção. Tanto os instrutores com formação técnica em segurança do trabalho. um profissional competente para desenvolver suas atividades sem sofrer ou provocar acidentes de trabalho tende a . No entanto.

p. um processo de humanização está assentado na capacidade de uma pessoa interagir com seu meio. para si e para os colegas"). perdas. o que caracteriza o processo de capacitação em segurança como sendo vantajoso também para a atuação técnica dos profissionais de manutenção e para seus resultados no âmbito da organização. Tabela 4 Exemplo de Análise Comportamental para derivação de competências intermediárias que servirão de base para o planejamento do ensino de comportamento seguro numa atividade de manutenção de equipamento Competência geral que precisa ser ensinada Comportamento Seguro ao realizar manutenção de equipamento (Definido por "ser capaz de realizar a atividade de forma a reduzir a probabilidade de acontecer conseqüências indesejáveis no futuro. FONTE: Dados coletados na pesquisa Conhecer como acontece o ensino da prevenção é importante para que as organizações possam desenvolver estratégias que contribuam para aumentar a efetividade das intervenções educacionais.. O planejamento dos programas de treinamento e de comunicações de natureza preventiva precisaria levar em conta não só o conhecimento já produzido sobre a área e as normas que o trabalhador deve . exatamente. e essa capacidade pode. 148) consideram que: . Aperfeiçoar execuções de tarefas a partir da avaliação feita. Estas se forem somadas às mudanças organizacionais e até governamentais. constituir o que é alvo (ou objetivo) do ensino (ou de ensinar). contribuindo para a construção de padrões comportamentais de alto nível no que diz respeito à segurança e para uma humanização das condições de trabalho oferecidas. torna-se possível a revisão de propostas antigas e a produção de novas propostas de ensino que oportunizem ao trabalhador condições de aprender aquilo que é essencial à preservação da sua integridade e também da produção. Competências intermediárias (primeiro nível de análise) Maximizar as condições de segurança no planejamento de uma tarefa a ser realizada Executar uma tarefa planejada com segurança Avaliar o processo de execução da tarefa em termos de seus riscos e os comportamentos apresentados em relação a eles.experimentar alta probabilidade de conseguir reduzir as chances de provocar erros e falhas decorrentes de suas ações. Botomé e Kubo (2001.. Comunicar descobertas feitas sobre a execução de tarefas no que se refere aos comportamentos seguros envolvidos nessas tarefas. podem favorecer a transformação de um discurso sobre prevenção em uma realidade. A partir da identificação do que é importante para a melhoria da qualidade do ensino e da contribuição dos processos educativos para a prevenção de acidentes (erros. falhas).

as características regionais que extrapolam os muros da fábrica e. é torná-las capazes de pensar. desenvolvamse como pessoas e como profissionais. Criar condições para que os trabalhadores aprendam e. assim. Competência tem a ver com capacidade de agir no mundo. e não só com a quantidade de informações que o indivíduo é capaz de armazenar. como também os aspectos presentes na cultura e no clima de segurança da empresa. sentir e agir em prol de uma cultura promotora de saúde e qualidade de vida. e não só para o trabalho. ao mesmo tempo. sua atividade e sua ameaça. .cumprir. principalmente. as situações com as quais ele lida no cotidiano e que constituem. é educar para a vida.

equipamentos e materiais. essas evoluções relacionam-se. Segundo historiadores. uma de suas defesas era a paralisação inconsciente: ficava imóvel frente o predador. o homem não produzia ferramentas que o auxiliassem a sobreviver no seu dia-a-dia. quatro milhões de anos. o Homem teria outra opção na mesma situação: enfrentar o predador. Nota-se que. houve avanços tecnológicos. feridos e até mesmo doentes. teremos uma breve existência do homem em relação ao nosso planeta. Devido a esse fato. na maioria das vezes. Hoje. Há quatro milhões de anos. permitiram o alcance do objetivo almejado. o homem inovou e produziu ferramentas e instrumentos que. Em contrapartida. inicialmente. aumentou também o risco a sua existência. seria inapropriado descrever as vantagens que a eletricidade trouxe para nossas vidas. O interessante é que. após sua domesticação. conseguia confundir o predador e permanecia intacto. aproximadamente. quatro bilhões de anos. praticidade. Por isso. aliás. e a espécie humana surgiu há. tal evolução trouxe novas conseqüências em forma de ganhos e perdas para sua sobrevivência. também "criaram" novas situações e novos cenários que podem o levar a adoecer. reduzindo a escala. por um lado. Entretanto. . Com o passar do tempo e o desenvolvimento das ferramentas. Com isso. notadamente seus membros superiores. o primeiro sinal de vida na Terra surgiu há. bem como a sofrer acidentes. como o desenvolvimento de ferramentas. o desenvolvimento das habilidades sociais e dos aspectos cognitivos diferenciou o Homem das demais espécies. Nota-se que.ODILON CUNHA JR. em situações nas quais ele passava a ser a caça. devido ao aumento das fontes que podem lesar o homem e da convivência dele com novos perigos. por outro. A única "ferramenta" reduzia-se ao seu próprio corpo. proporcionalmente. com o fenômeno chamado percepção de risco. Como veremos a seguir. há um número maior de ocorrências relacionadas a descargas elétricas do que havia 200 anos atrás. Outro exemplo contemporâneo é a eletricidade. mais ou menos. Na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. suas caças eram animais de menor porte. diretamente. logicamente. temos conforto. Percepção de riscos Trabalhar com segurança é uma luta diária contra a natureza humana (Scott Geller).

país onde o movimento prevencionista radicou-se e desenvolveu-se. mais especificamente à Inglaterra. sejam elas laborais ou não. as massas trabalhadoras foram exploradas. que "essa legislação foi a primeira tentativa deliberada e sistemática. após o nascimento da revolução industrial. para proteger os seus interesses. atravessando o Atlântico. por parte da sociedade. por parte dos trabalhadores. substituindo o trabalho humano pela máquina. Nesse meandro. que prosseguiram até nossos dias. surgiram leis de segurança social e foram introduzidos o trabalho sistemático e a legislação fabril. na Inglaterra. os primeiros indícios de ações prevencionistas remontam à Europa do século passado. levando-se em consideração os perigos e riscos existentes. pagando o custo social da mudança. Juntos. As profundas alterações tecnológicas provocadas pela revolução industrial que se iniciou em 1760. Após esses acontecimentos. técnicos. 1983. duas novas classes sociais caracterizaram as sociedades pósrevolução industrial: a classe dos patrões e a classe dos trabalhadores. A Prevenção ao longo dos Tempos Segundo Kletz (2002). bem como da resultante da relação. em seu livro O Capital. o alto número de acidentes do trabalho resultou na união dos trabalhadores com algumas autoridades. Com isso. lançada com o aparecimento da primeira máquina de tear e marcada pela invenção da máquina a vapor (em 1781) por James Watts. Isto é prevenir. p. Assim. não existindo qualquer organização. a revolução industrial espalhou-se pela Europa Ocidental e. os primeiros sinais das ações prevencionistas foram motivados pelos movimentos sociais iniciados na década de 20. na maioria das vezes. os primeiros passos . Logo após. para controlar o movimento básico de seu próprio evolucionismo" (MARX. Na América Latina. desembarcou nos Estados Unidos da América.A questão é a seguinte: é imprescindível compreender a relação do homem com suas atividades. o risco. 121). que se enfrentavam direta e individualmente. Karl Marx afirma. deram início aos grandes processos de industrialização. torna-se possível uma administração harmônica dessa convivência praticamente inevitável. No início do século XIX. especialistas e empresários. devido às ações conjuntas entre governo. homem e perigo. firmaram bases e iniciaram campanhas sociais com o intuito de melhorar as relações de trabalho. no Brasil.

Nota-se que são recentes os acontecimentos relacionados com a prevenção de acidentes no Brasil.prevencionistas surgiram com a criação do Ministério do Trabalho. Não se pode generalizar. em relação ao aspecto segurança. é a realidade. Inúmeras vezes. mesmo sabendo das conseqüências dessa atitude? Obviamente. por isso. A Natureza Humana e a Segurança Apenas para "engrossar mais o caldo". em sã consciência e saúde mental. momento em que todos os nossos sentidos estão em alerta máximo. Na verdade. ainda. Vale destacar. permite compreender a importância do assunto Percepção de Risco para as lideranças e organizações. É interessante que a mesma pergunta pode ser feita sobre outras situações cotidianas e rotineiras: Por que atendemos celular enquanto estamos dirigindo? Por que atravessamos a rua fora da faixa? Por que não lemos os manuais antes de operar novos equipamentos. uma questão social de extrema importância: a formação do trabalhador. assim. na maioria dos casos. o fator complicador é que até em universidades ou cursos técnicos acontece o mesmo. caso segurança fizesse parte de nossa natureza. sendo otimista. do século XX. o ser humano assimila um número . até mesmo de segurança. segurança faz parte da natureza humana? Esta questão completa a análise do contexto e. não se pode confundir o instinto de sobrevivência com o processo educativo de segurança e prevenção. Enfim. No entanto. as lideranças questionam sobre o que leva o trabalhador a quebrar uma norma ou desrespeitar um procedimento operacional. é tratado em sala de aula nas escolas. por exemplo. Com o passar dos tempos. por exemplo. mas sabe-se que. A partir daí. jamais desrespeitaria algo que pudesse causar lesões a si mesmo. seja ligado ao meio ambiente ou à segurança do trabalho/do lar. irracionalmente. Seria uma resposta instintiva a essa contingência. ou melhor. Somente em poucos momentos. deve-se entendê-lo como racional e parte de um processo educativo e. o cenário preventivo é abalado ainda mais· se levando em consideração tal apontamento. o assunto prevenção. o ser humano. por instinto. as crianças começam a aumentar o repertório de informações relativo àquele fenômeno. O instinto faz parte de nossa natureza e ajuda-nos muito diante de situações desconhecidas ou até mesmo frente a situações de extrema exposição. quando os pais ensinam seus filhos que aquilo reluzente chama-se fogo e que faz "dodói". um assalto. de experiências sociais. na década de 30.

audição. do qual desconhece os procedimentos de operação .fator cognitivo. É interessante salientar que as influências. independentemente de qual for.. visão). a seguir são apresentados alguns conceitos técnicos importante para a continuidade dessa discussão. autoconfiança. as experiências passadas. a posição hierárquica. clima de trabalho. ingestão de remédios etc. . com o intuito de prevenir que algo indesejado ou desagradável ocorra. conhecimento operacional e técnico. o homem está emitindo comportamentos e. atitudes seguras.fator fisiológico. Veja o exemplo: um motorista vem para o trabalho gripado .. equilíbrio emocional etc. buscam dar sentido ao ambiente. já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção. dos fatores podem acontecer simultaneamente. categorizamos em três fatores: • • • fatores psicossociais: tempo de serviço. O processo de receber e converter os estímulos externos é chamado de sensação. Dessa forma. a percepção é um processo psicológico pelo qual as pessoas organizam suas impressões sensoriais e. potencializando o risco de sua atividade. orientações da liderança etc. Sensação e Percepção Segundo Bley (2004).fator psicossocial. Segundo Huczynski e Buchanan (1991). fatores fisiológicos: sono. o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. a formação. por meio dos quais os dados de realidade são recebidos e imbuídos de significado. Por falar em risco. ele começa a trabalhar com um novo equipamento.maior de informações e dá significados e valores diversos. é essencial lembrar que a percepção das pessoas varia de acordo com a idade. gustação. sintomas físicos. a tendência é que a percepção do trabalhador em relação à tarefa que vai realizar esteja distorcida. olfato. análise de riscos. No momento em que coloca esses conhecimentos adquiridos em prática. por ventura. alimentação. positivas ou não. interpretando-as. fatores cognitivos: conhecimento da tarefa. Fica claro que quaisquer alterações nesses fatores tendem a alterara acuidade perceptiva do ser humano. entre outros fatores que podem compor a percepção humana. No caso. sua empresa está passando por um momento difícil . Por ser um fenômeno psicológico.

de organizações com o intuito ligado a Segurança do Trabalho. Em grego. não há atividades humanas. No entanto. mas desfavorável ao indivíduo. O mesmo acontece em relação a risco de vida. Logo. minimizar os riscos. que quer dizer que o paciente está mal e prestes a falecer. deve-se entendê-lo como a relação entre o homem e o perigo. Se o homem trabalha com ou na presença do perigo.Perigo. a palavra relata a probabilidade de um resultado. Perigo: deve ser entendido como uma fonte que pode levar o ser humano. para outras culturas. possuindo um significado de algo inesperado e favorável ao indivíduo. Para eliminar o risco. a palavra risq. mas pode possuir conotações positivas. Para o Brasil. O francês risque tem significado negativo. Há . todas as instalações estão em perfeitas condições de uso e respeitando as normas em relação ao uso e manuseio de fontes elétricas. a relação entre o homem e o perigo não poderá existir. eletricidade. o máximo que poderão fazer é mitigar. independente da existência de equipamentos de proteção. Por exemplo. máquinas rotativas. uma derivação do árabe risq. em árabe. sejam elas laborais ou não. Portanto. o meio ambiente ou até mesmo os materiais a sofrerem perdas. mesmo sendo bem gerenciada. pressão hidráulica. altura. mesmo que mínima. ou acidente e incidente. em inglês. enquanto que. riscum conota algo também inesperado. O interessante é levar em consideração o fator cultural. Em latim. risk possui associações negativas bem definidas. a conotação cultural da palavra risco é negativa. significa algo que lhe foi dado (por Deus) e do qual você tirará proveito. sem imposições positivas ou negativas. isso seria entendido como possibilidade de viver. o que ocasiona graves problemas de desvios de compreensão e comunicação. há risco. e não apenas mudar a definição porque. estes e outros termos serão apresentados a seguir. quando se fala de risco pressupondo o sistema industrial. utilizando computadores ligados à eletricidade. sem risco. sendo adequados. Veja o exemplo: algumas pessoas estão em uma sala de reunião. bem como suas conseqüências. ou melhor. normas e procedimentos. ainda assim haverá o risco. Risco: segundo Ansell e Wharton (1992). Se a relação existir. tratam e dão outros significados a palavra risco. visto que o brasileiro não fala que tem risco de ganhar na loteria. danos ou lesões. é importante salientar que muitos autores não fazem distinção quando tratam de termos como risco e perigo. Risco e Ser Humano Antes de apresentarmos algumas definições. veículos. em outras regiões ou países. e sim que tem chance.

isolada ou simultaneamente. Na sala. desarmonia ou desequilíbrio na empresa. como conseqüência. e que traz como conseqüência perdas materiais. deixa de lado uma perspectiva do meio ambiente e de perdas materiais. sempre haverá risco de descarga elétrica. não se pode evitar algo inesperado. pluricausal e revelador de disfunção. Com isso. Acidentes. como não existem sistemas industriais infalíveis. a serviço da empresa. ou ainda. Agora. . sempre haverá risco. 2004): Acidente do Trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho. portanto. Devido a essas possibilidades de melhorias. Esse primeiro conceito tem o objetivo de apontar o acidente para instituições governamentais. Enquanto houver o ser humano trabalhando com ou na presença do perigo. pelo serviço de trabalho de segurados especiais. logo. danos materiais e lesões ao homem. há pessoas trabalhando na presença da eletricidade. há risco. a perda ou a redução da capacidade para o trabalho. incidentes e desvios. trazendo. mas trata o acidente como algo inesperado.risco de descarga elétrica? Sim.213/91 da Legislação Previdenciária (BRASIL. o acidente não pode ser evitado. ou seja. Incidentes e Desvios A continuidade desse capítulo solicita que se compreendam ainda estes outros conceitos: acidentes. inesperada. que interfere ou interrompe o processo normal de uma atividade. Sendo assim. Apenas para ratificar o texto citado. tem-se um conceito que leva em consideração aspectos materiais. Conceito prevencionista de acidente do trabalho: é qualquer ocorrência não programada. considerada como um sistema sócio-técnico aberto. porque justificam a necessidade das organizações em trabalhar a percepção de risco dos seus trabalhadores. utiliza-se este conceito sobre acidentes industriais: o acidente de trabalho deve ser entendido como um fenômeno complexo. Conceito legal de acidente do trabalho: conforme o Artigo 19° da lei 8. ambientais e/ou humanas. provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte. permanente ou temporária. vale salientar que o conceito de risco só é válido na presença da possibilidade de falha de um sistema.

. norma ou procedimento estabelecido. existe um novo fato que deve ser pesquisado e entendido para que haja formas e estratégias para evitar que aconteçam os desvios. A Percepção de Risco Segundo Jackson e Carter (1992). ou seja. o sistema tenderá a falhar. mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo. No entanto. surgiu o conceito de desvio como a nova base da prevenção. atribuindo-lhes significado. 1930. Ao longo dos tempos. A percepção. ou racional.Incidente ou quase-acidente: é um acontecimento que. e Bird Jr. somente consegue funcionar satisfatoriamente dentro de certos limites específicos e característicos. identificar e tratar os incidentes. no trânsito. O interessante é como tais classificações são preventivas em relação aos incidentes e às ocorrências com perdas. no lar. não se manifesta em sua plenitude. apontadas por Ansell e Wharton (1992) mostraram que os acidentes poderiam ser evitados. Entretanto. os danos resultantes desse evento não são percebidos a nível macroscópico. não é mais uma base. ou seja. Mais tarde.. Desvio: é um ato ou uma condição abaixo de um padrão. pelo elemento humano. mas sim uma variável que compõe o conceito de comportamento seguro: a percepção de risco. todo sistema tende a ser homeostático por natureza e tolera certos níveis de desordem. Uma vez que esses limites de estabilidade sejam violados. bastava. mesmo os desvios são atos ou situações abaixo de um padrão e que já aconteceram. pesquisas de Henrich. Na verdade. e não há sistemas infalíveis. dependem tanto do seu conhecimento sobre o sistema. 1966 e 1969. apesar de possuir potencial para causar danos. bem como o processo decisório que deve ser desencadeado a partir dessa observação. como das características cognitivas e fisiológicas do indivíduo. em função do padrão de funcionamento e do seu repertório adquirido. dos indicadores que precedem a falha do sistema. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. Segundo Bley (2004). seja no trabalho. inicialmente. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa de identificar os perigos e reconhecer os riscos. Os conceitos foram apresentados nessa ordem por uma importante questão.

um trabalhador visita. o ser humano terá mais uma possibilidade de interpretação. pode não passar de um mau cheiro. as respostas poderão ser adequadas ao cenário vivenciado. Por exemplo. Assim sendo. Supondo que o trabalhador não tenha recebido ainda informações a respeito dessa situação. do conhecimento. Quando a experiência torna-se um Equipamento de Proteção Individual (EPI). por fim. Quando o ser humano recebe outras informações. conheço muito bem as ferramentas com que trabalho". deixar de levar em consideração os fatores cognitivos e fisiológicos já citados. Isso faz com que o risco real seja diferente do risco que foi percebido pela pessoa o que. na maioria das vezes. As lixadeiras. ainda. e a escolha pelo significado terá como apoio relevante os fatores cognitivos e fisiológicos. melhor é a sua capacidade de interpretação. Com isso.Por se tratar de um processo que sofre interferência do nível de saúde. e nunca aconteceu nada". é o fenômeno chamado coisificação. existem algumas situações específicas que também interferem na percepção. com pessoas já experientes e que reproduzem discursos como: "Sempre fiz assim. pela primeira vez. "Tenho 20 anos de estrada. Contudo. ele aumenta seu repertório e. É incrível como os seres humanos tentam humanizar as ferramentas e os equipamentos com que trabalham. pode significar grande probabilidade de acidente devido à exposição descuidada. trata-se de um gás extremamente tóxico e letal. depois de informado que há presença de um certo gás no processo. não sabendo disso. o organismo deu o seguinte significado: ovo podre ou mau cheiro. via nariz (sensor). a capacidade de percepção de riscos das pessoas varia ao longo do tempo. todavia. Esse fenômeno ocorre. Voltando ao exemplo citado. em segurança do trabalho. ou seja. uma única situação poderá apresentar diversos significados. Tornar humano algo material é algo bastante estudado pela filosofia e está na moda. na busca de explicar do que se tratava aquele estímulo. a eletricidade ou a altura "nem imaginam" há quanto tempo pessoas trabalham com ou na presença delas e. uma refinaria de petróleo e sente o cheiro de ovo podre ao andar pela área. jamais elas deixaram de ser perigos. basta algum descuido. a mais conhecida é o excesso de autoconfiança do trabalhador. sua capacidade perceptiva. Temos inúmeros . que possui odor semelhante ao de ovo podre. e diante da situação. e o contato pode acontecer. Não se pode. Analisando-se a situação: o odor veio do ambiente externo e. do estado emocional. da atenção. pode-se afirmar que o risco foi potencializado. chegou ao cérebro. quanto maior o repertório do trabalhador. Os perigos "não ligam" para a existência humana.

Nota-se que é de suma importância o conhecimento profundo sobre os perigos e riscos. sua atividade. No entanto. a partir disso. o mercado está ansioso.exemplos. tais como os aspectos da natureza humana. em virtude da pressa. podemos ter a perda de vidas. A questão é que. os riscos deverão ser sempre compreendidos. quando estamos falando de segurança. o indivíduo deve colocar em prática seus conhecimentos. como conseqüência. apenas a compreensão não basta. deve-se entender que a alta percepção de risco é apenas a base para que o trabalhador comporte-se de forma segura. com uma intervenção ética e coerente. desde que ela não extrapole e distorça a capacidade do ser humano em identificar os perigos e reconhecer os riscos que sua atividade oferece. mesmo assim. Existem casos em que os indivíduos identificam os perigos. Dessa forma. ou seja. da preguiça ou até mesmo do desconforto. além de conhecer muito bem. A experiência do trabalhador é de suma importância. . torna-se possível identificar situações nas quais o trabalhador esteja exposto e. O desafio de elevar e tornar estável a percepção de risco dos grupos de trabalhadores é parte integrante do conjunto de esforços possíveis para a promoção da saúde das pessoas e das organizações. optam por burlar regras e procedimentos. técnica e operacionalmente. Esse desafio só será vencido quando as ações prevencionistas estiverem organizadas de tal forma a trabalhar. a coisificação interfere de forma negativa e. as deficiências na educação para a prevenção e o interesse (nem sempre presente) das organizações em investir na preservação da integridade global dos indivíduos que as compõem. ser pró-ativo. gerenciar os cenários e ambientes antes que ocorram as situações desagradáveis. Em última análise. reconhecem os riscos e. tais como: a empresa está doente. junto aos possíveis obstáculos do processo.

sistemas de reconhecimento. em suas casas. Vázquez (1996) aponta que as primeiras investigações de clima estão datadas da década de 30 do século xx. em suas experiências pessoais. suas expressões faciais e mesmo o tema que discutem podem ser indicadores claros de como anda o clima em um local. nos meios organizacionais. remuneração. sobre clima e cultura de segurança. benefícios. Zohar (1980) tem como proposta desenvolver um conceito de aplicação prática e teórica. possibilidades. como preferem algumas empresas.de crescimento na empresa. independente dos outros elementos citados. o risco é uma questão de pura coragem (Peter Bernstein). . Quantas pessoas. para o sistema de gestão.JULIO CÉZAR FERRI TURBAY Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança Sem números. Informações como o tom da voz das pessoas. essa metáfora vem sendo utilizada. Em sua investigação. não há vantagens nem probabilidades. foi realizada por Dov Zohar no ano de 1980. com uma forte intensidade. entre outros. em seus locais de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. a metáfora do clima. Clima de Segurança: História e Conceito É comum que as pessoas utilizem. o nível de satisfação das pessoas e a percepção que elas têm em relação a diversos elementos como liderança. médias e pequenas organizações buscam alternativas para medir o clima organizacional ou a ambiência. propondo as hipóteses citadas a seguir. principalmente com as contribuições de Kurt Lewin. pensam: "O clima aqui não está legal". incluindo o item segurança e saúde no trabalho. O fator clima mostra. o que mostra que tal tema tem sido pesquisado há pouco tempo. Isso seria a formatação inicial do conceito de clima de segurança. o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino. alimentação. A primeira pesquisa de que se tem registro. a) Trabalhadores que pertencem a uma mesma empresa terão percepções compartilhadas em relação à segurança de seus locais de trabalho. comunicação. e ainda hoje. sem vantagens e probabilidades. Sem números. por ser considerada uma importante fonte de indicadores de aspectos humanos. Há muito tempo. em suas igrejas. Grandes. ao entrar em um lugar.

considerando o mesmo período. Os autores concluem que há uma importante diferença na percepção do clima nos sujeitos pesquisados e propõem que as investigações de clima deveriam levar em consideração aspectos metodológicos que entendessem a percepção das duas amostras. Esses autores reduzem os fatores a serem pesquisados de oito para três. 7) Efeitos do comportamento seguro no status social de cada um dos trabalhadores. mas tenta verificar as diferenças de percepção do clima de segurança em amostras que haviam sofrido acidentes e que não haviam sofrido acidentes. além de propor uma delimitação adequada do tema de clima de segurança. Essas dimensões serviram como ponto de partida para todas as demais pesquisas realizadas posteriormente. Essa hipótese estaria relacionada com as características de segurança de cada empresa. 3) Efeitos do comportamento seguro na carreira profissional. Zohar (1980) utiliza uma amostra de 400 trabalhadores israelenses de indústrias dos setores de alimentação. É importante ressaltar que o autor.b) O clima de segurança pode variar de menos favorável a mais favorável. . 1) Importância dos programas de treinamento focados em segurança. Brown e Holmes (1986) põem à prova o modelo de Zohar. utilizando uma amostra com um total de 425 trabalhadores norte-americanos. 1) Preocupação da alta administração pelo bem estar dos empregados. Em sua pesquisa. divididos em dois grupos: 225 que não tinham registros de acidentes no último ano de trabalho e 200 que haviam sofrido algum tipo de acidente no trabalho. de forma diferenciada. realiza correlações entre os distintos setores de cada tipo de empresa. 2) Atividade da alta administração para dar resposta a tal preocupação. Ressalta-se que essa pesquisa não propõe somente a confirmação do modelo proposto por Zohar. 6) Status dos encarregados de segurança ou do setor de segurança. química e metalurgia. 3) Risco físico dos empregados. 2) Atitudes da alta direção da empresa em relação à segurança. 8) Status dos comitês de segurança. Os resultados obtidos refletem oito dimensões possíveis para a compreensão do clima de segurança. 4) Nível de risco no lugar de trabalho. 5) Efeitos do ritmo do trabalho sobre a segurança dos trabalhadores.

Dedobbeleer e Bèland (1991) põem à prova o modelo de Brown e Holmes. NISKANEN (1994) relata três novas dimensões para o clima de segurança. utilizando uma amostra de 384 trabalhadores da área de construção civil. 1992. Na segunda dimensão. estão presentes fatores como: percepção dos trabalhadores em relação às atitudes dos diretores a respeito das práticas seguras e da segurança dos trabalhadores. Na primeira dimensão. Islas e Meliá (1992) partem de um conceito mais restrito. 2) Compromisso dos trabalhadores. as pesquisas assumem um caráter mais prático e costumam relacionar o clima de segurança a outras variáveis psicossociais.163). Tomás. com o objetivo de desenvolver instrumentos que permitiriam um diagnóstico do clima de segurança nas empresas. . Os anos 80 do século XX estiveram marcados pelas pesquisas relacionadas com a determinação de dimensões possíveis para o clima de segurança. Os resultados obtidos pelo método de análise fatorial mostram uma solução com dois fatores. estão presentes elementos como: percepção dos trabalhadores acerca do potencial de exposição aos acidentes. Como citam os autores: . percepção dos trabalhadores sobre os comportamentos do supervisor. levando em conta as dimensões a seguir.. a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e instruções e procedimentos de segurança. 2) Preocupação dos trabalhadores em relação aos perigos no local de trabalho.. Propõem a utilização do clima de segurança de maneira mais operacional. 1) Responsabilidade da empresa pela segurança. além da polêmica teórica sobre a melhor representação da dimensão do conceito. percepção do nível de controle que tem o trabalhador sobre a segurança em seu posto e a realização de encontros regulares sobre segurança. A partir do ano de 1994.Por sua parte. Oliver. aos riscos presentes no ambiente de trabalho. o qual relacionam à percepção das ações positivas empreendidas pela empresa em relação à segurança. P. este enfoque analítico da medição do clima de segurança pretende confeccionar um instrumento diagnóstico valioso para determinar elementos de intervenção para melhorar a segurança e prevenir acidentes de trabalho e suas conseqüências (OLlVER et ai. 1) Compromisso da alta administração. 3) Indiferença dos trabalhadores em relação à segurança.

relações dos comitês de segurança nas organizações. desenvolvidos por outros autores. ações dos gestores em segurança. as relações interpessoais entre os membros da equipe que estão envolvidos com comportamentos de risco. propõem somente um fator: a percepção da sobrecarga ao desempenhar um papel. Esses autores utilizam os seguintes indicadores de clima de segurança: atitudes em relação à segurança..) e como estas podem ser induzidas pelas políticas e práticas que as organizações impõem sobre seus trabalhadores e supervisores (p. menor é a taxa de comportamentos de risco. Cree e Kellowae (1997) analisam o clima como um indicador da percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais. e avaliar as diferenças entre as percepções dos trabalhadores e seus supervisares. desenvolvem uma investigação com uma amostra de 915 sujeitos ingleses e franceses.Niskannen (1994). As conclusões das pesquisas apontam uma importante relação entre o clima de segurança e as atitudes em relação à segurança dos gestores e as atitudes em relação à responsabilidade individual de cada trabalhador. Utilizam uma amostra composta por 21 equipes de trabalho e 222 sujeitos da indústria química. Cox. Com relação ao aspecto individual.. A amostra utilizada foi composta por 130 sujeitos do setor de manufatura. Como conceito de clima de segurança. Hofmann e Stetzer (1996). No que se refere aos grupais. . Desenvolve uma pesquisa com uma ampla amostra. central de reparos etc. em uma pesquisa sobre os fatores que influenciam os comportamentos inseguros nos acidentes de trabalho. propõem que se analisem tanto os aspectos de ordem grupal. em uma pesquisa realizada no setor de construção de estradas. utilizando 1890 trabalhadores e 562 supervisares. Oliver e Tomás (1998). Isla e Díaz (1997) desenvolvem um conjunto de medidas para avaliar as atitudes em relação à segurança e ao clima de segurança. em empresas do setor petrolífero. cita: . em uma amostra de 166 sujeitos de distintas áreas dentro do setor aeroportuário. 241). Os autores concluem que há uma importante relação entre o clima de segurança e os comportamentos de risco. propõe realizar uma aproximação entre os conceitos de clima de segurança. apresentam três fatores: o processo grupal. deforma que quanto maior é a percepção que os trabalhadores apresentam acerca das suas equipes de trabalho. construção. como os de ordem individual. o conjunto de atribuições que podem ser percebidas sobre a organização de trabalho em particular (manutenção. o clima de segurança. Cheyne.

a manipulação de amostras de sangue contaminado. Na mesma linha de pensamento. Murphy e Gershon (2000) propõem que um clima de segurança positivo leva os trabalhadores a cumprir com as práticas seguras no ambiente de trabalho... concluem que o clima de segurança pode ter relação com a utilização dos EPIS frente às situações de risco como. Consideram que: . estabelecem uma relação entre o clima de segurança e a predisposição aos acidentes de trabalho. Duas importantes aplicações do clima de segurança na área de saúde são as desenvolvidas por Guastello. Dejoy. essa investigação toca questões referentes à cultura de segurança. Searcy. mais especificamente o contágio pelo HIV. é preciso analisar o clima de segurança em relação a outros aspectos mais amplos como a cultura de segurança. Flin. para que se obtenham resultados mais adequados à realidade das empresas. é possível encontrar investigações como a desenvolvida por Mearns. Com um total de 722 trabalhadores ingleses. no qual o clima de segurança tem efeitos causais . Essa investigação utiliza uma amostra de 131 sujeitos divididos em níveis hierárquicos distintos.Isla. com uma amostra de 1708 trabalhadores do setor de saúde. 103). Cabrera e Díaz (1998) utilizam o clima de segurança como um elemento de análise e avaliação do processo de formação no setor aeroportuário. Com uma amostra de 1716 sujeitos do setor hospitalar norte-americano. Mearns e Flin (1999) desenvolvem uma importante discussão teórica acerca do estado das investigações de clima de segurança e da relação entre esse conceito e o conceito de cultura de segurança. através das repercussões potenciais na melhoria da política organizacional em matéria de segurança (p. Gershon e Murphy (1999) que. Uma das principais carências identificadas nas pesquisas anteriores é a falta de um modelo adequado de clima de segurança. por exemplo. Seus autores demonstram que. cujo objetivo é avaliar o clima de segurança em uma amostra do setor petrolífero. Gordon e Fleming (1998). Meliá (1998) propõe um modelo causal psicossocial dos acidentes de trabalho. o clima de segurança poderia funcionar como uma medida indiretacla eficácia dos cursos de supervisores e diretores. De uma maneira geral. os autores concluem que o clima de segurança positivo tem lugar quando existe um bom nível de comunicação e clareza nas informações. Com um propósito mais amplo.

mas os acidentes seguem ocorrendo. Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática Sem dúvida. A conduta do trabalhador também se considera diretamente afetada pela conduta de seus superiores. desafiando permanentemente todos esses esforços. o tema segurança no trabalho é um desafio para a grande parte das organizações. resposta dos companheiros em relação à segurança.na resposta de segurança dos líderes. de forma significativa... . As variáveis foram divididas em três grupos distintos. p. A seguir.. c) Indicador de acidentabilidade: utilizou-se como indicador de acidentabilidade o número de acidentes de trabalho sofridos pelos sujeitos nos últimos cinco anos. Segundo o autor. conduta em relação à segurança do trabalhador. metal. uma resposta mais segura dos superiores induziria a uma resposta mais segura dos companheiros. na conduta de segurança e na percepção de risco dos trabalhadores. Muito trabalho físico e mental e grandes somas dê recursos estão sendo aplicados em prevenção. o exame torna-se ainda mais desafiador. a) Indicadores de aspectos psicossociais da segurança laboral: clima de segurança. na resposta de segurança dos companheiros. eletricidade. afeta finalmente. ISLAS. por sua vez. Com tais informações. a conduta de segurança do trabalhador e a forma como percebe os riscos reais (MELlÁ. é possível traçar um histórico claro da evolução do conceito de clima de segurança e todas as transformações que o fenômeno passou nos últimos anos. serão mostradas as implicações práticas do clima de segurança e de como seu conceito pode influenciar na sistemática de gestão de segurança das organizações. e esta. 1990) e contou com uma amostra de 316 trabalhadores. Cardella (1999. b) Indicadores de risco: risco basal. Essa cadeia de relações entre as respostas de segurança de supervisares. de diferentes ramos de atividade industrial (madeira. Ampliar a discussão para o aspecto humano. p. 1998. construção e têxtil). risco real. uma conduta mais segura do trabalhador focal. resposta dos superiores. A pesquisa realizada por esse autor foi desenvolvida através da aplicação da Bateria de Questionários de Segurança Laboral V3 (MELIÁ. a redução dos acidentes é um dos mais fortes desafios à inteligência do homem. vidro. 23) afirma que: . 31). .. companheiros e trabalhador.

devemos somar um quarto aspecto central na compreensão do clima de uma empresa: a qualidade das ações realizadas pela empresa com foco em segurança. pôde-se perceber que as respostas dos trabalhadores apresentavam uma forte tendência a identificar os elementos relacionados com a liderança e suas interfaces com segurança como sendo críticos e com grande necessidade de mudança. foi possível planejar em conjunto com a liderança. o que permitiu melhorias consideráveis no aspecto de segurança dentro da empresa. na apresentação do relatório de pesquisa de clima de segurança de uma grande empresa situada no Brasil (montadora de veículos). apesar de serem evidentes as melhorias realizadas nos processos da empresa. Em uma pesquisa diagnóstica realizada a pedido de uma empresa siderúrgica do sul do Brasil. Ao retomar os aspectos teóricos apresentados. ao longo do trabalho. foi concebido para que os líderes estivessem mais bem capacitados para atuar na mudança de comportamentos de risco e na estimulação de comportamentos considerados seguros. Porém. percepção em relação aos companheiros de trabalho e atuação pessoal). é possível traçar planos de ação "customizados" e que tenham. principalmente no tocante às condições de trabalho. A qualidade de ações. A partir dessas informações. itens de controle factíveis. Por exemplo. pode ser avaliada . através de técnicas específicas. os quais se sentiram mais valorizados. O processo. e a experiência citada corrobora esse fato. é importante lembrar que nem todo processo de intervenção em psicologia da segurança deve estar direcionado para o nível da liderança. uma importante mudança na percepção dos trabalhadores. O processo de formação de liderança realizado permitiu. É exatamente aqui que o conceito de clima de segurança passa a ter uma enorme validade para os processos preventivos. Aos dois processos relatados. a segurança depende. Ao definir linhas de atuação coerentes com a realidade de cada organização. as ferramentas de comunicação. em grande parte. pode-se dizer que o papel da liderança é indicado por grande parte dos autores como um dos aspectos mais importantes do processo do desenvolvimento de uma pesquisa de clima de segurança. de suas atitudes pessoais. como a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes).A subjetividade é vista como a principal barreira para o desenvolvimento de um processo de segurança comportamental adequado e eficaz. na primeira década do século XXI. os próprios trabalhadores relatam que. principalmente. que evidenciaram três níveis do clima de segurança (participação da liderança. os treinamentos e as campanhas.

para a sua identificação. seus comportamentos encobertos. portanto. por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos). O clima de segurança. Cunha e Turbay (2005. é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados. Bley. é habitual que a resposta indique somente as estatísticas da empresa como fonte de identificação da necessidade. a prática). Como referência para a análise de indicadores considerados mais pró-ativos. . Isso é realizado deixando-se de lado uma série de outros importantes indicadores de natureza humana. 91). citam: Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os "Pró-ativos" e os "Reativos". por exemplo. entender e interpretar tais informações. àqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. como pensamentos e sentimentos. por fim. a idéia de pensar.pelos próprios trabalhadores. Os reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. pode ser uma importante fonte de dados para a escolha de temas na realização uma campanha. p. em grande parte. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. por exemplo). Esses autores ainda propõem a compreensão dos indicadores humanos. a dimensão afetiva (composta pelos aspectos interiores do ser humano: suas razões pessoais para se prevenir. por exemplo. o TFSA (taxa de freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (taxa de freqüência de acidentes com afastamento). Em diversas empresas avaliadas pela sistemática de clima de segurança. em relação aos indicadores humanos de segurança. Entretanto. sentir e agir. por exemplo. pode ser utilizado o conceito de atitude preventiva. ao perguntar-se para a equipe que organiza as campanhas por que está realizando uma campanha com o tema proteção das mãos. a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como o indivíduo realiza o seu trabalho. sendo que os primeiros referem-se. Este pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (conhecimentos e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho. Retomamos. A identificação desses fenômenos psicossociais depende. seu nível de motivação. diretamente. e outros aspectos que se referem ao elemento emocional dos trabalhadores). efetivamente. da capacidade das pessoas da empresa em observar.

por exemplo. constantemente. necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais dessa população. a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. mas também com alguns meses de intervalo. Ao identificar dificuldades nesse aspecto. eles tenham efetividade. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem desses procedimentos. consideramos algumas maneiras de viabilizar esse trabalho. Um destaque possível para esse indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco. Para que. A empresa que realiza a atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é a aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem não só após o treinamento. é importante que pessoas treinadas para avaliar o processo estejam nas áreas de trabalho. As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas' para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. somente didática. Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais. Sobre os aspectos cognitivos Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtido após as atividades educativas.No dia a dia. Com a divisão a seguir. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto. esses fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores). Para empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. recomenda-se não abrir mão desse tipo de estratégia. É necessário que as ferramentas de análise estejam alinhadas com as propostas preventivas da empresa. de fato. . Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. quando observados de forma sistemática. acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. e nem cumprido.

canal legal e outros com nomes diferentes) que são um canal para que os trabalhadores expressem suas opiniões em relação à empresa. pois pode ser um importante indicador afetivo. e não só apresentação. pouco trabalhados ou já "desgastados" com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo. Sobre os aspectos afetivos Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para esse indicador não deve ser somente o quantitativo. identificação de oportunidades de melhoria. lembrando que. mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização. verificar como são a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. em cumprimento à legislação. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: "Estamos há x dias sem acidentes e com x horas de treinamento em prevenção". Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nessa direção. Quantidade e nível de compreensão das sinalizações de advertência: uma boa prática é averiguar. tipos de perguntas. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. aplicação prática dos conhecimentos. exploração dos assuntos. porém. através do qual os trabalhadores podem expressar suas insatisfações em relação a essa área. ou seja. da cultura de segurança que ela já possui. Nível de utilização de canais de comunicação da empresa: muitas empresas possuem sistemáticas de comunicação (linha direta com a presidência. Símbolos desconhecidos. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. e é muito comum que surjam assim muitas reclamações e sugestões relacionadas à liderança. entre outros). O ideal varia em função do nível de risco da empresa. mas principalmente para o qualitativo. É essencial que a área de segurança esteja atenta a isso. . em algumas empresas. dos objetivos que ela almeja em prevenção. espaço para apresentação de críticas. principalmente.Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho podem prejudicar sua efetividade. periodicamente. de forma direta. é indicador necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. se as pessoas têm informações demais ou de menos sobre segurança. ele é "um quadro a mais" pendurado na parede.

Antes da realização de uma pesquisa de clima de segurança. limites e potencialidades pessoais. é essencial que se entenda que a empresa havia passado por uma forte mudança no seu processo de gestão. a empresa deve levar em conta vários aspectos. Vale destacar que essa é uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. habilidades. recursos. ser indicador da compatibilidade da organização das tarefas e atividades com os cuidados de segurança necessários (tempo. Ao realizar uma pesquisa em uma empresa. carga física e mental. além de. pode-se apontar o que segue. Por meio de inspeções sistemáticas. pôde-se constatar uma forte tendência em apontar a liderança como a principal oportunidade de melhoria das questões relacionadas à segurança. competência. ao organizar um processo de pesquisa como esse. no entanto.Sobre os aspectos da ação Observação e registro de Comportamentos Seguros: esse processo permite à empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. conseqüentemente. e isso causava impacto no nível de motivação da liderança e. É claro que. profissionais de diferentes setores da empresa (adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores. Os indicadores são obtidos por meio da compilação do tratamento das informações geradas pelos observadores. a) Períodos de greve: as percepções dos trabalhadores em relação ao nível de segurança da empresa podem estar influenciadas por momentos específicos. como fatores importantes a serem levados em conta. realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não recomendável para algumas empresas). . orientações recebidas. tinha uma forte influência na percepção dos trabalhadores em relação à atuação da liderança. como também depende de um processo de treinamento cuidadoso e preciso dos observadores. Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: esse processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho. integrando conhecimentos. entre outros). como o momento que a empresa vive. Entender a percepção da força de trabalho em relação aos aspectos de segurança pode e deve ser um indicador cada vez mais buscado pelas empresas. principalmente.

sendo um comportamento reprovável por qualquer supervisor da área em questão. no ano de 2004. pois o resultado pode estar relacionado à antiga equipe de líderes. conclui-se que tal tema deva figurar como assunto obrigatório em eventos. o que chama atenção é que a empresa somente mudou o "procedimento informal" no momento em que ocorreu um acidente grave com um dos trabalhadores. Em relação ao último aspecto. Quando se diz respeito à compreensão da cultura de segurança. devemos estar cientes de que estamos penetrando no difícil mundo chamado gente. é essencial que todos entendam. bem como sua validade ao ser entendido como um fator de suma importância para o processo de gestão de segurança. o motivo de se realizar uma pesquisa na organização. pois a falta de informação pode levar a uma baixa adesão durante o processo. c) Mudança recente de lideranças. basta olhar para algumas empresas e perguntar a elas: "Quais são os comportamentos de risco aceitáveis dentro da empresa? Em uma primeira reação. e isso nos custará muitos anos de pesquisa e busca pelas reais possibilidades de melhorar a segurança dentro das empresas. as empresas tendem a responder que não há comportamentos de risco que sejam aceitáveis. o que pode distorcer o plano de ação a ser implantado. Pode-se dizer que aceitar tal comportamento de risco dos trabalhadores fazia parte da cultura da empresa. bem como uma série de problemas. o desafio é ainda maior.b) Mudanças em processos de gestão. a empresa deve ter claro que uma série de melhorias poderá ser apontada. exatamente. Ao analisar a história e a evolução do conceito de clima. Para isso ficar mais claro. Entretanto. principalmente as que afetam diretamente o processo produtivo. Ao realizar uma pesquisa de clima. . E na sua empresa. quais são os comportamentos de risco que são aceitáveis? Ao nos arriscarmos a adentrar o mundo da segurança com foco do aspecto humano. Porém. e a empresa tem que ter discernimento em relação ao que será ou não feito a partir dos dados obtidos pelo processo de pesquisa. é possível apontá-lo como de suma importância. em um processo de pesquisa realizado em uma empresa. d) Deve ser realizada uma boa "venda" do processo de pesquisa para a liderança e para os trabalhadores. verificou-se que muitos trabalhadores guardavam suas ferramentas dentro dos painéis de eletricidade energizados. pois exige da empresa uma importante dissociação.

seminários de segurança e. principalmente. . nos modelos de gestão de saúde e segurança no trabalho. com o mais precioso bem de uma organização: o ser humano. existentes nas empresas que se preocupam. realmente.

se estivermos devidamente capacitados para gerenciar comportamento. um custo dificilmente justificável e uma conseqüência eticamente inaceitável (José Luiz Meliá). a necessidade das lideranças e das cúpulas das organizações de prepararem-se melhor para gerenciar pessoas estão entre os fatores que contribuirão para que isso ocorra. de natureza comportamental. gestão de pessoas e cidadania A sociedade pós-industrial considera os acidentes e os danos à saúde dos trabalhadores. a ciência psicológica evolui. tornando-o um aliado do processo preventivo e tirando-o do papel de inimigo. a dificuldade em obterem-se resultados vendidos como fáceis. importantes para o aperfeiçoamento dos aspectos humanos em segurança. As constatações e propostas de análise apresentadas no decorrer desses capítulos formam um conjunto complexo de elementos. rápidos e instantâneos. viveremos um processo de estabilização da febre de modismos relacionados com a segurança comportamental. que vem ocupando nos discursos gerenciais mais recentes: "O problema é o comportamento das pessoas". não significa que o comportamento humano no contexto da saúde e segurança deixará de ser importante. representam apenas uma pequena parte do universo de conhecimentos produzidos pela Psicologia sobre a relação entre homem e trabalho e uma parte menor ainda do que é possível examinar à luz do conhecimento produzido pela área de saúde e segurança no trabalho. até então macabra. de morte e sofrimento por doenças e acidentes de trabalho. como afirma . No entanto. A complexidade desse tipo de atuação. que o sonho de proporcionar trabalho digno. "colocando pequenos tijolinhos no grande muro da ciência". as estratégias empresariais aperfeiçoam-se. É desta forma. A tecnologia avança. Passaremos a entender que. este passa da posição de problema para a de fator decisivo da construção das soluções. Pelo contrário. Provavelmente. estaremos mais maduros e preparados para gerenciá-lo. dos consumidores e do público em geral. decente e respeitoso da integridade global dos seres humanos vai se transformando em providências concretas de mudança de uma realidade. nos próximos anos.Cuidar do ser: considerações sobre ciência. mas o ser humano continuará a ser o elemento relativamente estável do processo. Entretanto.

ao atuar sobre a realidade vivenciada no início do século XXI. inclusive no campo do trabalho. não é máquina. governo e sociedade a recordar. alegra-se.Dejours (1999). que ele é a chave de acesso àquilo que podemos chamar de trabalho seguro (saudável. centros comunitários e outros ambientes mais seguros e saudáveis para a população em geral. Trabalhar com consciência. É auxiliar trabalhadores. seu corpo tem limites. que o ser humano é humano. aperfeiçoamento e desenvolvimento. engrandecedor). relaciona-se. portanto. escolhe. Se encarado com a seriedade e a profundidade que merece. contribuindo para o desenvolvimento de lares. utilizando os meios disponíveis. dia após dia. contribuir para o amadurecimento da cultura e do comportamento organizacional. trabalhar pela re-humanização do processo produtivo. ele sente. decente. Ele é falível. só será possível quando os trabalhadores. Esse conjunto de propósitos pode ser simplesmente nomeado de processo humanização. beneficiando a sociedade como um todo. produz. tornando-o saudável e seguro também nos seus aspectos subjetivos. as empresas e os governantes assumirem que a grande possibilidade de transformação está presente na visão do processo como um todo. de agir com cuidado são os "produtos" desejados deste complexo sistema de inter-relações que constituem o desenvolvimento humano nas organizações. ético. de se antecipar ao pior. O desafio está em saber que a realidade de saúde e de ausência de acidentes que se busca construir para o futuro. age. pensa. entristece. ele simplesmente é. capacidade de analisar a realidade. os profissionais. Isso quer dizer que os seres humanos continuarão em processo de aprendizagem. antes de tudo. • • harmonizar as relações entre as pessoas que compõem o contexto de trabalho. • pretender estender-se para além dos muros da organização. Entre os propósitos que devem referenciar um processo de prevenção de doenças e acidentes com o foco no comportamento humano estão: • empoderar o trabalhador para conhecer e controlar os riscos do seu trabalho. produtivo. digno. categoricamente. enfim. Trabalhar para evitar que as pessoas adoeçam e acidentem-se no trabalho é. é possível afirmar. potencializando a atuação antecipativa aos problemas de segurança e aos males à saúde dos trabalhadores. bem como propor e negociar novos e melhores meios para trabalhar com dignidade e qualidade de vida. e não só no produto. empresários. escolas. . de tomar decisões.

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