Comportamento Seguro
a Psicologia da Seg urança no Trabalho e a educaç para a ão prevenç de doenças e ão acidentes

Colaboradores: Julio Cézar Ferri Turbay Odilon Cunha Jr.

2a edição – 2007

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COMPORTAMENTO EDITORA SOL

Aos meus pais, irmãos, familiares e ao meu amor, minha mais profunda gratidão por compreenderem minhas ausências, estimularem minha busca e compartilharem comigo das pequenas (mas valiosas) vitorias do caminho ...

Projeto gráfico: Fab Tacahashi Lau dos Santos rício Silvio Gabriel Spannenberg Revisão: Eliane Mara Alves Chaves

Bley, Juliana Zilli Comportamento seguro: a psicologia da segurança no trabalho e a educação a para a prevenção de doenças e acidentes. Juliana Zilli Bley e colaboradores - 2 ed. - Curitiba: Sol, 2007. 160p.; 210mm x 140mm. ISB N 85-89484-09 -2 Inclui bibliografia . 1. Psicologia do Trabalho. 2 Segurança do Trabalho 3. Prevenção de Acidentes 4 Analise do Comportamento. I. Titulo. . CDD -159 Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Sol. R. Capitão Souza Franco 881, .cj 80730-420 - Curitiba 142 - PR Telefone/fax(41) 3335 : .5087 e-mail: editorasol@editorasol.com.br

Dedico este livro aos trabalhadores brasileiros, que tem o perigo como "colega de trabalho", e a todos aqueles que assumem, profissionalmente, 0 desafio da construção de um cotidiano de trabalho mais saudável e seguro para os cidadãos deste país.

portanto. Você. que significa terra fértil. conferir o seu nome à criatura. pois fora feita de barro. ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. isto e. Júpiter o proibiu. Enquanto júpiter e o Cuidado discutiam. Cuidado. deu-lhe o corpo. Cuidado viu um pedaço de barra. Enquanto contemplava o que havia feito. "Você. 0 que Júpiter fez de bom grado. então. que pareceu justa. uma discussão generalizada. Exigiu que Fosse imposto o seu nome. Originou-se. a Terra. teve uma idéia inspirada: tomou um pouco de barra e começou a dar-lhe forma. decido eu: esta criatura será chamada Homem. de repente. este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado. recebera. Como você. moldou a criatura. Terra. entre vocês. de volta. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. ao atravessar um rio. De comum acordo. material do corpo da Terra. surgiu. Este tomou a seguinte decisão. apareceu Júpiter. traduzida livremente por Leonardo Boff) . pediram a Saturno que funcionasse como arbitro. Júpiter. por primeiro. Logo. porem. Quando. pois. E uma vez que. recebera. há acalorada discussão acerca do nome. feita de húmus. foi quem. também de volta. também ela.Certo dia. o seu corpo quando essa criatura morrer." (Fábula de Higino. deu-lhe o espírito. Quis.

Compreender essa tendência histórica significa avaliar que os processos de intervenção sobre os problemas que envolvem a segurança no trabalho nem sempre partem do entendimento da multideterminação de . no sentido da humanização do trabalho. cada vez mais. competências profissionais desenvolvidas nos processos de interação com o trabalho e seus atores. hoje. tudo isso com base na necessidade de ampliar os meios científicos para compreender os processos de constrangimentos à saúde e à segurança dos trabalhadores. em cada operação de diagnóstico. com repercussões geralmente graves sobre a sobrevivência dos trabalhadores. Sua principal característica é reunir um conjunto de achados e elaborações teóricas resultantes das angústias. historicamente. uma variável de incidência contínua sobre a base das organizações do trabalho. sobre os múltiplos aspectos que contribuem para a ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. assim como suas implicações com as dificuldades enfrentadas na promoção e manutenção comportamento seguro no trabalho é. os desafios à prevenção e à educação para a prevenção. a qualidade do trabalho e os custos organizacionais e do Estado. Lança um exame crítico sobre as relações entre comportamento humano e prevenção. necessidades e aprendizagens vividas por esses profissionais. além dos fatores críticos ao processo ensinoaprendizagem na prevenção de acidentes e agravos à saúde. desenvolvimento e avaliação dos processos comportamentais implicados na instalação e manutenção de taxas de acidentes e doenças profissionais.A Psicologia da Segurança no Trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes. no Brasil. como a principal obra sobre Psicologia da Segurança no Trabalho no Brasil. Avançar na produção do conhecimento. assim como nos processos de gestão e de avaliação disseminadas nas organizações. pode ser considerada. treinamento. portanto. uma necessidade a ser enfrentada na compreensão dos problemas e objetivos que envolvem a noção de segurança no trabalho. A obra reflete. o papel dos treinamentos no gerenciamento de riscos. A ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho é.Prefácio Comportamento Seguro . de Juliana Zilli Bley e colaboradores. curiosidades. a noção de segurança comportamental e de percepção de risco.

é possível afirmar que a natureza do trabalho produtivo é um complexo arranjo de variáveis e suas implicações. um sistema da ação e da instrumentalização das condutas humanas de acordo com as condições e os meios de realização de trabalho. a priori. simplistas. Visto dessa maneira. bem como determinações e efeitos. mais recentemente. espera-se um vínculo efetivo do trabalhador com os objetivos da empresa e. em seus diferentes planos de análise do sistema de trabalho (micro. geralmente são criados de forma emergencial e não contínua. da redução de custos. que enfatizam a co-responsabilidade do trabalhador pelos produtos e serviços gerados. tem sido o horizonte factual e estratégico por meio do qual a Psicologia do Trabalho e. o que pode não ser complexo. no cotidiano do trabalho. pressupostos das diferentes formas de gestão da produção e de organização do trabalho. os sistemas de trabalho são regidos pelos princípios da competitividade. meso e macro). Desses princípios e entendimento. os programas de prevenção nesse âmbito. é o ponto de vista de quem estuda ou empreende uma intervenção visando o controle ou a prevenção de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. ao mesmo tempo. em quaisquer desses planos de análise e nas relações entre eles. Infelizmente. sociais e econômicos na ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. cada vez mais freqüentes e. crenças e valores acerca das necessidades de gestão e de avaliação do trabalho. emerge o entendimento de que cada trabalhador faz parte das estratégias de melhoria contínua das organizações que devem ser flexíveis e adaptadas ao mercado global. Geralmente. do desperdício e do valor qualitativo do produto do trabalho. no cotidiano das análises do trabalho. idéias. nas empresas brasileiras. psicológicos. dificultando o engajamento dos interessados e o gerenciamento de incidentes críticos associados a tais acidentes e patologias. organizacionais. As organizações de trabalho são microsociedades que refletem. O maior ou o menor conhecimento das condutas humanas nos sistemas de trabalho. As tentativas. tecnológicos. bem como suas decorrências. muitas vezes.aspectos fisiológicos. Derivado desses princípios. a Psicologia da Segurança no Trabalho têm objetivado suas investigações e construído modos de intervenção no âmbito das organizações. uma relativa autonomia para executar o trabalho orientado por esses princípios. que se revela. de criar programas de gerenciamento das condições de risco e da prevalência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho não têm se mostrado eficientes porque partem da . nas empresas.

a capacidade de controle e monitoramento de riscos e incidentes no trabalho. pressupõe. Compreender essas manifestações e suas implicações com as características do sistema de trabalho evita o reducionismo nos processos de análise do trabalho. dores. b) de micro variáveis ocupacionais. podem ser manifestados por trabalhadores através de qualidade nas inapetências relativas. tendência a isolar-se. a capacidade de negociar com as diferentes formas de pressão produtiva (ritmo. os sentimentos de identificação e pertencimento. controlando seus efeitos sobre o organismo. perda da capacidade inventiva. o que tende a intensificar a busca de diagnóstico de procedimentos. O conjunto dessas variáveis co-varia. pois envolve o desenvolvimento de métodos mais eficazes de investigação das variáveis envolvidas. dificuldade em estar envolvido. O conjunto dessas manifestações. além dos processos intuitivos (que permitem associar as experiências vividas sobre os objetos disponíveis). tempo) e as competências profissionais desenvolvidas. ao invés de incentivar a leitura das situações pelas quais se estruturam as conseqüências. Podemos afirmar que a noção moderna de segurança no trabalho pressupõe uma verificação e uma compreensão integradas: a) de macro variáveis do sistema organizacional. que influenciam na avaliação e promoção de comportamentos seguros no trabalho. as condições e os meios de realização do trabalho. os processos culturais instalados. a percepção de risco e de segurança no trabalho. o regime de metas. aqueles que resultam da instrução . dificuldades para aquisição de novos conhecimentos. explorando.lógica de controle das conseqüências das condutas (acidentes. geralmente associados às demais dimensões da vida fora do trabalho. tais como a fisiologia do processo de trabalho. das condições de salubridade. muitas vezes definidas como expressões da carga de trabalho. nas diferentes configurações da organização do trabalho e determina a maior ou menor possibilidade da prevalência de acidentes de trabalho. certamente. metas. esquecimentos. Os sinais para a investigação de incidentes ao acidente de trabalho. do meio ambiente físico e social e dos meios de aprendizagem. Essas manifestações. conflitos). revelam desequilíbrios na relação entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador para respondê-las eficazmente. os graus de satisfação. tais como as características da gestão do trabalho e dos trabalhadores. marcas no corpo. sistematicamente. uma análise das características dos sistemas técnicos de gerenciamento. doenças ocupacionais. erros. por exemplo.

especialmente os psicólogos do trabalho: construir a ciência da Psicologia da Segurança no Trabalho. Desenvolver métodos e técnicas para aferir e auxiliar o processo de diagnóstico e interpretação dos problemas que envolvem a manutenção do comportamento seguro e a redução sistemática da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho é um desafio constante para os que atuam nos sistemas organizacionais. São aspectos que. Com base nisso. maio de 2006 Roberto Moraes Cruz.(que são construídos pelo processo intelectual diretamente envolvido na interpretação das variáveis envolvidas e suas tendências). que indica um campo promissor para pesquisadores e profissionais do ramo. espera-se que novas contribuições no domínio da Psicologia da Segurança no Trabalho possam ser organizadas. Dr. suas fronteiras e interfaces com as demais ciências do trabalho. merecem serem aprofundados com a leitura desta obra. Certamente. este livro auxiliará aos interessados a ampliarem a percepção e o conhecimento sobre os aspectos do comportamento humano que definem o campo da Segurança no Trabalho. Florianópolis. certamente. refletindo a construção de respostas a antigas e novas necessidades de examinar criticamente os aspectos constituintes do comportamento seguro no trabalho e o dimensionamento de ações voltadas à melhoria das condições de vida e de trabalho nas organizações. Psicólogo do trabalho. professor e pesquisador da UFSC nos Departamentos de Engenharia de Produção e de Psicologia. .

este responsável pelo . Dr. estava disposta a desvendar novos caminhos para a solução dos enigmas que me assombravam. recurso dos mais utilizados pelas organizações com o objetivo de conscientizar e mudar os comportamentos dos trabalhadores frente aos riscos. tive que dar conta da primeira grande aprendizagem: eu não resolveria todos os problemas de segurança das empresas nem salvaria a saúde e a vida de todos os trabalhadores brasileiros com a minha pesquisa. Olga Mitsue Kubo. Sílvio Paulo Botomé e Dr. O produto desta pesquisa (dissertação defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em fevereiro de 2004) é o carro chefe deste livro e não teria sido possível sem a bússola e a lupa oferecidas por meus orientadores e inspiradores: Dra. foi um dos fatores definidores da minha escolha por aprofundar meus estudos. O conhecimento já produzido (no Brasil e em outros países) serviu de base para que fosse possível estudar um pequeno pedaço dessa realidade e sistematizar algumas contribuições para uma análise mais criteriosa dos fatores de sucesso e de fracasso dos treinamentos e das palestras de comportamento seguro. oferecidos pelas empresas. altamente qualificada e treinada. comete erros pífios e machuca-se em função disso? Por que algumas empresas fazem tanto pela prevenção e não conseguem "zerar acidentes"? No fim da história. iniciei um curso de Mestrado em Psicologia com a missão clara e definida em minha mente: vasculhar o que a ciência já havia produzido atrás das respostas que procurava. do gerenciamento ou das instalações? À medida que o tempo passava e eu mergulhava. Em 2002. Caso não encontrasse. como se um "gato descesse pela minha garganta". O Brasil é um país de pouca tradição de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia da Segurança no Trabalho. é culpa das pessoas. eu foquei meus esforços e minhas esperanças em poder contribuir para desvendar alguns dos problemas e dificuldades do processo de educar para a prevenção. e havia muito por fazer. Roberto Moraes Cruz. Por que as pessoas machucam-se em acidentes "bobos"? Por que uma pessoa. Após digerir tal dado de realidade.Apresentação A dificuldade de encontrar respostas para enigmas. que encontrei como psicóloga atuando no campo da segurança do trabalho.

baseados no comportamento humano. desde sempre. aquilo que é produzido "dentro dos muros" da universidade mobilizou sua concretização.prefácio. trata-se de uma fonte de consulta. àqueles que se interessam pelo assunto. formando um gratificante mosaico de abordagens e perspectivas de análise. um incômodo permanecia: a desconfortável escassez de livros publicados sobre Psicologia da Segurança no nosso país. do Brasil. aproveitando-se esta oportunidade. encarando os desafios da prevenção junto com tantos outros bravos profissionais. deixando tantas outras lacunas sobre comportamento humano e prevenção sem sistematização. de buscas para agregarem a esta obra o valor de seus estudos e descobertas. complementares às que eu havia feito durante esses anos dedicados ao tema Comportamentos Seguros. Juliana Zilli Bley . ou melhor. respectivamente. baseadas em aprofundamento teórico-científico e na vivência que temos tido nos chãos de fábrica. Havia questões complementares sobre educar para prevenir que poderiam ser contempladas. o desejo de tornar acessível. Em última análise. de incômodos. como treinamento. MS. Julio Cézar Ferri Turbay e Odilon Cunha Jr. Psic. tratando dos temas Clima e Cultura de Segurança e Percepção de Riscos. Foi quando convidei dois companheiros de jornada. Eu resistia à idéia de publicar uma obra tratando somente de um assunto tão específico. de trabalho. uniram-se a mim nesta discussão. baseados nas pessoas. discussão e análise de alguns aspectos centrais no que diz respeito ao estudo e à gestão de processos e programas de prevenção em saúde e segurança. as quais eu conhecia e sabia. Por fim. No entanto.

Um Estudo sobre Como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura 84 .Perigo.Psicologia e segurança do trabalho no Brasil: uma introdução << 2 >> 35 . Incidentes e Desvios 112 .Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? S1 Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? << 3 >> 55 .Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção 95 .Mudança de Comportamento 59 .Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade 71 .O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção 56 .Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos 67 . Risco e Ser Humano 111 .A Noção de Comportamento Humano 44 .Obras consultadas .Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico 79 .A Percepção de Risco << 6 >> 117 .) 104 .Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática << 7 >> 137 .Cuidar do ser: considerações sobre ciência.Percepção de riscos (ODILON CUNHA JR.Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança (JULIO CÉZAR FERRI TURBAY) 117 .A Natureza Humana e a Segurança 107 .Sensação e Percepção 109 .Sumário << 1 >> 25 .Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional << 4 >> 77 .Acidentes.Referências «+» 149 .Clima de Segurança: História e Conceito 126 . gestão de pessoas e cidadania «*» 141 .A Prevenção ao Longo dos Tempos 106 .Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança 81 .Conclusões do Estudo << 5 >> 103 .Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" 41 .

seus primeiros e importantes experimentos datam de meados do século XIX. é possível dizer que desde Aristóteles (300 a. com quase 200 mil profissionais registrados em conselhos profissionais e atuantes. Kerr. inicialmente nomeados como sendo "da alma" (etimologicamente. 1936. do psicólogo José Augusto Dela Coleta' (BLEY. é profissão regulamentada há pouco mais de 40 anos e conta. 1925. contribuições da psicologia do trabalho. 1979. J. praticamente. atividades de prevenção. Em registros conhecidos. Davis e Mahoney. A Psicologia. A. principalmente no oriente. infelizmente. uma das mais significativas obras publicadas sobre a Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho é Acidentes de Trabalho . Psicólogo aqui no Serviço' Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT)? Não tem ninguém louco por aqui! Psicologia e segurança no trabalho? Uma nova invenção? Modismo recente? O que o psicólogo tem a ver com prevenção de acidentes? A Psicologia. Ao sistematizar estudos como os de Schorn. São Paulo: Atlas. Dela Coleta. 1944. Ombredane e Faverge. Acidentes de trabalho . psicologia significa estudo da alma). como processo de conhecer o funcionamento da subjetividade humana. apesar do tempo de regulamentação e da proporção da categoria. distanciando sua imagem profissional de contextos menos conhecidos da sua atuação. No entanto. No Brasil. Contribuições da Psicologia do Trabalho.Fator Humano. a revolução industrial. atualmente. vem se dedicando a estudar e intervir sobre o comportamento humano no contexto do trabalho desde. No Brasil.) procura-se compreender e explicar esse conjunto de fenômenos. 2003). Este é o caso da Psicologia do Trabalho e. as empresas perdem um precioso retorno' dos seus investimentos nas pessoas (Cecília Whitaker Bergamini). 1957. Dunbar. Hersey. 1955. data de tempos imemoriais. Atividades de Prevenção. não suas mentes e corações.Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução Contratando somente as mãos dos trabalhadores. o estereótipo clínico (aquele do divã) e a idéia de que "psicólogo é médico de louco" ainda persistem no imaginário popular. mais precisamente. e outros 1 DELA COLETA. 1957.c. Como ciência estruturada.fator humano. como ciência e também como profissão. da Psicologia da Segurança no Trabalho. . 1991.

como Freud. campos reconhecidos. 3) o de reafirmar a presença do profissional da Psicologia neste campo de atuação profissional. mas de variáveis que determinam a probabilidade de ocorrência de características de um evento. também se dá pelo fato de que as intervenções para a prevenção da ocorrência dos acidentes requerem humanização do trabalho e valorização do trabalhador. Pode ser vista. Cardella (1999). inicialmente. entre eles os relacionados às situações de trabalho. e Adler. como o resultado da impossibilidade de se criar ambientes plenamente seguros. bem como a atuação de profissionais psicólogos nesse campo de atuação têm crescido no Brasil (como funcionários e como prestadores de serviço). o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. A obra citada de Dela Coleta (BLEY. ainda há muito espaço a ocupar e muito a contribuir. Esta é uma noção de causalidade circular. como área de conhecimento. em conjunto com os demais profissionais que atuam com a saúde e a segurança dos trabalhadores. É bem verdade que o volume de pesquisas nessa área de conhecimento. A Psicologia da Segurança é definida por Meliá (1998) como aquela parte da Psicologia que se ocupa do componente de segurança da conduta humana. ocupado de forma tão tímida. no cuidado com crianças. ele apresenta a Psicologia como uma das áreas produtoras de conhecimento sobre a ocorrência de acidentes desde as primeiras descobertas científicas relacionadas ao trabalho. 2) o de demonstrar para os psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento científico sobre o fenômeno. É utilizada em diferentes contextos como no trânsito. A importância da participação da Psicologia. em contrapartida à relação linear de causa-efeito própria de uma concepção aristotélica (LEWIN. já discutiam as características de personalidade envolvidas na produção das fatalidades. componente das propostas paradigmáticas daquilo que se tem chamado de nova ciência. como de atuação do psicólogo nas organizações de trabalho. 2003) é um raro esforço da Psicologia brasileira em três sentidos: 1) o de demonstrar sua importância no cenário da produção científica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho. No entanto. A noção de multideterminação diz respeito à tendência de conceber os fenômenos e seus aspectos como sendo causados por múltiplas relações entre variáveis de diferentes tipos ou naturezas.citados pelo autor. Assim como o comportamento humano. Nesse contexto. na prevenção de diferentes tipos de males e perdas. Estudiosos e teóricos. histórica e cientificamente. 1975). resultando no exame não de uma causa. o da Psicologia da Segurança. . 1948. torna-se uma Psicologia da Segurança no Trabalho. 1941.

como palestras. identificada pela organização. Nesse caso. S.ao articular a segurança do trabalho ao que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos). Isso remete a uma análise das condições de segurança da conduta do trabalhador. do exercício). de cada membro da organização. Radnor. psicológicos. É possível afirmar que. o conjunto de variáveis do fenômeno comportamento que precisa ser examinado é aquele que caracteriza sua dimensão preventiva. O que. resultante de interações complexas entre fatores físicos. culturais. no âmbito dos fatores relativos aos acidentes que podem ser chamados de psicológicos. com a segurança e com o desenvolvimento de uma cultura global de segurança(GELLER2. cabe o exame da inAuência dos comportamentos humanos na sua prevenção. 1996. Ao examinar criticamente os recursos e estratégias. de fato. citado por MELlÁ. Um dos papéis da Psicologia da Segurança é o de estar implicada em aumentar a possibilidade de envolvimento pessoal. ·The psychology of saféty: how to improve behaviors and attitudes on the job. por meio das estratégias que objetivam a capacitação do trabalhador. Certamente. é possível levantar algumas questões. as contingências naturais presentes no cotidiano de trabalho do aprendiz (dia-a-dia de trabalho) têm permitido a ocorrência dos comportamentos ensinados? Quais aspectos do planejamento e da realização dos eventos de segurança influenciam (favorecendo ou prejudicando) na aprendizagem dos comportamentos seguros necessários à promoção da 2 GELLER. a utilização dessas estratégias educativas (assim como dos recursos didáticos) é desencadeada por uma necessidade. treinamentos e reuniões. Dela Coleta (1991) reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. uma vez que prevenir é uma dimensão do comportamento de trabalhar. Os eventos relacionados com segurança. as empresas têm ensinado aos trabalhadores sobre comportarse de forma segura (ou preventiva) ao realizar suas atividades profissionais? Se o processo de ensinar tem sido efetivo no âmbito educativo (do treino. USA: Chilton Book Company. define o acidente como um fenômeno multifacetado. cursos. . com grandes possibilidades de sucesso. sociais. biológicos. 1999). são recursos utilizados por organizações para "ensinar" aos seus funcionários sobre os meios de realizar suas atividades considerando os riscos existentes. Esse papel pode ser desempenhado. em desenvolver seus processos de trabalho de forma a favorecer a prevenção de doenças e acidentes de trabalho.

Uma mudança efetiva e duradoura de padrões comportamentais dá-se por meio do processo de aprender. como também fora das salas de treinamento e auditórios. utilizadas de forma descontextualizada e sem considerar as variáveis contingentes aos comportamentos relacionados com a prevenção. 1999). É o contexto influenciando os comportamentos dos indivíduos. Essa trama complexa de relações. os estilos de liderança e os valores praticados por seus integrantes fazem parte de um amplo conjunto de contingências que influenciam. que é invisível aos olhos à primeira vista. Dessa forma. e esse aprender acontece não só dentro. Essa cultura favorável é definida como sendo aquela em que ocorre o que ele denomina de cuidado ativo. cuidar do outro e deixar-se cuidar pelo outro podem ser considerados como sendo um tripé no qual se apóia uma cultura organizacional que tem como característica essencial a prevenção (cultura de saúde e segurança). um contexto organizacional favorável à prevenção caracteriza-se pelo cuidado como atitude essencial. nos treinamentos e nos processos internos. das lideranças e também da cúpula da organização. Entretanto. um dos mais importantes estudiosos da psicologia da segurança norte-americana. sobremaneira. pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. palestras. naquilo que as pessoas aprendem como sendo sinônimo de seguro ao trabalhar em situações de risco. porém. A cultura da organização. nas políticas corporativas. A característica preventiva pode ser identificada nos mais diferentes processos de uma organização como no planejamento estratégico da empresa. Segundo Geller (2001). Cuidar de si mesmo. pode ser a responsável pelo insucesso de estratégias e ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de comportamento em segurança. a forma como são tomadas as decisões. elas pouco podem produzir frente ao poder de manutenção das coisas como sempre estiveram que o arranjo das variáveis existentes pode representar. inicialmente. nas definições orçamentárias. . após um período de tempo. mas também dos pequenos grupos/setores. ser entendido por comportamento seguro? Treinamentos. cria-se um ambiente favorável ao aparecimento de comportamentos considerados preventivos não só por parte dos indivíduos.segurança no trabalho? O que pode. exatamente. cursos. que é caracterizado. permite que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer.

É de uma educação do indivíduo. há que se considerar o intenso processo de transformação que está em curso e que. ciência e cultura) declarou. sua capacidade de construir-se autonomamente e. na virada do milênio. qualificar para fazer algo profissionalmente. o desenvolvimento de um ser humano deve ocorrer de forma integral. fórmula do treinamento reprodutor das coisas como sempre foram e reprodutor da ideologia reinante. 1998). O mundo mudou. para que seja possível deparar-se com organismos públicos e privados. a relacionar-se e a desenvolver autonomia no seu processo de pensar e produzir conhecimento. em toda sua inteireza. Considerando os quatro pilares. espiritual tão peculiar. e a educação precisa formar e instrumentalizar as pessoas ao redor do planeta para viver e sobreviver neste contexto social. cultuada por empresas e profissionais. econômico. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para educação. ao mesmo tempo. Aprender a Aprender e Aprender a Fazer (OELORS. além de saber fazer. num período histórico no qual o mundo coloca novos paradigmas para a educação. vinha sendo o grande objetivo de ensino na educação de trabalhadores). suas relações. seu contexto. por meio da Comissão Internacional para Educação no Século XXI. realizando processos de aprendizagem de espectro ampliado (integral). Falar de educação.Os processos de conscientizar e educar têm sido os grandes carros-chefes das estratégias de prevenção de acidentes e doenças do trabalho com foco nos aspectos humanos. Vale salientar que. educadores e gestores ao construir o processo de aprendizagem de trabalhadores e organizações. o que se procura na educação do ser integral é que. é isso que se busca nos primeiros anos do século XXI. pela sua amplitude e importância. Portanto. convergentes com os pilares da educação para o século XXI. a ação de educar transcende às tradicionais noções de instruir. ele acesse as dimensões do aprender a ser. está longe de terminar. isto é. Nessa perspectiva quadridimensional. sendo essa uma ampliação significativa sobre pensar e fazer educação (especialmente a educação no campo do trabalho). o que precisa ser preparado são seus braços. sem deixar de lado seu mundo interno. que se fala e precisa-se. treinar. Vai além de uma noção clássica de que a mão de obra tem de ser preparada. que os quatro pilares que deverão sustentar as propostas de educação em todo o mundo são: Aprender a Ser. e não seu ser inteiro. é um convite à revisão daquilo que se entende como sendo o papel de cientistas. ou seja. finalmente. tão criticada e. político. científico. Aprender a Conviver. será preciso contar com o tempo (longo prazo) e com a atualização (mudança de paradigma) . sua capacidade de fazer (que. até então. Também vai além da.

Capacitar e desenvolver pessoas para que se tornem competentes em pensar. Esse papel é o de sujeito da preservação da sua integridade. ajam de acordo com os dois primeiros fatores.de técnicos e dirigentes organizacionais. onde o cenário de doenças e acidentes de trabalho está longe do que se considerado aceitável (se é que isso existe). Em última análise. afetivo (do sentir) e de ação (do fazer) (RODRIGUES. e as formas de evitar lesões e perdas. mas sim uma tendência a comportar-se de uma determinada forma. Para que isso se torne realidade em nosso país. desde que a organização de trabalho crie condições para que isso ocorra. estudada por cientistas e profissionais das áreas afins e influenciada por ambos na direção da promoção das melhores condições de saúde para aqueles que atuam em situações de risco. O vocábulo comportamental diz respeito a essa dimensão. sentir e agir com segurança sempre que o indivíduo encontrar-se numa situação de risco (noção de tendência). capaz de participar e assumir responsabilidades quanto a ela. será possível traduzir diretrizes inovadoras em práticas coerentes e eticamente pautadas. Isso pode ser verificado ao comparar a proposta da educação do ser integral com a noção de atitude. aos quais estão expostas. Existe uma máxima entre os profissionais de Saúde e . principalmente. 1998). bem como atuar como elemento cessionário de poder e desencadeado r das pessoas que compõem um grupo nessa direção. especialmente no que diz respeito às estratégias de treinamento e desenvolvimento (T&D). dos outros e deixando-se cuidar pelos outros parecem ser o grande objetivo da segurança baseada no comportamento humano. Atitude não é sinônimo de comportamento. Isso posto. sentir e agir cuidando de si mesmas. sintam-se identificadas com e motivadas pela idéia de que "prevenir é realmente melhor do que remediar" e. Só assim. sendo considerada por empregadores. Essa revisão deve ter como ponto de partida o questionamento acerca do papel desempenhado pelas pessoas no processo de prevenir. amplamente utilizada em campanhas e treinamentos de prevenção e considerada essencial para esse processo. desenvolver atitudes seguras (objetivo de grande parte dos treinamentos) significa criar condições para que as pessoas conheçam os riscos. A integração dos quatro pilares na perspectiva da educação para saúde e segurança no trabalho coloca-a num nível maior de coerência com aquilo que hoje se entende por segurança comportamental que é a dimensão humana da prevenção de doenças e acidentes. ter atitude segura significa pensar. do conhecer). Tal tendência é originária da consistência entre três componentes: cognitivo (do pensar. é preciso que governantes e dirigentes de organizações revejam suas políticas de gestão de pessoas.

A responsabilidade é de todos.Segurança no Trabalho (SST) que confirma o caráter participativo e cessionário de poder que uma cultura de prevenção deve assumir. no sentimento e na ação cada um. É isso. do andar mais alto do prédio da diretoria até a última bancada do último galpão no fundo da fábrica. . mas começa no olhar. defendendo que segurança é responsabilidade de todos.

o grupo de trabalho e a própria organização como um todo.. O comportamento das pessoas é objeto de preocupação do homem há muito tempo. Dela Coleta (1991. presentes na ocorrência dos acidentes de trabalho.. evitar. e não no campo da ciência. incluindo o meio. afirmando que: . o que não é verdade. Os verbos utilizados para nomear os comportamentos (como prevenir. com os companheiros de trabalho e com a organização... examina alguns aspectos do homem. p. ao sistematizar as contribuições da Psicologia para a prevenção dos acidentes de trabalho. e seus níveis de complexidade.Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" Caminhar sobre um terreno acidentado é uma coisa. afirma que ela evoluiu ao longo do último século em meio a confusões. [ . pode ser visto como expressão da qualidade da relação do indivíduo com o meio social que o cerca. Da mesma forma que é um objeto de estudo. é um fenômeno presente no dia a dia de qualquer pessoa. o que requer mais do que o senso comum para examiná-lo e intervir sobre ele. o estudo da influência humana no acidente de trabalho necessita considerar o conjunto de relações que se estabelecem entre um organismo e o seu ambiente de trabalho para ser considerado como comportamental. No âmbito da segurança no trabalho. as atitudes e as reações dos indivíduos em ambiente de trabalho não podem ser interpretados de maneira válida e completa sem se considerar a situação total a que eles estão expostos. 77). Botomé (2001). ] o acidente de trabalho. analisar) podem levar a pensar que as relações que compõem esse fenômeno são simples. equívocos e preconceitos acerca da sua conceituação e do seu uso. saber que se está fazendo isso é outra coisa (Burrhus Frederic Skinner). Isso quer dizer que a máxima "de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco" pode manter a discussão sobre comportamento e segurança no campo dos "achismos". Ele é um fenômeno de alta complexidade e variância. neste sentido. ao examinar o conhecimento produzido sobre a noção de comportamento. todas as interrelações entre as diferentes variáveis. os comportamentos. .

pormenorizado. autorizado e fiscalizado (pelo conselho profissional. isto é. empresas de prestação de serviços e grandes corporações brasileiras têm utilizado o termo segurança comportamental para referir-se ao conjunto de estratégias que utilizam para atuar sobre os comportamentos dos trabalhadores. por exemplo) com um alto grau de compreensão dos aspectos . isto é. equipamentos. de que o comportamentalismo tem como propósito "manipular" os trabalhadores. um conjunto de saberes e conhecimentos que podem conferir a esse profissional um entendimento diferenciado. o que confere um alto grau de complexidade a essa análise. esses profissionais poderão atuar nos seus respectivos campos (um médico do trabalho. com o objetivo de torná-las capazes de prevenir acidentes de trabalho. julgamento de profissionais. de empresas e de profissionais no que diz respeito à segurança no trabalho. De posse desses conhecimentos.Essa afirmação merece destaque e reflexão uma vez que toma o acidente de trabalho como um produto da forma pela qual o ser humano interage com o mundo à sua volta. um especialista formado. intervenção de profissionais de outras áreas de conhecimento sobre o comportamento. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se como uma Área de Conhecimento. Já no caso dos demais profissionais voltados para saúde e segurança. Os fenômenos comportamentais relativos à prevenção dos acidentes têm sido fonte de interesse e investimento por parte do governo. Ele pode ser considerado um técnico. dos grupos e da própria organização. Para o psicólogo. à luz do código de ética) para realizar tal atividade como uma profissão. Entretanto. outras pessoas e até com a sociedade. de diferentes áreas de conhecimento. sem o devido preparo técnico-científico. ou mesmo gestores e técnicos de outras profissões. a atuação das organizações sobre os comportamentos do trabalhador em relação aos riscos do seu trabalho tem enfrentado alguns obstáculos como: reduzida oferta de profissionais adequadamente capacitados para lidar com comportamento humano em segurança. Profissionais (de diferentes formações) do campo da segurança. sobre os aspectos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. É possível afirmar que os conhecimentos produzidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho (e áreas afins dentro da Psicologia) assumem funções distintas quando se trata do trabalho de psicólogos e demais profissionais da saúde e segurança. com máquinas. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se com um Campo de Atuação Profissional. um conjunto teórico-técnico que subsidia sua intervenção nos fenômenos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. isto é.

tendo sido registrados até casos de descompensação emocional por parte de integrantes do grupo. o estímulo de feedbacks entre pessoas despreparadas para tal. atitudes. Outros exemplos de equívocos são a utilização do conceito de atitude (tendência a comportar-se de uma determinada forma) como sendo sinônimo de comportamento (conjunto de relações que se estabelecem entre o indivíduo e o meio). que são expoentes da Psicologia do Trabalho na atualidade. muitas vezes. É importante posicionar adequadamente tais funções. Referindo-se ao uso indiscriminado das estratégias de prevenção relacionadas com os aspectos humanos. podendo elevar a qualidade e a efetividade da sua atuação em função disso. além de serem utilizadas.humanos. comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e . em seu compêndio Manual de Psicologia da Segurança. a nomeação de gestão de aspectos humanos em segurança para referir-se a comportamento humano. que acaba por punir ou expor colegas e subordinados. A respeito da intervenção de profissionais de outros campos de atuação sobre o comportamento humano. Trabalhar com pessoas é. comportamento. em muito. Como já foi abordado no capítulo anterior. ao mesmo tempo. fascinante e perigoso. Dejours (1999) e Geller (2001). Isso se deve. Geller (2001). correndo-se o risco do uso simplista do termo. como sinônimo de Psicologia por quem não é psicólogo. Conceitos genéricos sobre os comportamentos das pessoas têm servido como base para intervenções em segurança que se intitulam "focadas no aspecto humano". Trata-se do cuidado adotado para com as questões éticas e de responsabilidade profissional. uma vez que é grande o risco de terem-se perdidos os critérios que diferenciam a utilização profissional da Psicologia da Segurança no Trabalho da sua utilização como fonte de conhecimento. funcionam como um verdadeiro condensado de "psicologia do senso comum". a atuação de psicólogos no campo da saúde e segurança no trabalho no Brasil é bastante reduzida. Dos equívocos na concepção e na intervenção sobre os comportamentos em segurança pode decorrer o baixo grau de controle sobre os resultados das intervenções (prometer resultados que jamais ocorrerão) e da aplicação de técnicas sem o devido preparo profissional (o que pode gerar efeitos colaterais indesejados durante o processo). consideram que expressões como fator humano. à escassez de propostas de formação específica para esse campo e também à sua pequena expressão junto à formação profissional básica (graduação em Psicologia). a aplicação de técnicas de dinâmica de grupo sem a devida preparação técnica e com pouco controle sobre as conseqüências desse tipo de intervenção.

são selecionadas e ouvidas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque soam bem. um de seus principais ícones. Não se trata de restringir a atuação dos profissionais de outros campos de atuação no que diz respeito à dimensão humana do processo de segurança (isso não seria possível). ainda na década de 70. Possuir um diploma de Psicologia não garante a efetividade da atuação do psicólogo sobre o comportamento das pessoas. como conseqüência. Os riscos de implementar conceitos e técnicas psicológicas nos processos de intervenção sobre os grupos de trabalhadores sem a devida consciência do alcance das suas implicações podem constituir-se na obtenção de resultados insuficientes. e não porque são estratégias de trabalho com base em conhecimentos científicos. a crítica sempre presente de que atuar sobre o comportamento humano no trabalho é o mesmo que manipular o trabalhador parece infundada quando se conhece a fundo a análise do comportamento como proposta científica. Ainda sobre os obstáculos. na influência sobre o desequilíbrio emocional dos participantes do processo. oferecia argumentos esclarecedores acerca desse tipo de "acusação". Para o exame aqui apresentado. Não significa. na ausência de alterações nas situações de intervenção. é suficiente citar Skinner . porém. Um livro inteiro poderia ser produzido somente apoiado no debate acerca de intervenção sobre o comportamento x manipulação de pessoas. dificultam atuações futuras nesse campo.desenvolvimento. independente da qualificação teórica e técnica apresentada pelo profissional por ocasião de uma nova oportunidade de intervenção. Não são raros os programas de natureza comportamental concebidos e implementados por pessoas com formações profissionais para atuar sobre outros fenômenos que não o comportamento humano. é possível afirmar que a probabilidade de sucesso da intervenção de um profissional com apropriados conhecimentos relativos ao comportamento humano é alta. preconceituosamente. até mesmo. incluindo mudanças de atitudes e comportamentos. trata-se de caracterizar a natureza de diferentes tipos de intervenção profissional sobre essa dimensão: a dos profissionais que podem (e devem) utilizar o que há de conhecimento mais recente e confiável na Psicologia para instrumentar sua prática e a dos psicólogos que têm na dimensão humana o fenômeno que caracteriza e justifica a sua atuação profissional de forma central. Skinner (1983). No entanto. na provocação de situações contrárias aos objetivos propostos (fortalecimento de resistências) e. Intervenções dessa natureza deixam para trás um "rastro" de resistências e descrenças para com esse tipo de proposta e. afirmar que esses profissionais realizarão intervenções equivocadas.

O comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo . complementada e inter-relacionada com os fatores ambientais. entre outros. as orientações dadas nos treinamentos. o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação. ferramentas. as normas e os procedimentos de trabalho da atuação concreta dos trabalhadores? Quem pode oferecer tal resposta? Geller (1994). p. desarticuladora da idéia de manobrar as pessoas para onde bem se entende sem que elas possam participar com suas próprias opiniões e seus próprios anseios. tecnológicos. Para ele. pois de nada adianta capacete de última geração se o trabalhador não souber ou não quiser colocá-lo (adequadamente) em sua cabeça. normas e procedimentos. destaca três domínios que requerem atenção para que a segurança seja um valor em uma organização: fatores ambientais (equipamentos. relação com colegas e supervisores. ferramentas. fatores pessoais (atitudes. Se isso fosse fácil e possível. Autores como Dejours (1999) e Davies e Shackleton (1977) afirmam que o homem é o elemento relativamente estável do processo.. estou mais preocupado com interpretação do que com previsão e controle". A Noção de Comportamento Humano Quando se trata de prevenção de acidentes. por si só. o mundo seria diferente. temperatura). sendo o meio caracterizado como máquinas. ao referir-se a uma cultura de segurança total. grandes avanços relativos a aspectos ambientais. fatores pessoais e comportamentais representam a dinâmica humana da segurança ocupacional. mas ainda há muito a ser feito. principalmente com relação aos aspectos humanos dos processos de segurança industrial. necessariamente. Mais do que a ação visível de uma pessoa.. com certeza. pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos. crenças e traços de personalidade). legais e organizacionais foram alcançados.(1983. fatores comportamentais (práticas de segurança e de risco no trabalho). A utilização da análise do comportamento e suas possibilidades como recurso para o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa. Essa é uma das grandes interrogações do mundo da segurança: o que separa os equipamentos modernos. 21): “ . Tal premissa já é.

Em segurança. criando uma outra realidade. a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois. como resultado da ação (Botomé. Uma análise do comportamento de prevenção (um estudo das variáveis que afetam o comportamento em exame) significa identificação das variáveis contingentes às respostas do organismo relacionadas aos riscos presentes. Dessa forma. ao agir levando em conta esses três elementos. Podemos chamar de comportamento todo o processo de inter-relação entre as variáveis. Entender o comportamento como uma relação entre a realidade de inserção de uma pessoa. permite afirmar que um profissional. 2001). as relações de influência recíproca que se estabelecem entre elas e o que aconteceu como resultado desse processo. 1996). Identificar e analisar aquilo que interfere na ocorrência dos comportamentos de trabalho podem ser uma maneira de conhecer as relações funcionais existentes. A figura 1 apresenta as relações possíveis entre os componentes de um comportamento. os resultados relevantes de um comportamento são todos aqueles que podemos relacionar com prevenção. p. tem maior probabilidade de gerar resultados relevantes por meio da sua atuação no trabalho (STÉDILE. 697). considerando-se as situações. o tipo de comportamento desejável em segurança é aquele que possui como resultado a não ocorrência de doenças e acidentes de trabalho.(ou junto com ela). que elevam ou que reduzem as probabilidades de ocorrerem acidentes de trabalho. que influem sobre a probabilidade do comportamento ocorrer no futuro. as suas ações perante a realidade e as decorrências de sua ação. Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? . Figura 1 Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento o conjunto de relações possíveis entre o que um organismo faz e o ambiente (anterior e resultante da ação) no qual ele faz Situação O que acontece antes ou junto à ação de um organismo Ação Aquilo que um organismo faz Consequência O que acontece depois da ação de um organismo FONTE: Botomé (2001.

Dessa forma. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. O conceito de comportamento como conjunto das relações entre o que um organismo faz e o meio em que faz permite avançar no entendimento da dimensão comportamental da segurança no trabalho. O chamado comportamento de risco poderia. para si e para o outro (BLEY. normalmente. então. oferecendo a essa análise um caráter compatível com seu nível de complexidade (que é grande). Essa definição é útil à medida que contém em si as principais propriedades do comportamento que produz como conseqüência a não ocorrência de acidentes. dentro e fora da "pele de cada um de nós". como afirma Skinner (1983. ser definido por meio da relação com sua conseqüência. os adjetivos . garantindo-se o caráter. utiliza-se. os aspectos do meio que devem receber intervenção (os riscos da atividade). o resultado objetivado para o comportamento (redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis). aquilo que não se deve fazer. p. internas e externas ao indivíduo. Há dificuldade em pesquisar sobre a noção de comportamento seguro devido à escassez de produções (científicas ou não) que tratem do que se entende por lado oposto do ato inseguro. 2004). excluindo os demais fatores também constituintes do fenômeno. pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro. de um grupo ou de uma organização. Tal entendimento de que comportamento é algo que existe. o que já revela a existência de uma tendência de iniciar-se a análise tomando como ponto de partida o erro. ao mesmo tempo. os comportamentos relacionados com a segurança também são considerados como determinados por múltiplas causas. individual e coletivo desse comportamento. a noção de ato inseguro como forma de referir-se aos aspectos comportamentais em segurança. torna pouco recomendável a utilização da expressão ato. a relação entre tempo da ação e tempo do resultado (presente e futuro). São elas: os verbos que indicam as ações que devem ser realizadas (identificar e controlar). ao mesmo tempo. e os agentes envolvidos (si mesmo e o outro). 23). pois ela remete o exame somente aos fatores externos ou observáveis do comportamento. Deveria esse ser chamado de ato seguro? O comportamento seguro de um trabalhador. que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influência que exerce sobre as mesmas variáveis.Nas discussões no âmbito da segurança no trabalho.

é possível considerar que ele comportouse de maneira segura. 1999). ele está se comportando em relação ao perigo (buraco). P. Tal compreensão permite examinar a possibilidade de prevenir danos (acidentes e doenças) à saúde como um processo. O fator de risco de uma atividade pode ser concebido como a representação de diferentes graus de exposição de um indivíduo a um agente perigoso ou como a probabilidade de ocorrência de conseqüência indesejável ser reduzida. o que significa dispô-los num continuum que pode variar do mais seguro ao menos seguro (ou de risco). Se ele evitou passar pelo buraco. 1999. em última análise. atitude preventiva. negligência e imprudência são algumas das expressões comumente utilizadas para qualificar os comportamentos próprios e impróprios das pessoas diante dos mais variados perigos. Assim. e o resultado dessa ação pode caracterizar o risco ao qual ele foi exposto. Ato inseguro. controla. os adjetivos seguro e inseguro podem ser entendidos como aspectos do comportamento de "trabalhar" de um sujeito (figura 2). É possível exemplificar esse processo: quando um motorista desafia. 62). . cuida. Figura 2 Graus das condições de segurança de um comportamento Seguro Inseguro Graus de Segurança do Comportamento FONTE: adaptação da autora a partir do esquema de graus das condições de saúde de organismo (REBELATTO. teme ou evita um grande buraco na estrada. Evitar o acidente de trabalho é. Se ele subestimou o tamanho do buraco. O conceito de risco está associado à relação entre a freqüência da exposição e as conseqüências que podem ocorrer em função da exposição (CARDELLA. e não como uma ação fixa.seguro e inseguro podem ser vistos como graus da segurança de um mesmo comportamento. Esse exame permite utilizar os adjetivos seguro e preventivo para referir-se a comportamentos que resultam na redução da probabilidade de algo indesejável acontecer. enfrenta. é dito que ele comportou-se de maneira insegura. caiu no buraco e teve seu veículo avariado. BOTOMÉ. a finalidade do comportamento que recebe o adjetivo seguro. dizendo "ele é bem menor do que parece".

Não basta estar de posse de um anteparo para impedir que as fagulhas produzidas por uma máquina atinjam os olhos do operador. cujo significado resume-se em ousar. No entanto. Nesse exemplo. o ser humano desconsidera a possibilidade de influir sobre a prevenção dos acidentes. . é preciso posicionar o anteparo entre o centro gerador da fagulha e os olhos para que o resultado aconteça: olhos protegidos de corpos estranhos. as quais podem envolver a disponibilidade e a adequação do maquinário. Bernstein (1998) afirma que a palavra risco é uma derivação italiana antiga para risicare. diretamente. e não um destino divinamente traçado. definição que permite encobrir o exame dos aspectos humanos envolvidos e pode significar a ênfase nos aspectos de natureza estatística dos riscos. assim como em outras atividades consideradas arriscadas. Ações de controle são realizadas por empresas e profissionais da segurança para que a probabilidade de ocorrer acidentes seja reduzida ao mínimo possível. Isso poderia significar que o homem não exerce poder sobre os graus de segurança das suas atividades. Risco significa a combinação da probabilidade e da conseqüência de ocorrer um evento perigoso especificado. as decisões organizacionais. Essa compreensão traz à tona a influência decisiva do homem na exposição ao risco e contraria o senso comum da vitimização do homem. que o remete a um papel desprovido de qualquer participação na ocorrência indesejável. Sob essa raiz. isto é. em decorrência dessa concepção. mas de identificar os níveis de influência que as pessoas envolvidas na realização de uma atividade arriscada exercem sobre as ocorrências na intenção de tornar possível a reorganização das variáveis presentes. o risco pode ser examinado como uma opção do ser humano.Essa exposição depende. a dimensão comportamental do trabalho seguro pode influenciar nos diferentes graus de segurança possíveis para o trabalhador. para prevenir acidentes. extinta. muitas das ações de controle necessitam da participação das pessoas para serem efetivas. das condições de trabalho. Identificar e rearranjar os aspectos envolvidos permitem agir sobre os determinantes dos problemas antes que eles aconteçam para que não aconteçam. os procedimentos de trabalho e também o tipo de relação que o trabalhador estabelece com os perigos inerentes à sua atividade. dessa forma. A segurança no trabalho como área de conhecimento seria. Ao desconsiderar a possibilidade que o homem possui de influenciar nas variáveis que elevam a probabilidade de ocorrer acidentes. Não se trata de culpar o trabalhador da ocorrência de acidentes. é possível dizer também que.

Skinner (1967) explica que. Por outro lado. a não ocorrência do aversivo (danos à saúde causados por acidente) tende a enfraquecer. Em última análise. na empresa em que trabalhava anteriormente. Um colega que trabalha num outro equipamento ao lado orienta-o para que desligue imediatamente o aparelho. por sua vez. no qual já realizou reparos em outras oportunidades. o comportamento de evitar é fortalecido. pois o ruído é um sinal de que poderá haver uma explosão. o que faz com que o ciclo· repita-se. O autor ressalta. ainda. que o contato com o estímulo aversivo (sofrer acidente) pode recondicionar o poder do estímulo anterior (ruído grave e baixo) e fazer com que o organismo volte a comportar-se de forma a evitar o contato com o aversivo. feita por Skinner (1967). Dias após o bolo e os balões decorativos. reiniciando o ciclo de investigação. plano de ação para evitar que . o indivíduo pode perceber o sinal e agir para evitar essa situação. O trabalhador desliga o equipamento e retoma os reparos para que o problema que causou o ruído fosse descoberto e resolvido. ferindo-o gravemente. repetidamente. Tal fenômeno pode ser representado pelas tradicionais comemorações por período sem acidentes. não ocorrer o acidente (como decorrência de evitálo de forma efetiva) enfraquece o comportamento de evitar. com pessoas significativas ou visto por meio de fotos e vídeos). Ao testar o equipamento após a intervenção.Ao sistematizar os conhecimentos provenientes da Análise do Comportamento sobre o que ele chama de reforço negativo condicionado. o fato de. se houver um estímulo (um sinal) que precede uma situação desagradável. realmente. Um trabalhador de manutenção realiza um reparo num equipamento. originado da parte inferior do equipamento. evitar a situação aversiva. gradativamente. um funcionário havia sofrido um acidente ao realizar reparos num equipamento semelhante quando um ruído semelhante ocorreu e foi seguido de uma explosão. a ocorrência da resposta (desligar o equipamento) que. ajudará a evitar outros em condições semelhantes. Pode-se dizer que o ruído ajudou o trabalhador a evitar um acidente naquele momento e. possivelmente. é possível afirmar que a ameaça de sofrer acidentes pode ser útil para evitá-los quando o comportamento do indivíduo está sob controle do acidente ocorrido (com ele. A seguinte situação pode exemplificar a possibilidade de aplicar o exame do conjunto de relações descrito pelo autor ao exame do problema dos comportamentos para segurança do trabalho. uma seqüência de acidentes ocorre. Considerando a análise sobre a resposta de evitar. percebe um ruído grave e baixo. Se o indivíduo fizer isso e. eleva a probabilidade do aversivo (danos à saúde causados por acidente) ocorrer. O colega sabe disso porque.

ao ser aplicado ao estudo da segurança no trabalho. 1999. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e perspectivas profissionais. Considerando que o comportamento seguro ocorre na presença de riscos. ed. é adequado afirmar que esse tipo de comportamento tem como propriedade definidora a sua capacidade de reduzir (e manter baixa) a probabilidade de acidentes para o indivíduo. pode representar a capacidade de influenciar na probabilidade do acidente ocorrer de forma a torná-la menos provável. prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência. uma vez que as duas noções costumam ser utilizadas como sinônimos. S.. R. j. é possível identificar a necessidade de diferenciá-lo do que significa o processo de reduzir. a fim de impedir sua ocorrência. 2. em função das propriedades que foram descritas. . P. mesmo em graus mínimos. O verbo reduzir. Ao tratar de forma detalhada da causalidade circular que define o comportamento preventivo.ocorra novamente etc. Por isso. nem todas as 3 REBELATTO. Analogamente. São Paulo: Manole. A comparação permite afirmar que o processo de redução parece ser mais apropriado como propriedade definidora do comportamento seguro em função da semelhança que apresenta em relação às características definidoras da noção de risco. parece importante examinar aquilo que tem sido considerado como prevenção. o da ocorrência de acidentes com funcionários que foram submetidos a muitas horas de treinamentos de segurança e até o do insucesso de campanhas e programas na redução da quantidade de acidentes ocorridos nas empresas. principalmente por ser este um dos principais paradigmas do campo da saúde e da segurança no trabalho. entre elas a natureza estatística. Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? A característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. que tem como um dos significados "tornar menor". visto que não seria possível obter o mesmo tipo de conseqüência de forma duradoura por meio do processo de evitar. BOTOMÉ. Assumindo a análise dos aspectos que compõem o processo de evitar como ponto de partida. Conhecer as relações que compõem o ciclo analisado possibilita a interpretação de fenômenos como o da alternância entre períodos com e períodos sem a ocorrência de acidentes nas empresas.

Compensação dos danos produzidos nas condições de saúde dos organismos. tais procedimentos são mais condizentes com os tipos de atuação tratar. uma vez que grande parte das empresas afirma fazer prevenção em segurança apenas calculando taxas de freqüência de ocorrências e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. Reabilitação (limitação. supervisão no caso da segurança no trabalho). redução) de danos produzidos nas condições de saúde dos organismos Recuperação (eliminação) de danos produzidos na qualidade das condições de saúde dos organismos. São eles: atenuar. Rebelatto e Botomé3 (STÉDILE. compensar e atenuar. p. empresarial e de intervenção profissional (entre as diferentes especialidades do campo da saúde e da segurança no trabalho) sustenta-se por meio do . reabilitar. procedimentos. manter e promover. tratar. 48) Conforme pode ser examinado na figura 3. Prevenção da existência de danos nas características das condições de saúde. 1996) sistematizaram os diferentes tipos de atuação profissional possíveis em relação aos graus de condição de saúde apresentados. reabilitar. 1996) permite visualizar equívocos e acertos nos processos utilizados para gerenciar os acidentes de trabalho. As distorções naquilo que se entende como prevenção podem implicar importantes conseqüências para os resultados de treinamentos e palestras que têm por objetivo ensinar a prevenir. Ao proporem essa definição. Promoção de melhores condições de saúde existentes. EPIS. prevenir. Sua representação pode ser examinada na figura 3. É possível afirmar que grande parte das estratégias de prevenção adotadas em nível governamental. Figura 3 Tipos de atuações profissionais possíveis Atenuar Compensar Reabilitar Tratar Prevenir Manter Promover Atenuação do sofrimento produzido por danos definitivos nas condições de saúde dos organismos. e não apenas em relação aos problemas ou suas conseqüências. FONTE: Stédile (1996. prevenir implica em agir em relação aos determinantes dos problemas. o que muda o foco de atuação: do problema existente (o acidente) para fatores que alteram a probabilidade da sua ocorrência (dispositivos de segurança. compensar. Manutenção de características adequadas nas condições de saúde.formas de atuar sobre os graus de saúde de um organismo podem ser chamadas de prevenção. Conhecer os tipos de atuação propostos por Rebelatto e Botomé (STÉDILE.

Correndo o risco da generalização. Se prevenir acidentes pode. pode-se considerar que o campo da saúde e da segurança tem se especializado mais em morte do que em vida.paradigma da doença e do acidente. é relevante examinar a importância do processo de ensino-aprendizagem para a prevenção dos acidentes de trabalho. . ser considerado um processo comportamental e aprender representa a possibilidade de ocorrerem comportamentos significativos para a segurança dos trabalhadores. também. e não da saúde. Uma das conseqüências disso para a segurança comportamental foi uma ênfase nas iniciativas muito mais caracterizada pela descoberta e correção dos comportamentos inadequados do que pela identificação de suas causas e capacitação dos trabalhadores e dirigentes para gerar um ambiente de trabalho saudável Essa mudança de paradigma é necessária e urgente.

Isso evidencia uma crença coerente dos profissionais do campo da segurança e dos legisladores na importância do papel da educação na melhoria das condições de saúde dos trabalhadores à medida que o processo oferece a possibilidade real de promovê-la. À luz do conhecimento produzido sobre o comportamento humano. compreender o que. é possível afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho. É certo que a prevenção dos acidentes e das doenças ocupacionais é a principal via de acesso à mudança deste que se configura como um verdadeiro problema de saúde pública tanto para o Brasil. é necessário. . precisa ser ensinado e aprendido. alguma coisa fundamental a educação pode (Paulo Freire). antes. A educação para a saúde e a segurança é uma das tradicionais estratégias utilizadas em políticas públicas e programas de prevenção de doenças e acidentes relacionados ao trabalho como meio de capacitar trabalhadores. algumas ações educativas obrigatórias (para algumas organizações) como o curso de integração de novos funcionários na empresa. efetivamente.O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção Se a educação não pode tudo. Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho. a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (SIPAT) com suas palestras e campanhas educativas e até o curso de formação para membros da Comissão Interna para a Prevenção de Acidentes (CIPA). É possível encontrar. para si e para os colegas com os quais trabalha. no texto das leis que tratam da prevenção de doenças e acidentes. quanto para outros países do mundo: o acidente de trabalho. além da forma como isso pode ocorrer.

o que se observa nas considerações feitas sobre as causas humanas é à forte presença de explicações orientadas para aspectos internos ao indivíduo: falta de percepção de risco. Para que seja possível. com liderança. alterando o resultado desse comportamento. pois isso constitui um aspecto básico para administrar comportamento humano. tais fenômenos estão associados a outros na construção do cenário de um acidente. distração. superar a crença de que as principais variáveis determinantes do comportamento são internas e identificar as variáveis ambientais mais significativas para alterar o comportamento. Ao examinar a importância do comportamento humano para a formulação de objetivos organizacionais. negligência. Kienen e Wolf (2002. É certo que. em muitos casos. o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais. Tais aspectos do comportamento.. falta de cuidado. elas restringem o exame dos aspectos comportamentais. falta de atenção.Mudança de Comportamento Uma expressão é bastante comum nos debates acerca de aspectos humanos relativos à prevenção de acidentes de trabalho: mudança de comportamentos. 700).. 19) afirmam a necessidade de: . compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado. p. uma vez que eliminam a possibilidade de considerarem-se os aspectos externos ao indivíduo. reorganizar as relações que. sentimento de pertencer à equipe. estabelecidas entre as variáveis. imprudência. que são externos ao organismo (estão do lado de fora da pele de cada um). p. o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação. Tão utilizada e com tantas finalidades que se torna raro chegar a um nível de análise em que os debatedores perguntem a si mesmos: Afinal. podem ser: • interpessoais: relacionamento com colegas. consiste em estabelecer novas relações entre um organismo. o que realmente significa mudar comportamentos? É possível criar um treinamento ou um evento que mude os comportamentos das pessoas? Para Botomé (2001. é necessário identificar as variáveis das quais o comportamento é função (aspectos internos e externos ao indivíduo que mantém aquele comportamento) e criar condições para que as relações existentes entre elas possam ser reorganizadas. abalo emocional. Por outro lado. isto é. . mas que também influenciam no comportamento. Normalmente.

• • • • ambientais (ambiente físico): iluminação. originou-se a busca por mecanismos capazes de mudar os comportamentos das pessoas de modo que eles passassem de condutas pouco seguras para condutas muito seguras na realização das atividades. de gestão: sistemas de gestão. Palestras. essa análise aplica-se. normas e procedimentos. Se um indivíduo obtém. Muitas tentativas de modificar os comportamentos no trabalho podem ser inúteis se os aspectos do ambiente organizacional não forem considerados. A discussão sobre métodos eficazes de modificar comportamentos não esteve restrita somente ao mundo do trabalho. é possível dizer que esse indivíduo mudou seu comportamento. códigos disciplinares. cursos. treinamentos. no momento seguinte. como conseqüência do seu comportamento de trabalhar. nas normas que regem as atividades e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização com o propósito de prevenir a ocorrência de acidentes de trabalho. mas em função do resultado que produzem (aprendizagem) para seus participantes. o que caracteriza a complexidade e a diversidade das variáveis que podem influenciar nos comportamentos das pessoas no trabalho. . Da necessidade de administrar o comportamento humano para evitar os acidentes de trabalho (e da complexidade que isso representa). é preciso examinar de que forma e em que contexto essas estratégias têm sido utilizadas. uma vez que não podem ser consideradas eficazes em si. mas também aos movimentos sociais. equipamentos. jornais. alta probabilidade de ocorrer um evento indesejável (acidente) num momento e. valores e tradições culturais. metas. Essa mudança ocorre em razão da reorganização das variáveis das quais o comportamento é função. feiras. sócio-culturais: condições de vida da população que compõe o grupo de trabalhadores de uma organização. políticas motivacionais. também. obtém a redução da probabilidade do evento ocorrer. na organização do trabalho. Por outro lado. piso. peças de teatro são exemplos de estratégias utilizadas com a finalidade de influenciar na conduta do trabalhador com relação à segurança no trabalho. aos comportamentos relativos à segurança. hábitos regionais. da tarefa a ser desenvolvida: tempo e recursos compatíveis. o que pode ser decorrência de modificações nos equipamentos. A mudança de comportamento em segurança pode ser entendida como uma alteração naquilo que o trabalhador consegue produzir na interação com seu meio.

A maior parte dos instrutores e participantes de treinamentos de comportamentos seguros estudados por Bley (2004) afirma ser cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa. o que deve ser definido como aprendizagem necessária para que tal capacidade seja desenvolvida? Cumprir regras? Seguir normas e procedimentos? Tomar decisões seguras? Antecipar-se aos problemas? Todas as possibilidades juntas? Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia.políticos. nem contribuir para o acidente dos colegas. os trabalhadores tornaram-se capazes de realizar suas atividades de forma mais segura. passa a ser possível organizar o ensino de forma a fazer novas sínteses comportamentais. religiosos e à educação dos filhos: A palmada educa? O castigo é menos traumático? É útil passar pimenta nos dedos para deixar de roer unhas? Esses são questionamentos que pais e educadores fazem até hoje. acontece no campo da segurança: Após quantos atos inseguros flagrados eu devo advertir um funcionário? Se deixar de promover o acidentado a um cargo melhor. Da mesma forma. objetivo principal da capacitação para segurança. 1999). Instrutores. pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando (indispensável para poder se comportar considerando os riscos presentes) e até no . é possível dizer que houve aprendizagem (CATANIA. No entanto. Conhecer e respeitar as regras de segurança é importante. diminuem as chances de ele sofrer outro acidente? Como fazer para que todos cumpram as normas de segurança? Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos A idéia do acidente como expressão da qualidade da relação indivíduo-meio evidencia a análise do comportamento humano como uma alternativa para identificar e analisar aquilo que influencia na capacidade de um trabalhador prevenir a ocorrência de danos à sua saúde. Ao terse a obediência como objetivo de ensino. mas fazê-lo desprovido de análise pode ser tão arriscado quanto não cumprir as regras. Dessa forma. educadores dividem-se nas opiniões acerca do que deve ser aprendido pelos trabalhadores para que sejam capazes de não se acidentar. Se essa mudança for relativamente permanente. gestores. em alguns casos. o que caracteriza mudança de comportamento.

necessariamente. Entretanto. Quando o efeito passar. o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência e do controle. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa. Entretanto. p. censura. Isso acontece porque a punição influencia na diminuição da freqüência do comportamento. O adequado equilíbrio entre a ocorrência de comportamentos controlados por regras e de comportamentos modelados por contingências parece ser um arranjo mais indicado quando se trata de comportamentos preventivos (Skinner. 1980. no caso da prisão. penitências. o qual pode ser chamado de punição. defendido por sábios e cientistas. desaprovação. isso revela . o comportamento punido tende a recuperar a freqüência antiga. a fazer escolhas com relação a elas. passando por cursos e treinamentos. Isso significa que ensinar o trabalhador a tomar decisões por meio de escolhas conscientes e de qualidade é tão importante para a educação para a segurança quanto deixá-lo ciente das regras que precisam ser seguidas.prejuízo da sua atuação com relação à criação de meios mais seguros de trabalho devido ao faro de estar condicionado a um único conjunto de regras. ela pode não ser permanente. Assim posto. por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade. podendo até levá-la a níveis mínimos mas. de Lao Tsé a Paulo Freire. no caso das multas. considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam. Também não se trata de baderna e subversão. assaltos. desvalorização são exemplos comuns no dia a dia e existem com o objetivo de acabar com a ocorrência de determinado comportamento não aceitável – excesso de velocidade. prisão. nem as multas acabaram com as infrações de trânsito. foram (e são) tomadas providências de diferentes naturezas. Em nome da modificação do comportamento do trabalhador. 294). No caso de um técnico de segurança advertir duramente um trabalhador que não esteja utilizando protetor auricular. ao observar-se atentamente a realidade. a existência das prisões não fez reduzir a criminalidade. é possível perceber a forte presença de um mecanismo de controle bastante comum na nossa sociedade. ao observaremse as práticas mais difundidas nas organizações para esse fim. castigos. Multas. mas sim de um equilíbrio saudável e importante entre autoridade e liberdade (caminho do meio). ao longo do tempo. que vão da difusão de informações às medidas disciplinares. o trabalhador tende a colocar o equipamento na presença do técnico e a retirá-lo tão logo perceba que o mesmo não está mais presente.

no exemplo. pode gerar raiva. Entretanto. é necessário que as pessoas aprendam à trabalhar considerando algo que não existe. Ser capaz de comportar-se de forma a reduzir a probabilidade de que um acidente aconteça é o objetivo maior de uma proposta de segurança com ênfase no comportamento humano. frustração e revolta. do técnico. Se a situação for considerada crítica. se for situação atípica. a punição realmente não elimina o comportamento de um repertório. Para que isso seja possível. que requeira providências imediatas. É evidente que só se justifica tal procedimento quando outros recursos de segurança não tiverem se mostrado eficazes para impedir a ocorrência de um comportamento que represente ameaça iminente às condições de saúde de uma pessoa. Como é possível ensinar alguém a se proteger de algo que não existe (acidente não existe até que aconteça)? Uma das formas é criar um sistema de reforço de comportamentos com base no que a Análise do Comportamento chama de . pode reduzir a espontaneidade e a criatividade. Conforme Skinner (1967. 113): . é preciso fazer isso sempre considerando e resguardando a dimensão ética do que o fato representa. em longo prazo.outro aspecto importante sobre a punição: há uma tendência a fazer efeito somente na presença do agente punidor. falhas e paradas de equipamentos. como emergências. além das desvantagens da punição como agente de controle e modificação de comportamentos. submeter os trabalhadores a situações de tal natureza pode gerar efeitos indesejáveis como aumento da ansiedade e do medo. por exemplo. não é aconselhável a utilização desse procedimento no cotidiano do trabalho porque. na qual seja necessário evitar alguns comportamentos que representem alta probabilidade de acidente. a fim de que ele continue não existindo (o acidente). ou se for qualquer outra situação de elevado potencial de risco. Advertir uma pessoa ou proibir sua entrada em determinado local onde há perigo é claramente diferente de agredi-la (verbal ou fisicamente) por não ter utilizado uma máscara de proteção contra gases.. a fim de que seja possível a preservação da integridade das pessoas envolvidas. Da mesma forma. e seus efeitos temporários são conseguidos com tremendo custo na redução da eficiência e felicidade geral do grupo. o uso desse sistema de controle pode ser recomendável devido ao poder de suspender imediatamente algumas condutas.. Avaliar a utilização de punição sob o aspecto da baixa eficiência na mudança de comportamentos não significa que esse mecanismo não tenha função no processo de segurança. p.

consultores) avalie e discrimine os aspectos que compõem as contingências (sistema de relações que facilitam ou dificultam a manutenção de comportamentos) e que poderão contribuir para que isso aconteça. nesse sistema de mudança de comportamentos. Um outro processo estudado pela Análise do Comportamento que pode influenciar na ocorrência de comportamentos é o reforço positivo. por si só. É diferente do reforço negativo. Catania (1999. estabelecê-lo representa um elevado grau de dificuldade. a não ocorrência do acidente aumenta a chance do indivíduo comportar-se de forma segura novamente. elimina a possibilidade de agir antes que aconteça. pois requer que a instância promotora da mudança (gerências.reforço negativo do tipo esquiva. A conseqüência de um comportamento efetivamente seguro é que nada acontece. Uma outra forma de reforçar negativamente um comportamento é aquilo que pode ser chamado de fuga. pois afasta o organismo da probabilidade de sofrer conseqüências indesejáveis. naquele grupo. pois ele não sofreu as conseqüências desagradáveis do acidente (lesões. pois é caracterizado pela apresentação de um estímulo reforçador ao organismo enquanto que o negativo consiste na remoção de um estímulo reforçador. Sua utilização na criação de condições para a ocorrência de comportamentos desejáveis (no caso da segurança. Essa possibilidade justifica a . é improvável que se consiga conhecer e controlar as variáveis mais apropriadas para estimular comportamentos preventivos como campanhas. sofrimento). profissionais de segurança. Na esquiva. códigos de valores e conduta. Apesar de ser um procedimento que tende a ser duradouro. mas que não se aplica à análise da prevenção porque consiste em eliminar um estímulo aversivo que já está ocorrendo e que. Pode ser observado quando um comportamento tem como conseqüência um estímulo que o reforça e passa a ocorrer com mais freqüência. que é uma premissa do processo de prevenir. O processo de fuga (em Análise do Comportamento) só é possível quando se trata da análise das causas de acidentes e doenças que já ocorreram. o que reafirma a educação como eixo central do processo de prevenção. 121) afirma que isso pode explicar por que medidas de segurança e outros procedimentos preventivos não são modelados naturalmente com muita freqüência. a ausência do evento afeta o comportamento de forma a torná-lo mais permanente. sem uma profunda e minuciosa análise de todos os fatores que influenciam no comportamento daqueles indivíduos. programas motivacionais. dor. p. os comportamentos capazes de prevenir) é possível à medida que são conhecidas as conseqüências capazes de reforçar tais comportamentos. Ou seja.

partindo-se do pressuposto que esses tipos de conseqüências influenciam na ocorrência de comportamentos desejáveis para todas as pessoas. os prêmios. é possível construir (ou adaptar) um conjunto de ações mais coerentes.utilização de recompensas por líderes e organizações na tentativa de estimular os funcionários a conduzirem suas atividades com segurança. descobriu evidências de que a empresa utilizava recompensas com o objetivo de fazer com que todos se comportassem da forma como ela estabelecia ser a adequada. Conhecendo com profundidade os valores. vale a máxima de que cada caso é um caso. e criar condições pessoais e organizacionais para que ele torne-se o agente do seu processo de segurança. envolvendo estimulação de condutas desejáveis. Isso pode (e deve) ser estabelecido tanto no âmbito dos programas de formação. O problema é que. quanto no dia-a-dia de trabalho para que seja possível fazer com que a busca pela mudança de comportamento não fique restrita às paredes do centro de treinamento. quando se trata de comportamento humano. A Análise do Comportamento já descobriu (SKINNER. aquilo que estimula comportamentos seguros em uma pessoa pode não estimular a mesma conduta em outra. CATANIA. Tal aprofundamento na análise permite alcançar o objetivo de tornar o indivíduo mais bem preparado para lidar com os riscos das suas atividades. em muitos casos. após realizar um estudo sobre as representações dos trabalhadores de uma indústria química sobre acidentes e contaminações. O ajuste das estratégias às características de cada grupo é eficiente uma vez que. sem que isso lhe pareça aversivo. comemoração de conquistas como a de períodos sem acidentes (reconhecendo como foram construídas. difícil ou desagradável. isto é. pois não é obra do acaso). Bernardo (2001). as necessidades e as características do público a ser gerenciado. 1967. limitação (de forma saudável e cuidadosa) de condutas indesejáveis. e não um expectador. . construção coletiva de regras. elogios e diplomas de reconhecimento são considerados como recompensas a priori. 1999) que um determinado estímulo que é reforçador para o comportamento apresentado por um organismo pode não exercer o mesmo tipo de influência sobre o comportamento de outro.

Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade As estratégias de aprendizagem e a melhoria das condições de segurança de uma indústria precisam ser concebidas. realização do curso. Quando o propósito é garantir a aprendizagem do participante. Na sala de treinamento. É necessário que o processo de levantamento de necessidades. no que se referem ao comportamento humano. Certamente. o trabalhador aprende que não se deve intervir na máquina quando ela está . Não é o que acontece quando existem caminhoneiros participando de um curso de direção defensiva elaborado para taxistas. mas uma pequena parte. conforme aquilo que foi ensinado em sala. Trânsito é trânsito. reduzir o volume e investir na qualidade da estratégia e do instrutor podem produzir resultados mais significativos. o estilo de liderança e de relações de poder estabelecidos na organização. Expor o aprendiz às contingências que estarão presentes nas situações com as quais terá de lidar no exercício profissional eleva a probabilidade desse aprendiz atuar conforme os objetivos comportamentais que orientaram o planejamento do ensino (BOTOMÉ. É a antiga (e ainda sem solução) incoerência entre teoria e prática. mas isso nem sempre ocorre por má qualidade dos cursos ou dos instrutores. Normalmente. ocorra em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional. os exemplos seguidos. Essa análise permite questionar a utilização de carga horária de treinamento por ano como indicador de desenvolvimento de pessoas. as políticas e estratégias do negócio. na prática. trata-se da vida real. a natureza do processo produtivo. 1977). Do outro lado das estratégias educativas. com base nas situações concretas com as quais o trabalhador precisa ser capaz de lidar. É muito comum organizações contarem com um baixo nível de eficácia de suas ações educativas. estão a cultura da organização. Se o processo de capacitação for concebido com base no tipo de trabalho a ser desenvolvido e em seus respectivos riscos. o trabalhador terá mais condições de agir. é ter clareza da importância de educar no cotidiano. auditório). a baixa eficácia das ações de educação está relacionada com a incompatibilidade que elas têm com a cultura e o clima da organização. planejamento do ensino. mas estrada é diferente do centro da cidade. Tão importante quanto educar em espaço diferenciado (sala de treinamento. algo poderá ser aproveitado. aplicação do conhecimento desenvolvido. caminhão é diferente de carro. em treinamento. isto é. as características do vínculo empregatício.

diz que é importante. aprenda a prevenir acidentes de trabalho. será possível começar a desvendar algumas inquietações prevencionistas do tipo: Por que não cumpriu com os procedimentos de segurança? Foi treinado. por sua vez. Partindo do princípio que a mudança de comportamento é um dos indicadores da ocorrência de aprendizagem. esta. é possível identificar a influência de modelos da educação escolar e a ênfase na transmissão de conteúdos e informações. pouco efetiva no desenvolvimento de competências. mesmo após ter assistido a uma palestra sobre o assunto? A característica educativa de uma determinada ação está relacionada a uma intenção de ensinar e a um objetivo final de que o público de interesse (o aluno) aprenda algo. porém.ligada. é ele a vítima da lesão ou do acidente decorrente dessa ação. transformando-a. No lugar da ênfase nos conteúdos. Botomé e Kubo (2001) defendem que ensinar (o que o professor faz) e aprender (o que acontece com o aluno como resultado do fazer do professor) são complexos processos comportamentais intimamente inter-relacionados. Segundo os autores. nesse caso. É uma pena que quem acabe pagando o preço seja o próprio trabalhador. os programas de educação em SST. sem máscara de ar. no Brasil (se estivessem preocupados com o ensino de comportamentos preventivos). é possível afirmar que os recursos educativos utilizados para ensinar os trabalhadores a realizarem suas atividades com segurança só poderiam ser assim chamados quando verificada a ocorrência de mudanças no comportamento dos trabalhadores em relação aos riscos das suas atividades. Ao examinar o planejamento e a execução de eventos promovidos com o objetivo de capacitar os trabalhadores para atuarem de forma preventiva. . num equipamento impregnado de gás tóxico. A partir do momento em que os aspectos externos ao indivíduo forem considerados como parte integrante daquilo que chamamos comportamento. criticar e intervir sobre a sua realidade de trabalho. deveriam orientar-se para a construção de uma consciência crítica que proporcionasse ao trabalhador uma maior capacidade de compreender. 1999). mas não usa por quê? Por que razão um sujeito ultrapassa uma barreira de isolamento e entra. ensinar consiste na relação entre o que o professor faz e a efetiva aprendizagem do aluno. em decorrência do fazer do professor. só desta vez. seu supervisor pressiona para ele fazer um reparo com a máquina funcionando mesmo. ao retomar às atividades. é caracterizada pelo que o aluno é capaz de fazer em seu meio. A aprendizagem é caracterizada pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. recebeu óculos de proteção. pois não há tempo e a produção tem que ser entregue a qualquer preço.

Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional Quando se trata de educação para a prevenção no ambiente de trabalho (industrial. na informalidade. entre outros). conhecimento e troca de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. diante de uma sala cheia. Somente nas últimas décadas é que o entendimento acerca da figura do educador no contexto do trabalho tem sido ampliado (ainda que discretamente) para elementos como palestrantes motivacionais. parecem ter sido concebidos para dar ordens ou alertar. pessoas queimadas. Mensagens como: use o cinto. previna-se. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. os treinamentos. indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. como expor idéias. não é comum que se tenha clareza de quem são os educadores. no lugar de educar o seu público de interesse. nem sempre surtindo o efeito desejado. O que não está incorreto. O significado comumente associado à função de educador ainda segue a figura tradicional da professora de crianças pequenas.Quanto aos tipos de objetivos de ensino. não só no contexto da segurança do trabalho. Não há dúvida de que consciência. . autores de livros. os cartazes e as campanhas são amplamente apresentados como ações educativas aos trabalhadores. mas também no trânsito. orientadores de carreira. os diálogos de segurança. escrevendo num quadro branco afixado na parede. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão da AIDS. O equívoco reside em considerá-las como sendo eficazes por si só. facilitadores de processos de disseminação de informação. A continuidade das ocorrências da mesma natureza daquelas apresentadas nos cartazes. cumpra os procedimentos. as abordagens de conscientização. Em muitos casos. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito à própria segurança. comercial. uma vez que são eles que exercem atividades de ensino que mais se assemelham àquelas tradicionalmente conhecidas. especialistas. Dar ordens e educar são coisas diferentes. agrícola. as palestras. de serviços. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto. como sendo sinônimos de objetivos de ensino ou de coisas que os aprendizes precisam ser capazes de fazer após o processo ensino-aprendizagem. em pé. até nas mesmas organizações em que foram afixados. informação. A resposta mais imediata aponta para os instrutores de treinamento.

é possível ampliar ainda mais o conceito. a crença na experiência como sendo "vacina para não ocorrer". as mesmas características de capacitar tecnicamente para operar uma Iixadeira. utilizando-se de exposição de slides e atividades em grupo com objetivo de desenvolver competências específicas.Entretanto. e atendendo os prazos acordados. orientando para a realização correta do serviço. necessariamente. São educadores aqueles que definem os "rumos do negócio". São considerados educadores aqueles que adentram as salas de treinamento e os auditórios. apontando problemas e auxiliando na construção de soluções que preservem as vidas envolvidas. autonomia de planejamento. Esses fatores requerem que o planejamento e a execução do processo ensino-aprendizagem ocorram considerando-se o cuidado com variáveis específicas como: • • • formação didática do instrutor. De início. O primeiro ganha contornos bastante complexos quando se consideram os hábitos já sedimentados. Ao analisar as características comuns à categoria de instrutores de treinamentos e palestras de prevenção. Também são educadores aqueles que definem as políticas de avaliação de desempenho das equipes. ao tomar-se o educador por aquele que cria condições para que alguém aprenda e considerando a complexidade do contexto do trabalho. a tradição da especialidade: "quem é da manutenção não se acidenta". clareza acerca dos objetivos de ensino (competências e habilidades a desenvolver). oferecendo condições apropriadas para sua realização. é educador no contexto do trabalho todo aquele que se dedicar a favorecer o desenvolvimento pessoal e profissional daqueles que estão a ele interligados. . os equipamentos. basta afirmar que um processo que visa capacitar uma pessoa a prevenir acidentes não tem. no melhor tempo possível. assim como o são aqueles que acompanham um trabalhador na realização de suas atividades. desdobrando políticas e diretrizes que deverão permear toda a organização. Em última análise. atingindo até a "senhora do cafezinho". afirmando que há muitas formas de atuar como educador numa organização. É preciso ter clareza acerca da complexidade do que é considerado como educar trabalhadores para prevenção em saúde e segurança para que seja possível examinar as lacunas do processo e propor meios para seu aprimoramento e sua efetividade. é possível identificar variáveis relevantes para a precisão do processo educativo. influenciando e sendo por eles influenciado.

uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos. principalmente nos cursos técnicos em segurança do trabalho. como o de Bley (2004). a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com aquilo que se entende por comportamentos seguros no trabalho. e. . o que pode não ser suficiente para conduzir um processo ensino-aprendizagem bem-sucedido. prejudicar o atendimento das demandas organizacionais que provocaram a realização dos treinamentos e das reuniões de segurança. com grande ênfase. Alguns dos equívocos verificados no estudo quanto ao processo de ensinoaprendizagem em prevenção são: indicação de meios para promoção da aprendizagem como sendo os fins.• • • • conhecimento acerca do repertório existente entre os participantes (nível de capacidade de atuar anterior ao evento). em segurança do trabalho ou outras especialidades industriais. descobriram que. 1999). algum talento para a atividade docente e a reprodução criativa de modelos de ensino-aprendizagem que experimentaram quando alunos (LIMA. por conseguinte. As informações apresentadas indicam a necessidade de reformular o processo de capacitação técnica. entre as variáveis que têm caracterizado os eventos promovidos pelas organizações com o objetivo de capacitar o trabalhador para atuar com segurança no trabalho. recursos materiais e didáticos compatíveis. A reduzida formação didático-pedagógica pode resultar na atuação de instrutores que têm sua prática baseada num misto de experiência profissional. Em sua maioria. em decorrência de participar dos eventos de segurança. pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e. consonância com a cultura da organização e os interesses de ambos os atores (funcionários e direção). A utilização de objetivos de ensino divergentes no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes. há uma predominância de instrutores (profissionais que coordenam as atividades educativas) com reduzida formação didático-pedagógica para exercerem a função de educadores. são profissionais com formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou superior em áreas técnicas. Estudos. tempo e método de ensino apropriados aos objetivos. uso de expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem).

O resultado da falta de capacitação pode ser a realização de eventos educacionais (treinamentos.considerando a possibilidade de os alunos virem a tornar-se instrutores. supervisores. a reunião de análise crítica. Isso pode ter como conseqüência a não percepção da correlação existente entre o que representa ser instrutor de eventos de segurança e ser um agente de ensino. Para os profissionais de outras formações e funções. as atitudes de cada um. do que o ambiente de sala de aula. podem ser formulados cursos específicos de capacitação para a docência. incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho. A preocupação com a prevenção precisa permear o processo de tomada de decisão. Escrituras orientais antigas (como as do Budismo Tibetano) afirmam que "o verdadeiro mestre é aquele que ensina com as costas". de como é conduzido dentro e fora de sala. aquele que ensina vivendo de acordo com aquilo que acredita e prega aos outros. mas não são menos poderosos. já que são menos formais. é claro. É necessário que considerem seus processos interativos como oportunidades de ensino-aprendizagem. enfraquecendo a estratégia educativa. o que se questiona é o baixo nível de controle das variáveis que compõem os processos de ensinar e aprender. o qual pode ocasionar decorrências negativas para a qualidade e a efetividade dos eventos. O instrutor que não foi devidamente capacitado para desempenhar o papel de professor pode não ser capaz de estabelecer correlação entre o que a ciência entende por ensinar e aquilo que ele faz (ministrar evento de segurança). O mesmo ocorre com as demais categorias de educadores (diretores. campanhas) construídos sobre estratégias e técnicas decididas de modo intuitivo e que perseguem objetivos de ensino distorcidos. Não significa. É preciso investir na formação didática dos instrutores (empregados e terceirizados) e no esclarecimento das tarefas relativas ao ensino de prevenção. . que alguns desses objetivos não possam ser atingidos. cursos. as orientações estratégicas. palestras. colegas de equipe) presentes no contexto do trabalho. porém. sob pena de correr o risco de proporcionar aos participantes condições de aprendizagem insuficientes em relação ao que é preciso aprender para prevenir acidentes. que atuam como instrutores. O desenvolvimento de competências em segurança e saúde para o fortalecimento de uma cultura preventiva é um processo lento e de longo prazo que depende. como um elemento transversal no comportamento organizacional. chegando até mesmo às conversas informais. isto é. essencialmente. gerentes.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico
Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia (Michel de Montaigne). Num processo de análise e investigação de acidente de trabalho, qual é a providência geralmente indicada quando é caracterizada a influência humana como uma das causas do ocorrido? Uma vez decretada a causa do acidente, os envolvidos no evento, normalmente, têm um destino único: a sala de treinamento. Como verdadeiros instrumentos de correção, os eventos educativos têm sido utilizados na tentativa de tornar os seus participantes mais capacitados para realizar suas atividades, considerando a segurança no trabalho. Entretanto, a grande quantidade de horas despendidas em treinamentos e reuniões de segurança nem sempre demonstra correlação direta com a redução das ocorrências de acidentes verificadas nas empresas. É possível afirmar que funcionário que tenha passado pelo treinamento em segurança é um funcionário capacitado para prevenir acidentes? As formas pelas quais os eventos de segurança têm sido planejados e realizados permitem produzir os resultados objetivados? Os instrutores que ministram e coordenam os eventos de segurança estão preparados para gerenciar os processos de ensino e de aprendizagem de competências para a prevenção? Para construir respostas, ainda que incompletas, a essas perguntas é necessário identificar as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho para que esse conhecimento possa servir de subsídio para a elaboração de programas de formação e intervenção de natureza preventiva que sejam verdadeiramente educativos, éticos e coerentes com as necessidades de segurança dos trabalhadores. Diante dos questionamentos, parece oportuno um estudo orientado para identificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. Um exame dessa natureza permite detalhar os aspectos que compõem o processo ensino-aprendizagem aplicado à segurança no trabalho visto que, de acordo com o conhecimento sistematizado sobre esses fenômenos, só se pode afirmar que um

professor ensinou quando, em decorrência do fazer do professor, ocorreu a aprendizagem do aluno (BOTOMÉ; KUBO, 2001). O detalhamento das variáveis presentes no planejamento do ensino, na escolha dos temas, nos critérios de avaliação de aprendizagem, na formulação dos objetivos de ensino, nos conceitos utilizados e em outras etapas da promoção de eventos de segurança poderá oferecer decorrências para a qualidade do que tem sido oferecido como capacitação aos funcionários e também para sua efetividade como recurso auxiliar na gestão da segurança da organização. O conhecimento produzido por meio da análise de processos de ensino de comportamentos seguros permite subsidiar o aperfeiçoamento dos programas de educação, de conscientização e de mudança de atitudes frente aos riscos das atividades de trabalho e também dos profissionais envolvidos na sua realização.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança
Para a formação de um profissional, os objetivos de ensino podem ser interpretados como competências que precisam ser desenvolvidas por meio da participação do aprendiz num processo ensino-aprendizagem. As competências profissionais são definidas por Botomé e Kubo (2002) como graus da capacidade de atuar de um organismo. Sendo assim, é possível afirmar que as competências relacionadas com segurança do trabalho referem-se aos graus da capacidade de um trabalhador de controlar os riscos das suas atividades de modo a reduzir a probabilidade de sofrer acidentes. Serve, portanto, de base para a aprendizagem de práticas mais seguras de trabalho. O processo que pretende ensinar os funcionários a se comportar de forma segura parte da definição do que se entende por comportamento seguro. Em seguida, é necessário transformar as propriedades essenciais do comportamento seguro em objetivos de ensino. Isso norteará a escolha das condições de ensino mais adequadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias à construção desta competência: capacidade de comportar-se no trabalho de forma a reduzir a probabilidade de ocorrer conseqüências indesejáveis para si e para aqueles com os quais interage, ou seja, comportar-se de forma segura. Assim como as competências, as habilidades são graus de uma determinada capacidade de atuar (figura 4).

Figura 4 Noção de competência como grau da capacidade de atuar de um organismo

FONTE: Bartomé e Kubo (2002, p.89)

Os objetivos de ensino genéricos, mal definidos, geram dificuldades para a identificação das competências que devem ser aprendidas por um trabalhador e, por conseqüência, problemas para o controle das variáveis que interferem nos processos de ensinar e aprender. Os problemas podem ocorrer tanto na clareza sobre aquilo que deve ser ensinado e aprendido, quanto nas decisões sobre os métodos de ensino adequados. Instrutores que não têm clareza sobre o fenômeno que devem ensinar e alunos que desconhecem as propriedades definidoras daquilo que precisam aprender correm o risco de produzirem, juntos, uma seqüência de equívocos que pode ser perigosa quando se trata da saúde e da segurança do trabalho que realizam. Sendo assim, descobrir o que instrutores e funcionários entendem por comportamentos seguros no trabalho parece ser o ponto de partida para a proposição de enunciados que contenham as propriedades definidoras do fenômeno ao qual se referem e a formulação de estratégias de informação e ensino condizentes com a natureza do que o conceito significa.

recursos. de apresentarem semelhante nível de risco e de possuírem programas e ações de gerenciamento de segurança além dos estabelecidos pela legislação. necessita mais do que informações a serem transmitidas em um determinado espaço de tempo. período da coleta de dados. mas também do fato de ele ter aprendido ou não a operar a máquina de forma segura (sem causar dano à sua saúde. Sendo assim. Segundo Botomé e Kubo (2002). para ser "produzida". que repercutirá sobre a probabilidade da ocorrência de ações correspondentes dos alunos àquilo que foi ensinado. os conteúdos são insumos de um processo de ensino que tem como produto a aprendizagem. divididos em Treinamento de Comportamentos Seguros (tipo A). Foram escolhidos em função de apresentarem como um dos temas ou objetivos de ensino o comportamento seguro e de terem sido realizados entre os meses de junho e outubro de 2003.A capacidade de atuar de maneira segura.m instrutores e participantes. situadas em diferentes municípios da região metropolitana de uma grande cidade do Estado do Paraná. . nem à dos colegas). compostos por uma unidade de ensino (encontro). atuação dos instrutores e participação dos funcionários) e entrevistas co. Um Estudo sobre como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura Caracterizar as variáveis do processo de ensinar comportamentos seguros é o problema de pesquisa que orientou o estudo exploratório realizado por Bley (2004) em duas empresas do setor metalúrgico. a competência é um grau da capacidade de atuar do operador que pode ser desenvolvida por meio de um processo de ensino-aprendizagem efetivo. observação direta dos eventos (condições. Treinamento de Integração de Novos Funcionários (tipo B) e Reunião Semanal de Segurança (tipo C). Foram estudados três tipos de eventos de segurança. como é o caso dos cursos e treinamentos organizados com finalidade de conscientizar o trabalhador. Os procedimentos de coleta de dados utilizados foram caracterizados por meio da análise de documentos relacionados com políticas e processos de gerenciamento de segurança das duas empresas. a competência de um operador de empilhadeira em carregar uma carga sem atropelar ninguém ou deixar cair a carga depende não só das informações que ele recebeu no curso técnico ou no de segurança. Ou seja. As empresas foram escolhidas em função de atuarem no mesmo setor produtivo.

60% apresentou formação específica para atuar como instrutores (curso de Técnico de Segurança). foram utilizados dois roteiros de entrevista semi-estruturados. As entrevistas ocorreram em diferentes momentos. Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção Quais os aspectos que merecem ser examinados para que seja possível identificar as condições de aprendizagem oferecidas aos funcionários sobre saúde e segurança no trabalho? . foram utilizadas fichas de registro. escolhidos em função deterem participado de um dos eventos. Os dados coletados foram tratados e categorizados em função dos aspectos necessários à caracterização das variáveis relacionadas com ensino de comportamentos seguros no trabalho. Na caracterização. Da amostra de participantes. nas observações diretas. No que diz respeito à formação. 65% tinha a manutenção como função principal na empresa. em suas rotinas. realizarem tarefas ou desempenharem funções relacionadas com manutenção de equipamentos e manifestarem disponibilidade para ser sujeito da pesquisa durante o período de tempo estipulado para a coleta dos dados. As categorias foram organizadas em função da distribuição das proporções nas quais ocorreram em cada uma das variáveis examinadas. estavam cinco instrutores. observação direta e entrevista). O outro conjunto de entrevistados foi composto por 20 funcionários das duas empresas.Dentre os sujeitos das entrevistas. foram desenvolvidos protocolos de registro com base num quadro de variáveis consideradas como necessárias para responder ao problema de pesquisa. Os demais ocupavam funções operacionais apesar de realizar. De acordo com a natureza dos processos das duas empresas. sendo um para instrutores e um para participantes. algumas tarefas relacionadas com a manutenção industrial. o instrumento de coleta foi um roteiro de observação. num período que compreende desde as primeiras horas após o evento educativo até dois meses depois de ocorrido. Para cada um dos três procedimentos de coleta de dados (caracterização por meio da análise de documentos. sendo quatro funcionários permanentes das respectivas empresas e um prestador de serviço. nas entrevistas. as especialidades de maior ocorrência entre os entrevistados foram manutenção elétrica e mecânica.

comportamentos seguros. houve a necessidade de derivar os objetivos de ensino do material coletado devido ao fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes (ver tabela 2). para você. Os objetivos de ensino (competências a desenvolver) extraídos dos materiais apresentados caracterizam-se pela generalidade do que pretendem oferecer como aprendizagem aos participantes. mas que foram operacionalizados sem considerar. tornou-se fundamental conhecer aquilo que os instrutores e também os participantes entendiam como sendo sinônimo de comportamento seguro. O que precisa ser ensinado: os objetivos de ensino No exame dos eventos de segurança estudados. em algum grau. a segunda entre todas as concepções apresentadas pelos entrevistados e o conceito de comportamento seguro apresentado como referencial para a pesquisa. Ao comparar respostas coletadas nas entrevistas feitas com funcionários e instrutores dos treinamentos.O conhecimento produzido e sistematizado sobre o processo ensino-aprendizagem permite destacar aspectos relacionados com o planejamento e a realização das condições de ensino que tendem a favorecer a aprendizagem. O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de educadores e aprendizes para identificar em que medida houve aprendizagem. responderam com expressões como: "mudar o comportamento e as atitudes". adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos sobre prevenção de acidentes. Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. em boa parte. A natureza dos objetivos derivados remete à mudança de comportamentos relacionados com segurança. quando questionados sobre o que os participantes deveriam ser capazes de fazer após participarem dos eventos. Partindo do pressuposto de que o principal objetivo de ensino de um evento de segurança com foco em mudança de comportamento seja desenvolver. comportamento seguro?". Uma das evidências disso é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os . Os instrutores. Isso permite inferir que os mesmos realizaram os eventos de posse de propósitos que levaram em conta a segurança. o conhecimento já produzido sobre ensino por competências e didática. "obedecer aquilo que foi dito em sala" e "atuar com segurança na área". é possível observar (tabela 1) os resultados da análise de conteúdo das respostas à seguinte pergunta: "O que significa.

Além disso. e isso pode causar prejuízo ao processo de capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho. Tabela 1 Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por "comportamento seguro" Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Trabalho com cuidado e atenção Obedecer às normas de segurança Ter atitude consciente e agir com bom senso Trabalhar com foco na segurança Usar equipamento de Proteção Individual (EPI) e Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) Não cometer “atos inseguros” Saber trabalhar sob pressão e receber críticas Cuidar dos colegas Ter conhecimento técnico do trabalho realizado Analisar os riscos das tarefas Participar das reuniões e treinamentos de segurança Preocupar-se com a própria segurança e aprender com os exemplos Nunca achar que sabe tudo Total de ocorrências FONTE: Dados coletados na pesquisa. ao conceito de comportamento seguro como sendo "trabalhar com cuidado e atenção" caracteriza o grau de generalidade com o qual esses trabalhadores lidam com a dimensão preventiva do comportamento de trabalhar. o que permite afirmar que há pouca clareza sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro. em nenhuma proporção. referirem-se. que participaram dos eventos de segurança. Funcionários (n = 20) n % 10 8 7 6 4 4 3 3 3 2 2 1 1 54 18 15 14 12 7 7 5 5 5 4 4 2 2 100 Instrutores n 0 4 2 2 1 0 0 0 0 0 0 1 0 10 (n = 5) % 40 20 20 10 10 100 O fato dos funcionários. os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de comportamentos seguros é divergente entre si e também está distante do conceito.funcionários (trabalhar com cuidado e atenção) não foi sequer indicado pelos instrutores. em sua maioria. quanto por funcionários. Expressões como cuidado e atenção oferecem pouca informação a respeito das propriedades essenciais do processo de prevenir acidentes considerando o comportamento daquele que executa . para definir o conceito.

os tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos e a verificação formal da aprendizagem derivam da observação direta dos eventos de segurança e servem para ilustrar a apresentação dos tipos de eventos estudados. é preciso rever o alto grau de generalidade apresentado pelos termos utilizados para se referir ao comportamento de prevenir acidentes. apresentar e expor são aspectos evidentes entre os procedimentos de ensino utilizados pelos instrutores. o que evidencia a ênfase dada à atuação do professor no processo de ensino dos eventos estudados. é possível perguntar: Se os aprendizes não são capazes de identificar. Nos casos estudados. é pouco provável que os funcionários que participaram dos referidos treinamentos passem a se comportar de forma segura devido ao fato de terem participado dos eventos. aluno .as tarefas consideradas de risco. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento. Os dados relativos aos tipos de objetivos de ensino. Diante dos termos utilizados pela maioria dos funcionários para conceituar comportamentos seguros no trabalho. considerando-se a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem. Por outro lado. a ênfase na atuação do professor em detrimento da atuação no aluno no contexto do processo ensino-aprendizagem pode significar a repetição do padrão do professor ensina. Ainda sobre os dados da tabela 2. os aspectos que caracterizam o trabalho seguro. as unidades. se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. Quanto maior a amplitude da representação de um conceito. Portanto. distribuídos conforme os instrutores que ministraram os eventos e as empresas nas quais ocorreram. para que seja possível definir aquilo que precisa ser ensinado para que o aprendiz seja capaz de prevenir. Como ensinar: a escolha dos métodos de ensino Na tabela 2. serão eles capazes de comportar-se de acordo com os fatores necessários à prevenção dos acidentes de trabalho? Da mesma forma. na sua conduta. menor a quantidade de informações que apresenta sobre o que caracteriza o fenômeno ao qual se refere. estão apresentados os aspectos considerados importantes sobre o planejamento educacional dos eventos de segurança. os procedimentos de ensino utilizados. A preocupação com aquilo que o professor faz no processo ensino-aprendizagem não assume conotação negativa à medida que o processo de ensinar caracteriza-se por aquilo que o aprendiz passa a ser capaz de fazer em decorrência do fazer do professor.

vídeos de segurança. Integrar novos empregados. A utilização de demonstrações de equipamentos e os breves debates parecem ser utilizados numa tentativa (que pode ser equivocada) de conferir ao evento um pouco daquilo que muitos chamam de parte prática. Não há. Assistir à explicação do instrutor. relegando ao aprendiz um papel caracterizado pela passividade (BOTOMÉ. filme institucional. experimentar EPI. FONTE: Dados coletados na pesquisa Não há. apresentando informações sobre segurança. Tabela 2 Apresentação dos aspectos do planejamento educacional observados diretamente relativos aos eventos de segurança ministrados por 5 instrutores nas empresas 1 e 2 Aspectos Empresa 1 Empresa 2 observados Instrutor 1 Instrutor 2 Instrutor 3 Instrutor 4 Instrutor 5 Tipos de objetivos de ensino que forma extraídos do material apresentado Procedimentos de ensino utilizados Corrigir atitudes e comportamentos. Apresentar slides e comentários sobre eles. o que reduz a complexidade do processo de ensinar e aprender. Verificação da Não há. assistir aos vídeos de segurança. A participação ativa do aprendiz pode ser um importante fator de efetividade do processo. Expor o assunto. responder às perguntas do instrutor.aprende. apontamentos em flip chart. responder às perguntas do instrutor. ser informado sobre usos adequados de alguns EPIs. responder às perguntas do instrutor. Não há. demonstrar EPI. usar exemplos práticos. discutir o assunto. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. Expor um caso real de acidente. apresentando informações sobre segurança. coordenar discussão em grupo. fazer perguntas aos participantes. forma da aprendizagem. 2001). KUBO. demonstrar uso de extintor de incêndio. repassar materiais para que os participantes os manuseiem. Assistir à explicação do instrutor. Não há. Assistir a explicação. elevando as chances de aplicação daquilo que foi aprendido no evento no dia a dia de trabalho. Assistir à explicação. ser informado sobre usos adequados e inadequados de alguns EPIs. Tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos Assistir a explicação. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. enfocar ato e condição insegura Apresentar slides e comentários sobre eles. Apresentar temas. Equivocada à medida que levantar da poltrona e fazer algo que utilize partes do corpo pode não expor o aprendiz às . Integrar novos empregados e prestadores de serviço.

o que reduz as possibilidades de verificar a eficácia da aprendizagem em bases objetivas. As duas categorias principais receberam as denominações comportamentos seguros e comportamentos de risco em função dos tipos de conseqüências (positivas e negativas) . Outro dado que merece destaque é que. apesar das atividades propostas pelos diferentes instrutores serem semelhantes. Os exemplos coletados foram tratados por meio de análise de discurso e classificados em categorias de ocorrências. "é decidindo que se aprende a decidir". Como afirma Freire (1996. A comparação entre o produto final e o tempo destinado à realização dos eventos de segurança. o estudo permite apontar uma certa ênfase dada aos procedimentos de avaliação que ocorrem após a realização dos eventos. fazendo com que o aprendiz finalize sua participação no evento sem que a aprendizagem daquilo que é realmente importante tenha ocorrido. De acordo com a quantidade de comportamentos que deveria ser aprendida para que as competências indicadas fossem desenvolvidas. considerando-se a semelhança existente entre eles em decorrência da natureza que os caracterizava. seria preciso promover urna quantidade maior de unidades de ensino (módulos) para dar conta de proporcionar tamanho feito. o que pode indicar um baixo nível de adaptação dos planos de ensino às características do público ao qual se destina.contingências necessárias à experimentação e ao treino de condutas adequadas às necessidades de ensino que motivaram a realização do evento. 106). Essa avaliação costuma ser feita de modo informal e utilizando critérios subjetivos. pode indicar incompatibilidade com a promoção das aprendizagens necessárias à obtenção das competências que motivaram sua realização. Os instrutores sem formação técnica apresentaram maior convergência entre os objetivos de ensino propostos (competências) e a observação dos comportamentos dos participantes durante e após o evento. Ensinamos segurança por meio da insegurança Um exame dos exemplos oferecidos pelos instrutores durante os eventos de segurança estudados chama a atenção para o fato de que os meios utilizados para proporcionar a aprendizagem da segurança tendem a apresentar características contrárias ao seu objetivo central. Isso pode indicar a importância da aproximação entre os processos de identificação de necessidades de aprendizagem e de escolha dos meios pelos quais a demanda será atendida. p. Sobre a avaliação da aprendizagem dos participantes. os objetivos de ensino e a natureza dos eventos são diferentes.

Ênfase nas perdas que o trabalhador poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. Ocorrência Comportamento de Risco Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas.20 Total de ocorrência Proporção Total 34 0. amigos. Ênfase nas perdas que o trabalha-dor poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. Ocorrência 1 4 2 1 1 1 7 6 3 2 1 2 1 1 1 1 A Correlação dos comportamentos seguros com exemplos positivos externo ao trabalho 3 1 1 1 1 B Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Referência a condutas insegura Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos. Suposições sobre a influência de causas humanas no risco de acidentes. As categorias secundárias (subdivisões das categorias principais) foram constituídas em função do exame da natureza de cada um dos exemplos coletados (tabela 3). em detrimento de exemplos de comportamento seguro. família). Referência a condutas inseguras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Ênfase no cumprimento de normas e regras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Ênfase no cumprimento de normas e regras. os exemplos relativos àquilo que não deve ser feito permitem caracterizar as bases sobre as quais a capacitação dos trabalhadores . família). Referências ao tratamento de problemas já instalados. emprego. emprego. Referência a condutas inseguras. quantidade de ocorrências e proporção dos exemplos oferecidos por instrutores durante os eventos de segurança observados diretamente. Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Isso indica uma tendência à utilização de exemplos de comportamento considerado inseguro com maior freqüência. Indicação de comportamentos desejáveis Evidências do compromisso da liderança com a segurança Indicação de comportamentos desejáveis C Total de ocorrência Proporção Total 8 0. Tabela 3 Natureza. do formato do treinamento e dos participantes. amigos.evidenciadas pelos instrutores para as condutas exemplificadas. Independente do instrutor.8 A = Treinamento de Comportamentos Seguros B =Treinamento de Integração de Novos Funcionários C = Reunião Semanal de Segurança FONTE: Dados coletados na pesquisa É possível constatar que 80% dos exemplos referem-se àquilo que pode ser considerado "comportamento de risco". os quais indicam a necessidade de apresentar comportamentos seguros no trabalho Categorias de exemplos que se referem a: Evento Comportamento Seguro Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes.

permanecem inalteradas. isto é. O predomínio do contra-exemplo (casos de acidentes e de condutas de risco). passado o efeito (o susto. os instrutores têm utilizado a insegurança para (tentar) ensinar a segurança. ao conhecer ou relembrar as possíveis conseqüências de um comportamento de risco. o contra-exemplo). a comoção) da tragédia apresentada ao aprendiz (a foto de acidente. para que isso seja possível. Parece oportuno . ele retome ao seu padrão de comportamento anterior à exposição. é necessário que modelos de aprendizagem que utilizem. A escolha do método de ensino implica em conseqüências significativas para aquilo que precisa ser produzido como resultado do processo de ensinar. Isso inclui apresentar exemplos de condutas seguras em maior quantidade e proporção. Como é possível só falar de comportamentos errados num evento especialmente desenvolvido para ensinar às pessoas a maneira correta de se comportar? A observação dos exemplos apresentados nos eventos de segurança permite questionar se a utilização dessa forma de representar a importância da prevenção estaria relacionada a um tipo de expectativa por parte do instrutor de que. afirmou que é alta a probabilidade de. Criar condições para que os participantes aprendam a comportar-se de forma segura deveria ser o foco de um evento de segurança que tem esse tipo de comportamento como objetivo e. a redução da criatividade e dos níveis de felicidade do aprendiz (sente-se ameaçado) e a dificuldade do aprendiz em generalizar o que foi aprendido para outras situações devido ao caráter mecânico do cumprimento de regras. o que implica nas decorrências já descritas por Skinner (1967) e Sidman (2001) sobre os aprendizes. que são: a baixa durabilidade da conduta aprendida (volta logo ao que fazia antes). caso o propósito seja educar para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. o aprendiz escolheria se comportar de forma segura para evitar ser acometido pelos mesmos resultados. a apresentação da conduta desejada somente mediante a presença do "agente punidor" (só cuida quando o líder está por perto). com maior freqüência. que favorecem o seu comportamento de risco. Skinner (1967). ao examinar a esquiva (mudar o comportamento para evitar conseqüências ruins) como forma de promover mudança de comportamento. o reforço positivo sejam utilizados pelos instrutores.tem sido promovida. pois as contingências presentes no seu meio de trabalho. da sinalização de conseqüências negativas e da ênfase no cumprimento de regras como meios para produzir aprendizagens de comportamentos preventivos representa a utilização de modelos de aprendizagem marcados pela punição e pelo reforço negativo (fuga e esquiva).

São formas de escolher que tendem a desconsiderar as características essenciais dos participantes. As expressões e os exemplos apresentados por instrutores durante a realização dos eventos e as concepções relatadas por instrutores e funcionários em resposta ao questionamento sobre o significado do conceito comportamento seguro no trabalho evidenciam lacunas importantes para a construção de uma cultura de segurança no trabalho. utilizando métodos prontos ou copiados de outros eventos ou escolhendo em função das preferências pessoais. a escolha dos recursos (didáticos. para planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros. tendem a planejar o ensino escolhendo a partir de preferências pessoais. É preciso considerar as características dos aprendizes e dos objetivos de ensino como ponto de partida para planejar o método e realizar o ensino (BOTOMÉ. principalmente. KUBO. Dessas lacunas. de modo geral. nesse caso instrutores dos eventos de segurança estudados. decorrem problemas para os programas de conscientização e educação. físicos e ambientais). a escolha de temas abordados e métodos de ensino. Conclusões do Estudo O estudo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho passou pelo exame dos meios e critérios utilizados pelos agentes do ensino. comprometendo a obtenção dos resultados esperados. os tipos de objetivos de ensino e as características da formação dos instrutores para desempenhar a função de professor. dos objetivos de ensino e da demanda a partir da qual o evento foi planejado e realizado. apesar de complexo. Podem ser consideradas como variáveis definidoras dos processos de planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros as informações que serviram como ponto de partida para o planejamento. para a gestão dos comportamentos em uma organização e. para os possíveis resultados sociais sob a forma de prejuízos à integridade dos trabalhadores e implicações econômicas para pessoas.perguntar: Quais critérios têm servido como orientações para tomar decisões sobre o método que deverá ser realizado? O método escolhido é capaz de proporcionar condições adequadas à aprendizagem das competências definidas nos objetivos de ensino? A natureza dos critérios indicados revela que os instrutores. 2001). empresas. os procedimentos de avaliação da aprendizagem dos alunos. Naturalmente. não esgota . esse conjunto. governo e sociedade.

todas as variáveis relevantes. Da mesma forma. Almeida (2001) concluiu. é pertinente a utilização das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros como insumo para avaliar a qualidade e a efetividade de seus programas e de suas políticas. Elas podem variar em função do tipo de atividade. Para os instrutores estudados. Uma das análises mais significativas para esse estudo é orientada pelo dado revelador de que aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de comportamentos seguros no trabalho apresenta divergências. cumprir regras é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa se comportar de forma segura. do modelo de ensino que se pretende utilizar. podem resultar em comprometimento da modificação das práticas de segurança dos trabalhadores ao realizar suas tarefas. ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança. quando são incoerentes com as competências adequadamente definidas. de acidentes e de contra-exemplos (o que não deve ser feito) como forma de aprender confirma a inadequação de alguns dos procedimentos apresentados para o contexto do ensino de comportamentos seguros. o planejamento e a realização do ensino. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros. tais divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. dos riscos presentes. que os materiais educativos utilizados podem estimular o medo dos trabalhadores em sofrer lesões e levar à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima. O uso excessivo de regras. Tais afirmações permitem perguntar: Por que se utiliza a insegurança para ensinar segurança? Quais os efeitos de se utilizar a doença como meio para ensinar a saúde? Ter o conceito de comportamento seguro como objetivo de ensino é um fator central na concepção de programas educativos focados no desenvolvimento de competências para a segurança no trabalho. Também para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco. O estudo permite inferir a existência de lacunas entre aquilo que um professor precisa ser capaz de fazer para promover o ensino (competências para ensinar) e as características da formação profissional daqueles que exercem a função de instrutores . sua efetividade. Questionar a respeito do quê e de que forma tem sido ensinado aos trabalhadores sobre comportamentos seguros no trabalho parece ser um importante ponto de partida para as empresas na busca pela capacitação de seus funcionários em segurança do trabalho. em algum nível. No entanto. esse e outros estudos têm evidenciado algumas distorções no encaminhamento dos processos de treinamento que podem acabar por comprometer.

é possível examinar um exemplo de Análise Comportamental daquilo que é entendido como sendo comportamento seguro. ao discorrer sobre a importância estratégica da manutenção para a competitividade das empresas. é reforçada a necessidade de investimento na formação didática dos educadores para o trabalho seguro. Mais uma vez. principalmente no que diz respeito à gestão das falhas. É importante ressaltar que falhas e acidentes. No entanto. no contexto da manutenção industrial. Nela. Em última análise. do ponto de vista da segurança industrial. também por meio da capacitação para a segurança. geralmente. é apresentada na tabela 4. Uma maneira de evidenciar a possibilidade de aperfeiçoamento dos serviços realizados por profissionais de manutenção. ao comparar os dois grupos. Tal contribuição corrobora para aferição do grau de importância que o desenvolvimento de competências preventivas pode representar para o gerenciamento das perdas. Arouca (2003). É possível afirmar que as propriedades essenciais que caracterizam um comportamento considerado preventivo ou seguro. constituído com objetivo de identificar as competências intermediárias que poderão servir de ponto de partida para o planejamento do ensino desse tipo de competência para a realização de uma atividade de manutenção de equipamentos. Tanto os instrutores com formação técnica em segurança do trabalho. afirma que a capacitação é um elemento fundamental na determinação dos níveis de qualidade dos trabalhos realizados por profissionais da função de manutenção. são originários das mesmas disfunções organizacionais. O enunciado dos comportamentos intermediários apresentados (de primeiro nível) permite levantar hipóteses a respeito dos efeitos significativos que tais competências poderiam gerar no gerenciamento de aspectos considerados como sendo técnicos da lida com as falhas e as perdas em manutenção.dos eventos de segurança. um profissional competente para desenvolver suas atividades sem sofrer ou provocar acidentes de trabalho tende a . os profissionais formados em segurança apresentaram desempenhos mais próximos do que pode ser chamado de ensinar do que os profissionais sem a formação técnica em segurança. tanto humanas quanto de processo e de equipamentos. quanto os funcionários de operação e manutenção que ministraram eventos e não tinham formação em segurança apresentaram desempenhos considerados incompatíveis com aquilo que já é conhecido em didática e programação de ensino. são fortemente semelhantes àquelas que definem um comportamento preventivo no que diz respeito ao funcionamento de um equipamento ou processo produtivo.

para si e para os colegas"). podem favorecer a transformação de um discurso sobre prevenção em uma realidade. Tabela 4 Exemplo de Análise Comportamental para derivação de competências intermediárias que servirão de base para o planejamento do ensino de comportamento seguro numa atividade de manutenção de equipamento Competência geral que precisa ser ensinada Comportamento Seguro ao realizar manutenção de equipamento (Definido por "ser capaz de realizar a atividade de forma a reduzir a probabilidade de acontecer conseqüências indesejáveis no futuro. falhas). Estas se forem somadas às mudanças organizacionais e até governamentais. um processo de humanização está assentado na capacidade de uma pessoa interagir com seu meio. A partir da identificação do que é importante para a melhoria da qualidade do ensino e da contribuição dos processos educativos para a prevenção de acidentes (erros. o que caracteriza o processo de capacitação em segurança como sendo vantajoso também para a atuação técnica dos profissionais de manutenção e para seus resultados no âmbito da organização. contribuindo para a construção de padrões comportamentais de alto nível no que diz respeito à segurança e para uma humanização das condições de trabalho oferecidas. torna-se possível a revisão de propostas antigas e a produção de novas propostas de ensino que oportunizem ao trabalhador condições de aprender aquilo que é essencial à preservação da sua integridade e também da produção..experimentar alta probabilidade de conseguir reduzir as chances de provocar erros e falhas decorrentes de suas ações. Botomé e Kubo (2001. perdas. 148) consideram que: . O planejamento dos programas de treinamento e de comunicações de natureza preventiva precisaria levar em conta não só o conhecimento já produzido sobre a área e as normas que o trabalhador deve . FONTE: Dados coletados na pesquisa Conhecer como acontece o ensino da prevenção é importante para que as organizações possam desenvolver estratégias que contribuam para aumentar a efetividade das intervenções educacionais. Comunicar descobertas feitas sobre a execução de tarefas no que se refere aos comportamentos seguros envolvidos nessas tarefas. exatamente.. Aperfeiçoar execuções de tarefas a partir da avaliação feita. p. Competências intermediárias (primeiro nível de análise) Maximizar as condições de segurança no planejamento de uma tarefa a ser realizada Executar uma tarefa planejada com segurança Avaliar o processo de execução da tarefa em termos de seus riscos e os comportamentos apresentados em relação a eles. e essa capacidade pode. constituir o que é alvo (ou objetivo) do ensino (ou de ensinar).

as características regionais que extrapolam os muros da fábrica e. assim.cumprir. desenvolvamse como pessoas e como profissionais. Competência tem a ver com capacidade de agir no mundo. é torná-las capazes de pensar. Criar condições para que os trabalhadores aprendam e. e não só com a quantidade de informações que o indivíduo é capaz de armazenar. as situações com as quais ele lida no cotidiano e que constituem. sentir e agir em prol de uma cultura promotora de saúde e qualidade de vida. principalmente. e não só para o trabalho. . ao mesmo tempo. como também os aspectos presentes na cultura e no clima de segurança da empresa. sua atividade e sua ameaça. é educar para a vida.

como o desenvolvimento de ferramentas. aproximadamente. equipamentos e materiais. Devido a esse fato. feridos e até mesmo doentes. quatro milhões de anos. praticidade. houve avanços tecnológicos. com o fenômeno chamado percepção de risco. Nota-se que. temos conforto. reduzindo a escala. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das ferramentas. após sua domesticação. devido ao aumento das fontes que podem lesar o homem e da convivência dele com novos perigos. Como veremos a seguir. Há quatro milhões de anos. logicamente. em situações nas quais ele passava a ser a caça. seria inapropriado descrever as vantagens que a eletricidade trouxe para nossas vidas. teremos uma breve existência do homem em relação ao nosso planeta. tal evolução trouxe novas conseqüências em forma de ganhos e perdas para sua sobrevivência. o desenvolvimento das habilidades sociais e dos aspectos cognitivos diferenciou o Homem das demais espécies. na maioria das vezes. por outro. inicialmente.ODILON CUNHA JR. Percepção de riscos Trabalhar com segurança é uma luta diária contra a natureza humana (Scott Geller). aumentou também o risco a sua existência. o homem inovou e produziu ferramentas e instrumentos que. Por isso. há um número maior de ocorrências relacionadas a descargas elétricas do que havia 200 anos atrás. A única "ferramenta" reduzia-se ao seu próprio corpo. o homem não produzia ferramentas que o auxiliassem a sobreviver no seu dia-a-dia. . essas evoluções relacionam-se. Hoje. por um lado. diretamente. Outro exemplo contemporâneo é a eletricidade. o Homem teria outra opção na mesma situação: enfrentar o predador. conseguia confundir o predador e permanecia intacto. quatro bilhões de anos. também "criaram" novas situações e novos cenários que podem o levar a adoecer. notadamente seus membros superiores. proporcionalmente. Na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. Com isso. uma de suas defesas era a paralisação inconsciente: ficava imóvel frente o predador. mais ou menos. Nota-se que. o primeiro sinal de vida na Terra surgiu há. aliás. e a espécie humana surgiu há. Em contrapartida. suas caças eram animais de menor porte. Segundo historiadores. permitiram o alcance do objetivo almejado. bem como a sofrer acidentes. Entretanto. O interessante é que.

surgiram leis de segurança social e foram introduzidos o trabalho sistemático e a legislação fabril. não existindo qualquer organização. Juntos. em seu livro O Capital. para proteger os seus interesses. 1983. Logo após. firmaram bases e iniciaram campanhas sociais com o intuito de melhorar as relações de trabalho. bem como da resultante da relação. substituindo o trabalho humano pela máquina. desembarcou nos Estados Unidos da América. o alto número de acidentes do trabalho resultou na união dos trabalhadores com algumas autoridades. após o nascimento da revolução industrial. 121). No início do século XIX. atravessando o Atlântico. país onde o movimento prevencionista radicou-se e desenvolveu-se. deram início aos grandes processos de industrialização. na Inglaterra. Com isso. que se enfrentavam direta e individualmente. técnicos. as massas trabalhadoras foram exploradas. Isto é prevenir. Nesse meandro. pagando o custo social da mudança. lançada com o aparecimento da primeira máquina de tear e marcada pela invenção da máquina a vapor (em 1781) por James Watts. torna-se possível uma administração harmônica dessa convivência praticamente inevitável. sejam elas laborais ou não.A questão é a seguinte: é imprescindível compreender a relação do homem com suas atividades. a revolução industrial espalhou-se pela Europa Ocidental e. levando-se em consideração os perigos e riscos existentes. Assim. na maioria das vezes. que prosseguiram até nossos dias. por parte da sociedade. p. para controlar o movimento básico de seu próprio evolucionismo" (MARX. homem e perigo. Após esses acontecimentos. especialistas e empresários. duas novas classes sociais caracterizaram as sociedades pósrevolução industrial: a classe dos patrões e a classe dos trabalhadores. os primeiros indícios de ações prevencionistas remontam à Europa do século passado. que "essa legislação foi a primeira tentativa deliberada e sistemática. As profundas alterações tecnológicas provocadas pela revolução industrial que se iniciou em 1760. Karl Marx afirma. os primeiros passos . mais especificamente à Inglaterra. os primeiros sinais das ações prevencionistas foram motivados pelos movimentos sociais iniciados na década de 20. no Brasil. devido às ações conjuntas entre governo. Na América Latina. por parte dos trabalhadores. A Prevenção ao longo dos Tempos Segundo Kletz (2002). o risco.

o assunto prevenção. segurança faz parte da natureza humana? Esta questão completa a análise do contexto e. mas sabe-se que. é a realidade. por isso. momento em que todos os nossos sentidos estão em alerta máximo. o cenário preventivo é abalado ainda mais· se levando em consideração tal apontamento. Enfim. O instinto faz parte de nossa natureza e ajuda-nos muito diante de situações desconhecidas ou até mesmo frente a situações de extrema exposição. por exemplo. mesmo sabendo das conseqüências dessa atitude? Obviamente. sendo otimista. até mesmo de segurança. deve-se entendê-lo como racional e parte de um processo educativo e. o fator complicador é que até em universidades ou cursos técnicos acontece o mesmo. em sã consciência e saúde mental. o ser humano assimila um número . ou melhor. irracionalmente. de experiências sociais. um assalto. Seria uma resposta instintiva a essa contingência. o ser humano. jamais desrespeitaria algo que pudesse causar lesões a si mesmo. Com o passar dos tempos. quando os pais ensinam seus filhos que aquilo reluzente chama-se fogo e que faz "dodói". caso segurança fizesse parte de nossa natureza. ainda. Somente em poucos momentos. por exemplo.prevencionistas surgiram com a criação do Ministério do Trabalho. na maioria dos casos. não se pode confundir o instinto de sobrevivência com o processo educativo de segurança e prevenção. Vale destacar. do século XX. A Natureza Humana e a Segurança Apenas para "engrossar mais o caldo". Na verdade. por instinto. as crianças começam a aumentar o repertório de informações relativo àquele fenômeno. Não se pode generalizar. em relação ao aspecto segurança. é tratado em sala de aula nas escolas. A partir daí. No entanto. na década de 30. permite compreender a importância do assunto Percepção de Risco para as lideranças e organizações. É interessante que a mesma pergunta pode ser feita sobre outras situações cotidianas e rotineiras: Por que atendemos celular enquanto estamos dirigindo? Por que atravessamos a rua fora da faixa? Por que não lemos os manuais antes de operar novos equipamentos. seja ligado ao meio ambiente ou à segurança do trabalho/do lar. uma questão social de extrema importância: a formação do trabalhador. as lideranças questionam sobre o que leva o trabalhador a quebrar uma norma ou desrespeitar um procedimento operacional. Inúmeras vezes. Nota-se que são recentes os acontecimentos relacionados com a prevenção de acidentes no Brasil. assim.

. É interessante salientar que as influências. já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção. fatores cognitivos: conhecimento da tarefa. Veja o exemplo: um motorista vem para o trabalho gripado .fator fisiológico. atitudes seguras. do qual desconhece os procedimentos de operação . No caso. Fica claro que quaisquer alterações nesses fatores tendem a alterara acuidade perceptiva do ser humano. por meio dos quais os dados de realidade são recebidos e imbuídos de significado. interpretando-as. orientações da liderança etc. a seguir são apresentados alguns conceitos técnicos importante para a continuidade dessa discussão. audição. é essencial lembrar que a percepção das pessoas varia de acordo com a idade. visão). No momento em que coloca esses conhecimentos adquiridos em prática. o homem está emitindo comportamentos e. a percepção é um processo psicológico pelo qual as pessoas organizam suas impressões sensoriais e.fator cognitivo. com o intuito de prevenir que algo indesejado ou desagradável ocorra. a posição hierárquica. ingestão de remédios etc. o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. entre outros fatores que podem compor a percepção humana. ele começa a trabalhar com um novo equipamento. positivas ou não. gustação. categorizamos em três fatores: • • • fatores psicossociais: tempo de serviço..fator psicossocial. olfato. Dessa forma. sua empresa está passando por um momento difícil . alimentação. potencializando o risco de sua atividade. por ventura. conhecimento operacional e técnico.maior de informações e dá significados e valores diversos. Por ser um fenômeno psicológico. sintomas físicos. equilíbrio emocional etc. independentemente de qual for. Segundo Huczynski e Buchanan (1991). a formação. O processo de receber e converter os estímulos externos é chamado de sensação. clima de trabalho. as experiências passadas. dos fatores podem acontecer simultaneamente. a tendência é que a percepção do trabalhador em relação à tarefa que vai realizar esteja distorcida. autoconfiança. buscam dar sentido ao ambiente.. Sensação e Percepção Segundo Bley (2004). fatores fisiológicos: sono. Por falar em risco. análise de riscos.

significa algo que lhe foi dado (por Deus) e do qual você tirará proveito. mesmo sendo bem gerenciada. tratam e dão outros significados a palavra risco. Perigo: deve ser entendido como uma fonte que pode levar o ser humano. No entanto. altura. enquanto que. Para eliminar o risco. Há . todas as instalações estão em perfeitas condições de uso e respeitando as normas em relação ao uso e manuseio de fontes elétricas. há risco. em inglês. deve-se entendê-lo como a relação entre o homem e o perigo. Veja o exemplo: algumas pessoas estão em uma sala de reunião. o meio ambiente ou até mesmo os materiais a sofrerem perdas. sejam elas laborais ou não. mas pode possuir conotações positivas. Portanto. risk possui associações negativas bem definidas. riscum conota algo também inesperado. sem imposições positivas ou negativas. Se a relação existir. O mesmo acontece em relação a risco de vida. veículos.Perigo. Em grego. Logo. Se o homem trabalha com ou na presença do perigo. a palavra risq. Por exemplo. minimizar os riscos. quando se fala de risco pressupondo o sistema industrial. que quer dizer que o paciente está mal e prestes a falecer. de organizações com o intuito ligado a Segurança do Trabalho. não há atividades humanas. ou acidente e incidente. sendo adequados. sem risco. Risco e Ser Humano Antes de apresentarmos algumas definições. a relação entre o homem e o perigo não poderá existir. Risco: segundo Ansell e Wharton (1992). O interessante é levar em consideração o fator cultural. bem como suas conseqüências. normas e procedimentos. é importante salientar que muitos autores não fazem distinção quando tratam de termos como risco e perigo. para outras culturas. pressão hidráulica. a conotação cultural da palavra risco é negativa. mesmo que mínima. estes e outros termos serão apresentados a seguir. em árabe. ou melhor. O francês risque tem significado negativo. danos ou lesões. o máximo que poderão fazer é mitigar. mas desfavorável ao indivíduo. máquinas rotativas. uma derivação do árabe risq. em outras regiões ou países. ainda assim haverá o risco. possuindo um significado de algo inesperado e favorável ao indivíduo. e não apenas mudar a definição porque. o que ocasiona graves problemas de desvios de compreensão e comunicação. independente da existência de equipamentos de proteção. utilizando computadores ligados à eletricidade. a palavra relata a probabilidade de um resultado. e sim que tem chance. visto que o brasileiro não fala que tem risco de ganhar na loteria. Em latim. Para o Brasil. isso seria entendido como possibilidade de viver. eletricidade.

que interfere ou interrompe o processo normal de uma atividade. desarmonia ou desequilíbrio na empresa. como conseqüência. e que traz como conseqüência perdas materiais. tem-se um conceito que leva em consideração aspectos materiais. danos materiais e lesões ao homem. logo. . há risco. inesperada. pelo serviço de trabalho de segurados especiais.213/91 da Legislação Previdenciária (BRASIL. ambientais e/ou humanas. a perda ou a redução da capacidade para o trabalho. deixa de lado uma perspectiva do meio ambiente e de perdas materiais. ou seja. Enquanto houver o ser humano trabalhando com ou na presença do perigo. o acidente não pode ser evitado. Acidentes. há pessoas trabalhando na presença da eletricidade. porque justificam a necessidade das organizações em trabalhar a percepção de risco dos seus trabalhadores. Conceito legal de acidente do trabalho: conforme o Artigo 19° da lei 8. trazendo.risco de descarga elétrica? Sim. utiliza-se este conceito sobre acidentes industriais: o acidente de trabalho deve ser entendido como um fenômeno complexo. ou ainda. Esse primeiro conceito tem o objetivo de apontar o acidente para instituições governamentais. Sendo assim. Com isso. Conceito prevencionista de acidente do trabalho: é qualquer ocorrência não programada. sempre haverá risco de descarga elétrica. 2004): Acidente do Trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho. isolada ou simultaneamente. Incidentes e Desvios A continuidade desse capítulo solicita que se compreendam ainda estes outros conceitos: acidentes. provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte. Na sala. vale salientar que o conceito de risco só é válido na presença da possibilidade de falha de um sistema. Agora. mas trata o acidente como algo inesperado. portanto. sempre haverá risco. Devido a essas possibilidades de melhorias. como não existem sistemas industriais infalíveis. considerada como um sistema sócio-técnico aberto. não se pode evitar algo inesperado. pluricausal e revelador de disfunção. a serviço da empresa. Apenas para ratificar o texto citado. permanente ou temporária. incidentes e desvios.

Na verdade. os danos resultantes desse evento não são percebidos a nível macroscópico. norma ou procedimento estabelecido. no lar. dos indicadores que precedem a falha do sistema. seja no trabalho. apesar de possuir potencial para causar danos. mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo. 1930. todo sistema tende a ser homeostático por natureza e tolera certos níveis de desordem. Mais tarde. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa de identificar os perigos e reconhecer os riscos. Ao longo dos tempos. pesquisas de Henrich. pelo elemento humano. O interessante é como tais classificações são preventivas em relação aos incidentes e às ocorrências com perdas. A Percepção de Risco Segundo Jackson e Carter (1992). A percepção. e Bird Jr. bastava. Uma vez que esses limites de estabilidade sejam violados. mesmo os desvios são atos ou situações abaixo de um padrão e que já aconteceram. inicialmente. o sistema tenderá a falhar. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. Desvio: é um ato ou uma condição abaixo de um padrão.. apontadas por Ansell e Wharton (1992) mostraram que os acidentes poderiam ser evitados. não é mais uma base. mas sim uma variável que compõe o conceito de comportamento seguro: a percepção de risco. em função do padrão de funcionamento e do seu repertório adquirido. No entanto. Os conceitos foram apresentados nessa ordem por uma importante questão. dependem tanto do seu conhecimento sobre o sistema. 1966 e 1969. ou seja. Entretanto. atribuindo-lhes significado. ou seja. somente consegue funcionar satisfatoriamente dentro de certos limites específicos e característicos. no trânsito. identificar e tratar os incidentes. não se manifesta em sua plenitude. . Segundo Bley (2004). como das características cognitivas e fisiológicas do indivíduo.Incidente ou quase-acidente: é um acontecimento que. existe um novo fato que deve ser pesquisado e entendido para que haja formas e estratégias para evitar que aconteçam os desvios. ou racional. surgiu o conceito de desvio como a nova base da prevenção. bem como o processo decisório que deve ser desencadeado a partir dessa observação. e não há sistemas infalíveis.

é o fenômeno chamado coisificação. com pessoas já experientes e que reproduzem discursos como: "Sempre fiz assim. Os perigos "não ligam" para a existência humana. a mais conhecida é o excesso de autoconfiança do trabalhador. e o contato pode acontecer. quanto maior o repertório do trabalhador. Com isso. da atenção. Voltando ao exemplo citado. e a escolha pelo significado terá como apoio relevante os fatores cognitivos e fisiológicos. Assim sendo. em segurança do trabalho. via nariz (sensor). "Tenho 20 anos de estrada. chegou ao cérebro. jamais elas deixaram de ser perigos. As lixadeiras. Quando o ser humano recebe outras informações. um trabalhador visita. ele aumenta seu repertório e. Quando a experiência torna-se um Equipamento de Proteção Individual (EPI). ainda. uma única situação poderá apresentar diversos significados.Por se tratar de um processo que sofre interferência do nível de saúde. o ser humano terá mais uma possibilidade de interpretação. Analisando-se a situação: o odor veio do ambiente externo e. deixar de levar em consideração os fatores cognitivos e fisiológicos já citados. não sabendo disso. Não se pode. por fim. existem algumas situações específicas que também interferem na percepção. Temos inúmeros . pela primeira vez. melhor é a sua capacidade de interpretação. sua capacidade perceptiva. que possui odor semelhante ao de ovo podre. e nunca aconteceu nada". na maioria das vezes. ou seja. do conhecimento. o organismo deu o seguinte significado: ovo podre ou mau cheiro. na busca de explicar do que se tratava aquele estímulo. Tornar humano algo material é algo bastante estudado pela filosofia e está na moda. as respostas poderão ser adequadas ao cenário vivenciado. a capacidade de percepção de riscos das pessoas varia ao longo do tempo. a eletricidade ou a altura "nem imaginam" há quanto tempo pessoas trabalham com ou na presença delas e. Esse fenômeno ocorre. Por exemplo. pode-se afirmar que o risco foi potencializado. conheço muito bem as ferramentas com que trabalho". basta algum descuido. e diante da situação. Supondo que o trabalhador não tenha recebido ainda informações a respeito dessa situação. do estado emocional. Contudo. trata-se de um gás extremamente tóxico e letal. É incrível como os seres humanos tentam humanizar as ferramentas e os equipamentos com que trabalham. Isso faz com que o risco real seja diferente do risco que foi percebido pela pessoa o que. uma refinaria de petróleo e sente o cheiro de ovo podre ao andar pela área. depois de informado que há presença de um certo gás no processo. pode significar grande probabilidade de acidente devido à exposição descuidada. pode não passar de um mau cheiro. todavia.

sua atividade. a partir disso. torna-se possível identificar situações nas quais o trabalhador esteja exposto e. com uma intervenção ética e coerente. optam por burlar regras e procedimentos. ou seja. gerenciar os cenários e ambientes antes que ocorram as situações desagradáveis. as deficiências na educação para a prevenção e o interesse (nem sempre presente) das organizações em investir na preservação da integridade global dos indivíduos que as compõem. técnica e operacionalmente. . os riscos deverão ser sempre compreendidos. ser pró-ativo. Existem casos em que os indivíduos identificam os perigos. como conseqüência. desde que ela não extrapole e distorça a capacidade do ser humano em identificar os perigos e reconhecer os riscos que sua atividade oferece. deve-se entender que a alta percepção de risco é apenas a base para que o trabalhador comporte-se de forma segura. em virtude da pressa. O desafio de elevar e tornar estável a percepção de risco dos grupos de trabalhadores é parte integrante do conjunto de esforços possíveis para a promoção da saúde das pessoas e das organizações. quando estamos falando de segurança. tais como: a empresa está doente. tais como os aspectos da natureza humana. A questão é que. Dessa forma.exemplos. A experiência do trabalhador é de suma importância. da preguiça ou até mesmo do desconforto. reconhecem os riscos e. apenas a compreensão não basta. a coisificação interfere de forma negativa e. Em última análise. Nota-se que é de suma importância o conhecimento profundo sobre os perigos e riscos. junto aos possíveis obstáculos do processo. No entanto. o mercado está ansioso. podemos ter a perda de vidas. o indivíduo deve colocar em prática seus conhecimentos. Esse desafio só será vencido quando as ações prevencionistas estiverem organizadas de tal forma a trabalhar. mesmo assim. além de conhecer muito bem.

. nos meios organizacionais. Informações como o tom da voz das pessoas. sobre clima e cultura de segurança. em suas experiências pessoais.de crescimento na empresa. ao entrar em um lugar. Quantas pessoas. o nível de satisfação das pessoas e a percepção que elas têm em relação a diversos elementos como liderança. e ainda hoje. Isso seria a formatação inicial do conceito de clima de segurança. não há vantagens nem probabilidades. em seus locais de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. para o sistema de gestão. Em sua investigação. sistemas de reconhecimento. incluindo o item segurança e saúde no trabalho. remuneração. por ser considerada uma importante fonte de indicadores de aspectos humanos. entre outros. Vázquez (1996) aponta que as primeiras investigações de clima estão datadas da década de 30 do século xx. o risco é uma questão de pura coragem (Peter Bernstein). foi realizada por Dov Zohar no ano de 1980. a metáfora do clima. o que mostra que tal tema tem sido pesquisado há pouco tempo. Sem números. possibilidades. A primeira pesquisa de que se tem registro. suas expressões faciais e mesmo o tema que discutem podem ser indicadores claros de como anda o clima em um local. principalmente com as contribuições de Kurt Lewin. médias e pequenas organizações buscam alternativas para medir o clima organizacional ou a ambiência. propondo as hipóteses citadas a seguir. alimentação. o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino.JULIO CÉZAR FERRI TURBAY Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança Sem números. em suas casas. sem vantagens e probabilidades. comunicação. como preferem algumas empresas. pensam: "O clima aqui não está legal". a) Trabalhadores que pertencem a uma mesma empresa terão percepções compartilhadas em relação à segurança de seus locais de trabalho. Há muito tempo. em suas igrejas. O fator clima mostra. benefícios. Clima de Segurança: História e Conceito É comum que as pessoas utilizem. Grandes. essa metáfora vem sendo utilizada. com uma forte intensidade. Zohar (1980) tem como proposta desenvolver um conceito de aplicação prática e teórica. independente dos outros elementos citados.

3) Efeitos do comportamento seguro na carreira profissional. 2) Atividade da alta administração para dar resposta a tal preocupação. considerando o mesmo período. Os autores concluem que há uma importante diferença na percepção do clima nos sujeitos pesquisados e propõem que as investigações de clima deveriam levar em consideração aspectos metodológicos que entendessem a percepção das duas amostras. 3) Risco físico dos empregados. de forma diferenciada. 5) Efeitos do ritmo do trabalho sobre a segurança dos trabalhadores. 4) Nível de risco no lugar de trabalho. Em sua pesquisa. divididos em dois grupos: 225 que não tinham registros de acidentes no último ano de trabalho e 200 que haviam sofrido algum tipo de acidente no trabalho. 8) Status dos comitês de segurança. 1) Importância dos programas de treinamento focados em segurança. Os resultados obtidos refletem oito dimensões possíveis para a compreensão do clima de segurança. Zohar (1980) utiliza uma amostra de 400 trabalhadores israelenses de indústrias dos setores de alimentação. Esses autores reduzem os fatores a serem pesquisados de oito para três. realiza correlações entre os distintos setores de cada tipo de empresa. 6) Status dos encarregados de segurança ou do setor de segurança. . É importante ressaltar que o autor. Essa hipótese estaria relacionada com as características de segurança de cada empresa. mas tenta verificar as diferenças de percepção do clima de segurança em amostras que haviam sofrido acidentes e que não haviam sofrido acidentes. Essas dimensões serviram como ponto de partida para todas as demais pesquisas realizadas posteriormente. Ressalta-se que essa pesquisa não propõe somente a confirmação do modelo proposto por Zohar. 7) Efeitos do comportamento seguro no status social de cada um dos trabalhadores. 1) Preocupação da alta administração pelo bem estar dos empregados.b) O clima de segurança pode variar de menos favorável a mais favorável. 2) Atitudes da alta direção da empresa em relação à segurança. além de propor uma delimitação adequada do tema de clima de segurança. química e metalurgia. utilizando uma amostra com um total de 425 trabalhadores norte-americanos. Brown e Holmes (1986) põem à prova o modelo de Zohar.

Como citam os autores: . 1) Compromisso da alta administração. Dedobbeleer e Bèland (1991) põem à prova o modelo de Brown e Holmes. P. 2) Compromisso dos trabalhadores. NISKANEN (1994) relata três novas dimensões para o clima de segurança. .Por sua parte. Islas e Meliá (1992) partem de um conceito mais restrito. percepção do nível de controle que tem o trabalhador sobre a segurança em seu posto e a realização de encontros regulares sobre segurança. 2) Preocupação dos trabalhadores em relação aos perigos no local de trabalho. Tomás. estão presentes fatores como: percepção dos trabalhadores em relação às atitudes dos diretores a respeito das práticas seguras e da segurança dos trabalhadores. Propõem a utilização do clima de segurança de maneira mais operacional.163). a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e instruções e procedimentos de segurança. Na primeira dimensão. Oliver. aos riscos presentes no ambiente de trabalho. percepção dos trabalhadores sobre os comportamentos do supervisor. estão presentes elementos como: percepção dos trabalhadores acerca do potencial de exposição aos acidentes.. Os anos 80 do século XX estiveram marcados pelas pesquisas relacionadas com a determinação de dimensões possíveis para o clima de segurança. 3) Indiferença dos trabalhadores em relação à segurança. com o objetivo de desenvolver instrumentos que permitiriam um diagnóstico do clima de segurança nas empresas. Na segunda dimensão.. A partir do ano de 1994. levando em conta as dimensões a seguir. Os resultados obtidos pelo método de análise fatorial mostram uma solução com dois fatores. 1992. 1) Responsabilidade da empresa pela segurança. utilizando uma amostra de 384 trabalhadores da área de construção civil. além da polêmica teórica sobre a melhor representação da dimensão do conceito. as pesquisas assumem um caráter mais prático e costumam relacionar o clima de segurança a outras variáveis psicossociais. este enfoque analítico da medição do clima de segurança pretende confeccionar um instrumento diagnóstico valioso para determinar elementos de intervenção para melhorar a segurança e prevenir acidentes de trabalho e suas conseqüências (OLlVER et ai. o qual relacionam à percepção das ações positivas empreendidas pela empresa em relação à segurança.

como os de ordem individual. Isla e Díaz (1997) desenvolvem um conjunto de medidas para avaliar as atitudes em relação à segurança e ao clima de segurança. Com relação ao aspecto individual. No que se refere aos grupais. Esses autores utilizam os seguintes indicadores de clima de segurança: atitudes em relação à segurança. em empresas do setor petrolífero. central de reparos etc. relações dos comitês de segurança nas organizações. o clima de segurança. deforma que quanto maior é a percepção que os trabalhadores apresentam acerca das suas equipes de trabalho. 241). cita: . em uma pesquisa realizada no setor de construção de estradas. utilizando 1890 trabalhadores e 562 supervisares. Hofmann e Stetzer (1996).Niskannen (1994). e avaliar as diferenças entre as percepções dos trabalhadores e seus supervisares. em uma amostra de 166 sujeitos de distintas áreas dentro do setor aeroportuário. . desenvolvem uma investigação com uma amostra de 915 sujeitos ingleses e franceses. menor é a taxa de comportamentos de risco. construção. ações dos gestores em segurança. propõe realizar uma aproximação entre os conceitos de clima de segurança. Oliver e Tomás (1998). Desenvolve uma pesquisa com uma ampla amostra.. Cheyne. as relações interpessoais entre os membros da equipe que estão envolvidos com comportamentos de risco. Como conceito de clima de segurança. Os autores concluem que há uma importante relação entre o clima de segurança e os comportamentos de risco..) e como estas podem ser induzidas pelas políticas e práticas que as organizações impõem sobre seus trabalhadores e supervisores (p. em uma pesquisa sobre os fatores que influenciam os comportamentos inseguros nos acidentes de trabalho. propõem somente um fator: a percepção da sobrecarga ao desempenhar um papel. apresentam três fatores: o processo grupal. Cox. desenvolvidos por outros autores. Cree e Kellowae (1997) analisam o clima como um indicador da percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais. Utilizam uma amostra composta por 21 equipes de trabalho e 222 sujeitos da indústria química. propõem que se analisem tanto os aspectos de ordem grupal. As conclusões das pesquisas apontam uma importante relação entre o clima de segurança e as atitudes em relação à segurança dos gestores e as atitudes em relação à responsabilidade individual de cada trabalhador. o conjunto de atribuições que podem ser percebidas sobre a organização de trabalho em particular (manutenção. A amostra utilizada foi composta por 130 sujeitos do setor de manufatura.

Isla. Cabrera e Díaz (1998) utilizam o clima de segurança como um elemento de análise e avaliação do processo de formação no setor aeroportuário. Com um total de 722 trabalhadores ingleses. no qual o clima de segurança tem efeitos causais . mais especificamente o contágio pelo HIV. Mearns e Flin (1999) desenvolvem uma importante discussão teórica acerca do estado das investigações de clima de segurança e da relação entre esse conceito e o conceito de cultura de segurança. Com uma amostra de 1716 sujeitos do setor hospitalar norte-americano. é preciso analisar o clima de segurança em relação a outros aspectos mais amplos como a cultura de segurança. Duas importantes aplicações do clima de segurança na área de saúde são as desenvolvidas por Guastello. Gershon e Murphy (1999) que. estabelecem uma relação entre o clima de segurança e a predisposição aos acidentes de trabalho. por exemplo. Searcy. De uma maneira geral. Meliá (1998) propõe um modelo causal psicossocial dos acidentes de trabalho. através das repercussões potenciais na melhoria da política organizacional em matéria de segurança (p. Seus autores demonstram que. a manipulação de amostras de sangue contaminado. 103). os autores concluem que o clima de segurança positivo tem lugar quando existe um bom nível de comunicação e clareza nas informações. Flin.. Essa investigação utiliza uma amostra de 131 sujeitos divididos em níveis hierárquicos distintos. concluem que o clima de segurança pode ter relação com a utilização dos EPIS frente às situações de risco como. essa investigação toca questões referentes à cultura de segurança. Murphy e Gershon (2000) propõem que um clima de segurança positivo leva os trabalhadores a cumprir com as práticas seguras no ambiente de trabalho. Com um propósito mais amplo. para que se obtenham resultados mais adequados à realidade das empresas. Gordon e Fleming (1998). Dejoy. com uma amostra de 1708 trabalhadores do setor de saúde. Uma das principais carências identificadas nas pesquisas anteriores é a falta de um modelo adequado de clima de segurança. Consideram que: . é possível encontrar investigações como a desenvolvida por Mearns. Na mesma linha de pensamento.. o clima de segurança poderia funcionar como uma medida indiretacla eficácia dos cursos de supervisores e diretores. cujo objetivo é avaliar o clima de segurança em uma amostra do setor petrolífero.

c) Indicador de acidentabilidade: utilizou-se como indicador de acidentabilidade o número de acidentes de trabalho sofridos pelos sujeitos nos últimos cinco anos. 31). eletricidade. na resposta de segurança dos companheiros. na conduta de segurança e na percepção de risco dos trabalhadores. uma resposta mais segura dos superiores induziria a uma resposta mais segura dos companheiros. e esta. p. o exame torna-se ainda mais desafiador. 23) afirma que: . A seguir. Essa cadeia de relações entre as respostas de segurança de supervisares. uma conduta mais segura do trabalhador focal. Muito trabalho físico e mental e grandes somas dê recursos estão sendo aplicados em prevenção. o tema segurança no trabalho é um desafio para a grande parte das organizações. desafiando permanentemente todos esses esforços. 1990) e contou com uma amostra de 316 trabalhadores. Cardella (1999. serão mostradas as implicações práticas do clima de segurança e de como seu conceito pode influenciar na sistemática de gestão de segurança das organizações. companheiros e trabalhador. Ampliar a discussão para o aspecto humano. 1998. é possível traçar um histórico claro da evolução do conceito de clima de segurança e todas as transformações que o fenômeno passou nos últimos anos. p. por sua vez. . . Com tais informações. As variáveis foram divididas em três grupos distintos. conduta em relação à segurança do trabalhador. construção e têxtil). A pesquisa realizada por esse autor foi desenvolvida através da aplicação da Bateria de Questionários de Segurança Laboral V3 (MELIÁ. Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática Sem dúvida. a) Indicadores de aspectos psicossociais da segurança laboral: clima de segurança. resposta dos companheiros em relação à segurança. vidro. metal.. risco real. Segundo o autor.na resposta de segurança dos líderes. a redução dos acidentes é um dos mais fortes desafios à inteligência do homem. de diferentes ramos de atividade industrial (madeira. de forma significativa. A conduta do trabalhador também se considera diretamente afetada pela conduta de seus superiores.. mas os acidentes seguem ocorrendo.. afeta finalmente. a conduta de segurança do trabalhador e a forma como percebe os riscos reais (MELlÁ.. b) Indicadores de risco: risco basal. ISLAS. resposta dos superiores.

devemos somar um quarto aspecto central na compreensão do clima de uma empresa: a qualidade das ações realizadas pela empresa com foco em segurança. Ao retomar os aspectos teóricos apresentados. foi possível planejar em conjunto com a liderança. pode-se dizer que o papel da liderança é indicado por grande parte dos autores como um dos aspectos mais importantes do processo do desenvolvimento de uma pesquisa de clima de segurança. o que permitiu melhorias consideráveis no aspecto de segurança dentro da empresa. A partir dessas informações. É exatamente aqui que o conceito de clima de segurança passa a ter uma enorme validade para os processos preventivos. apesar de serem evidentes as melhorias realizadas nos processos da empresa. em grande parte. A qualidade de ações. itens de controle factíveis. percepção em relação aos companheiros de trabalho e atuação pessoal). os quais se sentiram mais valorizados. os treinamentos e as campanhas. e a experiência citada corrobora esse fato. é possível traçar planos de ação "customizados" e que tenham. pôde-se perceber que as respostas dos trabalhadores apresentavam uma forte tendência a identificar os elementos relacionados com a liderança e suas interfaces com segurança como sendo críticos e com grande necessidade de mudança. como a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). através de técnicas específicas. Aos dois processos relatados.A subjetividade é vista como a principal barreira para o desenvolvimento de um processo de segurança comportamental adequado e eficaz. Porém. de suas atitudes pessoais. a segurança depende. na primeira década do século XXI. foi concebido para que os líderes estivessem mais bem capacitados para atuar na mudança de comportamentos de risco e na estimulação de comportamentos considerados seguros. Em uma pesquisa diagnóstica realizada a pedido de uma empresa siderúrgica do sul do Brasil. é importante lembrar que nem todo processo de intervenção em psicologia da segurança deve estar direcionado para o nível da liderança. os próprios trabalhadores relatam que. pode ser avaliada . que evidenciaram três níveis do clima de segurança (participação da liderança. O processo. O processo de formação de liderança realizado permitiu. uma importante mudança na percepção dos trabalhadores. Ao definir linhas de atuação coerentes com a realidade de cada organização. Por exemplo. principalmente no tocante às condições de trabalho. ao longo do trabalho. principalmente. as ferramentas de comunicação. na apresentação do relatório de pesquisa de clima de segurança de uma grande empresa situada no Brasil (montadora de veículos).

em grande parte. efetivamente. 91). sentir e agir. Entretanto. . como pensamentos e sentimentos. Os reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. a dimensão afetiva (composta pelos aspectos interiores do ser humano: suas razões pessoais para se prevenir. por exemplo. por exemplo. entender e interpretar tais informações. pode ser utilizado o conceito de atitude preventiva. ao perguntar-se para a equipe que organiza as campanhas por que está realizando uma campanha com o tema proteção das mãos. por exemplo. é habitual que a resposta indique somente as estatísticas da empresa como fonte de identificação da necessidade. seus comportamentos encobertos. Retomamos. Bley. O clima de segurança. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. o TFSA (taxa de freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (taxa de freqüência de acidentes com afastamento). Em diversas empresas avaliadas pela sistemática de clima de segurança. a idéia de pensar.pelos próprios trabalhadores. Cunha e Turbay (2005. Esses autores ainda propõem a compreensão dos indicadores humanos. é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados. A identificação desses fenômenos psicossociais depende. diretamente. em relação aos indicadores humanos de segurança. a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como o indivíduo realiza o seu trabalho. Como referência para a análise de indicadores considerados mais pró-ativos. sendo que os primeiros referem-se. pode ser uma importante fonte de dados para a escolha de temas na realização uma campanha. àqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. da capacidade das pessoas da empresa em observar. por fim. por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos). e outros aspectos que se referem ao elemento emocional dos trabalhadores). citam: Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os "Pró-ativos" e os "Reativos". Isso é realizado deixando-se de lado uma série de outros importantes indicadores de natureza humana. por exemplo). a prática). para a sua identificação. portanto. seu nível de motivação. p. Este pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (conhecimentos e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho.

As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas' para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. mas também com alguns meses de intervalo. acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. por exemplo. quando observados de forma sistemática. eles tenham efetividade. Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco. esses fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores). somente didática. Ao identificar dificuldades nesse aspecto. Para que. consideramos algumas maneiras de viabilizar esse trabalho. . Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. Para empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem desses procedimentos. Um destaque possível para esse indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. de fato.No dia a dia. constantemente. É necessário que as ferramentas de análise estejam alinhadas com as propostas preventivas da empresa. A empresa que realiza a atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é a aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem não só após o treinamento. recomenda-se não abrir mão desse tipo de estratégia. necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais dessa população. é importante que pessoas treinadas para avaliar o processo estejam nas áreas de trabalho. e nem cumprido. Sobre os aspectos cognitivos Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtido após as atividades educativas. Com a divisão a seguir.

ou seja. verificar como são a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. pois pode ser um importante indicador afetivo. tipos de perguntas. se as pessoas têm informações demais ou de menos sobre segurança. identificação de oportunidades de melhoria. de forma direta. e não só apresentação. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. ele é "um quadro a mais" pendurado na parede. entre outros). mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização. O ideal varia em função do nível de risco da empresa. Símbolos desconhecidos. principalmente. Quantidade e nível de compreensão das sinalizações de advertência: uma boa prática é averiguar. espaço para apresentação de críticas. . Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nessa direção. dos objetivos que ela almeja em prevenção. É essencial que a área de segurança esteja atenta a isso. periodicamente.Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. canal legal e outros com nomes diferentes) que são um canal para que os trabalhadores expressem suas opiniões em relação à empresa. e é muito comum que surjam assim muitas reclamações e sugestões relacionadas à liderança. em cumprimento à legislação. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. em algumas empresas. mas principalmente para o qualitativo. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: "Estamos há x dias sem acidentes e com x horas de treinamento em prevenção". porém. pouco trabalhados ou já "desgastados" com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo. aplicação prática dos conhecimentos. lembrando que. Sobre os aspectos afetivos Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para esse indicador não deve ser somente o quantitativo. através do qual os trabalhadores podem expressar suas insatisfações em relação a essa área. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho podem prejudicar sua efetividade. da cultura de segurança que ela já possui. exploração dos assuntos. é indicador necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. Nível de utilização de canais de comunicação da empresa: muitas empresas possuem sistemáticas de comunicação (linha direta com a presidência.

recursos. a empresa deve levar em conta vários aspectos. principalmente. entre outros). Entender a percepção da força de trabalho em relação aos aspectos de segurança pode e deve ser um indicador cada vez mais buscado pelas empresas. conseqüentemente. carga física e mental. e isso causava impacto no nível de motivação da liderança e. no entanto. orientações recebidas. tinha uma forte influência na percepção dos trabalhadores em relação à atuação da liderança. habilidades. É claro que. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não recomendável para algumas empresas). realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço. além de. como fatores importantes a serem levados em conta. como o momento que a empresa vive. Antes da realização de uma pesquisa de clima de segurança. Vale destacar que essa é uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. limites e potencialidades pessoais. ao organizar um processo de pesquisa como esse. é essencial que se entenda que a empresa havia passado por uma forte mudança no seu processo de gestão. integrando conhecimentos. Por meio de inspeções sistemáticas. pode-se apontar o que segue. profissionais de diferentes setores da empresa (adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores. ser indicador da compatibilidade da organização das tarefas e atividades com os cuidados de segurança necessários (tempo.Sobre os aspectos da ação Observação e registro de Comportamentos Seguros: esse processo permite à empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: esse processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho. Ao realizar uma pesquisa em uma empresa. a) Períodos de greve: as percepções dos trabalhadores em relação ao nível de segurança da empresa podem estar influenciadas por momentos específicos. . Os indicadores são obtidos por meio da compilação do tratamento das informações geradas pelos observadores. pôde-se constatar uma forte tendência em apontar a liderança como a principal oportunidade de melhoria das questões relacionadas à segurança. como também depende de um processo de treinamento cuidadoso e preciso dos observadores. competência.

o que pode distorcer o plano de ação a ser implantado. basta olhar para algumas empresas e perguntar a elas: "Quais são os comportamentos de risco aceitáveis dentro da empresa? Em uma primeira reação. é essencial que todos entendam.b) Mudanças em processos de gestão. d) Deve ser realizada uma boa "venda" do processo de pesquisa para a liderança e para os trabalhadores. Pode-se dizer que aceitar tal comportamento de risco dos trabalhadores fazia parte da cultura da empresa. Quando se diz respeito à compreensão da cultura de segurança. pois a falta de informação pode levar a uma baixa adesão durante o processo. Porém. as empresas tendem a responder que não há comportamentos de risco que sejam aceitáveis. o que chama atenção é que a empresa somente mudou o "procedimento informal" no momento em que ocorreu um acidente grave com um dos trabalhadores. Em relação ao último aspecto. pois o resultado pode estar relacionado à antiga equipe de líderes. o motivo de se realizar uma pesquisa na organização. E na sua empresa. principalmente as que afetam diretamente o processo produtivo. Entretanto. e a empresa tem que ter discernimento em relação ao que será ou não feito a partir dos dados obtidos pelo processo de pesquisa. o desafio é ainda maior. Ao realizar uma pesquisa de clima. . no ano de 2004. em um processo de pesquisa realizado em uma empresa. sendo um comportamento reprovável por qualquer supervisor da área em questão. bem como sua validade ao ser entendido como um fator de suma importância para o processo de gestão de segurança. bem como uma série de problemas. Ao analisar a história e a evolução do conceito de clima. exatamente. Para isso ficar mais claro. a empresa deve ter claro que uma série de melhorias poderá ser apontada. e isso nos custará muitos anos de pesquisa e busca pelas reais possibilidades de melhorar a segurança dentro das empresas. conclui-se que tal tema deva figurar como assunto obrigatório em eventos. pois exige da empresa uma importante dissociação. devemos estar cientes de que estamos penetrando no difícil mundo chamado gente. quais são os comportamentos de risco que são aceitáveis? Ao nos arriscarmos a adentrar o mundo da segurança com foco do aspecto humano. é possível apontá-lo como de suma importância. c) Mudança recente de lideranças. verificou-se que muitos trabalhadores guardavam suas ferramentas dentro dos painéis de eletricidade energizados.

existentes nas empresas que se preocupam. principalmente. com o mais precioso bem de uma organização: o ser humano. nos modelos de gestão de saúde e segurança no trabalho.seminários de segurança e. realmente. .

um custo dificilmente justificável e uma conseqüência eticamente inaceitável (José Luiz Meliá). No entanto. importantes para o aperfeiçoamento dos aspectos humanos em segurança.Cuidar do ser: considerações sobre ciência. viveremos um processo de estabilização da febre de modismos relacionados com a segurança comportamental. A tecnologia avança. nos próximos anos. se estivermos devidamente capacitados para gerenciar comportamento. Passaremos a entender que. de morte e sofrimento por doenças e acidentes de trabalho. que o sonho de proporcionar trabalho digno. rápidos e instantâneos. até então macabra. mas o ser humano continuará a ser o elemento relativamente estável do processo. É desta forma. Provavelmente. de natureza comportamental. tornando-o um aliado do processo preventivo e tirando-o do papel de inimigo. a ciência psicológica evolui. Pelo contrário. Entretanto. que vem ocupando nos discursos gerenciais mais recentes: "O problema é o comportamento das pessoas". decente e respeitoso da integridade global dos seres humanos vai se transformando em providências concretas de mudança de uma realidade. A complexidade desse tipo de atuação. a necessidade das lideranças e das cúpulas das organizações de prepararem-se melhor para gerenciar pessoas estão entre os fatores que contribuirão para que isso ocorra. a dificuldade em obterem-se resultados vendidos como fáceis. este passa da posição de problema para a de fator decisivo da construção das soluções. As constatações e propostas de análise apresentadas no decorrer desses capítulos formam um conjunto complexo de elementos. representam apenas uma pequena parte do universo de conhecimentos produzidos pela Psicologia sobre a relação entre homem e trabalho e uma parte menor ainda do que é possível examinar à luz do conhecimento produzido pela área de saúde e segurança no trabalho. não significa que o comportamento humano no contexto da saúde e segurança deixará de ser importante. gestão de pessoas e cidadania A sociedade pós-industrial considera os acidentes e os danos à saúde dos trabalhadores. como afirma . dos consumidores e do público em geral. "colocando pequenos tijolinhos no grande muro da ciência". as estratégias empresariais aperfeiçoam-se. estaremos mais maduros e preparados para gerenciá-lo.

centros comunitários e outros ambientes mais seguros e saudáveis para a população em geral. ele sente. governo e sociedade a recordar. de se antecipar ao pior. escolhe. não é máquina. dia após dia. inclusive no campo do trabalho. contribuir para o amadurecimento da cultura e do comportamento organizacional. potencializando a atuação antecipativa aos problemas de segurança e aos males à saúde dos trabalhadores. ético. tornando-o saudável e seguro também nos seus aspectos subjetivos. entristece. O desafio está em saber que a realidade de saúde e de ausência de acidentes que se busca construir para o futuro. de agir com cuidado são os "produtos" desejados deste complexo sistema de inter-relações que constituem o desenvolvimento humano nas organizações. antes de tudo. digno. aperfeiçoamento e desenvolvimento. é possível afirmar. utilizando os meios disponíveis. escolas. Isso quer dizer que os seres humanos continuarão em processo de aprendizagem. trabalhar pela re-humanização do processo produtivo. pensa. . Trabalhar com consciência. portanto. só será possível quando os trabalhadores. • • harmonizar as relações entre as pessoas que compõem o contexto de trabalho. capacidade de analisar a realidade. engrandecedor). produz. que ele é a chave de acesso àquilo que podemos chamar de trabalho seguro (saudável. as empresas e os governantes assumirem que a grande possibilidade de transformação está presente na visão do processo como um todo. ao atuar sobre a realidade vivenciada no início do século XXI. relaciona-se. ele simplesmente é.Dejours (1999). que o ser humano é humano. Entre os propósitos que devem referenciar um processo de prevenção de doenças e acidentes com o foco no comportamento humano estão: • empoderar o trabalhador para conhecer e controlar os riscos do seu trabalho. de tomar decisões. Se encarado com a seriedade e a profundidade que merece. bem como propor e negociar novos e melhores meios para trabalhar com dignidade e qualidade de vida. seu corpo tem limites. age. os profissionais. alegra-se. empresários. e não só no produto. É auxiliar trabalhadores. produtivo. • pretender estender-se para além dos muros da organização. enfim. beneficiando a sociedade como um todo. Trabalhar para evitar que as pessoas adoeçam e acidentem-se no trabalho é. contribuindo para o desenvolvimento de lares. Esse conjunto de propósitos pode ser simplesmente nomeado de processo humanização. Ele é falível. decente. categoricamente.

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