Comportamento Seguro
a Psicologia da Seg urança no Trabalho e a educaç para a ão prevenç de doenças e ão acidentes

Colaboradores: Julio Cézar Ferri Turbay Odilon Cunha Jr.

2a edição – 2007

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COMPORTAMENTO EDITORA SOL

Aos meus pais, irmãos, familiares e ao meu amor, minha mais profunda gratidão por compreenderem minhas ausências, estimularem minha busca e compartilharem comigo das pequenas (mas valiosas) vitorias do caminho ...

Projeto gráfico: Fab Tacahashi Lau dos Santos rício Silvio Gabriel Spannenberg Revisão: Eliane Mara Alves Chaves

Bley, Juliana Zilli Comportamento seguro: a psicologia da segurança no trabalho e a educação a para a prevenção de doenças e acidentes. Juliana Zilli Bley e colaboradores - 2 ed. - Curitiba: Sol, 2007. 160p.; 210mm x 140mm. ISB N 85-89484-09 -2 Inclui bibliografia . 1. Psicologia do Trabalho. 2 Segurança do Trabalho 3. Prevenção de Acidentes 4 Analise do Comportamento. I. Titulo. . CDD -159 Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Sol. R. Capitão Souza Franco 881, .cj 80730-420 - Curitiba 142 - PR Telefone/fax(41) 3335 : .5087 e-mail: editorasol@editorasol.com.br

Dedico este livro aos trabalhadores brasileiros, que tem o perigo como "colega de trabalho", e a todos aqueles que assumem, profissionalmente, 0 desafio da construção de um cotidiano de trabalho mais saudável e seguro para os cidadãos deste país.

de volta. então. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. moldou a criatura. ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. apareceu Júpiter. "Você. que significa terra fértil. foi quem. conferir o seu nome à criatura. Exigiu que Fosse imposto o seu nome. deu-lhe o corpo. a Terra. portanto. Você. E uma vez que. recebera." (Fábula de Higino. traduzida livremente por Leonardo Boff) . Quis. Terra. pois fora feita de barro. que pareceu justa. Como você. também ela. Quando. uma discussão generalizada. porem. ao atravessar um rio. pediram a Saturno que funcionasse como arbitro. o seu corpo quando essa criatura morrer. há acalorada discussão acerca do nome. recebera. isto e. Cuidado. De comum acordo. Este tomou a seguinte decisão. Originou-se.Certo dia. surgiu. Júpiter o proibiu. também de volta. entre vocês. de repente. Enquanto júpiter e o Cuidado discutiam. Cuidado viu um pedaço de barra. Enquanto contemplava o que havia feito. Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado. por primeiro. deu-lhe o espírito. feita de húmus. este espírito por ocasião da morte dessa criatura. decido eu: esta criatura será chamada Homem. Júpiter. teve uma idéia inspirada: tomou um pouco de barra e começou a dar-lhe forma. pois. material do corpo da Terra. 0 que Júpiter fez de bom grado. Logo.

Avançar na produção do conhecimento. uma necessidade a ser enfrentada na compreensão dos problemas e objetivos que envolvem a noção de segurança no trabalho. A ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho é. treinamento. como a principal obra sobre Psicologia da Segurança no Trabalho no Brasil. os desafios à prevenção e à educação para a prevenção. A obra reflete. assim como suas implicações com as dificuldades enfrentadas na promoção e manutenção comportamento seguro no trabalho é. curiosidades. hoje. pode ser considerada. sobre os múltiplos aspectos que contribuem para a ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. Sua principal característica é reunir um conjunto de achados e elaborações teóricas resultantes das angústias. competências profissionais desenvolvidas nos processos de interação com o trabalho e seus atores.Prefácio Comportamento Seguro . uma variável de incidência contínua sobre a base das organizações do trabalho. Compreender essa tendência histórica significa avaliar que os processos de intervenção sobre os problemas que envolvem a segurança no trabalho nem sempre partem do entendimento da multideterminação de .A Psicologia da Segurança no Trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes. com repercussões geralmente graves sobre a sobrevivência dos trabalhadores. desenvolvimento e avaliação dos processos comportamentais implicados na instalação e manutenção de taxas de acidentes e doenças profissionais. portanto. a noção de segurança comportamental e de percepção de risco. Lança um exame crítico sobre as relações entre comportamento humano e prevenção. em cada operação de diagnóstico. cada vez mais. historicamente. o papel dos treinamentos no gerenciamento de riscos. a qualidade do trabalho e os custos organizacionais e do Estado. além dos fatores críticos ao processo ensinoaprendizagem na prevenção de acidentes e agravos à saúde. assim como nos processos de gestão e de avaliação disseminadas nas organizações. tudo isso com base na necessidade de ampliar os meios científicos para compreender os processos de constrangimentos à saúde e à segurança dos trabalhadores. necessidades e aprendizagens vividas por esses profissionais. de Juliana Zilli Bley e colaboradores. no sentido da humanização do trabalho. no Brasil.

pressupostos das diferentes formas de gestão da produção e de organização do trabalho. os sistemas de trabalho são regidos pelos princípios da competitividade. uma relativa autonomia para executar o trabalho orientado por esses princípios. que se revela. tecnológicos. crenças e valores acerca das necessidades de gestão e de avaliação do trabalho. Desses princípios e entendimento. a Psicologia da Segurança no Trabalho têm objetivado suas investigações e construído modos de intervenção no âmbito das organizações. meso e macro). de criar programas de gerenciamento das condições de risco e da prevalência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho não têm se mostrado eficientes porque partem da . geralmente são criados de forma emergencial e não contínua. a priori. emerge o entendimento de que cada trabalhador faz parte das estratégias de melhoria contínua das organizações que devem ser flexíveis e adaptadas ao mercado global. bem como suas decorrências. O maior ou o menor conhecimento das condutas humanas nos sistemas de trabalho. Visto dessa maneira. organizacionais. ao mesmo tempo. no cotidiano do trabalho. As tentativas. os programas de prevenção nesse âmbito. Derivado desses princípios. mais recentemente. simplistas. Geralmente. cada vez mais freqüentes e. Infelizmente. um sistema da ação e da instrumentalização das condutas humanas de acordo com as condições e os meios de realização de trabalho. no cotidiano das análises do trabalho. nas empresas brasileiras. o que pode não ser complexo. dificultando o engajamento dos interessados e o gerenciamento de incidentes críticos associados a tais acidentes e patologias. em quaisquer desses planos de análise e nas relações entre eles. idéias. é o ponto de vista de quem estuda ou empreende uma intervenção visando o controle ou a prevenção de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. que enfatizam a co-responsabilidade do trabalhador pelos produtos e serviços gerados. bem como determinações e efeitos. sociais e econômicos na ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. é possível afirmar que a natureza do trabalho produtivo é um complexo arranjo de variáveis e suas implicações.aspectos fisiológicos. em seus diferentes planos de análise do sistema de trabalho (micro. da redução de custos. psicológicos. espera-se um vínculo efetivo do trabalhador com os objetivos da empresa e. nas empresas. tem sido o horizonte factual e estratégico por meio do qual a Psicologia do Trabalho e. muitas vezes. As organizações de trabalho são microsociedades que refletem. do desperdício e do valor qualitativo do produto do trabalho.

das condições de salubridade. as condições e os meios de realização do trabalho. b) de micro variáveis ocupacionais. certamente. a capacidade de controle e monitoramento de riscos e incidentes no trabalho. tais como as características da gestão do trabalho e dos trabalhadores. esquecimentos. controlando seus efeitos sobre o organismo. muitas vezes definidas como expressões da carga de trabalho. perda da capacidade inventiva. O conjunto dessas variáveis co-varia. a capacidade de negociar com as diferentes formas de pressão produtiva (ritmo. pressupõe. aqueles que resultam da instrução . pois envolve o desenvolvimento de métodos mais eficazes de investigação das variáveis envolvidas. que influenciam na avaliação e promoção de comportamentos seguros no trabalho. uma análise das características dos sistemas técnicos de gerenciamento. Os sinais para a investigação de incidentes ao acidente de trabalho. tempo) e as competências profissionais desenvolvidas. do meio ambiente físico e social e dos meios de aprendizagem. dificuldade em estar envolvido. marcas no corpo. a percepção de risco e de segurança no trabalho. os graus de satisfação. tais como a fisiologia do processo de trabalho. os sentimentos de identificação e pertencimento. dificuldades para aquisição de novos conhecimentos. o que tende a intensificar a busca de diagnóstico de procedimentos. conflitos). ao invés de incentivar a leitura das situações pelas quais se estruturam as conseqüências. além dos processos intuitivos (que permitem associar as experiências vividas sobre os objetos disponíveis). o regime de metas. Podemos afirmar que a noção moderna de segurança no trabalho pressupõe uma verificação e uma compreensão integradas: a) de macro variáveis do sistema organizacional. por exemplo. dores. erros. explorando. metas. Essas manifestações. geralmente associados às demais dimensões da vida fora do trabalho. O conjunto dessas manifestações. nas diferentes configurações da organização do trabalho e determina a maior ou menor possibilidade da prevalência de acidentes de trabalho. Compreender essas manifestações e suas implicações com as características do sistema de trabalho evita o reducionismo nos processos de análise do trabalho.lógica de controle das conseqüências das condutas (acidentes. os processos culturais instalados. tendência a isolar-se. revelam desequilíbrios na relação entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador para respondê-las eficazmente. doenças ocupacionais. sistematicamente. podem ser manifestados por trabalhadores através de qualidade nas inapetências relativas.

merecem serem aprofundados com a leitura desta obra. Desenvolver métodos e técnicas para aferir e auxiliar o processo de diagnóstico e interpretação dos problemas que envolvem a manutenção do comportamento seguro e a redução sistemática da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho é um desafio constante para os que atuam nos sistemas organizacionais. certamente. Dr. Certamente. refletindo a construção de respostas a antigas e novas necessidades de examinar criticamente os aspectos constituintes do comportamento seguro no trabalho e o dimensionamento de ações voltadas à melhoria das condições de vida e de trabalho nas organizações. suas fronteiras e interfaces com as demais ciências do trabalho. este livro auxiliará aos interessados a ampliarem a percepção e o conhecimento sobre os aspectos do comportamento humano que definem o campo da Segurança no Trabalho. Com base nisso. . especialmente os psicólogos do trabalho: construir a ciência da Psicologia da Segurança no Trabalho. professor e pesquisador da UFSC nos Departamentos de Engenharia de Produção e de Psicologia.(que são construídos pelo processo intelectual diretamente envolvido na interpretação das variáveis envolvidas e suas tendências). Florianópolis. que indica um campo promissor para pesquisadores e profissionais do ramo. maio de 2006 Roberto Moraes Cruz. Psicólogo do trabalho. São aspectos que. espera-se que novas contribuições no domínio da Psicologia da Segurança no Trabalho possam ser organizadas.

oferecidos pelas empresas. tive que dar conta da primeira grande aprendizagem: eu não resolveria todos os problemas de segurança das empresas nem salvaria a saúde e a vida de todos os trabalhadores brasileiros com a minha pesquisa. Por que as pessoas machucam-se em acidentes "bobos"? Por que uma pessoa. altamente qualificada e treinada. Após digerir tal dado de realidade. Sílvio Paulo Botomé e Dr. é culpa das pessoas. Olga Mitsue Kubo. Dr. iniciei um curso de Mestrado em Psicologia com a missão clara e definida em minha mente: vasculhar o que a ciência já havia produzido atrás das respostas que procurava. Caso não encontrasse. e havia muito por fazer. comete erros pífios e machuca-se em função disso? Por que algumas empresas fazem tanto pela prevenção e não conseguem "zerar acidentes"? No fim da história. foi um dos fatores definidores da minha escolha por aprofundar meus estudos. eu foquei meus esforços e minhas esperanças em poder contribuir para desvendar alguns dos problemas e dificuldades do processo de educar para a prevenção. O conhecimento já produzido (no Brasil e em outros países) serviu de base para que fosse possível estudar um pequeno pedaço dessa realidade e sistematizar algumas contribuições para uma análise mais criteriosa dos fatores de sucesso e de fracasso dos treinamentos e das palestras de comportamento seguro. como se um "gato descesse pela minha garganta". este responsável pelo . O produto desta pesquisa (dissertação defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em fevereiro de 2004) é o carro chefe deste livro e não teria sido possível sem a bússola e a lupa oferecidas por meus orientadores e inspiradores: Dra. Roberto Moraes Cruz. Em 2002. que encontrei como psicóloga atuando no campo da segurança do trabalho. recurso dos mais utilizados pelas organizações com o objetivo de conscientizar e mudar os comportamentos dos trabalhadores frente aos riscos. do gerenciamento ou das instalações? À medida que o tempo passava e eu mergulhava. estava disposta a desvendar novos caminhos para a solução dos enigmas que me assombravam.Apresentação A dificuldade de encontrar respostas para enigmas. O Brasil é um país de pouca tradição de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia da Segurança no Trabalho.

Em última análise. do Brasil. complementares às que eu havia feito durante esses anos dedicados ao tema Comportamentos Seguros. discussão e análise de alguns aspectos centrais no que diz respeito ao estudo e à gestão de processos e programas de prevenção em saúde e segurança. de buscas para agregarem a esta obra o valor de seus estudos e descobertas. de incômodos. formando um gratificante mosaico de abordagens e perspectivas de análise. trata-se de uma fonte de consulta. baseados no comportamento humano. aproveitando-se esta oportunidade. um incômodo permanecia: a desconfortável escassez de livros publicados sobre Psicologia da Segurança no nosso país. àqueles que se interessam pelo assunto. Havia questões complementares sobre educar para prevenir que poderiam ser contempladas. baseadas em aprofundamento teórico-científico e na vivência que temos tido nos chãos de fábrica. Eu resistia à idéia de publicar uma obra tratando somente de um assunto tão específico. No entanto. encarando os desafios da prevenção junto com tantos outros bravos profissionais.prefácio. ou melhor. Foi quando convidei dois companheiros de jornada. o desejo de tornar acessível. tratando dos temas Clima e Cultura de Segurança e Percepção de Riscos. de trabalho. respectivamente. aquilo que é produzido "dentro dos muros" da universidade mobilizou sua concretização. Julio Cézar Ferri Turbay e Odilon Cunha Jr. deixando tantas outras lacunas sobre comportamento humano e prevenção sem sistematização. como treinamento. uniram-se a mim nesta discussão. Juliana Zilli Bley . Psic. MS. Por fim. as quais eu conhecia e sabia. baseados nas pessoas. desde sempre.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança 81 .Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção 95 .A Percepção de Risco << 6 >> 117 .Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança (JULIO CÉZAR FERRI TURBAY) 117 .Psicologia e segurança do trabalho no Brasil: uma introdução << 2 >> 35 . gestão de pessoas e cidadania «*» 141 .Um Estudo sobre Como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura 84 .Mudança de Comportamento 59 .Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" 41 .A Noção de Comportamento Humano 44 .Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico 79 .Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática << 7 >> 137 .Referências «+» 149 .A Prevenção ao Longo dos Tempos 106 .Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade 71 .O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção 56 .Clima de Segurança: História e Conceito 126 . Risco e Ser Humano 111 .Obras consultadas .Cuidar do ser: considerações sobre ciência.Sensação e Percepção 109 .Percepção de riscos (ODILON CUNHA JR.Conclusões do Estudo << 5 >> 103 . Incidentes e Desvios 112 .Perigo.Sumário << 1 >> 25 .Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? S1 Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? << 3 >> 55 .Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional << 4 >> 77 .Acidentes.) 104 .Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos 67 .A Natureza Humana e a Segurança 107 .

1944. Hersey. Como ciência estruturada. 1957. é profissão regulamentada há pouco mais de 40 anos e conta. as empresas perdem um precioso retorno' dos seus investimentos nas pessoas (Cecília Whitaker Bergamini). da Psicologia da Segurança no Trabalho.fator humano. Acidentes de trabalho . 2003). São Paulo: Atlas. psicologia significa estudo da alma). não suas mentes e corações. Kerr. No entanto. Davis e Mahoney. No Brasil. J. atualmente. Dela Coleta. A Psicologia. 1955. 1979. Psicólogo aqui no Serviço' Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT)? Não tem ninguém louco por aqui! Psicologia e segurança no trabalho? Uma nova invenção? Modismo recente? O que o psicólogo tem a ver com prevenção de acidentes? A Psicologia. 1991. vem se dedicando a estudar e intervir sobre o comportamento humano no contexto do trabalho desde. No Brasil. Ao sistematizar estudos como os de Schorn. data de tempos imemoriais. a revolução industrial. infelizmente. com quase 200 mil profissionais registrados em conselhos profissionais e atuantes. Atividades de Prevenção.Fator Humano. mais precisamente. o estereótipo clínico (aquele do divã) e a idéia de que "psicólogo é médico de louco" ainda persistem no imaginário popular. Dunbar. como ciência e também como profissão. praticamente. contribuições da psicologia do trabalho. 1936. principalmente no oriente. seus primeiros e importantes experimentos datam de meados do século XIX. do psicólogo José Augusto Dela Coleta' (BLEY. atividades de prevenção. A. e outros 1 DELA COLETA. Ombredane e Faverge. 1957. distanciando sua imagem profissional de contextos menos conhecidos da sua atuação.c. Contribuições da Psicologia do Trabalho. é possível dizer que desde Aristóteles (300 a.) procura-se compreender e explicar esse conjunto de fenômenos. Em registros conhecidos.Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução Contratando somente as mãos dos trabalhadores. Este é o caso da Psicologia do Trabalho e. . uma das mais significativas obras publicadas sobre a Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho é Acidentes de Trabalho . apesar do tempo de regulamentação e da proporção da categoria. inicialmente nomeados como sendo "da alma" (etimologicamente. 1925. como processo de conhecer o funcionamento da subjetividade humana.

ele apresenta a Psicologia como uma das áreas produtoras de conhecimento sobre a ocorrência de acidentes desde as primeiras descobertas científicas relacionadas ao trabalho. 1975). como área de conhecimento. Estudiosos e teóricos. em contrapartida à relação linear de causa-efeito própria de uma concepção aristotélica (LEWIN. 2003) é um raro esforço da Psicologia brasileira em três sentidos: 1) o de demonstrar sua importância no cenário da produção científica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho. 1948. ocupado de forma tão tímida. no cuidado com crianças.citados pelo autor. Nesse contexto. componente das propostas paradigmáticas daquilo que se tem chamado de nova ciência. Pode ser vista. A Psicologia da Segurança é definida por Meliá (1998) como aquela parte da Psicologia que se ocupa do componente de segurança da conduta humana. e Adler. na prevenção de diferentes tipos de males e perdas. Cardella (1999). como de atuação do psicólogo nas organizações de trabalho. histórica e cientificamente. 1941. É utilizada em diferentes contextos como no trânsito. resultando no exame não de uma causa. A obra citada de Dela Coleta (BLEY. É bem verdade que o volume de pesquisas nessa área de conhecimento. ainda há muito espaço a ocupar e muito a contribuir. torna-se uma Psicologia da Segurança no Trabalho. já discutiam as características de personalidade envolvidas na produção das fatalidades. em conjunto com os demais profissionais que atuam com a saúde e a segurança dos trabalhadores. como o resultado da impossibilidade de se criar ambientes plenamente seguros. A noção de multideterminação diz respeito à tendência de conceber os fenômenos e seus aspectos como sendo causados por múltiplas relações entre variáveis de diferentes tipos ou naturezas. bem como a atuação de profissionais psicólogos nesse campo de atuação têm crescido no Brasil (como funcionários e como prestadores de serviço). 3) o de reafirmar a presença do profissional da Psicologia neste campo de atuação profissional. também se dá pelo fato de que as intervenções para a prevenção da ocorrência dos acidentes requerem humanização do trabalho e valorização do trabalhador. No entanto. 2) o de demonstrar para os psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento científico sobre o fenômeno. entre eles os relacionados às situações de trabalho. o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. Assim como o comportamento humano. campos reconhecidos. como Freud. mas de variáveis que determinam a probabilidade de ocorrência de características de um evento. . o da Psicologia da Segurança. inicialmente. A importância da participação da Psicologia. Esta é uma noção de causalidade circular.

Nesse caso. a utilização dessas estratégias educativas (assim como dos recursos didáticos) é desencadeada por uma necessidade.ao articular a segurança do trabalho ao que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos). Dela Coleta (1991) reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. as contingências naturais presentes no cotidiano de trabalho do aprendiz (dia-a-dia de trabalho) têm permitido a ocorrência dos comportamentos ensinados? Quais aspectos do planejamento e da realização dos eventos de segurança influenciam (favorecendo ou prejudicando) na aprendizagem dos comportamentos seguros necessários à promoção da 2 GELLER. Certamente. cursos. define o acidente como um fenômeno multifacetado. biológicos. sociais. O que. do exercício). ·The psychology of saféty: how to improve behaviors and attitudes on the job. como palestras. USA: Chilton Book Company. no âmbito dos fatores relativos aos acidentes que podem ser chamados de psicológicos. citado por MELlÁ. Isso remete a uma análise das condições de segurança da conduta do trabalhador. Radnor. em desenvolver seus processos de trabalho de forma a favorecer a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. É possível afirmar que. S. Um dos papéis da Psicologia da Segurança é o de estar implicada em aumentar a possibilidade de envolvimento pessoal. Ao examinar criticamente os recursos e estratégias. psicológicos. de fato. são recursos utilizados por organizações para "ensinar" aos seus funcionários sobre os meios de realizar suas atividades considerando os riscos existentes. de cada membro da organização. resultante de interações complexas entre fatores físicos. com a segurança e com o desenvolvimento de uma cultura global de segurança(GELLER2. treinamentos e reuniões. 1996. Esse papel pode ser desempenhado. 1999). Os eventos relacionados com segurança. uma vez que prevenir é uma dimensão do comportamento de trabalhar. identificada pela organização. culturais. o conjunto de variáveis do fenômeno comportamento que precisa ser examinado é aquele que caracteriza sua dimensão preventiva. as empresas têm ensinado aos trabalhadores sobre comportarse de forma segura (ou preventiva) ao realizar suas atividades profissionais? Se o processo de ensinar tem sido efetivo no âmbito educativo (do treino. . por meio das estratégias que objetivam a capacitação do trabalhador. cabe o exame da inAuência dos comportamentos humanos na sua prevenção. é possível levantar algumas questões. com grandes possibilidades de sucesso.

como também fora das salas de treinamento e auditórios. mas também dos pequenos grupos/setores. após um período de tempo. naquilo que as pessoas aprendem como sendo sinônimo de seguro ao trabalhar em situações de risco. um dos mais importantes estudiosos da psicologia da segurança norte-americana. procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de comportamento em segurança. utilizadas de forma descontextualizada e sem considerar as variáveis contingentes aos comportamentos relacionados com a prevenção. Entretanto. inicialmente. a forma como são tomadas as decisões. É o contexto influenciando os comportamentos dos indivíduos. palestras. um contexto organizacional favorável à prevenção caracteriza-se pelo cuidado como atitude essencial. Essa cultura favorável é definida como sendo aquela em que ocorre o que ele denomina de cuidado ativo. elas pouco podem produzir frente ao poder de manutenção das coisas como sempre estiveram que o arranjo das variáveis existentes pode representar. .segurança no trabalho? O que pode. cursos. Cuidar de si mesmo. pode ser a responsável pelo insucesso de estratégias e ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. os estilos de liderança e os valores praticados por seus integrantes fazem parte de um amplo conjunto de contingências que influenciam. que é caracterizado. exatamente. nas políticas corporativas. sobremaneira. A cultura da organização. A característica preventiva pode ser identificada nos mais diferentes processos de uma organização como no planejamento estratégico da empresa. que é invisível aos olhos à primeira vista. 1999). nas definições orçamentárias. permite que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer. e esse aprender acontece não só dentro. cria-se um ambiente favorável ao aparecimento de comportamentos considerados preventivos não só por parte dos indivíduos. nos treinamentos e nos processos internos. pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. das lideranças e também da cúpula da organização. porém. Uma mudança efetiva e duradoura de padrões comportamentais dá-se por meio do processo de aprender. Segundo Geller (2001). Essa trama complexa de relações. Dessa forma. ser entendido por comportamento seguro? Treinamentos. cuidar do outro e deixar-se cuidar pelo outro podem ser considerados como sendo um tripé no qual se apóia uma cultura organizacional que tem como característica essencial a prevenção (cultura de saúde e segurança).

que se fala e precisa-se. ciência e cultura) declarou. será preciso contar com o tempo (longo prazo) e com a atualização (mudança de paradigma) . além de saber fazer. isto é. cultuada por empresas e profissionais. seu contexto. É de uma educação do indivíduo. Vale salientar que. tão criticada e. fórmula do treinamento reprodutor das coisas como sempre foram e reprodutor da ideologia reinante. finalmente. e a educação precisa formar e instrumentalizar as pessoas ao redor do planeta para viver e sobreviver neste contexto social.Os processos de conscientizar e educar têm sido os grandes carros-chefes das estratégias de prevenção de acidentes e doenças do trabalho com foco nos aspectos humanos. sendo essa uma ampliação significativa sobre pensar e fazer educação (especialmente a educação no campo do trabalho). o que se procura na educação do ser integral é que. ao mesmo tempo. na virada do milênio. está longe de terminar. que os quatro pilares que deverão sustentar as propostas de educação em todo o mundo são: Aprender a Ser. a ação de educar transcende às tradicionais noções de instruir. econômico. é isso que se busca nos primeiros anos do século XXI. sem deixar de lado seu mundo interno. O mundo mudou. convergentes com os pilares da educação para o século XXI. Vai além de uma noção clássica de que a mão de obra tem de ser preparada. educadores e gestores ao construir o processo de aprendizagem de trabalhadores e organizações. Nessa perspectiva quadridimensional. Aprender a Conviver. qualificar para fazer algo profissionalmente. vinha sendo o grande objetivo de ensino na educação de trabalhadores). treinar. e não seu ser inteiro. ou seja. suas relações. sua capacidade de fazer (que. ele acesse as dimensões do aprender a ser. Considerando os quatro pilares. Portanto. científico. até então. espiritual tão peculiar. pela sua amplitude e importância. o desenvolvimento de um ser humano deve ocorrer de forma integral. o que precisa ser preparado são seus braços. para que seja possível deparar-se com organismos públicos e privados. Também vai além da. há que se considerar o intenso processo de transformação que está em curso e que. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para educação. político. 1998). em toda sua inteireza. por meio da Comissão Internacional para Educação no Século XXI. é um convite à revisão daquilo que se entende como sendo o papel de cientistas. num período histórico no qual o mundo coloca novos paradigmas para a educação. sua capacidade de construir-se autonomamente e. Aprender a Aprender e Aprender a Fazer (OELORS. Falar de educação. a relacionar-se e a desenvolver autonomia no seu processo de pensar e produzir conhecimento. realizando processos de aprendizagem de espectro ampliado (integral).

de técnicos e dirigentes organizacionais. afetivo (do sentir) e de ação (do fazer) (RODRIGUES. sentir e agir cuidando de si mesmas. ter atitude segura significa pensar. aos quais estão expostas. Para que isso se torne realidade em nosso país. Capacitar e desenvolver pessoas para que se tornem competentes em pensar. Atitude não é sinônimo de comportamento. principalmente. e as formas de evitar lesões e perdas. desde que a organização de trabalho crie condições para que isso ocorra. Em última análise. bem como atuar como elemento cessionário de poder e desencadeado r das pessoas que compõem um grupo nessa direção. sentir e agir com segurança sempre que o indivíduo encontrar-se numa situação de risco (noção de tendência). 1998). Esse papel é o de sujeito da preservação da sua integridade. onde o cenário de doenças e acidentes de trabalho está longe do que se considerado aceitável (se é que isso existe). dos outros e deixando-se cuidar pelos outros parecem ser o grande objetivo da segurança baseada no comportamento humano. Isso pode ser verificado ao comparar a proposta da educação do ser integral com a noção de atitude. desenvolver atitudes seguras (objetivo de grande parte dos treinamentos) significa criar condições para que as pessoas conheçam os riscos. Isso posto. estudada por cientistas e profissionais das áreas afins e influenciada por ambos na direção da promoção das melhores condições de saúde para aqueles que atuam em situações de risco. Essa revisão deve ter como ponto de partida o questionamento acerca do papel desempenhado pelas pessoas no processo de prevenir. O vocábulo comportamental diz respeito a essa dimensão. Só assim. sendo considerada por empregadores. Existe uma máxima entre os profissionais de Saúde e . A integração dos quatro pilares na perspectiva da educação para saúde e segurança no trabalho coloca-a num nível maior de coerência com aquilo que hoje se entende por segurança comportamental que é a dimensão humana da prevenção de doenças e acidentes. Tal tendência é originária da consistência entre três componentes: cognitivo (do pensar. ajam de acordo com os dois primeiros fatores. amplamente utilizada em campanhas e treinamentos de prevenção e considerada essencial para esse processo. será possível traduzir diretrizes inovadoras em práticas coerentes e eticamente pautadas. mas sim uma tendência a comportar-se de uma determinada forma. especialmente no que diz respeito às estratégias de treinamento e desenvolvimento (T&D). sintam-se identificadas com e motivadas pela idéia de que "prevenir é realmente melhor do que remediar" e. do conhecer). é preciso que governantes e dirigentes de organizações revejam suas políticas de gestão de pessoas. capaz de participar e assumir responsabilidades quanto a ela.

mas começa no olhar. . defendendo que segurança é responsabilidade de todos. A responsabilidade é de todos. É isso. do andar mais alto do prédio da diretoria até a última bancada do último galpão no fundo da fábrica. no sentimento e na ação cada um.Segurança no Trabalho (SST) que confirma o caráter participativo e cessionário de poder que uma cultura de prevenção deve assumir.

Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" Caminhar sobre um terreno acidentado é uma coisa. com os companheiros de trabalho e com a organização. e não no campo da ciência. saber que se está fazendo isso é outra coisa (Burrhus Frederic Skinner). Isso quer dizer que a máxima "de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco" pode manter a discussão sobre comportamento e segurança no campo dos "achismos". as atitudes e as reações dos indivíduos em ambiente de trabalho não podem ser interpretados de maneira válida e completa sem se considerar a situação total a que eles estão expostos. evitar. 77). analisar) podem levar a pensar que as relações que compõem esse fenômeno são simples. todas as interrelações entre as diferentes variáveis. incluindo o meio. o grupo de trabalho e a própria organização como um todo. neste sentido. pode ser visto como expressão da qualidade da relação do indivíduo com o meio social que o cerca. .. e seus níveis de complexidade. Dela Coleta (1991. O comportamento das pessoas é objeto de preocupação do homem há muito tempo. No âmbito da segurança no trabalho. afirma que ela evoluiu ao longo do último século em meio a confusões.. os comportamentos. Ele é um fenômeno de alta complexidade e variância. presentes na ocorrência dos acidentes de trabalho. o estudo da influência humana no acidente de trabalho necessita considerar o conjunto de relações que se estabelecem entre um organismo e o seu ambiente de trabalho para ser considerado como comportamental. o que não é verdade. [ . equívocos e preconceitos acerca da sua conceituação e do seu uso.. é um fenômeno presente no dia a dia de qualquer pessoa.. Os verbos utilizados para nomear os comportamentos (como prevenir. Botomé (2001). afirmando que: . o que requer mais do que o senso comum para examiná-lo e intervir sobre ele. ao examinar o conhecimento produzido sobre a noção de comportamento. Da mesma forma que é um objeto de estudo. ao sistematizar as contribuições da Psicologia para a prevenção dos acidentes de trabalho. p. examina alguns aspectos do homem. ] o acidente de trabalho.

a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se como uma Área de Conhecimento. Entretanto. Já no caso dos demais profissionais voltados para saúde e segurança. pormenorizado. isto é. um conjunto de saberes e conhecimentos que podem conferir a esse profissional um entendimento diferenciado. Os fenômenos comportamentais relativos à prevenção dos acidentes têm sido fonte de interesse e investimento por parte do governo. de que o comportamentalismo tem como propósito "manipular" os trabalhadores. com o objetivo de torná-las capazes de prevenir acidentes de trabalho. outras pessoas e até com a sociedade. empresas de prestação de serviços e grandes corporações brasileiras têm utilizado o termo segurança comportamental para referir-se ao conjunto de estratégias que utilizam para atuar sobre os comportamentos dos trabalhadores. De posse desses conhecimentos. isto é. Profissionais (de diferentes formações) do campo da segurança. É possível afirmar que os conhecimentos produzidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho (e áreas afins dentro da Psicologia) assumem funções distintas quando se trata do trabalho de psicólogos e demais profissionais da saúde e segurança. o que confere um alto grau de complexidade a essa análise. Ele pode ser considerado um técnico. Para o psicólogo. intervenção de profissionais de outras áreas de conhecimento sobre o comportamento. equipamentos. sobre os aspectos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. esses profissionais poderão atuar nos seus respectivos campos (um médico do trabalho. com máquinas. ou mesmo gestores e técnicos de outras profissões. um especialista formado. a atuação das organizações sobre os comportamentos do trabalhador em relação aos riscos do seu trabalho tem enfrentado alguns obstáculos como: reduzida oferta de profissionais adequadamente capacitados para lidar com comportamento humano em segurança. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se com um Campo de Atuação Profissional. isto é. autorizado e fiscalizado (pelo conselho profissional. de empresas e de profissionais no que diz respeito à segurança no trabalho. de diferentes áreas de conhecimento. sem o devido preparo técnico-científico. julgamento de profissionais. à luz do código de ética) para realizar tal atividade como uma profissão. dos grupos e da própria organização. por exemplo) com um alto grau de compreensão dos aspectos . um conjunto teórico-técnico que subsidia sua intervenção nos fenômenos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes.Essa afirmação merece destaque e reflexão uma vez que toma o acidente de trabalho como um produto da forma pela qual o ser humano interage com o mundo à sua volta.

muitas vezes. como sinônimo de Psicologia por quem não é psicólogo. atitudes. A respeito da intervenção de profissionais de outros campos de atuação sobre o comportamento humano. à escassez de propostas de formação específica para esse campo e também à sua pequena expressão junto à formação profissional básica (graduação em Psicologia). que são expoentes da Psicologia do Trabalho na atualidade. o estímulo de feedbacks entre pessoas despreparadas para tal. Como já foi abordado no capítulo anterior. Isso se deve. a aplicação de técnicas de dinâmica de grupo sem a devida preparação técnica e com pouco controle sobre as conseqüências desse tipo de intervenção. Dejours (1999) e Geller (2001). além de serem utilizadas. podendo elevar a qualidade e a efetividade da sua atuação em função disso. que acaba por punir ou expor colegas e subordinados. em seu compêndio Manual de Psicologia da Segurança. fascinante e perigoso. consideram que expressões como fator humano. uma vez que é grande o risco de terem-se perdidos os critérios que diferenciam a utilização profissional da Psicologia da Segurança no Trabalho da sua utilização como fonte de conhecimento. funcionam como um verdadeiro condensado de "psicologia do senso comum". a nomeação de gestão de aspectos humanos em segurança para referir-se a comportamento humano. tendo sido registrados até casos de descompensação emocional por parte de integrantes do grupo. correndo-se o risco do uso simplista do termo. ao mesmo tempo. Conceitos genéricos sobre os comportamentos das pessoas têm servido como base para intervenções em segurança que se intitulam "focadas no aspecto humano". Geller (2001). a atuação de psicólogos no campo da saúde e segurança no trabalho no Brasil é bastante reduzida. É importante posicionar adequadamente tais funções. em muito. comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e . Referindo-se ao uso indiscriminado das estratégias de prevenção relacionadas com os aspectos humanos. Trabalhar com pessoas é. Trata-se do cuidado adotado para com as questões éticas e de responsabilidade profissional. comportamento. Outros exemplos de equívocos são a utilização do conceito de atitude (tendência a comportar-se de uma determinada forma) como sendo sinônimo de comportamento (conjunto de relações que se estabelecem entre o indivíduo e o meio). Dos equívocos na concepção e na intervenção sobre os comportamentos em segurança pode decorrer o baixo grau de controle sobre os resultados das intervenções (prometer resultados que jamais ocorrerão) e da aplicação de técnicas sem o devido preparo profissional (o que pode gerar efeitos colaterais indesejados durante o processo).humanos.

preconceituosamente. Possuir um diploma de Psicologia não garante a efetividade da atuação do psicólogo sobre o comportamento das pessoas. a crítica sempre presente de que atuar sobre o comportamento humano no trabalho é o mesmo que manipular o trabalhador parece infundada quando se conhece a fundo a análise do comportamento como proposta científica. ainda na década de 70. e não porque são estratégias de trabalho com base em conhecimentos científicos. independente da qualificação teórica e técnica apresentada pelo profissional por ocasião de uma nova oportunidade de intervenção. Não são raros os programas de natureza comportamental concebidos e implementados por pessoas com formações profissionais para atuar sobre outros fenômenos que não o comportamento humano. incluindo mudanças de atitudes e comportamentos.desenvolvimento. dificultam atuações futuras nesse campo. oferecia argumentos esclarecedores acerca desse tipo de "acusação". até mesmo. são selecionadas e ouvidas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque soam bem. Os riscos de implementar conceitos e técnicas psicológicas nos processos de intervenção sobre os grupos de trabalhadores sem a devida consciência do alcance das suas implicações podem constituir-se na obtenção de resultados insuficientes. trata-se de caracterizar a natureza de diferentes tipos de intervenção profissional sobre essa dimensão: a dos profissionais que podem (e devem) utilizar o que há de conhecimento mais recente e confiável na Psicologia para instrumentar sua prática e a dos psicólogos que têm na dimensão humana o fenômeno que caracteriza e justifica a sua atuação profissional de forma central. Skinner (1983). porém. um de seus principais ícones. No entanto. como conseqüência. é possível afirmar que a probabilidade de sucesso da intervenção de um profissional com apropriados conhecimentos relativos ao comportamento humano é alta. Não significa. Não se trata de restringir a atuação dos profissionais de outros campos de atuação no que diz respeito à dimensão humana do processo de segurança (isso não seria possível). Ainda sobre os obstáculos. na influência sobre o desequilíbrio emocional dos participantes do processo. Para o exame aqui apresentado. Um livro inteiro poderia ser produzido somente apoiado no debate acerca de intervenção sobre o comportamento x manipulação de pessoas. é suficiente citar Skinner . na ausência de alterações nas situações de intervenção. afirmar que esses profissionais realizarão intervenções equivocadas. na provocação de situações contrárias aos objetivos propostos (fortalecimento de resistências) e. Intervenções dessa natureza deixam para trás um "rastro" de resistências e descrenças para com esse tipo de proposta e.

Para ele. 21): “ . estou mais preocupado com interpretação do que com previsão e controle". por si só. com certeza. mas ainda há muito a ser feito. o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação. temperatura). A Noção de Comportamento Humano Quando se trata de prevenção de acidentes. crenças e traços de personalidade). complementada e inter-relacionada com os fatores ambientais.(1983. relação com colegas e supervisores. entre outros. o mundo seria diferente. fatores pessoais e comportamentais representam a dinâmica humana da segurança ocupacional. as normas e os procedimentos de trabalho da atuação concreta dos trabalhadores? Quem pode oferecer tal resposta? Geller (1994). Autores como Dejours (1999) e Davies e Shackleton (1977) afirmam que o homem é o elemento relativamente estável do processo. ferramentas. Tal premissa já é. pois de nada adianta capacete de última geração se o trabalhador não souber ou não quiser colocá-lo (adequadamente) em sua cabeça. ao referir-se a uma cultura de segurança total. pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos. fatores pessoais (atitudes. destaca três domínios que requerem atenção para que a segurança seja um valor em uma organização: fatores ambientais (equipamentos. legais e organizacionais foram alcançados. as orientações dadas nos treinamentos. ferramentas. desarticuladora da idéia de manobrar as pessoas para onde bem se entende sem que elas possam participar com suas próprias opiniões e seus próprios anseios. normas e procedimentos.. necessariamente. Se isso fosse fácil e possível. sendo o meio caracterizado como máquinas. Mais do que a ação visível de uma pessoa. Essa é uma das grandes interrogações do mundo da segurança: o que separa os equipamentos modernos. p. principalmente com relação aos aspectos humanos dos processos de segurança industrial. A utilização da análise do comportamento e suas possibilidades como recurso para o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa. O comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo . grandes avanços relativos a aspectos ambientais. fatores comportamentais (práticas de segurança e de risco no trabalho).. tecnológicos.

os resultados relevantes de um comportamento são todos aqueles que podemos relacionar com prevenção. as suas ações perante a realidade e as decorrências de sua ação. a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois. criando uma outra realidade. 1996). que influem sobre a probabilidade do comportamento ocorrer no futuro. como resultado da ação (Botomé. permite afirmar que um profissional. p. ao agir levando em conta esses três elementos.(ou junto com ela). Podemos chamar de comportamento todo o processo de inter-relação entre as variáveis. o tipo de comportamento desejável em segurança é aquele que possui como resultado a não ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. Uma análise do comportamento de prevenção (um estudo das variáveis que afetam o comportamento em exame) significa identificação das variáveis contingentes às respostas do organismo relacionadas aos riscos presentes. A figura 1 apresenta as relações possíveis entre os componentes de um comportamento. Figura 1 Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento o conjunto de relações possíveis entre o que um organismo faz e o ambiente (anterior e resultante da ação) no qual ele faz Situação O que acontece antes ou junto à ação de um organismo Ação Aquilo que um organismo faz Consequência O que acontece depois da ação de um organismo FONTE: Botomé (2001. 2001). Entender o comportamento como uma relação entre a realidade de inserção de uma pessoa. as relações de influência recíproca que se estabelecem entre elas e o que aconteceu como resultado desse processo. Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? . que elevam ou que reduzem as probabilidades de ocorrerem acidentes de trabalho. considerando-se as situações. Em segurança. Identificar e analisar aquilo que interfere na ocorrência dos comportamentos de trabalho podem ser uma maneira de conhecer as relações funcionais existentes. tem maior probabilidade de gerar resultados relevantes por meio da sua atuação no trabalho (STÉDILE. 697). Dessa forma.

2004). de um grupo ou de uma organização. normalmente. como afirma Skinner (1983. Tal entendimento de que comportamento é algo que existe.Nas discussões no âmbito da segurança no trabalho. os comportamentos relacionados com a segurança também são considerados como determinados por múltiplas causas. e os agentes envolvidos (si mesmo e o outro). a noção de ato inseguro como forma de referir-se aos aspectos comportamentais em segurança. torna pouco recomendável a utilização da expressão ato. pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro. o que já revela a existência de uma tendência de iniciar-se a análise tomando como ponto de partida o erro. pois ela remete o exame somente aos fatores externos ou observáveis do comportamento. para si e para o outro (BLEY. O chamado comportamento de risco poderia. excluindo os demais fatores também constituintes do fenômeno. a relação entre tempo da ação e tempo do resultado (presente e futuro). 23). Dessa forma. oferecendo a essa análise um caráter compatível com seu nível de complexidade (que é grande). individual e coletivo desse comportamento. o resultado objetivado para o comportamento (redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis). internas e externas ao indivíduo. ser definido por meio da relação com sua conseqüência. ao mesmo tempo. então. utiliza-se. Deveria esse ser chamado de ato seguro? O comportamento seguro de um trabalhador. os aspectos do meio que devem receber intervenção (os riscos da atividade). O conceito de comportamento como conjunto das relações entre o que um organismo faz e o meio em que faz permite avançar no entendimento da dimensão comportamental da segurança no trabalho. os adjetivos . Essa definição é útil à medida que contém em si as principais propriedades do comportamento que produz como conseqüência a não ocorrência de acidentes. garantindo-se o caráter. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. Há dificuldade em pesquisar sobre a noção de comportamento seguro devido à escassez de produções (científicas ou não) que tratem do que se entende por lado oposto do ato inseguro. dentro e fora da "pele de cada um de nós". p. São elas: os verbos que indicam as ações que devem ser realizadas (identificar e controlar). que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influência que exerce sobre as mesmas variáveis. ao mesmo tempo. aquilo que não se deve fazer.

é dito que ele comportou-se de maneira insegura. BOTOMÉ. Tal compreensão permite examinar a possibilidade de prevenir danos (acidentes e doenças) à saúde como um processo. Se ele subestimou o tamanho do buraco. É possível exemplificar esse processo: quando um motorista desafia. Assim. 62). O conceito de risco está associado à relação entre a freqüência da exposição e as conseqüências que podem ocorrer em função da exposição (CARDELLA. atitude preventiva. ele está se comportando em relação ao perigo (buraco). caiu no buraco e teve seu veículo avariado. 1999). Se ele evitou passar pelo buraco. teme ou evita um grande buraco na estrada. é possível considerar que ele comportouse de maneira segura. a finalidade do comportamento que recebe o adjetivo seguro. negligência e imprudência são algumas das expressões comumente utilizadas para qualificar os comportamentos próprios e impróprios das pessoas diante dos mais variados perigos. Ato inseguro. enfrenta. Figura 2 Graus das condições de segurança de um comportamento Seguro Inseguro Graus de Segurança do Comportamento FONTE: adaptação da autora a partir do esquema de graus das condições de saúde de organismo (REBELATTO. Esse exame permite utilizar os adjetivos seguro e preventivo para referir-se a comportamentos que resultam na redução da probabilidade de algo indesejável acontecer. 1999. P. controla. . O fator de risco de uma atividade pode ser concebido como a representação de diferentes graus de exposição de um indivíduo a um agente perigoso ou como a probabilidade de ocorrência de conseqüência indesejável ser reduzida. os adjetivos seguro e inseguro podem ser entendidos como aspectos do comportamento de "trabalhar" de um sujeito (figura 2). Evitar o acidente de trabalho é.seguro e inseguro podem ser vistos como graus da segurança de um mesmo comportamento. em última análise. o que significa dispô-los num continuum que pode variar do mais seguro ao menos seguro (ou de risco). e o resultado dessa ação pode caracterizar o risco ao qual ele foi exposto. cuida. dizendo "ele é bem menor do que parece". e não como uma ação fixa.

é preciso posicionar o anteparo entre o centro gerador da fagulha e os olhos para que o resultado aconteça: olhos protegidos de corpos estranhos. Não basta estar de posse de um anteparo para impedir que as fagulhas produzidas por uma máquina atinjam os olhos do operador. Nesse exemplo. o ser humano desconsidera a possibilidade de influir sobre a prevenção dos acidentes. as quais podem envolver a disponibilidade e a adequação do maquinário. Ao desconsiderar a possibilidade que o homem possui de influenciar nas variáveis que elevam a probabilidade de ocorrer acidentes. em decorrência dessa concepção. e não um destino divinamente traçado. Sob essa raiz. assim como em outras atividades consideradas arriscadas. Não se trata de culpar o trabalhador da ocorrência de acidentes. Risco significa a combinação da probabilidade e da conseqüência de ocorrer um evento perigoso especificado. diretamente. extinta. o risco pode ser examinado como uma opção do ser humano. a dimensão comportamental do trabalho seguro pode influenciar nos diferentes graus de segurança possíveis para o trabalhador. cujo significado resume-se em ousar. Identificar e rearranjar os aspectos envolvidos permitem agir sobre os determinantes dos problemas antes que eles aconteçam para que não aconteçam. definição que permite encobrir o exame dos aspectos humanos envolvidos e pode significar a ênfase nos aspectos de natureza estatística dos riscos. . dessa forma. isto é. A segurança no trabalho como área de conhecimento seria. Ações de controle são realizadas por empresas e profissionais da segurança para que a probabilidade de ocorrer acidentes seja reduzida ao mínimo possível. os procedimentos de trabalho e também o tipo de relação que o trabalhador estabelece com os perigos inerentes à sua atividade. das condições de trabalho. No entanto. Essa compreensão traz à tona a influência decisiva do homem na exposição ao risco e contraria o senso comum da vitimização do homem. Bernstein (1998) afirma que a palavra risco é uma derivação italiana antiga para risicare. muitas das ações de controle necessitam da participação das pessoas para serem efetivas.Essa exposição depende. Isso poderia significar que o homem não exerce poder sobre os graus de segurança das suas atividades. mas de identificar os níveis de influência que as pessoas envolvidas na realização de uma atividade arriscada exercem sobre as ocorrências na intenção de tornar possível a reorganização das variáveis presentes. é possível dizer também que. para prevenir acidentes. que o remete a um papel desprovido de qualquer participação na ocorrência indesejável. as decisões organizacionais.

o comportamento de evitar é fortalecido. Em última análise. pois o ruído é um sinal de que poderá haver uma explosão. com pessoas significativas ou visto por meio de fotos e vídeos). a não ocorrência do aversivo (danos à saúde causados por acidente) tende a enfraquecer. é possível afirmar que a ameaça de sofrer acidentes pode ser útil para evitá-los quando o comportamento do indivíduo está sob controle do acidente ocorrido (com ele. ferindo-o gravemente. realmente. na empresa em que trabalhava anteriormente. Tal fenômeno pode ser representado pelas tradicionais comemorações por período sem acidentes. A seguinte situação pode exemplificar a possibilidade de aplicar o exame do conjunto de relações descrito pelo autor ao exame do problema dos comportamentos para segurança do trabalho. uma seqüência de acidentes ocorre. evitar a situação aversiva. Um colega que trabalha num outro equipamento ao lado orienta-o para que desligue imediatamente o aparelho. gradativamente. Ao testar o equipamento após a intervenção. ainda.Ao sistematizar os conhecimentos provenientes da Análise do Comportamento sobre o que ele chama de reforço negativo condicionado. Dias após o bolo e os balões decorativos. no qual já realizou reparos em outras oportunidades. Considerando a análise sobre a resposta de evitar. ajudará a evitar outros em condições semelhantes. plano de ação para evitar que . percebe um ruído grave e baixo. reiniciando o ciclo de investigação. Por outro lado. originado da parte inferior do equipamento. O colega sabe disso porque. feita por Skinner (1967). O autor ressalta. se houver um estímulo (um sinal) que precede uma situação desagradável. Skinner (1967) explica que. possivelmente. Pode-se dizer que o ruído ajudou o trabalhador a evitar um acidente naquele momento e. um funcionário havia sofrido um acidente ao realizar reparos num equipamento semelhante quando um ruído semelhante ocorreu e foi seguido de uma explosão. que o contato com o estímulo aversivo (sofrer acidente) pode recondicionar o poder do estímulo anterior (ruído grave e baixo) e fazer com que o organismo volte a comportar-se de forma a evitar o contato com o aversivo. o indivíduo pode perceber o sinal e agir para evitar essa situação. O trabalhador desliga o equipamento e retoma os reparos para que o problema que causou o ruído fosse descoberto e resolvido. a ocorrência da resposta (desligar o equipamento) que. Um trabalhador de manutenção realiza um reparo num equipamento. não ocorrer o acidente (como decorrência de evitálo de forma efetiva) enfraquece o comportamento de evitar. eleva a probabilidade do aversivo (danos à saúde causados por acidente) ocorrer. Se o indivíduo fizer isso e. o fato de. por sua vez. o que faz com que o ciclo· repita-se. repetidamente.

P. uma vez que as duas noções costumam ser utilizadas como sinônimos. ao ser aplicado ao estudo da segurança no trabalho. o da ocorrência de acidentes com funcionários que foram submetidos a muitas horas de treinamentos de segurança e até o do insucesso de campanhas e programas na redução da quantidade de acidentes ocorridos nas empresas. ed. prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência. visto que não seria possível obter o mesmo tipo de conseqüência de forma duradoura por meio do processo de evitar. 2. a fim de impedir sua ocorrência. O verbo reduzir. principalmente por ser este um dos principais paradigmas do campo da saúde e da segurança no trabalho. S. pode representar a capacidade de influenciar na probabilidade do acidente ocorrer de forma a torná-la menos provável. mesmo em graus mínimos. . entre elas a natureza estatística. Por isso. é adequado afirmar que esse tipo de comportamento tem como propriedade definidora a sua capacidade de reduzir (e manter baixa) a probabilidade de acidentes para o indivíduo. Conhecer as relações que compõem o ciclo analisado possibilita a interpretação de fenômenos como o da alternância entre períodos com e períodos sem a ocorrência de acidentes nas empresas. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e perspectivas profissionais. Assumindo a análise dos aspectos que compõem o processo de evitar como ponto de partida. A comparação permite afirmar que o processo de redução parece ser mais apropriado como propriedade definidora do comportamento seguro em função da semelhança que apresenta em relação às características definidoras da noção de risco. j. São Paulo: Manole. parece importante examinar aquilo que tem sido considerado como prevenção. Analogamente. nem todas as 3 REBELATTO.. Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? A característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. em função das propriedades que foram descritas. 1999.ocorra novamente etc. R. Considerando que o comportamento seguro ocorre na presença de riscos. BOTOMÉ. Ao tratar de forma detalhada da causalidade circular que define o comportamento preventivo. é possível identificar a necessidade de diferenciá-lo do que significa o processo de reduzir. que tem como um dos significados "tornar menor".

procedimentos. Promoção de melhores condições de saúde existentes. p. tratar. 1996) sistematizaram os diferentes tipos de atuação profissional possíveis em relação aos graus de condição de saúde apresentados. reabilitar. e não apenas em relação aos problemas ou suas conseqüências.formas de atuar sobre os graus de saúde de um organismo podem ser chamadas de prevenção. São eles: atenuar. Ao proporem essa definição. compensar. redução) de danos produzidos nas condições de saúde dos organismos Recuperação (eliminação) de danos produzidos na qualidade das condições de saúde dos organismos. Sua representação pode ser examinada na figura 3. 48) Conforme pode ser examinado na figura 3. 1996) permite visualizar equívocos e acertos nos processos utilizados para gerenciar os acidentes de trabalho. prevenir. Prevenção da existência de danos nas características das condições de saúde. Conhecer os tipos de atuação propostos por Rebelatto e Botomé (STÉDILE. o que muda o foco de atuação: do problema existente (o acidente) para fatores que alteram a probabilidade da sua ocorrência (dispositivos de segurança. prevenir implica em agir em relação aos determinantes dos problemas. empresarial e de intervenção profissional (entre as diferentes especialidades do campo da saúde e da segurança no trabalho) sustenta-se por meio do . Reabilitação (limitação. FONTE: Stédile (1996. reabilitar. uma vez que grande parte das empresas afirma fazer prevenção em segurança apenas calculando taxas de freqüência de ocorrências e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. Figura 3 Tipos de atuações profissionais possíveis Atenuar Compensar Reabilitar Tratar Prevenir Manter Promover Atenuação do sofrimento produzido por danos definitivos nas condições de saúde dos organismos. compensar e atenuar. As distorções naquilo que se entende como prevenção podem implicar importantes conseqüências para os resultados de treinamentos e palestras que têm por objetivo ensinar a prevenir. EPIS. Compensação dos danos produzidos nas condições de saúde dos organismos. Manutenção de características adequadas nas condições de saúde. Rebelatto e Botomé3 (STÉDILE. É possível afirmar que grande parte das estratégias de prevenção adotadas em nível governamental. tais procedimentos são mais condizentes com os tipos de atuação tratar. supervisão no caso da segurança no trabalho). manter e promover.

ser considerado um processo comportamental e aprender representa a possibilidade de ocorrerem comportamentos significativos para a segurança dos trabalhadores.paradigma da doença e do acidente. Correndo o risco da generalização. Uma das conseqüências disso para a segurança comportamental foi uma ênfase nas iniciativas muito mais caracterizada pela descoberta e correção dos comportamentos inadequados do que pela identificação de suas causas e capacitação dos trabalhadores e dirigentes para gerar um ambiente de trabalho saudável Essa mudança de paradigma é necessária e urgente. também. é relevante examinar a importância do processo de ensino-aprendizagem para a prevenção dos acidentes de trabalho. Se prevenir acidentes pode. e não da saúde. pode-se considerar que o campo da saúde e da segurança tem se especializado mais em morte do que em vida. .

quanto para outros países do mundo: o acidente de trabalho. a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (SIPAT) com suas palestras e campanhas educativas e até o curso de formação para membros da Comissão Interna para a Prevenção de Acidentes (CIPA). Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho. É certo que a prevenção dos acidentes e das doenças ocupacionais é a principal via de acesso à mudança deste que se configura como um verdadeiro problema de saúde pública tanto para o Brasil. efetivamente. Isso evidencia uma crença coerente dos profissionais do campo da segurança e dos legisladores na importância do papel da educação na melhoria das condições de saúde dos trabalhadores à medida que o processo oferece a possibilidade real de promovê-la. é possível afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho. compreender o que. precisa ser ensinado e aprendido. algumas ações educativas obrigatórias (para algumas organizações) como o curso de integração de novos funcionários na empresa.O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção Se a educação não pode tudo. é necessário. É possível encontrar. além da forma como isso pode ocorrer. alguma coisa fundamental a educação pode (Paulo Freire). A educação para a saúde e a segurança é uma das tradicionais estratégias utilizadas em políticas públicas e programas de prevenção de doenças e acidentes relacionados ao trabalho como meio de capacitar trabalhadores. para si e para os colegas com os quais trabalha. antes. . no texto das leis que tratam da prevenção de doenças e acidentes. À luz do conhecimento produzido sobre o comportamento humano.

distração. tais fenômenos estão associados a outros na construção do cenário de um acidente. Kienen e Wolf (2002. Tão utilizada e com tantas finalidades que se torna raro chegar a um nível de análise em que os debatedores perguntem a si mesmos: Afinal. Para que seja possível. compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado. É certo que.. em muitos casos.Mudança de Comportamento Uma expressão é bastante comum nos debates acerca de aspectos humanos relativos à prevenção de acidentes de trabalho: mudança de comportamentos. o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação. Ao examinar a importância do comportamento humano para a formulação de objetivos organizacionais. pois isso constitui um aspecto básico para administrar comportamento humano. o que se observa nas considerações feitas sobre as causas humanas é à forte presença de explicações orientadas para aspectos internos ao indivíduo: falta de percepção de risco. que são externos ao organismo (estão do lado de fora da pele de cada um). uma vez que eliminam a possibilidade de considerarem-se os aspectos externos ao indivíduo. podem ser: • interpessoais: relacionamento com colegas. alterando o resultado desse comportamento. elas restringem o exame dos aspectos comportamentais. é necessário identificar as variáveis das quais o comportamento é função (aspectos internos e externos ao indivíduo que mantém aquele comportamento) e criar condições para que as relações existentes entre elas possam ser reorganizadas. sentimento de pertencer à equipe. abalo emocional. o que realmente significa mudar comportamentos? É possível criar um treinamento ou um evento que mude os comportamentos das pessoas? Para Botomé (2001. p. consiste em estabelecer novas relações entre um organismo. imprudência. 700). 19) afirmam a necessidade de: . o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais. estabelecidas entre as variáveis. com liderança. reorganizar as relações que. falta de cuidado. falta de atenção. isto é. . superar a crença de que as principais variáveis determinantes do comportamento são internas e identificar as variáveis ambientais mais significativas para alterar o comportamento. Por outro lado. mas que também influenciam no comportamento. Normalmente. Tais aspectos do comportamento. negligência. p..

obtém a redução da probabilidade do evento ocorrer. no momento seguinte. é preciso examinar de que forma e em que contexto essas estratégias têm sido utilizadas. piso. o que caracteriza a complexidade e a diversidade das variáveis que podem influenciar nos comportamentos das pessoas no trabalho. peças de teatro são exemplos de estratégias utilizadas com a finalidade de influenciar na conduta do trabalhador com relação à segurança no trabalho. A mudança de comportamento em segurança pode ser entendida como uma alteração naquilo que o trabalhador consegue produzir na interação com seu meio. aos comportamentos relativos à segurança. Essa mudança ocorre em razão da reorganização das variáveis das quais o comportamento é função. jornais. códigos disciplinares. mas em função do resultado que produzem (aprendizagem) para seus participantes. uma vez que não podem ser consideradas eficazes em si. o que pode ser decorrência de modificações nos equipamentos. como conseqüência do seu comportamento de trabalhar. nas normas que regem as atividades e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização com o propósito de prevenir a ocorrência de acidentes de trabalho. valores e tradições culturais. na organização do trabalho. políticas motivacionais. equipamentos. sócio-culturais: condições de vida da população que compõe o grupo de trabalhadores de uma organização. Se um indivíduo obtém. originou-se a busca por mecanismos capazes de mudar os comportamentos das pessoas de modo que eles passassem de condutas pouco seguras para condutas muito seguras na realização das atividades. Muitas tentativas de modificar os comportamentos no trabalho podem ser inúteis se os aspectos do ambiente organizacional não forem considerados. da tarefa a ser desenvolvida: tempo e recursos compatíveis. hábitos regionais. A discussão sobre métodos eficazes de modificar comportamentos não esteve restrita somente ao mundo do trabalho. Palestras. de gestão: sistemas de gestão. Por outro lado. Da necessidade de administrar o comportamento humano para evitar os acidentes de trabalho (e da complexidade que isso representa). também. feiras. metas. treinamentos. é possível dizer que esse indivíduo mudou seu comportamento. essa análise aplica-se. . alta probabilidade de ocorrer um evento indesejável (acidente) num momento e. mas também aos movimentos sociais.• • • • ambientais (ambiente físico): iluminação. cursos. normas e procedimentos.

Conhecer e respeitar as regras de segurança é importante. Se essa mudança for relativamente permanente. nem contribuir para o acidente dos colegas. educadores dividem-se nas opiniões acerca do que deve ser aprendido pelos trabalhadores para que sejam capazes de não se acidentar.políticos. diminuem as chances de ele sofrer outro acidente? Como fazer para que todos cumpram as normas de segurança? Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos A idéia do acidente como expressão da qualidade da relação indivíduo-meio evidencia a análise do comportamento humano como uma alternativa para identificar e analisar aquilo que influencia na capacidade de um trabalhador prevenir a ocorrência de danos à sua saúde. é possível dizer que houve aprendizagem (CATANIA. o que caracteriza mudança de comportamento. acontece no campo da segurança: Após quantos atos inseguros flagrados eu devo advertir um funcionário? Se deixar de promover o acidentado a um cargo melhor. No entanto. religiosos e à educação dos filhos: A palmada educa? O castigo é menos traumático? É útil passar pimenta nos dedos para deixar de roer unhas? Esses são questionamentos que pais e educadores fazem até hoje. Ao terse a obediência como objetivo de ensino. em alguns casos. 1999). mas fazê-lo desprovido de análise pode ser tão arriscado quanto não cumprir as regras. Da mesma forma. pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando (indispensável para poder se comportar considerando os riscos presentes) e até no . A maior parte dos instrutores e participantes de treinamentos de comportamentos seguros estudados por Bley (2004) afirma ser cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa. o que deve ser definido como aprendizagem necessária para que tal capacidade seja desenvolvida? Cumprir regras? Seguir normas e procedimentos? Tomar decisões seguras? Antecipar-se aos problemas? Todas as possibilidades juntas? Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia. Instrutores. gestores. os trabalhadores tornaram-se capazes de realizar suas atividades de forma mais segura. Dessa forma. objetivo principal da capacitação para segurança. passa a ser possível organizar o ensino de forma a fazer novas sínteses comportamentais.

de Lao Tsé a Paulo Freire. Assim posto. no caso das multas. Quando o efeito passar. Em nome da modificação do comportamento do trabalhador. ao observar-se atentamente a realidade. mas sim de um equilíbrio saudável e importante entre autoridade e liberdade (caminho do meio). desaprovação. a fazer escolhas com relação a elas. p. O adequado equilíbrio entre a ocorrência de comportamentos controlados por regras e de comportamentos modelados por contingências parece ser um arranjo mais indicado quando se trata de comportamentos preventivos (Skinner. nem as multas acabaram com as infrações de trânsito. defendido por sábios e cientistas. o comportamento punido tende a recuperar a freqüência antiga. no caso da prisão. Multas. desvalorização são exemplos comuns no dia a dia e existem com o objetivo de acabar com a ocorrência de determinado comportamento não aceitável – excesso de velocidade. penitências. castigos. passando por cursos e treinamentos. isso revela . Entretanto. necessariamente. ao observaremse as práticas mais difundidas nas organizações para esse fim. o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência e do controle. que vão da difusão de informações às medidas disciplinares. por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade. o trabalhador tende a colocar o equipamento na presença do técnico e a retirá-lo tão logo perceba que o mesmo não está mais presente. foram (e são) tomadas providências de diferentes naturezas. prisão. No caso de um técnico de segurança advertir duramente um trabalhador que não esteja utilizando protetor auricular. ela pode não ser permanente. o qual pode ser chamado de punição. assaltos. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa. podendo até levá-la a níveis mínimos mas. Isso significa que ensinar o trabalhador a tomar decisões por meio de escolhas conscientes e de qualidade é tão importante para a educação para a segurança quanto deixá-lo ciente das regras que precisam ser seguidas. é possível perceber a forte presença de um mecanismo de controle bastante comum na nossa sociedade. censura. 294). Entretanto. Isso acontece porque a punição influencia na diminuição da freqüência do comportamento. 1980. a existência das prisões não fez reduzir a criminalidade. ao longo do tempo.prejuízo da sua atuação com relação à criação de meios mais seguros de trabalho devido ao faro de estar condicionado a um único conjunto de regras. Também não se trata de baderna e subversão. considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam.

que requeira providências imediatas. frustração e revolta. Avaliar a utilização de punição sob o aspecto da baixa eficiência na mudança de comportamentos não significa que esse mecanismo não tenha função no processo de segurança. não é aconselhável a utilização desse procedimento no cotidiano do trabalho porque. na qual seja necessário evitar alguns comportamentos que representem alta probabilidade de acidente. o uso desse sistema de controle pode ser recomendável devido ao poder de suspender imediatamente algumas condutas. como emergências.outro aspecto importante sobre a punição: há uma tendência a fazer efeito somente na presença do agente punidor. e seus efeitos temporários são conseguidos com tremendo custo na redução da eficiência e felicidade geral do grupo. em longo prazo. a punição realmente não elimina o comportamento de um repertório. falhas e paradas de equipamentos. a fim de que seja possível a preservação da integridade das pessoas envolvidas. 113): . se for situação atípica. Como é possível ensinar alguém a se proteger de algo que não existe (acidente não existe até que aconteça)? Uma das formas é criar um sistema de reforço de comportamentos com base no que a Análise do Comportamento chama de . além das desvantagens da punição como agente de controle e modificação de comportamentos. pode gerar raiva. é preciso fazer isso sempre considerando e resguardando a dimensão ética do que o fato representa. Conforme Skinner (1967.. Da mesma forma. pode reduzir a espontaneidade e a criatividade. Entretanto. a fim de que ele continue não existindo (o acidente). no exemplo. submeter os trabalhadores a situações de tal natureza pode gerar efeitos indesejáveis como aumento da ansiedade e do medo. Advertir uma pessoa ou proibir sua entrada em determinado local onde há perigo é claramente diferente de agredi-la (verbal ou fisicamente) por não ter utilizado uma máscara de proteção contra gases. por exemplo. ou se for qualquer outra situação de elevado potencial de risco. Ser capaz de comportar-se de forma a reduzir a probabilidade de que um acidente aconteça é o objetivo maior de uma proposta de segurança com ênfase no comportamento humano. p. Para que isso seja possível. É evidente que só se justifica tal procedimento quando outros recursos de segurança não tiverem se mostrado eficazes para impedir a ocorrência de um comportamento que represente ameaça iminente às condições de saúde de uma pessoa.. Se a situação for considerada crítica. do técnico. é necessário que as pessoas aprendam à trabalhar considerando algo que não existe.

consultores) avalie e discrimine os aspectos que compõem as contingências (sistema de relações que facilitam ou dificultam a manutenção de comportamentos) e que poderão contribuir para que isso aconteça. elimina a possibilidade de agir antes que aconteça. por si só. A conseqüência de um comportamento efetivamente seguro é que nada acontece. mas que não se aplica à análise da prevenção porque consiste em eliminar um estímulo aversivo que já está ocorrendo e que. pois requer que a instância promotora da mudança (gerências. é improvável que se consiga conhecer e controlar as variáveis mais apropriadas para estimular comportamentos preventivos como campanhas. pois afasta o organismo da probabilidade de sofrer conseqüências indesejáveis. Pode ser observado quando um comportamento tem como conseqüência um estímulo que o reforça e passa a ocorrer com mais freqüência. Sua utilização na criação de condições para a ocorrência de comportamentos desejáveis (no caso da segurança. naquele grupo. Na esquiva. Catania (1999. os comportamentos capazes de prevenir) é possível à medida que são conhecidas as conseqüências capazes de reforçar tais comportamentos. pois ele não sofreu as conseqüências desagradáveis do acidente (lesões. programas motivacionais. que é uma premissa do processo de prevenir. pois é caracterizado pela apresentação de um estímulo reforçador ao organismo enquanto que o negativo consiste na remoção de um estímulo reforçador.reforço negativo do tipo esquiva. Um outro processo estudado pela Análise do Comportamento que pode influenciar na ocorrência de comportamentos é o reforço positivo. o que reafirma a educação como eixo central do processo de prevenção. Essa possibilidade justifica a . sofrimento). 121) afirma que isso pode explicar por que medidas de segurança e outros procedimentos preventivos não são modelados naturalmente com muita freqüência. Apesar de ser um procedimento que tende a ser duradouro. a ausência do evento afeta o comportamento de forma a torná-lo mais permanente. sem uma profunda e minuciosa análise de todos os fatores que influenciam no comportamento daqueles indivíduos. códigos de valores e conduta. O processo de fuga (em Análise do Comportamento) só é possível quando se trata da análise das causas de acidentes e doenças que já ocorreram. dor. Ou seja. nesse sistema de mudança de comportamentos. p. É diferente do reforço negativo. a não ocorrência do acidente aumenta a chance do indivíduo comportar-se de forma segura novamente. Uma outra forma de reforçar negativamente um comportamento é aquilo que pode ser chamado de fuga. estabelecê-lo representa um elevado grau de dificuldade. profissionais de segurança.

e criar condições pessoais e organizacionais para que ele torne-se o agente do seu processo de segurança. pois não é obra do acaso). O problema é que. aquilo que estimula comportamentos seguros em uma pessoa pode não estimular a mesma conduta em outra. elogios e diplomas de reconhecimento são considerados como recompensas a priori. partindo-se do pressuposto que esses tipos de conseqüências influenciam na ocorrência de comportamentos desejáveis para todas as pessoas. . Bernardo (2001). vale a máxima de que cada caso é um caso. Isso pode (e deve) ser estabelecido tanto no âmbito dos programas de formação. Conhecendo com profundidade os valores. construção coletiva de regras. descobriu evidências de que a empresa utilizava recompensas com o objetivo de fazer com que todos se comportassem da forma como ela estabelecia ser a adequada. isto é. em muitos casos. sem que isso lhe pareça aversivo. A Análise do Comportamento já descobriu (SKINNER. 1967. é possível construir (ou adaptar) um conjunto de ações mais coerentes. os prêmios. e não um expectador. 1999) que um determinado estímulo que é reforçador para o comportamento apresentado por um organismo pode não exercer o mesmo tipo de influência sobre o comportamento de outro. envolvendo estimulação de condutas desejáveis. O ajuste das estratégias às características de cada grupo é eficiente uma vez que. difícil ou desagradável. comemoração de conquistas como a de períodos sem acidentes (reconhecendo como foram construídas. limitação (de forma saudável e cuidadosa) de condutas indesejáveis. após realizar um estudo sobre as representações dos trabalhadores de uma indústria química sobre acidentes e contaminações. CATANIA.utilização de recompensas por líderes e organizações na tentativa de estimular os funcionários a conduzirem suas atividades com segurança. quanto no dia-a-dia de trabalho para que seja possível fazer com que a busca pela mudança de comportamento não fique restrita às paredes do centro de treinamento. as necessidades e as características do público a ser gerenciado. Tal aprofundamento na análise permite alcançar o objetivo de tornar o indivíduo mais bem preparado para lidar com os riscos das suas atividades. quando se trata de comportamento humano.

o trabalhador aprende que não se deve intervir na máquina quando ela está . reduzir o volume e investir na qualidade da estratégia e do instrutor podem produzir resultados mais significativos. Do outro lado das estratégias educativas. mas uma pequena parte. as políticas e estratégias do negócio. algo poderá ser aproveitado. realização do curso. Na sala de treinamento. É muito comum organizações contarem com um baixo nível de eficácia de suas ações educativas. Se o processo de capacitação for concebido com base no tipo de trabalho a ser desenvolvido e em seus respectivos riscos. a natureza do processo produtivo. em treinamento. caminhão é diferente de carro. É a antiga (e ainda sem solução) incoerência entre teoria e prática. trata-se da vida real. mas isso nem sempre ocorre por má qualidade dos cursos ou dos instrutores. conforme aquilo que foi ensinado em sala. Expor o aprendiz às contingências que estarão presentes nas situações com as quais terá de lidar no exercício profissional eleva a probabilidade desse aprendiz atuar conforme os objetivos comportamentais que orientaram o planejamento do ensino (BOTOMÉ. Não é o que acontece quando existem caminhoneiros participando de um curso de direção defensiva elaborado para taxistas. É necessário que o processo de levantamento de necessidades. a baixa eficácia das ações de educação está relacionada com a incompatibilidade que elas têm com a cultura e o clima da organização. auditório). 1977). o estilo de liderança e de relações de poder estabelecidos na organização. Trânsito é trânsito. planejamento do ensino. é ter clareza da importância de educar no cotidiano. Essa análise permite questionar a utilização de carga horária de treinamento por ano como indicador de desenvolvimento de pessoas. Certamente. na prática. as características do vínculo empregatício. os exemplos seguidos. no que se referem ao comportamento humano. Tão importante quanto educar em espaço diferenciado (sala de treinamento.Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade As estratégias de aprendizagem e a melhoria das condições de segurança de uma indústria precisam ser concebidas. com base nas situações concretas com as quais o trabalhador precisa ser capaz de lidar. estão a cultura da organização. ocorra em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional. mas estrada é diferente do centro da cidade. Quando o propósito é garantir a aprendizagem do participante. isto é. Normalmente. o trabalhador terá mais condições de agir. aplicação do conhecimento desenvolvido.

A aprendizagem é caracterizada pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. Segundo os autores. criticar e intervir sobre a sua realidade de trabalho. 1999). é ele a vítima da lesão ou do acidente decorrente dessa ação. mas não usa por quê? Por que razão um sujeito ultrapassa uma barreira de isolamento e entra. só desta vez. esta. No lugar da ênfase nos conteúdos. Ao examinar o planejamento e a execução de eventos promovidos com o objetivo de capacitar os trabalhadores para atuarem de forma preventiva. deveriam orientar-se para a construção de uma consciência crítica que proporcionasse ao trabalhador uma maior capacidade de compreender. A partir do momento em que os aspectos externos ao indivíduo forem considerados como parte integrante daquilo que chamamos comportamento. é caracterizada pelo que o aluno é capaz de fazer em seu meio. diz que é importante.ligada. porém. sem máscara de ar. mesmo após ter assistido a uma palestra sobre o assunto? A característica educativa de uma determinada ação está relacionada a uma intenção de ensinar e a um objetivo final de que o público de interesse (o aluno) aprenda algo. pouco efetiva no desenvolvimento de competências. transformando-a. seu supervisor pressiona para ele fazer um reparo com a máquina funcionando mesmo. aprenda a prevenir acidentes de trabalho. é possível afirmar que os recursos educativos utilizados para ensinar os trabalhadores a realizarem suas atividades com segurança só poderiam ser assim chamados quando verificada a ocorrência de mudanças no comportamento dos trabalhadores em relação aos riscos das suas atividades. recebeu óculos de proteção. Partindo do princípio que a mudança de comportamento é um dos indicadores da ocorrência de aprendizagem. . por sua vez. em decorrência do fazer do professor. ao retomar às atividades. pois não há tempo e a produção tem que ser entregue a qualquer preço. ensinar consiste na relação entre o que o professor faz e a efetiva aprendizagem do aluno. é possível identificar a influência de modelos da educação escolar e a ênfase na transmissão de conteúdos e informações. os programas de educação em SST. nesse caso. num equipamento impregnado de gás tóxico. no Brasil (se estivessem preocupados com o ensino de comportamentos preventivos). Botomé e Kubo (2001) defendem que ensinar (o que o professor faz) e aprender (o que acontece com o aluno como resultado do fazer do professor) são complexos processos comportamentais intimamente inter-relacionados. É uma pena que quem acabe pagando o preço seja o próprio trabalhador. será possível começar a desvendar algumas inquietações prevencionistas do tipo: Por que não cumpriu com os procedimentos de segurança? Foi treinado.

como sendo sinônimos de objetivos de ensino ou de coisas que os aprendizes precisam ser capazes de fazer após o processo ensino-aprendizagem. Em muitos casos. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. A resposta mais imediata aponta para os instrutores de treinamento. agrícola. informação. comercial. orientadores de carreira. na informalidade. Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional Quando se trata de educação para a prevenção no ambiente de trabalho (industrial. O equívoco reside em considerá-las como sendo eficazes por si só. mas também no trânsito. conhecimento e troca de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. especialistas. os diálogos de segurança. indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. não é comum que se tenha clareza de quem são os educadores. autores de livros. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão da AIDS. diante de uma sala cheia. uma vez que são eles que exercem atividades de ensino que mais se assemelham àquelas tradicionalmente conhecidas. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto. até nas mesmas organizações em que foram afixados. pessoas queimadas. os treinamentos. de serviços. O que não está incorreto. . entre outros). Não há dúvida de que consciência. cumpra os procedimentos. nem sempre surtindo o efeito desejado. em pé. parecem ter sido concebidos para dar ordens ou alertar. as palestras. não só no contexto da segurança do trabalho. Mensagens como: use o cinto. escrevendo num quadro branco afixado na parede. previna-se. as abordagens de conscientização. facilitadores de processos de disseminação de informação. Dar ordens e educar são coisas diferentes. A continuidade das ocorrências da mesma natureza daquelas apresentadas nos cartazes. O significado comumente associado à função de educador ainda segue a figura tradicional da professora de crianças pequenas.Quanto aos tipos de objetivos de ensino. Somente nas últimas décadas é que o entendimento acerca da figura do educador no contexto do trabalho tem sido ampliado (ainda que discretamente) para elementos como palestrantes motivacionais. no lugar de educar o seu público de interesse. como expor idéias. os cartazes e as campanhas são amplamente apresentados como ações educativas aos trabalhadores. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito à própria segurança.

Entretanto. apontando problemas e auxiliando na construção de soluções que preservem as vidas envolvidas. é possível ampliar ainda mais o conceito. é educador no contexto do trabalho todo aquele que se dedicar a favorecer o desenvolvimento pessoal e profissional daqueles que estão a ele interligados. ao tomar-se o educador por aquele que cria condições para que alguém aprenda e considerando a complexidade do contexto do trabalho. é possível identificar variáveis relevantes para a precisão do processo educativo. É preciso ter clareza acerca da complexidade do que é considerado como educar trabalhadores para prevenção em saúde e segurança para que seja possível examinar as lacunas do processo e propor meios para seu aprimoramento e sua efetividade. os equipamentos. atingindo até a "senhora do cafezinho". afirmando que há muitas formas de atuar como educador numa organização. São educadores aqueles que definem os "rumos do negócio". . a crença na experiência como sendo "vacina para não ocorrer". O primeiro ganha contornos bastante complexos quando se consideram os hábitos já sedimentados. São considerados educadores aqueles que adentram as salas de treinamento e os auditórios. desdobrando políticas e diretrizes que deverão permear toda a organização. autonomia de planejamento. necessariamente. no melhor tempo possível. e atendendo os prazos acordados. oferecendo condições apropriadas para sua realização. De início. Ao analisar as características comuns à categoria de instrutores de treinamentos e palestras de prevenção. orientando para a realização correta do serviço. influenciando e sendo por eles influenciado. assim como o são aqueles que acompanham um trabalhador na realização de suas atividades. clareza acerca dos objetivos de ensino (competências e habilidades a desenvolver). utilizando-se de exposição de slides e atividades em grupo com objetivo de desenvolver competências específicas. Em última análise. Esses fatores requerem que o planejamento e a execução do processo ensino-aprendizagem ocorram considerando-se o cuidado com variáveis específicas como: • • • formação didática do instrutor. basta afirmar que um processo que visa capacitar uma pessoa a prevenir acidentes não tem. a tradição da especialidade: "quem é da manutenção não se acidenta". as mesmas características de capacitar tecnicamente para operar uma Iixadeira. Também são educadores aqueles que definem as políticas de avaliação de desempenho das equipes.

1999). em decorrência de participar dos eventos de segurança. há uma predominância de instrutores (profissionais que coordenam as atividades educativas) com reduzida formação didático-pedagógica para exercerem a função de educadores. tempo e método de ensino apropriados aos objetivos. entre as variáveis que têm caracterizado os eventos promovidos pelas organizações com o objetivo de capacitar o trabalhador para atuar com segurança no trabalho. uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos. consonância com a cultura da organização e os interesses de ambos os atores (funcionários e direção). como o de Bley (2004).• • • • conhecimento acerca do repertório existente entre os participantes (nível de capacidade de atuar anterior ao evento). a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com aquilo que se entende por comportamentos seguros no trabalho. Estudos. A reduzida formação didático-pedagógica pode resultar na atuação de instrutores que têm sua prática baseada num misto de experiência profissional. descobriram que. algum talento para a atividade docente e a reprodução criativa de modelos de ensino-aprendizagem que experimentaram quando alunos (LIMA. . o que pode não ser suficiente para conduzir um processo ensino-aprendizagem bem-sucedido. Alguns dos equívocos verificados no estudo quanto ao processo de ensinoaprendizagem em prevenção são: indicação de meios para promoção da aprendizagem como sendo os fins. As informações apresentadas indicam a necessidade de reformular o processo de capacitação técnica. em segurança do trabalho ou outras especialidades industriais. por conseguinte. prejudicar o atendimento das demandas organizacionais que provocaram a realização dos treinamentos e das reuniões de segurança. recursos materiais e didáticos compatíveis. com grande ênfase. principalmente nos cursos técnicos em segurança do trabalho. e. Em sua maioria. são profissionais com formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou superior em áreas técnicas. pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e. A utilização de objetivos de ensino divergentes no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes. uso de expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem).

sob pena de correr o risco de proporcionar aos participantes condições de aprendizagem insuficientes em relação ao que é preciso aprender para prevenir acidentes. chegando até mesmo às conversas informais. incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho. O desenvolvimento de competências em segurança e saúde para o fortalecimento de uma cultura preventiva é um processo lento e de longo prazo que depende. que atuam como instrutores. é claro. enfraquecendo a estratégia educativa. porém. essencialmente. O instrutor que não foi devidamente capacitado para desempenhar o papel de professor pode não ser capaz de estabelecer correlação entre o que a ciência entende por ensinar e aquilo que ele faz (ministrar evento de segurança). cursos. isto é. supervisores. campanhas) construídos sobre estratégias e técnicas decididas de modo intuitivo e que perseguem objetivos de ensino distorcidos. . que alguns desses objetivos não possam ser atingidos. O mesmo ocorre com as demais categorias de educadores (diretores. já que são menos formais. Para os profissionais de outras formações e funções. Isso pode ter como conseqüência a não percepção da correlação existente entre o que representa ser instrutor de eventos de segurança e ser um agente de ensino. A preocupação com a prevenção precisa permear o processo de tomada de decisão. É preciso investir na formação didática dos instrutores (empregados e terceirizados) e no esclarecimento das tarefas relativas ao ensino de prevenção. podem ser formulados cursos específicos de capacitação para a docência.considerando a possibilidade de os alunos virem a tornar-se instrutores. mas não são menos poderosos. a reunião de análise crítica. as atitudes de cada um. de como é conduzido dentro e fora de sala. palestras. do que o ambiente de sala de aula. Escrituras orientais antigas (como as do Budismo Tibetano) afirmam que "o verdadeiro mestre é aquele que ensina com as costas". as orientações estratégicas. gerentes. aquele que ensina vivendo de acordo com aquilo que acredita e prega aos outros. Não significa. o qual pode ocasionar decorrências negativas para a qualidade e a efetividade dos eventos. o que se questiona é o baixo nível de controle das variáveis que compõem os processos de ensinar e aprender. É necessário que considerem seus processos interativos como oportunidades de ensino-aprendizagem. O resultado da falta de capacitação pode ser a realização de eventos educacionais (treinamentos. como um elemento transversal no comportamento organizacional. colegas de equipe) presentes no contexto do trabalho.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico
Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia (Michel de Montaigne). Num processo de análise e investigação de acidente de trabalho, qual é a providência geralmente indicada quando é caracterizada a influência humana como uma das causas do ocorrido? Uma vez decretada a causa do acidente, os envolvidos no evento, normalmente, têm um destino único: a sala de treinamento. Como verdadeiros instrumentos de correção, os eventos educativos têm sido utilizados na tentativa de tornar os seus participantes mais capacitados para realizar suas atividades, considerando a segurança no trabalho. Entretanto, a grande quantidade de horas despendidas em treinamentos e reuniões de segurança nem sempre demonstra correlação direta com a redução das ocorrências de acidentes verificadas nas empresas. É possível afirmar que funcionário que tenha passado pelo treinamento em segurança é um funcionário capacitado para prevenir acidentes? As formas pelas quais os eventos de segurança têm sido planejados e realizados permitem produzir os resultados objetivados? Os instrutores que ministram e coordenam os eventos de segurança estão preparados para gerenciar os processos de ensino e de aprendizagem de competências para a prevenção? Para construir respostas, ainda que incompletas, a essas perguntas é necessário identificar as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho para que esse conhecimento possa servir de subsídio para a elaboração de programas de formação e intervenção de natureza preventiva que sejam verdadeiramente educativos, éticos e coerentes com as necessidades de segurança dos trabalhadores. Diante dos questionamentos, parece oportuno um estudo orientado para identificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. Um exame dessa natureza permite detalhar os aspectos que compõem o processo ensino-aprendizagem aplicado à segurança no trabalho visto que, de acordo com o conhecimento sistematizado sobre esses fenômenos, só se pode afirmar que um

professor ensinou quando, em decorrência do fazer do professor, ocorreu a aprendizagem do aluno (BOTOMÉ; KUBO, 2001). O detalhamento das variáveis presentes no planejamento do ensino, na escolha dos temas, nos critérios de avaliação de aprendizagem, na formulação dos objetivos de ensino, nos conceitos utilizados e em outras etapas da promoção de eventos de segurança poderá oferecer decorrências para a qualidade do que tem sido oferecido como capacitação aos funcionários e também para sua efetividade como recurso auxiliar na gestão da segurança da organização. O conhecimento produzido por meio da análise de processos de ensino de comportamentos seguros permite subsidiar o aperfeiçoamento dos programas de educação, de conscientização e de mudança de atitudes frente aos riscos das atividades de trabalho e também dos profissionais envolvidos na sua realização.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança
Para a formação de um profissional, os objetivos de ensino podem ser interpretados como competências que precisam ser desenvolvidas por meio da participação do aprendiz num processo ensino-aprendizagem. As competências profissionais são definidas por Botomé e Kubo (2002) como graus da capacidade de atuar de um organismo. Sendo assim, é possível afirmar que as competências relacionadas com segurança do trabalho referem-se aos graus da capacidade de um trabalhador de controlar os riscos das suas atividades de modo a reduzir a probabilidade de sofrer acidentes. Serve, portanto, de base para a aprendizagem de práticas mais seguras de trabalho. O processo que pretende ensinar os funcionários a se comportar de forma segura parte da definição do que se entende por comportamento seguro. Em seguida, é necessário transformar as propriedades essenciais do comportamento seguro em objetivos de ensino. Isso norteará a escolha das condições de ensino mais adequadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias à construção desta competência: capacidade de comportar-se no trabalho de forma a reduzir a probabilidade de ocorrer conseqüências indesejáveis para si e para aqueles com os quais interage, ou seja, comportar-se de forma segura. Assim como as competências, as habilidades são graus de uma determinada capacidade de atuar (figura 4).

Figura 4 Noção de competência como grau da capacidade de atuar de um organismo

FONTE: Bartomé e Kubo (2002, p.89)

Os objetivos de ensino genéricos, mal definidos, geram dificuldades para a identificação das competências que devem ser aprendidas por um trabalhador e, por conseqüência, problemas para o controle das variáveis que interferem nos processos de ensinar e aprender. Os problemas podem ocorrer tanto na clareza sobre aquilo que deve ser ensinado e aprendido, quanto nas decisões sobre os métodos de ensino adequados. Instrutores que não têm clareza sobre o fenômeno que devem ensinar e alunos que desconhecem as propriedades definidoras daquilo que precisam aprender correm o risco de produzirem, juntos, uma seqüência de equívocos que pode ser perigosa quando se trata da saúde e da segurança do trabalho que realizam. Sendo assim, descobrir o que instrutores e funcionários entendem por comportamentos seguros no trabalho parece ser o ponto de partida para a proposição de enunciados que contenham as propriedades definidoras do fenômeno ao qual se referem e a formulação de estratégias de informação e ensino condizentes com a natureza do que o conceito significa.

.m instrutores e participantes. divididos em Treinamento de Comportamentos Seguros (tipo A). Foram escolhidos em função de apresentarem como um dos temas ou objetivos de ensino o comportamento seguro e de terem sido realizados entre os meses de junho e outubro de 2003. recursos. Sendo assim. os conteúdos são insumos de um processo de ensino que tem como produto a aprendizagem. período da coleta de dados. a competência de um operador de empilhadeira em carregar uma carga sem atropelar ninguém ou deixar cair a carga depende não só das informações que ele recebeu no curso técnico ou no de segurança. Os procedimentos de coleta de dados utilizados foram caracterizados por meio da análise de documentos relacionados com políticas e processos de gerenciamento de segurança das duas empresas. como é o caso dos cursos e treinamentos organizados com finalidade de conscientizar o trabalhador. As empresas foram escolhidas em função de atuarem no mesmo setor produtivo. situadas em diferentes municípios da região metropolitana de uma grande cidade do Estado do Paraná. compostos por uma unidade de ensino (encontro). necessita mais do que informações a serem transmitidas em um determinado espaço de tempo. observação direta dos eventos (condições. Ou seja. nem à dos colegas). Um Estudo sobre como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura Caracterizar as variáveis do processo de ensinar comportamentos seguros é o problema de pesquisa que orientou o estudo exploratório realizado por Bley (2004) em duas empresas do setor metalúrgico.A capacidade de atuar de maneira segura. Treinamento de Integração de Novos Funcionários (tipo B) e Reunião Semanal de Segurança (tipo C). Foram estudados três tipos de eventos de segurança. para ser "produzida". mas também do fato de ele ter aprendido ou não a operar a máquina de forma segura (sem causar dano à sua saúde. atuação dos instrutores e participação dos funcionários) e entrevistas co. Segundo Botomé e Kubo (2002). de apresentarem semelhante nível de risco e de possuírem programas e ações de gerenciamento de segurança além dos estabelecidos pela legislação. que repercutirá sobre a probabilidade da ocorrência de ações correspondentes dos alunos àquilo que foi ensinado. a competência é um grau da capacidade de atuar do operador que pode ser desenvolvida por meio de um processo de ensino-aprendizagem efetivo.

De acordo com a natureza dos processos das duas empresas. Para cada um dos três procedimentos de coleta de dados (caracterização por meio da análise de documentos. foram utilizadas fichas de registro. observação direta e entrevista). as especialidades de maior ocorrência entre os entrevistados foram manutenção elétrica e mecânica. algumas tarefas relacionadas com a manutenção industrial. 65% tinha a manutenção como função principal na empresa. Os demais ocupavam funções operacionais apesar de realizar. foram desenvolvidos protocolos de registro com base num quadro de variáveis consideradas como necessárias para responder ao problema de pesquisa. Da amostra de participantes. As categorias foram organizadas em função da distribuição das proporções nas quais ocorreram em cada uma das variáveis examinadas. Na caracterização. nas entrevistas. Os dados coletados foram tratados e categorizados em função dos aspectos necessários à caracterização das variáveis relacionadas com ensino de comportamentos seguros no trabalho. num período que compreende desde as primeiras horas após o evento educativo até dois meses depois de ocorrido. nas observações diretas. sendo quatro funcionários permanentes das respectivas empresas e um prestador de serviço. escolhidos em função deterem participado de um dos eventos. foram utilizados dois roteiros de entrevista semi-estruturados. em suas rotinas. sendo um para instrutores e um para participantes. realizarem tarefas ou desempenharem funções relacionadas com manutenção de equipamentos e manifestarem disponibilidade para ser sujeito da pesquisa durante o período de tempo estipulado para a coleta dos dados. No que diz respeito à formação. 60% apresentou formação específica para atuar como instrutores (curso de Técnico de Segurança).Dentre os sujeitos das entrevistas. As entrevistas ocorreram em diferentes momentos. Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção Quais os aspectos que merecem ser examinados para que seja possível identificar as condições de aprendizagem oferecidas aos funcionários sobre saúde e segurança no trabalho? . O outro conjunto de entrevistados foi composto por 20 funcionários das duas empresas. estavam cinco instrutores. o instrumento de coleta foi um roteiro de observação.

O que precisa ser ensinado: os objetivos de ensino No exame dos eventos de segurança estudados. em algum grau. para você. Uma das evidências disso é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os . O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de educadores e aprendizes para identificar em que medida houve aprendizagem. comportamentos seguros. comportamento seguro?". adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos sobre prevenção de acidentes. em boa parte. mas que foram operacionalizados sem considerar. tornou-se fundamental conhecer aquilo que os instrutores e também os participantes entendiam como sendo sinônimo de comportamento seguro. Isso permite inferir que os mesmos realizaram os eventos de posse de propósitos que levaram em conta a segurança. Partindo do pressuposto de que o principal objetivo de ensino de um evento de segurança com foco em mudança de comportamento seja desenvolver. responderam com expressões como: "mudar o comportamento e as atitudes". Ao comparar respostas coletadas nas entrevistas feitas com funcionários e instrutores dos treinamentos.O conhecimento produzido e sistematizado sobre o processo ensino-aprendizagem permite destacar aspectos relacionados com o planejamento e a realização das condições de ensino que tendem a favorecer a aprendizagem. A natureza dos objetivos derivados remete à mudança de comportamentos relacionados com segurança. Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. "obedecer aquilo que foi dito em sala" e "atuar com segurança na área". a segunda entre todas as concepções apresentadas pelos entrevistados e o conceito de comportamento seguro apresentado como referencial para a pesquisa. o conhecimento já produzido sobre ensino por competências e didática. Os instrutores. é possível observar (tabela 1) os resultados da análise de conteúdo das respostas à seguinte pergunta: "O que significa. houve a necessidade de derivar os objetivos de ensino do material coletado devido ao fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes (ver tabela 2). Os objetivos de ensino (competências a desenvolver) extraídos dos materiais apresentados caracterizam-se pela generalidade do que pretendem oferecer como aprendizagem aos participantes. quando questionados sobre o que os participantes deveriam ser capazes de fazer após participarem dos eventos.

ao conceito de comportamento seguro como sendo "trabalhar com cuidado e atenção" caracteriza o grau de generalidade com o qual esses trabalhadores lidam com a dimensão preventiva do comportamento de trabalhar. Funcionários (n = 20) n % 10 8 7 6 4 4 3 3 3 2 2 1 1 54 18 15 14 12 7 7 5 5 5 4 4 2 2 100 Instrutores n 0 4 2 2 1 0 0 0 0 0 0 1 0 10 (n = 5) % 40 20 20 10 10 100 O fato dos funcionários. os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores. Além disso. referirem-se. Expressões como cuidado e atenção oferecem pouca informação a respeito das propriedades essenciais do processo de prevenir acidentes considerando o comportamento daquele que executa . em nenhuma proporção. quanto por funcionários. para definir o conceito.funcionários (trabalhar com cuidado e atenção) não foi sequer indicado pelos instrutores. e isso pode causar prejuízo ao processo de capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de comportamentos seguros é divergente entre si e também está distante do conceito. em sua maioria. que participaram dos eventos de segurança. o que permite afirmar que há pouca clareza sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro. Tabela 1 Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por "comportamento seguro" Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Trabalho com cuidado e atenção Obedecer às normas de segurança Ter atitude consciente e agir com bom senso Trabalhar com foco na segurança Usar equipamento de Proteção Individual (EPI) e Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) Não cometer “atos inseguros” Saber trabalhar sob pressão e receber críticas Cuidar dos colegas Ter conhecimento técnico do trabalho realizado Analisar os riscos das tarefas Participar das reuniões e treinamentos de segurança Preocupar-se com a própria segurança e aprender com os exemplos Nunca achar que sabe tudo Total de ocorrências FONTE: Dados coletados na pesquisa.

distribuídos conforme os instrutores que ministraram os eventos e as empresas nas quais ocorreram. apresentar e expor são aspectos evidentes entre os procedimentos de ensino utilizados pelos instrutores. Como ensinar: a escolha dos métodos de ensino Na tabela 2. Diante dos termos utilizados pela maioria dos funcionários para conceituar comportamentos seguros no trabalho. os procedimentos de ensino utilizados. Por outro lado. Ainda sobre os dados da tabela 2. menor a quantidade de informações que apresenta sobre o que caracteriza o fenômeno ao qual se refere. os tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos e a verificação formal da aprendizagem derivam da observação direta dos eventos de segurança e servem para ilustrar a apresentação dos tipos de eventos estudados. Nos casos estudados. é possível perguntar: Se os aprendizes não são capazes de identificar. as unidades. a ênfase na atuação do professor em detrimento da atuação no aluno no contexto do processo ensino-aprendizagem pode significar a repetição do padrão do professor ensina. é pouco provável que os funcionários que participaram dos referidos treinamentos passem a se comportar de forma segura devido ao fato de terem participado dos eventos. Os dados relativos aos tipos de objetivos de ensino. aluno . é preciso rever o alto grau de generalidade apresentado pelos termos utilizados para se referir ao comportamento de prevenir acidentes. Portanto. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento.as tarefas consideradas de risco. para que seja possível definir aquilo que precisa ser ensinado para que o aprendiz seja capaz de prevenir. Quanto maior a amplitude da representação de um conceito. se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. na sua conduta. considerando-se a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem. os aspectos que caracterizam o trabalho seguro. serão eles capazes de comportar-se de acordo com os fatores necessários à prevenção dos acidentes de trabalho? Da mesma forma. estão apresentados os aspectos considerados importantes sobre o planejamento educacional dos eventos de segurança. A preocupação com aquilo que o professor faz no processo ensino-aprendizagem não assume conotação negativa à medida que o processo de ensinar caracteriza-se por aquilo que o aprendiz passa a ser capaz de fazer em decorrência do fazer do professor. o que evidencia a ênfase dada à atuação do professor no processo de ensino dos eventos estudados.

ser informado sobre usos adequados e inadequados de alguns EPIs. apontamentos em flip chart. forma da aprendizagem. A utilização de demonstrações de equipamentos e os breves debates parecem ser utilizados numa tentativa (que pode ser equivocada) de conferir ao evento um pouco daquilo que muitos chamam de parte prática. A participação ativa do aprendiz pode ser um importante fator de efetividade do processo. Assistir à explicação do instrutor. coordenar discussão em grupo. 2001). o que reduz a complexidade do processo de ensinar e aprender. assistir aos vídeos de segurança. enfocar ato e condição insegura Apresentar slides e comentários sobre eles. relegando ao aprendiz um papel caracterizado pela passividade (BOTOMÉ. responder às perguntas do instrutor. discutir o assunto.aprende. Não há. Apresentar temas. FONTE: Dados coletados na pesquisa Não há. Tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos Assistir a explicação. usar exemplos práticos. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. Não há. Não há. Expor o assunto. Equivocada à medida que levantar da poltrona e fazer algo que utilize partes do corpo pode não expor o aprendiz às . Integrar novos empregados. Integrar novos empregados e prestadores de serviço. demonstrar EPI. Assistir à explicação. repassar materiais para que os participantes os manuseiem. Assistir a explicação. fazer perguntas aos participantes. Verificação da Não há. Assistir à explicação do instrutor. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. Expor um caso real de acidente. apresentando informações sobre segurança. KUBO. Tabela 2 Apresentação dos aspectos do planejamento educacional observados diretamente relativos aos eventos de segurança ministrados por 5 instrutores nas empresas 1 e 2 Aspectos Empresa 1 Empresa 2 observados Instrutor 1 Instrutor 2 Instrutor 3 Instrutor 4 Instrutor 5 Tipos de objetivos de ensino que forma extraídos do material apresentado Procedimentos de ensino utilizados Corrigir atitudes e comportamentos. Apresentar slides e comentários sobre eles. experimentar EPI. apresentando informações sobre segurança. filme institucional. responder às perguntas do instrutor. elevando as chances de aplicação daquilo que foi aprendido no evento no dia a dia de trabalho. vídeos de segurança. responder às perguntas do instrutor. demonstrar uso de extintor de incêndio. ser informado sobre usos adequados de alguns EPIs.

"é decidindo que se aprende a decidir". seria preciso promover urna quantidade maior de unidades de ensino (módulos) para dar conta de proporcionar tamanho feito. o estudo permite apontar uma certa ênfase dada aos procedimentos de avaliação que ocorrem após a realização dos eventos. os objetivos de ensino e a natureza dos eventos são diferentes. p. Os instrutores sem formação técnica apresentaram maior convergência entre os objetivos de ensino propostos (competências) e a observação dos comportamentos dos participantes durante e após o evento. Como afirma Freire (1996. A comparação entre o produto final e o tempo destinado à realização dos eventos de segurança. Isso pode indicar a importância da aproximação entre os processos de identificação de necessidades de aprendizagem e de escolha dos meios pelos quais a demanda será atendida. apesar das atividades propostas pelos diferentes instrutores serem semelhantes. Sobre a avaliação da aprendizagem dos participantes. As duas categorias principais receberam as denominações comportamentos seguros e comportamentos de risco em função dos tipos de conseqüências (positivas e negativas) . Essa avaliação costuma ser feita de modo informal e utilizando critérios subjetivos. o que reduz as possibilidades de verificar a eficácia da aprendizagem em bases objetivas. fazendo com que o aprendiz finalize sua participação no evento sem que a aprendizagem daquilo que é realmente importante tenha ocorrido. pode indicar incompatibilidade com a promoção das aprendizagens necessárias à obtenção das competências que motivaram sua realização. 106). considerando-se a semelhança existente entre eles em decorrência da natureza que os caracterizava. De acordo com a quantidade de comportamentos que deveria ser aprendida para que as competências indicadas fossem desenvolvidas. Outro dado que merece destaque é que. Os exemplos coletados foram tratados por meio de análise de discurso e classificados em categorias de ocorrências. Ensinamos segurança por meio da insegurança Um exame dos exemplos oferecidos pelos instrutores durante os eventos de segurança estudados chama a atenção para o fato de que os meios utilizados para proporcionar a aprendizagem da segurança tendem a apresentar características contrárias ao seu objetivo central. o que pode indicar um baixo nível de adaptação dos planos de ensino às características do público ao qual se destina.contingências necessárias à experimentação e ao treino de condutas adequadas às necessidades de ensino que motivaram a realização do evento.

Referência a condutas inseguras. emprego. família).8 A = Treinamento de Comportamentos Seguros B =Treinamento de Integração de Novos Funcionários C = Reunião Semanal de Segurança FONTE: Dados coletados na pesquisa É possível constatar que 80% dos exemplos referem-se àquilo que pode ser considerado "comportamento de risco". família). As categorias secundárias (subdivisões das categorias principais) foram constituídas em função do exame da natureza de cada um dos exemplos coletados (tabela 3). Suposições sobre a influência de causas humanas no risco de acidentes. Ocorrência 1 4 2 1 1 1 7 6 3 2 1 2 1 1 1 1 A Correlação dos comportamentos seguros com exemplos positivos externo ao trabalho 3 1 1 1 1 B Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Independente do instrutor. Indicação de comportamentos desejáveis Evidências do compromisso da liderança com a segurança Indicação de comportamentos desejáveis C Total de ocorrência Proporção Total 8 0. Ênfase no cumprimento de normas e regras. do formato do treinamento e dos participantes. Ocorrência Comportamento de Risco Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. em detrimento de exemplos de comportamento seguro. Referências ao tratamento de problemas já instalados. amigos. os quais indicam a necessidade de apresentar comportamentos seguros no trabalho Categorias de exemplos que se referem a: Evento Comportamento Seguro Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Isso indica uma tendência à utilização de exemplos de comportamento considerado inseguro com maior freqüência. amigos.evidenciadas pelos instrutores para as condutas exemplificadas. Tabela 3 Natureza. Ênfase nas perdas que o trabalhador poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. os exemplos relativos àquilo que não deve ser feito permitem caracterizar as bases sobre as quais a capacitação dos trabalhadores . Referência a condutas inseguras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Ênfase no cumprimento de normas e regras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. emprego. Referência a condutas insegura Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos. quantidade de ocorrências e proporção dos exemplos oferecidos por instrutores durante os eventos de segurança observados diretamente. Ênfase nas perdas que o trabalha-dor poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde.20 Total de ocorrência Proporção Total 34 0. Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas.

ao examinar a esquiva (mudar o comportamento para evitar conseqüências ruins) como forma de promover mudança de comportamento. da sinalização de conseqüências negativas e da ênfase no cumprimento de regras como meios para produzir aprendizagens de comportamentos preventivos representa a utilização de modelos de aprendizagem marcados pela punição e pelo reforço negativo (fuga e esquiva). O predomínio do contra-exemplo (casos de acidentes e de condutas de risco). o que implica nas decorrências já descritas por Skinner (1967) e Sidman (2001) sobre os aprendizes. os instrutores têm utilizado a insegurança para (tentar) ensinar a segurança. o aprendiz escolheria se comportar de forma segura para evitar ser acometido pelos mesmos resultados. a comoção) da tragédia apresentada ao aprendiz (a foto de acidente. passado o efeito (o susto. que favorecem o seu comportamento de risco. Criar condições para que os participantes aprendam a comportar-se de forma segura deveria ser o foco de um evento de segurança que tem esse tipo de comportamento como objetivo e. afirmou que é alta a probabilidade de. para que isso seja possível. isto é. o reforço positivo sejam utilizados pelos instrutores. ao conhecer ou relembrar as possíveis conseqüências de um comportamento de risco. Parece oportuno . a redução da criatividade e dos níveis de felicidade do aprendiz (sente-se ameaçado) e a dificuldade do aprendiz em generalizar o que foi aprendido para outras situações devido ao caráter mecânico do cumprimento de regras. o contra-exemplo). ele retome ao seu padrão de comportamento anterior à exposição. pois as contingências presentes no seu meio de trabalho. A escolha do método de ensino implica em conseqüências significativas para aquilo que precisa ser produzido como resultado do processo de ensinar. a apresentação da conduta desejada somente mediante a presença do "agente punidor" (só cuida quando o líder está por perto). caso o propósito seja educar para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. Skinner (1967).tem sido promovida. permanecem inalteradas. com maior freqüência. é necessário que modelos de aprendizagem que utilizem. que são: a baixa durabilidade da conduta aprendida (volta logo ao que fazia antes). Isso inclui apresentar exemplos de condutas seguras em maior quantidade e proporção. Como é possível só falar de comportamentos errados num evento especialmente desenvolvido para ensinar às pessoas a maneira correta de se comportar? A observação dos exemplos apresentados nos eventos de segurança permite questionar se a utilização dessa forma de representar a importância da prevenção estaria relacionada a um tipo de expectativa por parte do instrutor de que.

esse conjunto. governo e sociedade. não esgota . para a gestão dos comportamentos em uma organização e. Conclusões do Estudo O estudo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho passou pelo exame dos meios e critérios utilizados pelos agentes do ensino. dos objetivos de ensino e da demanda a partir da qual o evento foi planejado e realizado. empresas. KUBO. As expressões e os exemplos apresentados por instrutores durante a realização dos eventos e as concepções relatadas por instrutores e funcionários em resposta ao questionamento sobre o significado do conceito comportamento seguro no trabalho evidenciam lacunas importantes para a construção de uma cultura de segurança no trabalho. apesar de complexo. É preciso considerar as características dos aprendizes e dos objetivos de ensino como ponto de partida para planejar o método e realizar o ensino (BOTOMÉ. decorrem problemas para os programas de conscientização e educação. a escolha dos recursos (didáticos. os tipos de objetivos de ensino e as características da formação dos instrutores para desempenhar a função de professor. para os possíveis resultados sociais sob a forma de prejuízos à integridade dos trabalhadores e implicações econômicas para pessoas. São formas de escolher que tendem a desconsiderar as características essenciais dos participantes.perguntar: Quais critérios têm servido como orientações para tomar decisões sobre o método que deverá ser realizado? O método escolhido é capaz de proporcionar condições adequadas à aprendizagem das competências definidas nos objetivos de ensino? A natureza dos critérios indicados revela que os instrutores. Podem ser consideradas como variáveis definidoras dos processos de planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros as informações que serviram como ponto de partida para o planejamento. 2001). de modo geral. Dessas lacunas. nesse caso instrutores dos eventos de segurança estudados. principalmente. a escolha de temas abordados e métodos de ensino. tendem a planejar o ensino escolhendo a partir de preferências pessoais. físicos e ambientais). utilizando métodos prontos ou copiados de outros eventos ou escolhendo em função das preferências pessoais. os procedimentos de avaliação da aprendizagem dos alunos. Naturalmente. para planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros. comprometendo a obtenção dos resultados esperados.

Almeida (2001) concluiu. quando são incoerentes com as competências adequadamente definidas. cumprir regras é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa se comportar de forma segura. dos riscos presentes.todas as variáveis relevantes. o planejamento e a realização do ensino. sua efetividade. do modelo de ensino que se pretende utilizar. Da mesma forma. O uso excessivo de regras. O estudo permite inferir a existência de lacunas entre aquilo que um professor precisa ser capaz de fazer para promover o ensino (competências para ensinar) e as características da formação profissional daqueles que exercem a função de instrutores . Uma das análises mais significativas para esse estudo é orientada pelo dado revelador de que aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de comportamentos seguros no trabalho apresenta divergências. tais divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. podem resultar em comprometimento da modificação das práticas de segurança dos trabalhadores ao realizar suas tarefas. Também para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco. Tais afirmações permitem perguntar: Por que se utiliza a insegurança para ensinar segurança? Quais os efeitos de se utilizar a doença como meio para ensinar a saúde? Ter o conceito de comportamento seguro como objetivo de ensino é um fator central na concepção de programas educativos focados no desenvolvimento de competências para a segurança no trabalho. esse e outros estudos têm evidenciado algumas distorções no encaminhamento dos processos de treinamento que podem acabar por comprometer. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros. ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança. No entanto. Elas podem variar em função do tipo de atividade. em algum nível. é pertinente a utilização das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros como insumo para avaliar a qualidade e a efetividade de seus programas e de suas políticas. Questionar a respeito do quê e de que forma tem sido ensinado aos trabalhadores sobre comportamentos seguros no trabalho parece ser um importante ponto de partida para as empresas na busca pela capacitação de seus funcionários em segurança do trabalho. Para os instrutores estudados. que os materiais educativos utilizados podem estimular o medo dos trabalhadores em sofrer lesões e levar à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima. de acidentes e de contra-exemplos (o que não deve ser feito) como forma de aprender confirma a inadequação de alguns dos procedimentos apresentados para o contexto do ensino de comportamentos seguros.

Tal contribuição corrobora para aferição do grau de importância que o desenvolvimento de competências preventivas pode representar para o gerenciamento das perdas. Nela. Arouca (2003). do ponto de vista da segurança industrial. é reforçada a necessidade de investimento na formação didática dos educadores para o trabalho seguro. Uma maneira de evidenciar a possibilidade de aperfeiçoamento dos serviços realizados por profissionais de manutenção. os profissionais formados em segurança apresentaram desempenhos mais próximos do que pode ser chamado de ensinar do que os profissionais sem a formação técnica em segurança. afirma que a capacitação é um elemento fundamental na determinação dos níveis de qualidade dos trabalhos realizados por profissionais da função de manutenção. Mais uma vez. É importante ressaltar que falhas e acidentes. é possível examinar um exemplo de Análise Comportamental daquilo que é entendido como sendo comportamento seguro. um profissional competente para desenvolver suas atividades sem sofrer ou provocar acidentes de trabalho tende a . no contexto da manutenção industrial. No entanto. Tanto os instrutores com formação técnica em segurança do trabalho. principalmente no que diz respeito à gestão das falhas. Em última análise. são originários das mesmas disfunções organizacionais. geralmente. também por meio da capacitação para a segurança. É possível afirmar que as propriedades essenciais que caracterizam um comportamento considerado preventivo ou seguro. O enunciado dos comportamentos intermediários apresentados (de primeiro nível) permite levantar hipóteses a respeito dos efeitos significativos que tais competências poderiam gerar no gerenciamento de aspectos considerados como sendo técnicos da lida com as falhas e as perdas em manutenção.dos eventos de segurança. ao discorrer sobre a importância estratégica da manutenção para a competitividade das empresas. quanto os funcionários de operação e manutenção que ministraram eventos e não tinham formação em segurança apresentaram desempenhos considerados incompatíveis com aquilo que já é conhecido em didática e programação de ensino. é apresentada na tabela 4. tanto humanas quanto de processo e de equipamentos. ao comparar os dois grupos. constituído com objetivo de identificar as competências intermediárias que poderão servir de ponto de partida para o planejamento do ensino desse tipo de competência para a realização de uma atividade de manutenção de equipamentos. são fortemente semelhantes àquelas que definem um comportamento preventivo no que diz respeito ao funcionamento de um equipamento ou processo produtivo.

. Comunicar descobertas feitas sobre a execução de tarefas no que se refere aos comportamentos seguros envolvidos nessas tarefas. exatamente. FONTE: Dados coletados na pesquisa Conhecer como acontece o ensino da prevenção é importante para que as organizações possam desenvolver estratégias que contribuam para aumentar a efetividade das intervenções educacionais. para si e para os colegas"). contribuindo para a construção de padrões comportamentais de alto nível no que diz respeito à segurança e para uma humanização das condições de trabalho oferecidas. perdas. Tabela 4 Exemplo de Análise Comportamental para derivação de competências intermediárias que servirão de base para o planejamento do ensino de comportamento seguro numa atividade de manutenção de equipamento Competência geral que precisa ser ensinada Comportamento Seguro ao realizar manutenção de equipamento (Definido por "ser capaz de realizar a atividade de forma a reduzir a probabilidade de acontecer conseqüências indesejáveis no futuro. O planejamento dos programas de treinamento e de comunicações de natureza preventiva precisaria levar em conta não só o conhecimento já produzido sobre a área e as normas que o trabalhador deve . podem favorecer a transformação de um discurso sobre prevenção em uma realidade. Botomé e Kubo (2001. torna-se possível a revisão de propostas antigas e a produção de novas propostas de ensino que oportunizem ao trabalhador condições de aprender aquilo que é essencial à preservação da sua integridade e também da produção. constituir o que é alvo (ou objetivo) do ensino (ou de ensinar). e essa capacidade pode. Competências intermediárias (primeiro nível de análise) Maximizar as condições de segurança no planejamento de uma tarefa a ser realizada Executar uma tarefa planejada com segurança Avaliar o processo de execução da tarefa em termos de seus riscos e os comportamentos apresentados em relação a eles. um processo de humanização está assentado na capacidade de uma pessoa interagir com seu meio.. Estas se forem somadas às mudanças organizacionais e até governamentais.experimentar alta probabilidade de conseguir reduzir as chances de provocar erros e falhas decorrentes de suas ações. Aperfeiçoar execuções de tarefas a partir da avaliação feita. 148) consideram que: . falhas). o que caracteriza o processo de capacitação em segurança como sendo vantajoso também para a atuação técnica dos profissionais de manutenção e para seus resultados no âmbito da organização. A partir da identificação do que é importante para a melhoria da qualidade do ensino e da contribuição dos processos educativos para a prevenção de acidentes (erros. p.

assim. é educar para a vida. e não só com a quantidade de informações que o indivíduo é capaz de armazenar. Competência tem a ver com capacidade de agir no mundo. desenvolvamse como pessoas e como profissionais. Criar condições para que os trabalhadores aprendam e. é torná-las capazes de pensar. as características regionais que extrapolam os muros da fábrica e.cumprir. as situações com as quais ele lida no cotidiano e que constituem. ao mesmo tempo. . sua atividade e sua ameaça. e não só para o trabalho. sentir e agir em prol de uma cultura promotora de saúde e qualidade de vida. principalmente. como também os aspectos presentes na cultura e no clima de segurança da empresa.

bem como a sofrer acidentes. com o fenômeno chamado percepção de risco. tal evolução trouxe novas conseqüências em forma de ganhos e perdas para sua sobrevivência. o homem inovou e produziu ferramentas e instrumentos que. o desenvolvimento das habilidades sociais e dos aspectos cognitivos diferenciou o Homem das demais espécies. permitiram o alcance do objetivo almejado. seria inapropriado descrever as vantagens que a eletricidade trouxe para nossas vidas. Por isso. Na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. logicamente. temos conforto. aumentou também o risco a sua existência. A única "ferramenta" reduzia-se ao seu próprio corpo. Como veremos a seguir. Hoje.ODILON CUNHA JR. aproximadamente. como o desenvolvimento de ferramentas. há um número maior de ocorrências relacionadas a descargas elétricas do que havia 200 anos atrás. quatro bilhões de anos. por um lado. inicialmente. aliás. praticidade. Devido a esse fato. devido ao aumento das fontes que podem lesar o homem e da convivência dele com novos perigos. Há quatro milhões de anos. Em contrapartida. Entretanto. por outro. o Homem teria outra opção na mesma situação: enfrentar o predador. reduzindo a escala. conseguia confundir o predador e permanecia intacto. uma de suas defesas era a paralisação inconsciente: ficava imóvel frente o predador. na maioria das vezes. quatro milhões de anos. Com isso. Percepção de riscos Trabalhar com segurança é uma luta diária contra a natureza humana (Scott Geller). teremos uma breve existência do homem em relação ao nosso planeta. Outro exemplo contemporâneo é a eletricidade. em situações nas quais ele passava a ser a caça. Nota-se que. suas caças eram animais de menor porte. houve avanços tecnológicos. após sua domesticação. Nota-se que. notadamente seus membros superiores. também "criaram" novas situações e novos cenários que podem o levar a adoecer. . equipamentos e materiais. o homem não produzia ferramentas que o auxiliassem a sobreviver no seu dia-a-dia. e a espécie humana surgiu há. O interessante é que. Segundo historiadores. feridos e até mesmo doentes. o primeiro sinal de vida na Terra surgiu há. proporcionalmente. diretamente. essas evoluções relacionam-se. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das ferramentas. mais ou menos.

para controlar o movimento básico de seu próprio evolucionismo" (MARX. Karl Marx afirma. por parte da sociedade. na maioria das vezes. levando-se em consideração os perigos e riscos existentes. No início do século XIX. os primeiros indícios de ações prevencionistas remontam à Europa do século passado. torna-se possível uma administração harmônica dessa convivência praticamente inevitável. o risco. no Brasil. duas novas classes sociais caracterizaram as sociedades pósrevolução industrial: a classe dos patrões e a classe dos trabalhadores. os primeiros passos . que "essa legislação foi a primeira tentativa deliberada e sistemática. deram início aos grandes processos de industrialização. Na América Latina. após o nascimento da revolução industrial.A questão é a seguinte: é imprescindível compreender a relação do homem com suas atividades. para proteger os seus interesses. homem e perigo. substituindo o trabalho humano pela máquina. Logo após. lançada com o aparecimento da primeira máquina de tear e marcada pela invenção da máquina a vapor (em 1781) por James Watts. p. a revolução industrial espalhou-se pela Europa Ocidental e. especialistas e empresários. em seu livro O Capital. por parte dos trabalhadores. A Prevenção ao longo dos Tempos Segundo Kletz (2002). desembarcou nos Estados Unidos da América. mais especificamente à Inglaterra. técnicos. 1983. 121). Nesse meandro. os primeiros sinais das ações prevencionistas foram motivados pelos movimentos sociais iniciados na década de 20. as massas trabalhadoras foram exploradas. surgiram leis de segurança social e foram introduzidos o trabalho sistemático e a legislação fabril. Após esses acontecimentos. o alto número de acidentes do trabalho resultou na união dos trabalhadores com algumas autoridades. Com isso. que prosseguiram até nossos dias. devido às ações conjuntas entre governo. país onde o movimento prevencionista radicou-se e desenvolveu-se. bem como da resultante da relação. que se enfrentavam direta e individualmente. As profundas alterações tecnológicas provocadas pela revolução industrial que se iniciou em 1760. atravessando o Atlântico. na Inglaterra. não existindo qualquer organização. Juntos. sejam elas laborais ou não. Assim. firmaram bases e iniciaram campanhas sociais com o intuito de melhorar as relações de trabalho. Isto é prevenir. pagando o custo social da mudança.

um assalto. irracionalmente. por exemplo. é a realidade. Não se pode generalizar. jamais desrespeitaria algo que pudesse causar lesões a si mesmo. quando os pais ensinam seus filhos que aquilo reluzente chama-se fogo e que faz "dodói". Somente em poucos momentos. A partir daí. ou melhor. uma questão social de extrema importância: a formação do trabalhador. do século XX. A Natureza Humana e a Segurança Apenas para "engrossar mais o caldo". momento em que todos os nossos sentidos estão em alerta máximo. O instinto faz parte de nossa natureza e ajuda-nos muito diante de situações desconhecidas ou até mesmo frente a situações de extrema exposição. as crianças começam a aumentar o repertório de informações relativo àquele fenômeno. assim. na década de 30. No entanto. ainda. por instinto. as lideranças questionam sobre o que leva o trabalhador a quebrar uma norma ou desrespeitar um procedimento operacional. o fator complicador é que até em universidades ou cursos técnicos acontece o mesmo. de experiências sociais. Enfim.prevencionistas surgiram com a criação do Ministério do Trabalho. na maioria dos casos. deve-se entendê-lo como racional e parte de um processo educativo e. Vale destacar. É interessante que a mesma pergunta pode ser feita sobre outras situações cotidianas e rotineiras: Por que atendemos celular enquanto estamos dirigindo? Por que atravessamos a rua fora da faixa? Por que não lemos os manuais antes de operar novos equipamentos. não se pode confundir o instinto de sobrevivência com o processo educativo de segurança e prevenção. o ser humano assimila um número . sendo otimista. Com o passar dos tempos. mesmo sabendo das conseqüências dessa atitude? Obviamente. caso segurança fizesse parte de nossa natureza. o cenário preventivo é abalado ainda mais· se levando em consideração tal apontamento. Nota-se que são recentes os acontecimentos relacionados com a prevenção de acidentes no Brasil. até mesmo de segurança. em relação ao aspecto segurança. o assunto prevenção. permite compreender a importância do assunto Percepção de Risco para as lideranças e organizações. em sã consciência e saúde mental. Na verdade. é tratado em sala de aula nas escolas. por exemplo. mas sabe-se que. Seria uma resposta instintiva a essa contingência. o ser humano. por isso. Inúmeras vezes. seja ligado ao meio ambiente ou à segurança do trabalho/do lar. segurança faz parte da natureza humana? Esta questão completa a análise do contexto e.

o homem está emitindo comportamentos e. Dessa forma.fator fisiológico. potencializando o risco de sua atividade. sua empresa está passando por um momento difícil . visão). Veja o exemplo: um motorista vem para o trabalho gripado .fator cognitivo.maior de informações e dá significados e valores diversos. por meio dos quais os dados de realidade são recebidos e imbuídos de significado. do qual desconhece os procedimentos de operação . Fica claro que quaisquer alterações nesses fatores tendem a alterara acuidade perceptiva do ser humano. No momento em que coloca esses conhecimentos adquiridos em prática. Por ser um fenômeno psicológico. dos fatores podem acontecer simultaneamente. a seguir são apresentados alguns conceitos técnicos importante para a continuidade dessa discussão.fator psicossocial. olfato. Por falar em risco. equilíbrio emocional etc. o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. a posição hierárquica. as experiências passadas. fatores cognitivos: conhecimento da tarefa. ingestão de remédios etc. Sensação e Percepção Segundo Bley (2004). clima de trabalho. entre outros fatores que podem compor a percepção humana. por ventura. conhecimento operacional e técnico. a tendência é que a percepção do trabalhador em relação à tarefa que vai realizar esteja distorcida. positivas ou não. gustação. No caso. a formação. independentemente de qual for. a percepção é um processo psicológico pelo qual as pessoas organizam suas impressões sensoriais e. . Segundo Huczynski e Buchanan (1991). fatores fisiológicos: sono. interpretando-as. ele começa a trabalhar com um novo equipamento. autoconfiança. é essencial lembrar que a percepção das pessoas varia de acordo com a idade. audição. com o intuito de prevenir que algo indesejado ou desagradável ocorra. O processo de receber e converter os estímulos externos é chamado de sensação. buscam dar sentido ao ambiente. análise de riscos. orientações da liderança etc... alimentação. sintomas físicos. já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção. atitudes seguras. É interessante salientar que as influências. categorizamos em três fatores: • • • fatores psicossociais: tempo de serviço.

Veja o exemplo: algumas pessoas estão em uma sala de reunião. a palavra relata a probabilidade de um resultado. Há . Risco e Ser Humano Antes de apresentarmos algumas definições. a relação entre o homem e o perigo não poderá existir. em outras regiões ou países. Para o Brasil. Em grego. deve-se entendê-lo como a relação entre o homem e o perigo. utilizando computadores ligados à eletricidade. enquanto que. O interessante é levar em consideração o fator cultural. significa algo que lhe foi dado (por Deus) e do qual você tirará proveito. mas desfavorável ao indivíduo. Em latim. há risco. quando se fala de risco pressupondo o sistema industrial. altura. a conotação cultural da palavra risco é negativa. risk possui associações negativas bem definidas. minimizar os riscos. veículos. O mesmo acontece em relação a risco de vida. e não apenas mudar a definição porque. No entanto. Logo. sendo adequados. Se a relação existir. danos ou lesões. pressão hidráulica. mesmo que mínima. O francês risque tem significado negativo. que quer dizer que o paciente está mal e prestes a falecer. todas as instalações estão em perfeitas condições de uso e respeitando as normas em relação ao uso e manuseio de fontes elétricas. visto que o brasileiro não fala que tem risco de ganhar na loteria. ainda assim haverá o risco. estes e outros termos serão apresentados a seguir. em árabe. é importante salientar que muitos autores não fazem distinção quando tratam de termos como risco e perigo. independente da existência de equipamentos de proteção. uma derivação do árabe risq. Perigo: deve ser entendido como uma fonte que pode levar o ser humano. Para eliminar o risco. mas pode possuir conotações positivas. possuindo um significado de algo inesperado e favorável ao indivíduo. para outras culturas. sem risco. sem imposições positivas ou negativas. sejam elas laborais ou não. riscum conota algo também inesperado. Se o homem trabalha com ou na presença do perigo. mesmo sendo bem gerenciada. e sim que tem chance. tratam e dão outros significados a palavra risco. em inglês. o meio ambiente ou até mesmo os materiais a sofrerem perdas. o máximo que poderão fazer é mitigar. normas e procedimentos. não há atividades humanas. de organizações com o intuito ligado a Segurança do Trabalho. Portanto. máquinas rotativas. eletricidade. o que ocasiona graves problemas de desvios de compreensão e comunicação. ou acidente e incidente. isso seria entendido como possibilidade de viver. a palavra risq.Perigo. Por exemplo. bem como suas conseqüências. ou melhor. Risco: segundo Ansell e Wharton (1992).

2004): Acidente do Trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho. portanto. pelo serviço de trabalho de segurados especiais. pluricausal e revelador de disfunção. Apenas para ratificar o texto citado. a serviço da empresa. que interfere ou interrompe o processo normal de uma atividade. como conseqüência. mas trata o acidente como algo inesperado. tem-se um conceito que leva em consideração aspectos materiais. deixa de lado uma perspectiva do meio ambiente e de perdas materiais. utiliza-se este conceito sobre acidentes industriais: o acidente de trabalho deve ser entendido como um fenômeno complexo. incidentes e desvios. Conceito prevencionista de acidente do trabalho: é qualquer ocorrência não programada. Enquanto houver o ser humano trabalhando com ou na presença do perigo. sempre haverá risco de descarga elétrica. Acidentes. Devido a essas possibilidades de melhorias. danos materiais e lesões ao homem. como não existem sistemas industriais infalíveis. permanente ou temporária. porque justificam a necessidade das organizações em trabalhar a percepção de risco dos seus trabalhadores. Incidentes e Desvios A continuidade desse capítulo solicita que se compreendam ainda estes outros conceitos: acidentes. vale salientar que o conceito de risco só é válido na presença da possibilidade de falha de um sistema. o acidente não pode ser evitado. e que traz como conseqüência perdas materiais. não se pode evitar algo inesperado. ambientais e/ou humanas. Com isso. considerada como um sistema sócio-técnico aberto. Conceito legal de acidente do trabalho: conforme o Artigo 19° da lei 8. ou seja. ou ainda. isolada ou simultaneamente. Esse primeiro conceito tem o objetivo de apontar o acidente para instituições governamentais. sempre haverá risco. inesperada. desarmonia ou desequilíbrio na empresa.risco de descarga elétrica? Sim. trazendo. provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte. Sendo assim.213/91 da Legislação Previdenciária (BRASIL. . Agora. logo. Na sala. há pessoas trabalhando na presença da eletricidade. a perda ou a redução da capacidade para o trabalho. há risco.

Ao longo dos tempos. mesmo os desvios são atos ou situações abaixo de um padrão e que já aconteceram. atribuindo-lhes significado. identificar e tratar os incidentes. apontadas por Ansell e Wharton (1992) mostraram que os acidentes poderiam ser evitados. em função do padrão de funcionamento e do seu repertório adquirido. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa de identificar os perigos e reconhecer os riscos. inicialmente. Segundo Bley (2004). pesquisas de Henrich. ou seja. no lar. . ou seja. Na verdade. A Percepção de Risco Segundo Jackson e Carter (1992).. Uma vez que esses limites de estabilidade sejam violados. Entretanto. existe um novo fato que deve ser pesquisado e entendido para que haja formas e estratégias para evitar que aconteçam os desvios. no trânsito. norma ou procedimento estabelecido. Os conceitos foram apresentados nessa ordem por uma importante questão. Desvio: é um ato ou uma condição abaixo de um padrão. dos indicadores que precedem a falha do sistema. bastava. não se manifesta em sua plenitude. No entanto. não é mais uma base. o sistema tenderá a falhar. os danos resultantes desse evento não são percebidos a nível macroscópico. 1930. apesar de possuir potencial para causar danos. seja no trabalho. mas sim uma variável que compõe o conceito de comportamento seguro: a percepção de risco. O interessante é como tais classificações são preventivas em relação aos incidentes e às ocorrências com perdas. Mais tarde. ou racional. somente consegue funcionar satisfatoriamente dentro de certos limites específicos e característicos. como das características cognitivas e fisiológicas do indivíduo. pelo elemento humano. e Bird Jr.Incidente ou quase-acidente: é um acontecimento que. bem como o processo decisório que deve ser desencadeado a partir dessa observação. todo sistema tende a ser homeostático por natureza e tolera certos níveis de desordem. surgiu o conceito de desvio como a nova base da prevenção. e não há sistemas infalíveis. mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo. dependem tanto do seu conhecimento sobre o sistema. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. 1966 e 1969. A percepção.

melhor é a sua capacidade de interpretação. Esse fenômeno ocorre. e nunca aconteceu nada". e a escolha pelo significado terá como apoio relevante os fatores cognitivos e fisiológicos. Tornar humano algo material é algo bastante estudado pela filosofia e está na moda. na busca de explicar do que se tratava aquele estímulo. As lixadeiras. Quando a experiência torna-se um Equipamento de Proteção Individual (EPI). com pessoas já experientes e que reproduzem discursos como: "Sempre fiz assim. Voltando ao exemplo citado. a capacidade de percepção de riscos das pessoas varia ao longo do tempo. em segurança do trabalho. Quando o ser humano recebe outras informações. todavia. por fim. que possui odor semelhante ao de ovo podre. Contudo. pode significar grande probabilidade de acidente devido à exposição descuidada. um trabalhador visita. o organismo deu o seguinte significado: ovo podre ou mau cheiro. as respostas poderão ser adequadas ao cenário vivenciado. pode não passar de um mau cheiro. na maioria das vezes. quanto maior o repertório do trabalhador. o ser humano terá mais uma possibilidade de interpretação. a mais conhecida é o excesso de autoconfiança do trabalhador. uma refinaria de petróleo e sente o cheiro de ovo podre ao andar pela área. Por exemplo.Por se tratar de um processo que sofre interferência do nível de saúde. trata-se de um gás extremamente tóxico e letal. Temos inúmeros . basta algum descuido. uma única situação poderá apresentar diversos significados. ainda. jamais elas deixaram de ser perigos. é o fenômeno chamado coisificação. deixar de levar em consideração os fatores cognitivos e fisiológicos já citados. existem algumas situações específicas que também interferem na percepção. depois de informado que há presença de um certo gás no processo. e diante da situação. não sabendo disso. Não se pode. a eletricidade ou a altura "nem imaginam" há quanto tempo pessoas trabalham com ou na presença delas e. do conhecimento. Isso faz com que o risco real seja diferente do risco que foi percebido pela pessoa o que. sua capacidade perceptiva. conheço muito bem as ferramentas com que trabalho". ou seja. Analisando-se a situação: o odor veio do ambiente externo e. via nariz (sensor). do estado emocional. ele aumenta seu repertório e. É incrível como os seres humanos tentam humanizar as ferramentas e os equipamentos com que trabalham. Com isso. "Tenho 20 anos de estrada. e o contato pode acontecer. da atenção. pela primeira vez. Os perigos "não ligam" para a existência humana. pode-se afirmar que o risco foi potencializado. Assim sendo. Supondo que o trabalhador não tenha recebido ainda informações a respeito dessa situação. chegou ao cérebro.

desde que ela não extrapole e distorça a capacidade do ser humano em identificar os perigos e reconhecer os riscos que sua atividade oferece. Em última análise. Dessa forma. o mercado está ansioso. O desafio de elevar e tornar estável a percepção de risco dos grupos de trabalhadores é parte integrante do conjunto de esforços possíveis para a promoção da saúde das pessoas e das organizações. deve-se entender que a alta percepção de risco é apenas a base para que o trabalhador comporte-se de forma segura. apenas a compreensão não basta. ou seja. A experiência do trabalhador é de suma importância. tais como: a empresa está doente. Existem casos em que os indivíduos identificam os perigos. com uma intervenção ética e coerente. quando estamos falando de segurança. mesmo assim. . técnica e operacionalmente. tais como os aspectos da natureza humana. A questão é que. Nota-se que é de suma importância o conhecimento profundo sobre os perigos e riscos. podemos ter a perda de vidas.exemplos. No entanto. as deficiências na educação para a prevenção e o interesse (nem sempre presente) das organizações em investir na preservação da integridade global dos indivíduos que as compõem. ser pró-ativo. Esse desafio só será vencido quando as ações prevencionistas estiverem organizadas de tal forma a trabalhar. a coisificação interfere de forma negativa e. sua atividade. torna-se possível identificar situações nas quais o trabalhador esteja exposto e. em virtude da pressa. como conseqüência. optam por burlar regras e procedimentos. o indivíduo deve colocar em prática seus conhecimentos. junto aos possíveis obstáculos do processo. além de conhecer muito bem. gerenciar os cenários e ambientes antes que ocorram as situações desagradáveis. a partir disso. reconhecem os riscos e. da preguiça ou até mesmo do desconforto. os riscos deverão ser sempre compreendidos.

remuneração. A primeira pesquisa de que se tem registro. sem vantagens e probabilidades. Informações como o tom da voz das pessoas. entre outros. a metáfora do clima. o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino. . independente dos outros elementos citados. Quantas pessoas. possibilidades. o que mostra que tal tema tem sido pesquisado há pouco tempo. com uma forte intensidade. em suas casas. alimentação.JULIO CÉZAR FERRI TURBAY Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança Sem números. Sem números. em seus locais de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. comunicação. médias e pequenas organizações buscam alternativas para medir o clima organizacional ou a ambiência. nos meios organizacionais. benefícios. Vázquez (1996) aponta que as primeiras investigações de clima estão datadas da década de 30 do século xx. não há vantagens nem probabilidades. por ser considerada uma importante fonte de indicadores de aspectos humanos. Há muito tempo. sobre clima e cultura de segurança. essa metáfora vem sendo utilizada. foi realizada por Dov Zohar no ano de 1980. incluindo o item segurança e saúde no trabalho. para o sistema de gestão. principalmente com as contribuições de Kurt Lewin. o risco é uma questão de pura coragem (Peter Bernstein). suas expressões faciais e mesmo o tema que discutem podem ser indicadores claros de como anda o clima em um local. Grandes. Clima de Segurança: História e Conceito É comum que as pessoas utilizem. propondo as hipóteses citadas a seguir. em suas igrejas. O fator clima mostra. sistemas de reconhecimento.de crescimento na empresa. pensam: "O clima aqui não está legal". o nível de satisfação das pessoas e a percepção que elas têm em relação a diversos elementos como liderança. a) Trabalhadores que pertencem a uma mesma empresa terão percepções compartilhadas em relação à segurança de seus locais de trabalho. em suas experiências pessoais. Zohar (1980) tem como proposta desenvolver um conceito de aplicação prática e teórica. Em sua investigação. como preferem algumas empresas. e ainda hoje. Isso seria a formatação inicial do conceito de clima de segurança. ao entrar em um lugar.

1) Importância dos programas de treinamento focados em segurança. 7) Efeitos do comportamento seguro no status social de cada um dos trabalhadores. 2) Atitudes da alta direção da empresa em relação à segurança. 6) Status dos encarregados de segurança ou do setor de segurança. Ressalta-se que essa pesquisa não propõe somente a confirmação do modelo proposto por Zohar. 3) Efeitos do comportamento seguro na carreira profissional. Essas dimensões serviram como ponto de partida para todas as demais pesquisas realizadas posteriormente. considerando o mesmo período. de forma diferenciada. mas tenta verificar as diferenças de percepção do clima de segurança em amostras que haviam sofrido acidentes e que não haviam sofrido acidentes. química e metalurgia. Os resultados obtidos refletem oito dimensões possíveis para a compreensão do clima de segurança. divididos em dois grupos: 225 que não tinham registros de acidentes no último ano de trabalho e 200 que haviam sofrido algum tipo de acidente no trabalho. além de propor uma delimitação adequada do tema de clima de segurança. utilizando uma amostra com um total de 425 trabalhadores norte-americanos. realiza correlações entre os distintos setores de cada tipo de empresa. 3) Risco físico dos empregados. 5) Efeitos do ritmo do trabalho sobre a segurança dos trabalhadores. Essa hipótese estaria relacionada com as características de segurança de cada empresa. Brown e Holmes (1986) põem à prova o modelo de Zohar. 1) Preocupação da alta administração pelo bem estar dos empregados. . 8) Status dos comitês de segurança. Zohar (1980) utiliza uma amostra de 400 trabalhadores israelenses de indústrias dos setores de alimentação. 4) Nível de risco no lugar de trabalho. 2) Atividade da alta administração para dar resposta a tal preocupação. Os autores concluem que há uma importante diferença na percepção do clima nos sujeitos pesquisados e propõem que as investigações de clima deveriam levar em consideração aspectos metodológicos que entendessem a percepção das duas amostras. Esses autores reduzem os fatores a serem pesquisados de oito para três.b) O clima de segurança pode variar de menos favorável a mais favorável. É importante ressaltar que o autor. Em sua pesquisa.

com o objetivo de desenvolver instrumentos que permitiriam um diagnóstico do clima de segurança nas empresas. utilizando uma amostra de 384 trabalhadores da área de construção civil. além da polêmica teórica sobre a melhor representação da dimensão do conceito. o qual relacionam à percepção das ações positivas empreendidas pela empresa em relação à segurança. 2) Compromisso dos trabalhadores.Por sua parte.. . as pesquisas assumem um caráter mais prático e costumam relacionar o clima de segurança a outras variáveis psicossociais. Na primeira dimensão. Os anos 80 do século XX estiveram marcados pelas pesquisas relacionadas com a determinação de dimensões possíveis para o clima de segurança. Os resultados obtidos pelo método de análise fatorial mostram uma solução com dois fatores. 3) Indiferença dos trabalhadores em relação à segurança. Islas e Meliá (1992) partem de um conceito mais restrito. 2) Preocupação dos trabalhadores em relação aos perigos no local de trabalho. este enfoque analítico da medição do clima de segurança pretende confeccionar um instrumento diagnóstico valioso para determinar elementos de intervenção para melhorar a segurança e prevenir acidentes de trabalho e suas conseqüências (OLlVER et ai.. levando em conta as dimensões a seguir. A partir do ano de 1994. estão presentes fatores como: percepção dos trabalhadores em relação às atitudes dos diretores a respeito das práticas seguras e da segurança dos trabalhadores. P. Oliver. 1) Compromisso da alta administração. Dedobbeleer e Bèland (1991) põem à prova o modelo de Brown e Holmes. 1992. percepção do nível de controle que tem o trabalhador sobre a segurança em seu posto e a realização de encontros regulares sobre segurança. Propõem a utilização do clima de segurança de maneira mais operacional. percepção dos trabalhadores sobre os comportamentos do supervisor. 1) Responsabilidade da empresa pela segurança. estão presentes elementos como: percepção dos trabalhadores acerca do potencial de exposição aos acidentes. Na segunda dimensão.163). Como citam os autores: . Tomás. NISKANEN (1994) relata três novas dimensões para o clima de segurança. a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e instruções e procedimentos de segurança. aos riscos presentes no ambiente de trabalho.

e avaliar as diferenças entre as percepções dos trabalhadores e seus supervisares. construção. ações dos gestores em segurança. cita: . propõem que se analisem tanto os aspectos de ordem grupal. Cheyne. desenvolvem uma investigação com uma amostra de 915 sujeitos ingleses e franceses. Cree e Kellowae (1997) analisam o clima como um indicador da percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais. .Niskannen (1994). central de reparos etc. Utilizam uma amostra composta por 21 equipes de trabalho e 222 sujeitos da indústria química. Como conceito de clima de segurança. em empresas do setor petrolífero. apresentam três fatores: o processo grupal. 241). utilizando 1890 trabalhadores e 562 supervisares. Os autores concluem que há uma importante relação entre o clima de segurança e os comportamentos de risco.) e como estas podem ser induzidas pelas políticas e práticas que as organizações impõem sobre seus trabalhadores e supervisores (p.. Com relação ao aspecto individual. o clima de segurança. em uma pesquisa sobre os fatores que influenciam os comportamentos inseguros nos acidentes de trabalho. Cox. Isla e Díaz (1997) desenvolvem um conjunto de medidas para avaliar as atitudes em relação à segurança e ao clima de segurança. relações dos comitês de segurança nas organizações. propõem somente um fator: a percepção da sobrecarga ao desempenhar um papel. A amostra utilizada foi composta por 130 sujeitos do setor de manufatura. Desenvolve uma pesquisa com uma ampla amostra. as relações interpessoais entre os membros da equipe que estão envolvidos com comportamentos de risco. em uma amostra de 166 sujeitos de distintas áreas dentro do setor aeroportuário. o conjunto de atribuições que podem ser percebidas sobre a organização de trabalho em particular (manutenção. como os de ordem individual. menor é a taxa de comportamentos de risco. deforma que quanto maior é a percepção que os trabalhadores apresentam acerca das suas equipes de trabalho. em uma pesquisa realizada no setor de construção de estradas. propõe realizar uma aproximação entre os conceitos de clima de segurança. Oliver e Tomás (1998).. As conclusões das pesquisas apontam uma importante relação entre o clima de segurança e as atitudes em relação à segurança dos gestores e as atitudes em relação à responsabilidade individual de cada trabalhador. Esses autores utilizam os seguintes indicadores de clima de segurança: atitudes em relação à segurança. No que se refere aos grupais. Hofmann e Stetzer (1996). desenvolvidos por outros autores.

Duas importantes aplicações do clima de segurança na área de saúde são as desenvolvidas por Guastello. para que se obtenham resultados mais adequados à realidade das empresas. Searcy. é possível encontrar investigações como a desenvolvida por Mearns. De uma maneira geral. Flin.. Essa investigação utiliza uma amostra de 131 sujeitos divididos em níveis hierárquicos distintos. com uma amostra de 1708 trabalhadores do setor de saúde. Murphy e Gershon (2000) propõem que um clima de segurança positivo leva os trabalhadores a cumprir com as práticas seguras no ambiente de trabalho. concluem que o clima de segurança pode ter relação com a utilização dos EPIS frente às situações de risco como. Com uma amostra de 1716 sujeitos do setor hospitalar norte-americano. Na mesma linha de pensamento. Mearns e Flin (1999) desenvolvem uma importante discussão teórica acerca do estado das investigações de clima de segurança e da relação entre esse conceito e o conceito de cultura de segurança. por exemplo. Cabrera e Díaz (1998) utilizam o clima de segurança como um elemento de análise e avaliação do processo de formação no setor aeroportuário. Com um total de 722 trabalhadores ingleses. através das repercussões potenciais na melhoria da política organizacional em matéria de segurança (p. os autores concluem que o clima de segurança positivo tem lugar quando existe um bom nível de comunicação e clareza nas informações. estabelecem uma relação entre o clima de segurança e a predisposição aos acidentes de trabalho. Seus autores demonstram que. Dejoy. essa investigação toca questões referentes à cultura de segurança. Meliá (1998) propõe um modelo causal psicossocial dos acidentes de trabalho. o clima de segurança poderia funcionar como uma medida indiretacla eficácia dos cursos de supervisores e diretores. Gordon e Fleming (1998). Gershon e Murphy (1999) que. mais especificamente o contágio pelo HIV. Uma das principais carências identificadas nas pesquisas anteriores é a falta de um modelo adequado de clima de segurança. no qual o clima de segurança tem efeitos causais . a manipulação de amostras de sangue contaminado. 103). Consideram que: .Isla. cujo objetivo é avaliar o clima de segurança em uma amostra do setor petrolífero.. Com um propósito mais amplo. é preciso analisar o clima de segurança em relação a outros aspectos mais amplos como a cultura de segurança.

conduta em relação à segurança do trabalhador. A conduta do trabalhador também se considera diretamente afetada pela conduta de seus superiores. é possível traçar um histórico claro da evolução do conceito de clima de segurança e todas as transformações que o fenômeno passou nos últimos anos. 31). afeta finalmente. na resposta de segurança dos companheiros. de forma significativa. .. c) Indicador de acidentabilidade: utilizou-se como indicador de acidentabilidade o número de acidentes de trabalho sofridos pelos sujeitos nos últimos cinco anos. ISLAS. desafiando permanentemente todos esses esforços. mas os acidentes seguem ocorrendo. A seguir. a conduta de segurança do trabalhador e a forma como percebe os riscos reais (MELlÁ. serão mostradas as implicações práticas do clima de segurança e de como seu conceito pode influenciar na sistemática de gestão de segurança das organizações. Segundo o autor. uma conduta mais segura do trabalhador focal. na conduta de segurança e na percepção de risco dos trabalhadores. vidro. Essa cadeia de relações entre as respostas de segurança de supervisares. Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática Sem dúvida. metal. e esta. eletricidade. resposta dos superiores. o exame torna-se ainda mais desafiador. Muito trabalho físico e mental e grandes somas dê recursos estão sendo aplicados em prevenção. o tema segurança no trabalho é um desafio para a grande parte das organizações. Ampliar a discussão para o aspecto humano. a redução dos acidentes é um dos mais fortes desafios à inteligência do homem. Cardella (1999.. resposta dos companheiros em relação à segurança. a) Indicadores de aspectos psicossociais da segurança laboral: clima de segurança. As variáveis foram divididas em três grupos distintos. companheiros e trabalhador. por sua vez.. . Com tais informações. b) Indicadores de risco: risco basal. A pesquisa realizada por esse autor foi desenvolvida através da aplicação da Bateria de Questionários de Segurança Laboral V3 (MELIÁ. 23) afirma que: . 1998. p. p.. risco real. uma resposta mais segura dos superiores induziria a uma resposta mais segura dos companheiros.na resposta de segurança dos líderes. construção e têxtil). 1990) e contou com uma amostra de 316 trabalhadores. de diferentes ramos de atividade industrial (madeira.

itens de controle factíveis. O processo. A qualidade de ações. Ao retomar os aspectos teóricos apresentados. Aos dois processos relatados. os treinamentos e as campanhas. pode ser avaliada . as ferramentas de comunicação. de suas atitudes pessoais. É exatamente aqui que o conceito de clima de segurança passa a ter uma enorme validade para os processos preventivos. os quais se sentiram mais valorizados. os próprios trabalhadores relatam que. uma importante mudança na percepção dos trabalhadores. como a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). Ao definir linhas de atuação coerentes com a realidade de cada organização. principalmente. O processo de formação de liderança realizado permitiu. é possível traçar planos de ação "customizados" e que tenham. pode-se dizer que o papel da liderança é indicado por grande parte dos autores como um dos aspectos mais importantes do processo do desenvolvimento de uma pesquisa de clima de segurança. através de técnicas específicas. A partir dessas informações. foi concebido para que os líderes estivessem mais bem capacitados para atuar na mudança de comportamentos de risco e na estimulação de comportamentos considerados seguros. que evidenciaram três níveis do clima de segurança (participação da liderança. Em uma pesquisa diagnóstica realizada a pedido de uma empresa siderúrgica do sul do Brasil. pôde-se perceber que as respostas dos trabalhadores apresentavam uma forte tendência a identificar os elementos relacionados com a liderança e suas interfaces com segurança como sendo críticos e com grande necessidade de mudança. e a experiência citada corrobora esse fato. principalmente no tocante às condições de trabalho. em grande parte. é importante lembrar que nem todo processo de intervenção em psicologia da segurança deve estar direcionado para o nível da liderança. apesar de serem evidentes as melhorias realizadas nos processos da empresa. Porém. o que permitiu melhorias consideráveis no aspecto de segurança dentro da empresa. na primeira década do século XXI.A subjetividade é vista como a principal barreira para o desenvolvimento de um processo de segurança comportamental adequado e eficaz. devemos somar um quarto aspecto central na compreensão do clima de uma empresa: a qualidade das ações realizadas pela empresa com foco em segurança. Por exemplo. a segurança depende. na apresentação do relatório de pesquisa de clima de segurança de uma grande empresa situada no Brasil (montadora de veículos). ao longo do trabalho. foi possível planejar em conjunto com a liderança. percepção em relação aos companheiros de trabalho e atuação pessoal).

Esses autores ainda propõem a compreensão dos indicadores humanos. em relação aos indicadores humanos de segurança. em grande parte. entender e interpretar tais informações. para a sua identificação. a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como o indivíduo realiza o seu trabalho. Isso é realizado deixando-se de lado uma série de outros importantes indicadores de natureza humana. Como referência para a análise de indicadores considerados mais pró-ativos. A identificação desses fenômenos psicossociais depende. Os reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. àqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. por exemplo. sentir e agir. por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos). p. Cunha e Turbay (2005. pode ser uma importante fonte de dados para a escolha de temas na realização uma campanha. seu nível de motivação. Em diversas empresas avaliadas pela sistemática de clima de segurança. diretamente. da capacidade das pessoas da empresa em observar. sendo que os primeiros referem-se.pelos próprios trabalhadores. por exemplo. Este pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (conhecimentos e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho. efetivamente. por fim. ao perguntar-se para a equipe que organiza as campanhas por que está realizando uma campanha com o tema proteção das mãos. e outros aspectos que se referem ao elemento emocional dos trabalhadores). seus comportamentos encobertos. citam: Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os "Pró-ativos" e os "Reativos". por exemplo. . é habitual que a resposta indique somente as estatísticas da empresa como fonte de identificação da necessidade. por exemplo). a idéia de pensar. como pensamentos e sentimentos. O clima de segurança. o TFSA (taxa de freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (taxa de freqüência de acidentes com afastamento). 91). Retomamos. é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados. portanto. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. a prática). Entretanto. pode ser utilizado o conceito de atitude preventiva. a dimensão afetiva (composta pelos aspectos interiores do ser humano: suas razões pessoais para se prevenir. Bley.

A empresa que realiza a atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é a aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem não só após o treinamento.No dia a dia. Para que. acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. eles tenham efetividade. É necessário que as ferramentas de análise estejam alinhadas com as propostas preventivas da empresa. Ao identificar dificuldades nesse aspecto. Sobre os aspectos cognitivos Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtido após as atividades educativas. recomenda-se não abrir mão desse tipo de estratégia. Para empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. por exemplo. de fato. somente didática. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto. a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. mas também com alguns meses de intervalo. é importante que pessoas treinadas para avaliar o processo estejam nas áreas de trabalho. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem desses procedimentos. e nem cumprido. Um destaque possível para esse indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco. constantemente. Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. Com a divisão a seguir. esses fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores). quando observados de forma sistemática. . consideramos algumas maneiras de viabilizar esse trabalho. As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas' para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais dessa população. Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais.

lembrando que. É essencial que a área de segurança esteja atenta a isso. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: "Estamos há x dias sem acidentes e com x horas de treinamento em prevenção". e é muito comum que surjam assim muitas reclamações e sugestões relacionadas à liderança. O ideal varia em função do nível de risco da empresa. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho podem prejudicar sua efetividade. Nível de utilização de canais de comunicação da empresa: muitas empresas possuem sistemáticas de comunicação (linha direta com a presidência. se as pessoas têm informações demais ou de menos sobre segurança. Quantidade e nível de compreensão das sinalizações de advertência: uma boa prática é averiguar. entre outros). periodicamente. principalmente. tipos de perguntas. aplicação prática dos conhecimentos. é indicador necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. espaço para apresentação de críticas. pois pode ser um importante indicador afetivo. de forma direta. exploração dos assuntos. em algumas empresas. identificação de oportunidades de melhoria. Sobre os aspectos afetivos Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para esse indicador não deve ser somente o quantitativo. . em cumprimento à legislação. verificar como são a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. mas principalmente para o qualitativo. Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nessa direção. ele é "um quadro a mais" pendurado na parede. e não só apresentação. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. da cultura de segurança que ela já possui. dos objetivos que ela almeja em prevenção. ou seja.Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. pouco trabalhados ou já "desgastados" com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo. através do qual os trabalhadores podem expressar suas insatisfações em relação a essa área. porém. canal legal e outros com nomes diferentes) que são um canal para que os trabalhadores expressem suas opiniões em relação à empresa. Símbolos desconhecidos. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização.

Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: esse processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho. principalmente. habilidades. Os indicadores são obtidos por meio da compilação do tratamento das informações geradas pelos observadores. orientações recebidas. . Entender a percepção da força de trabalho em relação aos aspectos de segurança pode e deve ser um indicador cada vez mais buscado pelas empresas. É claro que. Antes da realização de uma pesquisa de clima de segurança. entre outros). pôde-se constatar uma forte tendência em apontar a liderança como a principal oportunidade de melhoria das questões relacionadas à segurança. realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço.Sobre os aspectos da ação Observação e registro de Comportamentos Seguros: esse processo permite à empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. limites e potencialidades pessoais. é essencial que se entenda que a empresa havia passado por uma forte mudança no seu processo de gestão. Por meio de inspeções sistemáticas. carga física e mental. recursos. como fatores importantes a serem levados em conta. no entanto. integrando conhecimentos. como também depende de um processo de treinamento cuidadoso e preciso dos observadores. pode-se apontar o que segue. e isso causava impacto no nível de motivação da liderança e. tinha uma forte influência na percepção dos trabalhadores em relação à atuação da liderança. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não recomendável para algumas empresas). a empresa deve levar em conta vários aspectos. como o momento que a empresa vive. Ao realizar uma pesquisa em uma empresa. competência. além de. a) Períodos de greve: as percepções dos trabalhadores em relação ao nível de segurança da empresa podem estar influenciadas por momentos específicos. conseqüentemente. ser indicador da compatibilidade da organização das tarefas e atividades com os cuidados de segurança necessários (tempo. Vale destacar que essa é uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. ao organizar um processo de pesquisa como esse. profissionais de diferentes setores da empresa (adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores.

a empresa deve ter claro que uma série de melhorias poderá ser apontada. Ao realizar uma pesquisa de clima. bem como sua validade ao ser entendido como um fator de suma importância para o processo de gestão de segurança. . é essencial que todos entendam. Para isso ficar mais claro. o que pode distorcer o plano de ação a ser implantado. exatamente. E na sua empresa. verificou-se que muitos trabalhadores guardavam suas ferramentas dentro dos painéis de eletricidade energizados. e a empresa tem que ter discernimento em relação ao que será ou não feito a partir dos dados obtidos pelo processo de pesquisa. basta olhar para algumas empresas e perguntar a elas: "Quais são os comportamentos de risco aceitáveis dentro da empresa? Em uma primeira reação. Ao analisar a história e a evolução do conceito de clima. Em relação ao último aspecto. c) Mudança recente de lideranças. Porém. em um processo de pesquisa realizado em uma empresa. o motivo de se realizar uma pesquisa na organização. as empresas tendem a responder que não há comportamentos de risco que sejam aceitáveis. conclui-se que tal tema deva figurar como assunto obrigatório em eventos. quais são os comportamentos de risco que são aceitáveis? Ao nos arriscarmos a adentrar o mundo da segurança com foco do aspecto humano. Pode-se dizer que aceitar tal comportamento de risco dos trabalhadores fazia parte da cultura da empresa. pois o resultado pode estar relacionado à antiga equipe de líderes.b) Mudanças em processos de gestão. no ano de 2004. Quando se diz respeito à compreensão da cultura de segurança. o que chama atenção é que a empresa somente mudou o "procedimento informal" no momento em que ocorreu um acidente grave com um dos trabalhadores. pois exige da empresa uma importante dissociação. pois a falta de informação pode levar a uma baixa adesão durante o processo. é possível apontá-lo como de suma importância. d) Deve ser realizada uma boa "venda" do processo de pesquisa para a liderança e para os trabalhadores. principalmente as que afetam diretamente o processo produtivo. e isso nos custará muitos anos de pesquisa e busca pelas reais possibilidades de melhorar a segurança dentro das empresas. sendo um comportamento reprovável por qualquer supervisor da área em questão. o desafio é ainda maior. devemos estar cientes de que estamos penetrando no difícil mundo chamado gente. bem como uma série de problemas. Entretanto.

realmente.seminários de segurança e. existentes nas empresas que se preocupam. principalmente. com o mais precioso bem de uma organização: o ser humano. nos modelos de gestão de saúde e segurança no trabalho. .

a dificuldade em obterem-se resultados vendidos como fáceis. rápidos e instantâneos. a necessidade das lideranças e das cúpulas das organizações de prepararem-se melhor para gerenciar pessoas estão entre os fatores que contribuirão para que isso ocorra. A tecnologia avança. "colocando pequenos tijolinhos no grande muro da ciência". de natureza comportamental. decente e respeitoso da integridade global dos seres humanos vai se transformando em providências concretas de mudança de uma realidade. não significa que o comportamento humano no contexto da saúde e segurança deixará de ser importante. um custo dificilmente justificável e uma conseqüência eticamente inaceitável (José Luiz Meliá). dos consumidores e do público em geral. Provavelmente. se estivermos devidamente capacitados para gerenciar comportamento. A complexidade desse tipo de atuação. As constatações e propostas de análise apresentadas no decorrer desses capítulos formam um conjunto complexo de elementos. Passaremos a entender que. como afirma . Pelo contrário. a ciência psicológica evolui. estaremos mais maduros e preparados para gerenciá-lo. importantes para o aperfeiçoamento dos aspectos humanos em segurança. Entretanto. No entanto. tornando-o um aliado do processo preventivo e tirando-o do papel de inimigo. É desta forma. de morte e sofrimento por doenças e acidentes de trabalho. gestão de pessoas e cidadania A sociedade pós-industrial considera os acidentes e os danos à saúde dos trabalhadores. este passa da posição de problema para a de fator decisivo da construção das soluções. representam apenas uma pequena parte do universo de conhecimentos produzidos pela Psicologia sobre a relação entre homem e trabalho e uma parte menor ainda do que é possível examinar à luz do conhecimento produzido pela área de saúde e segurança no trabalho. até então macabra. que vem ocupando nos discursos gerenciais mais recentes: "O problema é o comportamento das pessoas". que o sonho de proporcionar trabalho digno. as estratégias empresariais aperfeiçoam-se.Cuidar do ser: considerações sobre ciência. nos próximos anos. viveremos um processo de estabilização da febre de modismos relacionados com a segurança comportamental. mas o ser humano continuará a ser o elemento relativamente estável do processo.

que o ser humano é humano. trabalhar pela re-humanização do processo produtivo. digno. e não só no produto. não é máquina. . categoricamente. que ele é a chave de acesso àquilo que podemos chamar de trabalho seguro (saudável. contribuindo para o desenvolvimento de lares.Dejours (1999). enfim. centros comunitários e outros ambientes mais seguros e saudáveis para a população em geral. Trabalhar com consciência. utilizando os meios disponíveis. entristece. escolhe. tornando-o saudável e seguro também nos seus aspectos subjetivos. capacidade de analisar a realidade. produtivo. só será possível quando os trabalhadores. escolas. de se antecipar ao pior. Trabalhar para evitar que as pessoas adoeçam e acidentem-se no trabalho é. dia após dia. portanto. governo e sociedade a recordar. Ele é falível. Entre os propósitos que devem referenciar um processo de prevenção de doenças e acidentes com o foco no comportamento humano estão: • empoderar o trabalhador para conhecer e controlar os riscos do seu trabalho. • • harmonizar as relações entre as pessoas que compõem o contexto de trabalho. potencializando a atuação antecipativa aos problemas de segurança e aos males à saúde dos trabalhadores. Se encarado com a seriedade e a profundidade que merece. inclusive no campo do trabalho. os profissionais. ético. pensa. engrandecedor). produz. ele sente. antes de tudo. empresários. É auxiliar trabalhadores. relaciona-se. de agir com cuidado são os "produtos" desejados deste complexo sistema de inter-relações que constituem o desenvolvimento humano nas organizações. • pretender estender-se para além dos muros da organização. alegra-se. age. aperfeiçoamento e desenvolvimento. seu corpo tem limites. bem como propor e negociar novos e melhores meios para trabalhar com dignidade e qualidade de vida. contribuir para o amadurecimento da cultura e do comportamento organizacional. é possível afirmar. as empresas e os governantes assumirem que a grande possibilidade de transformação está presente na visão do processo como um todo. de tomar decisões. Isso quer dizer que os seres humanos continuarão em processo de aprendizagem. ao atuar sobre a realidade vivenciada no início do século XXI. beneficiando a sociedade como um todo. Esse conjunto de propósitos pode ser simplesmente nomeado de processo humanização. O desafio está em saber que a realidade de saúde e de ausência de acidentes que se busca construir para o futuro. decente. ele simplesmente é.

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