Comportamento Seguro
a Psicologia da Seg urança no Trabalho e a educaç para a ão prevenç de doenças e ão acidentes

Colaboradores: Julio Cézar Ferri Turbay Odilon Cunha Jr.

2a edição – 2007

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COMPORTAMENTO EDITORA SOL

Aos meus pais, irmãos, familiares e ao meu amor, minha mais profunda gratidão por compreenderem minhas ausências, estimularem minha busca e compartilharem comigo das pequenas (mas valiosas) vitorias do caminho ...

Projeto gráfico: Fab Tacahashi Lau dos Santos rício Silvio Gabriel Spannenberg Revisão: Eliane Mara Alves Chaves

Bley, Juliana Zilli Comportamento seguro: a psicologia da segurança no trabalho e a educação a para a prevenção de doenças e acidentes. Juliana Zilli Bley e colaboradores - 2 ed. - Curitiba: Sol, 2007. 160p.; 210mm x 140mm. ISB N 85-89484-09 -2 Inclui bibliografia . 1. Psicologia do Trabalho. 2 Segurança do Trabalho 3. Prevenção de Acidentes 4 Analise do Comportamento. I. Titulo. . CDD -159 Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Sol. R. Capitão Souza Franco 881, .cj 80730-420 - Curitiba 142 - PR Telefone/fax(41) 3335 : .5087 e-mail: editorasol@editorasol.com.br

Dedico este livro aos trabalhadores brasileiros, que tem o perigo como "colega de trabalho", e a todos aqueles que assumem, profissionalmente, 0 desafio da construção de um cotidiano de trabalho mais saudável e seguro para os cidadãos deste país.

há acalorada discussão acerca do nome. decido eu: esta criatura será chamada Homem. Júpiter o proibiu. 0 que Júpiter fez de bom grado. uma discussão generalizada. Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado. Cuidado viu um pedaço de barra." (Fábula de Higino. entre vocês. conferir o seu nome à criatura. material do corpo da Terra. apareceu Júpiter. Quando. Terra. teve uma idéia inspirada: tomou um pouco de barra e começou a dar-lhe forma. o seu corpo quando essa criatura morrer. Cuidado. de repente. E uma vez que. Enquanto júpiter e o Cuidado discutiam. Este tomou a seguinte decisão. De comum acordo. "Você. também de volta. ao atravessar um rio. deu-lhe o corpo. ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. foi quem. isto e. Enquanto contemplava o que havia feito. também ela. Você. surgiu. porem. por primeiro. Logo. Júpiter. que significa terra fértil. portanto. este espírito por ocasião da morte dessa criatura. de volta. Originou-se. pediram a Saturno que funcionasse como arbitro. feita de húmus. Como você. recebera. Exigiu que Fosse imposto o seu nome. a Terra. deu-lhe o espírito. recebera. moldou a criatura. pois fora feita de barro.Certo dia. traduzida livremente por Leonardo Boff) . pois. então. Quis. que pareceu justa.

com repercussões geralmente graves sobre a sobrevivência dos trabalhadores. historicamente. assim como nos processos de gestão e de avaliação disseminadas nas organizações. A obra reflete. Sua principal característica é reunir um conjunto de achados e elaborações teóricas resultantes das angústias. A ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho é. de Juliana Zilli Bley e colaboradores. treinamento.Prefácio Comportamento Seguro .A Psicologia da Segurança no Trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes. Avançar na produção do conhecimento. os desafios à prevenção e à educação para a prevenção. no Brasil. além dos fatores críticos ao processo ensinoaprendizagem na prevenção de acidentes e agravos à saúde. no sentido da humanização do trabalho. a noção de segurança comportamental e de percepção de risco. necessidades e aprendizagens vividas por esses profissionais. pode ser considerada. tudo isso com base na necessidade de ampliar os meios científicos para compreender os processos de constrangimentos à saúde e à segurança dos trabalhadores. sobre os múltiplos aspectos que contribuem para a ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. Lança um exame crítico sobre as relações entre comportamento humano e prevenção. hoje. uma necessidade a ser enfrentada na compreensão dos problemas e objetivos que envolvem a noção de segurança no trabalho. curiosidades. em cada operação de diagnóstico. desenvolvimento e avaliação dos processos comportamentais implicados na instalação e manutenção de taxas de acidentes e doenças profissionais. Compreender essa tendência histórica significa avaliar que os processos de intervenção sobre os problemas que envolvem a segurança no trabalho nem sempre partem do entendimento da multideterminação de . o papel dos treinamentos no gerenciamento de riscos. portanto. cada vez mais. competências profissionais desenvolvidas nos processos de interação com o trabalho e seus atores. assim como suas implicações com as dificuldades enfrentadas na promoção e manutenção comportamento seguro no trabalho é. uma variável de incidência contínua sobre a base das organizações do trabalho. a qualidade do trabalho e os custos organizacionais e do Estado. como a principal obra sobre Psicologia da Segurança no Trabalho no Brasil.

Geralmente. nas empresas.aspectos fisiológicos. de criar programas de gerenciamento das condições de risco e da prevalência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho não têm se mostrado eficientes porque partem da . As organizações de trabalho são microsociedades que refletem. geralmente são criados de forma emergencial e não contínua. psicológicos. espera-se um vínculo efetivo do trabalhador com os objetivos da empresa e. O maior ou o menor conhecimento das condutas humanas nos sistemas de trabalho. do desperdício e do valor qualitativo do produto do trabalho. bem como determinações e efeitos. cada vez mais freqüentes e. em seus diferentes planos de análise do sistema de trabalho (micro. tecnológicos. no cotidiano do trabalho. muitas vezes. bem como suas decorrências. que enfatizam a co-responsabilidade do trabalhador pelos produtos e serviços gerados. os programas de prevenção nesse âmbito. é possível afirmar que a natureza do trabalho produtivo é um complexo arranjo de variáveis e suas implicações. o que pode não ser complexo. meso e macro). no cotidiano das análises do trabalho. a priori. nas empresas brasileiras. Desses princípios e entendimento. em quaisquer desses planos de análise e nas relações entre eles. um sistema da ação e da instrumentalização das condutas humanas de acordo com as condições e os meios de realização de trabalho. emerge o entendimento de que cada trabalhador faz parte das estratégias de melhoria contínua das organizações que devem ser flexíveis e adaptadas ao mercado global. a Psicologia da Segurança no Trabalho têm objetivado suas investigações e construído modos de intervenção no âmbito das organizações. dificultando o engajamento dos interessados e o gerenciamento de incidentes críticos associados a tais acidentes e patologias. mais recentemente. simplistas. ao mesmo tempo. Visto dessa maneira. é o ponto de vista de quem estuda ou empreende uma intervenção visando o controle ou a prevenção de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. idéias. organizacionais. da redução de custos. Derivado desses princípios. pressupostos das diferentes formas de gestão da produção e de organização do trabalho. uma relativa autonomia para executar o trabalho orientado por esses princípios. sociais e econômicos na ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. tem sido o horizonte factual e estratégico por meio do qual a Psicologia do Trabalho e. Infelizmente. As tentativas. os sistemas de trabalho são regidos pelos princípios da competitividade. que se revela. crenças e valores acerca das necessidades de gestão e de avaliação do trabalho.

aqueles que resultam da instrução . controlando seus efeitos sobre o organismo. pressupõe. o que tende a intensificar a busca de diagnóstico de procedimentos. dores. certamente. além dos processos intuitivos (que permitem associar as experiências vividas sobre os objetos disponíveis). geralmente associados às demais dimensões da vida fora do trabalho. muitas vezes definidas como expressões da carga de trabalho. perda da capacidade inventiva. das condições de salubridade. por exemplo. tais como as características da gestão do trabalho e dos trabalhadores. Podemos afirmar que a noção moderna de segurança no trabalho pressupõe uma verificação e uma compreensão integradas: a) de macro variáveis do sistema organizacional. tempo) e as competências profissionais desenvolvidas. ao invés de incentivar a leitura das situações pelas quais se estruturam as conseqüências. metas. tais como a fisiologia do processo de trabalho. dificuldade em estar envolvido. Os sinais para a investigação de incidentes ao acidente de trabalho. doenças ocupacionais. os processos culturais instalados. O conjunto dessas manifestações. que influenciam na avaliação e promoção de comportamentos seguros no trabalho. b) de micro variáveis ocupacionais. dificuldades para aquisição de novos conhecimentos. pois envolve o desenvolvimento de métodos mais eficazes de investigação das variáveis envolvidas. podem ser manifestados por trabalhadores através de qualidade nas inapetências relativas. os graus de satisfação.lógica de controle das conseqüências das condutas (acidentes. a capacidade de negociar com as diferentes formas de pressão produtiva (ritmo. revelam desequilíbrios na relação entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador para respondê-las eficazmente. conflitos). Essas manifestações. a percepção de risco e de segurança no trabalho. O conjunto dessas variáveis co-varia. explorando. as condições e os meios de realização do trabalho. do meio ambiente físico e social e dos meios de aprendizagem. tendência a isolar-se. sistematicamente. nas diferentes configurações da organização do trabalho e determina a maior ou menor possibilidade da prevalência de acidentes de trabalho. esquecimentos. erros. uma análise das características dos sistemas técnicos de gerenciamento. Compreender essas manifestações e suas implicações com as características do sistema de trabalho evita o reducionismo nos processos de análise do trabalho. o regime de metas. a capacidade de controle e monitoramento de riscos e incidentes no trabalho. marcas no corpo. os sentimentos de identificação e pertencimento.

Desenvolver métodos e técnicas para aferir e auxiliar o processo de diagnóstico e interpretação dos problemas que envolvem a manutenção do comportamento seguro e a redução sistemática da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho é um desafio constante para os que atuam nos sistemas organizacionais. especialmente os psicólogos do trabalho: construir a ciência da Psicologia da Segurança no Trabalho.(que são construídos pelo processo intelectual diretamente envolvido na interpretação das variáveis envolvidas e suas tendências). que indica um campo promissor para pesquisadores e profissionais do ramo. espera-se que novas contribuições no domínio da Psicologia da Segurança no Trabalho possam ser organizadas. certamente. Florianópolis. merecem serem aprofundados com a leitura desta obra. suas fronteiras e interfaces com as demais ciências do trabalho. Dr. . este livro auxiliará aos interessados a ampliarem a percepção e o conhecimento sobre os aspectos do comportamento humano que definem o campo da Segurança no Trabalho. Com base nisso. Certamente. São aspectos que. maio de 2006 Roberto Moraes Cruz. Psicólogo do trabalho. professor e pesquisador da UFSC nos Departamentos de Engenharia de Produção e de Psicologia. refletindo a construção de respostas a antigas e novas necessidades de examinar criticamente os aspectos constituintes do comportamento seguro no trabalho e o dimensionamento de ações voltadas à melhoria das condições de vida e de trabalho nas organizações.

oferecidos pelas empresas. como se um "gato descesse pela minha garganta". foi um dos fatores definidores da minha escolha por aprofundar meus estudos. eu foquei meus esforços e minhas esperanças em poder contribuir para desvendar alguns dos problemas e dificuldades do processo de educar para a prevenção. iniciei um curso de Mestrado em Psicologia com a missão clara e definida em minha mente: vasculhar o que a ciência já havia produzido atrás das respostas que procurava.Apresentação A dificuldade de encontrar respostas para enigmas. que encontrei como psicóloga atuando no campo da segurança do trabalho. Por que as pessoas machucam-se em acidentes "bobos"? Por que uma pessoa. Olga Mitsue Kubo. Sílvio Paulo Botomé e Dr. O produto desta pesquisa (dissertação defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em fevereiro de 2004) é o carro chefe deste livro e não teria sido possível sem a bússola e a lupa oferecidas por meus orientadores e inspiradores: Dra. recurso dos mais utilizados pelas organizações com o objetivo de conscientizar e mudar os comportamentos dos trabalhadores frente aos riscos. Após digerir tal dado de realidade. altamente qualificada e treinada. do gerenciamento ou das instalações? À medida que o tempo passava e eu mergulhava. O Brasil é um país de pouca tradição de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia da Segurança no Trabalho. Caso não encontrasse. Roberto Moraes Cruz. Dr. Em 2002. é culpa das pessoas. tive que dar conta da primeira grande aprendizagem: eu não resolveria todos os problemas de segurança das empresas nem salvaria a saúde e a vida de todos os trabalhadores brasileiros com a minha pesquisa. estava disposta a desvendar novos caminhos para a solução dos enigmas que me assombravam. este responsável pelo . comete erros pífios e machuca-se em função disso? Por que algumas empresas fazem tanto pela prevenção e não conseguem "zerar acidentes"? No fim da história. e havia muito por fazer. O conhecimento já produzido (no Brasil e em outros países) serviu de base para que fosse possível estudar um pequeno pedaço dessa realidade e sistematizar algumas contribuições para uma análise mais criteriosa dos fatores de sucesso e de fracasso dos treinamentos e das palestras de comportamento seguro.

de buscas para agregarem a esta obra o valor de seus estudos e descobertas. as quais eu conhecia e sabia. aquilo que é produzido "dentro dos muros" da universidade mobilizou sua concretização. de trabalho. Julio Cézar Ferri Turbay e Odilon Cunha Jr. Foi quando convidei dois companheiros de jornada. baseados no comportamento humano. o desejo de tornar acessível. trata-se de uma fonte de consulta. No entanto. Por fim. Juliana Zilli Bley . tratando dos temas Clima e Cultura de Segurança e Percepção de Riscos. Eu resistia à idéia de publicar uma obra tratando somente de um assunto tão específico. encarando os desafios da prevenção junto com tantos outros bravos profissionais. baseados nas pessoas. deixando tantas outras lacunas sobre comportamento humano e prevenção sem sistematização. um incômodo permanecia: a desconfortável escassez de livros publicados sobre Psicologia da Segurança no nosso país. do Brasil. Psic. ou melhor. respectivamente. como treinamento. discussão e análise de alguns aspectos centrais no que diz respeito ao estudo e à gestão de processos e programas de prevenção em saúde e segurança. MS. desde sempre. aproveitando-se esta oportunidade.prefácio. complementares às que eu havia feito durante esses anos dedicados ao tema Comportamentos Seguros. uniram-se a mim nesta discussão. formando um gratificante mosaico de abordagens e perspectivas de análise. Havia questões complementares sobre educar para prevenir que poderiam ser contempladas. Em última análise. de incômodos. àqueles que se interessam pelo assunto. baseadas em aprofundamento teórico-científico e na vivência que temos tido nos chãos de fábrica.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico 79 . Risco e Ser Humano 111 .A Percepção de Risco << 6 >> 117 . Incidentes e Desvios 112 .Sumário << 1 >> 25 .A Noção de Comportamento Humano 44 .A Prevenção ao Longo dos Tempos 106 .Percepção de riscos (ODILON CUNHA JR.Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos 67 .A Natureza Humana e a Segurança 107 .Obras consultadas .Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" 41 .Acidentes. gestão de pessoas e cidadania «*» 141 .O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção 56 .Psicologia e segurança do trabalho no Brasil: uma introdução << 2 >> 35 .Clima de Segurança: História e Conceito 126 .) 104 .Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática << 7 >> 137 .Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional << 4 >> 77 .Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção 95 .Conclusões do Estudo << 5 >> 103 .Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? S1 Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? << 3 >> 55 .Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança (JULIO CÉZAR FERRI TURBAY) 117 .Um Estudo sobre Como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura 84 .Cuidar do ser: considerações sobre ciência.Mudança de Comportamento 59 .Sensação e Percepção 109 .Perigo.Referências «+» 149 .Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança 81 .Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade 71 .

1957. 1955. seus primeiros e importantes experimentos datam de meados do século XIX. mais precisamente. Kerr. distanciando sua imagem profissional de contextos menos conhecidos da sua atuação. Em registros conhecidos. infelizmente. Acidentes de trabalho . 1957. Dela Coleta. No Brasil. data de tempos imemoriais. J. Contribuições da Psicologia do Trabalho. não suas mentes e corações. uma das mais significativas obras publicadas sobre a Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho é Acidentes de Trabalho . Atividades de Prevenção. atualmente. Davis e Mahoney. . o estereótipo clínico (aquele do divã) e a idéia de que "psicólogo é médico de louco" ainda persistem no imaginário popular. é profissão regulamentada há pouco mais de 40 anos e conta. Ombredane e Faverge.fator humano. Hersey. as empresas perdem um precioso retorno' dos seus investimentos nas pessoas (Cecília Whitaker Bergamini). como ciência e também como profissão. a revolução industrial. e outros 1 DELA COLETA. praticamente. Dunbar. com quase 200 mil profissionais registrados em conselhos profissionais e atuantes. da Psicologia da Segurança no Trabalho. como processo de conhecer o funcionamento da subjetividade humana. A.Fator Humano. 1925.c. Psicólogo aqui no Serviço' Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT)? Não tem ninguém louco por aqui! Psicologia e segurança no trabalho? Uma nova invenção? Modismo recente? O que o psicólogo tem a ver com prevenção de acidentes? A Psicologia. apesar do tempo de regulamentação e da proporção da categoria. vem se dedicando a estudar e intervir sobre o comportamento humano no contexto do trabalho desde. do psicólogo José Augusto Dela Coleta' (BLEY. 1936. psicologia significa estudo da alma). No entanto. 1979. atividades de prevenção. principalmente no oriente. Ao sistematizar estudos como os de Schorn. 1944. Este é o caso da Psicologia do Trabalho e.) procura-se compreender e explicar esse conjunto de fenômenos.Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução Contratando somente as mãos dos trabalhadores. inicialmente nomeados como sendo "da alma" (etimologicamente. contribuições da psicologia do trabalho. 1991. 2003). é possível dizer que desde Aristóteles (300 a. No Brasil. Como ciência estruturada. A Psicologia. São Paulo: Atlas.

É utilizada em diferentes contextos como no trânsito. também se dá pelo fato de que as intervenções para a prevenção da ocorrência dos acidentes requerem humanização do trabalho e valorização do trabalhador. bem como a atuação de profissionais psicólogos nesse campo de atuação têm crescido no Brasil (como funcionários e como prestadores de serviço). Estudiosos e teóricos. histórica e cientificamente. componente das propostas paradigmáticas daquilo que se tem chamado de nova ciência. como o resultado da impossibilidade de se criar ambientes plenamente seguros. ainda há muito espaço a ocupar e muito a contribuir.citados pelo autor. resultando no exame não de uma causa. A obra citada de Dela Coleta (BLEY. ele apresenta a Psicologia como uma das áreas produtoras de conhecimento sobre a ocorrência de acidentes desde as primeiras descobertas científicas relacionadas ao trabalho. como de atuação do psicólogo nas organizações de trabalho. 2) o de demonstrar para os psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento científico sobre o fenômeno. inicialmente. No entanto. Cardella (1999). e Adler. 1941. no cuidado com crianças. como área de conhecimento. Assim como o comportamento humano. torna-se uma Psicologia da Segurança no Trabalho. Pode ser vista. campos reconhecidos. 2003) é um raro esforço da Psicologia brasileira em três sentidos: 1) o de demonstrar sua importância no cenário da produção científica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho. o da Psicologia da Segurança. em conjunto com os demais profissionais que atuam com a saúde e a segurança dos trabalhadores. em contrapartida à relação linear de causa-efeito própria de uma concepção aristotélica (LEWIN. É bem verdade que o volume de pesquisas nessa área de conhecimento. A Psicologia da Segurança é definida por Meliá (1998) como aquela parte da Psicologia que se ocupa do componente de segurança da conduta humana. ocupado de forma tão tímida. Esta é uma noção de causalidade circular. . A noção de multideterminação diz respeito à tendência de conceber os fenômenos e seus aspectos como sendo causados por múltiplas relações entre variáveis de diferentes tipos ou naturezas. Nesse contexto. 1948. o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. na prevenção de diferentes tipos de males e perdas. A importância da participação da Psicologia. 3) o de reafirmar a presença do profissional da Psicologia neste campo de atuação profissional. mas de variáveis que determinam a probabilidade de ocorrência de características de um evento. já discutiam as características de personalidade envolvidas na produção das fatalidades. entre eles os relacionados às situações de trabalho. como Freud. 1975).

por meio das estratégias que objetivam a capacitação do trabalhador. Os eventos relacionados com segurança. Um dos papéis da Psicologia da Segurança é o de estar implicada em aumentar a possibilidade de envolvimento pessoal. sociais. é possível levantar algumas questões. psicológicos. uma vez que prevenir é uma dimensão do comportamento de trabalhar. no âmbito dos fatores relativos aos acidentes que podem ser chamados de psicológicos. biológicos. ·The psychology of saféty: how to improve behaviors and attitudes on the job. são recursos utilizados por organizações para "ensinar" aos seus funcionários sobre os meios de realizar suas atividades considerando os riscos existentes. S. define o acidente como um fenômeno multifacetado. Nesse caso. com grandes possibilidades de sucesso. com a segurança e com o desenvolvimento de uma cultura global de segurança(GELLER2. culturais. treinamentos e reuniões. de fato.ao articular a segurança do trabalho ao que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos). . O que. cabe o exame da inAuência dos comportamentos humanos na sua prevenção. 1996. Ao examinar criticamente os recursos e estratégias. Dela Coleta (1991) reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. USA: Chilton Book Company. Certamente. 1999). em desenvolver seus processos de trabalho de forma a favorecer a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. Esse papel pode ser desempenhado. a utilização dessas estratégias educativas (assim como dos recursos didáticos) é desencadeada por uma necessidade. as empresas têm ensinado aos trabalhadores sobre comportarse de forma segura (ou preventiva) ao realizar suas atividades profissionais? Se o processo de ensinar tem sido efetivo no âmbito educativo (do treino. Radnor. o conjunto de variáveis do fenômeno comportamento que precisa ser examinado é aquele que caracteriza sua dimensão preventiva. Isso remete a uma análise das condições de segurança da conduta do trabalhador. as contingências naturais presentes no cotidiano de trabalho do aprendiz (dia-a-dia de trabalho) têm permitido a ocorrência dos comportamentos ensinados? Quais aspectos do planejamento e da realização dos eventos de segurança influenciam (favorecendo ou prejudicando) na aprendizagem dos comportamentos seguros necessários à promoção da 2 GELLER. como palestras. resultante de interações complexas entre fatores físicos. identificada pela organização. cursos. citado por MELlÁ. do exercício). É possível afirmar que. de cada membro da organização.

. um dos mais importantes estudiosos da psicologia da segurança norte-americana. nas políticas corporativas. exatamente. Uma mudança efetiva e duradoura de padrões comportamentais dá-se por meio do processo de aprender. nas definições orçamentárias. Cuidar de si mesmo. Entretanto. procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de comportamento em segurança. pode ser a responsável pelo insucesso de estratégias e ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. e esse aprender acontece não só dentro. Essa cultura favorável é definida como sendo aquela em que ocorre o que ele denomina de cuidado ativo. cria-se um ambiente favorável ao aparecimento de comportamentos considerados preventivos não só por parte dos indivíduos. naquilo que as pessoas aprendem como sendo sinônimo de seguro ao trabalhar em situações de risco. porém. pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. os estilos de liderança e os valores praticados por seus integrantes fazem parte de um amplo conjunto de contingências que influenciam. Essa trama complexa de relações. É o contexto influenciando os comportamentos dos indivíduos. das lideranças e também da cúpula da organização. Dessa forma. A cultura da organização. utilizadas de forma descontextualizada e sem considerar as variáveis contingentes aos comportamentos relacionados com a prevenção. que é caracterizado. palestras. inicialmente. ser entendido por comportamento seguro? Treinamentos. nos treinamentos e nos processos internos. elas pouco podem produzir frente ao poder de manutenção das coisas como sempre estiveram que o arranjo das variáveis existentes pode representar.segurança no trabalho? O que pode. como também fora das salas de treinamento e auditórios. A característica preventiva pode ser identificada nos mais diferentes processos de uma organização como no planejamento estratégico da empresa. Segundo Geller (2001). que é invisível aos olhos à primeira vista. cursos. mas também dos pequenos grupos/setores. após um período de tempo. sobremaneira. 1999). a forma como são tomadas as decisões. permite que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer. um contexto organizacional favorável à prevenção caracteriza-se pelo cuidado como atitude essencial. cuidar do outro e deixar-se cuidar pelo outro podem ser considerados como sendo um tripé no qual se apóia uma cultura organizacional que tem como característica essencial a prevenção (cultura de saúde e segurança).

para que seja possível deparar-se com organismos públicos e privados. por meio da Comissão Internacional para Educação no Século XXI. na virada do milênio. ao mesmo tempo. em toda sua inteireza. a ação de educar transcende às tradicionais noções de instruir. é isso que se busca nos primeiros anos do século XXI. fórmula do treinamento reprodutor das coisas como sempre foram e reprodutor da ideologia reinante. a relacionar-se e a desenvolver autonomia no seu processo de pensar e produzir conhecimento. Considerando os quatro pilares. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para educação. finalmente. que se fala e precisa-se. realizando processos de aprendizagem de espectro ampliado (integral). Vale salientar que. num período histórico no qual o mundo coloca novos paradigmas para a educação. espiritual tão peculiar. sendo essa uma ampliação significativa sobre pensar e fazer educação (especialmente a educação no campo do trabalho). Portanto. O mundo mudou. Também vai além da. que os quatro pilares que deverão sustentar as propostas de educação em todo o mundo são: Aprender a Ser. ele acesse as dimensões do aprender a ser. e não seu ser inteiro. é um convite à revisão daquilo que se entende como sendo o papel de cientistas. sem deixar de lado seu mundo interno. suas relações. econômico. pela sua amplitude e importância. Falar de educação. vinha sendo o grande objetivo de ensino na educação de trabalhadores). o que precisa ser preparado são seus braços. Aprender a Aprender e Aprender a Fazer (OELORS. além de saber fazer. está longe de terminar. sua capacidade de construir-se autonomamente e. É de uma educação do indivíduo. Nessa perspectiva quadridimensional. educadores e gestores ao construir o processo de aprendizagem de trabalhadores e organizações. qualificar para fazer algo profissionalmente. ciência e cultura) declarou. o desenvolvimento de um ser humano deve ocorrer de forma integral. Aprender a Conviver. será preciso contar com o tempo (longo prazo) e com a atualização (mudança de paradigma) . científico. ou seja. sua capacidade de fazer (que. até então. tão criticada e. cultuada por empresas e profissionais. Vai além de uma noção clássica de que a mão de obra tem de ser preparada. seu contexto. convergentes com os pilares da educação para o século XXI. 1998). e a educação precisa formar e instrumentalizar as pessoas ao redor do planeta para viver e sobreviver neste contexto social. treinar. político. isto é. há que se considerar o intenso processo de transformação que está em curso e que. o que se procura na educação do ser integral é que.Os processos de conscientizar e educar têm sido os grandes carros-chefes das estratégias de prevenção de acidentes e doenças do trabalho com foco nos aspectos humanos.

sintam-se identificadas com e motivadas pela idéia de que "prevenir é realmente melhor do que remediar" e. afetivo (do sentir) e de ação (do fazer) (RODRIGUES. Em última análise. desenvolver atitudes seguras (objetivo de grande parte dos treinamentos) significa criar condições para que as pessoas conheçam os riscos. Isso posto. Só assim. aos quais estão expostas. especialmente no que diz respeito às estratégias de treinamento e desenvolvimento (T&D). mas sim uma tendência a comportar-se de uma determinada forma. Tal tendência é originária da consistência entre três componentes: cognitivo (do pensar. estudada por cientistas e profissionais das áreas afins e influenciada por ambos na direção da promoção das melhores condições de saúde para aqueles que atuam em situações de risco. ajam de acordo com os dois primeiros fatores. amplamente utilizada em campanhas e treinamentos de prevenção e considerada essencial para esse processo. Capacitar e desenvolver pessoas para que se tornem competentes em pensar. ter atitude segura significa pensar. sentir e agir cuidando de si mesmas. capaz de participar e assumir responsabilidades quanto a ela. Existe uma máxima entre os profissionais de Saúde e . Isso pode ser verificado ao comparar a proposta da educação do ser integral com a noção de atitude. dos outros e deixando-se cuidar pelos outros parecem ser o grande objetivo da segurança baseada no comportamento humano. A integração dos quatro pilares na perspectiva da educação para saúde e segurança no trabalho coloca-a num nível maior de coerência com aquilo que hoje se entende por segurança comportamental que é a dimensão humana da prevenção de doenças e acidentes. onde o cenário de doenças e acidentes de trabalho está longe do que se considerado aceitável (se é que isso existe). será possível traduzir diretrizes inovadoras em práticas coerentes e eticamente pautadas. sendo considerada por empregadores. principalmente. 1998). Atitude não é sinônimo de comportamento.de técnicos e dirigentes organizacionais. sentir e agir com segurança sempre que o indivíduo encontrar-se numa situação de risco (noção de tendência). e as formas de evitar lesões e perdas. Para que isso se torne realidade em nosso país. Essa revisão deve ter como ponto de partida o questionamento acerca do papel desempenhado pelas pessoas no processo de prevenir. bem como atuar como elemento cessionário de poder e desencadeado r das pessoas que compõem um grupo nessa direção. do conhecer). Esse papel é o de sujeito da preservação da sua integridade. é preciso que governantes e dirigentes de organizações revejam suas políticas de gestão de pessoas. O vocábulo comportamental diz respeito a essa dimensão. desde que a organização de trabalho crie condições para que isso ocorra.

defendendo que segurança é responsabilidade de todos. no sentimento e na ação cada um. É isso. A responsabilidade é de todos. mas começa no olhar.Segurança no Trabalho (SST) que confirma o caráter participativo e cessionário de poder que uma cultura de prevenção deve assumir. do andar mais alto do prédio da diretoria até a última bancada do último galpão no fundo da fábrica. .

. Botomé (2001). O comportamento das pessoas é objeto de preocupação do homem há muito tempo.Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" Caminhar sobre um terreno acidentado é uma coisa. o grupo de trabalho e a própria organização como um todo. No âmbito da segurança no trabalho. [ . Ele é um fenômeno de alta complexidade e variância. evitar. p. equívocos e preconceitos acerca da sua conceituação e do seu uso. afirmando que: . Isso quer dizer que a máxima "de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco" pode manter a discussão sobre comportamento e segurança no campo dos "achismos". o que não é verdade. 77). todas as interrelações entre as diferentes variáveis. ao examinar o conhecimento produzido sobre a noção de comportamento. Os verbos utilizados para nomear os comportamentos (como prevenir. o que requer mais do que o senso comum para examiná-lo e intervir sobre ele.. e não no campo da ciência. o estudo da influência humana no acidente de trabalho necessita considerar o conjunto de relações que se estabelecem entre um organismo e o seu ambiente de trabalho para ser considerado como comportamental. pode ser visto como expressão da qualidade da relação do indivíduo com o meio social que o cerca. as atitudes e as reações dos indivíduos em ambiente de trabalho não podem ser interpretados de maneira válida e completa sem se considerar a situação total a que eles estão expostos. e seus níveis de complexidade. Da mesma forma que é um objeto de estudo. examina alguns aspectos do homem. saber que se está fazendo isso é outra coisa (Burrhus Frederic Skinner). ] o acidente de trabalho. é um fenômeno presente no dia a dia de qualquer pessoa.. incluindo o meio. neste sentido. os comportamentos. com os companheiros de trabalho e com a organização. . ao sistematizar as contribuições da Psicologia para a prevenção dos acidentes de trabalho. Dela Coleta (1991.. afirma que ela evoluiu ao longo do último século em meio a confusões. presentes na ocorrência dos acidentes de trabalho. analisar) podem levar a pensar que as relações que compõem esse fenômeno são simples.

Profissionais (de diferentes formações) do campo da segurança. esses profissionais poderão atuar nos seus respectivos campos (um médico do trabalho. ou mesmo gestores e técnicos de outras profissões. por exemplo) com um alto grau de compreensão dos aspectos . Entretanto. É possível afirmar que os conhecimentos produzidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho (e áreas afins dentro da Psicologia) assumem funções distintas quando se trata do trabalho de psicólogos e demais profissionais da saúde e segurança. isto é. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se como uma Área de Conhecimento. com o objetivo de torná-las capazes de prevenir acidentes de trabalho. sobre os aspectos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. Os fenômenos comportamentais relativos à prevenção dos acidentes têm sido fonte de interesse e investimento por parte do governo. sem o devido preparo técnico-científico. um especialista formado. à luz do código de ética) para realizar tal atividade como uma profissão. De posse desses conhecimentos.Essa afirmação merece destaque e reflexão uma vez que toma o acidente de trabalho como um produto da forma pela qual o ser humano interage com o mundo à sua volta. Ele pode ser considerado um técnico. isto é. com máquinas. de diferentes áreas de conhecimento. autorizado e fiscalizado (pelo conselho profissional. intervenção de profissionais de outras áreas de conhecimento sobre o comportamento. o que confere um alto grau de complexidade a essa análise. dos grupos e da própria organização. Para o psicólogo. de que o comportamentalismo tem como propósito "manipular" os trabalhadores. um conjunto teórico-técnico que subsidia sua intervenção nos fenômenos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. julgamento de profissionais. isto é. equipamentos. pormenorizado. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se com um Campo de Atuação Profissional. empresas de prestação de serviços e grandes corporações brasileiras têm utilizado o termo segurança comportamental para referir-se ao conjunto de estratégias que utilizam para atuar sobre os comportamentos dos trabalhadores. um conjunto de saberes e conhecimentos que podem conferir a esse profissional um entendimento diferenciado. a atuação das organizações sobre os comportamentos do trabalhador em relação aos riscos do seu trabalho tem enfrentado alguns obstáculos como: reduzida oferta de profissionais adequadamente capacitados para lidar com comportamento humano em segurança. de empresas e de profissionais no que diz respeito à segurança no trabalho. Já no caso dos demais profissionais voltados para saúde e segurança. outras pessoas e até com a sociedade.

Geller (2001). Como já foi abordado no capítulo anterior. que acaba por punir ou expor colegas e subordinados. Isso se deve. atitudes. comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e . além de serem utilizadas. tendo sido registrados até casos de descompensação emocional por parte de integrantes do grupo. comportamento. fascinante e perigoso. funcionam como um verdadeiro condensado de "psicologia do senso comum". consideram que expressões como fator humano. correndo-se o risco do uso simplista do termo. Dos equívocos na concepção e na intervenção sobre os comportamentos em segurança pode decorrer o baixo grau de controle sobre os resultados das intervenções (prometer resultados que jamais ocorrerão) e da aplicação de técnicas sem o devido preparo profissional (o que pode gerar efeitos colaterais indesejados durante o processo). podendo elevar a qualidade e a efetividade da sua atuação em função disso. que são expoentes da Psicologia do Trabalho na atualidade. Referindo-se ao uso indiscriminado das estratégias de prevenção relacionadas com os aspectos humanos. o estímulo de feedbacks entre pessoas despreparadas para tal. Trata-se do cuidado adotado para com as questões éticas e de responsabilidade profissional. como sinônimo de Psicologia por quem não é psicólogo. a aplicação de técnicas de dinâmica de grupo sem a devida preparação técnica e com pouco controle sobre as conseqüências desse tipo de intervenção. à escassez de propostas de formação específica para esse campo e também à sua pequena expressão junto à formação profissional básica (graduação em Psicologia). em seu compêndio Manual de Psicologia da Segurança. a nomeação de gestão de aspectos humanos em segurança para referir-se a comportamento humano. a atuação de psicólogos no campo da saúde e segurança no trabalho no Brasil é bastante reduzida. ao mesmo tempo. Dejours (1999) e Geller (2001). Conceitos genéricos sobre os comportamentos das pessoas têm servido como base para intervenções em segurança que se intitulam "focadas no aspecto humano". muitas vezes. A respeito da intervenção de profissionais de outros campos de atuação sobre o comportamento humano. uma vez que é grande o risco de terem-se perdidos os critérios que diferenciam a utilização profissional da Psicologia da Segurança no Trabalho da sua utilização como fonte de conhecimento. em muito. É importante posicionar adequadamente tais funções. Outros exemplos de equívocos são a utilização do conceito de atitude (tendência a comportar-se de uma determinada forma) como sendo sinônimo de comportamento (conjunto de relações que se estabelecem entre o indivíduo e o meio). Trabalhar com pessoas é.humanos.

é possível afirmar que a probabilidade de sucesso da intervenção de um profissional com apropriados conhecimentos relativos ao comportamento humano é alta. um de seus principais ícones. incluindo mudanças de atitudes e comportamentos. afirmar que esses profissionais realizarão intervenções equivocadas. independente da qualificação teórica e técnica apresentada pelo profissional por ocasião de uma nova oportunidade de intervenção. e não porque são estratégias de trabalho com base em conhecimentos científicos. trata-se de caracterizar a natureza de diferentes tipos de intervenção profissional sobre essa dimensão: a dos profissionais que podem (e devem) utilizar o que há de conhecimento mais recente e confiável na Psicologia para instrumentar sua prática e a dos psicólogos que têm na dimensão humana o fenômeno que caracteriza e justifica a sua atuação profissional de forma central. ainda na década de 70. No entanto. preconceituosamente. na provocação de situações contrárias aos objetivos propostos (fortalecimento de resistências) e.desenvolvimento. é suficiente citar Skinner . Não são raros os programas de natureza comportamental concebidos e implementados por pessoas com formações profissionais para atuar sobre outros fenômenos que não o comportamento humano. na ausência de alterações nas situações de intervenção. Não significa. Os riscos de implementar conceitos e técnicas psicológicas nos processos de intervenção sobre os grupos de trabalhadores sem a devida consciência do alcance das suas implicações podem constituir-se na obtenção de resultados insuficientes. Possuir um diploma de Psicologia não garante a efetividade da atuação do psicólogo sobre o comportamento das pessoas. Ainda sobre os obstáculos. Skinner (1983). a crítica sempre presente de que atuar sobre o comportamento humano no trabalho é o mesmo que manipular o trabalhador parece infundada quando se conhece a fundo a análise do comportamento como proposta científica. como conseqüência. até mesmo. Intervenções dessa natureza deixam para trás um "rastro" de resistências e descrenças para com esse tipo de proposta e. porém. oferecia argumentos esclarecedores acerca desse tipo de "acusação". Não se trata de restringir a atuação dos profissionais de outros campos de atuação no que diz respeito à dimensão humana do processo de segurança (isso não seria possível). são selecionadas e ouvidas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque soam bem. dificultam atuações futuras nesse campo. na influência sobre o desequilíbrio emocional dos participantes do processo. Para o exame aqui apresentado. Um livro inteiro poderia ser produzido somente apoiado no debate acerca de intervenção sobre o comportamento x manipulação de pessoas.

A utilização da análise do comportamento e suas possibilidades como recurso para o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa. Se isso fosse fácil e possível. Mais do que a ação visível de uma pessoa. Essa é uma das grandes interrogações do mundo da segurança: o que separa os equipamentos modernos. normas e procedimentos. mas ainda há muito a ser feito. O comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo .(1983. as normas e os procedimentos de trabalho da atuação concreta dos trabalhadores? Quem pode oferecer tal resposta? Geller (1994). as orientações dadas nos treinamentos. pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos. crenças e traços de personalidade). fatores pessoais e comportamentais representam a dinâmica humana da segurança ocupacional. estou mais preocupado com interpretação do que com previsão e controle". sendo o meio caracterizado como máquinas. destaca três domínios que requerem atenção para que a segurança seja um valor em uma organização: fatores ambientais (equipamentos. desarticuladora da idéia de manobrar as pessoas para onde bem se entende sem que elas possam participar com suas próprias opiniões e seus próprios anseios. Autores como Dejours (1999) e Davies e Shackleton (1977) afirmam que o homem é o elemento relativamente estável do processo. p. ferramentas. necessariamente. fatores comportamentais (práticas de segurança e de risco no trabalho). Tal premissa já é. ferramentas. pois de nada adianta capacete de última geração se o trabalhador não souber ou não quiser colocá-lo (adequadamente) em sua cabeça. com certeza. tecnológicos.. A Noção de Comportamento Humano Quando se trata de prevenção de acidentes. fatores pessoais (atitudes.. relação com colegas e supervisores. temperatura). o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação. principalmente com relação aos aspectos humanos dos processos de segurança industrial. grandes avanços relativos a aspectos ambientais. o mundo seria diferente. legais e organizacionais foram alcançados. complementada e inter-relacionada com os fatores ambientais. por si só. 21): “ . entre outros. ao referir-se a uma cultura de segurança total. Para ele.

Uma análise do comportamento de prevenção (um estudo das variáveis que afetam o comportamento em exame) significa identificação das variáveis contingentes às respostas do organismo relacionadas aos riscos presentes. Dessa forma. que influem sobre a probabilidade do comportamento ocorrer no futuro.(ou junto com ela). como resultado da ação (Botomé. 697). Figura 1 Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento o conjunto de relações possíveis entre o que um organismo faz e o ambiente (anterior e resultante da ação) no qual ele faz Situação O que acontece antes ou junto à ação de um organismo Ação Aquilo que um organismo faz Consequência O que acontece depois da ação de um organismo FONTE: Botomé (2001. Em segurança. 1996). Podemos chamar de comportamento todo o processo de inter-relação entre as variáveis. o tipo de comportamento desejável em segurança é aquele que possui como resultado a não ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. Identificar e analisar aquilo que interfere na ocorrência dos comportamentos de trabalho podem ser uma maneira de conhecer as relações funcionais existentes. que elevam ou que reduzem as probabilidades de ocorrerem acidentes de trabalho. criando uma outra realidade. 2001). Entender o comportamento como uma relação entre a realidade de inserção de uma pessoa. permite afirmar que um profissional. p. a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois. A figura 1 apresenta as relações possíveis entre os componentes de um comportamento. as relações de influência recíproca que se estabelecem entre elas e o que aconteceu como resultado desse processo. considerando-se as situações. Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? . ao agir levando em conta esses três elementos. as suas ações perante a realidade e as decorrências de sua ação. tem maior probabilidade de gerar resultados relevantes por meio da sua atuação no trabalho (STÉDILE. os resultados relevantes de um comportamento são todos aqueles que podemos relacionar com prevenção.

São elas: os verbos que indicam as ações que devem ser realizadas (identificar e controlar). e os agentes envolvidos (si mesmo e o outro). pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro. p. excluindo os demais fatores também constituintes do fenômeno. Dessa forma. dentro e fora da "pele de cada um de nós". O conceito de comportamento como conjunto das relações entre o que um organismo faz e o meio em que faz permite avançar no entendimento da dimensão comportamental da segurança no trabalho. O chamado comportamento de risco poderia. pois ela remete o exame somente aos fatores externos ou observáveis do comportamento. internas e externas ao indivíduo. garantindo-se o caráter. 2004). individual e coletivo desse comportamento. ao mesmo tempo. a noção de ato inseguro como forma de referir-se aos aspectos comportamentais em segurança. os aspectos do meio que devem receber intervenção (os riscos da atividade). ser definido por meio da relação com sua conseqüência. 23). que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influência que exerce sobre as mesmas variáveis. Deveria esse ser chamado de ato seguro? O comportamento seguro de um trabalhador. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. então. para si e para o outro (BLEY. os adjetivos . normalmente. Há dificuldade em pesquisar sobre a noção de comportamento seguro devido à escassez de produções (científicas ou não) que tratem do que se entende por lado oposto do ato inseguro. oferecendo a essa análise um caráter compatível com seu nível de complexidade (que é grande). o que já revela a existência de uma tendência de iniciar-se a análise tomando como ponto de partida o erro. utiliza-se. como afirma Skinner (1983. Essa definição é útil à medida que contém em si as principais propriedades do comportamento que produz como conseqüência a não ocorrência de acidentes.Nas discussões no âmbito da segurança no trabalho. aquilo que não se deve fazer. ao mesmo tempo. a relação entre tempo da ação e tempo do resultado (presente e futuro). os comportamentos relacionados com a segurança também são considerados como determinados por múltiplas causas. torna pouco recomendável a utilização da expressão ato. Tal entendimento de que comportamento é algo que existe. o resultado objetivado para o comportamento (redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis). de um grupo ou de uma organização.

É possível exemplificar esse processo: quando um motorista desafia. é dito que ele comportou-se de maneira insegura. 62). dizendo "ele é bem menor do que parece". O conceito de risco está associado à relação entre a freqüência da exposição e as conseqüências que podem ocorrer em função da exposição (CARDELLA. Evitar o acidente de trabalho é. Se ele evitou passar pelo buraco. e não como uma ação fixa. . ele está se comportando em relação ao perigo (buraco). P. é possível considerar que ele comportouse de maneira segura. Esse exame permite utilizar os adjetivos seguro e preventivo para referir-se a comportamentos que resultam na redução da probabilidade de algo indesejável acontecer. Tal compreensão permite examinar a possibilidade de prevenir danos (acidentes e doenças) à saúde como um processo.seguro e inseguro podem ser vistos como graus da segurança de um mesmo comportamento. Se ele subestimou o tamanho do buraco. cuida. enfrenta. negligência e imprudência são algumas das expressões comumente utilizadas para qualificar os comportamentos próprios e impróprios das pessoas diante dos mais variados perigos. a finalidade do comportamento que recebe o adjetivo seguro. Figura 2 Graus das condições de segurança de um comportamento Seguro Inseguro Graus de Segurança do Comportamento FONTE: adaptação da autora a partir do esquema de graus das condições de saúde de organismo (REBELATTO. os adjetivos seguro e inseguro podem ser entendidos como aspectos do comportamento de "trabalhar" de um sujeito (figura 2). e o resultado dessa ação pode caracterizar o risco ao qual ele foi exposto. o que significa dispô-los num continuum que pode variar do mais seguro ao menos seguro (ou de risco). caiu no buraco e teve seu veículo avariado. Ato inseguro. controla. Assim. teme ou evita um grande buraco na estrada. em última análise. BOTOMÉ. O fator de risco de uma atividade pode ser concebido como a representação de diferentes graus de exposição de um indivíduo a um agente perigoso ou como a probabilidade de ocorrência de conseqüência indesejável ser reduzida. atitude preventiva. 1999. 1999).

isto é. No entanto. mas de identificar os níveis de influência que as pessoas envolvidas na realização de uma atividade arriscada exercem sobre as ocorrências na intenção de tornar possível a reorganização das variáveis presentes. o ser humano desconsidera a possibilidade de influir sobre a prevenção dos acidentes. A segurança no trabalho como área de conhecimento seria. as decisões organizacionais. Essa compreensão traz à tona a influência decisiva do homem na exposição ao risco e contraria o senso comum da vitimização do homem. Risco significa a combinação da probabilidade e da conseqüência de ocorrer um evento perigoso especificado. Ao desconsiderar a possibilidade que o homem possui de influenciar nas variáveis que elevam a probabilidade de ocorrer acidentes. Isso poderia significar que o homem não exerce poder sobre os graus de segurança das suas atividades. é preciso posicionar o anteparo entre o centro gerador da fagulha e os olhos para que o resultado aconteça: olhos protegidos de corpos estranhos. Bernstein (1998) afirma que a palavra risco é uma derivação italiana antiga para risicare. Sob essa raiz. e não um destino divinamente traçado.Essa exposição depende. definição que permite encobrir o exame dos aspectos humanos envolvidos e pode significar a ênfase nos aspectos de natureza estatística dos riscos. extinta. assim como em outras atividades consideradas arriscadas. o risco pode ser examinado como uma opção do ser humano. . Não se trata de culpar o trabalhador da ocorrência de acidentes. Identificar e rearranjar os aspectos envolvidos permitem agir sobre os determinantes dos problemas antes que eles aconteçam para que não aconteçam. em decorrência dessa concepção. Não basta estar de posse de um anteparo para impedir que as fagulhas produzidas por uma máquina atinjam os olhos do operador. das condições de trabalho. os procedimentos de trabalho e também o tipo de relação que o trabalhador estabelece com os perigos inerentes à sua atividade. cujo significado resume-se em ousar. dessa forma. a dimensão comportamental do trabalho seguro pode influenciar nos diferentes graus de segurança possíveis para o trabalhador. Ações de controle são realizadas por empresas e profissionais da segurança para que a probabilidade de ocorrer acidentes seja reduzida ao mínimo possível. diretamente. Nesse exemplo. que o remete a um papel desprovido de qualquer participação na ocorrência indesejável. as quais podem envolver a disponibilidade e a adequação do maquinário. muitas das ações de controle necessitam da participação das pessoas para serem efetivas. é possível dizer também que. para prevenir acidentes.

pois o ruído é um sinal de que poderá haver uma explosão. por sua vez. o comportamento de evitar é fortalecido. Pode-se dizer que o ruído ajudou o trabalhador a evitar um acidente naquele momento e. O colega sabe disso porque. na empresa em que trabalhava anteriormente. ferindo-o gravemente. Considerando a análise sobre a resposta de evitar.Ao sistematizar os conhecimentos provenientes da Análise do Comportamento sobre o que ele chama de reforço negativo condicionado. possivelmente. O trabalhador desliga o equipamento e retoma os reparos para que o problema que causou o ruído fosse descoberto e resolvido. ajudará a evitar outros em condições semelhantes. uma seqüência de acidentes ocorre. Um trabalhador de manutenção realiza um reparo num equipamento. reiniciando o ciclo de investigação. plano de ação para evitar que . Por outro lado. eleva a probabilidade do aversivo (danos à saúde causados por acidente) ocorrer. gradativamente. Skinner (1967) explica que. originado da parte inferior do equipamento. no qual já realizou reparos em outras oportunidades. O autor ressalta. repetidamente. o indivíduo pode perceber o sinal e agir para evitar essa situação. ainda. é possível afirmar que a ameaça de sofrer acidentes pode ser útil para evitá-los quando o comportamento do indivíduo está sob controle do acidente ocorrido (com ele. percebe um ruído grave e baixo. Ao testar o equipamento após a intervenção. A seguinte situação pode exemplificar a possibilidade de aplicar o exame do conjunto de relações descrito pelo autor ao exame do problema dos comportamentos para segurança do trabalho. Em última análise. realmente. Dias após o bolo e os balões decorativos. um funcionário havia sofrido um acidente ao realizar reparos num equipamento semelhante quando um ruído semelhante ocorreu e foi seguido de uma explosão. o que faz com que o ciclo· repita-se. Se o indivíduo fizer isso e. evitar a situação aversiva. se houver um estímulo (um sinal) que precede uma situação desagradável. Tal fenômeno pode ser representado pelas tradicionais comemorações por período sem acidentes. não ocorrer o acidente (como decorrência de evitálo de forma efetiva) enfraquece o comportamento de evitar. a não ocorrência do aversivo (danos à saúde causados por acidente) tende a enfraquecer. feita por Skinner (1967). a ocorrência da resposta (desligar o equipamento) que. que o contato com o estímulo aversivo (sofrer acidente) pode recondicionar o poder do estímulo anterior (ruído grave e baixo) e fazer com que o organismo volte a comportar-se de forma a evitar o contato com o aversivo. Um colega que trabalha num outro equipamento ao lado orienta-o para que desligue imediatamente o aparelho. com pessoas significativas ou visto por meio de fotos e vídeos). o fato de.

O verbo reduzir. 1999. BOTOMÉ. mesmo em graus mínimos. nem todas as 3 REBELATTO. Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? A característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. Analogamente. Conhecer as relações que compõem o ciclo analisado possibilita a interpretação de fenômenos como o da alternância entre períodos com e períodos sem a ocorrência de acidentes nas empresas. uma vez que as duas noções costumam ser utilizadas como sinônimos. R.. pode representar a capacidade de influenciar na probabilidade do acidente ocorrer de forma a torná-la menos provável. Por isso. Ao tratar de forma detalhada da causalidade circular que define o comportamento preventivo. a fim de impedir sua ocorrência. principalmente por ser este um dos principais paradigmas do campo da saúde e da segurança no trabalho. . é adequado afirmar que esse tipo de comportamento tem como propriedade definidora a sua capacidade de reduzir (e manter baixa) a probabilidade de acidentes para o indivíduo. São Paulo: Manole. ed. em função das propriedades que foram descritas. P. visto que não seria possível obter o mesmo tipo de conseqüência de forma duradoura por meio do processo de evitar. A comparação permite afirmar que o processo de redução parece ser mais apropriado como propriedade definidora do comportamento seguro em função da semelhança que apresenta em relação às características definidoras da noção de risco.ocorra novamente etc. j. Considerando que o comportamento seguro ocorre na presença de riscos. ao ser aplicado ao estudo da segurança no trabalho. parece importante examinar aquilo que tem sido considerado como prevenção. entre elas a natureza estatística. o da ocorrência de acidentes com funcionários que foram submetidos a muitas horas de treinamentos de segurança e até o do insucesso de campanhas e programas na redução da quantidade de acidentes ocorridos nas empresas. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e perspectivas profissionais. S. 2. que tem como um dos significados "tornar menor". é possível identificar a necessidade de diferenciá-lo do que significa o processo de reduzir. Assumindo a análise dos aspectos que compõem o processo de evitar como ponto de partida. prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência.

1996) permite visualizar equívocos e acertos nos processos utilizados para gerenciar os acidentes de trabalho. EPIS. reabilitar. São eles: atenuar. Manutenção de características adequadas nas condições de saúde. prevenir. redução) de danos produzidos nas condições de saúde dos organismos Recuperação (eliminação) de danos produzidos na qualidade das condições de saúde dos organismos. o que muda o foco de atuação: do problema existente (o acidente) para fatores que alteram a probabilidade da sua ocorrência (dispositivos de segurança. tratar. compensar e atenuar. reabilitar. 48) Conforme pode ser examinado na figura 3. Figura 3 Tipos de atuações profissionais possíveis Atenuar Compensar Reabilitar Tratar Prevenir Manter Promover Atenuação do sofrimento produzido por danos definitivos nas condições de saúde dos organismos. Reabilitação (limitação. uma vez que grande parte das empresas afirma fazer prevenção em segurança apenas calculando taxas de freqüência de ocorrências e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. tais procedimentos são mais condizentes com os tipos de atuação tratar. supervisão no caso da segurança no trabalho). e não apenas em relação aos problemas ou suas conseqüências. Sua representação pode ser examinada na figura 3. manter e promover. Rebelatto e Botomé3 (STÉDILE. FONTE: Stédile (1996. compensar. p. empresarial e de intervenção profissional (entre as diferentes especialidades do campo da saúde e da segurança no trabalho) sustenta-se por meio do . Ao proporem essa definição.formas de atuar sobre os graus de saúde de um organismo podem ser chamadas de prevenção. Conhecer os tipos de atuação propostos por Rebelatto e Botomé (STÉDILE. Prevenção da existência de danos nas características das condições de saúde. prevenir implica em agir em relação aos determinantes dos problemas. É possível afirmar que grande parte das estratégias de prevenção adotadas em nível governamental. 1996) sistematizaram os diferentes tipos de atuação profissional possíveis em relação aos graus de condição de saúde apresentados. As distorções naquilo que se entende como prevenção podem implicar importantes conseqüências para os resultados de treinamentos e palestras que têm por objetivo ensinar a prevenir. Compensação dos danos produzidos nas condições de saúde dos organismos. Promoção de melhores condições de saúde existentes. procedimentos.

é relevante examinar a importância do processo de ensino-aprendizagem para a prevenção dos acidentes de trabalho. pode-se considerar que o campo da saúde e da segurança tem se especializado mais em morte do que em vida. ser considerado um processo comportamental e aprender representa a possibilidade de ocorrerem comportamentos significativos para a segurança dos trabalhadores. Se prevenir acidentes pode.paradigma da doença e do acidente. Uma das conseqüências disso para a segurança comportamental foi uma ênfase nas iniciativas muito mais caracterizada pela descoberta e correção dos comportamentos inadequados do que pela identificação de suas causas e capacitação dos trabalhadores e dirigentes para gerar um ambiente de trabalho saudável Essa mudança de paradigma é necessária e urgente. também. . e não da saúde. Correndo o risco da generalização.

algumas ações educativas obrigatórias (para algumas organizações) como o curso de integração de novos funcionários na empresa. a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (SIPAT) com suas palestras e campanhas educativas e até o curso de formação para membros da Comissão Interna para a Prevenção de Acidentes (CIPA). É possível encontrar. Isso evidencia uma crença coerente dos profissionais do campo da segurança e dos legisladores na importância do papel da educação na melhoria das condições de saúde dos trabalhadores à medida que o processo oferece a possibilidade real de promovê-la. no texto das leis que tratam da prevenção de doenças e acidentes. efetivamente. Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho. À luz do conhecimento produzido sobre o comportamento humano. precisa ser ensinado e aprendido. para si e para os colegas com os quais trabalha. quanto para outros países do mundo: o acidente de trabalho. . A educação para a saúde e a segurança é uma das tradicionais estratégias utilizadas em políticas públicas e programas de prevenção de doenças e acidentes relacionados ao trabalho como meio de capacitar trabalhadores. antes.O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção Se a educação não pode tudo. além da forma como isso pode ocorrer. É certo que a prevenção dos acidentes e das doenças ocupacionais é a principal via de acesso à mudança deste que se configura como um verdadeiro problema de saúde pública tanto para o Brasil. é possível afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho. compreender o que. é necessário. alguma coisa fundamental a educação pode (Paulo Freire).

o que realmente significa mudar comportamentos? É possível criar um treinamento ou um evento que mude os comportamentos das pessoas? Para Botomé (2001. isto é. compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado. Tais aspectos do comportamento. que são externos ao organismo (estão do lado de fora da pele de cada um). uma vez que eliminam a possibilidade de considerarem-se os aspectos externos ao indivíduo. imprudência. alterando o resultado desse comportamento.. 19) afirmam a necessidade de: . negligência. Por outro lado. é necessário identificar as variáveis das quais o comportamento é função (aspectos internos e externos ao indivíduo que mantém aquele comportamento) e criar condições para que as relações existentes entre elas possam ser reorganizadas. estabelecidas entre as variáveis.Mudança de Comportamento Uma expressão é bastante comum nos debates acerca de aspectos humanos relativos à prevenção de acidentes de trabalho: mudança de comportamentos. . consiste em estabelecer novas relações entre um organismo. o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais. tais fenômenos estão associados a outros na construção do cenário de um acidente. sentimento de pertencer à equipe. 700). elas restringem o exame dos aspectos comportamentais. p. abalo emocional.. mas que também influenciam no comportamento. em muitos casos. É certo que. falta de cuidado. p. superar a crença de que as principais variáveis determinantes do comportamento são internas e identificar as variáveis ambientais mais significativas para alterar o comportamento. Para que seja possível. com liderança. falta de atenção. o que se observa nas considerações feitas sobre as causas humanas é à forte presença de explicações orientadas para aspectos internos ao indivíduo: falta de percepção de risco. podem ser: • interpessoais: relacionamento com colegas. distração. Tão utilizada e com tantas finalidades que se torna raro chegar a um nível de análise em que os debatedores perguntem a si mesmos: Afinal. Ao examinar a importância do comportamento humano para a formulação de objetivos organizacionais. o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação. Kienen e Wolf (2002. Normalmente. reorganizar as relações que. pois isso constitui um aspecto básico para administrar comportamento humano.

treinamentos. o que pode ser decorrência de modificações nos equipamentos. mas em função do resultado que produzem (aprendizagem) para seus participantes. sócio-culturais: condições de vida da população que compõe o grupo de trabalhadores de uma organização. A mudança de comportamento em segurança pode ser entendida como uma alteração naquilo que o trabalhador consegue produzir na interação com seu meio. valores e tradições culturais. é preciso examinar de que forma e em que contexto essas estratégias têm sido utilizadas. nas normas que regem as atividades e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização com o propósito de prevenir a ocorrência de acidentes de trabalho. Da necessidade de administrar o comportamento humano para evitar os acidentes de trabalho (e da complexidade que isso representa). cursos. jornais. o que caracteriza a complexidade e a diversidade das variáveis que podem influenciar nos comportamentos das pessoas no trabalho. A discussão sobre métodos eficazes de modificar comportamentos não esteve restrita somente ao mundo do trabalho. como conseqüência do seu comportamento de trabalhar. piso. códigos disciplinares. Palestras. . Essa mudança ocorre em razão da reorganização das variáveis das quais o comportamento é função. Se um indivíduo obtém. alta probabilidade de ocorrer um evento indesejável (acidente) num momento e. normas e procedimentos. de gestão: sistemas de gestão. no momento seguinte. peças de teatro são exemplos de estratégias utilizadas com a finalidade de influenciar na conduta do trabalhador com relação à segurança no trabalho. feiras. mas também aos movimentos sociais. Por outro lado. também. hábitos regionais. uma vez que não podem ser consideradas eficazes em si. políticas motivacionais.• • • • ambientais (ambiente físico): iluminação. é possível dizer que esse indivíduo mudou seu comportamento. aos comportamentos relativos à segurança. metas. originou-se a busca por mecanismos capazes de mudar os comportamentos das pessoas de modo que eles passassem de condutas pouco seguras para condutas muito seguras na realização das atividades. na organização do trabalho. Muitas tentativas de modificar os comportamentos no trabalho podem ser inúteis se os aspectos do ambiente organizacional não forem considerados. essa análise aplica-se. obtém a redução da probabilidade do evento ocorrer. da tarefa a ser desenvolvida: tempo e recursos compatíveis. equipamentos.

nem contribuir para o acidente dos colegas. os trabalhadores tornaram-se capazes de realizar suas atividades de forma mais segura. objetivo principal da capacitação para segurança. Se essa mudança for relativamente permanente. Dessa forma.políticos. mas fazê-lo desprovido de análise pode ser tão arriscado quanto não cumprir as regras. Da mesma forma. Conhecer e respeitar as regras de segurança é importante. é possível dizer que houve aprendizagem (CATANIA. pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando (indispensável para poder se comportar considerando os riscos presentes) e até no . o que deve ser definido como aprendizagem necessária para que tal capacidade seja desenvolvida? Cumprir regras? Seguir normas e procedimentos? Tomar decisões seguras? Antecipar-se aos problemas? Todas as possibilidades juntas? Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia. 1999). o que caracteriza mudança de comportamento. diminuem as chances de ele sofrer outro acidente? Como fazer para que todos cumpram as normas de segurança? Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos A idéia do acidente como expressão da qualidade da relação indivíduo-meio evidencia a análise do comportamento humano como uma alternativa para identificar e analisar aquilo que influencia na capacidade de um trabalhador prevenir a ocorrência de danos à sua saúde. Instrutores. educadores dividem-se nas opiniões acerca do que deve ser aprendido pelos trabalhadores para que sejam capazes de não se acidentar. Ao terse a obediência como objetivo de ensino. em alguns casos. gestores. religiosos e à educação dos filhos: A palmada educa? O castigo é menos traumático? É útil passar pimenta nos dedos para deixar de roer unhas? Esses são questionamentos que pais e educadores fazem até hoje. No entanto. passa a ser possível organizar o ensino de forma a fazer novas sínteses comportamentais. acontece no campo da segurança: Após quantos atos inseguros flagrados eu devo advertir um funcionário? Se deixar de promover o acidentado a um cargo melhor. A maior parte dos instrutores e participantes de treinamentos de comportamentos seguros estudados por Bley (2004) afirma ser cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa.

prisão. 294). podendo até levá-la a níveis mínimos mas. o qual pode ser chamado de punição. por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade. isso revela . defendido por sábios e cientistas. ao longo do tempo. Também não se trata de baderna e subversão. O adequado equilíbrio entre a ocorrência de comportamentos controlados por regras e de comportamentos modelados por contingências parece ser um arranjo mais indicado quando se trata de comportamentos preventivos (Skinner. Isso significa que ensinar o trabalhador a tomar decisões por meio de escolhas conscientes e de qualidade é tão importante para a educação para a segurança quanto deixá-lo ciente das regras que precisam ser seguidas. Entretanto. a existência das prisões não fez reduzir a criminalidade. No caso de um técnico de segurança advertir duramente um trabalhador que não esteja utilizando protetor auricular. censura. de Lao Tsé a Paulo Freire. penitências. Assim posto. o comportamento punido tende a recuperar a freqüência antiga. a fazer escolhas com relação a elas. foram (e são) tomadas providências de diferentes naturezas. o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência e do controle. 1980. Multas. Isso acontece porque a punição influencia na diminuição da freqüência do comportamento. assaltos. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa. p. o trabalhador tende a colocar o equipamento na presença do técnico e a retirá-lo tão logo perceba que o mesmo não está mais presente. ela pode não ser permanente. passando por cursos e treinamentos. desvalorização são exemplos comuns no dia a dia e existem com o objetivo de acabar com a ocorrência de determinado comportamento não aceitável – excesso de velocidade.prejuízo da sua atuação com relação à criação de meios mais seguros de trabalho devido ao faro de estar condicionado a um único conjunto de regras. que vão da difusão de informações às medidas disciplinares. Quando o efeito passar. ao observaremse as práticas mais difundidas nas organizações para esse fim. é possível perceber a forte presença de um mecanismo de controle bastante comum na nossa sociedade. Entretanto. mas sim de um equilíbrio saudável e importante entre autoridade e liberdade (caminho do meio). ao observar-se atentamente a realidade. necessariamente. castigos. no caso das multas. Em nome da modificação do comportamento do trabalhador. desaprovação. nem as multas acabaram com as infrações de trânsito. considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam. no caso da prisão.

frustração e revolta. e seus efeitos temporários são conseguidos com tremendo custo na redução da eficiência e felicidade geral do grupo. Para que isso seja possível. a fim de que seja possível a preservação da integridade das pessoas envolvidas. pode gerar raiva. que requeira providências imediatas. falhas e paradas de equipamentos. Se a situação for considerada crítica. submeter os trabalhadores a situações de tal natureza pode gerar efeitos indesejáveis como aumento da ansiedade e do medo. a fim de que ele continue não existindo (o acidente). é necessário que as pessoas aprendam à trabalhar considerando algo que não existe. Entretanto. por exemplo. ou se for qualquer outra situação de elevado potencial de risco. Avaliar a utilização de punição sob o aspecto da baixa eficiência na mudança de comportamentos não significa que esse mecanismo não tenha função no processo de segurança. como emergências. na qual seja necessário evitar alguns comportamentos que representem alta probabilidade de acidente.. o uso desse sistema de controle pode ser recomendável devido ao poder de suspender imediatamente algumas condutas. É evidente que só se justifica tal procedimento quando outros recursos de segurança não tiverem se mostrado eficazes para impedir a ocorrência de um comportamento que represente ameaça iminente às condições de saúde de uma pessoa. Como é possível ensinar alguém a se proteger de algo que não existe (acidente não existe até que aconteça)? Uma das formas é criar um sistema de reforço de comportamentos com base no que a Análise do Comportamento chama de . Conforme Skinner (1967. em longo prazo. além das desvantagens da punição como agente de controle e modificação de comportamentos. a punição realmente não elimina o comportamento de um repertório. é preciso fazer isso sempre considerando e resguardando a dimensão ética do que o fato representa. não é aconselhável a utilização desse procedimento no cotidiano do trabalho porque. 113): . do técnico. se for situação atípica. Ser capaz de comportar-se de forma a reduzir a probabilidade de que um acidente aconteça é o objetivo maior de uma proposta de segurança com ênfase no comportamento humano.outro aspecto importante sobre a punição: há uma tendência a fazer efeito somente na presença do agente punidor. p. no exemplo. Da mesma forma. Advertir uma pessoa ou proibir sua entrada em determinado local onde há perigo é claramente diferente de agredi-la (verbal ou fisicamente) por não ter utilizado uma máscara de proteção contra gases. pode reduzir a espontaneidade e a criatividade..

Pode ser observado quando um comportamento tem como conseqüência um estímulo que o reforça e passa a ocorrer com mais freqüência. programas motivacionais. o que reafirma a educação como eixo central do processo de prevenção. estabelecê-lo representa um elevado grau de dificuldade. consultores) avalie e discrimine os aspectos que compõem as contingências (sistema de relações que facilitam ou dificultam a manutenção de comportamentos) e que poderão contribuir para que isso aconteça. p. nesse sistema de mudança de comportamentos.reforço negativo do tipo esquiva. Na esquiva. Um outro processo estudado pela Análise do Comportamento que pode influenciar na ocorrência de comportamentos é o reforço positivo. por si só. pois requer que a instância promotora da mudança (gerências. a ausência do evento afeta o comportamento de forma a torná-lo mais permanente. sofrimento). Sua utilização na criação de condições para a ocorrência de comportamentos desejáveis (no caso da segurança. naquele grupo. pois é caracterizado pela apresentação de um estímulo reforçador ao organismo enquanto que o negativo consiste na remoção de um estímulo reforçador. é improvável que se consiga conhecer e controlar as variáveis mais apropriadas para estimular comportamentos preventivos como campanhas. O processo de fuga (em Análise do Comportamento) só é possível quando se trata da análise das causas de acidentes e doenças que já ocorreram. Ou seja. 121) afirma que isso pode explicar por que medidas de segurança e outros procedimentos preventivos não são modelados naturalmente com muita freqüência. os comportamentos capazes de prevenir) é possível à medida que são conhecidas as conseqüências capazes de reforçar tais comportamentos. a não ocorrência do acidente aumenta a chance do indivíduo comportar-se de forma segura novamente. que é uma premissa do processo de prevenir. Catania (1999. A conseqüência de um comportamento efetivamente seguro é que nada acontece. dor. elimina a possibilidade de agir antes que aconteça. Uma outra forma de reforçar negativamente um comportamento é aquilo que pode ser chamado de fuga. Apesar de ser um procedimento que tende a ser duradouro. pois ele não sofreu as conseqüências desagradáveis do acidente (lesões. profissionais de segurança. sem uma profunda e minuciosa análise de todos os fatores que influenciam no comportamento daqueles indivíduos. mas que não se aplica à análise da prevenção porque consiste em eliminar um estímulo aversivo que já está ocorrendo e que. pois afasta o organismo da probabilidade de sofrer conseqüências indesejáveis. É diferente do reforço negativo. códigos de valores e conduta. Essa possibilidade justifica a .

pois não é obra do acaso). os prêmios. 1999) que um determinado estímulo que é reforçador para o comportamento apresentado por um organismo pode não exercer o mesmo tipo de influência sobre o comportamento de outro. elogios e diplomas de reconhecimento são considerados como recompensas a priori. A Análise do Comportamento já descobriu (SKINNER. e criar condições pessoais e organizacionais para que ele torne-se o agente do seu processo de segurança. é possível construir (ou adaptar) um conjunto de ações mais coerentes. isto é. aquilo que estimula comportamentos seguros em uma pessoa pode não estimular a mesma conduta em outra. O ajuste das estratégias às características de cada grupo é eficiente uma vez que. partindo-se do pressuposto que esses tipos de conseqüências influenciam na ocorrência de comportamentos desejáveis para todas as pessoas. envolvendo estimulação de condutas desejáveis. Isso pode (e deve) ser estabelecido tanto no âmbito dos programas de formação. difícil ou desagradável. . quando se trata de comportamento humano. limitação (de forma saudável e cuidadosa) de condutas indesejáveis. 1967. as necessidades e as características do público a ser gerenciado. sem que isso lhe pareça aversivo. descobriu evidências de que a empresa utilizava recompensas com o objetivo de fazer com que todos se comportassem da forma como ela estabelecia ser a adequada. Conhecendo com profundidade os valores. Tal aprofundamento na análise permite alcançar o objetivo de tornar o indivíduo mais bem preparado para lidar com os riscos das suas atividades.utilização de recompensas por líderes e organizações na tentativa de estimular os funcionários a conduzirem suas atividades com segurança. Bernardo (2001). em muitos casos. construção coletiva de regras. CATANIA. após realizar um estudo sobre as representações dos trabalhadores de uma indústria química sobre acidentes e contaminações. quanto no dia-a-dia de trabalho para que seja possível fazer com que a busca pela mudança de comportamento não fique restrita às paredes do centro de treinamento. vale a máxima de que cada caso é um caso. e não um expectador. O problema é que. comemoração de conquistas como a de períodos sem acidentes (reconhecendo como foram construídas.

Expor o aprendiz às contingências que estarão presentes nas situações com as quais terá de lidar no exercício profissional eleva a probabilidade desse aprendiz atuar conforme os objetivos comportamentais que orientaram o planejamento do ensino (BOTOMÉ. ocorra em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional. as características do vínculo empregatício. aplicação do conhecimento desenvolvido. a natureza do processo produtivo. Normalmente. reduzir o volume e investir na qualidade da estratégia e do instrutor podem produzir resultados mais significativos. o estilo de liderança e de relações de poder estabelecidos na organização. mas uma pequena parte. é ter clareza da importância de educar no cotidiano.Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade As estratégias de aprendizagem e a melhoria das condições de segurança de uma indústria precisam ser concebidas. Essa análise permite questionar a utilização de carga horária de treinamento por ano como indicador de desenvolvimento de pessoas. o trabalhador aprende que não se deve intervir na máquina quando ela está . É a antiga (e ainda sem solução) incoerência entre teoria e prática. planejamento do ensino. em treinamento. mas estrada é diferente do centro da cidade. com base nas situações concretas com as quais o trabalhador precisa ser capaz de lidar. mas isso nem sempre ocorre por má qualidade dos cursos ou dos instrutores. 1977). auditório). na prática. o trabalhador terá mais condições de agir. Certamente. Trânsito é trânsito. as políticas e estratégias do negócio. Não é o que acontece quando existem caminhoneiros participando de um curso de direção defensiva elaborado para taxistas. estão a cultura da organização. É necessário que o processo de levantamento de necessidades. os exemplos seguidos. a baixa eficácia das ações de educação está relacionada com a incompatibilidade que elas têm com a cultura e o clima da organização. caminhão é diferente de carro. conforme aquilo que foi ensinado em sala. no que se referem ao comportamento humano. Quando o propósito é garantir a aprendizagem do participante. trata-se da vida real. isto é. Do outro lado das estratégias educativas. Tão importante quanto educar em espaço diferenciado (sala de treinamento. Na sala de treinamento. É muito comum organizações contarem com um baixo nível de eficácia de suas ações educativas. algo poderá ser aproveitado. realização do curso. Se o processo de capacitação for concebido com base no tipo de trabalho a ser desenvolvido e em seus respectivos riscos.

mesmo após ter assistido a uma palestra sobre o assunto? A característica educativa de uma determinada ação está relacionada a uma intenção de ensinar e a um objetivo final de que o público de interesse (o aluno) aprenda algo. nesse caso.ligada. sem máscara de ar. No lugar da ênfase nos conteúdos. Segundo os autores. seu supervisor pressiona para ele fazer um reparo com a máquina funcionando mesmo. num equipamento impregnado de gás tóxico. é ele a vítima da lesão ou do acidente decorrente dessa ação. recebeu óculos de proteção. só desta vez. é caracterizada pelo que o aluno é capaz de fazer em seu meio. Botomé e Kubo (2001) defendem que ensinar (o que o professor faz) e aprender (o que acontece com o aluno como resultado do fazer do professor) são complexos processos comportamentais intimamente inter-relacionados. esta. A aprendizagem é caracterizada pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. 1999). é possível identificar a influência de modelos da educação escolar e a ênfase na transmissão de conteúdos e informações. porém. . ensinar consiste na relação entre o que o professor faz e a efetiva aprendizagem do aluno. Partindo do princípio que a mudança de comportamento é um dos indicadores da ocorrência de aprendizagem. mas não usa por quê? Por que razão um sujeito ultrapassa uma barreira de isolamento e entra. A partir do momento em que os aspectos externos ao indivíduo forem considerados como parte integrante daquilo que chamamos comportamento. Ao examinar o planejamento e a execução de eventos promovidos com o objetivo de capacitar os trabalhadores para atuarem de forma preventiva. em decorrência do fazer do professor. será possível começar a desvendar algumas inquietações prevencionistas do tipo: Por que não cumpriu com os procedimentos de segurança? Foi treinado. é possível afirmar que os recursos educativos utilizados para ensinar os trabalhadores a realizarem suas atividades com segurança só poderiam ser assim chamados quando verificada a ocorrência de mudanças no comportamento dos trabalhadores em relação aos riscos das suas atividades. os programas de educação em SST. por sua vez. ao retomar às atividades. criticar e intervir sobre a sua realidade de trabalho. aprenda a prevenir acidentes de trabalho. transformando-a. pois não há tempo e a produção tem que ser entregue a qualquer preço. pouco efetiva no desenvolvimento de competências. deveriam orientar-se para a construção de uma consciência crítica que proporcionasse ao trabalhador uma maior capacidade de compreender. diz que é importante. É uma pena que quem acabe pagando o preço seja o próprio trabalhador. no Brasil (se estivessem preocupados com o ensino de comportamentos preventivos).

Somente nas últimas décadas é que o entendimento acerca da figura do educador no contexto do trabalho tem sido ampliado (ainda que discretamente) para elementos como palestrantes motivacionais. A continuidade das ocorrências da mesma natureza daquelas apresentadas nos cartazes. O que não está incorreto. de serviços. conhecimento e troca de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito à própria segurança. orientadores de carreira. especialistas. nem sempre surtindo o efeito desejado. facilitadores de processos de disseminação de informação. autores de livros. informação. O equívoco reside em considerá-las como sendo eficazes por si só. não só no contexto da segurança do trabalho. Mensagens como: use o cinto. no lugar de educar o seu público de interesse. . previna-se. até nas mesmas organizações em que foram afixados. entre outros). A resposta mais imediata aponta para os instrutores de treinamento. Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional Quando se trata de educação para a prevenção no ambiente de trabalho (industrial. as palestras. Dar ordens e educar são coisas diferentes. em pé. os treinamentos. agrícola. os diálogos de segurança. uma vez que são eles que exercem atividades de ensino que mais se assemelham àquelas tradicionalmente conhecidas. cumpra os procedimentos. as abordagens de conscientização. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão da AIDS. na informalidade. O significado comumente associado à função de educador ainda segue a figura tradicional da professora de crianças pequenas. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto. Não há dúvida de que consciência. Em muitos casos. não é comum que se tenha clareza de quem são os educadores. comercial. como sendo sinônimos de objetivos de ensino ou de coisas que os aprendizes precisam ser capazes de fazer após o processo ensino-aprendizagem. parecem ter sido concebidos para dar ordens ou alertar. os cartazes e as campanhas são amplamente apresentados como ações educativas aos trabalhadores. como expor idéias. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. pessoas queimadas. escrevendo num quadro branco afixado na parede.Quanto aos tipos de objetivos de ensino. diante de uma sala cheia. mas também no trânsito.

São educadores aqueles que definem os "rumos do negócio". a tradição da especialidade: "quem é da manutenção não se acidenta". os equipamentos. no melhor tempo possível. São considerados educadores aqueles que adentram as salas de treinamento e os auditórios. afirmando que há muitas formas de atuar como educador numa organização. De início. O primeiro ganha contornos bastante complexos quando se consideram os hábitos já sedimentados. clareza acerca dos objetivos de ensino (competências e habilidades a desenvolver). . ao tomar-se o educador por aquele que cria condições para que alguém aprenda e considerando a complexidade do contexto do trabalho. e atendendo os prazos acordados. atingindo até a "senhora do cafezinho". necessariamente. assim como o são aqueles que acompanham um trabalhador na realização de suas atividades. influenciando e sendo por eles influenciado. é educador no contexto do trabalho todo aquele que se dedicar a favorecer o desenvolvimento pessoal e profissional daqueles que estão a ele interligados. Ao analisar as características comuns à categoria de instrutores de treinamentos e palestras de prevenção. oferecendo condições apropriadas para sua realização.Entretanto. Também são educadores aqueles que definem as políticas de avaliação de desempenho das equipes. as mesmas características de capacitar tecnicamente para operar uma Iixadeira. é possível ampliar ainda mais o conceito. apontando problemas e auxiliando na construção de soluções que preservem as vidas envolvidas. orientando para a realização correta do serviço. É preciso ter clareza acerca da complexidade do que é considerado como educar trabalhadores para prevenção em saúde e segurança para que seja possível examinar as lacunas do processo e propor meios para seu aprimoramento e sua efetividade. utilizando-se de exposição de slides e atividades em grupo com objetivo de desenvolver competências específicas. a crença na experiência como sendo "vacina para não ocorrer". Esses fatores requerem que o planejamento e a execução do processo ensino-aprendizagem ocorram considerando-se o cuidado com variáveis específicas como: • • • formação didática do instrutor. basta afirmar que um processo que visa capacitar uma pessoa a prevenir acidentes não tem. autonomia de planejamento. é possível identificar variáveis relevantes para a precisão do processo educativo. desdobrando políticas e diretrizes que deverão permear toda a organização. Em última análise.

tempo e método de ensino apropriados aos objetivos. Alguns dos equívocos verificados no estudo quanto ao processo de ensinoaprendizagem em prevenção são: indicação de meios para promoção da aprendizagem como sendo os fins. A utilização de objetivos de ensino divergentes no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes. Em sua maioria. em segurança do trabalho ou outras especialidades industriais. A reduzida formação didático-pedagógica pode resultar na atuação de instrutores que têm sua prática baseada num misto de experiência profissional. por conseguinte. Estudos. e. pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e. descobriram que. como o de Bley (2004). 1999). . com grande ênfase. há uma predominância de instrutores (profissionais que coordenam as atividades educativas) com reduzida formação didático-pedagógica para exercerem a função de educadores. As informações apresentadas indicam a necessidade de reformular o processo de capacitação técnica. principalmente nos cursos técnicos em segurança do trabalho. em decorrência de participar dos eventos de segurança. o que pode não ser suficiente para conduzir um processo ensino-aprendizagem bem-sucedido.• • • • conhecimento acerca do repertório existente entre os participantes (nível de capacidade de atuar anterior ao evento). uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos. são profissionais com formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou superior em áreas técnicas. algum talento para a atividade docente e a reprodução criativa de modelos de ensino-aprendizagem que experimentaram quando alunos (LIMA. consonância com a cultura da organização e os interesses de ambos os atores (funcionários e direção). a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com aquilo que se entende por comportamentos seguros no trabalho. prejudicar o atendimento das demandas organizacionais que provocaram a realização dos treinamentos e das reuniões de segurança. recursos materiais e didáticos compatíveis. uso de expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem). entre as variáveis que têm caracterizado os eventos promovidos pelas organizações com o objetivo de capacitar o trabalhador para atuar com segurança no trabalho.

campanhas) construídos sobre estratégias e técnicas decididas de modo intuitivo e que perseguem objetivos de ensino distorcidos. gerentes. porém. O resultado da falta de capacitação pode ser a realização de eventos educacionais (treinamentos. incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho. chegando até mesmo às conversas informais. como um elemento transversal no comportamento organizacional. as orientações estratégicas. já que são menos formais. a reunião de análise crítica. Isso pode ter como conseqüência a não percepção da correlação existente entre o que representa ser instrutor de eventos de segurança e ser um agente de ensino. podem ser formulados cursos específicos de capacitação para a docência. que alguns desses objetivos não possam ser atingidos. A preocupação com a prevenção precisa permear o processo de tomada de decisão. O mesmo ocorre com as demais categorias de educadores (diretores. . enfraquecendo a estratégia educativa. o qual pode ocasionar decorrências negativas para a qualidade e a efetividade dos eventos. que atuam como instrutores. palestras. O instrutor que não foi devidamente capacitado para desempenhar o papel de professor pode não ser capaz de estabelecer correlação entre o que a ciência entende por ensinar e aquilo que ele faz (ministrar evento de segurança). supervisores. mas não são menos poderosos. Para os profissionais de outras formações e funções. Escrituras orientais antigas (como as do Budismo Tibetano) afirmam que "o verdadeiro mestre é aquele que ensina com as costas". isto é. cursos. colegas de equipe) presentes no contexto do trabalho. as atitudes de cada um. essencialmente. o que se questiona é o baixo nível de controle das variáveis que compõem os processos de ensinar e aprender. sob pena de correr o risco de proporcionar aos participantes condições de aprendizagem insuficientes em relação ao que é preciso aprender para prevenir acidentes. aquele que ensina vivendo de acordo com aquilo que acredita e prega aos outros.considerando a possibilidade de os alunos virem a tornar-se instrutores. É necessário que considerem seus processos interativos como oportunidades de ensino-aprendizagem. do que o ambiente de sala de aula. É preciso investir na formação didática dos instrutores (empregados e terceirizados) e no esclarecimento das tarefas relativas ao ensino de prevenção. de como é conduzido dentro e fora de sala. Não significa. O desenvolvimento de competências em segurança e saúde para o fortalecimento de uma cultura preventiva é um processo lento e de longo prazo que depende. é claro.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico
Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia (Michel de Montaigne). Num processo de análise e investigação de acidente de trabalho, qual é a providência geralmente indicada quando é caracterizada a influência humana como uma das causas do ocorrido? Uma vez decretada a causa do acidente, os envolvidos no evento, normalmente, têm um destino único: a sala de treinamento. Como verdadeiros instrumentos de correção, os eventos educativos têm sido utilizados na tentativa de tornar os seus participantes mais capacitados para realizar suas atividades, considerando a segurança no trabalho. Entretanto, a grande quantidade de horas despendidas em treinamentos e reuniões de segurança nem sempre demonstra correlação direta com a redução das ocorrências de acidentes verificadas nas empresas. É possível afirmar que funcionário que tenha passado pelo treinamento em segurança é um funcionário capacitado para prevenir acidentes? As formas pelas quais os eventos de segurança têm sido planejados e realizados permitem produzir os resultados objetivados? Os instrutores que ministram e coordenam os eventos de segurança estão preparados para gerenciar os processos de ensino e de aprendizagem de competências para a prevenção? Para construir respostas, ainda que incompletas, a essas perguntas é necessário identificar as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho para que esse conhecimento possa servir de subsídio para a elaboração de programas de formação e intervenção de natureza preventiva que sejam verdadeiramente educativos, éticos e coerentes com as necessidades de segurança dos trabalhadores. Diante dos questionamentos, parece oportuno um estudo orientado para identificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. Um exame dessa natureza permite detalhar os aspectos que compõem o processo ensino-aprendizagem aplicado à segurança no trabalho visto que, de acordo com o conhecimento sistematizado sobre esses fenômenos, só se pode afirmar que um

professor ensinou quando, em decorrência do fazer do professor, ocorreu a aprendizagem do aluno (BOTOMÉ; KUBO, 2001). O detalhamento das variáveis presentes no planejamento do ensino, na escolha dos temas, nos critérios de avaliação de aprendizagem, na formulação dos objetivos de ensino, nos conceitos utilizados e em outras etapas da promoção de eventos de segurança poderá oferecer decorrências para a qualidade do que tem sido oferecido como capacitação aos funcionários e também para sua efetividade como recurso auxiliar na gestão da segurança da organização. O conhecimento produzido por meio da análise de processos de ensino de comportamentos seguros permite subsidiar o aperfeiçoamento dos programas de educação, de conscientização e de mudança de atitudes frente aos riscos das atividades de trabalho e também dos profissionais envolvidos na sua realização.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança
Para a formação de um profissional, os objetivos de ensino podem ser interpretados como competências que precisam ser desenvolvidas por meio da participação do aprendiz num processo ensino-aprendizagem. As competências profissionais são definidas por Botomé e Kubo (2002) como graus da capacidade de atuar de um organismo. Sendo assim, é possível afirmar que as competências relacionadas com segurança do trabalho referem-se aos graus da capacidade de um trabalhador de controlar os riscos das suas atividades de modo a reduzir a probabilidade de sofrer acidentes. Serve, portanto, de base para a aprendizagem de práticas mais seguras de trabalho. O processo que pretende ensinar os funcionários a se comportar de forma segura parte da definição do que se entende por comportamento seguro. Em seguida, é necessário transformar as propriedades essenciais do comportamento seguro em objetivos de ensino. Isso norteará a escolha das condições de ensino mais adequadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias à construção desta competência: capacidade de comportar-se no trabalho de forma a reduzir a probabilidade de ocorrer conseqüências indesejáveis para si e para aqueles com os quais interage, ou seja, comportar-se de forma segura. Assim como as competências, as habilidades são graus de uma determinada capacidade de atuar (figura 4).

Figura 4 Noção de competência como grau da capacidade de atuar de um organismo

FONTE: Bartomé e Kubo (2002, p.89)

Os objetivos de ensino genéricos, mal definidos, geram dificuldades para a identificação das competências que devem ser aprendidas por um trabalhador e, por conseqüência, problemas para o controle das variáveis que interferem nos processos de ensinar e aprender. Os problemas podem ocorrer tanto na clareza sobre aquilo que deve ser ensinado e aprendido, quanto nas decisões sobre os métodos de ensino adequados. Instrutores que não têm clareza sobre o fenômeno que devem ensinar e alunos que desconhecem as propriedades definidoras daquilo que precisam aprender correm o risco de produzirem, juntos, uma seqüência de equívocos que pode ser perigosa quando se trata da saúde e da segurança do trabalho que realizam. Sendo assim, descobrir o que instrutores e funcionários entendem por comportamentos seguros no trabalho parece ser o ponto de partida para a proposição de enunciados que contenham as propriedades definidoras do fenômeno ao qual se referem e a formulação de estratégias de informação e ensino condizentes com a natureza do que o conceito significa.

Os procedimentos de coleta de dados utilizados foram caracterizados por meio da análise de documentos relacionados com políticas e processos de gerenciamento de segurança das duas empresas. necessita mais do que informações a serem transmitidas em um determinado espaço de tempo. situadas em diferentes municípios da região metropolitana de uma grande cidade do Estado do Paraná. período da coleta de dados. compostos por uma unidade de ensino (encontro). os conteúdos são insumos de um processo de ensino que tem como produto a aprendizagem. como é o caso dos cursos e treinamentos organizados com finalidade de conscientizar o trabalhador. a competência é um grau da capacidade de atuar do operador que pode ser desenvolvida por meio de um processo de ensino-aprendizagem efetivo.A capacidade de atuar de maneira segura. observação direta dos eventos (condições. que repercutirá sobre a probabilidade da ocorrência de ações correspondentes dos alunos àquilo que foi ensinado.m instrutores e participantes. Ou seja. a competência de um operador de empilhadeira em carregar uma carga sem atropelar ninguém ou deixar cair a carga depende não só das informações que ele recebeu no curso técnico ou no de segurança. Sendo assim. divididos em Treinamento de Comportamentos Seguros (tipo A). mas também do fato de ele ter aprendido ou não a operar a máquina de forma segura (sem causar dano à sua saúde. atuação dos instrutores e participação dos funcionários) e entrevistas co. Segundo Botomé e Kubo (2002). Foram estudados três tipos de eventos de segurança. Um Estudo sobre como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura Caracterizar as variáveis do processo de ensinar comportamentos seguros é o problema de pesquisa que orientou o estudo exploratório realizado por Bley (2004) em duas empresas do setor metalúrgico. de apresentarem semelhante nível de risco e de possuírem programas e ações de gerenciamento de segurança além dos estabelecidos pela legislação. nem à dos colegas). . Foram escolhidos em função de apresentarem como um dos temas ou objetivos de ensino o comportamento seguro e de terem sido realizados entre os meses de junho e outubro de 2003. recursos. As empresas foram escolhidas em função de atuarem no mesmo setor produtivo. Treinamento de Integração de Novos Funcionários (tipo B) e Reunião Semanal de Segurança (tipo C). para ser "produzida".

nas entrevistas. foram desenvolvidos protocolos de registro com base num quadro de variáveis consideradas como necessárias para responder ao problema de pesquisa. foram utilizadas fichas de registro. algumas tarefas relacionadas com a manutenção industrial. As entrevistas ocorreram em diferentes momentos. sendo um para instrutores e um para participantes. Os demais ocupavam funções operacionais apesar de realizar. em suas rotinas. 65% tinha a manutenção como função principal na empresa. observação direta e entrevista). Na caracterização. foram utilizados dois roteiros de entrevista semi-estruturados. o instrumento de coleta foi um roteiro de observação. as especialidades de maior ocorrência entre os entrevistados foram manutenção elétrica e mecânica. As categorias foram organizadas em função da distribuição das proporções nas quais ocorreram em cada uma das variáveis examinadas. O outro conjunto de entrevistados foi composto por 20 funcionários das duas empresas. num período que compreende desde as primeiras horas após o evento educativo até dois meses depois de ocorrido. Para cada um dos três procedimentos de coleta de dados (caracterização por meio da análise de documentos. De acordo com a natureza dos processos das duas empresas. estavam cinco instrutores. nas observações diretas. escolhidos em função deterem participado de um dos eventos. realizarem tarefas ou desempenharem funções relacionadas com manutenção de equipamentos e manifestarem disponibilidade para ser sujeito da pesquisa durante o período de tempo estipulado para a coleta dos dados. No que diz respeito à formação. 60% apresentou formação específica para atuar como instrutores (curso de Técnico de Segurança). Da amostra de participantes. Os dados coletados foram tratados e categorizados em função dos aspectos necessários à caracterização das variáveis relacionadas com ensino de comportamentos seguros no trabalho. sendo quatro funcionários permanentes das respectivas empresas e um prestador de serviço. Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção Quais os aspectos que merecem ser examinados para que seja possível identificar as condições de aprendizagem oferecidas aos funcionários sobre saúde e segurança no trabalho? .Dentre os sujeitos das entrevistas.

Os objetivos de ensino (competências a desenvolver) extraídos dos materiais apresentados caracterizam-se pela generalidade do que pretendem oferecer como aprendizagem aos participantes. A natureza dos objetivos derivados remete à mudança de comportamentos relacionados com segurança. O que precisa ser ensinado: os objetivos de ensino No exame dos eventos de segurança estudados. o conhecimento já produzido sobre ensino por competências e didática. a segunda entre todas as concepções apresentadas pelos entrevistados e o conceito de comportamento seguro apresentado como referencial para a pesquisa. houve a necessidade de derivar os objetivos de ensino do material coletado devido ao fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes (ver tabela 2). Isso permite inferir que os mesmos realizaram os eventos de posse de propósitos que levaram em conta a segurança. O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de educadores e aprendizes para identificar em que medida houve aprendizagem. comportamentos seguros. em boa parte. responderam com expressões como: "mudar o comportamento e as atitudes". adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos sobre prevenção de acidentes. Ao comparar respostas coletadas nas entrevistas feitas com funcionários e instrutores dos treinamentos. mas que foram operacionalizados sem considerar. é possível observar (tabela 1) os resultados da análise de conteúdo das respostas à seguinte pergunta: "O que significa. quando questionados sobre o que os participantes deveriam ser capazes de fazer após participarem dos eventos. Partindo do pressuposto de que o principal objetivo de ensino de um evento de segurança com foco em mudança de comportamento seja desenvolver. "obedecer aquilo que foi dito em sala" e "atuar com segurança na área". Os instrutores. Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. tornou-se fundamental conhecer aquilo que os instrutores e também os participantes entendiam como sendo sinônimo de comportamento seguro. Uma das evidências disso é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os . para você. em algum grau. comportamento seguro?".O conhecimento produzido e sistematizado sobre o processo ensino-aprendizagem permite destacar aspectos relacionados com o planejamento e a realização das condições de ensino que tendem a favorecer a aprendizagem.

os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores. Além disso. Expressões como cuidado e atenção oferecem pouca informação a respeito das propriedades essenciais do processo de prevenir acidentes considerando o comportamento daquele que executa . Tabela 1 Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por "comportamento seguro" Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Trabalho com cuidado e atenção Obedecer às normas de segurança Ter atitude consciente e agir com bom senso Trabalhar com foco na segurança Usar equipamento de Proteção Individual (EPI) e Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) Não cometer “atos inseguros” Saber trabalhar sob pressão e receber críticas Cuidar dos colegas Ter conhecimento técnico do trabalho realizado Analisar os riscos das tarefas Participar das reuniões e treinamentos de segurança Preocupar-se com a própria segurança e aprender com os exemplos Nunca achar que sabe tudo Total de ocorrências FONTE: Dados coletados na pesquisa. que participaram dos eventos de segurança.funcionários (trabalhar com cuidado e atenção) não foi sequer indicado pelos instrutores. em sua maioria. quanto por funcionários. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de comportamentos seguros é divergente entre si e também está distante do conceito. para definir o conceito. e isso pode causar prejuízo ao processo de capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho. o que permite afirmar que há pouca clareza sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro. ao conceito de comportamento seguro como sendo "trabalhar com cuidado e atenção" caracteriza o grau de generalidade com o qual esses trabalhadores lidam com a dimensão preventiva do comportamento de trabalhar. em nenhuma proporção. referirem-se. Funcionários (n = 20) n % 10 8 7 6 4 4 3 3 3 2 2 1 1 54 18 15 14 12 7 7 5 5 5 4 4 2 2 100 Instrutores n 0 4 2 2 1 0 0 0 0 0 0 1 0 10 (n = 5) % 40 20 20 10 10 100 O fato dos funcionários.

é possível perguntar: Se os aprendizes não são capazes de identificar. os tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos e a verificação formal da aprendizagem derivam da observação direta dos eventos de segurança e servem para ilustrar a apresentação dos tipos de eventos estudados. Quanto maior a amplitude da representação de um conceito. Os dados relativos aos tipos de objetivos de ensino. menor a quantidade de informações que apresenta sobre o que caracteriza o fenômeno ao qual se refere. na sua conduta. A preocupação com aquilo que o professor faz no processo ensino-aprendizagem não assume conotação negativa à medida que o processo de ensinar caracteriza-se por aquilo que o aprendiz passa a ser capaz de fazer em decorrência do fazer do professor.as tarefas consideradas de risco. é preciso rever o alto grau de generalidade apresentado pelos termos utilizados para se referir ao comportamento de prevenir acidentes. a ênfase na atuação do professor em detrimento da atuação no aluno no contexto do processo ensino-aprendizagem pode significar a repetição do padrão do professor ensina. as unidades. apresentar e expor são aspectos evidentes entre os procedimentos de ensino utilizados pelos instrutores. o que evidencia a ênfase dada à atuação do professor no processo de ensino dos eventos estudados. Nos casos estudados. serão eles capazes de comportar-se de acordo com os fatores necessários à prevenção dos acidentes de trabalho? Da mesma forma. os aspectos que caracterizam o trabalho seguro. se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. estão apresentados os aspectos considerados importantes sobre o planejamento educacional dos eventos de segurança. considerando-se a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem. Ainda sobre os dados da tabela 2. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento. para que seja possível definir aquilo que precisa ser ensinado para que o aprendiz seja capaz de prevenir. Portanto. distribuídos conforme os instrutores que ministraram os eventos e as empresas nas quais ocorreram. Por outro lado. é pouco provável que os funcionários que participaram dos referidos treinamentos passem a se comportar de forma segura devido ao fato de terem participado dos eventos. Diante dos termos utilizados pela maioria dos funcionários para conceituar comportamentos seguros no trabalho. os procedimentos de ensino utilizados. Como ensinar: a escolha dos métodos de ensino Na tabela 2. aluno .

Expor o assunto. Assistir à explicação do instrutor. Assistir a explicação. Equivocada à medida que levantar da poltrona e fazer algo que utilize partes do corpo pode não expor o aprendiz às . Não há. A utilização de demonstrações de equipamentos e os breves debates parecem ser utilizados numa tentativa (que pode ser equivocada) de conferir ao evento um pouco daquilo que muitos chamam de parte prática. demonstrar uso de extintor de incêndio. Não há. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. elevando as chances de aplicação daquilo que foi aprendido no evento no dia a dia de trabalho. assistir aos vídeos de segurança. responder às perguntas do instrutor. responder às perguntas do instrutor. repassar materiais para que os participantes os manuseiem. apontamentos em flip chart. FONTE: Dados coletados na pesquisa Não há. Verificação da Não há. A participação ativa do aprendiz pode ser um importante fator de efetividade do processo. fazer perguntas aos participantes. Tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos Assistir a explicação. filme institucional. usar exemplos práticos. apresentando informações sobre segurança. relegando ao aprendiz um papel caracterizado pela passividade (BOTOMÉ. Apresentar temas. ser informado sobre usos adequados e inadequados de alguns EPIs. Integrar novos empregados e prestadores de serviço. apresentando informações sobre segurança. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. Assistir à explicação. enfocar ato e condição insegura Apresentar slides e comentários sobre eles. KUBO.aprende. 2001). Expor um caso real de acidente. experimentar EPI. ser informado sobre usos adequados de alguns EPIs. Não há. Assistir à explicação do instrutor. coordenar discussão em grupo. responder às perguntas do instrutor. discutir o assunto. demonstrar EPI. vídeos de segurança. Integrar novos empregados. o que reduz a complexidade do processo de ensinar e aprender. Tabela 2 Apresentação dos aspectos do planejamento educacional observados diretamente relativos aos eventos de segurança ministrados por 5 instrutores nas empresas 1 e 2 Aspectos Empresa 1 Empresa 2 observados Instrutor 1 Instrutor 2 Instrutor 3 Instrutor 4 Instrutor 5 Tipos de objetivos de ensino que forma extraídos do material apresentado Procedimentos de ensino utilizados Corrigir atitudes e comportamentos. forma da aprendizagem. Apresentar slides e comentários sobre eles.

"é decidindo que se aprende a decidir". De acordo com a quantidade de comportamentos que deveria ser aprendida para que as competências indicadas fossem desenvolvidas. Os exemplos coletados foram tratados por meio de análise de discurso e classificados em categorias de ocorrências. 106). apesar das atividades propostas pelos diferentes instrutores serem semelhantes. o que reduz as possibilidades de verificar a eficácia da aprendizagem em bases objetivas. seria preciso promover urna quantidade maior de unidades de ensino (módulos) para dar conta de proporcionar tamanho feito. Como afirma Freire (1996. Essa avaliação costuma ser feita de modo informal e utilizando critérios subjetivos. pode indicar incompatibilidade com a promoção das aprendizagens necessárias à obtenção das competências que motivaram sua realização. Sobre a avaliação da aprendizagem dos participantes. o estudo permite apontar uma certa ênfase dada aos procedimentos de avaliação que ocorrem após a realização dos eventos. Isso pode indicar a importância da aproximação entre os processos de identificação de necessidades de aprendizagem e de escolha dos meios pelos quais a demanda será atendida. Os instrutores sem formação técnica apresentaram maior convergência entre os objetivos de ensino propostos (competências) e a observação dos comportamentos dos participantes durante e após o evento. Ensinamos segurança por meio da insegurança Um exame dos exemplos oferecidos pelos instrutores durante os eventos de segurança estudados chama a atenção para o fato de que os meios utilizados para proporcionar a aprendizagem da segurança tendem a apresentar características contrárias ao seu objetivo central.contingências necessárias à experimentação e ao treino de condutas adequadas às necessidades de ensino que motivaram a realização do evento. os objetivos de ensino e a natureza dos eventos são diferentes. p. Outro dado que merece destaque é que. As duas categorias principais receberam as denominações comportamentos seguros e comportamentos de risco em função dos tipos de conseqüências (positivas e negativas) . o que pode indicar um baixo nível de adaptação dos planos de ensino às características do público ao qual se destina. fazendo com que o aprendiz finalize sua participação no evento sem que a aprendizagem daquilo que é realmente importante tenha ocorrido. considerando-se a semelhança existente entre eles em decorrência da natureza que os caracterizava. A comparação entre o produto final e o tempo destinado à realização dos eventos de segurança.

emprego. As categorias secundárias (subdivisões das categorias principais) foram constituídas em função do exame da natureza de cada um dos exemplos coletados (tabela 3). Referência a condutas inseguras. os exemplos relativos àquilo que não deve ser feito permitem caracterizar as bases sobre as quais a capacitação dos trabalhadores . Ocorrência 1 4 2 1 1 1 7 6 3 2 1 2 1 1 1 1 A Correlação dos comportamentos seguros com exemplos positivos externo ao trabalho 3 1 1 1 1 B Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Independente do instrutor. Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Ênfase nas perdas que o trabalhador poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. Indicação de comportamentos desejáveis Evidências do compromisso da liderança com a segurança Indicação de comportamentos desejáveis C Total de ocorrência Proporção Total 8 0. Referência a condutas inseguras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Ênfase no cumprimento de normas e regras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. amigos. Tabela 3 Natureza. Referência a condutas insegura Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos. Isso indica uma tendência à utilização de exemplos de comportamento considerado inseguro com maior freqüência. emprego. Ocorrência Comportamento de Risco Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Ênfase no cumprimento de normas e regras. Suposições sobre a influência de causas humanas no risco de acidentes. os quais indicam a necessidade de apresentar comportamentos seguros no trabalho Categorias de exemplos que se referem a: Evento Comportamento Seguro Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. quantidade de ocorrências e proporção dos exemplos oferecidos por instrutores durante os eventos de segurança observados diretamente. amigos.8 A = Treinamento de Comportamentos Seguros B =Treinamento de Integração de Novos Funcionários C = Reunião Semanal de Segurança FONTE: Dados coletados na pesquisa É possível constatar que 80% dos exemplos referem-se àquilo que pode ser considerado "comportamento de risco".evidenciadas pelos instrutores para as condutas exemplificadas. em detrimento de exemplos de comportamento seguro. família). do formato do treinamento e dos participantes.20 Total de ocorrência Proporção Total 34 0. Referências ao tratamento de problemas já instalados. Ênfase nas perdas que o trabalha-dor poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. família).

passado o efeito (o susto. os instrutores têm utilizado a insegurança para (tentar) ensinar a segurança. ele retome ao seu padrão de comportamento anterior à exposição. Skinner (1967). o que implica nas decorrências já descritas por Skinner (1967) e Sidman (2001) sobre os aprendizes. para que isso seja possível. permanecem inalteradas. pois as contingências presentes no seu meio de trabalho.tem sido promovida. a redução da criatividade e dos níveis de felicidade do aprendiz (sente-se ameaçado) e a dificuldade do aprendiz em generalizar o que foi aprendido para outras situações devido ao caráter mecânico do cumprimento de regras. o contra-exemplo). com maior freqüência. afirmou que é alta a probabilidade de. a apresentação da conduta desejada somente mediante a presença do "agente punidor" (só cuida quando o líder está por perto). isto é. O predomínio do contra-exemplo (casos de acidentes e de condutas de risco). ao examinar a esquiva (mudar o comportamento para evitar conseqüências ruins) como forma de promover mudança de comportamento. que são: a baixa durabilidade da conduta aprendida (volta logo ao que fazia antes). que favorecem o seu comportamento de risco. a comoção) da tragédia apresentada ao aprendiz (a foto de acidente. caso o propósito seja educar para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. o aprendiz escolheria se comportar de forma segura para evitar ser acometido pelos mesmos resultados. Como é possível só falar de comportamentos errados num evento especialmente desenvolvido para ensinar às pessoas a maneira correta de se comportar? A observação dos exemplos apresentados nos eventos de segurança permite questionar se a utilização dessa forma de representar a importância da prevenção estaria relacionada a um tipo de expectativa por parte do instrutor de que. ao conhecer ou relembrar as possíveis conseqüências de um comportamento de risco. o reforço positivo sejam utilizados pelos instrutores. Parece oportuno . Criar condições para que os participantes aprendam a comportar-se de forma segura deveria ser o foco de um evento de segurança que tem esse tipo de comportamento como objetivo e. A escolha do método de ensino implica em conseqüências significativas para aquilo que precisa ser produzido como resultado do processo de ensinar. Isso inclui apresentar exemplos de condutas seguras em maior quantidade e proporção. da sinalização de conseqüências negativas e da ênfase no cumprimento de regras como meios para produzir aprendizagens de comportamentos preventivos representa a utilização de modelos de aprendizagem marcados pela punição e pelo reforço negativo (fuga e esquiva). é necessário que modelos de aprendizagem que utilizem.

tendem a planejar o ensino escolhendo a partir de preferências pessoais. É preciso considerar as características dos aprendizes e dos objetivos de ensino como ponto de partida para planejar o método e realizar o ensino (BOTOMÉ. apesar de complexo. Podem ser consideradas como variáveis definidoras dos processos de planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros as informações que serviram como ponto de partida para o planejamento. para planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros. físicos e ambientais). decorrem problemas para os programas de conscientização e educação. As expressões e os exemplos apresentados por instrutores durante a realização dos eventos e as concepções relatadas por instrutores e funcionários em resposta ao questionamento sobre o significado do conceito comportamento seguro no trabalho evidenciam lacunas importantes para a construção de uma cultura de segurança no trabalho. empresas. KUBO. para a gestão dos comportamentos em uma organização e. a escolha dos recursos (didáticos. governo e sociedade.perguntar: Quais critérios têm servido como orientações para tomar decisões sobre o método que deverá ser realizado? O método escolhido é capaz de proporcionar condições adequadas à aprendizagem das competências definidas nos objetivos de ensino? A natureza dos critérios indicados revela que os instrutores. comprometendo a obtenção dos resultados esperados. de modo geral. Dessas lacunas. Conclusões do Estudo O estudo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho passou pelo exame dos meios e critérios utilizados pelos agentes do ensino. para os possíveis resultados sociais sob a forma de prejuízos à integridade dos trabalhadores e implicações econômicas para pessoas. a escolha de temas abordados e métodos de ensino. os tipos de objetivos de ensino e as características da formação dos instrutores para desempenhar a função de professor. 2001). principalmente. Naturalmente. dos objetivos de ensino e da demanda a partir da qual o evento foi planejado e realizado. os procedimentos de avaliação da aprendizagem dos alunos. nesse caso instrutores dos eventos de segurança estudados. utilizando métodos prontos ou copiados de outros eventos ou escolhendo em função das preferências pessoais. São formas de escolher que tendem a desconsiderar as características essenciais dos participantes. esse conjunto. não esgota .

Almeida (2001) concluiu. Elas podem variar em função do tipo de atividade. Da mesma forma. Também para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco. sua efetividade. tais divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. quando são incoerentes com as competências adequadamente definidas. Uma das análises mais significativas para esse estudo é orientada pelo dado revelador de que aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de comportamentos seguros no trabalho apresenta divergências. Questionar a respeito do quê e de que forma tem sido ensinado aos trabalhadores sobre comportamentos seguros no trabalho parece ser um importante ponto de partida para as empresas na busca pela capacitação de seus funcionários em segurança do trabalho. de acidentes e de contra-exemplos (o que não deve ser feito) como forma de aprender confirma a inadequação de alguns dos procedimentos apresentados para o contexto do ensino de comportamentos seguros. é pertinente a utilização das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros como insumo para avaliar a qualidade e a efetividade de seus programas e de suas políticas. cumprir regras é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa se comportar de forma segura. em algum nível. ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança. dos riscos presentes. O estudo permite inferir a existência de lacunas entre aquilo que um professor precisa ser capaz de fazer para promover o ensino (competências para ensinar) e as características da formação profissional daqueles que exercem a função de instrutores .todas as variáveis relevantes. do modelo de ensino que se pretende utilizar. o planejamento e a realização do ensino. podem resultar em comprometimento da modificação das práticas de segurança dos trabalhadores ao realizar suas tarefas. Tais afirmações permitem perguntar: Por que se utiliza a insegurança para ensinar segurança? Quais os efeitos de se utilizar a doença como meio para ensinar a saúde? Ter o conceito de comportamento seguro como objetivo de ensino é um fator central na concepção de programas educativos focados no desenvolvimento de competências para a segurança no trabalho. que os materiais educativos utilizados podem estimular o medo dos trabalhadores em sofrer lesões e levar à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima. No entanto. Para os instrutores estudados. esse e outros estudos têm evidenciado algumas distorções no encaminhamento dos processos de treinamento que podem acabar por comprometer. O uso excessivo de regras. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros.

são originários das mesmas disfunções organizacionais. é apresentada na tabela 4. são fortemente semelhantes àquelas que definem um comportamento preventivo no que diz respeito ao funcionamento de um equipamento ou processo produtivo. No entanto. ao discorrer sobre a importância estratégica da manutenção para a competitividade das empresas. é reforçada a necessidade de investimento na formação didática dos educadores para o trabalho seguro. O enunciado dos comportamentos intermediários apresentados (de primeiro nível) permite levantar hipóteses a respeito dos efeitos significativos que tais competências poderiam gerar no gerenciamento de aspectos considerados como sendo técnicos da lida com as falhas e as perdas em manutenção. ao comparar os dois grupos. é possível examinar um exemplo de Análise Comportamental daquilo que é entendido como sendo comportamento seguro. Arouca (2003). Tal contribuição corrobora para aferição do grau de importância que o desenvolvimento de competências preventivas pode representar para o gerenciamento das perdas. também por meio da capacitação para a segurança. do ponto de vista da segurança industrial. É importante ressaltar que falhas e acidentes. constituído com objetivo de identificar as competências intermediárias que poderão servir de ponto de partida para o planejamento do ensino desse tipo de competência para a realização de uma atividade de manutenção de equipamentos. tanto humanas quanto de processo e de equipamentos. quanto os funcionários de operação e manutenção que ministraram eventos e não tinham formação em segurança apresentaram desempenhos considerados incompatíveis com aquilo que já é conhecido em didática e programação de ensino. afirma que a capacitação é um elemento fundamental na determinação dos níveis de qualidade dos trabalhos realizados por profissionais da função de manutenção. Uma maneira de evidenciar a possibilidade de aperfeiçoamento dos serviços realizados por profissionais de manutenção. um profissional competente para desenvolver suas atividades sem sofrer ou provocar acidentes de trabalho tende a . Mais uma vez. geralmente. os profissionais formados em segurança apresentaram desempenhos mais próximos do que pode ser chamado de ensinar do que os profissionais sem a formação técnica em segurança.dos eventos de segurança. Tanto os instrutores com formação técnica em segurança do trabalho. no contexto da manutenção industrial. Nela. Em última análise. principalmente no que diz respeito à gestão das falhas. É possível afirmar que as propriedades essenciais que caracterizam um comportamento considerado preventivo ou seguro.

experimentar alta probabilidade de conseguir reduzir as chances de provocar erros e falhas decorrentes de suas ações.. O planejamento dos programas de treinamento e de comunicações de natureza preventiva precisaria levar em conta não só o conhecimento já produzido sobre a área e as normas que o trabalhador deve . exatamente. FONTE: Dados coletados na pesquisa Conhecer como acontece o ensino da prevenção é importante para que as organizações possam desenvolver estratégias que contribuam para aumentar a efetividade das intervenções educacionais. para si e para os colegas"). 148) consideram que: . Estas se forem somadas às mudanças organizacionais e até governamentais. Aperfeiçoar execuções de tarefas a partir da avaliação feita. Competências intermediárias (primeiro nível de análise) Maximizar as condições de segurança no planejamento de uma tarefa a ser realizada Executar uma tarefa planejada com segurança Avaliar o processo de execução da tarefa em termos de seus riscos e os comportamentos apresentados em relação a eles. perdas. constituir o que é alvo (ou objetivo) do ensino (ou de ensinar). e essa capacidade pode. podem favorecer a transformação de um discurso sobre prevenção em uma realidade.. contribuindo para a construção de padrões comportamentais de alto nível no que diz respeito à segurança e para uma humanização das condições de trabalho oferecidas. A partir da identificação do que é importante para a melhoria da qualidade do ensino e da contribuição dos processos educativos para a prevenção de acidentes (erros. o que caracteriza o processo de capacitação em segurança como sendo vantajoso também para a atuação técnica dos profissionais de manutenção e para seus resultados no âmbito da organização. Comunicar descobertas feitas sobre a execução de tarefas no que se refere aos comportamentos seguros envolvidos nessas tarefas. um processo de humanização está assentado na capacidade de uma pessoa interagir com seu meio. torna-se possível a revisão de propostas antigas e a produção de novas propostas de ensino que oportunizem ao trabalhador condições de aprender aquilo que é essencial à preservação da sua integridade e também da produção. Botomé e Kubo (2001. Tabela 4 Exemplo de Análise Comportamental para derivação de competências intermediárias que servirão de base para o planejamento do ensino de comportamento seguro numa atividade de manutenção de equipamento Competência geral que precisa ser ensinada Comportamento Seguro ao realizar manutenção de equipamento (Definido por "ser capaz de realizar a atividade de forma a reduzir a probabilidade de acontecer conseqüências indesejáveis no futuro. falhas). p.

é educar para a vida. sentir e agir em prol de uma cultura promotora de saúde e qualidade de vida. Competência tem a ver com capacidade de agir no mundo. como também os aspectos presentes na cultura e no clima de segurança da empresa. é torná-las capazes de pensar. desenvolvamse como pessoas e como profissionais. ao mesmo tempo. . sua atividade e sua ameaça. principalmente. e não só com a quantidade de informações que o indivíduo é capaz de armazenar.cumprir. assim. Criar condições para que os trabalhadores aprendam e. as situações com as quais ele lida no cotidiano e que constituem. as características regionais que extrapolam os muros da fábrica e. e não só para o trabalho.

conseguia confundir o predador e permanecia intacto. tal evolução trouxe novas conseqüências em forma de ganhos e perdas para sua sobrevivência. Outro exemplo contemporâneo é a eletricidade. por um lado.ODILON CUNHA JR. na maioria das vezes. proporcionalmente. diretamente. inicialmente. Entretanto. o homem não produzia ferramentas que o auxiliassem a sobreviver no seu dia-a-dia. por outro. reduzindo a escala. há um número maior de ocorrências relacionadas a descargas elétricas do que havia 200 anos atrás. A única "ferramenta" reduzia-se ao seu próprio corpo. aliás. notadamente seus membros superiores. Segundo historiadores. mais ou menos. o desenvolvimento das habilidades sociais e dos aspectos cognitivos diferenciou o Homem das demais espécies. essas evoluções relacionam-se. também "criaram" novas situações e novos cenários que podem o levar a adoecer. como o desenvolvimento de ferramentas. Hoje. Nota-se que. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das ferramentas. uma de suas defesas era a paralisação inconsciente: ficava imóvel frente o predador. Nota-se que. Em contrapartida. Como veremos a seguir. aproximadamente. O interessante é que. Percepção de riscos Trabalhar com segurança é uma luta diária contra a natureza humana (Scott Geller). feridos e até mesmo doentes. suas caças eram animais de menor porte. permitiram o alcance do objetivo almejado. devido ao aumento das fontes que podem lesar o homem e da convivência dele com novos perigos. seria inapropriado descrever as vantagens que a eletricidade trouxe para nossas vidas. logicamente. em situações nas quais ele passava a ser a caça. houve avanços tecnológicos. após sua domesticação. Com isso. o homem inovou e produziu ferramentas e instrumentos que. o primeiro sinal de vida na Terra surgiu há. Na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. equipamentos e materiais. quatro bilhões de anos. o Homem teria outra opção na mesma situação: enfrentar o predador. . e a espécie humana surgiu há. bem como a sofrer acidentes. Por isso. quatro milhões de anos. praticidade. Devido a esse fato. com o fenômeno chamado percepção de risco. aumentou também o risco a sua existência. temos conforto. Há quatro milhões de anos. teremos uma breve existência do homem em relação ao nosso planeta.

pagando o custo social da mudança. Com isso. duas novas classes sociais caracterizaram as sociedades pósrevolução industrial: a classe dos patrões e a classe dos trabalhadores. p. após o nascimento da revolução industrial. para proteger os seus interesses. As profundas alterações tecnológicas provocadas pela revolução industrial que se iniciou em 1760. os primeiros sinais das ações prevencionistas foram motivados pelos movimentos sociais iniciados na década de 20. por parte da sociedade. não existindo qualquer organização. o alto número de acidentes do trabalho resultou na união dos trabalhadores com algumas autoridades. sejam elas laborais ou não. Assim. para controlar o movimento básico de seu próprio evolucionismo" (MARX. devido às ações conjuntas entre governo. o risco. Após esses acontecimentos. substituindo o trabalho humano pela máquina. no Brasil. em seu livro O Capital. 121). A Prevenção ao longo dos Tempos Segundo Kletz (2002). os primeiros indícios de ações prevencionistas remontam à Europa do século passado. Logo após. que "essa legislação foi a primeira tentativa deliberada e sistemática. desembarcou nos Estados Unidos da América.A questão é a seguinte: é imprescindível compreender a relação do homem com suas atividades. Nesse meandro. bem como da resultante da relação. na Inglaterra. Juntos. firmaram bases e iniciaram campanhas sociais com o intuito de melhorar as relações de trabalho. homem e perigo. por parte dos trabalhadores. surgiram leis de segurança social e foram introduzidos o trabalho sistemático e a legislação fabril. torna-se possível uma administração harmônica dessa convivência praticamente inevitável. lançada com o aparecimento da primeira máquina de tear e marcada pela invenção da máquina a vapor (em 1781) por James Watts. 1983. na maioria das vezes. especialistas e empresários. Karl Marx afirma. a revolução industrial espalhou-se pela Europa Ocidental e. técnicos. Na América Latina. país onde o movimento prevencionista radicou-se e desenvolveu-se. deram início aos grandes processos de industrialização. atravessando o Atlântico. No início do século XIX. levando-se em consideração os perigos e riscos existentes. os primeiros passos . as massas trabalhadoras foram exploradas. que se enfrentavam direta e individualmente. mais especificamente à Inglaterra. Isto é prevenir. que prosseguiram até nossos dias.

por exemplo. Nota-se que são recentes os acontecimentos relacionados com a prevenção de acidentes no Brasil. Não se pode generalizar. permite compreender a importância do assunto Percepção de Risco para as lideranças e organizações. A partir daí. o fator complicador é que até em universidades ou cursos técnicos acontece o mesmo. o ser humano. segurança faz parte da natureza humana? Esta questão completa a análise do contexto e. quando os pais ensinam seus filhos que aquilo reluzente chama-se fogo e que faz "dodói". por instinto. não se pode confundir o instinto de sobrevivência com o processo educativo de segurança e prevenção. assim. até mesmo de segurança. Inúmeras vezes. de experiências sociais. as lideranças questionam sobre o que leva o trabalhador a quebrar uma norma ou desrespeitar um procedimento operacional. o ser humano assimila um número . por isso. É interessante que a mesma pergunta pode ser feita sobre outras situações cotidianas e rotineiras: Por que atendemos celular enquanto estamos dirigindo? Por que atravessamos a rua fora da faixa? Por que não lemos os manuais antes de operar novos equipamentos. por exemplo. Na verdade. deve-se entendê-lo como racional e parte de um processo educativo e. ou melhor. A Natureza Humana e a Segurança Apenas para "engrossar mais o caldo". sendo otimista. um assalto. seja ligado ao meio ambiente ou à segurança do trabalho/do lar. Enfim. Vale destacar. o cenário preventivo é abalado ainda mais· se levando em consideração tal apontamento. caso segurança fizesse parte de nossa natureza. é a realidade. O instinto faz parte de nossa natureza e ajuda-nos muito diante de situações desconhecidas ou até mesmo frente a situações de extrema exposição. o assunto prevenção. as crianças começam a aumentar o repertório de informações relativo àquele fenômeno. do século XX. ainda. em sã consciência e saúde mental. jamais desrespeitaria algo que pudesse causar lesões a si mesmo. uma questão social de extrema importância: a formação do trabalhador. na década de 30. Seria uma resposta instintiva a essa contingência. mesmo sabendo das conseqüências dessa atitude? Obviamente. na maioria dos casos. momento em que todos os nossos sentidos estão em alerta máximo.prevencionistas surgiram com a criação do Ministério do Trabalho. irracionalmente. Somente em poucos momentos. No entanto. em relação ao aspecto segurança. Com o passar dos tempos. mas sabe-se que. é tratado em sala de aula nas escolas.

por meio dos quais os dados de realidade são recebidos e imbuídos de significado. conhecimento operacional e técnico. ele começa a trabalhar com um novo equipamento. Por ser um fenômeno psicológico.. Por falar em risco. No caso. potencializando o risco de sua atividade. É interessante salientar que as influências. a posição hierárquica. a percepção é um processo psicológico pelo qual as pessoas organizam suas impressões sensoriais e. sintomas físicos. entre outros fatores que podem compor a percepção humana. interpretando-as. autoconfiança. o homem está emitindo comportamentos e. Segundo Huczynski e Buchanan (1991). a seguir são apresentados alguns conceitos técnicos importante para a continuidade dessa discussão.fator fisiológico.maior de informações e dá significados e valores diversos. equilíbrio emocional etc. Fica claro que quaisquer alterações nesses fatores tendem a alterara acuidade perceptiva do ser humano. clima de trabalho. orientações da liderança etc. buscam dar sentido ao ambiente. do qual desconhece os procedimentos de operação . Sensação e Percepção Segundo Bley (2004). com o intuito de prevenir que algo indesejado ou desagradável ocorra. positivas ou não. independentemente de qual for.fator psicossocial. O processo de receber e converter os estímulos externos é chamado de sensação. fatores fisiológicos: sono. por ventura. a tendência é que a percepção do trabalhador em relação à tarefa que vai realizar esteja distorcida. sua empresa está passando por um momento difícil . . olfato. análise de riscos. visão). dos fatores podem acontecer simultaneamente. categorizamos em três fatores: • • • fatores psicossociais: tempo de serviço. Veja o exemplo: um motorista vem para o trabalho gripado . fatores cognitivos: conhecimento da tarefa. a formação. é essencial lembrar que a percepção das pessoas varia de acordo com a idade. alimentação. audição. gustação. já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção.fator cognitivo. o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. atitudes seguras.. as experiências passadas. No momento em que coloca esses conhecimentos adquiridos em prática. Dessa forma. ingestão de remédios etc.

significa algo que lhe foi dado (por Deus) e do qual você tirará proveito. utilizando computadores ligados à eletricidade. minimizar os riscos. que quer dizer que o paciente está mal e prestes a falecer. o meio ambiente ou até mesmo os materiais a sofrerem perdas. visto que o brasileiro não fala que tem risco de ganhar na loteria. sem imposições positivas ou negativas. todas as instalações estão em perfeitas condições de uso e respeitando as normas em relação ao uso e manuseio de fontes elétricas. em inglês. Risco: segundo Ansell e Wharton (1992). a palavra relata a probabilidade de um resultado. mesmo que mínima. O mesmo acontece em relação a risco de vida. normas e procedimentos. e não apenas mudar a definição porque. Em latim. uma derivação do árabe risq. O francês risque tem significado negativo. pressão hidráulica. No entanto. Se a relação existir. Há . em árabe. quando se fala de risco pressupondo o sistema industrial. altura. tratam e dão outros significados a palavra risco. veículos. de organizações com o intuito ligado a Segurança do Trabalho. Logo. Para o Brasil. deve-se entendê-lo como a relação entre o homem e o perigo. O interessante é levar em consideração o fator cultural. há risco. sejam elas laborais ou não.Perigo. a conotação cultural da palavra risco é negativa. a palavra risq. Para eliminar o risco. ou acidente e incidente. estes e outros termos serão apresentados a seguir. Por exemplo. mesmo sendo bem gerenciada. independente da existência de equipamentos de proteção. o que ocasiona graves problemas de desvios de compreensão e comunicação. bem como suas conseqüências. ou melhor. sendo adequados. é importante salientar que muitos autores não fazem distinção quando tratam de termos como risco e perigo. Portanto. enquanto que. para outras culturas. riscum conota algo também inesperado. mas desfavorável ao indivíduo. eletricidade. mas pode possuir conotações positivas. danos ou lesões. Risco e Ser Humano Antes de apresentarmos algumas definições. sem risco. Perigo: deve ser entendido como uma fonte que pode levar o ser humano. ainda assim haverá o risco. possuindo um significado de algo inesperado e favorável ao indivíduo. não há atividades humanas. Em grego. Veja o exemplo: algumas pessoas estão em uma sala de reunião. isso seria entendido como possibilidade de viver. máquinas rotativas. e sim que tem chance. risk possui associações negativas bem definidas. o máximo que poderão fazer é mitigar. em outras regiões ou países. Se o homem trabalha com ou na presença do perigo. a relação entre o homem e o perigo não poderá existir.

pluricausal e revelador de disfunção. que interfere ou interrompe o processo normal de uma atividade. Devido a essas possibilidades de melhorias. provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte. portanto. há pessoas trabalhando na presença da eletricidade. Apenas para ratificar o texto citado. sempre haverá risco de descarga elétrica. e que traz como conseqüência perdas materiais. Sendo assim. danos materiais e lesões ao homem. como não existem sistemas industriais infalíveis. Conceito prevencionista de acidente do trabalho: é qualquer ocorrência não programada. Esse primeiro conceito tem o objetivo de apontar o acidente para instituições governamentais. porque justificam a necessidade das organizações em trabalhar a percepção de risco dos seus trabalhadores. não se pode evitar algo inesperado. deixa de lado uma perspectiva do meio ambiente e de perdas materiais. ambientais e/ou humanas. Com isso. permanente ou temporária. como conseqüência. pelo serviço de trabalho de segurados especiais. o acidente não pode ser evitado. Enquanto houver o ser humano trabalhando com ou na presença do perigo. . Incidentes e Desvios A continuidade desse capítulo solicita que se compreendam ainda estes outros conceitos: acidentes. isolada ou simultaneamente. logo. inesperada. tem-se um conceito que leva em consideração aspectos materiais.risco de descarga elétrica? Sim. ou ainda. mas trata o acidente como algo inesperado.213/91 da Legislação Previdenciária (BRASIL. ou seja. a serviço da empresa. 2004): Acidente do Trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho. considerada como um sistema sócio-técnico aberto. há risco. Agora. a perda ou a redução da capacidade para o trabalho. Conceito legal de acidente do trabalho: conforme o Artigo 19° da lei 8. trazendo. Acidentes. Na sala. utiliza-se este conceito sobre acidentes industriais: o acidente de trabalho deve ser entendido como um fenômeno complexo. desarmonia ou desequilíbrio na empresa. sempre haverá risco. vale salientar que o conceito de risco só é válido na presença da possibilidade de falha de um sistema. incidentes e desvios.

A Percepção de Risco Segundo Jackson e Carter (1992). mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. e não há sistemas infalíveis. 1966 e 1969. ou seja. apontadas por Ansell e Wharton (1992) mostraram que os acidentes poderiam ser evitados. . Segundo Bley (2004). bem como o processo decisório que deve ser desencadeado a partir dessa observação. apesar de possuir potencial para causar danos. os danos resultantes desse evento não são percebidos a nível macroscópico. Na verdade. bastava. mesmo os desvios são atos ou situações abaixo de um padrão e que já aconteceram. dependem tanto do seu conhecimento sobre o sistema. o sistema tenderá a falhar.. no lar. Desvio: é um ato ou uma condição abaixo de um padrão.Incidente ou quase-acidente: é um acontecimento que. ou racional. seja no trabalho. pesquisas de Henrich. não se manifesta em sua plenitude. A percepção. existe um novo fato que deve ser pesquisado e entendido para que haja formas e estratégias para evitar que aconteçam os desvios. e Bird Jr. ou seja. surgiu o conceito de desvio como a nova base da prevenção. identificar e tratar os incidentes. mas sim uma variável que compõe o conceito de comportamento seguro: a percepção de risco. como das características cognitivas e fisiológicas do indivíduo. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa de identificar os perigos e reconhecer os riscos. em função do padrão de funcionamento e do seu repertório adquirido. Uma vez que esses limites de estabilidade sejam violados. O interessante é como tais classificações são preventivas em relação aos incidentes e às ocorrências com perdas. No entanto. norma ou procedimento estabelecido. Ao longo dos tempos. 1930. no trânsito. atribuindo-lhes significado. inicialmente. todo sistema tende a ser homeostático por natureza e tolera certos níveis de desordem. Entretanto. não é mais uma base. somente consegue funcionar satisfatoriamente dentro de certos limites específicos e característicos. dos indicadores que precedem a falha do sistema. Os conceitos foram apresentados nessa ordem por uma importante questão. pelo elemento humano. Mais tarde.

a eletricidade ou a altura "nem imaginam" há quanto tempo pessoas trabalham com ou na presença delas e. Isso faz com que o risco real seja diferente do risco que foi percebido pela pessoa o que. depois de informado que há presença de um certo gás no processo. com pessoas já experientes e que reproduzem discursos como: "Sempre fiz assim. na busca de explicar do que se tratava aquele estímulo. da atenção. via nariz (sensor). na maioria das vezes. o ser humano terá mais uma possibilidade de interpretação. Assim sendo. uma única situação poderá apresentar diversos significados. é o fenômeno chamado coisificação. pode não passar de um mau cheiro. sua capacidade perceptiva. Os perigos "não ligam" para a existência humana. jamais elas deixaram de ser perigos. não sabendo disso. Contudo. É incrível como os seres humanos tentam humanizar as ferramentas e os equipamentos com que trabalham. todavia. Tornar humano algo material é algo bastante estudado pela filosofia e está na moda. por fim. deixar de levar em consideração os fatores cognitivos e fisiológicos já citados. ou seja. pode significar grande probabilidade de acidente devido à exposição descuidada. conheço muito bem as ferramentas com que trabalho". pela primeira vez. "Tenho 20 anos de estrada. Supondo que o trabalhador não tenha recebido ainda informações a respeito dessa situação. basta algum descuido. Não se pode. as respostas poderão ser adequadas ao cenário vivenciado. uma refinaria de petróleo e sente o cheiro de ovo podre ao andar pela área. e a escolha pelo significado terá como apoio relevante os fatores cognitivos e fisiológicos. em segurança do trabalho. Analisando-se a situação: o odor veio do ambiente externo e. Voltando ao exemplo citado. Quando o ser humano recebe outras informações. a mais conhecida é o excesso de autoconfiança do trabalhador. e o contato pode acontecer. do conhecimento. trata-se de um gás extremamente tóxico e letal. um trabalhador visita. As lixadeiras. a capacidade de percepção de riscos das pessoas varia ao longo do tempo. e nunca aconteceu nada". Esse fenômeno ocorre. Quando a experiência torna-se um Equipamento de Proteção Individual (EPI). chegou ao cérebro. do estado emocional. melhor é a sua capacidade de interpretação. ainda. que possui odor semelhante ao de ovo podre. e diante da situação. Por exemplo.Por se tratar de um processo que sofre interferência do nível de saúde. Com isso. Temos inúmeros . ele aumenta seu repertório e. existem algumas situações específicas que também interferem na percepção. quanto maior o repertório do trabalhador. pode-se afirmar que o risco foi potencializado. o organismo deu o seguinte significado: ovo podre ou mau cheiro.

a coisificação interfere de forma negativa e. . tais como: a empresa está doente. No entanto. junto aos possíveis obstáculos do processo. deve-se entender que a alta percepção de risco é apenas a base para que o trabalhador comporte-se de forma segura. além de conhecer muito bem. podemos ter a perda de vidas. com uma intervenção ética e coerente.exemplos. A questão é que. Esse desafio só será vencido quando as ações prevencionistas estiverem organizadas de tal forma a trabalhar. da preguiça ou até mesmo do desconforto. tais como os aspectos da natureza humana. como conseqüência. técnica e operacionalmente. ou seja. ser pró-ativo. gerenciar os cenários e ambientes antes que ocorram as situações desagradáveis. Dessa forma. o indivíduo deve colocar em prática seus conhecimentos. sua atividade. A experiência do trabalhador é de suma importância. a partir disso. mesmo assim. desde que ela não extrapole e distorça a capacidade do ser humano em identificar os perigos e reconhecer os riscos que sua atividade oferece. as deficiências na educação para a prevenção e o interesse (nem sempre presente) das organizações em investir na preservação da integridade global dos indivíduos que as compõem. Existem casos em que os indivíduos identificam os perigos. em virtude da pressa. Em última análise. optam por burlar regras e procedimentos. os riscos deverão ser sempre compreendidos. reconhecem os riscos e. o mercado está ansioso. torna-se possível identificar situações nas quais o trabalhador esteja exposto e. quando estamos falando de segurança. O desafio de elevar e tornar estável a percepção de risco dos grupos de trabalhadores é parte integrante do conjunto de esforços possíveis para a promoção da saúde das pessoas e das organizações. Nota-se que é de suma importância o conhecimento profundo sobre os perigos e riscos. apenas a compreensão não basta.

Isso seria a formatação inicial do conceito de clima de segurança. O fator clima mostra. . Zohar (1980) tem como proposta desenvolver um conceito de aplicação prática e teórica. a) Trabalhadores que pertencem a uma mesma empresa terão percepções compartilhadas em relação à segurança de seus locais de trabalho. Informações como o tom da voz das pessoas. Quantas pessoas. Grandes. pensam: "O clima aqui não está legal". Há muito tempo. suas expressões faciais e mesmo o tema que discutem podem ser indicadores claros de como anda o clima em um local.de crescimento na empresa. não há vantagens nem probabilidades. alimentação. entre outros. em suas experiências pessoais. possibilidades. remuneração. em suas casas. para o sistema de gestão. ao entrar em um lugar. o nível de satisfação das pessoas e a percepção que elas têm em relação a diversos elementos como liderança. o que mostra que tal tema tem sido pesquisado há pouco tempo. principalmente com as contribuições de Kurt Lewin. benefícios. Clima de Segurança: História e Conceito É comum que as pessoas utilizem. Em sua investigação. sobre clima e cultura de segurança. independente dos outros elementos citados. em suas igrejas. por ser considerada uma importante fonte de indicadores de aspectos humanos.JULIO CÉZAR FERRI TURBAY Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança Sem números. sistemas de reconhecimento. em seus locais de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. médias e pequenas organizações buscam alternativas para medir o clima organizacional ou a ambiência. foi realizada por Dov Zohar no ano de 1980. a metáfora do clima. o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino. o risco é uma questão de pura coragem (Peter Bernstein). e ainda hoje. essa metáfora vem sendo utilizada. com uma forte intensidade. A primeira pesquisa de que se tem registro. comunicação. sem vantagens e probabilidades. como preferem algumas empresas. nos meios organizacionais. propondo as hipóteses citadas a seguir. Vázquez (1996) aponta que as primeiras investigações de clima estão datadas da década de 30 do século xx. incluindo o item segurança e saúde no trabalho. Sem números.

1) Preocupação da alta administração pelo bem estar dos empregados. utilizando uma amostra com um total de 425 trabalhadores norte-americanos. 7) Efeitos do comportamento seguro no status social de cada um dos trabalhadores. 3) Risco físico dos empregados. Essas dimensões serviram como ponto de partida para todas as demais pesquisas realizadas posteriormente. considerando o mesmo período. 8) Status dos comitês de segurança. 6) Status dos encarregados de segurança ou do setor de segurança. realiza correlações entre os distintos setores de cada tipo de empresa. Os autores concluem que há uma importante diferença na percepção do clima nos sujeitos pesquisados e propõem que as investigações de clima deveriam levar em consideração aspectos metodológicos que entendessem a percepção das duas amostras.b) O clima de segurança pode variar de menos favorável a mais favorável. 3) Efeitos do comportamento seguro na carreira profissional. Esses autores reduzem os fatores a serem pesquisados de oito para três. Brown e Holmes (1986) põem à prova o modelo de Zohar. . Zohar (1980) utiliza uma amostra de 400 trabalhadores israelenses de indústrias dos setores de alimentação. Essa hipótese estaria relacionada com as características de segurança de cada empresa. É importante ressaltar que o autor. Em sua pesquisa. Ressalta-se que essa pesquisa não propõe somente a confirmação do modelo proposto por Zohar. divididos em dois grupos: 225 que não tinham registros de acidentes no último ano de trabalho e 200 que haviam sofrido algum tipo de acidente no trabalho. de forma diferenciada. 1) Importância dos programas de treinamento focados em segurança. 2) Atividade da alta administração para dar resposta a tal preocupação. mas tenta verificar as diferenças de percepção do clima de segurança em amostras que haviam sofrido acidentes e que não haviam sofrido acidentes. química e metalurgia. além de propor uma delimitação adequada do tema de clima de segurança. 2) Atitudes da alta direção da empresa em relação à segurança. Os resultados obtidos refletem oito dimensões possíveis para a compreensão do clima de segurança. 4) Nível de risco no lugar de trabalho. 5) Efeitos do ritmo do trabalho sobre a segurança dos trabalhadores.

1) Responsabilidade da empresa pela segurança.. este enfoque analítico da medição do clima de segurança pretende confeccionar um instrumento diagnóstico valioso para determinar elementos de intervenção para melhorar a segurança e prevenir acidentes de trabalho e suas conseqüências (OLlVER et ai. P. Na segunda dimensão. Tomás. 1992. Dedobbeleer e Bèland (1991) põem à prova o modelo de Brown e Holmes. a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e instruções e procedimentos de segurança.. A partir do ano de 1994.163). percepção dos trabalhadores sobre os comportamentos do supervisor. NISKANEN (1994) relata três novas dimensões para o clima de segurança. com o objetivo de desenvolver instrumentos que permitiriam um diagnóstico do clima de segurança nas empresas. Como citam os autores: . as pesquisas assumem um caráter mais prático e costumam relacionar o clima de segurança a outras variáveis psicossociais. . Oliver. além da polêmica teórica sobre a melhor representação da dimensão do conceito. utilizando uma amostra de 384 trabalhadores da área de construção civil. levando em conta as dimensões a seguir. percepção do nível de controle que tem o trabalhador sobre a segurança em seu posto e a realização de encontros regulares sobre segurança. Os resultados obtidos pelo método de análise fatorial mostram uma solução com dois fatores.Por sua parte. o qual relacionam à percepção das ações positivas empreendidas pela empresa em relação à segurança. 2) Preocupação dos trabalhadores em relação aos perigos no local de trabalho. aos riscos presentes no ambiente de trabalho. 2) Compromisso dos trabalhadores. 3) Indiferença dos trabalhadores em relação à segurança. estão presentes fatores como: percepção dos trabalhadores em relação às atitudes dos diretores a respeito das práticas seguras e da segurança dos trabalhadores. Os anos 80 do século XX estiveram marcados pelas pesquisas relacionadas com a determinação de dimensões possíveis para o clima de segurança. 1) Compromisso da alta administração. Propõem a utilização do clima de segurança de maneira mais operacional. estão presentes elementos como: percepção dos trabalhadores acerca do potencial de exposição aos acidentes. Islas e Meliá (1992) partem de um conceito mais restrito. Na primeira dimensão.

como os de ordem individual. Isla e Díaz (1997) desenvolvem um conjunto de medidas para avaliar as atitudes em relação à segurança e ao clima de segurança. As conclusões das pesquisas apontam uma importante relação entre o clima de segurança e as atitudes em relação à segurança dos gestores e as atitudes em relação à responsabilidade individual de cada trabalhador. menor é a taxa de comportamentos de risco. propõem somente um fator: a percepção da sobrecarga ao desempenhar um papel. em uma amostra de 166 sujeitos de distintas áreas dentro do setor aeroportuário. central de reparos etc.. 241). Utilizam uma amostra composta por 21 equipes de trabalho e 222 sujeitos da indústria química. No que se refere aos grupais. o conjunto de atribuições que podem ser percebidas sobre a organização de trabalho em particular (manutenção. as relações interpessoais entre os membros da equipe que estão envolvidos com comportamentos de risco. cita: . A amostra utilizada foi composta por 130 sujeitos do setor de manufatura. Oliver e Tomás (1998). em empresas do setor petrolífero. Os autores concluem que há uma importante relação entre o clima de segurança e os comportamentos de risco. . em uma pesquisa realizada no setor de construção de estradas. ações dos gestores em segurança. em uma pesquisa sobre os fatores que influenciam os comportamentos inseguros nos acidentes de trabalho. desenvolvem uma investigação com uma amostra de 915 sujeitos ingleses e franceses. propõem que se analisem tanto os aspectos de ordem grupal. utilizando 1890 trabalhadores e 562 supervisares.Niskannen (1994). e avaliar as diferenças entre as percepções dos trabalhadores e seus supervisares. Hofmann e Stetzer (1996). deforma que quanto maior é a percepção que os trabalhadores apresentam acerca das suas equipes de trabalho. propõe realizar uma aproximação entre os conceitos de clima de segurança. construção. o clima de segurança. desenvolvidos por outros autores. Esses autores utilizam os seguintes indicadores de clima de segurança: atitudes em relação à segurança.) e como estas podem ser induzidas pelas políticas e práticas que as organizações impõem sobre seus trabalhadores e supervisores (p. Com relação ao aspecto individual. Cox. Cheyne. Cree e Kellowae (1997) analisam o clima como um indicador da percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais. relações dos comitês de segurança nas organizações. Desenvolve uma pesquisa com uma ampla amostra.. apresentam três fatores: o processo grupal. Como conceito de clima de segurança.

103). Com um propósito mais amplo. no qual o clima de segurança tem efeitos causais . o clima de segurança poderia funcionar como uma medida indiretacla eficácia dos cursos de supervisores e diretores. Essa investigação utiliza uma amostra de 131 sujeitos divididos em níveis hierárquicos distintos. Mearns e Flin (1999) desenvolvem uma importante discussão teórica acerca do estado das investigações de clima de segurança e da relação entre esse conceito e o conceito de cultura de segurança.. Na mesma linha de pensamento.. essa investigação toca questões referentes à cultura de segurança. por exemplo. os autores concluem que o clima de segurança positivo tem lugar quando existe um bom nível de comunicação e clareza nas informações. Com um total de 722 trabalhadores ingleses. através das repercussões potenciais na melhoria da política organizacional em matéria de segurança (p. a manipulação de amostras de sangue contaminado. mais especificamente o contágio pelo HIV. Consideram que: . Duas importantes aplicações do clima de segurança na área de saúde são as desenvolvidas por Guastello. estabelecem uma relação entre o clima de segurança e a predisposição aos acidentes de trabalho. Dejoy. Seus autores demonstram que. Cabrera e Díaz (1998) utilizam o clima de segurança como um elemento de análise e avaliação do processo de formação no setor aeroportuário. concluem que o clima de segurança pode ter relação com a utilização dos EPIS frente às situações de risco como. Com uma amostra de 1716 sujeitos do setor hospitalar norte-americano. Gordon e Fleming (1998). é preciso analisar o clima de segurança em relação a outros aspectos mais amplos como a cultura de segurança. Searcy. cujo objetivo é avaliar o clima de segurança em uma amostra do setor petrolífero. Flin. Murphy e Gershon (2000) propõem que um clima de segurança positivo leva os trabalhadores a cumprir com as práticas seguras no ambiente de trabalho. De uma maneira geral. Gershon e Murphy (1999) que. com uma amostra de 1708 trabalhadores do setor de saúde. para que se obtenham resultados mais adequados à realidade das empresas. Uma das principais carências identificadas nas pesquisas anteriores é a falta de um modelo adequado de clima de segurança. é possível encontrar investigações como a desenvolvida por Mearns.Isla. Meliá (1998) propõe um modelo causal psicossocial dos acidentes de trabalho.

resposta dos superiores. . As variáveis foram divididas em três grupos distintos.. b) Indicadores de risco: risco basal. resposta dos companheiros em relação à segurança. construção e têxtil). p. desafiando permanentemente todos esses esforços. Essa cadeia de relações entre as respostas de segurança de supervisares. 31). na resposta de segurança dos companheiros. . A pesquisa realizada por esse autor foi desenvolvida através da aplicação da Bateria de Questionários de Segurança Laboral V3 (MELIÁ. a) Indicadores de aspectos psicossociais da segurança laboral: clima de segurança. afeta finalmente. risco real. e esta. Cardella (1999. por sua vez. o exame torna-se ainda mais desafiador. p. Ampliar a discussão para o aspecto humano. vidro. é possível traçar um histórico claro da evolução do conceito de clima de segurança e todas as transformações que o fenômeno passou nos últimos anos. Com tais informações. Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática Sem dúvida. de forma significativa. Segundo o autor.. o tema segurança no trabalho é um desafio para a grande parte das organizações. Muito trabalho físico e mental e grandes somas dê recursos estão sendo aplicados em prevenção. ISLAS. companheiros e trabalhador.. uma conduta mais segura do trabalhador focal. conduta em relação à segurança do trabalhador. eletricidade. serão mostradas as implicações práticas do clima de segurança e de como seu conceito pode influenciar na sistemática de gestão de segurança das organizações.na resposta de segurança dos líderes. a redução dos acidentes é um dos mais fortes desafios à inteligência do homem. A seguir. uma resposta mais segura dos superiores induziria a uma resposta mais segura dos companheiros. na conduta de segurança e na percepção de risco dos trabalhadores. a conduta de segurança do trabalhador e a forma como percebe os riscos reais (MELlÁ. c) Indicador de acidentabilidade: utilizou-se como indicador de acidentabilidade o número de acidentes de trabalho sofridos pelos sujeitos nos últimos cinco anos. A conduta do trabalhador também se considera diretamente afetada pela conduta de seus superiores. mas os acidentes seguem ocorrendo.. 1998. metal. 23) afirma que: . 1990) e contou com uma amostra de 316 trabalhadores. de diferentes ramos de atividade industrial (madeira.

apesar de serem evidentes as melhorias realizadas nos processos da empresa. através de técnicas específicas. e a experiência citada corrobora esse fato. Por exemplo. Ao retomar os aspectos teóricos apresentados. pode ser avaliada . os próprios trabalhadores relatam que. Ao definir linhas de atuação coerentes com a realidade de cada organização. ao longo do trabalho. É exatamente aqui que o conceito de clima de segurança passa a ter uma enorme validade para os processos preventivos. que evidenciaram três níveis do clima de segurança (participação da liderança. as ferramentas de comunicação. devemos somar um quarto aspecto central na compreensão do clima de uma empresa: a qualidade das ações realizadas pela empresa com foco em segurança. Porém. O processo de formação de liderança realizado permitiu. Em uma pesquisa diagnóstica realizada a pedido de uma empresa siderúrgica do sul do Brasil. os treinamentos e as campanhas. percepção em relação aos companheiros de trabalho e atuação pessoal). na apresentação do relatório de pesquisa de clima de segurança de uma grande empresa situada no Brasil (montadora de veículos). é possível traçar planos de ação "customizados" e que tenham. o que permitiu melhorias consideráveis no aspecto de segurança dentro da empresa. itens de controle factíveis. principalmente. foi concebido para que os líderes estivessem mais bem capacitados para atuar na mudança de comportamentos de risco e na estimulação de comportamentos considerados seguros. é importante lembrar que nem todo processo de intervenção em psicologia da segurança deve estar direcionado para o nível da liderança. foi possível planejar em conjunto com a liderança. principalmente no tocante às condições de trabalho. A qualidade de ações. O processo. em grande parte. de suas atitudes pessoais.A subjetividade é vista como a principal barreira para o desenvolvimento de um processo de segurança comportamental adequado e eficaz. como a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). na primeira década do século XXI. pode-se dizer que o papel da liderança é indicado por grande parte dos autores como um dos aspectos mais importantes do processo do desenvolvimento de uma pesquisa de clima de segurança. a segurança depende. Aos dois processos relatados. uma importante mudança na percepção dos trabalhadores. A partir dessas informações. os quais se sentiram mais valorizados. pôde-se perceber que as respostas dos trabalhadores apresentavam uma forte tendência a identificar os elementos relacionados com a liderança e suas interfaces com segurança como sendo críticos e com grande necessidade de mudança.

Como referência para a análise de indicadores considerados mais pró-ativos. é habitual que a resposta indique somente as estatísticas da empresa como fonte de identificação da necessidade. Isso é realizado deixando-se de lado uma série de outros importantes indicadores de natureza humana. Os reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. O clima de segurança. da capacidade das pessoas da empresa em observar. por exemplo. é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados. ao perguntar-se para a equipe que organiza as campanhas por que está realizando uma campanha com o tema proteção das mãos.pelos próprios trabalhadores. a idéia de pensar. pode ser uma importante fonte de dados para a escolha de temas na realização uma campanha. a prática). Bley. para a sua identificação. sendo que os primeiros referem-se. por exemplo. Entretanto. A identificação desses fenômenos psicossociais depende. como pensamentos e sentimentos. entender e interpretar tais informações. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. Cunha e Turbay (2005. por exemplo. àqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. seus comportamentos encobertos. diretamente. 91). a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como o indivíduo realiza o seu trabalho. Em diversas empresas avaliadas pela sistemática de clima de segurança. Este pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (conhecimentos e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho. por exemplo). em relação aos indicadores humanos de segurança. p. o TFSA (taxa de freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (taxa de freqüência de acidentes com afastamento). a dimensão afetiva (composta pelos aspectos interiores do ser humano: suas razões pessoais para se prevenir. por fim. Esses autores ainda propõem a compreensão dos indicadores humanos. seu nível de motivação. citam: Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os "Pró-ativos" e os "Reativos". por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos). portanto. efetivamente. em grande parte. pode ser utilizado o conceito de atitude preventiva. sentir e agir. . Retomamos. e outros aspectos que se referem ao elemento emocional dos trabalhadores).

Sobre os aspectos cognitivos Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtido após as atividades educativas. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem desses procedimentos. . necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais dessa população. por exemplo. constantemente. eles tenham efetividade. Com a divisão a seguir. quando observados de forma sistemática. Ao identificar dificuldades nesse aspecto. recomenda-se não abrir mão desse tipo de estratégia. acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. A empresa que realiza a atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é a aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem não só após o treinamento. e nem cumprido. Para empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. Para que. mas também com alguns meses de intervalo. Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais. consideramos algumas maneiras de viabilizar esse trabalho. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto.No dia a dia. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. esses fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores). As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas' para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. de fato. é importante que pessoas treinadas para avaliar o processo estejam nas áreas de trabalho. a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. somente didática. É necessário que as ferramentas de análise estejam alinhadas com as propostas preventivas da empresa. Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. Um destaque possível para esse indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento.

. da cultura de segurança que ela já possui. canal legal e outros com nomes diferentes) que são um canal para que os trabalhadores expressem suas opiniões em relação à empresa. porém. pouco trabalhados ou já "desgastados" com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. É essencial que a área de segurança esteja atenta a isso. Nível de utilização de canais de comunicação da empresa: muitas empresas possuem sistemáticas de comunicação (linha direta com a presidência. espaço para apresentação de críticas. em algumas empresas. de forma direta. Símbolos desconhecidos. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. e não só apresentação. entre outros). ou seja. mas principalmente para o qualitativo. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: "Estamos há x dias sem acidentes e com x horas de treinamento em prevenção". lembrando que. se as pessoas têm informações demais ou de menos sobre segurança. verificar como são a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho podem prejudicar sua efetividade. dos objetivos que ela almeja em prevenção. através do qual os trabalhadores podem expressar suas insatisfações em relação a essa área. em cumprimento à legislação. Quantidade e nível de compreensão das sinalizações de advertência: uma boa prática é averiguar. Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nessa direção. identificação de oportunidades de melhoria. Sobre os aspectos afetivos Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para esse indicador não deve ser somente o quantitativo. periodicamente. mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização. ele é "um quadro a mais" pendurado na parede. exploração dos assuntos. principalmente. aplicação prática dos conhecimentos. O ideal varia em função do nível de risco da empresa. e é muito comum que surjam assim muitas reclamações e sugestões relacionadas à liderança. tipos de perguntas.Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. é indicador necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. pois pode ser um importante indicador afetivo.

a) Períodos de greve: as percepções dos trabalhadores em relação ao nível de segurança da empresa podem estar influenciadas por momentos específicos. Os indicadores são obtidos por meio da compilação do tratamento das informações geradas pelos observadores. ao organizar um processo de pesquisa como esse. Vale destacar que essa é uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. além de. como fatores importantes a serem levados em conta. principalmente. conseqüentemente. Antes da realização de uma pesquisa de clima de segurança. orientações recebidas. ser indicador da compatibilidade da organização das tarefas e atividades com os cuidados de segurança necessários (tempo. recursos.Sobre os aspectos da ação Observação e registro de Comportamentos Seguros: esse processo permite à empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. tinha uma forte influência na percepção dos trabalhadores em relação à atuação da liderança. pode-se apontar o que segue. Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: esse processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho. como também depende de um processo de treinamento cuidadoso e preciso dos observadores. e isso causava impacto no nível de motivação da liderança e. realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço. pôde-se constatar uma forte tendência em apontar a liderança como a principal oportunidade de melhoria das questões relacionadas à segurança. é essencial que se entenda que a empresa havia passado por uma forte mudança no seu processo de gestão. Por meio de inspeções sistemáticas. no entanto. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não recomendável para algumas empresas). É claro que. carga física e mental. Entender a percepção da força de trabalho em relação aos aspectos de segurança pode e deve ser um indicador cada vez mais buscado pelas empresas. profissionais de diferentes setores da empresa (adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores. como o momento que a empresa vive. integrando conhecimentos. habilidades. competência. . a empresa deve levar em conta vários aspectos. limites e potencialidades pessoais. entre outros). Ao realizar uma pesquisa em uma empresa.

o motivo de se realizar uma pesquisa na organização. quais são os comportamentos de risco que são aceitáveis? Ao nos arriscarmos a adentrar o mundo da segurança com foco do aspecto humano. Entretanto. bem como uma série de problemas. e isso nos custará muitos anos de pesquisa e busca pelas reais possibilidades de melhorar a segurança dentro das empresas. Quando se diz respeito à compreensão da cultura de segurança. bem como sua validade ao ser entendido como um fator de suma importância para o processo de gestão de segurança. é essencial que todos entendam. as empresas tendem a responder que não há comportamentos de risco que sejam aceitáveis. devemos estar cientes de que estamos penetrando no difícil mundo chamado gente. o desafio é ainda maior. é possível apontá-lo como de suma importância. c) Mudança recente de lideranças. a empresa deve ter claro que uma série de melhorias poderá ser apontada. e a empresa tem que ter discernimento em relação ao que será ou não feito a partir dos dados obtidos pelo processo de pesquisa. pois o resultado pode estar relacionado à antiga equipe de líderes. d) Deve ser realizada uma boa "venda" do processo de pesquisa para a liderança e para os trabalhadores. Para isso ficar mais claro. pois exige da empresa uma importante dissociação. o que chama atenção é que a empresa somente mudou o "procedimento informal" no momento em que ocorreu um acidente grave com um dos trabalhadores. principalmente as que afetam diretamente o processo produtivo. conclui-se que tal tema deva figurar como assunto obrigatório em eventos. basta olhar para algumas empresas e perguntar a elas: "Quais são os comportamentos de risco aceitáveis dentro da empresa? Em uma primeira reação. o que pode distorcer o plano de ação a ser implantado. E na sua empresa. Pode-se dizer que aceitar tal comportamento de risco dos trabalhadores fazia parte da cultura da empresa. Ao analisar a história e a evolução do conceito de clima. no ano de 2004. . pois a falta de informação pode levar a uma baixa adesão durante o processo. verificou-se que muitos trabalhadores guardavam suas ferramentas dentro dos painéis de eletricidade energizados. exatamente. Em relação ao último aspecto.b) Mudanças em processos de gestão. sendo um comportamento reprovável por qualquer supervisor da área em questão. Ao realizar uma pesquisa de clima. em um processo de pesquisa realizado em uma empresa. Porém.

principalmente. nos modelos de gestão de saúde e segurança no trabalho. . realmente. com o mais precioso bem de uma organização: o ser humano. existentes nas empresas que se preocupam.seminários de segurança e.

Cuidar do ser: considerações sobre ciência. A complexidade desse tipo de atuação. a necessidade das lideranças e das cúpulas das organizações de prepararem-se melhor para gerenciar pessoas estão entre os fatores que contribuirão para que isso ocorra. Pelo contrário. viveremos um processo de estabilização da febre de modismos relacionados com a segurança comportamental. um custo dificilmente justificável e uma conseqüência eticamente inaceitável (José Luiz Meliá). Provavelmente. não significa que o comportamento humano no contexto da saúde e segurança deixará de ser importante. mas o ser humano continuará a ser o elemento relativamente estável do processo. a dificuldade em obterem-se resultados vendidos como fáceis. rápidos e instantâneos. que vem ocupando nos discursos gerenciais mais recentes: "O problema é o comportamento das pessoas". as estratégias empresariais aperfeiçoam-se. representam apenas uma pequena parte do universo de conhecimentos produzidos pela Psicologia sobre a relação entre homem e trabalho e uma parte menor ainda do que é possível examinar à luz do conhecimento produzido pela área de saúde e segurança no trabalho. dos consumidores e do público em geral. A tecnologia avança. No entanto. até então macabra. Passaremos a entender que. este passa da posição de problema para a de fator decisivo da construção das soluções. estaremos mais maduros e preparados para gerenciá-lo. se estivermos devidamente capacitados para gerenciar comportamento. de morte e sofrimento por doenças e acidentes de trabalho. que o sonho de proporcionar trabalho digno. Entretanto. As constatações e propostas de análise apresentadas no decorrer desses capítulos formam um conjunto complexo de elementos. como afirma . importantes para o aperfeiçoamento dos aspectos humanos em segurança. a ciência psicológica evolui. tornando-o um aliado do processo preventivo e tirando-o do papel de inimigo. "colocando pequenos tijolinhos no grande muro da ciência". decente e respeitoso da integridade global dos seres humanos vai se transformando em providências concretas de mudança de uma realidade. gestão de pessoas e cidadania A sociedade pós-industrial considera os acidentes e os danos à saúde dos trabalhadores. É desta forma. nos próximos anos. de natureza comportamental.

inclusive no campo do trabalho. ao atuar sobre a realidade vivenciada no início do século XXI. O desafio está em saber que a realidade de saúde e de ausência de acidentes que se busca construir para o futuro. Trabalhar com consciência. relaciona-se. contribuindo para o desenvolvimento de lares. de tomar decisões. bem como propor e negociar novos e melhores meios para trabalhar com dignidade e qualidade de vida. Isso quer dizer que os seres humanos continuarão em processo de aprendizagem. só será possível quando os trabalhadores. entristece. decente. Esse conjunto de propósitos pode ser simplesmente nomeado de processo humanização. enfim. utilizando os meios disponíveis. alegra-se. é possível afirmar. centros comunitários e outros ambientes mais seguros e saudáveis para a população em geral. potencializando a atuação antecipativa aos problemas de segurança e aos males à saúde dos trabalhadores. age. • pretender estender-se para além dos muros da organização. que o ser humano é humano. capacidade de analisar a realidade. produz. Ele é falível. dia após dia. de agir com cuidado são os "produtos" desejados deste complexo sistema de inter-relações que constituem o desenvolvimento humano nas organizações. • • harmonizar as relações entre as pessoas que compõem o contexto de trabalho. ético. pensa. escolhe. Entre os propósitos que devem referenciar um processo de prevenção de doenças e acidentes com o foco no comportamento humano estão: • empoderar o trabalhador para conhecer e controlar os riscos do seu trabalho. não é máquina. as empresas e os governantes assumirem que a grande possibilidade de transformação está presente na visão do processo como um todo.Dejours (1999). aperfeiçoamento e desenvolvimento. contribuir para o amadurecimento da cultura e do comportamento organizacional. beneficiando a sociedade como um todo. escolas. portanto. digno. Se encarado com a seriedade e a profundidade que merece. categoricamente. seu corpo tem limites. trabalhar pela re-humanização do processo produtivo. Trabalhar para evitar que as pessoas adoeçam e acidentem-se no trabalho é. produtivo. engrandecedor). antes de tudo. tornando-o saudável e seguro também nos seus aspectos subjetivos. . ele simplesmente é. de se antecipar ao pior. governo e sociedade a recordar. É auxiliar trabalhadores. empresários. que ele é a chave de acesso àquilo que podemos chamar de trabalho seguro (saudável. e não só no produto. os profissionais. ele sente.

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