Comportamento Seguro
a Psicologia da Seg urança no Trabalho e a educaç para a ão prevenç de doenças e ão acidentes

Colaboradores: Julio Cézar Ferri Turbay Odilon Cunha Jr.

2a edição – 2007

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COMPORTAMENTO EDITORA SOL

Aos meus pais, irmãos, familiares e ao meu amor, minha mais profunda gratidão por compreenderem minhas ausências, estimularem minha busca e compartilharem comigo das pequenas (mas valiosas) vitorias do caminho ...

Projeto gráfico: Fab Tacahashi Lau dos Santos rício Silvio Gabriel Spannenberg Revisão: Eliane Mara Alves Chaves

Bley, Juliana Zilli Comportamento seguro: a psicologia da segurança no trabalho e a educação a para a prevenção de doenças e acidentes. Juliana Zilli Bley e colaboradores - 2 ed. - Curitiba: Sol, 2007. 160p.; 210mm x 140mm. ISB N 85-89484-09 -2 Inclui bibliografia . 1. Psicologia do Trabalho. 2 Segurança do Trabalho 3. Prevenção de Acidentes 4 Analise do Comportamento. I. Titulo. . CDD -159 Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Sol. R. Capitão Souza Franco 881, .cj 80730-420 - Curitiba 142 - PR Telefone/fax(41) 3335 : .5087 e-mail: editorasol@editorasol.com.br

Dedico este livro aos trabalhadores brasileiros, que tem o perigo como "colega de trabalho", e a todos aqueles que assumem, profissionalmente, 0 desafio da construção de um cotidiano de trabalho mais saudável e seguro para os cidadãos deste país.

Exigiu que Fosse imposto o seu nome. Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado. de repente. ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. porem. uma discussão generalizada. pois. apareceu Júpiter. Enquanto júpiter e o Cuidado discutiam. E uma vez que. decido eu: esta criatura será chamada Homem. então. Como você. Originou-se." (Fábula de Higino. de volta. a Terra. recebera. Júpiter. Terra. Quando. "Você. entre vocês. o seu corpo quando essa criatura morrer. por primeiro. Este tomou a seguinte decisão. feita de húmus. Cuidado viu um pedaço de barra. traduzida livremente por Leonardo Boff) . surgiu. Enquanto contemplava o que havia feito. Logo. deu-lhe o corpo. conferir o seu nome à criatura. Você. Júpiter o proibiu.Certo dia. deu-lhe o espírito. que pareceu justa. De comum acordo. Cuidado. teve uma idéia inspirada: tomou um pouco de barra e começou a dar-lhe forma. há acalorada discussão acerca do nome. recebera. pediram a Saturno que funcionasse como arbitro. 0 que Júpiter fez de bom grado. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. moldou a criatura. pois fora feita de barro. ao atravessar um rio. portanto. isto e. este espírito por ocasião da morte dessa criatura. que significa terra fértil. também ela. Quis. material do corpo da Terra. foi quem. também de volta.

assim como nos processos de gestão e de avaliação disseminadas nas organizações. no Brasil. desenvolvimento e avaliação dos processos comportamentais implicados na instalação e manutenção de taxas de acidentes e doenças profissionais. treinamento. uma necessidade a ser enfrentada na compreensão dos problemas e objetivos que envolvem a noção de segurança no trabalho. historicamente. Sua principal característica é reunir um conjunto de achados e elaborações teóricas resultantes das angústias. como a principal obra sobre Psicologia da Segurança no Trabalho no Brasil. além dos fatores críticos ao processo ensinoaprendizagem na prevenção de acidentes e agravos à saúde. necessidades e aprendizagens vividas por esses profissionais. Lança um exame crítico sobre as relações entre comportamento humano e prevenção. em cada operação de diagnóstico. cada vez mais. Compreender essa tendência histórica significa avaliar que os processos de intervenção sobre os problemas que envolvem a segurança no trabalho nem sempre partem do entendimento da multideterminação de .Prefácio Comportamento Seguro . de Juliana Zilli Bley e colaboradores. a qualidade do trabalho e os custos organizacionais e do Estado. competências profissionais desenvolvidas nos processos de interação com o trabalho e seus atores. com repercussões geralmente graves sobre a sobrevivência dos trabalhadores. pode ser considerada. no sentido da humanização do trabalho. Avançar na produção do conhecimento. assim como suas implicações com as dificuldades enfrentadas na promoção e manutenção comportamento seguro no trabalho é. uma variável de incidência contínua sobre a base das organizações do trabalho. A ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho é. sobre os múltiplos aspectos que contribuem para a ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. portanto. o papel dos treinamentos no gerenciamento de riscos. A obra reflete. os desafios à prevenção e à educação para a prevenção. tudo isso com base na necessidade de ampliar os meios científicos para compreender os processos de constrangimentos à saúde e à segurança dos trabalhadores.A Psicologia da Segurança no Trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes. curiosidades. hoje. a noção de segurança comportamental e de percepção de risco.

psicológicos. sociais e econômicos na ocorrência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. mais recentemente. idéias. em quaisquer desses planos de análise e nas relações entre eles. espera-se um vínculo efetivo do trabalhador com os objetivos da empresa e. Desses princípios e entendimento.aspectos fisiológicos. tecnológicos. que se revela. Derivado desses princípios. os programas de prevenção nesse âmbito. organizacionais. cada vez mais freqüentes e. Geralmente. ao mesmo tempo. tem sido o horizonte factual e estratégico por meio do qual a Psicologia do Trabalho e. simplistas. nas empresas. pressupostos das diferentes formas de gestão da produção e de organização do trabalho. em seus diferentes planos de análise do sistema de trabalho (micro. é o ponto de vista de quem estuda ou empreende uma intervenção visando o controle ou a prevenção de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho. muitas vezes. Visto dessa maneira. O maior ou o menor conhecimento das condutas humanas nos sistemas de trabalho. os sistemas de trabalho são regidos pelos princípios da competitividade. nas empresas brasileiras. uma relativa autonomia para executar o trabalho orientado por esses princípios. a priori. que enfatizam a co-responsabilidade do trabalhador pelos produtos e serviços gerados. Infelizmente. emerge o entendimento de que cada trabalhador faz parte das estratégias de melhoria contínua das organizações que devem ser flexíveis e adaptadas ao mercado global. o que pode não ser complexo. bem como suas decorrências. dificultando o engajamento dos interessados e o gerenciamento de incidentes críticos associados a tais acidentes e patologias. As tentativas. da redução de custos. As organizações de trabalho são microsociedades que refletem. é possível afirmar que a natureza do trabalho produtivo é um complexo arranjo de variáveis e suas implicações. um sistema da ação e da instrumentalização das condutas humanas de acordo com as condições e os meios de realização de trabalho. meso e macro). geralmente são criados de forma emergencial e não contínua. crenças e valores acerca das necessidades de gestão e de avaliação do trabalho. a Psicologia da Segurança no Trabalho têm objetivado suas investigações e construído modos de intervenção no âmbito das organizações. do desperdício e do valor qualitativo do produto do trabalho. no cotidiano do trabalho. de criar programas de gerenciamento das condições de risco e da prevalência de acidentes e patologias relacionadas ao trabalho não têm se mostrado eficientes porque partem da . bem como determinações e efeitos. no cotidiano das análises do trabalho.

certamente. esquecimentos. por exemplo. tais como as características da gestão do trabalho e dos trabalhadores. erros. dificuldade em estar envolvido.lógica de controle das conseqüências das condutas (acidentes. pois envolve o desenvolvimento de métodos mais eficazes de investigação das variáveis envolvidas. a percepção de risco e de segurança no trabalho. os graus de satisfação. perda da capacidade inventiva. revelam desequilíbrios na relação entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador para respondê-las eficazmente. aqueles que resultam da instrução . os processos culturais instalados. tempo) e as competências profissionais desenvolvidas. conflitos). Os sinais para a investigação de incidentes ao acidente de trabalho. Essas manifestações. das condições de salubridade. nas diferentes configurações da organização do trabalho e determina a maior ou menor possibilidade da prevalência de acidentes de trabalho. Podemos afirmar que a noção moderna de segurança no trabalho pressupõe uma verificação e uma compreensão integradas: a) de macro variáveis do sistema organizacional. os sentimentos de identificação e pertencimento. O conjunto dessas manifestações. além dos processos intuitivos (que permitem associar as experiências vividas sobre os objetos disponíveis). uma análise das características dos sistemas técnicos de gerenciamento. pressupõe. tendência a isolar-se. explorando. o regime de metas. sistematicamente. que influenciam na avaliação e promoção de comportamentos seguros no trabalho. Compreender essas manifestações e suas implicações com as características do sistema de trabalho evita o reducionismo nos processos de análise do trabalho. do meio ambiente físico e social e dos meios de aprendizagem. a capacidade de negociar com as diferentes formas de pressão produtiva (ritmo. as condições e os meios de realização do trabalho. metas. b) de micro variáveis ocupacionais. ao invés de incentivar a leitura das situações pelas quais se estruturam as conseqüências. doenças ocupacionais. dificuldades para aquisição de novos conhecimentos. O conjunto dessas variáveis co-varia. geralmente associados às demais dimensões da vida fora do trabalho. marcas no corpo. controlando seus efeitos sobre o organismo. muitas vezes definidas como expressões da carga de trabalho. tais como a fisiologia do processo de trabalho. a capacidade de controle e monitoramento de riscos e incidentes no trabalho. dores. o que tende a intensificar a busca de diagnóstico de procedimentos. podem ser manifestados por trabalhadores através de qualidade nas inapetências relativas.

Com base nisso. . São aspectos que. que indica um campo promissor para pesquisadores e profissionais do ramo. maio de 2006 Roberto Moraes Cruz. professor e pesquisador da UFSC nos Departamentos de Engenharia de Produção e de Psicologia. Dr. refletindo a construção de respostas a antigas e novas necessidades de examinar criticamente os aspectos constituintes do comportamento seguro no trabalho e o dimensionamento de ações voltadas à melhoria das condições de vida e de trabalho nas organizações.(que são construídos pelo processo intelectual diretamente envolvido na interpretação das variáveis envolvidas e suas tendências). suas fronteiras e interfaces com as demais ciências do trabalho. Certamente. certamente. Desenvolver métodos e técnicas para aferir e auxiliar o processo de diagnóstico e interpretação dos problemas que envolvem a manutenção do comportamento seguro e a redução sistemática da ocorrência de patologias relacionadas ao trabalho é um desafio constante para os que atuam nos sistemas organizacionais. Psicólogo do trabalho. este livro auxiliará aos interessados a ampliarem a percepção e o conhecimento sobre os aspectos do comportamento humano que definem o campo da Segurança no Trabalho. Florianópolis. especialmente os psicólogos do trabalho: construir a ciência da Psicologia da Segurança no Trabalho. merecem serem aprofundados com a leitura desta obra. espera-se que novas contribuições no domínio da Psicologia da Segurança no Trabalho possam ser organizadas.

O conhecimento já produzido (no Brasil e em outros países) serviu de base para que fosse possível estudar um pequeno pedaço dessa realidade e sistematizar algumas contribuições para uma análise mais criteriosa dos fatores de sucesso e de fracasso dos treinamentos e das palestras de comportamento seguro. Em 2002. Olga Mitsue Kubo. e havia muito por fazer. foi um dos fatores definidores da minha escolha por aprofundar meus estudos. que encontrei como psicóloga atuando no campo da segurança do trabalho. é culpa das pessoas. do gerenciamento ou das instalações? À medida que o tempo passava e eu mergulhava. oferecidos pelas empresas. altamente qualificada e treinada. Por que as pessoas machucam-se em acidentes "bobos"? Por que uma pessoa. eu foquei meus esforços e minhas esperanças em poder contribuir para desvendar alguns dos problemas e dificuldades do processo de educar para a prevenção. tive que dar conta da primeira grande aprendizagem: eu não resolveria todos os problemas de segurança das empresas nem salvaria a saúde e a vida de todos os trabalhadores brasileiros com a minha pesquisa. este responsável pelo . como se um "gato descesse pela minha garganta". Roberto Moraes Cruz. Após digerir tal dado de realidade. estava disposta a desvendar novos caminhos para a solução dos enigmas que me assombravam. comete erros pífios e machuca-se em função disso? Por que algumas empresas fazem tanto pela prevenção e não conseguem "zerar acidentes"? No fim da história. Sílvio Paulo Botomé e Dr. recurso dos mais utilizados pelas organizações com o objetivo de conscientizar e mudar os comportamentos dos trabalhadores frente aos riscos. O Brasil é um país de pouca tradição de pesquisa e produção de conhecimento em Psicologia da Segurança no Trabalho. Caso não encontrasse. O produto desta pesquisa (dissertação defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em fevereiro de 2004) é o carro chefe deste livro e não teria sido possível sem a bússola e a lupa oferecidas por meus orientadores e inspiradores: Dra. Dr. iniciei um curso de Mestrado em Psicologia com a missão clara e definida em minha mente: vasculhar o que a ciência já havia produzido atrás das respostas que procurava.Apresentação A dificuldade de encontrar respostas para enigmas.

como treinamento. encarando os desafios da prevenção junto com tantos outros bravos profissionais. complementares às que eu havia feito durante esses anos dedicados ao tema Comportamentos Seguros. ou melhor. uniram-se a mim nesta discussão. de buscas para agregarem a esta obra o valor de seus estudos e descobertas. respectivamente. de trabalho. deixando tantas outras lacunas sobre comportamento humano e prevenção sem sistematização. Psic. Por fim. aquilo que é produzido "dentro dos muros" da universidade mobilizou sua concretização. baseados nas pessoas. tratando dos temas Clima e Cultura de Segurança e Percepção de Riscos. Foi quando convidei dois companheiros de jornada. do Brasil. baseados no comportamento humano. o desejo de tornar acessível. aproveitando-se esta oportunidade. Havia questões complementares sobre educar para prevenir que poderiam ser contempladas. de incômodos. Juliana Zilli Bley . No entanto.prefácio. MS. trata-se de uma fonte de consulta. um incômodo permanecia: a desconfortável escassez de livros publicados sobre Psicologia da Segurança no nosso país. Em última análise. Eu resistia à idéia de publicar uma obra tratando somente de um assunto tão específico. baseadas em aprofundamento teórico-científico e na vivência que temos tido nos chãos de fábrica. Julio Cézar Ferri Turbay e Odilon Cunha Jr. àqueles que se interessam pelo assunto. discussão e análise de alguns aspectos centrais no que diz respeito ao estudo e à gestão de processos e programas de prevenção em saúde e segurança. desde sempre. as quais eu conhecia e sabia. formando um gratificante mosaico de abordagens e perspectivas de análise.

Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança (JULIO CÉZAR FERRI TURBAY) 117 .Sumário << 1 >> 25 . gestão de pessoas e cidadania «*» 141 .Mudança de Comportamento 59 .Cuidar do ser: considerações sobre ciência.Psicologia e segurança do trabalho no Brasil: uma introdução << 2 >> 35 .A Natureza Humana e a Segurança 107 .Obras consultadas .Acidentes.Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional << 4 >> 77 .O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção 56 .Clima de Segurança: História e Conceito 126 .Conclusões do Estudo << 5 >> 103 . Incidentes e Desvios 112 .A Noção de Comportamento Humano 44 . Risco e Ser Humano 111 .Referências «+» 149 .Percepção de riscos (ODILON CUNHA JR.Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática << 7 >> 137 .A Percepção de Risco << 6 >> 117 .Perigo.Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? S1 Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? << 3 >> 55 .Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" 41 .Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade 71 .Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção 95 .) 104 .Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos 67 .Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico 79 .Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança 81 .Sensação e Percepção 109 .Um Estudo sobre Como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura 84 .A Prevenção ao Longo dos Tempos 106 .

Ao sistematizar estudos como os de Schorn. Atividades de Prevenção. São Paulo: Atlas. vem se dedicando a estudar e intervir sobre o comportamento humano no contexto do trabalho desde. Este é o caso da Psicologia do Trabalho e.) procura-se compreender e explicar esse conjunto de fenômenos. infelizmente. 1944. 1925. Psicólogo aqui no Serviço' Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT)? Não tem ninguém louco por aqui! Psicologia e segurança no trabalho? Uma nova invenção? Modismo recente? O que o psicólogo tem a ver com prevenção de acidentes? A Psicologia. Como ciência estruturada. Davis e Mahoney. Ombredane e Faverge. praticamente. não suas mentes e corações. Kerr. Contribuições da Psicologia do Trabalho. 2003). como processo de conhecer o funcionamento da subjetividade humana.fator humano. 1979. Hersey. é possível dizer que desde Aristóteles (300 a. como ciência e também como profissão. A. é profissão regulamentada há pouco mais de 40 anos e conta. contribuições da psicologia do trabalho. atividades de prevenção. Dela Coleta. uma das mais significativas obras publicadas sobre a Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho é Acidentes de Trabalho . 1936. 1991. mais precisamente. principalmente no oriente. No entanto. 1955. distanciando sua imagem profissional de contextos menos conhecidos da sua atuação. as empresas perdem um precioso retorno' dos seus investimentos nas pessoas (Cecília Whitaker Bergamini). J. apesar do tempo de regulamentação e da proporção da categoria. o estereótipo clínico (aquele do divã) e a idéia de que "psicólogo é médico de louco" ainda persistem no imaginário popular. e outros 1 DELA COLETA. Dunbar.Fator Humano. No Brasil. da Psicologia da Segurança no Trabalho. A Psicologia. a revolução industrial. seus primeiros e importantes experimentos datam de meados do século XIX. psicologia significa estudo da alma). No Brasil.c. 1957. inicialmente nomeados como sendo "da alma" (etimologicamente. Em registros conhecidos. Acidentes de trabalho . . com quase 200 mil profissionais registrados em conselhos profissionais e atuantes. data de tempos imemoriais.Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução Contratando somente as mãos dos trabalhadores. atualmente. 1957. do psicólogo José Augusto Dela Coleta' (BLEY.

como Freud. No entanto. É utilizada em diferentes contextos como no trânsito. como área de conhecimento. na prevenção de diferentes tipos de males e perdas. mas de variáveis que determinam a probabilidade de ocorrência de características de um evento. no cuidado com crianças. Pode ser vista. 1941. bem como a atuação de profissionais psicólogos nesse campo de atuação têm crescido no Brasil (como funcionários e como prestadores de serviço). . e Adler. resultando no exame não de uma causa. também se dá pelo fato de que as intervenções para a prevenção da ocorrência dos acidentes requerem humanização do trabalho e valorização do trabalhador. em conjunto com os demais profissionais que atuam com a saúde e a segurança dos trabalhadores. 1975). ocupado de forma tão tímida. inicialmente. 2003) é um raro esforço da Psicologia brasileira em três sentidos: 1) o de demonstrar sua importância no cenário da produção científica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho. ainda há muito espaço a ocupar e muito a contribuir. A noção de multideterminação diz respeito à tendência de conceber os fenômenos e seus aspectos como sendo causados por múltiplas relações entre variáveis de diferentes tipos ou naturezas. É bem verdade que o volume de pesquisas nessa área de conhecimento. Assim como o comportamento humano. Nesse contexto. componente das propostas paradigmáticas daquilo que se tem chamado de nova ciência. entre eles os relacionados às situações de trabalho. campos reconhecidos. 1948. A importância da participação da Psicologia. o da Psicologia da Segurança. em contrapartida à relação linear de causa-efeito própria de uma concepção aristotélica (LEWIN. histórica e cientificamente. ele apresenta a Psicologia como uma das áreas produtoras de conhecimento sobre a ocorrência de acidentes desde as primeiras descobertas científicas relacionadas ao trabalho. como o resultado da impossibilidade de se criar ambientes plenamente seguros. já discutiam as características de personalidade envolvidas na produção das fatalidades. Estudiosos e teóricos. A obra citada de Dela Coleta (BLEY. A Psicologia da Segurança é definida por Meliá (1998) como aquela parte da Psicologia que se ocupa do componente de segurança da conduta humana. o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado.citados pelo autor. torna-se uma Psicologia da Segurança no Trabalho. Esta é uma noção de causalidade circular. Cardella (1999). 2) o de demonstrar para os psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento científico sobre o fenômeno. 3) o de reafirmar a presença do profissional da Psicologia neste campo de atuação profissional. como de atuação do psicólogo nas organizações de trabalho.

psicológicos. citado por MELlÁ. ·The psychology of saféty: how to improve behaviors and attitudes on the job. Esse papel pode ser desempenhado. como palestras. de cada membro da organização. culturais. Ao examinar criticamente os recursos e estratégias. com grandes possibilidades de sucesso. Um dos papéis da Psicologia da Segurança é o de estar implicada em aumentar a possibilidade de envolvimento pessoal. treinamentos e reuniões. é possível levantar algumas questões. S. sociais. Dela Coleta (1991) reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. em desenvolver seus processos de trabalho de forma a favorecer a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. USA: Chilton Book Company. do exercício). são recursos utilizados por organizações para "ensinar" aos seus funcionários sobre os meios de realizar suas atividades considerando os riscos existentes. Radnor. o conjunto de variáveis do fenômeno comportamento que precisa ser examinado é aquele que caracteriza sua dimensão preventiva. define o acidente como um fenômeno multifacetado.ao articular a segurança do trabalho ao que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos). biológicos. 1999). 1996. com a segurança e com o desenvolvimento de uma cultura global de segurança(GELLER2. identificada pela organização. uma vez que prevenir é uma dimensão do comportamento de trabalhar. de fato. O que. as empresas têm ensinado aos trabalhadores sobre comportarse de forma segura (ou preventiva) ao realizar suas atividades profissionais? Se o processo de ensinar tem sido efetivo no âmbito educativo (do treino. . cabe o exame da inAuência dos comportamentos humanos na sua prevenção. no âmbito dos fatores relativos aos acidentes que podem ser chamados de psicológicos. É possível afirmar que. por meio das estratégias que objetivam a capacitação do trabalhador. Certamente. Isso remete a uma análise das condições de segurança da conduta do trabalhador. Os eventos relacionados com segurança. resultante de interações complexas entre fatores físicos. cursos. as contingências naturais presentes no cotidiano de trabalho do aprendiz (dia-a-dia de trabalho) têm permitido a ocorrência dos comportamentos ensinados? Quais aspectos do planejamento e da realização dos eventos de segurança influenciam (favorecendo ou prejudicando) na aprendizagem dos comportamentos seguros necessários à promoção da 2 GELLER. a utilização dessas estratégias educativas (assim como dos recursos didáticos) é desencadeada por uma necessidade. Nesse caso.

exatamente. naquilo que as pessoas aprendem como sendo sinônimo de seguro ao trabalhar em situações de risco. utilizadas de forma descontextualizada e sem considerar as variáveis contingentes aos comportamentos relacionados com a prevenção. como também fora das salas de treinamento e auditórios. a forma como são tomadas as decisões. Segundo Geller (2001). procedimentos e políticas são importantes estratégias para a promoção da mudança de comportamento em segurança. inicialmente. A característica preventiva pode ser identificada nos mais diferentes processos de uma organização como no planejamento estratégico da empresa. nas definições orçamentárias. porém.segurança no trabalho? O que pode. Entretanto. nas políticas corporativas. cria-se um ambiente favorável ao aparecimento de comportamentos considerados preventivos não só por parte dos indivíduos. e esse aprender acontece não só dentro. nos treinamentos e nos processos internos. Dessa forma. . Essa cultura favorável é definida como sendo aquela em que ocorre o que ele denomina de cuidado ativo. que é invisível aos olhos à primeira vista. após um período de tempo. elas pouco podem produzir frente ao poder de manutenção das coisas como sempre estiveram que o arranjo das variáveis existentes pode representar. um dos mais importantes estudiosos da psicologia da segurança norte-americana. que é caracterizado. um contexto organizacional favorável à prevenção caracteriza-se pelo cuidado como atitude essencial. 1999). Essa trama complexa de relações. palestras. Cuidar de si mesmo. mas também dos pequenos grupos/setores. cursos. ser entendido por comportamento seguro? Treinamentos. das lideranças e também da cúpula da organização. cuidar do outro e deixar-se cuidar pelo outro podem ser considerados como sendo um tripé no qual se apóia uma cultura organizacional que tem como característica essencial a prevenção (cultura de saúde e segurança). É o contexto influenciando os comportamentos dos indivíduos. Uma mudança efetiva e duradoura de padrões comportamentais dá-se por meio do processo de aprender. permite que os problemas considerados ultrapassados voltem a ocorrer. pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. os estilos de liderança e os valores praticados por seus integrantes fazem parte de um amplo conjunto de contingências que influenciam. sobremaneira. pode ser a responsável pelo insucesso de estratégias e ferramentas de conscientização em segurança que atingem seus objetivos num primeiro momento. A cultura da organização.

Aprender a Conviver. o desenvolvimento de um ser humano deve ocorrer de forma integral. Aprender a Aprender e Aprender a Fazer (OELORS. a relacionar-se e a desenvolver autonomia no seu processo de pensar e produzir conhecimento. Considerando os quatro pilares. tão criticada e. e a educação precisa formar e instrumentalizar as pessoas ao redor do planeta para viver e sobreviver neste contexto social. A UNESCO (Organização das Nações Unidas para educação. Também vai além da. fórmula do treinamento reprodutor das coisas como sempre foram e reprodutor da ideologia reinante. realizando processos de aprendizagem de espectro ampliado (integral). educadores e gestores ao construir o processo de aprendizagem de trabalhadores e organizações. sua capacidade de construir-se autonomamente e. seu contexto. Nessa perspectiva quadridimensional. está longe de terminar. científico. na virada do milênio. espiritual tão peculiar. até então. é isso que se busca nos primeiros anos do século XXI. Falar de educação. É de uma educação do indivíduo. treinar. sendo essa uma ampliação significativa sobre pensar e fazer educação (especialmente a educação no campo do trabalho). 1998). num período histórico no qual o mundo coloca novos paradigmas para a educação. suas relações. a ação de educar transcende às tradicionais noções de instruir. cultuada por empresas e profissionais. que se fala e precisa-se. qualificar para fazer algo profissionalmente. isto é. O mundo mudou. será preciso contar com o tempo (longo prazo) e com a atualização (mudança de paradigma) . o que precisa ser preparado são seus braços. ou seja. ao mesmo tempo.Os processos de conscientizar e educar têm sido os grandes carros-chefes das estratégias de prevenção de acidentes e doenças do trabalho com foco nos aspectos humanos. finalmente. sem deixar de lado seu mundo interno. ele acesse as dimensões do aprender a ser. político. e não seu ser inteiro. pela sua amplitude e importância. sua capacidade de fazer (que. Portanto. que os quatro pilares que deverão sustentar as propostas de educação em todo o mundo são: Aprender a Ser. além de saber fazer. é um convite à revisão daquilo que se entende como sendo o papel de cientistas. Vale salientar que. por meio da Comissão Internacional para Educação no Século XXI. em toda sua inteireza. há que se considerar o intenso processo de transformação que está em curso e que. para que seja possível deparar-se com organismos públicos e privados. vinha sendo o grande objetivo de ensino na educação de trabalhadores). Vai além de uma noção clássica de que a mão de obra tem de ser preparada. o que se procura na educação do ser integral é que. ciência e cultura) declarou. convergentes com os pilares da educação para o século XXI. econômico.

Atitude não é sinônimo de comportamento. 1998). dos outros e deixando-se cuidar pelos outros parecem ser o grande objetivo da segurança baseada no comportamento humano. estudada por cientistas e profissionais das áreas afins e influenciada por ambos na direção da promoção das melhores condições de saúde para aqueles que atuam em situações de risco. aos quais estão expostas. onde o cenário de doenças e acidentes de trabalho está longe do que se considerado aceitável (se é que isso existe). Isso posto. e as formas de evitar lesões e perdas. capaz de participar e assumir responsabilidades quanto a ela. Essa revisão deve ter como ponto de partida o questionamento acerca do papel desempenhado pelas pessoas no processo de prevenir. especialmente no que diz respeito às estratégias de treinamento e desenvolvimento (T&D). mas sim uma tendência a comportar-se de uma determinada forma. sentir e agir com segurança sempre que o indivíduo encontrar-se numa situação de risco (noção de tendência). Isso pode ser verificado ao comparar a proposta da educação do ser integral com a noção de atitude. sintam-se identificadas com e motivadas pela idéia de que "prevenir é realmente melhor do que remediar" e. do conhecer). Esse papel é o de sujeito da preservação da sua integridade. Existe uma máxima entre os profissionais de Saúde e . desenvolver atitudes seguras (objetivo de grande parte dos treinamentos) significa criar condições para que as pessoas conheçam os riscos. ajam de acordo com os dois primeiros fatores. afetivo (do sentir) e de ação (do fazer) (RODRIGUES. ter atitude segura significa pensar.de técnicos e dirigentes organizacionais. A integração dos quatro pilares na perspectiva da educação para saúde e segurança no trabalho coloca-a num nível maior de coerência com aquilo que hoje se entende por segurança comportamental que é a dimensão humana da prevenção de doenças e acidentes. Tal tendência é originária da consistência entre três componentes: cognitivo (do pensar. bem como atuar como elemento cessionário de poder e desencadeado r das pessoas que compõem um grupo nessa direção. é preciso que governantes e dirigentes de organizações revejam suas políticas de gestão de pessoas. será possível traduzir diretrizes inovadoras em práticas coerentes e eticamente pautadas. Para que isso se torne realidade em nosso país. desde que a organização de trabalho crie condições para que isso ocorra. Só assim. Capacitar e desenvolver pessoas para que se tornem competentes em pensar. O vocábulo comportamental diz respeito a essa dimensão. sentir e agir cuidando de si mesmas. amplamente utilizada em campanhas e treinamentos de prevenção e considerada essencial para esse processo. principalmente. sendo considerada por empregadores. Em última análise.

Segurança no Trabalho (SST) que confirma o caráter participativo e cessionário de poder que uma cultura de prevenção deve assumir. mas começa no olhar. É isso. no sentimento e na ação cada um. defendendo que segurança é responsabilidade de todos. . do andar mais alto do prédio da diretoria até a última bancada do último galpão no fundo da fábrica. A responsabilidade é de todos.

Isso quer dizer que a máxima "de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco" pode manter a discussão sobre comportamento e segurança no campo dos "achismos". e seus níveis de complexidade. ao examinar o conhecimento produzido sobre a noção de comportamento. Ele é um fenômeno de alta complexidade e variância. evitar. incluindo o meio. .. afirmando que: . saber que se está fazendo isso é outra coisa (Burrhus Frederic Skinner).. Os verbos utilizados para nomear os comportamentos (como prevenir. No âmbito da segurança no trabalho. neste sentido. pode ser visto como expressão da qualidade da relação do indivíduo com o meio social que o cerca. [ . Dela Coleta (1991. Botomé (2001). os comportamentos. o estudo da influência humana no acidente de trabalho necessita considerar o conjunto de relações que se estabelecem entre um organismo e o seu ambiente de trabalho para ser considerado como comportamental. presentes na ocorrência dos acidentes de trabalho. afirma que ela evoluiu ao longo do último século em meio a confusões. o que requer mais do que o senso comum para examiná-lo e intervir sobre ele. ao sistematizar as contribuições da Psicologia para a prevenção dos acidentes de trabalho. O comportamento das pessoas é objeto de preocupação do homem há muito tempo. analisar) podem levar a pensar que as relações que compõem esse fenômeno são simples.. equívocos e preconceitos acerca da sua conceituação e do seu uso.Comportamento humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado de "Segurança Comportamental" Caminhar sobre um terreno acidentado é uma coisa. o grupo de trabalho e a própria organização como um todo. Da mesma forma que é um objeto de estudo. as atitudes e as reações dos indivíduos em ambiente de trabalho não podem ser interpretados de maneira válida e completa sem se considerar a situação total a que eles estão expostos. o que não é verdade. p.. ] o acidente de trabalho. todas as interrelações entre as diferentes variáveis. examina alguns aspectos do homem. e não no campo da ciência. com os companheiros de trabalho e com a organização. é um fenômeno presente no dia a dia de qualquer pessoa. 77).

Profissionais (de diferentes formações) do campo da segurança. isto é. sem o devido preparo técnico-científico. Para o psicólogo. dos grupos e da própria organização. De posse desses conhecimentos. intervenção de profissionais de outras áreas de conhecimento sobre o comportamento. Os fenômenos comportamentais relativos à prevenção dos acidentes têm sido fonte de interesse e investimento por parte do governo. de diferentes áreas de conhecimento. à luz do código de ética) para realizar tal atividade como uma profissão. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se como uma Área de Conhecimento. Já no caso dos demais profissionais voltados para saúde e segurança. a atuação das organizações sobre os comportamentos do trabalhador em relação aos riscos do seu trabalho tem enfrentado alguns obstáculos como: reduzida oferta de profissionais adequadamente capacitados para lidar com comportamento humano em segurança. julgamento de profissionais. com máquinas. isto é. de empresas e de profissionais no que diz respeito à segurança no trabalho. empresas de prestação de serviços e grandes corporações brasileiras têm utilizado o termo segurança comportamental para referir-se ao conjunto de estratégias que utilizam para atuar sobre os comportamentos dos trabalhadores. por exemplo) com um alto grau de compreensão dos aspectos . um especialista formado. pormenorizado.Essa afirmação merece destaque e reflexão uma vez que toma o acidente de trabalho como um produto da forma pela qual o ser humano interage com o mundo à sua volta. equipamentos. um conjunto de saberes e conhecimentos que podem conferir a esse profissional um entendimento diferenciado. sobre os aspectos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. um conjunto teórico-técnico que subsidia sua intervenção nos fenômenos psicológicos relacionados com o trabalho no que diz respeito à prevenção de acidentes. outras pessoas e até com a sociedade. isto é. com o objetivo de torná-las capazes de prevenir acidentes de trabalho. É possível afirmar que os conhecimentos produzidos pela Psicologia da Segurança no Trabalho (e áreas afins dentro da Psicologia) assumem funções distintas quando se trata do trabalho de psicólogos e demais profissionais da saúde e segurança. autorizado e fiscalizado (pelo conselho profissional. esses profissionais poderão atuar nos seus respectivos campos (um médico do trabalho. ou mesmo gestores e técnicos de outras profissões. de que o comportamentalismo tem como propósito "manipular" os trabalhadores. a Psicologia da Segurança no Trabalho configura-se com um Campo de Atuação Profissional. o que confere um alto grau de complexidade a essa análise. Entretanto. Ele pode ser considerado um técnico.

Trabalhar com pessoas é. a aplicação de técnicas de dinâmica de grupo sem a devida preparação técnica e com pouco controle sobre as conseqüências desse tipo de intervenção. Trata-se do cuidado adotado para com as questões éticas e de responsabilidade profissional. além de serem utilizadas. Geller (2001). muitas vezes. Dos equívocos na concepção e na intervenção sobre os comportamentos em segurança pode decorrer o baixo grau de controle sobre os resultados das intervenções (prometer resultados que jamais ocorrerão) e da aplicação de técnicas sem o devido preparo profissional (o que pode gerar efeitos colaterais indesejados durante o processo). à escassez de propostas de formação específica para esse campo e também à sua pequena expressão junto à formação profissional básica (graduação em Psicologia).humanos. Referindo-se ao uso indiscriminado das estratégias de prevenção relacionadas com os aspectos humanos. em seu compêndio Manual de Psicologia da Segurança. Outros exemplos de equívocos são a utilização do conceito de atitude (tendência a comportar-se de uma determinada forma) como sendo sinônimo de comportamento (conjunto de relações que se estabelecem entre o indivíduo e o meio). ao mesmo tempo. em muito. como sinônimo de Psicologia por quem não é psicólogo. comenta que muitas das estratégias para promover crescimento e . É importante posicionar adequadamente tais funções. atitudes. comportamento. que acaba por punir ou expor colegas e subordinados. Conceitos genéricos sobre os comportamentos das pessoas têm servido como base para intervenções em segurança que se intitulam "focadas no aspecto humano". a nomeação de gestão de aspectos humanos em segurança para referir-se a comportamento humano. Como já foi abordado no capítulo anterior. A respeito da intervenção de profissionais de outros campos de atuação sobre o comportamento humano. a atuação de psicólogos no campo da saúde e segurança no trabalho no Brasil é bastante reduzida. tendo sido registrados até casos de descompensação emocional por parte de integrantes do grupo. Dejours (1999) e Geller (2001). Isso se deve. uma vez que é grande o risco de terem-se perdidos os critérios que diferenciam a utilização profissional da Psicologia da Segurança no Trabalho da sua utilização como fonte de conhecimento. consideram que expressões como fator humano. funcionam como um verdadeiro condensado de "psicologia do senso comum". fascinante e perigoso. que são expoentes da Psicologia do Trabalho na atualidade. correndo-se o risco do uso simplista do termo. podendo elevar a qualidade e a efetividade da sua atuação em função disso. o estímulo de feedbacks entre pessoas despreparadas para tal.

afirmar que esses profissionais realizarão intervenções equivocadas. Ainda sobre os obstáculos. um de seus principais ícones. No entanto. oferecia argumentos esclarecedores acerca desse tipo de "acusação". Um livro inteiro poderia ser produzido somente apoiado no debate acerca de intervenção sobre o comportamento x manipulação de pessoas. na ausência de alterações nas situações de intervenção. Não significa. é suficiente citar Skinner . e não porque são estratégias de trabalho com base em conhecimentos científicos. até mesmo. preconceituosamente. dificultam atuações futuras nesse campo. Os riscos de implementar conceitos e técnicas psicológicas nos processos de intervenção sobre os grupos de trabalhadores sem a devida consciência do alcance das suas implicações podem constituir-se na obtenção de resultados insuficientes. Para o exame aqui apresentado. Possuir um diploma de Psicologia não garante a efetividade da atuação do psicólogo sobre o comportamento das pessoas. Intervenções dessa natureza deixam para trás um "rastro" de resistências e descrenças para com esse tipo de proposta e. Não são raros os programas de natureza comportamental concebidos e implementados por pessoas com formações profissionais para atuar sobre outros fenômenos que não o comportamento humano. na provocação de situações contrárias aos objetivos propostos (fortalecimento de resistências) e. a crítica sempre presente de que atuar sobre o comportamento humano no trabalho é o mesmo que manipular o trabalhador parece infundada quando se conhece a fundo a análise do comportamento como proposta científica. são selecionadas e ouvidas com crença e otimismo por empresários e trabalhadores porque soam bem. incluindo mudanças de atitudes e comportamentos. Não se trata de restringir a atuação dos profissionais de outros campos de atuação no que diz respeito à dimensão humana do processo de segurança (isso não seria possível).desenvolvimento. Skinner (1983). como conseqüência. trata-se de caracterizar a natureza de diferentes tipos de intervenção profissional sobre essa dimensão: a dos profissionais que podem (e devem) utilizar o que há de conhecimento mais recente e confiável na Psicologia para instrumentar sua prática e a dos psicólogos que têm na dimensão humana o fenômeno que caracteriza e justifica a sua atuação profissional de forma central. porém. ainda na década de 70. na influência sobre o desequilíbrio emocional dos participantes do processo. independente da qualificação teórica e técnica apresentada pelo profissional por ocasião de uma nova oportunidade de intervenção. é possível afirmar que a probabilidade de sucesso da intervenção de um profissional com apropriados conhecimentos relativos ao comportamento humano é alta.

fatores comportamentais (práticas de segurança e de risco no trabalho). Para ele. 21): “ . sendo o meio caracterizado como máquinas. complementada e inter-relacionada com os fatores ambientais. o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação. Tal premissa já é. o mundo seria diferente. com certeza. p. por si só. ferramentas. A utilização da análise do comportamento e suas possibilidades como recurso para o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa. tecnológicos. Se isso fosse fácil e possível. destaca três domínios que requerem atenção para que a segurança seja um valor em uma organização: fatores ambientais (equipamentos. relação com colegas e supervisores. mas ainda há muito a ser feito. principalmente com relação aos aspectos humanos dos processos de segurança industrial. temperatura).. as normas e os procedimentos de trabalho da atuação concreta dos trabalhadores? Quem pode oferecer tal resposta? Geller (1994). crenças e traços de personalidade).(1983. Mais do que a ação visível de uma pessoa. desarticuladora da idéia de manobrar as pessoas para onde bem se entende sem que elas possam participar com suas próprias opiniões e seus próprios anseios. necessariamente. pois de nada adianta capacete de última geração se o trabalhador não souber ou não quiser colocá-lo (adequadamente) em sua cabeça. A Noção de Comportamento Humano Quando se trata de prevenção de acidentes. ferramentas. fatores pessoais (atitudes. Essa é uma das grandes interrogações do mundo da segurança: o que separa os equipamentos modernos. pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos. fatores pessoais e comportamentais representam a dinâmica humana da segurança ocupacional. Autores como Dejours (1999) e Davies e Shackleton (1977) afirmam que o homem é o elemento relativamente estável do processo. normas e procedimentos. entre outros. O comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo . ao referir-se a uma cultura de segurança total. estou mais preocupado com interpretação do que com previsão e controle".. grandes avanços relativos a aspectos ambientais. as orientações dadas nos treinamentos. legais e organizacionais foram alcançados.

as suas ações perante a realidade e as decorrências de sua ação. Entender o comportamento como uma relação entre a realidade de inserção de uma pessoa.(ou junto com ela). que influem sobre a probabilidade do comportamento ocorrer no futuro. criando uma outra realidade. como resultado da ação (Botomé. os resultados relevantes de um comportamento são todos aqueles que podemos relacionar com prevenção. que elevam ou que reduzem as probabilidades de ocorrerem acidentes de trabalho. Podemos chamar de comportamento todo o processo de inter-relação entre as variáveis. 2001). 1996). Uma análise do comportamento de prevenção (um estudo das variáveis que afetam o comportamento em exame) significa identificação das variáveis contingentes às respostas do organismo relacionadas aos riscos presentes. as relações de influência recíproca que se estabelecem entre elas e o que aconteceu como resultado desse processo. considerando-se as situações. p. ao agir levando em conta esses três elementos. tem maior probabilidade de gerar resultados relevantes por meio da sua atuação no trabalho (STÉDILE. o tipo de comportamento desejável em segurança é aquele que possui como resultado a não ocorrência de doenças e acidentes de trabalho. Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco? . a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois. permite afirmar que um profissional. Dessa forma. Figura 1 Especificação dos três componentes constituintes da definição do comportamento o conjunto de relações possíveis entre o que um organismo faz e o ambiente (anterior e resultante da ação) no qual ele faz Situação O que acontece antes ou junto à ação de um organismo Ação Aquilo que um organismo faz Consequência O que acontece depois da ação de um organismo FONTE: Botomé (2001. A figura 1 apresenta as relações possíveis entre os componentes de um comportamento. 697). Identificar e analisar aquilo que interfere na ocorrência dos comportamentos de trabalho podem ser uma maneira de conhecer as relações funcionais existentes. Em segurança.

a noção de ato inseguro como forma de referir-se aos aspectos comportamentais em segurança. Dessa forma. como afirma Skinner (1983.Nas discussões no âmbito da segurança no trabalho. ao mesmo tempo. que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influência que exerce sobre as mesmas variáveis. a relação entre tempo da ação e tempo do resultado (presente e futuro). O chamado comportamento de risco poderia. Tal entendimento de que comportamento é algo que existe. o que já revela a existência de uma tendência de iniciar-se a análise tomando como ponto de partida o erro. pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro. O conceito de comportamento como conjunto das relações entre o que um organismo faz e o meio em que faz permite avançar no entendimento da dimensão comportamental da segurança no trabalho. individual e coletivo desse comportamento. pois ela remete o exame somente aos fatores externos ou observáveis do comportamento. para si e para o outro (BLEY. São elas: os verbos que indicam as ações que devem ser realizadas (identificar e controlar). o resultado objetivado para o comportamento (redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis). oferecendo a essa análise um caráter compatível com seu nível de complexidade (que é grande). de um grupo ou de uma organização. utiliza-se. Assim como o acidente de trabalho é um fenômeno multideterminado. 2004). garantindo-se o caráter. p. aquilo que não se deve fazer. excluindo os demais fatores também constituintes do fenômeno. ao mesmo tempo. internas e externas ao indivíduo. os comportamentos relacionados com a segurança também são considerados como determinados por múltiplas causas. Deveria esse ser chamado de ato seguro? O comportamento seguro de um trabalhador. normalmente. os adjetivos . Há dificuldade em pesquisar sobre a noção de comportamento seguro devido à escassez de produções (científicas ou não) que tratem do que se entende por lado oposto do ato inseguro. 23). ser definido por meio da relação com sua conseqüência. e os agentes envolvidos (si mesmo e o outro). torna pouco recomendável a utilização da expressão ato. os aspectos do meio que devem receber intervenção (os riscos da atividade). Essa definição é útil à medida que contém em si as principais propriedades do comportamento que produz como conseqüência a não ocorrência de acidentes. então. dentro e fora da "pele de cada um de nós".

a finalidade do comportamento que recebe o adjetivo seguro.seguro e inseguro podem ser vistos como graus da segurança de um mesmo comportamento. P. dizendo "ele é bem menor do que parece". cuida. enfrenta. negligência e imprudência são algumas das expressões comumente utilizadas para qualificar os comportamentos próprios e impróprios das pessoas diante dos mais variados perigos. Se ele evitou passar pelo buraco. em última análise. controla. é dito que ele comportou-se de maneira insegura. O conceito de risco está associado à relação entre a freqüência da exposição e as conseqüências que podem ocorrer em função da exposição (CARDELLA. Evitar o acidente de trabalho é. BOTOMÉ. 1999. . teme ou evita um grande buraco na estrada. atitude preventiva. Esse exame permite utilizar os adjetivos seguro e preventivo para referir-se a comportamentos que resultam na redução da probabilidade de algo indesejável acontecer. Tal compreensão permite examinar a possibilidade de prevenir danos (acidentes e doenças) à saúde como um processo. e o resultado dessa ação pode caracterizar o risco ao qual ele foi exposto. ele está se comportando em relação ao perigo (buraco). Ato inseguro. caiu no buraco e teve seu veículo avariado. Figura 2 Graus das condições de segurança de um comportamento Seguro Inseguro Graus de Segurança do Comportamento FONTE: adaptação da autora a partir do esquema de graus das condições de saúde de organismo (REBELATTO. Assim. e não como uma ação fixa. 62). o que significa dispô-los num continuum que pode variar do mais seguro ao menos seguro (ou de risco). os adjetivos seguro e inseguro podem ser entendidos como aspectos do comportamento de "trabalhar" de um sujeito (figura 2). Se ele subestimou o tamanho do buraco. É possível exemplificar esse processo: quando um motorista desafia. 1999). O fator de risco de uma atividade pode ser concebido como a representação de diferentes graus de exposição de um indivíduo a um agente perigoso ou como a probabilidade de ocorrência de conseqüência indesejável ser reduzida. é possível considerar que ele comportouse de maneira segura.

cujo significado resume-se em ousar.Essa exposição depende. mas de identificar os níveis de influência que as pessoas envolvidas na realização de uma atividade arriscada exercem sobre as ocorrências na intenção de tornar possível a reorganização das variáveis presentes. para prevenir acidentes. os procedimentos de trabalho e também o tipo de relação que o trabalhador estabelece com os perigos inerentes à sua atividade. Risco significa a combinação da probabilidade e da conseqüência de ocorrer um evento perigoso especificado. muitas das ações de controle necessitam da participação das pessoas para serem efetivas. diretamente. as quais podem envolver a disponibilidade e a adequação do maquinário. assim como em outras atividades consideradas arriscadas. Ações de controle são realizadas por empresas e profissionais da segurança para que a probabilidade de ocorrer acidentes seja reduzida ao mínimo possível. Essa compreensão traz à tona a influência decisiva do homem na exposição ao risco e contraria o senso comum da vitimização do homem. Sob essa raiz. dessa forma. que o remete a um papel desprovido de qualquer participação na ocorrência indesejável. o risco pode ser examinado como uma opção do ser humano. extinta. Não basta estar de posse de um anteparo para impedir que as fagulhas produzidas por uma máquina atinjam os olhos do operador. isto é. . Ao desconsiderar a possibilidade que o homem possui de influenciar nas variáveis que elevam a probabilidade de ocorrer acidentes. Não se trata de culpar o trabalhador da ocorrência de acidentes. é preciso posicionar o anteparo entre o centro gerador da fagulha e os olhos para que o resultado aconteça: olhos protegidos de corpos estranhos. Isso poderia significar que o homem não exerce poder sobre os graus de segurança das suas atividades. No entanto. das condições de trabalho. as decisões organizacionais. em decorrência dessa concepção. Bernstein (1998) afirma que a palavra risco é uma derivação italiana antiga para risicare. a dimensão comportamental do trabalho seguro pode influenciar nos diferentes graus de segurança possíveis para o trabalhador. é possível dizer também que. Nesse exemplo. Identificar e rearranjar os aspectos envolvidos permitem agir sobre os determinantes dos problemas antes que eles aconteçam para que não aconteçam. e não um destino divinamente traçado. o ser humano desconsidera a possibilidade de influir sobre a prevenção dos acidentes. A segurança no trabalho como área de conhecimento seria. definição que permite encobrir o exame dos aspectos humanos envolvidos e pode significar a ênfase nos aspectos de natureza estatística dos riscos.

a não ocorrência do aversivo (danos à saúde causados por acidente) tende a enfraquecer. Se o indivíduo fizer isso e. um funcionário havia sofrido um acidente ao realizar reparos num equipamento semelhante quando um ruído semelhante ocorreu e foi seguido de uma explosão. O autor ressalta. o que faz com que o ciclo· repita-se. realmente. pois o ruído é um sinal de que poderá haver uma explosão. que o contato com o estímulo aversivo (sofrer acidente) pode recondicionar o poder do estímulo anterior (ruído grave e baixo) e fazer com que o organismo volte a comportar-se de forma a evitar o contato com o aversivo. o fato de. Considerando a análise sobre a resposta de evitar. evitar a situação aversiva. plano de ação para evitar que . é possível afirmar que a ameaça de sofrer acidentes pode ser útil para evitá-los quando o comportamento do indivíduo está sob controle do acidente ocorrido (com ele. Tal fenômeno pode ser representado pelas tradicionais comemorações por período sem acidentes. gradativamente. Pode-se dizer que o ruído ajudou o trabalhador a evitar um acidente naquele momento e. uma seqüência de acidentes ocorre. por sua vez. Um trabalhador de manutenção realiza um reparo num equipamento. O trabalhador desliga o equipamento e retoma os reparos para que o problema que causou o ruído fosse descoberto e resolvido. o indivíduo pode perceber o sinal e agir para evitar essa situação.Ao sistematizar os conhecimentos provenientes da Análise do Comportamento sobre o que ele chama de reforço negativo condicionado. com pessoas significativas ou visto por meio de fotos e vídeos). Ao testar o equipamento após a intervenção. a ocorrência da resposta (desligar o equipamento) que. ferindo-o gravemente. Em última análise. Um colega que trabalha num outro equipamento ao lado orienta-o para que desligue imediatamente o aparelho. o comportamento de evitar é fortalecido. repetidamente. ajudará a evitar outros em condições semelhantes. percebe um ruído grave e baixo. se houver um estímulo (um sinal) que precede uma situação desagradável. no qual já realizou reparos em outras oportunidades. não ocorrer o acidente (como decorrência de evitálo de forma efetiva) enfraquece o comportamento de evitar. na empresa em que trabalhava anteriormente. ainda. Por outro lado. eleva a probabilidade do aversivo (danos à saúde causados por acidente) ocorrer. Skinner (1967) explica que. A seguinte situação pode exemplificar a possibilidade de aplicar o exame do conjunto de relações descrito pelo autor ao exame do problema dos comportamentos para segurança do trabalho. O colega sabe disso porque. originado da parte inferior do equipamento. Dias após o bolo e os balões decorativos. possivelmente. feita por Skinner (1967). reiniciando o ciclo de investigação.

ed. Conhecer as relações que compõem o ciclo analisado possibilita a interpretação de fenômenos como o da alternância entre períodos com e períodos sem a ocorrência de acidentes nas empresas. uma vez que as duas noções costumam ser utilizadas como sinônimos. é adequado afirmar que esse tipo de comportamento tem como propriedade definidora a sua capacidade de reduzir (e manter baixa) a probabilidade de acidentes para o indivíduo. P. parece importante examinar aquilo que tem sido considerado como prevenção. . Ao tratar de forma detalhada da causalidade circular que define o comportamento preventivo. Assumindo a análise dos aspectos que compõem o processo de evitar como ponto de partida. Considerando que o comportamento seguro ocorre na presença de riscos. prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência. A comparação permite afirmar que o processo de redução parece ser mais apropriado como propriedade definidora do comportamento seguro em função da semelhança que apresenta em relação às características definidoras da noção de risco. Por isso. 1999. nem todas as 3 REBELATTO. São Paulo: Manole. pode representar a capacidade de influenciar na probabilidade do acidente ocorrer de forma a torná-la menos provável. Fisioterapia no Brasil: fundamentos para uma ação preventiva e perspectivas profissionais.. a fim de impedir sua ocorrência. 2. Evitamos Acidentes ou Promovemos Saúde? A característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. BOTOMÉ. R. o da ocorrência de acidentes com funcionários que foram submetidos a muitas horas de treinamentos de segurança e até o do insucesso de campanhas e programas na redução da quantidade de acidentes ocorridos nas empresas. é possível identificar a necessidade de diferenciá-lo do que significa o processo de reduzir. visto que não seria possível obter o mesmo tipo de conseqüência de forma duradoura por meio do processo de evitar. que tem como um dos significados "tornar menor". entre elas a natureza estatística. Analogamente. principalmente por ser este um dos principais paradigmas do campo da saúde e da segurança no trabalho. O verbo reduzir. j. em função das propriedades que foram descritas. S. mesmo em graus mínimos. ao ser aplicado ao estudo da segurança no trabalho.ocorra novamente etc.

Figura 3 Tipos de atuações profissionais possíveis Atenuar Compensar Reabilitar Tratar Prevenir Manter Promover Atenuação do sofrimento produzido por danos definitivos nas condições de saúde dos organismos. e não apenas em relação aos problemas ou suas conseqüências. É possível afirmar que grande parte das estratégias de prevenção adotadas em nível governamental. tais procedimentos são mais condizentes com os tipos de atuação tratar. prevenir implica em agir em relação aos determinantes dos problemas.formas de atuar sobre os graus de saúde de um organismo podem ser chamadas de prevenção. manter e promover. Manutenção de características adequadas nas condições de saúde. compensar. Conhecer os tipos de atuação propostos por Rebelatto e Botomé (STÉDILE. prevenir. FONTE: Stédile (1996. 1996) permite visualizar equívocos e acertos nos processos utilizados para gerenciar os acidentes de trabalho. p. Prevenção da existência de danos nas características das condições de saúde. Sua representação pode ser examinada na figura 3. Reabilitação (limitação. o que muda o foco de atuação: do problema existente (o acidente) para fatores que alteram a probabilidade da sua ocorrência (dispositivos de segurança. Promoção de melhores condições de saúde existentes. empresarial e de intervenção profissional (entre as diferentes especialidades do campo da saúde e da segurança no trabalho) sustenta-se por meio do . procedimentos. EPIS. As distorções naquilo que se entende como prevenção podem implicar importantes conseqüências para os resultados de treinamentos e palestras que têm por objetivo ensinar a prevenir. reabilitar. São eles: atenuar. reabilitar. 1996) sistematizaram os diferentes tipos de atuação profissional possíveis em relação aos graus de condição de saúde apresentados. uma vez que grande parte das empresas afirma fazer prevenção em segurança apenas calculando taxas de freqüência de ocorrências e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. 48) Conforme pode ser examinado na figura 3. redução) de danos produzidos nas condições de saúde dos organismos Recuperação (eliminação) de danos produzidos na qualidade das condições de saúde dos organismos. Rebelatto e Botomé3 (STÉDILE. Ao proporem essa definição. compensar e atenuar. Compensação dos danos produzidos nas condições de saúde dos organismos. tratar. supervisão no caso da segurança no trabalho).

é relevante examinar a importância do processo de ensino-aprendizagem para a prevenção dos acidentes de trabalho. também. pode-se considerar que o campo da saúde e da segurança tem se especializado mais em morte do que em vida.paradigma da doença e do acidente. Correndo o risco da generalização. . e não da saúde. Se prevenir acidentes pode. ser considerado um processo comportamental e aprender representa a possibilidade de ocorrerem comportamentos significativos para a segurança dos trabalhadores. Uma das conseqüências disso para a segurança comportamental foi uma ênfase nas iniciativas muito mais caracterizada pela descoberta e correção dos comportamentos inadequados do que pela identificação de suas causas e capacitação dos trabalhadores e dirigentes para gerar um ambiente de trabalho saudável Essa mudança de paradigma é necessária e urgente.

quanto para outros países do mundo: o acidente de trabalho. . Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho. alguma coisa fundamental a educação pode (Paulo Freire). a Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho (SIPAT) com suas palestras e campanhas educativas e até o curso de formação para membros da Comissão Interna para a Prevenção de Acidentes (CIPA). efetivamente. no texto das leis que tratam da prevenção de doenças e acidentes.O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção Se a educação não pode tudo. É certo que a prevenção dos acidentes e das doenças ocupacionais é a principal via de acesso à mudança deste que se configura como um verdadeiro problema de saúde pública tanto para o Brasil. é possível afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho. precisa ser ensinado e aprendido. para si e para os colegas com os quais trabalha. antes. é necessário. além da forma como isso pode ocorrer. Isso evidencia uma crença coerente dos profissionais do campo da segurança e dos legisladores na importância do papel da educação na melhoria das condições de saúde dos trabalhadores à medida que o processo oferece a possibilidade real de promovê-la. compreender o que. É possível encontrar. À luz do conhecimento produzido sobre o comportamento humano. A educação para a saúde e a segurança é uma das tradicionais estratégias utilizadas em políticas públicas e programas de prevenção de doenças e acidentes relacionados ao trabalho como meio de capacitar trabalhadores. algumas ações educativas obrigatórias (para algumas organizações) como o curso de integração de novos funcionários na empresa.

falta de atenção. p. sentimento de pertencer à equipe. Tais aspectos do comportamento. falta de cuidado. imprudência. com liderança. o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação. p. Normalmente. reorganizar as relações que. tais fenômenos estão associados a outros na construção do cenário de um acidente. podem ser: • interpessoais: relacionamento com colegas. Kienen e Wolf (2002. estabelecidas entre as variáveis. compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado. Tão utilizada e com tantas finalidades que se torna raro chegar a um nível de análise em que os debatedores perguntem a si mesmos: Afinal. é necessário identificar as variáveis das quais o comportamento é função (aspectos internos e externos ao indivíduo que mantém aquele comportamento) e criar condições para que as relações existentes entre elas possam ser reorganizadas. superar a crença de que as principais variáveis determinantes do comportamento são internas e identificar as variáveis ambientais mais significativas para alterar o comportamento. abalo emocional. 700). . distração. mas que também influenciam no comportamento.. Ao examinar a importância do comportamento humano para a formulação de objetivos organizacionais. 19) afirmam a necessidade de: . o que se observa nas considerações feitas sobre as causas humanas é à forte presença de explicações orientadas para aspectos internos ao indivíduo: falta de percepção de risco.. É certo que. alterando o resultado desse comportamento. em muitos casos. Para que seja possível. que são externos ao organismo (estão do lado de fora da pele de cada um). pois isso constitui um aspecto básico para administrar comportamento humano. isto é. o que realmente significa mudar comportamentos? É possível criar um treinamento ou um evento que mude os comportamentos das pessoas? Para Botomé (2001. o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais.Mudança de Comportamento Uma expressão é bastante comum nos debates acerca de aspectos humanos relativos à prevenção de acidentes de trabalho: mudança de comportamentos. consiste em estabelecer novas relações entre um organismo. Por outro lado. elas restringem o exame dos aspectos comportamentais. negligência. uma vez que eliminam a possibilidade de considerarem-se os aspectos externos ao indivíduo.

• • • • ambientais (ambiente físico): iluminação. . Se um indivíduo obtém. piso. Por outro lado. Muitas tentativas de modificar os comportamentos no trabalho podem ser inúteis se os aspectos do ambiente organizacional não forem considerados. o que caracteriza a complexidade e a diversidade das variáveis que podem influenciar nos comportamentos das pessoas no trabalho. obtém a redução da probabilidade do evento ocorrer. mas também aos movimentos sociais. é preciso examinar de que forma e em que contexto essas estratégias têm sido utilizadas. como conseqüência do seu comportamento de trabalhar. na organização do trabalho. códigos disciplinares. Da necessidade de administrar o comportamento humano para evitar os acidentes de trabalho (e da complexidade que isso representa). treinamentos. A mudança de comportamento em segurança pode ser entendida como uma alteração naquilo que o trabalhador consegue produzir na interação com seu meio. jornais. alta probabilidade de ocorrer um evento indesejável (acidente) num momento e. aos comportamentos relativos à segurança. de gestão: sistemas de gestão. equipamentos. no momento seguinte. A discussão sobre métodos eficazes de modificar comportamentos não esteve restrita somente ao mundo do trabalho. originou-se a busca por mecanismos capazes de mudar os comportamentos das pessoas de modo que eles passassem de condutas pouco seguras para condutas muito seguras na realização das atividades. feiras. metas. é possível dizer que esse indivíduo mudou seu comportamento. o que pode ser decorrência de modificações nos equipamentos. políticas motivacionais. essa análise aplica-se. hábitos regionais. cursos. da tarefa a ser desenvolvida: tempo e recursos compatíveis. Essa mudança ocorre em razão da reorganização das variáveis das quais o comportamento é função. Palestras. valores e tradições culturais. uma vez que não podem ser consideradas eficazes em si. mas em função do resultado que produzem (aprendizagem) para seus participantes. peças de teatro são exemplos de estratégias utilizadas com a finalidade de influenciar na conduta do trabalhador com relação à segurança no trabalho. também. normas e procedimentos. sócio-culturais: condições de vida da população que compõe o grupo de trabalhadores de uma organização. nas normas que regem as atividades e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização com o propósito de prevenir a ocorrência de acidentes de trabalho.

o que deve ser definido como aprendizagem necessária para que tal capacidade seja desenvolvida? Cumprir regras? Seguir normas e procedimentos? Tomar decisões seguras? Antecipar-se aos problemas? Todas as possibilidades juntas? Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia. pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando (indispensável para poder se comportar considerando os riscos presentes) e até no . Ao terse a obediência como objetivo de ensino. acontece no campo da segurança: Após quantos atos inseguros flagrados eu devo advertir um funcionário? Se deixar de promover o acidentado a um cargo melhor. o que caracteriza mudança de comportamento. A maior parte dos instrutores e participantes de treinamentos de comportamentos seguros estudados por Bley (2004) afirma ser cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa. No entanto. mas fazê-lo desprovido de análise pode ser tão arriscado quanto não cumprir as regras. Conhecer e respeitar as regras de segurança é importante. educadores dividem-se nas opiniões acerca do que deve ser aprendido pelos trabalhadores para que sejam capazes de não se acidentar. é possível dizer que houve aprendizagem (CATANIA. Dessa forma. objetivo principal da capacitação para segurança. os trabalhadores tornaram-se capazes de realizar suas atividades de forma mais segura. em alguns casos. diminuem as chances de ele sofrer outro acidente? Como fazer para que todos cumpram as normas de segurança? Educação por Meio de Controle ou por Meio de Escolhas: Estratégias para Influenciar Comportamentos A idéia do acidente como expressão da qualidade da relação indivíduo-meio evidencia a análise do comportamento humano como uma alternativa para identificar e analisar aquilo que influencia na capacidade de um trabalhador prevenir a ocorrência de danos à sua saúde. religiosos e à educação dos filhos: A palmada educa? O castigo é menos traumático? É útil passar pimenta nos dedos para deixar de roer unhas? Esses são questionamentos que pais e educadores fazem até hoje. Da mesma forma. passa a ser possível organizar o ensino de forma a fazer novas sínteses comportamentais. nem contribuir para o acidente dos colegas.políticos. gestores. Instrutores. Se essa mudança for relativamente permanente. 1999).

294). Entretanto. mas sim de um equilíbrio saudável e importante entre autoridade e liberdade (caminho do meio). foram (e são) tomadas providências de diferentes naturezas. No caso de um técnico de segurança advertir duramente um trabalhador que não esteja utilizando protetor auricular. assaltos. o trabalhador tende a colocar o equipamento na presença do técnico e a retirá-lo tão logo perceba que o mesmo não está mais presente. no caso das multas. Isso acontece porque a punição influencia na diminuição da freqüência do comportamento. p. necessariamente. ao observar-se atentamente a realidade. prisão. que vão da difusão de informações às medidas disciplinares. desvalorização são exemplos comuns no dia a dia e existem com o objetivo de acabar com a ocorrência de determinado comportamento não aceitável – excesso de velocidade. desaprovação. de Lao Tsé a Paulo Freire. passando por cursos e treinamentos. ao observaremse as práticas mais difundidas nas organizações para esse fim. no caso da prisão. ela pode não ser permanente. ao longo do tempo. Assim posto. penitências. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa. a fazer escolhas com relação a elas. nem as multas acabaram com as infrações de trânsito. considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam. a existência das prisões não fez reduzir a criminalidade. Multas. é possível perceber a forte presença de um mecanismo de controle bastante comum na nossa sociedade. Também não se trata de baderna e subversão. o qual pode ser chamado de punição. censura. castigos.prejuízo da sua atuação com relação à criação de meios mais seguros de trabalho devido ao faro de estar condicionado a um único conjunto de regras. O adequado equilíbrio entre a ocorrência de comportamentos controlados por regras e de comportamentos modelados por contingências parece ser um arranjo mais indicado quando se trata de comportamentos preventivos (Skinner. por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade. Quando o efeito passar. Em nome da modificação do comportamento do trabalhador. 1980. defendido por sábios e cientistas. isso revela . podendo até levá-la a níveis mínimos mas. o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência e do controle. o comportamento punido tende a recuperar a freqüência antiga. Isso significa que ensinar o trabalhador a tomar decisões por meio de escolhas conscientes e de qualidade é tão importante para a educação para a segurança quanto deixá-lo ciente das regras que precisam ser seguidas. Entretanto.

113): . ou se for qualquer outra situação de elevado potencial de risco. Entretanto. e seus efeitos temporários são conseguidos com tremendo custo na redução da eficiência e felicidade geral do grupo. Avaliar a utilização de punição sob o aspecto da baixa eficiência na mudança de comportamentos não significa que esse mecanismo não tenha função no processo de segurança. Advertir uma pessoa ou proibir sua entrada em determinado local onde há perigo é claramente diferente de agredi-la (verbal ou fisicamente) por não ter utilizado uma máscara de proteção contra gases. frustração e revolta.outro aspecto importante sobre a punição: há uma tendência a fazer efeito somente na presença do agente punidor. é preciso fazer isso sempre considerando e resguardando a dimensão ética do que o fato representa. em longo prazo. a fim de que seja possível a preservação da integridade das pessoas envolvidas. pode gerar raiva. se for situação atípica. submeter os trabalhadores a situações de tal natureza pode gerar efeitos indesejáveis como aumento da ansiedade e do medo. Da mesma forma. p. Se a situação for considerada crítica. que requeira providências imediatas. Ser capaz de comportar-se de forma a reduzir a probabilidade de que um acidente aconteça é o objetivo maior de uma proposta de segurança com ênfase no comportamento humano. no exemplo. pode reduzir a espontaneidade e a criatividade. é necessário que as pessoas aprendam à trabalhar considerando algo que não existe. Para que isso seja possível. a fim de que ele continue não existindo (o acidente). na qual seja necessário evitar alguns comportamentos que representem alta probabilidade de acidente. como emergências. Conforme Skinner (1967. não é aconselhável a utilização desse procedimento no cotidiano do trabalho porque. além das desvantagens da punição como agente de controle e modificação de comportamentos. o uso desse sistema de controle pode ser recomendável devido ao poder de suspender imediatamente algumas condutas. Como é possível ensinar alguém a se proteger de algo que não existe (acidente não existe até que aconteça)? Uma das formas é criar um sistema de reforço de comportamentos com base no que a Análise do Comportamento chama de .. É evidente que só se justifica tal procedimento quando outros recursos de segurança não tiverem se mostrado eficazes para impedir a ocorrência de um comportamento que represente ameaça iminente às condições de saúde de uma pessoa. falhas e paradas de equipamentos. por exemplo. a punição realmente não elimina o comportamento de um repertório.. do técnico.

códigos de valores e conduta. 121) afirma que isso pode explicar por que medidas de segurança e outros procedimentos preventivos não são modelados naturalmente com muita freqüência. nesse sistema de mudança de comportamentos.reforço negativo do tipo esquiva. pois requer que a instância promotora da mudança (gerências. profissionais de segurança. O processo de fuga (em Análise do Comportamento) só é possível quando se trata da análise das causas de acidentes e doenças que já ocorreram. mas que não se aplica à análise da prevenção porque consiste em eliminar um estímulo aversivo que já está ocorrendo e que. os comportamentos capazes de prevenir) é possível à medida que são conhecidas as conseqüências capazes de reforçar tais comportamentos. a ausência do evento afeta o comportamento de forma a torná-lo mais permanente. Um outro processo estudado pela Análise do Comportamento que pode influenciar na ocorrência de comportamentos é o reforço positivo. consultores) avalie e discrimine os aspectos que compõem as contingências (sistema de relações que facilitam ou dificultam a manutenção de comportamentos) e que poderão contribuir para que isso aconteça. sofrimento). Sua utilização na criação de condições para a ocorrência de comportamentos desejáveis (no caso da segurança. Uma outra forma de reforçar negativamente um comportamento é aquilo que pode ser chamado de fuga. por si só. pois ele não sofreu as conseqüências desagradáveis do acidente (lesões. Na esquiva. Apesar de ser um procedimento que tende a ser duradouro. elimina a possibilidade de agir antes que aconteça. naquele grupo. a não ocorrência do acidente aumenta a chance do indivíduo comportar-se de forma segura novamente. o que reafirma a educação como eixo central do processo de prevenção. estabelecê-lo representa um elevado grau de dificuldade. A conseqüência de um comportamento efetivamente seguro é que nada acontece. que é uma premissa do processo de prevenir. Catania (1999. É diferente do reforço negativo. Essa possibilidade justifica a . dor. pois é caracterizado pela apresentação de um estímulo reforçador ao organismo enquanto que o negativo consiste na remoção de um estímulo reforçador. sem uma profunda e minuciosa análise de todos os fatores que influenciam no comportamento daqueles indivíduos. é improvável que se consiga conhecer e controlar as variáveis mais apropriadas para estimular comportamentos preventivos como campanhas. Ou seja. Pode ser observado quando um comportamento tem como conseqüência um estímulo que o reforça e passa a ocorrer com mais freqüência. pois afasta o organismo da probabilidade de sofrer conseqüências indesejáveis. p. programas motivacionais.

utilização de recompensas por líderes e organizações na tentativa de estimular os funcionários a conduzirem suas atividades com segurança. quanto no dia-a-dia de trabalho para que seja possível fazer com que a busca pela mudança de comportamento não fique restrita às paredes do centro de treinamento. envolvendo estimulação de condutas desejáveis. descobriu evidências de que a empresa utilizava recompensas com o objetivo de fazer com que todos se comportassem da forma como ela estabelecia ser a adequada. construção coletiva de regras. os prêmios. O ajuste das estratégias às características de cada grupo é eficiente uma vez que. e não um expectador. e criar condições pessoais e organizacionais para que ele torne-se o agente do seu processo de segurança. A Análise do Comportamento já descobriu (SKINNER. as necessidades e as características do público a ser gerenciado. é possível construir (ou adaptar) um conjunto de ações mais coerentes. em muitos casos. partindo-se do pressuposto que esses tipos de conseqüências influenciam na ocorrência de comportamentos desejáveis para todas as pessoas. elogios e diplomas de reconhecimento são considerados como recompensas a priori. sem que isso lhe pareça aversivo. . Tal aprofundamento na análise permite alcançar o objetivo de tornar o indivíduo mais bem preparado para lidar com os riscos das suas atividades. comemoração de conquistas como a de períodos sem acidentes (reconhecendo como foram construídas. aquilo que estimula comportamentos seguros em uma pessoa pode não estimular a mesma conduta em outra. difícil ou desagradável. após realizar um estudo sobre as representações dos trabalhadores de uma indústria química sobre acidentes e contaminações. CATANIA. Bernardo (2001). vale a máxima de que cada caso é um caso. limitação (de forma saudável e cuidadosa) de condutas indesejáveis. 1999) que um determinado estímulo que é reforçador para o comportamento apresentado por um organismo pode não exercer o mesmo tipo de influência sobre o comportamento de outro. Isso pode (e deve) ser estabelecido tanto no âmbito dos programas de formação. 1967. quando se trata de comportamento humano. pois não é obra do acaso). Conhecendo com profundidade os valores. isto é. O problema é que.

Normalmente. com base nas situações concretas com as quais o trabalhador precisa ser capaz de lidar. É a antiga (e ainda sem solução) incoerência entre teoria e prática. na prática. planejamento do ensino. as características do vínculo empregatício. estão a cultura da organização. o trabalhador aprende que não se deve intervir na máquina quando ela está . Certamente. o trabalhador terá mais condições de agir. a baixa eficácia das ações de educação está relacionada com a incompatibilidade que elas têm com a cultura e o clima da organização. trata-se da vida real. conforme aquilo que foi ensinado em sala. mas estrada é diferente do centro da cidade. os exemplos seguidos. algo poderá ser aproveitado. É necessário que o processo de levantamento de necessidades. Essa análise permite questionar a utilização de carga horária de treinamento por ano como indicador de desenvolvimento de pessoas. o estilo de liderança e de relações de poder estabelecidos na organização. Quando o propósito é garantir a aprendizagem do participante. em treinamento. reduzir o volume e investir na qualidade da estratégia e do instrutor podem produzir resultados mais significativos. aplicação do conhecimento desenvolvido. no que se referem ao comportamento humano. a natureza do processo produtivo. caminhão é diferente de carro. Trânsito é trânsito. É muito comum organizações contarem com um baixo nível de eficácia de suas ações educativas. ocorra em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional. Tão importante quanto educar em espaço diferenciado (sala de treinamento. as políticas e estratégias do negócio. auditório). Não é o que acontece quando existem caminhoneiros participando de um curso de direção defensiva elaborado para taxistas. Expor o aprendiz às contingências que estarão presentes nas situações com as quais terá de lidar no exercício profissional eleva a probabilidade desse aprendiz atuar conforme os objetivos comportamentais que orientaram o planejamento do ensino (BOTOMÉ. Do outro lado das estratégias educativas. Na sala de treinamento. Se o processo de capacitação for concebido com base no tipo de trabalho a ser desenvolvido e em seus respectivos riscos. é ter clareza da importância de educar no cotidiano. realização do curso. isto é. 1977).Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade As estratégias de aprendizagem e a melhoria das condições de segurança de uma indústria precisam ser concebidas. mas isso nem sempre ocorre por má qualidade dos cursos ou dos instrutores. mas uma pequena parte.

ligada. Segundo os autores. ao retomar às atividades. nesse caso. pois não há tempo e a produção tem que ser entregue a qualquer preço. transformando-a. aprenda a prevenir acidentes de trabalho. em decorrência do fazer do professor. A aprendizagem é caracterizada pela integração de um novo comportamento ao repertório de um organismo (CATANIA. diz que é importante. por sua vez. Botomé e Kubo (2001) defendem que ensinar (o que o professor faz) e aprender (o que acontece com o aluno como resultado do fazer do professor) são complexos processos comportamentais intimamente inter-relacionados. os programas de educação em SST. só desta vez. No lugar da ênfase nos conteúdos. no Brasil (se estivessem preocupados com o ensino de comportamentos preventivos). mas não usa por quê? Por que razão um sujeito ultrapassa uma barreira de isolamento e entra. sem máscara de ar. seu supervisor pressiona para ele fazer um reparo com a máquina funcionando mesmo. recebeu óculos de proteção. pouco efetiva no desenvolvimento de competências. A partir do momento em que os aspectos externos ao indivíduo forem considerados como parte integrante daquilo que chamamos comportamento. é possível afirmar que os recursos educativos utilizados para ensinar os trabalhadores a realizarem suas atividades com segurança só poderiam ser assim chamados quando verificada a ocorrência de mudanças no comportamento dos trabalhadores em relação aos riscos das suas atividades. será possível começar a desvendar algumas inquietações prevencionistas do tipo: Por que não cumpriu com os procedimentos de segurança? Foi treinado. 1999). criticar e intervir sobre a sua realidade de trabalho. é caracterizada pelo que o aluno é capaz de fazer em seu meio. . Partindo do princípio que a mudança de comportamento é um dos indicadores da ocorrência de aprendizagem. deveriam orientar-se para a construção de uma consciência crítica que proporcionasse ao trabalhador uma maior capacidade de compreender. porém. Ao examinar o planejamento e a execução de eventos promovidos com o objetivo de capacitar os trabalhadores para atuarem de forma preventiva. é possível identificar a influência de modelos da educação escolar e a ênfase na transmissão de conteúdos e informações. mesmo após ter assistido a uma palestra sobre o assunto? A característica educativa de uma determinada ação está relacionada a uma intenção de ensinar e a um objetivo final de que o público de interesse (o aluno) aprenda algo. ensinar consiste na relação entre o que o professor faz e a efetiva aprendizagem do aluno. num equipamento impregnado de gás tóxico. É uma pena que quem acabe pagando o preço seja o próprio trabalhador. esta. é ele a vítima da lesão ou do acidente decorrente dessa ação.

A continuidade das ocorrências da mesma natureza daquelas apresentadas nos cartazes. indica o inexpressivo resultado desse tipo de atuação. previna-se. entre outros). cumpra os procedimentos. em pé. informação. os treinamentos. orientadores de carreira. os cartazes e as campanhas são amplamente apresentados como ações educativas aos trabalhadores. como expor idéias. nas propagandas contra o abuso de drogas ou contra a transmissão da AIDS. especialistas. A resposta mais imediata aponta para os instrutores de treinamento. facilitadores de processos de disseminação de informação. de serviços. escrevendo num quadro branco afixado na parede. carros destruídos acompanhados por sangue no asfalto. Somente nas últimas décadas é que o entendimento acerca da figura do educador no contexto do trabalho tem sido ampliado (ainda que discretamente) para elementos como palestrantes motivacionais. as abordagens de conscientização. Quem São os Educadores? Desafios para a Formação Profissional Quando se trata de educação para a prevenção no ambiente de trabalho (industrial. Mensagens como: use o cinto. diante de uma sala cheia. não é comum que se tenha clareza de quem são os educadores. O significado comumente associado à função de educador ainda segue a figura tradicional da professora de crianças pequenas. Não há dúvida de que consciência. pessoas queimadas. O que não está incorreto. agrícola. são algumas das estratégias utilizadas na tentativa de modificar a postura do trabalhador no que diz respeito à própria segurança. até nas mesmas organizações em que foram afixados. na informalidade. as palestras.Quanto aos tipos de objetivos de ensino. conhecimento e troca de experiências são meios que podem favorecer a aprendizagem para a prevenção. assim como imagens de olhos perfurados por pregos. os diálogos de segurança. não só no contexto da segurança do trabalho. comercial. O equívoco reside em considerá-las como sendo eficazes por si só. . parecem ter sido concebidos para dar ordens ou alertar. Em muitos casos. no lugar de educar o seu público de interesse. Dar ordens e educar são coisas diferentes. uma vez que são eles que exercem atividades de ensino que mais se assemelham àquelas tradicionalmente conhecidas. mas também no trânsito. como sendo sinônimos de objetivos de ensino ou de coisas que os aprendizes precisam ser capazes de fazer após o processo ensino-aprendizagem. autores de livros. nem sempre surtindo o efeito desejado.

assim como o são aqueles que acompanham um trabalhador na realização de suas atividades. apontando problemas e auxiliando na construção de soluções que preservem as vidas envolvidas. basta afirmar que um processo que visa capacitar uma pessoa a prevenir acidentes não tem. São educadores aqueles que definem os "rumos do negócio". . Também são educadores aqueles que definem as políticas de avaliação de desempenho das equipes. De início. orientando para a realização correta do serviço. autonomia de planejamento. Em última análise. é possível identificar variáveis relevantes para a precisão do processo educativo. necessariamente. a tradição da especialidade: "quem é da manutenção não se acidenta". e atendendo os prazos acordados. é educador no contexto do trabalho todo aquele que se dedicar a favorecer o desenvolvimento pessoal e profissional daqueles que estão a ele interligados. Ao analisar as características comuns à categoria de instrutores de treinamentos e palestras de prevenção. O primeiro ganha contornos bastante complexos quando se consideram os hábitos já sedimentados. influenciando e sendo por eles influenciado. no melhor tempo possível. afirmando que há muitas formas de atuar como educador numa organização.Entretanto. Esses fatores requerem que o planejamento e a execução do processo ensino-aprendizagem ocorram considerando-se o cuidado com variáveis específicas como: • • • formação didática do instrutor. clareza acerca dos objetivos de ensino (competências e habilidades a desenvolver). É preciso ter clareza acerca da complexidade do que é considerado como educar trabalhadores para prevenção em saúde e segurança para que seja possível examinar as lacunas do processo e propor meios para seu aprimoramento e sua efetividade. São considerados educadores aqueles que adentram as salas de treinamento e os auditórios. atingindo até a "senhora do cafezinho". oferecendo condições apropriadas para sua realização. é possível ampliar ainda mais o conceito. desdobrando políticas e diretrizes que deverão permear toda a organização. as mesmas características de capacitar tecnicamente para operar uma Iixadeira. os equipamentos. a crença na experiência como sendo "vacina para não ocorrer". ao tomar-se o educador por aquele que cria condições para que alguém aprenda e considerando a complexidade do contexto do trabalho. utilizando-se de exposição de slides e atividades em grupo com objetivo de desenvolver competências específicas.

Em sua maioria. pode influenciar de maneira significativa nos resultados esperados e. As informações apresentadas indicam a necessidade de reformular o processo de capacitação técnica. em segurança do trabalho ou outras especialidades industriais. em decorrência de participar dos eventos de segurança. . prejudicar o atendimento das demandas organizacionais que provocaram a realização dos treinamentos e das reuniões de segurança. Alguns dos equívocos verificados no estudo quanto ao processo de ensinoaprendizagem em prevenção são: indicação de meios para promoção da aprendizagem como sendo os fins. A reduzida formação didático-pedagógica pode resultar na atuação de instrutores que têm sua prática baseada num misto de experiência profissional. 1999). como o de Bley (2004). A utilização de objetivos de ensino divergentes no que diz respeito àquilo que se espera como competência a ser desenvolvida pelos aprendizes. Estudos. tempo e método de ensino apropriados aos objetivos.• • • • conhecimento acerca do repertório existente entre os participantes (nível de capacidade de atuar anterior ao evento). são profissionais com formação técnica (ensino médio profissionalizante) ou superior em áreas técnicas. recursos materiais e didáticos compatíveis. e. entre as variáveis que têm caracterizado os eventos promovidos pelas organizações com o objetivo de capacitar o trabalhador para atuar com segurança no trabalho. uso de enunciados muito genéricos que encobrem amplos conjuntos de comportamentos a serem aprendidos. a indicação de objetivos que se referem a comportamentos que não condizem com aquilo que se entende por comportamentos seguros no trabalho. consonância com a cultura da organização e os interesses de ambos os atores (funcionários e direção). algum talento para a atividade docente e a reprodução criativa de modelos de ensino-aprendizagem que experimentaram quando alunos (LIMA. com grande ênfase. há uma predominância de instrutores (profissionais que coordenam as atividades educativas) com reduzida formação didático-pedagógica para exercerem a função de educadores. principalmente nos cursos técnicos em segurança do trabalho. uso de expressões que se referem à generalização daquilo que foi aprendido (etapa posterior à aprendizagem). o que pode não ser suficiente para conduzir um processo ensino-aprendizagem bem-sucedido. descobriram que. por conseguinte.

as orientações estratégicas. Não significa. é claro. É preciso investir na formação didática dos instrutores (empregados e terceirizados) e no esclarecimento das tarefas relativas ao ensino de prevenção. cursos. Para os profissionais de outras formações e funções. O instrutor que não foi devidamente capacitado para desempenhar o papel de professor pode não ser capaz de estabelecer correlação entre o que a ciência entende por ensinar e aquilo que ele faz (ministrar evento de segurança). A preocupação com a prevenção precisa permear o processo de tomada de decisão. já que são menos formais. . que alguns desses objetivos não possam ser atingidos. aquele que ensina vivendo de acordo com aquilo que acredita e prega aos outros. mas não são menos poderosos. isto é. de como é conduzido dentro e fora de sala. o qual pode ocasionar decorrências negativas para a qualidade e a efetividade dos eventos. porém. do que o ambiente de sala de aula. podem ser formulados cursos específicos de capacitação para a docência. enfraquecendo a estratégia educativa. supervisores. gerentes. palestras. Escrituras orientais antigas (como as do Budismo Tibetano) afirmam que "o verdadeiro mestre é aquele que ensina com as costas". É necessário que considerem seus processos interativos como oportunidades de ensino-aprendizagem. campanhas) construídos sobre estratégias e técnicas decididas de modo intuitivo e que perseguem objetivos de ensino distorcidos. Isso pode ter como conseqüência a não percepção da correlação existente entre o que representa ser instrutor de eventos de segurança e ser um agente de ensino. O resultado da falta de capacitação pode ser a realização de eventos educacionais (treinamentos. sob pena de correr o risco de proporcionar aos participantes condições de aprendizagem insuficientes em relação ao que é preciso aprender para prevenir acidentes. O desenvolvimento de competências em segurança e saúde para o fortalecimento de uma cultura preventiva é um processo lento e de longo prazo que depende. essencialmente. a reunião de análise crítica.considerando a possibilidade de os alunos virem a tornar-se instrutores. colegas de equipe) presentes no contexto do trabalho. as atitudes de cada um. incrementando a sua atuação como docentes em segurança do trabalho. chegando até mesmo às conversas informais. que atuam como instrutores. como um elemento transversal no comportamento organizacional. o que se questiona é o baixo nível de controle das variáveis que compõem os processos de ensinar e aprender. O mesmo ocorre com as demais categorias de educadores (diretores.

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico
Mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia (Michel de Montaigne). Num processo de análise e investigação de acidente de trabalho, qual é a providência geralmente indicada quando é caracterizada a influência humana como uma das causas do ocorrido? Uma vez decretada a causa do acidente, os envolvidos no evento, normalmente, têm um destino único: a sala de treinamento. Como verdadeiros instrumentos de correção, os eventos educativos têm sido utilizados na tentativa de tornar os seus participantes mais capacitados para realizar suas atividades, considerando a segurança no trabalho. Entretanto, a grande quantidade de horas despendidas em treinamentos e reuniões de segurança nem sempre demonstra correlação direta com a redução das ocorrências de acidentes verificadas nas empresas. É possível afirmar que funcionário que tenha passado pelo treinamento em segurança é um funcionário capacitado para prevenir acidentes? As formas pelas quais os eventos de segurança têm sido planejados e realizados permitem produzir os resultados objetivados? Os instrutores que ministram e coordenam os eventos de segurança estão preparados para gerenciar os processos de ensino e de aprendizagem de competências para a prevenção? Para construir respostas, ainda que incompletas, a essas perguntas é necessário identificar as variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho para que esse conhecimento possa servir de subsídio para a elaboração de programas de formação e intervenção de natureza preventiva que sejam verdadeiramente educativos, éticos e coerentes com as necessidades de segurança dos trabalhadores. Diante dos questionamentos, parece oportuno um estudo orientado para identificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho. Um exame dessa natureza permite detalhar os aspectos que compõem o processo ensino-aprendizagem aplicado à segurança no trabalho visto que, de acordo com o conhecimento sistematizado sobre esses fenômenos, só se pode afirmar que um

professor ensinou quando, em decorrência do fazer do professor, ocorreu a aprendizagem do aluno (BOTOMÉ; KUBO, 2001). O detalhamento das variáveis presentes no planejamento do ensino, na escolha dos temas, nos critérios de avaliação de aprendizagem, na formulação dos objetivos de ensino, nos conceitos utilizados e em outras etapas da promoção de eventos de segurança poderá oferecer decorrências para a qualidade do que tem sido oferecido como capacitação aos funcionários e também para sua efetividade como recurso auxiliar na gestão da segurança da organização. O conhecimento produzido por meio da análise de processos de ensino de comportamentos seguros permite subsidiar o aperfeiçoamento dos programas de educação, de conscientização e de mudança de atitudes frente aos riscos das atividades de trabalho e também dos profissionais envolvidos na sua realização.

Competência em Trabalhar com Saúde e Segurança
Para a formação de um profissional, os objetivos de ensino podem ser interpretados como competências que precisam ser desenvolvidas por meio da participação do aprendiz num processo ensino-aprendizagem. As competências profissionais são definidas por Botomé e Kubo (2002) como graus da capacidade de atuar de um organismo. Sendo assim, é possível afirmar que as competências relacionadas com segurança do trabalho referem-se aos graus da capacidade de um trabalhador de controlar os riscos das suas atividades de modo a reduzir a probabilidade de sofrer acidentes. Serve, portanto, de base para a aprendizagem de práticas mais seguras de trabalho. O processo que pretende ensinar os funcionários a se comportar de forma segura parte da definição do que se entende por comportamento seguro. Em seguida, é necessário transformar as propriedades essenciais do comportamento seguro em objetivos de ensino. Isso norteará a escolha das condições de ensino mais adequadas ao desenvolvimento das habilidades necessárias à construção desta competência: capacidade de comportar-se no trabalho de forma a reduzir a probabilidade de ocorrer conseqüências indesejáveis para si e para aqueles com os quais interage, ou seja, comportar-se de forma segura. Assim como as competências, as habilidades são graus de uma determinada capacidade de atuar (figura 4).

Figura 4 Noção de competência como grau da capacidade de atuar de um organismo

FONTE: Bartomé e Kubo (2002, p.89)

Os objetivos de ensino genéricos, mal definidos, geram dificuldades para a identificação das competências que devem ser aprendidas por um trabalhador e, por conseqüência, problemas para o controle das variáveis que interferem nos processos de ensinar e aprender. Os problemas podem ocorrer tanto na clareza sobre aquilo que deve ser ensinado e aprendido, quanto nas decisões sobre os métodos de ensino adequados. Instrutores que não têm clareza sobre o fenômeno que devem ensinar e alunos que desconhecem as propriedades definidoras daquilo que precisam aprender correm o risco de produzirem, juntos, uma seqüência de equívocos que pode ser perigosa quando se trata da saúde e da segurança do trabalho que realizam. Sendo assim, descobrir o que instrutores e funcionários entendem por comportamentos seguros no trabalho parece ser o ponto de partida para a proposição de enunciados que contenham as propriedades definidoras do fenômeno ao qual se referem e a formulação de estratégias de informação e ensino condizentes com a natureza do que o conceito significa.

divididos em Treinamento de Comportamentos Seguros (tipo A). observação direta dos eventos (condições. a competência de um operador de empilhadeira em carregar uma carga sem atropelar ninguém ou deixar cair a carga depende não só das informações que ele recebeu no curso técnico ou no de segurança. para ser "produzida".A capacidade de atuar de maneira segura. período da coleta de dados. compostos por uma unidade de ensino (encontro). Os procedimentos de coleta de dados utilizados foram caracterizados por meio da análise de documentos relacionados com políticas e processos de gerenciamento de segurança das duas empresas.m instrutores e participantes. Foram escolhidos em função de apresentarem como um dos temas ou objetivos de ensino o comportamento seguro e de terem sido realizados entre os meses de junho e outubro de 2003. atuação dos instrutores e participação dos funcionários) e entrevistas co. Segundo Botomé e Kubo (2002). necessita mais do que informações a serem transmitidas em um determinado espaço de tempo. Treinamento de Integração de Novos Funcionários (tipo B) e Reunião Semanal de Segurança (tipo C). recursos. Foram estudados três tipos de eventos de segurança. como é o caso dos cursos e treinamentos organizados com finalidade de conscientizar o trabalhador. As empresas foram escolhidas em função de atuarem no mesmo setor produtivo. Ou seja. . nem à dos colegas). a competência é um grau da capacidade de atuar do operador que pode ser desenvolvida por meio de um processo de ensino-aprendizagem efetivo. de apresentarem semelhante nível de risco e de possuírem programas e ações de gerenciamento de segurança além dos estabelecidos pela legislação. situadas em diferentes municípios da região metropolitana de uma grande cidade do Estado do Paraná. que repercutirá sobre a probabilidade da ocorrência de ações correspondentes dos alunos àquilo que foi ensinado. mas também do fato de ele ter aprendido ou não a operar a máquina de forma segura (sem causar dano à sua saúde. Um Estudo sobre como Empresas Têm Ensinado Trabalhadores a Comportarem-se de Forma Segura Caracterizar as variáveis do processo de ensinar comportamentos seguros é o problema de pesquisa que orientou o estudo exploratório realizado por Bley (2004) em duas empresas do setor metalúrgico. os conteúdos são insumos de um processo de ensino que tem como produto a aprendizagem. Sendo assim.

As entrevistas ocorreram em diferentes momentos. Na caracterização. estavam cinco instrutores. O outro conjunto de entrevistados foi composto por 20 funcionários das duas empresas. 60% apresentou formação específica para atuar como instrutores (curso de Técnico de Segurança). o instrumento de coleta foi um roteiro de observação. Os demais ocupavam funções operacionais apesar de realizar. No que diz respeito à formação. as especialidades de maior ocorrência entre os entrevistados foram manutenção elétrica e mecânica. foram desenvolvidos protocolos de registro com base num quadro de variáveis consideradas como necessárias para responder ao problema de pesquisa. foram utilizadas fichas de registro. sendo quatro funcionários permanentes das respectivas empresas e um prestador de serviço.Dentre os sujeitos das entrevistas. nas observações diretas. em suas rotinas. De acordo com a natureza dos processos das duas empresas. realizarem tarefas ou desempenharem funções relacionadas com manutenção de equipamentos e manifestarem disponibilidade para ser sujeito da pesquisa durante o período de tempo estipulado para a coleta dos dados. escolhidos em função deterem participado de um dos eventos. algumas tarefas relacionadas com a manutenção industrial. Para cada um dos três procedimentos de coleta de dados (caracterização por meio da análise de documentos. Da amostra de participantes. 65% tinha a manutenção como função principal na empresa. Fatores Críticos para o Processo Ensino-Aprendizagem em Prevenção Quais os aspectos que merecem ser examinados para que seja possível identificar as condições de aprendizagem oferecidas aos funcionários sobre saúde e segurança no trabalho? . foram utilizados dois roteiros de entrevista semi-estruturados. observação direta e entrevista). As categorias foram organizadas em função da distribuição das proporções nas quais ocorreram em cada uma das variáveis examinadas. Os dados coletados foram tratados e categorizados em função dos aspectos necessários à caracterização das variáveis relacionadas com ensino de comportamentos seguros no trabalho. sendo um para instrutores e um para participantes. nas entrevistas. num período que compreende desde as primeiras horas após o evento educativo até dois meses depois de ocorrido.

mas que foram operacionalizados sem considerar. "obedecer aquilo que foi dito em sala" e "atuar com segurança na área". o conhecimento já produzido sobre ensino por competências e didática. Os dados da tabela apontam divergências entre o que os funcionários e os instrutores entendem por comportamento seguro. quando questionados sobre o que os participantes deveriam ser capazes de fazer após participarem dos eventos. comportamento seguro?". adequação do trabalhador às normas da empresa e ampliação do rol de conhecimentos sobre prevenção de acidentes. Uma das evidências disso é que o tipo de definição do que se entende por comportamento seguro que mais ocorreu entre os . houve a necessidade de derivar os objetivos de ensino do material coletado devido ao fato dos instrutores não terem sido observados apresentando os objetivos de ensino aos participantes (ver tabela 2). O que precisa ser ensinado: os objetivos de ensino No exame dos eventos de segurança estudados. Os instrutores. a segunda entre todas as concepções apresentadas pelos entrevistados e o conceito de comportamento seguro apresentado como referencial para a pesquisa. Ao comparar respostas coletadas nas entrevistas feitas com funcionários e instrutores dos treinamentos. tornou-se fundamental conhecer aquilo que os instrutores e também os participantes entendiam como sendo sinônimo de comportamento seguro. A natureza dos objetivos derivados remete à mudança de comportamentos relacionados com segurança.O conhecimento produzido e sistematizado sobre o processo ensino-aprendizagem permite destacar aspectos relacionados com o planejamento e a realização das condições de ensino que tendem a favorecer a aprendizagem. Partindo do pressuposto de que o principal objetivo de ensino de um evento de segurança com foco em mudança de comportamento seja desenvolver. em boa parte. comportamentos seguros. Os objetivos de ensino (competências a desenvolver) extraídos dos materiais apresentados caracterizam-se pela generalidade do que pretendem oferecer como aprendizagem aos participantes. O objetivo do questionamento foi realizar dois tipos de comparação: a primeira entre as concepções de educadores e aprendizes para identificar em que medida houve aprendizagem. Isso permite inferir que os mesmos realizaram os eventos de posse de propósitos que levaram em conta a segurança. em algum grau. é possível observar (tabela 1) os resultados da análise de conteúdo das respostas à seguinte pergunta: "O que significa. para você. responderam com expressões como: "mudar o comportamento e as atitudes".

em nenhuma proporção. Expressões como cuidado e atenção oferecem pouca informação a respeito das propriedades essenciais do processo de prevenir acidentes considerando o comportamento daquele que executa . e isso pode causar prejuízo ao processo de capacitação das pessoas para prevenir acidentes de trabalho.funcionários (trabalhar com cuidado e atenção) não foi sequer indicado pelos instrutores. que participaram dos eventos de segurança. quanto por funcionários. ao conceito de comportamento seguro como sendo "trabalhar com cuidado e atenção" caracteriza o grau de generalidade com o qual esses trabalhadores lidam com a dimensão preventiva do comportamento de trabalhar. o que permite afirmar que há pouca clareza sobre as propriedades que caracterizam o comportamento seguro. O que os instrutores e funcionários consideram como significado de comportamentos seguros é divergente entre si e também está distante do conceito. para definir o conceito. Além disso. Funcionários (n = 20) n % 10 8 7 6 4 4 3 3 3 2 2 1 1 54 18 15 14 12 7 7 5 5 5 4 4 2 2 100 Instrutores n 0 4 2 2 1 0 0 0 0 0 0 1 0 10 (n = 5) % 40 20 20 10 10 100 O fato dos funcionários. os dados confirmam o alto grau de generalidade dos termos utilizados tanto por instrutores. Tabela 1 Comparação das respostas de instrutores de treinamento de segurança de duas indústrias metalúrgicas e funcionários participantes dos mesmos treinamentos quando perguntados sobre o que entendem por "comportamento seguro" Tipos de concepções sobre comportamento seguro no trabalho Trabalho com cuidado e atenção Obedecer às normas de segurança Ter atitude consciente e agir com bom senso Trabalhar com foco na segurança Usar equipamento de Proteção Individual (EPI) e Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) Não cometer “atos inseguros” Saber trabalhar sob pressão e receber críticas Cuidar dos colegas Ter conhecimento técnico do trabalho realizado Analisar os riscos das tarefas Participar das reuniões e treinamentos de segurança Preocupar-se com a própria segurança e aprender com os exemplos Nunca achar que sabe tudo Total de ocorrências FONTE: Dados coletados na pesquisa. referirem-se. em sua maioria.

os procedimentos de ensino utilizados. há grande chance de não se obter o resultado esperado do treinamento. menor a quantidade de informações que apresenta sobre o que caracteriza o fenômeno ao qual se refere. Quanto maior a amplitude da representação de um conceito. Por outro lado. considerando-se a análise do comportamento e os princípios do processo ensinoaprendizagem.as tarefas consideradas de risco. para que seja possível definir aquilo que precisa ser ensinado para que o aprendiz seja capaz de prevenir. Ainda sobre os dados da tabela 2. as unidades. Nos casos estudados. Diante dos termos utilizados pela maioria dos funcionários para conceituar comportamentos seguros no trabalho. a ênfase na atuação do professor em detrimento da atuação no aluno no contexto do processo ensino-aprendizagem pode significar a repetição do padrão do professor ensina. aluno . é possível perguntar: Se os aprendizes não são capazes de identificar. os aspectos que caracterizam o trabalho seguro. distribuídos conforme os instrutores que ministraram os eventos e as empresas nas quais ocorreram. os tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos e a verificação formal da aprendizagem derivam da observação direta dos eventos de segurança e servem para ilustrar a apresentação dos tipos de eventos estudados. Portanto. se os instrutores não são capazes de definir com precisão as propriedades essenciais do tipo de comportamento que devem ensinar. o que evidencia a ênfase dada à atuação do professor no processo de ensino dos eventos estudados. Como ensinar: a escolha dos métodos de ensino Na tabela 2. é preciso rever o alto grau de generalidade apresentado pelos termos utilizados para se referir ao comportamento de prevenir acidentes. estão apresentados os aspectos considerados importantes sobre o planejamento educacional dos eventos de segurança. é pouco provável que os funcionários que participaram dos referidos treinamentos passem a se comportar de forma segura devido ao fato de terem participado dos eventos. apresentar e expor são aspectos evidentes entre os procedimentos de ensino utilizados pelos instrutores. serão eles capazes de comportar-se de acordo com os fatores necessários à prevenção dos acidentes de trabalho? Da mesma forma. Os dados relativos aos tipos de objetivos de ensino. na sua conduta. A preocupação com aquilo que o professor faz no processo ensino-aprendizagem não assume conotação negativa à medida que o processo de ensinar caracteriza-se por aquilo que o aprendiz passa a ser capaz de fazer em decorrência do fazer do professor.

Assistir a explicação. demonstrar EPI. Não há. Tipos de atividades desenvolvidas pelos alunos Assistir a explicação. apresentando informações sobre segurança. enfocar ato e condição insegura Apresentar slides e comentários sobre eles. ser informado sobre usos adequados de alguns EPIs. vídeos de segurança. Expor o assunto. apontamentos em flip chart. A participação ativa do aprendiz pode ser um importante fator de efetividade do processo. ser informado sobre usos adequados e inadequados de alguns EPIs. experimentar EPI. Tabela 2 Apresentação dos aspectos do planejamento educacional observados diretamente relativos aos eventos de segurança ministrados por 5 instrutores nas empresas 1 e 2 Aspectos Empresa 1 Empresa 2 observados Instrutor 1 Instrutor 2 Instrutor 3 Instrutor 4 Instrutor 5 Tipos de objetivos de ensino que forma extraídos do material apresentado Procedimentos de ensino utilizados Corrigir atitudes e comportamentos. responder às perguntas do instrutor. fazer perguntas aos participantes. responder às perguntas do instrutor. Integrar novos empregados e prestadores de serviço. demonstrar uso de extintor de incêndio. usar exemplos práticos. Não há. Apresentar slides e comentários sobre eles. forma da aprendizagem. Apresentar temas. elevando as chances de aplicação daquilo que foi aprendido no evento no dia a dia de trabalho. Verificação da Não há. filme institucional. A utilização de demonstrações de equipamentos e os breves debates parecem ser utilizados numa tentativa (que pode ser equivocada) de conferir ao evento um pouco daquilo que muitos chamam de parte prática. Assistir à explicação do instrutor. responder às perguntas do instrutor. Equivocada à medida que levantar da poltrona e fazer algo que utilize partes do corpo pode não expor o aprendiz às . relegando ao aprendiz um papel caracterizado pela passividade (BOTOMÉ. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. discutir o assunto. apresentando informações sobre segurança. Não há. Assistir à explicação. KUBO. o que reduz a complexidade do processo de ensinar e aprender. coordenar discussão em grupo. Assistir à explicação do instrutor. 2001). Expor um caso real de acidente. repassar materiais para que os participantes os manuseiem. assistir aos vídeos de segurança. Integrar novos empregados. Trocar informações com os colegas e experiências sobre prevenção de acidentes. FONTE: Dados coletados na pesquisa Não há.aprende.

p. pode indicar incompatibilidade com a promoção das aprendizagens necessárias à obtenção das competências que motivaram sua realização. 106). "é decidindo que se aprende a decidir". As duas categorias principais receberam as denominações comportamentos seguros e comportamentos de risco em função dos tipos de conseqüências (positivas e negativas) . apesar das atividades propostas pelos diferentes instrutores serem semelhantes. Os instrutores sem formação técnica apresentaram maior convergência entre os objetivos de ensino propostos (competências) e a observação dos comportamentos dos participantes durante e após o evento. seria preciso promover urna quantidade maior de unidades de ensino (módulos) para dar conta de proporcionar tamanho feito.contingências necessárias à experimentação e ao treino de condutas adequadas às necessidades de ensino que motivaram a realização do evento. o que pode indicar um baixo nível de adaptação dos planos de ensino às características do público ao qual se destina. o que reduz as possibilidades de verificar a eficácia da aprendizagem em bases objetivas. Sobre a avaliação da aprendizagem dos participantes. os objetivos de ensino e a natureza dos eventos são diferentes. fazendo com que o aprendiz finalize sua participação no evento sem que a aprendizagem daquilo que é realmente importante tenha ocorrido. considerando-se a semelhança existente entre eles em decorrência da natureza que os caracterizava. A comparação entre o produto final e o tempo destinado à realização dos eventos de segurança. Como afirma Freire (1996. Outro dado que merece destaque é que. De acordo com a quantidade de comportamentos que deveria ser aprendida para que as competências indicadas fossem desenvolvidas. Essa avaliação costuma ser feita de modo informal e utilizando critérios subjetivos. Ensinamos segurança por meio da insegurança Um exame dos exemplos oferecidos pelos instrutores durante os eventos de segurança estudados chama a atenção para o fato de que os meios utilizados para proporcionar a aprendizagem da segurança tendem a apresentar características contrárias ao seu objetivo central. o estudo permite apontar uma certa ênfase dada aos procedimentos de avaliação que ocorrem após a realização dos eventos. Isso pode indicar a importância da aproximação entre os processos de identificação de necessidades de aprendizagem e de escolha dos meios pelos quais a demanda será atendida. Os exemplos coletados foram tratados por meio de análise de discurso e classificados em categorias de ocorrências.

Ênfase nas perdas que o trabalhador poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. Referências ao tratamento de problemas já instalados.20 Total de ocorrência Proporção Total 34 0. os quais indicam a necessidade de apresentar comportamentos seguros no trabalho Categorias de exemplos que se referem a: Evento Comportamento Seguro Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Referência a condutas inseguras. os exemplos relativos àquilo que não deve ser feito permitem caracterizar as bases sobre as quais a capacitação dos trabalhadores . Suposições sobre a influência de causas humanas no risco de acidentes. Ênfase no cumprimento de normas e regras.8 A = Treinamento de Comportamentos Seguros B =Treinamento de Integração de Novos Funcionários C = Reunião Semanal de Segurança FONTE: Dados coletados na pesquisa É possível constatar que 80% dos exemplos referem-se àquilo que pode ser considerado "comportamento de risco". emprego. em detrimento de exemplos de comportamento seguro. Ocorrência 1 4 2 1 1 1 7 6 3 2 1 2 1 1 1 1 A Correlação dos comportamentos seguros com exemplos positivos externo ao trabalho 3 1 1 1 1 B Relato de tipos de condutas que contribuíram para reduzir acidentes. Independente do instrutor. do formato do treinamento e dos participantes. Ocorrência Comportamento de Risco Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. Referência a condutas inseguras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Ênfase no cumprimento de normas e regras Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos Relato de acidentes para recomendar condutas que devem ser adotadas. quantidade de ocorrências e proporção dos exemplos oferecidos por instrutores durante os eventos de segurança observados diretamente. família). Tabela 3 Natureza.evidenciadas pelos instrutores para as condutas exemplificadas. Referência a condutas insegura Orientações genéricas sobre como proceder para reduzir riscos. amigos. Indicação de comportamentos desejáveis Evidências do compromisso da liderança com a segurança Indicação de comportamentos desejáveis C Total de ocorrência Proporção Total 8 0. Isso indica uma tendência à utilização de exemplos de comportamento considerado inseguro com maior freqüência. emprego. amigos. família). Ênfase nas perdas que o trabalha-dor poderá sofrer se ocorrer um acidente (saúde. As categorias secundárias (subdivisões das categorias principais) foram constituídas em função do exame da natureza de cada um dos exemplos coletados (tabela 3).

os instrutores têm utilizado a insegurança para (tentar) ensinar a segurança. para que isso seja possível. ao conhecer ou relembrar as possíveis conseqüências de um comportamento de risco. Criar condições para que os participantes aprendam a comportar-se de forma segura deveria ser o foco de um evento de segurança que tem esse tipo de comportamento como objetivo e. que são: a baixa durabilidade da conduta aprendida (volta logo ao que fazia antes). ele retome ao seu padrão de comportamento anterior à exposição. da sinalização de conseqüências negativas e da ênfase no cumprimento de regras como meios para produzir aprendizagens de comportamentos preventivos representa a utilização de modelos de aprendizagem marcados pela punição e pelo reforço negativo (fuga e esquiva). pois as contingências presentes no seu meio de trabalho. é necessário que modelos de aprendizagem que utilizem. caso o propósito seja educar para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho. o reforço positivo sejam utilizados pelos instrutores. o contra-exemplo). Isso inclui apresentar exemplos de condutas seguras em maior quantidade e proporção. A escolha do método de ensino implica em conseqüências significativas para aquilo que precisa ser produzido como resultado do processo de ensinar. a apresentação da conduta desejada somente mediante a presença do "agente punidor" (só cuida quando o líder está por perto). que favorecem o seu comportamento de risco. passado o efeito (o susto. O predomínio do contra-exemplo (casos de acidentes e de condutas de risco). Skinner (1967). o que implica nas decorrências já descritas por Skinner (1967) e Sidman (2001) sobre os aprendizes.tem sido promovida. o aprendiz escolheria se comportar de forma segura para evitar ser acometido pelos mesmos resultados. ao examinar a esquiva (mudar o comportamento para evitar conseqüências ruins) como forma de promover mudança de comportamento. a redução da criatividade e dos níveis de felicidade do aprendiz (sente-se ameaçado) e a dificuldade do aprendiz em generalizar o que foi aprendido para outras situações devido ao caráter mecânico do cumprimento de regras. Como é possível só falar de comportamentos errados num evento especialmente desenvolvido para ensinar às pessoas a maneira correta de se comportar? A observação dos exemplos apresentados nos eventos de segurança permite questionar se a utilização dessa forma de representar a importância da prevenção estaria relacionada a um tipo de expectativa por parte do instrutor de que. isto é. com maior freqüência. permanecem inalteradas. Parece oportuno . a comoção) da tragédia apresentada ao aprendiz (a foto de acidente. afirmou que é alta a probabilidade de.

para os possíveis resultados sociais sob a forma de prejuízos à integridade dos trabalhadores e implicações econômicas para pessoas. a escolha de temas abordados e métodos de ensino. Conclusões do Estudo O estudo das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho passou pelo exame dos meios e critérios utilizados pelos agentes do ensino. empresas. físicos e ambientais). Naturalmente. Podem ser consideradas como variáveis definidoras dos processos de planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros as informações que serviram como ponto de partida para o planejamento. É preciso considerar as características dos aprendizes e dos objetivos de ensino como ponto de partida para planejar o método e realizar o ensino (BOTOMÉ. KUBO. a escolha dos recursos (didáticos. comprometendo a obtenção dos resultados esperados. decorrem problemas para os programas de conscientização e educação.perguntar: Quais critérios têm servido como orientações para tomar decisões sobre o método que deverá ser realizado? O método escolhido é capaz de proporcionar condições adequadas à aprendizagem das competências definidas nos objetivos de ensino? A natureza dos critérios indicados revela que os instrutores. 2001). apesar de complexo. os tipos de objetivos de ensino e as características da formação dos instrutores para desempenhar a função de professor. para a gestão dos comportamentos em uma organização e. para planejar e realizar o ensino de comportamentos seguros. os procedimentos de avaliação da aprendizagem dos alunos. dos objetivos de ensino e da demanda a partir da qual o evento foi planejado e realizado. de modo geral. As expressões e os exemplos apresentados por instrutores durante a realização dos eventos e as concepções relatadas por instrutores e funcionários em resposta ao questionamento sobre o significado do conceito comportamento seguro no trabalho evidenciam lacunas importantes para a construção de uma cultura de segurança no trabalho. tendem a planejar o ensino escolhendo a partir de preferências pessoais. esse conjunto. governo e sociedade. Dessas lacunas. São formas de escolher que tendem a desconsiderar as características essenciais dos participantes. principalmente. nesse caso instrutores dos eventos de segurança estudados. não esgota . utilizando métodos prontos ou copiados de outros eventos ou escolhendo em função das preferências pessoais.

do modelo de ensino que se pretende utilizar. Tais afirmações permitem perguntar: Por que se utiliza a insegurança para ensinar segurança? Quais os efeitos de se utilizar a doença como meio para ensinar a saúde? Ter o conceito de comportamento seguro como objetivo de ensino é um fator central na concepção de programas educativos focados no desenvolvimento de competências para a segurança no trabalho. Questionar a respeito do quê e de que forma tem sido ensinado aos trabalhadores sobre comportamentos seguros no trabalho parece ser um importante ponto de partida para as empresas na busca pela capacitação de seus funcionários em segurança do trabalho. esse e outros estudos têm evidenciado algumas distorções no encaminhamento dos processos de treinamento que podem acabar por comprometer. Elas podem variar em função do tipo de atividade. tais divergências podem representar sérias conseqüências sobre o resultado do processo. de acidentes e de contra-exemplos (o que não deve ser feito) como forma de aprender confirma a inadequação de alguns dos procedimentos apresentados para o contexto do ensino de comportamentos seguros. é pertinente a utilização das variáveis que caracterizam o processo de ensinar comportamentos seguros como insumo para avaliar a qualidade e a efetividade de seus programas e de suas políticas. o planejamento e a realização do ensino. ao estudar análises de acidentes e ações educativas para segurança. O estudo permite inferir a existência de lacunas entre aquilo que um professor precisa ser capaz de fazer para promover o ensino (competências para ensinar) e as características da formação profissional daqueles que exercem a função de instrutores . Almeida (2001) concluiu. O uso excessivo de regras. cumprir regras é uma espécie de pré-requisito para que o sujeito possa se comportar de forma segura. quando são incoerentes com as competências adequadamente definidas. dos riscos presentes. Para os instrutores estudados. podem resultar em comprometimento da modificação das práticas de segurança dos trabalhadores ao realizar suas tarefas. Quando se trata de um processo ensino-aprendizagem de comportamentos seguros. Uma das análises mais significativas para esse estudo é orientada pelo dado revelador de que aquilo que instrutores e funcionários consideram como conceito de comportamentos seguros no trabalho apresenta divergências. No entanto.todas as variáveis relevantes. Também para a formação de profissionais para atuar em indústrias de alto nível de risco. em algum nível. Da mesma forma. sua efetividade. que os materiais educativos utilizados podem estimular o medo dos trabalhadores em sofrer lesões e levar à atribuição de culpa ao acidentado pela ocorrência do acidente do qual foi vítima.

do ponto de vista da segurança industrial. Nela. É possível afirmar que as propriedades essenciais que caracterizam um comportamento considerado preventivo ou seguro. os profissionais formados em segurança apresentaram desempenhos mais próximos do que pode ser chamado de ensinar do que os profissionais sem a formação técnica em segurança. geralmente. tanto humanas quanto de processo e de equipamentos. é possível examinar um exemplo de Análise Comportamental daquilo que é entendido como sendo comportamento seguro. É importante ressaltar que falhas e acidentes. é apresentada na tabela 4. ao comparar os dois grupos. Mais uma vez. ao discorrer sobre a importância estratégica da manutenção para a competitividade das empresas. Uma maneira de evidenciar a possibilidade de aperfeiçoamento dos serviços realizados por profissionais de manutenção. constituído com objetivo de identificar as competências intermediárias que poderão servir de ponto de partida para o planejamento do ensino desse tipo de competência para a realização de uma atividade de manutenção de equipamentos. um profissional competente para desenvolver suas atividades sem sofrer ou provocar acidentes de trabalho tende a . quanto os funcionários de operação e manutenção que ministraram eventos e não tinham formação em segurança apresentaram desempenhos considerados incompatíveis com aquilo que já é conhecido em didática e programação de ensino. O enunciado dos comportamentos intermediários apresentados (de primeiro nível) permite levantar hipóteses a respeito dos efeitos significativos que tais competências poderiam gerar no gerenciamento de aspectos considerados como sendo técnicos da lida com as falhas e as perdas em manutenção. principalmente no que diz respeito à gestão das falhas. são fortemente semelhantes àquelas que definem um comportamento preventivo no que diz respeito ao funcionamento de um equipamento ou processo produtivo. Em última análise. Tal contribuição corrobora para aferição do grau de importância que o desenvolvimento de competências preventivas pode representar para o gerenciamento das perdas. Tanto os instrutores com formação técnica em segurança do trabalho. afirma que a capacitação é um elemento fundamental na determinação dos níveis de qualidade dos trabalhos realizados por profissionais da função de manutenção. também por meio da capacitação para a segurança. no contexto da manutenção industrial. No entanto.dos eventos de segurança. é reforçada a necessidade de investimento na formação didática dos educadores para o trabalho seguro. Arouca (2003). são originários das mesmas disfunções organizacionais.

A partir da identificação do que é importante para a melhoria da qualidade do ensino e da contribuição dos processos educativos para a prevenção de acidentes (erros. Aperfeiçoar execuções de tarefas a partir da avaliação feita.. p. Botomé e Kubo (2001. constituir o que é alvo (ou objetivo) do ensino (ou de ensinar). FONTE: Dados coletados na pesquisa Conhecer como acontece o ensino da prevenção é importante para que as organizações possam desenvolver estratégias que contribuam para aumentar a efetividade das intervenções educacionais. um processo de humanização está assentado na capacidade de uma pessoa interagir com seu meio. Estas se forem somadas às mudanças organizacionais e até governamentais. Competências intermediárias (primeiro nível de análise) Maximizar as condições de segurança no planejamento de uma tarefa a ser realizada Executar uma tarefa planejada com segurança Avaliar o processo de execução da tarefa em termos de seus riscos e os comportamentos apresentados em relação a eles. Comunicar descobertas feitas sobre a execução de tarefas no que se refere aos comportamentos seguros envolvidos nessas tarefas.experimentar alta probabilidade de conseguir reduzir as chances de provocar erros e falhas decorrentes de suas ações. falhas). para si e para os colegas"). perdas. exatamente.. O planejamento dos programas de treinamento e de comunicações de natureza preventiva precisaria levar em conta não só o conhecimento já produzido sobre a área e as normas que o trabalhador deve . contribuindo para a construção de padrões comportamentais de alto nível no que diz respeito à segurança e para uma humanização das condições de trabalho oferecidas. torna-se possível a revisão de propostas antigas e a produção de novas propostas de ensino que oportunizem ao trabalhador condições de aprender aquilo que é essencial à preservação da sua integridade e também da produção. o que caracteriza o processo de capacitação em segurança como sendo vantajoso também para a atuação técnica dos profissionais de manutenção e para seus resultados no âmbito da organização. e essa capacidade pode. podem favorecer a transformação de um discurso sobre prevenção em uma realidade. 148) consideram que: . Tabela 4 Exemplo de Análise Comportamental para derivação de competências intermediárias que servirão de base para o planejamento do ensino de comportamento seguro numa atividade de manutenção de equipamento Competência geral que precisa ser ensinada Comportamento Seguro ao realizar manutenção de equipamento (Definido por "ser capaz de realizar a atividade de forma a reduzir a probabilidade de acontecer conseqüências indesejáveis no futuro.

ao mesmo tempo. assim. principalmente. Competência tem a ver com capacidade de agir no mundo. desenvolvamse como pessoas e como profissionais. .cumprir. sentir e agir em prol de uma cultura promotora de saúde e qualidade de vida. sua atividade e sua ameaça. as características regionais que extrapolam os muros da fábrica e. as situações com as quais ele lida no cotidiano e que constituem. é educar para a vida. e não só para o trabalho. é torná-las capazes de pensar. Criar condições para que os trabalhadores aprendam e. e não só com a quantidade de informações que o indivíduo é capaz de armazenar. como também os aspectos presentes na cultura e no clima de segurança da empresa.

o homem inovou e produziu ferramentas e instrumentos que. essas evoluções relacionam-se. o desenvolvimento das habilidades sociais e dos aspectos cognitivos diferenciou o Homem das demais espécies. o primeiro sinal de vida na Terra surgiu há. Nota-se que. aliás. diretamente. há um número maior de ocorrências relacionadas a descargas elétricas do que havia 200 anos atrás. equipamentos e materiais. mais ou menos. houve avanços tecnológicos. Entretanto. por outro. uma de suas defesas era a paralisação inconsciente: ficava imóvel frente o predador. inicialmente. na maioria das vezes. Com isso. em situações nas quais ele passava a ser a caça. temos conforto. seria inapropriado descrever as vantagens que a eletricidade trouxe para nossas vidas. Nota-se que. Em contrapartida. suas caças eram animais de menor porte. Hoje. Como veremos a seguir. teremos uma breve existência do homem em relação ao nosso planeta. proporcionalmente. quatro bilhões de anos. Na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. aproximadamente. o Homem teria outra opção na mesma situação: enfrentar o predador. praticidade. notadamente seus membros superiores. e a espécie humana surgiu há. Devido a esse fato. A única "ferramenta" reduzia-se ao seu próprio corpo. tal evolução trouxe novas conseqüências em forma de ganhos e perdas para sua sobrevivência. permitiram o alcance do objetivo almejado. após sua domesticação. . reduzindo a escala. Por isso. o homem não produzia ferramentas que o auxiliassem a sobreviver no seu dia-a-dia. logicamente. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das ferramentas. com o fenômeno chamado percepção de risco. Segundo historiadores. conseguia confundir o predador e permanecia intacto. quatro milhões de anos. devido ao aumento das fontes que podem lesar o homem e da convivência dele com novos perigos. aumentou também o risco a sua existência. bem como a sofrer acidentes. também "criaram" novas situações e novos cenários que podem o levar a adoecer. O interessante é que.ODILON CUNHA JR. Há quatro milhões de anos. Percepção de riscos Trabalhar com segurança é uma luta diária contra a natureza humana (Scott Geller). feridos e até mesmo doentes. por um lado. Outro exemplo contemporâneo é a eletricidade. como o desenvolvimento de ferramentas.

os primeiros passos . mais especificamente à Inglaterra. não existindo qualquer organização. bem como da resultante da relação. Após esses acontecimentos. surgiram leis de segurança social e foram introduzidos o trabalho sistemático e a legislação fabril. por parte da sociedade. desembarcou nos Estados Unidos da América. país onde o movimento prevencionista radicou-se e desenvolveu-se. 1983. No início do século XIX. Nesse meandro. para controlar o movimento básico de seu próprio evolucionismo" (MARX. que prosseguiram até nossos dias. em seu livro O Capital. Assim. firmaram bases e iniciaram campanhas sociais com o intuito de melhorar as relações de trabalho.A questão é a seguinte: é imprescindível compreender a relação do homem com suas atividades. duas novas classes sociais caracterizaram as sociedades pósrevolução industrial: a classe dos patrões e a classe dos trabalhadores. na Inglaterra. especialistas e empresários. A Prevenção ao longo dos Tempos Segundo Kletz (2002). no Brasil. Na América Latina. os primeiros indícios de ações prevencionistas remontam à Europa do século passado. após o nascimento da revolução industrial. para proteger os seus interesses. torna-se possível uma administração harmônica dessa convivência praticamente inevitável. substituindo o trabalho humano pela máquina. sejam elas laborais ou não. devido às ações conjuntas entre governo. Isto é prevenir. p. que se enfrentavam direta e individualmente. levando-se em consideração os perigos e riscos existentes. pagando o custo social da mudança. lançada com o aparecimento da primeira máquina de tear e marcada pela invenção da máquina a vapor (em 1781) por James Watts. as massas trabalhadoras foram exploradas. Karl Marx afirma. técnicos. As profundas alterações tecnológicas provocadas pela revolução industrial que se iniciou em 1760. na maioria das vezes. Logo após. por parte dos trabalhadores. Juntos. deram início aos grandes processos de industrialização. o alto número de acidentes do trabalho resultou na união dos trabalhadores com algumas autoridades. o risco. homem e perigo. os primeiros sinais das ações prevencionistas foram motivados pelos movimentos sociais iniciados na década de 20. a revolução industrial espalhou-se pela Europa Ocidental e. Com isso. 121). que "essa legislação foi a primeira tentativa deliberada e sistemática. atravessando o Atlântico.

o ser humano. por exemplo. por exemplo. as crianças começam a aumentar o repertório de informações relativo àquele fenômeno. do século XX. caso segurança fizesse parte de nossa natureza. mas sabe-se que. o ser humano assimila um número . irracionalmente. as lideranças questionam sobre o que leva o trabalhador a quebrar uma norma ou desrespeitar um procedimento operacional. Somente em poucos momentos. é a realidade. segurança faz parte da natureza humana? Esta questão completa a análise do contexto e. mesmo sabendo das conseqüências dessa atitude? Obviamente. em relação ao aspecto segurança.prevencionistas surgiram com a criação do Ministério do Trabalho. na década de 30. seja ligado ao meio ambiente ou à segurança do trabalho/do lar. Seria uma resposta instintiva a essa contingência. ou melhor. é tratado em sala de aula nas escolas. em sã consciência e saúde mental. até mesmo de segurança. A partir daí. Nota-se que são recentes os acontecimentos relacionados com a prevenção de acidentes no Brasil. momento em que todos os nossos sentidos estão em alerta máximo. A Natureza Humana e a Segurança Apenas para "engrossar mais o caldo". jamais desrespeitaria algo que pudesse causar lesões a si mesmo. o fator complicador é que até em universidades ou cursos técnicos acontece o mesmo. quando os pais ensinam seus filhos que aquilo reluzente chama-se fogo e que faz "dodói". deve-se entendê-lo como racional e parte de um processo educativo e. É interessante que a mesma pergunta pode ser feita sobre outras situações cotidianas e rotineiras: Por que atendemos celular enquanto estamos dirigindo? Por que atravessamos a rua fora da faixa? Por que não lemos os manuais antes de operar novos equipamentos. Inúmeras vezes. de experiências sociais. Com o passar dos tempos. não se pode confundir o instinto de sobrevivência com o processo educativo de segurança e prevenção. O instinto faz parte de nossa natureza e ajuda-nos muito diante de situações desconhecidas ou até mesmo frente a situações de extrema exposição. por instinto. uma questão social de extrema importância: a formação do trabalhador. Não se pode generalizar. No entanto. sendo otimista. o cenário preventivo é abalado ainda mais· se levando em consideração tal apontamento. ainda. assim. permite compreender a importância do assunto Percepção de Risco para as lideranças e organizações. o assunto prevenção. um assalto. por isso. na maioria dos casos. Na verdade. Enfim. Vale destacar.

fatores cognitivos: conhecimento da tarefa. o homem está emitindo comportamentos e. a posição hierárquica. conhecimento operacional e técnico. clima de trabalho.maior de informações e dá significados e valores diversos. O processo de receber e converter os estímulos externos é chamado de sensação. Por falar em risco. orientações da liderança etc. sintomas físicos. atitudes seguras. Veja o exemplo: um motorista vem para o trabalho gripado . positivas ou não. independentemente de qual for. Fica claro que quaisquer alterações nesses fatores tendem a alterara acuidade perceptiva do ser humano. o contato que o ser humano estabelece com o mundo externo é mediado pelos seus sentidos (tato. entre outros fatores que podem compor a percepção humana. É interessante salientar que as influências. potencializando o risco de sua atividade. do qual desconhece os procedimentos de operação . a formação. Segundo Huczynski e Buchanan (1991).fator fisiológico. sua empresa está passando por um momento difícil . por meio dos quais os dados de realidade são recebidos e imbuídos de significado. audição. é essencial lembrar que a percepção das pessoas varia de acordo com a idade.. equilíbrio emocional etc.fator psicossocial. Por ser um fenômeno psicológico. já o processo de atribuição de sentido à informação recebida é chamado de percepção. análise de riscos. fatores fisiológicos: sono. No momento em que coloca esses conhecimentos adquiridos em prática. a tendência é que a percepção do trabalhador em relação à tarefa que vai realizar esteja distorcida. Dessa forma. dos fatores podem acontecer simultaneamente. visão). ingestão de remédios etc.. buscam dar sentido ao ambiente. as experiências passadas. olfato. alimentação.fator cognitivo. a percepção é um processo psicológico pelo qual as pessoas organizam suas impressões sensoriais e. interpretando-as. Sensação e Percepção Segundo Bley (2004). por ventura. com o intuito de prevenir que algo indesejado ou desagradável ocorra. gustação. categorizamos em três fatores: • • • fatores psicossociais: tempo de serviço. . ele começa a trabalhar com um novo equipamento. No caso. autoconfiança. a seguir são apresentados alguns conceitos técnicos importante para a continuidade dessa discussão.

em outras regiões ou países. Há . utilizando computadores ligados à eletricidade. em árabe. Veja o exemplo: algumas pessoas estão em uma sala de reunião. não há atividades humanas. para outras culturas. Em grego. mesmo sendo bem gerenciada. altura. sejam elas laborais ou não. Portanto.Perigo. Logo. ou melhor. Em latim. é importante salientar que muitos autores não fazem distinção quando tratam de termos como risco e perigo. o meio ambiente ou até mesmo os materiais a sofrerem perdas. visto que o brasileiro não fala que tem risco de ganhar na loteria. O interessante é levar em consideração o fator cultural. mas pode possuir conotações positivas. e sim que tem chance. possuindo um significado de algo inesperado e favorável ao indivíduo. significa algo que lhe foi dado (por Deus) e do qual você tirará proveito. todas as instalações estão em perfeitas condições de uso e respeitando as normas em relação ao uso e manuseio de fontes elétricas. minimizar os riscos. normas e procedimentos. bem como suas conseqüências. a palavra relata a probabilidade de um resultado. No entanto. independente da existência de equipamentos de proteção. uma derivação do árabe risq. estes e outros termos serão apresentados a seguir. ou acidente e incidente. de organizações com o intuito ligado a Segurança do Trabalho. sendo adequados. máquinas rotativas. O mesmo acontece em relação a risco de vida. pressão hidráulica. riscum conota algo também inesperado. o máximo que poderão fazer é mitigar. mesmo que mínima. a relação entre o homem e o perigo não poderá existir. deve-se entendê-lo como a relação entre o homem e o perigo. sem imposições positivas ou negativas. isso seria entendido como possibilidade de viver. eletricidade. e não apenas mudar a definição porque. Para o Brasil. quando se fala de risco pressupondo o sistema industrial. Risco e Ser Humano Antes de apresentarmos algumas definições. Se o homem trabalha com ou na presença do perigo. Se a relação existir. a conotação cultural da palavra risco é negativa. risk possui associações negativas bem definidas. o que ocasiona graves problemas de desvios de compreensão e comunicação. Para eliminar o risco. enquanto que. Por exemplo. ainda assim haverá o risco. Perigo: deve ser entendido como uma fonte que pode levar o ser humano. Risco: segundo Ansell e Wharton (1992). mas desfavorável ao indivíduo. veículos. O francês risque tem significado negativo. há risco. sem risco. danos ou lesões. que quer dizer que o paciente está mal e prestes a falecer. tratam e dão outros significados a palavra risco. a palavra risq. em inglês.

pluricausal e revelador de disfunção. sempre haverá risco de descarga elétrica. inesperada. que interfere ou interrompe o processo normal de uma atividade. considerada como um sistema sócio-técnico aberto. danos materiais e lesões ao homem. ou ainda. sempre haverá risco. provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte. ou seja. a perda ou a redução da capacidade para o trabalho. . não se pode evitar algo inesperado. permanente ou temporária. isolada ou simultaneamente. logo. utiliza-se este conceito sobre acidentes industriais: o acidente de trabalho deve ser entendido como um fenômeno complexo. há pessoas trabalhando na presença da eletricidade.213/91 da Legislação Previdenciária (BRASIL. o acidente não pode ser evitado.risco de descarga elétrica? Sim. vale salientar que o conceito de risco só é válido na presença da possibilidade de falha de um sistema. mas trata o acidente como algo inesperado. ambientais e/ou humanas. Incidentes e Desvios A continuidade desse capítulo solicita que se compreendam ainda estes outros conceitos: acidentes. trazendo. Sendo assim. a serviço da empresa. tem-se um conceito que leva em consideração aspectos materiais. e que traz como conseqüência perdas materiais. deixa de lado uma perspectiva do meio ambiente e de perdas materiais. Enquanto houver o ser humano trabalhando com ou na presença do perigo. como conseqüência. Apenas para ratificar o texto citado. desarmonia ou desequilíbrio na empresa. Acidentes. Na sala. Agora. Conceito legal de acidente do trabalho: conforme o Artigo 19° da lei 8. incidentes e desvios. porque justificam a necessidade das organizações em trabalhar a percepção de risco dos seus trabalhadores. portanto. Esse primeiro conceito tem o objetivo de apontar o acidente para instituições governamentais. pelo serviço de trabalho de segurados especiais. como não existem sistemas industriais infalíveis. 2004): Acidente do Trabalho é aquele que ocorre pelo exercício do trabalho. Conceito prevencionista de acidente do trabalho: é qualquer ocorrência não programada. Devido a essas possibilidades de melhorias. Com isso. há risco.

bastava. em função do padrão de funcionamento e do seu repertório adquirido. o processo de percepção do risco pelo homem nem sempre é objetivo. O interessante é como tais classificações são preventivas em relação aos incidentes e às ocorrências com perdas. norma ou procedimento estabelecido. somente consegue funcionar satisfatoriamente dentro de certos limites específicos e característicos. não se manifesta em sua plenitude. pesquisas de Henrich. no lar. mesmo os desvios são atos ou situações abaixo de um padrão e que já aconteceram. ou racional. 1930. Na verdade. ou seja. todo sistema tende a ser homeostático por natureza e tolera certos níveis de desordem. Ao longo dos tempos. A Percepção de Risco Segundo Jackson e Carter (1992). apontadas por Ansell e Wharton (1992) mostraram que os acidentes poderiam ser evitados. Desvio: é um ato ou uma condição abaixo de um padrão. e não há sistemas infalíveis. No entanto. Os conceitos foram apresentados nessa ordem por uma importante questão. os danos resultantes desse evento não são percebidos a nível macroscópico. A percepção de risco diz respeito à capacidade da pessoa de identificar os perigos e reconhecer os riscos. seja no trabalho. . bem como o processo decisório que deve ser desencadeado a partir dessa observação. atribuindo-lhes significado. e Bird Jr. Entretanto. no trânsito. pelo elemento humano. Mais tarde. surgiu o conceito de desvio como a nova base da prevenção. como das características cognitivas e fisiológicas do indivíduo. A percepção. não é mais uma base. apesar de possuir potencial para causar danos. 1966 e 1969. existe um novo fato que deve ser pesquisado e entendido para que haja formas e estratégias para evitar que aconteçam os desvios. dependem tanto do seu conhecimento sobre o sistema. ou seja. o sistema tenderá a falhar. Uma vez que esses limites de estabilidade sejam violados. Segundo Bley (2004). mas sim uma variável que compõe o conceito de comportamento seguro: a percepção de risco.Incidente ou quase-acidente: é um acontecimento que. identificar e tratar os incidentes. inicialmente. dos indicadores que precedem a falha do sistema.. mas fortemente influenciado por fatores diversos que variam de indivíduo para indivíduo.

pode significar grande probabilidade de acidente devido à exposição descuidada. Analisando-se a situação: o odor veio do ambiente externo e. as respostas poderão ser adequadas ao cenário vivenciado. e o contato pode acontecer. É incrível como os seres humanos tentam humanizar as ferramentas e os equipamentos com que trabalham. Os perigos "não ligam" para a existência humana. da atenção. deixar de levar em consideração os fatores cognitivos e fisiológicos já citados. na maioria das vezes. Assim sendo. pode-se afirmar que o risco foi potencializado. Esse fenômeno ocorre. do estado emocional. ainda. Não se pode. basta algum descuido.Por se tratar de um processo que sofre interferência do nível de saúde. por fim. pode não passar de um mau cheiro. um trabalhador visita. Quando a experiência torna-se um Equipamento de Proteção Individual (EPI). e diante da situação. sua capacidade perceptiva. uma refinaria de petróleo e sente o cheiro de ovo podre ao andar pela área. a capacidade de percepção de riscos das pessoas varia ao longo do tempo. a eletricidade ou a altura "nem imaginam" há quanto tempo pessoas trabalham com ou na presença delas e. As lixadeiras. quanto maior o repertório do trabalhador. jamais elas deixaram de ser perigos. trata-se de um gás extremamente tóxico e letal. e nunca aconteceu nada". Voltando ao exemplo citado. o organismo deu o seguinte significado: ovo podre ou mau cheiro. chegou ao cérebro. Temos inúmeros . conheço muito bem as ferramentas com que trabalho". Contudo. Com isso. e a escolha pelo significado terá como apoio relevante os fatores cognitivos e fisiológicos. é o fenômeno chamado coisificação. ele aumenta seu repertório e. existem algumas situações específicas que também interferem na percepção. Tornar humano algo material é algo bastante estudado pela filosofia e está na moda. depois de informado que há presença de um certo gás no processo. do conhecimento. a mais conhecida é o excesso de autoconfiança do trabalhador. Por exemplo. em segurança do trabalho. todavia. com pessoas já experientes e que reproduzem discursos como: "Sempre fiz assim. melhor é a sua capacidade de interpretação. na busca de explicar do que se tratava aquele estímulo. que possui odor semelhante ao de ovo podre. "Tenho 20 anos de estrada. Supondo que o trabalhador não tenha recebido ainda informações a respeito dessa situação. uma única situação poderá apresentar diversos significados. via nariz (sensor). ou seja. não sabendo disso. pela primeira vez. Quando o ser humano recebe outras informações. Isso faz com que o risco real seja diferente do risco que foi percebido pela pessoa o que. o ser humano terá mais uma possibilidade de interpretação.

reconhecem os riscos e. sua atividade. tais como os aspectos da natureza humana. . gerenciar os cenários e ambientes antes que ocorram as situações desagradáveis. o indivíduo deve colocar em prática seus conhecimentos. apenas a compreensão não basta. Esse desafio só será vencido quando as ações prevencionistas estiverem organizadas de tal forma a trabalhar. A experiência do trabalhador é de suma importância. da preguiça ou até mesmo do desconforto. deve-se entender que a alta percepção de risco é apenas a base para que o trabalhador comporte-se de forma segura. podemos ter a perda de vidas. com uma intervenção ética e coerente. técnica e operacionalmente. junto aos possíveis obstáculos do processo. Dessa forma. Existem casos em que os indivíduos identificam os perigos. ou seja. a coisificação interfere de forma negativa e. quando estamos falando de segurança. em virtude da pressa.exemplos. além de conhecer muito bem. optam por burlar regras e procedimentos. as deficiências na educação para a prevenção e o interesse (nem sempre presente) das organizações em investir na preservação da integridade global dos indivíduos que as compõem. No entanto. tais como: a empresa está doente. o mercado está ansioso. os riscos deverão ser sempre compreendidos. O desafio de elevar e tornar estável a percepção de risco dos grupos de trabalhadores é parte integrante do conjunto de esforços possíveis para a promoção da saúde das pessoas e das organizações. torna-se possível identificar situações nas quais o trabalhador esteja exposto e. Nota-se que é de suma importância o conhecimento profundo sobre os perigos e riscos. ser pró-ativo. A questão é que. Em última análise. desde que ela não extrapole e distorça a capacidade do ser humano em identificar os perigos e reconhecer os riscos que sua atividade oferece. a partir disso. mesmo assim. como conseqüência.

para o sistema de gestão. foi realizada por Dov Zohar no ano de 1980. sobre clima e cultura de segurança.JULIO CÉZAR FERRI TURBAY Desenvolvendo e gerenciando o clima e a cultura de segurança Sem números.de crescimento na empresa. por ser considerada uma importante fonte de indicadores de aspectos humanos. Zohar (1980) tem como proposta desenvolver um conceito de aplicação prática e teórica. benefícios. entre outros. sem vantagens e probabilidades. a metáfora do clima. incluindo o item segurança e saúde no trabalho. Isso seria a formatação inicial do conceito de clima de segurança. Em sua investigação. o que mostra que tal tema tem sido pesquisado há pouco tempo. Informações como o tom da voz das pessoas. essa metáfora vem sendo utilizada. o nível de satisfação das pessoas e a percepção que elas têm em relação a diversos elementos como liderança. propondo as hipóteses citadas a seguir. em suas experiências pessoais. Há muito tempo. principalmente com as contribuições de Kurt Lewin. como preferem algumas empresas. Vázquez (1996) aponta que as primeiras investigações de clima estão datadas da década de 30 do século xx. Sem números. não há vantagens nem probabilidades. com uma forte intensidade. o único meio de lidar com o risco é apelar para os deuses e o destino. Clima de Segurança: História e Conceito É comum que as pessoas utilizem. pensam: "O clima aqui não está legal". O fator clima mostra. comunicação. remuneração. Quantas pessoas. médias e pequenas organizações buscam alternativas para medir o clima organizacional ou a ambiência. sistemas de reconhecimento. nos meios organizacionais. possibilidades. em suas casas. . a) Trabalhadores que pertencem a uma mesma empresa terão percepções compartilhadas em relação à segurança de seus locais de trabalho. ao entrar em um lugar. e ainda hoje. independente dos outros elementos citados. em seus locais de trabalho ou em quaisquer outros ambientes. A primeira pesquisa de que se tem registro. em suas igrejas. Grandes. o risco é uma questão de pura coragem (Peter Bernstein). suas expressões faciais e mesmo o tema que discutem podem ser indicadores claros de como anda o clima em um local. alimentação.

2) Atividade da alta administração para dar resposta a tal preocupação. 5) Efeitos do ritmo do trabalho sobre a segurança dos trabalhadores. Brown e Holmes (1986) põem à prova o modelo de Zohar. utilizando uma amostra com um total de 425 trabalhadores norte-americanos. 1) Preocupação da alta administração pelo bem estar dos empregados. química e metalurgia. realiza correlações entre os distintos setores de cada tipo de empresa. Os autores concluem que há uma importante diferença na percepção do clima nos sujeitos pesquisados e propõem que as investigações de clima deveriam levar em consideração aspectos metodológicos que entendessem a percepção das duas amostras. 6) Status dos encarregados de segurança ou do setor de segurança.b) O clima de segurança pode variar de menos favorável a mais favorável. Essa hipótese estaria relacionada com as características de segurança de cada empresa. 8) Status dos comitês de segurança. . É importante ressaltar que o autor. 1) Importância dos programas de treinamento focados em segurança. 3) Efeitos do comportamento seguro na carreira profissional. considerando o mesmo período. além de propor uma delimitação adequada do tema de clima de segurança. Zohar (1980) utiliza uma amostra de 400 trabalhadores israelenses de indústrias dos setores de alimentação. Ressalta-se que essa pesquisa não propõe somente a confirmação do modelo proposto por Zohar. Esses autores reduzem os fatores a serem pesquisados de oito para três. 4) Nível de risco no lugar de trabalho. Em sua pesquisa. Os resultados obtidos refletem oito dimensões possíveis para a compreensão do clima de segurança. divididos em dois grupos: 225 que não tinham registros de acidentes no último ano de trabalho e 200 que haviam sofrido algum tipo de acidente no trabalho. 2) Atitudes da alta direção da empresa em relação à segurança. Essas dimensões serviram como ponto de partida para todas as demais pesquisas realizadas posteriormente. mas tenta verificar as diferenças de percepção do clima de segurança em amostras que haviam sofrido acidentes e que não haviam sofrido acidentes. 3) Risco físico dos empregados. 7) Efeitos do comportamento seguro no status social de cada um dos trabalhadores. de forma diferenciada.

utilizando uma amostra de 384 trabalhadores da área de construção civil. as pesquisas assumem um caráter mais prático e costumam relacionar o clima de segurança a outras variáveis psicossociais. Como citam os autores: . Islas e Meliá (1992) partem de um conceito mais restrito. NISKANEN (1994) relata três novas dimensões para o clima de segurança.Por sua parte. o qual relacionam à percepção das ações positivas empreendidas pela empresa em relação à segurança.. 1) Responsabilidade da empresa pela segurança. Os anos 80 do século XX estiveram marcados pelas pesquisas relacionadas com a determinação de dimensões possíveis para o clima de segurança. Propõem a utilização do clima de segurança de maneira mais operacional. . Na segunda dimensão. Tomás. 2) Compromisso dos trabalhadores. percepção do nível de controle que tem o trabalhador sobre a segurança em seu posto e a realização de encontros regulares sobre segurança.163).. P. Os resultados obtidos pelo método de análise fatorial mostram uma solução com dois fatores. com o objetivo de desenvolver instrumentos que permitiriam um diagnóstico do clima de segurança nas empresas. 1) Compromisso da alta administração. Oliver. 3) Indiferença dos trabalhadores em relação à segurança. A partir do ano de 1994. este enfoque analítico da medição do clima de segurança pretende confeccionar um instrumento diagnóstico valioso para determinar elementos de intervenção para melhorar a segurança e prevenir acidentes de trabalho e suas conseqüências (OLlVER et ai. estão presentes elementos como: percepção dos trabalhadores acerca do potencial de exposição aos acidentes. percepção dos trabalhadores sobre os comportamentos do supervisor. estão presentes fatores como: percepção dos trabalhadores em relação às atitudes dos diretores a respeito das práticas seguras e da segurança dos trabalhadores. 1992. levando em conta as dimensões a seguir. Na primeira dimensão. 2) Preocupação dos trabalhadores em relação aos perigos no local de trabalho. a disponibilidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e instruções e procedimentos de segurança. além da polêmica teórica sobre a melhor representação da dimensão do conceito. aos riscos presentes no ambiente de trabalho. Dedobbeleer e Bèland (1991) põem à prova o modelo de Brown e Holmes.

as relações interpessoais entre os membros da equipe que estão envolvidos com comportamentos de risco. Hofmann e Stetzer (1996). em uma pesquisa sobre os fatores que influenciam os comportamentos inseguros nos acidentes de trabalho. desenvolvidos por outros autores. o conjunto de atribuições que podem ser percebidas sobre a organização de trabalho em particular (manutenção. Como conceito de clima de segurança. Os autores concluem que há uma importante relação entre o clima de segurança e os comportamentos de risco. relações dos comitês de segurança nas organizações. e avaliar as diferenças entre as percepções dos trabalhadores e seus supervisares. Oliver e Tomás (1998). Desenvolve uma pesquisa com uma ampla amostra. propõem que se analisem tanto os aspectos de ordem grupal. propõem somente um fator: a percepção da sobrecarga ao desempenhar um papel. desenvolvem uma investigação com uma amostra de 915 sujeitos ingleses e franceses. Cheyne. em uma amostra de 166 sujeitos de distintas áreas dentro do setor aeroportuário. em uma pesquisa realizada no setor de construção de estradas. central de reparos etc. As conclusões das pesquisas apontam uma importante relação entre o clima de segurança e as atitudes em relação à segurança dos gestores e as atitudes em relação à responsabilidade individual de cada trabalhador. A amostra utilizada foi composta por 130 sujeitos do setor de manufatura.Niskannen (1994). No que se refere aos grupais. 241). Cox. Utilizam uma amostra composta por 21 equipes de trabalho e 222 sujeitos da indústria química. o clima de segurança.. utilizando 1890 trabalhadores e 562 supervisares. como os de ordem individual. em empresas do setor petrolífero. menor é a taxa de comportamentos de risco. Cree e Kellowae (1997) analisam o clima como um indicador da percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais. propõe realizar uma aproximação entre os conceitos de clima de segurança. . Esses autores utilizam os seguintes indicadores de clima de segurança: atitudes em relação à segurança. Com relação ao aspecto individual. construção. ações dos gestores em segurança. cita: .. deforma que quanto maior é a percepção que os trabalhadores apresentam acerca das suas equipes de trabalho. apresentam três fatores: o processo grupal.) e como estas podem ser induzidas pelas políticas e práticas que as organizações impõem sobre seus trabalhadores e supervisores (p. Isla e Díaz (1997) desenvolvem um conjunto de medidas para avaliar as atitudes em relação à segurança e ao clima de segurança.

os autores concluem que o clima de segurança positivo tem lugar quando existe um bom nível de comunicação e clareza nas informações. estabelecem uma relação entre o clima de segurança e a predisposição aos acidentes de trabalho. Gordon e Fleming (1998). Murphy e Gershon (2000) propõem que um clima de segurança positivo leva os trabalhadores a cumprir com as práticas seguras no ambiente de trabalho. Com uma amostra de 1716 sujeitos do setor hospitalar norte-americano. De uma maneira geral. o clima de segurança poderia funcionar como uma medida indiretacla eficácia dos cursos de supervisores e diretores. Com um propósito mais amplo.. Seus autores demonstram que.Isla. para que se obtenham resultados mais adequados à realidade das empresas. concluem que o clima de segurança pode ter relação com a utilização dos EPIS frente às situações de risco como. mais especificamente o contágio pelo HIV.. é possível encontrar investigações como a desenvolvida por Mearns. Mearns e Flin (1999) desenvolvem uma importante discussão teórica acerca do estado das investigações de clima de segurança e da relação entre esse conceito e o conceito de cultura de segurança. Flin. Duas importantes aplicações do clima de segurança na área de saúde são as desenvolvidas por Guastello. no qual o clima de segurança tem efeitos causais . Searcy. Dejoy. 103). através das repercussões potenciais na melhoria da política organizacional em matéria de segurança (p. é preciso analisar o clima de segurança em relação a outros aspectos mais amplos como a cultura de segurança. Uma das principais carências identificadas nas pesquisas anteriores é a falta de um modelo adequado de clima de segurança. Consideram que: . cujo objetivo é avaliar o clima de segurança em uma amostra do setor petrolífero. Meliá (1998) propõe um modelo causal psicossocial dos acidentes de trabalho. Essa investigação utiliza uma amostra de 131 sujeitos divididos em níveis hierárquicos distintos. Gershon e Murphy (1999) que. por exemplo. a manipulação de amostras de sangue contaminado. com uma amostra de 1708 trabalhadores do setor de saúde. Cabrera e Díaz (1998) utilizam o clima de segurança como um elemento de análise e avaliação do processo de formação no setor aeroportuário. Com um total de 722 trabalhadores ingleses. Na mesma linha de pensamento. essa investigação toca questões referentes à cultura de segurança.

risco real. serão mostradas as implicações práticas do clima de segurança e de como seu conceito pode influenciar na sistemática de gestão de segurança das organizações. Cardella (1999. A conduta do trabalhador também se considera diretamente afetada pela conduta de seus superiores.. 1998. 31).na resposta de segurança dos líderes. 23) afirma que: .. vidro. A seguir. o exame torna-se ainda mais desafiador. eletricidade. de forma significativa. metal. 1990) e contou com uma amostra de 316 trabalhadores. resposta dos superiores. As variáveis foram divididas em três grupos distintos. a conduta de segurança do trabalhador e a forma como percebe os riscos reais (MELlÁ. afeta finalmente. é possível traçar um histórico claro da evolução do conceito de clima de segurança e todas as transformações que o fenômeno passou nos últimos anos. de diferentes ramos de atividade industrial (madeira. A pesquisa realizada por esse autor foi desenvolvida através da aplicação da Bateria de Questionários de Segurança Laboral V3 (MELIÁ.. mas os acidentes seguem ocorrendo. Com tais informações. uma resposta mais segura dos superiores induziria a uma resposta mais segura dos companheiros.. Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática Sem dúvida. o tema segurança no trabalho é um desafio para a grande parte das organizações. na resposta de segurança dos companheiros. e esta. uma conduta mais segura do trabalhador focal. Segundo o autor. construção e têxtil). conduta em relação à segurança do trabalhador. p. . . b) Indicadores de risco: risco basal. p. a redução dos acidentes é um dos mais fortes desafios à inteligência do homem. a) Indicadores de aspectos psicossociais da segurança laboral: clima de segurança. desafiando permanentemente todos esses esforços. c) Indicador de acidentabilidade: utilizou-se como indicador de acidentabilidade o número de acidentes de trabalho sofridos pelos sujeitos nos últimos cinco anos. resposta dos companheiros em relação à segurança. Muito trabalho físico e mental e grandes somas dê recursos estão sendo aplicados em prevenção. Ampliar a discussão para o aspecto humano. Essa cadeia de relações entre as respostas de segurança de supervisares. ISLAS. na conduta de segurança e na percepção de risco dos trabalhadores. por sua vez. companheiros e trabalhador.

Aos dois processos relatados. a segurança depende. itens de controle factíveis. de suas atitudes pessoais. foi possível planejar em conjunto com a liderança. É exatamente aqui que o conceito de clima de segurança passa a ter uma enorme validade para os processos preventivos. foi concebido para que os líderes estivessem mais bem capacitados para atuar na mudança de comportamentos de risco e na estimulação de comportamentos considerados seguros. Porém. ao longo do trabalho. principalmente no tocante às condições de trabalho. percepção em relação aos companheiros de trabalho e atuação pessoal). A qualidade de ações. Ao definir linhas de atuação coerentes com a realidade de cada organização. o que permitiu melhorias consideráveis no aspecto de segurança dentro da empresa. pode ser avaliada . principalmente. na apresentação do relatório de pesquisa de clima de segurança de uma grande empresa situada no Brasil (montadora de veículos). pôde-se perceber que as respostas dos trabalhadores apresentavam uma forte tendência a identificar os elementos relacionados com a liderança e suas interfaces com segurança como sendo críticos e com grande necessidade de mudança. em grande parte. os quais se sentiram mais valorizados. é possível traçar planos de ação "customizados" e que tenham. as ferramentas de comunicação. apesar de serem evidentes as melhorias realizadas nos processos da empresa. pode-se dizer que o papel da liderança é indicado por grande parte dos autores como um dos aspectos mais importantes do processo do desenvolvimento de uma pesquisa de clima de segurança. como a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). O processo de formação de liderança realizado permitiu. O processo. A partir dessas informações. que evidenciaram três níveis do clima de segurança (participação da liderança. Em uma pesquisa diagnóstica realizada a pedido de uma empresa siderúrgica do sul do Brasil. os treinamentos e as campanhas. os próprios trabalhadores relatam que. e a experiência citada corrobora esse fato. na primeira década do século XXI. através de técnicas específicas. é importante lembrar que nem todo processo de intervenção em psicologia da segurança deve estar direcionado para o nível da liderança. Ao retomar os aspectos teóricos apresentados. uma importante mudança na percepção dos trabalhadores. Por exemplo.A subjetividade é vista como a principal barreira para o desenvolvimento de um processo de segurança comportamental adequado e eficaz. devemos somar um quarto aspecto central na compreensão do clima de uma empresa: a qualidade das ações realizadas pela empresa com foco em segurança.

como pensamentos e sentimentos. a idéia de pensar. Esses autores ainda propõem a compreensão dos indicadores humanos. sendo que os primeiros referem-se. por exemplo). Bley. Retomamos. Os reativos integram-se aos indicadores organizacionais que medem situações que já ocorreram como. 91).pelos próprios trabalhadores. àqueles que buscam identificar os aspectos humanos antes do acontecimento de uma perda ou acidente de trabalho. . por exemplo. para a sua identificação. O clima de segurança. em relação aos indicadores humanos de segurança. é habitual que a resposta indique somente as estatísticas da empresa como fonte de identificação da necessidade. por exemplo. sentir e agir. pode ser utilizado o conceito de atitude preventiva. citam: Os Indicadores Humanos em segurança podem ser classificados em duas categorias básicas: os "Pró-ativos" e os "Reativos". e outros aspectos que se referem ao elemento emocional dos trabalhadores). por fim. diretamente. a prática). Como referência para a análise de indicadores considerados mais pró-ativos. A identificação desses fenômenos psicossociais depende. é essencial levar em conta que os profissionais da organização estejam capacitados. Em diversas empresas avaliadas pela sistemática de clima de segurança. ao perguntar-se para a equipe que organiza as campanhas por que está realizando uma campanha com o tema proteção das mãos. seus comportamentos encobertos. a dimensão da ação (que nada mais é do que a forma como o indivíduo realiza o seu trabalho. portanto. Entretanto. da capacidade das pessoas da empresa em observar. por exemplo. a dimensão afetiva (composta pelos aspectos interiores do ser humano: suas razões pessoais para se prevenir. por se tratar de aspectos de difícil observação (principalmente os cognitivos e afetivos). pode ser uma importante fonte de dados para a escolha de temas na realização uma campanha. Este pressupõe que o comportamento seguro ganha status de hábito por meio da articulação entre três dimensões do funcionamento psicológico: a dimensão cognitiva (conhecimentos e informações que o trabalhador tem a respeito das suas atividades e todas as suas interfaces numa frente de trabalho. Isso é realizado deixando-se de lado uma série de outros importantes indicadores de natureza humana. p. entender e interpretar tais informações. seu nível de motivação. Cunha e Turbay (2005. efetivamente. em grande parte. é composta por aquilo que pode ser observado pelas outras pessoas. o TFSA (taxa de freqüência de acidentes sem afastamento) ou o TFCA (taxa de freqüência de acidentes com afastamento).

Ao identificar dificuldades nesse aspecto. Sobre os aspectos cognitivos Nível de aprendizagem: melhoria do nível de conhecimento obtido após as atividades educativas. quando observados de forma sistemática. Vale ressaltar que as empresas que possuem força de trabalho com alto nível de analfabetismo. Para que. a empresa poderá atuar de forma preventiva na melhoria do nível de informação de suas frentes de trabalho. Para empresas com alto nível de complexidade em seus processos e que tenham produtos e atividades que necessitem um alto nível de conhecimento. é importante que pessoas treinadas para avaliar o processo estejam nas áreas de trabalho. eles tenham efetividade. constantemente. A empresa que realiza a atividade tem como prática avaliar o grau de eficácia e de aprendizagem dos participantes do processo? Uma alternativa viável é a aplicação de mecanismos de verificação de aprendizagem não só após o treinamento. Com a divisão a seguir. Um indicador essencial de aspecto humano é o nível de compreensão que se tem desses procedimentos. algumas empresas utilizam sistemáticas de Permissão de Trabalho e/ou Análise Preliminar de Risco.No dia a dia. consideramos algumas maneiras de viabilizar esse trabalho. esses fenômenos podem servir de subsídios para o desenvolvimento de práticas (e seus respectivos indicadores). Acompanhamento da aplicação de procedimentos: além dos procedimentos de segurança e operacionais. recomenda-se não abrir mão desse tipo de estratégia. As matrizes de treinamento devem estar alinhadas com as necessidades das pessoas' para que possam ter validade como instrumentos de desenvolvimento e avaliação de comportamentos em segurança. É necessário que as ferramentas de análise estejam alinhadas com as propostas preventivas da empresa. . acompanhando as frentes e avaliando o entendimento acerca dos procedimentos. Um destaque possível para esse indicador é o resultado obtido ao final de um programa de integração ou treinamento. e nem cumprido. por exemplo. necessitarão adaptar seus programas de informação e o instrumento de avaliação às necessidades especiais dessa população. somente didática. mas também com alguns meses de intervalo. Procedimento lido não é sinônimo de procedimento entendido. Conhecimento e prevenção são aspectos que devem caminhar em conjunto. de fato.

se as pessoas têm informações demais ou de menos sobre segurança. pois pode ser um importante indicador afetivo. e é muito comum que surjam assim muitas reclamações e sugestões relacionadas à liderança. espaço para apresentação de críticas. Checar a freqüência de consultas aos mapas de riscos é uma forma de atuar nessa direção. Monólogos de segurança tendem a servir somente ao preenchimento da folha de presenças. de forma direta. ou seja. em cumprimento à legislação. entre outros). Nível de utilização de canais de comunicação da empresa: muitas empresas possuem sistemáticas de comunicação (linha direta com a presidência. porém. O excesso e a falta de informação sobre os riscos presentes no ambiente de trabalho podem prejudicar sua efetividade. aplicação prática dos conhecimentos. mas principalmente para o qualitativo. Algumas empresas têm substituído ou acrescido em suas placas: "Estamos há x dias sem acidentes e com x horas de treinamento em prevenção". O ideal varia em função do nível de risco da empresa. da cultura de segurança que ela já possui. periodicamente. identificação de oportunidades de melhoria. Isso permite visualizar que estar sem acidentes não é uma obra do acaso. Sobre os aspectos afetivos Participação em Diálogos Diários de Segurança (DDS): o olhar para esse indicador não deve ser somente o quantitativo. é indicador necessário para averiguar o nível de investimento do sistema de gestão no desenvolvimento das pessoas em segurança no trabalho. É essencial que a área de segurança esteja atenta a isso. dos objetivos que ela almeja em prevenção. através do qual os trabalhadores podem expressar suas insatisfações em relação a essa área. ele é "um quadro a mais" pendurado na parede. verificar como são a freqüência e a qualidade da participação das pessoas (assiduidade. . e não só apresentação. Símbolos desconhecidos.Quantidade de horas de treinamento em segurança: não existe um nível ideal de horas de treinamento em segurança. em algumas empresas. canal legal e outros com nomes diferentes) que são um canal para que os trabalhadores expressem suas opiniões em relação à empresa. Quantidade e nível de compreensão das sinalizações de advertência: uma boa prática é averiguar. mas de atuação coerente e alinhada de todos os componentes da organização. pouco trabalhados ou já "desgastados" com a força de trabalho podem prejudicar seu objetivo. principalmente. tipos de perguntas. exploração dos assuntos. lembrando que.

a) Períodos de greve: as percepções dos trabalhadores em relação ao nível de segurança da empresa podem estar influenciadas por momentos específicos. Por meio de inspeções sistemáticas. Vale destacar que essa é uma metodologia que depende diretamente da cultura da empresa. ao organizar um processo de pesquisa como esse. o que significa que sua eficácia depende de avaliar se ela é a melhor estratégia para aquele tipo de cultura (não recomendável para algumas empresas). como também depende de um processo de treinamento cuidadoso e preciso dos observadores. a empresa deve levar em conta vários aspectos. carga física e mental. conseqüentemente. Ao realizar uma pesquisa em uma empresa. é essencial que se entenda que a empresa havia passado por uma forte mudança no seu processo de gestão. habilidades. Entender a percepção da força de trabalho em relação aos aspectos de segurança pode e deve ser um indicador cada vez mais buscado pelas empresas. Os indicadores são obtidos por meio da compilação do tratamento das informações geradas pelos observadores. recursos. tinha uma forte influência na percepção dos trabalhadores em relação à atuação da liderança. . integrando conhecimentos. como o momento que a empresa vive. É claro que.Sobre os aspectos da ação Observação e registro de Comportamentos Seguros: esse processo permite à empresa identificar o nível de impacto dos programas de prevenção na efetiva mudança de comportamento dos trabalhadores. limites e potencialidades pessoais. orientações recebidas. pode-se apontar o que segue. como fatores importantes a serem levados em conta. principalmente. competência. realizando orientações educativas que esclareçam o trabalhador sobre a maneira mais segura de realizar o serviço. profissionais de diferentes setores da empresa (adequadamente preparados) observam e registram comportamentos seguros e comportamentos de risco dos trabalhadores. entre outros). e isso causava impacto no nível de motivação da liderança e. Antes da realização de uma pesquisa de clima de segurança. no entanto. pôde-se constatar uma forte tendência em apontar a liderança como a principal oportunidade de melhoria das questões relacionadas à segurança. Estudos do curso de ação ou análise do trabalho: esse processo pode ser indicador da forma como o indivíduo realiza seu trabalho. além de. ser indicador da compatibilidade da organização das tarefas e atividades com os cuidados de segurança necessários (tempo.

Ao analisar a história e a evolução do conceito de clima. o que pode distorcer o plano de ação a ser implantado. quais são os comportamentos de risco que são aceitáveis? Ao nos arriscarmos a adentrar o mundo da segurança com foco do aspecto humano. pois exige da empresa uma importante dissociação. basta olhar para algumas empresas e perguntar a elas: "Quais são os comportamentos de risco aceitáveis dentro da empresa? Em uma primeira reação. no ano de 2004. d) Deve ser realizada uma boa "venda" do processo de pesquisa para a liderança e para os trabalhadores. e a empresa tem que ter discernimento em relação ao que será ou não feito a partir dos dados obtidos pelo processo de pesquisa. verificou-se que muitos trabalhadores guardavam suas ferramentas dentro dos painéis de eletricidade energizados. . principalmente as que afetam diretamente o processo produtivo. o que chama atenção é que a empresa somente mudou o "procedimento informal" no momento em que ocorreu um acidente grave com um dos trabalhadores. pois o resultado pode estar relacionado à antiga equipe de líderes. Entretanto. Quando se diz respeito à compreensão da cultura de segurança. E na sua empresa. e isso nos custará muitos anos de pesquisa e busca pelas reais possibilidades de melhorar a segurança dentro das empresas. Para isso ficar mais claro.b) Mudanças em processos de gestão. Pode-se dizer que aceitar tal comportamento de risco dos trabalhadores fazia parte da cultura da empresa. pois a falta de informação pode levar a uma baixa adesão durante o processo. a empresa deve ter claro que uma série de melhorias poderá ser apontada. Em relação ao último aspecto. sendo um comportamento reprovável por qualquer supervisor da área em questão. bem como sua validade ao ser entendido como um fator de suma importância para o processo de gestão de segurança. o desafio é ainda maior. bem como uma série de problemas. devemos estar cientes de que estamos penetrando no difícil mundo chamado gente. o motivo de se realizar uma pesquisa na organização. c) Mudança recente de lideranças. em um processo de pesquisa realizado em uma empresa. exatamente. conclui-se que tal tema deva figurar como assunto obrigatório em eventos. as empresas tendem a responder que não há comportamentos de risco que sejam aceitáveis. é possível apontá-lo como de suma importância. Ao realizar uma pesquisa de clima. é essencial que todos entendam. Porém.

principalmente. com o mais precioso bem de uma organização: o ser humano. nos modelos de gestão de saúde e segurança no trabalho. realmente.seminários de segurança e. existentes nas empresas que se preocupam. .

gestão de pessoas e cidadania A sociedade pós-industrial considera os acidentes e os danos à saúde dos trabalhadores. mas o ser humano continuará a ser o elemento relativamente estável do processo. representam apenas uma pequena parte do universo de conhecimentos produzidos pela Psicologia sobre a relação entre homem e trabalho e uma parte menor ainda do que é possível examinar à luz do conhecimento produzido pela área de saúde e segurança no trabalho. como afirma . "colocando pequenos tijolinhos no grande muro da ciência". A complexidade desse tipo de atuação. de morte e sofrimento por doenças e acidentes de trabalho. Pelo contrário. não significa que o comportamento humano no contexto da saúde e segurança deixará de ser importante. É desta forma. importantes para o aperfeiçoamento dos aspectos humanos em segurança. nos próximos anos. viveremos um processo de estabilização da febre de modismos relacionados com a segurança comportamental. a dificuldade em obterem-se resultados vendidos como fáceis. Provavelmente. No entanto.Cuidar do ser: considerações sobre ciência. se estivermos devidamente capacitados para gerenciar comportamento. as estratégias empresariais aperfeiçoam-se. até então macabra. que o sonho de proporcionar trabalho digno. de natureza comportamental. este passa da posição de problema para a de fator decisivo da construção das soluções. dos consumidores e do público em geral. a ciência psicológica evolui. estaremos mais maduros e preparados para gerenciá-lo. As constatações e propostas de análise apresentadas no decorrer desses capítulos formam um conjunto complexo de elementos. a necessidade das lideranças e das cúpulas das organizações de prepararem-se melhor para gerenciar pessoas estão entre os fatores que contribuirão para que isso ocorra. rápidos e instantâneos. tornando-o um aliado do processo preventivo e tirando-o do papel de inimigo. que vem ocupando nos discursos gerenciais mais recentes: "O problema é o comportamento das pessoas". A tecnologia avança. um custo dificilmente justificável e uma conseqüência eticamente inaceitável (José Luiz Meliá). Passaremos a entender que. decente e respeitoso da integridade global dos seres humanos vai se transformando em providências concretas de mudança de uma realidade. Entretanto.

ao atuar sobre a realidade vivenciada no início do século XXI. Esse conjunto de propósitos pode ser simplesmente nomeado de processo humanização. governo e sociedade a recordar. • pretender estender-se para além dos muros da organização. engrandecedor). Isso quer dizer que os seres humanos continuarão em processo de aprendizagem. escolhe. potencializando a atuação antecipativa aos problemas de segurança e aos males à saúde dos trabalhadores. antes de tudo. entristece. beneficiando a sociedade como um todo. escolas. Entre os propósitos que devem referenciar um processo de prevenção de doenças e acidentes com o foco no comportamento humano estão: • empoderar o trabalhador para conhecer e controlar os riscos do seu trabalho. de agir com cuidado são os "produtos" desejados deste complexo sistema de inter-relações que constituem o desenvolvimento humano nas organizações. enfim.Dejours (1999). digno. ético. que o ser humano é humano. que ele é a chave de acesso àquilo que podemos chamar de trabalho seguro (saudável. e não só no produto. de se antecipar ao pior. Ele é falível. É auxiliar trabalhadores. produtivo. só será possível quando os trabalhadores. portanto. categoricamente. dia após dia. as empresas e os governantes assumirem que a grande possibilidade de transformação está presente na visão do processo como um todo. inclusive no campo do trabalho. alegra-se. produz. contribuindo para o desenvolvimento de lares. contribuir para o amadurecimento da cultura e do comportamento organizacional. seu corpo tem limites. capacidade de analisar a realidade. os profissionais. O desafio está em saber que a realidade de saúde e de ausência de acidentes que se busca construir para o futuro. Trabalhar com consciência. ele sente. Trabalhar para evitar que as pessoas adoeçam e acidentem-se no trabalho é. trabalhar pela re-humanização do processo produtivo. Se encarado com a seriedade e a profundidade que merece. • • harmonizar as relações entre as pessoas que compõem o contexto de trabalho. centros comunitários e outros ambientes mais seguros e saudáveis para a população em geral. empresários. relaciona-se. aperfeiçoamento e desenvolvimento. . de tomar decisões. bem como propor e negociar novos e melhores meios para trabalhar com dignidade e qualidade de vida. utilizando os meios disponíveis. decente. é possível afirmar. pensa. não é máquina. tornando-o saudável e seguro também nos seus aspectos subjetivos. ele simplesmente é. age.

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