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‘Revista de Economia Poiltica, Vol. 6, n? 3, jutho-setembro/1986 Microeletrénica e automagdo: a nova fase da indastria automobilistica brasileira JOSE RICARDO TAUILE* A introdugdo recente de alguns robés, praticamente os primeiros, na produg&o industrial brasileira despertou, talvez por seu charme, grande interesse sobre os rumos € as conse- qiéncias de uma nova onda de automag&o da produg&o mate- rial. Os rob6s, todavia, devem ser vistos apenas como a ponta de um iceberg formado pelo conjunto de transformagOes que a base técnica da produgAo contemporanea — e particularmente interessa-nos a maquinofatureira — sofre a partir da obsorcAo e difusaio de principios e mecanismos microeletrénicos. Com- poem tembém a nova base técnica as maquinas-ferramentas com controle numérico (MFCN), os controladores programa- veis (PC), os equipamentos de CAD/CAM — projeto ¢ manu- fatura auxiliados por computador —, ¢ demais sistemas flex!- veis de manufatura com base na microeletrénica (ME). No Brasil, a instalac&o dos primeiros robés em algum — mas ainda pequeno — nivel de significado deu-se na industria automobilisica, justamente aquela que liderou o processo de industrializac&o intensificada ao longo dos ultimos trinta anos no pais. Este fato no é trivial, no m{nimo indica (ou sinaliza) importantes transformagdes no contexto sécio-econdmico do pais, cuja dinamica deve ser analisada e compreendida. Neste * Da Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ. 69 trabalho, procuraremos caracterizar o estagio atual de transformaco da base técni- ca dessa industria, argumentando que ela parece estar entrando numa terceira fase de seu desenvolvimento, de maior integracAo com a industria automobilistica inter- nacional, tanto em termos de mercado (caracterizado pelo langamento no Brasil dos carros mundiais) como em termos do processo de produgao (o mesmo modelo no mercado internacional pressupde cada vez mais semelhanga das tecnologias com que sao produzidas suas partes em pafses diferentes). Trataremos tanto do setor terminal montador de automéveis (e utilitérios) e caminhées (e dnibus) quanto do setor produtor de autopecas, que, por definic&o, devem funcionar integrados, mas cujos interesses e motivacdes quanto A utilizagio de equipamentos especificos de automac&o com base na ME nem sempre so coinci- dentes. Procuraremos ainda avaliar algumas das principais implicagdes que decorrem da nova onda de automatiza¢ao para o trabalho industrial no Brasil, bem como para 0 restante da economia e da sociedade como um todo. AUTOMACAO NAS MONTADORAS Apés mais de duas décadas de intensificagdo (e por vezes descrito como selva- gem) processo de industrializagdo, liderado pela industria automobilistica, a econo- mia brasileira viu-se, a partir de 1980, pela primeira vez, diante de altas taxas de desemprego industrial. A grave crise que a acometeu ndo deixou de afetar, natural- mente, a indistria automobilistica. De 1980 para 1981, a produc&o local de veiculos caiu de 1 165000 unidades para 781 000 (isto é, reduziu-se de 33%). Em 1981, a in- dastria desempregou 110000 trabalhadores (81 000 no setor de autopecas e 29000 nas montadoras), chegando ao final do ano com um total de 302000 empregados (contra 412000 ao final de 1980).' O repentino e significativo aumento da capacidade ociosa da industria auto- mobilistica e 0 conseqilente acirramento da concorréncia no enfraquecido mercado interno forgou as empresas montadoras a adotarem novas estratégias que indicam estar esta industria entrando numa terceira fase de seu desenvolvimento,’ de integra- G40 mais estreita com a industria automobilfstica que opera em nivel internacional. Esta integrag4o dé-se ndo somente em termos de langamento de modelos similares para atingir os mesmos mercados, como também pela adocao de técnicas e organiza- g6es da producdo semelhantes, na medida do possivel e do vidvel economicamente. Assim, nos ultimos trés anos as quatro grandes montadoras de automéveis ins- taladas no pais langaram seus “‘carros mundiais”’ (conceito que uma das montado- ras alega néo ser preciso nem téo novo assim). Alé do mais, duas das trés montado- } Dados anuais da ANFAVEA e do SINDIPECAS. ? As duas primeiras fases, segundo E. A. Guimaraes, teriam sido a da implantagdo da indistria, que teria ido até 1966-1967 quando a Forde a GM passaram a produzir automéveis, e quando as principais monta- doras de capital nacional foram absorvidas por concorrentes internacionais; e a segunda fase a partir de entiio. Ver Acumulagdo e Crescimento da Firma, Rio de Janeiro, Zahar, 1981. 70 ras que fabricam exclusivamente caminhées (e 6nibus) também utilizam o conceito de veiculo mundial. No que concerne ao processo de produgo em si e a sua organizac&o, as empre- sas montadoras partiram decididamente em busca de um aumento de eficiéncia, aumento este vinculado a introduc&o e difuso de técnicas e equipamentos de auto- magfo com base na ME. Em busca de mais eficiéncia, praticamente todas as monta- doras tem implementado internamente em suas fabricas formas de organizacéo da produgao do tipo just in time production (Kambam). Verifica-se, ent&o, que o langamento de novos modelos propicia uma excelente oportunidade para a modernizag&o das linhas de producio (que eventualmente absorvem, pelo menos parcialmente, a produg&o de antigos modelos). Geralmente no vale a pena para as montadoras fazerem modernizacdes substanciais de linhas de fabricagdo de veiculos anteriormente j4 produzidos por métodos convencionais (inclusive pelos altos custos de depreciacfio de equipamentos envolvidos nessa deci- so). Na ferramentaria, todavia, cuja organizacao nao é propriamente a de uma linha seriada, ocorre eventualmente a introdugdo de MFCN independente do langa- mento de um novo modelo.’ Além dos robés, introduzidos na soldagem, fundicdo, pintura e teste das linhas de fabricac&o de trés dos quatro “‘carros mundiais’’ recen- temente lancados no Brasil, também outros equipamentos e sistemas automatizados microeletronicamene (em muitos casos através de controladores programaveis — PC) comegam a ser utilizados nos mais diversos locais de produgio de quase todas as montadoras. Apenas como exemplos, podemos mencionar: — sistemas flexfveis de maquinas transfer (cerca de 130 PC controlam a pro- dug&io dos motores — em diversas versées — de um dos carros mundiais. Mais de 80% da producdo so exportados); — sistema de soldagem miltipla (onde mais de duzentos pontos de solda s4o aplicados em modelos diferentes em menos de vinte segundos); — sistemas de transporte por trolleys magnéticos (que circulam com veiculos- fantasmas pela fabrica, sobre circuitos-guia embutidos no chao); — sistemas de transporte em linha aérea (que permitem melhorar o /ay-out das linhas e as posigdes de trabalho de montagem sob a carroceria); — sistemas de testes finais dos veiculos, seus subconjuntos e componentes (parte elétrica, motor, alinhamento de rodas, etc.). — sistemas de controle em real time dos fluxos de produg&o (hormonizando eficientemente a produco, na mesma linha de montagem, de diversos modelos basicos); — sistemas de controle de estoques intermedidrios (otimizando a manuten¢ao de estoques intermedidrios e criando bolsdes de amortecimento — buffer — em caso de emergéncia por acentuadas e imprevistas variacdes de necessidade). A Tabela 1 indica a quantidade de rob6s e MFCN em utilizacao pelas monta- doras de veiculos no Brasil. 3 Mesmo assim esta deciso no é trivial. Um gerente de produc&o disse-nos que gostaria de substituir cem maquinas-ferramentas convencionais da ferramentaria por vinte MFCN, Mas, “‘o que fazer com cem méquinas desativadas?”", perguntou ele. “... mesmo que eu ofereca a preco de banana, ninguém quer comprar’, continuou. n TABELA 1 ROBOS E MFCN EM USO NAS MONTADORAS Empresas Robos Ne MFCN Ne Montadora A Solda a ponto 5 | Toros 3 (automéveis, etc.) Fresas 3 Medig&o 1 Outras 1 Montadora B Fundig80 2 | Fresas 2 {automéveis, etc.) Medica0 4 Centros de usinagem 3 Montadora C Solda a ponto 8 | Toros 2 (automéveis, etc.) Posicionador para controle de qualidade taios X 1 Montadora D Toros 2 (automéveis, etc.) Tornos* 2 Montadora & Tornos 6 (caminhoes, etc.) Centro de usinagem | 2 Medicagao 2 Montadora F Tornos 5 (caminhdes, etc.) Centros de usinagem | 1 Outres (puncionadeiras) | 1 4 * Usados na fabrica de caminhbes. Como se vé, a introdug&o de equipamentos de automaco com base na ME na industria automobilistica brasileira ainda esté em seus est4gios iniciais. Porém, praticamente todas as montadoras tém hoje departamenitos, ou secdes, encarregados de analisar as possibilidades de utilizar equipamentos automatizados com base na ME e planejar sua introdugéo. Quase todas elas também so incisivas ao afirmar que é necessdrio comegar ja a utilizar tais equipamentos, mesmo que ainda nao intensamente, para que haja um processo de aprendizado que prepare transforma- ges mais radicais no futuro. Quanto a montagem de caminhdes (cujo mercado passa por uma crise ainda mais acirrada que a de automéveis), cabem algumas observacoes. E claro que as escalas menores de produgdo de caminhées (¢ dnibus) podem afetar diferentemente 0s critérios para introdu¢&o dos novos equipamentos automatizados. Mas tais crité- trios parecem ser bastante diferentes para as trés empresas que montam exclusiva- mente caminhdes. Duas destas j4 adotam o conceito de veiculo mundial, mas uma delas nao tem sequer um microprocessador em sua fabrica, enquanto a outra ja utiliza MFCN ha quase dez anos. J& a terceira, apesar de aparentemente nao utilizar esse conceito e produzir um modelo basico de caminhdes mais defasado em relacdo aos produzidos pela matriz, também comegou (recentemente) a utilizar MFCN na ferramentaria. 2 Cabe também uma breve observacdo sobre a montadora de jipes, que é a unica subsididria japonesa operando no pais. Curiosamente, em contraste com sua matriz, nfio ha nenhuma atividade automatizada por ME em suas instalagdes fabris, apesar de possuir uma organizacéo da produc&o bastante eficiente (utilizam o Kambam intensamente). Argumentam seus representantes que ainda hé muito a caminhar para aumentar esta eficiéncia sem automatizar e que os esforcos de exportagao para o mercado mundial estéo concentrados em sua matriz. Segundo as montadoras (as quatro de automéveis e uma de caminhdes) as principais raz6es que objetivam a introduc&o de equipamentos automatizados com base na ME nos diversos setores da produ¢ao sao: 1) aumento da flexibilidade na usinagem, manipulacdo e transporte de materiais, fundic&o/forjaria, estamparia, montagem e soldagem (ponto a ponto e continua); 2) melhor qualidade (e maior controle da qualidade) na usinagem, fundig&0/forjaria, controles em geral e soldagem (ponto a ponto e continua); 3) aumento do controle dos fluxos de produg&o na manipulacao e transporte de materiais, fundic&o/forjaria ¢ solda a ponto; 4) melhores condigdes de trabalho (incluindo seguranca) na alimentac&o de méquinas, manipulagdo e transporte de materiais, fundic&o/forjaria e soldagem (ambos 0s tipos); 5) aumento no ritmo de producdo (produtividade) na usinagem, manipulagao e transporte de materiais, estamparia, controles em geral e soldagem (ambos os tipos). Aqui duas observacdes relevantes, sob o ponto de vista do trabalho, devem ser feitas. Aparentemente a escassez de qualificacdes, como motivacdo para introduzir estas novas tecnologias, s6 tem alguma import@ncia no caso da solda continua e dos controles da producdo em geral. Talvez mais importante ainda seja o fato de que a economia direta de mao-de-obra parece nfo desempenhar qualquer papel na decisdo de automatizar com ME. Caulliraux e Valle fizeram uma estimativa primaria de que 0 periodo de pagamento (pay off period) de robés na soldagem e na pintura, consi- derando apenas custos de m4o-de-obra direta economizada, na industria automobi- Iistica brasileira, sio de aproximadamente dez a 32 anos, respectivamente.* Apesar dos valores altos, estes ntimeros nfo s&o de se estranhar diante dos baixos niveis salariais vigentes no Brasil, principalmente se comparados com os dos outros paises chamados desenvolvidos. De acordo com as informagdes fornecidas pelas montadoras, 0 saldrios médio de um trabalhador na produgdo, na industria automobilistica brasileira, representa aproximadamente entre 24% e 14% daqueles pagos na Europa, entre 33% e 28% dos pagos no Japao e menos de 15% dos equiva- lentes nos EUA. £ interessante notar que para nenhuma das montadoras no Brasil © custo de mao-de-obra direta representa mais do que 5% do custo total de seus veiculos. Passemos agora a ver como esse processo est4 ocorrendo no setor de autopecas. 4 Ver H. Caulliraux € R. Valle, Perfodo de Pagamento de um Rob6, UFRJ, 1983, mimeo. 73 O SETOR DE AUTOPECAS ‘Como dissemos anteriormente, apesar da necessidade de funcionarem integra- dos, nem sempre os interesses do setor montador final ¢ do setor produtor de auto- pegas s&o coincidentes. Em primeiro lugar, este ultimo é um setor de caracteristicas bastante heterogéneas. E composto por pequenas, médias e grandes empresas, cujos diversos produtos e processos de producdo variam bastante em termos de complexi- dade tecnolégica. Sdo cerca de 1 600 empresas, das quais mais de 600 associadas ao Sindipecas. Em geral estas sdo as maiores, e fornecem prioritariamente direto para as montadoras. A Tabela 2 mostra a distribuig&o da produco do setor pelos diversos tipos de mercado. E um setor que se diferencia também pela origem da propriedade do capital. Ha ai envolvido um significativo conjunto de interesses do capital nacio- nal, que, por sinal, sofre bastante com a crise. Teme-se a desnacionalizacdo do setor pela aquisicao de empresas nacionais por outras, estrangeiras, ja instaladas no pais. Por outro lado, as empresas subsidiérias de capitais estrangeiros tem, de um modo geral, maior acesso ao mercado mundial e tendem a estar mais atualizadas tecnologi- camente que as nacionais, principalmente as menores. Para estas, a tendéncia ao desbalanceamento é ainda maior visto que, por suas frageis ou inexistentes conexdes internacionais, ndo podem sequer se beneficiar dos programas BEFIEX por ndo ser possivel garantir niveis de exportagdes regulares por longos periodos. Além do mais, 0 setor como um todo sente-se ameagado pelos movimentos de verticalizacao das es- truturas produtivas das montadoras, fazendo ressurgir a quest&o do grau de nacio- nalizacdo dos veiculos produzidos no Brasil. Este indice, que, logo apés a implanta- do da industria no inicio da década de 60, chegou a mais de 90%, caiu para 85% na década de 70. Pela vontade das montadoras, com o langamento de seus ‘‘carros mundiais”’, que baseiam-se na troca internacional intrafirma de partes e subconjun- tos complexos, o indice de nacionalizacao baixaria, ainda mais, para 75%. Eviden- temente, isto é uma ameaga para o setor produtor de autope¢as no Brasil, que tem procurado firmemente sustar essa intengao. Caberia ainda mencionar que movimentos para a integraco mais eficiente entre ambos os setores através da adog4o de sistemas de just in time production (Kambam) entre montadoras e fornecedoras de autopecas, ainda é dificultada pelo fato de estas fornecerem em geral para mais de uma montadora (ou mesmo para TABELA 2 VENDAS DE AUTOPEGAS POR TIPO DE MERCADO Tipo de mercado % média entre dez.81 @ nov.82 Montadora de veiculos 60% Exportago 4% Mercado de reposi¢8o 28% Outros 8% Fonte: Sindipecas em Noticias, fev. 1983. 74 outros segmentos industriais). De certo modo, as montadoras temem que ao apoiar aimplantacdo de tais sistemas, suas concorrentes acabem por se beneficiar desta ini- ciativa. Apesar disso, ja existem planos para que em breve os pedidos de algumas montadoras para certas fornecedoras sejam emitidos diretamente de computador para computador. O fato é que o aumento da eficiéncia da industria como um todo Passe por uma maior integragdo entre seus setores em termos de reducao generaliza- da de estoques. Nos tempos Aureos da industria as previses de fornecimento eram feitas com seis meses de antecedéncia e confirmadas a um més da entrega. Hoje em dia, estes prazos reduziram-se para um més e uma semana respectivamente, nao sendo incomum chegar a 24 horas. Nao é dificil deduzir dai a existéncia de um certo caos entre os fornecedores, que, naturalmente, reclamam bastante deste estado de coisas. Esses fatos, a nosso ver, caracterizam um momento de transigdo que, apesar de tumultuado, acabara por desembarcar numa estrutura industrial mais moderna, versatil, flexivel, eficiente e conseqitentemente competitiva, mesmo em padrdes internacionais. Evidentemente, os menos capazes nfo sobreviverao. Esta nova estrutura industrial, mais vinculada ao mercado internacional, tera, tanto no caso das montadoras como no caso que agora tratamos das produtoras de autopecas, uma base técnica fortemente impregnada pela ME. Uma demonstracao clara disso é que, num conjunto pesquisado de 14 empresas do setor (nove com mais de 500 empregados, quatro com mais de cem e menos de 500, e uma com menos de cem empregados) que ja utilizam MFCN (71 ao todo, das quais 62% eram tornos 17% centros de usinagem), as exportagdes j4 ocupam 25% de sua producdo (em comparacdo com 4% para o setor como um todo no ano de 1982, conforme Tabela 2) Mais do que isso, das dez maiores empresas do setor e das dez mais eficientes (segundo a revista Exame), oito e sete respectivamente sdo usudrias de MFCN.® No setor como um todo, em 1983, cerca de 50 utilizavam por volta de 150 MFCN.’ Metade dessas empresas eram subsidiérias de firmas estrangeiras e mais 16% tinham alguma participaco de capital estrangeiro. Verificamos que, mais do que nas montadoras, as MFCN vinham sendo utilizadas como maquinas de produ- gao (e ndo maquinas universais na ferramentaria), eventualmente em sistemas flexi- veis bastante engenhosos. As fornecedoras exclusivas de caininhdes tinham ainda uma razo adicional para isso: os baixos volumes dos lotes encomendados e produ- zidos. Todas as empresas que pesquisamos pretendem comprar mais MFCN (metade delas ainda no ano de 1984), apesar de que 50% delas nao haviam realizado nenhum estudo econémico a posteriori para confirmar se tinha valido a pena introduzir as MFCN. As principais motivagOes apresentadas para que essas empresas utilizassem as MFCN foram, pela ordem (mas sobrepondo-se umas as outras ¢ com intensidades bastante proximas): melhoria de qualidade dos produtos, aumento da flexibilidade 5 Ver J. R. Tauile, “Employment Effect of Micro-electronic Equipment in the Brazilian Automobile Industry", working paper, Intemational Labour Organization, Genebra, 1984. As maiores e mais eficientes foram assim classificadas segundo a revista Exame, ‘Melhores e Maiores de 1983”, nimero especial, set. 1983. 7 Ver J. R. Tauile, op. cit. 7s da produgdo, busca de maior competitividade, tipo de podutos a serem produzidos, redugfio de custo unitario e maior controle do processo de produgio. Como dissemos anteriormente, pelo menos até agora, as montadoras nao tém desempenhado qualquer papel direto nas decis6es dessas firmas de automatizarem com ME. Ja os principais obstéculos apontados para essa decisdo tém sido, pela ‘ordem: o alto custo dos equipamentos (todas mencionaram), a crise econdmica ¢ os baixos custos do fator trabalho no Brasil (nas empresas do setor que pesquisamos, 0 custo da mao-de-obra direta representava entre 5% e 25% do custo total do produ- to). Creditamos que haja uma tendéncia a aproximago dos custos dos equipamen- tos automatizados com base na ME, disponiveis no mercado brasileiro em relac&o aos disponiveis no mercado internacional, mas essa tendéncia depende do sucesso na produco local deste tipo de equipamento, que por sua vez depende de se poder alcancar escalas mais elevadas de producio, e isto depende, é dbvio, da recuperacdo da economia como um todo. Por outro lado, o baixo custo do fator trabalho desestimula fortemente, por exemplo (juntamente com o tipo de aplicagéo a que se prestam), a introdugao de robés no setor. Até o momento nfo é do nosso conhecimento que empresa alguma do setor utilize robés ou tenha planos de utilizé-los no futuro proximo. Ainda assim, é muito claro que tais empresas, objetivando aumentar sua com- petitividade, buscam poder atender rapidamente aos pedidos mais variados (em quantidade e tipo) sem comprometer os padrdes de qualidade (especificagdes, tole- rAncias, etc.) exigidos. Para isso, outros equipamentos ME so importantes. E 0 caso, novamente, dos controladores programaveis (PC) que estdo sendo cada vez mais usados no sO para controlar processos, mas também para substituir os gabine- tes convencionais de controle eletromecdnicos das maquinas-ferramentas. Em outro nivel, no Ambito da concepgéo dos produtos, equipamentos de CAD/CAM ja comecam a ser introduzidos no setor, principalmente para empresas mais vinculadas ao mercado internacional. E claro que funciona como um instru- mento de dois gumes. Dependendo de quem os use ¢ com que fim, podem servir efetivamente como importantes elementos no auxilio de projetos concebidos inter- namente no pais, como podem perpetuar relagdes de subordinacdo entre matriz € filial onde a transferéncia de tecnologia continua limitada e bloqueada. Para concluir esta seco cabe mencionar uma observa¢do de um antigo empre- sdrio do setor que bem demonstra a mudanca qualitativa e radical por que alguns de seus segmentos passam atualmente. Antigamente ndo importava o custo, mas sim conseguir produzir. Hoje a primeira coisa é saber quanto 0 produto custa no merca- do internacional, e 0 desafio (uma espécie de barreira a entrada) é fazé-lo custar menos, entregar a tempo e dentro das especificagdes exigidas. O IMPACTO SOBRE O TRABALHO £ muito dificil avaliar concreta e precisamente os impactos que as novas tecno- logias com base ME na industria automobilistica brasileira tém produzido no &mbi- to do trabalho. Os dados eventualmente existentes a respeito no sdo tornados publicos, seja para entidades governamentais (além do que nao hé um aparelho esta- 16 tistico oficial preparado para acompanhar o assunto), seja para os trabalhadores € muito menos para pesquisadores.* Vale a pena mencionar alguns exemplos deste fato. Quando dos trabalhos da Comissdo Especial de Automac4o da Manufatura (CEAM), pela Secretaria Especial de Informatica (SEI), as montadoras que partici- param de uma das subcomissdes negaram-se a revelar suas informagdes sobre 0 assunto por considerarem-nas estratégicas e, logo, como segredo da empresa. ‘Somente uma das montadoras respondeu (cuidadosamente, por sinal) um questiona- rio sobre automacdo distribuido pela SEI. Este questiondrio foi tomado como representativo de todas as outras montadoras, pela ANFAVEA, que o assumiu ipsis litteris. Evidentemente isto nao contribui muito para revelar a percep¢4o quea indus- tria como um todo tem sobre o assunto. Quando aos trabalhadores, procuramos ouvi-los através de seus drgdos de representac&o coletiva. Constatamos que tém crescido suas preocupagdes em relacao as implicagdes sociais de introducdo de equipamentos automatizados com base na ME. Vale mencionar, todavia, que estas preocupa¢ées tém sido menos priorizadas diante dos avassaladores efeitos da crise (como perda de poder aquisitivo salarial pela alta inflacéo) e do movimento para (re) construir uma estrutura sindical mais democratica que proteja efetivamente os direitos sociais dos trabalhadores. Assim & que, numa pesquisa do DIEESE realizada em 1983 em Santo André, como prepara- go das pautas de reivindicacdes das campanhas salariais, a preocupacio com 0 con- trole sobre a mecanizac&o e a robotizacdo foi o menos apontado entre seis itens. Dentre os trabalhadores de cinco empresas de autopegas, e cujas respostas tiveram acesso, este item mereceu apenas 3,75% das respostas. Os quesitos mais importan- tes, segundo eles, seriam: estabilidade no emprego (31,76%), representaco sindical nas fabricas (26,2%) e comissdes de trabalhadores nas fabricas (19,33%). Tivemos contato com varios comissGes de fabricas das montadoras, e elas revelaram-se todas bastante interessadas em entender melhor as dimensdes das ques- tOes relativas a evolucao tecnolégica e as novas formas de automac&o. Quase todas n&o sabiam, entretanto, como fazer para isso ou como se posicionar diante de uma tendéncia a automagdo considerada irreversivel. Apenas uma das comissdes que contatamos ja tinha tomado alguma iniciativa a respeito, tentando propor a empre- sa respectiva reconstituir formalmente as atividades do processo de trabalho de um modelo de automével que saira de linha, para compard-lo com as atividades da linha, muito mais moderna, do modelo que o substituiu. A direc&o da empresa, to- davia, negou-se a colaborar, considerando a iniciativa como beligerante e contra o bom relacionamento entre empregados ¢ patrdes. O fato é que a implicita ameaca de desemprego levantada pelos primeiros robés na industria automobilistica tornou o tema extremamente delicado para as montadoras. Mais do que isso, os trabalhadores parecem estar quase que totalmente 5 Ao contrario, a disponibilidade de dados no Japfo deixa o pesquisador tupiniquim com agua na boca. Por exemplo, lé 0 Ministério do Trabalho dispde do némero de horas trabalhadas por veiculo produzido discriminadas pelas diversas atividades do proceso de produco (conformagio de metais, usinagem, montagem de carroceria e montagem final) das atividades de suporte (transporte e estocagem), manu- tengo de ferramentas, manutengdo, energia ¢ teste. 77 despreparados para traté-lo, pois a implantacdo e desenvolvimento da industria deu-se, em sua maior parte, durante a existéncia de um regime autoritario, criando graves distorcdes na estrutura sindical, incapaz entéo de vivenciar ¢ internalizar a resolucdo de certos problemas como os trazidos pelo avango da tecnologia. Adicio- nalmente, o fato de a industria crescer sistematicamente desde a sua implantacao até acrise de 1980-1981 impediu que emergisse antes a questao do desemprego estrutu- ral/conjuntural. Hoje, com a industria constituida, a crise trouxe a tona esse tipo de problema, que tende a ser agravado pela mudanca da base técnica. Por sua vez, neste momento da chegada da ME, os trabalhadores sentem-se desorientados, pois nao vivenciaram, pelos motivos expostos acima, essa problematica mesmo no 4mbi- to da base técnica eletromecanica. Em todos os wutros paises (em geral, os chamados desenvolvidos) onde os niveis de difus&o de equipamentos automatizados com base na ME é maior do que no Brasil, ha um conjunto de leis sociais de protecdo ao trabalhador contra os efei- tos indesejaveis da automacdo que precede a chegada da ME nas fabricas. Essa chegada encontrou, forma, os trabalhadores mais preparados para lidar com tais problemas, agora renovados. Mesmo assim, em todos esses paises so crescentes as preocupacdes (primordialmente com o desemprego) com os efeitos da nova onda de automacdo em todos os ramos da atividade econémica (e ndo apenas na industria). No relatério da subcomissao da CEAM encarregada de tratar dos aspectos s6cio-econémicos, foi proposta uma série de medidas para atenuar os efeitos negati- vos da automacao, que, na verdade, é uma compilagdo das medidas ja adotadas em outros paises. Dai até a sua adocao no Brasil, entretanto, a distancia é muito grande. Ha uma inércia por parte dos agentes envolvidos, habituados a longos anos de auto- ritarismo, que sempre protegeu os privilégios das empresas, muito dificil de ser rom- pido. Nao ha entre empresario (nem entre trabalhadores) 0 habito de negociar e muito menos de ceder seus privilégios (no caso dos trabalhadores, de identificar e reivindicar seus reais direitos). Acreditamos que a resolugéo deste impasse somente possa caminhar 4 medida que a sociedade como um todo discuta estas ques- tdes livremente (afinal, a ela dizem respeito, pois afetarao, mais cedo ou mais tarde, quase todos os seus segmentos). Em outras palavras, somente quando os elementos de democracia tiverem suficientemente impregnado 0 meio social como um todo, criar-se-4 um caldo social propicio ao equaciamento e resolugdo destas questdes que cada vez mais tornam-se estruturais. A esse respeito, cabe dizer que, apesar de até agora o desemprego tecnolégico causado pela automaco da industria automobilistica no Brasil pela ME ser relativa- mente pequeno diante dos desempregos estrutural e conjuntural, se nao for equacio- nado a tempo, aquele tornar-se-a estrutural na medida em que os novos equipamen- tos difundam-se e tornem-se o padrao da base técnica adotada. Podemos fazer aqui uma estimativa bastante aproximada do efeito sobre o emprego das 190 MFCN utili- zadas pela industria, baseando-nos em um exercicio feito em outro trabalho onde se dispds de dados pormenorizados e mais amplos para o Brasil como um todo? Supée-se, assim, que as condigdes de utilizacdo dessas MFCN sejam semelhantes as ° Ver J. R. Tauile, ‘Microeletronics, Automation and Economic Development”, tese de PhD, New School for Social Research, Nova lorque, 1984. 78 utilizadas em todos os outros setores no Brasil (temos motivos para supor isso a partir de nossa amostra de 14 empresas), onde, por exemplo, so utilizadas em média por dois turnos ¢ substituindo cerca de trés a cinco maquinas-ferramentas convencionais. E possivel estimar, ent#o, que tenha havido um desemprego direto de entre 540 e 1200 postos de trabalho (j4 descontados os postos criados pelos novos equipamentos) de oficiais operadores de mAquinas altamente qualificados. Por outro lado, sem a automac4o, um nimero talvez maior de empregos deixasse de existir pela perda de competitividade das empresas. Como se vé, so nimeros relativamente pequenos diante do desemprego gera- do pela indistria automobilistica nos wltimos anos. £ bom lembrar, entretanto, que as novas tecnologias em geral sAo introduzidas associadas a mudancas organizacio- nais, voltadas para diminuir o desperdicio e aumentar a eficiéncia da estrutura pro- dutiva, Aqui sim, provavelmente, esté a principal origem desse desemprego. Registre-se que nos ltimos dois anos a produgdo de vefculos aumentou de 14,7% (em namero de unidades), mas o emprego nas montadoras decresceu 10,6%. Apesar deste fato, as montadoras argumentam que o atual movimento de automacdo ndo criou desemprego, ao contrario, este teria sido maior caso nao tivesse havido aumento de produtividade. Este, naturalmente, é um argumento algo contraditério. Porém, ainda segundo as montadoras, a tendéncia resultante de se dispor de uma base técnica mais flexivel, é utilizar uma forca de trabalho relativamente menor, porém mais estavel. OUTRAS CONSIDERAGOES GERAIS E CONCLUSOES Assim como a industria automobilistica desempenhou um papel importantissi- mo no processo de desenvolvimento sécio-econdmico brasileiro e na constituicado da respectiva base técnica, tudo leva a crer que ela, agora, novamente volte a ter papel decisivo na mudanga desta base técnica e nas condi¢6es gerais de produc&o social. Estimulos provenientes internamente na propria industria automobilistica local, bem como da atual fase de acirrada concorréncia dessa industria a nivel internacio- nal e de adogdo de novas estratégias empresariais nesse 4mbito, induzem 4 utilizacao cada vez mais intensa no Brasil de equipamentos automatizados com base na ME. As implicagdes decorrentes s4o certamente mais amplas e mais profundas do que tivemos oportunidade de abordar até aqui. Repetimos que a industria local esté entrando em sua terceira fase de desenvol- vimento, marcada pela integracdo com a industria internacional seja em termos de mercado, seja em termos de aproximac&o de sua base técnica. Esté emergindo uma inddstria mais eficiente e moderna que, segundo os presidentes das maiores empre- sas americanas produtoras de veiculos, ser a unica capaz de competir com a indis- tria japonesa. Porém, este desenvolvimento da industria parece estar associado (casualmente ou ndo) a um importante movimento de transformagdo da prépria sociedade brasileira. Acreditamos que um significativo aumento de produtividade, resultante de modificagdes da base técnica pelo uso da ME, acabaria sendo insusten- tavel pelas préprias empresas, caso nfo fosse acompanhado de correspondente 79 equacionamento das condigées de participacdo do trabalho social na atividade eco: némica. Talvez por isso mesmo tenham sido as empresas automobilisticas as primei- ras a desrespeitar o recente Decreto-Lei n° 2.065, que promovia o arrocho salarial no Brasil. Afinal, para essas empresas, 0 custo do fator trabalho é relativamente insignificante, e certamente elas serio mais beneficiadas se promoverem um proces- so de maior harmonia social (dentro e fora de suas fabricas). N&o queremos dizer que elas descuidem de seus custos (¢ 0 trabalho é um de- les). Sua perspectiva é de longo prazo. O papel da sua producao no Brasil dentro das respectivas divisées internacionais do trabalho oferecem a longo prazo amplas € crescentes possibilidades. Por estarem absolutamente conscientes desse fato come- gam a criar um caldo cultural tecnolégico/profissional que permita as subsidiarias locais participar com cada vez mais relevancia nas citadas divisdes internacionais do trabalho. No minimo, a automacdo seré melhor justificada quando os custos sala- riais aumentarem como resultado do proceso de redemocratizagao do pais (que ine- vitavelmente redistribuira melhor a renda). O ritmo de difusio dos equipamentos automatizados com base na ME dependerd também de sua disponibilidade no mer- cado local. Dependera assim, conseqientemente, da consolidacéo da capacidade local de produzir esses equipamentos. Surge ent@o uma aparente contradicao. Os usuarios demandam acesso aos mais modernos equipamentos existentes no mercado mundial sob suposta pena de defasarem suas estruturas produtivas. Argumentam que a nascente produgao local no consegue acompanhar o ritmo das inovagdes tec- nolégicas que sao desenvolvidas em outros lugares. Por outro lado a produgao local deste tipo de equipamento influencia fortemente sua difusdo (se com custo e quali- dade semelhantes aos do mercado internacional) na medida em que o usuario possa contar com uma assisténcia técnica eficiente que evite paradas prolongadas por falhas do equipamento (que causam grandes prejuizos). A reserva de mercado que traz para o pais a perspectiva de maior auto-suficiéncia tecnologica é vista, entao, sob aspectos conflitantes pelo usuario genérico: por um lado, cria uma base s6lida com a qual podera contar, mas, por outro lado, paira a mencionada ameaca do aumento da defasagem tecnoldgica. A influéncia da reserva de mercado sobre o ritmo da nova onda deautomacao é ainda complicada pelo emperramento da maquina burocratica estatal e sua incapaci- dade de distinguir 0 que pode ou deve ser importado. As vezes, grandes prejuizos so registrados por maquinas paradas devido a dificuldade de importar um componente ME que custa um délart ou pouco mais do que isso. Do ponto de vista do trabalho, ndo cremos que haja maiores dificuldades de formar um contingente efetivamente capaz de operar os equipamentos da nova base técnica ME, apesar da barreira existente em termos de cultura profissional que difi- culta o retreinamento de operarios mais antigos (deve-se dizer que muitos empresa- rios, gerentes e pessoal técnico também se defrontam com uma barreira cultural para absorver a nova concep¢do gerencial implicita na adoc4o dos novos equipa- mentos). O maior obstaculo, todavia, é o da ameaca de agravamento do desemprego e do desrespeito aos direitos dos trabalhadores. Se os ganhos do aumento da produ- tividade forem repartidos devidamente entre capital e trabalho, melhorando a quali- dade de vida quanto as atividades profissionais e trazendo beneficios sociais que contribuam direta ou indiretamente para o processo de redemocratizacao da socie- 80 dade brasileira, a nova base técnica sera muito bem-vinda pelos trabalhadores. Para isso é preciso, é claro, que eles sintam que no estdo, mais uma vez, sendo passados para tras. ABSTRACT ‘This paper deals with the socio economic implications of the techinical basis in Brazilian auto- mobile industry, due to the diffusion of microeletronics automated equipment. It is shown that this industry has entered a new phase of greater integration with the industry at the world level, both in technical and economic terms. Automation based on microelectronics is being used to ‘support patterns of production of increased efficiency. Outdated capital-labour relations in the industry may begin to evolve accordingly with the new political development towards democratiza- tion of the country. 81