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edição

eBooksBrasil
Payadas
Jayme Caetano Braun

Fonte digital:
http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/2776/payadas.html

Crédito:
Iuri Abreu

Copyright
© 2000 - Jayme Caetano Braun
PAYADAS
Jayme Caetano Braun

Jayme Caetano Braun é, hoje, um nome repetido em todos


os quadrantes do Rio Grande...
Seus livros nada mais são do que instantâneos de algumas
notas que o auto conservou. O mais perdeu-se e se perderá
nas noites de galpão, nas reuniões sociais e nos encontros de
payadores onde Jayme, de improviso, emocionado e de olhar
penetrante, solta ao sabor de uma milonga o rosário de ouro
das suas mais profundas composições. Ele é um repentista
soberbo encarnando, nos momentos de exaltação, o
panorama inteiro do Rio Grande.
Na pasmosa transfiguração do espírito revive nele, nestes
momentos, o índio inculto, nas oferendas tribais, no soturno
socalcar de couros estirados sobre troncos ocos, linguagem
grave de evocações lendárias do selvagem galpão.
Revive o homem de chiripá e botas de garrão de touro, na
inimitável expressão dos dias da conquista, onde se viviam
momentos de couro cru e a lei era a faca, nas distâncias
infinitas do pampa, quando os monarcas da amplidão
transpunham distâncias ao ritmo de quatro-patas e, ao
evoaçar de crinas de baguais recém-domados.
É o peão de estância, no seu linguajar grosseiro e
pitoresco, a reviver pealos porteira afora e a decompor
expressões desconhecidas da gramática, porque se geraram
nos atropelos de campereadas, que não se repetem, sovando
rédeas e pelegos.
Na misteriosa transubstanciação das rimas, abstrai o seu
tipo físico e veste a expressão de domadores e vaqueanos, ao
trote de garanhões poderosos, destilando ao compasso de
patas a rima bárbara de horizontes chucros. Os que ouvem
estranham-se de um Rio Grande com pasto, percebendo a
bulha de tiradores e o tinido ancestral das esporas de ferro,
riscando ilhargas de baguais. Afundam pelos descampados
bravios do Continente de São Pedro, em caravoltas da
História, remontando às jornadas da Colônia do Sacramento,
onde se forjaram os gaúchos de três pátrias. Penetram os
momentos das arriadas nas vaquerias do mar, no comércio
bruto de couro e sebo, ao zunir de boleadeiras e laços e no
rechinar de arreios, quando o homem se impunha às leis
bárbaras de uma natureza crua, entre tropéis e manadas...
Depois, na transposição maravilhosa da inteligência, ele
nos repõe nos nossos dias, frente ao fogo de um galpão
evocativo, embebidos da visionária e impressionante
retrospecção do passado, para nos sentirmos mais rio-
grandenses e compreendermos que, somente a um homem a
cavalo, poderia ser atribuída a tarefa de vigiar como sentinela
este imenso Brasil.
Jayme nasceu em São Luiz Gonzaga mas, naquele
momento, tremeram os alicerces dos quatro pontos cardeais
do Rio Grande, porque nascia o grande e inimitável payador
desta terra, que terá o calendário mudado para antes e depois
de Jayme Braun.
1969, Porto Alegre
Balbino Marques da Rocha
Prefácio do livro Potreiro de Guachos, de Jayme Caetano
Braun.
ÍNDICE
Bochincho
Chimarrão e Poesia
China
Cordeiro Guacho
Don Athaualpa
Meu Pedido
Payada do Ano Novo
Payada do Negro Lúcio
Sem Diploma
Bochincho
A um bochincho – certa feita,
eu fui chegando – de curioso,
que o vício – é que nem sarnoso,
nunca pára – nem se ajeita.
Baile de gente direita
eu vi, de pronto, que não era
na noite de primavera
gaguejava a voz de um tango
e eu sou louco por fandango
que nem pinto por quirera!
Atei meu baio – longito,
num galho de guaramim,
desde guri eu fui assim,
não brinco nem facilito.
Em bruxas não acredito
"pero – que las hay, las hay",
eu sou da costa do Uruguai,
meu velho pago querido
e por andar desprevenido
há tanto guri sem pai.
No rancho de santa-fé,
de pau-a-pique barreado,
num trancão de convidado
eu me entreverei no banzé.
O chinaredo à bola-pé,
no ambiente fumacento,
um candeeiro, bem no centro,
num lusco-fusco de aurora,
pra quem chegava de fora
pouco enxergava ali dentro!
Dei de mão numa tiangaça
que me cruzou no costado
e já saí entreverado
entre a poeira e a fumaça,
oigalê china lindaça,
morena de toda a crina
dessas da venta brasina,
com cheiro de lechiguana
que quando ergue uma pestana
até a noite se ilumina.
Misto de diaba e de santa,
e com ares de quem é dona
e um gosto de temporona
que traz água na garganta.
Eu me grudei na percanta
o mesmo que um carrapato
e o gaiteiro era um mulato
que até dormindo tocava
e a gaita choramingava
como namoro de gato!
A gaita velha gemia,
às vezes quase parava,
de repente se acordava
e num vanerão se perdia
e eu – contra a pele macia
daquele corpo moreno,
sentia o mundo pequeno,
bombeando cheio de enlevo
dois olhos – flores de trevo
com respingos de sereno!
Mas o que é bom se termina
– cumpriu-se o velho ditado,
eu que dançava, embalado,
nos braços doces da china
escutei – de relancina,
uma espécie de relincho,
era o dono do bochincho,
meio oitavado num canto,
que me olhava – com espanto,
mais sério do que um capincho!
E foi ele que se veio,
pois era dele a pinguancha,
bufando e abrindo cancha
como dono de rodeio.
Quis me partir pelo meio
com um talonaço de adaga
que – se me pega – me estraga,
chegou levantar um cisco,
mas não é à toa – chomisco!
que eu sou de São Luiz Gonzaga!
Meio na curva do braço
consegui tirar o talho
mas quase que me atrapalho
porque havia pouco espaço,
mas senti o calor do aço
e o calor do aço arde,
me levantei – sem alarde,
por causa do desaforo
e soltei meu marca touro
num medonho buenas-tarde!
Tenho visto coisa feia,
tenho visto judiaria,
mas hoje inda me arrepia
lembrando aquela peleia,
talvez quem ouça – não creia,
mas vi nascer no pescoço,
do índio do berro grosso
como uma cinta vermelha
e desde o beiço até a orelha
ficou relampiando o osso!
O índio era um índio touro,
mas até touro se ajoelha,
cortado do beiço à orelha
amontoou-se como um couro
e, amigos, foi um estouro,
daqueles que dava medo,
espantou-se o chinaredo
e aquilo foi uma zoada,
parecia até uma eguada
disparando num varzedo!
Não há quem pinte o retrato
dum bochincho – quando estoura,
tinidos de adaga – espora
e gritos de desacato.
Berros de quarenta e quatro
da cada canto da sala
e a velha gaita baguala
num vanerão pacholento,
fazendo acompanhamento
do turumbamba de bala!
É china que se escabela,
redemonhiando na porta
e xirú da guampa torta
que vem direito à janela,
num grito – de toda a guela,
num berreiro alucinante,
índio que não se garante,
vendo sangue – se apavora
e se manda – campo fora,
levando tudo por diante!
Sou crente na divindade,
morro quando Deus quiser,
mas amigos – se eu disser,
até periga a verdade,
naquela barbaridade,
de chinaredo fugindo,
de grito e bala zunindo,
o gaiteiro – alheio a tudo,
tocava um xote clinudo,
já quase meio dormindo!
E a coisa ia indo assim,
balanceei a situação,
– já quase sem munição,
todos atirando em mim.
Qual ia ser o meu fim,
me dei conta – de repente,
não vou ficar pra semente,
mas gosto de andar no mundo,
me esperavam na dos fundo,
saí na porta da frente...
E dali ganhei o mato,
abaixo de tiroteio
e inda escutava o floreio
da cordeona do mulato
e, pra encurtar o relato,
eu me bandeei pra o outro lado,
cruzei o Uruguai, a nado,
que o meu zaino era um capincho
e a história desse bochincho
faz parte do meu passado!
Essa pergunta me é feita
em cada vez que eu declamo
é uma cousa que eu reclamo
acho que é até uma desfeita
acho que não é direita
e até entender nem consigo
eu – num medonho perigo
duma situação brasina,
todos perguntam da china
e ninguém se importa comigo
E a china – eu nunca mais vi
no meu gauderiar andejo,
somente em sonhos a vejo
num bárbaro frenesi.
Talvez ande – por aí,
no rodeio das alçadas,
ou – talvez – nas madrugadas,
seja uma estrela xirua
dessas – que se banha nua
no espelho das aguadas!
Chimarrão e Poesia
Sempre grudado no posto
O payador missioneiro
Sente o calor do braseiro
Batendo forte no rosto
E vai mastigando o gosto
Da velha infusão amarga,
Sentindo o peso da carga
Que algum ancestral comanda
Enquanto o mundo se agranda
E o coração se me alarga
Sempre a mesma liturgia
Do chimarrão do meu povo,
Há sempre um algo de novo
No clarear de um outro dia,
Parece que a geografia
Se transforma – de hora em hora
E o payador se apavora
Diante um mundo convulso
Sentindo o bárbaro impulso
De se mandar campo fora!
Muito antes da caverna
Eu penso – enquanto improviso,
Nos campos do paraíso
O patrão que nos governa,
Na sua sapiência eterna
E eterna sabedoria,
Deu o canto e a melodia
Para os pássaros e os ventos
Pra que fossem complementos
Do que chamamos poesia!
Por conseguinte – o Adão,
Já nasceu poeta inspirado,
Mesmo um tanto abarbarado
Por falta de erudição
E compôs um poema pagão
À sua rude maneira,
Para a sua companheira,
A mulher – poema beleza,
Inspirado – com certeza
Numa folha de parreira!
Os Menestréis – os Aedos,
Os Bardos – Os Rapsodos,
Poetas grandes – eles todos,
Manejando a voz e os dedos
Vão desvendando os segredos
Nas suas rudes andanças,
As violas em vez de lanças,
Harpas – flautas – bandolins,
Semeando pelos confins
As décimas e as romanzas!
Tanto os poetas orientais
Como os poetas do ocidente,
Cada qual uma vertente,
Todos eles mananciais,
Nos quatro pontos cardeais
Esparramando canções
E – no rastro das legiões
Do lusitano prefácio,
A última flor do lácio
Nos deu Luiz Vaz de Camões!
No Brasil continental
Chegaram as caravelas
E vieram junto com elas
As poesias – com Cabral,
Para um marco imemorial
Nestas florestas bravias
Perpetuando melodias
De imorredouro destaque:
Castro Alves e Bilac
E Antônio Gonçalves Dias!
Neste garrão de hemisfério
Quando a pátria amanhecia
Surgiu também a poesia
No costado do gaudério
Na pia do batistério
Das restingas e das flores
E a horda dos campeadores
Bárbara e analfabeta
Pariu o primeiro poeta
No canto dos payadores!
E foi ele – esse vaqueano
Do cenário primitivo,
Autor do poema nativo
Misto de pêlo e tutano,
De pampeiro – de minuano,
Repontando sonhos grandes;
Hidalgo – Ramiro – Hernández
El Viejo Pancho – Ascassubi
Mamando no mesmo ubre
Desde o Guaíba aos Andes!
Há uma grande variedade
De poetas no meu país,
Do mais variado matiz
Cheios de brasilidade,
De um Carlos Drummond de Andrade
Ao mais culto e ao mais fino,
Mas eu prefiro o Balbino,
Juca Ruivo e Aureliano,
Trançando de mano a mano
Com lonca de boi brasino
João Vargas – e o Vargas Neto
E o Amaro Juvenal,
Cada qual um manancial
Que ilustram qualquer dialeto,
Manuseando o alfabeto
No seu feitio mais austero,
Os discípulos de Homero
De alma grande e verso leve,
Desde sempre usando um "breve"
De ferrão de quero-quero!
Imagino enquanto escuto
Esse bárbaro lamento
Que a poesia é o som do vento
Que nunca pára um minuto,
Picumã vestiu de luto
A quincha do Santafé,
Mas nós sabemos porque é
Que o vento xucro não pára:
São suspiros da Jussara
Chamando o índio Sepé!
China
A maior das gauchadas
Que há na sagrada escritura,
Falo como criatura,
Mas penso que não me engano,
É aquela em que o soberano,
Na sua pressa divina,
Resolveu fazer a china
Da costela do paisano!
Bendita china gaúcha
Que és a rainha do pampa
E tens – na divina estampa,
Um quê de nobre e altivo;
És perfume – és lenitivo
Que nos encanta e suaviza
E num instante escraviza
O índio mais primitivo!
Fruto selvagem do pago,
Potranquita redomona,
Teus feitiços de madona
Já manearam muito cuera,
E o teu olhar de pantera,
Retovado de malícia
Nesta querência patrícia
Fez muito rancho tapera!
Refletem teus olhos negros
Velhas orgias pagãs
E a beleza das manhãs,
Quando no campo clareia...
Até o sol que te bronzeia
Beijando-te a estampa esguia
Faz de ti – prenda bravia,
Uma pampeana sereia!
Jamais alguém contestou
O teu cetro de realeza!
E o trono da natureza
É teu – chinoca lindaça...
Pois tu refletes com graça
As fidalgas açorianas,
Charruas e castelhanas
Vertentes vivas da raça!
A mimosa curvatura
Desse teu corpo moreno
É o pago em ponto pequeno
Feito com arte divina,
E o teu colo que se inclina
quando suspiras com ânsia
São dois cerros – na distância,
Cobertos pela neblina!
Quem não te adora o cabelo
Mais negro que o picumã?
E essa boca de romã
Nascida para o afago,
Como que a pedir um trago
Desse licor proibido
Que o índio bebe escondido
Desde a formação do pago
Pra mim – tu pialaste os anjos
Na armada do teu sorriso,
Fugindo do paraíso
Para esta campanha agreste,
E nalgum ritual campestre,
Por força do teu encanto,
Transformaste o pago santo
Num paraíso terrestre!
Cordeiro Guacho
Aquele cordeiro guacho,
deitado ali no baldrame,
salvei da corvada infame
numa tarde de garoa.
Andava berrando – à toa,
com poucos dias de idade,
pois ficara na orfandade,
e ali – com toda a certeza,
ia ser a sobremesa
de algum corvo sem piedade.
Logo que me viu – coitado,
correu direito ao cavalo.
Sou índio que não me abalo,
mas me achiquei nesse dia,
pois o pobre parecia,
solito ali no varzedo,
uma criança com medo,
quando se perde dos pais.
Nem bem o peguei – no mais,
ficou chupando meu dedo.
Encarangado de frio,
levei-o adiante, pra o rancho,
seguido por um carrancho
que esvoaçava, em mau agouro,
depois – o bico de couro,
a garrafa – o leite quente,
que ele chupou, como gente,
entre resmungos de choro.
Desde então – esse guachinho,
é mais um filho que tenho.
E de manhã – quando venho
chimarrear junto ao fogão,
corre a me lamber a mão,
se esfregando carinhoso,
assim – como piá mimoso,
quando nos pede bênção.
Faz artes e estrepolias,
qual o guri que não faz?
Pula, pra diante e pra trás,
quando seca a mamadeira,
entra dentro da peneira
onde debulho a ração,
sobe em cima do tição
e até me vira a chaleira.
E há os que não gostam de guachos,
porque incomodam demais,
talvez, porque, tendo pais,
nunca lhes deram valor,
ou desconheçam a dor
dos que ficaram sozinhos
e andam campeando carinhos
nas mendicâncias do amor.
Eu não fui criado guacho,
graças ao Deus Soberano.
Mamei até o sobre-ano
sem misérias nem surpresas
porém conheço as tristezas
dos guachos – sem lar nem teto
e sei que a fome de afeto
é a mais cruel das pobrezas.
E é por ter pena dos outros
que andam solitos na terra
que quando esse guacho berra
meu peito chucro se amansa.
Pois eu sinto, na confiança
que inspiro ao pobre borrego,
o mesmo anseio de aconchego
que tive, quando criança.
Don Athaualpa
Um Dom Quixote,
Um Martin Fierro,
Um mito,
O tapejara dos caminhos grandes,
Foi um vaqueano,
Desde a Pampa aos Andes,
Tropeando penas
Que juntou solito!
Ele buscava,
Com certeza,
"Nel camino",
Matar as ânsias
Da guitarra bruxa;
Ponto mais alto da expressão
Gaúcha
Que o Deus pampeano
Fez nascer no pergamino!
Se nem o eixo
Da carreta
Tinha graxa,
Porque uma quebra do silêncio não
Magoa, soltava os bois no
Manancial da aguada boa
Que o veterano da planura
Sempre acha!
Don Athaualpa!
O guitarreiro!
O gênio!
Confúcio pampa
Dos fogões,
Profeta!
Troveiro antigo,
Payador e poeta,
O "perseguido patriarca do milênio"!
Brota do flanco dos peraus
E galopeia,
Do cerro colorado,
Uma neblina
E – nas seis cordas
Da guitarra campesina
Uma "lunita tucumana" malambeia!
Exemplo à juventude do planeta
Que – por incúria dos grandes
Desmorona,
De que a virtude
Pode estar numa bordona
Ou nos rangidos ancestrais
De uma carreta!
Meu Pedido
Se me fosse concedido
pelo Ser Onipotente
que eu escolhesse um presente,
algo de grande e querido,
o meu supremo pedido
seria voltar distância
à primeira ignorância,
mais doce do que uma flor
eu pediria ao Senhor
que me devolvesse a infância!
Eu não queria dinheiro,
nem fortuna – nem saúde,
mas aquela alminha rude
de piazito missioneiro
ao pé do fogão campeiro
do velho pago avoengo,
ouvindo o vento andarengo,
senhor do tempo e caminho,
contando – devagarzinho,
histórias do diabo rengo...
Sentindo a fumaça crua
que faz chorar de brinquedo,
meio arrepiado de medo
dos duendes da pampa nua,
e o beijo da mãe charrua
mais doce que um caramelo,
naquele doce desvelo
que de ternura se esvai
e a mão amiga do pai
me esparramando o cabelo!
Payada do Ano Novo
Feliz Ano Novo – indiada,
Feliz Ano Novo – gente,
É a maneira reverente
De iniciar esta payada,
Nesta hora iluminada
De pátria e de melodia
E o payador se arrepia
De tradição campesina
Na primeira sabatina
Do ano que principia!
Cerimônia não preciso
Para cantar – quando falo,
Porque nasci de a cavalo
No lombo de um improviso,
Canto até o dia do juízo
No estilo missioneiro
E o meu verso galponeiro
Dispensa qualquer prefácio,
Tanto entra num palácio
Como num rancho posteiro!
O Ano Novo – parido,
Anda aí – fazendo as suas,
Pelos campos – pelas ruas,
Potrilho recém lambido,
Inda não tem apelido
Porque é meio bagualão,
Difícil de dar a mão
E bombeando desconfiado
Como china de soldade
Em tempo de "prontidão"!
Os homens do mundo inteiro
Fizeram ajuntamento
Pra assistir o nascimento
Desse piazito janeiro
E aqui no pago campeiro
Toda a indiada se reuniu
E reverente – assistiu,
Com ternura – com afinco,
Pra ver o "noventa e cinco"
Que a noite grande pariu!
Aqui no povo – as famílias,
Fazem o tal "reveillon",
Mas lá no campo – onde o som
É o do vento nas flexilhas,
Nós só fazemos vigílias
Quando se reúne a pionada,
Na volta da madrugada
Ouviu-se um berro de touro,
O ano macho – em vez de choro,
Já nasceu dando risada!
Sendo macho – é sempre assim,
Já nasce enrugando a testa,
Porque não vem pra festa
"De circo de borlantim";
– Esse vai ser de cupim,
Gritava um índio de lá,
Vai ser "buerana" esse piá,
Se não der urucubaca,
Umbigo cortado a faca
E enleado num xiripá!
Eu ia bobeando o céu
Na hora do nascimento
E ouvindo o choro do vento
Num barbaresco te-déum,
Depois – tapiei o chapéu,
Meio pra espantar o sono,
Memoriando – com entono,
Do índio da timbaúva
Que Ano Novo é como chuva,
Não tem patrão e nem dono!
Entre um trago e um amargo,
Recostado num esteio,
Bombeava o piazito feio,
Mas taluda – sem embargo,
Sentindo no campo largo
Cheiro de pasto e incenso
Naquele desejo imenso
De que este ano que nasce
Faça que o homem se abrace
No amor da paz e o bom-senso!
Isso é um sonho, talvez seja,
Do payador que improvisa,
Mas um sonho se realiza
Se – com fé – a gente o deseja,
Mas – pra mim – que tenho a igreja
No altar da geografia,
Guardo essa filosofia
De cruzador sem parança,
Se não houvesse esperança
Tudo que é pobre morria!
Mas vou dar uma cruzada
Lá pras bandas de São Luiz,
Onde deixei a raiz
Pra todo o sempre encravada,
Terra santa – colorada,
De sangue guasca tingida,
Terra mil vezes querida
Morada de São Sepé,
Ali onde a indiada de fé
Nasce com a alma encardida!
Cruzando o Piratiny
Vou ver as pedras no fundo,
Santo pedaço de mundo
Que deixei – mas não perdi,
Voltar de novo a guri,
À infância e adolescência,
Rever de novo a querência,
Num verdejo espiritual,
Meu velho pago natal
Onde mamei inocência!
Depois – seguir olfateando
Os recuerdos de criança,
Procurando a sombra mansa
Onde me criei tropeando
E – logo adiante – cruzando
No Passo da Laranjeira,
Lá onde uma bugra parteira,
Segundo o ritual antigo,
Fez enterrar meu umbigo
Na raiz duma figueira!
Depois – matar a saudade,
Se é que a saudade se mata,
Bombeando a lua de prata
Tropeando na imensidade,
A infância e a mocidade
E as ânsias deste índio cuera
E as flores da primavera
Que – sem querer – esmaguei
E os sonhos que não domei
Lá no "rincão da tapera"!
Mas paro – porque a emoção
Já me fez perder a calma,
Tenho urumbevas na alma
E um cerro no coração,
Há um chamado de amplidão
Que para longe me toca
Atração que convoca
De acordo com as velhas leis
Vou dançar ternos de reis
Nos ranchos da bossoroca!
Payada do Negro Lúcio
Vou tenteando na cambona
já bem abaixo do meio,
lá pras bandas do rodeio
ouço um berro de mamona;
aqui guitarra e cordeona,
chimarrão – fogo de angico;
o sol já com braça e pico
neste final de janeiro
que vai indo mais ligeiro
do que soldo de milico!
Mateando – meio solito
porque o patrão e a peonada
já saíram pra invernada,
há muito tempo – cedito,
o sábado está bonito
e a indiada aqui da fazenda
de tarde – se vai a venda
e aos bolichos do caminho,
ou então – beber carinho
nos braços de alguma prenda!
Mas enquanto eu chimarreio
neste morrer de janeiro,
meu pensamento chasqueiro
se aviva – mascando o freio
e sai – a pedir rodeio
nas lembranças – retoçando;
eu me paro – recordando
as falas do negro Lúcio,
muito maior que Confúcio
pra filosofar trançando!
E ele sempre me dizia,
enquanto tirava um tento,
naquele linguajar lento
cheio de sabedoria:
– a noite é a ilhapa do dia
na argola da escuridão,
é quem garante o tirão
em todas as lidas sérias,
neste varal de misérias
que é a existência do cristão!
Deus não fez rico nem pobre,
peão – patrão ou capataz,
isso é o destino quem faz
e – como é – não se descobre,
o nobre que nasce nobre
nem sempre assim continua;
pra beleza da xirua
ou cavalo de carreira
não adianta benzedeira,
nem reza ou quarto de lua!
Enquanto filosofava
naquele estilo sereno
o semblante do moreno
parece – se iluminava,
a vivência é que falava
naquela conversa mansa
e – no fundo da lembrança,
inda o escuto reafirmar:
– parar não é descansar
porque estar parado – cansa!
Dele mil vezes ouvi
o que tem que ser – será,
por longe que o homem vá
jamais fugirá de si
e com ele eu aprendi
as cousas da natureza,
a fidalguia – a franqueza
e aquela velha sentença:
– atrás da cinza mais densa
existe uma brasa acesa!
E chego a ouvi-lo fazer
junto dum fogo de chão,
uma grande distinção
entre existir e viver;
filho, dizia – morrer
não é mais do que uma viagem,
por isso não é vantagem
o forte fazer alarde
que – às vezes – pra ser covarde,
precisa muita coragem!
Inda vejo o conselheiro
que evoco com devoção
naquele estilo pagão
de Confúcio galponeiro
que me dizia: parceiro
nesta existência brasina,
cada qual traz uma sina
que força alguma desvia
e nada tem mais valia
que as coisas que a vida ensina!
Filho – a verdade – verdade
que nenhum sistema esconde
é que o povo não tem onde
suprir a necessidade
e vive pela metade
abaixo de tempo feio,
vai explodir – já lo creio,
a tampa dessa panela,
nem adianta acender vela
pro negro do pastoreio!
Como encontrar os perdidos
num país deste tamanho,
se venderam o rebanho
e os homens foram vendidos,
se os chamados entendidos
falam de cara risonha
defronte a crise medonha
de estelionatos e orgias,
quem mente todos os dias
vai ficando sem vergonha!
Aqui o Rio Grande isolado
pela mão pátria madrasta,
dia a dia – mais se afasta
do poder centralizado,
mesmo que guaxo pesteado
botado de quarentena,
quanto ao capataz – que pena,
não serve para o Rio Grande
na hora de ficar grande
se abata e se apequena!
Na hora de dizer: pára!
àqueles que nos ofendem,
desrespeitam – desatendem
ao Rio Grande tapejara,
não sei porque – esconde a cara,
quando a ocasião é mostrá-la,
calçar o pé – erguer a fala
porque esta terra pampeana
não é a "casa da mãe Joana"
e nem tão pouco senzala!
Não é ofensa – capataz,
é que os homens desta terra,
adquiriram na guerra
direito de estar em paz,
dentro dum clima capaz
de viver em harmonia,
sem toda essa vilania
de boicotes e de ameaça
que estão fazendo – de graça
à velha capitania!
A própria carne importada
lá de fora – é um desaforo,
e o calçado – há tanto couro
e gado nesta invernada
e arroz da safra passada,
pra que essa compra mesquinha,
querem nos dobrá a espinha
e nos cortar a garganta,
mas Rio Grande – não se espanta
como se faz com galinha!
Que lindo se – o presidente
em vez de passear na Europa,
passasse em revista a tropa
deste país continente
e num gesto inteligente
viesse ao Rio Grande fronteiro
que já era brasileiro
antes mesmo de Vespúcio
e levasse o negro Lúcio
pra servir de conselheiro!
Sem Diploma
Bendito aquele que estuda
porque estudar é importante,
embora o ignorante
tem sempre um santo que ajuda,
às vezes a sorte muda,
quando existe um santo forte,
cada qual procura um norte,
por isso não encabulo
– que a tava que bota culo
é a mesma que bota sorte!
Meu tetravô foi fronteiro,
meu bisavô domador,
o meu avô – alambrador
e o meu pai foi carreteiro;
a mim não sobrou dinheiro
pra cursar a faculdade,
mas tive a felicidade
graças ao nosso senhor
e me tornei payador
pra guardar a identidade!
O estudo é muito bonito
e até muito necessário,
mas este cantor primário,
cruzando o pago infinito,
continua – a trotezito,
mesmo sem ser diplomado
e me sinto conformado,
o que é meu – ninguém me toma,
pois duvido que um diploma
torne um burro advogado!
Como é lindo colar grau
num salão de faculdade,
embora essa qualidade
não transforme o bom em mau,
o Jayme Caetano Braun,
dessa linha não se afasta,
a inspiração não se gasta
nem me torna mais cruel,
eu conquistei um anel
o de gaúcho – e me basta!
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pdf: eBooksBrasil.org — Maio 2008