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Invenção de Orfeu II

Queres ler o que


CANTO III
tão só se entrelê

POEMAS RELATIVOS e o resto em ti está?

Flor no ar sem umbela


I
nem tua lapela;

flor que sem nós há.


Caída a noite

o mar se esvai, Subitamente olhas:

aquele monte nem lês nem desfolhas;

desaba e cai folha, flor, tiveste-as.

silentemente.
E nem as tocaste:

folha e flor. Tu - haste,


Bronzes diluídos
elas reais, mas réstias.
já não são vozes,

seres na estrada III

nem são fantasmas,


qualquer voz alou-se
aves nos ramos
muito desejada.
inexistentes;
Branco fosse o espaço
tranças noturnas
e ela ardente cor.
mais que impalpáveis,

gatos nem gatos, Quis o espaço a voz

nem os pés no ar, a voz veio e ampliou-o.

nem os silêncios.
Mas se não houvesse

propriamente voz...
O sono está.

E um homem dorme. Vamos nós supô-los:

dois sem seus sentidos.


Essas bocas nos sugam noite e
Desejemos mesmo

dois incompreensíveis. vigiando dia e noite nossas vidas

um minuto no espaço, menos


Bom nos ecoarmos

na voz recebida. de chumbo soluçado nos

E o espaço esvaziado ou cal de fome longa, revelada,

povoá-lo de vez. na noite igual ao dia, de tão

Amá-los tão sem

amada presença,
V
só com o coração

sem correspondência,
Agora o sem senso
só com a vocação

do verso feliz. sorriso nos ares,

minha alma perdida,


IV os vales lá embaixo

de minhas lonjuras
Numas noites chegamos à janela,
de não existido,
e as mandíbulas do ar tanto nos
parado nos antes,
que os leitos rotos logo
nem sei de pecados,

com os nossos corpos nem sei de mim mesmo,

eu mesmo não sou


Certos dias olhamos o sol claro;
nem nada me vê;
e a boca hiante das cores nos
ausentes palavras

carnes e sangues, poeiras de não soam no vácuo

que ficamos inúteis, sem


dos antes das coisas,

das coisas sem nexo,


VII
nem fluidos. Só o Verbo

chorando por mim.


Alegria achareis neste poema

como poema ilícito, como um

VI corpo casual ou vão, como a

dura e acídula, como um homem se

Agora, escutai-me conhece respirando, ou como

que eu falo de mim; se entristece sem causa ou se

ouvi que sou eu,


ou se lavando sempre ou

sou eu, eu em mim;


às dimensões das coisas relativas;
tocai esses cravos
ou como sente os ombros de seu

já feitos pra mim,


transmitidos e opacos, e os avós
suores de sangue, responsabilizando-se presentes.

pressuados sem poros


São alegrias rápidas. Lugares,
verônica herdada. reencontrados países, becos, passos

sem face do ser. sob as chuvas que não vos

Embora; escutai-me,
VIII
que eu falo com a voz
Se falta alguém nesses versos
inata que diz
pele vento interminável,
que a voz não é essa pelas arenas de estátuas,

que fala por mim, sucedam-lhe os cegos olhos

sacudidos pelos medos,


talvez minha fala
mãos de chuvas lhe inteiricem
saída de ti.
o corpo com algas remissas

e com matérias tranqüilas

tão soturna como os poços,

exasperados invernos,
e
ombros de escova
inconfidentes comida,
quase abominadas dos corpos.
por oculta
as asas secas
paixão, caídas,
se intumesceram. E a relatividade
do espírito
ante seus netos calados;
Lírios eram
e incorporem-se a esse alvitre
subindo para
esse sabor de cortiça,
desceram
essas esponjas morridas,
cantando
essas marés estanhadas,

essas escunas de espáduas Canção


melhor. Maisfechadas
estritamente consentimentos puros olhos.
Eu sei de cor
como casas de abandono,
Tudo contém
restringem-se os conciliábulos,
Mas da selva
certos sigilos de pez,
dos que
certas coisas enlutadas,
sem saliva de
refúgios, dramas ocultos,

pois as rosas são de trapos


Ninguém
e os fios menos que teias,
E esse amor é
menos que finos agora,
com a
e as camisas sem os pêlos

enterrados nas ilhargas,


X
vestem enganos e punhos

e crimes em vez de adegas, Vós não

mas tudo em vão, mesmo as os outros vos

felizes
mesmo os ausentes e as vozes
agregações
aderidas a fragmentos
enfim
aí moram degredadas,

listrando as grades, de faces e tudo

que não conhecem espelhos e mais

e tantas
IX

acotovelamentos,
m. Os desejos desgastes de

rgas e a barbárie
tão puro de todo o mal,

relativo, universal.

Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques,

Dizei-me se acaso vós

éreis eles ou voz sou

de algum avo tão otário,

tão eu mesmo como voz,

como poema de outros vários.

XII

O simples ar

de uma só corda

em curta raia,

mão de menino,

punhado escasso,

ar perfumado,

sem o alvoroço

dos vendavais;

anjo acolhido
XI
em róseo céu

Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, abrigo instante,

pranto lavado,
Clodoveu ou Clodovigo?
chorar em ti
Éreis vós por acaso eles?
de arrependido,
Éreis vós aqueles nomes,
subir teus vales,
estes, e os demais já mortos,
amar teu pólen,
os mortos tão renovados
nunca escapar-me
nós mesmos sempre chamados
de tuas pétalas
Lutero, Lotário, otário,
cair com elas.
sim otário tão singelo,
XIII na inocência do ar coleado,

intranqüilas e veementes.
Uma janela aberta Ao zênite e areia em sede,
e um simples rosto hirto, asas das hastes pendidas,

e que provavelmente as nuvens-castelas altas

nela se debruçou; como painas amealhadas.

e nesse gesto puro De tarde a visão das velas,

nuvens baixas sobre as verdes


do rosto na janela
rosas das hastes fictícias;
estava todo o poema
os desejos dissolvidos
que ninguém escutou;
repousam abertamente;
só a janela aberta
e esse deserto de vozes
e o espaço dentro dela
e estes cabelos perenes
que o tempo atravessou. de seus nervos para os dramas.

Mas se as palmas fossem isso,


XIV as fontes seriam pratas,

e as pratas seriam o
O contro era um dia,
puro sonho de quem vive.
um dia futuro,
Todavia o sonho é como
e dentro do dia
as palmas dessas palmeiras.
incluído o conforme,
Eis as palmas.
e dentro o que foi

porque fora isso


XVI
se tal não se dera,

se o mundo parasse Os dois ponteiros


e o espaço se excluísse; rodam e rodam,
se a pedra não fosse mostrando o horário
o símbolo que era irregular.
pois tudo era um dia, Horas inteiras
um dia sem dia, despedaçadas,
porém com o poeta horas mais horas
que um dia seria. desmesuradas.

Com seu compasso,


XV lá vem a morte

pra teu transporte,


De manhã estrelas verdes
e com os dois braços:
esta é tua hora,
parar no outro dia?
levo-te agora.

XIX
XVII

Roteiros vencidos
Um te exalou
compassam a festa:
nessa incidência:
a noiva está fria
céu, terra, mar;
no véu lamentado.
impermanência.
Três potros desfraldam-se
Outro te andou
três faces transcorrem
te indo e te vindo
no coche morrido,
pra te juntares,
em vão galopado.
te convergindo
O nome do noivo?
Quem te volou,
O nome da noiva?
esse te deu
O nome do diabo?
o sono no ar.
Três nomes corridos,
Esse te entoou
três sombras penadas
e te nasceu
no drama calado.
sem te acordar.
XX

XVIII Aqui e ali

me encontrareis,
No dia seguinte: entre um poema

chamamos de terra, ou em seu curso,

o poema te leva além e aquém,

oculto e claro,
te dana, te agita,
vivo ou demente,
te vinca de cruzes,
ou mesmo morto,
te envolve de nuvens. ou renascido

Quem sabe aonde vai como meu sósia,


intermitente, canto de galo

ferida tórpida. crepuscular,

pulso de febre, profusamente

nesse cavalo, cedo se oculta

naquela tinta, por essas laudas

naquele poema sem perceber

quase alicerce, seu fácil ímpeto

quase esse infante, ante a palavra

esse anjo surdo. visualizada;

Ia esquecendo: mas de repente

eu e meu sósia desaparece.

somos momentos Agora eu surjo

entrelaçados. naquela esquina,

Ei-lo veemente naquele pórtico

volta a seu palco, falam de mim;

sobe a uma origem, ouço transido

desce de novo, esses vocábulos

envolto ou nu, desconhecidos,

esse homem gêmeo, emerso em rios

jamais verdugo, que vão passar,

mas palma incerta, mergulho em rumos

acontecidos,
sendo meu pai,
sucedo em mim,
meu filho e neto
depois vou indo
e aquele longe
fundo e arrastado
porém limiar,
na correnteza
malgrado e clâmide
que é de repentes.
aberta e alípede,
Morto incorrupto
foi argonauta,
guardo meus naipes
podia sê-lo
mais pressentidos,
se esse jacinto
intercadentes,
não fosse canto,
desordenados,
não há atavios, me patenteio,

não há disfarces, fico exaltado

dissolução sem parecer;

dos prantos largos depois me espreito

manando laivos, na curva adiante,

lanhando aspectos; simbolizado,

desacredito-me metade em mim

perante os leves, inda nascendo,

nem sabedor a outra metade

de alas longevas, superlotada;

se o porvindouro então me sano

é puro exórdio excluindo as nucas

precocemente executáveis;

desencantado; não evidentes

se os seus presságios nem aberrante

remanescidos, me envolvo de alma,

salvo-condutos doce alimária

manifestados; com alguns anexos

correm desvios aparelhados

vulgares trilhos, para colher

que todavia belas paisagens

prossigo em mim, e outros petrechos

minha progênie,
do sósia amado;
uns dementados,
quero sofrer-me,
outros co-réus,
quero imitar-me,
reconciliando-me
fico empunhado
com os mutilados
meu corpo no ar,
e este glossário
dependurado,
que é de meu sósia;
meio aderido
abastecido
a alguns palhaços
alego dores,
insimulados,
crescentes cargas;
portanto, instáveis, desse poema

muito insossos, recomeçado

muitos até por novo sósia.

beatificados;

ventos corteses

bem-parecidos XXI

vêm agitar
As portas finais,
nosso espantalho,
os cantos iguais,
enquanto as aves
os pontos cardeais,
canoramente
sempre obsidionais.
se desaninham
Os tempos anuais,
de nossos braços,
as faces glaciais,
ossos atados
as culpas filiais
a chão deitados,
sempre obsidionais.
chãos contestados
Os dois iniciais,
por figadais,
as dores tais quais,
mas afinal
os juízos finais
chãos estrelados
sempre obsidionais.
de algumas plantas

ambicionadas
XXII
por umas moças

que andando sós Era uma vinda,

se despetalam dadas as luzes,

e virar brisas, dadas as faces

fagueiras asas, que ali se achavam,

pelas janelas nenhuma espúria,

passam nos vidros, nenhuma enferma,

vão aos relógios dadas as cores,

param os cucos, dadas as falas

e a vila fica que ali se achavam;

inteiriçada. dadas as provas

dormindo dentro dessas presenças


XVIII
deu-se o milagre

em aços doces,
Quando menos se pensa
em gumes brandos

em chamas graves; a sextina é suspensa.

formou-se um gênio E o júbilo mais forte


pentangular
tal qual a taça fruída,
que começava
antes que para a morte
com a estrela Vésper,

riscando a noite vá o réu da curta vida.


sem se acabar; Ninguém pediu a vida
formou-se um lírio
ao nume que em nós pensa.
na suave treva,
Ai carne dada à morte!
gerou-se um grito

de tantas vozes, morte jamais suspensa


criou-se um fogo
a taça sempre fruída
correspondente,
última, única e forte.
jorrou-se um pranto

desabitado. Orfeu e o estro mais forte

Era uma tarde: dentro da curta vida


ninguém sabia
a taça toda fruída,
o que no mundo
fronte que já não pensa
ia acabar.

Sei que houve portas canção erma, suspensa,


escancaradas, Orfeu diante da morte.
sei que houve apelos
Vida, paixão e morte,
antiencarnados.
- taças ao fraco e ao forte,
E houve um dilúvio,

mas era um fogo taças - vida suspensa.


desabrochado.
Passa-se a frágil vida,

e a taça que se pensa

eis rápida fruída.


Abandonada, fruída, que a busca recomeça

esvaziada na morte, cada vez mais obscura

Orfeu já não mais pensa, da visão mais espessa

Calado o canto forte repousada nas trevas

em cantochão da vida, Ah! difícil procura!

cortada ária, suspensa. Incessante procura

Lira de Orfeu. Suspensa! entre noturnas Evas,

Suspensa! Ária fruída, entre divinas trevas,

sextina artes da vida Eurídice começa

ser rimada na morte. a trajetória espessa,

Eis tua rima forte: a trajetória obscura.


rima que mais se pensa. Desceu à pátria obscura

em que não se procura

alguém na sombra espessa

e onde sombras são Evas,

e onde ninguém começa,

XXIV mas tudo acaba em trevas.

Infernos, Evas, trevas,


A sextina começa
lua submersa e obscura.
de novo uma ária espessa,
Aí a ária começa,
(sextina da procura!)
e não finda a procura
Eurídice nas trevas,
entre as celeste Evas
Ó Eurídice obscura.
a Eva da terra espessa.
Eva entre as outras Evas.
Eurídice, Eva espessa,
Repousai aves, Evas,
musa de doces trevas,
mais que todas as Evas - Então corríamos, devassos,

quase enlaçando-a: ela fugia.


musa obscura, Eva obscura;
Era uma deusa pelos modos
sextina que procura
com que mentia e se ausentava.
acabar, e começa.
Mas outro dia, vago dia,

abrutamente a aprisionamos.
XXV
O que tu és, deusa, ignoramos,

mas desejamos, qualquer coisa


A musa A barba tão preta
fazer de ti, terror ou júbilo

ou nossa vênus favorável


morta que as amantes tão
las ou nossa esfera de vocábulos.

vem de Amara onze e mais Ela chorava, não queria;

e o pranto logo dissolvia.

outros morta, em alma, sem Então descemos, ventre abaixo

e renascemos de seu sexo,


livros tumba, e que amara -
a. - trânsito virgem de palavras.

Era uma deusa, pela fúria

com que nós todos a ultrajamos.


XXVI
Era uma deusa e não sabíamos

se cada qual mesmo a violou.


Sombra encantada, declinara
Era uma deusa, pela dúvida
num vago dia, incerto dia.
que em cada um de nós, deixou.
Eis uma deusa, pelos gestos,

por sua dança, sua órbita.


XXVII
Era preciso compreendê-la,

mas quando nós a


Contemplar o jardim além do

a deusa arisca recuava.


e a mulher silenciosa entre
Se nós recuávamos, voltava
e refazê-los todos, todos antes
ao nosso encontro, sem tocar-
que o tempo condenado os

Porque eu quero, em memória refazê-los: À

flor longínqua, mulher, não


da

substância inexistente, móvel

intercessão de nadas e cabelos.

E meus olhos ausentes me

entre as coisas caducas e fugaces

a minha intercessão em outras

Orfeu, para conhecer teu

em que queres senhor, que eu me

ou me forme de novo, em que

Jorge de Lima