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MUNDO DO BELO

ENSINAMENTOS DE
MEISHU SAMA
Mundo do Belo

ÍNDICE
MUNDO DO BELO......................................................................................................................1
ENSINAMENTOS DE ..................................................................................................................1
MEISHU SAMA............................................................................................................................1
ÍNDICE.........................................................................................................................................2
PREFÁCIO...................................................................................................................................5
NOTAS.........................................................................................................................................8
I - DO ESTADO ARTÍSTICO........................................................................................................9
DISCURSO INFORMAL EM HAKONE ....................................................................................9
ZUIUN-KYO — COMO UM LOCAL DE RENOME MUNDIAL................................................11
CONSIDERAÇÃO ACERCA DO PARAÍSO TERRESTRE.....................................................14
O SIGNIFICADO DO SHINSEN-KYO.....................................................................................15
ATÉ A CONCLUSÃO DO PARAÍSO TERRESTRE................................................................16
O PARAÍSO É O MUNDO DA ARTE......................................................................................25
A CONCEPÇÃO DO PARAÍSO TERRESTRE.......................................................................26
OS JARDINS DA TERRA DIVINA..........................................................................................28
NÃO PERTUBEM O MEU TRABALHO (I)..............................................................................31
A RESPEITO DO PARAÍSO TERRESTRE............................................................................34
O GRANDE SIGNIFICADO DO PARAÍSO TERRESTRE DE SHINSEN-KYO.......................35
CUMPRIMENTOS DE ANO NOVO........................................................................................38
II - SOBRE O MUSEU DE BELAS-ARTES...............................................................................40
A ILHA DE HORAI..................................................................................................................40
NÃO PERTURBEM O MEU TRABALHO (II)..........................................................................42
ATÉ A CONCLUSÃO DO MUSEU DE ARTE.........................................................................46
SIGNIFICADO DA CONSTRUÇÃO DO MUSEU DE ARTE...................................................51
A SOCIALIZAÇÃO DA ARTE.................................................................................................55
III — SOBRE A COLEÇÃO DE OBJETOS DE ARTE...............................................................57
MINHA FORMAÇÃO ARTÍSTICA...........................................................................................57
PORQUE AS OBRAS-PRIMAS CHEGARAM ÀS MINHAS MÃOS........................................59
O MUSEU IDEALIZADO POR DEUS.....................................................................................62
UM MUSEU DE ARTES DEMOCRÁTICO..............................................................................66
OS MILAGRES DA COLETA DE OBRAS DE ARTE..............................................................66
IV— SOBRE A ARTE................................................................................................................68
RELIGIÃO E ARTE.................................................................................................................68
A MISSÃO DA ARTE..............................................................................................................68
CARACTERÍSTICAS PARTICULARES DA CIVILIZAÇÃO JAPONESA.................................70
O PARAÍSO É O MUNDO DAS ARTES.................................................................................74
A RESPEITO DA COLETÂNEA DE POEMAS “YAMA TO MIZU” (MONTE E ÁGUA)............75
RELIGIÃO E ARTE.................................................................................................................76
MINHA CRÍTICA SOBRE PINTURA.......................................................................................77
RELIGIÃO ARTÍSTICA...........................................................................................................81
O PARAÍSO É O MUNDO DO BELO......................................................................................83
SOBRE A ARTE DA VELOCIDADE E PICASSO...................................................................85
CIÊNCIA E ARTE...................................................................................................................87
SERMÃO................................................................................................................................89
V - SOBRE OS ARTISTAS........................................................................................................91
OGATA KORIN ......................................................................................................................91
O SABER DAS COISAS.........................................................................................................92
A RAZÃO DO DESAPARECIMENTO DOS GRANDES MESTRES (II)*................................96
A RAZÃO DO DESAPARECIMENTO DOS GRANDES MESTRES (III).................................99
MINHA DEFERÊNCIA PELOS ARTISTAS...........................................................................102
VI - SOBRE A APRECIAÇÃO.................................................................................................104

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Mundo do Belo

A ARTE JAPONESA E SEU FUTURO.................................................................................104


1 - A Pintura ............................................................................................................... 104
2 - A Escultura ........................................................................................................... 109
3 - Os trabalhos de laca ............................................................................................ 109
4 - A Cerâmica ............................................................................................................ 111
5 - A Caligrafia ........................................................................................................... 115
A RESPEITO DA ARTE CALIGRÁFICA...............................................................................117
IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS...............................................119
IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (II).........................................122
IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (III)........................................125
IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (IV)........................................129
INTRODUÇÃO À XILOGRAVURA UKIYO-E — PREFÁCIO................................................133
MOKITI OKADA, DIRETOR DO MUSEU DE ARTE DE HAKONE.......................................133
VII — ANDANÇAS ARTÍSTICAS............................................................................................135
VIAGEM À REGIÃO OESTE DO JAPÃO.............................................................................135
CONSIDERAÇÕES SOBRE A "EXPOSIÇÃO DOS TESOUROS DO TEMPLO KOFUKU-JI”,
DE KASUGA, NA LOJA DE DEPARTAMENTOS MITSUKOSHI..........................................141
ANDANÇAS ARTÍSTICAS POR NARA................................................................................145
VIII — A RESPEITO DE EXPOSIÇÕES..................................................................................148
INDO A EXPOSIÇÕES (I).....................................................................................................148
OBSERVANDO OS PINTORES DE QUIOTO......................................................................148
AS OBRAS HODIERNAS.....................................................................................................150
A PEÇA QUE DESPERTOU A MINHA ATENÇÃO...............................................................150
INDO A EXPOSIÇÕES (II)....................................................................................................151
VENDO A EXPOSIÇÃO DE PICASSO.................................................................................153
A PINTURA JAPONESA: HOJE PRESTES AO FENECIMENTO........................................157
VENDO A "EXPOSIÇÃO DO INSTITUTO JAPONÊS DE ARTES"......................................163
IX — SOBRE A FLOR E O BELO...........................................................................................167
CAMPANHA DE FORMAÇÃO DO PARAÍSO POR MEIO DAS FLORES............................167
AS PLANTAS TÊM VIDA......................................................................................................169
X - DIÁLOGOS.........................................................................................................................171
DIÁLOGO ENTRE MEISHU SAMA E O SENHOR MUSEI (I)..............................................171
DIÁLOGO ENTRE MEISHU SAMA E O SENHOR MUSEI (II).............................................174
REGISTRO DAS ENTREVISTAS ENTRE MEISHU SAMA, A SRTA. DAVID E
JORNALISTAS.....................................................................................................................178
As duas nações mundiais das artes ....................................................................... 178
Korin vivo na França ................................................................................................. 181
A Igreja Meshia-kyo e o Museu de Arte .................................................................. 186
A CALIGRAFIA É A EXPRESSÃO DA PERSONALIDADE..................................................189
ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO TANIKAWA, DIRETOR DO
DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (I) . .190
ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO TANIKAWA, DIRETOR DO
DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (II). .195
A respeito da Xilogravura Ukiyo-e ........................................................................... 195
SOBRE PEÇAS CALIGRÁFICAS DE GRANDES MONGES E MANUSCRITOS ANTIGOS 201
ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO TANIKAWA, DIRETOR DO
DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (III). 204
Sobre utensílios da Cerimônia de Chá ................................................................... 204
ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO TANIKAWA, DIRETOR DO
DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE
(CONCLUSÃO).....................................................................................................................210
Sobre a porcelana chinesa ....................................................................................... 210
Sobre peças de jade e de bronze ............................................................................. 215
Sobre imagens budistas ........................................................................................... 216
DIALOGAR É PRECISO.......................................................................................................217
XI - ENSAIOS...........................................................................................................................220

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Mundo do Belo

BERNARD SHAW................................................................................................................220
A comoção provocada por “O Discípulo do Diabo” .............................................. 220
O teatro burlesco pacifista ....................................................................................... 221
O gênio da literatura jamais igualado em franqueza ............................................. 222
VIAGEM AOS ALPES...........................................................................................................223
De Okunikko a Shiobara ........................................................................................... 228
As Termas de Yunishikawa ...................................................................................... 233
XII - ENTRETENIMENTO.........................................................................................................236
CANÇÃO..............................................................................................................................236
A ARTE DE DANJURO.........................................................................................................238
AIZO NANIWATEI.................................................................................................................242
XIII - CINEMA...........................................................................................................................245
EU E O CINEMA...................................................................................................................245
CINEMA................................................................................................................................248

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Mundo do Belo

PREFÁCIO

Estamos editando o livro intitulado “O Mundo do Belo” que, sendo


obra irmã de O Alicerce do Paraíso e de A Saúde Revelada por Deus,
anteriormente publicados, compila os Ensinamentos de Meishu Sama
(Fundador da Sekai Kyussei Kyo, Mestre Mokiti Okada) concernentes às
Artes.

Meishu Sama considera que o Paraíso Terrestre — o mundo da


verdadeira civilização, o qual é o objetivo máximo comungado por Deus e
pelo homem — é, em outros termos, o “Mundo do Belo”. Afirma Ele:
“Simplificando, o Paraíso Terrestre por nós professado é o Mundo do
Belo. No homem, é a beleza espiritual. Naturalmente, suas palavras e
ações também devem ser belas. Essa beleza individual, expandindo-se
amplamente, dá origem à beleza social”.

Ensina-nos, de tal modo, que o relacionamento humano, as


habitações, as ruas, os meios de transporte e os parques devem ser mais
belos e, num âmbito mais amplo, a Política, a Educação, a Economia e a
Diplomacia; tudo, enfim, deve se tornar belo e puro.

Sobre o Mundo do Belo, Meishu Sama preconiza: “Certamente,


cabe às Artes a missão de elevar a sensibilidade humana, enriquecer e
alegrar a vida, dotando-a de significado. Quando alguém possuidor das
noções básicas de Arte e Literatura aprecia as flores da primavera, o
colorido do outono, o panorama oferecido pelas montanhas e pelos mares,
emana do seu íntimo uma alegria indescritível. O Paraíso Terrestre, nosso
ideal, não é outro senão o próprio Mundo do Belo; é o mundo do
propalado lema da Verdade, do Bem e do Belo — e a Arte é, justamente, a
manifestação do Belo.

O ideal de Deus é construir o Paraíso Terrestre, e este deve ser,


por sua vez, um mundo livre de guerras, um mundo de harmonia e paz
eterna, donde a Verdade, o Bem e o Belo afluirão. Assim, aquilo que mais
se desenvolverá, nesse local, é a Arte.”

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Mundo do Belo

Meishu Sama proclamou, ainda, que o Johrei é a Arte da Vida, e a


Agricultura Natural, a Arte da Agricultura.

Com o desejo de purificar a mente humana, por intermédio do Belo,


e de habilitar o homem a morar no Paraíso Terrestre, Meishu Sama
construiu, no Solo Sagrado, o seu protótipo, erigindo como símbolo deste o
Museu de Belas-Artes — o qual abrange obras artísticas do mais alto nível.
Ademais, propôs e colocou em prática o movimento de construção do
Paraíso pelas flores.

Meishu Sama, outrossim, anunciou a construção do Mundo dos


Felizes com a eliminação das doenças, da pobreza e dos conflitos: o Paraíso
Terrestre. Para tanto, como meio de salvação radical, elucidou a Verdade,
por longo tempo, oculta nas trevas, com as suas palestras e dissertações.
Instituiu o Johrei, para purificar o espírito do homem pela Força Divina
ilimitada e sem igual, abrindo caminho para o homem se tornar saudável —
tanto física como mentalmente. Iniciou, ainda, o método da Agricultura
Natural, proporcionando à sociedade a condição para gozar de saúde com o
consumo de alimento puro e repleto de energia vital.

Podemos, também, verificar, pelos Ensinamentos aqui compilados,


que Meishu Sama almejou a purificação espiritual do homem por meio do
contato com a Beleza, procurando formar indivíduos dotados de
consciência, cultura e saúde verdadeiras.

Reconhecendo que para tanto se fazem necessárias a Educação, a


Religião e a Moral, Meishu Sama concluiu, por experiência própria, a
evidente dificuldade de apenas com tais princípios elevar o espírito
humano. São suas as palavras: “Tenho o meu método que objetiva a
transformação do homem por intermédio da Beleza, método este jamais
posto anteriormente em prática”, e estabeleceu um caminho inédito para a
salvação, nunca experimentado por religião alguma no passado.

Ele explanou, além disso, que o Paraíso Terrestre é o mundo onde a


civilização terá atingido o seu grau máximo de desenvolvimento, onde toda
a herança cultural acumulada arduamente, ao longo dos tempos, pela

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Mundo do Belo

humanidade, será utilizada de maneira correta. Nesse sentido, a


universalização do Belo, aliada a outros métodos que salvam, é condição
indispensável para que se concretize o Paraíso.

A salvação propagada por Meishu Sama, portanto, é completa e


ampla em todos os sentidos, visando às inovações necessárias, na totalidade
dos aspectos da vida, para a edificação do Paraíso Terrestre. Assim, Meishu
Sama proclamou ser não apenas o profeta arauto da vinda do Paraíso, mas,
ainda, o seu próprio concretizador. Nós, cientes deste fato, devemos
discernir também o significado de suas palavras que dizem que a Sekai
Kyussei Kyo não é uma religião, e sim, que a religião é uma parte dela.

Devemos ler e apreciar os Ensinamentos compilados no presente


livro e compreender a importância de nos familiarizarmos com a arte,
estando em contato com a beleza existente na vida cotidiana. Ao mesmo
tempo, devemos assimilar a vontade e o amor de Meishu Sama contidos
nestes Ensinamentos, de salvar a humanidade, em meio à satisfação e a
alegria, transformando este mundo em Paraíso.

Conta-nos Meishu Sama: “Desde cedo eu apreciei tudo o que se


relacionava com o Belo e, embora sofresse com a pobreza, plantava flores
em pequenas áreas de terra inculta; se tivesse tempo, me punha a
desenhar; visitava, na medida do possível, museus e exposições,
comprazendo-me com as flores na primavera e com o colorido das
folhagens no outono”. Por essa frase, podemos deduzir o quão ele amou a
Beleza e apreciou as Artes desde jovem. Por tal razão, além de ser o
grandioso Salvador, Meishu Sama foi alguém de cultura incomparável, que
Se relacionou, amigavelmente, com personalidades de fama no mundo
intelectual e cultural, como é possível verificar pelos fatos publicados em
Suas Reminiscências.

Tomando Meishu Sama por modelo, é desejável que, não por


obrigação, mas espontaneamente, cultivemos, na vida cotidiana, o nosso
íntimo, de maneira a buscar a Beleza e a familiarizar-nos com as Artes e,
por meio disso, contribuir em prol da construção do Paraíso Terrestre.

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Mundo do Belo

NOTAS

Encontram-se compilados no presente livro:

1. Extratos de Ensinamentos, concernentes às Artes, de obras já


publicadas, dissertações e ensaios, ainda inéditos, de autoria de Meishu
Sama;

2. Além das dissertações e ensaios acima mencionados, colóquios


acerca das Artes;

3. Parte dos Ensinamentos já publicados no Alicerce do Paraíso.

Observemos, ademais, que:

1. Os Ensinamentos foram ordenados e intitulados segundo a


classificação realizada pela editora;

2. Fizeram-se ratificações ocasionais na terminologia anteriormente


utilizada, por falhas terem sido percebidas na redação original;

3. Esclareceram-se, no final de cada Ensinamento, a fonte e a data


da sua publicação — ou apenas a data — no caso de serem inéditos.

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Mundo do Belo

I - DO ESTADO ARTÍSTICO

DISCURSO INFORMAL EM HAKONE

O protótipo do Paraíso Terrestre, ora construído em Gora, Hakone,


e freqüentemente citado por mim, tem sua primeira etapa em fase de
conclusão. Quem o vê pela primeira vez, surpreende-se muito — ou
melhor, mesmo quem o viu, já por várias vezes, espanta-se com sua
vertiginosa transformação. O pavilhão Soun-kaku (atual Nikko-Den), que
comporta cerca de mil pessoas, está quase concluído, e, no momento,
estamos trabalhando na construção dos jardins e da casa de chá. Esta última
é executada por um dos mais famosos carpinteiros japoneses, especialista
nesse tipo de construções, Seibee Kimura, de 80 anos. Ele se comprometeu
a construir, com todo o empenho, a obra-prima de sua carreira. Aqueles que
viram o andamento da obra falam que, depois de pronta, ela será
considerada a primeira desta região. Seu planejamento deu-se na primavera
de 1946, logo depois do término da Segunda Grande Guerra, e a sua
conclusão, finalmente, está prevista para o término do corrente, tendo
levado quatro anos.

Pode haver quem me critique por construir algo tão soberbo, numa
época em que o Japão passa por crises de fome e falta de moradias. O que
eu tenho em mente, contudo, não é a ostentação, mas algo profundo e
significativo, antevendo a chegada do dia de apresentar ao mundo a beleza
peculiar da Arquitetura nipônica. Como é do conhecimento geral, os
americanos demonstram acentuado interesse pela cerimônia japonesa do
chá. No tocante a isso, na primavera de 1946, o general Smith e a cúpula de
seu comando — que estão estabelecidos no Japão — quiseram apreciar a
citada cerimônia. Por intermédio das autoridades da cidade de Atami, eu
ofereci a sala de chá de Tozan-so (Solar da Montanha Oriental), minha
residência na ocasião. Tal atitude também contribuiu em muito para o
estímulo do meu espírito.

A casa de chá em questão abrange a área de 82,5 metros quadrados,


e, como o senhor Seibee tem-se esmerado em seu trabalho, encontro-me
desde já ansioso para vê-la pronta. Deverá ser uma coisa notável. Pela sua

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Mundo do Belo

finalidade de apresentar a arte do caminho do chá para estrangeiros, um


mestre afamado mostra-se animadíssimo com o projeto, vindo não somente
orientando na construção propriamente dita, como também está se
comprometendo a envidar esforços no sentido de internacionalizar a
Cerimônia do Chá.

Quanto aos jardins, planejo criar uma beleza paisagística


inteiramente inovadora. A disposição de cada árvore e de cada pedra está
sendo determinada sob a minha orientação, já que considero que os jardins
tradicionais não se adequam ao senso estético desta Nova Era.
Originariamente, a jardinagem japonesa iniciou-se na era Ashikaga,
atingindo a sua perfeição na era Toyotomi, graças ao Duque Enshu Kobori,
sendo que, mesmo hoje, há vários exemplares desses jardins em Quioto. Na
era Tokunaga, coexistiram dois estilos: o jardim feudal, remanescente até
hoje em diversas localidades, e aquele adequado para casas de chá,
concebido pelo grande mestre da Cerimônia do Chá, Senno Rikyu. Existe
também o jardim ocidental, com seus canteiros geométricos, mas este não
se adapta muito ao gosto moderno. Ademais, constitui fato inegável que,
não obstante a construção arquitetônica ter passado por grandes progressos,
o paisagismo muito pouco evoluiu.

Tomando em consideração os fatos acima, não sou especialista,


todavia, talvez por revelação divina, ou uma espécie de sensibilidade
espiritual, estou conduzindo as obras adiante. Pode-se dizer que tudo ocorre
por milagres: por exemplo, consegui obter com facilidade o melhor local
paisagístico de Hakone. Além da conformação topográfica do sítio ser
ótima, sua vista excelente e seu passado histórico, existem nela inúmeras e
gigantescas rochas de formatos exóticos, posicionadas de maneira
adequada nos locais certos. As árvores, os arbustos, as plantas, as flores —
todo o necessário encontra-se, nesse local, misteriosamente reunido. Não
preciso me preocupar com coisa alguma. Assim, de maneira interessante,
os jardins fazem parte das diretrizes nacionais que visam ao deleite dos
olhos do visitante estrangeiro, de maneira a proporcionar o entendimento
do que a Arte japonesa tem de bom.

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Mundo do Belo

Além do mais, é de se esperar também a elevação do sentimento


japonês, demonstrando que somos um povo de índole pacífica e de cultura
elevada. Concomitantemente, é preciso, o quanto antes, apagar a imagem
de país agressivo e invasor. Outro objetivo meu é iluminar a alma humana
por meio da Beleza. A Educação, a Religião e a Moral são, sem dúvida,
necessárias para a formação do ser humano. Todavia, a experiência
demonstra que somente com isso é difícil conseguir elevar espiritualmente
o homem. Tenho, pois, planos de educar a alma humana pela Beleza,
método jamais tentado por alguém.

Hikari, nº 17 — 9 de julho de 1949

ZUIUN-KYO — COMO UM LOCAL DE RENOME MUNDIAL

Dizia-se que o protótipo do Paraíso Terrestre, que ora estou


construindo em Momoyama, Atami, era, no início, o primeiro do Leste do
Japão. Posteriormente, com o desenvolvimento das obras, passaram a dizer
que era o primeiro do país. Hoje, os comentários são de que é o primeiro do
mundo. De fato poderíamos citar, como prédio de caráter religioso, com
fama mundial, em primeiro lugar, pela antigüidade, o Partenon da Grécia; a
seguir, como obras da Idade Média, o Palácio do Vaticano de Roma e a
Abadia de Westminster da Inglaterra. Outro exemplar de construção
renomada, apesar de não se tratar de templo, é o Palácio Imperial de
Pequin. Sua beleza arquitetônica dimensionalmente grandiosa e imponente
capacita-nos a considerá-lo, com certeza, a primeira em termos mundiais.
No Japão, temos, indubitavelmente, o Templo Toshogu, de Nikko: este,
sim, o único edifício do qual podemos ter orgulho diante do resto mundo.
Posto em cotejo com as mencionadas construções, o Zuiun-kyo é
bem modesto: os fundos nele investidos não atingem nem a alguns
centésimos dos que foram nas outras. Contudo, no que tange aos demais
aspectos, quero dizer — o seu posicionamento, o seu panorama geral, ou a
vista que o circunda, enfim, a beleza paisagística, que se pode daí desfrutar
infinitamente — torna-o ímpar neste vasto universo. É esse o elogio
uníssono de vários especialistas no assunto. Passarei a descrevê-lo
pormenorizadamente. Temos, antes de mais nada, o ambiente naturalmente
adequado. O monte em que se localiza não é muito alto: uns cem metros

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Mundo do Belo

acima do nível do mar. Além disso, dista algumas quadras da estação


ferroviária, o que significa uma caminhada de quinze minutos, ou cerca de
cinco minutos de carro; não poderia haver lugar mais conveniente. O seu
cronograma de construção prevê três estágios. Atualmente, encontram-se
em andamento as obras do primeiro, e prevê-se para meados do corrente o
preparo do terreno. Na sua parte mais alta, cuja área mede 3.960 metros
quadrados, programa-se a edificação de um templo de 1.188 metros
quadrados, com perto de trinta e dois metros de frente e trinta e seis de
fundo. Sua forma será moderníssima, no estilo Le Corbusier, da França —
aquele que hoje domina o mundo —, tendo eu acrescentado um toque ainda
mais moderno ao projeto. Seu desenho é simples ao extremo: um prédio
sem telhado e inteiramente branco. Curiosamente, parece que o estilo Le
Corbusier nasceu das construções destinadas para a Cerimônia do Chá.
Numa das laterais do terreno, já está erguido um muro de sete metros de
altura e noventa metros de extensão. Somente este já é o bastante para, com
sua imponência, deixar boquiaberto quem o vê.

É indizível a beleza das curvas, ricas em variação natural, das


colinas que se elevam e afundam ao redor do núcleo dominado pelo
templo: não se pode evitar de pensar que foi Deus quem preparou este
local. Ao contemplarmos o conjunto do seu sopé, provavelmente
experimentaremos a sensação de viajar por um país de sonhos, esquecendo-
nos de que estamos neste mundo.

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Mundo do Belo

Quanto a isso, o atual projeto prevê o plantio de cem pés de


ameixeiras de idade avançada, igual número de cerejeiras da variedade
Yoshino, cinqüenta pés de cerejeira de flores dobradas, algumas dezenas de
azáleas gigantes, arbustos tais como timeléias, roseiras, lilares, glicíneas,
globuláceas, camélias, além de flores como tulipas, jacintos, narcisos,
crisântemos de primavera, anêmonas, amores-perfeitos, cravos, ciclamens e
outras mais. Já que todas essas plantas florescem exclusivamente na
primavera, o espetáculo, na época em que o Zuiun-Kyo foi inaugurado,
decerto escapa à imaginação e, naturalmente, será algo inédito no mundo.

O que até agora vim descrevendo diz respeito apenas ao primeiro


estágio. Acredito que, com a conclusão do segundo e terceiro seguintes,
esta obra será, infalivelmente, um dos motivos de orgulho do Japão.
Podemos, portanto, desde já, contar com que o Templo Toshogu, de Nikko,
e o Paraíso Terrestre de Atami, façam parte do programa obrigatório do
visitante estrangeiro no Japão.

Finalmente, desejo esclarecer o motivo original que me levou a


projetar a citada construção. Como sempre digo, a missão do Japão está em
ser o país da Arte. Assim, meu objetivo está na criação de uma obra-prima,
unindo as belezas natural e artificial japonesas. Para tanto, antes de mais
nada, é primordial a escolha da sua localização. A conclusão a que cheguei,
após percorrer o país inteiro, foi de que Atami constitui o sítio ideal e
excelente para o projeto. Desnecessário discorrer a respeito do seu clima
ameno, das termas, das suas montanhas, do seu mar, das suas ilhas
(Hatsushima e Oshima) e da beleza incomparável da paisagem oferecida
pela riqueza de recortes da sua linha marítima. Além disso, tome-se em
conta a sua facilidade de acesso, por se localizar na distância média entre as
Regiões Leste e Oeste, sua vizinhança com o Parque Nacional de Hakone e
a Península de Izu, etc. Na verdade, um sítio excelente concedido pela
graça divina, do qual nada mais se tem a exigir. Tudo isso sem contar que
adquirimos consecutivamente mais de sessenta e seis mil metros quadrados
dos terrenos com a melhor paisagem dentro de Atami. Naturalmente, como
sua compra se deu há alguns anos, quando os preços eram extremamente
baixos, não resta a menor dúvida de que Deus o preparara outrora, para tal

13
Mundo do Belo

fim, sendo evidente que reúne as condições necessárias para a construção


do protótipo do Paraíso Terrestre.

Kyussei, nº 49 — 11 de fevereiro de 1950

CONSIDERAÇÃO ACERCA DO PARAÍSO TERRESTRE

Aquilo a que nos referimos como Paraíso Terrestre é, em termos


mais claros, o Mundo do Belo. Teremos, assim, o embelezamento das
relações pessoais, dos prédios, das ruas, dos meios de transporte, dos
parques. Como ao belo coaduna-se o asseio, deveríamos ter, em escala
mais ampla, o embelezamento e o saneamento da administração pública, da
educação e da atividade econômica, assim como devem tornar-se mais
belas também as relações diplomáticas internacionais. Raciocinando assim,
percebe-se o quão a sociedade contemporânea encontra-se repulsiva.
Especialmente, a beleza é excessivamente escassa nas classes baixas. A
razão está em elas serem por demais economicamente desfavorecidas, fato
que colabora tanto para a decadência do Ensino, quanto para a precariedade
dos estabelecimentos públicos. Daí, conseqüentemente brotará também a
intranqüilidade social.

Desejo tocar em particular, aqui, sobre o campo das diversões. No


tangenteàs diversões, é mister a presença efusiva da Beleza. O motivo
encontra-se em que não há nada que suplante a consciência do Belo na
elevação da sensibilidade humana. Por isso, também, é que sempre
exortamos para o exercício da Arte. Desnecessário mencionar, agora, o
quanto a baixeza e a vulgaridade das Artes e do entretenimento público de
hoje em dia vêm degradando o espírito do homem.

O fator primordial para a realização do Mundo da Beleza trata-se,


pois, do poder econômico. Enquanto a população for pobre, é impossível
mesmo sonhar com essa concretização. Para a obtenção desse poderio
econômico é preciso, então, que o povo trabalhe incansavelmente, elevando
sua força de produção. A condição básica para tal encontra-se,
indiscutivelmente, na saúde de cada indivíduo. Nisto reside o ponto cardeal
desta Igreja — a manifestação da força curativa sem-par neste mundo —,

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Mundo do Belo

tornando-se evidente pelos inúmeros detentores de saúde perfeita que


efetivamente estão sendo criados.

Portanto, deve-se dizer que esta religião recebeu, pela primeira vez,
de Deus, a qualificação para estabelecer o Mundo da Beleza, sendo esse
conseguimento apenas uma questão de tempo. Assim, conclamo o público
a acompanhar atentamente, de hoje em diante, os movimentos de nossa
Igreja, para comprovar o que digo.

Kyussei, nº 65 — 3 de junho de 1950

O SIGNIFICADO DO SHINSEN-KYO

É preciso conhecer o grande e profundo significado deste Shinsen-


Kyo que — excluindo-se o Museu de Belas-Artes — está quase pronto.
Originalmente, o intento de Deus de ter criado o Japão é de torná-lo o
parque do mundo. Basta observar a Natureza nipônica para compreender o
fato. Não apenas o panorama natural, mas a beleza paisagística, bem como
a imensa variedade de espécies botânicas, são peculiaridades exclusivas do
Japão: essa é a opinião unânime daqueles que conhecem a fundo o exterior.
A tal respeito, quando comparamos o território japonês a um parque,
Hakone seria o parque dos parques. Escusado dizer que é o lugar ideal por
excelência, mesmo por sua localização. Hakone situa-se no centro do
Japão; avista-se dali, próximo a Fuji, montanha mundialmente famosa, e é
de fácil acesso, já que se localiza na divisa das regiões Leste e Oeste do
país. Outro fato incomparável é a sua condição primeira como sítio de rara
beleza paisagística. Ademais, existem neste local fontes térmicas, um
grande lago, suas montanhas não são altas nem baixas, tampouco existem
despenhadeiros que inspirem medo — pelo contrário, o seu delineamento
montanhoso é suave e maravilhoso, fazendo com que nos familiarizemos
com ele. Naturalmente, também os seus regatos são belos, contando com
cascatas, ainda que pequenas. Hakone reúne, pois, todas as condições de
lugar excelente. A par desta minha descrição, o local tem algo de bom, de
simplesmente agradável. Por natureza, eu aprecio águas termais, não
havendo quase nenhuma que eu não tenha pesquisado na Região Leste do
Japão. Todavia, creio não haver alguma que supere as de Hakone; daí a

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Mundo do Belo

razão da minha escolha. Concretizando um sonho de algumas décadas,


resolvi finalmente fixar minha residência aqui em Gora. Isso acabou
culminando com a inauguração, hoje, do protótipo do Paraíso Terrestre.

Como me referi anteriormente, o parque do mundo é o Japão, e o


parque do Japão é Hakone. Acresce-se a tal fato que o sítio de Gora situa-se
na posição mais pitoresca de Hakone, o que permite chamá-lo de “O
Parque de Hakone”. Curiosamente, o Shinsen-Kyo fora antes um jardim
japonês e, agora, abaixo dele, há um parque no estilo ocidental. Logo, é de
se deduzir também dessa perspectiva que o local fora outrora preparado por
Deus. Pela explicação acima — se bem que suscinta — poderão
compreender que o Shinsen-Kyo é um desígnio profundo e sutil da Divina
Administração do Senhor Deus. Ainda neste sentido, é possível afirmar que
o culto de hoje, destinado a comemorar o primeiro passo rumo à construção
do Paraíso Terrestre, é um evento auspicioso de caráter mundial.

Eiko, nº 70 — 20 de setembro de 1950

ATÉ A CONCLUSÃO DO PARAÍSO TERRESTRE

Passarei a escrever a respeito da construção do Paraíso Terrestre,


desde seu início, empreendimento único de nossa Igreja. Confesso que,
mesmo em se tratando apenas do seu protótipo, a empreitada não é facil. É
plausível afirmar que a construção de algo de semelhante envergadura não
acha quase precedente algum no Japão; quanto ao exterior, desconheço. No
que T´ange a mim próprio, confesso que nutria minhas esperanças, mas na
hora de agir, experimentei certa vacilação. Contudo, do lado do Senhor
Deus, que quer que de qualquer maneira eu execute esta obra, tanto a
manifestação de variados milagres como todas as circunstâncias pareciam
me impelir a tal empreendimento, de modo que minha maneira de pensar
gradativamente se modificou, e eu ganhei certa autoconvicção, passando a
aguardar a época oportuna. Isso foi por volta de 1943. A guerra com os
Estados Unidos, então, intensificava-se mais e mais. Com o perigo
representado pelo bombardeamento aéreo de Tóquio (caso isso se
verificasse, tudo estaria perdido), acabei por me ver obrigado a mudar-me.
O que percebi, então, foi que a citada oportunidade havia finalmente

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Mundo do Belo

chegado. Assim, pus-me a espreitar Hakone. A razão é que, há muito, eu já


me simpatizava demais com Hakone e Atami.

No caso de Hakone, entretanto, eu me restringia à região de Gora.


Assim, mandando procurar um imóvel aí, fiquei sabendo que a casa de
campo do Sr. Raita Fujiyama estava, oportunamente, à venda. Fui vê-la, de
imediato, e agradou-me extraordinariamente. No dia seguinte, combinei
adquiri-la. Conquanto fosse bem antigo, o prédio nada deixava a desejar. A
área do terreno tinha 1.980 metros quadrados. O prédio media 330 metros
quadrados, com a entrada voltada para o sudeste. Vencida uma escadaria de
pedra natural de mais de dezoito metros, chega-se a um alpendre, onde, por
sua vez, há uma escada de três degraus. Subindo estes e dobrando um vasto
corredor, dá-se novamente com outra escada de oito degraus. Segue-se a
ela um salão adequado para a instalação do altar. O panorama que se
descortina ao redor é realmente encantador: decerto o primeiro de Hakone.
Esta casa, ademais, do ponto de vista da sua fisionomia arquitetônica,
possui excelentes traços. A entrada do sudeste é a melhor possível; tem-se
um suave aclive do portão em diante; do alpendre até o salão há, como já
mencionei, duas escadas. Outrossim, a ala esquerda foi construída no estilo
japonês, distinta da direita, que o foi nos moldes ocidentais. Nomeia-se
esse traço de “asas de grou” — o melhor deles. Além de tudo, a ala no
estilo ocidental tem o formato de um navio, significando o avançar
rasgando as ondas: tudo é ideal, de fio a pavio. Vale ressaltar que o prédio,
no conjunto, sobreergue-se sobre um rochedo — é isso que deve apontar o
trecho das orações xintoístas: “erguendo os grossos pilares do templo
sobre a rocha enraizada na terra”. Sendo a casa apropriada à moradia
divina, torna-se muito claro que o Deus já a tinha providenciado para tal
fim.

A este prédio dei o nome de Shinzan-So (Solar da Montanha


Divina), por ter o monte Kamiyama (Montanha de Deus), o mais elevado
de Hakone, na sua parte de trás. Na sua frente, um pouco mais baixo, está o
monte Soun-Zan. Tão logo me transferi para Shinzan-So, adquiri da
Companhia Ferroviária Tozan Dentetsu o terreno vizinho de 6.000 metros
quadrados. Nele, existia um pequeno parque chamado Nihon Koen (parque
japonês), construído há vinte anos pela citada companhia. Por este, há

17
Mundo do Belo

espalhadas algumas casas de campo de aluguel. Na verdade, porém, de casa


de campo só o nome: estão em ruínas, impróprias para se habitar. Toda essa
área encontrava-se desleixada há anos, de modo que a erva daninha cresceu
ao sabor da natureza, tornando, mesmo durante o dia, o local umbroso, a
ponto de não se poder discernir sequer a passagem. Naturalmente, inexistia
qualquer superfície plana aí, mas, como eu pretendesse construir um anexo
na parte central do parque, corrigi o seu relevo acidentado, conseguindo,
finalmente, uma área de cerca de cem metros quadrados. Na época, por ser
impossível construir área superior a cinquenta metros quadrados, limitei-
me a essa dimensão. Encontrávamo-nos, então, no auge da guerra, sendo
impossível adquirir material de construção. No entanto — por feliz
coincidência — eu reunira anos antes madeira de qualidade muito boa, a
fim de construir um anexo nos jardins de Hozan-So em Tóquio. Faltava
apenas erguer os esteios, quando recebi ordem judicial sustando a
construção, por causa do processo que nos foi movido. Desde então, esse
material esteve intacto. Lembrei-me repentinamente dele, pensando que
viera bem a calhar com a ocasião. O problema, agora, era o transporte, uma
vez que não se podia lançar mão de caminhões particulares. Entrementes,
um fiel ligado às Forças Navais tomou conhecimento do fato, oferecendo-
se para carregar o material. Iniciada, afinal, a construção, quando as obras
já haviam avançado um terço do total, os bombardeios aéreos tornaram-se
cada vez mais violentos, passando a ser inviável a obtenção mesmo do
arroz para a alimentação dos operários. Vi-me obrigado a interromper,
momentaneamente, a construção. Foi quando — que maravilha! — certo
fiel chegou de repente carregando de caminhão seis sacas de arroz e fez-
nos a doação delas. "Muito bem! Deus não permite a interrupção das
obras" — pensei. O serviço continuou assim, sem ser interrompido. Em
agosto de 1946, ficou pronto o atual Kanzan-Tei (Pavilhão de
Contemplação da Montanha).

Com o término da guerra, em 15 de agosto de 1945, como eu


pensasse em construir uma casa maior, mandei, no mês seguinte, que um
meu subordinado fosse à província de Akita, com o propósito de adquirir
180 metros cúbicos de cedro. Na época, o preço da madeira era ainda
barato: aproximadamente mil e setecentos ienes o metro cúbico. Esse
material foi obtido de, aproximadamente, cinquenta pés de cedro da

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Mundo do Belo

floresta de um templo. Entrementes, soube que um terreno de dois mil


metros quadrados, situado na parte mais baixa do Shinsen-Kyo, havia sido
posto à venda. Adquiri-o logo, imensamente satisfeito, pois, já há algum
tempo, eu o queria muitíssimo. De posse dele, aprestei a encosta, obtendo,
assim, uma área plana de várias centenas de metros quadrados, para
construir um templo. Quando eu me encontrava prestes, então, a passar
para as obras, graças à apresentação de certa pessoa, recebi
inesperadamente a visita do professor de artes Isoya Yoshida, autoridade
máxima dos círculos arquitetônicos do Japão contemporâneo. (No
momento, ele se encarregava do projeto do Teatro Nacional de Kabuki).
Por nosso diálogo, percebi que ele era inteligentíssimo e suas idéias se
coadunavam com as minhas, sentindo positivamente que me fora enviado
por Deus. Desta maneira, seja o material de construção, seja o terreno ou o
arquiteto, Deus arranjava-me inteiramente o que era preciso, no exato
momento. Foi uma sucessão de milagres, do princípio ao fim. Esse prédio é
o atual, que hoje tem o seu nome alterado para Nikko-Den (Templo da Luz
do Sol).

Foi nessa época que batizei os Jardins Sagrados de Gora de


Shinsen-Kyo. Situam-se em seu interior as seguintes construções: o
Shinzan-so, prédio adquirido primeiramente, e o Kanzan-Tei, que construí a
seguir. Destinei este último para minha moradia, mas, em virtude de ter
ficado pequeno em demasia, acabei de ampliá-lo este ano. O prédio
localiza-se bem no centro do Shinsen-Kyo. Dele avista-se excelente
panorama, circundado que está em seus três lados por montes — origem do
seu nome: Pavilhão de Contemplação da Montanha. A casa de chá
construída no terreno plano abaixo dele chama-se Sanguetsu-an, tendo
também ficado pronta este ano. Ela foi concluída em três anos, pelo famoso
carpinteiro Seibee Kimura, que, em sua construção, dedicou corpo e alma.
Ao lado da casa de chá abri uma trilha ladeada de trevos, construindo em
comemoração uma casinha a que chamei de Hagui-no-ya (Casa dos
Trevos). Quero abrir parênteses para citar um episódio a respeito dela. Há
mais de vinte anos — quando aqui era ainda o Nikon Koen (jardim
japonês) — existiam várias casas de campo de aluguel. Como eu já
gostasse de Gora desde há muito e tivesse vontade de aqui morar algum
dia, aluguei um desses bangalôs e passei nele um verão. As recordações

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Mundo do Belo

desse tempo são-me inesquecíveis e levaram-me a reformar aquele


bangalô: a presente Hagui-no-ya. Construí, um pouco adiante do caminho
que passa defronte da Hagui-no-ya, um bosque de bambu, no qual dispus
rochas, à maneira chinesa. Quem por ele passeia, elogia-o, comparando
uma viagem a um recanto mágico. Daí, subindo alguns degraus de pedra,
chega-se a uma área relativamente ampla. Atualmente, esse terreno passa
por obras de correção do relevo, para a construção do Museu de Belas-
Artes.
Já escrevi uma vez que o Shinsen-Kyo constitui um
empreendimento inovador, jamais experimentado por alguém. Uma vez
que eu o estou construindo por ordem de Deus, seria plausível chamá-lo de
Arte Divina. Seu alvo é a criação de uma obra de arte em que as belezas
paisagísticas naturais e as da jardinagem artificial coexistam em perfeita
harmonia. No sentido de acrescentar maior brilho ao conjunto, planejei o
mencionado Museu. Somente o belo paisagístico e o da jardinagem
deixariam algo a desejar. A mostra de objetos de arte exclusivos deste país
é imprescindível para a idealização do verdadeiro Paraíso. Há mais um
objetivo. Calculando o imenso serviço que se prestaria em prol da
apresentação da arte nipônica, caso franqueasse o Shinsen-Kyo ao visitante
estrangeiro que, em futuro próximo, viria a Hakone em passeio, resolvi
tornar tal fato uma realidade. O mesmo se aplica, evidentemente, à casa de
chá. Por intermédio disso, quero, pois, mostrar, em âmbito mundial, o quão
profunda é a compreensão do japonês diante da Arte, o quão elevada é a
sua capacidade de julgamento e superior a sua técnica. Acredito estar, com
tal empreendimento, desempenhando um papel importante na execução das
diretrizes da política nacional.

Passarei a descrever, aqui, o histórico e uma miscelânea de fatos


referentes ao Shinsen-Kyo. Quando se estende o olhar de algum ponto
elevado do Jardim Sagrado, delineiam-se diante do apreciador as curvas
azuladas e brandas dos picos Myojin e Myojo, ligando Kintoki ao
desfiladeiro de Otome. A suavidade do contorno montanhoso peculiar de
Hakone não deixa de abrandar o coração de quem o contempla.
Comparando o pico Myojin à manga esquerda de uma veste larga, tem-se
que a direita é o monte Asama. Do vão que se abre um pouco entre ambas
as mangas, avista-se, ao longe, no fundo da névoa, como um imenso lago, a

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Mundo do Belo

placidez do mar. Nem é preciso dizer que é a parte do Golfo de Sagami,


próximo a Odawara. Quando o céu está aberto, a Península de Miura surge
aí como um fio. Um pouco mais acima, nos limites da linha do horizonte, a
cadeia nebulosa de montes que se estende flutuante é a Península de Boso:
o contorno em zigue-zague característico do monte Nokoguiri é visto com
nitidez. Olhando na direção oposta, o monte Asama parece-se com uma
tigela emborcada, alargando-se ao longe, até o monte Soun. A grande
montanha que parece dominá-la é a Kurogatake, famosa como ponto de
excursões.

Deixando o panorama distante por aqui, passemos, agora, a vaguear


pelos jardins. Como estamos no sopé do monte Soun, ao erguermos a vista,
este monte oferece a sensação de integrar o jardim, tal a sua proximidade.
Por toda a parte encontram-se imensos rochedos e pedras exóticas,
interessantes tanto no formato como no colorido, sem haver uma única
semelhante às demais: também aqui é possível detectar a refinada
habilidade divina. Além disso, cercando a parte sudoeste do Kanzan-Tei,
enfileiram-se rochas de mais de três metros de altura, a proteger o prédio
dos ventos que sopram do monte Kamiyama, característica da região de
Hakone. Esse também é mais um fenômeno misterioso. É de se notar, em
especial, a gigantesca pedra que se ergue em frente ao alpendre, como a
escondê-lo, lembrando a pedra fundamental que assentam nas construções
com a finalidade de afastar os malefícios.

Vale frisar, ainda, que, em toda a região de Hakone, Gora é o local


rochoso por excelência, podendo-se afirmar que o seu pólo central, onde se
localiza o nosso Shinsen-Kyo, é o núcleo onde essas pedras e rochas se
concentram. Escavando-se a terra nestas cercanias, vemos aflorar rochedos
e rochedos, sem fim. Contudo, uma quadra mais além, o que se acha é
quase só terra, sendo muito raro o descobrimento de alguma pedra, fato
este que não se pode qualificar senão de estranho. Ademais, é infinita a
gama de tais rochas, estando à vontade quem pretende elaborar um jardim.
As espécies principais são, primeiramente, uma de cor cinzenta, ângulos
agudos e duríssima; a seguir, tem-se uma de consistência algo mais branda,
de um colorido cinza com matizes azul-escuras. O fato de esta se apresentar
com reentrâncias e fendas provém, decerto, do sem-número de choques a

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Mundo do Belo

que foi submetida durante a sua vertedura. O terceiro tipo é similar à lava,
vermelho escuro; o quarto é de tonalidade limonística, anguloso e duro. É
evidente que todas elas foram vertidas aqui, durante a erupção do monte
Soun. Essa erupção aconteceu com o rompimento do leito rochoso da
crosta terrestre, mediante a liberação de gases, ou seja, uma exploração
vulcânica.

O curioso é que há sinais de que, com essa erupção, depositou-se


um volume exorbitante de cinzas vulcânicas. Isto porque, no vilarejo
Miyaguino, nesta proximidade, ainda hoje, quando se escava a terra,
desenterra-se troncos de cedros de 6 a 9,09m de altura, que, com o passar
dos anos, se petrificaram e endureceram, sendo ótimos para a manufatura
de artesanatos. Dizem que, antigamente, os agricultores da região os
escavavam lucrando bastante com a sua venda. Daí deduziu-se que a
camada de cinzas vulcânicas acumuladas era de quase 15m. O cedro maior
de todos media 1,80m de diâmetro, e eu também o vi.

Olhando o Monte Sooun, percebe-se bem o sinal da cratera no


centro, pela sua depressão e pela tonalidade avermelhada da terra. A terma
do Vale Oowakutani, provavelmente, surgiu nessa ocasião, e a água termal
desse local constitui a Terma de Gora. Uma vez, escalei os montes Sooun,
Kamiyama e Komaketake. Todos são cobertos de arbustos. Não havendo
árvores grandes, percebe-se que a erupção se deu em época não muito
remota, pois as cinzas vulcânicas estão impregnadas de enxofre. Em suma,
em todas as montanhas de Hakone não se vê árvores de grande porte; talvez
as referidas cinzas tenham atingido pontos distantes. A razão, talvez, pela
qual a região de Hakone não conte, em sua maior parte, com árvores de
grande porte, provém da dispersão dessas cinzas num amplo raio
geográfico.

Mas, retornando ao assunto anterior, digo que não há uma mera


rocha, árvore ou planta do jardim Sagrado que não esteja consoante minhas
instruções. Curiosamente, quando eu desejo determinada pedra, ou ela se
acha pelas cercanias, ou, em se cavando por aqui, ela aparece, sem falta.
Compreende-se perfeitamente, por mais esse fato, que Deus faz com que,
hoje, eu edifique estes jardins segundo a Sua Vontade, orientando-me a tal,

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Mundo do Belo

após ter criado, há milhares de anos, este leito rochoso, solidificando-o


convenientemente, e depois reduzindo-o, pela ação de uma erupção
vulcânica, a pedaços adequados, os quais foram depostos ao redor do
Shinsen-Kyo. É, pois, por demais óbvio que Deus me faz construir o
Paraíso Terrestre do qual sempre falo, tomando-me como o Seu
instrumento. Digo mais: toda árvore, planta ou flor necessária, ou chegam a
mim gratuitamente, ou ainda, caso existam em alguma arboricultura ou
jardim de chácara das cercanias, vêm a mim floricultores, querendo vendê-
las. É simplesmente estranho e maravilhoso. Em geral, quando se pretende
realizar uma obra um pouco maior ou um empreendimento custoso, dizem
que se enfrentam dissabores e dificuldades. Comigo, no entanto, nada disso
acontece. Como já mencionei, consigo, normalmente, tudo o que quero ou
necessito. O mesmo se dá com o dinheiro: não me preocupo, pois amealho
sempre o preciso. Sem falta ou excesso; na medida exata. O primeiro passo
foi dado em maio de 1944, decorrendo apenas meros seis anos desde então.
Nesse intervalo, não obstante os transtornos ocasionados pela guerra, as
obras de Atami e Hakone progrediram de tal forma que não se permite
jamais imaginar terem sido feitas em espaço de tempo tão curto. Assim, é
até inevitável que a sociedade crie caso e faça alarde em torno de mim.
Todavia, como disse antes, uma vez que tudo está sendo posto em prática
exatamente de acordo com as indicações de Deus, não há razão para
tropeços nem fracassos. Tudo corre perfeitamente.

Não posso deixar de descrever aqui outro milagre. Nesses seis anos
passados, não houve sequer, até hoje, um único morto ou ferido, durante o
deslocamento daquelas rochas imensas para a sua distribuição nos jardins.
Notem que as maiores atingem até 1,80 metro de diâmetro e chegam a
pesar acima de 75 toneladas. Segundo o depoimento de profissionais no
assunto, na execução de obras de semelhante porte, é normal que haja
alguns mortos ou muitos feridos. Acrescentam sempre: "Em uma obra
como esta, é simplesmente inacreditável". Eles acabaram por perceber que
existe a atuação de uma força sobre-humana, passando a acreditar na
existência de Deus e a conscientizar-me, ao que parece, da minha missão.
Hoje todos abraçam a nossa Fé.

23
Mundo do Belo

Esta é a súmula do ocorrido desde o início até o dia de hoje.


Atualmente, excetuando-se o Museu de Belas-Artes, quase todo o restante
se encontra próximo da conclusão. Por conseguinte, pretendo realizar a
inauguração simultaneamente à celebração do Culto de Outono. Essas
cerimônias estender-se-ão de 21 a 27 de novembro próximo, por uma
semana, consecutivamente pela ordem de associações. Na realidade, eu
queria concentrá-las em três dias. Entretanto, o espaço do Nikko-Den é por
demais exíguo para comportar todos os participantes, mesmo com a
instalação de um toldo provisório nos jardins. Tornou-se inevitável, então,
alongá-las por uma semana. Além das cerimônias, haverá entretenimentos,
durante os sete dias, cuja programação prevê proporcionar aos presentes
uma atmosfera inteiramente paradisíaca, contando com a participação de
artistas de primeira categoria, os quais diariamente encarregar-se-ão de
espetáculos únicos. Como sempre afirmo, o Paraíso Terrestre é o Mundo da
Arte, não estando perfeito, caso, além das belezas natural e artificial já
mencionadas, não contar com entretenimentos que deleitem os olhos e os
ouvidos, como a música e a dança.

Termino, então, o relato dos antecedentes da construção do


protótipo, ainda em pequena escala, do Paraíso Terrestre. Em síntese, quero
proclamar que o culto e as celebrações próximas, como o passo inicial
desta obra, constituem evento memorável e de extrema importância.

Até a Conclusão do Paraíso Terrestre — 21 de setembro de 1950

24
Mundo do Belo

O PARAÍSO É O MUNDO DA ARTE

Sempre afirmo que o Paraíso é o Mundo da Arte; contudo, isso é


por demais sintético. De fato, a compleição das Belas-Artes, da Literatura e
da Arte do entretenimento, corresponde ao supracitado, estando bem assim.
Na verdade, porém, todas as Artes devem estar presentes. Melhor ainda:
caso o próprio Paraíso não seja consubstancial com a Arte, não se poderá
dizer que ele é genuíno.

Até mesmo a cura das moléstias mediante a terapia espiritual por


mim propalada é, na realidade, uma esplêndida arte da vida, pois a essência
da arte implica na satisfação dos quesitos que são a Verdade, o Bem e o
Belo. Num doente, antes de tudo, não existe a Verdade, porque o homem
deve ter saúde, por natureza, o que é a Verdade. Portanto, se ele tiver a
saúde abalada, significa já ter perdido a maneira de ser original do ser
humano. Tomemos o exemplo de um jarro. Caso ele apresente um defeito
em alguma parte, seu uso torna-se impróprio. Ou vaza água dele, ou não
pára de pé, ou parte-se ao ser utilizado. Não há, pois, Verdade nele como
jarro. Logo, para fazermos uso dele, torna-se mister consertá-lo. Idêntico
acontece com o homem. Por causa da doença, passa a ser impossível a ele
agir como tal, tornando-se uma existência inútil. Então, é preciso repará-lo.
Eis aqui o Johrei de nossa Igreja.

A seguir, consideremos o Bem. Se não houver uma única parcela de


bondade no homem, e ele só praticar o Mal, também deixará de ser homem
no sentido verdadeiro — será um animal. Semelhante indivíduo, por
prejudicar a coletividade, é desnecessário para ela. Antes, sua existência
passa a ter que ser negada. Mas isso é da competência de Deus, possuidor
do poder de vida e morte sobre nós. Em conseqüência, incorre-se em
fracassos, padece-se de doenças, cai-se na mais profunda miséria e, às
vezes, perde-se a própria vida. Tais acontecimentos são, nada mais, nada
menos, que o exercício da justiça divina. Quando digo simplesmente Mal,
há que se discernir o praticado conscientemente daquele que o foi
inconscientemente. Conforme tal diferença, há o sofrimento
correspondente. Nesse sentido, Deus é realmente imparcial.

25
Mundo do Belo

O tópico final seria a Beleza, mas por este se tratar de assunto


inteiramente conhecido, dispensa esclarecimentos. É evidente, então, que a
condição fundamental para a transformação deste mundo no Paraíso é a
concretização da Verdade, do Bem e da Beleza. Por conseguinte, tanto a
cura de doenças, quanto a reformulação da metodologia agrícola por nós
efetivada, constituem Arte, indiscutivelmente. Aquela constitui, como disse
há pouco, a Arte da Vida; esta última, a Arte da Agricultura. Somada a
elas, tem-se a construção do protótipo do Paraíso Terrestre, que é a Arte da
Beleza. Pela conjunção destes três elementos, ou seja, pela
consubstanciação do trinômio Verdade — Bem — Belo, edificar-se-á o
Mundo da Luz. Este é o Paraíso Terrestre, o Mundo de Miroku.

Eiko, nº 72 — 4 de outubro de 1950

A CONCEPÇÃO DO PARAÍSO TERRESTRE

Havendo ainda uma série de coisas, além das que já escrevi até
hoje, no que tange aos dois Paraísos Terrestres em construção em Hakone e
em Atami, passarei a discorrer sobre elas. Como sempre digo, objetivo a
criação de uma obra de arte global da natureza, por meio do máximo realce
conferido à beleza original de cada elemento — a começar da paisagem
natural — quesito básico do Paraíso Terrestre — inclusive as árvores que
florescem, as de copa verdejante, a beleza dos matizes variegados das
flores, bem como as pedras, os rochedos, os arroios e os lagos — e,
simultaneamente, pela atenção dispensada à harmonia de todo o conjunto.

Assim, as obras de Hakone já estão de setenta a oitenta por cento do


seu total concluídas, enquanto as de Atami não chegaram ainda à metade.
Entretanto, crendo que se pode tirar uma idéia final do estado de ambas as
obras, solicito aos senhores visitantes apreciá-las na medida do possível
com calma e suficientemente, de todos os ângulos e detalhes também. Seja
como for, as obras foram tomando forma gradativamente, em consonância
com a orientação divina, instruindo eu os encarregados, sem desleixar no
detalhe de uma árvore, uma planta ou uma pedra sequer. Gostaria, pois, que
ao percorrê-las, fizessem-no levando esse fato em consideração.

26
Mundo do Belo

Conquanto existam — e em número considerável — jardins que


gozam de fama desde antigamente, talvez não haja outros tão inusitados
como estes Jardins Sagrados. Afirmo isso porque também eu já visitei, o
quanto pude, muitos e variados jardins, porém foi difícil achar um que me
impressionasse. Passo a enumerar os até hoje vistos por mim. Aquele
jardim de pedras, hoje inexistente, do Duque de Satake, em Mukojima; o
do Duque de Okuma, em Waseda; o Parque Koraku, de Koishikawa; o
Parque Rikugi, de Komagome; o Parque Horai, de Yanaguihara; o Jardim
Botânico, de Koishikawa; a Vila Imperial, de Hama, e os Jardins Imperiais,
de Shinjuku. Além deles, visitei, no interior, as vilas imperiais de Katsura e
Shugaku-in, de Quioto, e os parques Sankei, de Yokohama, Ritsurin, de
Takamatsu, e Kenroku, de Kanazawa. Tanto estes como aqueles, porém,
tratam-se, na sua maioria, de jardins do estilo feudal convencional, sendo
plausível dizer que não há um único interessante como o nosso Shinsen-
Kyo, de Hakone. Particularmente, no que toca ao aspecto da fartura de
pedras e rochas de formato exótico, não seria exagero afirmar que este é o
primeiro do Japão.

No tangente à Atami, a construção tem sido conduzida a passo


acelerado, estando o término do jardim previsto, no mais tardar, ainda para
o corrente ano. Os senhores não perdem por esperar. Como sabem, a beleza
do panorama grandioso, que, desse local se deslumbra, goza do conceito de
não encontrar outra semelhante no Japão inteiro. Em breve, estarão
terminadas a correção do relevo do terreno e a sua completa arborização.
Quando, a partir da próxima primavera, as ameixeiras, os pessegueiros, as
cerejeiras e as azáleas abrirem consecutivamente as suas flores, quem quer
que contemple tal espetáculo terá o seu olhar seduzido pela magnífica vista,
imerso na sensação de viajar pelo paraíso deste mundo. Não resta dúvida de
que, uma vez concluído, virá a ser um dos lugares famosos do Japão.

Acabo de fazer uma descrição, grosso modo, apenas da beleza


natural. Passarei a escrever, brevemente, também sobre a artificial. Espera-
se que o Museu de Belas-Artes de Hakone fique pronto até maio do ano
vindouro. Assim, o Paraíso Terrestre de Hakone estará praticamente
concluído. Como a construção deste museu foi toda planejada por mim,
gostaria que aguardassem com interesse o seu desfecho. Quanto às obras a

27
Mundo do Belo

serem aí expostas, os entendimentos com museus do país inteiro e coleções


particulares, para a mostra do que há de mais refinado neles, já estão
acertados. A sua inauguração atrairá grande público, com certeza. É
provável que, no Japão, ele venha a ser um museu de primeira categoria.
Por eu o ter construído como um modelo inicial, suas dimensões não são
tão avantajadas. Entretanto, o de Atami, a ser posteriormente terminado,
deverá tornar-se um museu de artes exemplar, do qual nos orgulharemos
não apenas diante do Japão, mas diante do mundo inteiro. Acredito,
portanto, que mesmo de uma perspectiva internacional, estaremos
contribuindo, de maneira inestimável, em prol da cultura humana.

Eiko, nº13 — 18 de julho de 1951

OS JARDINS DA TERRA DIVINA

Estes Jardins Sagrados de Gora, que há cinco anos venho


construindo, estão concluídos cerca de oitenta por cento do seu total.
Comparando apenas o que já ficou pronto com jardins de renome de
diversas localidades do Japão, devo dizer — modéstia à parte — que os
nossos não ficam atrás. Há aqui uma diferença enorme. O fato é que
existem um sem-número de jardins afamados e esplêndidos, cada qual dono
de uma graça particular, é verdade. Em geral, porém, tal característica não
é lá grande coisa. Contudo, no que T´ange a este Shinsen-kyo, a diferença é
tremenda, como os senhores podem ver. Por ter encontrado aqui espantosa
abundância de rochas e pedras naturais de formato exótico, eu as dispus e
arranjei uma a uma, conforme a orientação divina, e construí algo num
estilo inteiramente novo, rompendo com as regras da jardinagem
tradicional, sem me prender às convenções. Tanto no tocante às árvores, as
quais selecionei e com elas combinei uma vasta variedade, de modo a se
adequarem ao todo, como no tocante às cascatas e arroios, acentuei, na
medida do possível, o sabor da natureza, e procurei expressar
suficientemente o que existe de elevado e bom na arte natural, conjugando
as belezas da paisagem e do jardim. Escusado dizer que minha intenção é
purificar a alma e sublimar o caráter daquele que contemplar estes jardins,
despertando, por meio da visão, a concepção de beleza que o ser humano
traz latente em seu interior.

28
Mundo do Belo

A minha obra assemelha-se exatamente a de quem pintou um


quadro, fazendo uso de materiais naturais: após a combinação das rochas e
escolha exaustiva das árvores e demais plantas, arranjei-as uma a uma,
colocando meu coração em cada ato. Assim sendo, gostaria de que os
senhores apreciassem os jardins tendo tal dedicação em mente. Acredito
que, seja vendo de perto, como de longe, parcialmente, ou contemplando o
conjunto, ou de que ângulo for, descobrirão um sabor próprio aí. Ademais,
com o fluir do tempo, das reentrâncias das rochas entrevêem-se musgos
típicos de Hakone, plantinhas de nome desconhecido, flores delicadas e
graciosas e árvores que despontam retorcidas, parecendo cada qual querer
atrair a atenção do visitante. Ultimamente, o jardim ficou tão bom, que
parece outro, tendo-se coberto, por inteiro, de certa pátina que lhe confere
amadurecimento. Eu próprio devo confessar que, ao vaguear por ele,
muitas vezes sinto dificuldade de me afastar desse local. Outrossim,
quando o volume de água cresce depois das chuvas, tem-se a impressão de
contemplar das alturas a correnteza de um vale profundo: o regato que
avança por entre as rochas vai arrebentando-se e espargindo espuma
branca, volteia-se celere para, por fim, acabar-se em duas quedas d'água.
Tal espetáculo arrebata-nos a alma. A cachoeira da direita, Ryuzuno Taki
(Cascata da Cabeça do Dragão), com suas quedas, é interessante. Também
o é a da esquerda, fendendo-se em mil fios que se espalham em todas as
direções. Ainda agora reflete-se, diante dos meus olhos, o vulto de uma
andorinha que, num átimo, passa rente ao véu d'água. Sem dúvida,
manifesta-se aqui, de maneira perfeita, a beleza harmônica entre o natural e
o realizado pela mão do homem, satisfazendo-me por ter saído muito além
das minhas expectativas. Ao contemplar estas cascatas, a sensação que se
tem é a de estar numa grota de serra, ou mesmo diante de uma magnífica
tela. Geralmente, as cascatas construídas pelo homem têm um quê de
vulgar que as estraga, mas nestas tal não se faz notar, parecendo
completamente naturais. O colorido dos bordos de outono que nelas se
reflete, os matizes próprios das demais árvores, as touceiras cerradas, tudo
faz acreditar que se está numa floresta profunda. Fiquemos por aqui na
descrição da parte do jardim que já foi acabada. Agora, no lote vago que se
estende largo na parte dos fundos, nas vizinhanças do parque, comecei a
preparar outro jardim bastante diferente, tendo planos bem originais que

29
Mundo do Belo

fogem dos limites do imaginável. Ficando pronto, vai assustar a qualquer


um. Vim deste modo escrevendo o que me vinha à mente, e posso estar
sendo considerado um grande arrogante, por enaltecer imprudentemente a
minha própria obra. Do ponto de vista usual, esta consideração estaria
correta. Entretanto, foi Deus quem, por meu intermédio, realizou esta obra,
não havendo inconveniente algum, portanto, em que eu louvasse a técnica
divina, ou seja, a arte de Deus. Pelo contrário, é até justo, pois é o mesmo
que glorificá-Lo. A esse respeito, devo citar que o senhor William W.
Shudler, professor de geografia de certa escola superior norte-americana,
tendo vindo visitar-nos, enalteceu com ardor o jardim dizendo que, do seu
prisma profissional, vira muitos jardins pelo mundo afora, mas nenhum tão
artístico e precioso como este, sendo adequado classificá-lo como o
primeiro do mundo.
Passemos, a seguir, a tratar do Museu de Belas-Artes, o qual será
construído por último. Prevê-se que, até o verão do ano vindouro, ele esteja
pronto. Com a sua conclusão, o Jardim Sagrado do Shinsen-Kyo deverá
irradiar um brilho ainda mais intenso. No tocante às obras de arte a serem
nele expostas, além do pouco que possuo, já levantei, em grande parte,
aquelas catalogadas como tesouros nacionais de posse de museus, coleções
particulares e templos de várias regiões do país, com as quais tenho
gradativamente travado contatos. Portanto, ele virá a ser um museu que não
ficará atrás dos demais. Outrossim, minha diretriz é, restringindo o número
do material histórico e arqueológico, selecionar, segundo critérios estéticos,
sem levar em consideração se se trata de arte ocidental ou oriental, antiga
ou moderna, e expor somente obras-primas dos grandes mestres de cada
época. A razão é que um museu de belas-artes não cumprirá a sua missão
como tal, caso não proporcione, a quem quer que seja, independente desse
alguém possuir ou não olho crítico, comover-se com a beleza e com ela
deleitar-se. Ademais, é lógico que eu estou executando tudo, a começar do
projeto de construção, passando pelas instalações internas, a decoração e
outros aspectos mais, conforme a orientação divina. Por conseguinte,
quando o museu ficar pronto, apresentará efeitos diversos dos outros.

Assim, o Shinsen-Kyo ficará praticamente pronto. Na alvorada da


sua conclusão, a Obra Divina ingressará na etapa de efetivo
desenvolvimento. E não é só. A edificação do Paraíso de Atami também

30
Mundo do Belo

passará para uma etapa de progresso vertiginoso. Deus faz com que tudo se
processe ordenadamente: esta é a Verdade.

Eiko, nº 122 — 19 de setembro de 1951

NÃO PERTUBEM O MEU TRABALHO (I)

O empreendimento ao qual hoje me dedico inteiramente, de corpo e


alma, é do pleno conhecimento dos fiéis, e, recentemente, parece aumentar
o número de indivíduos que o compreendem de maneira razoável, mesmo
nos meios intelectuais — fato que nos deixa felizes. Porém, como ainda há
pessoas enganadas a seu respeito, desejo escrever um breve esclarecimento
dirigido a elas. Naturalmente, por elas também ignorarem a realidade desta
Igreja, são desnorteadas por boatos ou notícias falsas veiculadas pelos
meios de comunicação. Entre tal tipo de gente, existem ateus
empedernidos, que, de nascença, detestam religiões. E, embora pareça
mentira, há mesmo quem, talvez, por identificar-se com o Mal, se sinta
irritado conosco, uma vez que a religião prega a prática do Bem. Contudo,
excluindo-se os comunistas, não haverá uma pessoa sequer que seja
contrária à melhoria do Japão — a mãe pátria.

O objetivo deste texto que agora passo a escrever reside, pois,


essencialmente, em tópicos de áreas compreensíveis mesmo aos leigos, sem
tocar em qualquer assunto religioso, como Deus ou Fé. Quero tratar dos
protótipos do Paraíso Terrestre que atualmente estou construindo em
Hakone e Atami e, como o primeiro é de escala menor, escreverei sobre o
segundo.

Os meus planos, desde o início, são de criar uma obra-prima de arte


sem igual no mundo, conjugando as belezas natural e artificial. Nesse
sentido, cito, em primeiro lugar, a opinião vigente de que o nosso Japão é o
país mais rico da Terra em paisagens. De fato, apesar de eu nunca ter ido ao
exterior, posso considerá-lo assim, sob vários pontos de vista. Como
sempre falo, o Japão foi criado por Deus com o objetivo primeiro de servir
de parque mundial, e, por felicidade, eu nasci neste país e nele moro
atualmente. Tudo, portanto, veio perfeitamente a calhar. Então, procurei

31
Mundo do Belo

quais dos pontos do território japonês mais condiriam com os meus


propósitos, descobrindo serem eles Hakone e Atami. Pesquisando estes
dois lugares, encontrei, misteriosamente, os terrenos e as moradias ideais,
adquirindo-os com facilidade. Posteriormente, finda a guerra, tudo correu a
contento, e fui conseguindo, tanto em Hakone como em Atami,
seguidamente, as áreas de terras necessárias. Hoje, em ambos os locais, elas
atingem perto de 66 mil metros quadrados, o que pode ser considerado, em
termos de extensão, suficiente. A porção de Hakone, porém, pelo relevo da
região, em que há predominância de montanhas escarpadas e sobreposição
de rochas, não é apropriada para uma estrutura de grandes proporções.
Atami, ao contrário, não tem montanhas altas, e há bastantes áreas de solo
terroso, facultando livremente a execução de um projeto em grande escala.
E é isso que estou a erigir ali, atualmente.

Dentre todas as condições preenchidas pelo terreno de Atami, a


primeira delas é o esplêndido panorama que oferece. São unânimes as
opiniões de quem o vê, no sentido de que não há outro local assim no Japão
inteiro, por mais que se procure. Além do mais, suas condições de acesso
são ótimas, pois, como é do conhecimento geral, situa-se praticamente no
ponto médio entre as Regiões Leste e Oeste, viabilizando o fácil trânsito de
ambas as direções. Outras características são: o inverno ameno, a fartura de
fontes termais, o verde que envolve a cadeia de montes circunvizinhos, o
mar — como um espelho — da Baía de Sagami. À direita, a beleza
curvilínea traçada ao longe por cinco cabos; à esquerda, são também
interessantes as duas ou três ilhotas que se põem na ponta da Península de
Maizuru. Nos dias ensolarados, delineia-se a linha da Península de Miura a
flutuar no horizonte como num sonho; no fundo das brumas; o comprido
traço que se estende como que a dormir é a Península de Boso: atrai-nos o
olhar a estranha sinuosidade, em ziguezague, do famoso Monte Nokoguiri.
Diante de nossas vistas, posta-se a Ilha Hatsushima, como a pedra de um
jardim em miniatura; à sua direita avista-se, ainda, a Ilha Oshima, que, com
seu contorno suave, parece negar as suas intensas atividades vulcânicas.

O ponto do qual se avista o magnífico panorama acima descrito é o


Mirante Panorâmico, existente no centro do Zuiun-Kyo. Seja por sua
localização, seja por sua altitude, este mirante é o mais adequado para se

32
Mundo do Belo

vislumbrar toda essa vista; quem quer que aqui se coloque louva o lugar,
dizendo ter experimentado o Paraíso na própria Terra. Aqui é, sem dúvida,
a Terra sagrada preparada por Deus quando da criação do Universo. O que
seria este lugar senão a maior obra-prima de Deus? Ademais, por sua
proximidade com a estação de trem, que permite daí vir em quinze minutos
a pé ou cinco de carro, por meio de um caminho em suave aclive, seu
acesso é extremamente fácil. Faz cinco anos exatos desde que comprei, em
1946, pela primeira vez, uma área. A partir de então, diariamente, de
cinqüenta a cem pessoas vieram trabalhando ativamente até hoje, em
conformidade com o projeto por mim traçado. Assim, a correção do relevo
do terreno tem sua conclusão prevista para o final do corrente ano. Aí
plantaremos, principalmente, dois mil pés de vinte diferentes variedades de
azáleas, mil pés de cerejeiras, e quinhentos pés de ameixeiras, além de todo
tipo que se puder reunir de arbustos floríferos, de modo que as flores
abram, incessantemente, uma depois da outra. Será acertado chamá-lo de
paraíso espetacular ou ideal.

Então, passar-se-á, finalmente, à edificação, em primeiro lugar, a


partir da próxima primavera, do Templo Kyussei Kaikan. Será um prédio
de um andar, com área de 2.640 metros quadrados, construído em um
terreno de 4.290 metros quadrados. É natural que será em concreto armado,
numa forma inteiramente inovadora, tendo por base o estilo que, hoje,
domina o mundo arquitetônico — o Le Corbusier —, ao qual introduzirei
minhas idéias. Concluído, decerto atrairá para si as atenções da sociedade,
como construção religiosa de caráter mundial. Realmente, o estilo Le
Corbusier combina de maneira perfeita com o senso da época, mas,
carecendo de ar solene, está mais voltado para construções de uso prático,
como prédios governamentais, de apartamentos e residências; parece não
ser muito apropriado para construções religiosas. Entretanto, por não ver
necessidade de fazer opção, nos dias de hoje, por prédios clássicos
semelhantes a relíquias do passado, meu projeto, além de expressar bem o
senso moderno, deverá contar com as respectivas inovações na decoração
interna e demais elementos.
Eiko, nº 131 — 21 de novembro de 1951

33
Mundo do Belo

A RESPEITO DO PARAÍSO TERRESTRE

Observando a sociedade atual, como o demonstram os jornais e,


diariamente, noticiários de rádio, não é que as coisas que não prestam são
muitas? Como é do conhecimento geral, além das guerras, podemos
enumerar, por cima, a corrupção do funcionalismo público, assassinatos,
assaltos, embustes, furtos em lojas, suicídios, inclusive de famílias inteiras,
tuberculose e doenças contagiosas, carência de arroz, falta de moradia,
escassez de moeda, opressão fiscal... As boas notícias são raras como
estrelas no céu da manhã. Perguntamo-nos, então, por que esta sociedade
ficou assim? Haverá, de fato, vários motivos, mas, em suma, é a decadência
da Moral, é a evidência do grau do rebaixamento do nível humano.
Ultimamente, a intelectualidade e os educadores passaram a ter interesse
pela questão. Uma das causas poderia estar nos excessos da ideologia
liberal do pós-guerra. Por conseguinte, parece que os círculos competentes
estão discutindo não haver outra solução para o momento, a não ser a
restauração e o incentivo do Ensino e da educação moral e cívica. O que é
de se estranhar é que, no Japão, não se busque jamais a resposta na religião
para tais casos. No entanto, não é para menos. As religiões antigas são por
demais impotentes, enquanto, nas modernas, a superstição e o
charlatanismo parecem dominar. Conseqüentemente, não se encontra de
maneira alguma o método de solução radical para o problema.

Contudo, eu estou tocando um projeto concreto, com vistas a


colaborar para a resposta da questão, de um ponto de vista distinto. Têm-se,
primeiramente, as diversões de um modo geral. Desnecessário mencionar,
aqui, a necessidade que o povo tem da diversão, em qualquer época. Mas o
caso é que, na sociedade hodierna, são numerosos os divertimentos baixos
e vulgares. Não existe, de fato, inconveniente nenhum no teatro, no cinema,
nos esportes, no jogo de go, no xadrez japonês, no mahjong, no pebolim ou
outros. Penso, todavia, que se fazem enormemente necessários
divertimentos mais elevados. Nesse sentido, temos os protótipos do Paraíso
Terrestre, que atualmente esta Igreja está construindo em Hakone e Atami.
Como já escrevi amiúde, estão edificando-se paraísos grandiosos e ideais,
com a conjugação das belezas natural e artificial. Além do mais, trata-se de
algo de tal maneira esplêndido, que talvez, até hoje, não houve quem

34
Mundo do Belo

idealizasse uma concepção em moldes semelhantes. Modéstia à parte,


quem quer que se ponha fisicamente aqui, vem a se esquecer de tudo,
embriagado pela atmosfera completamente distante do mundo vulgar e
infernal: experimenta-se a sensação de estar por sobre as nuvens. Embora o
projeto encontre-se ainda pela metade, todos o elogiam assim.

A obra de Hakone está prestes a ser concluída, mas, por suas


dimensões serem diminutas, deter-me-ei na descrição mais acurada do
projeto de Atami, em construção. Nos seus jardins de cem mil metros
quadrados, rico em elevações e concavidades, estamos plantando árvores
que dão flores, como ameixeiras, cerejeiras e azáleas, entremeando-as com
outras de folhagem, preparando, também, canteiros de flores variegadas.
Assim, com a chegada da primavera, não somente essa paisagem encantará
a vista, mas a contemplação do panorama da Baía de Sagami ao longe
permitirá dizer, sem exagero, ser este o jardim das delícias, grandioso e
ideal. Além de tudo, em termos de posição, tal Paraíso Terrestre goza da
melhor em Atami. Com vistas a abrilhantar ainda mais o conjunto, teremos
um museu de belas-artes clássico que, na alvorada da conclusão, tornará
necessariamente o Paraíso Terrestre centro da admiração de japoneses e
estrangeiros. Portanto, qualquer pessoa que uma vez puser aqui os seus pés
terá sua alma lavada das impurezas do hábito mundano e mitigado o seu
espírito da aridez. Naturalmente, não apenas sua disposição com relação ao
trabalho tornar-se-á vívida, aumentando sua eficiência, como também,
espontaneamente, sua moral se elevará. O efeito sobre o espírito social,
pois, será extraordinário.

Eiko, nº 137 — 1º de janeiro de 1952

O GRANDE SIGNIFICADO DO PARAÍSO TERRESTRE DE SHINSEN-


KYO

Finalmente, ficará pronto o tão aguardado protótipo do Paraíso


Terrestre de Shinsen-Kyo, sobre as montanhas de Hakone. Desnecessário é
mencionar que uma obra como estes Jardins Sagrados não apenas
desconhece similares no próprio Japão, mas também no exterior. No topo
de um monte assim elevado, usei abundante e livremente rochas e pedras

35
Mundo do Belo

dos formatos mais exóticos, pus em ordem, entre elas, árvores, flores e
plantas alpinas, e fiz serpentear por aqui e acolá arroios rápidos: a paisagem
proporcionada pela beleza natural que a contento se saboreia, juntamente
com o sussurar da água, dá a sensação de que se passeia por um paraíso
distante da vulgaridade do mundo, segundo o veemente elogio de todos os
que o vêem. Ademais, como a abrilhantar o conjunto, tem-se um templo de
beleza fulgurante, de maneira que penso poder sentir orgulho desta como
uma obra de arte que conjuga, no todo, a beleza natural à artificial.

Tal impressão, contudo, provém da perspectiva humana. Do ponto


de vista espiritual, encerra-se aqui um significado enorme, muito além do
que se pode supor. Passarei a elucidar isso com detalhes. De posse dessa
compreensão, vislumbrar-se-á quão profundos, sutis e insondáveis são os
desígnios divinos, como transcendem a inteligência humana e o quão
grandiosos são. Como sempre digo, nos desígnios de Deus, as coisas são
inicialmente feitas extremamente pequenas, vão expandindo-se
gradativamente e, por fim, alcançam âmbito mundial — fato deveras
misterioso. Tal também vem aplicar-se ao mundo material. Quer dizer,
quando o homem vai fazer algo grande, constrói primeiramente o protótipo;
isso feito, passa à sua execução. Pode-se, por conseguinte, considerar que o
Paraíso Terrestre de Shinsen-Kyo, ora acabado, está a sugerir o Paraíso
Terrestre mundial do futuro. No tocante a essas considerações, passo a
revelar a razão profunda da minha escolha pelas montanhas de Hakone.

Da perspectiva espiritual, o centro do mundo é o Japão, e o Monte


Fuji, o pilar central do Globo Terrestre. Reparem no formato dessa
montanha — a graciosidade do contorno é ímpar no mundo inteiro. Tido
desde a Antigüidade como montanha divina e pico espiritual, os
estrangeiros a consideram mesmo o símbolo do Japão: há um sentido
profundo oculto aqui. O futuro deste país é tornar-se o centro do Paraíso
Terrestre, tendo isso sido estabelecido como Lei Divina, desde os
primórdios da criacão do Universo. Reparem na beleza da paisagem, na
variedade da sua flora, nas vistas características das quatro estações, nas
transformações operadas nas coisas, consoante a mudança do clima... Essa
abundância de dádivas divinas torna o país por si mesmo dono de uma
beleza paradisíaca. Não é por menos que o Imperador Shih-Huang, da

36
Mundo do Belo

dinastia Ch'in, da China, tenha chamado o Japão de lha de Horai (Paraíso)


do Oriente. Outrossim, a índole do nosso povo prima especialmente por seu
senso estético (opinião também vigente no exterior) a ponto de nenhuma
outra etnia poder conosco igualar. É de se admirar, ademais, que no Japão,
desde tempos remotos, se encontre uma coleção de obras de arte de vários
países do mundo. É o Japão, assim profusamente abençoado, o país que,
pela vontade de Deus, traz em si os elementos formadores do Paraíso. A
razão de eu sempre afirmar que o Japão é o parque e o museu de belas-artes
do mundo reside nesse fato.

Desta maneira, o território japonês é um parque mundial, sendo o


seu centro Hakone, que é, por sua vez, o parque do Japão, além de
posicionar-se, no ponto central deste, o que é evidente, quando se considera
que a porção oriental do país, tomando-se Hakone como referencial, é
chamada de Região Leste, e a ocidental, de Região Oeste. Do ponto de
vista cultural, também, não existirá país que tenha assimilado tanto a
cultura oriental como a ocidental, controlando-as; o país que tem a missão
de criar uma cultura pacifista e ideal é o Japão. Ouvi dizer que,
recentemente, em determinados círculos intelectuais norte-americanos,
surgiram indivíduos que defendem tal tese. Realmente, penso que deve ser
assim. O centro do Japão é, pois, Hakone, que por sua vez tem o seu centro
em Gora. Quando daí levantamos nosso olhar, a montanha que se ergue
detrás do Monte So-un é a Kamiyama (Montanha de Deus), o pico mais
alto da Cordilheira de Hakone — o seu centro verdadeiro. Desnecessário
dizer, então, que este é o ponto divisório do leste e do oeste do Japão. Isto
sim é algo verdadeiramente místico, sendo justa a denominação "Montanha
de Deus".

Na realidade, portanto, eu deveria construir o Paraíso Terrestre


sobre essa montanha, mas pela inviabilidade, escolhi o presente local.
Nomeei a minha primeira moradia, em Gora, de Shinzan-So (Solar da
Montanha Divina), tomando esta montanha por modelo. De forma idêntica,
batizei inicialmente o atual Nikko-Den de Alojamento So-un, em virtude do
monte do mesmo nome. A seguir, outro fato interessante. Foi a Companhia
Tozan Dentetsu que deu início à exploração de Gora. Onde, hoje, se situa
este Shinsen-Kyo, ela construíra o Parque Japonês; mais abaixo, no atual

37
Mundo do Belo

Parque de Gora, o Parque Ocidental, o que também é misterioso. Assim, o


Japão é o parque do mundo; o parque do Japão, Hakone, e o de Hakone,
Gora. O centro de Gora é o Shinsen-Kyo, que é o verdadeiro centro do
mundo.

Nesse sentido, o fato de ter-se chegado ao término do Shinsen-Kyo


significa que o Paraíso Terrestre surgiu no centro do mundo. Em outras
palavras, é o nascimento do Paraíso Terrestre, tratando-se, então, do maior
evento comemorativo desde o início do mundo, e uma data a ser festejada
mundialmente por toda a eternidade. O dia quinze de junho virá a ser, no
futuro, o dia do Culto do Nascimento do Paraíso Terrestre. A propósito,
tenho um importante fato a comunicar. A partir de hoje, a atividade
espiritual será implementada, e um enorme redemoinho, centrado aqui e
avançando da direita para a esquerda, expandir-se-á gradativamente pelo
mundo, trazendo uma mudança sem precedentes: a grande reforma da
sociedade.

Eiko, nº 216 — 8 de julho de 1953

CUMPRIMENTOS DE ANO NOVO

Em se tratando de cumprimentos de Ano Novo, costuma-se


escrever sempre coisas convencionais, razão pela qual não andava, há
algum tempo, muito entusiasmado. Este ano, porém, diversamente dos
demais, sinto muito ânimo, e a pena me avança célere. Como é do
conhecimento geral, hoje, passados três anos “após a queda das flores vem
a frutificação” desta Igreja, os frutos parecem estar bem desenvolvidos.
Digo o porquê. O Templo Messiânico, soberano do Paraíso Terrestre de
Atami, edificado sobre o Seisei-Dai, será finalmente concluído neste
outono. Ao mesmo tempo, o Suisho-Den (Palácio de Cristal), erigido em
cima do mirante, também deverá ficar pronto ainda neste ano. De outro
lado, com o intervalo de um ano, prevê-se para o vindouro o término do
Museu de Belas-Artes, estando, pois, bem próxima a conclusão do Paraíso
Terrestre de Atami.

Será o bastante, todavia, apenas que o Templo Messiânico e o

38
Mundo do Belo

Palácio de Cristal fiquem prontos, para que a sua visão magnificente deixe
todos os que os virem com os olhos arregalados, porque ambos constituem
prédios num estilo inteiramente inédito, tanto no Japão quanto no exterior;
não só o jardim, com as suas árvores verdejantes e flores multicoloridas
que os circunda, constituindo um adereço esplendoroso e paradisíaco, como
também o excelente panorama que daí se avista, a partir da longínqua Ilha
de Izu, passando pela Península de Miura até a de Boso, tudo isso cria uma
grande terra da arte, única no mundo e merecedora do nome de Paraíso
Terrestre. Na alvorada da sua constituição, deveremos considerá-lo, sem
exagero, não um local famoso do Japão, mas do mundo. Tal julgamento
pode ser comprovado pelo comentário, nesse sentido, que certo jornalista
norte-americano, aqui em visita, dias atrás, teceu juntamente com palavras
de louvor.

Outrossim, o Museu de Belas-Artes de Atami, tanto por suas


dimensões como instalações, supera o de Hakone em todos os aspectos e
contribui para dar maior brilho ao conjunto. Pode-se contar desde já com o
fato de que, em breve, será assunto internacional. Acrescento ainda que,
este ano, a expansão da Igreja no Hawaí e nos Estados Unidos será
formidável. É indiscutível que, também no território japonês, a Medicina
Espiritual e a Agricultura Natural, pólos destes Ensinamentos, atrairão
gradativamente as atenções gerais, contando, num futuro próximo, com
número crescente de simpatizantes no exterior. A programação divina,
desta maneira, ingressa num estágio de progressivos sucessos, sendo
desejável que os senhores fiéis, com semelhante disposição, avancem
firmes.

Esta é, em síntese, minha aspiração para o corrente ano.

Eiko, nº 241 — 1º de janeiro de 1954

39
Mundo do Belo

II - SOBRE O MUSEU DE BELAS-ARTES

A ILHA DE HORAI

O Japão, quando percebido do ponto de vista de uma cultura


pacífica, é sempre por mim considerado como um país verdadeiramente
excelente. Prentendo, então, escrever um pouco daquilo que tenho
percebido em relação a tal assunto. Gosto de obras artísticas e, desde
jovem, a cada oportunidade, vim dedicando a minha atenção a essa área,
dentro dos limites permitidos pelas circunstâncias. Mesmo nos dias de hoje,
continuo a ver tais obras, a comprazer-me com elas e a estudá-las e — fato
surpreendente — é-me possível afirmar que, no Japão, encontra-se quase
toda a variedade de obras artísticas do mundo inteiro. Desejo ressaltar,
particularmente, o fato de que, dentre essas obras, as chinesas foram
abundantemente coletadas pelos detentores do poder diletante de cada
época, desde a Antigüidade, e chegaram em nossos dias bem conservadas.
Esse é o fruto de um trabalho que não pode passar em branco, pois, antes
de mais nada, evitou a destruição e a dispersão dessas obras artísticas por
um longo espaço de tempo, proporcionando-lhes um cuidadoso tratamento.
Tal fato advém, ao que parece, desde o Período Fujiwara, e a ele acresce
que as excelentes obras de talentos e mestres nascidos no Japão também
foram legadas. Ademais, surgiram obras-primas notáveis no espaço que vai
do final do xogunato e adentra-se pela Era Meiji. Graças ao fato de os
zaibatsu e magnatas terem disputado entre si a coleta de obras artísticas, o
Japão arrebanhou e entesoura um vasto acervo de obras antigas e
modernas, peças chinesas e coreanas, bem como um número relativamente
extenso de obras ocidentais. Este é um país sem par no mundo. O Japão é,
sem dúvida, um museu de artes mundiais.

Entrementes, no que T´ange à China, que é uma das fontes do


referido acervo, as conturbações dos incêndios oriundos de guerras
causaram a destruição e a queima de um grande número de obras (em
particular, quase não sobraram pinturas antigas), restando tão somente
umas poucas peças em bronze, cerâmica e porcelana. Tais obras recebem a
denominação de "peças soterradas", e salvaram-se da destruição por terem
estado sob a terra durante muito tempo, sendo que existem em relativa

40
Mundo do Belo

quantidade. Porém, a partir de algumas décadas atrás, tanto magnatas


quanto intelectuais americanos e ingleses descobriram essas obras, e, como
as compraram com avidez, não resta quase mais nada delas, atualmente.
Hoje, no British Museum (acervo doado pelo multimilionário inglês Sr.
George Eumorfopoulos) e nos de Boston e de Washington, elas existem em
número razoável, tendo eu já visto fotografias delas. Nos dois últimos
museus, elas são, na sua maior parte, em bronze, cerâmica e porcelana, e,
naturalmente, vêm a ser peças de primeira qualidade. Contudo, em se
tratando de pinturas, não há das antigas; as existentes são apenas algumas
obras modernas. No Japão, todavia, existem em bronze, cerâmica,
porcelana, e pinturas, bem como outras obras da China e da Coréia em
número incalculável. Como, porém, encontram-se espalhadas pelo país
inteiro, uma vez que não estão, à semelhança do que ocorre na Inglaterra e
nos Estados Unidos, reunidas em um só recinto, é impossível apreciá-las.
Como se diz usualmente, trata-se de um tesouro jogado às traças. Na
verdade, no Japão, a começar dos museus, existem várias galerias
particulares de artes, as quais deixam, realmente, muito a desejar. Nos
museus — aqueles a que cabe cumprir um papel importantíssimo —, os
elementos histórico e arqueológico assumem preponderância, e, no que
toca às galerias privadas, essas têm — que me desculpem a expressão — o
defeito de serem demasiadamente pequenas.

Detendo-me por aqui, em matéria de arte, é meu desejo discorrer


algo sobre um fato fundamental — nada mais, nada menos que a
longevidade humana. Deixando à parte as eras anteriores à do imperador
Jinmu, é possível obter a comprovação, por intermédio de bibliografia, de
que, mesmo em épocas posteriores, pessoas comuns gozavam de
longevidade superior a uma centena de anos. O que se conclui, então, é que
as doenças inexistiam. Esse fato pode remeter-se à completa ausência de
remédios. Aquele famoso imperador Shih-Huang, da Dinastia Ch'in, disse
ao seu súdito Hshu Fu que, no Mar Oriental, situava-se uma Ilha por nome
Horai, e, como seus insulares pareciam gozar de grande longevidade,
deveria haver ali, sem dúvida, um bom remédio. Ordenou, então, que fosse
procurá-lo. Hshu Fu veio, então, daquelas paragens longínquas até o Japão.
Ao desembarcar aqui, entretanto, já que essa droga inexistia, ele não a
encontrou, por onde quer que a procurasse. Desesperançado, não logrou

41
Mundo do Belo

retornar à sua pátria, permanecendo, assim mesmo, no Japão, e aqui findou


a sua vida. A veracidade desse fato é clara pela existência do seu túmulo
em Kumano, ainda hoje.

Tentei discorrer dessa maneira, concisamente, sobre esse assunto e


concluo: caso todo o povo venha a ser sadio e goze de longevidade superior
a cem anos, a Arte do mundo inteiro seja encontrada em abundância e a
beleza natural das montanhas e rios seja generosa, a que outro lugar
haveremos de dar o nome de Ilha de Horai, do Mar Oriental, que não a
este? Todavia, não nos enganemos: é ainda muito cedo para nos
alegrarmos. Esclareço: esta somente poderá ser a genuína Ilha de Horai
quando, além do mencionado, não mais houver criminosos, quando a auto-
suficiência alimentar for alcançada e ao findar-se a inquietação com
guerras. Tal fato, entretanto, não é difícil. Assim que esta religião for
conhecida pela maioria dos japoneses, tal maravilha, infalivelmente,
concretizar-se-á. Quão gratificante é esta religião!

Eiko, nº 100 — 30 de maio de 1951

NÃO PERTURBEM O MEU TRABALHO (II)

A seguir, explanarei sobre o Museu de Arte: este será um prédio de


três andares, com superfície total de cerca de mil tsubo. Seu estilo é que
vem a ser um novo problema, porque, conquanto ele deva ser, a grosso
modo, do estilo Le Corbusier, desejo fazer dele uma construção universal,
que exponha completamente sua atmosfera como museu de arte.
Outrossim, no tangenteas obras artísticas a serem nele expostas, almejo ao
degrau mais elevado no mundo, não só em termos quantitativos, é óbvio,
mas também qualitativamente. Esclareço: existem museus, tanto gerais
quanto de arte, seja nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França e em
outros países. Seja como for, porém, o que eles têm a exibir é composto
quase que só por peças ocidentais. Em contraposição, no Museu de Arte a
que me refiro, a tônica reside na arte oriental. O Oriente, no âmbito da arte
universal, ocupa (opinião também compartilhada com os amantes europeus
e norte-americanos da Arte) posição de irrefutável primazia. Este é um fato
evidente também pelo desvelo dispensado nos Estados Unidos e na Europa,

42
Mundo do Belo

nestes últimos anos, na coleta de arte oriental. Pelo mesmo motivo, as


peças que eles adquiriram de algumas décadas para cá, sem poupar
dinheiro, após terem percebido tal valor, abrilhantam atualmente os museus
de seus respectivos países. Entretanto, o curto intervalo de algumas meras
décadas não é o bastante para que se atinja um estado satisfatório, o que
constitui matéria de aflição para os intelectuais europeus e norte-
americanos. Todavia, por obra da fortuna, no nosso Japão, desde um
milênio e alguns séculos atrás, foram armazenados a contento, no país,
além, naturalmente, das obras da China e da Coréia, aquelas peculiares ao
Japão. Posto que o processo tenha acontecido de maneira dispersiva,
podemos estar inteiramente confiantes nessa supremacia. Contudo, no
momento atual, é lamentável que a maior porção de tais peças esteja
guardada ociosamente, mas nada se pode fazer. É que, seja como for,
diversamente do que ocorreu na Europa e nos Estados Unidos, o Japão, até
o presente momento, não teve a oportunidade de ser útil à humanidade,
dando vida a esse acervo. Ademais, tem-se que as obras artísticas chinesas
e coreanas, hoje em dia, quase não mais existem nos seus próprios países
de origem. A causa reside no fato de que, em conseqüência dos repetidos
incêndios dos quais, desde outrora, essas peças foram vítimas, elas ou se
perderam, ou se consumiram pelo fogo. O que acontece, quando muito, é o
aparecimento ocasional de um número ínfimo de peças escavadas que, indo
parar nas mãos de europeus e norte-americanos, são expostas em museus
gerais e de arte.

Entretanto, no Japão, desde há mais de um milênio, importaram-se,


desnecessário dizer, obras-primas em pinturas e artes plásticas da China e
da Coréia, sendo que, no próprio Japão, já há mil e trezentos anos, na época
do reinado de Suiko, os seus habitantes criaram uma arte budista peculiar
ao país, aprendendo essa mesma arte da China Antiga. Posteriormente, o
Japão avançou e desenvolveu-se em todo tipo de obra artística, e, pela
interação do nascimento de talentos invulgares e de grandes mestres, um
número incontável de obras-primas foram produzidas, através dos períodos
Tempyo, Fujiwara, Kamakura, Muromachi, Tokugawa, Meiji e Taisho, até
os dias de hoje. Assim, o cabedal de excelentes peças de arte oriental
acumulado nesse longo espaço de tempo é verdadeiramente imenso. Além
de tudo, desde tempos remotos, a casa imperial, os xóguns, os senhores

43
Mundo do Belo

feudais e, mais recentemente, os zaibatsu, amaram e valorizaram esse


acervo, esforçando-se na sua preservação. Ainda hoje, peças valiosas e de
renome encontram-se cuidadosamente guardadas por todo o país. Deve-se,
então, dizer que a afirmação sempre por mim feita de que o Japão é um
museu mundial de arte vem muito bem a calhar.

Por semelhante motivo, no museu de arte que agora hei de


construir, aplacarei a sede dos diletantes de todos os países do mundo,
reunindo nele o supra-sumo da arte oriental. Concomitantemente, isso
também resultará no mostrar a altura do nível cultural japonês. Terá,
outrossim, um grande efeito na remoção do estigma de nação belicosa
carregado pelo japonês, e, quando o museu de arte estiver concluído,
poderei anunciar com orgulho sua contribuição para com a política
nacional de convidar personalidades estrangeiras ao nosso país. Além do
supracitado, há mais um fato importante. Trata-se do intenso desejo que os
artistas nipônicos nutrem, hoje, de ver as obras-primas da arte antiga, como
referência. Todavia, é plausível dizer que quase inexistem instalações
suficientes para satisfazer a esse anseio. Há tão somente os museus de
Quioto, Tóquio e Osaka, e alguns museus de arte privados. Naqueles, os
elementos histórico e arqueológico são preponderantes; nestes, o que existe
deixa muito a desejar. No que toca exclusivamente aos museus de arte,
deve-se dizer que são uma espécie de expediente para a preservação de
propriedade, e, quando muito, mostram seu acervo a determinado público,
em apenas dois curtos intervalos, na primavera e no outono. Pela ausência
de um museu cuja organização simplificada permita a quem quer que seja
ver suas obras quando quiser, não haverá necessidade de eloqüência para
dizer o quão útil seria este museu de arte, no caso de sua concretização,
para o desenvolvimento da cultura do nosso país, de agora em diante.

Como se depreende do acima exposto, uma quantidade enorme de


peças raras e de renome jaz profundamente enterrada nos depósitos dos
zaibatsu e das classes distintas, no Japão, hoje. Em contraposição, se de um
lado há também um sem número de artistas e diletantes de todo o Japão
apaixonados por tais obras, o que então se faz indispensável, a partir de
agora, é um organismo que conecte ambas as partes. Nesse sentido, é
primordial obter a compreensão dos donos das obras artísticas.

44
Mundo do Belo

Concomitantemente, se faz mui necessário um museu de arte dotado de


instalações completas, para viabilizar a exibição dessas peças, com a
tranqüilidade de seus donos.

Prolonguei-me na escrita deste, mas digo que um empreendimento


de semelhante porte está prestes a ser concluído, mediante meu esforço
único, e, precisamente por isso, esta não é em absoluto uma empresa fácil.
Talvez, trate-se mesmo de uma obra grandiosa, jamais experimentada por
alguém, em toda a História da humanidade. Para tanto, embora fosse quase
impossível contar com a ajuda estatal, na verdade, eu poderia receber um
auxílio razoável do município ou de grupos privados, mas é que eu não
gosto de tal dependência. A causa é que, caso fosse objeto desse auxílio, eu
não poderia trabalhar impetuosamente, consoante minhas idéias. Seja como
for, em se tratando de um empreendimento que não visa ao lucro, e de um
projeto inédito, de dimensões por demais grandiosas, quero manifestar a
minha individualidade, até o fim, exatamente como um artista faz com a
sua obra.

Parece haver jornalistas que falam a esmo desta religião, no que diz
respeito à grandiosa empresa acima descrita, sem conhecer o seu real
conteúdo. É desejável que reflitam profundamente sobre tão impensada
atitude. Como se pode depreender do discorrido, eu venho esforçando-me
em silêncio, em prol da cultura mundial e do porvir do Japão. Assim, hoje,
quando as coisas, graças ao auxílio divino, vêm, de um modo geral,
correndo a contento, eu me sinto satisfeito. Como esta empresa é de caráter
nacional, ou antes, universal, se eu não me lançasse à sua consecução,
alguém teria que fazê-lo, e quanto mais rápida fosse sua realização, maior
seriam seus préstimos para o desenvolvimento cultural. Portanto, quero
solicitar a todas aquelas pessoas que ainda não conheçam o projeto, ou que
por ele tenham algum interesse, que visitem, primeiramente, o local de sua
instalação. Nesse caso, não apenas mostrarei tudo com desvelo, como não
pouparei esforço em explicar o projeto, até que meu interlocutor se
satisfaça.

Eiko, nº.112 — 28 de novembro de 1951

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Mundo do Belo

ATÉ A CONCLUSÃO DO MUSEU DE ARTE

O Shinsen-Kyo, em construção desde há algum tempo, encontra-se


finalmente próximo de seu término, e eu não posso conter minha vontade
de comemorar o evento. Simultaneamente, o que está irradiando, de
maneira extraordinária, um brilho todo diferente, é decerto o Museu de
Belas-Artes. Este, também, como é visível, ficou pronto mais cedo do que
se imaginava, faltando, agora, apenas as instalações interiores. Basta só
dispormos nele os objetos necessários, para que, então, esteja inaugurado.
Outrossim, com o término concomitante de todo o conjunto do Shinsen-
Kyo, escolhi, por fim, o dia 15 de junho vindouro para celebrar o ofício de
sua conclusão, junto com a cerimônia de inauguração do Museu de Arte.
Aproveito a ocasião para tecer diversas considerações sobre museus de
arte. No que diz respeito aos museus de arte existentes desde o início até
hoje, não há um sequer que esteja sempre franqueado ao público em geral.
Em virtude de realizarem exibições somente duas vezes ao ano, na
primavera e no outono, para determinadas pessoas apenas, seu significado,
em termos de valor sócio-cultural, é, na verdade, pouco profundo.
Outrossim, no tangenteàs peças de exposição, esses museus ou pendem
somente para a arte chinesa, ou para a arte búdica, ou para a arte
relacionada com a Cerimônia do Chá, ou, ainda, para a pintura ocidental,
assumindo um papel restrito. Entretanto, o Museu de Belas-Artes de
Hakone, a ser aberto agora, posto que de dimensões reduzidas, abrange a
arte oriental em sua totalidade. Além do mais, penso ter selecionado, na
medida do possível, peças superiores de cada época, e, por isso, sem querer
gabar-me dos meus próprios feitos, posso dizer, antes de mais nada, que
este é um museu ímpar no mundo. Assim sendo, ele poderá servir, não
pouco, ao propósito de elevar a circunstância cultural do Japão, também,
sob uma perspectiva de nação. Portanto, para dizer a verdade, a realização
de semelhante empresa de caráter público é impossível para um indivíduo
ou uma organização religiosa, devendo ser da alçada estatal. Contudo, seja
como for, sob a atual conjuntura econômica, tal feito, decerto, é impossível.
Assim, pode-se dizer que o meu projeto de museu de arte é oportuno.
Ademais, se for fazer algo que mereça o nome de museu de arte, os custos
de construção, bem como o trabalho e o capital necessários para a coleta
das obras artísticas a serem nele expostas, não são nada simples. E, em se

46
Mundo do Belo

tratando de uma religião recém-formada, como é o caso desta, as


dificuldades enfrentadas não foram comuns. Sofreu impedimento e
pressões terríveis, provenientes não só da incompreensão das autoridades,
como também da visão equivocada da sociedade, o que ocorre até hoje,
como é do conhecimento geral. Uma vez que foi possível, mesmo assim,
concluir o Museu de Arte de acordo com o previsto, vencendo todas essas
barreiras, jamais posso considerar, se fico meditando sobre todos esses
acontecimentos, que esta tenha sido uma obra humana. Ao pensar nisso,
pela profundidade da proteção do Senhor Deus, comovido, contenho as
emoções e agradeço.

Este museu de Arte, outrossim, teve tanto sua construção quanto


instalações planejadas inteiramente por mim, sem que eu me servisse, o
pouco que fosse, dos préstimos de profissionais na matéria. Assim o fiz,
porque eu tinha confiança em mim próprio e queria edificar um museu de
arte cujo projeto fosse inovador, como modelo para os demais que, no
futuro, serão edificados não só em cada localidade do Japão, escusado
dizer, mas no mundo inteiro. Nesse sentido, é evidente que eu tenha
dedicado especialmente a minha atenção aos mínimos detalhes e, portanto,
ainda desejaria ser contemplado, sem falta, com a crítica da sociedade em
geral. No T´angente, ademais, às suas obras de arte, eu envidei esforços
visando a coletar peças peculiares ao Japão, e, no que diz respeito, também
aos padrões adotados, atribuí papel principal às obras-primas dos grandes
mestres de cada período. Um museu de arte assim, cujo ponto central é a
arte nipônica, tampouco existindo no próprio Japão, inexiste também no
exterior, não sendo exagero, então, dizer que, em termos atuais, ocupa
posição de primazia mundial. Tentarei resumir, aqui, sua história, desde o
princípio. Observando que o processo se constituiu de uma sucessão de
milagres do início ao fim, é por demais óbvio não se tratar de obra humana,
jamais.

A seguir, tratarei, em primeiro lugar, do projeto. Até por ocasião de


uns dois ou três anos depois de terminada a guerra, como amante da arte
que sou, eu me comprazia em comprar, aos poucos, dentro dos limites
permitidos pela situação econômica, as peças que descobria. Entretanto,
fortunadamente, naquela época, pela confusão reinante no pós-guerra,

47
Mundo do Belo

peças relativamente boas vieram parar-me às mãos. Hoje, ao pensar nisso,


vejo perfeitamente que também este fato foi a manifestação da Providência
Divina. Nesse ínterim, o seguinte se passou precisamente no fim do ano
retrasado, em 1950. Com a transferência de Torino-ya (Casa dos Pássaros)
de um canto do Shinsen-Kyo (na ocasião, o prédio foi destinado à sede do
Daisei-kai), surgiu um terreno vago de 150 (495 m2) a 160 tsubo (528m2).
Quando eu pensava em construir nele alguma coisa adequada, nasceu-me
repentinamente a idéia da edificação do Museu de Arte. Não obstante ter
ponderado que a área era um pouco pequena para um museu, determinei-
me, primeiramente no meu íntimo, à sua concretização, em vista de tanto o
local como o ambiente serem perfeitos. Porém, por se tratar de um museu
de arte, ainda que pequeno, não seria conseguido com qualquer quantia, e
eu não via perspectivas de conseguir um volume considerável de dinheiro.
Desta maneira, considerando que, se ao menos deixasse arranjada a área,
mais cedo ou mais tarde, a oportunidade de construí-lo apareceria, lancei-
me primeiro à tarefa de preparar o terreno. Com o término do arranjo deste,
aproximadamente no verão do ano passado, senti uma vontade incontida de
construir depressa o Museu. Assim, tendo logo consultado Abe, ele me
respondeu: "Então, vou verificar isso imediatamente". Verificação feita,
chegou-se à conclusão de que tal desejo não seria impossível. Então passei,
rapidamente, aos preparativos já em outubro daquele ano, considerando que
o Senhor Deus daria um jeito em tudo. Dessa forma, tão logo ingressamos
no mês seguinte de novembro, quantias inesperadas de dinheiro entravam
umas após outras, bem como propostas de doações eram feitas
seguidamente, pelo que eu não fazia outra coisa senão me admirar com a
excelência da proteção divina, muito embora eu fosse sempre com ela
agraciado. Portanto, os fundos até hoje necessários ajuntaram-se na medida
justa, e tudo se concretizou de maneira melhor que a esperada. Assim, o
Museu de Arte foi concluído em meros oito meses e meio depois da
elaboração do seu projeto. Certamente, o fato de um edifício de tal natureza
ter ficado pronto nessa velocidade não encontra precedentes não só no
Japão, é óbvio, mas também no mundo.

Tal empreendimento foi possível porque, desde o início, graças à


sucessão de milagres acontecidos, vinha parar-me às mãos, posto eu
permanecesse calado, aquilo que eu queria, e o dinheiro necessário para o

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Mundo do Belo

intento ajuntou-se na medida justa pelo fervor e sinceridade dos membros


da Igreja. De tal maneira, vista do ângulo do senso comum, a consecução
de um museu de arte desse porte requisitaria tempo, sacrifício e esforço
consideráveis. No entanto, ele ficou pronto com facilidade, a ponto de fazer
graça, sem dar muito trabalho, como é deduzível do que vim discorrendo.
Sinceramente, aquilo que o Senhor Deus realiza é inimaginável. No tocante
a tais impressões, como é do conhecimento geral, os numerosos museus de
arte convencionais foram, sem exceção, construídos com o fim de preservar
a propriedade constituída pelas peças artísticas coletadas por décadas a fio,
e de satisfazer a vaidade daqueles homens importantes, que venceram na
vida por si mesmos, acumulando em uma única geração uma fortuna
fabulosa, graças ao seu esforço e luta solitárias. Outrossim, como esses
museus são mostrados apenas a um grupo de pessoas determinadas,
divergem radicalmente da minha concepção. Eu sinto a fundo que a obra de
arte não deve ser, em hipótese alguma, monopolizada, mas sim mostrada ao
maior número possível de pessoas, para que se deleitem com ela e tenham
elevado o seu caráter humano. Isto sim — o oferecimento da Arte para o
progresso da Cultura — é o verdadeiro âmago da Arte como tal.

Agora, quero discorrer sobre a parte mística do assunto. Dias atrás,


tendo ido a Nara, fui levado a meditar profundamente sobre a obra magna e
imperecível do renomado príncipe Shotoku. Como é do conhecimento
geral, a introdução do budismo no Japão deu-se inicialmente no décimo
terceiro ano do reinado do imperador Kin-mei. No princípio, porém, como
hodiernamente ocorre com as novas religiões, sua difusão foi débil e
vagarosa, em conseqüência da incompreensão das autoridades
governamentais e da opressão do xintoísmo. Todavia, o príncipe Shotoku
nasceu no terceiro ano da Era Bitatsu, e, ao tornar-se adulto (antes de mais
nada, é preciso considerar que ele era um grande homem como raros, sendo
possível dizer que era um santo a encarnar a misericórdia), tão logo entrou
em contato com o budismo, percebeu que aquela é que era a missão de
salvar a humanidade a ele concedida pelo Buda, e fez o voto máximo de
expandir essa religião. Assim, raciocinou ele que o meio forte por
excelência de difusão era o baseado na arte búdica, e, estabelecendo, então,
o sítio de Nara como terra santa, edificou uma abadia composta de sete
prédios, que é o Templo Horyu. Portanto, esse foi, por assim dizer, o

49
Mundo do Belo

modelo do Paraíso Terrestre de sua época. E não é somente isso. A


inteligência superior do príncipe Shotoku não se limitou apenas ao
budismo, mas se estendeu por todas as áreas, quais sejam, política,
economia, educação e outras. A sabedoria toda-poderosa, independente e
livre do príncipe foi objeto do temor respeitoso do povo daquela época,
fazendo com que ele fosse venerado e louvado como a própria encarnação
do Bodhisatta de Mil Mãos, e o budismo, a partir de tal concepção, atingiu
o estado de dominar o país e passou-se a julgar, por tais fatos, que o pai do
budismo no Japão é o próprio Príncipe.

Assim, os vários séculos passados após essa época constituem, por


assim dizer, o período do budismo primitivo. Posteriormente, como
qualquer um sabe, monges e sábios famosos, nomeadamente, Dengyo,
Kukai, Honen, Shinran, Nichiren e demais, surgiram um após o outro,
fundando suas respectivas facções, até os dias de hoje. Desse modo, é
possível saber o quanto floresceu o budismo no período Nara, por
intermédio da construção do Grande Buda, no renomado Templo de Todai.
Seja como for, a consecução de uma obra-prima gigantesca como aquela,
numa época em que a cultura era ainda imatura, ilustra muito bem o quão
elevado era o fervor religioso.

Em seguida, devo escrever sobre mim mesmo. Eu, desde cedo,


amei a arte, e o que me trouxe até o ponto de construir este museu de arte
foi a convicção de que tal empreendimento era o mais adequado que
qualquer outro, para o desenvolvimento religioso. Simultaneamente, eu
prego a Verdade em todos os campos, a partir da medicina e da agricultura,
passando pela política, economia, educação e arte, dentre outros; esfacelo a
ignorância e venho mostrando o princípio-guia da organização de uma
nova cultura. Julgando-se, pois, por tal missão, pelo fato de que eu estendo
em âmbito mundial a obra do príncipe Shotoku, tudo o que se refere a mim
tornar-se-á perfeitamente compreensível. A única diferença é que o
Príncipe se originou da classe alta, ao passo que eu provenho das camadas
baixas. Tal realidade é plausível ao se considerar o fato de Maitreya descer
ao mundo. Ademais, outra coisa que desejo dizer é que o Príncipe se
submeteu ao Buda, devotando-se à expansão do budismo. Eu, no entanto,
considero o Buda inferior a mim. A razão é que, há dois mil e seiscentos

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Mundo do Belo

anos, ele já desempenhava o papel de preparar a minha atual grandiosa obra


de salvação da humanidade. Creio que foi possível compreender
consideravelmente, pelo exposto, a relação existente entre mim e o
Príncipe, bem como o fato de eu estar canalizando meus esforços para a
Arte. Mas o importante, agora, é que o objetivo do Deus — o Paraíso
Terrestre, livre da doença, da miséria e do conflito — é também o mundo
em que a Arte constitui o elemento supremo.

Eiko, nº 60 — 11 de junho de 1952

SIGNIFICADO DA CONSTRUÇÃO DO MUSEU DE ARTE

Eu sou Mokiti Okada, Líder Espiritual da Sekai Meshia Kyo. É uma


honra para mim a visita dos senhores, pessoas de cotidiano atarefadíssimo,
nos dias de hoje. Agradeço-lhes profundamente. O motivo que me levou,
em especial, a solicitar a sua apreciação do Museu de Arte antes de
inaugurá-lo, foi o desejo de submetê-lo à crítica dos senhores, que são
homens de discernimento artístico, bem como pela vontade de expor um
pouco da minha aspiração. Ora, o ideal original da religião reside na
construção do Mundo da Verdade, do Bem e do Belo; a Verdade e o Bem
são elementos espirituais, mas o Belo é aquilo que, por intermédio da visão,
enobrece a alma humana. Os senhores sabem o quanto floresceu a Arte
religiosa tanto, como é do seu conhecimento, no Ocidente, desde a Grécia e
Roma até a Idade Média, naturalmente, quanto no Japão, desde a época do
príncipe Shotoku até o Período Kamakura. Portanto, o fato de a Religião ter
sido a geratriz da Pintura, da Escultura, da Música e de toda a Arte é uma
realidade incontestável.

Todavia, com o aproximar da atualidade, tal fato foi debilitando-se


gradativamente, e a Religião e a Arte acabaram por ficar uma longe da
outra. Com a influência dos efeitos da ciência moderna, ouve-se sempre
que a religião se encontra estagnada. Por tal razão, eu penso que a Religião
e a Arte devem, infalivelmente, avançar em íntima conexão.

Após este comentário, desejo, agora, falar algo sobre o caráter


nacional do Japão. Originalmente, todos os países existentes sobre a face da

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Mundo do Belo

Terra têm, respectivamente, da mesma forma que as pessoas, suas


concepções e culturas características. No caso do Japão, tal evidência
consiste em contribuir para elevar a cultura, deleitando o gênero humano
por intermédio da Arte, o que deve ser perfeitamente compreensível
quando, apenas, levamos em consideração tópicos, tais como o fato de que
a beleza paisagística japonesa é particularmente notável, pela profusão das
suas espécies de flores, plantas e árvores, pela agudeza da percepção
artística e pela excelência da técnica manual do japonês. Entretanto, por
ignorar semelhante base, o resultado de ter despertado em si uma ambição
por demais descomedida como é a guerra, conduziu-o à experiência
miserável daquela derrota militar. Desnecessário é dizer que o fato de o
Japão ter acabado, além do mais, privado de suas armas, de modo a não
mais promover guerras, foi, sem dúvida, um ato de Deus a despertar o
japonês para a sua verdadeira missão. É verdade que, nestes últimos dias,
fala-se, ruidosamente, em rearmamento, mas isso se trata apenas de um
meio de defesa, não assumindo, obviamente, significado maior.

Pelo exposto, o caminho que doravante o Japão deve seguir é por si


só evidente. Eu, que já me conscientizara disto, acreditando que a paz e a
prosperidade adviriam sem falta, desde que se as tivesse por objetivo, vim
marchando com esta convicção, não obstante a debilidade de minhas
forças. E, como método concreto disso, primeiramente, eu construí o
pequeno Paraíso da Beleza, com projetos de revelá-lo ao mundo. Os sítios
adequados a tais requisitos são, diga o que se disser, Hakone e Atami,
locais perfeitos pela extrema facilidade de acesso e beleza paisagística, bem
como pela existência de águas termais e por seu excelente clima. Assim,
escolhendo terrenos particularmente pitorescos nos dois mencionados
sítios, intentei edificar neles o lugar ideal da Arte, onde a beleza natural se
coaduna com a artificial: o que finalmente ficou pronto foi este Paraíso
Terrestre e o Museu de Belas-Artes. Quanto a este último, como é do
conhecimento dos senhores, no Japão, até hoje, não houve sequer um único
museu de arte tipicamente japonês. Havia museus de arte chinesa e de arte
ocidental, bem como a Arte religiosa dos museus gerais, de forma que nos
encontrávamos numa situação tal que, conquanto fôssemos japoneses, era-
nos impossível apreciar a arte japonesa. Assim, caso, hipoteticamente, um
estrangeiro viesse agora ao Japão e quisesse ver alguma coisa típica, seria

52
Mundo do Belo

impossível satisfazer seu desejo. Não seria essa, então, a maior deficiência
do Japão como o país da arte? Assim, se este museu de arte puder suprir,
um pouco que seja, essa falha, eu sentirei que fui recompensado muito
além de minhas esperanças.

Há mais um fato do qual desejo que os senhores fiquem cientes.


Posto que houvesse em abundância no Japão, desde antigamente, obras
artísticas maravilhosas, das quais podíamos nos orgulhar diante do mundo,
até o fim da guerra elas jaziam profundamente guardadas nos depósitos da
nobreza e dos magnatas, não se deixando que fossem, na maior parte,
expostas aos olhos do grande público. Em suma, isso pode ter provindo de
idéias monopolistas e feudais. Hoje, quando nos tornamos uma nação
democrática, tal absurdo, escusado dizer, virou um sonho do passado.
Outrossim, aquilo que leva o nome de obra de arte é, originalmente, para
ser mostrado ao grande público e deleitá-lo, elevando, imperceptivelmente,
o espírito do homem. A isso, sim, se pode chamar de razão de existência da
obra artística. Portanto, há que, antes de tudo, esboroar o ideário
monopolizante e dar liberdade à Arte. Todavia (Oh! Fato afortunado!), por
ocasião das enormes transformações nacionais que se operaram no pós-
guerra, aqueles numerosos tesouros nacionais que jaziam ocultos foram
despejados no mercado. Desnecessário discorrer sobre o quanto esse fato
contribuiu para a construção do meu museu de arte.

Desta feita, apesar de pequeno em proporções, o referido Museu foi


por mim edificado consoante a diretriz de servir de modelo para os demais
museus de arte que, de agora em diante, deverão surgir seguidamente
dentro e fora do país. É ele, nos seus mínimos detalhes, fruto de penoso
trabalho meu. Obviamente, também o jardim em sua totalidade foi
planejado por mim: uma simples folhagem, uma mera árvore, tudo.
Portanto, deve haver uma porção de defeitos, pelo trabalho de leigo que
recebeu. Se, porém, prestar, ainda que pouco, como um ponto de referência
para os senhores, eu me darei por satisfeito. Além disso, no que T´ange aos
eventuais bombardeios aéreos, incêndios ou roubos que poderão ocorrer no
futuro, eu acredito ter ponderado, suficientemente, sobre o ambiente, as
instalações, etc., de modo que o presente Museu de Arte poderá ser de valia
também para a conservação dos tesouros nacionais. Penso que os senhores

53
Mundo do Belo

entenderam mais ou menos o que expus acima. Em suma, eu não acalento


outro pensamento senão o de anelar para que o Japão se transforme no país
da Beleza, o que é, originalmente, o Paraíso Mundial. Outrossim, como
tenho planos de construir, em um futuro próximo, paraísos terrestres e
museus de arte anexos tanto em Atami quanto em Quioto, solicito
encarecidamente o contínuo apoio dos senhores. Esta é a minha saudação.

Eiko, nº 164 — 9 de julho de 1952

54
Mundo do Belo

A SOCIALIZAÇÃO DA ARTE

Pretendo discorrer sobre o significado fundamental de eu ter


construído o Museu de Arte de agora. Como sempre digo, o objetivo desta
religião encontra-se na formação do Mundo perfeito da Verdade, do Bem e
do Belo. Assim, com o propósito de expressar o Belo, dentre esses
elementos, criei uma obra de arte jamais experimentada por alguém, com a
harmonizacão das belezas natural e artificial. Eu tinha como alvo o fato de
que este país chamado Japão, conquanto possuísse numerosas obras
artísticas, que não perdem para as de qualquer outro país do mundo,
estavam até agora presas nas mãos das classes privilegiadas, escondidas
profundamente em suas mansões, sem serem franqueadas, mas exibidas
apenas, eventualmente, a determinadas pessoas. Em resumo, esta era a
maneira de pensar feudal de até então do japonês.

Há algum tempo, eu me sentia verdadeiramente pesaroso a respeito


de tal fato, tendo em mente destruir, de algum modo, esse costume nefasto
e socializar a arte. Em síntese, há de se franquear a arte, há de se deleitar o
público em geral. Só assim, pensava eu, seria possível também dar vida à
alma da arte. Estando, então, a cuidar disso, veio a interagir nesse ponto o
dedicado esforço dos fiéis, por eu ser um religioso, e tal desejo se
concretizou num prazo relativamente curto. Com a consecução, pois, de um
anelo de longos anos, eu não posso conter-me de alegria. Atualmente, que
existem museus de arte particulares nas várias regiões do país, existem;
porém, o propósito de sua construção é totalmente diverso do meu objetivo.
Aqueles se constituem em entidades jurídicas constituídas para a
manutenção e a proteção futuras dos numerosos objetos de arte que
magnatas e zaibatsus, sem poupar recursos, ajuntaram para saciar o próprio
gosto, para a preservação da sua propriedade e da sua vaidade. Esses
museus, por ter um estatuto que prevê que devem fazer exposições para o
público no mínimo certos dias por ano, promovem eventos por um curto
espaço de tempo, na primavera e no outono, a título de justificativa.
Necessário se faz dizer, portanto, que, nesses museus, o significado social é
extremamente diminuto. Em contrapartida, o presente Museu de Arte, em
virtude das condições climáticas de Hakone, entrará em recesso por apenas
três meses — dezembro, janeiro e fevereiro —, ficando, de resto, em

55
Mundo do Belo

funcionamento permanente. Por isso, ele tem a conveniência de poder ser


visto quando se quiser, sendo ideal dessa perspectiva também. Ademais,
uma vez que o acervo deste Museu de Arte são obras raras e afamadas, de
quilate tal que os apreciadores quererão vê-las ao menos uma vez, sem
falta, e estão dispostas a ponto do local parecer não poder contê-las,
certamente a satisfação dessas pessoas será grande. O preço da entrada,
outrossim, acredito ser um valor relativamente baixo; por isso, julgo poder
contribuir bastante para o bem-estar social. E não é só isso. Mesmo que os
artistas contemporâneos queiram ver obras de referência, nos museus
gerais, como os senhores sabem, as peças históricas e arqueológicas são
muitas, e a arte budista constitui o elemento central; nas galerias de arte
privada, o elemento principal é a arte chinesa e a ocidental, inexistindo,
pois, no sentido verdadeiro, um museu de arte japonesa. Além disso, do
ponto-de-vista da preservação das preciosas propriedades culturais, que têm
a tendência, de uma ou de outra maneira, de se dispersarem, será possível
prestar uma grande contribuição. Pela conversa que tive dias passados, por
ocasião da visita dos senhores Asano, diretor do Museu Nacional de
Tóquio, e Fujikawa, diretor do Departamento de Assuntos Gerais da
Comissão de Conservação da Propriedade Cultural, um museu de arte
como este se adequa aos quesitos mais prementes da nação, no momento.
Portanto, disseram: "Manifestamos nossa inteira aprovação, e temos o
propósito de o auxiliá-lo. Gostaríamos de que, ciente disso, o senhor se
esforçasse bastante". Assim, eu me senti grandemente encorajado. Por fim,
o que desejo especialmente frisar é que, no futuro, turistas estrangeiros
afluirão ao nosso país, e, como não há estrangeiro que não dê um pulo a
Hakone, com certeza, este museu será muito apreciado. Ainda deste
ângulo, ele prestará, e não pouco, serviços para elevar a posição da cultura
nipônica. A esse respeito, a começar daquele famoso doutor Warner, há
seguidos requerimentos de visita feitos por estrangeiros poderosos. Assim,
de uma forma ou de outra, sua fama espalhar-se-á pelo exterior, não
ficando muito distante o dia em que será uma das atrações nacionais.
Agora, de maneira a atender a tal objetivo, estou trabalhando com afinco na
complementação de tudo.

Eiko, nº 68 — 6 de agosto de 1952

56
Mundo do Belo

III — SOBRE A COLEÇÃO DE OBJETOS DE ARTE

MINHA FORMAÇÃO ARTÍSTICA

O Museu de Belas-Artes de Shinsen-Kyo, em Hakone, finalmente,


ficará pronto no verão do corrente ano. Pretendo escrever algo a respeito
dos milagres com ele relacionados. Como digo freqüentemente, desde
jovem, eu gostava das artes, mas no sentido de apenas ver e apreciar, isto é,
era um diletante desses encontrados amiúde por aí. Naturalmente, por não
ter dinheiro, nada podia comprar; eu tão somente ia a museus, exposições
ou lojas de departamentos para ver, não tendo outra alternativa a não ser
contentar-me com isso. Entrementes, depois do término da guerra, meu
trabalho foi gradualmente tomando o rumo da religião e, graças a tal, passei
a ter acesso a uma quantia razoável de dinheiro. Ademais, pela confusão
reinante no período do pós-guerra, foi possível adquirir muita coisa boa a
preços módicos. Verdade, pois, é que adquiri bastante, aproveitando a
ocasião. Todavia, tal compra se limitou a certo gênero de peças. É que eu
não tinha tido condições financeiras a não ser para determinadas obras:
pinturas de Korin e Sotatsu; cerâmica de Ninsei, Kenzan e Nabeshima; e,
de resto, peças de laca maki-ê. No tocante a esta última modalidade,
quando jovem, eu aprendera a técnica, tendo já executado alguns trabalhos.

Desta maneira, o número de peças ia crescendo aos poucos.


Escusado dizer que, para a realização do lema alçado por esta Igreja, ou
seja, a edificação do mundo da Verdade, do Bem e do Belo — o Paraíso
Terrestre —, esta última acepção se fazia necessária. De fato, no tocante à
Verdade e ao Bem, por se tratarem de elementos espirituais, não havia
problema. O Belo, porém, é material, havendo necessidade de expressá-lo
concretamente: tanto a beleza natural, como a artificial, que deve estar
acompanhando aquela. Brotou-me, então, a idéia de construir um Museu de
Belas-Artes, visando a tal objetivo. Acontecendo de transferir-me para
Hakone, em 1944, encontrei nas cercanias um terreno bem apanhado, o
qual adquiri. Logo, achei outra área ideal em Atami, adquirindo-a também.
Assim, as coisas foram sucessivamente expandindo-se de forma tal, até
atingirem esta concepção maravilhosa, que se pode ver. São os místicos
desígnios divinos em resoluta realização. Por conseguinte, a escala do

57
Mundo do Belo

projeto cresceu: Hakone, com a conclusão da etapa final, que é o Museu de


Artes, chega a um termo.

Com relação a tal empreendimento, desejo registrar alguns fatos


interessantes. Como mencionei anteriormente, no que T´ange às belas-
artes, eu não entendia senão de certas modalidades. Todavia, Deus abriu
gradativamente meus olhos, providenciando-me educação artística. No
período inicial de um ou dois anos, adquiri não só vários álbuns
fotográficos, como vi peças e ouvi palestras de especialistas a respeito da
escola Korin e cerâmica japonesa, a saber: Ninsei, Kenzan e Nabeshima,
passando a ter uma visão global do assunto. No ano seguinte, ainda,
desenho moderno, yamato-ê e ukiyo-ê; no seguinte, pintura monocromática
da escola Higashiyama, manuscritos antigos, pinturas das dinastias Sung e
Yuang; no ano seguinte, ou seja, passado, cerâmicas da China e da Coréia e
pinturas budistas. Logo ao entrar o corrente, no ano novo, adquiri
bibliografia e fotos variadas sobre imagens budistas, sendo que vieram
mostrar-me imagens búdicas nipônicas do período inicial, de maneira que
creio ser este o tema de estudo para o corrente ano.

O interessante é que, com base nas experiências pelas quais até


agora passei, venho me formando em justamente um gênero por ano.
Enquanto as pessoas comuns levam de vinte a trinta anos, eu consigo levar
a cabo semelhante formação em, aproximadamente, um ano. Por isso,
aqueles que, de início, me ministraram esse conhecimento passam, ao
contrário, a serem instruídos por mim. É simplesmente estranho. Deste
modo, é evidente, pelas obras a serem proximamente expostas no Museu,
pela perspectiva de que abrangem um vasto número de áreas, que não
haverá similares delas, nem no Japão nem no resto do mundo. Outrossim,
apesar de se tratar de fato não muito notado, é surpreendente não existir no
Japão um único museu de arte japonesa. Basta ver os museus de belas-artes
atualmente existentes no Japão. Mesmo o Museu Nacional de Tóquio,
excluindo-se a arte budista — que é esplêndida — o restante, falando sem
cerimônia, é por demais fraco. O Museu Bridgestone, recentemente
concluído, é especializado em Pintura ocidental; o Okura Shuko Kan, em
arte chinesa; o Museu Nezu, em utensílios para a Cerimônia do Chá e
bronzes chineses; o Museu Nacional de Quioto, em arte religiosa; o Yurin

58
Mundo do Belo

Kan, em arte chinesa; o Museu Sumitomo, em bronzes chineses; o Museu


Hakutsuru, de Osaka, em cerâmica e bronzes chineses; o Museu Ohara, de
Okayama, em arte ocidental, e assim por diante.

Quão triste, pois, é ser japonês e não ter acesso à Arte nipônica!
Levando isso em consideração, no Museu de Hakone, coloquei ênfase na
arte peculiar do Japão, crendo, pois, poder satisfazer a qualquer um.
Conquanto sua escala seja ainda pequena, este museu viabilizará, seja
como for, a redescoberta da excelência do japonês com relação à Arte, e, ao
mesmo tempo, surpreenderá muito o visitante estrangeiro.
Conseqüentemente, desempenhará um relevante papel nas diretrizes
nacionais concernentes ao turismo.

Eiko, nº 140 — 20 de fevereiro de 1952

PORQUE AS OBRAS-PRIMAS CHEGARAM ÀS MINHAS MÃOS

Como as pessoas que já visitaram o Museu de Belas-Artes de


Hakone devem saber, temos inúmeras peças que não se conseguem
facilmente. Por isso não há quem não se espante. Vou contar, desde o
início, como ocorreram os fatos.

Comecei a comprar objetos de arte logo após o término da Guerra.


Naquela época, o Japão estava passando por uma mudança, até o momento
nunca vista. Os nobres, os milionários, os senhores feudais, os grandes
grupos econômicos, enfim, todos aqueles que ocupavam posições
privilegiadas foram despojados delas de uma só vez. Premidos pelas
dificuldades financeiras, eles viram-se obrigados a desfazer-se das
caligrafias, quadros e antigüidades de valor artístico, que eram tesouros de
família desde a época de seus ancestrais. Por conseguinte, surgiram, no
mercado, muitas peças famosas e raras, e a preços baixos. Fiquei com
muita pena, pois essas pessoas precisavam vendê-las mesmo a contragosto,
para poderem pagar os altíssimos impostos lançados sobre seus bens.
Assim, ao comprar os objetos, eu também fui levado por uma grande
vontade de ajudá-las, de modo que não pedi desconto, tendo comprado a
maioria pelo preço ofertado. É óbvio, porém, que fiz um balanço dos

59
Mundo do Belo

ganhos exorbitantes de vendedores ambiciosos. Dessa forma, as peças


foram sendo colecionadas pouco a pouco.

Como tenho dito várias vezes, desde jovem, eu gostava muito das
belas-artes. Entretanto, minha capacidade de avaliação ainda era de
amador; além disso, eu não tinha experiência em compras desse tipo, nem
entendia de preços do mercado. Conseqüentemente, só comprei as obras de
que gostava. E parece que esse método não falhou; posso até dizer que não
comprei nenhuma peça falsa.

Os especialistas no assunto que visitaram o Museu de Belas-Artes


de Hakone teceram-lhe elogios sinceros, e não apenas para serem gentis.
“Em todos os museus de belas-artes que visitei até hoje, as peças expostas
são de valor duvidoso, mas as deste museu, não. É um conjunto de objetos
de primeira classe!” — comentou o Sr. Alan Priet, Curador do Setor de
Belas-Artes Orientais do Museu Metropolitano de Nova Iorque.

Enquanto fazia isto e aquilo, fui colecionando muitos objetos, e


minha capacidade de avaliação tornava-se cada vez mais aguçada.
Comecei, então, a pensar que, um dia, deveria construir um museu de
belas-artes. A partir daí, misteriosamente, superando todas as expectativas,
começaram a aparecer peças que vinham ao encontro desse objetivo, e eu,
então, compreendi claramente que, por fim, Deus começara a executar a
construção do Museu de Belas-Artes. Os milagres ocorridos nesse sentido
foram muitos e, como não conseguiria enumerar todos, citarei apenas os
mais relevantes.

Foi logo no começo. Certo vendedor, especialista em makiê,


misteriosamente me trazia, uma após outra, obras de alto nível. E não era
só eu que me espantava: o próprio vendedor dizia que, para ele, o fato
também era realmente um mistério. Além disso, a época era propícia e
consegui objetos por preços incrivelmente baixos; em termos de mercado
atual, custaram várias vezes menos. Todas as peças de makiê que
atualmente estão expostas no Museu de Belas-Artes são dessa época, tendo
sido colecionadas em apenas meio ano. Entre elas, destacam-se duas do
extraordinário artesão Shossai Shirayama, e ainda tenho algumas outras

60
Mundo do Belo

guardadas, as quais pretendo expor um dia. Hoje, quase já não existem à


venda obras desse artista; restam muito poucas, e seus proprietários não
abrem mão delas.

Há muito tempo aprecio os objetos de estilo Rin e as cerâmicas


Ninsei. Com o passar dos anos, eles foram ficando cada vez mais caros;
ultimamente, já não existe quase nenhum à venda, e dizem que os
interessados estão desapontadíssimos. Entretanto, na confusão do período
logo após a guerra, os preços eram baixíssimos e eu pude adquirir muitas
obras; podemos, pois, entender que tal oportunidade foi obra do Poder de
Deus. É por esse motivo que eu nunca deixava de conseguir as peças que
gostava de possuir ou que necessariamente deveriam existir no Museu de
Belas-Artes. Todas as vezes que isso acontecia, o vendedor exclamava: “É
um mistério! É um milagre!”

A esse respeito, ocorreu um fato interessante. Eu estava querendo


adquirir a famosa xilogravura Tokaido Gojusantsugui, de Hiroshigue,
quando me apareceu um vendedor especializado em xilogravuras, que me
ofereceu algumas obras desse artista. Eu lhe disse que, se fosse a impressão
original da Gojusan tsugui, eu a compraria a qualquer hora. Qual não foi o
meu espanto quando, no dia seguinte, ele a trouxe para mim, dizendo:
“Não há nada mais misterioso. Ontem, assim que voltei para casa, uma
pessoa me levou exatamente o que o senhor queria. Fiquei surpreso, pois
estava à procura dessa obra há mais de quarenta anos, e, justamente
ontem, apareceu alguém para vendê-la. Não consigo entender!”

É claro que eu também exultei com o grandioso milagre.


Examinando atentamente, vi ser, de fato, a obra original, que estava sendo
guardada por um lorde feudatásio. Percebi, inclusive, que a encadernação
parecia ter sido feita por um ancestral seu; por isso, fiquei duplamente
maravilhado em poder adquiri-la. Além disso, o preço era muito baixo, o
que me deixou mais contente ainda.

A seguir, falarei sobre a cerâmica chinesa.

61
Mundo do Belo

Anteriormente, eu não sentia nenhuma atração por essas peças, nem


entendia nada sobre o assunto, porém, quando pensei que elas seriam
necessárias ao Museu de Belas-Artes, não tardou que se fossem
acumulando. São as que agora estão expostas, e as pessoas não acreditam
que tenham sido colecionadas em apenas um ano. No princípio, eu não
entendia absolutamente nada, como disse, mas fui escolhendo-as com base
nas explicações dos vendedores e no meu sexto sentido. Hoje, os
especialistas dizem que ficam impressionados em ver como se conseguiram
tantos objetos de valor. Por isso não tenho palavras para exprimir a
grandiosidade das graças concedidas por Deus.

Ainda poderia contar muitos outros fatos, no entanto gostaria de


que imaginassem o restante. Agora explicarei por que correram tais
milagres.

Os espíritos dos autores dessas obras, que, obviamente, estão no


Mundo Espiritual, assim como os espíritos das pesssoas que as apreciavam
e os daqueles que tinham alguma relação com elas, pensando em praticar
um ato meritório, faziam com que as peças chegassem às minhas mãos por
diversos meios, porque, através desse mérito, eles se salvariam e subiriam
de nível no Mundo Espiritual. Não é preciso dizer que foi pelo mesmo
motivo que conseguimos este esplêndido Museu de Belas-Artes em tão
pouco tempo. Pensem bem. Até agora, para se conseguir um museu de
Belas-Artes, era necessário o empenho de uma geração inteira de
milionários; se este foi conseguido num piscar de olhos, qualquer pessoa
poderá ver que não é obra humana.

Eiko nº 77 — 8 de outubro de 1952

O MUSEU IDEALIZADO POR DEUS

Passarei a escrever, aqui, sobre o Museu de Artes de Hakone,


considerado atualmente o primeiro do Japão. Creio que a leitura do
presente texto nos induzirá à compreensão de que o citado museu não se
trata de obra realizada pelo engenho do homem. É que ele ficou pronto por
meio de uma completa sucessão de milagres. Particularmente, no que diz

62
Mundo do Belo

respeito à sua rapidez. Não haverá, em absoluto, neste vasto mundo, caso
algum de museu cuja construção tenha ocorrido a tal velocidade e cujo
vasto acervo de obras de primeira categoria tenha sido reunido em tão curto
espaço de tempo. Quem quer que o veja — como é fato conhecido —
expressa não elogios superficiais, mas, sim, emite palavras de sincera
admiração. Se isso não for obra de Deus, o que será então? Embora eu
ainda desconheça sobre o exterior, no tangenteaos museus de arte
espalhados pelo território nacional, com exceção dos grandes museus
globais e das coleções particulares, foram todos formados pelos amantes
das artes provenientes dos zaibatsu e das classes abastadas, os quais
dispenderam neles toda uma vida.
Contudo, o nosso Museu de Arte de Hakone é um prodígio. Ficou
pronto em pouquíssimos anos, depois de traçado o seu projeto, o que é
fascinante, porque os fundos necessários amealharam-se com as doações
dos fiéis, e as obras de arte acumularam-se aos poucos, após o final da
guerra, ou foram tomadas emprestadas; eu jamais as busquei com base no
meu pensamento. Em suma, foi tudo deixado inteiramente à livre vontade
de Deus, inclusive quanto ao gênero. Outrossim, aquilo que eu queria foi
comprado a um preço relativamente baixo, além das obras doadas por fiéis,
as quais, curiosamente, também, tratavam-se do que era preciso. Desta
maneira, arranjou-se justamente a quantidade suficiente de objetos para
serem exibidos em um museu de artes. Por mais que se medite, tal
acontecimento não pode ser considerado obra humana. Tudo, do princípio
ao fim, correu perfeitamente, como se Deus me fizesse agir de acordo com
a Sua intenção. Foi cômodo para mim. Caso não fosse obra divina, não
haveria motivo para as coisas irem tão bem assim.

No tocante aos planos para o corrente ano, como se poderá


verificar, são bastante distintos dos do ano passado. Basta dizer que se
ajuntaram tantas peças de arte antiga de países estrangeiros — egípcias,
gregas, persas, hindus e chinesas —, que uma só sala não é suficiente para
comportá-las.

Contudo, isso não significa que, desde o princípio, eu tivesse esse


propósito, mesmo em sonhos, de reunir peças assim. Em primeiro lugar, eu
não possuía conhecimento algum a respeito da arte ocidental antiga,

63
Mundo do Belo

quando, logo no limiar do ano novo, essas peças começaram a chegar uma
atrás da outra. Como, naturalmente, no Japão, não se conhece muito sobre
tais obras, foi possível coletá-las com facilidade, a preços módicos, o que
não apenas me proporcionou alegria, como também percebi, conforme
crescia minha compreensão acerca do assunto, que as citadas obras são
ricas em atrativos, algo que não permite pô-las de lado. Novamente, não
pude deixar de admirar-me com a profundidade dos desígnios divinos.
Ademais, como obra desse gênero ainda não foi coletada por ninguém,
inclusive pelos grandes museus, o Museu de Artes de Hakone tomou a
vanguarda.

A seguir passarei a relatar acerca do prédio anexo, que


recentemente ficou pronto, e para o qual se programa, a partir do dia
primeiro de junho, uma mostra de xilogravuras ukiyo-e. Também aqui há
mistério. Explico: no outono do ano passado, dirigi-me a Quioto para ver
uma exposição das citadas gravuras no seu Museu Municipal de Artes.
Nessa oportunidade, eu, que até então não tinha muito interesse por tal tipo
de arte, reconsiderei o seu valor. Felizmente, apresentaram-me ainda o
senhor Ichitaro Kondo, do Museu Nacional de Tóquio — especialista no
assunto e responsável por aquela exposição —, de quem tive uma preleção
variada, captando a síntese dessa modalidade de arte. Posteriormente, tendo
explicações de outro entendido, adquiri certo grau de conhecimento e, ao
mesmo tempo, sem que eu pedisse, vieram facilmente ajuntar-se peças
raras e ótimas.

Sentindo ser esta a manifestação da vontade de Deus, a de ordenar a


realização de uma mostra de xilogravuras de ukiyo-e, percebi ao mesmo
tempo que eu deveria, portanto, edificar logo um anexo, porque o edifício
inicial era pequeno para o propósito. Com a conclusão das obras, convenci-
me da minha percepção: o panorama, naquele lugar, ganhou maior vida
com o prédio anexo.

Como se pode concluir do relato acima, os desígnios divinos, com


sua profundidade e sutileza, em todos os pontos, são imperscrutáveis, e, por
isso, trago o meu íntimo sempre pleno de comoção. Por mais que eu

64
Mundo do Belo

medite, sempre confirmo a sapiência de Deus, admirando-me com a


perfeição dos Seus planos.

Eiko, nº 207 — 6 de maio de 1953

65
Mundo do Belo

UM MUSEU DE ARTES DEMOCRÁTICO

Dias atrás, o senhor Major H. Show, dos Estados Unidos, comentou


que ficava extremamente impressionado depois de sua visita ao Museu de
Artes de Hakone. Ouvi, então, o relato das suas impressões, bem típicas de
um norte-americano. Por se tratar de algo que passa desapercebido aos
japoneses, eu as transcreverei aqui: "Este museu oferece, em termos de
significado, o que de mais novo há no Japão. Ou seja, até hoje as obras de
arte existentes neste país estiveram ocultas pelas classes privilegiadas que
as manipulavam como objetos privados de seu prazer. Coletar tais
preciosidades e expô-las sem parcimônia, proporcionando deleite ao
grande público, e abolir o monopólio artístico, é abrir o caminho da
democratização. Esse fato muito me impressionou e faz com que eu renda
meu respeito." Ao ouvir isso, experimentei imensa satisfação, pois ele
expressou, sem subterfúgios, aquilo que eu penso.

Eiko, nº 216 — 8 de julho de1953

OS MILAGRES DA COLETA DE OBRAS DE ARTE

As peças de arte expostas no Museu de Artes de Hakone não devem


deixar de assombrar quem é dotado de bons olhos criticos. Não há outra
explicação senão atribuirmos a algo misterioso o fato de peças cuja
aquisição não é negócio fácil estarem reunidas assim em grande número.
Eu próprio admiro que, em curto espaço de tempo, peças de semelhante
quilate tenham sido reunidas a preços relativamente baixos. É interessante,
outrossim, que muitas peças que eu desejava imensamente, mas já havia
desistido por sua compra ser praticamente impossível, viessem cair
acidentalmente em minha posse. Além do mais, como vieram de locais
inimagináveis, o meu espanto foi ainda maior. Assim, por mais que medite,
foi uma sucessão de milagres do princípio ao fim. Pode-se dizer que é um
mistério insondável. E tal fato não se limitou apenas à arte japonesa.
Ajuntaram-se mesmo peças de arte européia antiga. Obras de renome cuja
aquisição é custosa mesmo na Europa, como soube depois. Como tais
milagres assombrosos têm sua razão plausível, escreverei a respeito disso.
Hoje, no Mundo Espiritual — seja no Oriente ou no Ocidente —, à medida

66
Mundo do Belo

que a notícia do surgimento desta Igreja gradualmente se difunde, e


aumenta o número de almas que compreendem que não terão a salvação
eterna senão por meio dela, há uma enorme agitação. Assim, as almas
daqueles que foram considerados famosos em vida competem entre si na
realização de feitos de valor, visando tanto a passar, com segurança, pelo
Julgamento que há de vir, como a alcançar uma posição de bem-
aventurança na concretização do Mundo de Miroku (Maitreya), e entram
em ação. Naturalmente, entre tais anseios há os de famílias e clãs do
Mundo Espiritual que anelam para que seus descendentes, no Mundo
Material, passem, em segurança, pela Grande Purificação e alcancem a
felicidade. Por tal motivo, os artistas selecionaram as suas obras-primas e
as vieram oferecer, e as almas de senhores feudais e de magnatas
escolheram o melhor dentre o seu acervo de quando viviam, trazendo-o às
minhas mãos pelas pessoas adequadas. Em vista disso, eu não tive nenhum
trabalho, tudo se ajuntou naturalmente, ao acaso. Assim, em tão curto
período, peças valiosas como essas se reuniram aos montes. Por isso, até os
antiquários sempre estranham o fato. Ademais, com a desvalorização
monetária do pós-guerra ou o imposto sobre os bens, a nobreza e as classes
abastadas viram-se forçadas a abrir mão de seus tesouros. Afluíram, então,
seguidamente, peças de valor, que eu já havia desistido de adquirir, sendo
possível comprá-las a um preço que hoje parece irrisório. Compreende-se,
pois, que tudo foi parte dos planos divinos.

Eiko, nº.208, — 22 de julho de 1953

67
Mundo do Belo

IV— SOBRE A ARTE

RELIGIÃO E ARTE

O conceito atual de que a Religião está desligada da Arte parece-me


um grande equívoco. Enobrecer os sentimentos do homem e enriquecer-lhe
a vida, proporcionando-lhe alegria e sentido, é a missão da Arte. Os
entendidos no assunto sentem indizível prazer em apreciar as flores, na
primavera, e as paisagens campestres ou marítias. Não é exagero dizer que
o Paraíso Terrestre, que temos por ideal, é o Mundo da Arte, o qual não é
outro senão o mundo da Verdade, do Bem e do Belo, a que constumo me
referir.

A Arte é a representação do Belo. Mas por que será que ela foi
negligenciada até os nossos dias?

Monges antigos e famosos demonstraram notável genialidade no


campo artístico, esculpindo e construindo templos. Entre esses artistas
religiosos, sobressaiu o príncipe Shotoku. Dificilmente se pode crer, dizem
todos, que a magnificência arquitetônica do Templo Horyuji, de Nara —
obra-prima do Príncipe — e as pinturas e esculturas que adornam o seu
interior, tenham sido criadas há mais de 1.300 anos.

Por outro lado, como houve muitos monges que divulgaram


doutrinas adotando a simplicidade e o ascetismo, certamente nasceu o
conceito de que não há nenhuma relação entre a Arte e a Religião. Aqui
impera a Verdade e o Bem, mas falta o Belo.

Pelas razões expostas, pretendo fazer uma grande divulgação da


Arte.

05 de setembro de 1948

A MISSÃO DA ARTE

68
Mundo do Belo

Cada coisa existente no Universo possui uma utilidade específica


para a sociedade humana, ou seja, uma missão atribuída pelos Céus.
Naturalmente, a Arte não constitui exceção. Portanto, uma vez que o artista
é um membro da organização social, ele deve conscientizar-se de sua
missão e exercê-la plenamente, pois essa é a Verdadeira Arte e também a
responsabilidade que lhe cabe.

Entretanto, quando observo os artistas da atualidade, não posso


deixar de ficar decepcionado com as atitudes excelentes, mas a maior parte
se esquece da sua responsabilidade, ou melhor, não tem nenhuma
consciência dela. Além do mais, eles constituem um problema, pois, tendo-
se como criaturas superiores, fazem o que bem entendem sem a menor
vergonha. Acham que, agindo de acordo com sua própria vontade, estão
manifestando sua personalidade e seu caráter de gênio. A sociedade, por
sua vez, os superestima, considerando-os pessoas especiais, e aprova quase
tudo que eles fazem. Por isso, sua mania de grandeza torna-se ainda maior.

É preciso, todavia, que o caráter dos artistas seja muito mais


elevado que os das pessoas comuns. Explicarei tal conceito com base na
Religião.

Inegavelmente, nos primóridos da sua história, a humanidade


possuía muitas características animais , mas não há dúvida de que, após a
era salvagem, ela veio progredindo gradativamente, construindo-se, pouco
a pouco, a civilização ideal. Nesse sentido, o progresso da civilização
consiste na eliminação do caráter animal do homem. Alcançar esse nível é
alcançar a Verdadeira Civilização. Ainda hoje, porém, a maioria das
pessoas está sujeita ao terror da guerra, prova de que persiste, no homem,
uma grande parcela de características animais. Assim, cabe ao artista uma
grande missão: ele é um dos encarregados da eliminação de tais
características.
Torna-se necessário, portanto, elevar o caráter do homem por meio
da Arte. Naturalmente, esse objetivo será alcançado através da literatura, da
Pintura, da Música, do Teatro, do Cinema e de outras Artes. O espírito dos
artistas, comunicando-se por esses veículos, influenciará o espírito do
povo. Falando mais claro, as vibrações espirituais emitidas pela alma do

69
Mundo do Belo

artista tocarão a sensibilidade das pessoas através das obras literárias, da


pintura, dos instrumentos musicais, dos contos, das danças, etc. Em outras
palavras: haverá uma sólida ligação entre o espírito do artista e o espírito de
quem apreciar suas obras. Se o caráter daquele for baixo, o das pessoas
também se degradará; obviamente, se for um caráter elevado, terá o efeito
contrário.

Eis a importância da Arte. O artista deve funcionar como orientador


espiritual do povo. Nesse sentido, não seria exagero afirmar que uma parte
da responsabilidade do aumento do mal social cabe aos artistas.

Vejamos: erotismo cada vez mais vulgar, literatura cada vez mais
grotesca, quadros cada vez mais monstruosos; as opiniões dos artistas,
assim como também a Música, o Teatro e o Cinema, cada vez piores. Se
analisarem minuciosamente tais fatos, certamente compreenderão que a
minha tese não é errada.

Hikari, nº 31 — 15 de outubro de 1949

CARACTERÍSTICAS PARTICULARES DA CIVILIZAÇÃO


JAPONESA

Tenho muito a dizer sobre as características peculiares do Japão e


do seu povo. Se os japoneses tivessem profunda compreensão a esse
respeito, jamais precisariam ter experimentado o amargo destino de povo
vencido na guerra, nem ter visto seu país em ruínas. Existe uma expressão
que nos aconselha a conhecermos bem a nós mesmos, mas é necessário
estender esse pensamento aos limites do conhecimento de nossa pátria. Na
época do isolacionismo (séc.XII - séc.XIX), ainda seria admissível os
japoneses desconhecerem seu próprio país; atualmente, porém, quando
tudo se processa em âmbito mundial e internacional, é de vital importância
conhecermos profundamente o país em que nascemos. Em termos de Japão,
esse conhecimento consiste em estarmos perfeitamente cientes da missão
que ele deve cumprir.

70
Mundo do Belo

É evidente que, se não compreendermos o motivo da existência do


Japão, não poderão ser consolidadas as grandiosas metas nacionais. Para
melhor entendimento, basta lembrar a situação do país até o fim da
Segunda Guerra Mundial. Havia uma classe militar dominante, chamada
Gumbatsu, que era detentora de poderes absolutos. Escolhida por um
pequeno número de pessoas, governava o país como bem entendia. Por
isso, no que se relacionava aos governantes, o povo não tinha direito ao uso
da palavra, acomodando-se à condição de serviçais. Esta situação ainda
está bem gravada em nossas mentes. A partir da era Meiji (1868-1911),
instituiu-se a Constituição e foi criado o Sistema Representativo. Com isso,
embora desse a impressão de que se estavam respeitando as idéias do povo,
na verdade, a política encontrava-se nas mãos de uma minoria, que acabou
por fazer aquela terrível guerra. Foi a mesma coisa que vender gato por
lebre.

Vamos refletir sobre a história do Japão. Desde a remota época do


imperador Jinmu, este país não teve um período sequer de paz, sendo
contínuas as guerras internas. A política sempre esteve totalmente
dominada pelo regime de força. Disfarçados sob o belo nome “Código de
Ética do Samurai”, bárbaros assassinos recebiam condecorações heróicas.
O vencedor das guerras assumia a hegemonia desse tempo.

Até o fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão veio sendo


arrastado sob esse regime de brutalidade, só interrompido após o grande
choque da derrota. Se os japoneses não se conscientizarem profundamente
do significado de tudo isso, será impossível surgir uma verdadeira política
nacional, digna de uma nação pacífica. Para tanto, o mais importante é uma
nova conscientização do país. Em verdade, o Japão deveria ser o oposto da
nação violenta e despótica a que costumamos nos referir; assim, é preciso
que ele se torne uma nação pacífica e artística. Esta é a missão que Deus
lhe concedeu.

Fala-se muito sobre a reconstrução do país, mas isso por si só não


tem grande significado. Se analisarmos com imparcialidade, veremos que
não passamos de uma nação democrática sem preparo bélico, o que,
naturalmente, constitui motivo de alegria. Entretanto, o Japão precisa

71
Mundo do Belo

compreender sua missão peculiar relativamente ao mundo e empenhar-se


pelo bem-estar de todos os povos: eis o verdadeiro papel do Novo Japão.
Vou enumerar algumas das razões que me levam a fazer essa afirmativa.

Em primeiro lugar, as maravilhosas paisagens da terra japonesa. No


mundo, talvez não haja outras que se lhe comparem; estamos sempre
ouvindo elogios por parte daqueles que nos visitam.

No que se refere ao tempo, as estações do ano são bem definidas, o


que é muito significativo. Há uma contínua renovação dos aspectos da
Natureza: as montanhas, os rios, a grama, as árvores, etc. Tal fato está bem
claro nas palavras do famoso poeta Kyoshi Takahama, que, após ter viajado
pelo mundo inteiro, disse o seguinte:“Não existe país onde as estações
sejam tão bem definidas como no Japão. O haikai canta as estações do
ano, de modo que, em outros países, não é possível compor um haikai
autêntico”. Além disso, ouve-se dizer que a nossa riqueza em variedade de
grama, árvores, flores, folhas, frutos e produtos do mar é realmente
incomparável.

Outra característica marcante do povo japonês é a habilidade


manual, o que justifica o seu pendor artístico. A prova disso é o número
elevado de magníficas obras de arte criadas no Japão, não obstante o seu
passado de constantes guerras internas. Ainda hoje nos surpreendemos com
essa técnica e dom admiráveis.

Com tudo o que foi explicado, creio que se pode entender a missão
deste país e do seu povo. Em resumo, é preciso transformar todo o território
japonês no Jardim do Mundo e empreender contínuos esforços no sentido
de promover a Arte, até que ela atinja o seu mais elevado nível. Ou melhor,
deve-se estabelecer uma política nacional baseada no turismo, na Arte e no
artesanato, empregando todo o empenho na sua concretização. Como
resultado, é natural que isso contribuirá para a elevação do pensamento de
toda a humanidade, proporcionando, também, um nível mais alto de
recreação e entretenimento. Em poucas palavras, é importante fazer do
Japão um país de elevadíssimo nível artístico e cultural.

72
Mundo do Belo

Podemos afirmar que nunca se temeu tanto a guerra e se desejou tão


ardentemente a paz como na época atual. A causa da guerra., como sempre
dizemos, é subsistir nos homens uma forte disposição para a luta.
Logicamente, essa disposição tem origem no pensamento selvagem, o que
significa dizer que, embora os homens se considerem civilizados, na
realidade, ainda lhes falta muito para se despojarem da selvageria. O meio
para solucionar o problema é fazer com que a humanidade mude o objetivo
pelo qual está vivendo. A meta dessa mudança deve ser a Arte, isto é, deve-
se transformar o mundo infernal, repleto de lutas, num mundo paradisíaco,
repleto de Arte. Através da ameaça armada, podemos obter uma paz
momentânea, mas a paz duradoura só poderá ser conseguida pela
renovação do pensamento. Essa renovação, eu afirmo, só se efetivará por
meio da Religião e da Arte.

Não falemos, portanto, em reconstrução do Japão, e sim na


construção de um Novo Japão. Para que isso possa se tornar realidade, só
há um meio: transformá-lo numa nação artística.

Hikari, nº 43 — 1º de janeiro de 1950

73
Mundo do Belo

O PARAÍSO É O MUNDO DAS ARTES

Eu sempre tive extremo interesse pelas Artes. Como é do


conhecimento dos fiéis, eu projetei e estou construindo em Hakone e Atami
jardins e prédios da mais elevada atmosfera artística, como até agora jamais
alguém o fez. Já pintei muito antigamente, mas hoje, pela falta de tempo,
vejo-me impedido de tal. Mesmo assim, ainda executo trabalhos
caligráficos, escrevo poemas, faço arranjos florais e deleito-me com a
cerimônia de chá. Amo peças de arte, adquirindo o que as condições
financeiras me permitem e, graças, também, às oferendas dos fiéis, sacio
parcimoniosamente minha sede artística. Gosto, além disso, de Teatro e
Música, contentando-me, porém, em apreciá-los através de filmes e do
rádio, em virtude de levar o dia-a-dia muito ocupado. Gosto tanto de
música japonesa quanto da ocidental, pelo que suscito comentários de que é
raro alguém da minha idade gostar de cinema ou música ocidental. Parece-
me, todavia, que há bastantes norte-americanos assim, apesar de serem
poucos os japoneses.

Como se pode ver, portanto, o meu cotidiano tem sua maior parte
ocupada pelas Artes, podendo mesmo ser chamado de vida artística. Eu
sempre tenho considerado tal atitude um instinto a mim agraciado por
Deus, pela minha missão de construir o Paraíso Terrestre. É que o Paraíso é
o mundo das artes, havendo uma razão para tal.

Até hoje, o mundo foi noturno, da escuridão e das trevas. Assim,


por ser fácil aos homens perpetrarem ações ocultas e criminosas, eles se
viam sempre compelidos para o Mal. Em outras palavras, eles vieram
enganando o seu próximo, fazendo-o sofrer, roubando-o, tendo gosto por
atos escusos com o sexo oposto e por desavenças — o que os fatos muito
bem o comprovam. Contudo, com a chegada do mundo diurno, tudo passa
a transparecer nua e cruamente, tornando-se inviável a prática de atos
ocultos. Naturalmente, como o ser humano perderá o interesse pelo mal,
seu prazer residirá nas boas ações, nas coisas justas. Desta maneira, sem
dúvida alguma, tal prazer penderá para as Artes. Por isso, a começar da
poesia, da música ou dos demais entretenimentos — por estarem,
logicamente, relacionados com as artes — mas até os prédios, as ruas, os

74
Mundo do Belo

teatros e outras instalações de diversão, assim como a decoração interior e


os trajes individuais, tudo se tornará belo, a ponto de não ser possível
imaginar. Saibam, pois, que o Mundo do Maitreya, o Paraíso Terrestre, é o
Mundo das Artes.

Kyusei, nº 51 — 25 de fevereiro de 1950

A RESPEITO DA COLETÂNEA DE POEMAS “YAMA TO MIZU”


(MONTE E ÁGUA)

Como sempre digo, o objetivo da Fé é polir a alma e purificar os


sentimentos. Existem três maneiras para conseguirmos isso: pelo
sofrimento oriundo não só de abstinência ou penitências, mas também de
danos e catástrofes; pela soma de méritos e virtudes e pela elevação da
alma por influência da arte de alto nível. Dentre elas, o caminho mais
rápido é este último. E não existe nada melhor, pois nossa alma vai sendo
polida imperceptível e prazerosamente.

Nesse sentido, sempre que dispusermos de tempo, é bom lermos a


coletânea intitulada Yama to Mizu (Monte e Água), poemas escritos em
estilo waka. Por intermédio deles, nossa alma se engrandece sem que o
percebamos. Quando tal bênção ocorre, a Inteligência da Percepção da
Verdade é polida e, assim, o cérebro se torna mais claro, e a fé se eleva
mais facilmente. Essa lucidez acontece porque os referidos poemas são
repletos de Verdade, Bem e Belo.

De acordo com o exposto, tenho como objetivo desenvolver a fé


também por meio do poder do espírito das palavras.

Kyussei, nº 61 — 6 de maio de 1950

75
Mundo do Belo

RELIGIÃO E ARTE

Sempre dizemos que o objetivo de Deus é construir o Paraíso


Terrestre. Ora, se o Paraíso Terrestre é um mundo sem conflitos, um
mundo de eterna paz e absoluta Verdade, Bem e Belo, a Arte terá um
desenvolvimento extraordinário.

Segundo diz um antigo ditado, a Religião é a mãe da Arte; é óbvio,


portanto, que ambas estejam profundamente relacionadas. Todavia, é
interessante notar que, entre os fundadores das inúmeras religiões as quais
surgiram até hoje, foram poucos os que demonstraram interesse artístico.
Dos religiosos que se destacaram nesse campo, podemos citar: no
Ocidente, o pintor Leonardo da Vinci e os compositores Bach e Hendel; no
Japão, a Arte budista do príncipe Shotoku, Gyoki, as esculturas de Kukai,
etc.; na China, durante a Dinastia Sung-Yuan, e no Japão, durante a era
Tempyo, as pituras de alguns monges.

Vou explicar a causa do desinteresse dos religiosos pela Arte.

Como o mundo se achasse completamente mergulhado na Era da


Noite, e a Era da Luz estivesse longe demais, não havia necessidade de
preparativos para a concretização do Paraíso Terrestre. Em outras palavras,
estava-se na época infernal. Encontrando-se em condição infernal e não em
situação celestial, os fundadores de religiões, para difundir seus
ensinamentos, tiveram de percorrer caminhos espinhosos e passar por
enormes sofrimentos. Sendo assim, não havia motivo para se falar em
Paraíso ou Arte, e até podemos dizer que nenhum deles afirmou que iria
construir o Paraíso Terrestre. Contudo, houve profecias sobre o advento de
um mundo ideal, embora não se esclarecesse quando. Entre elas, podemos
citar o “Mundo de Miroku”, anunciado por Buda; o “Reino dos Céus”,
profetizado por Crito; a “Agricultura Justa”, de Nitiren; o “Pavilhão da
Douçura”, do fundador da Igreja Tenrikyo, e o “Mundo de Pinheiros”, da
fundadora da Igreja Oomoto. Foi-nos revelado, porém, que, finalmente, o
tempo é chegado. Como o Paraíso está prestes a nascer, queremos anunciar
o seu advento para toda a humanidade.

76
Mundo do Belo

Naturalmente, seria impossível imaginar que um projeto tão


grandioso — que poderíamos considerar um sonho — pudesse ser
concretizado com a força humana; entretanto, como se trata da Divina
Administração do Todo Poderoso, não resta a menor dúvida de que ele se
tornará realidade. Atualmente, Deus está manifestando inúmeros milagres
para demonstrar Sua Força e, dessa maneira, infundir-nos uma sólida fé
inabalável.

Visando à concretização de tal projeto, a nossa Igreja não mede


esforços para promover a Arte. E é para iniciar essa promoção que estamos
construindo os protótipos do Paraíso Terrestre de Hakone e de Atami, em
locais de magnífica paisagem. Se as pessoas não estiverem conscientes
desses pontos, não conseguirão entender o verdadeiro significado do
nascimento de nossa Igreja. Em resumo, as religiões existentes até hoje
tiveram a missão de preparar os alicerces para a construção do Paraíso
Terrestre, e a missão da nossa Igreja é concretizá-la.

Kyussei, nº 61 — 6 de maio de 1950

MINHA CRÍTICA SOBRE PINTURA

Não posso deixar de me lamentar profundamente quando analiso o


mundo hodierno das Artes, em particular, o da Pintura. É que o próprio
pintor não discerne nada da verdadeira essência da Pintura. Costaria de
expor acerca de variados aspectos, mas, aqui, limitar-me-ei a alguns que,
conquanto sejam de suma importância, parecem passar desapercebidos.
Temos, em primeiro lugar, a missão original da pintura. A essência da
Pintura em si não reside no simples deleite do artista. Se o problema se
encerrasse nesse aspecto, não haveria, então, diferença alguma com o ato
de uma criança divertir-se com os seus brinquedos. Caso exista semelhante
pintor, sua existência é inútil, e poder-se-á dizer que ele não é outra coisa
senão um parasita. Conseqüentemente, o pintor deve trazer firmemente
consigo a conscientização do porquê de ter nascido e do que deve fazer. A
esse respeito, penso eu da seguinte forma.

77
Mundo do Belo

Onde reside o significado da existência do pintor? Reside em


proporcionar prazer visual ao maior número possível de indivíduos e,
através dos olhos, sublimar o espírito deles. Elevar o nível espiritual, torná-
lo melhor, fazê-lo mais belo — essa é a verdadeira atividade pictórica. De
fato, a expressão da personalidade, a liberdade do espírito criativo, bem
como a temática, são fatores importantes, e não há sentido algum em
ultrapassar esses limites. Contudo, ao observar a pintura recente, não posso
jamais assistir calado as suas aberrações. As pessoas de bom senso estão
franzindo o cenho diante dessas obras, por serem elas estranhíssimas. Por
maior que seja a boa vontade com que as vejamos, não expressam a menor
beleza — são horrendas, e, mais do que desagradáveis, chegam mesmo a
provocar a ira.

Aqueles que executam com afetação esse tipo de pintura, ao invés


de manifestar sua personalidade, transmitem uma intenção subjetiva.
Semelhantes quadros, quando deveriam sublimar a alma do admirador,
despertam um efeito contrário. Toda vez que vejo quadros assim, sinto-me
contrariado pelo desperdício de tela e tinta. Não serei só eu quem pensa
desta forma. Por não haver motivo de tais quadros serem vendidos, ouço
amiúde dizerem das dificuldades financeiras que cercam aqueles artistas.
Desse modo, além de em nada contribuirem para a sociedade, eles próprios
se vêem em apuros. Diante dessa ocorrência inteiramente negativa,
acredita-se que deveriam perceber o seu engano, mas de tal não há nenhum
indício. É de se julgar, então, que é um tipo de demência. Eles próprios não
devem saber a razão de estarem vivendo. Como existências vãs, são
realmente dignos de piedade. Caso, despertando para a realidade, não
voltem para a trilha correta, eles perderão quem os leve a sério, rumando
diretamente para a destruição. O que acabo de comentar concerne à Pintura
ocidental. É provável que todos compartilhem do meu pensar, uma vez que
ouço muitas críticas pertinentes. Contudo, desejo falar algo que ninguém
parece notar. Quero dizer que, originalmente, o verdadeiro âmago da
Pintura é a sua dignidade, a sua altivez. Tais analidades são quase que
inerentes à Pintura oriental, sendo, porém, pouco ou quase que inexistentes
na ocidental. Verdade é que esta por si mesma é mais popular e, pelo
caráter de inseparável da vida das massas, a falta das referidas qualidades
torna-se inevitável. Mesmo assim, a pintura ocidental deve possuir o seu

78
Mundo do Belo

sabor peculiar como tal. Todavia, o problema da Arte hodierna não está na
nobreza ou baixeza de nível. O âmago de sua beleza já se perdeu há muito,
nada restando nela. A impressão que se recebe desses quadros é a própria
fealdade; nada mais que mal-estar, antipatia, cólera, desespero. Tais
pintores formam um tipo de anormalidade mental. Por isso, toda vez que
compareço a exposições assim, eu imagino que, se os pacientes de um
hospício organizassem uma mostra, ter-se-ia algo idêntico.

Desejo, ainda, discorrer um pouco sobre a Pintura japonesa. É


plausível afirmar que também esta, ultimamente, perdeu muito no que diz
respeito à classe; vale notar, todavia, que a classe é, originalmente, uma das
características da Pintura do Oriente. Sempre ao ter contato com pinturas
de renome da China e do Japão, assumo naturalmente uma postura de
respeito, impressionado pela sua nobreza. No entanto, os pintores japoneses
da atualidade são quases que inteiramente indiferentes a esta quinta-
essência da Pintura oriental. Ela remanesce apenas em uns poucos grandes
mestres, existindo entre os artistas jovens a tendência de se deixarem levar
pela Pintura ocidental. É verdadeiramente preocupante. Julgo que, se eu
não despertá-los no tocante a isso, enquanto é tempo, o futuro será sombrio.

Desejo explanar, aqui, sem discutir a diferença entre as pinturas


nipônica e ocidental, mas englobando todas as artes, sobre o verdadeiro
significado da Arte. Desnecessário dizer que tal acepção é, claro, não só o
aprofundamento do intelecto, mas a condução do espírito do contemplante
a um estado elevado, pela transmissão da alma do artista através dos olhos
daquele. Tão-somente deleitar os olhos equipara-se a um espetáculo
circense ou de "strip-tease"; não se trata de Arte. Essa observação aplica-se
tanto ao artista plástico, como ao escritor, ou àquele que se relaciona com o
teatro, a dança ou demais entretenimentos. Faz-se mister extrair, o pouco
que seja, a animalidade inerente ao ser humano, apelando para o coração do
público por intermédio das Artes. É necessário enriquecer o que há de
cultural no homem. Excetuando-se tal objetivos, não há outra razão de
existência para as Artes. Então, o mais importante nelas é a objetividade.
Quanto maior a objetividade, maior o valor artístico. Por mais que o artista
considere excelente a sua obra, caso esta não tenha aceitação na sociedade,
não será outra coisa que cédula sem lastro. O que tais artistas chamam de

79
Mundo do Belo

manifestação da personalidade não é mal; contudo, com isso apenas, o que


se tem é uma modalidade de fascismo representado pela imposição da
subjetividade. É preciso, custe o que custar, comprazer-se com o grande
público. Contemplem-se acuradamente as obras daqueles considerados os
grandes mestres da Antigüidade. Sua arte possui ampla abrangência, ainda
hoje permanecendo vívida a técnica sobre-humana de encantar e deleitar
tanto a elite intelectual quanto as massas.

Quero expor, a seguir, sobre a Literatura japonesa contemporânea,


para falar, sem cerimônia, sobre o seu nível extremamente baixo. Os
escritores atuais aspiram tão-somente a serem badalados como autores da
moda, e para tal adulam o grande público, tirando proveito das tendências
vulgares em voga. Não têm ideais ou coisa que os valha. Basta que a sua
produção seja filmada, rendendo lucros — o que transparece nitidamente
nessas obras. São interessantes, enquanto lidas ou vistas, nada mais
restando de proveitoso. São idênticas a pratos que só sabor possuem, mas
não nutrem. Consistem em entretenimento que proporciona satisfação
passageira da curiosidade. Não serei apenas eu a me preocupar com o
perigo de tais obras de arte baixíssimas suscitarem a criminalidade pelo
embrutecimento do caráter das massas. Verdade é que, ainda assim, não
deixam de existir, às vezes, obras que questionam a sociedade, expondo as
suas falhas, ou nas quais o autor clama pela sua opinião. No caso do Japão,
porém, tal aspecto é superficial e diminuto. Não se descobrem obras
capazes de estremecer de verdade a alma do leitor. Julgo que o motivo
disso está na ausência do sentimento religioso na classe de escritores
japoneses. Coloquemos em confronto essas obras com um Shakespeare, um
Tolstoi, um Hugo, um Ibsen, um Bernard Shaw. São de uma escala
grandiosa, afluindo deles uma crítica aguda da civilização, uma filosofia
revolucionária, um senso de justiça religiosa que impressiona a alma de
quem os lê. Eles continuam a conquistar o espírito das massas desde
quando foram produzidos até os dias de hoje. O que será essa energia senão
a nobreza da Arte?

Eis aqui o que escrevi ao sabor do que me vinha à mente. Se


porventura os jovens artistas aceitarem algo, por mínimo que seja, da
minha tese, dar-me-ei por satisfeito.

80
Mundo do Belo

Eiko, nº 103 — 9 de maio de 1951

RELIGIÃO ARTÍSTICA

Sempre se pensou que não há muita relação entre Arte e Religião.


Entretanto, no Japão, as manifestações artísticas tiveram início com a arte
budista, não obstante se limitassem a simples quadros, esculturas,
tecelagem, etc. No que se refere à música, existiam instrumentos tais como
sho1, hitiriki”2, mokugyo3 e dora4, e os sons emitidos na leitura dos sutras
budistas. Por isso, podemos dizer que se tratava de uma arte primitiva.

Mais tarde, estimulada pela introdução das Artes chinesa e coreana


no país, a Arte japonesa passou por um período de imitações, até que
conseguiu criar um estilo próprio. Atualmente, com a importação da cultura
ocidental, também foi introduzida a Arte do Ocidente. Principalmente após
a era Meiji (1868-1912), afluíram, com grande intensidade, as artes dos
Estados Unidos e da Europa. Em conseqüência, no panorama artístico
japonês da época atual, encontram-se as melhores obras de todo o mundo,
as quais estão sendo absorvidas e assimiladas, de modo que, aos poucos,
vai se criando uma arte universal. Por isso, talvez, possamos afirmar que o
Japão é um centro cultural.

Não existe, ou melhor, nunca existiu uma religião que desse tanta
importância à Arte quanto a nossa Igreja. Ela assim se posiciona, porque o
Paraíso Terrestre — nosso objetivo último — é o Mundo da Arte.
Obviamente, se ele é um mundo isento de doença, pobreza e conflito, isto
é, o mundo de perfeita Verdade, Bem e Belo, o homem seguirá a Verdade,
amará o Bem e odiará o Mal; assim, todas as coisas se tornarão belas.
Nesse sentido, a Arte não será apenas um deleite indispensável; ela
1
Sho: Instrumento musical de cano. É constituído de dezessete canos de bambu, longos e
curtos, dispostos verticalmente. Dois deles não emitem som; os quinze restantes possuem
orifícios na parte anterior e na parte posterior.
2
Hitiriki: Instrumento musical de cano, semelhante à flauta.
3
Mokugyo: Instrumento que se bate na hora de ler os sutras. É feito de madeira oca,
arredondado, esculpido em formato de cabeça de peixe. Para se produzir o som, utiliza-se um
pequeno bastão coberto de pano ou couro.
4
Dora: Instrumento musical semelhante ao gongo.

81
Mundo do Belo

constituirá a própria vida e se desenvolverá intensamente. Ou seja, o


Paraíso Terrestre será o Mundo da Arte. Eis o motivo pelo qual tenho
grande interesse por ela e pretendo incentivá-la bastante, no futuro. Como
primeiro passo, estou construindo o protótipo do Paraíso Terrestre, em
Atami; quando ele estiver concluído, atrairá ainda mais a atenção da
sociedade, recebendo muitos elogios. Infalivelmente, merecerá
consideração a nível mundial. Portanto, estamos dando prosseguimento aos
planos sob essa diretriz.

Eiko, nº 107 — 6 de junho de 1951

82
Mundo do Belo

O PARAÍSO É O MUNDO DO BELO

Os fiéis da nossa Igreja estão bem cientes de que o objetivo de Deus


é a construção do mundo ideal, de perfeita Verdade, Bem e Belo. Sendo
assim, o objeivo de Satanás, Seu antagonista, é obviamente a Falsidade, o
Mal e a Fealdade. Falsidade e Mal não necessitam de explicações; portanto,
falarei a respeito da Fealdade.

Neste mundo, existem coisas erradas. Há casos, por exemplo, em


que a Fealdade se associa à Verdade e ao Bem. Ao ver tais fatos, muitas
vezes as pessoas fazem deles alvo de admiração e respeito. Em termos mais
claros, desde tempos remotos, não são poucas as pessoas que, comendo e
vestindo-se precariamente, morando em cabanas, enfim, vivendo uma vida
miserável, realizam práticas virtuosas para o bem do próximo e da
sociedade. Realmente, se suas condições de vida fossem desfavoráveis,
seria inevitável para elas poderem sobreviver, mas algumas, mesmo tendo
condições para viverem melhor, escolhem espontaneamente tal forma de
vida, o que acredito não ser desejável. Entre elas, encontram-se muitos
religiosos que escolhem uma vida de abstinência como meio de
aprimoramento, achando ser um meio excelente. Quem vê isso, considera-
os pessoas sublimes. Mas, para falar a verdade, esse pensamento não é
correto, pois se negligencia um fator importantíssimo, que é o Belo; ou
seja, temos Verdade, Bem e Fealdade. Neste sentido, desde que não
ultrapassem as condições adequadas a cada indivíduo, as vestes, a
alimentação e a moradia do homem devem ser utilizadas da maneira mais
bela possível, porque isso está de acordo com a Vontade Divina. Além do
mais, o Belo não é simplesmente uma satisfação individual, mas também o
que causa uma sensação agradável aos outros. Assim, podemos dizer que é
uma espécie de boa ação. Na verdade, quanto mais alto grau de civilização
a sociedade alcançar , tudo deverá se tornar mais belo. Pensem bem. Na
vida dos selvagens não existe quase nenhuma beleza. Por isso, também
podemos dizer que o progresso da civilização é, em parte, o progresso do
Belo.
Naturalmente, a nível individual, os homens também devem
procurar manter uma beleza adequada, para causar boa impressão às
demais pessoas; sobretudo as mulheres, devem procurar mostrar-se ainda

83
Mundo do Belo

mais belas. Talvez não seja da minha conta fazer-lhes semelhantes


considerações, mas é a pura verdade: dentro de casa, deve-se sempre ter o
cuidado de não deixar teias de aranha no teto, de conservar o assoalho tão
limpo que não haja nem um cisco, de arrumar logo os objetos
desagradáveis à vista e deixar os utensílios bem organizados. Assim, tanto
os moradores da casa como as visitas sentir-se-ão bem, o sentimento de
respeito nascerá naturalmente, e o conceito do chefe da casa também se
elevará. Devemos, ainda, cuidar do aspecto externo das residências. Mas
não é preciso gastar dinheiro para isso; se procurarmos conservar nossa
casa sempre limpa e em bom estado exteriormente, não só causaremos uma
boa impressão às pessoas que passam pela sua frente, como também
contribuiremos para influenciar positivamente o plano de turismo nacional.
A esse respeito, existe um comentário sobre a Suíça, o qual, em parte,
talvez, se justifique pelo tamanho do país. De qualquer forma, dizem que lá
tanto as ruas como as praças públicas são sempre conservadas limpas, e por
isso a sensação que se tem é realmente a melhor possível. Este é um dos
motivos pelo qual o país recebe tão grande número de turistas; portanto,
poderíamos tê-lo como exemplo a ser imitado.

As razões expostas mostram que nós, japoneses, também


precisamos cultivar o senso do Belo. Através desse exemplo, exerceremos
boa influência sobre os indivíduos e, em grande escala, muito mais do que
pensamos, sobre a sociedade e a nação. E mais ainda; por meio desse
ambiente de beleza, os sentimentos dos cidadãos também se tornarão belos,
e os crimes e os acontecimentos desegradáveis diminuirão, o que,
conseqüentemente, constituirá um dos fatores determinantes do Paraíso
Terrestre.

Finalizando, escreverei a meu respeito. Desde jovem eu gostava de


tudo o que dissesse respeito ao Belo. Embora fosse muito pobre, cultivava
flores em espaços vazios e, quando dispunha de tempo, pintava quadros.
Sempre que me era possível, visitava museus e exposições. Na primavera,
apreciava as flores e, no outono, o bordo. Agora, pela graça de Deus, minha
vida se tornou mais afortunada, e, além de apreciar o Belo como desejo, tal
atitude constitui uma ajuda para a realização das atividades da Obra Divina.
Entretanto, para terceiros, que desconhecem esse fato, minha vida parece

84
Mundo do Belo

exageradamente luxuosa, o que é inevitável. Desde tempos antigos, como


sempre digo, os fundadores de religiões faziam a divulgação das doutrinas
levando uma vida paupérrima e realizando penitências. Comparando-me
com eles, talvez todos achem minhas atitudes um tanto estranhas, pela
grande diferença observada. Na verdade, aqueles religiosos estavam na Era
da Noite, e até mesmo a Religião era divulgada por meios infernais.
Chegou, porém, a Época de Transição e, atualmente, quando o mundo está
para se tornar Dia, a salvação é efetuada num estado paradisíaco, de modo
que é necessário refletir profundamnete sobre esse ponto.

Eiko, nº 112 — 11 de julho de 1951

SOBRE A ARTE DA VELOCIDADE E PICASSO

Quando cotejamos as artes ocidental e oriental, temos que aquela é


dinâmica, enquanto esta, estática. Tomemos o exemplo da música: a do
Ocidente prima pelo movimento e velocidade, exultando e animando o
ouvinte, de forma que ele não possa parar quieto. Em contraposição, a
música oriental induz o ouvinte a um sentimento de calma e repouso. O
mesmo vale ser dito com relação à dança: a do Japão consiste mais num
bailar, é a própria imobilidade. Já a ocidental e dinâmica, sendo um de seus
ramos extremos o "jazz".

No tocante à pintura, dá-se o mesmo. A única diferença — em


termos intrínsecos — com a música e a dança, é que é difícil para a pintura,
em virtude de seus métodos estáticos, a expressão do movimento. Tal
dificuldade ocasiona uma composição um tanto quanto forçada. Da vontade
de solucionar o problema e criar uma nova tendência, surgiu a pintura
ocidental hodierna. Aquelas pinturas estranhíssimas nasceram da
concepção de que o método convencional de pintar tanto corpos estáticos,
tal e qual se apresentam aos olhos, bem como o que está em movimento,
também, de maneira estática, segundo a visão do pintor, não corresponde à
realidade. O grande mestre do gênero é Picasso.

Quando, cientes disso, contemplarmos esses quadros, nós os


entenderemos, mais ou menos. Eles expressam a sensação instantânea

85
Mundo do Belo

recebida de um corpo em movimento, podendo existir dois casos, como


citamos acima: num, o movimento do corpo é expresso com objetividade;
no outro, mesmo que o corpo esteja em repouso, tem-se a sensação do
instante em que o próprio pintor se movimentava. Conseqüentemente,
quem vê deve discernir tal detalhe com precisão, conquanto essa seja uma
tarefa bem difícil. Em suma, temos a velocidade do movimento do objeto e
a velocidade do movimento do pintor que vê o repouso do objeto. Como é
extremamente complicado, basta considerar que o que importa é a sensação
da velocidade. Por isso, há nessas obras rostos que se sobrepõem, que se
contorcem, ou desequilíbrio entre o rosto que é minúsculo e o corpo que é
imenso... A interseção de linhas geométricas consiste na sensação da
velocidade correspondente a prédios e, da mesma forma, a sarabanda
incoerente de cores, na sensação instantânea proporcionada por um canteiro
de flores ou vestes femininas. Por isso, de posse de tais conhecimentos, não
é impossível compreender até certo ponto essas obras. Todavia, para falar
sem cerimônia, seria desejável que se pusessem notas explicativas a
respeito do momento em que foram executadas. Caso contrário, quem vê é
induzido a uma confusão mental inútil. Quem vai a uma exposição quer
divertir-se; se o que encontra, porém, é sofrimento, a questão exige
demorada reconsideração.

Creio ter já escrito o suficente para ser, de forma razoável,


entendido. De agora em diante, passo a manifestar aos pintores o que
penso, na posição de contemplador de suas obras. Ao nos colocarmos
diante de uma tela, deleitamo-nos quando logramos captar a intenção do
autor, compreendendo, de imediato, do que se trata. Tal captação deve ser a
alma da arte. Entretanto, defronte de um quadro como os de Picasso, somos
levados a meditar nos objetivos do autor, no que ele quis expressar com o
que criou. Parece até com o programa As Vinte Portas5, onde somos
obrigados a adivinhar se o negócio é um animal, um vegetal ou um mineral.
Por causa disso, perdemos um bom tempo a meditar. O que se tem,
portanto, não é arte, mas um tipo de quebra-cabeça. Felicidade seria poder
ouvir do animador que chegáramos à resposta correta; provavelmente,
porém, no referente a essas pessoas, ninguém nos dirá isso. No meu caso,
só de ver algumas dessas telas, minha cabeça começa a doer: sinto medo
5
As Vinte Portas: programa de diversão que foi levado ao ar de 1947 a 1960.

86
Mundo do Belo

em pensar o que aconteceria se as visse todas. Sendo assim — usando de


um modo extremo de falar — quem vê tais obras é um tipo de vítima. De
fato, o pintor, todo cheio de si, impõe a sua subjetividade — se o
espectador aceita, bem-feito! Pobre coitado! Ele é visitante de exposições...
Este é o modo de pensar dos artistas modernos. Ignoram a objetividade,
orgulhando-se de ser o que sempre apelido de fantasmas da subjetividade.
Fica registrada com ousadia a minha opinião. Talvez possa ser também a
imposição da minha personalidade, ou mesmo a paga pelas imposições
sofridas... Entrementes, quero escrever, de forma breve, a minha opinião
acerca da pintura. Não resta dúvida de que ela é um elemento fundamental
das belas-artes. Em se tratanto, então, de um fator de tamanha importância,
deve-se claramente receber dela a impressão da beleza. Em outras palavras,
ao nos confrontarmos com uma boa peça, devemos experimentar, em
plenitude, a atração e o embevecimento proporcionados pelo Belo. É nisso
que reside o verdadeiro valor da obra e que faz dela um bem cultural
excelente. Em conseqüência, as exposições para tal devem existir. Desejo
acrescentar, aqui, algo mais. Trata-se do significado da Pintura em si.
Independente de época ou lugar, a Pintura não será verdadeira caso sua
apreciação esteja reservada exclusivamente a pessoas dotadas de um senso
crítico especial. A alma da Arte reside na universalidade de proporcionar
prazer a todo mundo. Desnecessário dizer que ela não deve imitar a Pintura
ocidental da atualidade, na sua presunção. Caso ela se rebaixe ao nível do
"jazz", que só faz correr atrás da moda vã, acabará por auto-exterminar-se,
mais cedo ou mais tarde. Lógico é que, se a pintura consiste no alimento do
espírito que se toma através dos olhos, deve-se dar de comer o que é
gostoso, ao invés do que é ruim. A consciência do pintor deve proceder
assim.

Eiko, nº 114 — 23 de janeiro de 1952

CIÊNCIA E ARTE

O mundo contemporâneo pensa que tudo pode ser resolvido pela


Ciência. Entretanto, embora quase ninguém chegue a perceber, existem
diversos empreendimentos importantes que a Ciência não consegue
resolver. Analisemos a Arte, por exemplo.

87
Mundo do Belo

A Pintura e as mais diversas expressões artísticas, como a


Literatura, a Música, a Dança, o Cinema e até o Teatro, possuem algum
teor científico, mas não é preciso dizer que estão quase que totalmente
fundamentadas no conjunto da genialidade, inteligência, consciência e
esforço do homem. Todos sabem o quanto a Arte é necessária para a
sociedade humana. Se ela não existisse, a vida seria seca e sem sabor, como
se estivéssemos dentro de uma cela de pedra.

Exemplifiquemos: sempre que caminho pela cidade, sinto que, se


não houvesse lojas, residências e prédios ao redor, e eu não pudesse ver o
verde das árvores da rua ou dos jardins das casas, mas apenas uma parede
semelhante a um presídio de uma só cor sóbria, prolongada em linha reta,
talvez, eu não suportaria andar sequer alguns quarteirões. Assim, a bela
visão proporcionada pelo rico colorido das casas, pelas diferentes feições e
expressões das pessoas, com sua maneira característica de se vestir e de
andar — a exuberância dos jovens exibindo a moda; as pessoas de idade; os
recém-chegados do interior — enfim, os infinitos aspectos que
encontramos, cada um com algo de interessante, é que nos permitem andar
pela rua sem entendiar-nos. Quando nos distanciamos da cidade, dentro de
um ônibus ou de um trem, não ficamos cansados porque a paisagem
variada — montanhas, rios, plantas, árvores e plantações — nos faz passar
o tempo. Além do mais, as diversas transformações ocasionadas pelo clima
das estações enriquecem o nosso sentimento. O mundo é realmente uma
arte criada pela Natureza e pela mão do homem. É por tal diverssidade que
vale a pena viver.

Pensando dessa forma, poderão concluir que até a Ciência é uma


parte da Arte e entender, portanto, que ela tem uma função auxiliar. Assim,
é por demais evidente que há uma ligação inseparável da Arte com a vida
do homem. Ante essa evidência, a Sekai Kyussei Kyo interessa-se pela
Arte e estimula-a como nenhuma religião o fez até agora.

Entretanto, até mesmo na Arte existem níveis. Se ela é de nível


inferior, corre o perigo de abaixar o nível das pessoas, levando-as à
degradação, motivo pelo qual é preciso muita cautela. Por isso, a Arte deve

88
Mundo do Belo

ser de nível elevado — uma arte que, deleitando a pessoa, eleva o seu
sentimento.

A teoria é fácil, mas existirão organizações que se encarreguem


disso? Quanto ao exterior, nada posso afirmar; porém todos sabem que,
nesse ponto, a situação do Japão é muito precária. Para corrigir essa falha,
nossa Igreja está efetuando a construção do protótipo do Paraíso Terrestre,
do qual faz parte o Museu de Belas-Artes. Há um sábio e antigo ditado que
diz: “A Religião é a mãe da Arte”. Ele expressa muito bem a atividade de
construção que estamos desenvolvendo.
Eiko, nº 154 — 30 de abril de 1952

SERMÃO

Eu jamais quero esquecer-me da existência das belas-artes nas


raízes da religião. De qualquer obra de arte afluem símbolos concretos da
Verdade, do Bem e do Belo. Ou seja, penso que o ato de o religioso
iluminar as massas por intermédio de uma filosofia artística consiste,
afinal, em nelas implantar o espírito da Verdade, do Bem e do Belo. Vale
notar, ainda, que ninguém como o Príncipe Shotoku — quem divulgou o
budismo no Japão — teve tanto interesse pelas artes. A cultura
esplendorosa da era Tempyo deveu-se, exclusivamente, a ele. Vejam, por
exemplo, as imagens de Buda da época: o sorriso suave; a piedade que
aflora da jovem face de traços marcantemente delineados; a nobre
atmosfera que silenciosamente nos vem ao encontro — em suma,
pressente-se o movimento em meio ao repouso. Uma sensação de paz, além
de tudo. Por isso, julgo que a verdadeira religião manifesta-se
integralmente dentro das obras de arte. A Verdade e o Bem consistem em
elementos espirituais, mas o Belo é capaz de sublimar a alma através dos
olhos. Trata-se de fato histórico inegável que a Religião é a mãe da Pintura,
da Escultura, da Música e de todas as demais Artes. Tal evidência, hoje,
vem diluindo-se gradualmente; Religião e Arte estão distanciando-se —
corroborando nesse fato as influências da ciência moderna. Fala-se do
declínio da religião, mas, indiscutivelmente, este não é o estado original
dos acontecimentos. Religião e Arte devem avançar paralelamente como as
rodas de um carro. Eu sou adepto da tese absoluta de paz, segundo a qual

89
Mundo do Belo

onde a Religião e as artes florescem, jamais ocorrem guerras.


Conseqüentemente, acredito que o objetivo final da Religião reside nisso.
Nesse sentido, a Igreja Sekai Kyussei Kyo promove exposições artísticas
com freqüência. Ampliando essa concepção, pretendo realizar em uma loja
de departamentos de Tóquio uma grande mostra das peças de arte da minha
coleção, que já começam a despertar o interesse dos vários círculos da
sociedade. Tal empreendimento também se fundamenta no meu princípio
de que a Religião e as Artes se encontram profundamente interligadas.
(Omitiu-se a parte final)*

Jornal Tokyo Nichinichi, 24 de fevereiro 1953

*Omitiu-se, na presente obra, a parte final, por não estar particularmente relacionada com as Artes.

90
Mundo do Belo

V - SOBRE OS ARTISTAS

OGATA KORIN

Desde a minha juventude, sempre gostei demais de Pintura. E,


indiscutivelmente, o meu pintor preferido é, independente de época, aquele
famoso Korin. Dentre os artistas da escola Korin, tanto Koetsu, como
Sotatsu, Koho e Kenzan têm, cada um deles, o seu sabor; todavia, Korin
distingue-se, decididamente, por sua superioridade. Sua pintura, sendo
concisa, logra captar a imagem real do objeto, fato que a torna ímpar.
Desconsiderando completamente a forma das coisas, ele a expressa com
fidelidade. Isso é idêntico à energia do poema japonês de trinta e uma
sílabas que pode comover o homem, quando este não se convenceria ainda
que com o emprego de milhões de palavras. O que mais me assombra é que
até então a pintura nipônica esteve presa às formas legadas da China, e
Korin ousadamente rompeu com essa tradição. Ou seja, ele acabou com o
método da utilização da linha, substituindo por outro que prescinde dela, e
renasceu para um estilo próximo do desenho esquemático. Resumindo, foi
a sua ousadia em criar um método revolucionário de desenho, em oposição
ao método tradicional que estava preso a determinados cânones.

Hoje, passados duzentos e algumas dezenas de anos depois do


passamento de Korin, sua façanha provocou uma revolução nos círculos
pictóricos da era Meiji. Acerca disso, tenho o seguinte episódio a relatar.
Trinta anos atrás, o mestre Tenshin Okakura, fazendo-se acompanhar de
quatro pintores — Taikan, Shunso, Kanzan e Buzan — retirou-se para
Izura, no antigo feudo de Hitachi. Naquela época, em virtude de certa
circunstância, consegui entrevistar-me com o mestre Tenshin. Ele revelou-
me, entre outras coisas, os seus futuros projetos com relação à Pintura
japonesa. Tal contato foi-me por demais proveitoso e, na oportunidade,
também tomei conhecimento do caráter invulgar do mestre. Naquele dia,
varei a noite a confabular com os dois pintores Kanzan Shimomura e
Buzan Kimura. O mestre Kanzan confessou-me então: “A intenção do
mestre Tenshin, ao fundar o Instituto de Artes, foi de reabilitar Korin na
atualidade. Por isso, nós não fazemos uso da linha propositadamente.
Hoje, a sociedade faz pouco caso de nossa pintura, apelidando-nos de

91
Mundo do Belo

escola da opacidade. Há de vir, porém, um dia em que haveremos de ser


reconhecidos, infalivelmente”. Justamente como ele afirmou e é do
conhecimento geral, pouco tempo depois, o estilo do grupo do Instituto de
Belas-Artes passou a dominar o mundo japonês da pintura, fazendo a
revolução desta. O mestre Kanzan tecera, ainda, algumas considerações,
nesse sentido. A pintura, no Ocidente, em virtude do extremo a que atingira
a escola realista, tendo passado a competir com a fotografia, ao enveredar
pelas sendas do pormenor, chegara a tal ponto que exaurira, totalmente, as
suas possibilidades. Quando todos os esforços visavam a desvendar um
caminho que levasse a uma grande mudança, alguém, na França, descobriu
Korin. Pode-se imaginar com facilidade a surpresa e a admiração
experimentadas perante o rumo tomado pela pintura de Korin,
completamente inverso ao do realismo elaborado. Como era de se esperar,
nasceu o desenho do estilo art nouveau, apareceu o movimento pré-
impressionista, e, finalmente, nasceram os grandes gênios da escola pós-
impressionista, como Van Gogh, Gauguin, Cèzanne e outros. E não foi
somente tal o acontecido: a descoberta provocou uma revolução em todos
os ramos das Belas-Artes e do Artesanato, atingindo até a Arquitetura.
Como todos sabem, os estilos grego e romano vigentes, até então, passaram
por uma imensa mudança graças ao secionismo; o estilo renascentista
recolheu-se e daí brotou o estilo arquitetônico moderno. É inegável que o
estilo que atualmente prevalece no mundo inteiro, criado pelo francês Le
Corbusier, de extrema simplicidade, recebeu no fundo a influência de
Korin.

Creio que não é exagero afirmar que o japonês Korin, que, alguns
séculos após sua morte, subitamente agitou o mundo inteiro, ou melhor,
revolucionou um campo da civilização, é o maior orgulho deste país. Até
hoje, não houve um japonês cuja obra lograsse revolucionar um setor
mundial. Somos obrigados a afirmar que Korin foi o único.

Ensaios, 30 de agosto de 1949

O SABER DAS COISAS

92
Mundo do Belo

Creio que, em japonês, não há expressão de sentido mais profundo


e sutil do que mono o shiru (o saber das coisas). Considero-a de difícil
interpretação, por isso vou tentar esclarecê-la o melhor possível.

Analisando-a, vemos que ela significa experimentar ilimitadamente


tudo que existe no mundo, penetrar, captar a essência das coisas e exprimi-
la de alguma forma. Ou melhor, descobrir o segredo de medir a ação e as
conseqüências de determinado problema. Ao contrário, se alguém exibir
teorias infantis, agir levianamente ou praticar ações sem perceber a censura
e o desprezo dos outros, significa que não tem visão nem sabe das coisas.
Pertence ao grupo daqueles que se costuma chamar de imaturos, infantis ou
grosseiros.

Esclarecido é quem possui vasto saber. Por aí vemos quão grande é


o número de homens imaturos que não possuem esse saber das coisas,
inclusive entre os homens públicos. Eles procuram exagerar e fazer alarde
de questões insignificantes, sem se dar conta de que estão atraindo o
desprezo dos esclarecidos. Seu comportamento nada mais é que a
demonstração de sua própria inferioridade. Tais indivíduos são,
infalivelmente, umas nulidades, homens de conceitos restritos (Shojo).

A eficiência e o crédito são sempre prejudicados pela ação dessas


criaturas medíocres, empenhadas somente em elevar sua própria fama.
Certamente é por causa de tantos elementos sem maturidade que não se
consegue chegar a conclusões e resoluções mais rápidas nos debates
políticos de hoje. Se a maioria fosse esclarecida, seria fácil um acordo. O
problema é que os esclarecidos se retraem no silêncio, por detestarem
discutir com gente teimosa. Os imaturos aproveitam essa oportunidade para
se exibir, desejando tornar-se famosos, e a fama aumenta sua probabilidade
de serem eleitos, por ocasião das eleições. Sendo assim, os menos
esclarecidos representam a maioria, e os esclarecidos, a minoria. Uma
prova disso é o fato e a necessidade de se passar longo tempo discutindo
um problema — às vezes de somenos importância — para se encontrar
uma solução.

93
Mundo do Belo

Mas a verdade é que, apesar de os homens mais esclarecidos


apareceram menos, por serem modestos, suas opiniões acabam sempre
triunfando. E tal fato não se limita ao mundo político. É natural, em todos
os setores da sociedade, que aqueles que são conhecidos pela sua
competência sejam homens relativamente esclarecidos.

Até aqui me referi à parte moral. Passarei, em seguida, para o


campo da Arte, que eu considero o melhor meio para explicar o presente
assunto, já que a maioria dos homens esclarecidos são, ao mesmo tempo,
dotados de senso estético muito elevado.

Exemplifiquemos, primeiramente, com o príncipe Shotoku, cujo


vasto conhecimento sobre a cultura budista, principalmente na parte
artística, ninguém poderá deixar de reconhecer. Temos a prova disso no
Templo Horyuji e em outras construções, que ainda conservam o esplendor
da sua magnificência. A sua famosa Constituição dos 17 Artigos pode ser
considerada a base da lei japonesa.

Também podemos citar Yoshimassa Ahikaga, que, embora tenha


sido muito criticado em outros setores, na parte artística deixou-nos uma
obra notável. Além de construir o Templo Guinkakuji (Pavilhão de Prata),
foi apreciador da Arte chinesa, tendo colecionado objetos artísticos das
dinastias Sung e Ming. Incentivou grandemente a arte japonesa com as
Obras preciosas de Higashi-yama, que ainda hoje deleitam o nosso senso
artístico. Seu trabalho é realmente digno de louvor.

A maior honra, no entanto, desejamos conferir a Hideyoshi


Toyotomi6. Ao lado de sua exuberante criação artística, intulada
Momoyama, devemos salientar o brilhante impulso dado por ele à arte da
Cerimônia do Chá — cuja existência, até então, era obscura —, protegendo
Sen-no-Rikyu, mestre da referida arte, naquele século. Graças a ele, houve
um rápido desenvolvimento da cultura artística, e gênios e grandes mestres
surgiram uns após outros. Não fazem exceção Enshu Kobori e Chojiro, o
gênio da cerâmica. Este, como Ashikaga, além de obras japonesas e
chinesas, colecionou famosos objetos artísticos da Coréia, dando um novo

6
Hideyoshi Toytomi: unificador dos feudos, no ano de 1573

94
Mundo do Belo

impulso à cerâmica no Japão. Devemos lembrar, aqui, a existência de


Koetsu Honnami. Ele foi pintor e calígrafo notável, tendo criado uma nova
modalidade de maki-ê7; na fabricação de cerâmicas, foi inimitável, graças à
sua originalidade e versatilidade. Sua maior contribuição, que ele próprio
não previra, foi ter influenciado, cem anos após seu falecimento, o famoso
mestre Ogata Korin, expoente máximo do Japão no setor artístico, o qual
foi admirador de Koetsu e o superou, conquistando grandiosa fama.
Também não podemos omitir os oleiros Ninsei e Kenzan. Desta corrente
surgiu Hoitsu, que se fez notar, também, pela sua habilidade artística.

A grandeza de Hideyoshi Toyotomi reside no fato de ter


compreendido a Arte ainda na mocidade e colecionado obras-primas, o que
não deixa de ser algo surpreeendente, dado que ele era filho de lavrador.
Geralmente, além de crescer sob condições favoráveis, ou melhor, na classe
acima da média, é necessário um grande esforço para se atingir o nível do
“saber das coisas”. Hideyoshi, portanto, é de fato um homem humilde e que
viveu continuamente em campos de batalha.

Lancemos, agora, uma vista sobre a Arte Literária.


Na poesia, sobressaem-se, indiscutivelmente, Saigyo e Basho. As
obras destes dois expoentes revelam ter sido realizadas por quem realmente
possui o “saber das coisas”. Nunca deixo de admirar estes poemas, suas
obras principais:

“A solidão envolve
até um coração indiferente,
quando as narcejas levantam vôo do pântano,
nos crepúsculos do outono.”

Saigyo (Waka)

“O canto das cigarras


penetra no silêncio
e nas rochas.

7
Maki-ê: arte que utiliza laca e madrepérola)

95
Mundo do Belo

Baisho (Haiku)

Uma pessoa que também merece ser lembrada é o aristocrata Unshu


Matsudaira, conhecido pelo nome de Fumai. Ele colecionou inúmeras obras
de arte, classificou-as, protegeu-as da dispersão e deu impulso à Cerimônia
do Chá. É digno de toda a nossa consideração.

Entre os esclarecidos da época moderna, citaremos o falecido ator


Danjuro Ichikawa.

Vimos, em linhas gerais, alguns dos principais representantes da


arte japonesa considerados esclarecidos. São homens civilizados no mais
alto grau, e é escusado dizer o quanto colaboraram para alimentar a alma
do povo, enriquecendo-lhe o gosto estético e elevando-lhe os sentimentos.
Naturalmente, todos sabem que as invenções, as descobertas e o progresso
do ensino contribuíram para a cultura da humanidade, mas convém
recordar a grande constribuição que, em silêncio, as obras dos esclarecidos
trouxeram à civilização.
Tijyo Tengoku, nº 16 — 15 de agosto de 1950

A RAZÃO DO DESAPARECIMENTO DOS GRANDES MESTRES (II)*

Tratarei, a seguir, dos círculos das belas artes, em especial da área


dos pintores. Este setor, também, perdeu ultimamente quase todos os
chamados grandes mestres. Restam meramente dois: Gyokudo e Taikan.
Naturalmente, por ambos terem idade muito avançada, não se pode contar
longamente com eles. Assim, quando se pensa no porvir do mundo da
Pintura japonesa, conclui-se que, por um bom intervalo de tempo, estará
tomado por um sentimento de vazio. Quanto aos demais pintores de fama
— para falar com sinceridade —, eles se aproximam cada vez mais da
perfeição técnica, mas, em contrapartida, a vivacidade de suas obras é
parca, e, particularmente, no que toca aos maiores, essa tendência é mais
perspícua. Dentre esses artistas, o mais enérgico talvez seja Ryushi. Em
vista dos fatos discorridos, é-me possível afirmar não ter deparado com
peça alguma que me tivesse impressionado sobremaneira e ficado na
recordação, ao percorrer as mostras de arte recentes. Nessas oportunidades,

96
Mundo do Belo

recordo-me do esplendor daqueles anos posteriores ao início da realização


da Exposição do Instituto de Artes do Japão. Era, então, com impaciência,
que eu esperava o dia de abertura, tal o número de obras-primas
apresentadas. Nem há necessidade de comparar com o que hoje se verifica,
sendo por demais lastimável ter de se contentar com a explicação de que
essa escassez advém do passar das épocas. De certa forma, tal fato é até
mesmo estranho. O tópico mais lamentável é a perda da força da pincelada
— o elemento vital da Pintura do Oriente. De fato, ainda há pinturas em
que os traços são predominantes. São, contudo, linhas delgadas e
extremamente frouxas, as quais fazem tão-somente marcar com cautela os
contornos. Os limites que daí surgem são, nesse caso, preenchidos com
tinta: não existe, portanto, nem impacto e tampouco profundidade.
Cotejem-se com elas as obras dos grandes mestres da Antigüidade: o sabor
e a fartura do volume criam uma atração inigualável que nos impede de
afastar delas os olhos, ao vê-las. Terminada a apreciação, experimenta-se
até uma sensação de tênue cansaço. Creio tratar-se de uma sensação
comum a muitos diletantes, sendo proveniente da atmosfera e da nobreza
da Arte.

Todavia, as obras dos pintores recentes passam a impressão de


serem peças de doentes, tamanha a sua debilidade. Além do mais, como
existem muitas pinturas em que se lançou mão da técnica de recobertura, a
coisa fica ainda pior, o que deve acontecer porque, ao perceber-se que o
pincel não obedece, pode-se corrigir a falha por meio da citada técnica. Eu
acredito que a razão de ultimamente a pintura a óleo estar em voga se
remete a tal fato. Outro acontecimento que noto quando vou a exposições é
não haver grande diferença entre artistas veteranos e estreantes. A distinção
fica por conta da assinatura. A explicação desse fato não requer que
meditemos muito: imitação por imitação, tanto faz se o autor é veterano ou
novato. Antigamente, porém, bastava que batêssemos os olhos numa peça
para saber que pertencia a um grande artista. O seu brilho a distinguia
completamente das outras. Nesse sentido, podemos determinar o valor real
da pintura hodierna. Ultimamente, quando saio de uma mostra de arte, não
posso evitar uma sensação de que é um misto de desesperança, desânimo,
pessimismo e cólera. O que se leva de volta para casa é um presente de
tristeza, conquanto a intenção inicial residisse na diversão.

97
Mundo do Belo

Creio que os meus comentários são um tanto cruéis, mas eu os fiz,


pensando no futuro da pintura japonesa.

Como sei onde se encontra a verdadeira razão de semelhante fato,


passsarei a escrever, a seguir, com detalhes a esse respeito. Pretendo fazer
um intróito acerca da afamada pintura antiga chinesa, especialmente —
como é do conhecimento dos diletantes — aquela das dinastias Sung e
Yuan. Destacam-se, aqui, indiscutivelmente os pintores Mu Hsi e Liang
K'ai. Sobre eles, Saneatsu Mushanokoji já escreveu antes, pelo que creio
que quem o leu tem conhecimento de serem ambos os pontos máximos da
Pintura oriental. Sua técnica, quase que sobre-humana, faz com que eu
tome uma atitude de humildade sempre que vejo essas obras. Além dos
dois, podemos mencionar Yen Hui, Ma Yüan, Ma Lin, Kao Jan Hui, Jih
Kuan e outros, sendo que todos pintaram pela técnica monocromática. Tive
a oportunidade de ler em algum livro que Sen-no-Rikyu, em suas reuniões
da Cerimônia do Chá, pendurava sempre um rolo de caligrafia na sala;
quanto a pinturas, ele, unicamente, fazia uso de Mu Hsi. O que mais me
espanta nas peças dos citados artistas é a vigorosidade da força do pincel.
Essa força é peculiar à pintura das dinastias Sung e Yuan, e tanto os
japoneses como os outros estrangeiros não contêm o seu êxtase diante dela.

No Japão, do aprendizado da pintura dessas duas dinastias chinesas,


nasceram, na era Muromachi, os gênios Sesshu, Shubun, Keishoki, Sesson
e Dasoku, deles podendo-se dizer que são os patronos da pintura nipônica.
Contudo, em se os comparando com as pinturas Sung e Yuan, é inevitável
que fiquem indiscutivelmente aquém. Porém, digna de nota é a pintura
peculiar do Japão, surgida posteriormente. Em outras palavras, as pinturas
budistas, das escolas Tosa, Korin, Yamato e as xilogravuras do estilo
Ukiyoê. Essas obras trabalharam ativamente em prol das artes visuais
japonesas, sendo do conhecimento comum que elas brilham no mundo. A
partir da era Meiji em diante, surgiu um número razoável de grandes
mestres; porém, seja como for, os maiores são os da escola do Instituto de
Artes — que obteve êxito em introduzir, na sua estrutura forjada na escola
Korin, aqueles bons elementos da pintura ocidental — e os da escola de
Quioto, que gira em torno da rara genialidade de Seiho. Estas duas escolas

98
Mundo do Belo

infundiram, indubitavelmente, novo alento ao imutável mundo japonês da


pintura, até então, profundamente imerso nos sonhos de uma longa noite.
Seus merecimentos são dignos de alta apreciação. Depois, em conseqüência
da guerra, passou-se por um estágio ocasional de letargia, que agora,
concomitantemente com a recuperação nacional, dá lugar ao despertar do
movimento. Eu me punha contente com esse acontecimento, mas
verificando o que disse há pouco, não posso conter um demorado suspiro.
Oh! lástima! O palácio da beleza da pintura nipônica, cuja edificação levou
mil anos, começa a tremer! Ademais, caso sobre seus restos venha a
erguer-se um palácio ocidental, a situação é de extrema gravidade. Verdade
é que a pintura japonesa trazia em si, já há bastante tempo, essa tendência.
Acreditando ser aquele um solo propício para o nascimento de uma nova
arte, eu tinha minhas expectativas. Entretanto, quando dei por mim, vi-me
traído, e o que era positivo tornou-se negativo.

Pelo exposto acima, julgo ter sido compreendido, e afirmo que há


uma grande razão para o surgimento de semelhante tendência. É sobre o
que discorrerei da próxima vez.

Eiko, nº 91 — 14 de janeiro de 1953

*A Razão do Desaparecimento dos Grandes Mestres (II) — Por não estar particularmente relacionado
com a Arte, o texto "A Razão do Desaparecimento dos Grandes Mestres (I)" foi omitido da presente
obra.

A RAZÃO DO DESAPARECIMENTO DOS GRANDES MESTRES (III)

Ao se realizar o exame das causas do que foi exposto, depara-se


com o fato irrefutável da debilitação da saúde dos pintores. A tal fato,
acrescem problemas de ordem econômica. São, grosso modo, estes dois
fatores. Abordando a questão a partir do seu primeiro tópico, deve-se
afirmar que o consumo de carne, ao qual a raça branca está habituada há
muitas gerações, não lhe é pernicioso, mas que o mesmo não é válido para
os japoneses. Escusado dizer que os ancestrais do povo japonês
consumiam, quase que essencialmente, vegetais, mas com o início da era
Showa — entre as era Meiji e Taisho, nem tanto — o consumo de carne
aumentou extraordinariamente. Como é do conhecimento geral, depois do

99
Mundo do Belo

término da guerra, sobretudo, a alimentação carnívora, auxiliada pelo


complexo étnico, difundiu-se, bem como o hábito de beber leite ganhou
grande popularidade.

Quero relatar aqui a minha experiência vegetariana. Quando eu


tinha dezoito anos, a tuberculose que me afetava, há mais de um ano,
agravou-se, levando, afinal, certo médico afamado a revelar que eu iria
morrer. O desespero pelo qual fui tomado fez com que eu procurasse
alguma forma de salvação, tendo eu descoberto, fortuitamente, que, para
tal, o vegetarianismo era adequado. Assim, ao me submeter, por três meses,
a um regime constituído exclusivamente de vegetais, restabeleci-me a
passo acelerado da moléstia, tornando-me mais saudável do que antes do
seu aparecimento. Na ocasião, dentre outras coisas, percebi, por meio de
meu físico, que eu adquirira acentuadamente maior tenacidade. Ao mesmo
tempo, como naquela época eu pintava mais ou menos por diversão, notei a
diferença da força do pincel. Antes, eu tremia e não conseguia traçar, por
exemplo, as linhas como desejava. Passei, porém, a poder pintar conforme
a minha intenção, de um fôlego só. Desde então, comecei a julgar que os
artistas carecem imensamente do vegetarianismo. Atribuo a falta de
impacto das obras dos pintores hodiernos a tal motivo, por eles não
conseguirem expressar seus traços como pretendem.

Hoje em dia, é suficiente ficar um pouco conhecido para que o


padrão de vida melhore e, com isso, a alimentação penda para o lado da
carne. Ademais, passa-se a dar mais atenção à saúde, recorrendo-se logo ao
médico por causa de qualquer doença à toa, a qual, em outros tempos, era
deixada de lado. Não só essa terapia consiste em um método que mina a
saúde, como também, ao seguir os conselhos do médico — que prescreve
muito cuidado e cautela — o indivíduo torna-se doentio, vivendo o ano
inteiro cheio de medo e, conseqüentemente, sem energia. Esse estado vem
a influir na obra, transparecendo na extrema fraqueza e falta de impacto dos
quadros de tal artista. Não é estranho, pois, que artistas assim, ao ficarem
famosos, morram precocemente. Sem dúvida, a razão está aqui.
Contrapondo-se a tais obras, temos a pintura antiga da China e do Japão.
As peças de pintura e caligrafia até hoje valorizadas como obras-primas
têm como seus autores, principalmente, monges budistas da seita Zen. Eles

100
Mundo do Belo

se submeteram a um regime inteiramente vegetariano e, em vista da rígida


disciplina que seguiram vinte e quatro horas por dia, tiveram sua
personalidade lapidada e sua força espiritual robustecida; o que se
manifesta perfeitamente em suas obras. Talvez por eu as apreciar
consciente desse fato, tomo uma atitude de reverência maior diante do seu
elevado e vigoroso senso. Outrossim, quando vejo obras grandiosas como
as mandalas búdicas, sempre tomo um susto com a tenacidade que
exigiram do artista.

No que T´ange ao segundo tópico, ou à questão de ordem


econômica, deve-se notar que na sociedade atual é inexequível dedicar-se
com exclusividade e tranqüilamente à atividade pictórica, à maneira dos
antigos. Se não se tomar cuidado, é perigoso até passar fome. As
preocupações oriundas daí não são brincadeira, além do fato de não mais
existirem mecenas, como outrora. Por terem os antigos senhores feudais,
aos quais sobravam tempo e dinheiro, protegido os artistas, conquanto eles
criassem boas obras, foi natural que se produzissem ótimas peças.
Desnecessário lembrar que isto foi um incentivo imenso às artes japonesas.
No que toca a este ponto, julgo que podemos agradecer muito aos senhores
feudais. Como é do conhecimento geral, a partir da era Meiji, o Instituto de
Artes tornou-se o pilar do mundo da pintura nipônica: como era de se
prever, por detrás da instituição havia dois esplêndidos mecenas: os
senhores Goryu Hosokawa e Tomitaro Hara. Este é falecido, e aquele não
pode mais atuar como antes, em virtude da mudança da época — o que é
irremediável. Depois deles, não apareceu mais ninguém assim, fato esse
que deve ser um dos motivos da estagnação recente da pintura de estilo
japonês. Eles, além do mero poder econômico, possuíam profundo
conhecimento artístico e praticavam a crítica, além de realizarem as
orientações pertinentes. A interação de todos esses acontecimentos em
muito contribuiu para que se criassem obras-primas naquela época.
Creio ter-me feito compreendido pelo que foi exposto, dando este
assunto por encerrado.

Eiko, nº 92 — 21 de janeiro de 1953

101
Mundo do Belo

MINHA DEFERÊNCIA PELOS ARTISTAS

Tenho imenso prazer em receber e procuro entrevistar-me com


artistas e artesãos, enfim, com todas as pessoas relacionadas com o ramo
das Belas-Artes e dos entretenimentos. Em contrapartida, não tenho muita
vontade de manter encontros com personalidades da sociedade, por mais
elevada que seja a sua posição. Tal atitude não deriva, em especial, de
algum capricho meu. Assim ajo porque, julgando que semelhante gesto é
desprovido de sentido, não me sinto inclinado a ele. Há algum tempo, o
senhor fulano de tal, então Ministro dos Negócios Internos, quis encontrar-
se por duas vezes comigo. Certo dia, quando eu me achava em Gora, ele
veio até Miyanoshita propondo-me uma entrevista. Mesmo assim, por não
querer ter com ele, recusei delicadamente a proposta. Assim, quando não
estou disposto a algo, não há mesmo o que fazer. O motivo para tal
procedimento seria o seguinte.

Desde jovem eu gosto de espetáculos de entretenimento, a começar


pelo teatro, tendo já assistido a muitos deles. Ultimamente, como sabem os
fiéis, por faltar-me tempo e também por apreciar, procuro ver filmes uma
noite sim, uma noite não. Em semelhantes ocasiões, sinto-me agradecido ao
autor da peça, ao seu diretor, aos seus atores e demais integrantes da equipe
por — não obstante tais atividades façam parte da sua profissão — terem
cooperado, com afinco, entre si, para a produção de uma obra interessante,
e proporcionarem divertimento. O mesmo é válido com relação ao rádio.
Quando vejo, outrossim, obras-primas de arte tanto antigas, como
modernas, o sentimento de gratidão aflora-me espontaneamente do íntimo,
por me proporcionarem prazer, graças ao esforço e trabalho dos seus
autores. Sobretudo se se trata de uma peça de um mestre extraordinário,
sinto minha alma tocada e adoto uma postura de humildade diante dela.
Naturalmente, como alguém assim é insubstituível, o meu respeito é ainda
maior.

Nesse sentido, verdade é que existem muitos grandes homens entre


os políticos, empresários e intelectuais; não descubro neles, porém, pontos
positivos que sejam motivo de gratidão. Ademais, não me deparo com
personalidades que eu possa considerar imprescindíveis. Sinto que existem

102
Mundo do Belo

substitutos aos montes para elas. Acresce que, principalmente entre tais
pessoas (não sei se, no exterior, também acontece o mesmo), sejam muitas
aquelas que detestam religião. Acredito que quem destesta religião não se
trata, no mínimo, de um homem de bem. De fato, eles praticam atos
elogiáveis, mas por ser algo calculado, não me infunde respeito.
Conseqüentemente, em se tratando dos mesmos homens de bem, prefiro
entrevistar-me e manter amizade com aquele que conhece Deus, pois é o
legítimo.

Eiko, nº 253 — 24 de março de 1954

103
Mundo do Belo

VI - SOBRE A APRECIAÇÃO

A ARTE JAPONESA E SEU FUTURO

1 - A Pintura

Ao abordar a Arte japonesa, pretendo fazê-lo dividindo em três


partes: Pintura, Escultura e Artesanato.

Primeiramente, a Pintura. É possível afirmar que a Pintura japonesa


atual se vê em face a um momento crítico. Trata-se de opinião
unanimemente compartilhada por todos aqueles que têm interesse por este
ramo da arte que a situação não é fácil. Escusado dizer que a Pintura
japonesa enfrentou uma grande fase de transformações no período que se
estende do final do xogunato Tokugawa até a era Meiji, e que as demais
artes e artesanato se viram também envolvidos. Cito como pintores que se
mantiveram vivos, tendo ultrapassado essa situação, depois de muito se
debaterem, os seguintes: Tyokunyu, Zenin, Yosai, Fuko, Hogai, Gaho,
Yoshitoshi, dentre outros. Os pintores pósteros jamais devem se esquecer
de que eles venceram as adversidades, tendo lutado contra a miséria e
guardado até o fim a última fortaleza. Foi nessa época que Gaho logrou, a
muito custo, matar a fome, tornando-se vendedor de antigüidades.
Posteriormente, quando a situação social se acalmou, e, com isso,
aconteceu também esse ramo ter-se recuperado, o mundo viu o
estabelecimento de escolas de Belas-Artes, museus e exposições — em
especial a Exposição de Artes do Ministério da Educação. Eis que,
finalmente, a primavera visitou os círculos da Pintura. Não obstante, o
mundo da Pintura japonesa não conseguiu escapar do limiar da cega
obediência às tradições. Todavia, o Instituto de Artes, criado sob os
desígnios revolucionários do mestre pintor Tenshin Okakura, veio,
repentinamente, lançar uma bomba atômica sobre o mundo da Pintura do
estilo nipônico. Os pintores centrais deste movimento são quatro, a saber:
Taikan, Shunso, Kanzan e Buzan. A intenção do Instituto de Artes estava,
como já mencionei, no tópico acerca de Korin, em reabilitar este artista na
atualidade. Em vista, no entanto, da imaturidade da ocasião, eles foram,
inicialmente, tratados com menosprezo, sendo chamados pelo nome de

104
Mundo do Belo

escola da opacidade. Todavia, a sociedade, sedenta que estava de algo novo


e insatisfeita com o antigo estilo de pintura, não conseguiu descartá-los. A
sorte abençoou lépida este movimento. Não é preciso dizer que ele
dominou os círculos pictóricos avassaladoradamente, podendo-se afirmar
que operou neles uma verdadeira revolução. À parte temos, ademais,
atuando com um trabalho conjugado, o grande mestre Gyokudo, dono de
um estilo suave e particular. Em Quioto, surgiu como a estrela-d'alva o
talento raro de Seiho Takeuchi, e Tessai Tomioka, outro senhor de um
estilo peculiar, ambos ocupando uma posição de importância naquela
metrópole do oeste. Graças a eles, finalmente o apogeu da Pintura nipônica
eclodiu. Contudo, Shunso morreu jovem, sendo seguido de Kanzan e
Buzan. Em Tóquio, hoje, restaram apenas Gyokudo e Daikan, a sustentar o
mundo da Pintura nipônica prestes a ruir. Também em Quioto, Seiho e
Tessai faleceram, assim como faleceu, jovem ainda, Kansetsu, a quem
julgavam mesmo o sucessor da obra dos dois primeiros. Tanto no leste
como no oeste, o mundo da Pintura japonesa ficou vazio como um teatro.

O que acabo de expor acima diz respeito aos grandes mestres


anciãos. Devem ser apontados, como candidatos a ocupar futuramente tal
posição, em Tóquio, Kokei, Yukihiko e Seison — três grandes artistas da
escola do Instituto de Artes. Todavia, estranhamente, aos dois primeiros,
pela saúde débil, falta vigor, o que transparece também em suas obras.
Seison, ademais, nestes anos recentes, mostra-se desanimado, não se
podendo, pois, esperar, por um bom tempo, grandes peças da parte deles. É,
realmente, uma grande pena. De resto, tem-se a existência de Ryushi
Kawabata, a guardar uma base solitária. Sua técnica é excelente, bem como
é transbordante a sua garra. O que é lamentável, porém, é que seu estilo se
assemelha à comida chinesa, sendo um pouco pesado, e o fato de ele
apegar-se à teoria da "arte de recinto", não tendo ainda despertado para a
falácia que ela representa. Excetuando-se esses dois pontos, ele possui,
suficientemente, as qualidades exigidas de um grande mestre. Em Quioto,
Goun e Keisen faleceram; Insho é doentio e sem ânimo; resta só
Heihachiro Fukuda. Todavia, apesar do talento que possui, sua técnica
deixa a desejar; infelizmente, talvez, ele não seja capaz de escapar da fase
de estagnação. Por conseguinte, em se examinando o futuro do mundo da
pintura japonesa, é difícil vaticinar o seu paradeiro.

105
Mundo do Belo

Aqui, eu intenciono apresentar minha opinião bem franca a respeito


da razão que conduziu os círculos da Pintura nipônica ao declínio — a
moda da pintura de recobrimento. Fazendo uma avaliação imparcial, eu
concluo que a Pintura japonesa de hoje não se trata de Pintura. É a técnica
artesanal do recobrimento. Posso estar sendo cruel, mas penso que ela se
enquadra mais na área do Artesanato artístico do que na da Pintura. É a
completa decadência. Desse jeito, diluir-se-á mais e mais o interesse por
ela. Eu mesmo adoro a pintura, mas não tenho o mínimo interesse por
peças produzidas com a técnica de recobrimento. Talvez esta possa ser uma
opinião exclusivamente minha, mas, ao cogitar sobre o futuro da pintura
japonesa, depois de Taikan e Gyokudo ausentes, não consigo conter a onda
de pessimismo que espontaneamente brota dentro de mim. Nesse sentido,
somente as obras antigas poderão saciar a nossa sede de beleza. Não sei se
a causa está em tal fato, mas ouvi dizer que todas as exposições realizadas
este ano registraram déficit, em virtude da redução de público. Então, não
posso ficar sossegado.

Tenciono falar agora um pouco a respeito da pintura antiga. Dentre


tais obras, gosto, a começar das mais remotas, de Keishoki, Shubun e
Soami; passando pelas chinesas, como as de Mu Hshi, Liang K'ai e Yin
T'o-lo; bem como as de Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson. Da época
mediana, aprecio as de Korin — indiscutivelmente —, Sotatsu, Kenzan,
Okyo e Matabee. No gênero xilogravura ukiyo-e, as de Moronobu,
Harunobu e Utamaro. Na modernidade, devo citar, unicamente, as de
Hoitsu; e, contemporâneas, as de Seiho, Taikan, Shunso, Gyokudo e
Kansetsu.

Sobre elas, tentarei apresentar um breve comentário.


Primeiramente, a técnica pictórica e o conteúdo das obras de Keishoki,
Shubun, Mu Hshi, Liang K'ai e Soami, no âmbito da pintura antiga,
resume-se no termo "maravilha". Não é exagero dizer que a excelência
daquelas peças executadas dentro de um período que vai de 400 a mais de
700 anos passados, quando em cotejo com as obras dos grandes artistas
atuais, torna estes últimos discípulos daqueles. Por maior que seja a atenção
com que contemplemos aquelas telas, não lograremos descobrir um único

106
Mundo do Belo

defeito; mais que isso, delas afluirá, infinitamente, algo superior. Elas terão
sempre alguma coisa a comover quem as contempla. Naturalmente, toma-
se uma atitude de humildade perante elas. No tangenteàs peças de
Motonobu, Tan-nyu, Sesshu e Sesson, não diria que todas elas são boas,
mas, de vez em quando, há algumas de rara superioridade. Com respeito a
Korin, por já ter escrito sobre ele no respectivo artigo, omiti-lo-ei. Sotatsu
também apresenta peças superiores. Apesar de não ser tão arrojado quanto
Korin, é de uma simplicidade acurada ao extremo. Desprevenidos, sorrimos
diante de suas obras, e eu gosto incontidamente delas. Kenzan tem um
sabor especial e, conquanto seu pincel seja um pouco duro e apresente
características primárias, seu estilo nos prende. Okyo é convencional e
impecável. De alta classe, logra sucesso em qualquer empreendimento: um
mestre, enfim. Matabee, cujo outro pseudônimo é Katsumochi, demonstra
exímia harmonia tanto no estilo yamato-e como no da escola Kano; suas
obras possuem nobreza, sendo muito apreciáveis. Hoitsu, como todos
sabem, é um cultor de Korin. Sua nobreza peculiar, sua técnica refinada e,
por outro lado, o sabor da sua faceta de poeta, tornam suas obras atraentes.

Podem ser enumerados, como mestres da pintura moderna, Hogai,


Gaho e Shunso; como pintores contemporâneos, citaremos três: Seiho,
Taikan e Gyokudo. A genialidade de Seiho não admite imitadores. No que
toca à sua técnica realista, ele introduziu, da influência de seus estudos no
exterior, o estilo ocidental no uso das cores. A acuidade com que capta a
sensação do objeto e a destreza de expressão não encontram par, seja hoje,
seja na Antigüidade. Vale frisar que sua pintura é concisa ao extremo e que
ele não descuida nem mesmo de um único ponto — uma técnica
perfeitamente sobre-humana. Em oposição, quanta vulgaridade nos pintores
atuais que, com traços e cores repulsivas, colorem tudo sufocadamente!
Fico a cogitar no porquê de eles não compreenderem Seiho. Quero adquirir
coragem para, com um só berro que condense o significado de milhões de
palavras, alertá-los disso. Devo convir, entretanto, que a razão de eles
rebuscarem seus quadros da mencionada maneira pode também advir da
intenção de serem selecionados de qualquer forma para as exposições de
arte, apelando para a complacência do júri, por intermédio de tinta e
esforço.

107
Mundo do Belo

Passemos a Taikan. Como um dos grandes mestres da escola que


dispensa linhas, suas peças têm um sabor que transcende o mundano.
Simples e elegante, sua técnica sobre-humana de expressar as coisas da
natureza é oposta à de Seiho — que se apega demais ao realismo. Ele
procede com cautela em meio à ousadia: sua maneira de expressão do
objeto e sua técnica, bem como a atitude que ele assume com ar superior,
ao postar-se num estado que lhe é característico, sem adular as massas,
engrandecem-no. É de se lamentar somente que os seus temas sejam
limitados. Quanto a Shunso, pode-se dizer que desempenha o papel de
braço direito de Taikan. A suavidade de sua pintura é como um passeio por
um campo na primavera, sendo agradável o seu estilo.

Gyokudo tem um sabor peculiar que é indescritível. Seus traços,


sobretudo, são suaves e concisos. Sua técnica, demonstrando muito bem
esse efeito, é incomum. O que em especial eu admiro nele é a sua falta de
ostentação e ambição, seu desinteresse: á a sua invulgaridade que pode
parecer vulgar. Ele expressa com perfeição a natureza, e sua forca de
encantar quem contempla suas peças não admite rivais. Seu estilo é
verdadelramente profundo.

A obra de Tessai também é característica. Deve ser definida como a


ordem da desordem: é infinitamente rica em interesse. Todavia, ele passou
a pintar desta maneira depois de ter atingido os 60 anos. Assim, como
viveu até os 89, quanto mais ele adentrava na idade, mais peças superiores
produziu. Após seu passamento, acreditava-se que um segundo Tessai
surgiria com Keisen Tomioka. A morte precoce deste foi realmente
lamentável.

Com relação a Kansetsu, foi uma grande pena que ele morresse
logo quando mais prometia. Na sua pintura, a ousadia que nela ocorre
encontra-se envolta; sendo do estilo nanga, há tensão no uso do pincel.
Além de não ser vulgar, transparece na mesma um sabor de quietude.
Contudo, em virtude da sua juventude, era inevitável que a qualidade de
suas obras não fosse constante. Se lhe fosse dado viver até depois dos
sessenta, pelo menos, com certeza, ele teria atingido o grau de grande
mestre.

108
Mundo do Belo

2 - A Escultura

A seguir, discorrerei, brevemente, acerca da Escultura. Como


artistas do passado, Unkei e Jingoro Hidari são por demais conhecidos.
Todavia, no campo da Escultura, diversamente da Pintura, desde a
Antigüidade, são poucos os mestres de renome. Ocupar-me-ei, aqui,
somente da atualidade. É fato indiscutível que o florescimento registrado
pela Escultura a partir da era Meiji, como jamais se viu, contou com o
estímulo das exposições. Citaremos, como os principais grandes mestres da
Escultura em madeira, não só Komei Ishikawa, Unkai Yonehara e Tyoun
Yamazaki — entre falecidos e já de idade avançada —, assim como
também Dentyu Hirakushi e Chozan, o qual hoje adota o nome de Seizo,
Sato. Dentre eles, eu gosto de Dentyu, não obstante ele ter perdido,
recentemente, a vivacidade antes possuída. Hoje, apenas Seizo trabalha
ativamente, produzindo obras relativamente boas. Embora sua ambição
transbordante seja apreciável, seria de se desejar dele um pouco mais de
refinamento e maturação. No mundo deserto da Escultura, ele tem todas as
qualidades para se tornar um dos grandes nomes da atualidade. No que
concerne à Escultura de bronze e argila, sou obrigado a apontar apenas
Fumio Asakura. Contudo, não deve consistir em ponto de vista
exclusivamente meu que sua técnica parece ter atingido o ponto final. Aqui,
ainda deve ser feita menção especial à escultura budista da Antigüidade. É-
me impossível acreditar que a refinada técnica empregada nas imagens
religiosas do santuário Yumedono, do templo Horyuji, é coisa da Era
Tempyo, de mais de 1.200 anos atrás. Ao pensar quando surgirão
esculturas que suplantem estas, vejo-me obrigado a não acalentar grandes
expectivas.

3 - Os trabalhos de laca

Abordarei, a seguir, o Artesanato artístico. Como na Pintura, ainda


neste campo, a excelência dos antigos surpreende. Temos, primeiramente, a
laca maki-ê, trabalho característico do Japão, não encontrado no exterior.
Por isso, começarei por ela. A laca, tendo alcançado progresso há muito
tempo, conta com magníficas peças de maki-ê datadas da era Heian.

109
Mundo do Belo

Naturalmente, muitos dos trabalhos dessa época estão ligados ao budismo,


constituindo-se quase todos de urnas executadas em laca polida para o
acondicionamento de sutras. A laca maki-ê teve maior impulso a partir da
era Kamakura, passando pelo período Muromachi e alcançando imenso
progresso nos períodos Momoyama e Edo, quando surgiu um sem-número
de exímios artesãos. Os principais são, entre outros, Doho Igarashi,
Shunsho Yamamoto, Kyui Koma, Kyuhaku e Seisei Shiomise, tendo eles
deixado numerosas obras-primas. Até então, os trabalhos existentes eram
unicamente de laca polida, mas, a partir dessa época, passaram a ser
produzidas peças com adornos em alto-relevo. De outro lado, Koetsu
Honnami e Korin Ogata fizeram grande sensação com desenhos e técnica
completamente inovadores. Aplicando, com grande maestria, chumbo,
madrepérola e kin-hira maki-ê, eles produziram peças nas quais não apenas
o desenho peculiar é livre e arrojado, mas também nelas a elegância
extravaza, contrapondo-se às primeiras, cuja suntuosidade prima pela
delicadeza do trabalho. Temos, ainda, o trabalho inovador de Haritsu
Ogawa, que combinou à laca o uso da cerâmica, e as peças de Shigemitsu
Somata, originais no uso de lâminas delgadas de ouro e prata e de
madrepérola. A arte da laca foi registrando, assim, relevante progresso. Sob
as influências desse salto verificado no período Momoyama, o artesanato
da laca ingressou na era Tokugawa com os grandes senhores feudais da
época, competindo entre si na execução de obras-primas, estimulando o
seguido surgimento de excelentes artesãos. A família Maeda, por exemplo,
senhora do feudo de Kaga, um dos mais ricos da época, fazendo construir
uma oficina em um recanto dos seus jardins, convidou artesãos para
trabalharem na mesma, fornecendo-lhes, à vontade, o quanto fosse preciso
em material e em paga pelo seu trabalho. Hoje, pode-se comprovar, pelo
acervo dos museus de arte, quão suntuosas e esplêndidas são as peças
produzidas graças a tal empenho. É possível conscientizar-se, outrossim, de
que o Japão tem motivos de orgulhar-se diante do mundo inteiro por ser
uma grande nação artística.

Na modernidade, surgiram os artesãos Hikobee, Bunryusai


Kajikawa e Komin Nakayama. A laca maki-e, como as demais artes, depois
de atravessar uma fase de decadência, dos fins do período Tokugawa até o
início da era Meiji, avançou, subitamente, rumo ao seu apogeu. Os

110
Mundo do Belo

principais artistas são Zeshin Shibata, Shosai Shirayama, Shomin Ogawa,


Taishin Ikeda, Iccho Kawanobe, Jitoku Akatsuka, Homin e Hobi Uematsu,
Shumin Funabashi, Shuetsu Koda, Kosai Tsuzuki, Yukio e outros.

Vale fazer menção especial, aqui, a Shosai Shirayama. Talvez, ele


ocupe o primeiro lugar no ramo, tanto na Antigüidade como hoje em dia,
não sendo exagero afirmar que não há quem o ultrapasse. Ele é o grande
mestre do mundo dos trabalhos de laca. Experimento respeito ao ver as
peças por ele executadas. Sobre o referido artista, apesar de ter sido o
primeiro membro da Comissão Real de Artes, ele não cobrava, na era
Taisho, mais que quatro ienes e cinqüenta centavos por jornada de trabalho.
Seu desprendimento era completo, vivendo exclusivamente para a Arte.
Um artista, na verdadeira acepção da palavra. Foi um grande mestre digno
de respeito.

4 - A Cerâmica

Discorrerei também sobre peças de cerâmica. Como no caso da


Pintura, também a cerâmica foi apreendida da China. Portanto, as peças
iniciais de cerâmica japonesa são, na maior parte, imitação das chinesas.
No período mais remoto, temos peças de Seto amarelas, Oribe verde, de
porcelana verde-resedá, de porcelana azul e branca, de porcelana de Arita e
de Hirado. Quanto às obras de cerâmica artística, foram iniciadas por
Kakiemon. A seguir, Ninsei, ceramista de raro talento, surgiu em Quioto.
Posteriormente, apareceu a porcelana Arita; de outro lado, em Quioto,
surgiu a cerâmica Awata e a porcelana colorida de Kiyomizu. O estilo
Ninsei difundiu-se e deu origem às peças Banko de desenho vermelho, da
região de Ise. Posteriormente, produziram-se as peças do estilo brocado de
Satsuma.

No período Kamakura, há aproximadamente 700 anos, surgiram,


nas regiões de Owari e Seto, as peças antigas, hoje chamadas Seto.
Ademais, perto de 1.200 atrás, no período Nara, produziram-se peças de
cerâmica do estilo da porcelana verde-resedá, com o uso de esmalte
fornecido pela cinza natural, havendo, ainda, no início do período Edo, a
porcelana verde-resedá do Japão. Todavia, jamais se igualaram à produzida

111
Mundo do Belo

na China.

Kakiemon foi um famoso mestre ceramista do início do período


Edo, que trouxe a inovação da porcelana colorida e do tipo brocado; os
serviços que ele prestou em prol deste ramo da Arte o tornam seu grande
patrono. Posteriormente, no período Genroku, a sexta geração de seus
herdeiros tornou-se famosa pela produção de peças esplêndidas, graças à
excelência de Shibuzaemon8.

Eu gosto, sobretudo, da porcelana Okochi, também denominada


Nabeshima, da região de Hizen. Ela começou a ser produzida na era
Kyoho, constituindo-se, em sua maior parte, de pratos. A combinação nela
presente da técnica da porcelana azul e branca com o inigualável desenho
colorido deixa-me com água na boca. Atrai-me, inclusive, a porcelana do
estilo brocado, popularmente conhecida como Imari. É também admirável
o trabalho minucioso e a suntuosidade do colorido da cerâmica Satsuma.
Todavia, tanto o desenho como a técnica atuais das três citadas
modalidades, não são atraentes; pode-se dizer que somente as peças com
mais de 200 anos são dignas.

As peças da porcelana Kutani, do estilo brocado, surgida há 300


anos, contudo, são apreciáveis. Entre as peças azuis e as coloridas,
fabricadas pelo forno Yoshidaya, há, sobretudo, umas excelentes.

Entre os tópicos que pretendo abordar por último, inclui-se o do


criador da porcelana Kyoyaki, o mestre Ninsei. Seu verdadeiro nome era
Seiemon, da vila de Ninnaji. Como ceramista, pode ser considerado o
primeiro do Japão. A imensa variedade de formas e desenhos e a infinita
versatilidade de seu estilo fazem dele um gênio nato. A nobreza e a
elegância de suas peças tornam-nas inteiramente distintas das outras
cerâmicas. Existe um número razoável de taças para a Cerimônia do Chá e
vasos de sua autoria classificados como tesouros nacionais. Sua posição é
equivalente à de Korin no mundo da pintura. Seu grande mérito encontra-se
em não se ter baseado, o mínimo que fosse, na porcelana chinesa — os
8
Shibuzaemon: Shibuzaemon Sakai. Tutor de Kakiemon VI; deixou várias obras. Irmão menor
de Kakiemon V.

112
Mundo do Belo

demais estilos da cerâmica nipônica tomaram a China por modelo —,


criando algo singular ao Japão. Neste ponto, a cerâmica Nabeshima, sendo
também algo exclusivamente japonês, encontra-se emparelhada a ela —
ambas contam, inclusive, com muitas obras superiores às da China.
Outrossim — apesar de algumas características primárias — as peças de
Kenzan são cheias de sabor. Por ser irmão de Korin, eles têm trabalhos
realizados em co-autoria.

Existem, ademais, peças muito boas na cerâmica Bizen.


Principalmente entre os vasos para arranjos florais e os objetos de adorno
de Bizen antigo e azul, há muitas obras excelentes, dignas de serem
recomendadas. Eu gosto, também, da porcelana Shonzui. Existem, ainda,
muitos tipos de porcelana do tipo Kyoyaki; as de renome, contudo, são
aquelas executadas pelo ceramista Mokubei.

Quando se versa a respeito de cerâmica, deve-se falar sobre os


utensílios para a Cerimônia do Chá. Dentre esses, a prioridade cabe às taças
de chá. As peças do estilo coreano são especialmente apreciadas. As peças
superiores são as do tipo Ido. Entre estas, as de Kizaemon, Kaga e
Honnami são famosas. Mesmo hoje, seu preço alcança a cifra de várias
centenas de ienes, o que é assustador. A seguir, ainda como peças de
origem coreana, temos as do tipo Totoya, Kakinoheta, Kobiki, Soba e
outras. Peças genuinamente japonesas são as do estilo Seto antigo, Shino,
Karatsu, Tyojiro, Nonko, Koetsu, Ninsei, Oribe, Hagi, Shigaraki e Iga. No
que toca às peças do tipo Tyojiro, deve-se dizer que este foi o criador da
cerâmica Raku e o artesão famoso a quem Rikyu devotou enorme
deferência. Seus herdeiros, já na décima terceira geração, continuam a
produzir cerâmica.

Quero, agora, discorrer brevemente sobre a atualidade. Do intervalo


que se estende da era Meiji até os dias de hoje, parece não haver ninguém
digno de menção especial. Poderíamos citar, como artesãos afamados,
Kozan Miyakawa, Rokubee Shimizu, Hazan Itaya e Kenkichi Tomimoto.
Quanto à porcelana chinesa, tem-se, primeiramente, a de cor verde-resedá,
a qual se classifica em três tipos: Kinuta, Tenryuji e Shichikan. Existem,
outrossim, as porcelanas Kochi, Banreki vermelha, Gosu, etc. Da cerâmica

113
Mundo do Belo

coreana, citaremos a Korai branca.

114
Mundo do Belo

5 - A Caligrafia

Assim como gosto de pintura, gosto de caligrafia também. Como


sabem os senhores, diariamente faço algumas centenas de peças
caligráficas. Em termos de volume, sou eu aquele que mais produz desde a
Antigüidade, no Japão. Escrevo, por hora, quinhentas peças do ideograma
Hikari (Luz), destinadas à confecção de protetores. Escrevo, ainda, em
trinta minutos, no mínimo cem peças com dois ou quatro ideogramas para
quadros ou rolos. Como sou demasiadamente rápido, torna-se preciso que
três homens me coadjuvem. Mesmo assim, eles não conseguem
acompanhar-me. É um serviço que corre como em linha de montagem.

Há tempos, solicitei a um professor de caligrafia os seus préstimos.


O motivo é que eu sentia certa dificuldade com relação à escrita cursiva,
tendo a pretensão de saber mais a seu respeito. Ao explicar meu objetivo ao
professor, ele respondeu-me o seguinte: "Desaconselho o senhor a fazer tal
trabalho. A caligrafia aprendida enquadra-se em determinados moldes,
sendo despojada de personalidade. Os caracteres assim escritos não têm
vida. Sua forma, somente, é bela, mas nela não existe conteúdo. Hoje, eu
próprio luto desesperadamente para romper com essa forma. Por isso
considero que alguém como o senhor deva manifestar, de forma liberta, a
sua personalidade. Na escrita cursiva, é de ínfima importância se um traço
está faltando ou sobrando." Convencido, desisti do aprendizado.

É fato aceito que os antigos detêm superioridade tanto na pintura


quanto no artesanato artístico. O mesmo acontece na caligrafia. Toda vez
que vejo peças caligráficas antigas, eu me emociono. Gosto sobretudo dos
trabalhos escritos em kana: a habilidade neles presente jamais poderá ser
imitada pelo homem contemporâneo. Verdade é que tal notoridade provém,
entre outras razões, do fato de as pessoas das épocas idas terem vivido
folgadamente a se comprazer com a composição e a escrita de poemas,
livres das agruras do cotidiano e das preocupações sociais. Como calígrafo
moderno, cujas obras em kana não ficam a dever às dos antigos, poder-se-
ia citar, talvez, apenas Saishu Onoe. Dentre os antigos, eu gosto,
primeiramente, de Michikaze, Tsurayuki, Sadaie, Saigyo e Koetsu. As
obras deste último, sobretudo, deixam-me com água na boca. Entre os

115
Mundo do Belo

poetas do gênero haikai, a letra de Basho possui características apreciáveis,


e sua pintura, além de tudo, comparada com a de pintores profissionais,
nada fica a dever. Pode-se deduzir, por este fato, que aquele que prima em
certo ramo das artes atinge um nível elevado também nas demais áreas.

No que toca à escrita de caracteres chineses, nem é preciso


mencionar Wang Hsi Chih ou Kukai. Como calígrafos da modernidade,
San-yo, Kaioku, Takamori e Tesshu são consideráveis. Diga o que se
disser, no caso dos ideogramas chineses, a personalidade fala mais alto que
a técnica. Assim, a caligrafia dos grandes homens inspira respeito, ainda
que a forma seja tosca. A explicação espiritual para o fato seria a seguinte:
na caligrafia, a personalidade do seu autor encontra-se impressa. Assim,
pela constante contemplação de uma peça caligráfica, recebe-se a
influência da personalidade de quem a executou — neste ponto reside a
nobreza da caligrafia. Portanto, uma peça da referida arte não possui valor
caso não tenha sido executada por um grande homem, alguém dono de um
grande caráter. Eis o motivo de ser aconselhável às gestantes realizarem a
educação fetal por meio da contemplação de obras de caligrafia de grandes
homens. Digo, a meu respeito, que a caligrafia assume um papel de suma
importância na minha técnica de salvação, porque ela desempenha um
grande feito. Todavia, por esta explicação ser por demais mística, tratarei
dela em outra obra. Limito-me, agora, somente a comentar acerca da arte
caligráfica.

Opiniões Pessoais, 30 de agosto de 1949

116
Mundo do Belo

A RESPEITO DA ARTE CALIGRÁFICA

Tendo lido a dissertação de Egawa — quem sempre dá vida à


presente publicação, com sua ótica singular e os seus textos de estilo leve
— sobre a caligrafia e a religião, senti-me também eu estimulado a
discorrer a respeito, conforme me afluíssem as idéias.

A caligrafia, como foi bem observado pelos antigos, consiste na


expressão do caráter de seu autor, por meio do pincel. Assim sendo, os
trabalhos caligráficos dos grandes homens, monges de elevada virtude ou
intelectuais, são objeto de elevada consideração. Curiosamente, a caligrafia
está ligada por laços indissolúveis à Cerimônia do Chá. A esse respeito,
tendo a oportunidade de ler anteriormente o diário de reuniões de chá de
Rikyu, constatei que, apreciando ele as peças de caligrafia antiga de
grandes monges, sempre as pendurava no tokonoma, em tais ocasiões.
Eventualmente, há o registro de se ter pendurado um rolo de pintura, mas
esta estava restrita às obras de Mu Hshi. As mencionadas peças de
caligrafia antiga são de autoria de monges budistas virtuosos da China, os
quais viveram na época compreendida entre as dinastias Sung e Yuan.
Dentre tais peças, existem aquelas que foram escritas após seus autores
terem adquirido a cidadania japonesa, sendo também tidas em relevante
consideração as obras de monges zen-budistas do Japão. Enumerando os
monges de fama, teremos, primeiramente, Daito-Kokushi, fundador do
Templo Daitoku; Mugaku-Zenshi, fundador do Templo Engaku; além de
Muso-Kokushi e Soen. Os monges chineses e que se naturalizaram
japoneses: Engo, Mujun, Mokorin, Seisetsu, Kido, Gottan, Daikei,
Kisoseki, Jijo, Ondanko e outros. Dentre todos, minha preferência fica com
Daito, Mujun e Soen. Quando contemplo as peças caligráficas dos
mencionados monges, impressiona-me a sensação de algo de sublime que
não admite ser profanado, quer os ideogramas estejam escritos com mestria
— naturalmente — quer não. É a nobreza extravasada do caráter do autor.

Tem-se, a seguir, embora sob uma perspectiva diferente da acima


abordada, as obras de caligrafia das várias gerações de abades do Templo
Daitoku. Tratam-se também de peças bastante apreciáveis. Distinguem-se,
sobretudo, as obras de autoria de Ikkyu. Verdade é que são bem primárias,

117
Mundo do Belo

contudo, ao não se deixarem tolher pela forma, por não serem nem um
pouco pedantes, aparecem perfeitamente nelas a ingenuidade e a franqueza,
a beleza sem artifícios da personalidade de Ikkyu. Fato interessante é que,
apesar de existirem muitas peças falsas de Ikkyu, dá-se logo por isso, em
virtude de estarem por demais bem escritas. As obras de Takuan, também,
são ótimas. Nestas, além de a técnica ser bem superior, há energia. Na
inexistência do sentimento de ostentar o estado de quem atingiu a
iluminação, pressente-se a nobreza deste monge da seita zen. De resto, há
coisas dignas de se ver entre as obras de Seigan, Kogetsu e Gyokushitsu.
No tocante à caligrafia dos samurais, a escrita de Masashige Kusunoki é
extremamente bela, sendo, ainda, de razoável beleza a de Hideyoshi e
Ieyasu. Recentemente vi em certo lugar a caligrafia de Kukai. Trata-se de
uma escrita apreciável, em que há suavidade, porém não faz muito jus ao
conceito de que comumente goza. Na modernidade, a caligrafia de Tesshu
Yamaoka é interessante. Seu estilo livre e arrojado é digno de alta
avaliação. A escrita de Ichiroku Iwaya, outrossim, possui elementos que
não podem ser desprezados. Todavia, a de Ryokan suplanta a todas. O
estilo de sua escrita é supramundano, elegante e gracioso; leva mesmo
quem a aprecia a sorrir. Ademais, como calígrafo profissional, a escrita de
Kaioku Nukina é belíssima. Certa vez vi um biombo de seis folhas escrito
por ele. Cada uma das folhas trazia uma linha escrita. A perícia do seu
estilo pôs-me admirado.

Escreverei agora, concisamente, a respeito do campo dos


manuscritos antigos. Dentre estas obras as que mais me agradam são as de
autoria de Ki-no-Tsurayuki. Foram escritas com kana do tipo man-yo.
Dotadas de uma classe e de uma mestria indescritíveis, enchem-nos de
respeito. São ainda apreciáveis as peças de Michikaze e Saigyo. As escritas
das quais mais gosto são as destes três. De resto, têm pontos admiráveis a
caligrafia de Yukinari, Sadaie, Sukemasa, Yoshitsune, Toshinari, Kintou,
Toshiyori e a do príncipe Munetaka. Como bons exemplares da escrita
feminina citarei Kodaino-kimi e Murasaki Shikibu. Das pessoas atualmente
vivas, a escrita de Saishu Onoe é boa, e eu gosto, também, de seus poemas.
Hoje, concluirei o assunto por aqui.

Eiko, nº 111 — 4 de julho de 1951

118
Mundo do Belo

IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS

Até hoje, os trabalhos de crítica da Arte foram quase que todos


elaborados por estudiosos. Conquanto se diga com clareza e profundidade,
a respeito do assunto, não são poucos os pontos considerados
desnecessários para o leigo, e — no meu caso — muitas vezes não consigo
ler tais obras até o seu término. Assim, procurei escrever um artigo que,
lido de um ponto de vista comum, fosse interessante e pudesse
proporcionar uma capacidade apreciativa geral ao leitor. Dar-me-ei por
satisfeito caso aqueles que, de agora em diante, pretendam ingressar no
terreno das Belas-Artes, o tenham como um ponto de referência.

Tenciono descrever, primeiramente, a situação hodierna das Artes


no Japão e no exterior. Quando menciono o exterior, limito-me aos países
possuidores de instalações dignas do nome de museus de artes, quais sejam,
os Estados Unidos e a Inglaterra. Portanto, discorrerei acerca destas duas
nações. Tanto uma quanto a outra coincidem no ponto em que vertem seus
principais esforços, isto é, a Arte oriental. Melhor esclarecendo, a Arte
chinesa com a tônica na porcelana, vindo em ordem secundária os bronzes
e a Pintura moderna. Tomando em primeiro lugar o caso da Inglaterra, faz-
se mister mencionar dois colecionadores mundialmente famosos:
Humohopeless e David9.

A coleção de "Sir" Humohopeless já adornava, há algum tempo, o


Museu Britânico, sendo considerável o seu volume. Todavia, por ocasião
da Primeira Grande Guerra Mundial, talvez por motivos de ordem
econômica, viram-se obrigados a se desfazer de boa porção dela — o que,
diga-se, deve ter sido feito com pesar. Naturalmente, a maior parte foi parar
nos Estados Unidos, mas — fato curioso — alguma coisa veio parar,
também, no Japão, sendo hoje de propriedade de certo senhor. Por tal
motivo, verdade é que diminuiu; porém, mesmo assim, é vasta.

A coleção de "Sir" David (sendo da época em que o referido museu


ainda não havia sido aberto) é composta de peças modernas, da dinastia

9
Percival

119
Mundo do Belo

Ming em diante, opondo-se à de "Sir" Himohopeless, na qual são muitos os


objetos antigos, das dinastias T´ang e Sung. Na coleção deste último, há
uma considerável quantidade de bronzes magníficos do período que se
estende da dinastia Chou, passando pela Hang, até a Sung. Existe ainda um
bom número de pinturas, mas são raras as peças das dinastias Sung e Yuan:
a maioria consiste de obras da dinastia Ming em diante, sobretudo dos
reinados dos imperadores K'ang Hsi e Kan Lung. Observando-se que
bronzes e pinturas não constam dos catálogos, depreende-se que não são
numerosos. Na Inglaterra, ademais, há colecionadores particulares, cujo
cabedal é considerável. Nesse meio, achei interessante o fato de uma
senhora admirar Ninsei e possuir algumas obras dele. O certo é que, no
mencionado país, não há muitas peças da arte nipônica. Em contrapartida,
já nos Estados Unidos, que, desta maneira, faz jus à sua fama de nação rica,
existem inúmeros e ótimos museus, e as obras de arte são aí encontradas
em abundância. A começar dos grandes centros metropolitanos, como
Washington, Boston, Nova Iorque, São Francisco e Los Angeles, as demais
cidades possuem museus, sejam eles grandes ou pequenos. Dentre estes,
destaca-se, apesar de acanhado, o museu de propriedade particular de nome
Frier Galery. Goza de fama mundial. Há nele objetos de arte maravilhosos,
tendo eu já os visto em catálogos. No entanto, indiscutivelmente, o melhor
museu norte-americano é o de Boston. Dizem que possui, especialmente,
um grande número de peças de Arte japonesa. Tal fato é perfeitamente
compreensível, já que, na era Meiji, Tenshin Okakura serviu como seu
conselheiro, tendo coletado um razoável volume de boas obras.
Posteriormente, Kojiro Tomita também adquiriu peças excelentes de arte
japonesa. Há alguns anos atrás, vi várias fotografias dos biombos existentes
no Museu de Washington. Eram muitos os de autoria de Korin e Sotatsu,
mas, ao contrário do que eu pensava, não há tantas peças de arte japonesa
antiga no exterior. Apenas, no tocante a xilogravuras, o que existe, no
estrangeiro, é considerado superior e em maior número do que o existente
no Japão. Sobretudo, o Museu de Boston goza de nome por suas
xilogravuras. Inclusive a França e a Alemanha possuem algumas; nesta
última, as obras de Sharaku existem, ao que parece, em grande número. A
explicação que eu tenho para a abundância de xilogravuras no exterior é a
seguinte: quando os estrangeiros, a partir da era Meiji, vieram ao Japão, o
que primeiramente se lhes mostrou diante dos olhos foram as obras de

120
Mundo do Belo

xilogravura. Além do mais, como o preço delas era baixo, tornando-as


acessíveis, eles as levaram consigo como lembrança de viagem. Esta é a
razão de hoje terem tais peças alcançado a sua atual posição. Contudo, por
não me agradarem muito as xilogravuras, já fazia algum tempo que eu
vinha adquirindo originais pintados a mão, tendo conseguido obras
relativamente boas a preços módicos, o que me foi possível por terem os
japoneses passado a dar valor à xilogravura, imitando, como é de praxe, o
estrangeiro no gosto, e relegado as peças pintadas a mão. Ademais, quando
os estrangeiros vieram ao Japão pela primeira vez, os japoneses
guardavam, zelosamente, esses originais, o que também deve ter evitado
que fossem notados. Tal cuidado foi providencial.

A seguir, como modalidade artística peculiar de nosso país, deve-se


citar a laca maki-ê. De forma semelhante ao que aconteceu com as obras de
ukiyo-ê pintadas a mão, não houve oportunidade dessas peças de laca serem
vistas e, conseqüentemente, adquiridas pelos estrangeiros. Por tal motivo,
ao contrário do que se poderia supor, elas não são muito encontradas fora
do Japão. Explanarei, agora, concisamente a respeito da laca maki-ê. A
idéia desta técnica foi, provavelmente, tomada dos trabalhos de laca
chineses de épocas remotas, sendo depois apurada. No Japão, já na época
Nara, foram produzidas peças consideráveis. As urnas para o
acondicionamento de sutras remanescentes da era Heian são magníficas
peças executadas em laca polida — um fato simplesmente supreendente. A
técnica de maki-ê, evoluindo, gradativamente a, partir dessa época,
produziu obras excelentes e inovadoras ao atingir a Era Kamakura. Um
número considerável de peças magníficas desta mesma época, ainda hoje,
deliciam nossa visão. Da era Momoyama à Tokugawa, a técnica
desenvolveu-se ainda mais e como, além disso, por ser a laca considerada o
material mais apropriado para a confecção dos objetos de uso pessoal dos
senhores feudais, estes competiam entre si na produção de boas peças. As
obras de maki-ê em alto-relevo — que ainda hoje irradiam seu brilho
dourado — remontam ao período do apogeu da Era Tokugawa, constando,
principalmente, de estantes de livros, urnas para papel de escrita, estojos,
escrivaninhas, caixas de toucador, objetos para a cerimônia do incenso, e
outros.

121
Mundo do Belo

Eiko, nº 166 — 23 de julho de 1952

IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (II)

Tem-se, além do mais, o nascimento daquele famoso e raro artesão


da era Momoyama, Koetsu Honnami. A sua genialidade para com a arte
abrangia todos os campos e era criativa: sobressaem-se aí as suas peças de
laca maki-ê, de cerâmica Raku, de caligrafia e pintura — estas últimas
produzidas em pequeno número. Escusado comentar que tanto o seu
desenho inédito quanto os materiais empregados assombraram os seus
contemporâneos. O artista que depois surgiu, sob a influência de Koetsu,
foi o também famoso Sotatsu. Este rompeu, admiravelmente, com as
tradições cultivadas, até então, pelas diversas correntes artísticas de sua
época, criando a técnica pictórica maravilhosa, que hoje podemos apreciar.
Trata-se, pois, de um grande benfeitor do mundo japonês da pintura. Um
século mais tarde, deu-se o aparecimento de Korin. Korin inspirou-se no
estilo de Sotatsu, sublimando ainda mais essa técnica. Pode-se dizer, então,
que, nesse sentido, Sotatsu é o gerador de Korin.

Faz-se preciso, agora, abrir parêntese para mencionar Korin.


Mesmo os, atualmente, tão comentados Matisse ou Picasso têm sua origem
em Korin. Creio que Korin foi mundialmente reconhecido em meados do
século XIX e descoberto, primeiro, por certo pintor francês. Quando este
deparou, pela primeira vez, com uma pintura de Korin, arregalou os olhos
surpreso. Até então, na Europa, os padrões estéticos renascessentistas
vigentes, por um longo espaço de tempo, haviam alcançado o seu cume: a
Pintura, por exemplo, chegando ao ápice do realismo, encontrara o extremo
do caminho, não tendo mais para onde ir. Para se ter uma idéia, basta dizer
que existiam adeptos de opiniões, tais como a de que eram preferíveis
fotografias coloridas a quadros. Foi então que se desvendou Korin, como
um relâmpago a ziguezaguear pelo céu descoberto. Os pintores franceses
constataram a maravilha do estilo do referido artista que, ao contrário das
técnicas convencionais minuciosas e detalhistas daquela época, não só
estilizava tudo com audácia extrema, mas expressava o objeto retratado
muito além do realismo. Desnecessário dizer que o mundo artístico francês
acolheu, com júbilo, a descoberta de Korin como se recebesse o próprio

122
Mundo do Belo

Messias — e fez uma guinada de curso de cento e oitenta graus: tem-se


aqui a eclosão das escolas impressionista e pós-impressionista. O estilo de
pintura a que atualmente se chegou teve o seu ponto de partida em tal fato,
após ter passado por várias transformações. É plausível afirmar, pois, que o
legado de Korin é tão grandioso, a ponto de não encontrarmos palavras
com que adjetivá-lo. Há certo livro da época, tido como a sensação dos
círculos editoriais franceses (agora não me lembro do nome do autor),
intitulado Korin: Comovendo o Mundo. Assim, eu tenho comigo que Korin
pode ser colocado na mesma posição que Shakespeare tem na Inglaterra —
nem mais nem menos. Passados uma centena e algumas dezenas de anos
após sua morte, ele movimentou o mundo inteiro. O mérito de sua obra não
ficou confinado apenas à Pintura; ele provocou uma verdadeira revolução
em todos os ramos da sociedade. A primeira manifestação de tal fato foi o
estilo art noveau, avançando progressivamente até revolucionar todo o
universo do desenho do mundo inteiro. Foi a simplificação de todo o tipo
de beleza. A Arquitetura, sobretudo, foi a área que recebeu relevante
influência. Tem-se, inicialmente, o aparecimento do movimento
secessionista que, depois de passar por inúmeras transformações, originou
o estilo Le Corbusier, hoje dominando os círculos arquitetônicos.

Dessa maneira, na Arquitetura, no mobiliário, no vestuário, nas


artes comerciais, em tudo, o estilo renascentista passou a ser um sonho do
passado. Termino, aqui, minha breve referência à obra de Korin. A respeito
dele, eu penso da seguinte maneira. Como o japonês mais importante a ter
influência mundial do ponto de vista da cultura, não existe outro a não ser
Korin. Ele deve ser definido como um monumento mundial erigido pelo
Japão. Dele, pode-se ainda dizer o mesmo com respeito à Pintura japonesa
hodierna. Foi Korin também quem reverteu de vez a ordem do estilo de
pintar em que os antigos padrões eram rigidamente preservados pelas
escolas Kano, Shijo, Nanshu e outras. No tocante a isso, tenho a relatar o
seguinte episódio: Foi no meu encontro pessoal, ocorrido há trinta anos,
com o mestre Tenshin Okakura. Revelou-me ele ter fundado o Instituto de
Artes com o intuito de reabilitar Korin na atualidade. Pode-se depreender,
por tal fato, também, que Korin faz os alicerces da Pintura japonesa
hodierna, a isso acrescendo-se o sabor da pintura ocidental. Para não ficar
por demais prolixo, contudo, aqui ponho ponto final na conversa sobre

123
Mundo do Belo

Korin. Passemos ao próximo assunto: um apanhado acerca da História da


pintura japonesa.

Como é do conhecimento geral, a Pintura japonesa tem sua origem


na China. A Pintura oriental, por sua vez, segundo conta a História, tem seu
ponto de partida em certo local da China próximo ao Tibete, cujo nome é
Dong Huang. Nesse lugar, há mais de mil e algumas centenas de anos
antes, existia uma cidade de cultura avançadíssima. Quero crer que Kozui
Otani devotou especial interesse por essa região, tendo nela feita longa
estada e procedido a exaustivas pesquisas. Eu já li, inclusive, os seus
registros. Foi-me possível imaginar, pelo exame do grande número de
fotografias a eles anexas, o grande avanço que, para a época, fora atingido
pela Arquitetura, costumes, etc. A idade, então, é da dinastia T´ang. A
partir da época dos Cinco Reinos, a Pintura oriental começa a progredir,
assumindo praticamente sua forma final, no período da dinastia Sung do
Norte, com o surgimento de grandes mestres. As obras afamadas das
dinastias Sung e Yuan, hoje tidas em grande apreço, remontam a esse
período. Fato curioso é que a maior parte dos pintores de renome dessa
época é formada por monges zen-budistas. Os grandes mestres da Pintura
monocromática a nanquim — Mu Hsi e Liang K'ai — também são monges
zen-budistas. Como temos peças destes dois grandes pintores famosos em
nosso museu, é provável que os senhores as tenham visto.

Dessa forma, a Pintura nascida na China foi importada pelo Japão


no período Ashikaga. Verdade é que anteriormente, na época Nara, já
algumas obras haviam entrado no país, mas aqueles que tomaram
conhecimento das peças valiosas das dinastias Sung e Yuan foram os
xoguns Yoshimitsu e Yoshimasa Ashikaga. As obras dessas duas dinastias
chinesas, que atualmente existem no Japão, passaram quase todas pelas
mãos da família Ashikaga. Isso pode ser comprovado por um sinete
especial, indicador do acervo da herança de Higashiyama; aposto,
sobretudo, naquelas melhores peças. Outrossim, quem se encontrava
incumbido da função de zelar por tais obras era Soami. Gei-ami e Noami,
naturalmente, desempenharam esse serviço. Surgiu, assim, sob a influência
das obras chinesas, a escola Higashiyama de paisagens a nanquim. Entre
outros artistas que se moldaram na Pintura chinesa, podem ser citados

124
Mundo do Belo

Shubun, Dasoku, Kei Shoki e outros e, um pouco mais tarde, Sesshu. Sem
dúvida são eles os patronos da Pintura japonesa. Conseqüentemente,
Sesshu é o fundador da escola Kano.

Eiko, nº 167 — 30 de julho de 1952

IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (III)

Contudo, a modalidade de pintura que nasceu anteriormente, sob a


influência do elegante estilo caligráfico kana empregado na expressão dos
poemas japoneses, quando estes eram intensamente cultivados, no período
Heian, foi aquela chamada yamato-e. Essa técnica é derivada —
naturalmente — da pintura colorida chinesa, sendo seu mestre máximo
Nobuzane Fujiwara. Basta saber que, hodiernamente, uma única peça desse
pintor é avaliada em mais de um milhão de ienes, para se ter uma idéia do
seu talento. À parte, tem-se, também, a obra caricata de Tobasojo Kakuyu,
sendo possível dizer que essa marca o início dos quadrinhos cômicos. O
desenvolvimento da pintura yamato-e deu-se do período Fujiwara até o
período Kamakura, sendo grande parte dessas peças constituída de rolos,
cujos temas tratam do histórico de templos budistas e xintoístas. Hoje, os
rolos de pintura dessa época são extremamente apreciados, alcançando
preços exorbitantes. Certa peça que estou querendo, composta de três rolos,
custa seis milhões de ienes, razão pela qual eu fico a chupar o dedo, sem
condições de adquiri-la. Ouvi dizer que os americanos têm uma predileção
especial pelos rolos de pinturas, espreitando as obras superiores como um
tigre o faz com sua presa. O rolo de pintura das várias encarnações de Buda
da era Tenpyo, de propriedade do nosso museu, data de 1.200 anos atrás,
sendo a mais antiga peça de pintura do estilo japonês, muito embora a
nitidez do seu colorido comprova a excelência dos pigmentos nele
utilizados, sendo sua natureza ainda hoje desconhecida.

A escola Tosa, outrossim, consiste num desdobramento do estilo


yamato-e. Dentre seus mestres, enumeram-se Mitsuoki, Matabee
(Katsumochi) e, a seguir, Moronobui Hishikawa, o criador da xilogravura
ukiyo-e. Depois deste, como todo mundo sabe, vieram, seguidamente,
mestres de renome como Utamaro, Harunobu, Tyoshun e outros, até a

125
Mundo do Belo

modernidade.

No âmbito da pintura nipônica, igualmente, um gênero espantoso é


aquele que trata de temas budistas. Também este nasceu sob a inspiração da
pintura búdica da época da dinastia Sung, da China, mas deu à temática o
tratamento peculiar do Japão. A Pintura budista nipônica chega mesmo a
superar a chinesa. No nosso museu, conquanto em pequeno número,
encontram-se expostas peças que, apreciadas sob a perspectiva estética, são
valiosas. Por não estarem batidas nem apresentarem muitas manchas, como
só acontece com pinturas budistas, oferecem uma visão agradável a quem
as contempla. Aqui, não poderia esquecer de citar algo sobre alguns
pintores do final do período Ashikaga. Trata-se, entre outros, de Yusho
Kaiho, Tohaku Hasegawa e Sanraku Kano. O biombo de Yusho, de
propriedade do nosso museu, é considerado a melhor peça de toda a obra
do artista. Foram muitos os artistas de peso da escola Kano: Motonobu,
Naonobu, Tsunenobu, Tannyu e outros, sendo Gaho o derradeiro. A
popularidade da escola, todavia, perdeu muito do seu antigo brilho. Sem
dúvida, a razão única é a mudança dos tempos.

Pondo um ponto final à minha dissertação sobre a pintura, quero


agora discorrer alguma coisa a respeito da caligrafia. A caligrafia
representativa do japonês é indiscutivelmente a do gênero kana. Neste
gênero, os talentos que mais se sobressaem são os do período Heian,
nomeadamente Tsurayuki, Michikaze, Saigyo, Sukemasakyo, Toshiyori,
Shitago Minamoto e Yukinari. Do período Kamakura: Sadaie, o Príncipe
Munetaka e Yoshitsune; como talentos femininos: Murasaki Shikibu,
Kodaino-kimi e outras. Seus antigos manuscritos possuem uma elegância
própria do Japão e trescalam um aroma de nobreza tal, que não há nada que
a eles se compare. A seguir, temos os manuscritos legados pelos monges
budistas. A lista abre-se encabeçada por Kobo Daishi, vindo após Taito
Kokushi, fundador do templo Daitoku — sucedido pelos monges que
seguem a sua linha, principalmente: Ikkyu, Takuan, Seigan, Kogetsu,
Gyokushitsu e outros. Do período Kamakura, podem ser nomeados
Mugaku Zenshi, o fundador do templo Engaku, e Muso Kokushi, fazendo
outro estilo. Já na época moderna, Ryokan goza de popularidade, e eu
considero Kaioku Nukina um excelente calígrafo. Sobre caligrafia, já basta.

126
Mundo do Belo

Passo agora à cerâmica nipônica.

A cerâmica japonesa, assim como a Pintura, provém, sem dúvida,


da China. Desta receberam influência a porcelana do tipo estampa
vermelha, estampa azul e verde-resedá, além — como é do conhecimento
geral — das porcelanas Kakiemon, Imari e Kutani. Entretanto, os pratos de
cerâmica Nabeshima, seja pelo seu desenho, seja pelo seu colorido, são
peças exclusivas do Japão. Tem-se ainda, como peças diferente, a
porcelana de Satsuma e a de Banko. Além dessas citadas, há a cerâmica de
Owari, desenvolvida a partir do período Kamakura, tendo como modelo a
antiga cerâmica coreana. Constitue-se, em sua maior parte, de tigelas de
chá, tendo sido bastante consideradas e apreciadas pelos mestres da
Cerimônia de Chá. Por conseguinte, o valor que atingem é assustador.
Dividem-se elas nos seguintes tipos: Koseto, Kiseto, Shino, Karatsu10 e
Oribe, sendo denominadas peças de Owari ou Sabi. Na modalidade Sabi,
existem também a cerâmica de Bizen e a de Shigaraki, as quais fornecem
muitos utensílios também para a Cerimônia do Chá. Ambas possuem um
sabor bem difícil de ser descartado. Em se tratanto de tigelas para a referida
Cerimônia, não se poderia deixar de mencionar as peças produzidas por
Tyojiro, o iniciador da cerâmica Raku. Criou ele este gênero tipicamente
japonês, inspirando-se na cerâmica produzida durante a dinastia Yi da
Coréia, tendo sido, devido a tal gesto, amado por Sen-no-Rikyu. São
incontáveis as obras excelentes que produziu. Nonko, seu sucessor da
terceira geração, Ichinyu, da quarta, e Sonyu, da quinta, gozam de fama.
Tyojiro, portanto, como exímio ceramista japonês, terá seu nome
relembrado pela eternidade.

Aqui, vejo-me compelido a escrever sobre exímios mestres da


cerâmica japonesa que não ficam a dever aos artistas chineses. São eles —
sem discussão — Ninsei e Kenzan. Escrevamos, primeiramente, a respeito
de Ninsei. Sendo um natural de Quioto, do início do período Tokugawa,
seu verdadeiro nome era Seiemon Nonomura. Por residir na aldeia do
Templo de Ninna, foi apelidado Ninsei, e com este nome tornou-se famoso.
Seu talento residiu, sobretudo, na originalidade da sua obra, fator que a
distingue do restante da arte japonesa da cerâmica, inspirada em padrões
10
Karatsu: indica o Karatsu de Mino.

127
Mundo do Belo

chineses ou coreanos. Seus desenhos, seus ornatos, sua forma, suas cores
— tudo expressa, com perfeita fidelidade, o senso nipônico. Ademais, em
questão de elegância e altivez, jamais será suplantada pela porcelana
chinesa. É um motivo de autêntico orgulho para o Japão. Ao deparar-me
com a obra de Ninsei, sempre considero que, como ceramista japonês, ele
ocupa posição equivalente à de Korin.

Passemos, então, a Kenzan. Este, como é do conhecimento geral, é


irmão mais novo de Korin. Artista versátil, possuía excelente habilidade
para a pintura. O que tenho por raro, no seu caso, é que tal talento o
acompanhou, inclusive, na arte da cerâmica. Cotejado com Ninsei, possui
um sabor diferente: se chamássemos Ninsei de homem das cortes, Kenzan
seria o homem do campo. Ele não possui a delicadeza de Korin ou de
Sotatsu, mas é dono de um sabor primitivo simplesmente indescritível.
Penso eu da seguinte maneira: graças a estes dois grandes artistas, a
cerâmica japonesa, ainda que posta lado a lado com a chinesa, não fica a
perder um pouco que seja desta.

A seguir, pretendo escrever algo sobre a arte budista. Também, no


presente caso, ela nos foi transmitida da China: a Pintura na dinastia T´ang
e a Escultura na época das Seis Dinastias, isto é, na época do reinado de
Suiko, o que remonta, portanto, a mil 1.300 anos atrás. Naturalmente, seria
desejável afirmar que tanto a pintura como a escultura vieram registrando
um progresso simultâneo. Todavia, sinto-me em dúvida ao empregar a
expressão "progresso". Explico a razão: quanto mais antiga a obra, superior
ela é. De fato, somos obrigados a assentir que, do ponto de vista do
requinte técnico, as peças do período Kamakura são as que mais
apresentam avanço. Porém, as obras do período Fujiwara as suplantam,
sendo por sua vez suplantadas pelas do período Nara. É simplesmente
intrigante. As primeiras esculturas foram executadas quase que todas em
bronze e em laca endurecida; depois, gradualmente, o material passou a ser
a madeira. A famosa estátua de Avalokitesvara de Kudara, do Templo
Horyu, a do Bhaisa Jyaguru, do Templo Yakushi, e a de Avalokitesvara de
Onze Faces, do Templo Hokke, são obras-primas, cujo valor transcende os
meios de expressão verbal. É plausível, pois, dizer que a escultura budista,
à parte da pintura, atingiu o grau supremo em todo o mundo. A arte budista

128
Mundo do Belo

trata-se de um dos ramos dos quais o Japão pode orgulhar-se, contando


com obras-primas de nível mundial.

Eiko, nº 168 — 6 de julho de 1952

IMPRESSÕES DIVERSAS SOBRE AS ARTES ORIENTAIS (IV)

Sendo que, no momento, tínhamos a escrever sobre as artes


nipônicas, vejamos, a seguir, as chinesas. Em se tratando de Arte chinesa,
deve-se abordar, indiscutivelmente, com primazia, a porcelana, em segundo
lugar, os bronzes, vindo a pintura em terceiro. Nessa ordem, passemos à
porcelana. As peças de cerâmica e as de porcelana parecem ser um dos
mais antigos ramos da Arte da China, produzindo-se, antecipadamente, há
quatro mil anos, objetos de considerável valor. Dentre tais peças, restam,
hoje, aquelas denominadas cerâmica Anderson. Foram elas trazidas à luz
pelo pesquisador de mesmo nome — o que lhes valeu o nome. Felizmente,
logrei adquirir um grande vaso deste tipo, estando ele em exposição no
nosso museu. Como os senhores poderão averiguar, é realmente
inacreditável que, em idade tão remota, uma peça de semelhante gabarito
tenha sido produzida. A Arte da porcelana chinesa começou, efetivamente,
a desenvolver-se no espaço de tempo entre as Seis Dinastias e a dinastia
T'ang. Neste período, especialmente, produziram-se peças excelentes de
louça colorida. Tais obras recebem o nome de louça tricolor de T'ang,
sendo características por seu formato, sua técnica e combinação de cores.
São de considerável beleza. À parte, existem peças de colorido azul
esverdeado, chamadas de peças de esmalte verde. Também estas são
apreciáveis, sendo que o nosso museu possui um incensário tubular rajado11
desse estilo. Há, ainda, as peças de cerâmica produzidas nos fornos de
Yuechou. São estas de um colorido cinza-claro, mesclado de marrom,
volumosas, produzidas com uma técnica relativamente requintada. Na
entrada da quinta sala do nosso museu existe um grande vaso Keito12, peça
do período inicial dos mencionados fornos. Sob todos os pontos, trata-se de
uma obra excelente, não encontrando parelha no mundo inteiro. A seguir,
produziram-se as peças dos fornos de Ju13. São elas de cor de zinabre
11
Incensário tubular rajado: estojo tubular para incenso.
12
Grande vaso Keito: vaso Tenkei.
13
Peças dos fornos de Ju: segundo as teorias recentes, são peças produzidas nos fornos

129
Mundo do Belo

puxado a azul; a técnica nelas adotada, de baixo-relevo, não pode ser


desprezada. Temos, ainda, no nosso museu, um vaso de flores com o
formato de uma jarra para vinho, considerado uma obra representativa do
gênero. Sua evolução deu-se na porcelana verde resedá. As peças
produzidas inicialmente, na dinastia Sung, sejam pelo seu colorido, sejam
pela sua técnica, deixam-nos abismados por sua excelência. É impossível
sofrear a emoção provocada pelo fato de se ter produzido, há oito ou nove
séculos antes, tais peças de artesanato. Constitui mesmo um tipo de
mistério. A porcelana verde-resedá, em decorrência de sua vasta
ramificação, é um gênero que, talvez, não conte com pessoas capazes de
realizar uma verdadeira classificação. Eu mesmo solicitei a estudiosos e
especialistas desse campo que me fizessem a avaliação de semelhantes
peças. Todavia, as opiniões divergiam conforme quem as examinasse,
tornando-se impossível chegar a um veredito definitivo. Diante dessa
divergência, pode-se deduzir quão difícil é a tarefa.

No entanto, as mesmas classificam-se, grosso modo, em porcelanas


produzidas nos fornos de Hsiu Nei Su, Hsiao T'an, Lung Ch'uan (Kinuta,
Tenryuji e Sichikan) e outros. Dentre elas, as de Hsiu Nei Su, Hsiao T'an e
Kinuta são julgadas as melhores. Outrossim, no caso de ser dificultoso
discernir o gênero da peça, ela é tida como produzida pelos fornos
imperiais. Há, no nosso museu, várias peças de primeira categoria: pelo
consenso geral o grande turíbulo trapezóide de porcelana verde-resedá é,
sobretudo, considerado o primeiro do mundo. Ficando por aqui no que diz
respeito a esse tipo de porcelana, examinemos aquela produzida pelos
fornos de Chün, da dinastia Sung. Desse gênero, são poucas as peças
existentes no Japão, mas, dentre elas, muitas já vinham sendo transmitidas,
há muito tempo atrás, e eram extremamente adoráveis: seu sabor é
diferente das verde-resedá. Entretanto, no tocante a esta variedade, a
coleção de "Sir" Eumorfopoulos, do Museu Britânico, prima tanto pelo
número quanto pela qualidade. Não obstante, a travessa, pertencente a
nosso museu, é tida como peça de primeira qualidade, sem rival em todo o
mundo. Existem, além do mais, entre as peças finas, produzidas na época
da dinastia Sung, as dos fornos de Ting. Existem as Ting alvas e as negras.
Estas são raras, aquelas são, na maioria, pratos e congêneres, sendo

Yaotyo.

130
Mundo do Belo

raríssimas peças de três dimensões. Nesse sentido, a galheta exposta na


terceira sala de nosso museu constitui peça de categoria mundial. Trata-se
igualmente, de peça rara a jarra d'água14 que se encontra na mesma sala. No
Japão, existem dois ou três exemplares somente. Outro gênero de porcelana
excelente da dinastia Sung são as peças de Chu Lu15 (ainda conhecidas
como kakiotoshi). Também estas existem em número reduzido, mas neste
país, acham-se os melhores espécimes do mundo. São eles o grande vaso
decorado com dragões, do acervo do famoso Museu Hakutsuru; o grande
vaso decorado com flores, de propriedade do senhor Goryu Hosokawa; e o
vaso decorado com borboletas e peônias, do acervo de nosso museu. São
também do referido período as peças denominadas Ying Ch'ing (porcelana
azul-claro). Parecem-se com as do tipo verde-resedá, sendo donas de uma
beleza difícil de descartar. O prato de tamanho médio com flores de lótus
em baixo-relevo, do acervo do nosso museu, trata-se da melhor peça
encontrada no Japão.

Acabei de discorrer, resumidamente, acima, a respeito da porcelana,


durante o período que tem a dinastia Sung por núcleo e se estende até a
dinastia Yuan. Com o início da dinastia seguinte, Ming, verifica-se,
repentinamente, um vertiginoso avanço. Fazendo a ultrapassagem dos
acontecimentos para o Japão, é possível estabelecer um confronto entre o
desenvolvimento artístico ocorrido durante a evolução da era Heian para a
Kamakura — equivalente à dinastia Sung —: é aquele verificado entre os
períodos Ashikaga e Momoyama, por sua vez, correspondente à dinastia
Ming. A porcelana chinesa deste período diverge completamente da das
dinastias Sung e Yuan. As peças destas duas dinastias, sendo simples e
leves em essência, trazem um refinamento nobre. Em contraposição, o
estilo da dinastia Ming, florido e suntuoso, tomou o feitio popular.
Ademais, enquanto as características principais da porcelana da dinastia
Sung estão no formato, no relevo e no elemento monocrômico, como se vê
nos gêneros verde-resedá, Chün, Ju e Ting, a porcelana da dinastia Ming
produziu seguidamente obras deslumbrantes, por não só terem adquirido
uma forma engenhosa, mas por sua pintura decorativa ou seus arabescos,
como é o caso das peças de ornato azul e as de ornato vermelho. São as

14
Jarra d'água: refere-se ao vaso decorado com flores de lótus.
15
Peças de Chu Lu: fornos de Tz'utyou.

131
Mundo do Belo

peças do tipo brocado, do tipo ornato vermelho Gosu, do tipo Hsüan Te16,
ou do tipo ornato vermelho Wan Li, todas grandemente apreciadas.
Sobretudo as do gênero brocado da época Chia Ching são o que há de
melhor: o vaso de flores em forma de cabaça e a garrafinha triangular, do
acervo do nosso museu, são obras finíssimas, raramente vistas. As peças
modernas, produzidas posteriormente, são boas, como as dos períodos T'ieu
Ch'i, K'ang Hsi, Yung Cheng e Ch'ien Lung; porém, quando cotejadas com
as obras da dinastia Ming e anteriores, prendendo-se em demasia à técnica,
são tidas pelo senso geral como superficiais e pouco atraentes.
Além das louças, outra modalidade de arte chinesa tida
mundialmente em alta consideração são os bronzes. Tratam-se estes de
obras produzidas há três mil anos, nos períodos Yin (Shang) e Chou. Sua
técnica refinadíssima constitui um verdadeiro milagre. É mesmo difícil
acreditar ter sido possível fazer peças tão magníficas em tempos tão
remotos! O mais intrigante é que, conforme as Eras fiquem mais recentes,
ou seja, Ch'in, Han, Sui, T'ang e Sung, a técnica regride gradativamente.
Todos são unânimes em reconhecer o mistério que é o fato de somente as
belas-artes caminharem em sentido inverso ao da cultura. Os bronzes
chineses concentram-se nos museus ingleses; no Japão, são encontrados,
principalmente, nos museus Hakutsuru, Sumitomo e Nezu.

Tratemos agora da Pintura. A Pintura chinesa — em semelhança


com a porcelana — tem seus melhores exemplares na era Sung. As obras
deste período são excelentes, destacando-se por completo das demais
épocas. Na modalidade monocromática a tinta nanquim, primam,
sobretudo, os pintores Mu Hshi, Liang K'ai, Yen Huei e Ma Yüan, dentre
outros. Como existem peças de renome de autoria de Mu Hshi, Liang K'ai e
Ma Yuan no nosso museu, os senhores já devem ter verificado que foram
executadas com uma arte quase que sobre-humana, e que o vigor com que
foram pintadas não admite que a arte japonesa as reproduza. Em se tratando
da pintura policromática, deve-se citar as obras do imperador Hui Tsung,
tido como o primeiro do mundo. A seguir, Ch'ien Shun Chu é também
considerado um grande mestre. A melhor obra do imperador Hui Tsung
encontrada no Japão será com certeza a de propriedade do Barão Inoue, que
retrata um pombo pousado num galho de pessegueiro em flor. Outra obra

16
Tipo Hsüan Te: refere-se à porcelana de ornato azul Hsüan Te.

132
Mundo do Belo

famosa é o retrato do rei Huan Ye, de autoria de Ch'ien Shun Chü, do


acervo do Museu Ohara. Curiosamente, dentre os grandes artistas deste
período são numerosos aqueles que pintaram um único tipo de peça em
toda sua vida. Os famosos são Ji Kuan, com suas uvas, Yin T'o Lo, com
seus monges, Li An Chung, com suas codornas, Pan An Jen, com seus
peixes, Hsu Hsi, com suas garças, e T'an Chih Jui, com seus bambus, além
de outros.

Eiko, nº 170 — 20 de julho de 1952

INTRODUÇÃO À XILOGRAVURA UKIYO-E — PREFÁCIO

MOKITI OKADA, DIRETOR DO MUSEU DE ARTE DE HAKONE

Desde jovem, eu sou apreciador de pinturas, comprazendo-me,


conforme me permitem as circunstâncias, em ir aqui e acolá para apreciar
tais obras, bem como em adquiri-las. Entrementes, como é do
conhecimento geral, construí, no ano passado, este pequeno museu de artes
em Hakone, vindo a nele expor variadas peças de pintura. Não pude ficar,
portanto, sem ter minha atenção voltada para as xilogravuras Ukiyo-e,
gênero pelo qual, até então, não sentia muito interesse. Foi a partir de tal
gesto que, surpreendentemente, percebi que as gravuras Ukiyo-e também
possuem um sabor que não merece ser desprezado. Daí por diante, passei a
sentir interesse e, com o passar do tempo, o mesmo aumentou e vim a
descobrir nelas uma graça ausente nos demais estilos de pintura, fato que
me levou, mesmo, a me arrepender da minha antiga indiferença. Por
ocasião de minha ida à Exposição de Ukiyo-e de Quioto, no outono
passado, travei conhecimento com o Sr. Kondo, por intermédio de certa
pessoa, sendo por ele instruído a respeito de inúmeros aspectos da
mencionada modalidade de xilogravura. Posteriormente, não apenas pude
compartilhar de seus conhecimentos sobre o assunto, consoante surgiam as
oportunidades, como ainda esforcei-me na coleta de tais obras, chegando
hoje a patrocinar a referida mostra. Escusado dizer que, para realização do
mencionado evento, fui contemplado com a inestimável colaboração do Sr.
Kondo, tenho conseguido o que os senhores podem ver. Na presente
oportunidade, movido pelo desejo de anunciar o Ukiyo-e — esta

133
Mundo do Belo

modalidade artística peculiar do Japão — não só ao exterior, mas também


aos japoneses em geral, solicitei ao mesmo senhor que me compilasse este
singelo folheto para distribuição.

Maio de 1953

134
Mundo do Belo

VII — ANDANÇAS ARTÍSTICAS

VIAGEM À REGIÃO OESTE DO JAPÃO

Como é do conhecimento dos senhores fiéis, empreendi esta


viagem à Região Oeste, a qual não visitava há um bom tempo.
Desnecessário mencionar que me movi de acordo com a Vontade Divina,
sendo que tal fato prenuncia a proximidade da época de desenvolvimento
de nossa Igreja. Pretendo, aqui, relatar, de modo geral, o que ocorreu
durante esta viagem.

Na ida fiz uso apenas de automóvel, tendo aprendido que, ao


contrário do que se espera, é menos confortável do que empregar trem.
Todavia, assim, realizei meu antigo desejo de uma vez percorrer as
cinqüenta e três estações da via Tokaido, com ares de um Yajirobee ou de
um Kitahachi da atualidade. Tendo por acompanhantes apenas a minha
mulher e Abe, tratou-se de uma viagem descontraída. Partindo às sete horas
da manhã, depois de atravessarmos Shizuoka, encontramos com grupos de
fiéis que, à beira do caminho, postavam-se aqui e ali para nos
cumprimentar, fato que me colocou bastante atarefado. Os grupos
numerosos compunham-se de cinqüenta a sessenta pessoas, os pequenos —
por menores que fossem — de cinco a seis. A todos eu respondia com um
acenar de cabeça, o que chegava a ser estonteador. Nas cercanias de certa
ponte, havia um punhado de cinqüenta a sessenta pessoas, entre as quais se
misturava um policial. Quando eu cogitava que a razão de sua presença ali
estaria na manutenção da ordem, ele, inesperadamente, descobriu a cabeça
e inclinou-se polidamente. Foi, então, que compreendi tratar-se de um fiel e
encenei um sorriso amarelo. Nesse ínterim, chegamos, consoante o
previsto, lá pelas onze horas à igreja de Nagóia. Na ponte próxima a esta,
tivemos a acolhida de membros da diretoria e demais fiéis, liderados pelo
seu chefe, o Sr. Shoichi Watanabe, perfazendo uma multidão de algumas
centenas de pessoas. Fui informado de que aquela casa fora tomada por
igreja a cerca de meio ano atrás. A vista que dela se aprecia é ótima,
tratando-se de uma construção no estilo sukiya, luxuosíssima. Conta com
bastantes cômodos, sendo espaçosa e agradável. É uma casa magnífica,
difícil de se encontrar igual pelas redondezas. Seu jardim, em especial, é

135
Mundo do Belo

realmente esplêndido, com rochas e pedras exóticas, que se sobrepõem


umas às outras. Fomos convidados, então, para um almoço amabilíssimo,
após o qual fiz uma palestra para quatrocentas ou quinhentas pessoas,
diretores e membros qualificados daquela região. Quando novamente tomei
o carro, já passavam das três horas da tarde. Tanto quando entrei na
referida igreja, como ao dela sair, formavam-se duas alas cerradas de fiéis
dos arredores, desdobrando-se por uma extensão de aproximadamente uns
cem metros. Seriam umas mil pessoas, num primeiro cálculo. Eu ia
alternadamente acenando a cabeça, ora à direita, ora à esquerda, em direção
a ambos os grupos, tendo penado bastante com isso. Considerei, então, ser
mais fácil e conveniente proceder como o pessoal importante em
semelhantes ocasiões, ou seja, manter a mão direita elevada à altura da
cabeça. Afortunadamente, o local em questão era ermo, distando cerca de
um quarteirão de uma grande avenida, fato que evitou a presença de
intrusos que tudo querem ver. Foi realmente uma providência.

A seguir, dirigimos o nosso veículo para a cidade de Quioto.


Durante o percurso, o que atraiu minha atenção foi a passagem pelo
desfiladeiro de Suzuka, nos arredores de Tsuchiyama. Nosso carro
avançava como se deslizasse por uma rodovia plana, dessas típicas das
regiões turísticas. O céu de maio estendia-se completamente azul, e nós
íamos serpenteando por entre o verde viçoso da folhagem nova da
vegetação de ambas as encostas dos montes. Fui tomado por uma intensa
sensação de refrigério. De repente, notei que já havíamos atingido a vasta
planície de Shiga. Foi quando minha mulher exclamou: "Veja!". De fato, o
Lago Biwa resplandecia entre as montanhas. Ao atingirmos as
proximidades da ponte de Seta, centenas de pessoas já se achavam nesse
local à espera para nos receber. Fomos, então, conduzidos para a vila de
certo senhor, nas dependências do Templo Nanzen, a qual fora previamente
arranjada para nossa hospedagem. O relógio marcava um pouco antes das
oito. Também esta vila era uma construção sukiya ao estilo de Quioto:
bastante luxuosa, com um jardim espaçoso, proporcionando uma vista
agradável e familiar com seus musgos. Em especial, era difícil de desprezar
a paisagem do jardim em estilo enshu, atapetado com musgo, vista da ponte
em arco sobre um lago, de uns quinze metros, que conduzia para o prédio
destinado às minhas acomodações. Além de tudo, o melhor eram o sossego

136
Mundo do Belo

e a calma reinantes, dos quais não se pode gozar em hospedarias. Logo,


foram servidos pratos da mais fina culinária japonesa de Quioto, e eu os
degustei com delícia. Como eu me encontrasse esgotado, graças à viagem
de automóvel de onze horas, devo ter caído no sono lá pelas doze horas,
depois de muito ter preocupado os servidores próximos.

Na manhã seguinte, levantamo-nos cedo e partimos, visitando,


inicialmente, o museu de propriedade da família Sumitomo17, guiados pelo
Sr. Mimura. Seu acervo compõe-se quase que todo de bronzes chineses
antigos, estando, em exposição, perto de duas centenas e algumas dezenas
de peças. Disseram-me ser este número quase a metade do total.
Surpreendeu-me terem conseguido reunir semelhante cabedal. As peças
mais antigas remontam ao período da dinastia Yin e, à medida que o tempo
avança, passando pela dinastia Han e os Três Reinos, essa variedade
aumenta. Deve-se ter em alta valia o mérito daquele que reuniu tão
completo acervo. Daqui saindo, encaminhamo-nos à vila real de Katsura.
Esta vila, tendo sido construída nos primórdios do período Momoyama,
traz, acentuadamente imbuído em seus prédios e jardins, o gosto que então
imperava pela Cerimônia do Chá, refletindo muito bem a característica da
época. Além do mais, deleitou-me, sobretudo, o sabor indizível de
sobriedade, originário da pátina dos longos anos fluídos. Visitamos, depois
os templos Kokedera18 e Ryoan. Sobre estes últimos, não me restou outra
impressão a não ser a que eu possa adjetivar como "lugares curiosos".
Como os ponteiros do relógio marcavam onze horas, apressamo-nos rumo
ao templo Honen-in, do qual se diz ter sido o local onde, outrora, o
venerado monge Honen se dedicou a práticas ascéticas. Aguardavam-nos,
ali, centenas de fiéis desta região, a qual há muito planejávamos visitar.
Portanto, fiz-lhes uma palestra intercalada com as minhas impressões sobre
Quioto naquele dia. Finda esta, vi os vários cômodos do referido templo
sob a orientação do pároco. Não obstante seu envelhecimento, trata-se de
um templo magnífico. Além de tudo, mostraram-me mais de dez peças,
dentre as quais papéis decorados com pinturas em cores vivas de flores e
pássaros, assim como um biombo (de autoria de artista desconhecido) do
período Momoyama, classificados como tesouros nacionais: tudo
simplesmente esplêndido. Fui introduzido, a seguir, no pavilhão principal,
17
Museu de propriedade da família Sumitomo: Museu Sen-okuhaku Kokan.
18
Kokedera: Templo Saiho-ji

137
Mundo do Belo

onde pude contemplar a imagem sentada do Buda Amitabha, de dimensões


um pouco maiores que as de um homem, atribuída a Eshin Sozu, também
esta uma obra excelente. Voltando, então, ao local em que nos
hospedávamos, depois do almoço dirigimo-nos, primeiramente, à vila real
de Shugakuin. A vila é constituída de um extenso jardim, de alguns
milhares de metros quadrados, com colinas e lagos, e apenas um ou dois
prédios. De sua parte alta, a vista abarca toda a cidade de Quioto. A
paisagem em que o rio Kamogawa dissolve-se em brumas, como se fosse
uma cinta de cor branca, é difícil de se descartar. A seguir, visitei o Templo
Shakadera19, de Saga, sendo depois convidado ao Templo Daitoku, onde
me mostraram a taça de chá do tipo Ido, chamada Kizaemon. Tida como a
melhor taça de chá do Japão, trata-se realmente de uma preciosidade. Após
isso, fui conduzido à vila de Nomura20, em Nanzenji-cho. A magnificência
desta mansão ultrapassou as minhas expectativas. Apesar de não ter visto o
seu interior, os seus vastos jardins, com um lago ao centro, cercado por
árvores e rochas, bem como sua ponte — tudo, enfim, adequava-se ao meu
gosto. Para se ter uma idéia, basta que se imagine um jardim no estilo
daqueles dos senhores feudais antigos, modernamente arranjado. Depois de
sair deste local, fui convidado para o chá, conforme anteriormente havia
sido combinado, pela família de Kankyu Soanke, patriarca do estilo
Mushanokoji da Cerimônia do Chá, estilo este que forma com os das
famílias Ura e Omote-Senke três grandes correntes. Na ocasião, fui
recebido com um banquete cordialíssimo, composto de pratos da culinária
kaiseki. Lá pelas dez horas, de volta à nossa pousada, fui dormir.

Na manhã seguinte, às dez horas, rumamos, de acordo com o


programa, ao Museu Nacional de Quioto, onde vi a exposição, ora
realizada, de cerâmica chinesa antiga. Não havia, contudo, nada de
especial. Visitei a seguir, como também fora arranjado, o Museu Yurinkan,
onde se expõe um rico acervo de Arte chinesa antiga, principalmente
louças antigas, bronzes e pinturas, havendo coisa de primeira. A grande
parte, entretanto, é de categoria mediana. Depois, fomos ao mosteiro
Nishihongan-ji. Guiados por um monge, visitamos as suas dependências
que, não obstante velhas, são imponentes. Progressivamente fomos
conduzidos para o seu interior, adentrando por uma sala que, segundo
19
Templo Shakadera: Estátua de Shaka, do Templo Seiryo-ji em Saga, Quioto.
20
Vila de Nomura: vila do Sr. Tokushichi Nomura.

138
Mundo do Belo

consta, foi usada para audiências por Hideyoshi Toyotomi no seu famoso
castelo de Momoyama, tendo sido transportada para esse local. Seu teto
luxuoso é de treliças, e suas quatro paredes são forradas inteiramente com
delgadas lâminas de ouro, sobre as quais se pintaram, em cores vivíssimas,
flores e pássaros, paisagens e figuras humanas, conformando a
quintessência da pompa. A fulgurante superioridade do então Conselheiro-
Mor pode ser pressentida completamente graças a tal sala. Depois, fomos
levados, através de um jardim, a uma casa bem afastada, do feitio de um
anexo. Num canto dela, havia a sala de banho de Hideyoshi, por sinal
muito rústica. Não chega mesmo aos pés dos banheiros das hospedarias de
classe média modernas. Outrossim, havia, num dos lados, uma porta de
tábuas de cerca de um metro e oitenta centímetros, como a de um armário
embutido. Ao perguntar do que se tratava, obtive a resposta de que era o
esconderijo de dois guerreiros que se refugiariam ali caso fosse preciso.
Como se pode deduzir, era mesmo uma época perigosíssima. Além disso,
na sala maior, abria-se um buraco grande o bastante para dar passagem a
um homem. Espiando dele, pude ver que se comunicava com a água do
lago próximo. Disseram-me que sua função era dar fuga de barco pelo lago,
nas horas de emergência. Fiquei mas foi pasmado! Ri à beça, dizendo que
renunciaria ao poder, caso tivesse que levar uma vida tão sinistra assim,
mesmo sendo o senhor do mundo. Saindo de lá, dirigimo-nos de carro
rumo a Osaka. Tendo chegado à casa do Sr. Kawai, a qual, há pouco
tempo, tornaram-se igreja filial, fomos calorosamente acolhidos. Após o
almoco, entrevistei-me com os principais fiéis da região, a começar pelos
membros da diretoria, que, às centenas, estavam, há muito, à minha espera,
fazendo-lhes uma palestra. Finda esta, novamente tomamos o automóvel,
com o propósito de visitar o Museu Hakutsuru, em Mikague. Levamos
pouco mais de uma hora para chegar ao referido local. Apesar de, na
oportunidade, o museu em questão achar-se fechado, graças aos
desmedidos esforços de determinado senhor, selecionaram e mostraram-
me, em deferência especial, unicamente suas melhores peças. Não sei como
agradecer por tal gesto. Também nele o acervo consta, essencialmente, de
cerâmicas chinesas antigas, além de bronzes e pinturas. Tratando-se,
entretanto, somente de obras de primeiríssima qualidade, mesmo a mim,
deixaram-me pasmado. Espontaneamente, fui tomado pelo sentimento de
render homenagem ao Sr. Kano, patriarca da família proprietária do museu,

139
Mundo do Belo

recentemente falecido aos noventa anos, por sua elevada visão e mérito de
ter conseguido colecionar tantas obras finas! Escreverei com brevidade
sobre o principal. Em primeiro lugar, havia duas pinturas budistas
originárias de Tung Huang, China, que podem ser qualificadas como
tesouro mundial. Devem datar de um milênio antes, sendo extremamente
antigas como pintura religiosa búdica ou, para ser mais exato, pintura
oriental. Citarei, a seguir, uma escultura budista do período das Seis
Dinastias, uma placa de bronze de 20 a 25 cm2, na qual se estampavam, em
alto-relevo, as imagens de cinco Budas. Seja pela técnica empregada, seja
pela característica da época, a peça possui um sabor indiscutível. Eu jamais
tinha visto coisa parecida. Outras peças que se destacaram foram o jarro de
flores de porcelana verde-resedá kinuta com fênix21, o turíbulo de porcelana
com peônias em relevo, uma galheta de louça tricolor da Dinastia T´ang e o
vaso de flores decorado com dragões negros em baixo-relevo22, produzido
nos fornos de Hsiu Pu. Entre todas as demais obras não havia uma sequer
que fosse vulgar. Vi variadas fotografias de peças de porcelana chinesa do
acervo de museus norte-americanos e europeus, mas estas são superiores.
De tal viagem, considero estes os melhores frutos que colhi. Após a visita,
fui convidado ao famoso Restaurante Tsuruya, em Imabashi, onde,
juntamente com cerca de trinta membros da diretoria, tomei parte de um
jantar. O clima era por demais harmonioso. O semblante risonho de todos
parecia como que vaticinar o progresso futuro de nossa Igreja. Porém,
como o tempo urgisse, dirigimo-nos velozmente de automóvel a estação de
Osaka, aonde chegamos a tempo de embarcar no trem noturno das oito
horas.

Um acontecimento que desejo, por fim, registrar, é que, nesta


viagem, aonde quer que eu fosse, as aglomerações de fiéis eram enormes.
Ao deparar-me com fato tão alvissareiro, tomei renovada consciência do
desenvolvimento alcançado nas regiões de Nagóia e Oeste, não podendo
reprimir a minha alegria. Outrossim, a começar da sinceridade fervorosa e
das fisionomias, transfiguradas pela emoção, dos fiéis que acorriam para
me receber e despedir-se de mim, havia mesmo quem respeitosamente se
21
Jarro de flores de porcelana verde-resedá kinuta com fênix: vaso de gargalo com fênix.
22
Vaso de flores decorado com dragões negros em baixo-relevo: vaso do tipo flor de cerejeira,
decorado com dragões negros, em baixo-relevo, sobre fundo branco, produzido nos fornos
atualmente conhecidos como Tz'uchou.

140
Mundo do Belo

punha de mãos postas, e outros até que se sufocavam em suas próprias


lágrimas. Em semelhantes ocasiões, também eu experimentava uma
estranha sensação, impossível de se descrever, a brotar do meu íntimo. Esta
viagem, ademais, teve a duração de três dias: nos dois primeiros, fomos
agraciados com bom tempo e, no último, tivemos chuva. Também este fato
deve se tratar, também, de manifestação de algum plano divino.

Após o término desta viagem, pude sondar a profundidade dos


desígnios divinos. Explicarei. Como sempre afirmo, Hakone é o Paraíso
das Montanhas, e Atami, o Paraíso do Mar. Há, portanto, necessidade de
que se edifique o Paraíso da Planície — para o qual se faz mister um
terreno plano e vasto. Quioto, sim, é o local que se adequa justamente a
esses quesitos: num sentido de Miroku (5, 6 e 7), equivaleria a 7 (sete). Por
tal razão é que haveremos de adquirir um terreno de enormes dimensões
nesse lugar. Além do mais, o que desta vez senti com intensidade, graças à
observação, é que Quioto constitui, em seu conjunto, uma obra de arte.
Conta com uma gama de peculiaridades jamais encontrada em nenhuma
outra cidade, devendo ser, por excelência, o local a abrigar o grande
Paraíso Terrestre. Desta maneira, eu me senti intensamente ansioso por
construir algo magnificente e digno do símbolo de uma metrópole artística.
Contudo, em que pese a Quioto o fato de contar, hoje, satisfatoriamente,
com excelentes exemplares de beleza histórica, quase que não se depara,
nessa região, com coisas que apelem de maneira vívida para o senso do
homem moderno. Desejo eu, pois, construir um espaço artístico
maravilhoso, que se amolde, perfeitamente, ao senso da época de hoje, o
século vinte. Quero construir algo grandioso: jardins, prédios e, sobretudo,
um grande museu de âmbito mundial, algo que tenha a capacidade de
absorver, futuramente, os turistas estrangeiros. Desejo concretizar, na
cidade japonesa das Artes, este parque mundial.

Tijyo Tengoku, nº 25 — 25 de junho de 1951

CONSIDERAÇÕES SOBRE A "EXPOSIÇÃO DOS TESOUROS DO


TEMPLO KOFUKU-JI”, DE KASUGA, NA LOJA DE
DEPARTAMENTOS MITSUKOSHI

141
Mundo do Belo

Por motivo de ter ido ver, recentemente, a exposição tanto


comentada, sobre a qual versa o título, explanarei, aqui, o que experimentei
na oportunidade. Devo comentar, antes de mais nada, que o acervo exposto,
em se compondo somente de obras que remontam às eras Asuka, Hakuho e
Tempyo, de 1.200 a 1.300 anos atrás, pôs-me simplesmente abismado, por
se ter logrado produzir, em épocas assim remotas, tão magníficas peças. O
que, em semelhantes oportunidades, sempre acho estranho é o fato de
apenas as Belas-Artes não se enquadrarem nas fronteiras do progresso.
Realmente, variadas coisas vieram acompanhando o desenvolvimento da
cultura e passaram por transformações vertiginosas. No caso das Belas-
Artes, no entanto, aconteceu o contrário, podendo-se afirmar que quase não
se verificou progresso algum. Verdade é que podemos detectar algo de
novo nas obras da atualidade, mas o consenso que reina, para sermos
sinceros, é de que essas jamais chegarão aos pés das antigas.

As artes japonesas têm suas origens na arte budista. Os primeiros


exemplares desta remontam a 1.300 anos, por volta da era Suiko.
Inicialmente, tomaram-se por modelos as imagens budistas da China. Neste
país, a Arte búdica alcançou o seu apogeu no período da Dinastia Wei do
Norte, há 1.500 anos antes, quando se produziram numerosas peças de
primeira categoria, hoje conhecidas como imagens budistas das Seis
Dinastias. Mais tarde, na época da dinastia T´ang, juntamente com outros
elementos culturais, a arte budista foi daí afinal importada pelo nosso país.
Justamente naquele período, o budismo conhecia os seus tempos áureos, e
foi em tal contexto que uma arte budista característica do Japão teve
nascimento. Além de tudo, a grande virtude da personalidade rara que foi o
príncipe Shotoku, conjugada com o seu dom inato para com a beleza, fez
abrir a flor esplendorosa da Cultura budista. A começar dos prédios do
templo Horyu-ji e das obras de arte a eles anexas, até a posterior construção
do templo Todai-ji, com a sua grande imagem do Buda, ela permanece
ainda hoje a resplandecer fulgurantemente sobre a Cultura antiga do nosso
país. A Arte budista progrediu gradualmente, passando pelas eras Asuka,
Hakuho, Tempyo, Konin, Fujiwara e Kamakura. Considero eu que
qualquer peça que se tome dessas épocas supera as chinesas, que lhe
serviram de modelo.

142
Mundo do Belo

As primeiras obras produzidas sob a inspiração da China foram as


imagens fundidas em bronze e folheadas a ouro. Ainda estas são melhores
do que as estátuas budistas das Seis Dinastias. O processo de execução
destas imagens passou, depois, pela fase da escultura em laca seca e, mais
tarde, em madeira. Na exposição da loja de departamentos Mitsukoshi, em
questão, os exemplares em laca seca foram os mais numerosos. Antes de
ver tal exposição, eu pensava que, em se tratando do acervo de um templo,
a tônica estaria nas estátuas de Avalokitesvara Bodhisattva, dos Budas
Amitabha, Sakya, Bhaisa-jyaguru, de Maitreya Bodhisattva e de Asura.
Para a minha surpresa, porém, constatei que tais imagens estavam,
praticamente, ausentes. Todavia, quanto à comentada estátua de Asura,
trata-se, na realidade, de algo extraordinário. Como o nome Asura indica,
eu esperava por uma imagem humana com o rosto de um demônio
horrendo. Inesperadamente, dei com a face de uma moça de dezessete ou
dezoito anos, fato que constituiu uma segunda surpresa para mim. Mas,
pensando bem, a estátua quer expressar a transformação de Asura em um
Buda, depois do arrenpedimento. Além dessa, são obras-primas
consideráveis as imagens, executadas em laca seca, dos Oito Grandes
Budas, em especial a de Karasu Tengu, e as dos vários Kumara. Mencionei
aqui o principal; parecia não haver, de resto, muita outra coisa digna de se
ver. Talvez pelos profundos vínculos deste templo com o clã Fujiwara,
houvesse um grande número de armaduras, capacetes, e armas brancas, o
que me fez considerar que tal espécie de acervo era algo não muito
condizente com a condição de um templo. No entanto, uma peça que não se
pode deixar de ver é um estojo de laca maki-ê, com fundo em aventurina e
estampas de flores silvestres. Seja pelo seu feitio, seja pela característica da
época, considerei-o uma peça simplesmente excelente.

Concluídos os comentários a respeito da exposição, pretendo tecer


algumas considerações sobre a Escultura budista do nosso país. Quanto às
imagens fundidas em bronze e folheadas a ouro, aquelas produzidas,
inicialmente, nas eras Suiko e Hakuho são as melhores do seu gênero, e eu
julgo que fazem jus à estima de que gozam, sob o nome de imagens
búdicas de Suiko. Tem tais obras um sabor diferente das chinesas, sendo o
seu elevado ar nobre uma característica peculiar do Japão. Com base
inclusive nesse aspecto, não seria exagerado dizer que o senso estético do

143
Mundo do Belo

japonês é o primeiro do mundo. Tomei ciência pelo relato de certa pessoa


relacionada nos meios artísticos, de volta de uma viagem pelo Ocidente, de
que este fato foi ultimamente reconhecido no exterior, o que me deixou
ainda mais seguro do meu conceito.

Passando, a seguir, à Escultura em madeira, existem obras


maravilhosas dentre aquilo que foi produzido por volta da era Tempyo. A
renomada imagem do Avalokitesvara Bodhisattava de Kudara trata-se
também de peça da mencionada época. Como já existe um conceito
formado sobre ela, julgo desnecessário fazer outros comentários.
Produziram-se depois, nas eras Konin e Fujiwara, obras consideravelmente
boas, mas, sem discussão, as melhores são as da Era Kamakura. A
Escultura budista em madeira, ao ingressar nessa era, atingiu, subitamente,
o seu ápice, com o seguido surgimento de grandes artistas e mestres, a
começar por Unkei, e com a volumosa produção de peças que, ainda hoje,
podem ser admiradas onde quer que seja.

Posteriormente, a partir da era Ashikaga, quase que nada se


produziu que mereça ser apreciado. Vale notar apenas um número razoável
de cópias de esculturas do estilo Kamakura, executadas por ocasião da era
Tokugawa. A partir da era Meiji, não mais surgiram escultores que possam
merecer o título de grandes mestres. À exceção de Gengen Sato
(conhecido, antigamente, pelos nomes de Tyozan e Seizo), ainda hoje
desfrutando de saúde, que é um mestre de renome, como raramente jamais
se viu. Eu amo suas obras. No futuro Museu de Arte de Hakone pretendo
expor algumas delas. Os senhores poderão comprovar o que digo, caso as
vejam. Sempre considero que o Japão é o primeiro país do mundo —
pondo o restante de lado — no tocanete à escultura em madeira. Sobretudo
no tangente às imagens budistas, produziram-se peças extraordinárias na
Antigüidade, a um ponto que chega a ser mesmo estranho. Quando penso
nessa colocação, tenho vontade de reunir de uma só vez o que de melhor
existe e expor aos olhos de toda a humanidade. Assim, difundir-se-á, em
âmbito global, o quão avançada é a cultura japonesa desde os tempos idos!
Por tal motivo, pretendo, algum dia, promover uma grande exposição de
arte budista. Quem a ela for, fará a descoberta de que, no Japão, desde
épocas remotas, existiram muitos Rodins.

144
Mundo do Belo

Eiko, nº 50 — 2 de abril de 1952

ANDANÇAS ARTÍSTICAS POR NARA

Desta feita, com o intuito de pesquisar e estudar a Arte budista do


Japão, dirigi-me à região de Nara e visitei, consecutivamente, inúmeros
templos famosos, colhendo significativos frutos. Assim, passarei a relatar
aqui, brevemente, as impressões que tive. As obras que vi abrangem as eras
Suiko, Asuka, Hakuho e Tempyo — de 1.200 a 1.300 anos antes — até as
eras Konin e Fujiwara. Sou tentado a dizer que tudo o que vi era
maravilhoso, a ponto de me pôr estupefato! Não fiz senão assustar-me
perante a infinidade de obras produzidas em épocas tão remotas, obras que
os artistas contemporâneos, talvez, jamais pudessem executar! Dentre elas,
as melhores seriam, sem discussão, as do Templo Horyu. Uma quantidade
imensa não só de estátuas fundidas em bronze e folheadas a ouro, de
estátuas esculpidas em madeira, moldadas em laca seca e em argila, bem
como de oratórios e objetos do culto religioso: apenas peças finíssimas que
não admitiriam nem mesmo uma comparação com o existente nos demais
templos. Em especial, a imagem do Avalokitesvara Bodhisattva de Kudara
deixa-me com o sentimento de render homenagem ao seu autor, quando
quer que eu a contemple. Outrossim, com relação aos comentados afrescos
que recentemente ficaram prontos, ainda não foram franqueados ao público
em geral, mas, em virtude de eu já os ter visto anteriormente, posso fazer
idéia de como ficaram. Ademais, só em apreciar as fotografias que agora
estão expostas, acorre-me a sua lembrança.

Além do que se relaciona ao templo Horyu-ji, sobre o que acabo de


descrever, não pude conter minha admiração, ainda, diante da imagem
principal do templo Yakushi-ji. Ao invés de eu gastar milhares de palavras
a descrevê-la, é aconselhável que o leitor a contemple diretamente. Envolve
ela uma técnica sobre-humana que transcende a expressão verbal.
Certamente, será impossível aos artistas da atualidade, por maior talento
que possuam, alcançar um mínimo que seja do que foi nela conseguido.
Além dessas, todas as demais peças encontradas nos outros templos
mereceriam ser chamadas de obras-primas. Permito-me, pois, omitir a sua

145
Mundo do Belo

descrição individual para dizer, ainda que tarde, que não é exagerado
afirmar que o Japão ocupa o primeiro lugar no tocante à escultura em
madeira. Os templos que desta vez percorri a ver foram o Todai-ji, o
Yakushi-ji, o Hoke-ji, o Horyu-ji, o Museu Nacional de Nara, além do
templo Ho-o-do, da Abadia Byodo, em Uji, e o Ishiyama, (estes últimos um
pouco distantes dos demais). A imagem de Buda do templo Ho-o-do é
representativa da escultura da era Fujiwara. É magnífica! O que pensei,
então, foi em reunir, em um só recinto, esse numeroso acervo de obras de
arte búdica antiga, de maneira a permitir que tanto japoneses como
estrangeiros tivessem fácil acesso à sua apreciação. Fiquei imaginando o
quanto tal empreendimento proporcionaria de felicidade e, também, o quão
proveitoso seria! Concomitantemente, o mesmo faria todos se
conscientizarem muito bem do quanto o povo nipônico se sobressai em
termos culturais, desde os tempos idos. Nesse sentido, espero edificar,
algum dia, um grande museu de artes em Quioto, a fim de tornar tal fato
manifesto com fidelidade.

Eis aqui um rápido relato desta minha última viagem. Além disso,
quero comentar, ainda, sobre a Escultura budista da Era Kamakura. Após
passar por um intervalo de repouso a partir da Era Nara, a referida
escultura, com o início da Era Kamakura, experimentou um súbito
despertar, descortinando um cenário esplendoroso. Desnecessário
mencionar que grandes mestres e artistas de renome surgiram
seguidamente, figurando, entre eles, Unkei, Kaikei e outros. O ponto em
que a escultura da Era Kamakura difere da Era Nara reside em ter sido
aquela quase que unicamente em madeira. Seu colorido, em especial,
progrediu muito, e passou-se a empregar, em sua decoração, a técnica da
filigrana, a qual entrou em grande voga, havendo, ainda hoje, muitas peças
nas quais foi empregada. Este trabalho apuradíssimo constitui algo digno
de louvor. Admiro-me sempre ao pensar em como foi possível, em
semelhante época, serem produzidas peças assim tão refinadas! No Museu
de Artes de Hakone serão expostas obras que merecem ser chamadas da
quintessência do trabalho em filigrana: quem quer que as veja ficará
pasmado.

Assim, dou, praticamente, por encerrado o relato a respeito da

146
Mundo do Belo

minha recente apreciação de Arte búdica. A propósito, no Japão, quase que


inexistem obras-primas de escultura que não as relacionadas ao budismo. O
único escultor famoso que constitui exceção é Jingoro Hidari, acerca do
qual existem muitas lendas curiosas. Pode-se afirmar que a maior parte de
sua obra não se encontra exposta aos olhos do público em geral, a não ser
O gato adormecido do mausoléu Tosho-gu, em Nikko. Contudo, há um
artista que aqui quero recomendar. É alguém ainda vivo: o escultor
Guenguen Sato. Inicialmente, tomou ele por nome Tyozan, chamando-se,
mais tarde, Seizo. Gengen é o seu terceiro nome, fato que o torna, nesse
sentido, alguém peculiar. Ele deve ter completado este ano, se não me
engano, 83 ou 84 anos. Considero-o um grande mestre como jamais houve
desde os tempos antigos. Gosto das suas obras e pretendo expor algumas
que tenho por excelentes no museu de artes. Quem as vir, compreenderá o
que digo.

Eiko, nº 156 — 14 de maio de 1952

147
Mundo do Belo

VIII — A RESPEITO DE EXPOSIÇÕES

INDO A EXPOSIÇÕES (I)

Ultimamente, depois de um bom tempo, fui a duas exposições em


Ueno. Uma é a Exposição do Instituto Japonês de Artes, a outra, a Nikakai.
Fui vê-las por pensar que ambas eram representativas da atual pintura das
regiões Leste e Oeste do Japão. Escreverei aqui, nua e cruamente, a exata
impressão que delas tive. Até hoje vi uma infinidade de exposições.
Entretanto, jamais fui tomado por tão estranho sentimento como o de agora.
O desespero e a tristeza acabaram por enegrecer o meu coração. No Japão,
a Pintura, ou melhor, a Pintura a óleo já não mais existe. Já não é mais
possível deparar-se com a Arte da Beleza. Por maior que fosse a
complacência com que eu visse os quadros que hoje vi, a impressão que
deles tive foi a própria desesperança, foi uma estranha confusão. Algumas
peças poderiam ser chamadas de pinturas; a maioria, contudo, não passava
dos mais esdrúxulos e monstruosos quadros.

Primeiramente, começarei por registrar as impressões que tive ao


ver a Exposição do Instituto Japonês de Artes. Recordando o passado, esta
exposição, nos seus primórdios, avançava inquestionavelmente à frente do
mundo da Pintura, tendo aberto uma modalidade particular de novos
horizontes, arcando com a glória do pioneirismo da época. Este é um fato
sabido por todos. Escusado dizer que chusmas de artistas, insatisfeitos com
o antigo estilo da época, saíram em carreira desabalada — como o fazem as
mulheres atrás da moda — visando à Exposição do Instituto, e acabaram,
um dia, por alcançá-la. Dentre eles, surgiram sangues puros distintos, que
se tornaram pintores de nome, ocupando posições de liderança nos meios
artísticos. Todavia, curiosamente, os passos da Exposição tornaram-se
lentos como os do seu velho manda-chuva, e o marasmo vagueia por entre
os artistas que a ela aspiram.

OBSERVANDO OS PINTORES DE QUIOTO

Vamos dar, aqui, uma espreitada pelo que hoje se passa com o
círculo de pintores de Quioto. Seiho Takeuchi dominava, então, esse meio,

148
Mundo do Belo

com a majestade de um rei. Tinha-se a impressão do país inimigo do Oeste


a fazer oposição a Taikan, no Leste. Naturalmente, os pintores dotados de
Quioto seguiam Seiho. Entrementes, sua morte veio expor a situação de
desamparo em que caiu a sociedade pictórica de Quioto: um cego que
perdeu a sua bengala. Nesse período, os únicos que não se inspiraram em
Seiho, desenvolvendo uma técnica própria, foram os dois gênios —
Kansetsu Hashimoto e Keisen Tomita. Pesarosamente, quando mais
prometiam, vieram a falecer.

Agora, ao passarmos a vista sobre os pintores do Leste e do Oeste,


devemos dizer, infelizmente, que quase não encontramos quem tenha
futuro. De fato, caso nos esforçássemos em procurar, apontaríamos, em
Tóquio, Kokei, Yukihiko, Seison, Ryushi e Yuki; no Oeste, Heihachiro e
Insho. Realmente, eles atingiram as regiões da habilidade, mas quer-me
parecer não estarem capacitados, ainda, à liderança. O porvir mostra-se o
mais preocupante possível, sendo inevitável que nosso apetite de
apreciação se afaste da pintura contemporânea. O único pintor que resta é
Gyokudo. Inquestionavelmente, no que concerne à sua técnica, ele não se
põe atrás nem de Taikan nem de Seiho. Sua personalidade desprendida, a
que nada cobiça, fá-lo buscar refúgio solitário nos ermos de Okutama,
onde, sem contato com o mundo, entrega-se inteiramente à Pintura. Hoje,
tal fato é suficiente para que o consideremos um grande homem. Faço
votos de que ele leve, serenamente, o restante de seus dias, como o tesouro
nacional vivo que é. Ao passar, desta maneira, uma revista pela situação da
pintura nipônica, não serei eu somente a julgá-la desoladora.

Faz-se mister, no momento, aprofundarmos nossa discussão.Taikan,


em virtude da sua idade avançada, perdeu o vigor de antes, enquanto Seiho
já é falecido. Caso não surjam grandes mestres aptos a substituir estes dois
grandes modelos, a pintura japonesa, sem dúvida, virá a estagnar-se. Neste
estado de coisas, foi preciso descobrir um novo curso para ela. A época, ao
mesmo tempo, começou a corroborar esse acontecimento. Ou seja,
procurou-se vida nova na pintura ocidental. Todavia, tal busca não passou
de um autoconsolo passageiro, que aniquilou a vida da pintura japonesa.

149
Mundo do Belo

AS OBRAS HODIERNAS

Vejam as obras de hoje! O que acontece é a mera substituição dos


pigmentos japoneses pela tinta a óleo. Este artifício é matar-se, quando a
intenção era vivificar-se. Conquanto a categoria dos pintores de baixo nível
contente-se com tal absurdo, à camada elevada é impossível adotar
semelhante moda frívola. De outro lado, entretanto, também não
conseguem transcendê-la. É por se debaterem com o dilema de serem
tratados como artistas defasados. Tal fato manifesta-se claramente em sua
obras, nada se podendo fazer. Além disso, para que se assegure a existência
da Exposição, não poderiam faltar as obras do mandachuva e da trindade
que o cerca. Essa desculpa deslavada aparece nas telas, e o resultado é algo
mortiço ao extremo. Não poderíamos evitar de sentir uma vaga tristeza.
Como comentam por aí, Taikan ficou decrépito. Depois de ver a sua última
obra que tem Naruto por tema, não posso negar o que foi dito acima. Não
há nada de inovador na sua tela. São as mesmas velhas rochas negras
retratadas a nanquim e as ondas do mar pintadas com pigmentos de
colorido água-marinha. Há dois redemoinhos formados pela água que corre
para um lugar mais baixo: por mais que se veja, é esquisito. Pensei que se
tratava de algo com um pouquinho mais de engenhosidade. Não serei
somente eu quem julgue que peças suas, nesse estilo, eram dez vezes
melhores há alguns anos atrás. Outrossim, se o quadro de mulher com vaso,
de autoria de Kokei, não trouxesse sua assinatura, passaria desapercebido.
O retrato do mestre Taikan, de Yukihiko, até que não é mal, mas as carpas
de Seison são medíocres.
A PEÇA QUE DESPERTOU A MINHA ATENÇÃO

Nesta Exposição, houve uma única peça que despertou a minha


atenção. Foi o quadro de um vaso com flores, de Yukijo Ogura. Seu núcleo
é composto por três gardênias de pétalas dobradas, as quais jazem num
vaso de porcelana vermelho, ladeadas por mais duas ou três outras flores. É
de se elogiar tanto a composição quanto o colorido. É de uma maestria
invejável, sobretudo, o artifício utilizado de tingir com nanquim esvaecido
os espaços, pondo o objeto retratado em relevo. Termina, aqui, o relato fiel
das minhas impressões.

150
Mundo do Belo

Eiko, nº 70 — 20 de setembro de 1950

INDO A EXPOSIÇÕES (II)

A Exposição Nikka-kai, que vi a seguir, me deixou pasmado. Meu


cérebro ficou revirado, com ódio, pessimismo e confusão. Não estão eles
em busca da Beleza. Beleza ou coisa que lhe valha, são-lhes desconhecidas.
Só vi a feiúra. Só o ato de ver já me foi penoso. Que fiz eu para sair de tão
longe, com este calor, e sofrer? É o maior absurdo do mundo que alguém
passe por raiva ao ver pinturas. Cheguei mesmo a pensar que melhor seria
eu jamais ter ido àquele lugar. Para ser franco, aquilo nunca foi pintura.
Não vi beleza nem arte alguma. O que havia eram apenas objetos planos,
muitíssimo monstruosos. Usualmente, a tela é a expressão da Natureza.
Não é nada mais nada menos que o ato de tornar mais bela e atraente a
beleza natural, por intermédio da arte. Nus semelhantes a cadáveres,
multidões parecidas com fantasmas. Era o retrato do próprio inferno. E não
parava nisso: cruzamentos de linhas geométricas e o louco bailar de cores
berrantes. Que desfaçatez em expor com orgulho tanta aberração, como se
fosse pintura! Eu não posso deixar de lamentar o desperdício de tintas e
telas. Tentei entender o estranho estado psicológico desses artistas, mas não
me foi possível. Minha mente começou por ficar irritada. Pensei até que tal
arte consistia num tipo de crime. Minha cabeça ficou esquisita. Não mais
agüentei continuar vendo aquilo. Deixei o recinto. Senti-me aliviado ao
olhar para o céu azul de começo de outono de Ueno. Senti-me como que
salvo. Meditei profundamente sobre a Pintura a óleo moderna que acabara
de ver. Trata-se de um abuso. Entrou-se por um meandro e ainda não se
deu conta disso. Buscou-se, demasiadamente, um novo senso. São doentes
graves do sadismo estético. É uma moléstia que começou a ser disseminada
por Picasso da França. Mesmo eu não deixo de compreender um Matisse,
um Rouault, ou um Bonnard. Em se tratando de Picasso, contudo, eu sou
um verdadeiro leigo. Terminaram nesse estado por terem tido sua alma
inteiramente dominada pela expressão da personalidade. São fantasmas da
sua personalidade. Em outras palavras, são almas penadas do subjetivismo.
Almas penadas do subjetivismo não são apenas os pintores de hoje. Vagam
elas por toda a parte, mas os pintores, em especial, são as de mais difícil
trato. Pelos meus humildes estudos, os chamados grandes mestres e artistas

151
Mundo do Belo

de renome da época que se estende, na China, desde a dinastia Sung e, no


Japão, a partir da era Ashikaga, até os dias de hoje, jamais, sem exceção, se
desviaram do objetivismo. Seu rigoroso subjetivismo esteve envolvido pelo
objetivismo. Exemplificando, o subjetivismo seria o esqueleto, no caso do
homem. Por envolverem a carne e a pele aos ossos é que há a beleza do
objetivismo. Todavia, a Pintura a óleo de hoje é destituída da pele e da
carne. O que há são ossos expostos. Não existe Beleza nem Arte. Caso
persistam nessa sua cegueira, eles acabarão por se arruinar. Por estar ciente
de tal fato é que lhes apresento meu conselho amargo.

No caminho de volta para casa, vi a Exposição Seiryu. Fazendo jus


ao título de Padroeira da Arte de Ambiente, de fato, nela se dispunham,
apertadamente, telas imensas. Eximindo-me de contemporizações, a
impressão que tive foi de um marasmo geral, não havendo indício algum de
progresso. Sintetizando, tudo era por demais ruidoso. Era verborragia. Um
"jazz" de cores. Algo que simplesmente causava vertigens. Todos os
quadros haviam sido exageradamente pintados. Depois de vê-los, não se
apreciava um sentimento parecido com a ressonância, tampouco
inspiravam serenidade. Eram de um exibicionismo maníaco. Reconheço
que a excentricidade também tenha seu lugar. Compreendo a intenção de se
querer extrair a beleza daquilo que passa desapercebido. Todavia, se tal
atitude venha a ignorar as regras da pintura, não tem sentido. A agonia de
tentar transformar em pintura o que a ela não se adequa, não pode deixar de
irritar o apreciador. O incêndio do pavilhão Kinkaku-ji, de autoria de
Ryushi, é passável. Peço vênia, no entanto, para lhe dar um conselho. A
condição absoluta da pintura é a nobreza. É a sua dignidade. Vendo a
Exposição Seiryu, não pude evitar a sensação de que nela faltava tal
atributo. Ela está ainda por demais apegada à arte de ambiente. O que é isso
senão uma heresia? Caso se queira proporcionar satisfação ao ser humano
por meio da Beleza, é impossível desviar-se da decoração de interiores. A
arte que não dá prazer, exceto em exposições, perde metade de seu valor
como tal. É o fantasma do apego. Indo mais além, diríamos que não é outra
coisa senão um capricho do artista. Foi por pensar em você que me permiti
falar duramente, sem acanhamento.

Em suma, desejo dizer a vocês, pintores, que a sua atividade se

152
Mundo do Belo

defronta com um muro, sem encontrar saída. Enquanto não ultrapassarem


essa parede, a única coisa que os espera é o horrível fado da autodestruição.
Em especial, digo a vocês, pintores do estilo ocidental, que é vergonhoso
querer atrair o público com o tamanho das telas, o peso das pedras ou a
dança. O que seria tal atitude senão o gemido do artista que sofreu boicote
por parte do ser humano?

Eiko, nº 71 — 27 de setembro de 1950

VENDO A EXPOSIÇÃO DE PICASSO

Tendo outro dia ido a Tóquio, ouvi dizer que uma exposição das
obras de Picasso estava sendo realizada na loja de departamentos
Takashimaya. Considerando a ocasião oportuna, fui até lá para ver e
escreverei, agora, as minhas impressões. Depois de uma primeira circulada,
quedei-me abismado. Julgava eu próprio que, em vista de se tratar de um
grande mestre como Picasso — de quem se deve dizer que é uma enorme
existência de caráter mundial —, a exposição seria decerto algo
maravilhoso. Ademais, comentava-se muito bem a respeito: nos jornais os
críticos eram unânimes em seus elogios. Assim, minha expectativa era
considerável, levando-me a contemplar atenciosamente as peças expostas.
Não obstante, devo confessar que, por mais que visse, menos entendia.
Sendo fiel na descrição do que senti, digo que, primeiramente, me
perguntei se aquilo era pintura. Afinal, onde está a Beleza? O que há de
apreciável naquilo? Haveria alguém que experimentaria deleite em decorar
com aquilo uma sala? Assim, por mais que cogitasse, nada podia
compreender.

Para ser franco, questionei-me onde estaria a alma, como pintura,


daquele colorido berrante e geométrico, que mais parecia desenho de uma
criança. Por ter sido um grande artista como Picasso quem pintou, sem
dúvida deve haver algo em algum lugar. Contemplei fixamente suas obras,
com o intuito de investigar o estado psicológico do autor, indagando-me a
respeito de qual fora o seu objetivo. Não obstante, meus esforços foram em
vão. Quanto às suas figuras humanas, o que vi foram olhos, narizes, bocas e
troncos quasimodescos, membros ora torcidos, ora feitos aos pedaços.

153
Mundo do Belo

Posso estar empregando uma comparação cruel, mas aquilo eram cadáveres
de vítimas de atropelamentos ou de uma explosão atômica. E digo que não
serei o único a achar assim. Sinto imensa compaixão do grande público, ao
qual foi impingido ver tamanho despropósito. Talvez ninguém tenha
entendido coisíssima alguma, ainda que visse tais quadros consciente de
estar frente a frente com um Picasso, bem diante de uma obra-prima de
renome mundial. Todavia, apenas sentindo estar diante de peças, sem
dúvida, maravilhosas, ninguém deve ter captado o que era bom e o que era
ruim nelas. Como se diz usualmente, a maior parte das peças não passou de
pérolas lançadas aos porcos — o que, aliás, talvez nenhuma outra pessoa
hoje, no Japão, diga assim, tão direta e sinceramente. Acredito ser somente
eu. Ficando por aqui no que diz respeito à pintura, passemos às peças de
cerâmica. Embora fossem um tanto quanto excêntricas, irradiavam um não
sei quê, como um sabor da época, dinâmico e penetrante, difícil de se
desprezar. Apesar disso, a mim me quer mesmo parecer que as obras dos
novos ceramistas japoneses da atualidade são superiores.

Por que, então, tais obras de Picasso são alvo de louvores em nível
mundial? Há um motivo e tanto. Para elucidar esse fato, é preciso, antes de
mais nada, começar pela discussão da Educação atual. Hoje, como acontece
nos demais países, a Educação Artística vem sendo tratada com um enorme
descaso. Como todos sabem, primeiramente, na Escola Primária, os alunos
são ensinados a fazer desenhos, trabalhos de argila e brinquedos de madeira
simples. Do ginásio em diante, ensina-se alguma coisa de Pintura
Ocidental, como esboços, e o que se mostra aos alunos são ou modelos já
batidos ou pinturas executadas pelo professor. Depois de se formar, se a
pessoa não é alguém com profundo interesse pelas Artes, o que ela vê,
geralmente, são ilustrações de jornais ou os quadros pendurados nas salas
de visitas dos conhecidos. Fora isso, seu contato com a Arte, durante um
ano, resume-se a uma ou duas críticas lidas nos jornais ou a uma visita a
algum museu, a convite de um amigo. É possível, portanto, afirmar que
quase não se possui um conhecimento artístico na verdadeira acepção.
Ademais, indivíduos que se relacionam com as Belas-Artes, como os
especialistas e diletantes, ainda que queiram saciar seu apetite, não
encontram, no Japão de hoje, órgãos aptos a contentá-los. Assim, supondo-
se que algum deles quisesse agora ver, de qualquer maneira, obras-primas

154
Mundo do Belo

da Pintura antiga e moderna, tal desejo seria impossível. Ao contrário, em


se tratando de peças famosas da Pintura Ocidental, o japonês pode apreciá-
las à vontade, caso vá ao exterior, em virtude de lá existirem museus
completamente aparelhados. Desta maneira, a realidade é que, com respeito
à Arte Oriental, ou seja, às pinturas chinesa e japonesa, não se tem acesso a
ela, a não ser a uma mínima parte. De fato, existem museus e galerias
particulares, mas, nos primeiros, a tônica está nos fatores histórico e
arqueológico. Do ponto de vista artístico, seu conteúdo é fraquíssimo. Se o
estrangeiro quiser apreciar a Arte antiga nipônica e se dirigir a um museu,
sou forçado a acreditar que, na maioria dos casos, ficará decepcionado,
perguntando-se se aquilo é que é Arte oriental. Além do mais, como
durante o ano inteiro os museus expõem as mesmas peças, é mínimo o
número de seus visitantes, somente indo vê-las aqueles que — mesmo
japoneses — têm um motivo muito especial. Reconheço que, nos museus, a
Arte budista, e somente ela, é encontrada satisfatoriamente, existindo neles
peças magníficas em profusão. Todavia, para o leigo — que é a figura
principal — há insuficiência de pinturas ou de outras obras artísticas
facilmente compreensíveis e que lhe estimulem o interesse. Dessa maneira,
é completamente inviável despertar o grande público para uma visão
artística. Assim, por mais rico que seja o histórico de determinada obra de
arte antiga, se ela é apresentada como um livro didático, que se devesse ler
com vincos na testa, ninguém se sentirá à vontade para apreciá-la com
deleite. Conseqüentemente, jamais crescerá o número de indivíduos
familiarizados com a Arte. É mister, portanto, estudar amplamente este
ponto. Ademais, desnecessário frisar que, como a Arte antiga também
constitui objeto de orgulho para a Nação, deve-se não apenas ter apreço por
ela, como, ainda, arranjar meios de conservá-la muito bem.

Temos, além disso, os museus de Arte de propriedade privada, os


quais realizam em Ueno, na primavera e no outono, variadas exposições
com o intuito de apresentar seu acervo artístico ao público. Neles,
tomando-se apenas as obras de Pintura, constatamos não somente serem
extremamente numerosos os quadros japoneses de Pintura ocidental, como
também o fato de não terem saído eles do território da imitação do
Ocidente. Pouquíssimas são as obras que merecem ser vistas com cuidado.
Entrementes, no que concerne à pintura japonesa, esta se encontra em

155
Mundo do Belo

estagnação, podendo-se dizer que a maior parte das suas peças permanece
nos limites da pintura a óleo, na qual se empregaram pigmentos nipônicos.
Ademais, os grandes mestres, pela sua posição, caem no dilema de estarem
impedidos de acompanharem a moda, de um lado, e, de outro, de não
obterem o reconhecimento do público, com o emprego dos seus métodos
tradicionais. Tal fato transparece perfeitamente nas suas obras. Até o
outono do ano passado, nunca deixei de comparecer às exposições dessa
estação, porém, este ano, por não sentir vontade, acabei por não ir. A tal
ponto, perdi o interesse em ver essas obras.

Este é o registro das minhas impressões fiéis acerca da Arte nos


dias de hoje. Como se pode ver, por não receber — no sentido verdadeiro
— educação artística, a capacidade do japonês contemporâneo de apreciar
as Artes é praticamente nula. Desta maneira, ele julga que certa peça é boa,
por ser essa a opinião alheia. Em vista de os jornais elogiarem
desbragadamente um artista, ele é levado a acreditar que este é
maravilhoso. Invade as exposições por considerar que, se a elas não acudir,
ficará por fora da moda. Verifica-se, nesse fato, justamente o que acontece
com os filmes que são sucessos de bilheteria: um tipo de efeito advindo da
popularidade. Neste sentido, é possível afirmar que tanto Matisse quanto
Picasso constituem existências grandemente agraciadas na atualidade.

Como foi exposto, a Educação Artística — o elemento mais


deficiente do atual sistema educativo — deve ser amplamente incentivada.
Ademais, tal aprendizado corroborará para o cultivo do pacifismo. A visão
artística é o ideário comum da humanidade, e, no futuro, dever-se-á
proceder intensamente a um intercâmbio de obras de arte em âmbito
internacional, o que, outrossim, surtirá um grande efeito na prevenção do
comunismo. Neste sentido, eu julgo que se deve incentivar grandemente,
em nível social, a Educação Artística, elevando o interesse popular pelas
Artes. Além disso, caso o interesse artístico, até hoje propriedade exclusiva
das classes privilegiadas, seja ampla e igualmente difundido entre as
massas populares, esse fato será um considerável empreendimento social, o
que ainda irá constituir um estímulo para o artista. A sociedade, tornando-
se apta a avaliar corretamente essas obras, proporcionará que os círculos
artísticos levem a cabo um desenvolvimento sadio. Somente desse modo

156
Mundo do Belo

surgirão, infalivelmente, neste país, obras-primas de nível mundial. No que


tange a tal colocação, penaliza-me hoje o fato de as obras de artistas
atualmente vivos, como Matisse e Picasso, serem badaladas no Japão. Ao
meditar nisso, desejo veementemente que, um dia, o mais breve possível, as
obras dos artistas japoneses, expostas nos Estados Unidos e na Europa,
sejam alvo de grande algazarra.

Finalizando, pretendo escrever um pouco sobre um assunto


particular. Trata-se dos museus de Hakone e de Atami, atualmente em
construção. O de Hakone tem sua conclusão prevista para até o verão do
ano vindouro. Escusado dizer que o seu principal objetivo reside — como
já foi anteriormente exposto — em suprir a deficiência da Educação
Artística, por intermédio do cultivo intenso de uma visão artística em todo
o indivíduo japonês. Em vista disso, planejo expor peças que sejam
compreensíveis ao público em geral e, concomitantemente, reunir obras de
primeira categoria, de modo a satisfazer as mais prementes exigências dos
especialistas. Naturalmente, a tônica será posta na Arte oriental, com a
seleção das obras-primas dos grandes mestres de cada época — da
Antigüidade até a atualidade, visando-se, assim, a um conteúdo bem rico.
No momento, o seu alvo foi focalizado no japonês, mas, futuramente,
pretendo tornar ambos grandes museus dos quais nos possamos orgulhar
perante o mundo inteiro, fazendo deles o símbolo dos sonhos dos
profissionais, dos diletantes e do grande público de todos os países do
Globo.

Eiko, nº 35 — 19 de dezembro de 1951

A PINTURA JAPONESA: HOJE PRESTES AO FENECIMENTO

Recentemente, fui ver as exposições, que ora acontecem, do


Instituto Japonês de Artes e da Sociedade Seiryu. Não poderia ficar, jamais,
sem referir as impressões daquilo que eu vi; razão pela qual aqui as
escrevo. Tratarei, primeiramente, da Exposição do Instituto Japonês de
Artes. Ao entrar no recinto da mostra, fiquei surpreendido. Pensei ter-me
equivocado e não me achar no lugar certo, porque ao lado realizavam-se as
exposições da Associação Nikakai e da Sociedade de Artes Kodo.

157
Mundo do Belo

Entretanto, olhando com atenção, vi que as peças haviam sido executadas


não com tinta a óleo, mas sim com pigmentos japoneses. Certifiquei-me,
por isso, estar mesmo na exposição do Instituto, sem, contudo, poder
convencer-me de todo. Aventei a possibilidade de se tratarem de obras
criadas por algum artista plástico cuja especialidade fosse a pintura
ocidental, o qual começara a empregar os mencionados pigmentos.
Entrementes, ao ingressar na sua terceira sala, defrontei-me com uma peça
de Taikan. Convenci-me, finalmente, estar de fato numa exposição do
Instituto, e, ao mesmo tempo, fui invadido por um sentimento de indizível
tristeza. Se se tratasse de uma exposição de artistas de fama recentemente
adquirida, aquilo ainda seria desculpável. A do Instituto, contudo, além de
registrar uma história relativamente antiga, trata-se de um dos pilares da
pintura japonesa moderna. Há quarenta anos, Tenshin Okakura, com o
propósito de reabilitar Korin na atualidade, reuniu, sob as asas de seu
ímpeto incontido, Taikan, Shunso, Kanzan e Buzan, escolhendo-os como
seus quatro principais discípulos, e lançou um gigantesco petardo em
direção à sociedade da pintura japonesa, que, até aquela época, não lograra
desvencilhar-se da carapaça da tradição. A ousadia e a acuidade dos planos
do mestre Tenshin foram verdadeiramente revolucionárias. Como era de se
esperar, os pintores puseram-se em movimento. No início, a reação não foi
tão intensa, pois ele não obteve o reconhecimento geral. Todavia — como é
fato conhecido — as atenções foram atraídas pela Escola Tenshin e,
finalmente, sua existência tornou-se a figura dileta dos círculos da Pintura
japonesa. Para compensar, em Quioto, apareceu outro grande gênio. Seu
nome, Seiho Takeuchi. Sua técnica sobre-humana, dotada de um sabor
diverso do da Escola Tenshin, dominou as atenções. Em parelha com
Taikan, têm-se aqui os dois leões do Leste e do Oeste. Lamentavelmente,
porém, traindo as expectativas nele depositadas, Seiho morreu. E não foi
só. Kansetsu — aquele que era considerado o seu herdeiro — também veio
a falecer. Faleceram prematuramente, ainda, Keisen e Bakusen. Desta
maneira, o mundo da Pintura japonesa deslocou-se para o Oeste, onde, até
hoje, permanece. No que diz respeito às exposições, restaram apenas duas:
a promovida pelo Instituto de Artes e a realizada pela Sociedade Seiryu.
Portanto, se a primeira, que, no caso, é a cabeça do par, reduziu-se ao que
foi descrito, a Pintura japonesa encontra-se frente a frente com uma grande
calamidade.

158
Mundo do Belo

Passemos, a seguir, para a Exposição Seiryu. Também esta em nada


mudou, não se acusando nela quase que progresso algum. No que toca à
peça Ryorobon, de autoria de seu mandachuva — Ryushi —, para falar sem
cerimônia, trata-se de um fracasso. O ponto passível de maior reprovação
nesta obra reside, sobretudo, no estorvo representado pelo contorno negro
que tudo circunda. Ouvi dizer que não foi pintada com tinta nanquim
convencional, mas com uma obtida da carbonização de não sei que matéria.
Seja como for, o que se pode declarar é que acabou por estragar a tela
inteira. No instante em que vi tal quadro, julguei que seria uma boa obra, se
tivesse sido executada a nanquim diluído. Farei agora a crítica global da
exposição. Apreciando o conjunto (se se trata de arte de ambiente, não sei),
o que digo é que a maioria das peças ignora por demais o foco. Fazendo
uma avaliação negativa, são muitas as obras que se assemelham a papel de
parede. Ademais, também pobres em senso estético: a maioria das peças
assume o feitio de esboços. O que é certo é que carecem de profundidade e
de nobreza, estando completamente ausente nelas o sopro vital da Pintura
do Oriente. Em relação a esse aspecto, no que tange a esta exposição,
considerei as obras de menor porte infinitamente melhores.

Por último, manifesto o que espero de Ryushi. É plausível afirmar


que a sua técnica é uma das primeiras. Contudo, ao contrário do que era de
se desejar, tal fator o atrapalha. Pela tendência de pintar de forma
excessiva, levado por extrema habilidade, a tela — no conjunto — torna-se
agitada, desprovida de calma e parcimônia. Inquestionavelmente, a
natureza da Pintura oriental está na estabilidade e não no dinamismo. Este
último, de fato, é tolerado pela época. Contudo, virando "jazz", põe-se tudo
a perder. Outrossim, seus esboços sobre viagens estão interessantes,
causando deleite. Apontando o seu defeito, entretanto, também neles o lápis
trabalhou demais. Acho que seria melhor que fossem um pouco mais
suaves… Como já disse antes, os eloqüentes, embriagando-se com o prazer
do discurso, desviam-se do assunto, falando até o desnecessário. Creio não
ser somente eu quem pense assim.

Quero discutir, na íntegra, a seguir, sobre a pintura japonesa


contemporânea no seu todo. Tratemos, inicialmente, dos seus temas

159
Mundo do Belo

recentes. Convenhamos que, hoje, temas como Dharma, Arahan, Hanshan e


Shiht'e, Putai, dragões, paisagens chinesas e outros estão muito batidos, não
se adequando à época. Todavia, esboços do nosso cotidiano também não
aguçam o interesse. Tomemos o exemplo de objetos desprovidos de
qualquer beleza, como os que existem aí pelas ruas ou no interior de nossas
residências. O fato de serem eles pintados com o objetivo de torná-los belos
à força, não seria em vão? Penso que, por maior que seja a habilidade com
a qual tenham sido retratados, não provocarão nenhum fascínio em quem
os contempla. Talempenho, ainda, talvez, consista no resultado da imitação
da pintura ocidental. Contudo, em se ignorando as regras da pintura
japonesa como tal, esta perde o que tem de bom. Portanto, escusado dizer
que, na escolha da temática, é mister tomar algo que possua nobreza
artística. Com relação a este aspecto, deve haver uma infinidade de temas,
em vista da excelência da paisagem japonesa e da abundância de espécimes
de sua flora. Devo observar, todavia, que o tratamento dispensado ao tema
sobre flores — retratadas com freqüência pelos grandes mestres da
atualidade — e demasiadamente água-com-açúcar. No caso das mesmas, é
uma lástima que sejam poucas as peças cuja apreciação causa impacto,
como acontece com as da Escola Korin.

Outrossim, como foi veiculado pelos jornais, promover-se-ão em


cinco metrópoles norte-americanas, a começar por Washington, exposições
de arte japonesa antiga. Os encarregados de tal empreendimento, o Sr.
Wenry, Diretor do Museu Freyer, e o Sr. Priest, Chefe do Departamento de
Arte Oriental do Museu Metropolitano de Nova Iorque, por ocasião de sua
vinda a este país, visitaram individualmente o Museu de Arte de Hakone.
Na oportunidade, entrevistei-me, pessoalmente, com eles. Ambos os
senhores não demonstraram interesse pela pintura japonesa contemporânea.
Apenas não pouparam elogios ao rolo de autoria de Seiho, retratando
pardais e bambus. Chegaram mesmo a dizer que o queriam adquirir.
Ademais, os dois senhores são considerados autoridades nos círculos
artísticos dos Estados Unidos da América, e eu levei um susto com a
agudeza de seu senso de apreciação. Posteriormente, o doutor Warner
também veio ao Japão. Tínhamos um encontro marcado, mas, em virtude
do seu cansaço (pois ele já está em idade avançada), fomos obrigados a
cancelar o programa, deixando para outra oportunidade.

160
Mundo do Belo

Há aqui um fato que necessita ser suficientemente ponderado. O


julgamento dos norte-americanos não se deriva da obsessão por
antigüidades, ao afirmarem que as obras recentes nada valem, ou que as
peças antigas são preciosas. Eles amam as obras de arte antiga, apreciando-
as, realmente, de uma perspectiva imparcial. Com respeito a este ponto,
também eu penso de maneira idêntica, sem questionar a idade das peças de
arte. Para mim, basta que tenham sido bem executadas e que me agradem.
As pinturas antigas, porém, são infinitamente superiores, enquanto as
recentes são medíocres, a ponto de não se poder estabelecer um cotejo entre
elas. Segundo os diletantes norte-americanos, as peças dos grandes mestres
franceses atuais alcançam valores extremamente altos, sendo
disputadíssimas. Em contrapartida, na exposição internacional
recentemente realizada na França, os óleos pintados por japoneses não
tiveram boa aceitação, o que mostra que a pintura ocidental do Japão
decididamente não chegou a um nível mundial.

Entrementes, no que tange à pintura japonesa, por se tratar da arte


máxima particular do Japão, em âmbito mundial, seria uma opção
inteligente que se envidassem mais esforços nela. Todavia, provavelmente,
por não se darem conta de tal necessidade, os artistas nipônicos de hoje
ocupam-se inteiramente em ficar copiando, com ardoroso esforço, a pintura
a óleo. Assim, por melhores que saiam tais obras, não passarão, afinal, de
meras imitações. Portanto, nesta oportunidade, reformulando o mais rápido
possível sua maneira de pensar, seria aconselhável que se dedicassem com
decisão e exclusividade à pintura japonesa. Desnecessário dizer que se deve
ter como meta a produção de obras-primas que ultrapassem as peças
antigas. Caso sejam elas expostas nos palcos do mundo, posso afirmar, sem
hesitação, que o que acontecerá é que os artistas plásticos estrangeiros
virão atrás da pintura nipônica, introduzindo o seu estilo na especialidade a
óleo. Com respeito a tal atitude, desejo que vocês recordem um fato. É
sobre a Pintura ocidental hodierna, a qual devotam a sua adoração. Saibam
que as suas raízes acham-se na sugestão retirada da obra de Korin, as quais
evoluíram até atingir o estágio atual. Na primeira metade do século XIX,
quando o estilo renascentista avançara até alcançar o seu cume — o
Realismo —, ela acabou por entrar num beco sem saída. Quem,

161
Mundo do Belo

subitamente, despertou esses artistas foi Korin. Graças a esse impulso, o


mundo da pintura ocidental de então foi repentinamente convulsionado. Ao
constatar tal grandeza de nossos ancestrais, deploro imensamente a
mediocridade dos pintores modernos.

Dias atrás, a senhora Davit, diretora da Unesco francesa, visitou o


nosso museu, e a peça de que mais gostou foi a famosa xilogravura ukiyo-e
pintada à mão, A banhista, da Era Momoyama. Comovida por esta obra, a
referida senhora revelou seu desejo de reproduzi-la e, com ela, apresentar,
nas sedes da Unesco espalhadas pelo mundo inteiro, a natureza superior da
cultura japonesa. Recentemente, recebi o pedido oficial do Departamento
de Assuntos Culturais da Unesco, via Ministério dos Assuntos Estrangeiros
do Japão, o qual deferi de muito bom grado. As reproduções estão sendo
executadas pela Ohtsuka Kogeisha. O que lamento, em semelhantes casos,
é o fato de a Pintura atual ser completamente ignorada.

Vim escrevendo, desordenamente, as minhas impressões, mas, em


suma, a pintura japonesa confronta-se agora com o instante decisivo de
vida ou morte. Desejo veementemente que, o mais rápido possível, possa
ela escapar deste perigo. Outrossim, na presente exposição do Instituto
Japonês de Artes, o que me surpreendeu foi o fato de Taikan — aquele que
manteve até hoje uma posição de liderança inabalável, sem sujeitar-se aos
caprichos da moda — ter adotado um estilo de pintar à moda ocidental
extremamente sem seriedade. Vendo semelhante insensatez, não pude
evitar que meus olhos se umedecessem.

Finalmente, desejo ardentemente escrever sobre o que penso acerca


das pinturas oriental e ocidental, de um amplo ponto de vista. Considero eu
que a pintura japonesa é a que consiste na verdadeira Arte. Julgo não se
poder afirmar que a pintura ocidental seja Arte. Antes de mais nada,
tomemos as formas como são tratadas. A pintura japonesa existe com o
objetivo de ser ela própria apreciada, para o que existe o tokonoma.
Ademais, conforme a mudança das estações, procede-se à sua substituição.
Opostamente, os quadros de Pintura ocidental são apenas
indiscriminadamente dependurados pelas paredes, sem que haja
necessidade de serem trocados. Assim, para falar com franqueza, tratam-se

162
Mundo do Belo

de uma modalidade de móveis finos. Além do mais, na sua execução, a


pintura oriental é traçada, enquanto a ocidental é recoberta de tinta. Por
isso, na pintura oriental, o pincel traça com impetuosidade, de um só golpe.
Neste exclusivo traçar é que reside a energia da vida. Tal fato é, também,
compreensível quando tomamos a caligrafia como exemplo. Esta vive, por
ser executada em um único ímpeto. Os ideogramas retocados tornam-se
mortos. Por tal motivo, eu considero a pintura japonesa Arte, enquanto
classifico a ocidental entre a Arte e o Artesanato.

Qual o motivo, então, da decadência da pintura japonesa de hoje?


Sem dúvida, a causa fundamental está na ilusão advinda de se misturar a
Arte com a Ciência. Considero que é porque a tendência de venerar as
coisas do Ocidente tenha se estendido até as Artes, em conseqüência do
engano provocado pelo maravilhoso progresso científico. Em contrapartida,
é fato verdadeiro que a atração que os intelectuais das nações do Ocidente
experimentam pelas Artes orientais torna-se cada vez mais densa.

Vim, deste modo, escrevendo polixamente, mas, em suma, o que


quero é que, pelo menos no campo artístico, se deixe de adorar o Ocidente
e se pesquise e se tome nova conscientização a respeito da Arte antiga do
Japão, da China e da Coréia. Sobre este fator, faço o seguinte registro. Ao
Museu de Artes de Hakone, convergem todas as classes de pessoas, mas,
curiosamente, quase não vêm pintores. Meditando a tal respeito, concluí
que os pintores contemporâneos, uma vez que aspiram à pintura a óleo,
talvez considerem não ser conveniente ver obras antigas, pelo que não
posso conter um longo suspiro. Se eles não se tornarem cientes de
semelhante fato, mais cedo ou mais tarde, serão abandonados não só pelos
estrangeiros, mas pelos próprios compatriotas. O fim da pintura nipônica
trata-se apenas de uma questão de tempo.

Eiko, nº 78 — 15 de outubro de 1952

VENDO A "EXPOSIÇÃO DO INSTITUTO JAPONÊS DE ARTES"

Em vista de ter ido outro dia à "Exposição do Instituto Japonês de


Artes" deste ano, como de costume registrarei, aqui, algumas das minhas

163
Mundo do Belo

impressões. Inicialmente, ao entrar no primeiro salão, senti, ao dar uma


olhada, que algo estava diferente de sempre. Usualmente, expõem-se, no
referido salão, peças de pintura japonesa. Contudo, este ano, havia apenas
quadros de pintura ocidental. Intrigado com aquilo, consultei-me com o
meu acompanhante, pelo que obtive a resposta de que tudo ali era pintura
japonesa. Ante tal revelação, esfreguei os meus olhos e procurei olhar
melhor, com esse intento. Claramente, todas as obras eram peças de pintura
ocidental executadas com pigmentos nipônicos! Meu susto, então, foi
duplicado. Depois, apreciando, gradativamente, as peças, cheguei à
conclusão de que a pintura japonesa dessa mostra desaparecera, tendo, por
limite derradeiro, a do ano anterior. A nossa saudosa pintura japonesa, que
se orgulha de uma tradição de um milênio, tivera, na mencionada
exposição, seu fim declarado! Ao pensar em tal decadência, confesso não
conter um fio de lágrimas a me escorrer pela face.

Desta maneira, eu me pus longamente a meditar. Afinal, o que


acontece? É incompreensível. Não devo ser só eu quem julgue existir uma
razão para tal. Foi aí que me veio à mente a situação hodierna da sociedade.
Haverá, além dessa, várias outras causas, mas, indiscutivelmente, a
principal é a mania do japonês de adorar as coisas do Ocidente. Indo
diretamente ao assunto, tomemos o exemplo do "jazz", recentemente em
voga entre os jovens; da maquiagem; do penteado e das roupas das moças.
É de assustar a escandalosa densidade da presença das maneiras norte-
americanas em todos esses tipos de comportamento. Vejamos, ainda, os
anúncios de jornais: nos textos dos comerciais de cosméticos e produtos
farmacêuticos, destacam-se, infalivelmente, frases alusivas aos Estados
Unidos. Assim, a difusão da cultura norte-americana é algo estupendo. Em
síntese, esta onda invadiu até mesmo o campo das Artes. Naturalmente, no
caso da Pintura, a onda provém da França, mas, de qualquer forma, não
deixa de ser adoração das coisas ocidentais. No tocante a tal influência, fiz
uma retrospectiva da História da Pintura no Oriente e no Ocidente. Tem-se,
primeiramente, no Japão, a pintura japonesa inicial, da Era Higashiyama.
Naquela época, importaram-se, profusamente, peças de pintura das
dinastias Sung e Yuan da China, das quais a Escola Kano tirou inspiração
para o seu surgimento. Dentre os pintores famosos da época, podem ser
citados desde Sesshu, Shubun, Keishoki e Dasoku até Soami, Geiami,

164
Mundo do Belo

Noami, Motonobu e Sesson. Com o início da Era Momoyama, surgiram,


seguidamente, artistas de renome e grandes mestres como Yusho, Tohaku,
Togan, Sanraku, Eitoku, Tannyu e outros.

Entrementes, há algo de especial, nessa época, digno de ser notado.


É o aparecimento de Sotatsu e Koetsu, os criadores de um estilo de pintar
revolucionário, manifestador do senso peculiar do japonês, rompendo de
maneira esplêndida com a pintura nipônica que, até então, não pudera
desvencilhar-se um passo sequer dos moldes tradicionais da China. Além
disso, com o passar de centenas de anos, no encetar da Era Genroku, os
dois irmãos Korin e Kenzan produziram uma arte ainda mais avançada,
trilhando as pegadas dessa mesma corrente. Todavia, curiosamente,
também na Europa, aconteceu um fenômeno que veio a coincidir com este
que acabo de comentar. Desde a Idade Média, a Arte Pictórica
desenvolveu-se intensivamente e culminou com o realismo exclusivo.
Concomitantemente, o estilo renascentista, que se emparelhara com tal
tendência, chegou — ainda que temporariamente — a dominar, de maneira
revolucionária, o Artesanato fino de todo o continente europeu da época.
Porém, de forma idêntica ao acontecido com a Pintura, este estilo também
chegou a um impasse. Quando não havia mais solução, repentinamente,
houve o surgimento de Korin. Basta dizer que esse estilo era o contrário
dos padrões até então vigentes: ousado, sendo sóbrio; a tudo omitindo,
expunha, plenamente, a essência do objeto. Tal técnica não podia deixar
deslumbrado quem a visse. Desnecessário dizer que o acontecimento foi
como um abrir de olhos graças a um farol aceso em mar tenebroso,
ocasionando uma guinada de cento e oitenta graus. Desvendou-se, a partir
desse momento, uma senda de possibilidades infinitas: é, pois, adequado
afirmar que Korin — aquele que, de fato, salvou a pintura européia —
constitui motivo do maior orgulho para os japoneses. Posteriormente, sob o
estímulo da xilogravura ukiyo-e, representada por Sharaku, Utamaro,
Hokusai, Hiroshige e outros, os pintores europeus, revigorados por esse
hábito vital do Oriente, começaram a avançar com brio, surgindo daí as
correntes impressionista e pós-impressionista. Foi a época em que
despontaram, seguidamente, gênios como Cezanne, Van Gogh, Gauguin e
Renoir, dentre outros. Conformou-se aqui o estilo moderno da Pintura.
Deste modo, ao confrontar o histórico da pintura oriental e da ocidental,

165
Mundo do Belo

cheguei à seguinte conclusão: a reprovável tendência, hoje verificada no


Oriente, de imitar a pintura ocidental, mais cedo ou mais tarde, chegará a
um impasse. Contudo, como acredito poder contar com o aparecimento
repentino de um gênio fabuloso que rompa tal casca, considero a atual
febre de adoração da pintura ocidental uma fase desse processo, não vendo,
pois, necessidade alguma de incorrer em pessimismo.

Passemos à Escultura. Seria acertado dizer que também não foge à


tendência geral. Quanto aos trabalhos de artesanato fino — para dizer com
franqueza —, são horríveis de se ver. Se por um lado não satisfazem aos
moldes da antiga tradição, por outro, não são capazes de imitar o Ocidente:
há não apenas as restrições impostas pelos hábitos e costumes nipônicos,
mas a questão do material. Mesmo assim, constata-se a vontade enérgica de
produzir algo novo. Todavia, pela presença de rastros do processo de
ansiedade e agonia para que se lograsse tal resultado, a impressão tida não
agrada. Mas, uma vez que, também, o artesanato fino acompanha, de
maneira básica, o caminhar da Pintura, é inevitável que, temporariamente,
evolua nas condições atuais. Assim, coloquei no papel o que realmente
pude sentir em visita à "Exposição do Instituto Japonês de Artes".

Eiko, nº 236 — 25 de janeiro de 1953

166
Mundo do Belo

IX — SOBRE A FLOR E O BELO

CAMPANHA DE FORMAÇÃO DO PARAÍSO POR MEIO DAS


FLORES

O objetivo da nossa Igreja é a construção do Paraíso Terrestre. Mas


o que isto significa? Vou explicar.

Obviamente, o Paraíso Terrestre é o mundo de perfeita Verdade,


Bem e Belo. O método para a obtenção da saúde — o Johrei —, que é a
vida de nossa Igreja, e a Agricultura Natural, são meios de que nos
utilizamos para materializá-lo, mas o Johrei, além de promover a renovação
do corpo físico, visa também à renovação do espírito. Independentemente
de tais métodos, é de extrema urgência elevar o espírito das pessoas através
do Belo. Esse é um novo projeto da nossa Igreja, que agora estamos
colocando em prática. Para falar a respeito, vou expor, em primeiro lugar, a
situação atual deste país.

Numa classificação sumária, o Belo situa-se no domínio da audição,


da visão e do paladar. No que se refere à audição, talvez nunca tenha
havido época tão próspera em música como a época atual, em virtude,
principalmente, do rádio, sendo muito significativo, também, o progresso
do toca-discos, dos discos, etc... No tocante à visão, entretanto, a situação é
muito precária, existindo apenas o Teatro, o Cinema e coisas do gênero.
Em verdade, queremos algo que toque nosso sentimento pela Beleza, que
seja mais simples, mais próximo de nós, e que não esteja limitado pelo
tempo. Ora, o Teatro e o Cinema são excelentes meios para deleitar os
olhos, mas, como implicam limitação no tempo, questões financeiras e
meios de transporte, não podem ser aceitos integralmente.

O que propomos aqui é o cultivo e distribuição das flores, excelente


forma de propagação do Belo. Consiste em ornamentar com flores não só
as residências como outros locais. Hoje em dia, as flores ornamentam,
geralmente, as residências de pessoas acima da classe média, o que é
insuficiente. Nosso objetivo é adornar, com elas, todos os lugares e classes
sociais, colocando-as à vista de qualquer pessoa. No canto do escritório, em

167
Mundo do Belo

cima da escrivaninha, onde quer que seja, não é nem preciso dizer o quanto
uma flor nos reanima e faz com que sintamos um toque de pureza. Em
termos ideais, é nosso desejo ornamentar até mesmo prisões e locais de
execução. Quão boa influência tal gesto exerceria sobre os detentos!
Quando existirem flores onde quer que haja pessoas, a força para tornar
ameno este mundo infernal será bem grande. Atualmente, porém, tal
hipótese é impossível, dado o alto preço das flores; por conseguinte,
precisamos fazer com que elas possam ser adquiridas a preços bem baixos.
Para tanto, devemos intensificar o seu cultivo, mas de modo a não
prejudicar a produção de alimentos.

O Japão é considerado o primeiro país do mundo no que se refere à


variedade de flores. Quanto aos métodos de cultivo, também parece atingir
o nível mais alto, e todos sabem que a tulipa, que era produzida,
exclusivamente, na Holanda, começou a ser cultivada, antes da última
guerra, não só na província de Niigata, com exceção da Ilha de Sado, mas
também na de Kanagawa. Está sendo exportada para a Inglaterra e para os
Estados Unidos, e a produção vem aumentando a cada ano.

Pela pesquisa que fizemos, constatamos, por exemplo, que os


americanos admiram muito as flores existentes no Japão, interessando-se
pelas raridades que não possuem em seu país. Assim, doravante, devemos
fazer das flores mais um recurso para a obtenção de divisas, cultivando-as
em larga escala. Até hoje, essa prática veio sendo desatendida, mas, de
agora em diante, deve ser estimulada ao máximo. Além do mais, como a
flor é um produto cuja exportação não sofre limitações de quantidade,
torna-se objeto de enorme expectativa.

Hikari, nº 8 — 8 de maio de 1949

168
Mundo do Belo

AS PLANTAS TÊM VIDA

Gosto muito de cuidar das plantas do jardim e sempre corto seus


galhos, arrumando-lhes o formato. De vez em quando, porém, sem
perceber, acabo cortando demais ou deixando de cortar onde é necessário.
Às vezes, quando vou plantar uma árvore, não havendo outra alternativa,
por causa do espaço, planto-a num lugar que não é do meu agrado e deixo a
parte da frente para trás, ou meio de lado, o que me incomoda, toda vez que
a observo. Mas é engraçado, pois, com o passar do tempo, vejo que a
árvore vai se acomodando aos poucos, por si mesma, até que acaba se
harmonizando perfeitamente com o lugar. Acho essa postura
interessantíssima, e não posso deixar de pensar que ela está viva.
Certamente, as árvores também possuem espírito. Nesse ponto,
assemelham-se ao homem que cuida de sua aparência para não passar
vergonha perante os outros.

Tempos atrás, ouvi um velho jardineiro contar que, quando uma


planta não dava flores como ele queria, dizia-lhe estas palavras: “Se este
ano você não der flores, vou cortá-la”. Assim, ela não deixava de florir.
Ainda não experimentei fazer o mesmo, mas o fato parece-me verossímil.
Não há erro em lidarmos com qualquer elemento da Grande Natureza
acreditando que ele possui espírito. Num livro que li, de autor ocidental,
dizia-se que uma árvore que geralmente leva quinze anos para crescer,
tendo sido cuidada com amor e dedicação, cresceu da mesma forma na
metade do tempo, isto é, em sete ou oito anos.

O mesmo pode ser dito em relação ao arranjo de flores. Eu próprio


arranjo as flores de todos os compartimentos de minha casa; entretanto,
ainda que elas não estejam do meu completo agrado, deixo-as assim
mesmo. No dia seguinte, noto que elas estão diferentes, com um aspecto
agradável, como se, realmente, estivessem vivas. Nunca forço o formato
das flores; arranjo-as da maneira mais natural possível. Por isso, elas ficam
cheias de vida e duram mais. Se mexermos muito, as flores perdem sua
graça natural, o que não acho bom. Assim, quando vamos arranjá-las,
devemos, primeiramente, imaginar como iremos fazê-lo rapidamente,
porque, tal como acontece aos seres vivos, quanto mais mexemos, mais

169
Mundo do Belo

fracas elas ficam. Esse princípio também se aplica ao homem. Com os pais,
por exemplo: quanto mais cuidados tiverem na criação dos filhos, mais
fracos eles serão.

Como arrumo as flores dessa maneira, meus arranjos duram mais


do que o dobro do normal, e todos se admiram. Em geral, não se usa bambu
e bordo (certamente porque não duram muito), mas eu gosto de arranjá-los,
eles sempre duram de três a cinco dias; às vezes o bambu dura mais de uma
semana, e o bordo, quase duas. Além disso, qualquer que seja a flor, não
mexo em seus cortes, deixando-as ao natural.

Eiko, nº 220 — 5 de agosto de 1953

170
Mundo do Belo

X - DIÁLOGOS

*Obs.: A posição e o cargo dos interlocutores são os da época em que


aconteceram os encontros.

DIÁLOGO ENTRE MEISHU SAMA E O SENHOR MUSEI (I)

No dia 21, o quarto dia do Culto da Primavera, Meishu Sama ouviu


com viva atencão, por cerca de uma hora, o desempenho, pelo senhor
Musei Tokugawa, do episódio Hozoin Dojo, da obra Miyamoto Musashi, de
autoria de Eiji Yoshikawa. Após o término da preleção, Meishu Sama,
acompanhado de sua esposa, entrevistou-se, cordialmente, com o senhor
Musei, a pedido deste. O texto que se segue é a súmula da entrevista.

Sr. Musei: Prazer em conhecê-los!

Meishu Sama: Pois não. Foi ótima! Sua interpretação possui um


sabor diferente das narrações que se ouvem por aí.

Sr. Musei: Receio, porém, que o meu trabalho não seja apropriado
para as pessoas do sexo feminino.

Sra. Okada: Não, senhor. Pude compreender muito bem...

Meishu Sama: O senhor Yoshikawa também é um fiel antigo. Fico


contente por vocês dois se entrosarem.

Sr. Musei: Este trabalho é algo parecido com uma disputa com o
autor: se o original e o intérprete se equilibram, tudo bem; mas caso este
não chegar aos pés daquele, então é a derrota.

Meishu Sama: A sua interpretação estava excelente. O senhor


Yoshikawa, certamente, ficaria satisfeito.

Sr. Musei: Dias atrás, tendo ele terminado de construir um salão em


Okutama, convidou-me a fazer uma apresentação naquele recinto. Aceitei,

171
Mundo do Belo

quando me disse jamais ter ouvido, pessoalmente, uma interpretação


minha. Da Sociedade de Mestres Famosos da Mitsukoshi, foram o senhor
Bunraku, contador de anedotas; na ausência do Sr. Fumikichi — cantor de
pequenas peças — foi a Sra. Koume, a dupla de comediantes Senta e
Mankichi Regal e eu. O Sr. Yoshikawa ficou muito satisfeito, e disse que
eu estava liberado para interpretar o Musashi, sem que fosse preciso pedir-
lhe permissão a cada vez. A Sociedade dos Mestres Famosos da
Mitsukoshi é composta somente de gente perfeitamente habilitada na arte
do entretenimento tradicional e de pessoas que alcançaram o grau de
mestres depois de — como se diz usualmente — terem-se submetido a um
rigoroso aprimoramento. Sou apenas eu quem tem índole de vigarista...

Meishu Sama: É isso que é bom! Não se pode virar comerciante.


Tudo que faço é por amadorismo, nada tendo de profissional. O senhor
poderá comprovar o que falo, indo a Hakone e vendo o jardim de pedras
que fiz. Dizem que os profissionais que o viram ficaram indignados,
querendo largar a profissão. O motivo é que as pedras empregadas naquele
local estavam ou de costas, ou de ponta-cabeça: pelo que afirmaram que
seu uso, pelos padrões convencionais, era inusitado. Isso também é
maravilhoso!

Sr. Musei: Seria, então, por não se enquadrarem em moldes, não?


Afinal, os moldes não são tudo neste mundo... Haverá coisas que não
precisam se encaixar neles.

Meishu Sama: Qualquer coisa morre se for encaixada em moldes.


Como pratico caligrafia, certa vez manifestei minha intenção de aprender
esta arte com um mestre. O que um calígrafo me aconselhou, então, foi que
desistisse da idéia. Ele me explicou que os profissionais estavam presos a
moldes, e que a agrura de seu trabalho estava em como romper com eles.
Disse-me que não importava se as letras fossem um pouco diferentes, se o
número de seus pontos ou traços fosse de mais ou de menos. “O
importante — disse-me — é dar vida à personalidade". Bem, deve-se
convir que há pontos inexplicáveis pela lógica nessa asserção...

Sr. Musei: Tomemos um exemplo: a anedota Nedoko, hoje contada

172
Mundo do Belo

pelo Sr. Bunraku. Esta peça foi concluída após ter sido burilada e polida
por repetidas e repetidas apresentações. Em contrapartida, minhas peças
são obras grosseiras e incompletas, não obstante eu considerar a questão
fundamental da narração...(???????)

Meishu Sama: Seu trabalho é excelente: afinal, a questão é da alma.


Em síntese, transmite a alma de Musashi. Por mais hábil que seja o
narrador profissional, a impressão que se tem é outra: existe apenas a
forma, não há alma. Eu não acredito que Musashi seja um mero mestre de
artes marciais. Ele pintava, não é? E suas obras são excelentes.

Sr. Musei: Tem razão, não é um mero mestre de artes marciais.


Dias atrás, o Sr. Yoshikawa deu-me um rolo Hahacho, pintado por
Musashi. Inicialmente, parecia não mostrar-se muito satisfeito com o fato
de que algo por ele escrito fosse interpretado. Talvez pelo receio de que o
original sofresse alguma alteração. Porém, recentemente, ele disse-me que
eu interpretasse, à vontade, as obras de sua autoria. Assim, veio trazer-me
especialmente o rolo pintado por Musahi, dizendo que não só ele, mas que
também eu deveria ser dono de tal peça. É uma pintura magnífica, que
comprova a fama de Musashi. Tem dignidade.

Meishu Sama: Pois não. Também vi, outro dia, pinturas de


Musashi. São extraordinariamente boas. Atingindo-se determinado nível
em algo, isso é válido para tudo.

Sr.Musei: Diga-se que, do ponto de vista do pintor profissional, são


obras estranhas. Mas muitos não conseguem pintar daquele jeito.

Meishu Sama: Não serão muitas as imitações?

Sr. Musei: Sim, parecem ser muitas.

Meishu Sama: Em se tratando de obras famosas, as imitações são


muitas, não? Acresce que, às vezes, a imitação é melhor que o original.

Sra. Okada: Na Mitsukoshi existem ótimas reproduções por

173
Mundo do Belo

impressão, não é mesmo?

Sr. Musei: As reproduções de obras executadas a tinta nanquim têm


muita classe.

Sra. Okada: A impressão foi feita pela Kogei-sha?

Sr. Musei: Sim. As obras executadas a nanquim, por exemplo, é


impossível de se discernir se são verdadeiras ou imitações. Dias antes,
ganhei uma carta de Issa, à qual não dei muito valor, já que a obtivera de
graça. Pensei que não passava, afinal, de imitação. Todavia, ao mostrá-la a
um antiquário versado em Issa, disse-me ele ser uma peça legítima.
Duvidei, pois ninguém daria um original gratuitamente. Verificando bem,
constatei tratar-se de uma obra impressa... Nessa ocasião, fiz a descoberta
examinando a peça durante o dia!

Meishu Sama: Em se tratando de Issa, possuo eu duas peças de sua


autoria. Acho que uma delas é a pintura de uma codorna ou algo parecido.
No outono, mostrar-lha-ei em Hakone.

Sr. Musei: Quero sem falta ser honrado com essa oportunidade.

Meishu Sama: Musashi deve ter sido amplamente instruído por


Takuan, não é?

Sr. Musei: Bem... A época é a mesma. Deixe-me ver, será? Não


seria de estranhar se isso estivesse escrito, mas não há histórias de um
intercâmbio entre os dois. Porém, mesmo sem Takuan, penso que ele teria
se tornado um grande homem.

Eiko, nº 98 — 4 de abril de 1951

DIÁLOGO ENTRE MEISHU SAMA E O SENHOR MUSEI (II)

Meishu Sama: Sem dúvida, Musashi não foi apenas um mestre em


artes marciais; tinha ele algo espiritualmente elevado, não acha?

174
Mundo do Belo

Sr. Musei: Pois não. Atualmente, eu estou fazendo uma série de


entrevistas para a revista Shukan Asahi. A primeira foi com o Sr.
Yoshichika Tokugawa; a segunda, com a atriz Yukiko Todoroki; a terceira,
com Shin Hasegawa; a quarta, com Hanboku Ono; a quinta, com Nanryou
Kyokudo, de Osaka; a sexta delas, terminei-a ontem em Teruha. A próxima
deverá ser com o botânico Sr. Tomitaro Makino. Que tal? O senhor não
quer ser um de meus interlocutores? Eu tenho por princípio o propósito de
jamais fazer algo que fira outrem. É por acreditar que seria imperdoável
alguém sair prejudicado por meu intermédio.

Meishu Sama: Pois não, eu topo... Você é macaco velho.

Sr. Musei: Macaco velho?! Esta é boa! E o senhor então?...(Risos.)

Meishu Sama: Eu gosto é de gente assim. Quem nada tem é


desinteressante. Uma manha que possua torna a pessoa interessante. Ou
seja, uma pessoa equilibrada...

Sr. Musei: É tal equilíbrio que o senhor prega em seus sermões?


(Risos.)

Meishu Sama: Pregar isso é difícil, não?

Sr. Musei: Quer auxílio? (Risos.)

Meishu Sama: Você tem alguma relação com o Sr. Tokugawa?

Sr. Musei: Não, relação não tenho. Por isso, na entrevista para a
Shukan Asahi, cujo título é Novidade: os dois Tokugawas, eu acabo por me
tornar o falso. Ah! sim! Já fui falso uma vez. Há dois anos, por ocasião de
um programa radiofônico de talentos ocultos, ficou acertado que o Sr.
Tokugawa tocaria flauta em uma banda de acompanhamento, a qual,
porém, ficaria sem graça se faltasse um shamisen. Para essa função
sugeriu-se o nome de Ichimaru. Lembremos que o programa era de talentos
ocultos, onde se deve apresentar uma arte alheia à profissão. Bem, ele deve

175
Mundo do Belo

ter aceitado o papel, pensando: "Se é Musei quem toca a flauta, eu o supero
com o 'shamisen'". Pois bem, no dia do programa, ele se encontrou na rádio
com o Tokugawa trocado... (Risos.) Naquela vez, virei o falso.

Meishu Sama: Qual é o significado do nome Musei?

Sr. Musei: Meu nome verdadeiro é Toshio Fukuhara. Em virtude de


meu mestre chamar-se Reizan Shimizu, eu adotei o nome de Reisen
Fukuhara. Na época, eu me apresentava no teatro Daini Fukuhokan, em
Shiba, com o salário mensal de dez ienes. As coisas, porém, apertaram de
tal jeito que acabei fugindo para Osaka. Pus o pessoal da Nikkatsu
enraivecido, mas entrei para o teatro Aoikan, de Akasaka. O gerente desse
teatro, então, disse que era inconveniente usar o nome Reisen Fukuhara,
ordenando-me que, pelas circunstâncias, eu adotasse provisoriamente uma
alcunha. Dessa maneira, aconselhei-me com os colegas. O pessoal do
camarim e da agência, meio por brincadeira, batizou-me com o sobrenome
Tokugawa, por analogia com o nome Aoi, do teatro. Para primeiro nome,
escolheu-se a palavra Sei, em vista de ser popular entre os nomes da época.
Chegou-se até Sei Tokugawa, mas estava custoso achar a palavra Mu. Por
instantes cogitaram em me batizar com nome Dokusogan. Afinal, por
minha voz (Sei) parecer-se com um sonho (Mu), criaram o nome Musei.
Assim, tornei-me Musei Tokugawa, mas não fui eu próprio quem o pôs em
mim. Antes assim. Foi até melhor.

Meishu Sama: Ah, é?! Também a mim me chamam Ohikari-Sama,


mas não fui eu quem me batizei assim. Foi um jornal, creio que o Shizuoka
Shimbun.

Sr. Musei: Desse jeito, o nome goza de maior aceitação.

Meishu Sama: Além de tudo, tem mais propriedade.

Sr. Musei: Também os impressionistas franceses não se auto-


denominaram assim. (Eram eles de opinião que a verdadeira pintura
consistia não em tão-somente copiar o que se viu, mas sim em esboçar essa
impressão na mente, exprimindo-a, então, por meio do pincel.) No título de

176
Mundo do Belo

suas obras, empregavam abundantemente as palavras "A impressão de...",


como "A impressão de um gato", "A impressão do sol", e assim por diante.
Como a imprensa, então, aludia-se a eles como Escola Impressionista, eles
passaram, por fim, a considerar-se como tal.

Meishu Sama: Isso é o mais natural, é melhor. O principal é a


sensação causada.

Sr. Musei: Sou de opinião que, com um maior progresso científico,


tornar-se-á possível detectar o espírito. O que o senhor acha?

Meishu Sama: Sim, será possível.

Sr. Musei: Alguma coisa semelhante à detecção da radioatividade


pelo contador Geiger...
Meishu Sama: Sim, tornar-se-á viável a mensuração mecânica. Eu
estou escrevendo essa tese atualmente. Ouço dizer que a ciência atômica
moderna encontra-se num impasse com a teoria do méson. O senhor
Yukawa23, prevendo o méson, descobriu-o, acidentalmente, na fotografia de
um raio cósmico, vindo a comprovar essa existência. Contudo, avançando
mais além, é impossível medir isso mecanicamente. Indo mais e mais
adiante, chega-se a Deus. Finalmente, com o desenvolver da ciência, tal
fato será comprovado. Atualmente, porém, o espaço entre o ponto extremo
do méson e Deus aparece como uma lacuna. Não se desvenda isso porque a
concepção dos cientistas não alcança até esse ponto. Eu esclareço isto
cientificamente, denominando tal estudo de Ciência Teórica do Espírito.
Lendo-o, não haverá razão de continuar sem compreender. Do ponto de
vista da Ciência Experimental do Espírito, fazendo assim (estende o braço
com a mão espalmada), as doenças logo melhoram. Moléstias como a
apendicite são logo curadas. Esta é a Ciência Experimental do Espírito.

Sr. Musei: Pois é. Quando um eletricista morre eletrocutado, há


uma descarga de eletricidade por seus dedos, não é? Ao fecharmos os olhos
e fazermos assim (leva o dedo próximo a região dos olhos), sentimos algo.
Eu, quando sinto o ventre a doer, aponho nele a mão, freqüentemente

23
Sr. Yukawa: referência ao doutor Hideki Yukawa.

177
Mundo do Belo

obtendo alívio dentro de alguns instantes. Sem dúvida, há a emissão de


algo bom e poderoso das mãos. Seriam fluidos espirituais?

Sra. Okada: Por tal razão denomina-se tratamento (em japonês,


"aposição da mão"), não?

Meishu Sama: É uma tarefa difícil pregar isto.

Sr. Musei: Muito obrigado.

Eiko, nº 99 — 11 de abril de 1951


REGISTRO DAS ENTREVISTAS ENTRE MEISHU SAMA, A SRTA.
DAVID E JORNALISTAS

Conforme já publicado na revista Eiko, número 173, sendo, pois, do


conhecimento dos senhores leitores, a Srta. Madaleine David, exercendo a
função de Vice-Diretora do Museu Cernuski de Paris, e por ser uma
autoridade em Belas-Artes orientais, veio ao Japão com o intuito de
pesquisar a arte nipônica. No dia 22 de agosto passado, ela esteve em visita
ao Museu de Hakone com o qual ficou vivamente impressionada.
Acompanhavam-na a Srta. Tatsuko Tazuke, do Ministério dos Assuntos
Estrangeiros, e os senhores Shiro Takeuchi, Presidente-Executivo do jornal
Hochi, Shohei Morimura, Editor-Chefe do mesmo jornal, e Shoji
Watanabe, Diretor do Departamento de Notícias Locais, do jornal Yomiuri.
Ademais, na sala de estilo japonês do terceiro andar do Museu, todos os
membros entrevistaram-se com Meishu Sama, iniciando logo animada
conversação. Temos a honra de relatar aos senhores a entrevista
estenografada, que se estendeu por uma hora e meia, na ocasião.

As duas nações mundiais das artes

Meishu Sama: Li com muito interesse sobre você nos jornais.


Naquela oportunidade, eu tive vontade de mostrar-lhe sem falta o nosso
Museu. Encontra-se no Japão já há bastante tempo?

Srta. David: Cheguei em fevereiro deste ano e permanecerei até

178
Mundo do Belo

fevereiro do próximo.

Srta. Tazuke: Ela veio como representante da UNESCO, sendo


entendida no campo das Belas-Artes japonesas.

Meishu Sama: Nosso Museu conta com um acervo completo de


obras do Japão. Visite-o quando lhe aprouver e desenvolva seus estudos à
vontade.

Srta. David: Fiquei deslumbrada! Deparando-me com coisas que,


até hoje, jamais tivera oportunidade de ver; quis fotografá-las e enviar essas
fotos à França. Peço desculpas pelo distúrbio causado. Agradecendo o
convite, pretendo vir aqui mais vezes incomodá-lo.

Secretário: Ela solicita o envio à UNESCO de cópias das peças


Sutra da Vida de Sakya24 (*) e da Banhista, nas dimensões originais. Elas
circulariam pelo mundo inteiro.

Meishu Sama: Isso é ótimo.

Secretário: Creio que seria preciso de tempo até as proximidades de


novembro.

Srta. David: Não tem importância. Caso sejam enviadas ao Museu


de Belas Artes de Paris, as obras serão expostas imediatamente.

Meishu Sama: No tocante às artes, a França é extremamente íntima.


Na Europa, a França; na Ásia, o Japão. São as duas nações mundiais das
artes.

Srta. David: Concordo plenamente.

Meishu Sama: Incentivar as Artes é um fato extremamente


louvável, também de uma perspectiva filosófica.

24
Sutra da Vida de Sakya: refere-se ao sutra ilustrada de mesmo nome da era Tempyo.

179
Mundo do Belo

Srta. Tazuke: A Srta. David, já faz muito tempo, vem servindo


como o braço direito do doutor Gloux; sozinha, ela cuida da disposição das
obras no museu e de tudo o mais. Sendo ainda solteira, ela se casou com a
arte oriental. Assim, desfruta da liberdade de ir de lá para cá, sem, contudo,
ter ainda visitado a China.

180
Mundo do Belo

Meishu Sama: Além disso, não existem coisas interessantes na


China, não é?

Srta. David: No Museu de Pequim, acredito que existam.

Meishu Sama: Provavelmente, mas o que havia de bom foi levado


por Chiang Kai-Shek. As obras de arte chinesas são abundantes lá pelos
Estados Unidos da América.

Srta. David: Pois não.

Secretário: Parece que a senhorita gostou das taças de chá


superpostas, de autoria de Ninsei.

Meishu Sama: Como eu imaginava: basta dizer que o design delas é


inovador.

Srta. Tazuke: Ela adorou a taça de chá de porcelana verde-resedá,


brincando que a queria roubar, pois, mesmo que se pusesse de ponta-
cabeça, não teria o suficiente para comprar nem metade...

Meishu Sama (rindo): Esteja à vontade...

Korin vivo na França

Meishu Sama: Pretendo fazer exposições também na França...

Srta. David: Pretendo fazer uma exposição de arte japonesa em


Paris e outra de arte francesa em Tóquio.

Meishu Sama: A arte japonesa, até hoje, quase não foi exposta aos
olhos do estrangeiro. Resumindo, as obras de arte nipônica estiveram
trancadas nos depósitos dos ricos e da nobreza, os quais se recusavam,
terminantemente, a mostrá-las a estranhos. Por semelhante motivo, em se
vindo ao Japão, não se pode ver senão uma ínfima porção delas. É
impossível, porém, mesmo que se queira, ver tudo, por estarem espalhadas

181
Mundo do Belo

por aqui e acolá. A diretriz deste Museu é a de configurar um órgão que


proporcione a qualquer um a oportunidade de apreciar tais obras de arte.
Portanto, tenho penado de várias formas, pensando em como mostrar, ao
máximo, aquilo que até hoje não pôde ser visto. Desse modo, até agora vim
colecionando, sobretudo, obras de Korin, Koetsu, Sotatsu, Kenzan e outros,
com o intuito de realizar essa exposição. Afinal, mesmo que Matisse e
Picasso estejam em voga, sua origem é Korin.

Srta. David: Também penso assim. A arte nipônica tem a ver com a
arte francesa. Quanto às obras de Korin, vi-as somente por meio de
fotografias. Deparei-me com pinturas dele na França, mas não é o bastante.
A visita de hoje proporciou-me um bom material de pesquisa para a arte
francesa moderna.

Meishu Sama: Pois não. Da Escola Korin, temos vários rolos de


pintura de autoria de Sotatsu. Hei de mostrá-los. Acredito que servirão de
ótima referência.

Srta. David: Virá, em breve, mais uma pesquisadora de Paris.


Tenciono visitá-lo junto com ela.

Meishu Sama: Certo japonês, pretendendo aprender a pintar,


procurou Matisse. Este, disse-lhe, então, que não havia necessidade alguma
de ele ter ido à França, pois no Japão existia alguém magnífico chamado
Korin. Korin era seu mestre. Portanto, não era preciso deslocar-se à França,
especialmente.

Srta. Tazuke: Parece que Matisse, em virtude da idade avançada,


não pinta mais como antes.

Srta. David: Sobre a arte japonesa anterior a Korin, eu desconhecia


completamente.

182
Mundo do Belo

Meishu Sama: Isso acontece por faltar oportunidade de vê-la.

Srta. David: Pois não. Temos premente necessidade de exposições


de Arte nipônica.

Meishu Sama: Isso mesmo.

Srta. Tazuke: Na França são poucas as peças de porcelana do tipo


kinran.

Meishu Sama: Oriundas da China? A propósito, tenho comigo um


catálogo, mas não tais peças. A porcelana kinran é rara também nos
Estados Unidos e na Inglaterra. As peças que existem nesses países são
bem recentes. Datam de K'ang-hsi a Ch'ien-lung. São peças que vêm de uns
duzentos anos atrás; todavia, em se tratando da porcelana kinran, o que há
de melhor são as peças da dinastia Ming, ou seja, de aproximadamente
quatrocentos anos antes. Essas eles não possuem. Elas foram imensamente
apreciadas pelos japoneses e, importadas, receberam cuidadoso tratamento
por parte dos senhores feudais. Outrossim, não possuímos muitas peças
boas de porcelana verde-resedá. Estas também não são muitas nos Estados
Unidos ou na Inglaterra. O que existe de bom, na Inglaterra, são peças dos
fornos Chün. São superiores às existentes no Japão, onde não há muita
porcelana Chün, mas existe a verde-resedá. Além do mais, as existentes na
Inglaterra ou nos Estados Unidos provêm de escavações. Completamente
diferente das que existem neste país, as quais foram herdadas de geração
em geração. Lembra-se da taça de chá do tipo "casco de tartaruga", que
trazia desenhada uma fênix? Foi ela passada de mão em mão através das
épocas, sem que estivesse enterrada. Usualmente, são peças que estiveram
debaixo da terra.

Secretário: Parece que na Suécia há vasos Anderson, uma grande


porção deles datando de três mil anos atrás. No Japão, são extremamente
raros.

Meishu Sama: Exatamente.

183
Mundo do Belo

Srta. Tazuke: Dias atrás, encontrando-me com um chinês,


perguntei-lhe sobre tais vasos, e ele me informou que, com certeza, havia
dois deles no Japão: um em Hakone e outro em Quioto.

Secretário: Também elogia-se muito a jarra toro com desenhos de


camélias e borboletas.

Meishu Sama: Aquela é uma boa obra. Aquele tipo de peça aparece
em revistas norte-americanas, existindo ainda exemplares ruins. Peças boas
há no Japão, no Museu Hakutsuru, de Osaka. No Museu Hakutsuru há bons
exemplares.

Srta. David: Foram levadas para São Francisco?

Meishu Sama: Não, para Los Angeles.

Srta. David: Quero receber auxílio da UNESCO. Ficarão inteirados


da situação, pois pretendo relatar o fato.

Meishu Sama: Lidar com as artes resulta, ideologicamente, em


coisas relativamente boas, não é?

Srta. Tazuke: A UNESCO mostra muita boa vontade. A senhorita


David solicitou ao meu departamento que providenciasse cinqüenta boas
peças de xilogravura ukiyo-e, que fossem inéditas. Eu estava, porém,
preocupadíssima, com medo de que as verbas fossem insuficientes para
comprar todas. Agora, como ficaram prontas, viu-se que estavam ótimas,
ficando certa a sua aquisição.

Meishu Sama: No Japão, estão selecionando boas peças de


xilogravura, reproduzindo-as.

Srta. Tazuke: A Associação de Artes Orientais deleitou-se em arcar


com a incumbência. Parece que circularão pelo mundo inteiro. Vale
ponderar, contudo, que a arte japonesa não consiste somente de
xilogravuras...

184
Mundo do Belo

Meishu Sama: Afinal de contas, é preciso compilar um bom álbum


de pinturas. Pretendo fazer isso, mais cedo ou mais tarde. Tenciono
confeccionar um número considerável de livros com fotogravuras,
escolhendo obras famosas no Japão, e distribuí-los a tais órgãos de todos os
países. Afinal, no Japão, existem muitas obras boas.

Srta. David: Julgo ser esta uma idéia esplêndida, pode-se dizer
mesmo divina.

Secretário: A senhorita David comentou ter achado o exemplar do


Sutra da Vida de Sakya, de Nara, melhor.

Meishu Sama: Sinto ter de dizer, mas aquele exemplar é ruim. A


peça daqui foi executada em primeiro lugar.

Srta. David: Parece que sim.

Meishu Sama: Aquela peça foi feita posteriormente. A peça de Nara


faz parte do acervo da Escola de Belas-Artes. Ambos os exemplares — o
mais antigo e o mais novo — datam da Era Tempyo. O mais recente está
exposto no Museu de Nara. Fazendo o cotejo entre as peças, a diferença é
evidente.

Srta. David: O Sutra da Vida de Sakya é minha obra preferida.


Tenho a impressão de que toda a pintura japonesa se deriva dela.

Meishu Sama: Sua visão é agudíssima. Aconteceu realmente assim.


O inicio foi o Sutra da Vida de Sakya, passando posteriormente à pintura
yamato-ê.
Srta. David: Deu origem à pintura yamato-ê?!

Meishu Sama: Exatamente. Você conhece muito bem o assunto. Do


Sutra da Vida de Sakya derivou-se a pintura yamato-ê e, desta, a
xilogravura ukiyo-e. Possuo o primeiro exemplar da transição do Sutra da
Vida de Sakya para a pintura yamato-ê. Vou mostrar-lhe agora. Admira-me

185
Mundo do Belo

que você seja entendida a tal ponto. Mesmo entre os japoneses, são poucos
os que têm um conhecimento tão profundo como você!

A Igreja Meshia-kyo e o Museu de Arte

Jornalista: Vossa Reverendíssima parece conhecer o assunto a


fundo...

Meishu Sama: Desde jovem eu gosto do assunto e o vim


pesquisando a fundo.

Jornalista: Vossa Reverendíssima pode distinguir, pelo exame


visual, se determinada peça é legítima ou falsa?

Meishu Sama: Descubro de pronto.

Jornalista: Já lhe aconteceu de impingirem alguma obra falsa?

Meishu Sama: No início sim, mas logo descobri.

Jornalista: Como Vossa Reverendíssima explicaria a relação entre a


Igreja Meshia-kyo e o Museu de Arte?

Meishu Sama: Superficialmente, não há relação alguma. Todavia,


foi possível construir algo de semelhante proporção graças às doações, em
dinheiro, feitas pelos fiéis. A Igreja Meshia-kyo, porém, nada tem a ver
com isso. Um museu como esse faz-se extremamente necessário à nação.
Em vista disso, a Comissão de Conservação dos Bens Culturais mostra-se
imensamente satisfeita. Dizem lá que o país precisa, de qualquer jeito, de
uma coisa assim.

Jornalista: Fiquei assombrado diante da sua excelente localização.

Meishu Sama: Tem razão. O lugar também é ótimo. Além do mais,


como os estrangeiros visitam Hakone, infalivelmente, eles o vêem, mesmo
que essa não fosse sua intenção. Isto é o principal. Até hoje, o indivíduo

186
Mundo do Belo

comum, dificilmente, tinha acesso à apreciação de obras artísticas. Era


imprescindível, portanto, que tivéssemos algo franqueado ao público em
geral.

Jornalista: Qual a razão de a Igreja atribuir tamanha importância ao


Belo?

Meishu Sama: Como pregamos o trinômio Verdade, Bem e Belo,


este faz-se necessário. Eu afirmo que a Religião e as Belas-Artes estão
ligadas por laços indissolúveis. Em suma, a religião aprimora o sentimento
do homem. Em outras palavras, faz com que o homem evolua
ideologicamente. Para tanto, deve-se fazer com que a Beleza atue, deve-se
aumentar a sua função. Tal acontece, ademais, tanto pelos ouvidos quanto
pelos olhos. Todavia, hoje, o que entra por intermédio da visão mais
degrada que eleva. Muitas coisas: não condeno, por exemplo, o "strip
tease", contudo, neste ínterim, faz-se extremamente necessário alguma
coisa louvável, que enobreça. O artigo do senhor Tetsuzo Tanikawa, do
jornal Yomiuri, parece ter servido de ótima propaganda.

Jornalista: Sugeriria que Vossa Reverendíssima, por ter feito suas


apreciações, escrevesse, também, para jornais e revistas de arte.

Meishu Sama: Há um artigo na revista Geijutsu Shincho.

Jornalista: Nas revistas especializadas, abordar-se-ia somente


acerca da Arte. Creio que seria adequado conseguir, por exemplo, que se
editasse um número especial sobre o Museu de Artes de Hakone.

Meishu Sama: Pretendo realizar isso gradativamente. Hoje,


entretanto, se os estrangeiros fazem algazarra a respeito de algo, são logo
imitados pelos japoneses. O mesmo acontece com realização de
exposições, às quais convidassem críticos. Depois de assistir ao filme
Rashomon, no início, também eu não dava muito por ele, mas, tendo-o
revisto, depois de ouvir isso, o reconsiderei: é de fato uma boa obra.
Acontecerá o mesmo com as obras do Museu. (Aqui, mostrou-se um
conjunto composto de oito rolos de pintura retratando as oito fases da vida

187
Mundo do Belo

de Sakya.)

Srta. David: Interessantíssimo.

Meishu Sama: Não é? Em resumo, esta é a obra de transição da


pintura budista para aquela do estilo yamato-e. É uma peça do início da Era
Kamakura. Portanto, apresenta nitidamente características da Era Fujiwara.

Srta. David: Pois não. As oito peças são de um único autor?

Meishu Sama: Sim.

Srta. Tazuke: Penso que o Museu de Artes de Hakone logo


adquirirá fama entre os estrangeiros. Caso a UNESCO se envolva, os
japoneses virão correndo, despertados para a existência de algo assim.

Meishu Sama: Não se consegue mesmo curar dessa veneração pelas


coisas de fora.

Jornalista: Este projeto é obra de Sua Reverência?

Secretário: Ele o fez ao cabo de dois dias. Inclusive detalhes como


o tamanho das vitrines e tudo o mais, a começar pela disposição das coisas,
as medidas, etc.

Srta. David: Ficou perfeito. Uma maravilha.

Jornalista: Eu vim, vi e estava encostado por aí, quando...

Srta. Tazuke: É bem diferente da sala de editoria de um jornal ou de


uma repartição pública, não?

Meishu Sama: Apareçam de vez em quando para se refrescarem.


Afinal aqui é o local bem mais localizado de Hakone. Em Hakone, Gora é
o suprasumo. Não existem mais locais donde se possa dominar os quatro
lados da paisagem. Gora é um lugar assim. No outono, avista-se o mar. Lá

188
Mundo do Belo

da Península de Miura. Além do mais, o centro de Gora é justamente aqui.


No Japão, Hakone é o melhor parque que existe. Como aqui é o melhor
lugar de toda a região de Hakone, podemos afirmar que é o melhor de todo
o Japão. Em suma, eu tirei proveito da área estratégica de Hakone. Desde
há muito, eu tinha comigo que, se fosse construir um museu, o ambiente
teria que ser bom. A harmonia com o ambiente aqui é bem razoável.

Obs.: A conversa é inesgotável, mas como tornar-se-ia por demais longa,


omitimos sua continuação25.

Tijyo Tengoku, nº 41 - 25 de outubro de 1952

A CALIGRAFIA É A EXPRESSÃO DA PERSONALIDADE


(Do diálogo com certo visitante)

Visitante: Há muito tempo que Vossa Reverência pratica a arte


caligráfica?

Meishu Sama: Já há uns vinte anos.

Visitante: Acho as peças caligráficas chinesas extremamente viris:


são firmes com seus traços grossos e sem aparente preocupação com
detalhes.

Meishu Sama: Dentre os chineses, o mais exímio é Wang Hsi-chih.


É verdadeiramente exímio. Dentre os japoneses, Kobo Daishi é exímio.
Todavia, há uma diferença entre ser exímio e interessante. Na China, quem
tem uma letra interessante é o mestre Wuchuo da seita budista Zen, e eu
possuo o seu melhor trabalho. No Japão é o monge Daito Kokushi, o
fundador do templo Daitoku-ji, de Quioto. Gosto também da letra de Ikkyu.
Conforme o gênero, podem-se classificar as letras de interessantes,
habilidosas, elegantes, e assim por diante. Eu adoro a obra caligráfica do
monge zen-budista Ikkyu, mas sua letra é feia. Contudo, nos seus trabalhos,
não aparece a intenção de quem quis escrever bem. Sente-se que ele queria
escrever com naturalidade — isso é que é bom. Na maior parte dos casos,
25
Esta observação consta do artigo original.

189
Mundo do Belo

transparece a pretensão de bem escrever. Por exemplo, a letra de Takuan.


Há nela a ambição de quem quis escrever bem, de uma maneira excêntrica.
Isso torna sua caligrafia um tanto afetada. A mais pura é a de Ikkyu.

Visitante: Vi, não me lembro onde, o retrato do mestre Ikkyu: tem


ele uma fisionomia realmente natural. A letra do falecido senhor Konoe
gozava de boa consideração. Parece-me que foi ele que escreveu a tabuleta
com os dizeres Ministério Pan-Asiático, por ocasião da fundação do órgão.

Meishu Sama: Concordo. Naquela época, quando vi a mencionada


tabuleta, gostei das letras e, ao perguntar quem as escrevera, soube ter sido
o Sr. Konoe. De fato, a letra depende do homem. Tanto a caligrafia como a
pintura manifestam a personalidade, pelo uso da tinta e do pincel. Por isso,
a letra do calígrafo profissional não é interessante. Suas peças estão apenas
bem escritas. Aí não se trata de personalidade, mas de técnica.
(O interlocutor de hoje foi o Sr. Tsunezumi Isao, vice-diretor do
Departamento de Ciências do jornal Yomiuri Shimbun. O presente texto é
um extrato do diálogo travado entre o mencionado senhor e Meishu Sama,
durante entrevista realizada no outono passado, em Shinzan-so.)

Eiko nº l99 - 11 de março de 1953

ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO


TANIKAWA, DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA
UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (I)

No dia 26 de abril, teve a visita do Dr. Tetsuzo Tanikawa, Diretor


do Departamento de Letras, da Universidade Hosei, e crítico de arte, o qual
manteve um cordial diálogo com Meishu Sama. Nesse dia, o Dr.Tanikawa,
após passar pelo Museu de Arte de Hakone, aberto no dia 21 de abril, onde
apreciou um sem número de obras, chegou às dezessete horas e trinta
minutos em Hekiun-so. Foi prontamente recebido por Meishu Sama, e
senhora, e, a partir de então, entabulou-se de imediato animada
conversação a respeito de artes. Nesse período de duas horas e meia,
Meishu Sama mostrou-se extraordinário Dr. Tanikawa, e aquele quem
discursou, na recepção oferecida a personalidades importantes, por ocasião

190
Mundo do Belo

da abertura do museu, no ano passado. Além dele, estiveram presentes mais


três acompanhantes, no encontro de hoje: o Sr. Motoo Konishi, diretor do
Departamento de Empreendimentos, do jornal Hochi Shimbun, o qual foi
apresentado no número 193 da revista Eiko o Sr. Ka-ichiro Kosaka,
membro do Bureau de Editoria, e um fotógrafo do mesmo jornal.

Sr. Kosaka: A razão do nosso atraso de uma hora e meia com


relação ao nosso compromisso foi termos dispendido uma hora e meia a
mais na apreciação das obras de arte. Pela existência do compromisso, eu
queria vir logo, mas o Dr. Tanikawa custava a se mover do lugar

Dr. Tanikawa: Como era de se prever, é inviável ver tudo, caso não
se disponha de um dia inteiro.

Meishu Sama: Não é mesmo? Por isso, há gente que comenta que
há peças em demasia. Dizem ser cansativo, pela imensa quantidade.

Dr. Tanikawa: Pois não. Por causa disso, quando vou ao Museu de
Ueno, limito-me a duas ou três salas. Mesmo que quisesse ver tudo, não
daria conta. Nesse sentido, visito com certa freqüência museus como o
Bridgestone ou o de Arte Moderna, por contarem com poucas salas e
número reduzido de peças expostas.

Meishu Sama: Além do mais, esses museus são de fácil acesso, não
é?

Dr. Tanikawa: Tem razão. Desde a abertura, no ano passado, vim


aqui apenas por duas vezes trazendo minha mulher. Naquela época os
jardineiros ainda estavam a construir o jardim. Hoje, entretanto, pelo visto,
está tudo pronto.

Meishu Sama: Acresce-se a isso a conclusão do prédio anexo.


Neste, desde primeiro de junho estamos expondo xilogravuras ukiyo-e.

Dr. Tanikawa: Vossa Reverência utilizará o anexo de agora em


diante exclusivamente para a exposição de ukiyo-e?

191
Mundo do Belo

Meishu Sama: Não é bem assim; pretendo utilizá-lo para fins


especiais.

Sobre a Religião e as Artes

Sr. Kosaka: Durante o percurso de carro até aqui, o Dr. Tanikawa


comentou: "O fato de uma organização religiosa levar este
empreendimento a cabo constitui um fenômeno de uma nova era. É algo
inédito em toda a História progressa do Japão. É necessário aprofundar
em âmbito nacional a consciência em relação a isto." Nós também estamos
de acordo. Julgamos ser um ótimo empreendimento. As organizações
religiosas hodiernas estão a construir faculdades e jardins de infância, mas
isso são coisas que qualquer um é capaz. A empresa que os senhores estão
concretizando é, em se tomando somente o acervo artístico, algo tremendo.

Meishu Sama: Penso eu da seguinte maneira. A religião e as artes


são inseparáveis. O objetivo da religião é a construção do Paraíso. Assim, é
mister atuar no campo artístico. Como vivemos em uma época em que a
guerra acabou, o papel principal cabe às artes. Antigamente, o príncipe
Shotoku trabalhou intensamente. É ele uma espécie de patriarca
responsável pela disseminação do budismo no Japão. O principal meio de
expansão por ele utilizado foi a arte búdica. Assim como o príncipe
Shotoku deu início ao budismo japonês, eu construo algo de âmbito
mundial, como se extrapolasse a obra do príncipe a esse nível. Considero,
sobretudo, ser preciso conscientizar amplamente o mundo da profundidade
do senso estético do japonês. Construí, a título de experiência, o Museu de
Artes de Hakone, mas quero crer ter concretizado algo que mereça ser
visto. Pretendo, agora, construir outro em Atami.

Dr. Tanikawa: Contudo, essa é uma obra extraordinária. Creio que


o seu significado reside, sobretudo, em Vossa Reverência tê-la construído
em Hakone. Hakone é um lugar visitado por muitos estrangeiros; julgo
haver um imenso sentido em expor num museu obras artísticas
maravilhosas como aquelas, quando se expõem souvenires baratos com
mira nos estrangeiros.

192
Mundo do Belo

Meishu Sama: Pretendo, depois deste, construir em Quioto, algum


dia, um museu especializado em arte budista.

Dr. Tanikawa: Tanto em Atami como em Quioto? Vossa


Reverência tem idéias arrojadas. Solicitaria que levasse este plano adiante.

Sra. Okada: Todavia, isso hoje, de imediato, é difícil, não?


(Gargalhada geral, por um trocadilho entre as palavras homôfonas em
japonês "hoje" e "Quioto").

Meishu Sama: Deve-se dizer que a escultura budista japonesa goza


de primazia em termos mundiais e que dela podemos nos orgulhar diante
do mundo inteiro.

Dr. Tanikawa: Tem razão.

Meishu Sama: Contudo, o que mais me aflige é a questão


monetária. Então, passo o ano inteiro a saborear tanto o deleite como a
aflição.

Dr. Tanikawa: Convenhamos que não há outros lugares capacitados


a comprar um acervo como este. Mesmo os grandes museus não dispõem
senão de verbas mínimas para aquisição.

Meishu Sama: Por isso acabo fazendo o que não está dentro de
minhas posses. Verifica-se com freqüência o perigo de que, caso eu não as
compre, tais peças sejam levadas para os Estados Unidos. Eu me vejo
combalido a impedir isso. Penso que mereço considerável reconhecimento
com relação ao serviço que estou prestando à nação.

Dr. Tanikawa: Tem razão.

Sr. Kosaka: O que é imperdoável é que queiram ainda cobrar


imposto sobre isso, não?

193
Mundo do Belo

Meishu Sama: Em virtude disso é que estou tomando providências


para a criação de uma fundação. O problema estaria solucionado se as
peças fossem compradas por uma instituição religiosa e doadas a uma
fundação.

194
Mundo do Belo

Sr. Konishi: No museu, as obras com as quais o Dr. Tanikawa


consumiu mais tempo a apreciar foram as imagens budistas. Dentre elas,
havia uma que contava com um boi na sua composição. Ele retirou o boi
para contemplar a peça e pediu que a fotografássemos. Isso foi o que
custou mais tempo, levando três horas. Ficamos com os pés doendo,
acabando os três por fugirmos.

Sr. Kozaka: O que assusta é ele dizer, ainda assim, que lhe faltou
tempo. Hoje, havia visitantes estrangeiros acompanhados de suas esposas,
fato que achei excelente. Acho interessante que pessoas do mundo inteiro
venham aqui e vejam obras de arte como aquelas. Provavelmente este
museu ficará famoso primeiramente entre o pessoal do exterior. Penso,
entretanto, que, pela inexistência de explicações apropriadas aos
estrangeiros, será que não ficaria difícil de entenderem?

Meishu Sama: Gradativamente, estou pensando em detalhes como


tais explicações.

Secretário: Para a atual exposição de xilogravura ukiyo-e existem


explicações preparadas pelo Sr. Ichitaro Kondo.

ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO


TANIKAWA, DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA
UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (II)

A respeito da Xilogravura Ukiyo-e

Dr. Tanikawa: Constam desta exposição as Cinqüenta e Três Vistas


impressas pela Hoeido. O Sr. Kodo Nomura, autor da série Zenigata Heiji
Torimonocho, possui bons exemplares daquela mesma edição. O Sr.
Nomura talvez seja o maior colecionador de Hiroshige no Japão. Existem
várias impressões das Cinqüenta e Três Vistas, mas a melhor é a da
Hoeido, não?

Meishu Sama: As Oito Paisagens de Edo, de Hiroshige, são


também boas peças, não acha?

195
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: Contudo, diga-se o que for, a obra-prima de


Hiroshige trata-se da Neve, Luar e Flores. A seqüência formada de três
quadros é o que há de melhor, não? É difícil encontrarmos exemplares
completos desta obra. Além das citadas, existem várias outras famosas.
Como também comentam os ocidentais, todas aquelas que tratam da
temática da chuva e da neve são ótimas. Por isso, gosto da Neve, Luar e
Flores.

(Diante das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji de Hokusai.)

Meishu Sama: Também não existem muitos exemplares completos


desta obra. Muito embora eu ache que, ao invés de se procurar completar a
série, o importante seja encontrar um bom número das melhores vistas.
Afinal, não é preciso ver todas as trinta e seis.

Dr. Tanikawa: De todo o conjunto, eu gosto de verdade apenas de


três vistas. Brisa de Verão em Céu Límpido e Chuva de Verão no Sopé do
Monte: aquela em que o Fuji aparece enorme, com o céu encarneirado; a da
neve e aquela em que há um vagalhão. Gosto destas três, o resto não me
interessa.

Meishu Sama: É um despropósito comprar aquelas em que


aparecem figuras estranhas.

Dr. Tanikawa: Há uns trinta anos andei comprando algumas peças


do monte Fuji: uma das melhores obras com este tema é a citada Brisa de
Verão em Céu Límpido. Trata-se de uma obra mundialmente famosa, sendo
excelente. É a obra-prima de toda a produção de Hokusai. A matriz
também conserva-se em bom estado, não?

Meishu Sama: Como o senhor avalia este exemplar?

Dr. Tanikawa: Muito bom. Todavia, o aspecto das nuvens é por


demais denso. Falta-lhes graça. Há exemplares mais arrojados. Além do
mais, o céu deveria parecer mais alto, sendo de cor mais clara. Se estivesse

196
Mundo do Belo

mais claro, as nuvens flutuariam. O tom deste vermelho, caso fosse mais
acentuado, ficaria melhor. Esta Chuva de Verão no Sopé do Monte é ótima.
A reprodução executada pelo Sr. Takamizawa, na Era Taisho, é perfeita:
ele executou um trabalho idêntico em todos os detalhes, inclusive os
defeitos. Como os especialistas tornaram-se incapazes de discernir o
original, todas as peças passaram a receber a classificação de reprodução.
Dentre as obras posteriores às de Harunobu, gosto destas três e da série
Neve, Luar e Flores, de Hiroshige. Das obras anteriores, gosto de todas.
Gosto também de Kiyonobu, Kyomasa, Sukenobu e outros. São ótimas
todas as obras monocromáticas, impressas a nanquim, anteriores às
coloridas (nishiki-e). Pertencem a uma fase anterior à da impressão em que
de dava predominância ao vermelho (benizuri-e), tendo sido idealizadas
depois das obras em preto e branco. Gosto, ainda, das peças impressas com
laca, chamadas urushi-e. O mestre da modalidade benizuri-e é Toyonobu;
Harunobu, do gênero nishiki-e.

Meishu Sama: Há uma extraordinára pureza aí, não acha?

Dr. Tanikawa: São belas. Tem-se, depois, a obra de Kiyonobu. A de


Utamaro também é boa, mas — como diria — o que se sente é algo já em
decadência.

Meishu Sama: Falta-lhe classe, não é?

Dr. Tanikawa: Sim. Contudo, mesmo depois de Harunobu, a obra


de Sharaku é boa. Trata-se de uma existência intrigante e particular.

Meishu Sama: A obra de Kiyonaga é boa, não acha?

Dr. Tanikawa: Eu classificaria assim: Sharaku, Utamaro e


Kiyonaga. Outro dia veio parar em minhas mãos uma peça de cerâmica
chinesa negra. É algo incrível. Artistas como Picasso, se a vissem, ficariam
boquiabertos. Este gênero de peça foi desenterrado uma única vez, sendo,
pois, conhecidos todos os exemplares existentes.

(Diante de xilogravuras de Harunobu)

197
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: Haronobu é realmente excelente. Além disso, estas


peças encontram-se em estado de boa conservação. No campo da
xilogravura ukiyo-e, Packard era um expert.

Meishu Sama: Já ouvi o nome.

Dr. Tanikawa: Este senhor levou boas peças consigo e, por estarem
extraordinariamente bem conservadas, lá as tiveram todas por falsas — já
que não conheciam peças em tal estado de conservação. Este Harunobu é
muito bom. É intrigantemente belo. Em toda a obra de Harunobu, não
existem senão duas peças com o fundo em vermelho, tratando-se, pois, de
um exemplar extremamente raro. Quando digo duas peças, não significa
que existam apenas dois únicos exemplares, mas sim duas gravuras. A
presente — do tear — e outra em que se apanha água. Esta última encontra-
se em um museu. Por isso, Kondo dizia existir apenas uma gravura. Eu,
depois do fim da guerra, vi esta pela primeira vez, numa reunião de chá, em
Kawasaki. Trata-se de uma obra raríssima. Ademais, seu estado de
conservação é ótimo, não? Ao todo, são quantas peças?

Meishu Sama: Seriam dez?

Dr. Tanikawa: Por ser uma obra rara, lembro-me perfeitamente dos
temas. Naquela oportunidade, havia dezesseis peças. Esta obra de
Harunobu, seja pelo tema, pela conservação e, sobretudo, por contar com
estas gravuras com o fundo em vermelho, é excelente. Eu não aprecio
muito Harunobu, mas esta obra me deixa com água na boca. Caso esta
gravura do tear constar de alguma de suas exposições de ukiyo-e, virei aqui
especialmente para apreciá-la.

(Diante de xilogravuras de Toyokuni)

Meishu Sama: A cor das vestimentas é boa, não é?

Dr. Tanikawa: Sim. Toyokuni mostra-se freqüentemente grosso,


mas estas peças são boas. Além disso, possuem muita energia.

198
Mundo do Belo

Meishu Sama: Pois não. Acresce, ainda, que o colorido é bem


refinado.

Dr. Tanikawa: O senso de coloração do gênero ukiyo-e é bastante


refinado. Gosto destas obras da época em que se imprimia o contorno em
nanquim, colorindo-se, depois, a gravura a mão. Quem se encarregava
deste trabalho eram aprendizes, fazendo-o de qualquer maneira. Encerra-se
aqui, porém, um interessante sabor.

Meishu Sama: De fato, tem um excelente sabor.

Dr. Tanikawa: A primeira impressão de obras como esta estava


restrita a trezentos exemplares. Caso sua vendagem fosse boa, imprimia-se
mais. Todas as peças desta série de Toyokuni são ótimas. A obra Trinta e
Seis Paisagens do Monte Fuji, em cotejo com esta, excetuando-se algumas
peças, perde. Se bem que este seja um parecer oriundo do meu gosto
pessoal. Penso não haver necessidade de Vossa Reverência adquirir todas
aquelas peças. De uma perspectiva artística, as peças realmente boas são
apenas algumas. Na exposição sobre o Japão, que realiza agora nos Estados
Unidos, a obra que foi daqui é apenas a Banhista?

Meishu Sama: Sim.

199
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: A Banhista é uma excelente peça, não?

Meishu Sama: Acho que pode ser considerada a melhor obra de


todo o gênero ukiyo-e, concorda?

Dr. Tanikawa: Tem-se a A Banhista e o Biombo de Hikone, mas,


como este é uma peça de grandes dimensões, na verdade, aquela é a
primeira. O Biombo de Matsuura também é famoso, contudo fica muito
aquém do Biombo de Hikone.

Meishu Sama: Quanto à pintura, o que há de melhor é a das


dinastias Sung e Yuan, não acha?

Dr. Tanikawa: Concordo plenamente. Também no ano passado a


obra Han Shan e Shih Tê, de Liang Chieh estava exposta, não é?

Meishu Sama: Trata-se de uma peça esplêndida, dotada de graça.

Dr. Tanikawa: Simplesmente esplêdida. Digam o que disserem, é


inegável que a obra de Liang Chieh seja a primeira do mundo. Dele e de
Mu Hshi.

Meishu Sama: A pintura destes dois é incrível, não?

Dr. Tanikawa: A obra Martim-Pescador e Lavandisca, de Mu Hshi,


a qual vi no ano passado, desta vez não foi exposta, não é?

Meishu Sama: Exatamente. Este ano ainda não a expus. Depois,


aquela paisagem de Ma Yüan é muito boa. Ouvira dizer que ela teria outro
paradeiro; fiquei feliz em tê-la encontrado aqui. Foi uma pena não estarem
expostos os originais dos afrescos de Tung Huang.

200
Mundo do Belo

SOBRE PEÇAS CALIGRÁFICAS DE GRANDES MONGES E


MANUSCRITOS ANTIGOS

Dr. Tanikawa: Em se tratando de peças caligráficas de grandes


monges, a obra de Mao Ku-lin e a de Cheng-Cheng é excelente. Gosto de
Mao Ku-lin, Ch'ing-Tsuo Cheng-Cheng e Wu-Hsüeh. A caligrafia antiga
dos grandes monges é toda ela boa, mas aprecio a destes três e tenho
vontade de adquirir algum dos seus trabalhos.

Meishu Sama: Tenho comigo duas peças de Wu-Hsüeh. Que tal lhe
parece a obra de Daito?

Dr. Tanikawa: Gosto de Daito. Dentre os japoneses, o melhor é


Daito. Todavia, o melhor mesmo foi produzido pelos chineses.

Meishu Sama: Que tal lhe parece Mujun?

Dr. Tanikawa: Também gosto de Mujun. Gosto ainda de Dai-e.


Outro dia, por ocasião das solenidades do festival religioso Daishikai, vi
uma peça dele. Conservava a moldura original da Era Muromachi. Aliás, a
moldura da obra de autoria de Mao Ku-lin, que hoje vi no museu,
assemelha-se um pouco a ela. A de hoje tinha a orla central confeccionada
com um tecido de estampas douradas, tendo os adereços das margens da
pintura e os pingentes em escumilha antiga. A que eu vi na cerimônia de
chá do festival Daishikai tinha a orla central em escumilha antiga e os
adereços das margens e os pingentes confeccionados em tecido com
estampas douradas. A moldura da peça de Mao Ku-lin rivaliza-se com ela.
Mesmo supondo-se que tenha sido reformada, usou-se aí o tecido original.

Meishu Sama: Que tal lhe parecem os manuscritos antigos?

Dr. Tanikawa: Também gosto deles, mas prefiro mesmo as peças


caligráficas dos grandes monges. Dentre os manuscritos antigos, aprecio a
peça Tsugi-shikishi. Contudo, há peças renomadas de que não gosto muito.
Há de se convir, todavia, que a obra Riraku-jo, de autoria de Sukemasa
Fujiwara, não apenas pode emparelhar-se com as peças caligráficas dos

201
Mundo do Belo

grandes mestres, mas chega mesmo a suplantá-las. Ademais, voltando um


pouco mais no tempo, dentre as obras de caligrafias japonesas, a de que
mais gosto é a Itonaishinno-goganmon, de autoria de Hayanari Tachibana.
Até vê-la, eu acreditava que a melhor era Kyushin-sho, de Kobodaishi; mas
a partir de então passei a considerá-la a primeira. Outrossim, julgo a obra
Fushin-jo superior às chinesas. Noto, porém, que minha preferência fica
mesmo com as peças caligráficas de grandes monges, quando em cotejo
com manuscritos antigos corriqueiros, salvo a peça Tsugi-shikishi. Parece-
me que a obra chinesa Kanjiki-jo, de Su Tung-p'o, foi parar na China,
recentemente. O que é lamentável. Já há algum tempo os chineses estavam
de olho nela. Houve proposta de compra por um museu, mas, por razões
tributárias, o dono não recusou a proposta. Uma pena, realmente.

Meishu Sama: Que tal Toshinari?

Dr. Tanikawa: Gosto. O problema é que ele pertence a uma idade


mais recente... Ele viveu no início da Era Kamakura: prefiro mesmo as
obras de eras mais antigas. Anteriormente eu tinha em grande conta as
obras de seu filho Sada-ie. O diário de Sada-ie entitulado Meigetsu-ki foi
recortado e circula emoldurado em grande quantidade. Em vista disso, sua
cotação no mercado é baixa. Uma obra de autoria de Sada-ie que ainda hoje
alcança bom preço é a Ogura-shikishi. O filho de Sada-ie é Tame-ie, não?

Meishu Sama: Que tal Tsurayuki?

Dr. Tanikawa: As peças classificadas como de autoria de Tsurayuki


são apreciáveis.

Meishu Sama: Eu gosto da letra de Tsurayuki.

Dr. Tanikawa: Entretanto, do ponto de vista do sabor artístico,


aquelas obras cuja autoria não é comprovadamente de Tsurayuki carecem
de graça. Uma peça de autoria apenas provável não passa, afinal de contas,
disso.

Meishu Sama: Isso lá é verdade.

202
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: Sob esse aspecto, a peça Riraku-jo, de Sukemasa, é


provida de graça. Temos, ainda, a peça Kojima-gire, cópia de Michikaze,
que, apesar de ser uma boa obra, não tem força. Por isso, fico mesmo com
Riraku-jo.

Meishu Sama: Eu gosto da letra de Sigyo.

Dr. Tanikawa: Também gosto da letra de Saigyo.

Meishu Sama: A letra de Kobodaishi é bela, mas algo pedante.

Dr. Tanikawa: Discordo. A escrita autêntica de Kobodaishi é boa. A


pedante é a falsa.

Meishu Sama: Correm por aí peças falsificadas de Hakuren Shonin.

Dr. Tanikawa: Por carecer de oportunidades de ver obras de


Hakuren, não sei bem sobre o assunto.

Meishu Sama: Convenhamos, todavia, que não existe um calígrafo


cujas obras foram tão falsificadas como Ikkyu.

Dr. Tanikawa: Como a letra de Ikkyu é bem característica, uma vez


captados os seus vícios, o trabalho de falsificação é simples.

203
Mundo do Belo

Meishu Sama: A escrita de Ikkyu não é bela, contudo tem sabor,


não acha? Agora, no tocante a caligrafia de imperadores, qual seria a
melhor?

Dr. Tanikawa: A do imperador Saga. Tem sabor. Afinal de contas,


ao lado de Kukai e Hayanari Tachibana, ele é considerado um dos três
grandes calígrafos.

Meishu Sama: Na sala de chá Shinju-an, do templo Daitoku-ji, há


uma peça do imperador Godaigo, não é?

Dr. Tanikawa: A letra de Godaigo é parecidíssima com a de Daito


Kokushi, não?

Meishu Sama: A caligrafia do imperador Gomizuno-o também tem


sabor, não acha?

Dr. Tanikawa: De fato.

Meishu Sama: De qualquer forma, tanto a escultura, como a pintura


ou a caligrafia da Era Heian são excelentes, não? Embora seja ínfima a
diferença com o produzido na Era Kamakura, isso é decisivo, não?

Dr. Tanikawa: Tem razão.

Eiko nº 212 - 10 de junho de 1953

ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO


TANIKAWA, DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA
UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (III)

Sobre utensílios da Cerimônia de Chá

Dr. Tanikawa: Desta vez não havia utensílios da cerimônia de chá


no Museu de Artes de Hakone. Todavia, seria desejável poder apreciar
algumas taças de chá.

204
Mundo do Belo

Meishu Sama: Em se tratando de utensílios da cerimônia de chá, a


gente não se satifaz caso não os manipule, concorda?

Dr. Tanikawa: Além do mais, em ambientes claros como nos


museus, é decepcionante. Sobretudo no caso das taças de chá do gênero
Ido, há que se vê-las num ambiente umbroso como no das salas de chá. A
propósito, tenho um episódio interessante a relatar. No ano passado, a taça
Fuji-san, de autoria de Koetsu, estava em exposição. Como eu não me
poderia dar por satisfeito se não a tocasse, procurei o diretor do museu,
pedindo-lhe autorização para isso. A resposta que ouvi, porém, foi que
seria impossível, visto estar terminantemente proibido pelo Sr. Sakai.
Todavia, alguém teria que guardar a taça no depósito, pelo que fui
aconselhado a aguardar até a ocasião. Assim fazendo, juntou-se
silenciosamente a mim um bando de gente que havia pedido para manusear
a taça e recebera a recusa. Na oportunidade, examinei-a detalhadamente.
De outra feita, numa exposição ocorrida há seis ou sete anos no Museu de
Artes Hakutsuru, expõs-se a taça Bishamon-do, de autoria de Koetsu e
propriedade da família Konoike, a qual eu queria manusear a qualquer
custo. Dirigi-me ao museu de manhã, com essa intenção. Disseram-me,
porém, que somente me poderiam mostrar depois que todos fossem
embora, em virtude do que esperei umas três ou quatro horas. É sempre
assim.

Sra. Okada: No final, a gente tem de encostar os lábios nela, não?

Meishu Sama: É a satisfação proporcionada pelo tato. Eu sempre


almejei a Fuji, mas em vão.

Dr. Tanikawa: No caso de taças como essas, eu gosto da Fuji e da


Amagumo.

Meishu Sama: Muito bem. Eu gosto ainda da Kamiya. O que me diz


do gênero Tyojiro?

Dr. Tanikawa: A melhor é a Ohguro. Há três ou quatro anos, numa

205
Mundo do Belo

exposição cujo tema era a Cerimônia do Chá, ela aí se encontrava. Como


eu não me daria por convencido se não a tocasse, fui de manhã a esse
museu e esperei atá a tardinha. Aquela é uma taça de chá que parece
simples, mas tem algo de indescritível. É a perfeição.

Meishu Sama: É verdade.

Dr. Tanikawa: Ela pode emparelhar com a Fuji. Em certo sentido,


é-lhe mesmo superior. Não existe outra taça que tenha tanta nobreza como
ela. Já pela Amagumo, sente-se familiaridade. Aqui, a nobreza da Ohguro é
elevada, ficando muito além da Fuji. Isso é indescritível.

Meishu Sama: Em outras palavras ela não é pedante. É refinada.

Dr. Tanikawa: Exatamente. O mesmo pode ser dito quanto a ótica


de apreciação das taças do tipo Ido. Nada tem de artificial. São donas de
uma franca simplicidade.

Meishu Sama: Pois não. Recebi bastantes elogios com a relação à


taça Ayame, a qual expus no ano passado.

Dr. Tanikawa: Aquela também é uma taça apreciável.

Meishu Sama: Que tal a taça Gandori?

Dr. Tanikawa: Como ainda não vi a original, não sei muito a seu
respeito. Parece-me que tem algumas pequenas falhas, não?

Meishu Sama: Conhece esta?

Dr.Tanikawa: Vejo-o pela primeira vez. Tem jeito de ser do tipo


Koetsu. Será Zeze Koetsu?

Meishu Sama: Exatamente.

Dr. Tanikawa: Eu a conhecia apenas por fotos, sem ter ainda visto a

206
Mundo do Belo

peça original.

Meishu Sama: As que constam do Catálogo de Peças Famosas são


inferiores a ela.

Dr. Tanikawa: Esse é um fato bem conhecido, não é? Eu tinha


ouvido dizer que, dentre as taças de autoria de Koetsu, a Zeze Koetsu era
completamente diferente. Suas bordas são indescritíveis. Sua base também
é indescritível, mas as suas bordas são esplêndidas, não acha? São
complexas, não? Também é ótimo seu formato. Há uma taça famosa de
nome Otogoze. Sua base é verdadeiramente boa, mas suas bordas são algo
frouxas. As bordas desta são melhores. Sim, senhor, queria ver a sua caixa.
Jamais poderia imaginar que tomaria chá na taça Zeze Koetsu. Esta caixa é
de Enshu, não é?

Sra. Okada: Pelo sinal fu nela aposto, parece ser Chinkoro, de


Sotatsu.

Dr. Tanikawa: Tem-se essa impressão, não? Esta taça foi bastante
usada. No caso das taças de chá, basta que se veja a base para se saber. O
fato de sua base estar gasta advém do atrito com o tatami. Vendo-se apenas
a sua parte superior, tem-se a impressão de que é uma peça extremamente
nova. Contudo, ao observarmos a base, podemos depreender que é uma
taça antiga. Ela está gasta pelo atrito com o tatami ou mesmo pelo roçar
com as mãos. Além disso, o fato de ela se abrir com naturalidade em
direção à parte de cima, como se desabrochasse, é algo maravilhoso.
Depois, nada há de artificial nela e, quanto às suas bordas, estas apresentam
uma feição indiscritivelmente complexa. A taça apresenta por si só um
variado panorama, sem nenhuma artificialidade.

Meishu Sama: É, de fato, obra de um artífice famoso. No que toca


as taças de chá do tipo Ido, quais merecem sua preferência?

Dr. Tanikawa: Sem dúvida a Kizaemon. A seguir, citaria a


Bishamon-do.

207
Mundo do Belo

Meishu Sama: Que tal a Tsutsuizutsu?

Dr. Tanikawa: Em vista das numerosas fraturas que ela apresenta,


há quem não goste dela. Todavia, sua forma é de primeira classe. Da
perspectiva da beleza, eu tomaria a Hosokawa Ido e a Yuraku Ido, mas no
que diz respeito à energia, sem dúvida o primeiro lugar cabe a Kizaemon.
Entretanto, por a Kizaemon não trazer tantas fraturas como a Tsutsuizutsu,
é forte em demasia. Há pessoas que lhe sentem certa aversão, mas não eu.
Outrossim, há um fato curioso a respeito. Há uns trinta anos, a Tsutsuizutsu
encontrava-se por muito tempo exposta no Museu de Quioto. Naquela
época, ela mostrava-se totalmente empoeirada. Outro dia, porém,
convidado para uma cerimônia de chá em Saga, deparei-me com a
mencionada taça, muito mais bela que antes. A verdade é que as taças de
chá terminam por perder a vida quando não usadas. Fenômeno idêntico
ocorre com os tinteiros de pedra. Os tinteiros Tuan-hsi, se não utilizados
por longo tempo, acabam por perder a vida. Na China, quando há um
tinteiro assim, eles o umedecem diariamente com água, friccionando nele o
bastão de tinta. Com a repetição da ação por uns três anos, dizem que ele
volta a adquirir vida. Assim, a beleza das taças de chá, como essas Ido
sobre as quais conversamos, encerra o sabor advindo de anos a fio de uso.

Meishu Sama: É o que também aconteceu com a Zeze Koetsu, não


é?

208
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: Há aqui a manifestação da beleza humana.

Meishu Sama: É algo simplesmente maravilhoso.

Sra. Okada: Podemos então dizer que, por estas taças terem sido
feitas com o fim de se tomar chá, elas perdem a vida se não forem
utilizadas, não é mesmo?

Dr. Tanikawa: Perfeitamente. Graças ao fato de serem manuseadas,


o que existe de inerente nas taças torna-se manifesto. Não existe outro
gênero de louça como este no mundo inteiro. Verdade é que a porcelana
chinesa não encontra similar, mas na China inexiste algo como a cerâmica
Raku. Esta provém da genialidade nipônica.

Meishu Sama: Realmente, não? Vi recentemente uma taça de chá


pertecente ao monge — qual era mesmo o nome? — que trouxe o chá para
o Japão.

Dr. Tanikawa: De porcelana verde resedá ou T'ienmu?

Meishu Sama: Nenhuma dessas. Uma taça de louça delgada


comum, semelhante à porcelana chinesa produzida nos fornos Yueh Chou,
acinzentada. De cor parecida com a da louça verde resedá de Juko.

Dr. Tanikawa: Então, não seria do mestre zen Eisai?

Meishu Sama: Isso mesmo. Vi essa taça. Tinha um excelente sabor.

Dr. Tanikawa: Foi o mestre zen Eisai quem trouxe o chá. Ele
também é conhecido pelo nome de Myoe ou Myoe Shonin. Foi ele quem
difundiu o chá.

Eiko nº 213 - 17 de junho de 1953

209
Mundo do Belo

ENTREVISTA DE MEISHU SAMA COM O DR. TETSUZO


TANIKAWA, DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS, DA
UNIVERSIDADE HOSEI, E CRÍTICO DE ARTE (CONCLUSÃO)

Sobre a porcelana chinesa

Dr. Tanikawa: Quando vim da outra vez, também ele estava


exposto: o vaso Keito, do forno Yüeh Chou, que se encontra logo no lado
direito da entrada da sala número cinco. Trata-se de uma ótima peça.
Também este ano ele estava no mesmo lugar em que foi exposto no ano
passado. Do gênero Yuechou, é uma das melhores peças existentes. Sempre
sinto prazer em apreciá-lo.

Meishu Sama: Outro de seus méritos é o tamanho.

Dr. Tanikawa: Sim. É grande e vigoroso: uma obra que impõe sua
presença.

Meishu Sama: Há também um vaso menor do mesmo tipo nos


Estados Unidos da América, não?

Dr. Tanikawa: Depois gosto da porcelana produzida nos fornos


Hsiao T'an. Sabe-se a quem pertence cada uma das peças existentes.
Levantaram-se inúmeras vezes questões a respeito delas. Deste gênero de
porcelana o melhor é o incensório do Sr. Iwasaki e o vaso do Sr.
Yokokawa.

Meishu Sama: Pois não.

Dr. Tanikawa: Como os estudos acerca dos fornos Kê, da dinastia


Sung do Sul, só recentemente foram terminados, ainda não se pesquisou
sobre os fornos Hsiao T'an. A propósito, a peça trapezoidal de porcelana
Kê agora exposta é uma bela peça. Ainda não vi pessoalmente o incensório
do Sr. Iwasaki, mas pelas fotografias coloridas que vi anteriormente, sob a
perspectiva da cor, ambas as peças são bem parecidas. Queria apreciar com
minhas mãos algum dia o incensório do Sr. Iwasaki.

210
Mundo do Belo

Sra. Okada: É uma obra que pode ser considerada uma das
melhores do seu gênero?

Dr. Tanikawa: Sem dúvida. Contudo, no que diz respeito à coleção


Yokogawa, apesar de contar com uma considerável quantidade de peças, as
obras de primeira são raras.

Meishu Sama: Nesse sentido, não seria o Museu Hakutsuru o


possuidor das melhores?

Dr. Tanikawa: Ainda não examinei concretamente o citado acervo,


mas pode ser que seja assim.

Meishu Sama: Pois não. Lá existem duas ou três obras que almejo
obter de qualquer maneira; entretanto, eles não as querem ceder.

Dr. Tanikawa: Boas peças são as negras, não?

Sra. Okada: Tais peças são de autoria de artesãos famosos?

Dr. Tanikawa: Sim, já que provêm dos fornos reais.

Meishu Sama: Eles as confeccionavam colocando aí sua alma,


visando a agradar os imperadores.

Dr. Tanikawa: Atualmente, as peças conhecidas como oriundas dos


fornos Hsiao T'an são o so, de Fukosai, a que pertece a Iwasaki e aquela da
coleção Yokogawa.

Meishu Sama: O que vem a ser so?

Dr. Tanikawa: Trata-se daquilo conhecido no Japão como sangite.

Meishu Sama: Aquele sangite é uma ótima peça, não?

211
Mundo do Belo

Dr. Tanikawa: Outrora, afluiu ao Japão um grande volume de peças


de porcelana verde resedá kinuta, ou seja, aquela proveniente dos fornos
Lung Ch'üan. Daí a razão de se desconhecer que o so doado por Fukosai
era de uma porcelana mais preciosa que a tipo verde resedá kinuta. O
mencionado so encontrava-se sob a posse da família Date, que o utilizava
como jarra de água nas cerimônias de chá. Um senhor de nome Sherman
Lee, em sua estada no Japão, tendo visto essa peça, estalou a lingua — ele
tinha a mania de fazer isso diante de peças de que gostara. Disse ele que na
coleção David também havia uma peça assim, mas que esta era muito
melhor. Comentou que em Nova Iorque se poderia pedir por ela o quanto
fosse: quarenta mil ou cinqüenta mil dólares.

Meishu Sama: Na coleção David existem enormes peças do tipo


hibite. Do que se trata aquilo?

Dr. Tanikawa: Inicialmente, eram muitas as peças pertencentes à


família imperial da dinastia Chin. São, todavia, obras um tanto quanto
problemáticas. Assim, lá é numeroso o gênero de peças tidas como
provenientes dos fornos Kê, da dinastia Sung do Sul. Há uma quantidade
razoável de peças amareladas.

Meishu Sama: Seja como for, a porcelana verde resedá é um


assunto complexo, não é mesmo?

Dr. Tanikawa: Sim, é complexo. Eu venho lidando há uns trinta


anos com louças, mas devo confessar que somente captei o verdadeiro
sabor da porcelana verde resedá há uns cinco ou seis anos. Em vista da
complexidade, esse sabor é difícil de ser captado.

Meishu Sama: Também eu aprecio a porcelana verde resedá, mas as


minhas dúvidas sobre ela surgem umas após as outras.

Dr. Tanikawa: Seja como for, hoje, quando tomamos em


consideração o fato de ter sido esta a porcelana mais prezada pelos
chineses, compreendemos que ela seja a rainha das porcelanas.

212
Mundo do Belo

Meishu Sama: Sem dúvida. Trata-se de uma porcelana que tem


classe. Elogiam-me muito o vaso em exposição no museu.

Dr. Tanikawa: Aquele produzido em algum forno Hsiu Nei Ssu? É


uma bela peça.

Meishu Sama: A peça trapezoidal de porcelana verde resedá


exposta no ano passado também era boa, não acha?

Dr. Tanikawa: Sim, era uma boa peça. Dentre as obras classificadas
antigamente como verde resedá kinuta, selecionaram-se — graças aos
estudos progressivos — aquelas peças produzidas pelos fornos Hsiu Nei
Ssu. São peças de um colorido um pouco esbranquiçado, dotadas de muita
classe.

Meishu Sama: Exatamente. Os detalhes, a forma, a precisão de sua


delgada espessura: tudo, enfim, é perfeito.

Dr. Tanikawa: Tem razão.

Meishu Sama: Dias atrás, quando fui a Nagóia, vi um jarro com as


asas em forma de fênix: sua cor era elogiável, mas não os detalhes. Em
resumo, uma peça de gosto extravagante. Uma das asas, inclusive, parecia
um trabalho de recuperação da original, que fora danificada.

Dr. Tanikawa: Eu ainda não apreciei essa peça tomando-a em mãos,


todavia, ela tem imponência.

213
Mundo do Belo

Meishu Sama: Sim. É uma peça que aparece.

Sra. Okada: A peça com peônias em relevo do Museu Hakutsuru


também é uma ótima peça.

Dr. Tanikawa: Sim, mas eu prefiro as lisas a tais tipos rebocados.

Meishu Sama: A mencionada peça, porém, era boa. Algo diverso do


convencional: era extremamente vigorosa.

Dr. Tanikawa: Pois não. Eu não me lembro claramente dela. É que,


normalmente, esse referido tipo de obras costuma ser rebocado.

Meishu Sama: Sem dúvida. São peças rebocadas. Todavia, a do


Museu Hakutsuru é extraordinariamente enérgica. Sua força é indescritivel.
A propósito, que tal a do dragão produzida em Tz'u Chou, do mesmo
museu?

Dr. Tanikawa: Aquela é uma boa peça, não? Ela parece ter abafado
até nos Estados Unidos, quando de sua exposição. Por um bom tempo,
sempre que a contemplava por meio de fotografias, eu não dava muito por
ela. Contudo, comparando a peça original com outra similar, aquela ganha.
A do dragão é máscula, enquanto a de propriedade do senhor Hosokawa é
feminina. Aquela é superior do ponto de vista do vigor que irradia.

Sra. Okada: A urna keito tricolor também é uma boa obra, não?

Meishu Sama: É boa. É a primeira, em sua categoria, existente no


Japão.

Dr. Tanikawa: Contudo, à parte de peças como essa urna e outras,


eu considero que a melhor obra é a do forno Yueh Chou de propriedade do
Museu de Artes de Hakone. Sua energia é estupenda.

Meishu Sama: Sem dúvida. Ademais, seja pela pátina que


apresenta, isto é, pela idade, pode-se dizer também que é uma ótima peça.

214
Mundo do Belo

Sobre peças de jade e de bronze

Dr. Tanikawa: O senhor ainda não adquiriu obras de jade, não é


mesmo? Atualmente eu tenho interesse por tais peças. Em se tratando,
porém, de jades e bronzes, aquilo que foi produzido a partir da dinastia Han
é fraco, não presta. Quando misturamos peças dos Três Reinos e da dinastia
Han com obras produzidas nas dinastias Yin e Chou, ficamos
decepcionados. A louça da dinastia Han é vigorosa e apreciável, mas no
tangente a jades e bronzes, o que há de bom foi produzido antes da dinastia
Han: o demais é imprestável. No caso das obras de bronze, há ainda alguma
coisa produzida durante a época dos Reinos em Guerra. Contudo, aquilo
produzido a partir da dinastia Han é fraco.

Meishu Sama: Realmente, os bronzes produzidos a partir da


dinastia Han são imprestáveis. O que me intriga é a excelência das obras
produzidas durante a dinastia Chou.

Dr. Tanikawa: Semelhante julgamento aplica-se às obras das


dinastias anteriores Yin e Shang. Mesmo as da Yin são magníficas.

Meishu Sama: Sim, magníficas. A cerâmica, inclusive, foi feita à


imagem do bronze. A civilização do período entre as dinastias Yin e Chou
era alguma coisa de tremenda, não acha?

Dr. Tanikawa: Este é um dos fatos pelos quais também eu mais me


interesso. Afinal, as peças de bronze são utensílios de culto ligados à
religião antiga. A partir da dinastia Han, o budismo introduziu-se na China.
Portanto, a civilização chinesa divide-se em antes e depois da introdução
do budismo. Este floresceu na época da dinastia Wei do Norte.

Meishu Sama: Por tal razão, produziram-se ótimas imagens búdicas


durante a dinastia Wei do Norte, não é?

Dr. Tanikawa: Aquela época equivale à Era Asuka japonesa. A Era


Nara corresponde, grosso modo, à dinastia T'ang. A arte produzida no

215
Mundo do Belo

Japão, na era Asuka, também é vigorosa.

Sobre imagens budistas

Meishu Sama: Que tal lhe parece a arte búdica?

Dr. Tanikawa: Aprecio de tudo. Dentre aquelas três imagens de


bronze dourado que o senhor recentemente adquiriu, excetuando-se a que
pertenceu ao Sr. Koizumi, são boas. Quando as vi, uma estava classificada
como sendo da Era Hakuho, mas achei a da Era Asuka mais bela. Não
obstante sua fisionomia selvagem, considerei-a melhor. A imagem tem
energia da parte que ia dos ombros às costas, sendo ótima. Já a imagem
pertencente a Sanshin Koizumi fica muito a dever. Havia, além disso, entre
aquelas quarenta e oito imagens da sala número cinco, rostos assim
selvagens como este.

Meishu Sama: Dentre as quarenta e oito, de quais o senhor gostou?

Dr. Tanikawa: Sem o auxílio do catálogo, não posso dizer de


lembrança. Todavia, todas, respectivamente, tinham o seu aspecto
apreciável. No início, não me simpatizei com aqueles cujas linhas se
achavam estranhamente concentradas ou com os de rostos selvagens.
Contudo, cada uma das imagens é por si apreciável. Apesar de estarem
classificadas como bronze dourado, parece que há entre elas uma de
madeira.

216
Mundo do Belo

Meishu Sama: As imagens búdicas de bronze dourado esculpidas na


Era Suiko são completamente diferentes das da Era Hakuho, não é?

Dr. Tanikawa: O acervo do senhor abrange um vasto número de


áreas: é algo que demanda do colecionador um esforço extraordinário. Eu
considero uma heresia colecionar um único gênero de coisas. Afinal, tudo
está correlacionado.

Meishu Sama: Exatamente.

Dr. Tanikawa: Hoje, talvez em conseqüência do resfriado que


peguei, sentia-me deprimido no trem de vinda. Entretanto, não me cansei
em ver estas obras de arte.

Meishu Sama: Também eu me ocupo de coisas variadas, mas digo


que é especial o gosto que sinto por estes momentos.

Dr. Tanikawa: Isso também acontece comigo. Tenho outras


ocupações, mas o tempo para visitar os antiquários é sagrado. Muito
obrigado por tudo que me mostrou. Pretendo visitá-lo em outra ocasião,
para ver com calma aquilo que me despertou atenção na mostra de hoje do
museu. Todos os presentes agradecemos pelo tempo dispensado.

Eiko nº 214 - 24 de junho de 1953

DIALOGAR É PRECISO

(Diálogo realizado em 12 de abril de 1951, na sala de visitas da vila


Hekiun-so, de propriedade da família Okada, em Minaguti-tyo, município
de Atami.)

(O presente diálogo, travado entre Meishu Sama e o Sr. Musei


Tokugawa, foi publicado no semanário Shukan Asahi. Omitimos, contudo,
sua parte inicial, por não estar particularmente relacionada com as artes.)

Okada: Em se tratando também de pinturas, há as obras falsas.

217
Mundo do Belo

Sente-se mal em vê-las. A gente descobre logo.

Musei: Se bem que depende da força do artista, há alguma coisa


incorporada nas obras-primas. Algo que se transmite até o admirador.

Okada: Nas pinturas das dinastias Sung e Yuan, de 1.000 a 900


anos antes, nelas há alma. Quando contemplamos as obras de Mu Hsi e
Liang K'ai, mestres da pintura monocromática em tinta nanquim, há algo
que, inexplicavelmente, nos atrai. As obras de pintores atuais nada
possuem. É, portanto, razoável que a produção das dinastias Sung e Yuan
seja valorizada. Dois ou três dias atrás, fui a uma exposição de peças de
Sotatsu e Korin: sente-se algo indizível ao ver aquilo.

Musei: Recentemente, alguém de Quioto veio mostrar-me uma


pintura de Sotatsu: pardais em bambus. Uma peça excelente, aquela.

Okada: Há muitas falsificações de Sotatsu, mas eu logo descubro


pelas emanações espirituais.

Musei: Sotatsu e Korin são geniais. Ouvi dizer que mesmo depois
de se ter visto uma exposição de Matisse, continua-se a ter em alta
consideração as obras de ambos. Parece mesmo que Matisse tem a aprender
com eles.

Okada: Matisse emprega o senso de Korin e a técnica de Sharaku.


Foi Matisse quem estilizou modernamente Sharaku e Korin. Não gosto
tanto de seus óleos. Há coisa melhor entre os pós-impressionistas. Todavia,
seus desenhos são de primeira.

Musei: Há aquela peça em que Matisse retratou sua filha


(propriedade do Museu de Artes de Kurashiki), não? Todos elogiam essa
obra, mas eu não a entendo. Outro dia, porém, tendo visitado o Sr. Kodo
Nomura, vi um desenho de Matisse (Moça) lá. Este eu entendo. Uma ótima
peça.

Okada: É que ele expressa muito bem a personalidade por meio de

218
Mundo do Belo

linha simples.

Musei: Não estou bem certo se é obra de Mu Hsi ou Liang K'ai,


mas há uma pintura em que o monge Pu Tai vê uma rinha de galos.
Musashi também pintou o mesmo tema. No original, há árvores no fundo, o
que não se verifica na peça de Musashi. Ah, sim! Tenho um caso
sobrenatural a contar acerca de uma pintura de Musashi. Eu venho
interpretando com freqüência a obra Miyamoto Musashi, inclusive por
rádio, e, em vista disso, sempre quis ter uma pintura de sua autoria. Assim,
um antiquário veio oferecer-me uma peça. O tema era um marreco entre
caniços. Um marreco exuberante. Talvez até um tanto gordo demais. Como
era caro, desisti da compra. Entrementes, dois ou três dias depois, o Sr. Eiji
Yoshikawa apareceu repentinamente em minha casa na companhia de sua
esposa. Era a primeira vez em que recebia sua visita. “Hoje, tenho uma
coisa para lhe dar”, disse-me ele. Presenteou-me uma pintura de Musashi.
Sem dúvida houve algo naquele mundo que destinara a obra de Musashi
para minha casa.

Okada: Em outras palavras, Musashi, satisfeito pelo que você tem


feito por ele, em agradecimento, enviou-lhe a retribuição, lá daquele
mundo... (Risos.)

(Deu-se prosseguimento a animada conversa sobre assuntos


artísticos, durante a apreciação do par de rolos de pintura de Sotatsu
intitulados Dragão e Tigre, e da travessa pintada com o tema Pinheiro e
Cerejeira Silvestre de autoria de Korin, peças do acervo do senhor Okada.
Ou seja, versou-se detalhadamente a respeito de Picasso, Ryusaburo
Umehara, Sotaro Yasui, Narashige Koide e Ryusei Kishida, além de
Seisho, Taikan e Kokei. Verificou-se a exposição de uma verdadeira teoria
das artes, a qual, infelizmente, omitimos.)

Do artigo "Dialogar é Preciso", do semanário Asahi Shukan, de 6


de maio de 1951)

219
Mundo do Belo

XI - ENSAIOS

BERNARD SHAW

O recentemente falecido Bernard Shaw, personalidade mais


respeitada como um gênio do que como um literato de caráter mundial, era
alguém de quem eu gostava imensamente, desde jovem. Em vista disso,
pretendo escrever fatos variados que guardo a seu respeito na memória.

Ao avaliarem o velho Shaw, a maior parte das pessoas afirma,


quando muito, que ele era um homem sarcástico e pródigo em máximas.
Sem dúvida, esta é uma de suas particularidades. Contudo, sempre lamento
que o julguem tão somente por tais palavras, sem procurarem suas outras
faces. Da minha ótica, jamais houve quem tenha captado com tanta
perspicácia a essência das coisas e podido expressar isso com tamanha
franqueza Ele enunciava aforismos concisos e extraordinariamente argutos
em meio a seus ditos sarcásticos e humorísticos. Ele dizia certeiramente as
coisas. Este é um traço de um excelente religioso. Tentarei relatar com
brevidade o que lembro dele. Dentre suas obras há o romance O Discípulo
do Diabo. Eu vi a representação teatral deste drama: muito interessante e
comovente. Eis aqui o enredo. Numa pequena cidade da Inglaterra mora
um pastor. Durante a ausência deste, um policial vem bater à porta de sua
casa. Sua missão é levar o pastor à delegacia, em virtude de certo crime.
Como o pastor não se encontra, o policial revela o caso à esposa dele.
Tomada de espanto e pavor, ela não sabe o que fazer. Todavia, acha-se aí
presente um jovem, chegado instantes atrás. Deliqüente de notoriedade na
cidadezinha, tem a alcunha de "o discípulo do Diabo" — nome que por si
só ja diz tudo. Pois bem, sem poder suportar a visão da esposa do religioso
a tremer diante do policial, o jovem — impelido sabe-se lá por que
impulsos — apresenta-se de súbito ao policial como o responsável pelo
crime, dizendo-lhe que o leve preso. Sem pestanejar, já que o
comportamento costumeiro do jovem só o desabona, o policial o conduz à
delegacia.

A comoção provocada por “O Discípulo do Diabo”

220
Mundo do Belo

Entrementes, o pastor retorna à sua casa. Aí, colocado a par dos


acontecimentos pela mulher, sua fisionomia se transtorna, a ponto de ser
nitidamente visível a sua agonia interior. É que lhe irrompeu no íntimo o
sentimento de auto-recriminação perante a sua vilania de espírito, que lhe
conduziu a tramar noite e dia a maneira de escapar daquela culpa. No
entanto, quem se imolara pelo seu crime, expondo a própria vida, como a
escarnecer daquele nefando sentimento? O próprio Discípulo do Diabo!
Diante de tamanho denodo, digno mesmo de um homem santo, daquela
manifestação de amor, o pastor não pôde esconder a sua vergonha. Ele, que
era um apóstolo de Deus, se comportava mais vilmente que o Discípulo do
Diabo. Assim, o pastor confessa seu crime à esposa e se encaminha
imediatamente para a polícia, a fim de salvar o Discípulo do Diabo,
prestando aí seu esclarecimento. Evidenciando-se, então, ser a sua falta de
menor gravidade, ele é logo posto em liberdade, voltando à sua casa em
companhia do jovem. Acho que a história terminava com o pastor a
agradecer e a louvar o Discípulo do Diabo. Quando vi esta peça, fiquei
vivamente impressionado, recordando-me dela até hoje.

O teatro burlesco pacifista

A seguir, tem-se a obra As Armas e o Homem, chamada também de


O Soldado Chocolate. Escrita após o término da Primeira Guerra Mundial,
seu enredo conta a história de um soldado que está estacionado em uma
vila e que, à parte de sua missão militar, goza folgadamente o dia-a-dia,
distribuindo chocolate às crianças aldeãs a quem ama. Tratando-se de uma
peça do gênero burlesco e pacifista, tenho na memória que trazia ditos bem
incisivos a respeito dos prós e contras da questão da guerra.

Há, outrossim, a peça O Século XX, que também se passa na


Inglaterra do pós-Guerra e retrata a filosofia da época. O personagem
central desta obra é um coronel do exército reformado, sujeito durão e de
princípios feudais, representante da Inglaterra conservadora. Sua maneira
de pensar equivaleria, no Japão, a dos adeptos remanescentes do ideário do
período Tokugawa na Era Meiji. Indivíduo assaz teimoso, impõe aquilo
que julga correto a todos à sua volta, colocando a sua família em apuros.
Em vista disso, seu lar é verdadeiramente sombrio. Todavia, a gente da

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Mundo do Belo

casa zomba deste cabeça-dura, pondo-lhe a língua quando ele dá de costas.


De vez em quando, seu filho faz tentativas, conquanto infrutíferas, de
mudar seu modo de pensar com idéias modernas. Nesse ínterim, surgem
diversos problemas e, aos poucos, o velho vai amolecendo até ser
completamente convencido pelo filho. Acho que a trama era essa. Como já
se passaram muitos anos, porém, pode haver pontos diferentes: o esqueleto
da obra era assim. Ficando por aqui na dramaturgia, passemos a alguns de
seus ensaios e aforismos.

O gênio da literatura jamais igualado em franqueza

Sua opinião acerca da comédia é a seguinte. Trata-se a comédia,


sem dúvida, do gênero teatral que visa ao riso. Há, todavia, um segredo
para provocar o riso. Isto é nada mais, nada menos que a desilusão.
Suponhamos termos à nossa frente alguém que passe trajado a rigor, senhor
de um magnífico bigode e imponentemente montado num cavalo. Na cena
seguinte, esse mesmo indivíduo nos surge montado, mas nú. A desilusão
provoca-nos involuntariamente o riso. Assim, Shaw descerra sem hesitação
a maquiagem e o ouropel da sociedade, assim como o revestimento das
tradições, mostrando tudo nua e cruamente. Este é o segredo da comédia.
De fato, o sarcasmo e os ditos de Shaw trazem tal técnica como núcleo. Em
resumo, ele não tem papas na língua, pondo tudo a descoberto. Sua
franqueza é ilimitada, o mesmo acontecendo com sua personalidade. Eu
acredito que jamais houve um literato tão sincero como ele. Seu sarcasmo,
pois, não é gratuito. A exposicão da realidade acima é que, por si mesma,
constitui um sarcasmo. Conta-se o seguinte episódio. Certa vez, Shaw se
achava diante do público ao qual faria uma palestra. Repentinamente, ele
disse assim: “Os senhores, certamente, não têm inteligência suficiente para
poder entender o sentido do que hoje tenho a dizer.” O auditório, então,
explodiu numa gargalhada. Reside nisso o seu misterioso fascínio. Em
condições normais, o auditório ficaria terrivelmente enraivecido caso lhe
dirigissem tamanha afronta. Acontecer, contudo, exatamente a reação
contrária é a evidência do tanto que Shaw era querido do público. Há ainda
este episódio. Uma escritora famosa disse-lhe que o filho nascido do
casamento de alguém de um cérebro tão notável como ele com ela decerto
seria uma criança inteligente. Shaw replicou-lhe, de imediato, que uma

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Mundo do Belo

criança nascida da união de alguém com uma cabeça estranha como a dele
com a dona de uma inteligência medíocre como a dela seria, antes de tudo,
um inútil. Das suas máximas, a que considero a mais interessante é a que
diz que o amor é aquilo imprescindível concedido por Deus para a
preservação da espécie... É ou não é espirituoso? Ademais, nunca houve
alguém tão confiante em si como ele. Dizem que ele sempre afirmava o
seguinte. “Shakepeare é tido como o maior escritor da Inglaterra, mas, na
verdade, o maior sou eu.” Ele não estava, com isso, se vangloriando ou
blazonando, em especial. Estava tão apenas manifestando honestamente
aquilo que pensava. Quando ditas por ele, expressões que poderiam parecer
megalomaníacas não continham nenhuma malícia, sendo aceitas de bom
grado. Nisto residia a sua grandeza. É possível entrever também a
importância de sua existência no fato de, em idade avançada, ele ser
consultado pelas autoridades inglesas sobre vários problemas surgidos no
país. Trata-se de uma das grandes personalidades do século vinte.

Eiko nº 78 - 15 de novembro de 1950

VIAGEM AOS ALPES

Há mais de vinte anos, quando então a febre do alpinismo estava no


apogeu, tendo como meta o monte Yarigatake, dos Alpes Japoneses, fui,
em companhia de minha mulher, de trem até Matsumoto, província de
Nagano, passando por Ohmachi, e chegando à estação termal de Nakabusa.
O engraçado é que minha mulher teve de se valer dos serviços de
carregadores, uma légua antes de Nakabusa, já que seria desarrazoado, por
sua condição feminina, escalar as sendas íngremes das montanhas. O meio
de transporte oferecido por tais carregadores profissionais constava de uma
caixa de madeira na qual a pessoa se sentava de costas, agarrando-se a um
varal que passava na altura dos olhos: uma pose um tanto quanto estranha,
que chegava a provocar gargalhadas. Há mais um fato engraçado.
Percorria-se de jinriquixá o caminho de duas ou três léguas que dá até o
sopé da montanha, depois de se ter passado por Ariake, vindo-se de
Ohmachi. Sabem o que ia correndo na dianteira, puxando a corda guia? Um
cachorro enorme!

223
Mundo do Belo

Os turistas da estação termal de Nafusa eram, em sua maioria,


alpinistas. Aí, tomando conhecimento de que a escalada era pesada para
mulheres e crianças, deixei minha esposa numa hospedaria, partindo pela
madrugada, em companhia de um guia, rumo à montanha. Às dez horas,
atingi a casa de chá do monte Tsubakuro, a 1.500 metros acima do nível do
mar. Daí até aonde a vista alcança, vislumbra-se uma cordilheira de rochas,
cujas reentrâncias guardam uma neve alvíssima e milenar. A vista primeira
deste majestoso panorama, que resplandecia à luz do sol, deixou-me muito
mais que encantado: fiquei abismado. Até então subira em muitas
montanhas; nenhuma, porém, comparável aos Alpes. Não tenho mesmo
palavras com que adjetivá-los.

A partir daí, o caminho ganhava gradual aclive. Com a visão dos


montes Jonen e Daitenjo à esquerda, atingi, lá pelo meio-dia, uma cabana.
Aí, depois de almoçar, continuei a subir por um caminho que, à medida em
que avançava, se tornava mais e mais íngreme, até dar em uma senda
conhecida como "o caminho novo de Kisaku". Tratava-se de um atalho
preparado por um guia então famoso, de nome Kisaku. Talvez por tal razão
apresentava lugares bastante perigosos. Um desses tinha à sua direita um
paredão de rochas e à esquerda um precipício tão profundo que provocava
vertigens só de se olhar. Aqui, a largura da trilha era, quando muito, de uns
sessenta centímetros. Estendia-se por uns três metros. Titubiei por algum
tempo. Se não atravessasse por ali, todavia, não haveria meio de prosseguir.
Se retrocedesse, o caminho a percorrer seria demasiado longo. Com a exata
sensação de estar entre a cruz e a caldeirinha, reuni toda a minha coragem,
então, e comecei a travessia. Nem é preciso dizer que me grudei ao paredão
de pedra, abrindo os braços, como um morcego e, com enorme cautela, fui
avançando de lado, à moda dos caranguejos. Conseguindo finalmente
atravessar, senti ter cruzado o limite entre a vida e a morte. Para que os
leitores tenham uma idéia da coisa, relato que os jovens estudantes que
escalavam as montanhas preferiam andar o quanto fosse preciso para evitar,
na volta, esse pedaço da trilha, pelo qual prometiam nunca mais passar. Daí
em diante a encosta ia aumentando o seu aclive. Meu destino, o pico
Yarigatake, erguia-se imponente no distante céu do poente.

Como faltava apenas um pouco mais, cerrei os dentes com todas as

224
Mundo do Belo

minhas forças e, quando a umbrosidade começava a tomar conta do


ambiente, finalmente me vi em cima do cume. Depois, quando cheguei à
cabana a que dão o nome de Sessho, eu não me aguentava mais de
esfalfado. Também não era para menos: o percurso de Nakabusa até o pico
do monte Yarigatake perfaz treze léguas! Isso significa que escalei em um
só dia o que normalmente exige dois. Mesmo o príncipe Chichibu,
conhecido naquela época por seus dotes desportivos, levou dois dias. Pode-
se afirmar, portanto, que eu fiz uma verdadeira imprudência. Comi, então,
meu lanche e me deitei. Embora fosse meados de agosto, o solo revestia-se
inteiramente de neve e fazia um frio tremendo. Além do mais, o assoalho
de táboas da cabana estava apenas uns quinze centímetros acima do solo.
Era impossível dormir, em decorrência do frio, uma vez que a única
coberta era tão somente um alcochoado fininho, deitando-se em um
colchão que tinha por baixo uma esteira e o assoalho de táboas
emparelhadas sobre uma base de troncos. Naturalmente, mantinha-se o
fogo aceso por todo o tempo, mas de nada adiantava. Como se não
bastasse, tinha-se apenas um colchão de 1,80 metro quadrado para três
pessoas dormirem! Eu me deitava ladeado por dois estudantes. Por nenhum
dos três conseguir dormir, ficávamos a remexer, fato que impedia ainda
mais que pegássemos no sono: um verdadeiro suplício. Sem que fosse
possível tirar um cochilo, amanheceu. Começando a entrar pela janela a
claridade do dia, saí para lavar o rosto. Próximo, havia uma pia tosca entre
as rochas. Em decorrência, porém, do local tratar-se de uma montanha de
mais de três mil metros de altitude, de água, não se tinha sequer uma gota.
A água para a higiene era obtida da neve derretida no fogo: imaginem,
aqui, um gato a lamber a pata e passá-la na cara. Foi assim que me lavei.
Aspirando à vontade do ar alpestre puríssimo da manhã, dirigi minha vista
para o distante céu do nascente. Ao longe, o contorno das montanhas que
ligam Asama a Kiso delineava-se nítido por sobre extenso um tapete
nebuloso, à luz do sol prestes a emergir de entre as nuvens. Mais atrás,
dominando a cadeia de montes, a silhueta imponente do Fuji, como um rei,
proporcionava um panorama maravilhoso. Acredito que esta aurora
contemplada dos Alpes superou mesmo o espetáculo do nascer do sol que,
posteriormente, vi de cima do mesmo Fuji.

Curiosamente, quando fiz meu registro no livro de hóspedes da

225
Mundo do Belo

cabana alpina, averiguei que a maior parte deles estava na casa dos vinte
anos, sendo raros os de trinta; a única pessoa de quarenta e tantos anos era
eu apenas. Senti, então, uma pontinha de orgulho.

Terminada a refeição matinal, fiz uma escalada de duzentos a


trezentos metros, atingindo o penhasco denominado Yarino Hosaki (Ponta
de Lança). Como o próprio nome diz, é um rochedo que se ergue por uns
dez metros, tendo o formato cônico e a ponta aguçada.

Objetivando atingir o seu topo, agarrei-me a ele, subindo cerca de


um terço de sua altura. Daí em diante, porém, sua superfície tornava-se
ereta e correntes pendiam do cume. Para escalar, era preciso agarrar-se a
elas, mas minhas mãos se achavam entorpecidas pelo frio. Se acontecesse
de um dos pés, que se apoiavam na parede da rocha, resvalar, ficaria
dependurado, tal era a constituição do penedo. Isto é, o ângulo formado por
aquele lado da parede da rocha com o solo era mais para agudo do que
propriamente reto. Conforme me informaram, no ano passado um estudante
do Colégio Municipal de Sendai morrera ao despencar daí. Perdi a vontade
de ir até o fim. Resultado: desisti e retornei ao sopé. Constatei, então, que,
de cinco pessoas que tentavam a escalada, apenas uma ia até o fim. Na
volta, opostamente ao sucedido no dia anterior, a empresa tornara-se bem
mais fácil, pois bastava descer. Entretanto, também topei mais uma vez
com a linha divisória entre a vida e a morte. Tendo descido cerca de uma
légua, fui dar com uma vale nevado. Aqui, devia-se descer gradualmente,
com o auxílio de uma bengala a sondar a superfície da neve. Assim fazia eu
quando, não sei como, pisei em falso. Diferente da neve macia das regiões
de baixa altitude, a do vale era neve eterna, duríssima, portanto. Como o
declive era acentuado, fui escorregando com velocidade acelerada.
Instantaneamente, resignei-me com o fim que eu teria. A morte, na certa.
Foi então que, decorridos uns vinte ou trinta segundos de derrapagem, senti
que Deus ainda não me abandonara: a superfície tornou-se algo plana e
surgiu uma pequena rocha. Enganchando meus pés nela, pude parar. A
alegria que experimentei naquele instante constitui uma emoção que jamais
poderei esquecer por toda a minha vida. Entrementes, sobrava ainda um
pequeno pedaço do vale para atravessar. Daí em diante, segui com cautela
acima de cautela, tateando o caminho como uma formiga ao andar. O que

226
Mundo do Belo

me assombrou, então, foi a descoberta da existência de enormes fendas por


aqui e acolá, na face da neve. Olhando temerosamente para o interior delas,
era impossível visualizar o seu fundo, de tão escuras que eram. Sua
profundidade era incalculável, levando-se em conta sua formação entre a
neve que se acumulara por milhares e dezenas de milhares de anos: neves
eternas, como o próprio nome indica. Ao imaginar que eu poderia ter
ingressado no repouso perpétuo a uma profundidade de centenas de metros
debaixo da neve, se tivesse me precipitado por acaso em uma daquelas
fendas, passei um bom bocado de tempo a tremer de pavor.

Pelo meio-dia, chegando à cabana de Yarisawa, almocei. Dando


continuidade à descida, cheguei um pouco depois às margens do rio Azusa.
Em alguns pontos, quando o curso d'agua dobrava-se em curva, havia um
tronco de árvore atravessado, à guisa de ponte. Para quem não está
habituado, passar por semelhantes pinguelas constitui uma empresa deveras
arriscada. Olhando-se para baixo, a uma distância de uns quatro a seis
metros a correnteza avança célere traçando redemoinhos. Sem outra
solução, eu me encavalava no tronco e me enlaçava a ele com ambos os
braços, atravessando vagarosamente, como uma larva a rastejar. Creio que
me deparei com umas quatro ou cinco pinguelas assim. Terminada essa
travessia, cheguei ao lugar dos meus sonhos — Kamikochi. A extensa
floresta que recobre o local jamais fora desbravada por nenhum machado:
pairava aí, poderosa, a atmosfera alpina. A paisagem apresentada pelo viço
de árvores e ervas jamais vistas tornava o lugar um mundo completamente
à parte do dos homens. Tive a impressão de que a qualquer momento, de
súbito, surgiria à minha frente um ermitão mago de longos cabelos brancos.
Acho que os leitores poderão ter uma idéia com essa adjetivação. Contudo,
atualmente, com a construção de hotéis, parece que houve um grande
desmatamento. Não restará muito daquela sensação de se quedar numa
região mágica, que outrora experimentei. A tempo, ia esquecendo-me de
notar que a beleza paisagística oferecida pelo rio Azusa é também difícil de
se desprezar. Pelo curso d'ãgua, existem deltas nos quais crescem
salgueiros-chorões de exuberante verdura. Elevando-se a vista por sobre
essas árvores, o vulcão Yakedake, avermelhado, surge ao longe com sua
silhueta suave. Outrossim, contemplando o céu à esquerda do vulcão, por
detrás do desfiladeiro de Tokumoto, depara-se com dois picos íngremes

227
Mundo do Belo

que se erguem ao longe: o Maehodaka e o Okuhodaka. São montanhas


famosas pelo número recorde, nos Alpes, de vítimas que fazem entre os
escaladores. Finalmente, cheguei à hospedaria Shimizuya, também
conhecida pelo nome de Termas Gosenshaku, onde logrei recuperar-me do
cansaço que me tomava desde o dia anterior. As águas termais daquí, na
verdade, são água mineral artificialmente aquecida. No dia seguinte pela
manhã, dirigi-me ao rio Azusa para lavar o rosto. Fiquei a tremer por causa
de sua água fria como gelo. Decerto foi a primeira vez na vida que tomei
água tão saborosa como aquela. Segundo soube, é porque ela corre depois
de ter passado por uma camada de granito. Posteriormente, atravessei o
desfiladeiro de Tokumoto, tomando carona num caminhão de obras, no
meio do percurso. À tardinha, cheguei em Shimashima, retornando, pelo
trem da linha Chikuma, para Nakabusa, de onde voltei para Tóquio em
companhia de minha mulher, que aí ficara à minha espera.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

De Okunikko a Shiobara

Passei a ter gosto pelo alpinismo a partir dos quarenta, escalando, a


cada oportunidade, numerosas montanhas. Na verdade, passei a fazer isso
também a fim de recobrar minha saúde. Subi em quase todas as montanhas
das vizinhanças da região de Kanto, e passo a relatar uma das experiências
mais interessantes que vivi naquela época.

Em 1923, ou seja, no ano do grande terremoto de Kanto, em


meados de agosto, planejei a travessia da região de Okunikko até as águas
termais de Shiobara. Naquele tempo, servi-me dos préstimos de um guia
afamado de Okunikko, de nome Miyakawa. O itinerário inicial previa um
pernoite na estação termal de Kawamata, distante cinco léguas de Yumoto,
e outro na de Yunishikawa, distante sete léguas dessa última, terminando
em Shiobara. Conforme o programado, cheguei pelo meio-dia à estação de
Kawamata. Todavia, como este é um dos locais mais sossegados da
cabeceira do rio Kinu, além de uma única hospedaria não havia qualquer
outra habitação. Os penhascos que aí se soerguem, a correnteza azul entre
os vales e tudo o mais fazem da região um verdadeiro país dos imortais das

228
Mundo do Belo

antigas lendas chinesas, apartado das impurezas mundanas. No meio do


caminho, havia locais em que se fazia necessário escalar a encosta das
rochas com o uso de sandálias de palha, de modo a não escorregar, e
raramente se encontrava com gente trajada nos moldes urbanos. Escusado
dizer que, nas termas, o banho era misto. Estava eu inicialmente a me
banhar sozinho, quando entrou um grupo de três mulheres, aparentando ir
pelos trinta anos. Elas entraram na banheira como se não ligassem para a
minha presença, fato que me colocou meio desconcertado. Entretanto, uma
delas puxou conversa: "O senhor veio de Tochigi?" "De Tóquio" —
respondi eu — "E vocês?" "Da cidade tal de Tochigi. Ouvimos dizer que
esta fonte tem a propriedade de propiciar a fecundação." Assim teve início
uma conversa animada em torno de assuntos variados. Tratou-se este
também de um dos episódios difíceis de esquecer, que mitigou a
melancolia de meu giro solitário pelas estações termais afastadas.

Às oito horas da manhã seguinte, parti daquela estação com destino


a Yunishikawa, sendo que isso foi o ensejo para vários acontecimentos
dignos de nota. Daí em diante, atravessei montanhas atrás de montanhas e,
à medida em que avançava, as florestas se adensavam mais e mais e o
caminho se tornava cada vez mais indistinto. É que as folhas das árvores
caídas anos a fio se acumularam e encobriam as trilhas, não existindo rastro
algum. Foi quando o guia Miyakawa falou: "Errei o caminho. É que há
pouco, quando verifiquei a indicação da rota, o poste da direção de
Yunishikawa estava caído. Não sei como pedir desculpas. Infelizmente eu
me esqueci de trazer um mapa e, por isso, talvez vamos ter que passar a
noite fora hoje." Fiquei preocupado, mas por não ser mais possível voltar
atrás, preparei-me para o que desse e viesse. Passado algum tempo,
Miyakawa parou de repente e disse: "Temos urso pela frente. Estas são
pegadas de urso e, pelo visto, deve ser um animal bem grande. Terá para
mais de seus oitenta quilos." Eu me assustei e o interpelei: "Não tem
perigo?" "Trago esta faca (um sabre da Marinha) comigo, o senhor pode
ficar descansado." Assim, pondo-me um pouco mais tranqüilo, disse-lhe:
"Por via das dúvidas, vamos nos alimentar agora." Sentamo-nos, então,
numa pedra da beirada do caminho e nos pusemos a comer a matula. Por
aquelas cercanias crescia em grande profusão touceiras de um tipo de
bambu miúdo de onde, de vez em quando, vinha um farfalhar de folhas.

229
Mundo do Belo

Perguntando a Miyakawa se não era o tal urso, ele me explicou: "São


coelhos do mato que existem aos montes por aqui." A resposta me deixou
sossegado. Terminado o almoço, retomamos nossa caminhada sem rumo.
Depois de duas ou três horas andando, senti sede. Era uma sede
insuportável, mas, em virtude da altitude do local, não havia água. Eu me
fiava em que, atravessada "aquela" montanha, encontraria água, mas nem
sombra. Passada mais uma que se vislumbrara ao longe, nada... Cruzando,
assim, quatro ou cinco montanhas, a altitude ia caindo gradativamente e,
afinal, encontrei um fio d'água que caía até à beira do caminho. Exultando
de alegria, bebi até fartar, saciando a sede. Agora, com as energias
renovadas, continuei a andar. O sol, então, começava a cair detrás das
montanhas do poente e os quatro pontos cardeais eram encobertos pela
neblina. Eu havia andado perto de umas dez léguas, em dez horas, desde às
oito da manhã. Durante o percurso, não encontrara viv'alma a quem
pudesse perguntar o caminho, pelo que se pode fazer idéia de quão erma
era a região. Tendo-me determinado a passar a noite ao relento, caso,
depois de andar mais um pouco, não encontrasse alguém, entreviu-se,
afortunadamente, por entre as árvores ao longe, um telhado de palha. Ao
me aproximar da cabana, aliviado, vi que era um abrigo de lenhadores, no
qual se encontravam uns três ou quatro indivíduos mal-encarados. Ao
explicar-lhes a situação, eles ofereceram pouso por aquela noite. Como, no
entanto, eu não me sentia disposto a pernoitar ali, pelo receio que o
ambiente inspirava, especulei mais e soube que descendo a montanha,
cerca de uma légua, encontraria uma aldeia na qual, apesar de não haver
hospedaria, poderia obter pouso com o prefeito. Assim fiz, mas o prefeito
desculpou-se, alegando que não poderia atender-me por estar com doente
em casa. Acrescentou, todavia, que uma légua e meia adiante havia a
estação termal de Yunohana. Graças a Deus, pensei, pondo novamente a
arrastar os pés exaustos. Afortunadamente, sendo noite de luar, pude,
afinal, chegar a Yunohana. Examinando a sola do pé, constatei que estava
coberta de calos de sangue. Também pudera: eu andara um total de treze
léguas! De qualquer forma, eu tomei um banho e me senti renascido. Pelo
que soube, ao local quase não vinham pessoas da cidade, e o dialeto daí era
meio ininteligível. A transmissão da vontade era conseguida com alguma
dificuldade graças à tradução de Miyakawa. A empregada entrou no quarto
e de pé mesmo começou a falar algo. Perguntei: "Você tem cidra?"

230
Mundo do Belo

"Cidra?...Num sei o que é isso, não..." — por aí pode-se ter idéia do resto.
Servido o jantar, o que havia era uma porção de cogumelos desconhecidos,
que não consegui engolir. Pedi um ovo e assim, a custo, terminei meu
jantar. Querendo saber qual a estação de trem mais próxima, obtive a
informação de que era Aizu-Wakamatsu, distante vinte e três léguas. Isso
me deixou desanimado. Perguntei como se ia a Aizu-Wakamatsu.
Responderam-me que de carroça. Quis saber, então, a distância até
Shiobara. Disseram-me que era de dezessete léguas, mas que não se
dispunha de carroça. Fiquei indeciso, mas determinei-me a seguir o
itinerário inicial, ou seja, ir até Shiobara. Na manhã seguinte, como eu não
conseguisse andar, pela dor causada pelas bolhas das plantas dos pés, pedi
que me fornecessem um cavalo. Queria dizer para os senhores que era eu a
própria figura da imponência de cima do animal, mas por se tratar da
primeira vez em que eu montava, fiquei todo desengonçado, quando o
cavalo partiu. Entrementes, dezenas de enormes moscas e mutucas
apareceram em bando em volta da montaria, a qual os afastava com o
movimentar incessante do rabo. Como os humanos, porém, não foram
dotados de cauda, vi-me em apuros. É que os insetos picavam-me por cima
das meias, ocasionando uma tremenda coceira. Arquitetei, então, um
artifício: quebrei uns galhinhos de árvore e coloquei-os em torno das
pernas. Isso apresentou algum efeito, mas aconteceu que as moscas
começaram a se ajuntar nas costas do cavalo, fazendo com que este
quisesse empinar-se. Comecei, então, a matar os insetos, batendo-lhes com
meu leque. Assim, venci por fim seis léguas de caminho, dando em certo
vilarejo. Desse local em diante, o caminho tornava-se aclive, podendo-se ir
de cavalo somente até aí. Sem opção, tive que devolver o animal. Meu
leque ficara completamente sujo de sangue e em frangalhos, por eu ter
matado uma porção de moscas com ele.

A partir dalí o caminho ficara ascendente, mas, por sorte, as bolhas


dos pés haviam melhorado consideravelmente, e eu passara, de algum jeito,
a poder andar. Em cerca de uma hora venci o desfiladeiro. Depois disso, o
percurso eram sendas comuns de montanhas. Próximo do pôr-do-sol,
cheguei a uma aldeola miserável, de nome Miyori, formada de vinte a trinta
casas. Procurando um local para hospedar, informaram-me que existia uma
hospedaria. Dirigindo-me a ela, perguntei se havia vaga. Disseram estar

231
Mundo do Belo

lotada. Decepcionado, mas sem poder dormir ao relento, expliquei bem a


situação, pedindo que me ajudassem. "Bem, sendo assim...", disseram,
conduzindo-me a um compartimento onde se espalhavam casulos de seda,
após terem feito uma arrumação. Só então pude massagear meus pés
esfalfados. Inquiri à senhora que parecia ser a dona do estabelecimento:
"Ouvi dizer que a casa está lotada, mas tudo está quieto demais."
Respondeu-me ela: "Temos apenas um quarto de hóspedes, e ele está
ocupado com um hóspede". Sem querer, dei uma gargalhada: assim parecia
uma privada!... Foi engraçado também um homem, talvez o empregado da
casa, sair depois de anunciar-me "Meu senhor, vou agora pegar o jantar,
sim?" Ele voltou daí a pouco, dizendo ter pescado kajika. Espiando os
peixes, vi que eram uma espécie de muçurango. Os peixes foram logo
preparados, revelando serem de ótimo paladar. A tranqüilidade
demonstrada pelo ato de se ir pescar no córrego próximo o peixe do jantar,
depois de o hóspede ter aparecido, tratando-se de algo característico de
uma aldeia afastada, suscitou em mim um sorriso.

Na manhã seguinte, pedi um cavalo para ir a Shiobara, com base na


experiência do dia anterior. O condutor do animal — pasmem — era a
dona da hospedaria. Tendo montado e após ter caminhado um pouco, o
cavalo, que era branco, pareceu-me extremamente velho. Minha suspeita
foi confirmada pela senhora — de fato, era um velho, ou melhor, um
cavalo velho — colocando-me algo ressabiado. Uma légua mais tarde, o
caminho se estreitava, adquirindo a largura de um metro e vinte: à esquerda
erguia-se um paredão de rocha, à direita, precipitava-se um vale profundo,
que provocava arrepios só de se olhar. A senhora disse: "Mais um pouco e
chegaremos a um lugar perigoso. Cuidado com o cavalo, pois, se ele se
espanta, há risco de despencar no precipício." Assustado, quis saber se
alguém já caíra antes. "Há três anos, duas pessoas caíram com cavalo e
tudo. Todos morreram." Foi a resposta que tive. Desmontei e pus-me a
andar. Avançando mais uma légua, fomos dar num caminho de uns quatro
metros de largura, onde voltei a montar de novo. Tendo andado algumas
centenas de metros, o caminho virou uma descida um tanto brusca. Quando
comecei a descê-la, senti que o animal deu com os joelhos no solo. Nesse
exato momento, fiz uma reviravolta completa, num salto mortal, indo bater
violentamente com os quadris na beira do caminho. De fato, se este fosse

232
Mundo do Belo

estreito, poderia ter sido o meu fim. Ao pensar nisso, fui assaltado por
enorme terror. Perguntei, então, à senhora quanto faltava para chegar em
Shiobara. "Uma légua e meia", respondeu-me. Ela insistiu comigo para que
eu montasse novamente. Eu, todavia lhe disse, entregando: "Eu pago o
prometido, mas tenha a paciência." Completei a pé a légua e meia restante,
chegando em Shiobara pelo meio-dia. Almocei numa hospedaria de
Shionoyu, depois do que voltei para Tóquio. No turno que fizera, passei por
duas ocasiões perigosas. Uma foi o tombo do cavalo — que acabei de
descrever — já que um dos lados do caminho era um paredão de rocha de
várias dezenas de metros que se acabava numa correnteza. Outra foi na ida
para as termas de Yunohana, durante a travessia do Monte Tashiro, em
Aizu. Segundo me informaram, na hospedaria de Yunohana, o monte
Tashiro é raramente visitado pelo pessoal nativo, que lhe tem medo em
razão dos ursos que ocasionalmente lá aparecem. Eles se assustaram com
minha imprudência. Eu, ignorante do fato, suei em bicas, ouvindo os casos
que me contaram.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

As Termas de Yunishikawa

No verão de certo ano, saí com destino às Termas de Yunishikawa


— entre Okunikko e Shiobara — às quais não conseguira ainda visitar. No
meio do percurso, almocei nas termas de Kawaji, em Joshu, e daí me
adentrei perto de légua e meia nas montanhas. Tendo atravessado uma
ponte sobre uma correnteza, tomei um carro de boi antecipadamente
providenciado. Com vagar bovino — foram gastas seis horas para vencer
quatro léguas — cheguei a Yunishikawa no entardecer. O lugar não merece
maiores referências, pois se trata de uma estância termal vulgar, às margens
de um vale. Pretendo escrever, porém, a respeito do significado da vila de
Yunishikawa.

Esta vila, desde suas origens, baseia-se no sistema patriarcal, sendo


constituída de sessenta famílias e uma população de novecentas e tantas
almas. Seus moradores são descendentes da antiga família de guerreiros
Taira. Pelas coisas que a camareira da hospedaria me contou então, soube

233
Mundo do Belo

que os seus donos eram a família principal da vila, gerindo todos os


assuntos administrativos. Registro aqui o conteúdo principal da conversa
com a moça. Pelos tempos da derrota da família Taira na guerra contra a
família Minamoto, os primeiros se dispersaram por todos os cantos. Dentre
eles, um grupo de trinta pessoas logrou escapar para as grutas destas
montanhas. Em vista da feroz perseguição que lhes foi movida pelos
homens do lado dos Minamoto, eles cruzaram montanhas atrás de
montanhas, escolhendo este logradouro, por lhes parecer inatingível pelos
perseguidores. Com o correr dos séculos, surgiu a atual vila. Lugar deveras
ermo, dificilmente visitado pelos moradores dos centros urbanos.

Na época em que os primeiros moradores vieram para aqui, não


havia o que comer: eles puderam mitigar muito mal a fome, alimentando-se
de raízes de araruta. Ademais, fato admirável é a completa inexistência de
doentes na vila. A única exceção é um senhor que sofre de paralisia, pelo
vício da bebida em demasia. Naturalmente, não existe também uma única
vítima da tuberculose. Conforme a garota me informou, os moradores
daqui nunca tomam seus cônjuges de locais mais distantes que Nikko, e,
além do mais, quase ninguém vai a centros como Tóquio. A razão, ela me
explicou, é que quem vai a Tóquio fica enfermo do pulmão. A vila,
curiosamente, não conta com serviços médicos e seus moradores são
vegetarianos convictos. Nos riachos das vizinhanças há trutas e ayu, mas
eles jamais fazem caso desses peixes. Como seus ancestrais não se
alimentavam de pescado, dizem, não sentem especial vontade de comer
isso. Pode-se, portanto, fazer idéia do quão genuíno chega a ser o seu
vegetarianismo. Por semelhantes fatos, também, é possível deduzir o quão
saudável são o não uso de medicamentos e o vegetarianismo. Isso
comprova minha tese e é extremamente interessante.

Com respeito a isso, acontece o seguinte. Ocasionalmente, o


governo da província manda à vila funcionários para fazerem a vacinação
contra o tifo e outras doenças. Os aldeões, então, somem. Justificam que,
sendo vacinados, sofrem com febre alta por mais ou menos três dias.
Soube, ademais, que não há ocorrência de tifo por já muitos anos. Não
obstante, a província envia seus funcionários para vacinação em
decorrência da legislação sanitária. Considero extremamente ridículo o

234
Mundo do Belo

funcionamento do serviço público: impõem eles vacinação a uma vila que


desconhece moléstias contagiosas, exclusivamente porque assim manda a
legislação, arcando com gastos inúteis e comprando o rancor da população.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

235
Mundo do Belo

XII - ENTRETENIMENTO

CANÇÃO

Escreverei um pouco também sobre as canções. Como é do


conhecimento geral, antigamente as canções eram denominadas joruri, em
Osaka, e gidaiyu, em Tóquio, ocupando estas papel preponderante. Jamais
me esqueço: lá pelo início da década de dez (início da Era Taishô), a
famosa intérprete Rosho Toyotake vinha mensalmente de Osaka para
participar do programa Reunião de Mestres, do Teatro Yurakuza. Ela, sim,
era dona de verdadeira mestria, fazendo jus ao título. Eu, na verdade, não
gostava do gênero gidaiyu, no entanto, Rosho era exceção: não podia
deixar de ouví-la. Assim, sempre que ela se apresentava, eu ia até o
Yurakuza para ouví-la. Sua voz maviosa, sua entoação e tudo o mais eram
inexplicavelmente belas. Naturalmente, sua especialidade eram as peças
amorosas. Sem dúvida, jamais haverá alguém dono de tamanha mestria.
Graças ao estímulo dela recebido, fiquei com vontade de aprender gidaiyu,
começando a treinar sob a orientação de certo professor. Continuei por
volta de um ano, mas acabei por largar com o grande terremoto que assolou
a região de Kanto. Ela faleceu pouco depois, ainda jovem, o que foi uma
verdadeira pena.

Naquela época, às vezes eu ia ouvir as intérpretes Shogiku e


Shonosuke, que se apresentavam nas casas de espetáculos de Tóquio.
Dentre os intérpretes masculinos, havia um chamado Asadayu, cuja
especialidade eram as canções amorosas. Eu gostava dele e ocasionalmente
ia ouví-lo. Quando, da região de Kansai, Datedayu e Nanbudayu vieram a
Tóquio, fui assistí-los em duas ou três ocasiões.

Ultimamente, a viola de Chikuzen acabou por cair de moda, mas


antes gozava de bastante popularidade. Parece ser universal o fenômeno de
as coisas entrarem em decadência com a ausência dos grandes mestres.
Dizem com freqüência que a luta de sumo tomou grande impulso com o
surgimento de alguém fortíssimo como Futabayama, e eu concordo em
absoluto com tal afirmação. Citarei Kyokuran Takano, de Hakata, como
tocadora de viola de Chikuzen das primeiras duas décadas deste século.

236
Mundo do Belo

Deve ser ela incluída entre os grandes mestres da arte. Em vista disso, o
volume de discos seus vendidos alcançou um número considerável. Como
intérprete masculino, citaria Takamine Chikufu, pai da atual artista de
cinema Mieko Takamine. Sua melodia original, aliada à sua bela voz,
difundiu sua fama. Depois dele vem Kyokujo Toyoda. Quanto à viola de
Satsuma, Kinjo Mito e Kinshin Nagata tocam muito bem. Eu, todavia,
prefiro a viola de Chikuzen.

Hoje, a rainha das canções é o gênero nagauta. Outrora, também


esta modalidade servia exclusivamente como acompanhamento para peças
teatrais. O grande mestre de então era Ijuro Yoshimura. Sua bela e possante
voz ressoava por todos os cantos do amplo salão de teatro kabuki. Ainda
agora é-me impossível esquecê-la. Com o aparecimento do quarto sucessor
de Kosaburo Yoshizumi, sua voz, conjugada às cordas de Jokan Kineya,
não somente viabilizou que esta assumisse forma independente da arte
teatral, como possibilitou a fundação da Associação Kensei, conduzindo o
gênero nagauta ao sucesso que hoje goza. Por tudo isto, o seu mérito é
extraordinário.

Ademais, guardo na memória os intérpretes Rinchu da escola


Tokiwazu e Enjudayu, da escola Kiyomoto. Tinha eu predileção particular
pela escola Shin-nai, gostando, quando jovem, da cantora Wakatatsu e do
cantor Sicho — ambos cegos. À parte, havia ainda Kagadayu, muito
ouvido, embora não pudesse ser considerado de grande mestria. Depois,
com o aparecimento do rádio, citaria, dentre outros, Bun-ya Okamoto e
Suzu Kaga, muito bons. Eu, contudo, preferia sem dúvida alguma
Mikimatsu Yanagiya, da escola Shin-nai. Não é exagero classificá-lo como
o maior mestre desta escola.

A seguir, muito embora não se trate de canção, não será inútil


escrever algo sobre as narrações épicas e cômicas. Quando jovem, ouvi
bastante as duas modalidades. Eu gostava de ouvir, dentre os narradores
antigos, os primeiros Roshu, Hakuzan e Teikichi, Hakuchi Shorin, Hakuen,
Tenzan, Joen, Hajime Murai, Jakuen, Enrin e outros. Conquanto não
desfrutasse de grande fama, havia um narrador chamado Nanso, de cabeça
raspada. Ele poderia ser considerado, antes de qualquer outro, próximo da

237
Mundo do Belo

mestria. Sua interpretação da epopéia do xógum Hideyoshi Toyotomi era


única, sendo que certa vez eu fui ouví-la durante vinte dias seguidos.
Havia, outrossim, outro — este originário dos meios amadorísticos de
nome Kokuen Moribayashi: sua técnica, como a de Nanso, beirava as raias
da mestria. Da época que seguiu ao aparecimento do rádio, dentre aqueles
que podem ser citados como quase mestres, temos o segundo Hakuzan,
Hakukaku e Teizan. Os recentemente falecidos Hakuryu e Rozan também
eram muito bons. O terceiro Teizan, Teikyo, e Teijo são ainda muito bons e
muito prometem. Como se vê, a decadência do gênero narrativo épico é
gritante: seu futuro é preocupante.

A seguir, quanto às narrativas cômicas, enumeraria, dentre os


narradores antigos, os seguintes: En-yu, Ensho, Shinsho, Saraku, Kokatsu,
Kosanji, Enzo, Kingoro, o primeiro Kosan, Sangoro, Tsubame e Baraku,
dentre outros. Com relação aos contadores de histórias de costumes, três
estariam próximos da mestria: Encho, Enkyo e En-u. Também incluiria
entre os mestres Enshi, um contador da época especializado em casos de
assombração. Devo enumerar ainda como mestre um contador dos dias de
hoje: Kingoro. Kingoro é o melhor contador de narrativas cômicas entre os
que até hoje ouvi. É lastimável que ele tenha virado um ator teatral e não
seja mais possível apreciar suas excelentes narrativas cômicas. Atualmente,
dentre os contadores que se apresentam no rádio, há os antigos como
Ryukyo, Shozo, Kimba, Gontaro, Madoka, Momotaro, Bunji, Emba,
Umesuke e outros, novatos bastante promissores. Pode-se apostar no futuro
de Shinsho, Kasho, Ryuko, Ensho e Chiraku.

Havia, além do mais, um mestre do gênero da anedota. A falecida


Miss Wakana era sem dúvida uma mestra. Como anedotista do gênero
caricatural, eu apontaria Shiro Otsuji em primeiro lugar.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

A ARTE DE DANJURO

Desde outrora apareceram muitos mestres sobre a face da Terra.


Todavia, fica evidenciado pelo fato de existirem muitíssimos poucos

238
Mundo do Belo

mestres verdadeiros que consiste tarefa dificílima tornar-se um deles. Penso


eu sempre assim. Em certo sentido, a contribuição deles para com a
humanidade é incomensurável e, por isso, nós lhes devemos ser gratos.
Diria, outrossim, que o mestre é o fruto do esforço do gênio; o resultado do
esforço do medíocre é tornar-se alguém hábil. Contudo, por mais alto o
estágio a que atingiram os mestres do passado, por não contar com meios
de conhecer isso, farei gradualmente minha apreciação daqueles mestres
que vi e ouvi até os dias presentes.

Dentre os mestres que ainda hoje não consigo esquecer, há, no


teatro, o nono Danjuro. Sua reputação de mestre é por demais conhecida,
não havendo, portanto, necessidade de eu fazer comentários a seu respeito.
Destarte, porei aqui apenas as impressões daquilo que vi. Não me esqueço.
Tinha eu uns vinte anos. Provavelmente a época em que Danjuro se
encontrava no apogeu de sua carreira. Posso dizer que eu assistia
unicamente as dezoito peças que compunham o repertório da família
Ichikawa. Creio que ele depois de velho não se apresentava senão em peças
intermediárias. Como mestre, a característica de sua arte era bastante
distinta da dos demais atores: ele ficava completamente imóvel ao se
apresentar no palco. Sua arte é classificada como sendo a da expressão
psicológica. Realmente era assim. Quase não havia movimento; inexistia o
que se pudesse chamar propriamente de técnica. No entanto, ele
magnetizava inteiramente a platéia: um verdadeiro mestre. Dizem que
nenhum outro ator era capaz de criar no palco tensão como a que ele criava.
Também isso é verdade. Vou descrever aqui as impressões que tive de
umas duas ou três apresentações suas.

Ele adorava fazer papéis de heróis e grandes personagens, talvez


numa manifestação de sua personalidade. Dentre as interpretações que
assisti, eis as mais inesquecíveis: o Benkei, da peça Lista de Donativos, o
Saemon-nojo Sakai, da peça O Tambor de Sakai; Kiichi Hogen, em
Cantero de Crisântemos; a bruxa, em Coleta de Folhas de Outono; Kato do
Terremoto; Tametomo; o Ministro de Mito; Kuemon Kezori e outros. Vai
aqui a marcante passagem em que ele interpretou Saemon-nojo Sakai. O
próprio Saemon-nojo toca o tambor de guerra em pleno perigo, quando
hordas de guerreiros inimigos se acercam impetuosamente do castelo. O

239
Mundo do Belo

tambor rufa sem qualquer alteração em seu rítmo; as portas descerradas da


fortaleza mostram, sob a luz intensa das tochas, que tudo se encontra como
sempre. O comandante das forças inimigas, temendo que alguma cilada
astuciosa esteja sendo engendrada, ordena por fim a retirada. Trata-se da
cena em que Saemon-nojo — tendo em mente um estratagema ousado —
aguarda impassível o momento. Espera apenas o correr das horas
emudecido, sem mexer sequer uma das sombrancelhas, ao ouvir os
repetidos anúncios que seus súditos, ignorantes do fato, lhe fazem sobre o
perigo iminente. Assim, ele está sentado sozinho no meio do palco, de
olhos cerrados, com a cabeça levemente voltada para baixo, sem fazer o
menor movimento. Por isso, quando no fim cessam os comunicados dos
seus comandados, sozinho, ele permanece no mais completo silêncio,
durante o espaço de quatro a cinco minutos, dando mesmo a impressão de
não ser alguém vivo. A platéia assiste em suspense aquele personagem
mudo e imóvel. Acabou por ficar magnetizada, a imaginar qual será a
atitude a ser tomada por Saemon-nojo a seguir. Nesse momento eu senti a
fundo. O fato de um ator de teatro fascinar de tal forma a platéia, apenas
estando sentado no centro daquele imenso palco de kabuki, sem mover um
único músculo da face nem emitir um único som, é simplesmente o
suprassumo da arte. Admirei-me profundamente, considerando que aquele,
sim, era um mestre de verdade. Recordo-me, ainda, quando ele interpretou
Kiichi Hogen, na peça Canteiro de Crisântemos. Este, conquanto
desfrutasse de regalias como tático das forças da família Taira, anelava
secretamente pela restauração da família Minamoto. Casualmente,
Ushiwakamaru, com o intuito de apoderar-se dos tratados de estratégia e
arquitetar o restabelecimento dos Minamoto, passa a morar, sob o nome
falso de Torazo, juntamente com seu servo Chienai, na casa de Kiichi,
como empregado deste. Entrementes, a filha de Kiichi Hogen, Minazuru
Hime, apaixona-se pelo falso Torazo, fato que, naturalmente, provoca
contentamento íntimo ao pai. Este, por intermédio da filha, torna possível a
Torazo roubar os tratados secretos de estratégia guardados nos cofres da
família. Interiormente satisfeito, mas sem poder deixar tal transparecer, por
estar servindo aos Taira, Hogen finge não ver o amor que Minazuru Hime
dedica a Torazo: eis a interpretação psicológica com que deve ser tratado o
personagem. A perícia de sua arte nesse momento é impossível de ser
descrita. Há, outrossim, a cena em que o Ministro de Mito executa

240
Mundo do Belo

Mondaiyu Fujii, a pedido do próprio. Depois de abater Mondaiyu de um


único golpe, ele guarda a espada na bainha, tendo-a limpado do sangue.
Logo, sem nem se dignar a olhar para o cadáver, retira-se do palco altaneira
e calmamente, cantarolando em voz sonora a canção da peça A Dança do
Deus Dragão, através de um longo corredor guarnecido de balaustrada.
Tamanha era a tensão presente em seu ritmo que este chegava quase à
estaticidade, combinando maravilhosamente com o movimento do palco
rotatório. Ainda hoje não me esqueço da emoção que experimentei. Na
representação de Tametomo, para salvar o filho do perigo que se aproxima,
ele ata a criança à uma pipa enorme, da qual corta o fio após tê-la alçado às
alturas. A altiva serenidade de sua fisionomia, ao contemplar o céu
distante, era fisionomia impassível. Uma perfeita expressão psicológica:
mágico impacto de Danjuro e a sua arte de representação que cativava
completamente o espectador jamais poderão ser descritas pela palavra oral
ou escrita. Segundo o que ouvi na época, quando a platéia o aplaudia ou
ovacionava durante a performance, ele a modificava no dia seguinte. Pelo
que eu imagino, ele visava com a sua representação dramática não a grande
público, mas a um só conhecedor. Após a morte de Danjuro, acabei por
perder meu interesse pelo teatro kabuki. Aos meus olhos, uma vez
apreciadores da arte de Danjuro, os demais atores refletiam-se por demais
inferiores. Por isso, a solidão advinda da perda do gosto pelo kabuki
perdura até os dias de hoje. Contudo, se tivesse que apontar um mestre do
kabuki pós-Danjuro, citaria Ganjiro Nakamura. Dentre suas representações,
nunca conseguirei esquecer duas: Jihe, o Vendedor de Papel e A Paixão de
Tojuro. Para ser sincero, digo que a minha perda de interesse pelo kabuki
talvez derive-se basicamente da ausênsia do fator psicológico. Falando
sucintamente, só se procura representar com a forma, com a pretensão de
adular o espectador. Isso abaixa o nível da arte teatral. Pode-se afirmar que
quase todos os artistas modernos dramatizam exageradamente, se
movimentam exageradamente. Danjuro, contudo, passava por cima da
forma, procurando sempre representar por meio do sentimento. Tal elevava
o nível da arte dramática ao seu grau máximo. Analisando a questão de
outro vértice, ao representar uma personalidade histórica de destaque, ele
transformava-se nesse próprio indivíduo. Especialmente quando se
considera que o japonês de outrora tinha por ideal o não demonstrar das
emoções, deve-se almejar a inexpressividade. Assim, a personagem que ele

241
Mundo do Belo

interpretava não parecia ser a fantasia de um ator. Ele fazia acreditar na


reaparição daqueles heróis em suas respectivas eras. Só anseio
incessantemente que, durante a minha vida, apareça mais um mestre do
mesmo quilate dele.

A propósito, passarei a escrever a respeito de uma atriz que incluiria


no rol dos mestres. Trata-se da famosa Sumako Matsui. Eu arregalei os
meus olhos de admiração diante de sua excepcional arte de representar,
quando ela, ainda jovenzinha, fez sua estréia e começou a adquirir nome,
no papel de Nora, na peça Casa de Bonecas, de Ibsen. A partir de então,
jamais deixei escapar uma representação sua sem assistir. As últimas peças
em que a vi atuar foram A Mulher do Açougueiro, de Kichizo Nakamura, e
Carmen. Pareceu-me uma estranha coincidência que, em ambos os dramas,
a trama constasse da perpetração do assassinato da personagem por ela
representada: no primeiro, por causa dos ciúmes do marido e, no último,
por José. Dois dias depois, ela se suicidava. Acho que a "coincidência"
estava a prenunciar alguma coisa. Todavia, admirei-me de sua atitude como
artista, pois, dois dias antes da morte, ela subiu ao palco sem demonstrar o
mínimo abalo que fosse.

Pretendia discorrer a respeito de outros mestres que não atores, mas,


para evitar a prolixidade, fico por aqui.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

AIZO NANIWATEI

Não se limitam a dois ou três nomes os mestres — que não atores


— sobre os quais desejo falar. Como desde jovem eu gosto de canções do
gênero Ro-kyoku, escreverei aqui sobre os seus mestres. Meu gosto pelas
canções Ro-kyoku é restrito às da região oriental do Japão: mesmo hoje
não sinto interesse pelas da região ocidental. Portanto, escreverei
principalmente acerca das primeiras.

Este gênero tomou o nome de Ro-kyoku depois do aparecimento do


rádio: o pessoal antigo certamente sabe que o nome anterior era

242
Mundo do Belo

naniwabushi. Quando se discute a respeito das canções Ro-kyoku, ninguém


negará que, no estilo do Japão Oriental, o primeiro Aizo Naniwatei, e, no
estilo do Japão Ocidental, Kumoemon Tochugen, são mestres. Fora estes
dois mestres, poderiam ser citados, ainda, Toramaru Bekkosai e Torazo
Hirosawa, no estilo do Japão Oriental, bem como Naramaru Yoshida e
Ungetsu Tenchuken, no estilo do Japão Ocidental.

Aizo era exímio intérprete de Tasuke Shiobara e de Suneemon


Ataka, da peça Keian Taiheiki; Kumoemon, da Saga dos Quarenta e Sete
Samurais; Toramaru, do personagem Sakasaki, O Senhor de Dewa; Torazo,
dos personagens Jirocho de Shimizu e Ishimatsu de Mori; Naramaru, de
Genko Otaka; e Ungetsu, de dramas envolvendo pais e filhos.

O mundo das canções Ro-kyoku também fica cada vez mais vazio.
Shigetomo faleceu; Tomoe definhou e dizem que Rakuen irá aposentar-se.
Yonewaka não tem mais o vigor dos anos idos; a arte de Odo, Bai-o e
Musashi é ainda imatura: fora Torazo, quem hoje sustenta a situação seriam
apenas Katsutaro, Wakae, Urataro e Ayataro. Como no caso de Danjuro, é
veemente o meu desejo de que surja algum mestre que se equipare a Aizo,
no domínio das canções Ro-kyoku.

Aizo Naniwatei atuou quando eu estava nos meus vinte anos; trata-
se, portanto, de alguém de quatro ou cinco décadas atrás. Não apenas a sua
melodia como também o volume de sua voz eram deslumbrantes. Sua voz
maviosa não encontrava rival, nem mesmo entre os demais mestres de
outros gêneros que não o das canções Ro-kyoku. Sua voz era tão bela a
ponto de eu não poder acreditar — sempre que a ouvia — que ela se
originava da garganta humana. Na época, ele atuava com base numa casa
de espetáculos chamada Eijutei, em Shiba, a qual estava sempre
superlotada. Curiosamente, Kumoemon, que era discípulo da escola de
Shigekichi Naniwatei, em Tóquio, foi expulso por razões, de conduta, indo
para Osaka e, posteriormente, para Kyushu. Aí criou uma modalidade
peculiar de melodia, combinando a canção da região ocidental do Japão
com a viola biwa. De posse disso, tornou a Tóquio e passou a competir sua
arte com a de Aizo. Estabeleceu-se na casa Happotei, em Shiba, debatendo
intensamente com Aizo. Contanto, por não ter podido com este, desistiu de

243
Mundo do Belo

Tóquio e levantou bandeira em Osaka. Infelizmente, porém, Aizo faleceu


jovem, na casa dos trinta. Kumoemon, tendo retornado a Tóquio, depois da
morte de Aizo, acabou por ganhar tremenda popularidade, dominando a
sociedade com sua arte: fato ainda recente em nossa memória. Kumoemon
não se sobressaía apenas pela técnica. Ele era dono de excelente tino na
área do espetáculo. Sua criatividade elevou a canção Ro-kyoku, até então
de âmbito restrito às pequenas casas de espetáculo, ao palco dos teatros, e
fez ocultar os tocadores de viola de três cordas de acompanhamento, dentre
outras inovações.

Remanescem ainda hoje na memória Komakichi e Minekichi


Naniwatei, o primeiro Katsutaro, Sanso e Rakuyu Azumaya, além de
outros.

Ensaios, 30 de agosto de 1949

244
Mundo do Belo

XIII - CINEMA

EU E O CINEMA

Constitui fato muito bem sabido entre os fiéis o meu gosto pelo
cinema. Ainda hoje procuro assistir a filmes um dia sim, um dia não.
Assim, passarei a escrever a história, desde o início, de como me aficcionei
pelo cinema. A primeira vez em que assisti a uma fita cinematográfica (a
que na época davam o nome de fotografias animadas) contava com meus
quinze ou dezesseis anos. Havia, então, no sexto distrito do Parque de
Asakusa um prédio de nome Denki-Kan, provavelmente o primeiro cinema
de Tóquio. Nem é preciso dizer que me assustei com o fato de as fotos se
movimentarem. As ondas se moviam, um cachorro aparecia a correr, o
povo caminhava pela rua! Fiquei simplesmente abismado com aquilo.
“Que coisa misteriosa e interessante que inventaram!” — pensei comigo.
Como morava em Asakusa na época, sempre que tinha tempo ia ver
películas. Entrementes, o conteúdo destas foi evoluindo da pura e simples
retratação de fatos para a sua dramatização. Simultaneamente, o prédio
chamado Kinki-Kan — uma espécie de clube, um auditório público dos
dias de hoje sito em Nishiki-cho, no distrito de Kanda - passou a abrigar o
único cinema da região. Na época, o filme O Demônio Aloprado — uma
obra da companhia cinematográfica francesa Pathé, creio — era muito
interessante e comentada, lotando o cinema por dias e dias a fio. A
especialidade da Pathé eram filmes de atualidades, dramas e filmes infantis,
voltadas para o público em geral. Já as películas italianas, em sua grande
parte, eram obras longas de cunho histórico, aparecendo mais raramente
uma ou outra comédia.

Nesse meio tempo, o cine Denki-Kan, do Parque de Asakusa,


ganhava mais e mais popularidade, chegando-se ao ponto de "Denki-Kan"
passar a ser sinônimo de cinema. Antigamente, como o cinema era uma
novidade, as casas ficavam lotadas dias e dias seguidos, e, por serem
minúsculas, diferentemente das de hoje, era um sacrifício assistir aos
filmes. Entrementes, o cinema em si progredia a grande velocidade, com
fitas cada vez mais longas, surgindo obras interessantes. Naturalmente as
películas eram mudas, influenciando grandemente nelas a perícia ou a

245
Mundo do Belo

imperícia do narrador. Lembro-me de que, na época, o famoso Saburo


Somei era bastante conceituado, sendo que pouco depois o hoje conhecido
Roppa Furukawa passou a atuar como seu assistente. Posteriormente, nas
proximidades, apareceu a casa San-yu-Kan. Aqui exibiam-se películas
cinematográficas e o chamado kineorama26 — algo como um panorama
móvel. Por meio de cores e eletricidade, criavam-se efeitos que
reproduziam com perfeição os fenômenos naturais, como borrascas e
trovões. Por causa disso, teve enorme aceitação entre o público, por algum
tempo. Depois disso, surgiram seguidamente mais casas de exibição: Fuji-
Kan, Daisho-Kan, Opera-Kan, Teikoku-Kan, Nihon-Kan e outras. Na
época, foram grande sucesso de bilheteria os filmes Zigomar, Meikin,
Pegaso, etc. Foi a partir de então que começaram a entrar produções
americanas. Até aí, o que havia era quase que exclusivamente fitas
francesas, alemãs e italianas. Na primeira vez em que assisti a um filme
norte-americano, não me cansei de admirar o vigor da representação dos
artistas, o tamanho dos cenários; a rapidez do tempo, etc. Isso proporcionou
àquelas obras súbita popularidade. Não é de se estranhar que o cinema
norte-americano tenha seduzido o público, visto que os filmes em voga,
como agora, eram os de faroeste e, ainda por cima, seriados. Um faroeste
que teve muito sucesso na época era um em que um dos figurantes se
chamava Lolo, um tipo miudo parecido com um japonês. Dava gosto ver
sua agilidade e leveza. Por isso, cinema era sinônimo de filme americano,
como acontece até hoje.

Enquanto isso, nascia a comédia típica dos Estados Unidos,


angariando popularidade de todos os lados. Foi quando também surgiram
Chaplin, Lloyd e Keeton, atores amados pelo público. Verdade é que bem
antes disso havia no cinema italiano o comediante chamado O Novo Rei
dos Patetas (Andrew), um homem diminuto. Também ele abafou por
algum tempo e os antigos devem conhecê-lo. Nessa mesma época, também,
apareciam de tempos em tempos obras norte-americanas de longa duração
que deslumbravam os aficcionados. Dentre elas, lembro ainda hoje de uma
obra-prima do mestre Griffith. Fita particularmente longa — já não me
recordo mais do seu título — descrevia a evolução da civilização das eras
primitivas até a atualidade. O mundo inteiro vibrou com ela. Quanto às
26
*Kineorama: referência a cinerama.

246
Mundo do Belo

fitas italianas, a maioria era produzida pela companhia Milano. As


Cruzadas, O Imperador Nero, Quo Vadis: havia obras de grande porte. Na
mesma época as grandes companhias cinematográficas americanas eram a
Paramount, a Fox27, a Metro28, a Universal e outras. Mesmo hoje não
consigo esquecer da Blue Bird, pequena empresa coligada à Universal.
Suas obras, ao contrário daquelas agitadas que dominavam o público, eram
extraordinariamente calmas. Colocavam-se numa linha idêntica à de Ibsen,
que com seu aparecimento provocou uma reviravolta de cento e oitenta
graus na literatura romântica européia: de altíssimo valor cultural,
desprovidas de artifícios baratos, com temas que primavam pela seriedade.
Tinham, portanto, um sabor único que me levavam a jamais perdê-las. As
fitas da Brewbird eram exibidas exclusivamente em duas ou três casas de
cinema: no Konparu-Kan (cujo narrador era Tenrei Takita), de Shimbashi,
e no Aoi-Kan (idem, Musei Tokugawa), em Akasaka. Faziam sensação
entre os fãs.

Mas retornando ao que relatei há pouco: as casas de cinemas, que


no princípio se restringiam ao Parque de Asakusa, começaram a se espalhar
por várias regiões da cidade e, especialmente depois do grande terremoto
da Região Oriental, apareceram por todos os cantos. Ademais, o cinema
japonês, que durante muito tempo só visava ao público infantil, passou,
finalmente, a produzir obras para adultos. No início, nos tempos de
Matsunosuke Onoe, eu não sentia a mínima vontade de ver filmes
nacionais. Contudo, eu passei a assistí-los, há uns dez e tantos anos, após
ver Kazuo Hasegawa, cujo nome artístico na época era Tyojiro Hayashi,
interpretar Sakasaki, o Senhor de Dewa, em A Batalha de Verão, da
companhia Shochiku. Esta obra, em vista de seu grande esquema e demais
pontos, não fica a dever aos filmes ocidentais, fato que me assustou. Foi a
oportunidade para que eu acabasse por me tornar, a partir de então, fã do
cinema japonês. O resto, no que tange aos fatos mais recentes, como todos
estão por dentro, terminarei meu relato.

Todavia, pretendo pôr no papel algo que sinto em relação ao cinema


nacional hodierno. Diversamente dos tempos idos, o cinema japonês
progrediu bastante. Contudo, — para falar francamente — resta uma faceta
27
Fox: referência à companhia Twenty Century Fox.
28
Metro: referência à companhia MGM (Metro-Goldwyn-Mayer)

247
Mundo do Belo

extremamente negativa. Quero admoestar com ênfase esse ponto.


Resumindo, em primeiro lugar, trata-se da inferioridade do seu nível.
Ouve-se dizer freqüentemente que não se investe dinheiro nos filmes
japoneses, por isso não se produzem fitas boas como as estrangeiras. Esta
desculpa vem a ser um erro gravíssimo. Afirmo isso com base no fato de o
cinema italiano, que recentemente passou a gozar de enorme reputação,
com certeza gastar muito menos que o japonês. Tamanha reputação deve-se
à existência, em algum lugar, de uma coisa que fascine tremendamente.
Que seria isso? Trata-se, sem dúvida, da seriedade dos temas, inexiste
qualquer artifício barato para comprar aplausos. Jamais se subestima o
público. Resumindo, evita-se o caráter de espetáculo do cinema para
descrever com fidelidade o ser humano, para descrever o gemido que brota
do sofrimento social. Outrossim, é profunda ao extremo a sua acuidade na
avaliação da dor humana, o que faz com que, terminada a apreciação de
uma película, nosso peito seja assaltado pelos mais variados sentimentos.

Em comparação, nem vale a pena discutir o cinema japonês,


tamanha sua infantilidade. Somente busca o efeito do espetáculo, visando
demasiadamente ao lucro. O que não se percebe, porém, é que o resultado
vem a ser inverso. Prova evidente é o vultoso número de fãs seduzidos
pelos filmes estrangeiros, deixando o ingênuo cinema nacional de lado.
Chamo, portanto, a atenção dos produtores e diretores de cinema para que
mudem radicalmente, o mais rápido possível, a sua maneira de pensar.
Falando sucintamente, há que elevar o nível global. Há que produzir obras
que penetrem a alma do público. O espectador deve ficar amarrado à
poltrona até o fim da película.

Eu - texto inédito - 1952


CINEMA

Todos aqueles que me conhecem sabem do meu gosto pelo cinema.


Jamais me esquecerei: a primeira vez a que assisti a um filme foi quando
tinha dezesseis ou dezessete anos, ou seja, há uns cinqüenta anos. Digamos
que eu seja um dos seus mais antigos fãs. Foi nessa época em que, pela
primeira vez, uma película cinematográfica entrou no Japão. Nem é preciso
dizer que se tratava de uma peça de um único rolo que mostrava o

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Mundo do Belo

movimento de ondas, um cachorro que se punha a correr, gestos de


pessoas, etc. Algo extremamente infantil, visto sob a perspectiva de agora.
Mesmo assim, todos arregalaram os olhos de espanto. Como o tempo opera
transformações! A primeira peça dramática era francesa. Contava a história
de um marinheiro que, tendo voltado de viagem, se deparava com algum
problema no lar. Mas já me esqueci do que se tratava. Era uma obra de um
rolo, de conteúdo simples. Esses filmes eram exibidos numa humilde
casinhola de nome Denki-Kan, no Parque de Asakusa, sendo que, pouco
depois, apareceu um narrador, o afamado Saburo Somei.

De outro lado, em Nishiki-cho, no distrito de Kanda, havia uma


casa de espetáculos chamada Kinki-Kan, esta bastante luxuosa. Antes de
mais nada, seu salão possuía o aspecto do interior de uma mansão nobre.
Utilizada como salão de preleções, seu assoalho era recoberto com esteiras
alcochoadas, onde, logicamente, o público sentava. O primeiro filme a que
aí assisti era a película francesa intitulada O Demônio Aloprado. Na
verdade uma peça para crianças, mas que por ser bastante divertida fez
grande sucesso. O narrador daquele tempo era Koyo Komada. Seu capricho
em ser extremamente incomum lhe rendeu fama. Posteriormente,
construiu-se em Kanda o cinema Shinsei-Kan ao qual também ia amiúde.
De outra mão, em Asakusa, além do Denki-Kan, surgiram seguidamente
mais salas: San-yu-Kan, Fuji-Kan, Daisho-Kan, Teikoku-Kan, Nihon-Kan,
etc. Na cidade, ainda, começaram a aparecer aqui e acolá outros cinemas.

Como constitui fato conhecido dos senhores, o cinema, no


princípio, era chamado de fotografia animada. Sua duração, que no início
era de um rolo, ficou progressivamente mais longa, com dois e três rolos.
Nos primeiros tempos, predominavam as obras da companhia francesa
Pathé, que traziam a marca de um galo. Nessa época, uma película que fez
sucesso foi "Zigomar", um filme de bandido cuja trama era a fuga, sob
vários disfarces, do personagem principal do mesmo nome. Isso teve
enorme aceitação entre o público. Havia também uma comédia italiana em
que um pequeno homem chamado Andrew atuava com grande agilidade.
Era muito engraçado, chegando-se mesmo a inventar o título O Novo Rei
dos Patetas, para sua película. Depois, teve imenso sucesso o filme Pegaso,
da companhia alemã UFA.

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Mundo do Belo

Pouco depois, começaram a entrar filmes norte-americanos. É


possível afirmar que estes, com a extraordinária dimensão dos seus
cenários e a nitidez das imagens, além do vigor da representação dos
artistas, atraíram para si quase que a totalidade do grande público. O
mesmo aconteceu também comigo. Na época o seriado Meikin fez
tremendo sucesso. Mesmo hoje deve haver muita gente que o tenha visto.
Ademais, foi a partir daí que os filmes de faroeste tornaram-se uma febre.
Eram, naturamente, seriados. O artista que concentrou sobre si a simpatia
do público foi Lolo, um astro exclusivo de cinema que se parecia muito
com um japonês. Posteriormente, quando a febre dos filmes de ação se
arrefeceu, foi a vez das comédias norte-americanas típicas entrarem em
voga. Foram muito bem aceitas, então, as obras de Chaplin, Lloyd e
Keeton.

Com a influência do cinema americano, os filmes europeus,


produzidos na França, Alemanha e Itália, tornaram-se raros.
Momentaneamente, ingressou no país considerável número de obras
italianas de longa duração, mas também elas foram sufocadas pelos filmes
americanos e estes acabaram por monopolizar o mercado. As empresas de
então eram a Paramount, a Fox, a Metro Goldwyn, a Universal e outras,
cada qual com sua respectiva peculiaridade. Esta última contava dentre
seus filmes com uma seção à parte, a Blue Bird, que merece menção
especial. Ate então, as fitas de cinema tinham por objetivo apenas a
diversão, cheias de artifícios para tirar aplausos, frívolas. Tal não se
aplicava às obras da Blue Bird. Desprovidas de todos estratagemas fáceis,
expressavam apenas a verdade, tendo alguma coisa que tocava o coração.
Pode-se estabelecer um cotejo com a oposição entre a tendência do
romance europeu do século dezoito, que não se desligou do teatro, e a seara
virgem aberta por Ibsen, com o cultivo de um romance psicológico
profundo. Assim, desnecessário dizer que os filmes Blue Bird foram
amplamente bem recebidos pela classe intelectual, como obras destinadas à
apreciação dos entendidos na arte do cinema. Graças à sua influência, os
filmes norte-americanos, repletos de artifícios para agradar o público,
penderam para maior profundidade e peso.

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Mundo do Belo

Um diretor famoso desses tempos passados, ainda hoje difícil de


olvidar, vem a ser Griffith, um especialista em obras gigantescas. Um dos
filmes realizados por ele, Intolerância, tinha não apenas um conteúdo
profundo, mas muito emocionante. Também inesquecível é Valentino,
homem de rara beleza, que encantou platéias do mundo inteiro. Não por
sua arte, diga-se, mas por seu belo rosto. O último filme seu que vi foi
Sangue é Areia, uma adaptação da ópera Cármen. Sua beleza chegava até o
ponto de exercer fascínio sobre o espectador masculino. Talvez, mesmo no
futuro, não surja homem tão belo quanto ele. Naturalmente era de se
compreender que fosse a paixão de todas as mulheres da face da Terra.
Lamentável, todavia, é que Deus, agraciando-lhe com a beleza, não lhe
concedeu a longevidade. Já Douglas Fairbanks, com seu talento peculiar,
conquistou momentaneamente a popularidade mundial.

Eis aqui o que pude registrar, vasculhando minha memória acerca


da era do cinema mudo. Em 1919, porém, desde que me tornei seguidor da
Igreja Oomoto, por várias razões, inclusive de natureza religiosa, deixei de
assistir filmes por mais ou menos dez anos. Exatamente nessa época surgiu
o cinema falado.

O que vim escrevendo se refere ao cinema estrangeiro. Verdade é


que, até então, o cinema japonês não valia a pena ser visto. Como é do
conhecimento geral, com o nascimento do cinema falado, o narrador, cuja
existência era imprescíndivel, acabou por se ver na rua. Citarei o nome dos
narradores de que mesmo hoje me recordo: Saburo Somei, Ten-han Takita,
Tenpu Ishii, Raiyu Ikoma e Tenro Tani. Dentre os profissionais ainda na
ativa temos: Roppa Furukawa, Musei Tokugawa, Shiro Otsuji, Suisei
Matsui, Seiha Inokuchi e outros.

Desde que me desliguei da Igreja Oomoto, anteriormente citada,


principiei a assistir filmes de novo. Graças à minha extrema adoração ao
cinema, que vem de nascença, a febre cinematográfica reacendeu-se. Desde
então, continuo até hoje a assistir ao maior número possível de filmes.

A primeira película a que assisti, depois da lacuna de dez anos há


pouco citada, era intitulada A Batalha de Verão de Osaka, na qual o ator

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Mundo do Belo

Kazuo Hasegawa — que usava o nome artístico de Tyojiro Hayashi —


interpretava o papel de Sakasaki, o Senhor de Dewa. Fiquei, então,
inteiramente pasmado. Jamais poderia nem mesmo sonhar que o cinema
nacional fosse capaz de progredir tanto, durante o tempo em que estive
afastado da área. Escusado dizer que esse contituiu o motivo de eu me
tornar fã do cinema nacional. Os filmes japoneses que vi a partir daí e que
me ficaram na lembrança são: Tange Sazen, O Desfiladeiro Daibosatsu, A
Saga do Bando de Ladrões dos Reinos Beligerantes, Tsurujiro Tsuruhachi,
Sumako Matsui, No Extremo do Pico Nevado, etc.

O cinema norte-americano atual não mais me emociona como


outrora. A razão reside no fato de muitas de suas tramas abordarem temas
caseiros, não se vendo mais obras de grande escala ou comédias de nível
superior como antes. Concretamente falando, por não compreender o
idioma, quando aparecem casos complicados nas fitas de temas familiares,
fico sem entender bulufas. Talvez seja isso que as torne sem graça. Um
desses motivos estaria no fato de que, depois do aparecimento do cinema
falado, acabou a necessidade de mostrar o conteúdo por mímica, como se
fazia no cinema mudo. Dentre os filmes americanos, ainda hoje não
consigo esquecer Hurricane, Chicago, A Grande Planície, etc. Apesar de
poucas, há obras do cinema inglês recente que devem ser vistas. Já quanto
ao francês, a maioria são filmes de amor, pelos quais não sinto grande
atração. Penso que a causa, todavia, poderia estar na minha idade.

Conquanto isso não seja muito válido para a época do término da


Segunda Guerra, o cinema nacional tem produzido alguma coisa boa
ultimamente. Também é fato indiscutível que a técnica de filmagem e tudo
o mais tenha se desenvolvido em conjunto. No entanto, existem ainda
muitas falhas. Citarei, por exemplo, a inclusão de artifícios fáceis para
roubar aplausos do público na trilha dos filmes sonoros. Quando estamos
com a respiração suspensa, tamanho é o interesse que nos prende ao
desenrolar do cenário, deparamo-nos com uma situação despropositada e
desnecessária que acaba por desfazer instantaneamente a emoção que nos
tomava até aí. O pessoal do cinema deveria mostar maior interesse por isso,
razão que me obriga a fazer esta crítica áspera. Todavia, digno de se elogiar
é a arte dramática dos atores contemporâneos. Reconheça-se que esta

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Mundo do Belo

evoluiu bastante. Verdade é que isso, talvez, se deva à quantidade de


tomadas em "close-up", diversamente do que antes acontecia. Por fim, o
que espero do cinema nacional são as obras de grande escala é o colorido
natural. Há de se concretizar isto o quanto antes.

Ensaios - 30 de agosto de 1949

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