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A IMPORTÂNCIA DE UMA TEOLOGIA E ECLESIOLOGIA BÍBLICA NO PROCESSO DE PLANTAÇÃO DE IGREJAS

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CENTRO EVANGÉLICO DE MISSÕES MESTRADO EM MISSIOLOGIA

A IMPORTÂNCIA DE UMA TEOLOGIA E ECLESIOLOGIA BÍBLICA NO PROCESSO DE PLANTAÇÃO DE IGREJAS

Trabalho apresentado ao Centro Evangélico de Missões, em cumprimento parcial às exigências da disciplina Plantação de Igrejas, ministrada pelo Professor Dr. Sebastião Lúcio Guimarães, para a obtenção de Grau de Mestre em Missiologia.

POR RAFAEL FCACHENCO FILHO

Viçosa

Para demonstrar sua tese ele nos chama para observarmos como era relação entre a Teologia e a Missiologia em três períodos distintos da história da Igreja: no período apostólico. e no último (o capítulo seis). no período da Reforma. dada a sua relevância para o entendimento da questão. mas como disciplinas complementares” (p. Gostaria nesse artigo de examinar detalhadamente e destacar a contribuição de Lidório aportada nesses quatro capítulos. Princípios e Estratégias de Plantio de Igrejas. No terceiro capítulo. a partir de questões que surgiam no trabalho de 1 LIDÓRIO. Cultura Cristã. e a partir da reflexão de alguns missiólogos contemporâneos. em seu livro Plantando Igrejas1. em sua relação com a missiologia e a contextualização. Sobre a relação entre a Teologia e a Missiologia no período apostólico. Nos dois primeiros capítulos de sua obra ele discorre sobre a importância da teologia bíblica. São Paulo: Ed. 2007. sobre aspectos teológicos relacionados com a pessoa do Espírito Santo em relação ao processo de plantação de igrejas. ele destaca a observação de Bosch que a toda a teologia elaborada pelos apóstolos nos primórdios do Novo Testamento foi desenvolvida e praticada num contexto de missão. 17).2010 Introdução Ronaldo Lidório. Ronaldo. A relação entre a Teologia e a Missiologia A primeira questão apontada por Lidório que convém examinar e destacar é a relação entre a Teologia e a Missiologia. sobre a importância de uma eclesiologia bíblica. Plantando Igrejas – Teologia Bíblica. e em resposta a questões missiológicas. bem como para refletirmos sobre essa relação. Ele defende que “Missiologia e Teologia não devem ser tratadas como áreas separadas. Os apóstolos desenvolveram uma sólida reflexão teológica fundamentada nas Escrituras do Antigo Testamento e nos ensinos que eles tinham recebido diretamente do Senhor Jesus. aborda a questão da plantação de igrejas não somente de uma perspectiva pragmática ou estratégica: ele inicia a sua abordagem destacando a importância fundamental de uma teologia e de uma eclesiologia bíblica no processo de plantação de igrejas. 2 . sob a orientação do Espírito Santo.

e que “o conhecimento teológico estava a serviço de Deus. William L. afirma ele (p. de outras disciplinas práticas. É do mesmo modo claro que a ciência missionária depende da dogmática para sua conceituação da natureza e tarefa da igreja. William L. pastor. como Hesselgrave: “o compromisso evangélico com a autoridade das Escrituras é vazio de significado se não permitimos que os ensinos bíblicos moldem a nossa missiologia” (p. Ele demonstra que essa relação é também assinalada por destacados missiólogos contemporâneos. sobrinho do destacado teólogo reformado Herman Bavinck (1854-1921). Tradução de Lane). e da história da igreja. discute não apenas a fundamentação. Calvino e Zwínglio teologizavam em sintonia com as gritantes necessidades de uma igreja que crescia.estabelecimento e edificação da igreja. Ele apresenta o apóstolo Paulo como “um exemplo clássico desse modelo”. 3 . 18). da ética por causa de seu interesse em questões éticas. xix. afirma que Johan Herman Bavinck (1895-1964). Ele destaca que essa mesma relação ocorreu durante a Reforma. ao procurar justificar a necessidade de uma ciência de missões (Missiologia). Lane destaca esse esforço citando o próprio Bavinck: a ciência da exegese é necessária para prover à ciência missionária de dados escriturísticos essenciais para a formulação de princípios. 19).. das páginas xixxi. e à disposição da igreja. mas também define sua tarefa e procura estabelecer a sua relação com as demais disciplinas teológicas (grifo meu). traduzida para o inglês em 1960. 18. não publicado. p. ao discutir a origem da disciplina Teologia Bíblica de Missões2. 18). missionário e teólogo reformado holandês. “Lutero. Sua abordagem reflete a sua formação Reformada. p. e que precisava de direção bíblica”. Lane. tratando especificamente dessa questão em sua obra Inleiding in de Zendingswetenschap. 7. 17). e lembra que Augustus Nicodemus o apresenta como “o mais impressionante teólogo do Cristianismo. bem como o seu maior missionário” (p. sob o título An Introduction to the Science of Missions. CEM – 2010. o objetivo e as abordagens dessa ciência. e não paralelo a ela”. uma vez que faz parte da história da igreja (1960. 2 LANE. e Paul Hielbert: “um trabalho missionário sem um sólido fundamento teológico se divorcia da mente de Deus” (p. Teologia Bíblica de Missão – Uma Análise do Propósito Bíblico da Missão.

Ele propõe inclusive uma paráfrase de Mateus 24:14: “o evengelho do reino será proclamado de forma inteligível e compreensível por todo o mundo habitado. Lidório afirma que o termo grego κηρυχθήσεται (kerychthésetai). A palavra traduzida por “mundo”. ele entende que utilidade da teologia bíblica não está restrita à mera tarefa de justificar a necessidade da ação missionária e da existência do movimento missionário. abrangente. É indispensável que a vivência. dativo plural de ἔθνος (éthnos). indica o mundo habitado. A vocação missionária é inegavelmente um dos aspectos constitutivos da identidade da Igreja. grupos étnicos lingüística e culturalmente definidos. proporcionando bases bíblicas que simplesmente apóiem e justifiquem a necessidade desse esforço. Ele entende que cada aspecto da identidade da igreja (como adoração. e inter-relacionados. corretamente fundamentada bíblica e teologicamente. etnias. tem como raiz a palavra κήρυγμα (kérygma). A palavra traduzida por “nações”. que a experiência de todos os demais aspectos que juntos constituem a identidade da Igreja estejam solidamente fundamentados bíblica e teologicamente. bem como cada atitude e metodologia do movimento missionário devem estar solidamente fundamentadas bíblica e teologicamente para que a Igreja não perca sua identidade. ἔθνεσιν (éthnesin). de testemunho de vida. traduzido por “e será pregado”. Mas esse aspecto não está desvinculado dos demais. 23). a todas as etnias 4 . Então virá o fim”. fidelidade. a Missiologia e a Eclesiologia Sendo coerente com sua formação.A relação entre a Teologia. οἰκουμένῃ (oikouméne). povos. por meio do testemunho martírico. Pois é essa experiência eclesial histórica. é usada para indicar raças. de vida da igreja. Em prol dessa abordagem é especialmente útil a exegese que Lidório faz de Mateus 24:14: “E será pregado o evangelho do reino por todo o mundo. nações. unidade e comunhão). que se constituirá em testemunho a todas as nações. para testemunho a todas as nações. possuindo uma conotação primariamente demográfica. traduzida por “testemunho”. uma proclamação audível e inteligível. doutrina. e não geográfica. e para que o movimento missionário não se perca em meio ao que Lidório chama de “esquisitices metodológicas” (p. onde há pessoas. evoca um sentido mais pessoal. enquanto que a palavra μαρτυρία (martyría). santidade.

blueletterbible. disponível em <http://www. Rom. 24:27. 4 Este evangelho do reino. como a realeza eterna. o pronome demonstrativo τοῦτο (toúto) indica este como alguém ou algo presente visivelmente aqui. portanto. designa um conteúdo específico. estando estas dimensões claramente inter-relacionadas.21. 26. 4 BOSMA. 29. pág. no grego τοῦτο τὸ εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας (toúto to euangélion tes basiléias).definidas” (p. Carl J. João 5:39). e posteriormente pelos seus apóstolos. Lucas 17:20. A exegese não destaca especificamente a natureza bíblica e teológica do conteúdo a ser proclamado de uma forma inteligível e compreensível implícito necessariamente na expressão “e este evangelho do reino”. podemos inferir que a dimensão bíblicoteológica.. inclui também tanto a dimensão missiológica. Igualmente a expressão “evangelho do reino”. interpretado teologicamente primeiramente pelo próprio Jesus (Mateus 5:17. 45.14. expresso através da vida da igreja de uma forma abrangente. como a dimensão eclesiológica – o testemunho martírico. Bosma demonstra exegeticamente que esse é o conceito básico da teologia no livro dos Samos. Ed. Carl J. 44.org/lang/lexicon/lexicon. cujo caráter e natureza pode ser claramente identificado. 27). acesso em 20 de Fevereiro de 2011. 1:16. 1 Cor.cfm? Strongs=G5124&t=KJV>. de maneira que se identifique a natureza e o caráter da pessoa ou coisa mencionada. Mas segundo Thayer3. kerygmática – uma proclamação efetuada de uma forma inteligível e compreensível. 16:13. universal e invencível do Senhor. Eclesiologia e a Contextualização 3 Thayer’s Lexicon. εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας (euangélion tes basiléias) se relaciona com conteúdos bíblico-teológicos desenvolvidos no AT. revelacional e abrangente sobre a pessoa e a obra de Cristo. 15:3-8). 5 . de maneira que se possa claramente afirmar ou negar a correspondência entre a pessoa ou coisa e a natureza e caráter em questão. basiliânica do evangelho (este evangelho do reino). 16:13-16. Fôlego. 2009. A relação entre a Teologia. Dessa exegese. 14:17. Missiologia. sob a direção e ensino do Espírito Santo (João 14:26. portanto. São Paulo. absoluta. Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. fundamentado escrituristicamente.

sendo válida como Palavra de Deus e comunicável para todos os seres humanos. estará também inter-relacionado com a missiologia e a eclesiologia. podemos dizer que esse processo de contextualização não só se relacionará com a teologia bíblica. e essa “tradução” precisa ser feita de uma maneira que: 1.27 e p. 2. de maneira que não somente os que o recebem possam entender adequadamente a mensagem comunicada. 6 . Em relação à teologia bíblica. e a sua condição de total carência de salvação precisam ser devidamente expostas. em virtude e por força dessa relação. Seja entendido adequadamente.A exegese e a paráfrase sugerida por Lidório do termo grego κηρυχθήσεται (kerychthésetai). Por isso. mas também que. que fundamenta a proclamação do Evangelho: Deus é soberano e dono de toda a glória. A partir destas considerações. seu conteúdo precisa ser comunicado em toda a sua integralidade. Nesse processo há barreiras lingüísticas e culturais que o Evangelho precisará transpor. nos remetem a outra importante questão. a Palavra de Deus constitui-se em parâmetro válido para definir o ser humano em toda sua condição existencial. Para que o Evangelho seja proclamado de forma inteligível e compreensível. Lidório aponta pressupostos bíblicoteológicos relacionados especificamente com a contextualização (p. A realidade do pecado intencional (perversidade e impiedade) do gênero humano. Respeite o que já está pré-estabelecido em seu próprio conteúdo também em relação a como e por meio de quem ele deve ser comunicado. 2. o caráter e a totalidade do seu conteúdo. Ela dá testemunho de que há uma verdade universal e supracultural. Amenizar a mensagem em relação ao pecado é contribuir para a incompreensão do Evangelho. 33): 1. 3. Esse processo é chamado de contextualização. Preserve a natureza. em todas as culturas. e em todas as épocas. O Evangelho será “traduzido”. A Palavra é supracultural e atemporal. mas de uma maneira que também esteja em conformidade com os pressupostos bíblico-teológicos estabelecidos para a comunicação desse conteúdo.

reduzindo ou modificando o seu conteúdo. de vida da igreja. e não colabora para o encontro do ser humano com a Verdade de Deus. 5. Se conforme a paráfrase de Lidório. isso me leva a crer que não só o conteúdo da mensagem do Evangelho na sua integralidade passa pelo processo de “tradução”. além de preservado. Mas o conteúdo de sua integralidade bíblico-teológica. Sua mensagem expõe Deus em relação à realidade da vida e da queda do ser humano. a Missio Dei” (p. Essa atitude é encontrada em toda a história humana. É antes traduzi-lo na integralidade do seu conteúdo lingüística e culturalmente para um cenário distinto do cenário usual ao transmissor. mas contextualizada. o Evangelho será proclamado de forma inteligível e compreensível por todo o mundo habitado. pregando um Deus aceitável ou desejável. por meio do testemunho martírico. Que conteúdos bíblico-teológicos precisam ser contextualizados para que esse testemunho martírico seja relevante? No terceiro capítulo de sua obra. de contextualização. Lidório afirma que “um dos maiores perigos existentes no processo de plantar igrejas é defrontar-se com um cenário onde a missão da igreja está desassociada da Missão de Deus. E afirma expressamente que “isso ocorre toda vez que a igreja segue sua própria agenda de plantio ou crescimento. por motivações próprias e antibíblicas. Também a Eclesiologia precisa passar por esse processo. sem confrontá-lo com o pecado. precisa ser “traduzido” de maneira que o testemunho martírico. Não é inculturada. Ela precisa continuar sendo bíblica. para moldá-lo à luz da Antropologia. Somos seres culturalmente idólatras. 43). evitando uma compreensão reducionista e alienígena Deste. 4. O objetivo maior da contextualização é apresentar adequadamente a Cristo. É comum ao homem caído construir uma idéia de deus que satisfaça seus anseios e interesses. com o objetivo de tornar o Cristo bíblico e histórico compreensível a todo ser humano.3. apresentando inteligível. de vida da igreja seja relevante para o contexto no qual ela está inserida. 7 o Deus verdadeiro de forma . Contextualizar o Evangelho não é reescrevê-lo.

disponível em <http://strongsnumbers. acesso em 23 de Fevereiro de 2011. universal e apostólica. Não para exaltar Jesus. A preposição ἐκ possui duas camadas de significado. 8 . Afirma também que “boa parte da problemática no processo de plantar igrejas advém da má compreensão da natureza da igreja pelo que a planta” (p. bem como a fonte que a mantém. portanto. mas naturalmente se exterioriza. Lidório relaciona alguns pressupostos bíblico-teológicos que nos ajudam a compreender o significado neotestamentário de igreja: 1. ἐκκλησία τοῦ θεοῦ (ekklesía tôu Theôu).5 O verbo καλέω significa “chamar”. mas para exaltar seus líderes”. dinâmica. propriedade. c.Não para a glória de Deus. mas para fortalecer a denominação. mas para a glória da igreja. A despeito de todas as deturpações da fé.com/greek/1537. e dos que se perderam na caminhada. A expressão “igreja de Deus”. embora possa indicar também 5 HELPS™ Word-studies. Ela descreve algo que vem para fora. que se exterioriza desde as profundezas de sua fonte ou origem. A sua origem e preservação. espiritual. e se dá a conhecer e se estende. 1:2 e 2 Cor. santa. Exegeticamente. Há. É uma comunidade crescente. não enraizada em si mesma. E por ter sua origem em Deus. 45). a palavra ἐκκλησία é formada primeiramente pela preposição ἐκ e por uma derivação da raiz verbal καλέω (kaléo). e cuja exteriorização se estende até alcançar o seu impacto sobre o objeto. a. A primeira se relaciona com a origem ou com a fonte do que é exteriorizado. relevantes significados teológicos que se apreendem dessa expressão: A origem dessa comunidade. propriedade. é eterna. Essa comunidade de origem divina não se fecha em si mesma. é o próprio Deus. a verdadeira Igreja permanece e permanecerá. das divisões. e a segunda a extensão do seu impacto. portanto. A Igreja foi articulada e formada por Deus. una. manifestando sua fonte e origem ao mundo. 1:1. o que indica posse. que encontramos em Atos 20:28. e sim obra divina. Tanto o substantivo θεός (theós) como o artigo definido que o acompanha estão declinados no genitivo. b. nem é resultado de esforço humano. não é obra humana. Não para alcançar os perdidos. Essa comunidade dos santos é de Deus (o genitivo indica primariamente posse. 1 Cor.htm>. Essa comunidade evidencia que veio de Deus e pertence a Deus.

que teve sua origem em Deus. ela transcende. Uma contextualização apropriada será fiel a esses significados bíblicoteológicos. e que pertence a Deus. traduzindo e expressando em sua vida os desejos profundos do Seu Senhor para com ela e para o mundo. mas de Deus. porque nos últimos 2. Em 1 Coríntios 1:2. Ele ressalta que uma igreja que é plantada e que cresce de uma forma saudável. Outro alerta de Lidório aos plantadores de igreja é que estes não devem nutrir sonhos de se beneficiarem pessoalmente das igrejas que plantam. está em Corinto. E embora esteja presente e se faça presente de forma concreta num determinado contexto geográfico e cultural específico. Lidório salienta que isso deve ficar claro. Em termos de aplicação prática. e por extensão. devemos atentar para o alerta de Lidório de “observar com muita cautela todo e qualquer movimento eclesiástico por demais personalista”. É oportuno lembrar também o que Pedro diz no verso 3 do capítulo 5 da sua primeira carta. 2. ela é universal. Por essa razão. ao dirigir-se aos líderes nos versos 1 a 3: “Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados. Isso reforça de forma inequívoca que a igreja de Deus. embora siga e ouça seus líderes.procedência). 9 . à expressão “igreja de Deus” – ἐκκλησία τοῦ θεοῦ (ekklesía tôu Theôu) – são acrescentadas as palavras “que está em Corinto” – τῇ οὔσῃ ἐν Κορίνθῳ (te óuse en Koríntho). conforme exposto no item anterior. ela não se limita às barreiras geográficas. pela sua própria natureza. ela precisa caminha de acordo com o palpitar do coração Daquele a quem ela pertence. enfatizando-os e valorizando-os. a ἐκκλησία τοῦ θεοῦ (ekklesía tôu Theôu). mas como exemplos para o rebanho”. A Igreja não é uma comunidade restrita a um contexto geográfico. a igreja adquiriu uma forte tendência de condicionar-se e limitar-se à localidade em que se encontra estabelecida. e sim Àquele que é o seu Arquiteto e Edificador.000 anos. mas não pertence ao local geográfico no qual se encontra. Pertencem a Deus (p. Não somos donos das igrejas que plantamos. Elas não nos pertencem. também às barreiras culturais. pertence exclusivamente a Deus. 45). é propriedade exclusiva de Deus (1 Pedro 2:9). não orbita em torno de uma ou duas figuras humanas.

A comunidade cristã é. 3. em sua própria natureza uma comunidade crescente. e no Senhor Jesus Cristo. como disse Lidório. que se estende até alcançar o seu impacto sobre o alvo. Eles não deixaram de ser tessalonicenses. carpinteiros. Como disse Lidório. mas como homens e mulheres com história. escravos. mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano. fazendo-o entender que essa igreja à qual ele está agora unido em Cristo não foi alienada do mundo. tanto nas que estão no local onde estamos especificamente trabalhando. e não do contexto. como tessalonicenses. e que vive sob a soberania do Filho de Deus. a expressão “para a igreja dos tessalonicenses em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo”. Sua humanidade. Ela deve nos levar. indica que essa comunidade que está em Deus Pai. A contextualização desse princípio bíblico-teológico de natureza eclesiológica deve nos levar a focar o trabalho de plantação de igrejas nas pessoas. a vermos aqueles a quem servimos não apenas como almas convertidas ao Senhor. mas agora passaram a ser tudo isso em Deus Pai. mas purificada dentro dele (p. São “tessalonicenses em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo”. filhos. comerciantes. não perdeu a sua identidade cultural. a Igreja no Novo Testamento não é apresentada como uma comunidade alienante. Em 1 Tessalonicenses 1:1. que não pode estar restrita por barreiras de qualquer natureza. 47). lavradores. com uma vivência dentro de um contexto específico. mães. pais. Eles não são simplesmente “tessalonicenses”. Não deixaram de ser humanos. τῇ ἐκκλησίᾳ Θεσσαλονικέων ἐν θεῷ πατρὶ καὶ κυρίῳ Ἰησοῦ Χριστῷ (ekklesía Thessalonikéon en Teô patrí kái kyrío Iesôu Khristô). é plenamente afirmada. como propriedade exclusiva dele. conforme indicado na preposição ἐκ. ela permanece e deve permanecer sendo propriedade exclusiva de Deus. inclusive geográficas. que possuem 10 . que se relaciona com Deus na qualidade de Pai. A contextualização de mais esse princípio bíblico-teológico de natureza eclesiológica é muito importante para o plantador de igrejas. mas essa humanidade é afirmada não à parte de Deus. como naquelas que estão nas proximidades. e no Senhor Jesus Cristo. dinâmica.inclusive se identificando com este. e sim em Deus Pai. mas que teve essa identidade redimida.

4.”. O contexto mais amplo mostra de forma inequívoca que estas instruções se aplicaram a toda a ἐκκλησίᾳ (ekklesía). em todas as gerações. tanto através da vida 11 . Ele estava demonstrando que tinha criado “uma igreja funcional. Ele afirma que a prioridade estabelecida por Cristo para sua igreja não é escatológica (conhecer χρόνους ἢ καιροὺς (krónous e kairóus). mas também reconhecer que ela deve ser usada para a glória de Deus e para a propagação do Evangelho. à luz da exegese de Mateus 24:14 que já mencionamos. realça que a tarefa missiológica não está desassociada do ser igreja. com o dom que recebeu do Espírito Santo. Não foram somente os que estavam reunidos em Atos 1:6-8 que receberam o dom do Espírito Santo em Atos 2. Ao dizer “mas recebereis poder. e sereis minhas testemunhas. suas testemunhas em Jerusalém. até a sua volta” (p. como parte integrante da sua ἐκκλησίᾳ (ekklesía). Lidório vê o que é prioritário para a Igreja. que. sem exceção. do testemunho martírico. são chamados para serem seus μάρτυρες (mártyres).dons. Um exame da expressão “e sereis minhas testemunhas. mas toda a ἐκκλησίᾳ (ekklesía). grifos meus). especialidades. de acordo com a graça. ao descer sobre vós o Espírito Santo. conforme a capacitação que lhes é dada pelo Espírito Santo. círculos de relacionamentos. fraquezas e habilidades. em toda a Judéia e Samaria. e até os confins da terra.. É fundamental observar e entender o ser humano a partir da suas características humanas específicas para podermos ser instrumentos úteis nas mãos de Deus na tarefa de guiar com amor esse ser humano a ser sal da terra e luz do mundo a partir do que ele é.. É também nosso dever não somente reconhecer essa humanidade. É certo que cada um contribuiu de forma diferente. e não apenas contemplativa. Em Atos 1:6-8. de vida da igreja. nascida para espalhar a sua Palavra a todos os povos. As instruções de Jesus em Atos 1:1-8 não se aplicam somente aos discípulos que naquela ocasião estavam reunidos. mas missiológica. 47). καὶ ἔσεσθε μου μάρτυρες (kai ésesthe moy mártyres). 48.”. conhecimentos específicos.. talentos. e foi Pedro quem se dirigiu à multidão. o tempo humano e o tempo divino). Mas são todos os discípulos de Cristo. tem e pode fazer (p. e que foram envolvidos na tarefa específica da proclamação.. Não há verdadeira missiologia separada de uma eclesiologia bíblica.

Trata-se de um adjetivo que expressa distinção numérica. 3:17). O Espírito Santo é onisciente (1 Cor. 1:2 a expressão “se movia” – no hebraico ‫ – מרחפת‬merahêfeth. que significa outro de um tipo diferente. é onipresente (Sal. raiz que literalmente significa “ser suave”. 2:10. acariciar”. e as características do Παράκλητος (parákletos) com os atributos de Jesus descritos em Isaías 9:6. Companheiro Inseparável de luta ou Aquele que permance ao nosso lado. acarinhar. É a mesma palavra usada para se referir a Jesus em 1 João 2:1. Παράκλητος (parákletos) é uma palavra grega muito rica em seu significado. daí. Ajudador. Amigo. 27 com a obra de Cristo descrita em Rom. Conselheiro. nutrir. de outro do mesmo tipo. Não há no Novo Testamento base para uma proclamação desassociada da vida eclesial. Aquele que fortalece. É usado para 12 . 8:31-34. ἄλλος (állos) indica outro do mesmo tipo. da mesma natureza. e que tanto o Filho como o Espírito Santo compartilham da mesma essência e natureza. e significa Consolador. A pessoa do Espírito Santo O Espírito Santo é Deus (2 Cor. O Espírito Santo é criador. No modo intensivo (Piel). Advogado. Jesus O chama em João 14:16 de O Outro Consolador. alimentar. incubar. como envolvendo-se ativamente na proclamação da mensagem. no sentido dAquele que nos defende e intercede por nós. no grego. como no texto de Gálatas 1:6 (ἕτερον εὐαγγέλιον – héteron euangélion). acariciar. afagar. expressando distinção qualitativa. 139:7). diferentemente de ἕτερος (héteros). significa também “tratar com carinho. No grego. Em Gên. O ַָ verbo significa no seu modo perfeito (Qal) significa “provocar uma forte emoção. 11). Se compararmos a obra do Espírito descrita em Rom. de uma qualidade diferente. compassivo”. Defensor. significa “chocar.eclesial. Aliado. especialmente com um sentimento de amor sensível. veremos que tanto o Filho como o Espírito compartilham dos mesmos atributos. ἄλλον παράκλητον (állon parákleton). O Espírito Santo é eterno (Hebreus 9:14). acalentar”. está no Piel (modo verbal hebraico que expressa ֶֶ ַ ְ ֖ intensidade) do verbo ‫ – רחף‬rahâf. e que o Espírito realmente faz jus à designação de Jesus de ἄλλον παράκλητον (állon parákleton). 8:26.

e a certeza do julgamento). infundindo no coração humano a certeza do juízo de Deus. ou pais que cuidam de seus filhos de uma forma terna. permanecendo ao seu lado. como também a proclamá-lo de maneira que a integralidade do seu conteúdo seja preservada. especialmente para expor. mas que não pode ver com clareza meridiana a sua condição de perdido. Em relação ao que Jesus ensina sobre a pessoa do Espírito Santo em João 16:8. coerente com a mensagem do Evangelho. expondo. faz lembrar (João 14:26). Assim. o que é justo.se referir a pássaros que não somente chocam. evidenciar e provar o que é errado. que diz que a essência da função do Espírito Santo é estar ao lado da igreja de Cristo e fazê-la possuir a face de Cristo e espalhar o nome de Cristo. É dessa mesma forma que o Espírito Santo participou ativamente na criação do ser humano (Gên. continua agindo na criação (Salmo 104:30). 12:7). demonstrando. A ação do Espírito Santo não 13 . e a consciência do seu estado de perdição e condenação sem Cristo. Lidório em sua abordagem não está preocupado em definir quem é o Espírito Santo. o que é justo. e a certeza do julgamento de Deus. Ele ressalta que o ser humano decaído reconhece que é pecador. e a sua necessidade de redenção. Em relação à pessoa do Espírito Santo. demonstrar. a não ser por intermédio do Espírito Santo. que Ele convencerá o mundo do pecado. Lidório identifica a sua função em relação aos perdidos. compassiva. Ele cita John Knox. O Espírito Santo é soberano (1 Cor. É Ele quem capacita a Igreja tanto a dar um testemunho de vida eclesial válido. carinhosa. Lidório identifica no que Ele é como Παράκλητος (parákletos) a indicação de sua função em relação à Igreja. e ao mesmo tempo contextualizada. Seu foco é buscar responder à pergunta: “qual é a relação entre a pessoa do Espírito Santo e a expansão do Evangelho?”. sensível. É somente o Espírito Santo que pode convencer com sólida e forte evidência. atributos característicos de pessoas. evidenciando e provando o que está errado. e chamando-a para estar ao lado Dele na realização do propósito de Deus. mas cuidam com todo carinho e dedicação de seus filhotes. de estar na Igreja. e age com propósito (1 Cor. de condenado em virtude do seu pecado. e continua agindo hoje (João 16:8). da justiça e do juízo (convencer – grego ἐλέγχω – elégkho – convencer com sólida e forte evidência. 12:11). é uma pessoa – Ele ensina. 1:26). a manifestação e a expansão do Reino de Deus estão diretamente ligadas à obra do Espírito Santo.

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