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ARIÈS, Philippe.

HISTÓRIA DA MORTE NO OCIDENTE – da Idade Média aos nossos


dias. Livraria Francisco Alves Editora S.A. 1977.
Se o corpo físico descansa, há um outro que resiste e permanece pulsando: o corpo do discurso. (eu!!!!)
HISTORIOGRAFIA DA MORTE
a) o fim da Idade Média, as imagens macabras significavam, segundo Huizinga e Tenenti, um amor apaixonado pela vida e
ao mesmo tempo, creio eu, o fim de uma tomada de consciência, iniciada no século XII, da individualidade própria à vida
de cada homem;
b) do século XVI ao XVIII, imagens eróticas da morte atestam a ruptura da familiaridade milenar do homem com a morte,
como disse La Rochefoucauld, o homem não pode mais olhar de frente nem o sol nem a morte; e
c) a partir do século XIX, as imagens da morte são cada vez mais raras, desaparecendo completamente no decorrer do século
XX; o silêncio que a partir de então, se estende sobre a morte significa que esta rompeu seus grilhões e se tornou uma
força selvagem e incompreensível. (Ariès, 1977: 92) não ser tão linear assim. As coisas podem estar um pouco
misturadas...
XVI
“A partir do século XVI, e mesmo no fim do século XV, vemos temas da morte carregarem-se de um sentido erótico. Assim, nas
danças macabras mais antigas, quando muito a morte tocava o vivo para avisá-lo ou designá-lo. Na nova iconografia do século
XVI, ela o viola. Do século XVI ao XVIII, cenas ou motivos inumeráveis, na arte e na literatura, associam a morte ao amor,
Tânatos e Eros – temas erótico-macabros ou temas simplesmente mórbidos, que testemunham uma extrema complacência para
com os espetáculos da morte, do sofrimento, dos suplícios.” (Ariès, 1977: 41-2)
XVIII
“A partir do século XVVIII, o homem das sociedades ocidentais tende a dar à morte um sentido novo. Exalta-a, dramatiza-a,
deseja-a impressionante e arrebatadora. Mas ao mesmo tempo, já se ocupa menos de sua própria morte, e, assim, a morte
romântica, retórica, é antes de tudo a morte do outro – o outro cuja saudade e lembrança inspiram nos séculos XIX e XX o novo
culto dos túmulos dos cemitérios.” (Ariès, 1977: 41)
XIX
“Ora, no século XIX, uma nova paixão arrebatou a assistência. Ela é agitada pela emoção, cohora, suplica e gesticula. Não recusa
os gestos ditados pelo uso. Pelo contrário, cumpre-os, eliminando-lhes o caráter banal e costumeiro. A partir de então, são descritos
como se fossem uma invenção inédita, como se fossem espontâneos, inspirados por uma dor apaixonada e única no gênero”.
(Ariès, 1977: 42-3) a interdição já é um mecanismo de regulação, e o efeito de espontaneidade forte.

ROMANTISMO e COMÉRCIO
“Seremos tentados a explicar esse transbordamento de afetividade macabra pela religião, a religião emotiva do catolicismo e do
pietismo, do metodismo protestante. Evidentemente, a religião não é estranha ao caso, mas o fascícino mórbido da morte exprime,
sob uma forma religiosa, a sublimação das fantasias erótico-macabras do período precedente.” (Ariès, 1977: 43)
“Esta é a grande mudança que surge no fim do século XVIII e que se tornou um dos traços do Romantismo: a complacência para
com a idéia da morte.” (Ariès, 1977: 43)
“A complacência romântica acrescenta então muito mais ênfase às palavras e aos gestos do moribundo”. (Ariès, 1977: 45)
“no século XIX esse limite – o das conveniências – não mais foi respeitado, o luto se desenrola como ostentação além do usual.
Simulou até não estar obedecendo a uma obrigação mundana e ser a expressão mais espontânea e mais insuperável de uma
gravíssima dor: chora-se, desmaia-se, desfalece-se e jejua-se como outrora os companheiros de Roland ou de Lancelot. É como um
retorno às formas excessivas e espontâneas – ao menos na aparência – da Alta Idade Média, após sete séculos de sobriedade.”
(Ariès, 1977: 45)
“Esse sentimento é a origem do culto moderno dos túmulos e dos cemitérios, que agora precisamos analisar. Trata-se de um
fenômeno de caráter religioso, próprio da época contemporânea.” (Ariès, 1977: 46)
“Ao decorrer do século XIX o catolicismo desenvolveu expressões sentimentais e comoventes, das quais se havia distanciado no
século XVIII, após a grande retórica barroca – uma espécie de neobarroquismo romântico, muito diferente da religião reformada e
depuradora dos séculos XVII e XVIII.” (Ariès, 1977: 50)
“o caráter exaltado e comovente do culto dos mortos não é de origem cristã, mas sim de origem positivista [negrito nosso]; os
católicos filiaram-se a ele em seguida, tendo-o assimilado com tamanha perfeição que logo acreditaram-no nascido entre eles.”
(Ariès, 1977: 50)
Em todo caso, uma linha de ruptura se manifestou; e iria voltar à cena por volta de meados do século XX; a grande recusa da
morte no século XX é incompreensível se não levarmos em conta essa ruptura, pois foi apenas em um dos lados desta fronteira que
esta recusa nasceu e se desenvolveu.” (Ariès, 1977: 50)
“um signo dramático à maneira romântica. Este sentido vai se tornar mais aparente à medida que a morte se vai tornando objeto de
comércio e lucro. Não se vende bem o que não tem valor por ser demasiado familiar e comum, nem o que provoca medo, horror ou
sofrimento.” (Ariès, 1977: 58)
INTERDIÇÃO
“há mais ou menos um terço de século, assistimos a uma revolução brutal das idéias e dos sentimentos tradicionais; tão brutal, que
não deixou de chocar os observadores sociais. Na realidade, trata-se de um fenômeno absolutamente inaudito. A morte, tão
presente no passado, de tão familiar, vai se apagar e desaparecer. Torna-se vergonhosa e objeto de interdição.” (Ariès, 1977: 53)
“o interdito da morte ocorre repentinamente após um longo período de vários séculos, em que a morte era um espetáculo público
do qual ninguém pensaria em esquivar-se, e no qual acontecia o que se buscava.” (Ariès, 1977: 56)

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