Tropas e Boiadas

Hugo de Carvalho Ramos 1917

Tropas e Boiadas
Hugo de Carvalho Ramos

Instituto Centro-Brasileiro de Cultura

Caminho das tropas
O lote derradeiro desembocou num chouto sopitado do fundo da vargem, e veio a trouxe-mouxe enfileirar-se, sob o estalo do relho, na outra aba do rancho, poucas braças adiante da barraca do patrão. O Joaquim Culatreiro, atravessando sem parar o piraí na faixa encarnada da cinta, entre a espera da garrucha e a niquelaria da franqueira, desatou com presteza as bridas das cabresteiras, foi prendendo às estacas a mulada, e afrouxou os cambitos, deitando abaixo arrochos e ligais, enquanto um camarada serviçal dava a mão de ajuda na descarga dos surrões. O tropeiro empilhou a carregação fronteira aos fardos do dianteiro, e recolheu depois uma a uma as cangalhas suadas ao alpendre. Abriu após um couro largo no terreiro, despejou por cima meia quarta de milho, ao tempo que o resto da tropa ruminava em embornais a ração daquela tarde. O cabra, atentando na lombeira da burrada, tirou dum surrãozito de ferramentas, metido nas bruacas da cozinha, o chifre de tutano de boi, e armado duma dedada percorreu todo o lote, curando aqui uma pisadura antiga, ali raspando, com a aspereza dum sabuco, o dolorido dum inchaço em princípio, aparando além com o gume do freme os rebordos das feridas de mau caráter. Só então tornou à roda dos camaradas, ao pé do fogo do cozinheiro, no interior do rancho, onde chiava atupida a chocolateira aromatizada do café. A tarde morria nuns visos de crepúsculo pelas bandas da baixada. A mulada remoía nas estacas, e junto ao couro de milho um ou outro animal mais arteiro e manhoso escoucinhava e mordia os demais no afã do maior quinhão. Assentados sobre os calcanhares, os primeiros chegados – cujos lotes arraçoados se coçavam impacientes aos varais – espicaçavam pachorrentamente na concha da mão o fumo dos cornimboques, picavam miúdo no corte do caxerenguengue as rodelinhas finas, esfrangalhando entre os dedos os resíduos, palha grossa de cigarro encarapitada na orelha. O cabra abeirou, apossou-se do cuité fumegante que lhe estendia o cozinheiro; e, enquanto deglutia a beberagem, ia comentando com os demais, voz amolengada, a marcha daquele dia. – O lamedo dera-lhe, no vau do Anicuns, um trabalhão; mal do lote, se não fora o ramo verde da marmelada que o dianteiro tivera o cuidado de atravessar no caminho, a burrada embarafustava logo pelo atoleiro e ele não estaria àquela hora no pouso; quando lá passou, ia bem fresco ainda o rastro da tropa no desvio; mesmo assim, o macho crioulo que vinha adestro, não duvidara em meter-se naquela perdição... – Bicho novato, de primeira viagem... – observou o dianteiro, que tocava, como de direito, o lote mais luzido da tropa. No gancho da mariquita, especada sobre o brasido, refervia o bom adubo da feijoada; um bafo grosso, apetecente, daí se evolava, babando a gula de dois perdigueiros da comitiva, que, assentados sobre as patas traseiras, estendiam para o borralho o focinho curto, cupidamente... – Já vem chegando a boquinha da noite, minha gente – avisou o arrieiro saindo da barraca e chegando até o parapeito do rancho, olha o encosto da tropa. – Uma peia garantida nesse macho crioulo, ó Joaquim, que não dê outro sumiço; olá, mudem o polaco da madrinha, bate soturno esse cincerro. Guiada pelo chocalho da madrinha, levada no cabresto, à mão do dianteiro, a tropa desatrelada enveredou pela devesa, redambalando por intervalos cada polaco das cabeças de lote nos torcicolos abrutalhados da vereda, ribanceira abaixo. A noite descia

mansa e silenciosa, perturbada apenas pelo clamor longínquo das seriemas da campina no fundo dos vargedos, e a lua assomava como uma grande moeda de cobre novo por sobre os descampados, em vago nevoeiro.

À noite, repasto feito, descansava o pessoal recostado sobre as retrancas e pelegos dos arreios. Pelos cantos, trilavam grilos; e, de fora, vinha o grito dolente dos caburés e noitibós, agourando a solidão. Um tropeiro sacou do piquá que trouxera a tiracolo, o pinho companheiro dessas caminhadas no sertão; apertou a chave da prima e pigarreou pelo cordame um lundu, todo repassado de ais e suspiros. – Cabra malvado, faz tristeza essa viola – disse alguém, o pensamento longe, perdido no arraial, onde deixara, certo, saudades e cuidados. – Diga antes um caso, daqueles que nos contava, quando na boiada do Antão... – Homem, inda agorinha – atalhou o Manuel, o dianteiro – relembrava um fato que me sucedeu duma feita, quando viajava escoteiro, às ordens do major Matos, pr'essas bandas. O caso é que era então acostado, e de fiança, daqueles de pouca conversa e de grande estadão. Na quinta-feira das Dores, o sol ia descambando, o patrão manda-me chamar, passar a cutuca no lombilho do matungo, e partir sem detença para o povoado, uns papéis de eleição bem arrumadinhos na patrona. Mecês devem estar lembrados que na altura dos Marinhos, num estirão de meia légua de tabatinga e terra puba, fica um cemitério abandonado, há muito toca de tatus e camundongos-do-campo. Semana atrás, numa rusga de cachaça e mulheres, esticara a canela ali perto o Bentinho Baiano, um cafuzo intrometidiço, baleado por dois tiraços de rifle na volta esquerda da pá. Para poupar maior trabalho, aproveitaram a serventia antiga do terreno, sepultando por ali mesmo o assassinado. Fora eu até quem, de passagem, cedera a mortalha de ocasião com que o embrulharam, uma larga pala branca, enfeitada de bambolins, que me presenteara alguém que não tem a ver cá com a questão. “Viajava distraído, esquecido de tudo, na marcha a furta-passo do matungo, perrengueando, a pitar o meu cigarro, quando num repente, estaca de supetão o animal. Assuntei. A noite estava turva, o céu sem lua, aqui e ali picado de estrelinhas. O sítio não me pareceu estranho; atentei com mais justeza, – umas cruzes apodrecidas pendiam, no escuro, desconjuntadas, à beira do caminho, sobre cômoros malfeitos de terra... Era o cemitério velho do povoado. Apertei as chilenas no pangaré; ele andou alguns passos e depois emperrou de novo no meio da estrada, orelhas entesouradas, espreitando a escuridão. Adiante, não via nem ouvia movimento ou tropel algum; o bicho nunca fora empacador ou passarinheiro, tentação do capeta devia de andar ali por perto. Um homem é homem, mecês bem sabem; atravessei o punga no caminho, encurtei as rédeas e escrutei melhor a vista, já acostumado à escuridão. À minha frente, roçando o chão, brancacento, ia um lençol aberto. O matungo refugava arreliado, bufava pelas ventas, uma vontade danada de voltar atrás e desembestar pelo chapadão afora. Senti, benza-me o Santíssimo, u'a mão de ferro, no coração, triturando... Mas, como lhes dizia, em qualquer aperto, pr'este mundo de Cristo, um homem é homem, e o que tem de acontecer, tem força, acontece mesmo! “Desviei o meu bicho para uma pequena macega de sapé, pus-me abaixo da sela, amarrei seguro as bridas a um tronco de imbiruçu e voltei atrás, decidido, franqueira atravessada na boca como era de preceito, mão sobre os gatilhos escancarados da garrucha. Parecera, a este pobre cristão, melhor observado, que era a mesma franja de bambolins, o lençol que seguia estendido à minha frente – aquela mesmíssima mortalha com que dias antes enroláramos o corpo do mal-aventurado Bentinho...”

Parou, gozando a expectativa angustiosa que errava derredor, entre os parceiros. Bebeu uma última golada de congonha, que lhe servira atencioso o cozinheiro; bateu fogo na pedra do isqueiro, acendeu o cigarrão e olhou para fora, vagamente, meneando. – A gente, quanto mais vive, mais aprende, já dizia minha avó. Assombramento, tenho ouvido casos, verdade seja, mas as mais das vezes falta de coragem, turvação do medo e da bebida... Maluquice, anda à toa pelo mundo da Virgem; não fora o meu ânimo, hoje zanzaria por aí, nessas bamburras, gira varrido. Cheguei solerte, pé ante pé, negaceando, pronto a queimar as escorvas na cabeça do Mal-Encarado ou o quer que fosse que impedia a passagem. O lusco-fusco ia menos cerrado, o lençol prosseguia estrada afora, muito branco, desdobrado, largando felpas alvadias pela garrancheira e vassouredo da beirada. Sofreei o baque de meu peito e acheguei-me para mais perto da assombração; bati fogo na binga, soprei um chumaço, e agachado sobre o estorvo, pesquisei com cuidado. “Era... mas devia ter logo visto, um tatupeba, que se fartara no corpo do infeliz ali enterrado e que se retirava, empanturrado, para o seu coito. A imundície, na gana do festim, enrodilhara-se na mortalha do desgraçado, varando-a com a cabeça, e de lá se retirava, certamente bem atrapalhado, arrastando após si o trambolho... Devia ter logo visto; na pressa do enterramento, a cova tinha ficado um tanto rasa, a terra fofa, sem cerca nem revestimento para impedir aquela profanação... Enfim, creiam mecês, é ter sempre desapego ao perigo...” Calara. Cincerros distantes chocalhavam, longe, pelo encosto da devesa. A lua nos aceiros era toda branca como geada de inverno. 1914

. um vulto esquivo deixou-se escorregar para a garupa roliça da besta. não se afobe. cabeceando de sono.. que arranhou suavemente com o cabo da açoiteira. num grande grito de alarma. desamarrou a mula estradeira e voltou montado ao oitão da casa. atravessou sorrateiramente a varanda de terra batida. moída da festança. a espertar o corpo perrengue num último gargarejo da queimada. e. pendependendo no arção. largando num tamborete o par com quem dera a última volta da catira.. um galo cacarejou no poleiro ao pé. e o Ambrosino. porém.. encolhido ao aconchego da fogueira... agora dorme. requebrou-se a noite toda com o manhoso do Zeca Menino. chamando-a para a bênção do padrinho. Os tampos descerraram-se sem rumor. No terreiro. E caducou em solilóquio. supondo-a recolhida. repondo os trastes em seus lugares. O vaqueiro gritava para dentro. a modo que já vão andando. Em pontas de pé. e tio Ambrosino recolheu-se tropeçando ao abrigo da varanda. farto da queimada engolida aos gorgolões. Zeca Menino alcançou o alpendre à banda. onde a mesa posta ostentava ainda os sobejos da ceia – frascos de licor e o doce de buriti esparramando-se na toalha besuntada – e saiu pelos fundos da casa. Traz tristeza. atalhou com voz pachorrenta: – Ora. traz quebranto. Tu. . é que fugiu moça de casa. num sono invencível de sapo borracho. mal o viu desaparecer no cotovelo do atalho. reavivando dentro a animação dos comparsas. esgueirou-se pelo corredor.. e o estrépito abafado do animal. andou lá por dentro remexendo. Houve um rebuliço. respontando na prima: A florzinha do pau-d'arco É da cor do entardecer. meu tempo.. E só quando as barras vinham quebrando e era manhã feita nas morrarias do nascente e o último convidado. Junto ao fogo semi-extinto. – Carijó que assim canta. dissimulando o tilintar das rosetas no cachorro das esporas. que morava mais chegado. viola ao peito. O outro..Mágoa de vaqueiro A Eduardo Tourinho Como os galos viessem amiudando e fora andasse a garoa fria de inverno que precede as primeiras horas do amanhecer. E partiu. misturou-se perdido aos zangarreios da sanfona. compadre. se despedia do festeiro – num salamaleque derreado onde havia ainda bifadas de cachaça e licor de jenipapo – que este deu pela ausência da filha.. num pressentimento. a lua ia a perder-se por detrás das serranias. chamou junto ao quarto da filha: – Ó Maria!. que ganhara a porteira e se afastava na cerração. escarranchado na pileca manca. as pálpebras inchadas. embarafustou pelo rancho. raspando-se no peitoril duma janela. no passo ronceiro da mula cambeta.. levado de novo pelo curso da borracheira: Lá na serra dos Angicos Quanta flor anda a brotar! Assim também são teus olhos Quando pões-me a namorar. agüentava firme no sapateio até pegar o sol com a mão!. o tio Ambrosino interrompera o curso de suas divagações e cachimbava distraído: – Homem.. que não hás de trazer. Ah. também. Despertado. a afilhada já dorme. Mas o frio apertava. gemia ainda àquela hora o tio Ambrosino. o Zeca Menino.

em desespero. mal da idade. Eram boiadeiros que lá passavam. ele que. e apenas o bichano. o sol já dardejando a prumo. Ah! não ter dez anos para menos. . como se nem pensar naquilo valesse mais a pena.. a recender acre. não virasse já os sessenta bem puxados. resoluto. e um sorvo longo de vida e contentamento errava derredor. foi à cozinha. Àquela hora. o Ambrosino. e nas abas dos montes e encruzilhadas. já transpunham a mata funda. e a tigelinha de café bem requentada.. nem vestígio. a olhar longe. cuja tranca cedeu sem dificuldade. À tarde. na estrada batida. no rosilho troncho. Da Mariazinha. dando o consentimento. muito longe. no catingueiro roxo dos serrotes. escalonado mais além pelas colinas aprumadas. para além das colinas longínquas e do céu anilado. tivesse o pulso a rijeza de outrora e partiria sem detença. Ele olhava apatetado. virado o rosto para a volta da estrada. ao esplendor crescente do dia. e o rosário das orações como sempre. Santa Maria. inutilmente. num pasmo mudo agora. Ele ficara mudo. a malvada! E com quem. só tinha aquele mimo na sua velhice desamparada e solitária de viúvo. brigão vezeiro nas redondezas. mui gordo e ronronento. vencida do sono. uns grandes olhos deslavados de espanto e ronronando ficara de novo a dormitar. ficava a duas léguas de distância! E arrepelava a grenha. Fugira. num despertar intenso de saudade. sem compreender. olhos apalermados. com tão pouco se contentava – vê-la sempre de sorriso à boca ao batente da porta. de cuja orla subia um nevoeiro luminoso. o sol já nado. se ele nunca se intrometera no namoro. O sertão abria-se naquela manhã de junho festivo. a sala. um perdido de pagodeiras e do truque. até satisfaria a vontade de ambos. a varar o céu azul com suas aguilhadas de ouro. só tinha por si essa estampa escorreita de mestiço madraço e preguiçoso! E por que. dependurado na cabeceira. tão absurda parecia a desgraça que se lhe abatera sobre o casebre.Mas um silêncio angustioso pairou após o brado do velho. indiferente à canícula. a varanda e sua própria divisão. no calor brando das cinzas. pronto a tirar a desforra merecida da afronta! Mas o corpo já não dava de si e ele bem sabia quão boa estradeira era a mula ruana em que haviam partido. e só então a dor expluiu. quando lá entrara para apanhar a bandeira do santo. mãos túrgidas engalfinhadas na barba intonsa. e ele. foi. A cama estava como na véspera a vira. abriu para ele da trempe do borralho onde se aboletara. o eco dum aboiado rolou pelo fundo da várzea. que o mormaço solar irisava. meteu ombros à porta. onde preás minúsculos e calangos esverdinhados retouçavam familiares. a olhar emudecido. Virgem Maria. porém. saiu. quando partisse pela manhã para as labutas do campo! Ele que. sujeito que além da garrucha e da besta de sela. bom Deus dos fracos. batuíras e xenxéns chalravam nas embaúbas digitadas dos grotões. sombreado aqui pelas restingas das matas. E num dasalento. amparou-se ao cupinzeiro que erguia o seu cone crivado à frente da palhoça. rumo do Paranaíba e talvez das terras mineiras do Triângulo. à beira dum atalho sempre deserto e cujo vizinho mais próximo. fronhas dos travesseiros intactas. na esperança de encontrá-la dobrada sobre o jirau de mantimentos. O velho Tonico percorreu todas as dependências daquele pobre rancho de vaqueiro. bem longe da sanha e da ojeriza impotente de seu amor paterno ludibriado. boca contorcida numa visagem estranha de mágoa. foi ao alpendre e até o chiqueiro e o fundo do quintal inquiriu ansiosa. numa crise de lágrimas e recriminações. na glória fecunda das ondulações verdes. sem vinco ou ruga duma cabeça que ali repousasse alguns instantes. quando lá fora talvez buscar a candeia de azeite e se deixara ficar. ondulando dolentemente de quebrada em quebrada. Ali permaneceu horas a fio. com o Zeca Menino certamente. Veio ao terreiro da frente. quando viesse das malhadas. emperolado da orvalhada. a colcha de chita bem esticada.

nos braços. mão no queixo. das notas derradeiras da canção nativa. e o olhar com que via.. estampando na retina empanada a visão pungente do sertão em festa.O vaqueiro velho não saiu então como de costume.. picar. na roupeta singela de algodão em que se enfatiotara. escorreito e desempenado. perneiras e guardapeito. desmedidamente aberto. olhando extático. demanda das terras distantes e das feiras ruidosas dos sertões mineiros d'alémParanaíba. a dar a mão de ajuda àqueles forasteiros que lá iam. era inexpressivo e desvidrado. no rosilho campeador. pela boca e orelhas. cortar e estraçalhar aquele estorvo molengo que se lhes abatera desde cedo por cima da casa. e a orelha à escuta. a cabeça bronzeada pendia mais flacidamente sobre o peito de vaqueano. ouvindo os ecos que lá iam do aboiado. Continuava recostado no cômoro dos cupins. magoadamente. agora. todo verde. ferrão em punho. a rolar. de quebrada em quebrada. Morrera. longe.. nas axilas. Ao pé.. ia cerce a faina das térmitas em rasgar. somente. 1914 .

e lá não fossem senão atraídos e tentados pelos olhos langorosos e quebrantadores da bela cabocla – arteira e artificiosa em seus gestos provocativos à sensualidade dos rapagões – e inflamados mais pela cor de mate sadia e forte de suas carnes roliças e de formas adengadas. barulhentos e ralhadores. apareciam de vez em vez. riscando curto o bicho. Por ali passavam tropas mineiras d´além-Paranaíba – rijos tocadores palmilhando as alpercatas de couro cru pela extensão ardente e arenosa das estradas poentas. para as divisas estaduanas do grande rio. nostálgico e lamuriento à distância. a fruteira-de-lobo e os coqueiros de macaúba. onde apenas. gente sã e escorreita. Muitas vezes. Por ali passavam. Era uma tropa que passava. ou malotes ajoujados de sola sertaneja. o moço arrieiro que pr'essas estradas batidas tenteava a existência fretando cargas. sobre o fundo verde-dourado da imensa malhada que eram aquelas paragens. afastava-se pressuroso do roteiro ordinário da comitiva. à luz estuante do sol. onde uma ou outra mosca caseira voejava sonolenta e trôpega por sobre os coscoros duros do balcão. apontava o primeiro lote na dobra do caminho. à moda gaúcha. quando. mal dobrassem o cotovelo brusco duma serrota de alourejada coma de capim-melado e moitas de murici cheiroso. a quebrar a uniformidade dos horizontes. as mais das vezes. em cujo cimo se firmava arfante e senhoril a loura boneca da guia. ao passo tardo e hierático dos bois patriarcais. E torcendo rédeas braças antes. à hora do crepúsculo. após haver trilhado as rechãs esturradas d'argila vermelha e sapé bravio dos chapadões. Cruzavam tropeiros da terra. corridas as chilenas. que se detinha por momentos a retouçar a babugem das margens – guizalhentas as cabeçadas – com carregamento de cristal de rocha. pelas queimadas fumarentas e asfixiantes de agosto. na várzea aberta dos buritis virentes que espanejavam. chocalhando a guizalhada dos peitorais e cincerros sonoros da cabeçada de prata reluzente. Em navegando pr'essas bandas. surrões preciosos do bom fumo goiano. medrava tenaz o catingueiro parasitário dos morrotes. que possuía a luxuriosa habitadora daquele recanto. incitando aos estalos ásperos dos relhos e piraís compridos de trança fina. ao longo dos carris profundos deixados à passagem pela roda ferrada dos pesados carros de bois. não a traziam eles já nos alforjes bem fornidos da garupeira. era certo os arrieiros desavisados virem dessedentar-se da agrura calcinadora do verão tropical ali aos Marinhos. ladeadas às vezes de barrancos escarpados e esfarinhentos de pedra-canga. vincadas. fugaces teias de sombra espalmadas sobre a crosta recozida do solo. assim como a nódoa minúscula e alvinitente duma rês branca. de peregrinações distantes. e as bombachas folgadas. a sua flavela esguia e revoluteante de folhas. Ganhava distância. como uma dessas cigarras cinzentas de areia chirriando suas desditas no tronco rugoso duma lixeira dos cerrados. chiava um carro vilarejo dos fundões remotos. na sua besta de sela de estimação. os arreios niquelados faiscando de mil maneiras. que inquietados da fama maligna de bruxedos e avezada a desnorteamentos de cristão.A bruxa dos Marinhos A João do Rio Ao lado da estrada real e à sombra espessa duma gameleira centenária em cujos esgalhos finos cantava em épocas de sazão a passarada. espancando o ar quieto e morno do interior. E não raro. como tênues. e. levantando áureas nuvens de areia sutil e detritos e fagulhas delgadas de malacacheta rebrilhante. e vivia a penar enredado nos embelecos traidores da comborgueira. Avultava ao longe. toda arqueada e gemebunda aos afagos do vento. e arquitetavam o ninho gentil os povis e tiês mimosos de papo fulvo e penugem azulejada das campinas. com um forte e sacudido: . desviava o dianteiro a madrinha que se aprumara rumo do copiar da casa. por cujas erosões. ficava a venda da bruxa dos Marinhos. metia a mula rosilha num garboso esquipado à marcha picada e vinha. Aos berros roucos e muxoxos cuspilhados dos lábios secos. o trote leve da burrada. à fresca das manhãs veranejas. com uma bochechada cheia da boa e rascante pinga da terra. esbarrar mesmo a dois passos da porta. de padrão azul listrado ou xadrez.

desaforados e impotentes. trazido à escoteira. a ver se apanhavam a raiz da cauda apinhada de larvas. pelo atrasamento da carga. Molecotes. a atenuar a crueza dos raios solares. dona. té que. onde duas tranças fartas. corridos às vergastas. onde signos de Salomão e marcas de gado se assinalavam a carvão e ferro em brasa. cuidados falsos com cousas que lhe não diziam o mínimo respeito – obrigação exclusiva dos camaradas – desajeitado. ferindo magoado as cordas gemebundas da viola. o que o punha preocupado. seios sublevados e as faces carnudas da sensual moradora daquele cochicholo da estrada real – desespero de quantos boiadeiros brônzeos e ricaços em trânsito nessas plagas. não ajeitavam bem e iam dando um trabalhão pelo caminho. e tivesse vergonha e acanhamento de mais uma vez render o seu preito submisso à cabocla. vencendo a fragilidade dos escrúpulos do cabra. orelhas tronchas em pé. mas – e voltava ao assunto primitivo – a rosilha não ia bem. para de novo arremeter. que se iam sertão em fora ruminando. sentida dos rins. titubeava o moço arrieiro. E retinindo nos cachorros de ferro batido os grossos rosetões. recostado no punho móvel da tipóia macia de algodão ou de imbé. crias da casa. entrava ele sala adentro. meneando a cabecita sestrosa. dizia persuasiva. onde se postavam rosário de horas farejando e ganindo ao léu. onde ficava a prosear. ventas ao ar – tresandando rabugem – ou a peluça crespa. investindo firmes e às alertas com os latidos ferozes. maneirosa e hospitaleira. do par d'esporas. enxotavam às pancadas rápidas e atiradas ao acaso a cainçalha assanhadiça. Ela insistia. quando. sempre à mão. perplexo na execução dum ato que se lhe afigurava de importância suma: – O sol assim parece que vai descambando. duas horas pelo menos.. E engrolava escusas néscias. convidando o forasteiro a apear-se ao amparo da soalhada: Que sim. para atalhar tropeços e incômodos de montar na necessidade lombo chucro de animal ruim ou passarinheiro. improvisadas ao acaso – algumas de imagens coloridas e nítidas – esses mesmos beiços polpudos. dissera-lhe o dianteiro ao topá-lo ali atrás. longas tereas de cipó ou embira na mão pronta. e embrulhava uma escusa tola. abertos os lábios úmidos e rubros num sorriso discreto e enigmático de acolhimento. rendilhados em crivo. ou entretido com a lábia e ademanes da dona dengosa e impudica. arrepiados e ameaçadores. acudiam dos paióis e alpendres onde modorravam suas mazelas e a preguiça meridiana. num derriço palerma. esquelética e reincidente. que ia mesmo braba nesses chapadões. luzidias. leprentos. cerrava um canto d'olho. assomava o rosto amorenado e redondo da benzilhona. chegavam ao limiar. dando tempo à própria incerteza. arrotando pabulagens de mestiço pernóstico e chupitando a miúdo goladas fartas dum pipote velho de aguardente.. no segundo e quinto lotes vários burros pisados no espinhaço. os dobros dos da frente. abancava-se a um dos tamboretes de tauxias amarelas e couro curtido de mateiro. Remoía desculpas o moço arrieiro. Desengonçado no arção da sela mineira.– Ó de casa! Ao tropel. com aquele mesmo sorriso que lhe fazia as tristezas nos pousos distantes. o pé esticado num único estribo. Ela sorria sempre. que um menino ia medindo e vendendo a meia pataca o quartilho. à espera do café costumeiro. tanto mais que o macho mascarado. à hora da descarga. – a mula rosilha vinha sentida dos rins. olhava no alto o céu sempre azulíneo e ofuscante de luz. . os rafeiros varados da vigilância. relembrava em quadras toscas. Confiança. enroscando-se. na posição habitual de descanso. o encarnado vivo do lábio inferior acentuando-se sob a alvura dos dentinhos espontados à faca. mão alçada. quizílias e secretas maldições contra as feitiçarias e quebrantos em que os traziam envotados o riso e olhar felinos da terrível ensalmadora. desacoitado do cocuruto o chapelão d'abas largas. tímido. que arisca e irrequieta se furtava para os lados. encafuavam todos pelo vão estreito das cercas de nó-de-porco e sucupira das tranqueiras. coberto o fio do lombo de quistos bichosos. aguara dos cascos na subida da serra do Corumbá. se bipartiam de meio a meio. como que arrependido já da íntima fraqueza. lá isso tinha na sua gente e sabia que tudo seria bem cuidado e remediado no pouso. Descerram-se os tampos da janela de batentes de cabiúna. mal divididos desde a saída do pouso. enrodilhando-se.

se via o freteiro abandonar pressuroso o roteiro batido para vir ali. transformando e aniquilando tipos. piava aguda. e à sombra da mesma centenária gameleira. a perdiz solitária das campinas.No copiar à banda ou sob a copa da gameleira. numa orquestra alada de vivos e azoinantes galreios. aos cochilos cabeceantes. começavam a sua terna elegia as jaós merencórias do sertão. sarapintada de azul. e estrada afora. quando nos tabuleiros elevados e descampos mal desabrochava ainda a humilde flor-de-maio das campinas. o passo acelerado e tilintante do derradeiro lote. o laranjal pejado. rumo sul e da primeira estação da estrada de ferro. matar pesares e saudades da ausência prolongada. da civilização. talvez nunca mais – saltava desembaraçado na rosilha desperta em sobressalto ao abrigo da gameleira. costumes e aspectos. aquém do quintal ensombrado. anotava lá embaixo. * * * Ali passei eu duma feita pelo arroxear suave de melancólica tarde de fins de verão. ia a toada argentina das cabeçadas das madrinhas da tropa. perturbada às vezes pelo zumbido tenuíssimo dos miruins do campo e ferretoadas agoniantes das pardacentas e achatadas mutucas sugadeiras. o arreame niquelado todo cintilante ao sol. cuja grimpa era de momento a momento assaltada por densas revoadas de guaxos e joões-congos de peito amarelo e acerado bico. apressurada de mais a mais pelo relho dos peões dos lotes a passar. que bem sabiam o patrão ali enrabichado. os últimos resíduos do açúcar em dissolução. nas várzeas tenras onde o jaraguá altaneiro campeava eternamente viçoso. légua além. instigado pelo culatreiro empoeirado e suarento. . em rumorosas manhãs de estio. ao guizalhar festivo das tropadas passantes. de palmeiras incipientes de indaiá abertas em leque à flor da terra. quando nas restingas de mato da beira dos córregos e capões. os limoeiros azedos. talvez um ano. presa duma suçuarana de nova espécie. que se punham a merendar álacres. ou cá no cotovelo da serrota. na branda e ligeira cadência da marcha. o olhar devassando pelos corredores o interior varrido e asseado da casa. Não mais porém. sedento. esfregadas a sabuco. demorando em espiras largas no ar. conversando com a roda nos assuntos do ofício. e. perfuradores dos frutos sumarentos. na marcha arrasadora do progresso. a janta desempoleirada do gancho da mariquita aberta sobre o brasido. semeados aqui. e partia direito. e longe. mastigava o freio pachorrenta e encilhada a mula estradeirona. afofadas e atalhadas as cangalhas pisadoras. então aos barrancos do Paranaíba. além. barrada a orla do rasteiro capim-gengibre. sem voltar a cabeça sequer. pesaroso. que findava num terreiro capinado e limpo. feita a descarga. conquistando. Despediase impulsivo da bela cabocla – a quem só veria meses depois. ao voejar imperceptível dos primeiros enxames de muriçocas e pernilongos saídos dos charcos de juncais e angola das baixadas alagadiças.. Ao pouso arribava à boquinha da noite.. de boas aguadas e encosto seguro para os animais solertes e avezados a sumiço. rumo dos arranchamentos. na estrada ampla e areenta. Às vezes. e o pouso longe. e galgar sertão adentro. nos dias festivos dessa transparência deslumbradora que é característico invariável do estio goiano. e enchendo e abalando de vibrações quérulas os ecos sucessivos das quebradas longínquas. a lançar alarmas estrídulos aos ecos despertados das quebradas remotas. e reavivando extintos pruridos de caça aos ouvidos tensos dos velhos perdigueiros – nédios e bocejadores ao calor do borralho – que acompanhassem a comitiva. recordava que era também tempo de se lhes ir juntar. curada e amilhada a tropa já no encosto costumeiro da aba do morro. pronta a transpor esse natural obstáculo das divisas estaduanas. onde já folgariam os tocadores passados. em festões engrinaldados. Ele reparava enublado tudo aquilo. lamentando-se da ausência da companheira predileta. onde pendiam. nos descampados limpos. naquele mesmo esquipado à marcha picada da chegada. duma coloração pôr-de-sol verde-negro sombria. raspada. topava ele ali gente de fora e a companhia de forasteiros que se deixava a bebericar era animada. Ficava então horas a fio alheado. a sumir na estiva do rego além. deixava-se esquecido a sacolejar no fundo da tigelinha de café aromático. A vivenda lá continuava ao sopé da estrada. a desaparecer no cotovelo verdejante da serrota.

– E a bruxa? – disse alcançando-o. vegetavam as beldroegas tímidas. e como provasse uma fruta temporã que um galho peco oferecia. lábios finos e olhos profundamente rasgados de índio – que tão inquieto e impaciente se mostrava à aproximação da noite com a nossa demora ali. Benzeu-se.. Ao condutor – um tipo robusto e acaboclado de nortense. decerto..Escalavradas eram as paredes do emboço alvacento. esteve algum tempo considerando. indaguei. como o interior bolorento daquele mesmo casebre. assoberbava o assa-peixe tristonho. àquela hora do anoitecer. como alastrações de lepra. sobrepunha-se em camada fina. a mostrar. meio oculto em macegas de são-caetano. como que avaliando se estava a zombar. Entretanto. Ele – viagem andante viera narrando a íntima satisfação e gozo violento de que se sentia noutras eras invadido em se aproximando dessas bandas – olhou-me em silêncio d'alto a baixo. mirravam as laranjeiras sob as ervas daninhas. dous cabras da terra. como lagartas esverdinhadas. a trote rápido. como carrapicho. sim. amarga quase. tranqueiras e currais desmantelados.. Um limo viscoso e esverdeado. sob o matagal. Para o fundo. fez depois uma visagem supersticiosa de esconjuro. o capinzal de raiz e gramíneas próprias dos taperões há muito deixados. a olhar estarrecido. saíam emaranhamentos compridos de touças de cabaceira e buchas-de-paulista. havia algo de anormal e trágico. . batida a cumeeira de telha-vã dos últimos clarões crepusculares. espreitando agoureiro. misto vago de íntimo terror e inexplicável aperto. rastejava a praga da tiririca miúda. emergindo dependurados. atravancados de imundícies e monturos. – Ah. coleiros e patativas apanhadas a petiscar pelos pedúnculos cacheados e floridos. tão vazios. encontraram-se e acabaram a botes de faca. patrão. embaixo. nas chuvadas de invernia. no desvio. pela passagem das últimas boiadas. que as enxurradas tinham aluído. – Aqui. no rodapé d'oca barrosa. levou-a o cuca num pé-de-vento. agitadas as franças cá e lá pela arribada atônita duma aluvião de pintassilgos. a bruxa. ambos desempenados e amigos. rente ao chão. e o índice afuzilado – cor de tisne – designou um marco carunchento. se detivessem a contemplar. curioso do descaso e feição lutulenta daqueles ermos. como eu. Um acauã grazinou mato adentro. o fedegoso bravo. achei-a azeda. como uma enorme maldição. donde. Pelas fendas do lajedo. no quintalejo maltratado e sujo. os provisórios de caroços espinhentos. escorrimentos profundos nos adobes esborcinados. como brincos colossais. aos quais desnortearam as mandingas da bruxa: filhos do mesmo pai. No céu.. na linha do oitão. Ao lado. Essa.... e ferrando esporas. pela sexta-feira do quarto minguante. os seus frutos balofos e aquosos – estralejando com estrépito sob os pés as cabaças que a estação sazonara – tão ocos. – Uma cruz. como uma punição. à canela do desastrado animal aventurado na vereda. filhos da mesma mãe. lacrimejava já a estrela boieira.. Cercas e paióis. a apegar-se. gotejado pelo estilicídio dos beirais desconjuntos e a cair. lodosos e amolecidos.. a desmanchar-se. Quedou-se mão no queixo. à hora da meia-noite. como serpes. o estranho aspecto da tapera. afastou-se cabisbaixo.. a gerar arrepios de pavor aos que. no verde perene de que se revestira o sítio. as malícias garranchentas e irredutíveis. a desfazer-se em ruínas. incrédulo da presumida ignorância.

Gralhas e acauãs guinchavam na galharada esguia dos cerradões. onde Vítor e os primos tripudiavam contentes.. o Manuel ou o Raimundo do agregado. que se incumbiam da longa fieira de peixes quando de retorno. no emaranhado dos travessões de mato que aí cobrem habitualmente o curso das ribeiras.. sobre o arvoredo denso de ao pé dos córregos. iscava o anzol. ouvia-se o rechinar lamuriento da gangorra no terreiro à frente. quando caga-fogos e vaga-lumes luzeluziam nas baixadas. descambando além na Barra – preás levípedes. galgando a outra banda – com a chuvarada que descera brusca para de novo abrir-se o céu. mãos e rosto arranhados pelo cipoal. Havia o trilo metálico das cigarras ao mormaço. embalsamavam o chapadão. os bagres e lobós que lhe seriam como prêmio adjudicados. tapera antiga que. quase sempre acompanhado dum moleque.. e.. dos batuques e muxirões da roça. quando o murici e a corriola. impunha silêncio inviolável ao moleque. Olha.. peito descoberto e em mangas de camisa quase sempre – tal o nosso Casimiro de Abreu dos Meus oito anos. De longe. não te esqueças de dar algumas tarrafadas ao poço do Periquito. Apressava o passo. e eis-me todo entregue às emoções variadíssimas da pescaria. e aí. ora aquela dolente melopéia do Baleador. tomava pelo trilho inculto que levava à pedreira favorável. pelos meses calorentos de dezembro a março. fazia os dois quilômetros que nos separavam do poço onde dormiam. como todas as taperas. Bateu bala na porteira. amadurecidos. no remanso das águas.. descalço às vezes. farnel d'iscas a tiracolo.. e de que restavam apenas os moirões d'aroeira. às vezes só. ao sol glorioso. eu um tanto fatigado da caminhada. de fundo aliás bem sujo e garranchento. metia-me pelo atravancado dos gravatás. Era pelas férias. sopesando a grossa cambada e nela discriminando já. tão simples e evocadora: Ê! baladô!. e aí talhado por mim a última vez que lá estive.. a tua espingarda ou outra qualquer ao ombro. a gargantear velhos motivos da terra. ao do Mané Fulô. No Manuel Flor. mas pronto a recomeçar no dia seguinte. chupando às vezes o dedo dolorido duma ferroada de jurupensém.. o Raimundo atrás. goiabeiras silvestres. A porteira não quebrou!. em coleios flexuosos. – a cantar velhas trovas nativas pelas estradas. diziam mal-assombrada. . ao assomar a lua no quadrante turquesa e ouro. no catingueiro recendente. uma caninana inofensiva e modorrenta passava entre os cipoais. diáfano e azulíneo. taquaral estralejante e o sarandi da beira do rio. vê se ainda se encontra legivelmente o meu nome num tronco novo de jenipapeiro que fica junto à casa do teu agregado (se é que ainda o manténs). o olho reluzente e globoso de roedor espreitando em torno. farfalhando as folhas secas derredor. como diziam os caipiras. saltando córregos. atravessavam aos pinchos a um tempo grotescos e graciosos a rampa d'argila vermelha. os cardumes de avoadeiras e jeripocas sob as coivaras. Assim alegremente.. Voltávamos ao sítio pelo anoitecer. com olho de dono. próximo a umas goiabeiras. entranhando-se do outro lado. Passava a correr. em tardes luminosas de que já não tenho notícias. onde ia todas as tardes. saíam assustadiços das moitas da beirada.. ora esse dengoso Compadre Chegadinho. os mais pequenos receosos e assustados dum trambolhão a um pinote ou volteio mais rápido. carcomidos e negros. junto dum chiqueiro abandonado sob cujas taquaras apodrentadas adensavam os mandis-chorões. baixotes e barrigudinhos. a comprida cana de pesca sobraçada.Nostalgias. desenrolava a linha. e também.. (Trecho de carta) Já que vais brevemente à chapada. Ê! baladô!. Não raro...

alumiada ao centro. e de cujo fundo das águas saíam. em bruacas de couro cru. Não perdera um tiro.. Penacho!. em travessas e pratos estanhados. aqui na mata. mordendo impassível o cartucho. sugestiva e boa.. como cabo ordenança e vaqueiro particular do capitão José Manuel. Mosquitinhos azoinantes e zumbidores enxameavam ao longo das tranqueiras. ajuntaram feixes enormes. De sua parte. tempos de moço. sobre a lombeira sarnosa da cachorrada. treze primaveras apenas! Não raro. Na mesa tosca. descia nos escampos solitários. merencória tristeza da tarde. baforando. a cabeça nevando ao luar como capucho d'algodoeiro. à primitiva moda e ao apetite das velhas colônias. A caboclada tingira-se de preto. os que gostassem do condimento rústico.. e a voz pigarrosa do caipira.. vagamente. – Era pelo meio da noite. O rancho ficara que nem porco-espim: crivado d'alto a baixo de frechas e tantas que. que se espevitava de vez em vez. Surgiam o angu de caruru nos tigelões pintalgados. nosso tio-avô! Vinham logo narrações da vida à beira do grande rio. fuzilando-a à queima-roupa e dando assim tempo à guarnição de tocar a rebate e acudir em defesa às muralhas. ali nos furados de jaraguá. – Ah! tempos que passaram.. acendia um cigarrão.. de lado a lado rememorando a história pungentíssima de seu mútuo apartamento. como ele. Eram sempre histórias antigas. A paz do sertão. o ataque do fortim de Santa Maria. sonhando com essa região longínqua de canguçus e caboclos desnudos. onde a pintada vinha uivar em cio à noite. Crioulo!. ao tempo que se contava ainda na fieira dos anos onze. aquele que nos surpreendia pela volta das nove. encapotava-se banzento ao batente.. cargueiros passavam ajoujados e resfolegantes sob a carga de mantimentos. em estação propícia. as tracajás à desova pelas praias d'arribação. subitâneas e estrídulas as outras.. e. fizera frente a toda uma tribo encarniçada de guerreiros. mais felizes. e bebido em suas paragens a selvática poesia dos sertões brasílios. na estrada da Barra. tinham visto ou descrito o Araguaia. a grande. batendo fogo. – Tempos brabos – comentava. que passava ao fundo. Cercávamo-lo todos. Ao lado. Berravam nos cercados os bezerros. proezas de caça e pesca. Anoitecia.. que. agoniada do luar. assoprando o chumaço da binga. teu pai. que depois serviram para manter o fogo da cozinha semanas a fio. areias infindáveis alvejando à distância. das passadas eras do Império e presídios do Araguaia. andando os soldados a apanhá-las nos arredores. moduladas e dolentes as primeiras.. ao outro dia. Que rica bóia e depois que rico sono. a bruscos estremeções do pêlo arrepiado. Ficávamos a escutar. gania relambendo-se entre palhas. ao feitio de compridas bolsas. o garrafão de caninha e o frasco de malagueta para os mais velhos.. nas perebas dos moleques. a feijoada.. Isso servia de pontaria. balouçavam prenhes. ajoelhado à soleira do rancho. rumo da cidade e do mercado. rebrilhando à luz entre olhos de gordura. Distante. punha-se a devanear. onde ninhos caprichosos. combates e matanças dos índios canoeiros. E a mente exaltava-se. pela candeia de três bicos. uma larga faixa branca pintada na testa.. Escutava-se o relho a estalar ao longe. só ele matara oito. a velha espingarda reiúna e respectiva munição ao lado. por conta e risco.Caía sobre o Vermelho. frutos de leituras precoces duns e outros que. E mais além. Piavam guaxos e joões-congos nas grimpas dos jenipapeiros. a incitar aos muxoxos a mulada: – Ehú! Ehú! Ehú!. Empanturravam-se como pagãos que éramos. jaós e perdizes correspondiam-se. caiapós e xavantes. o caseiro do sítio. doze. grandes e pequenos... no borralho. repassando contos e lendas. forte e desempenado em sua robustez de oitenta anos – o braço mais rijo e feroz dos eitos da roça três léguas derredor – vinha para a soleira da porta. um luar tão claro como dia. . o ensopado de peixe.. fumegava a janta sobre a toalha alvacenta d'algodão. farto. ao canto da sala.

. ó tapuio!. . a danada! Ia para o fundo do quintal. que já o esperava também do lado de fora. que se lhe fizera engraçado com a mulher.. como guariba assustada. de como faltaram então todos os recursos e mantimentos naqueles fundões. – Bicho duro. cara amarrada. o chapelão para trás. ouviu. Dera com aquele diabo ao sair do cerrado. entre touças de caranã. – Desce do pau. todo fumegante. que dormes hoje. – Pum! pum! Botava um. ele torceu e deixou-o passar. que Deus tenha em sua santa guarda. O cabra chegou como quem vinha mesmo decidido a armar sarseiro. uma dose forte de cachaça nos bofes.. Brequeti não faz mal.... saltou por cima do balcão.. e era essa a canja que. Como ele. mas esperava-o dessa vez na ponta do ferro. que nem atacado de maleitas. Os índios. a dizer com perrenguice: “Aí tori. (cristão. o teu sono de paz numa cova rasa do cemitério da Barra. como a colerina alastrara súbito no presídio.” E tremia. junto ao filho do Anhangüera. topo aquele estorvo.. – Mas mataste-o à toa. na cara – vão quarenta e cinco anos – o sangue do Minguinhos salpicando-o d'alto a baixo. acrescentava depois como derrubara doutra vez. quebrando talas. senão deixava algum sinal. Tori valente!. mão em pala. faca a prumo.. a coronha da lazarina sobre o serigote dos arreios. Só a ele poupara. ajuntou o famanaz pelos peitos. E anotava: – Qual! Carajás. mas batera três dias seguidos as redondezas. o desbravador de meus pagos!) Relatava agora. piscando os olhinhos de cobra assanhada. assuntando. ante um desaforo mais grosso... entre os bamburrais.. como que ainda sentia pelas mãos. abaixo. O Domingos foi de roldão bater na quina dum frade. uma pontada direita ao coração. no bucho. entre costelas. – Ah. a comprida faca do corte – reluzente e ensebada do serviço – na mão firme. onde andava a campear umas reses do capitão José Manuel. vote! Parecia até o capeta em figura de ave. novamente ele furtou o corpo. ele aparou e deu-lhe resposta bem segura. berrando alto.. Eu atravessara o meu pampa campeador no meio do caminho. e só muito faminta atacava cria taluda. e voltou de lá cego. duma feita. entre sério e jocoso. aí tori. todo acobardado e trêmulo ao vê-lo... a bem dizer. seu tio-avô. onde o cabra veio espetar-se. sobre o adversário.. o paude-fogo aperrado. O crioulo marrou-lhe. como brasa! Animado pelo calor da narrativa. Tucanos.... Depois. era como duma feita sangrara um cabra intrometidiço. cristão). numa tarde mui límpida e calorenta d'agosto. marca das patas. atirando-o com violência ao meio da rua. E explicava: O anspeçada fora procurá-lo no açougue da vila – estavam então em Santa Leopoldina – onde ele acabara de abater uma rês gorda. Vai senão.(Ai. quando o provocador transpunha já o limiar. assuntando. (nome lá da língua deles)... mata Bremeri.... arrotando pacholices e valentias.. talvez. o tucano! Pernoitava dias inteiros no fogo e nada de dar caldo que prestasse. procurando aberta... só papagaio. aos borbotões. grazinavam saltitantes nas embaúbas. três. como quem não entendia. aí tori. um velho carajá que topara acocorado no alto duma árvore.. bruscamente.. afrontando do último recruta ao comandante.. aí ele não faz mal. preso ao queixo pela barbela de sola. mata ele. por ordem de seu capitão. entre florinhas agrestes.. Ele ouviu. batendo os dentes. todo encruado em minhas perneiras e guarda-peito de mateiro. Casimiro? – Ora. o velho coroca arregalava-me o olho do alto do pau. nação fraca. botava dois. frechou-lhe em cima o anspeçada. servia ao pé do leito aos patrões devorados de febre. assim que nele botei a vista. mas num repente. o sangue esguichando com fartura para os lados.. gesticulando atrevido.. meu pobre herói obscuro. De novo. – Aí tori. Aí tori valente!.. Tinha achado rastros frescos num brejal. ora.. com milho pilado. o facão à mostra. quando vinha do campeio. não topando vivalma. cria da fazenda. num bote curto. O camarada riscara a parnaíba com vontade.. resto de carniça. Daí a presunção em que vinha: pintada não fora. qualquer cousa.

. olhou-me em silêncio. sinto que o meu íntimo permaneceu o mesmo doutrora. Mortes. tanta gente ruim anda pelo mundo!. Pela manhã a Merência. e sabia que o cafuzo que ali estava.. o perereca batia a queixada como caititu acuado e eu – diacho de velho pra viver!. dispersa pelas enxurradas e animais bravios..– Ora. Longe. – quando o pampa dera já algumas passadas. e despejei-lhe nas costelas a carga da reiúna. discutia eu no meu íntimo. ora. Rio.. Ora. rezingando. nunca passara da cartilha de mão. assediado a cada momento por vivos e contrários embates de interesses e paixões mesquinhas. mete-te com tua vida. insensível e sereno a todas as agressões brutais deste meio material e grosseiro que o cinge e aperta num supremo e frenético esforço de conquista e erguendo. papuda e avara. o espetáculo grandioso da civilização desenrolando-se ao pé pelo buzinar álacre dos autos nas avenidas e pedalar intermitente de tranvias. Casimiro! Credo! Olha o purgatório! – Mulher. à gandaia da natureza. Sim. tenho treze nas costas. nesta luta insana pela existência que é o viver cotidiano das grandes cidades. Entanto.. de passagem. – E remorsos. vote! Aqui interrompia a segunda mulher do caseiro – que a primeira há muitos anos morrera – toda lastimosa. relembro a paisagem adusta de nossa velha terra. cuja cabeça nevava ainda mais o luar.. enquanto que a ossada se espalhava em torno. Terras bárbaras. a boca murcha espichando num bocejo cínico. a bem dizer bicho do mato!. que nessa época já começava a tirar lições práticas do mundo. a costa acorcovada. a grande escada de fogo por onde se guindará a outras paragens mais amigas. anos depois. em meio o seu abandono e em meio a sua tristeza. e não me arrependo. a papeira mazomba.. onde minha infância decorreu como todas. os vencidos. onde os três sangues da raça se caldeavam apaziguados. ia ao curral ordenhar a sua parelha magricela de vaquinhas barrosas. à espera dum futuro que não chega e sabendo quão amarga sói às vezes ser a solidão para os que meditam e sonham e quão duro é viver distante das cousas que nos foram familiares. nunca os teve? – indago. tão depressa. sem contemplações e sem piedade para com os mais fracos. a par de feras e perigos. onde sobressaía desenhada toda aquela vida primitiva no seio bruto do deserto. deixa os outros sossegados. a grande mestra da vida. tão descuidosa. fora ver o local: a caveira reluzia ao sol e ria macabramente no aceiro da selva. numa terra inóspita para os pequenos e humildes.. e confesso – não raro uma lágrima furtiva ressuma em minhas faces escaldadas. lérias. a nostalgia do sertão!. um travo de zanga na voz: – Pois tu não tens vergonha de contar cousas dessas. e vivera assim desde rapazote. Quando fora da estopada do Minguinhos. cristão como ele e companheiro de tarimba.. ora. nesta trapeira velha onde noite alta zune a ventania e vem visitar-me alcatéias de ratazanas.. Depois riu.. filhas do meu Sonho e da minha Saudade.. mal virava. – Que bufo. Vale. mal contado. tão só. como se não compreendera.. Também. não tivera. O velho. Amigo: não val descrever a vida que aí levamos e da qual fruis ainda os doces encantos. à veia estudantal. – Leréia. mulher.. 1915 ... Talvez nunca. mais não fora. como óbulo votivo ao torrão onde vi a luz. ai. cujo leite nos vendia sovinamente a tostão o guampo. torci-me no arção da cutuca. Mas basta de sentimentalismo! Revê-la-ei? Não sei..... crivávamos-lhe de epítetos e epigramas. gente forte! * * * – Ai. quanto mais daquele velho coroca. o busto ainda alto e espigado. às voltas com os meus tédios e minhas pequenas manias de rabiscador anônimo.

quando anoitece. naquela encruzilhada de Santa Leopoldina – Vargem Alegre.. assinalar um por um os lugares onde tinham sido abatidas as perdizes. mui frígido e translúcido. abria a porta. em demanda das margens do Araguaia. mas não vinham.. mas não o viu voltar naquela tarde. a ver se aparecera o Belém. o Guilherme. pelas penas deixadas. Amarrara a besta num retiro. os do Belém seguiam. Lá embaixo da mesa. seguia passo a passo todas as marchas e contramarchas que fizera na véspera o Guilherme. além. não o acompanhava. matando pelo caminho quantas perdizes o cão levantava. A noite toda o Vicente não dormiu. vou experimentar o cachorro aí pelos lados do Lambedor. cortava pelos atalhos. E a comadre desandando: – Vai mesmo. gemebundos ou arfantes. só assim terei uma perna de galinha para ir debicando com farofa. Tomava de novo o roteiro. Não lhe bastavam as indicações que trazia. Àquela hora. e ainda mora. ou vindos de Santa Rita com destino à capital. Criação no terreiro 'stá de gogo que é um castigo. você botou fora o meu cachorro. Sertanejo. rastros da montaria iam e vinham. prendeu lá o cachorro e foi armar a sua espera de veado no caminho da Barra. escaldada e faiscante. já declinava o sol para o lado da Barra. ali pela volta das onze. Apenas o luar. descuidando perto do Mosquito em escolher um pequizeiro onde armar a sua rede. Ao amiudar dos galos não se conteve. já o Belém. à distância indefinida. – Espera que ele há de aparecer. Pode mesmo. chega o Guilherme. num horizonte aberto. já que tanto gaba o Belém. foi ao curral. Volta e meia levantava. bicho de faro como aquele não toma sumiço assim. De caminho. sem tomar fôlego: – Não imagina como ando enfarada estes dias! Já me estava dando no goto o quitute. Pela estrada arenosa. ali. levantada e descambando a lua. chegava ao terreiro. mui ao longe. compadre. . se o animal fora por ali esbarrar. compadre. – Pois aqui não voltou. rendilhados pelo azul nostálgico dos contrafortes da serra Dourada. Como bem diz o nome. e disse ao Vicente: – Compadre. O Vicente viu-o desaparecer em direção à tapera do Antônio. Fora até a chapada. O compadre Guilherme viera da cidade caçar naquelas bandas. estou ainda à percura. E logo. o Belém metera-se pelo mato. mal apanhou a caçadeira. e batia-lhe às perneiras com a cauda jovial.. tirando a nesga de terras lavradias ao pé do Mosquito – campos e várzeas. O Vicente Peludo morava. supondo que o perdigueiro tivesse tomado o rumo de casa. encabrestou o redomão que ali estava para acabar de amansar. e varreu com a cauda a poeira do massapé. pousando sobre um tamborete o pires por onde sorvera o café. a um silvo amigável. ia rebrilhando indefinidamente pelos campos. raras.. a indagar em duas ou três choças. e ia torando para a cidade. explicou à mulher. enquanto não chega a boquinha da noite para ir escolher a minha espera. Como tivesse o animal aparelhado no telheiro. compadre. o Vicente não tem tempo para caçadas. trepou para a espera. o Belém fitava orelhas. De fato. não mais aparecendo. – Êh! – E assoviou arremedando a perdiz. arreou-o e meteu-se pelo trilho da chapada. deu um giro pela varanda. Com certeza ficou na chapada. Trazia à garupa uma enfiada de perdizes. ao largo. que lá havia ao fundo das restingas. porém. E como o luar estivesse claro como o dia. onde dormitava. Desistira de procurar aquém do Mosquito: no tijuco fresco da rampa. dispensou a hospedagem. na volta. dera duas corridas pelo terreiro. o cachorro. o vaivém contínuo de carros e cargueiros. – Pois perdigueiro como este.Caçando perdizes Volta e meia. Ia seguindo o roteiro que fizera na véspera o compadre.

engalanadas para a glória do mês mariano. Na manhã luminosa. foi à casa do defunto Amâncio. atrás do Belém! Descorçoado. E a pele dessa sucuri. engatilhava a central e dois formidáveis tiraços abalavam aquelas solidões. tão fértil delas! Deu volta à estrada. quebrando a monotonia dos grilos nas touceiras de jaraguá. Mas logo. todo inteiro. contando quarenta e oito palmos. Deu uma volta de quarto de légua.. Mediu-a de ponta a ponta. Meteulhe o facão. esse ribeirão tão farto de piaus e curumatãs. Era a maior que topava junto àquele rio. assim julgou à primeira vista. . Pelo menos.Cruzou em todos os sentidos o Lambedor. estrídulos. jazia o cão. abriu de extremo a extremo a barriga: dentro. as aleluias e florinhas-de-maio iam pontilhando de ametista e prata o verde ridente da várzea. um tranco do animal que ainda não perdera as suas tretas de redomão – por pouco o botava fora da sela. pesadamente. outro morador naquelas redondezas. O Vicente apeou e chegou-se à sucuri. – Não – por ali não tinha aparecido o cachorro. torou para casa. Pios súbitos. Então. aquietando depois. na descida do Mosquito. nem mais nem menos. Mexeu-se o madeiro. O sol aquentava já. Invadia-o a pouco e pouco uma ponta de desânimo. Um grande nó no ventre desde logo lhe atraíra o olhar.. ainda há três meses viva lá no meu sertão adusto. seriam onze horas da manhã e ele ali em jejum. tenho-a presente agora sob os olhos. tomou o rumo de casa. tornou ao lugar. explodiam às vezes. dando volta aos quatro ângulos do meu quarto de estudante. Depois do almoço. – Era um toro de madeira atravessado no caminho. enrodilhado e gosmento. como se descuidasse a enrolar uma palha de cigarro.

à direita. a fuga ali da que. Algumas lá pelo mato se deixavam ficar semanas a fio. cousas e entes amodorrando. podiam-se contar às dúzias. o estoufraquear das cocás. ou eriçadas e chocas faziam de quando em vez rápidas escapadas em que vinham passear pelo pátio a sua turra de enfastiadas. até às agourentas pescoço-pelado. louras como gema d'ovo. sem método de seleção. na praia. no mangueiro. as que dentro do quintal escarafunchavam a raiz das laranjeiras transpondo céleres as cercas num surto em arco. depois – mais além – no cerrado. corridas aqui sobre esta manga meio roída de periquitos que despencara. quando não era disputada a fruta pelos bácoros soltos. certo. se fora num cacarejamento de triunfo. seriam aquelas umas férias mui pouco invejáveis de passar para gente dorminhoca. à esquerda. uma quietude monástica. bufando e farejando. ciosos e espancadores. apartados. E a antiga casa sertaneja. desentranhando gorda minhoca. bater d'asas. para o outro. no cicio acalentante das cigarras. escutando-lhe a queda balofa sobre o solo. cada qual apostado em exceder o vizinho em gula e solércia. o pedinchar de quem ainda atende e a sua dispersão final – a custo resolvida – pelo cerrado dos arredores. Cachimbando. que a caseira surgia no limiar. apareciam de novo. erigida a sopapos. em que o sol tudo amolentava e aquecia naquele seu mormaço de dezembro. se não fizesse a roça a todos madrugadores. e tal o ruído que. de grãos saltitados. dias longos amoitadas. era puxando fieiras intermináveis de pintainhos. na bafagem do rio. Certo que não abundavam as raridades. sobressaindo desde a boa nanica chocadeira. Dês. Lá embaixo. ou o gluglu dos patos vorazes acudindo da represa. andavam elas desde o dealbar ciscando e esgravatando. arrepiadas. vinha mata abaixo. como um velho tiú dormido à beira da estrada. E eram punhadas sábias para um lado. a eterna ofuscação de mil chispas de faúlhas. se lhe fluía da beiçada murcha – não se poderia ao certo dizer do alvoroço havido naquele pequeno mundo. mais depressa subvertendo-se naquela multidão de mendigos. manducar naquela ceia que de momento a momento lhes mandava a aragem. Tudo. . Então. as correrias que do amplo perímetro do pátio convergiam como varetas dum leque ou raios de semicírculo ao centro magnético. ou a enfartar-se de jenipapos esborrachados pelo chão. um palmo de morim da de baixo. encardido e sujo. ficava assim. achegando à peitada bamba duas pontas de saia. batiam roupa as lavadeiras do sítio. era um cacarejar alerta e impaciente à hora matinal. E quando.Alma das aves Havia na fazenda uma regular criação de galinhas. mui vasto. se se não acostumara antes o ouvido ao mugir do gado desde as três da manhã. Viam-se algumas representantes da brama e cochinchina. porém. e depois. colando às canelas luzidias de qüinquagenária – e um psiu asmático. carijós. o cuidado da mulher em ter uns dos outros afastados os galos de rinha. e mesmo. tufada a paparia fulva. E aos bufos da leitoada. grunhidores que mesmo alta noite. cambiando os seus fogos num ondular crepitante de mica e saibro descaldado. Mas legítimas. enchendo capoeiras que ia levar ao mercado da cidade. onde cores e característicos se baralhavam na mais inextrincável promiscuidade. rápido estrelando o solo com o seu brilho alegre de ouro novo. garnisés. de aculeado esporão. a degluti-la noutro canto. entrecruzando-se com a raça corriqueira da terra – abundantíssima. No terreiro argiloso e duro. vacas e bezerros pastavam. e por fim onde acabava o mato sujo e começavam os morrotes embalsamados de mangabeira e murici. porém. onde daí a meses faria mão baixa o caseiro. Já de há muito desleitadas. dentre o verde ramalhudo dos cercados de pinhão e fruteiras do quintalejo. perseguida das demais. saíam de suas camas de palha e cisco ao pé das cercas e vinham. pelo dia andante. o açodamento cômico das retardatárias emergindo de touças que pareciam antes desertas. descendentes daquela que tanto pavor causara ao índio de Vaz Caminha. aliás de mui excelentes qualidades poedeiras. de forma e feitio de penas arrevesado e raro. que se entranhava a princípio num vassoural rasteiro.

e as heróicas e reiteradas arremetidas com que procurava. para a encenação costumeira do anoitecer. Voltamos depressa à ave. medimo-la com cuidado. De novo. de batráquio em fúria. insistente. em sua estranha singeleza! No aceiro. não arrancasse uma estaca. E o silêncio que em torno se fazia foi de súbito cortado. a cada novo assomo. Novamente sibilava a cobra. após um dia cheio de caçadas e pescaria. o peito incidente e agudo. O caseiro. – Algum gavião? – indagou a mulher. ali teimando em permanecer. Lanhosa e escamada. parado e límpido. mordia-a desapiedado. pelas bandas do ocaso. nenhum indício d'asas do plumátil rapace assinalava que levasse em roda alarma à criação. Para lá nos fomos todos curiosos. acolchoando sobre os cerros. o papo pelado já. voltava à riça o animal. além de que o céu. gotejando pelos sucessivos arremessos. fora a cauda. que ainda assim permaneceríamos. o cacarejo no vassouredo. lentas. que no momento examinava os sacos duma nossa rede. Mais terrível porém era o aspecto ouriçado duma galinha da terra. Numa de suas breves sortidas à cata de que entreter uma fome de semanas. tomávamos a fresca à soleira. achando-se seis palmos e tanto de comprimento. Deitada sobre o ninho. espetáculo extraordinário e grandioso aquele. a olhar perplexos. Arrastada para o terreiro. cujo crótalo dizia oito anos de idade. em vão. Não havia ali por perto ninhada fresca de pintainhos. mais negra que o carvão. nuns pulos bruscos. ferindo-o. pelo grito dum volátil numa das touceiras em frente à estrada. enquanto lhe esmagávamos a cabeça. se o caseiro. olhou-nos com inteligência. da mortal peçonha. pondo termo à luta desigual. volveu o ouvido experimentado. Este. uma ninhada d'ovos em véspera de abrir. bizarros. dum modo estranho e grotesco.* * * Ora. a ver em que dava a singular briga. Ficamos ali parados. ficou-se ela por ali a enrodilhar. as asas. acossava de perto o reptil aos esporeios e bicadas. topara de retorno com aquela intrusa sobre a sua postura tépida. abertas as tarrafas a enxugar no terreiro. uma tarde. armada para o bote. dormia já. enxotá-la. E o nosso pasmo era tal. sondando depois os ares cuidadosamente. injetando-lhe o pescoço. e longe. malgrado o alarde com que nos atraíra a nós. bulcões de nuvens ocorriam. abatendo a cascavel em duas certeiras pauladas. uma cascavel batia enfurecida o chocalho. fez-se logo ouvir. arremetendo corajosamente de unhas e bicos. A ave. Entanto. . Sobre ela. chocalhando incessantemente. Minúscula tragédia. Mas não. onde as matrinchãs tinham feito esse dia largo rombo.

calculei. tanto que meteu num trote bruto de pôr tripas pela boca afora do peão mais desabusado. sacolejando a rede. a correr duro. “– Eu lhes amostrarei. cabisbaixos e macambúzios. e. não tinha por onde atalhar. tanto como o meu punga. sob aquele céu frio e austral de maio. vi perfeitamente: eram dois negros acurvados. ganhando distância. envolta em brumas. a desaparecer no sombreado espesso das árvores. canalhas. apesar de cansado. que levavam ao ombro uma rede de defunto. resguardando o carregamento. Assim na sombra. num andar ora lento. lá do céu triste e carregado. onde cincerros de tropa badalavam intermitentes. amontoava-se em forma de toca ao pé da árvore. não havia luar. mas o animal. isso. isso é ainda efeito da beijoca que dei ali atrás ao frasco de cachaça. Histórias deslembradas do sertão.À beira do pouso A Mário de Alencar Contavam casos. o caminho muito estreito e solapado não tinha desvio. Noutro claro. O silêncio – pesado – restabelecera-se debaixo da impressão sinistra daquela narrativa. desde aquela estopada onde o Policarpo viu que um jacaré não sai à toa da bainha e que eu. seus bêbados. a modo de trouxa. vergados sob o varão. no seio aspérrimo das solidões goianas. que aquela lua acinzentada e friorenta de inverno. não guardo desfeita para depois. mas tenho uma ojeriza dos diabos a tudo que me cheira defunto. – Os carregadores nem pio. antes continuaram. estiolava-se ressequida a vegetação tenra e rasteira dos campos goianos. aprofundando-se. Marchava apressado. arremedando. ouvidos atentos ao narrador. a petiscar baforadas grossas dos cigarrões de palha. Os pretos excomungados. eivados de superstições e terrores. Manhãzinha. ouço passos cadenciados à minha frente. como lhes dizia. – Param vocês aí com o defunto e abram-me passagem. O arrieiro. “– Olá – gritei. no meu jaguané de fama. estão caçoando comigo. noitão cerrado e vésperas da Paixão. Demais. insuflava perfeita verossimilhança e vida animada. começaram a trotar lá adiante. Olhei. e o Aleixo – um caburé truculento amigo da boa pinga e freqüentemente mudando de patrão pelo seu gênio teimoso e arreliado. O carreiro apertava. embuçava ao fundo a campina. Joguei o jaguané a galope: galoparam também. esgarçada e refeita aos raios mortos da lua. assemelhou-se-me a dois homens baixos. Pela maioria. todo o pessoal. O bicho fiel certamente estranhou as rosetas. contos lúgubres e sanguinolentos. apesar de simples camarada. ia pensando. Vai senão. que o terreno era um seu tico movediço.” – E pegou-os? . arrematava o final dum conto de lobisome. Achei esquisito. Deus servido. lá tornei a enxergar os dois pretos condutores. ora apressado. conduzindo qualquer cousa. achegando o animal. dado o mau tempo. era de fiança. passados sob o clarão embaçado daquela mesma lua acinzentada e friorenta de inverno. por estas estradas da minha terra. tendo a cortar todo um estirão de oito léguas bem puxadas para alcançar o arraial. vermelha à luz da fogueira e rebuçada em ligais. ali nas alturas do Bugre. e isso. num varão. pois esperam aí. arqueados e silenciosos debaixo da carga maldita. Qual. começou então assim: – Naquele tempo viajava eu escoteiro. mestiço traquejado e serviçal. porém. e. – Varei o meu bicho nas chilenas e ele disparou à toda. na sua voz grossa e arrastada de cuiabano. Cravei as esporas no meu bicho pra ganhar a dianteira – que eu não arreceio um cabra de maus fígados. Acocorados à sertaneja sob a copa desfolhada do pouso – um jatobá gigantesco – aquentavam fogo. Iam depressa. “– Naturalmente soldados em diligência para Santa Leopoldina –. na necessidade. o lugar era ensombrado. um travo de zanga subia-me à garganta. – puxando para si o cuité fumegante de congonha e chupitando uma golada. Uma neblina leve e hibernal. E. devia bater em Santa Rita pra negócio de precisão e a lua só pela madrugada despontaria. Num claro de mato. A cangalhada.

a fazer mais estrépito que o casco do meu bicho! Assim andamos bom pedaço. – O cuca – aventurou tímido um. O plenilúnio acinzentado e friorento de inverno. coalhado de luar. reencetei a marcha. ela não tivera por onde torcer. transbordando os cuités. não ganhava nem perdia. eram seus quartos escuros e a rede de defunto. a passo. bufando alto debaixo da carga. a barriga malhada. pararam. e lentamente ia abaixando a sua luz amarelada sobre o carreiro. os dois pretos arcados. os demônios abriram numa carreira de curupira. o sítio mais escuro. Fiquei ali imóvel longo tempo. pausados. Pus o sendeiro a passo: eles. abafava o horizonte. A lua deu de chapa nos dous carregadores. do mesmo modo. regularam logo a sua andadura pela minha. em cadência. Janeiro – 1912 . o que vi então. a solidão daqueles lugares e – pra tudo dizer – o medo. todo apalermado. a chocolateira fuliginosa e aromatizada de congonha passou de mão em mão. fizeram o resto. assombrado mesmo. lá do céu triste e carregado. e assim continuamos por mais de hora. esgarçada e refeita aos raios mortos da lua. pausados. se podem. eles fizeram o mesmo. imitando. Cincerros badalavam intermitentes e sonoros na campina ao fundo. o Aleixo arrematou com pachorra: – Pois isso mesmo. – Qual! Uma vaca. o fardo ao ombro. os olhos neles grudados. o carreiro mais estreito e solapado. Afinal. eu calado. A fogueira – em brasa – tremeluzia. seu Zé. De supetão – desfiava eu o creio-em-deus-padre de trás para diante mais uma vez – o carreiro desembocou num campo largo. apertando nos dedos o cabo encerado do jacaré. recomeçaram o movimento primitivo. Acoroçoado. Sofreei a marcha.– Qual o quê. o arvoredo mais fechado e carrancudo. envolto em brumas. Parei o pingo. Como o carreiro era fundo e apertado. em cadência de soldados. sem tino. Decididamente esquisito. desocupados. onde a neblina hibernal do sertão. e o pingo a resfolegar já bambo. o escuro. Os pretos. insuflava vida e animação às personagens fantasmagóricas daquelas histórias primitivas. mesmo muito esquisito. Adivinham. A companhia respirava aliviada. Fumegando. E perante o assombro descomedido daquelas feições rústicas e encardidas de sol. Os pretos. Um outro tomou a palavra. eles arcados. enquanto que o minguante principiava a tingir de açafrão a copa folhuda das árvores.

o estorvo que trazia por cima. abarcando céu e terras com a mão – não havia quem fosse mais maneiro de juntas e seguro nos arreios. à lei da natureza. peia de pernas e torniquete nas orelhas. porém. como em menos duma hora o poldro é matungo de longa serventia. a mostrar uma dentuça mui alva de dous anos e meio. Não é por querer gabar. para que conseguisse apertar a barrigueira e abotoar freio de barbicacho sobre o pêlo virgem do danado. em afastar o pessoal. no puxado dos bezerros. Não duvidei. não é caçoada – avisou um vaqueiro velho experimentado. Ao momento que o picaço hesitava ainda ante a súbita claridade que se fizera. para o silhão da menina. que também trazia fama de montador. sustentado na galhofa por um cabra arribadiço. como que a experimentar. vez primeira no arriscado ofício. Logo no princípio. Como a neta do patrão se encantasse da estampa escorreita dum pingo picaço. onde tinha os arreios. a fugir de corpo. Quando ia a trepar. botei-me acima da cutuca. contido nos jarretes e a mão de ferro de todo o pessoal interessado naquele feito. o Mateus. e riu. hoje mesmo tiro as tretas do bicho. mas no lombo dum malcriado. .O poldro picaço A Cláudio S. – Tanto foguetório e pabulagem para aquele picaço. – O patrão mandando. fazia mesmo! Ainda duma feita. gado espantadiço e artificioso. um estremeção desagradável pelo fio das costas e o coração bacorejando. No curral da fazenda apressava-se a ferra duma última partida de bezerrotes trazidos da Boca da Mata. bambear a laçada. a sombra das gameleiras alongava no terreiro. quando o patrão andava ajuntando nas invernadas umas tropas que fomos depois vender ao Mato Grosso. Amofinava minhas prosápias de montador aquela pacholice da camaradagem. meu patrão! Só tive tempo de gritar: – Abram a porteira! O endemoninhado recuava sobre os cascos. bela peitaça. Eu era nesse tempo o peão mais afiançado da fazenda. olha que a Guiomar se engraçou do picaço. crescidos às soltas por ali mesmo. De envolta. Súbito arremeteu. vamos ver se mo pões manso como um sendeiro velho. Ah. estribos bem justos. vieram também daquelas bandas uns poldros cardões. – Se não fizer finca-pé nos loros e pressão dos joelhos. Levantei-me da roda em que estava. Não conversei. sangue azougado. – Criação da Boca da Mata tem fama. o que prometia. bem torcido pelo cabra da peitaça. tio Pedro – chacoteou outro peão do sítio. gente! – defendeu alguém. – Não meta medo ao rapaz. passei a perna por cima da cerca e endireitei para o paiol de milho. segundo ouvira dizer. estrelo de testa e olho em brasa – que só fizera até então fitar orelhas e coçar-se aos varais do cercado ao mínimo rumor estranho – patrão interpelou-me: – Ó Antônio. senti. Mateus. está por terra. aposto o meu ponche-pala contra a tua franqueira. que este seu criado. admirado. Ganns As vaquejadas estavam a terminar. chilenas bem arrochadas no calcanhar e perneiras com guarda-peito para livrar das garrancheiras e espinhedo por onde o acaso levasse. deu pancas o animal para deitar-lhe em riba os baixeiros da cutuca. Nas redondezas destes Guaiais – e o meu companheiro fez um gesto largo. refugando. o Antônio é cabra matreiro. Ele ia aceitando os arreios desconfiado. O dia começava a esfriar. sonegando. amarrei-o à argola do moirão. muita gente pasmou para as tropelias puxadas à sustância que fui cometendo com quanto burro brabo e redomão aparecia nos lotes. tão certo como esse sol que nos alumia. Com uma laçada mestra. que tanta atrapalhação dera aos campeiros para reunir e trazer arrebanhado à porteira. afrouxar os atilhos. em furados de papuã e jaraguá. – Êh. preciso foi uma faixa escura na vista. tremelicante a beiçama. mesmo assim. encolhendo a lombeira. – É o que quero ver. lá dos sertões donde viera.

No valado das divisas. Trago-o aqui desde então. acachapou-se no terreiro. procurando morder. todo besuntado da sangueira que me saía duma brecha funda do cocuruto. estava estirado no banco da varanda. empinando sobre as patas traseiras. na força do tombo ficou com o braço na tipóia. acampado à banda pela presilha dum botão. ele desembestou por ali e veio num fechar d'olhos. Cuidei ficar daquela feita no fundo do barranco. perdi a firmeza e pareceu-me que mergulhava de ponta numas raízes da gameleira que assombreava o terreno. as inhumas do sertão... afastando o cabelo corredio. encaminhá-lo para o pontilhão e voltar ao terreiro. trocando-o por este de condutor.Nem tempo tiveram de tirar os últimos paus. disparou noutro arremesso. senti-me mal. que obedecendo às rédeas.) O sangue estancado. O Mateus desistiu por sua vez da . d'abas largas. foi mais caipora. como me convinha. O certo é que. uns coqueiros de indaiá em cujas palmas salmodiavam. sarado. Ganhamos o outro lado. atirou dous pares de couces para o ar. andou de banda. num solavanco. e como se fosse só então principiar. nunca mais tornei à fazenda. E como visse. ganhou o campo aberto. e. meu menino! Sete vezes fui ao céu e sete desci às profundas dos infernos! Mas agüentei firme. turvação na vista. o malvado. Não lhe conto nada. pinoteando.. não fora a traição da barrigueira e sobrechincha. muito branco. compadecida. por instantes. desengonçou-se no arção do selim. estive mesmo. precipitou-se num arrancão. bordadura de seus dedos. recusou. Atravessamos num relance o sarobal que lá havia e ensaiei. tentou também o cabra da peitaça quebrar-lhe as tretas. que arrebentaram no esforço... vai não vai. sem detença. na encosta da várzea por onde trilhávamos agora. alagando os escampados de sua grande luz merencória.. e espalhou. meu patrão.. sei lá.. Que bicho. indeciso. sacudindo-me com violência do lombo. Amofinado. quando quis restituir aquele pedacinho rendado de batista – que trazia um G arabescado tão perfeito. Mais por inclinação própria. não obstante a proibição da patroa.. Quando dei acordo. sobre o joelho da menina. ela atou-me o lenço à ferida. Passou por cima da porteira num salto breve. Cabriolou aos pinotes. nervoso. Mais tarde. como um breve. aos pulos e aos trancos. àquela hora do entardecer... esta mesma cicatriz que aí vê. que não queria ver mais sangueiras em casa. e ele. desde o acontecido. O crescente transmontava. improvisou alto. que me banhava a cabeça num lenço ensopado. partido em dois lugares. no estradão. o certo é que não sei por que artes e manhas do tinhoso. esbarrar ao pé das cercas. onde todo o mundo andava atarantado. Estive muito tempo a olhar. meneando. jogando de popa. por abandonar as estribeiras. Agüentaria firme ainda. atendo-me ao governo. embebeu-o de bálsamo e esteve muito tempo a olhar. abandonei aquele ofício de peão. mas não tive coragem. apontou. – E o poldro picaço? – No dia seguinte. A noite ia avolumando do fundo das baixadas. Uma vez. mais pacífico e sossegado. alheado: Passo'-preto cantador Que canta no buriti.. quis queimar essa prenda. Vai dizer ao meu amor Que de pesares parti. Engolimos num trago aquele chão. viajando. umas tonturas. sobre o peito. A sela fugiu sob os joelhos. Que fazer. a distância era respeitada. arreliado. Também. quando supunha já ser ocasião de sujigá-lo nas esporas e tacadas de rabo-de-tatu aplicadas a preceito. (Tirou fora o chapelão de feltro. cousas do coração. bem dobradinho.

rejeitando a ração. creio.experiência. Toparam-no uma daquelas manhãs arrebentado no curral. desengonçou-se de novo no selim. (Acendeu o cigarro. há cousa de ano e meio. onde lhe andavam a curar com salmoura a esporeação do vazio. – Essa. e até o pouso próximo não lhe arranquei mais uma única palavra. atido preso.) 1914 . – A patroazinha. andou uns tempos entristecida com o sucedido. Também o bicho. desandou de emagrecer. com um moço da vizinhança. casou.. segundo ouvi..

as alpercatas de couro cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava.. O lavrador alçou com cautela a destra calosa. num gesto instintivo. Perdido. e o veranico. a fitá-lo ameaçador. mas perfidamente traiçoeira. O caipira pousou a braçada de lenha encostada à cerca do roçado. a terrível urutu do sertão.. num cupim velho do pé da mariapreta. Ora. e pulando do outro lado. que ficavam lá no fundo do grotão. surpreendido. Ali mesmo. após farta cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silêncio. amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa. Domingos abandonou a rede de embira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola. deixassem lá em paz os passarinhos. É que uma picadela incisiva. encimada a testa duma cruz. passou a perna por cima. enquanto olhava admirado. onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte da foice. toda tostada desde a época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada. sacou da bainha o largo jacaré inseparável. entranhou-se pelo grotão – nesses dias sem pinga d'água – galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta. chispando as pupilas em cólera. decepou-a noutro golpe. mais uma vez avaliando com a vista se possuía capacidade precisa para a rica colheita do ano. preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da sesta. tendo ajuntado os gravetos e uns cernes da coivara. dolorosa. Era uma urutu. sobranceiro e altivo. malignamente. amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro. vésperas quase da colheita.. mostrando a língua bífida. fitando-lhe. foi ao paiol de palha d'arroz. O roceiro andou lá pelos fundos da roça. e o caboclo. completamente perdido. e saiu ao terreiro.. E enrolando o punho mutilado na camisola de algodão. na baixada das velhas terras devolutas. no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha. os olhinhos redondos. Mas tirou-a num repente. num movimento ainda mais brusco. onde uma chispa má luzia. a palma da mão. entre as macegas espinhosas de malícia. Mas aquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos. saiu do cerrado.. O reptil. rebolando na terra.. uma cabeça disforme. onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação. O milharal estendia-se além. escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins. como um deus selvagem e triunfante apontando da mata companheira. O matuto sentiu uma frialdade mortuária percorrendo-o ao longo da espinha. apoiando a mão molesta à casca carunchosa da árvore. que andava duro na quinzena. amarelecido já pela quebra. mas assassina. não valia por tão pouco amuá-lo.. assentada sobre a forquilha da árvore. na bifurcação do tronco. e pois. cerce quase à juntura do pulso. Não esquecesse. vivamente. Era pelo domingo. dos filhotes de periquitos. oblonga. que foi rasgando entre dentes. rebuscando lá por dentro os dois borrachos. às largas colheradas. sem vacilar. o papá. e. voltando a si do estupor. quando se lembrou do pedido do pequeno. E. Então. 1915 . Enquanto amolava o ferro. que realizara dias antes. rumo de casa..Ninho de periquitos ABRANDANDO a canícula pelo virar da tarde. a colher uns pepinos temporões.. que abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia. persistentes. olho aguçado para o trabalho paterno: não se esquecesse. calcando duro. aparecia à aberta do cupinzeiro. o Janjão rondava em torno. para a qual a mezinha doméstica nem a dos campos possuíam salvação. rasgara-lhe por dois pontos.. à altura do peito.

. Por isso. não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava. O negro chegou aos grotões e chamou pelo saci. Sá Quitéria. – Vancê quer alguma coisa? – perguntou pai Zé admirado. nos grotões e covoadas da roça. e. disse: – Dá-lhe a cheirar esta pitada. Ioiô– concluiu o preto velho que me contava esta história – a todo aquele que viu e falou com o saci. – Porque. seu saci. nunca mais houve paz no casal. desejosa por saber do seu intento. fungou. procurando sempre ocasião de lhe mostrar que. Lá ia pai Zé. pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada. Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá. – vancê gosta de sá Quirina. negro velho dos infernos. ele sabia-o. que conheci a tua tramóia – gritou sá Quitéria furiosa. sorrateira. sua mulher. pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada. prometeu. Atrás dele. entregando o resto a pai Zé. se vancê me arranja a cabaça que perdi. apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio. como era o seu costume quando incomodado. e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse. E desapareceu. topou com ele nos grotões da roça. porém. e dá-me cá o feitiço pra sá Quirina. na luta do casal. Desde Santo Antônio que ele rondava sá Quirina. saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá-dona lhe pedira. acontece sempre uma desgraça. à entrevista do saci. cansado das malandrices do moleque. pulando no seu único pé. um caboclo sacudido que. lá ia também sá Quitéria. fungando. saindo do bamburral e segurando-o pelo papo. Toda a eloqüência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de São Pedro. Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado. lá nas roças do ribeirão. extremamente irritado. que se devorava às pancadas. a tinha roubado das grimpas do jatobá grande. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. tirou uma pitada grossa da cumbuca. louco de contentamento. vagueava pelos fundões de Goiás. – Ah. e fungando terrivelmente. abandonando a enxada e de queixo caído. O moleque. O preto. para obstar que o saci. se ele tinha! Mas a cafuza era dura da gente convencer. tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras. – Olha negro – respondeu o saci. Pai Zé. Desde então. aquela mulata de sustância. se sabia! Perguntassem à bruxa da nhá Benta. A cabaça. e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho. que de pronto apareceu. fora amoitada pelo Benedito Galego. a saltar no seu único pé. que a crioula é sua escrava. a velha ciumenta estava de tocaia. E. E ela também sabia deitar e tirar quebranto. O moleque desbarretou-se.O saci Por aquele tempo o saci andava desesperado. arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de sô feitor. vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô. não era negro para se desprezar assim por um canto. que o saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço. não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. um olho de menos e falta de dente na boca. – Toma lá a sua cabaça de mandinga. pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do saci. lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá. olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos. Pai Zé. que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau. não – que sustância ainda ele tinha no peito para agüentar com a mulata e mais a trouxa de sá Quitéria. – Mas agora – gaguejava o preto – eu lhe amostro. Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de sô feitor.

Goiás – 1910 .

o cabrestame em cruz sobre a testeira aberta. babujando já a quirera da ração matutina. fugindo à vida marasmática e aperrengada do vilório natal.Peru de roda Bela estampa de homem. fazia gosto vê-lo quando apontava à tardinha no pouso. se pousavam ao relento. à descarga do último lote na rancharia dos tropeiros. um lenço de seda negra cingindo em fofo pela aliança de ouro o pescoço desafogado. em contraste à franca jovialidade do patrão. ou fazenda desbotada pela chuva na caminhada dificultosa. a barbaça grisalhona. depois por gosto próprio. e os lotes completos. Já Joaquim Percevejo. de passagem por Corumbá. mui embora lhe viessem sentindo dia a dia a morrinha impertinente de seu gênio testudo e ateimado de idéias. as pernas mui curtas e em arco pelo hábito da montaria. espalhada em leque sobre as cordoveias do papo túrgido e rubro de peru de roda. Sempre num terno de brim milagrosamente escapo à poeira das estradas. em Minas. dada a segurança da sua tropa – a mais garbosa e luzidia naquelas alturas – e o zelo sempre alerta que punha no resguardo da carga. Bela Vista e mais vilarejos do interior. como única a andadura da ruana. o arrieiro. não ousavam contudo murmurar dos ralhos do arrieiro. interpelando Joaquim Percevejo – o arrieiro. Antas. estribado na sua grande mula ruana. E. pronta a bater o encosto da vargem. já ia o moço tropeiro beiradeando pelos trinta e quatro. ou rompia árdega a mula pela praça do povoado. inchando o peito. transportando do sertão dos Pireneus couros e fumo. assim saído da barraca. quando em mãos dos destinatários. afunilada e acabando em bico na boca do estômago. o coronel Gominhos de quem herdara a tropa e o título. onde a tropa arranchara. Assim. e.. já na trempe do rancho. quer fosse o letreiro encarnado – frágil – sobre a tampa de pinho dos aparelhos delicados de louçaria e vidro. O seu prestígio corria parelha com a fama de honradez e sobranceria de caráter em que era tido naquelas funduras. ninguém como ele mais estimado e procurado para um ajuste de frete. quer fossem caixotes com o dístico – cuidado!. a princípio sob as ordens de seu defunto padrasto. Também. quando via as suas ordens mal cumpridas ou relaxadas pelos seus na labuta cotidiana. sobre a verde louçania dos serrotes apurpureassem os primeiros listrões da aurora. com todas as suas intrigalhadas e ódios inevitáveis de facção política. e desde rapazote batia as estradas comerciais do velho Goiás. Com uma longa faca de arrastro sustida ao correão da cinta pela espera de sola grossa. antes que a madrugada fosse amiudando. passava revista à burrada. de postura e qualidades tão bem gabadas e discutidas como as vantagens pessoais de seu dono. a pele corada e rebrunhida pelos sóis do sertão. não havia então reclamações por vias de uma peça partida. com o seu floreado cuitezinho da bebida estimulante à espera. trazendo das praças mineiras as variadas manufaturas. desempenado. em fila ao longo do parapeito. – indicando o conteúdo perigoso da dinamite. era um tipo bem diverso do patrão. em fila nas estacas. donde o pessoal se postava das janelas e currais observando pouco antes a passagem da tropa.. Era de vê-lo então apurando o ouvido. mão firmada na ponteira do chicote que se apoiava à albardana acolchoada da sela bela-vistense – era mesmo uma bizarria quando o seu perfil moreno atravessava ao largo das fazendas. sob o buriti do olhod'água. era um homem cuja eterna sisudez impunha sempre um respeito desconfiado aos camaradas. as botas de verniz mui lustrosas sob a prata dos esporins. e mui vivaz e solerte à voz do patrão. à saudação costumeira: . Figura única aquela. E. numa empáfia de mal contido orgulho. preparando o café e a rapaziada toda fazia roda. o coronel Pedrinho! Alto. ao campeio habitual da mulada. Pois toda a satisfação do arrieiro consistia em ver o patrão. chiava o caldeirão do cozinheiro. De Pirenópolis a Araguari.

lá embaixo. no fundo da vargem. amiudando um passinho de mulo carregado que tivera a sua medida. e numa andadura indolente saíra ao alcance do dianteiro. descia suavemente ao ombro. dava-lhe o boleio de uso. sob um peso de cinco ou seis arrobas de sola. chupando o cigarrão. Já o cozinheiro albardara o seu ruço desferrado. e. para menos sentir os efeitos do arrocho. desaparecido no cotovelo do atalho. e lá ia arfando estrada afora. onde eram o araticum-do-campo. castanhos-escuros e pêlos-de-rato dos terceiro. arrochado e preso o cambito da sobrecarga. plumagens multicores de pássaros no verde retinto da folhagem e arrulhos cantantes de água corrente – Joaquim Percevejo empinava o busto e ficava . upa. levantava-o à altura da cabeça. o pequizeiro. ao dianteiro. onde um camarada dava a demão. patrão! E bradava logo. E quando era a vez do culatreiro. o segundo alvejante e albino. enfiava-o à argola da cabresteira. E após esse. que vocês por aqui me madrugaram hoje. rapaz! Que o sol já 'stá pr'aí botando o seu carão de fora! O outro não se fazia rogado. mal dando tento do peso morto de dez arrobas e mais que trazia sobre o lombo. E ele torava para a frente. na regra do costume. passado o ligal. nos primeiros aprestos da partida. estrada afora. contornando um serrote. enquanto ele corria a pegar outro fardo. e ia apertar a cilha à sua mula mascarada. comandativo. Vinham os dobros desfazendo as demasias. o segundo. saía logo a passo amiudado. o pêlo rebrilhando sobre a fartura luzidia das ancas. restabelecendo do lado oposto o equilíbrio. O coronel deixava-o pouco adiante. metia os dedos às alças. e. que levava como dobro a capoeira de seu trem de cozinha. quarto e quinto lotes. abrangendo a récua distante do dianteiro. e. E quando o último sumia além. no trote picado da montaria. ainda mui arteiros e indiferentes sob o arrocho dos carregamentos. à esquerda. hein?! – Na forma de sempre. upa. Do lado de dentro do rancho. enfiando as alças no cabeçote e escorava a cangalha. apanhava o balanço rítmico da marcha. eriçava-lhe os redomoinhos. o primeiro de crioulos alentados. a raspar ainda a sua rapadura no fundo da caneca: –Êh! Jerome! Toca pra diante. aparelhava a ruana do patrão. zumbidos e chilreios – trilos de insetos nas touceiras orvalhadas e chirriadas adormentadoras de cigarras. o quinto acobertando-se nas árvores. que naquela manha de animal velho e sabido. na matinada bimbalhante dos guizos e cincerros. para dar lugar aos rosados. numa nuvem de poeira. Era um garbo ver como as cores dos lotes se sucediam por escalão. a sua vista perdia-se ao longe.–Ah! sim. de que recebia as últimas lufadas. e dando um muxoxo ao ouvido da madrinha. cuja ferradura ia amoldando a argila barrenta da chapada. e os cincerros da guieira do culatreiro a chocalhar-lhe os ouvidos ali adiante. da estrada. devorando rapidamente as distâncias. no gorgulho da rampa. já o segundo lote acangalhado e alerta nas estacas recebia os surrões. aprestado e solto. um a um os demais iam saindo na poeirada do antecedente. o sol aquentando e vibrando todo o sertão numa auréola gloriosa de luzes. vinha encostá-lo à capota do cargueiro. mais aquém.. Descido o primeiro fardo da pilha. ainda os machos queimados de seu lote – o refugo da tropada – fariam inveja a muita fieira de tropa que briquitava naquelas estradas! Então o arrieiro ajeitava a chilena ao pé esquerdo. donde não tardaria em pouco aquele a desembocar. o terceiro e o quarto ainda ocultos no travessão de mato. estalava a mão ao fundo. presa à cancela do rancho. Na estiagem magnífica da manhã. a fruteira-de-lobo e os coqueiros de macaúba que para cá dos listrões de mato se descortinavam esparsos no sapé bravio. cotovelos fincados sobre o parapeito. o dianteiro desatava o cabresto. na mesma abundância de carnes roliças. esta tomava prestes a saída do trilho. inchava a barriga. impaciente por morder o primeiro na retranca. que galgava a encosta.. no rastro ainda fresco da tropa. E o segundo burro. E quando galgava a eminência de um descampado. àquela toada costumeira que se alongava e ia distanciando do outro lado do córrego. Joaquim Percevejo assistia diariamente à saída da tropa. para um dedo de prosa com os conhecidos das fazendas que se iam avistando a pouco e pouco à direita. nas ondulações do terreno.

– Qual cangaia. a mula descia em dois corcovos bruscos a rampa. dando de chapa no latão de uma bacia. crepitando. uma azul. num movimento involuntário do pescoço.. passado um quarto d'hora. continuavam a conversa encetada. bradando: – Completo! Diacho de preguiçoso!.. já a sua fisionomia readquirira a sisudez apática de costume. A mula do arrieiro. Tá danado! – Chega-lhe a taca. matava ali mesmo a sede. sacudindo-lhe a taca ao traseiro. esquecido. Joaquim Percevejo ficava olhando. interpelava: – Êh! Sô Quim. Faiscavam às vezes. nas pegadas do segundo lote.. outra amarela. Picando uma rodela de fumo. já lá ia adiante. uma carantonha obscena com o rabo erguido. já lhe correra ao encalço. olhando. emborcada sobre um cargueiro do segundo lote. Agora só qué memo cortá vorta no mato. as suas cabeças amarradas em lenço de alcobaça – as pontas sarapintadas voltadas para trás – passavam como asas de borboletas. saciados. alcançara o terceiro. em postura de monge ermitão.. encontrou-o encalacrado numa volta do capoeirão. Amanhã. a terra estuava e desdobravase uniforme.. lhe despertasse os melindres. home. os burros socados no cerrado e o tocador a arrumar a carga da dianteira – que não tomava jeito e ia arrecuando e pisando o espinhaço do animal a cada nova subida do caminho. a perder de vista. Izequiel. – Toma tento na Tetéia. qual carapuça! Encosta o relho e toca pra diante que é treta antiga! – Êh! êh! Pachola! Ventania!. – A modo que a manha de Passarinho é da cangaia nova.. fazendo às árvores e cupins que deixava para trás. e. Não lhe dava o xará em respeito à hierarquia. vindo de novo ganhar a estrada cá em cima. mais filósofa. o reverberamento do sol. E aquela exclamativa era a expressão sentimental de toda uma existência subitamente revelada. vendo-se a sós. por vezes. como vai seguindo isto por aqui? – O Passarinho tá danado de veiaco hoje. achegados à retranca dos lotes. os metais das cabeçadas de prata. os peões bracejavam e sacudiam a taca. na rampa. selavam o ventre. Vendo um cargueiro adiante raspando terra e fazendo menção de deitar. a descer em bolhas na torrente.. e. e nos volteios do caminho. bota-lhe em riba mais um dobro da dianteira e o rosário de ferraduras. de quem sabe dar o devido peso às palavras. adejando num vôo indolente rasteiras ao solo. Pegado o culatreiro. na mesma e epitalâmica pujança de arruídos e de vida. essoutro dia tanto coçou nos pau que deitou a carga no atoladô. rompendo a marmelada-decachorro. por sobre o verde-pálido indefinível da campina. Os burros enfurnavam-se pela garganta do ribeiro acima. outra encarnada. Mecê deve ter assuntado que desde os Olivero o bicho não toma jeito.. naquela satisfação refestelada de irracionais. E quando. subia a toada contínua dos guizos e cincerros. experimentando um súbito abaixamento de temperatura. abriam as pernas. Vamos ver se ainda treta depois pelo caminho. recusando cada qual beber a água suja do que o precedera.olhando muito tempo. Diacho de bicho brabo! O relho estalou e a burrada foi cortando pelo mato adentro. para baixo. descansado. olha um calço na capota dessa cangaia. estribado sobre os loros. até que o primeiro mijado. que isso é falta de carga no lombo. Joaquim Percevejo correra a espora por sobre a anca da besta. O outro não respondeu. e os que ficavam para trás. O vozeirão grosso. donde vinha. não podia que não soltasse o brado de entusiasmo que lhe transbordava do papo túrgido de peru de roda: – Eta tropa danada!. Ao longe. e rabo ao ar dejetavam na corrente. Tinham chegado ao córrego. . Ia tudo sem novidade. no âmago do travessão. Espicaçada por súbita esporada. num chiado agudo de água passando entre os ferros do freio. Os dois tinham parado à beira do córrego. entre o arvoredo das margens.

E como tinha a mão pronta. senão. no atalho da serra. mal-encarado coronel. O Passarinho quer mas é barrigueira acochada acima do branco das costelas e mais uns dobros por riba. Como seu Quim continuasse recalcitrante na destroca dos arreios. sabia porém. camarada relapso não acresce dívida.. mordendo os beiços e metendo o pé à barriga do burro. Não o contrariara à vista dos outros. lambendo a poeira da estrada com o seu palmo de língua. – Tá bão! tá bão! O Quim encolheu-se logo humilde. talvez se desquitava aquele dia mesmo. recusou-se mesmo a ir verificar nas estacas. mais larga. menino! – Nunca se lhe fizera alguém intrometidiço no ofício. treteiro de marca. alvejando. concertava o cargueiro abandonado. O elevado da importância era o insofismável penhor da estima e confiança em que era tido. passou-lhe o papel. Arreou a sua mula. e palpar-lhe o sentido. deixasse-o à vontade. somou as cifras. seiscentos e oitenta mil-réis. afazendado nessas alturas. quanto devia ao justo – três contos. pela encarnada de um burro do dianteiro.Joaquim Percevejo. Bicho novo. pede carga de sustância. amilhado como vai. e arrochava a sobrecarga. Juntasse aos dobros o amarrado de ferraduras. – É como lhe digo. Assim como queria. abriu as canastras. já impacientado. Empirraçado já. como dizia o arrieiro. O Passarinho carecia era de cangalha bem assentada. Aquela ia-lhe mal. tintim por tintim. – qu'estúrdia. Mastigou nervosamente. Topou-o mudando a baeta verde da cangalha do animal. vendo-o naquela entaladura. – Não é p'ra menos – retorquiu Izequiel. o burro ficava inutilizado. amarfanhou tudo. asas agoureiras de borboleta. maculavam o acolchoado na altura da cruz. duro. rapaz. Volta e meia Percevejo procurou o culatreiro. * * * Aquela tarde a tropa arranchara nas Estacas. um pito no arrieiro! E temperado o pinho. E Joaquim Percevejo apertou a andadura da besta e foi torando mais depressa para alcançar o patrão na encruzilhada da serra. a respeito do Passarinho. – Não devia relaxar. No sertão. Em pouco esquentava a discussão. E o ofício era aquele. Como todo moço tropeiro. fechou-o dentro da boca. Ali na intimidade das paredes de lona. Mas o patrão gritava da barraca pelo arrieiro. Ao longe. a fim de evitar o seu desprestígio entre a camaradagem. Ia entender-se com o seu Ivo. que surrara a cacete. chamou-o à ordem. dispensou a janta. distintivo dos arreios daquele lote. tinha um respeito bemeducado pela barbaça grisalha do outro. apeara. cuspiu a barba em leque e pediu a sua conta. ainda me cheiras a ovo. Conforme combinassem. na regra de pobre. o cão de fila à cola. dera logo jeito aos dobros. o culatreiro conhecia bem o seu lote. O coronel Pedrinho. repisou uma quadrinha predileta de Percevejo: . Fizesse o que ordenara. Mas não tinha andado direito.. Impressionara-o a contradita que tinham tido. Nem isto o demoveu. com extraordinária memória. passara de novo o ligal. bufou regurgitado: – Tu 'stás aí. assim. O outro fez-lhe ver os suadouros da cangalha. na marcha do dia. nem mesmo no tempo do defunto compadre Gominhos. ajuntou o pêlo todo num puxão. passava um cavaleiro. Joaquim Percevejo espetou os dedos no barbalhão hirsuto. O arrieiro era bem analfabeto. avisou que estaria de volta ainda naquela noite. Duas grandes pisaduras. – Vai comendo brasa – disse o cozinheiro vendo-o chegar ao mesmo tempo relho e espora ao animal. o lombo do animal.

. os babaquaras da terra interrompiam a palestra e safavam-se pelos cantos. além. o estoiro de outro – de quem suspeitara meter-se-lhe a engraçado com a mulher. e ao levantar do sol tornava de novo para a fazenda. a resposta na letra: Mas agora venho a crer Que pra tudo Deus dá jeito. e. porém. Estimava-o. triunfante. passaram fugidios sobre as franças das últimas cristas da Dourada. porém. Tons róseos. um velho correligionário. o Zeca Menino.) Também. Um cavalo bem choutão. em Curralinho. Mas até aí. Este voltou inchado ao pouso da tropa. Depois tudo fez silêncio e o arranchamento dormiu embalado à distância pelo polaco das madrinhas de lote. por intermédio de um funil. Percevejo trazia a tropa num brinco. O sítio era um arsenal. com a lábia do fazendeiro. não admitia controvérsias. nunca tivera azo de manifestar a sua energia. O crepúsculo veio com a monotonia dos grilos e sapos nas varjotas. Também. era fundamentalmente autoritário. Naquela sua fazenda nos arredores das Estacas. quando ia à cidade. na passagem das últimas boiadas que por conta própria mandara às feiras de Minas. pelo menos. O patrão mandou soltar a tropa no encosto.Quatro cousas neste mundo Arrenega um bom cristão: Uma casa goteirenta. Na muié se mete a peia! O coronel Ivo era um famanaz temido nas redondezas. Tinha-lhe o outro este ódio secreto e instintivo de todas as criaturas inferiores e autoritárias para com os que não possuíssem um mesmo espírito de rebanho. O coronel Pedrinho esperava encontrar Percevejo pela manhã.. felizmente. Como todo chefe sertanejo. Fez os seus arranjos. Qualquer dia vê-lo-emos deputado federal pelo Estado. ao assomar na esquina o seu vulto apessoado de anta brava. Não contava. registrava-se o castramento por suas mãos de um pobre pancada em Goiabeiras. Não transigiria. . E não achou ali ao pé o arrieiro para dar. Demais. sem transição. era uma cabeça avoada. A noite entrou fechada. Sabia Percevejo visceralmente honesto. Camarada que para ali fugisse.. tinha coito e segura garantia. Uma muié rabugenta Mais um menino chorão. puxando as espiras azuis de seu goiano. e esperou-o o dia todo na rede. Caráter altivo e reto porém. e ali estava desde os velhos tempos do padrasto Gominhos. (Não sorriam os leitores. Gozoso. se era da gente da oposição. O coronel Pedrinho era neutro. à força de infusões de malagueta e salmoura deitadas goelas abaixo.. centro das marombas politiqueiras do município. ofendia as fumaças do mandachuva com o seu todo independente e sobranceiro. ferrador de burros e antigo tropeiro como o maioral deles.. Pois sim. eslaivados.. Engambelou portanto o pobre homem. Braço direito dos chefões estaduais. um perdido de mulheres. as suas façanhas contavam-se pelos anos de vida. entre as menores. Estava precisando mesmo de um homem de confiança como Percevejo. é histórico e atual. O cavalo se barganha. e derramou-se no céu a prata das estrelas. ao sair da barraca. comprometendo-se a solver a dívida no dia seguinte. Malquistara-o com o administrador do porto de Mão de Pau. Doera-lhe despedir o arrieiro. Do guri se tira a manha. aproveitou a oportunidade para uma das suas pirraças. Arrastaram-se as violas no pouso até às dez. A casa a gente reteia. quarenta agregados e acostados enchiamlhe as casas. erraram. E é até possível que quem escreve estas linhas fizesse o mesmo. pois sim... seu capataz.

Cortou-lhe a corda o patrão. satirizou num repente o cozinheiro: Quatro cousas neste mundo Arrenega o arrieiro: A manha do Passarinho. Dou-lhe a minha proteção. mandou enfrear a ruana. Pegou o arrieiro pela barba. E. foi à boca do mato. à embira. atou-a num ápice. – Percevejo. Viram-no ferrar esporas. ponteando na viola. Nem um gesto sequer. lama e aguaceiro. os olhos ramelentos. a besta arrancar num trote largo.. e Percevejo não aparecia com o dinheiro. prenunciando chuvarada. O coronel encarava-o aparvalhado. olhe que esqueceu o revólver mais a cartucheira! – Não é preciso. E ao local chegava mais um grupo. que Percevejo fez a sua entrada nas Estacas. Não posso falhar mais este dia! – Hum! hum! Já aqui estou. Izequiel saltou como um boneco de mola.Servido o almoço. saltou da sela. atrelada a tropa. nas suas enxúndias de homenzarrão. Toda aquela gente ali reunida era um cabide de armas. não me deves mais nada! E não se ouviu mais ali palavra a respeito. o cano das clavinas aparecendo de sob as fraldas das carochas de indaiá. abriu o viva-Goiás. Olhavam. Pelo beirar das onze o céu embruscou-se. Deixe-se por aí ficar. patrão. O coronel havia-lhe dito: – Sabe que mais? Não está nos meus hábitos pagar contas a desafetos. E num gesto enérgico despediu-o: – Vai-te. Sumiram-se na quebra do cerrado. por aqui me vou deixando. empastado de suor.. num canto do curral. não é homem! Vai-te. amarrou-a na garupa e enfiava o pé no estribo. Foi quando o Pedrinho estancou a mula na cerca. Não se conteve mais. e não quero saber de mais tardança. Percevejo conversava. caminhou direito sobre Percevejo. Ninguém o tirará daqui. Bateu violentamente a cancela. A teima do culatreiro. prendeu a ponta desta ao rabo da mula e achou-se montado de novo. afagando os queixais de prognata. A conta será quando seu Ivo quiser.. Nem pestanejou.. acangalhada e alerta nos aprestos de saída. levo ainda o meu canivete. riscando o chão molhado com a roseta de sua enorme franqueira. Viu Percevejo acocorado no meio da roda. grossos pingos começaram a cair. ao primeiro puxão. Fez uma rodilha. E sorria pachorrento. a tropa está há quatro horas de saída. Uma conta a liquidar E costas de fazendeiro. não é homem. e. perrengue! Um homem que se deixa amarrar pela barba. entrou montado no terreiro. rindo constrangido. O moço tropeiro não trepidou. é suficiente. ali tirou uma comprida e consistente embira de timbó. Nem um único olhar lançara ao fazendeiro. Paralisara-os a todos tamanha audácia! E foi assim. Mas à noite. roxo de vergonha. Percevejo se pusera também a trotar atrás. desesperadamente. Lá na fazenda. estarrecidos. quando o dianteiro correu do interior. E ninguém se movera naquele rápido segundo. a olhar significativamente os rapazes em torno. a corda na mão.. soprou um vento quente.. E nenhum tiro se ouviu. noutro improviso: . em nó-de-porco. bradando: – Olhe. não há de ser o seu patrão que mande chover por outra forma. Avia essa conta ou volta para o pouso. O rebenque metido no cano da bota. sobre os calcanhares. deitando os bofes pela boca.

aproveitando a estiagem da manhã. . à passagem.Mas agora venho a crer Que pra tudo Deus dá jeito: Lá no mato tem timbó Que se tira sem o lenho. elevado à categoria de arrieiro. que derrubou a grenha e passou daí em diante a usar a barba raspada à navalha. sob as vistas de Jerome. convenceu-se tanto o pobre-diabo do que lhe dissera o patrão. Quanto a Percevejo. Os peões. Os guizos carrilhonavam em conjunto no bulício matutino. a tropa toda arribou das Estacas e desfilou unida ao longo das tranqueiras do Ivo. Mas iam todos precavidos e traziam à bandoleira os rifles de estimação. Que se passa no gogó À maneira de sedenho! No dia seguinte. faziam estalar indolentemente a lonca de seus compridos piraís.

E saiu fora. seu Dito? – perguntou um adventício assentado numas retrancas de cangalhas e batendo fogo no isqueiro. voltou ao paiol da fazenda.. ferrando uma patada no ligal que servia de mesa. não soube reparar no desvio que conheço. Os campos desdobravam-se por devesas e baixadas. assentado sobre os calcanhares. macho rosado de fiança! Levou-o um arrieiro por seiscentos bagarotes. quando traquejava na linha de Cuiabá. o Benedito dos Dourados enfreou a mula rosilha e espalmando satisfeito a mão no lombilho dos arreios. um negralhão espadaúdo. arresta que fia fino pr'essas estradas. não resta dúvida. sem o que corre chocha a função – caçoou o cabra desamarrando a besta no moirão do cercado. que descobrindo com precaução o naipe seboso de suas cartas. e a mula. e uma franqueira aparelhada de prata de quebra. Abeirou já montado do batente. um cafuzinho pernóstico de gaforinha e barba rala. acendeu-o. – Vá feito. um trabalhão. e assunta que. muito branca. além de ferrada. estendeu para o interior o braço. mas a Estiva está que é uma lazeira. escutava descuidado a pacholice do correio. barriga de coeio – berrava o Malaquias. enrolou-o cuidadosamente e puxando com um graveto a brasa da fogueira. sem lua. para toda a companhia. e amilhada como vai puxa bem légua e meia. com um solzão à mostra. os quatro quartos. – Estou de forma! com quinze quilos e quinhentas gramas! – retrucou Joaquim da Tapera. Retirou detrás da orelha a mortalha do cigarro. atoleiro pra riba do peitoral.. Emperolava-se a orvalhada no grelo viçoso do catingueiro roxo dos . quem não ama não espera! – gritava o Malaquias. – Qual o quê! Seu Zeca passou lá ontem à boquinha da noite. notas novinhas em folha. agregado do sítio. Chuva deste mês já não faz lamedo. – Morro abaixo. não ficaria contente da barganha. primeiro braço de foice e machado em derrubadas e demais eitos da roça. não fora o defeito do macho em meter-se a passarinheiro nos últimos tempos. elogiou: – Bicha braba! – Truco tapera. – A lua vai descambando. a fazer dançar os tentos e bois da parceirada. até amanhã. A lua ia a transmontar. O cabra espicaçava com a unha uma rodela de fumo pixuá que tirara dum embornal da parede... – E o garrafão de licor com a comadre Maruca – disse João Vaqueiro. mesmo assim. quero ainda amanhecer no arraial a tempo de pegar a missa do Divino.Gente da gleba A Guimarães Natal APERTANDO a sobrechincha encarnada por sobre os pelegos da sua boa sela mineira. urrando como guariba. O Benedito já virara rédeas. arrastando as chilenas. Bebericou uma golada e passando o dorso da mão pelo bigode fino. batendo lá longe a cancela do curral e ganhando o estradão. morro arriba. só estará em Santo Antônio lá pelas tantas do dia. como uma garça-real nas águas azuladas da lagoa. que eu também tenho parte do boi. – Não esqueça a minha cabaça de pólvora para as salvas de roqueira no Chico Fogueteiro – avisou o Malaquias interrompendo a partida. baforando dous tragos longos de fumaça. arre! está um frio das carepas! – Veja lá um golo de pinga pra esquentar – obsequiou de dentro alguém. a cabeça e o fato! – pilheriou o cabra entrando e indo abeirar-se do lume. levantara-se num repente até a cumeeira de sapé. – Bicho como aquele tive um. mesmo assim. olha que.. – Êh lá. em ondulações suaves e alguns sulcos fundos. com o mato já escuro. onde a camaradagem se entretinha ferrada no truque. – Já de partida. truco no meio. – Crioulo de sorte – observou o adventício. – Esse não esqueço eu. onde negrejavam restingas de mato e os renques de buriti que orlam o curso dos córregos das vargens. a passagem. Bicho bom! como aquele bem poucos. a rosilha é estradeira. tomando o cuité que lhe ofereciam..

Bota um lenço no pescoço. além. As divisas do Quilombo desapareciam ao longe.serrotes e a gadaria ruminava ao luar. amodorrada. Nessas vaquejadas. Mau-olhado dalgum moço. envoltas em neblina e luar. faltara à sustância. ao alto do seu pampa campeador. enquanto a camaradagem. por pouco que se deixara ficar. o cabra. assombrado. acompanhava-o agora no seu vôo rasteiro e balofo. rumo do povoado e do cochicholo da Chica. alta noite. no dia seguinte.. se a fraqueza lhe dava às vezes à canela. botava a mão no queixo. não era de raspar-se com a estrela boieira para o povoado e lá. indo postar-se adiante. rosronava d'olho avelhacado: – Home. ganhava a porteira e dentro em pouco lá ia. para recomeçar à aproximação da montaria. ao vê-lo noutro dia como sempre. pr'essas pelintragens. A mula cortava a estrada na marcha batida. Ajuntavam boiadas para a venda do ano. forte e desempenado. um luar tão claro como aquele. Mau-olhado dalgum moço. ele aparelhava o macho queimado – velho sim. que pedisse quem lhe corresse nas pegadas à desentoca.. o jeito de querer sonegar-se com a morena. mesmo quando fosse para dar uma rodada bem feita num garraio espantadiço ou rês matreira enfurnada nas brenhas. Pra livrar dalgum quebranto. Qual! parece mais obra do capeta! Pois meu povo. – Raparigas. no fundo da baixada. O Benedito repisou a melopéia: Pra livrar dalgum quebranto. levantar-se com o sol. espichava-se pelas redes e mantas. como sô Dito. para. Assim. que lhe sabia das escapadelas. estrada afora. acostava-se jururu à rapariga e fazia trabalhar o . um galo tresnoitado arreliou numa palhoça. para que não o dissessem mofino e mulherengo. coçava o picumã da barba falha e metido lá naquelas espáduas largas de preto nagoa que eram a admiração do pessoal. nesse mesmo estirão. Aí. desengonçado no arção. chapadão em fora. quando vinha a tardinha. ao traquejo costumeiro. arrotando valentias e pabulagens. metido a noite toda em vira-vira de cateretês e sapateios à viola com a Chica. quem havera de dizer. amarra o cabelo. O Malaquias. um só pulo a Santo Antônio para deitar seu olho enamorado à cabocla. Era pelo começo de seus amores com a Chica do povoado. só ele mesmo! Eta gente. mas ainda marchador – e à socapa. laço à garupa. viajando. – toda dengosa e faceira em suas chinelinhas arrebitadas de marroquim. A labuta ia dura na fazenda. mostrando corpo mole. mal tivera tempo de dar. no decorrer duma quinzena inteirinha. vezeiro em tretas. – ao outro dia agüentar escorreito com o seu posto no campeio. um curiangu que encontrara a fingir uma ponta negra de cerne emergindo do solo. plena andadura. Bom tempo aquele! E nunca. Caburés e noitibós estridulavam a sua elegia noturna à beira dos capões. donde arribava madrugada alta. abeirando a passo miúdo da Estiva. após o jantar. à sombra tranqüila das fruteiras-de-lobo e pequizeiros da chapada. E mesmo – que nesses bailaricos surgiam dessas – topar pela frente um dunga qualquer de quatro costados. juntando esporas. algumas vezes entremeadas duma quadra esquecida: Menina. ia a chupitar fumaçadas. Não! que nesse caso fechava mesmo o tempo. a mula resfolegava. campeasse em plainos de malhadas ou fossem cerradões garranchentos.

estralejante.... enquanto a cachorrada saía a ganir à lua no terreiro. aperrava a arma. reagindo contra o medo. que a vista turva não distinguia bem. tão fundo. Pequenote – puxava então guia de carro na fazenda à falta doutro préstimo – vindo duma festança em Santo Antônio. um grito rouco. sob uma coberta. Uma cruz. Uma cabeça branqueada surgia agora da terra. cessou a cantoria. voz um tanto travada pela comoção. crac. O macho entesourara orelhas. afirmavam outros. Mas essa noite. com cautela. como que grudado ao ingazeiro onde encostou para não cair. uma sensação incômoda molestava-o sempre naquele travessão de mato. e isso. contudo. segundo diziam uns. que atravessava a ribeira. talvez pelo costume adquirido. um fogaréu luziluzia entre os cipoais. empanzinado de cachaça. ou houvesse ali uma tropilha de feiticeiros apanhados em tramóia. estacando na estrada. estirado no chão duro. Não havia duvidar – era assombração. no aceiro do mato. uns aqui direitos como guardas. passasse aí na Estiva. esperando pelo amanhecer.. que só de lembrá-lo agora os pêlos se lhe arrepiavam na cara. sinistro. um mal-estar danado cerrava-lhe o peito. dumas sopitações do coração. quando morresse. juntando-se muito aos que com ele iam. palpando o terreno em torno. Negaceando. quando no codório. sob o xadrez da camisa uma prenda querida da Chica e nos lábios escaldados a impressão gostosa de sua primeira boquinha – a cabeça zanzando. vindo do arraial. falta d'ar. Uma voz que nada tinha de sobre-humana. eis. e. metia-lhe medo com aquelas compridas unhas de pássaro agoureiro e as histórias infindáveis de sacis-pererês assobiando ao lusco-fusco no olho do pau. Junto ao córrego. Crac. toda roída de velhice e caruncho. um rosto magro olhava o céu. braços abertos. Ele caíra do céu das recordações e olhava em torno. como se andasse alguém encomendando almas a Satanás. avançou sorrateiro. as formas do corpo sobressaindo angulosas da mortalha. e o luar tão lindo. impressão nova que lhe infundia ao ânimo uma ardideza capaz de enfrentar com o Cuca em pessoa. tonta de paixão – topara com boa naquele trato de terra. com a impressão ainda fresca do beijo da Chica. e era quase aos choros. Com a idade. restos talvez de quem sucumbira escanifrado de fome. Ele detivera-se a olhar tudo aquilo. mastigava as ladainhas. estourara ali perto o Zé Caolho. que tomava agora uns tons lívidos ao entranhar-se nas primeiras árvores da Estiva. Ao estampido. Apeou. ao pé do morto. onde a cruz do violeiro avultava dentre o mata-pasto e samambaias da beirada. outros ali de cócoras. simplesmente uma cruz. o motivo de todas as suas dúvidas e hesitações ao momento de pôr o pé no estribo e ganhar a estrada batida. não se lembrando dessa vez da promessa que lhe fizera o cantador duma feita. quando a queimada vinha já a ponto de pedir que se tirassem as teimas ao valentão. mão na coronha da garrucha. transido. um amontoado de vultos esquisitos. Fosse lá a morena vê-lo como se portava naquele aperto. que asseverava à noite aos pequenos. d'alma penada. O caso é que era um fraco da meninice. Desde então. pareceu ao cabra que andava mal em dar assim de costas ao perigo.ferro. fora-se a maior parte da perrenguice. queixou do fundo do buraco: . geladinho de terror. apontando o buço. lívido. a cruz do troveiro. já que o animal empacava de vez. tão angustioso. ou houvessem os vampiros e demônios chupado o sangue em seu festim imundo. um ferro a retinir no fundo da cova. O certo é que o velhote. gemidos de menino pagão no cemitério. chega-lhe com o vento aos ouvidos. Fosse noutra ocasião e torceria rédeas. Era agora um desfiar intermitente de ladainhas. vagamente. por vias dumas peraltices. pragas de rola fogo-apagou no alto dos telheiros e cousas mais. Três anos havia. alumiando ao fundo. de vir puxá-lo pelas pernas à meia-noite. costurando o mais intrometido. berrou: – Lá vai obra! Descarregara ambos os canos. cantador daquelas bandas. Lá estava ela. no meio espaço. donde aquele clamor parecia subir. em meio o seu montículo de pedras. Passava alheado.

que frechou direita ao rancho dos tropeiros. enforcado no trapézio de aroeira ao ângulo esquerdo da sacristia. E como tinha boa alma. que lá ia em camisola. Morrera esse dia e o pai. Pelos currais mugia o gado. gente – ia agora a matutar. soturno e imenso. E com as barras que vinham quebrando. arrastando pela mão a filharada. um filho do Cristino. é o velho Cristino! – Ele mesmo. abafando o horizonte. – Ora. moço! Uai. moço! Anda a gente a cumprir com seu dever de cristão e saem-lhe em cima aos tiros! Já se viu só! Santa Maria!. entre lágrimas.. prestes. junto ao bafio peculiar dos templos do interior muito tempo fechados. em surtos trôpegos. que também ganhava a vida carreando nessas estradas. dependurou os arreios num caibro baixo do teto. como se não bastasse uma só desgraça num dia. rumo da igreja. escola do mundo. trec. todo prenhe de assombros e aparições. quedavam-se a observar os intrusos. quando o surpreenderam os tiraços do passageiro. Pelo teto desforrado. desapertada a cilha. E o velho carreiro. a paramentação dos altares de pobreza vilareja. Rédeas encurtadas. inquietos e atordoados de luzes e o burburinho desusado. farejavam avidamente a cria presa. veio até ele. soturnamente.. de mistura com o arder de ceras e rolos de incenso. A tropilha de bruxos encapotada ao fundo. sobre o pavimento úmido de terra batida. o respectivo toldo de couro malhado.. a gente topa cada uma. amontoado pelos cantos. esgueirava-se ao longo dos casebres. Já as barras vinham quebrando e no cabeço dum serro.. a niquelaria da cabeçada retinindo festivamente. no vassouredo rasteiro onde trilhos se entrecruzavam em teia. – Ahn! isso é outra conversa. a alumiar ao fundo. alguns morcegos erravam às tontas. soltando após doloroso e prolongado bramido. onde o sino se pusera a badalar a intervalos. Pelo largo. trec. II A madrugada amiudava. em direção à capelinha. o cheiro enjoativo da excrementação daquelas “aves” noturnas. apegandose ao caruncho das traves e de lá.. a estrela-d'alva minguara o seu clarão lacrimejante. esse mesmo sertão desaparecia ao longe. O defunto do lençol e para o qual olhava ainda com desconfiança. que o poviléu contemplava em silenciosa e profunda veneração. orando ao Santíssimo. bebericando café. trec. O rapaz desenfreou. o galo amiudava o canto álacre e as vacas leiteiras. . que o velho veio aprontar. agitando as suas cabeçorras de ratos.. e imagens toscas. Tudo ficou claro. Mas não era para menos! Vote. adensava o lençol matutino da neblina. ladravam cães. o chinelinho de couro na ponta do pé. Pois me parecia. esculpidas a maior parte por ali mesmo.. Benedito deu entrada no arraial no trote picado da mula. embiocado em xales. mui branca e tremeluzente. e procurando consolá-lo e entretê-lo com o seu proseado fácil de mestiço imaginoso. ajudou-o a enterrar o rapaz e passou ali ao pé do fogo o resto da noite. a mula no rancho dos tropeiros. – Sertão. era o carro do velho. arrancando-se do fundo da escavação. fechada a cancela. passando a beiçama rósea por baixo dos paus de porteira. embrulhado no pala.. semitonta de sono e entanguida de frio sob as dobras da saia materna. anunciando o romper do dia.– Olha que me mata. estava ali cuidando da sepultura. no retintim das esporas. E andava em torno. misterioso. os fueiros e as cangas e cambões enfeixados ao lado. saiu então apressado. Apanhara umas febres no Veríssimo e vinha por toda a viagem tiritando no fundo do carretão. enfiou à Pelintra o embornal de milho que trouxera à garupeira e. tremendo. De lá vinha o clarão tristonho dos círios. E o mulherio do lugar. – Êh. no nevoeiro da manhã.

um tanto arisca e sorridente – reconhecera-o de longe – ensaiando o seu passo requebrado. Nos coqueiros de guariroba que ladeavam o calvário do adro. onde a água minguava a maior parte do ano. num alto que apanhava a linda vista do povoado. de não o ter visto ainda corresponder a preceito com as pancadas de contrição que a assistência rumava ao peito. ela adiante. após voltas e reviravoltas. Um güegüé morrinhento saiu do fundo do quintalejo e veio escarreirado até a rampa por onde subiam. Não o vira. um padre redentorista vindo expressamente da vila próxima. A idiota continuava a rir. para o gozo e a secreta ventura de seus olhos. Aí vinha ela já. E seguiram pelo pedregulho da viela. Na sala. roçagante. E ia fora a garoa matinal esgarçando-se e acentuando os contornos do casario. de roedor. sólidas e amareladas. o bócio enorme avultando sob o queixo. por onde tantas vezes passara feliz. onde se tinha ajoelhado e perquiria em torno. que ia enrolando e desenrolando em espiral pelo cabo niquelado. que principiava a debuxar-se dentre o caio alvacento das fachadas. naquele seu vestidinho de chita azul bem liso e justo ao corpo. medo do purgatório não é brincadeira.. sô Dito. e os dous passaram. Mais uma vez.. onde tanta alma de Deus vive a penar. estourando no meio da praça. aquela dengosa morena que fora o encanto de suas primeiras emoções de homem e a quem queria com a violência e o ardor que os daquele sangue põem em suas mínimas paixões. Estava findo o ofício. escandalizada. sá Chica.. ele um pouco atrás. hein. que o sol não tardaria em pouco a branquear de vez com a sua grande luz cáustica de manhã sertaneja. presa das escápulas. Ao fundo. – Ehú! ó Joana – acenou-lhe a mulata. ofegante e rendida. bota a chaleira no fogo. num enleio que nem o hábito.A campainha retiniu mais uma vez. chalrava agora um bando de pássaros-pretos. . mas aqui dentro. Ganhou o adro. purgatório é este mundo. que o trazia enrabichado havia três anos. – Ite missa est – perorava afinal o celebrante. tatalando as asas. arrepiados. – Não quis faltar à devoção. Uma boró apareceu no momento ao terreiro.. entrelaçados. lá estava ela. a entrada baixa ao lado. na face cor de mate. no palheiro. uma cacimba afogada em estendais de são-caetano e fedegoso-bravo. Suspirara fundo. para rezar por certa ingrata que sei. abanou a cauda farejando e foi anicharse entre cinzas. transpondo num salto. saltitando de palma em palma. atravessando rapidamente a praça em bulício.. absorta na devoção. repenicou o sino na sua forquilha de aroeira. feito todo de denguices de felino e arqueios de pomba-rola. Aos atropelos. a vassoura de piaçaba na mão.. Ele levantou-se lesto do canto à entrada. que ia ter. mostrando os dentinhos claros. no coração. nem o tempo tinha conseguido ainda dissipar. à fonte pública do lugar. e veio esperá-la à esquina dum beco tortuoso. reconheceu gente de casa. oratório. fruto capitoso que o sol sertanejo amadurara e enrubescera despercebido ali. vincando o canto inferior do beiço. Um foguete subiu ao céu. por sinal que um tanto macambúzia e entregue toda ao terço do rosário. mesmo porque uma velhota se pusera a vigiá-lo com o seu único olho de coruja rabugenta. acurvada. tenho-o sim. brincando com a trança da açoiteira. Também não insistiu em olhar muito para aquele lado. donde duas compridas presas. – E ria. que os cercados de taquara dos quintais confinavam. surgiam. a casinhola de Chica abria as duas janelas ao longe. naquele fundão da boa terra goiana. a soleira. pendia a larga rede cuiabana. – Qual o quê. os pequenos do adro precipitaram-se a ver quem apanharia a cana. aos ganidos e mordidelas com os bernes da gafeira. na certeza antecipada de logo ter aos braços. talvez. naquela mesma toada cavernosa de bronze gretado. em derriço. e um riso atoleimado escorrendo da boca desdentada. mui brancacenta em suas paredes barradas a fresco de cal. a mão tisnada repuxando o fio do bigode. latindo furioso. Sim.

o sorriso bonachão na cara desbotada. Benedito espreguiçou-se. duas séries intermináveis de fotografias do papa e grandes anúncios ilustrados do Rio. tem pimenta. Eram-lhe familiares aquelas gravuras.. Foi à loja do major.. Ele passou-lhe o braço em redor da cintura. junto ao castiçal de latão sobre um volume encadernado da história de Carlos Magno e dos pares de França. meia dúzia de tamboretes de couro tauxiado ao pé da mesinha de costura. de quando lá ia levar os carregamentos de açúcar e café que o coronel mandava anualmente ao mercado. essoutro que já mordisquei. é melhor. gente. encheu-lhe a tigelinha bordada d'azul. veio por último esbarrar na venda da Maruca.. um dos primeiros ali grudados. Parece até que é separação. num enervamento volutuoso de corpo e sentidos. a dependurar o xale com que viera embrulhada. deleitado. este não. preguiçosamente. com meiguice. toma o café. Deu um giro pelo arraial. sorrindo. Com denguice. Pela volta das dez e meia. licença. – Espera. alinhavos inacabados de corpete. Algumas fora ele até quem trouxera de Goiás. – Hoje não.atravessando de lado a lado o pavimento de massapé.. e ligeira. crepitavam os gravetos do fogão e a gordura na caçarola. a catá-lo minuciosamente. e cúmplice da primeira beijoca que roubara à Chica. os olhos langues. os recortes de jornais com retratos e figuras coladas de alto a baixo. encarandoo fito. O tempo estava mesmo quente. e Chica entrou no quarto contíguo. ora já se viu só!... a forrar todo o espaço acima da mesa. – Que enjôo!. meu povo. Ela apareceu logo. como um cachorrinho de estimação. Depusera a bandeja sobre um tamborete e sentara-se ao lado na rede. jogando o truque e o douradão. de cujo balaio transbordavam entremeios de crochê. petiscando pelo pires uma golada. estou frigindo uns carajés. . na rede. antes que fique escuro! – Quebrou um lanço da cerca. Tinha mesmo um vago prazer – misto de amizade e saudade antiga – em remirar um Santo Antônio já amarelinho. Ele espichou-se. coraçãozinho. Um cheiro forte. um prato de bolos na bandeja. Pôs-se então a fitar distraído as folhinhas que cobriam a parede.. uma senhora Sant'Ana em moldura. numa felicidade calma de velha posse.. um cabeção de crivo.. Ele deitou-lhe a cabeça ao colo.. pois desde o lado de fora ouvira exclamações: – Milho no muro. No canto oposto. a cuidar das encomendas.. vinha lá de dentro. uma banquinha com a sua almofada de bilros e a renda em começo sobre o papelão de alfinetes... testemunha silenciosa de seus papagueados amorosos. abrindo-se em leque no reboco nu. fazendo cair do alto o café aromático.. – Cabocla faceira. eu vou dentro! – Vim topar o portão da romaria!.. – Licença. uma noite em que ela trazia um enorme monsenhor na rodilha do cabelo e tinha o riso mais úmido e sensual nos lábios polpudos e sangrentos.. O resto da mobília espalhava-se em torno. à cata do fogueteiro e conhecidos. Àquela hora. pesava-lhe o sono as pálpebras cansadas. homem. a mão da amante ia perpassando devagar por sobre os seus cabelos corredios. de banha fresca derretida. o bule fumegante à outra mão. A claridade solar entrava aos jorros pela porta aberta. bocejando: – Ó benzinho!. como está hoje mesmo. olhos cerrados.. a rapaziada bebericava ali aguardente. Chica acordou-o como pedira. homem. em sua fatiota domingueira de riscado. Anda. estampas e cromos tirados de peças de morim. Lento e lento. acalentava-o pouco a pouco. – Me deixe.. – Uai. olha um bolo. todo o santo dia. às cócegas.

desafiou todo ancho. topeio ali atrás. vão logo de cambulhada para as areias gordas. para não esquecer quando sair.. Estive mesmo quase a tocá-lo para o povoado. estatelando a espadilha na mesa. vozeou: – Êh! carta véia.. agora não relaxo mais a peia. o Ditinho dos Dourados! Pula pra cá. E dizer que o cigano com quem o barganhei afiançou ser mesmo o bicho raçoeiro. Um porrete! Fiz a simpatia com a minha égua baia e nunca mais saiu deste largo.. consulta seu companheiro e vê se vocês combina! – Truco vai. diabinho! – Onze! Baralho na mão do bronze! Junto ao balcão. que a demora também é pouca – ajuntou Benedito.. minha gente – avisou alguém. seu Zé. rapaz. êh! velhote treme-treme! Corto o sete-de-ouros com o curinga! Levantara-se no bico das botas e abatendo-se com arreganho. E um mulato apessoado. – Temos aí cabra pra trucar sem zape nem catatau. entra na roda. Cada qual sabe de sua vida. pessoal? – Agora é mecê – respondeu o velhote. viva. enquanto baralho cá uma corrida com esta rapaziada. que dependurou ao alcance. já lá vou atrás do malandro. – Estudante de medicina. – Ele mesmo. Sá Maruca. sá Maruca. conhecessem há mais tempo quem fora o Generoso das Abóboras e a conversa mudava de rumo. moço. – Quem é mão. – Não duvido. gente! Cabra turuna pra esquentar uma partida! – Pois então entra aqui no meu lugar – obsequiou Zé Velho – que tenho d'ir ainda campear o meu piquira. numas barrocas de catingueiro. da porta da cozinha à da rua e da frente à porta do fundo. milho vem. não se afoba.. resmungando. já entusiasmado.. sempre passo hoje a peia de sola curta no danado. tapera! Por que não me espera! – gritava já ao lado o primeiro parceiro. minha gente. Faça isso três dias seguidos e pode dormir depois descansado. mas. onde voejavam moscas caseiras sobre coscoros.. numa vara. apanhando o rastro. – Trago aí debaixo dos coxonilhos um sapiquá.– Ora. vou em Roma volto em mina. não fosse arribadiço naquelas bandas. Corrida a roda. piso logo na retranca do velhaco. Chincha de Medéia! O outro volveu encafifado: – Velhote. passando e repassando por dentro da casa. meia légua pra cá da Estiva. mosquito na corda desce bem! – Assim.. – E mecê vai olhando as encomendas. – Os temperos vão de lado. vai dando a salga ao animal por debaixo do sovaco. – Se é um piquira cabano. muito obrigado. cortando-lhe a vaza.. colocara os embrulhos.. – Truco. . – Ciganos? Dizem até que têm parte com o Cão – advertiu Bentinho Baiano. que o que tenho na patrona não chega para o pito. Da outra banda do saco. compadre. que fizera a segunda. treme-treme. manda o pequeno buscá-lo lá no rancho. Até à vista. lição pra gente. – Não seja esta a dúvida. Mundo. levou um sumiço desde trasanteontem. Maruca coçava a verruga do queixo. – Isto é que é falar às direitas – disse Bentinho Baiano. Ponha mecê numa cuia uma mancheia de sal torrado bem moído. – Cuidado. por via das dúvidas. menino! Jesus Caetano! Noss'Senhor. – Para animal fujão conheço santo remédio – aconselhou um velhote d'olhos pretos e cabeça branca. Benedito retrucou. – Se têm! Mal esticam a canela. estrelo de testa e ferrado das mãos. Vá lá uma criatura de Deus fiar-se naqueles excomungados. por sinal que trazia cincerro. que tinha uma gagueira na voz e os membros trêmulos. que temos parceiro sacudido. E depôs as cartas. e metia com pachorra o garrafão de licor no fundo do piquá. seu Dito. três vezes sem parar. – É receita afamada dum benzedor das bandas do Tocantins. bota pr'aí mais um cobre de pinga e meia quarta de fumo. fica aí à vista no varão. Comigo é nove.

mal-assombrado. mas trabalho era ali! Isso. Lembrava-se como se fora naquela hora. a olhar apatetado a cobra. baforando cigarradas. à beira dum ribeirão. com um frio de bater queixo. às placas estraladas. nunca vira cousa assim. só mesmo naqueles fundões. se há. ao pé duma sucupira. sem movimento. um tanto agastado. em torno da mesa cambeta. conversa fiada. esse mundão de mato grosso que principia em Jaraguá. e um seu mano obteve as divisas de furriel… – Andava nesse tempo numa comissão de linha telegráfica. moído como estava. mil vezes antes os carrapatinhos. o pavimento de terra úmida com a gosma dos gorgomilos. porta-mira de turma. saiu às gatinhas da barraca. mesmo. esses. Cruzes! Parecia até que era ainda em sonho! Descerrou de novo os luzios com cautela. entre folhas secas. pesando. a calça. a cabeçorra ao centro. onde dormia. Mas. uma cascavel dormia sossegadamente. a cabeça transtornada. é verdade. porque não resistem às primeiras chuvas do ano.A partida esfriava. Ferrara no sono que nem camaleão no oco do pau. o mais. – Vote! Praga desse feitio. que o Dito é assim mesmo. e. o pessoal já estava de pé. abrindo picada na mata virgem. mas uma boa fumegação bota-os abaixo por dá cá aquela palha. mas esses. com danação. Sobre o seu peito. começou a ter uns sonhos maus. Assim. Puxou umas mantas dos arreios. meio cerrados. conquanto trouxesse a cara tapada sob o cobertor. onde a jagunçada dera pancas ao antigo batalhão cá do Estado. o velhusco repetiu ainda uma vez. Ficou gelado. e cuspilhando a miúdo. Ali os borrachudos e miruins eram que nem castigo. seu Generoso. Com o virar da madrugada. cai no Araguaia. teodolito e apetrechos ao ombro. Madrugadão. como sucedera na estranja a uma velha. que se encontram às bolotas nos travessões de mato. – Ora. Féria boa. ora uma porção de diabinhos se punha a batucar no seu peito. e. a camisa e vinham aferretoar-lhe embaixo as carnes. . os olhinhos voltados para a sua cara e a língua em forquilha para fora. que… Acordou. indo arranjar a sua cama bem longe do córrego. Os mosquitos – zim!… zim!… – outras vezes – zum!… zim!… – estas eram as muriçocas miúdas. Os pernilongos então. Venha antes a história. nem tampouco tivera a língua perra nalgum aperto que pr’este mundo de Cristo a gente topa… O caso acontecera pouco antes da campanha de Canudos. como estava a dizer. ganha o Tocantins e vai acabar lá para as bandas do Pará. Amiudavam-se os copitos duma cachaça amarelinha e rascante – das boas – que a vendeira trazia reservada para os fregueses mais chegados. A turma armara o acampamento num aceiro largo. tinha as orelhas a arder. cantava perto um curió no galho da sucupira. ora era enterrado vivo. enroscada. tornaram a fechar-se com força. não pudera pregar o olho boa tirada de tempo. que a lâmina dos quicés ia a grosar. aquilo já passava de mangação. segundo ouvira contar. na luz das estrelas. o coração aos trancos. rumo do serviço. sai daí! Que homem mofino! Deixa de zanga. ringindo ásperas. O dia acabava de clarear. azoinavam-lhe o ouvido. pois não. sorvendo pelo pires o conteúdo da xícara: – Velhote?… treme-treme?… – Passasse aquela gente o quarto d’hora que tinha experimentado e o caso mudava de feição. desbonecando as mortalhas de palha. mas assuntassem que nem sempre aquela tremura de pernas lhe atrasara a vida. no calor brando do corpo. pisca-piscando. beiradeia os rios Uru e das Almas. A companhia espreguiçava-se no saguão. Poucas léguas faltavam para alcançar o porto do Registro e ganhar a outra banda do rio. as horas iam correndo e manhãzinha lá o esperava o serviço costumeiro. atravessavam com o ferrão a lã grossa do pala. pesando. Abriu os olhos. E como entrasse o pequeno com o tabuleiro de café. Pois não. é do jogo. sobre sacos de mamona. rumo do Araguaia.

como era domingo e dia santo. Aumentara a gritaria dos meninos no terreiro da fazenda. escarranchados os demais na gangorra. é curtir uma alma de Deus as amarguras daquele ruim quarto d'hora! – Santo nome da Virgem. tem força. pessoal. despedindo-se dos parceiros. a vendeira aprestava-se a fechar as portas do negócio. e.. como um moleque o acompanhasse curioso. III Deixando atrás a longa trilha paralela do ferro das rodas. Nhô Dito. aquele? Tá. esse. João Vaqueiro alinhou as roqueiras em direção à estrada. foi desenrolando aos poucos os anéis do corpo e saiu devagar pelo meio das folhas. e mais a pólvora que sobrou da festa passada. disse ele. Se acudisse um gesto. ó pamonha. que descia aos solavancos os brocotós do carreiro. não sabia dizer. que martírio! Olham a tremura que reaparece. Generoso. e. – Pinga pr'aí mais dous dedos.. ainda meninote. Ultimavam-se os preparativos para o trabalho do dia. punha a carga à roqueira. Cheguei tremelicando. Êh. – No acampamento era tudo animação. Tinha a cabeça branquinha! – O que deve acontecer. – Qual! e resolução? Pensar não é nada. um expediente. acontece mesmo – ponderou Benedito à laia de consolo. estava salvo. pode comer terra na força do estrondo. ao canto. como lhes dizia. pulverulenta. fazer é que são elas!. fiquei gelado. No largo. vamos cá esperar nhô Dito com uma salva de sustância! – Olha que a Pelintra é reparadeira – avisou o nagoa. rolava um carro encosta abaixo. espichou a forquilha da língua. – Quem. Mas que é isso. a tarde baixara o seu clarão crepuscular sobre a mata. olha aqui este espelho. chupava pachorrentamente cigarradas. a cuja entrada dois jequitibás se alteavam. – Eu sacudia de riba o bicharoco e pulava para o lado – comentou Bentinho Baiano vivamente interessado. sobrecarregou-a com um punhado de farinha grossa de mandioca e duas pancadas secas da culatra no chão serviram de soquete. redourada e tênue ainda nas últimas cumeadas. vai para outro lado com essa cantiga. donde a sombra parecia avolumar por graduações. A camaradagem. erectos e sobranceiros àquele mar de frondes.. sá Maruca – pediu o narrador. acocorada ao longo dos puxados. como que parecia subir da terra rescaldada. o eixo lamuriando à distância ao atrito dos munhões. faulhavam ao longe os detritos de mica e uma evaporação quente. ali. ao longe. conheço-o melhor que as veredas deste sítio: peão de fiança! E. mas se há inferno nalguma parte. Afinal a cascavel. as pernas vergadas. Alguns já se erguiam. despertando. dum azul sombrio e carregado sob as últimas ramagens. – Lá vem ele.O tempo que assim passou. Vivi naquele momento mais vida que a de mecês todos somada. Ensangüentada.. jogavam o bete.. relatei o fato ao chefe. sem movimento. as juntas bambas. – O rapaz. dos primeiros pirilampos. . tá. A voz embargada. riscadas aqui. a cavar o lugar onde em pouco se aprumaria a bandeira do Divino. Uns. comprimidos os pés em chinelões de caititu e botas de veado catingueiro. vindo das plantações do outro lado da baixada. enquanto proseava. ao passo vagaroso da parelha de bois. a luz meridiana rebrilhava na areia das estradas. não havia poldro nestas redondezas ao qual não lhe desse na veneta tirar as tretas. mas. manejando o Malaquias uma alavanca no meio do terreiro. ordenou áspero: – Anda a ver uma cuia de farinha. tá. farfalhando. como atacado de maleitas. Olhei.. lá vem! – bradou um molecote empoleirado no moirão da cancela. se vier distraído. cujo peão fazia eco ao rechinar distante do carro. como cousa largada.

d'olho esbugalhado e triste. Desajoujados da canga. Não me manda nada o major? . a besta refugava. os bois foram soltos no mangueiro e o guia. um número atrasado da Folha de Goiás. Lá na forquilha da cerca saltaram lascas das chanfras do espácio. sob a luz baça do lampião de queresone. barganha infeliz duma lazarina nova. que embalsamavam o aposento com a fragrância ativa dos resedás. junto à nascente que os buritizais assombreavam. onde o coronel relia àquela hora. que se tinha deixado ficar ainda aquele dia no canavial. êh! Relógio! – entrara lá fora no abrigo dos tropeiros. a Gertrudes. contida nas rédeas pela mão segura do cavaleiro. que seu Dito não deve tardar. um latagão destorcido. Súbito. reunindo-se depois à rapaziada. naquele pedrês caolho. a barriga a impar sob a correia da cinta – sinal característico de meninada molenga. aperrados os gatilhos. abria o seu vôo místico inclinada no fundo branco do andor. E sem mais. a filha do patrão. Ao estampido. aprumou o clavinote que trouxera a tiracolo para um galho de gameleira. Ia no céu. na cutuca velha. veio enxaguar a poeira do rosto e as mãos à bica do monjolo. Vamos todos arrebentar a pipocada tão logo apareça lá na vargem a rosilha. A Divina Pomba. asas espalmadas. descarregou o trabuco de que se armara. A mãe vinha adiante toda sestrosa. Vitoriava-o uma aclamação geral. pelos cantos da palhoça. Joaquim da Tapera fez ainda fogo com o clavinote. na marcha de mais em mais apressurada da mula rosilha. – Deus o abençoe. O carro. o bócio avultado sob o carão empalamado. para calçar à hora da reza. minha gente – propôs Malaquias. virara-se no arção. pipocando estrondoso tiraço. – Desapeia. três meninas rechonchudas e bisonhas. a enfeitá-lo com florinhas de papel de seda rosa. no fundo da estrada. Na saleta da casa-grande acendiam-se agora as velas em torno da bandeira. é a obrigação de sô Quim. foi guardá-la ao paiol. sobre uma toalha engomada de linho. garrucha em punho. o agregado. Joaquim da Tapera voltou-se então. recostado pachorrentamente na sua rede de embira. Apeado. – Bênção. O lusco-fusco já se fazia cerrado nos arredores. e um par de pequenotes atarracados. chegara à frente da sua obrigação. Este. dirigiu-se para a casa-grande. e chega pra cá. agora é ele! – berrou o pequeno lá do poleiro da cerca. esbarrar ao pé dos foliões. as pontas reviradas para trás e os chinelões de marroquim amarrados numa trouxinha sob o braço. pito à boca. mas alguém atalhava: – Rebate falso. já lhe pregara aos bicos os bambolins azuis e andava borboleteando em torno do altar improvisado. o brilho trêmulo de papa-ceia. compadre. – Uma salva pra seu Quim e a comadre Gertrudes. sacudiu de riba a sela.O vaqueano escorvou o ouvido à peça e correu a apanhar um tição no fogo que fizera entre as pedras da gameleira. chupou uma última fumaça à ponta sarrosa do cigarro e fez um gesto vago. Então o recém-vindo desfechou de vez os dois canos. O fazendeiro tirou as cangalhas que pusera para ler. mui mansa e serena. sobrinho de João Vaqueiro. que cresceu rapidamente. mirando a caveira de boi-espácio que alvejava na forquilha do cercado. O caipira afrouxou a barrigueira do pedrês. atrás da copa distante dos jequitibás. afeita a roer torrões de barro às escondidas. ufaneiro. empurrando a filharada para a frente. adensou uma nuvem de pó. as pernas meio trôpegas da caminhada. De fato. Cessara há muito a grita dos meninos no curral. e as caçambas de pau entrechocando-se uma na outra. ladeada por dous jarrões. – Agora é ele. João Vaqueiro encostou a brasa ao rastilho da peça. um lenço d'alcobaça atado à cabeça. saudando a companhia. desapeia. aos avisos – êh! Barroso. atravessando em dous trancos a cancela escancarada e veio célere bufando alto. Nhá Lica.

agüenta. os anéis em ressalte na noite luminosa e a bandeira lá no topo balouçante. Malaquias dera desde cedo a mão de cal ao mastro. e a procissão se fez breve. Luísa evocava novo santo. d'alto a baixo espetadas por um renque paralelo de pauzinhos destinados a suporte das luminárias. Estas apareceram logo. Fazia-se uma pausa lenta. calhaus e terra socada atupiram logo a cova. – Puxa! puxa! – Arriba. a rebrilhar sob a paz radiosa daqueles céus e ante a serena brancura do luar. trazidas em bandejas à cabeça do mulherio. que cada qual foi acendendo ao lume do vizinho. . com unção. rumo da cozinha. Pedras. segurando-a a prego. diacho de pequeno sapeca. e aos atropelos. levado o andor à frente por quatro meninas. enrolados em talas de taquaril. foi dispondo as luzes nos espeques. Fez-se um grande círculo. que varria longe os escampos solitários. A camaradagem agarrarase ao longo do mastro e à garrulada dos pequenos e estouros de foguetes. Malaquias. reforçando atrás.. tinham sido levantadas as cruzes de bananeira. como ex-votos piedosos de passadas promessas. as luzes a tremeluzir na noite clara. em torno do casario dos agregados. ajoelhados até o fundo do salão. puxando pela peitaria. tirando a ladainha. toma tento em Nequinho. Em pouco. mui branco em sua mão de cal. aprumou-se airosamente. sim. no terreiro. estrugiu no alto um rojão. Era um magnífico cedro. aos vivas e brados ao Divino Espírito Santo. Era o sinal. Entregou os objetos e foi avançando para o interior. esculpidos em madeira. e o mastro. que se encarniçava embaixo. Os moradores do sítio. metendo um forcado de escada na parte perigosa. a torcida grossa d'algodão ao centro. remoendo cantorias. donde pendiam. a manejar o pesado macete. acompanhando as cercas dos currais. eram dous grandes cruzeiros luminosos. previamente atadas ao longo do espigão. os sete instrumentos de tortura. que branquejava ao longo da casa. trataram de encher o buraco. – Agüenta. Benedito adaptou a maçaneta. à vista das últimas eleições. alto. À saída. – Arriba! arriba! – urrou Malaquias. O major manda dizer que rompeu com o partido. puseram-no acima. não fosse também querer deitar fogo às roqueiras. Lá provava d. embebida em azeite. direito. paciente. o pesado madeiro pendeu para o lado da casa e esteve vai não vai a cair sobre os telhados. sobre a cabeça de Malaquias. por cuja janela aberta o clarão dos círios vinha alastrar-se cá fora. azafamada numa roda-viva de mulheres. o mais entusiasta. agüentando nas cordas. não me deu sossego todo o santo dia. vindo por último esbarrar junto à espiga do mastaréu. cintado todo d'anéis d'oca e tinta a três cores. gradualmente. vistos à distância. arcando de seu lado com o maior peso. indagou apressado: – Dindinha não tem mais precisão de mim para alguma cousa? – Ah. Nequinho distribuía os rolos de cera. após a qual a voz afinada e suplicante de d. sob o límpido luar do sertão. principiaram as rezas em torno do altar rústico. liso. que ele próprio fora tirar às terras da baixada. medindo de ponta a ponta uns sessenta e seis palmos bem puxados. as botas esturradas de mormaço ringindo ásperas no assoalho desigual.. O coronel colocou a bandeira. a querer provar o ponto a quanta tachada houvesse. Poucas braças adiante. junto ao calvário da fazenda. Um momento. Rasgando em raiva o ar. o resto vem aí relatado na carta. a rogativa. dando voltas às gameleiras. Foi tirando do piquá as encomendas e como a boa senhora se pusesse logo a esparrimar umas pitadas de canela no pratarraz d'arroz-doce. em torno da raiz. já seguro. meu povo – acudiu Benedito. na sala toda luzes. A rapaziada respirava aliviada. Beijou-lhe com respeito os dedos nodosos da mão reumática e trabalhadeira. Sentido naquele capetinha. homem – gemeu sufocado Joaquim da Tapera. em casca despolpada de laranja-da-terra.– Trago aqui na patrona as cartas do correio e um maço de jornais. sobre dous cavaletes. e. no afã da ascensão. iam engrossando o vozerio das mulheres. Luísa o caldo à comezaina do dia.

pontilhava o dorso da mão do rapaz. A ceia. a empurrar com o polegar os capitães de tutu de feijão para a goela dos pequenos. Só assim cumpria de todo a promessa que fizera antes pelo restabelecimento de nhá Lica. numa arteirice de colegial vadio. ora. Dito. mordeste-o na mão! Uma pequena mancha rubra. já ensaiava João Vaqueiro um descante. esclarecida a intervalos pelos candeeiros de quatro bicos. O resto formou alas do lado oposto e caíram todos com entusiasmo. mais outro e outro ainda. estás escutando? Já o sujaste muitas vezes nos braços. aproveitou-se logo daquelas luzes e desenhou em arco.. um tabuleiro de tigelinhas em cada mão. a ressumar umas gotículas de sangue. O pequeno desceu do tamborete e veio cavalgar a perna do coronel. mas agora sei português e geografia. quando trazias cueiros!. Mas nhá Lica. o pessoal do sítio. . arrepiadinho de ira. desenvolto. batendo palmas.. nasce falando. distribuíam a refeição à filharada. em silêncio. O fazendeiro. sua afilhada. e virar a bandeira para o lado da casa. Luísa surgiu no limiar da casa-grande. Nhá Lica abstraíra-se da conversa. pelos batentes da cozinha. presa das febres intermitentes quando da romaria do Muquém. arrastando-se de joelhos. na velha dança-decamaradas. Deram pela falta do Nequinho. sujo de cal. depois outro. e as mulheres do sítio. amarrotado o lindo terno d'azul-ferrete à marinheira. Nequinho. junto à velha senhora. atarefada em dar de comer a uma pequenita birrenta.D. Benedito disfarçou. vincada de dentinhos afiados. Luísa reconciliadora – não guarda mais respeito a ninguém. um a um. de súcia com a molecagem dos agregados. que pusera ao colo. como patos. explicava ainda o caso: seu Dito que se intrometesse com o que era da sua conta. Embaraçado. Mas o coronel encrespara o sobrolho. A família do fazendeiro agrupou-se em torno do chefe e para o fundo. descia do joelho o filho e ralhava severo: – Não fosse hoje dia de festa e levarias uma tunda de arnica e salmoura. A voz travada. carregando nas talhadas de leitão recheado que estavam à sua frente. influência do regime. fumegava no varandão. que engoliam sem mastigar. veio assentá-lo ao pé de nhá Lica e foi tomar assento do outro lado da mesa. obedecendo ao aviso da Dindinha... amassando entre os dedos a comida.. O moço levantou-o nos dedos. seu briquiteques. repleto. que osculou repetidas vezes.. a respectiva viola à bandoleira. ao redor da bandeira. Malaquias logo o seguiu. asseverando: – Gente de agora. em letras de fogo: Viva o Divino. e seu Dito levou uma manhã inteirinha a escrever um bilhete que mandou depois ao povoado. melhor humorado. espreguiçando-se no espaldar. duma fartura de senhorio feudal. repenicando na prima. num acanhamento súbito. Arrematou-as com um enorme ponto de exclamação e às piruetas. pé fincado atrás em oposição. reclamou assustada: – Veja só! que maldade. Nhá Lica recolheu-se depressa ao interior da casa. Apareceu logo. veio depô-las ao pé do mastro. Espalitava os dentes. assentadas como trouxas aos cantos. em fervorosa contrição. não foi nada. à mão de Benedito. Os subordinados. segundo o costume tradicional das velhas colônias. de parceria com os moleques. marinhar-se ao alto do mastro e ele. já se iam retirando silenciosamente. gravemente. para aprender a respeitar os mais velhos! – Menino de hoje – disse d. Queria apenas ser o primeiro a beijar lá em cima a estampa do Divino. Quisera o meleiro. por graduação de idade e serviço. fosse lá no tempo da monarquia. O fazendeiro embalava-o na perna. lauta. olha. fitando o moço. não fosse mandar nos outros. atirou-se a ver quem saltava mais alto a fogueira do pátio. recolheu a destra debaixo da toalha e disse chocarreiro: – Ora. No paiol. – Pois sim. cofiava a barba. este moço que aqui vês. apanhara-o a meio caminho. onde tinha ordens a comandar. amanhã faremos novamente as pazes. um arranhão.

No terreiro, à míngua de azeite, morriam as lamparinas dos cruzeiros; e o micaruloso luar do sertão, tão límpido e sugestivo naquelas terras, entrava por toda parte, espancando penumbras, devassando meandros, coado aqui pela galharada das gameleiras, alastrando-se acolá sem mancha e sem obstáculo pela lhanura plana dos chapadões. E até tarde chorou no paiol a viola, na toada doída da trova sertaneja.

IV Abrandara o mormaço do meio-dia. Com o chiar lamurioso dos carros que desciam das roças atulhados de cana para o serão da moagem, vinha refrescando no ar translúcido a viração da tarde. Nhá Lica contava pontos de crochê junto à janela do quarto. Para o fundo, abriam-se os canteiros de roseiras, a horta viçosa, as mangueiras folhudas do quintal, com sua longa fila de laranjeiras em sazão de ouro, o cafezal abaulado, dum verde retinto e sombrio; e mais além, onde a vista se perdia, vagos contornos de colinas verdejantes, malhadas aqui e ali duma rês esquiva que pascia, entre teias longínquas de arame farpado... Joões-conguinhos e guaxos importunos galravam no laranjal, em matinadas atordoantes, ora abatendo-se aos bandos, ora em arribadas para a grimpa distante dos coqueiros do cerrado, onde tinham os grandes ninhos pendentes. Nhá Lica contava pontos de crochê, a linha de novelo entre os dedos. Cismava... Eram recordações que lá iam, perdidas no fundo da memória, ao trabalho silencioso da agulha, dias de meninice, as primeiras inquietações da adolescência e a saudade ainda latente do colégio de Sant'Ana, na capital, onde bela e calmosa quadra da existência passara descuidosa. E surgiam os passeios com as boas dominicanas, em tardes gloriosas como aquela, nos arrabaldes, pela estrada do Areão; as correrias das companheiras ao longo do caminho, a colheita de campainhas e boninas, umas róseas, dum perfume intenso, outras brancas, da candidez imaculada das almas que com ela iam, apanhadas aqui, além, aos molhos, que vinham sorridentes e confiadas ostentar ao sorriso benevolente da Madre; o jogo das prendas, o chicotinho-queimado, nos pontos de descanso; e depois, ao crescer o crepúsculo, a volta para o convento, duas a duas, elas adiante, as irmãs atrás, às orações invariáveis d'ave-maria. Vinham os caprichosos artefatos d'agulha e bordado, aquarelas, pastéis, a confecção artística de almofadas para a exposição do fim de ano, que ao colégio atraía toda a alta sociedade da capital; os prêmios, antecipando as férias, passadas entre arvoredo e alegres folgares, numa chácara pitoresca que possuíam as religiosas à beira do Bagagem. No ano seguinte, a mesma vida uniforme, com as alterações do adiantamento de idade e progresso nos estudos, e de mais a mais, o gosto acentuado que crescia nela para as cousas místicas, os desvelos que punha no adorno da capela e aquele seu ardente fervor religioso ao terço do rosário, quando anoitecia... Iam então juntas aos tríduos e novenas da Boa-Morte, às rezas vesperais da igreja do Rosário, e com que ansiosa expectativa, misto de impaciência e alegria, atendiam todas, as internas, às solenidades da Semana Santa! Pelo menos, eram as únicas em que lhes fora dado tomar parte. Folias do Divino, com cantorias louvaminheiras de crianças à frente das filarmônicas, os peditórios de porta em porta por meninos e cavalheiros revestidos de balandrau e opa encarnada, o cetro, a coroa e a bandeira do Divino passeadas de lar em lar, aos ósculos extáticos da multidão e moedas e cédulas que se iam amontoando nas salvas, mal as podiam apreciar, através das persianas do monastério, a cuja saleta exígua recebiam algumas freiras o farrancho. O ano passado, no entanto, aparecera ali no Quilombo uma das tais folias da roça, mui diversa, aliás, das da cidade. Compunham-na um bando de trinta mandriões, cavalgando animais lazarentos, apetrechados de pandeiros e violas, que se tinham deixado ficar em pândega na fazenda oito dias seguidos. Ao aproximar, deram uma descarga de trabucos, que a camaradagem

do sítio replicou com salvas de roqueiras. Depois, apeados, aos descantes e loas, encostaram a um canto da sala a bandeira e caíram em regozijo na dança, aos sapateados e louvaminhas, que se prolongaram até altas horas da madrugada, e insaciáveis todos de cachaça, que o coronel mandara vir às canadas da armazenagem. Abateram-se reses no curral, despovoou-se o chiqueiro de porcos, vários leitões foram assados, e, daquela folia, só guardara lembrança do muito cuidado que lhe dera, e à mamãe, na direção da cozinha. Ainda bem que o papai estava acostumado àquelas pousadas intempestivas. Mas o que lhe doera ao coração, ao saber, foi os foliões, apenas saídos do Quilombo, terem ido arranchar meia légua adiante, na palhoça dum pobre lavrador, onde acamparam três dias seguidos. O rancheiro, coitado, ficara certamente na miséria, desertos os currais e poleiros da pequena criação, em folgança devorada pelos tiradores de esmola... – Ora, que fazer – dissera o coronel. – Costume da terra! Não guardava, muito menos, daquele tempo na capital, lembranças das cavalhadas que o imperador eleito do Divino realizava no campo de São Francisco para gáudio da população local, com aquelas histórias tocantes do cativeiro dos cristãos na torre de Ferrabrás, os amores da princesa Floripes com o par de França, o cativeiro dos mouros, a sua conversão na capelinha, que armavam ao segundo dia, e, no terceiro, a corrida final de argolinhas, que punha termo àqueles divertimentos. Esses festejos, presenciara-os o ano passado em Curralinho, onde tomavam parte o papai como embaixador cristão, e Dito – rei dos mouros. Guapa cavalgada! Como empinava bem o baio de estima de Roldão, dizendo atrevidamente a embaixada de Carlos Magno ao rei dos infiéis! E com que arrogância e donaire lhe respondia Dito na letra, cabriolando o ginete, a lança alçada, dois passos adiante da sua guarda! Chamejavam espadas. A pedraria reluzia faiscante na bordadura azul e vermelha dos justilhos e pelo cravejamento das fivelas prateadas, que prendiam os penachos encaracolados dos guerreiros. O sol lavava de luz opulenta e clara a arena sonora onde a pugna se desenrolava fremente. Havia um contínuo tropear de cavalos, mal contidos nas estacadas, e o vozerio indistinto da multidão, sob o varandil dos palanques, mãos em pala, à crueza dos raios solares, enquanto a charanga atacava num ângulo da praça a marcha belicosa. Dentre o contínuo lantejoulamento das arreatas suntuosamente revestidas, a moirama passava em árdegos serbunos, crinas entrelaçadas, ferraduras e cascos dourados rebrilhando ao longe, à desfilada franca, toda sangue em sua vestimenta de veludo carmesim, as flâmulas tremulando na haste pontiaguda das lanças, à investida audaz contra os defensores da Fé. Estes, dentro o uniforme azul-celeste de seu rei, não menos garbosos e escorreitos, saíam em campo, à rebatida brusca dos barbarescos. Apreciara o desenrolar de toda a justa do palanque de pita que o coronel mandara armar no lado principal, bem a coberto do sol. Divertira-se tanto aqueles três dias! Mas em Goiás, quando no colégio, as irmãs não as levavam ao campo de São Francisco, supondo talvez, em seu piedoso entendimento, um tanto profanas aquelas exibições. Havia ainda, na capital, outros divertimentos por ocasião das festas do Espírito Santo. Danças principalmente. O bumba-meu-boi, que afugentava às marradas a petizada; a dança-dosíndios, na sua véstia cor de carne, tinta de urucum, à moda dos tapuios, os cocares e as cintas de penas variegadas, trazidas de propósito de aldeamentos indígenas da beira do Araguaia, com toda aquela figuração de brandir de tacapes, lamentações de pesar em torno do pequenino cacique morto e o grande grito vindicativo de guerra: Jaburê, quá! quá!... Jaburê, quá! quá!... Começavam os combates singulares de lança, porrete e frecha, sucessivamente, em torno da maloca assanhada. Os campeões procuravam-se por sob uma abóbada de arcos entesados, em artimanhas de selvagens e choques bruscos d'armas.

E ao tempo que os adversários se sonegavam felinamente, uníssonos, num diapasão que ia do mais leve sussurro ao estertor fero d'ódio e vingança, e deste, novamente, ao queixume lancinante murmurado em dolência, entoavam os guerreiros o hino bárbaro: Arirê, cum! cum!... Arirê, cum! cum!... Saíam a campo, afinal, os dous pequenos caciques, maneirosos e ligeiros, em esquivanças rápidas de caxinguelê e passes traiçoeiros de jaguatirica, à rebatida derradeira dos tacapes enfrentados. As tabas rivais cercavam-nos então, a passo lento, esticando o cordame dos arcos, a clamar em lamúria: Japurunga matou minha fia, Japurunga matou minha fia, Frecha nele sem parar!... Frecha nele sem parar!... Prazs!... Prazs!... Prazs!... Disparavam. Havia ainda a dança-de-velhos, em grandes cabeleiras empoadas, os sapatos de fivelão e costumes à Luís XV, exibindo por salões franqueados voltas obsoletas, à moda antiga. O vilão, os lanceiros, estes organizados pelos rapazes da fina flor social, em rica fantasia, inauguravam as suas quadrilhas logo à noite do baile e banquete que o imperador do Divino oferecia à cidade. O quebra-bunda não deixava de fazer também a sua aparição desde o começo das novenas, com as coplas e lundus chorosos dos mulatos, quadras requebradas e dolentes, uma das quais, esperem, rezava assim: Minha mãe me pôs na escola Pra aprender o bê-a-bá, Eu fugi, fui aprender O lundu do marruá!... Indecente, pois não, mas apenas de nome, que no fundo, tão ingênua, tão simples, dessa simplicidade de velha dança colonial, não se impedindo o seu ingresso no seio das famílias, antes mui disputados e solicitados os organizadores a irem exibir os bailados no interior das casas principais e mesmo no palácio governamental... De todos aqueles festejos, tinha conhecimento pelo que lhes contavam no outro dia as externas, aos intervalos da aula, o que valia, às vezes, exemplar reprimenda da irmã zeladora. Um e outro ano surgia a mais a dança do Congo, posta à rua pelos pretos, cujo rei era sempre um africano centenário, ainda forte e robusto, trazido de Luanda ao tempo da escravatura. Aos reco-recos das varetas pela superfície estriada em serras das compridas cabaças que apropriavam, e ao som de adufes e pandeiros, celebravam os ritos e glórias de seu país ancestral, religiosamente através do exílio transmitidos, em fraseados complicados e embaixadas pomposas de língua perra. Executava-se o duelo dos príncipes, procurando-se os dous rivais aos pulos ágeis, ora num pé ora no outro, entre as filas apartadas dos guerreiros e a final degola destes – a espada correndo cerce ao longo das gargantas. Arrematavam a encenação com dolentes cantorias, onde a nota – êh! Maria-Longuê! – era repisada em estribilho a cada retorno, invariavelmente. Esses, os do Congado, vira-os passar duma feita sob as gelosias, num quente meio-dia de domingo. Uns traziam gorros e capacetes de plumas, grandes corações recamados de vidrilho

sobre o peito ofuscante de lantejoulas e glóbulos dourados; outros, meias-luas de prata em ressalte no fundo do colete mourisco, colares de búzio com voltas de conta e pulseiras de miçangas, metidos em calções de debrum e largos sapatões cara-de-gato. Os mais vistosos calçavam botins e tinham o justilho azul de pano mais fino, sobressaindo-se os tufos de pelúcia nos punhos curtos e sobre a gorjeira baixa. Caminhando, iam e vinham sobre os próprios passos, arrastando a cantilena, ao reco-reco infatigável das cabaças empunhadas. Ah, as doces, ingênuas, tradições goianas! De novo, a saudade de Lica voou, trêfega, para as procissões da Semana Santa. Ah, as procissões... Então, através das persianas donde espreitavam, como que a cidade tomava outro aspecto, revestindo-se dum ar solene e grandioso. Trabalhadores, enxada à mão, punham-se nas ruas e praças a capinar febrilmente, dentre os interstícios do macadame, os tufos rasteiros de gramíneas; varriam-se as calçadas, o chão era atapetado de goivos, miosótis, jacintos, manjericões e mais folhas odoríferas. No primeiro domingo, o de Passos, iam todas à Boa-Morte, a cuja entrada tinha lugar o encontro da Virgem Maria com o Filho desejado. Este, sob o peso do madeiro, mui lívido e doloroso, a grossa corda de nós cingindo os rins sobre a túnica roxa, a fronte pálida, porejando sangue, dobrava a esquina à coral mística dos rabecões, sob a auréola sangrenta da coroa de espinhos e nuvens e nuvens consecutivas de incenso, que o pároco, mui solene e paramentado, ia à frente turibulando. Fazia-se um grande silêncio. A banda de música, que fechava o cortejo, cessava a sinfonia plangente do acompanhamento. Acotovelava-se o povo no ádito da igreja, pelas ruas e vielas que desembocavam na praça; e, de ao pé duma das janelas que abriam do coro para o largo, um frade beneditino, mui untuoso e comovedor, começava a longa prédica da paixão do Senhor, a voz soluçante e profunda no descrever a cena patética do Calvário, e a disputa última dos guardas sobre o corpo ainda palpitante do Crucificado! Choravam todas. Ainda agora, ao relembrar, tinha as pálpebras umedecidas... À noite, os Sete Passos da cidade, encravados em espaçosos nichos, onde o Cristo se detivera lasso na caminhada, iluminavam-se d'alto a baixo, e toda a gente corria em Via-Sacra a visitá-los, depositando na toalha do altar, sobre a salva exposta, o óbolo devoto. Depois, Quinta-Feira das Dores, nova procissão, a da Virgem Dolorosa em busca do Filho bem-amado. O andor, numa suntuosa ornamentação de flores artificiais, a imagem naquele manto azulíneo todo constelações, era pelo percurso levado ao ombro das donzelas de mais destaque na sociedade, todas de branco trajadas. E que desejo nutria ela, Lica, de carregálo também, garbosa e transfigurada da divina carga, embora nessa época mal debuxara ainda os seus primeiros catorze enfermiços anos e ser assim tão franzina e frágil de forças! Dirigia-se então com as irmãs a esperar o acompanhamento na Matriz, onde recolhia, e deixava-se estar de joelhos muito tempo em adoração, extasiada, e, enquanto os círios ardiam, evolava-se em torno o cheiro profundamente místico dos incensórios, e o sacerdote no altar-mor principiava o ofício. Após as Trevas, na Sexta-Feira Santa, as solenidades atingiam o seu apogeu de esplendor e compunção religiosa. Desde a véspera, nenhum rumor, nenhum grito de pregão, nem mesmo o ao de leve bater dos saltos dum sapato na rua deserta. A cidade soterrava-se num silêncio mortuário, sombrio, profundo, sepulcral, de necrópole abandonada... Nenhum brado d'armas na cadeia pública; os toques de corneta dos quartéis não davam esse dia os sinais regulamentares e até os galos, no fundo dos quintais, pareciam olvidar o seu canto álacre. Era o dia das santas virtudes, em que as árvores e as cousas se revestiam dum atributo sagrado e os homens, mulheres e crianças saíam pelos campos e matas dos arredores, atrás duma raiz milagreira de amaro leite, suma, batatinha ou folhas de chá-de-frade, que, colhidas em tal ocasião, santificadas pelo teândrico martírio do Cristo, adquiriam um maravilhado poder de cura nos achaques caseiros do ano...

foguetes e girândolas no largo estourando. fugiam os detalhes. jazia num leito de martírio o corpo seminu e anguloso da Divindade. olhou para o fundo do quintal. batendo-a no eito. à espera de que as largas portas se descerrassem. impressionada ao excesso. Até àquele canto da nave. armada de seixos. Queijeiro!. Luísa abeirando-se sem que percebesse. mesmo àquele Malaquias.vestidas de crepe. o halo predestinado sobre a fronte. – São horas de recolher. onde o seu companheiro de infância. a partir dos quatro ângulos da praça. parecia ainda como que a ressoar-lhe aos ouvidos. a sua família viera duma feita. não se envergonhando de – na necessidade – pegar o cabo da foice. o peito lacerado por inenarrável opressão. ouviam-se as notas retumbantes e ásperas da matraca. Ainda bem que Benedito. entre mal sopitadas lágrimas. as três Marias carpideiras. Apesar da distância. às centenas. apontado como o primeiro no corte dos canaviais. Sábado da Aleluia! Repiques festivais de sino na catedral. como se estivesses sonhando! . chegavam de fora gritos e assovios. À procissão do Enterro.. à sombra das mangueiras. o sereno já começa a cair e tu aí absorta. rondava em torno. Queijeiro!. macerado d'angústia. acudiam moradores de toda a redondeza e mesmo de fora do município afluíam às vezes. como vira o ano passado e pôr num chinelo toda a camaradagem do sítio. enquanto a meninada se ajuntava no meio do largo. pombos e pássaros que se soltavam. vaias estrídulas. Escutava-se a espaços. entre arrependido e incerto da posse daquele brinco. se entretinha a traçar com o canivete arabescos caprichosos na peroba dum piraí. sob cujo pálio damasquino. enquanto Nequinho já em vias de reconciliação. onde costumavam ajoelhar-se. e que seria queimado após o ofício divino. encaminhavam-se para o refeitório. que haviam comungado pela manhã e estavam desde a véspera em jejum absoluto.. um frio cortante descendo da garganta da Carioca e tanta gente amontoada à luz do luar no adro da igreja. a esvoaçar entre os coruchéus e cornijas do templo. aqui São João. sobraçando um livro. exibindo à multidão contrita. procurando distinguir as feições do Judas. a assobiar descuidado. – e a bradar-lhes à orelha a alcunha injuriosa: – Queijeiro!.. assentado numa moenda velha de engenho.. consubstanciada naquelas palavras. anunciando aos quatro cantos da cidade que Nosso Senhor era morto. às doze. alcançava o pináculo do quadrante. lá dependurado no alto duma embaúba. quando o sol que – único – não se velara de crepe. que fora com a família uma daquelas vezes à capital.Súbito. attendite et videte si est dolor sicut dolor meus!. o cântico merencório e lancinante da Verônica – moça feliz que tivera a fortuna de representar esse ano a Madalena – trepada a um tamborete carmesim. madrugada alta. atacando os caipiras – pobres matutos desentocados do fundo de suas roças e plantações pelo prazer de tomar parte naquela santa festividade. preparando-se todas logo em seguida para continuar as devoções da Boa-Morte.. o lençol sanguinolento que amoldara a cabeça coroada de espinhos do Homem-Deus. – Olha que apanhas um resfriado. onde o jantar era amelhorado duma iguaria nova.. Era a molecada. funebremente. adotando facilmente o aspecto distinto de moço da cidade. em holocausto sacrificado à redenção de todos os mortais. ali. menina – disse d. Luísa por costume assistir em Curralinho.. atrás do catafalco lúgubre. o cortejo ritual ao centro. não obstante passar a maior parte do ano na fazenda. que a essas cerimônias tinha d. às maltas incontáveis. Domingo da Ressurreição. Saudade. À sua imaginação.. num turbilhão de figuras litúrgicas a passar.. E toda a milenária Dor humana. matinadas ferozes em torno dum mesmo objeto. E Lica. o diadema refulgente sobre a testa e a ampla cabeleira desnastrada espáduas abaixo. Milhares de luzes tremeluzindo em alas davam volta às ruas principais. sustentado por seis cavalheiros d'opa violeta a empunhar as varas de prata maciça.. olhos grudados no trabalho do moço. e mesmo. mais no entanto para visitá-la. doloridamente: Vos omnes qui transitis per viam. lugar bem mais próximo do Quilombo. entre dous apóstolos. mudava de feição. Então as meninas. levada por outro curso de idéias.

o Cruzeiro do Sul lucilava como um símbolo vivo sobre a imensurada vastidão daquelas planuras. Vieram chamá-lo a mando do patrão. numa fenda mal coberta de reboco. mas a fama do Quilombo não há de ficar desmerecida. sobre o peitoril da janela – um bucle anelado a ressaltar na nuca. sem causa aparente e sem um só queixume de seus lábios contrafeitos. nesta fazenda cachorro vadio . virgem ainda dos contatos brutais com as paixões. foi advertindo ríspido: – É aprontar-se já e partir sem detença pela madrugada. enquadradas em portais de jacarandá. montado na melhor besta de sela da fazenda. alumiando ao fundo o ouro fulvo das peles d'onça que forravam as paredes.Anoitecera. uma a uma. furtando-se à velha dívida do ajuste. Uma dobra dos baixeiros pusera-a sentida do espinhaço no passeio que tinha feito pouco antes em companhia dos filhos da fazenda.. vem aqui ter comigo assim que tudo estiver arrumado. ao sítio próximo. Caminho andado. – A Pelintra veio sentida do Mamede. a noite. oculta entre os cafezais.. como outrora o senhor feudal cruzando as lájeas de sua sala d'armas. sobre o cetim da epiderme – as lágrimas. cricri. Quanto a dinheiro para despesas. repuxando as falripas da barba grisalhona. clavinotes e caçadeiras dependuradas dos cabides. galheiro e queixada que atestavam aos cantos. duma diafaneidade única. que traziam entretecida a cadeia de suas recordações de menina e moça dum filão preciosíssimo de suaves e repassadas saudades. E nhá Lica cismava ainda nos festejos queridos de sua terra. correram lentas. esbatendo-se entre os rosários de orelha d'anta e veado entrecruzados e pendentes do teto. Gaste eu um conto de réis nesta empreitada. com a Vida enfim. as proezas venatórias do chefe. Dobrando o pescoço. de rifles.. o fazendeiro media às passadas o aposento. que a rudeza do velho Anhangüera desbravara e estendera o guante de conquista. povoando-a duma grande raça empreendedora e forte. assenhorou-se de nhá Lica. amálgama de confrangimento e aperto de coração.. mui alvo e transparente. abrira o pala à meia-noite. a luz crepuscular entrava difusamente. rumo da casa-grande.. o sertão e a festa da véspera tornavam ainda mais fundas e cruciantes naquela alma ingênua e simples. os azares. ao gosto das fazendas do interior. viu logo pelo jeito que o caso era sério. a meditar a baixa justiça sobre a cabeça redonda e vil dum vassalo acusado de felonia e traição.. Pelos tampos escancarados das janelas. o olhar atravessado e duro sob a ruga da testa. O coronel passeava os quatro cantos da sala... salvo arrancadas extemporâneas dum e outro rebento mais rebelde. Mal o divisou. – Pois é escolher aí no pasto o animal que mais convier. ao rés da grama. Não descanso mais uma só noite sossegado. Dependurou o chifre de tutano com que lhe engraxava o pêlo na argola de recavém dum carro. No céu azulíneo. João Vaqueiro fizera-o ciente do sucedido – fugira o Malaquias! O nagoa. iam lento e lento desfibrando. destacando aos renques – bizarramente – a alvura das caveiras de capivara. num pesar indefinível. mas não havia de ser por isso que o negro deixaria de vir. o misticismo ancestral dos reinóis e bastardias de sangue. Era quase ao anoitecer. afinou sob a janela. que o luar. num daqueles seus terríveis e freqüentes acessos de mau-humor. que a moleza do clima. enquanto não ver aquele ladrão na sala do tronco. Sob aquele peso de troféus. Súbita tristeza. Galgando os degraus do varandil. carrancudo. Uma mato-virgem arrulhou além. saiu às pressas do puxado dos tropeiros. onde o fazendeiro media impaciente as passadas ao longo do varandão. V Benedito pensava a Pelintra. e um grilo.

Haviam de ver. riscando-lhe de sobreleve a faca pelo ventre. Despendurou do cabide o rifle e. Coçou a orelha sob a aba do chapéu. Outra. o forasteiro achou por seguro chegar às boas. de que fazia um bolo e que metia no bolso interior do jaleco. se houvesse precisão. encrespou o sobrolho. Com disfarce.. trazia patuá bento contra ferro alheio. três camisas de morim. Pois sim. e demais objetos miúdos. rugiu cinco desaforos e quis abecá-lo pelas costas. com desprezo e aos risos da camaradagem. a praguejar contra o azar do marimbo que o perseguia. meteu pelo cano de reserva os doze cartuchos precisos. desmascarando num berro a esperteza. soltá-lo no campo. a garrucha na destra. até que. que com ele. Tinha até fama o seu faro nas redondezas. fazendo mover lentamente a alavanca do gatilho. Trazia ainda tacheadas sobre a tampa de couro. à vista de todo o pessoal reunido. atirando nota sobre nota na mesa. Demais. Dito. sempre protestando no entanto. armado dum sabre-punhal que sacara do cabo do rebenque. Ao estampido. Enfim.. contra a sua parte na maroteira. não faltava jeito. e depois. a franqueira na outra. restituindo a cobreira. melindrosa mesmo. o descarado. e o seu tino tantas vezes comprovado em manhas e astúcias para enfrentar ou esquivar-se a quem se lhe atravessava no caminho. rapar pestanas e cocuruto à moda de frade. ceroulas d'algodão grosseiro. para gente curada.. Ele bem observara. pôs-se a examinar com cuidado o mecanismo da culatra. Levaria aquilo tudo sob os coxonilhos dos arreios. mandou aquele mesmo Malaquias chegar-lhe aos untos do traseiro uma coça mestra.. Enfim. em separado num dos ângulos do casarão. e. postado do lado de fora. ia prevenido. que andava a limpar as pastarias dos arredores.teve sempre ensino. acovardado. Pôs-se a separar atento a roupa – dous parelhos de brim riscado. era tiro e queda. manejava com outro baralho. acostumado àqueles repentes. sujeito atirado e quizilento. não era essa a primeira vez que o patrão o enviava à pega de camarada fugido. as mezinhas.. Um baiano apessoado batera uns contecos ao patrão no jogo. e. proseando com ufania. de súcia com o parceiro. as iniciais de seu finado pai. O meleiro ia ajuntando uma por uma as pelegas. que o resto havemos de ver. Sabia-a arriscada. ali estava todo o necessário para quem. Homem aquele de peitaria! Mas não dera tempo. só mesmo calibre 44 e a pontaria de seu olho. O outro não estranhou. saltou-lhes à frente. ia viajar à escoteira. foi tratar com zelo dos aprestos da viagem. que traziam escondido no forro dos chapéus. Nada. que lhe dera a madrinha pela véspera do Natal. rendido. salvo seja. Mas para que lembrar! Tinha ainda no braço os caroços de chumbo com que o chamuscara um cigano. seu-Dito-desmancha-aquilo! . Ah. Um deles pôs-se logo a tremer. sem mais. não havia reza nem bentinho. a entreter o coronel. ninguém foge aqui ao trato firmado! É dar em riba do negro e trazê-lo amarrado pelo cangaço ao moirão do curral. Limpou-a minuciosamente. A horas tantas. Foi uma roda-viva. quando lá mandara buscá-lo a Dindinha. à luz da candeia que acendera. para quando saísse. mas o baiano. tempo! Metesse na veneta do fazendeiro fazer-se oposicionista. Em apanhando a catinga. fechou a arma e foi pendurá-la à bandeira da porta. não havia mãos a medir com tantos seu-Dito-faz-isto.. assim como uma rês capada.. Foi ao quarto. como ele. mui confiado. foi na romaria da Trindade. a tramóia. reservando os alforjes da garupa para a matula. ladrão de cavalos.. caminhara que nem canguçu na fumaça e trouxera-o ali amarrado ao moirão. dado o desapego do nagoa ao perigo. o nagoa era arteiro. Aquilo cheirava às léguas a embromação. este. abriu uma canastra. descobriu logo que o gajo. Ainda duma vez. já o apertava num canto. quando já se levantavam satisfeitos. dominando-o com a garrucha. ia direito no rastro que nem cachorro perdigueiro e não havia então tirá-lo da pista enquanto não trazia filada a caça à porteira do curral. onde o coronel. vinda com ele em pequeno dos Dourados. Também a ele.

não. Eram ordens pra aqui. devendo em média de quinhentos a um conto e mais. ordens pra ali. em companhia duns soldados em diligência para as recebedorias do Paranaíba. gostando de estadear o talento do amante quando se lhe faziam de engraçado. apesar de tudo. o chapelão de palha com fanfarrice batido e acampado à banda. Passa assim de mão em mão. quando chega a morte. enfim. Principia então a tomar emprestado ao senhor. Não fosse o preto ficar embeiçado da roxa. dançava alto o pau. arregimentando o pessoal da fazenda. Em épocas de eleições. não podia ganhar fora mais do que lhe davam na fazenda. que já não lhe adianta mais dinheiro. Malaquias levara-a por necessidade de montaria ligeira que o apartasse depressa daqueles sítios. não havia ali tenção de furto. as teimas para convencer o votante contrário. Feitiço. pede a conta ao senhor. talvez. antes de natural lhano e metido em seu canto. naquelas cercanias. eram os tiros que se não sabia donde partidos. talvez. no que o servia em reconhecimento de ter ido recolhê-lo aos Dourados. birras do patrão com a gente da redondeza. Gasta-a em poucos dias. certo de que cada mil-réis que adianta. duvidando: – Qual! O nagoa fugia sempre ao rabicho das saias e não seria daquela vez que se deixaria tentar.. enquanto o cabo da tropilha tocava a sanfona de sobre o jirau dumas cangalhas. a dívida avoluma-se. tivera-as muitas. mas não era que carecesse de ocasião. É escravo da sua dívida. as espingardas empilhadas ao canto. Isso. então. com o tempo. que. . Nem mesmo sabia por que fugira o preto. o diabo! Malaquias fora sempre um dos que mais o ajudavam naquelas alhadas. Por sinal que uma daquelas raparigas veio comprar à casa-grande meia garrafa de caninha e fora o Malaquias quem lha medira no quarto da armazenagem. comumente. quando lá ficara órfão e só. eram ele e nhá Lica. chega a proporções exageradas. que era lá de seu foro mui ordeiro e avesso àquelas exibições. Quanto à besta de estima. raras por provocação. mas dalguma daquelas mulheres que tinham pousado a semana passada no puxado dos tropeiros. mas. que ali. e daí os propósitos da fuga. às vezes. enquanto que a condição dum camarada era muito diferente. Isso sim. naquelas baboseiras. prendendo-o apenas àqueles lugares o hábito da meninice e a sua gratidão para com os donos da fazenda. tomando-o ao seu serviço. Dá-lhe este cinco hoje. no começo do trato. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança. Santa Maria! brigas. Então. não raro. Mas abanou a cabeça. garantindo a chapa. Feitiçaria? Não acreditava. ganha no máximo quinze mil-réis ao mês. que seria? E o cabra. constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro. que fica no livre arbítrio de lha dar. não mandara nunca uma criatura de Deus desta para melhor. afeito àquele serviço desde rapazote. entrou a matutar fundamente. e depois. tinha seu quê de faceira. graças ao Santíssimo. as mais das vezes. no sertão. tolhida a liberdade pelo ajuste do fazendeiro. o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação. querendo dalgum modo mudar de condição. mas sempre sujeito ao ajuste. maltratado aqui por uns de coração empedernido. é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. mulata que por ser mulher. pela Chica. Estimado da casa.Verdade seja. chega a perceber vinte. Lembrou-se pela vez primeira – ele que a praticava instintivamente – que era livre e movia-se para onde bem queria. Na vila. acreditava. Quando muito. o costume da terra. ali mais ou menos aliviado dos maus-tratos. apoiado à cabeceira da cama. sabia-o bem. tais os embrulhos que surgiam. e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo.. resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. andava numa corre-coxia dos trezentos. tanto que elas tinham passado a noite toda em gaitadas e cantorias. de que só se livra. seja dito de passagem. quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. Perde o crédito na venda próxima. dez amanhã. Geralmente. os únicos que não criam nessas imundícies. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. quando o coronel estava contra o governo. não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão.

. sabia com quem lidava. e. ninguém mais lhe bota a vista em riba. dois bicudos não se beijam – comentou alguém. dividiu-a em doze riscas e à distância de seis passos não errou um só bote! Demais. devia ao patrão novecentos e cinqüenta e cinco mil-réis. seu Quim – respondia João Vaqueiro –. café. tem pra frente nhô Dito. acontecido com o meu defunto compadre Desidério. ali estava ele mais a carabina para quebrar as proas que fossem aparecendo. quebra tudo que o bico alcança. sem poder as diligências jamais botar-lhe o olho em cima. também. O preto fugira. aconselhando maternal: – Muita prudência. bandido de profissão. Não acreditava! – cortou o outro melindrado. – Do outro. Crescendo de atrevimento com a falta de ensino. Os meios. – Nhô Dito. Cabra destorcido! Matreiro que nem lagartixa. O mais.. que frecha certeiro o peixe. agora deserto. estava ali o fato. a caçoar do governo com as arrelias e façanhas de todo o dia. com a cabeça diz que sim. ora. provando uma colherada d'angu de caruru que lhe servia a mulher do caseiro. o açúcar em latinhas e umas cocadas que nhá Lica aprontou. pouco importavam. – E esta! Só mesmo um moço da cidade. filado à gola pelo sedenho ou apenas o par de orelhas como prova. pôs-se a ruminar os planos de campanha. mandavam-no buscá-lo: havia de vir. ora nesta província. pondo o povo todo espavorido com as bravatas que . apesar dos prêmios e a fama que adviria a quem o prendesse.. ora nos Gerais. um frango recheado e o mexido d'ovos em separado na lata – disse a senhora. demais. menino. e um sem-número de falcatruas nos povoados. No varandão. Entrando. como de costume. matando hoje um homem aqui. reunida no paiol de milho. Toma sentido! – Essa cantiga comigo não adianta – disse afinal. surgindo à abertura da porta. onde rebrilhava o cabo niquelado da franqueira. achara as cousas naquele pé. diabo como aquele não entrega à toa os pulsos à correia. mão à cinta. Tomou-lhe a bênção rápido. mas nem por sombra lhe passou pelo juízo contrariar as ordens do coronel. E desatou a rir. olha que a ceia está a esfriar – arrancou-o daquelas preocupações a voz de João Vaqueiro. haviam de continuar até quando fosse Deus servido em comandar o contrário. com dezoito mortes e tantas no costado. E como nhá Lica surgia no limiar. àquela hora. – Olha. chegou a penetrar nas vilas à luz do meio-dia. forçando amanhã uma mulher ali. que é como tucano. – É bicho sarado. nada de afoiteza em expor-se à ira do camarada. veja só!. – Aquele negro tem sorte – dizia Joaquim da Tapera. cumprimentou a moça e foi despedir-se do pessoal da casa. caso venha a topá-lo. eis a circunstância. confusamente. em comentários ao caso do dia. deste lado vão a paçoca. Depois: – Pois vou contar um fato.. Nem parecia até que fora criado naqueles fundões. escorrega naquele couro que até parece bagre fora d'água. lá diz o rifão. Desde pequeno. havia de vir. o que duvido – avisou Fidélis. conversa fiada. e assim como estavam. toma tento com aquele crioulo. Ali está a marca que fez uma vez para mostrar como se empalma uma faca nesta terra! Traçou uma roda de palmo na parede. ele foi assentar-se num amontoado de suadouros de cangalha que ali estavam empilhados para atalhar e pôs-se a ouvir em silêncio a conversa. ameaçando céus e terra. cabo de polícia no tempo da monarquia. Mesmo ferro benzido. arrepiado como ouriço-cacheiro.. Conversa fiada. iluminando com o seu perfil suave a moldura enegrecida da porta. – Ora.Benedito sentiu aquilo tudo. A Dindinha que não se arreceasse. Luísa apareceu do interior e colocou sobre a mesa um sapiquá atufado. – Não há como pulso firme e franqueira de fiança. sempre pronta na ocasião.. – A pois. se ele é que nem martinho-pescador. tem mandinga contra arma de fogo. se o preto emproasse. constrangido. morto ou vivo. – Pois. – Caindo no mundo. com o rabo diz que não. D. – Seu Dito. Andava aí pr'esses sertões um tal Deodato. – Não era preciso tanto cuidado – agradeceu meio confundido. empinou o busto orgulhoso. Não fosse atirar no outro sem necessidade. sobre o cinturão de sola larga.

Metera-se-lhe na cachola que havia de dar cabo do bandido. elas iriam dar testemunho daquele feito. o homem caiu que nem fruta podre. que nunca negou fogo.arrotava. afirmo porque vi. que é dele? Admirados. em cujo forro estava cosida a reza brava contra bala! Assim que lho tirou. e tanto viramexeu. que aproveitavam os seus préstimos de capanga para negócios de politicagem. E aí está o que viram: encostado a um cupim. estirados atrás das moitas de gravatá e tiririca do arredor. mortalmente baleado.. “O meu compadre era um homem às direitas. as pernas direitas. eis que o anspeçada. Duma feita. de cujas fendas gretadas de caruncho saía um longo crivo de luz. na suposição de que uma vara de bichos do mato o tivesse arrastado para longe. e o destacamento. e uma vez assim ateimado. garantido até pelos chefes de partido. pois não – confirmava o outro. por quinze sangrentas feridas. Como esse. Deodato olhava-os também. corre quem se mete com esse povo. e um deles foi bater à porta da frente. que procurava embalde obstá-lo. Deodato trazia sempre consigo um bentinho no pescoço. Ajoelhado de banda. com a boca dos trabucos escancarados da soleira. clamando socorro. coágulos frescos de sangue umedecendo o orvalho e que se alastravam agora em largas manchas sobre a grama. deu-lhe mais duas ou três descargas à queima-bucha. dando cerco a uma tapera à beira do Uru. calhou que lá dentro se encontrasse de pernoite. . quando o compadre atalhou: “– Fica quieto. Vivia num estadão. enquanto dous de seus parceiros mantinham em respeito. Os cabelos em pé. – Achegou-se com cautela e afastando a mão do jagunço. “O ervaçal espezinhado. Acudiram todos. Os demais ficaram de tocaia. da tocaia. deixa-a cá comigo. e estava para disparar. para dar sepultura ao criminoso e cortar-lhe as orelhas. Um acauã guinchava à distância. qual. “– Ó de casa – bradou o soldado com voz firme. E começou a preparar a cama. para nunca mais se erguer. Os companheiros descarregaram por sua vez. zanza pra'qui. donde voltaram com enxadas ao romper d'alva. sem relutância. numa fazendola. e a fera pulou para fora. a soldadesca surpreendida. o rapaz apontava para um claro da saroba. procurando armar o cão emperreado do seu boca-desino. que escumou de vez a madeira da porta. zanza pra'colá. O anspeçada. Respondeu-lhe tremendo estampido de clavinote. não havia por onde torcer. arrancou-lhe do peito o bentinho. Não o tinham encontrado no lugar em que caíra varado de papouco. quebrando-lhe um a um. vigiando as saídas. caiu sobre um joelho. O dia clareara já de todo. o facalhão em punho. segurando numa das mãos o clavinote. e faria mesmo. Deram volta à casa. os ossos do corpo. carregando de novo as espingardas. arrastando um couro do fundo do paiol. junto a um patuá. Mas o corpo. Conforme o uso. não é preciso gastar mais munição com esta cobra. meteu a arma à cara. as pederneiras. caso piasse alguém ao lado.” – Por mim – ponderou João Vaqueiro levantando-se – acho que a melhor reza é confiança no santíssimo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e a carabina de nhô Dito. penetrou na cadeia do lugar onde estava arranchada a escolta encarregada de prendê-lo e foi desancando do primeiro ao último com o cabo do chicote. perigo. sempre trouxe no pescoço um breve. mui vivo. afoitado numa capoeira de assa-peixe e juábravo. solta um grito de espanto.. o sol mostrava-se meia braça acima dum oiteiro. na noite escura. a outra aconchegada ao peito. Deram um rodeio ao oitão. bentinho em que depositava muita fé e é aqui que bate o ponto da história. Deodato. quando chegaram à tapera. Ele batia pois essas estradas e cafuas. e grande. O rapaz ouvira antes o estalido da arma aperrando e teve tempo de desviar-se da descarga. o afamado assassino. mas que o moço fosse sempre prevenido. Foram depois pernoitar meia légua adiante. à frente de quatro cabras decididos. fez-lhe fogo ao peito. ser curado é cousa séria. que uma noite. – Pois não. E o Malaquias. diziam bem que era ali exatamente o local onde sucumbira de vez o bandido sob os couces d'armas da patrulha.. olhos esbugalhados. arranjada com um ligal aberto sobre a esteira de espigas.. sozinho. forrando-a depois com as mantas e lombilhos d'arreios. tantos casos mais. onde tinha notado uns sinais que o punham assofismado. à procura do morto.

os rigores da seca em céus do Norte. no redomoinho trágico. escalonando serras de extremo a extremo do sertão. embora a natureza opulenta exubere a cada nova hecatombe com redobrado vigor e esplenda em louçanias aos primeiros aguaceiros. transpõe as divisas da roça e vai floresta adentro avançando a sua obra de assolação. onde em dias de chuva calangos e lagartixas espapaçaram-se ao vento. cuja casca rugosa tisna de sobreleve para ir em fúria crepitar nas grimpas. enxameiam no gado acossado dos capões. fogo dos cerrados que esbraseiam. todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem. ia o grito d'alarma das aves noturnas. aroeira ou barriguda – os mais comuns – daquelas matas. e a miséria do solo resulta antes da incúria do homem. nos desvãos de pedra. mais que alhures. desapareceram misteriosamente os reptis. uma luzinha brilhava ainda. E ai do destino daquele ubérrimo rincão. que aí deve chegar com as primeiras chuvadas de outubro. principiava a espalhar. as messes abundantes com que retribui de ano a ano a bronca insensatez do matuto. indiferentemente. E. estadeando à noite os seus longos listrões de incêndio nas cumeadas das serras. a camaradagem conversava ainda em torno da chocolateira fumegante. elementos abundantes para o próximo ressurgimento da terra. de barroca a barroca. Através do espesso lençol de fumaça que à noite encobre o lume das estrelas. o sol semelha de eito a eito um enorme carvão aceso e sangra pelos flancos a sua luz avermelhada e mortiça. E somente à beira dos charcos que ficaram. As nuvens vão beber no farto divortium aquarum dos grandes rios que alimentam simultaneamente as bacias do Amazonas. nas tocas solapadas de ao pé dos morros. recolhendo caminho de seu quarto de solteiro. Prata e São Francisco. preparando nova infusão aromática de folhas de limeira-de-umbigo com rapadura. das alturas prediletas do tamboril. numa atmosfera de forja. os seus primeiros bruxuleios de luz mortiça por detrás das últimas serranias do nascente. pelo cipoal e trepadeiras dos troncos seculares. não fora o recurso natural das imensas florestas virgens e dos sertões ainda por violar. O gado espera a chuva para amojar e remói o mata-pasto ruim das encostas. à cata de insetos. esguio e tardo. enquanto pelo sertão sem termo. de cotovelo a cotovelo das estradas. nos furados úmidos. Que estaria a fazer àquela hora a filha do patrão? pensou Benedito. o capimpuba e . Rodopia e morre então em torno de si mesmo. as caixas extravagantes da borá e mandaçaia. caça ou rês dos arredores. no paiol da fazenda. que ateia fogo às derrubadas para a fertilidade da lavoura e destas. intrometendo-se léguas e léguas pelo mato grosso e travessões do curso dos rios e subindo. transpondo levadas e ribeirões. os velozes caxinguelês. jatobá. alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos. espalhando aos quatro ventos. espraiando-se sem obstáculo pelas extensas ondulações das campinas fecundas. VI Pelos dias de agosto. louvado seja. Emigra a vida para longes climas. Através das persianas cerradas da janela de nhá Lica. Das alfurjas. entre as galharadas verdes. quando não enxota de pouso em pouso as guinchantes guaribas. à espera da tarda estação da fartura. Não há ali porém. que lá. o angola paludoso dos alagados desaparecidos. quase sempre. continua ininterrupto o ramerrão do cururu e saparia miúda. A obra de destruição vai lento e lento preparando ali a ruína das gerações futuras. reduzindo a cinzas os ninhos balouçantes do sabiá nativo. quando não cinge uma vítima. entre nuvens. carbonizadas as folhas secas que o vento acamara. e só parando quando o tropeço dum grande rio ou o encontro com outra queimada lhe roube elemento onde saciar a sua fome implacável de extermínio. Cessa por esse tempo a labuta nas fazendas. que nenhum sopro de aragem alenta. ao mormaço das longas tardes nevoentas e a zoada surda das mutucas e pernilongos.O minguante.

a terra recebe a semente do pobre. rebatem na bigorna uma marca nova para o filho do patrão. elevavam-se. ultimam-se os aprestos do plantio nas roças calcinadas. ora pousados no lombo.. sob as paineiras do outeiro. e o céu revestia-se ainda de tons suavíssimos. poupadas da estação passada. reverdesciam outra vez. A bica do monjolo corria embaixo. Na casa da oficina. lamentos reiterados de almasde-tapuio. variando entre o azul-negro. umas a pousar do surto incerto. e em pilões da cozinha. Bento-vieiras e tesouras.gordura que o fazendeiro reservou e defendeu nas invernadas. únicos satisfeitos na desolação derredor. numa ronda alerta d'asas multicores. E todos atendem às chuvas que não tardam. mas certeiros. azulclaro e azul-metálico das Ageronias aretusas. trilos. Nas malhadas. Sobre os lameiros d'água empapaçada que secavam ao sol o seu limo esverdeado. para onde tangiam os campeiros de manhã a tropa das pastarias adjacentes. Se o incêndio devorou os capoeirões e pastagens naturais. esborrachando-os no bico d'aço retinto dum bigode de sangue negro. laranja e amarelo-enxofre das Pieris pirra. e a criação mugindo satisfeita nos currais. como frechas. um fio tênue. quando o roxo vivo da quaresma não feria o olhar à distância. borboletas enxameavam. como besouros. temperam os ferros enferrujados. pesares e saudades acorriam lentas. Depois de São Sebastião. reflete-se-lhe no olhar com que sonda as alturas. Três meses atrás. espalmadas as asas horizontalmente. E se acaso passou. tiês e sanhaços no colmo frutificado das gameleiras. e o coaxar soturno das rãs punha uma nota lúgubre. num orgulho exuberante de seiva nova. nas pontas dos gravetos e nervuras descobertas de folhas podres que emergiam do charco. que aos chilidos esticavam o pescocelho implume dentre flóculos de paina. ao tempo que rombos anuns e azulões solertes remexiam.. o solo estivava-se duma aluvião de pétalas lilases. uma chupé que carreava para o cortiço. É o tempo em que os carniceiros caracarás. e vinham depô-las na goela sôfrega dos filhotes. ressente-se molestamente da mágoa que ressuma errante na natureza. onde as vacas amojaram na força da lua.. ora entre as aspas. com as ramalhadas de ipê e paineiras esfolhando-se à distância. Também o homem. cujas laranjas. refloria a flor-de-maio. como nuvens. as perdidas emergem o seu caule nu dentre os interstícios do pedregulho rescaldado. Na alma de nhá Lica. De manhã ou em vindo o crepúsculo. das fruteiras carregadas do quintal. estrídulos prolongados de seriemas confidenciando nos vargedos. com as suas tristezas mudas do anoitecer. que encoivarou as cercas nos derradeiros muxirões. Mais que o aspecto acabrunhante daqueles céus. no fundo da mata. se se não embrenha na selva imune. havia nas espessuras uma orgia contínua de sons. ao vir das tardes enfumaradas. e. as demais da margem levantando o vôo caprichoso em . aos pulinhos curtos. matinadas. Nuvens consecutivas de guaxos abatiam-se. na copa altanada das marias-pretas. Rondam os vaqueanos os malhadouros freqüentados. estriduloso. refrescado pelos aguaceiros temporões que abril e maio prodigam às vezes. avultando nos alcantis dentre tufos de folhagem. repletos de bezerrada nova. deu por sua vez cabo da praga de carrapatinhos que depauperava a criação... atrás do papuã. sob uma pompa bizarra de flores de sangue. ou sob a barriga varada. à sugestão daquela paisagem amortalhada em brumas. a nostalgia das águas que se foram. indo empoçar-se lá no fundo do açude do mangueiro. um pé-d'água que não fez torrente. cambiando a fartura de tons dos amarelados d'ocre. dominando os escampos. ou simples tanajura que tecia os seus amores nos espaços. cambarás vergavam sob os corimbos apendoados. na lombada descoberta dos campos. abicoravam a lavadeira. agente irresponsável naquela desolação. chupadas da terra avara e o verde primitivo das serranias que – quando? – verá de novo reflorir na quadra feliz. algaravia de povis. se põem a catar os gordos rodoleiros – caídos de maduro – na pelanca descarnada dos animais. que já tem aquele ano a sua ponta separada. numa transparência luminosa de anilina. e gritos bruscos de espaço a espaço. a estrumeira dos currais. o mulherio soca e peneira o sal para o cocho das salgadeiras..

cuja leitura. a colher pelo caminho. denunciadas à distância pela fragrância intensa e mangabas e guabirobas. de que. Benedito viajava longes terras. Da cozinha. a quem confiava os filhos a mamãe. papa-capins. através da adustão derredor. a povoar aquelas horas de lazer doméstico do encanto agridoce da saudade. Luísa se absorvia nos misteres domésticos e o fazendeiro rondava os arredores fiscalizando o serviço. os passeios antigos iam avolumando. evocações e saudades iam surgindo a cada movimento dos dedos ágeis. vinha o baque alternado das mãos de pilão esmoendo a canjica. ao reler aquelas páginas. que pejavam já as nuvens aplumbeadas das morrarias distantes. acirrava contra as hostes de seu pai os cavaleiros cativos na torre de Ferrabrás.. sonhou que estava encerrada numa alta torreola. sacudindo as bastas tranças. coleiros e patativas erguiam dentre moitas cacheadas de jaraguá o vôo frustre e o peixe-frito saía matraqueando ao longe. que lhe iam apressurando os momentos langorosos de trabalho ao canto da janela. recolhendo-se um tanto excitada daquelas narrativas. na roda limosa do moinho. No pilão do monjolo afluíam as cocás. talvez no Paranaíba. E um a um. saía com o mano e o Dito. os da infância principalmente. destemida às vezes nas apostas de galopada. e as primeiras bátegas espaçadas de chuva. em Mato Grosso quem sabe. cuja árvore anã e folhuda se distinguia ao longe. Nesse tempo. nas pegadas do negro fugitivo... ela na sua egüita castanha. quando não empinavam a crista córnea de sobre a copororoca dos cercados. talvez do outro lado de Minas. como nimbos.alegre farândola. quando se sente infelicitada no presente.. encarnado na figura venerável de seu velho pai. aquele gosto barbaresco de façanhas guerreiras.. a alma corre para o passado. Histórias tocantes de Genoveva de Brabante ou as aventuras dos doze pares de França. o murici cheiroso. esticando para o interior o pescoço esgrouvinhado aos intervalos das pancadas. era feita em torno do lampião de querosene à família atenta. para a aérea fecundação das pradarias em gala. reatando o fio de pequeninos episódios do viver sertanejo. quando d. junto aos cerrados e capoeiras. Começava quase sempre pelo episódio da princesa Floripes.. vivia a vida passada. sobre o gancho do silhão.. sentia-se enleada por um sentimento obscuro e era com desafogo que passava aos amores da rainha Angélica com o sobrinho do imperador. como a que armaram a vez passada em Curralinho. uma pluma d'ema presa à fiveleta do chapeuzinho de feltro. o zombeteiro cantar. É que. O hábito da soledade exacerbara a sua imaginação. . repassando saudades. gulosas do arroz pilado. Na alma de nhá Lica. se a trama não ficava parada no colo e o olhar remoto. como um refúgio.. Dias de março. Às vezes lia.. e Dito era o moço paladino que viera libertá-la dos furores paternos do almirante Balão. às orelhas-de-pau que se quedavam a escutá-lo. E uma noite.. campo afora. rememorando sentimentos. de que tinha um secreto prazer em acentuar a animosidade e o ardor belicoso com que. no meio-dia ardente. ao aspecto da paisagem fumarenta. que trazia em jacazinhos. para entregar-se novamente com redobrada atenção à contagem dos pontos. junto aos alicerces do açude. a arrancava um suspiro de alívio. as corriolas verdolengas. De então. o destemido Roldão. saudades e sonhos se acastelavam. postas em prática anualmente na sede dos municípios com o espetáculo faustoso das cavalhadas. airosa no selim. Nos compridos vagares da agulha. perdido numa imagem defunta.. Os olhos da nhá Lica baixavam de novo sobre o crochê e uma aqui. Nhá Lica fazia em casa essas leituras. corajosamente encerrado no interior do leão mágico. pelo vento tocadas a outras vasas e vergéis mais fartos. abrasada toda por converter-se à fé cristã de seu amado Gui de Borgonha. através do drama das conquistas. outra ali. Ciscavam pintainhos no terreiro. Nhá Lica recordava sempre. livro tido em grande estima no sertão. que tinha herdado da idade feudal. nos serões solarengos das fazendas do interior. desatando o agudo tofraque. A água espanejava lá embaixo. para o aéreo noivado.. E mal ouvissem o passo dum animal na devesa.

desatinada. Nos últimos dias de setembro. e esta. e. com o chuvisqueiro que passara. pusera-a de novo risonha e lépida na manhã seguinte. redobrava o cantochão das rãs. Entontecia-a o bafio pesado de calda azeda que as masseiras exalavam. vinha fustigarlhes o rosto. E de novo no engenho. cadernos de modinhas brasileiras. procuravam os dois reanimar-se mutuamente com gracejos. de húmus fermentado e terra fecundada. que lhe dera uma das amigas na capital. e arremangando as calças acima do joelho. num espinharal de malícias. Benedito empunhou a pá de bater melaço. como acontece tantas vezes no sertão. Benedito armava mundéus de cutia nos goiabeirais. ia suprir-se naquela meia dúzia de volumes. deu com firmeza duas remadas. a ela e ao Dito. que depunham. em tanques separados. ocorreu-lhe uma idéia: – E se arranjássemos um bote? – Ora. descia em rego ao longo das almanjarras. um fartum ativo. a água do açude começasse a subir com as enxurradas que desciam. À noite. sobre o borco duma talha. impeliu-a para dentro. com as rajadas de vento. cavada num tronco largo de tamboril. carregando água. O organismo debilitado pelas febres intermitentes apanhadas na romaria do Muquém.Tinha ainda sobre a mesinha da cabeceira alguns exemplares de contos da carocha. Aqueceram breve a roupa. e como o aguaceiro abrandasse. mas o escalda-pés que lhe deu a mamã. saltou sem hesitar para a canoa. e à tarde. arrastou-a até a margem do rio. além dos de Carlos Magno e jornais políticos da terra. translúcidos brilhantes. cuja extrema polidura emperolava o orvalho como líquidos. faziam-na cair aos pingos nas folhas largas de taioba. ou vinha trazer-lhe as juritis surpreendidas nas arapucas do quintal. e um desaparelhado romance de Alencar. que a corredeira já puxava para o meio do rebojo. encolhidos num canto.. Cavalgava a egüita castanha. e foram depois apanhar os girinos do córrego. Procurou nadar. àquela sobrecarga. na casa do engenho. vindos com ela do colégio. ao sol ardente que se fizera após a chuva. Apertara a canícula abafadiça. Uma tarde. A embarcação. No lamaçal do açude. engarranchada lá embaixo. Na alma de nhá Lica refloriam recordações. hein? – Pois sim. como que a energia vital se lhe refugiara no cérebro. teve um ameaço de febre. E pronto. em duas vigorosas braçadas. para lá pendendo o corpo. eram os únicos que tolerava. e o córrego fosse agora uma vasta caudal de torrentes tumultuosas. ela agarrara-se assustada à outra borda. A chuva corria grossa pelos beirais de telha-vã. E como ele lhe oferecesse a mão. que iam acrescentando dia a dia uma nova página onde deter e fixar aquela sua irresistível tendência evocadora. E o parceiro foi de novo atirar-se à torrente repor no lugar a masseira. mas Benedito já a rebocava para terra. sob as taiobas. tinha onze anos – o papai tencionava conduzi-la na manhã seguinte ao colégio da capital – acompanhava-a ele ao sítio próximo duns conhecidos. de que se vira tão-somente boa o ano passado. para a esquerda. esquecido entre os formulários da medicina caseira do papai. o barco virou de vez. Com o balanço. onde ia levar as suas despedidas. desenvolvendo exageradamente as faculdades da imaginação. sôfrega. rolaram trovões pelo lado do Anicuns. muito frágil. exalava-se dos plainos escaldados. mui positivo em matéria de livros. inclinou para uma banda.. trementes. junto às impressões cotidianas do viver campesino. tiritantes. e a espaços. sacudindo os fatos molhados. Via-se pequena. para a direita. ou cheia a mão d'água da bica. revirou a masseira em que se achavam. Ela descalçou os tamanquinhos. Ela suplicou: – Não digas nada. que. experimentava a água fria com a ponta rósea do pé. arremessando os tripulantes ao bojo das águas. nesse tempo muito . não custa – disse o companheiro.

Mas o seu companheiro vira de longe o perigo. intacta e de pé. Naqueles fundões. para o descanso do passageiro e o encosto forçado da tropa nos pastos fechados das circunvizinhanças. sem que encontre um punhado de farinha. surda aos reclamos do freio. quando não sai para uma caçada d'anta ou espera de veado. Atravessara o Meia-Ponte em Pouso Alto. fechara os olhos. mas a depôs. que só se rende às rainhas e às santas. fugindo à mormaceira meridiana. Mas a clavina chapeada ou o rifle de estimação. os seus olhos voltaram-se para o céu.. junto à patrona couro d'onça bem fornida de cartuchos. dormindo adiante nos ranchos solitários. E era aquele o único homem que lhe fora dado admirar. à margem do ribeirão. topa dependurado. A trave pegá-la-ia pelo peito. e que a mão do Acaso tinha atravessado em sua vida! Ah. sobre o solo. Àquele risco iminente. fitando aquele astro. depois. fora a acolhida usual que lhe dá o hospedeiro. a arma permanece inativa no cabide meses e meses. ou sob o limpidíssimo luar daquelas paragens. exalou-se-lhe dos lábios uma prece tímida: – Nossa Senhora das Candeias.. ao alcance. coito famigerado de relapsos e trânsfugas. Não raro. à passagem do animal. E fora ele quem recebera a pancada em pleno peito! Pancada que o atirou na lama. como se se envergonhasse em seu foro íntimo da antiga camaradagem que ousara dedicar à filha do mais opulento fazendeiro daquelas terras. velai por nós! VII Benedito viajava longes terras. chegou ainda a tempo de alcançar a poldra entrando de raspão no curral e de arrancá-la com violência de cima do selim.. no gancho da parede. Quando voltou. pousando hoje à sombra duma palmeira de buriti.. ao tempo que os pequizeiros da chapada ou as tarumãs da beira do rio começam a derrubar as suas flores e frutos.. É o único luxo que se permite aquela gente hospitaleira. fincando esporas ao piquira. ela partira para o colégio. que espojavam os arreios no lamedo. o viandante vareja muitas vezes a casa do sitieiro. uma trave atravessada no furo mais alto dos moirões. quando? Quando? Chegariam a entender-se? E como a lua surdia no horizonte. onde tem ido às vezes a política estadual suprir-se de acostados e facínoras para os motins locais. abandonara as rédeas. . como uma enorme roda de carro. A potranca. enveredou pelo sertão das Abóboras. ele passou a olhá-la com um respeito e uma timidez. abandonando as fazendas de criação e indo pedir pousada a um rancho de sapé que se acaçapa afogado no bamburral. Seguindo as informações que lhe dera um rancheiro perto de Morrinhos.. era contrafeito. alumiando ao longe os carreiros cor de barro e inundando o rosto pálido de nhá Lica. um taco de rapadura ou a manta de carne-seca no jirau de mantimentos. Viajava de costume à luz das estrelas. e. Depois. De lá um pastor se pôs a relinchar prolongadamente. era moça. Passavam à distância dum cercado. enveredou num galope desatinado naquela direção. numa corrida desenfreada. num rastro que se lhe escapava muitas vezes com os informes contraditórios.nova e extremamente arisca. avermelhada e triste dentre os vapores das derradeiras queimadas. que o município ou moradores das proximidades mandam construir à beira das estradas. minha madrinha. e quando obrigado a dirigir-lhe a palavra. A porteira estava aberta. Levantara-se sem queixar e fora pegar no curral os animais. transida de pavor. Nunca mais se deixou levar nos abandonos duma amizade de irmãos.

com que o obsequiara a companhia. lá se foram encaminhando para o rancho. que não quero animal furtado na minha tropa. ou escapulido para o outro lado das divisas mineiras. à passagem das primeiras boiadas que vinham do sertão. Em Santa Rita. O boiadeiro. os olhinhos reluzentes. Até lá. encarando-os fito um a um. certo já de encontrá-lo no Paranaíba. Chico! É tanger para o outro lado do rio a boiada. ainda desfigurado da sangria. um arrieiro deu-lhe notícias seguras da estadia do nagoa em Caldas Novas – vendera-lhe a besta de sela por uma tutaméia. e bradava ao capataz: – Êh.Assim rondou o sertão do Caiapó. não teria decerto expediente para entocar-se naquelas funduras. cujos afluentes engrossavam com as chuvas. Desceu pois o rio dos Bois. servida a café. que ofereceu à roxa com quem se metera aqueles dias à entrada do povoado. e após ligeira prosa. tão logo navegue naquelas bandas. que é do passador? Ó Totônio. atraído ao casebre pelos descantes de catira. dá um pulo à casa desse homem. batendo botas e bombachas com o rabo-de-tatu. . que por ali penetravam o sertão. o ferro do Quilombo sobre o quarto traseiro. que transtorno! – bufou ojerizado o boiadeiro. despistado por um correio que lhe dera uns sinais falsos na estrada de Jataí. e avisa que é tempo de passar os meus bois. E assim dizendo. a dominar a manada. – Quanto à mula. – Veja só. enquanto não aparecer. Joaquim Culatreiro. se se não tivesse o preto embrenhado em Mato Grosso por Coxim. Conhecia casos em que o batedor tinha ido pegar a sua caça no Uruguai. O prejuízo é de duzentos mil-réis. tangidas pela vaqueirama encourada dos boiadeiros. obstinado como todo sertanejo. pois que o preto. dando tempo talvez ao Malaquias de tomar o rumo que melhor lhe parecesse. feita a contagem das cabeças e embolsados os talões com um forte abatimento de cinqüenta por cento de imposto na recebedoria – segundo o velho trato que mantinha em particular com o administrador – veio dar uma vista d'olhos ao gado apertado na rampa. postou-se a observar uma ponta de gado que descia para o porto. que procurassem outro por ali mesmo. – Êh! negrada valente da boca do barulho. o meu macho queimado. Olá. dentro o seu carão tostado de sulista. Lá havia a noite inteira bebedices e cantorias.. e subiu beiradeando o Paranaíba. dormindo descansado na fiúza de seu braço e o bote infalível. desarmando o cachaceiro que lhe tinha aprontado à traição aquele aleive. aqui lhe deixo. numa das quais saíra esfaqueado o culatreiro de sua tropa. a tirar as boiadas luzidas com que iriam abarrotar os mercados e feiras d´além-Paranaíba. mas naquela ocasião o seu homem não podia apanhar molhado. o cabra que levara a facada. A pêlo-de-rato que cavalgava afrouxou logo no terceiro dia da jornada e teve de barganhá-la em Morrinhos com um forte desconto de quebra. a fim de evitar transtorno na condução.. cedo ou tarde havia de topá-lo forçosamente. por sinal que tomara o seu partido no fuça. em resguardo ao ataque de sezões. e. gesticuloso. Entanto. Que sim. a cuja frente a besta da fazenda recebia a ração do embornal. vai-se remediando com ele. no meio duma rusga que os parceiros do nagoa acharam por bem armar às tantas da madrugada. perdidas as pegadas nos centros populosos do Triângulo. Mas a mulher do nadador veio à porta dizer que sentia muito. – Não resta dúvida – atalhou o outro –. que haviam de encontrar. à porta do administrador onde proseavam. toda estarrecida ante as águas do rio. Eram as primeiras levas que o Estado exportava naquelas paragens. e desceu margeando o rio dos Bois. qual de vocês aí sabe nadar? E animava os rapazes reunidos num alto. mas irei entenderme com o seu patrão. que turbilhonavam lá embaixo numa extensão de cerca de mil metros. seu moço – dissera em consciência o arrieiro – pode levar consigo. o que lhe transtornou os planos. Passou a sela dum para o outro animal. veio até o parapeito e confirmou as palavras do patrão. um negralhão espadaúdo. com o produto adquirira na loja do Gaudêncio uma garrucha niquelada e dous cortes de chitão enfestado. espessas e profundas. enfileirada com as demais ao longo da casa. mas para o seu não havia necessidade de tanto. antes que o dia vá de todo descambando. era mesmo o Malaquias. estacionando na encosta.

os cornos a entrechocarem-se nos bolos. de cujo telhado ascendia uma espiral esmaecida de fumo. a camaradagem rondava por escala a manada. Mais outro!. vestido como estava. Às vezes. Êh! ôh. repuxando as bochechas rosadas... junto ao focinho úmido. sondou com cuidado os arredores de uma casa acachapada na ribanceira.. Que seu Juvêncio desculpasse. a mão esquerda aleijada duma cortadura de facão feita havia anos. onde acampava à tarde a boiada. apeado. perquirindo a margem mineira. O capataz ajuntou.Mas ninguém. estava ali às ordens. se sentia com ânimo bastante para afoitar-se naquele mundão de corredeiras rápidas e rebojos que espumavam lá embaixo. oah!. após um baque surdo de corpos sobre a água. A natureza expansiva do boiadeiro explodiu incontinenti numa risada sonorosa. – Rapaziada molenga! Quem há de ser. cujo gancho uncilado se agarrava à garrancheira da margem. batendo o carrascal e unhas-de-gato dos arredores. – Gente mofina. como o espirro súbito duma ponta de curraleiros. numa impaciência que mal podia sopitar as pragas trovejantes que lhe gorgorejavam no peito. soprando um grosso bafo de vapor. no redomoinho duma corrente. indo depois aportar. Os demais. vozeou voltando-se para a companhia: – Moço às direitas! A rapaziada espalhou-se logo em direções opostas. Em pouco. onde os curraleiros se detinham. E um alentado caracu.. se quisessem. e a mais. esperando-os cá do barranco. numa atitude queda de refugo. gente mofina – repetia inquizilado. entrando rápida a faina dos tripulantes em vencer as correntes no manejo dos remos. Impelida rio acima pela zinga do piloto e varejões. que o sol irisava. após recolher hesitando uma e outra munheca. não se atreviam. à beira dos malhadouros. às terras de Minas. Já o boiadeiro se metera com homens. e agitando os cascos à tona um momento. e. no rebojo das águas. resistindo aos que vinham atrás.. apertando o gado num círculo de mais em mais fechado. nos olhos-d'água dos vargedos. perdendo logo pé. atirou-se mais abaixo. – Mais um!. mas tinha as cadeiras rendidas por uns fardos que erguera em seus tempos de tropeiro. como uma pequenina cabeça d'alfinete. Então Benedito avançou a besta. o olhar esgazeado para a água torva do rio. que aspirava com sofreguidão o ar em torno. os ia seguindo à esteira. revezando-se um a um no arrodeio. e voltou desalentado à roda dos camaradas. compelindo-o para a rampa. a balouçar presa à corrente da beirada.. À noite. sorvia com demora o ar em roda. e adiantando-se até o grupo. sobre o pontilhão da barca. Azares do ofício. atirou-se num arranco ao remanso. desaparecia de vez. tocada lentamente das correntezas. Dava-se por feliz quando deixava apenas a ossada dumas trinta reses alvejando atrás. onde um bando de pombas caldo-de-feijão parecia mais moscas a voejar. tomando-lhe a frente. d'esporas e chapelão. ofereceu os seus préstimos: Que ele sabia. animais e bagagem na barca. e.. e aos poucos afastando-se da margem goiana. o resto da boiada. à grita prolongada: – Êh! ôh!.. O cabra. Batendolhe à coxa com animação.. – dizia resignado o boiadeiro. quem? Descera o barranco. cascos fincados. descortinando-se de lá. que refugava nas esporas. emergindo fantasticamente do seio torvelinhento das águas. flutuava mais abaixo e ao longe toda uma vasta floresta movediça de aspas retorcidas. ao canto abafado do passador. aos magotes. . Mas a vaqueirama premia alas. numa descida lenta. guiando-o com o aboiado. cujo vulto aparecia aquém. e alcançando a mão em pala... um boieco soerguia desesperadamente as ventas exaustadas. foi impulsionada para o meio. entre aquela vaqueirada. que espadanava para as margens as suas toldas aljofrantes. aos pares.. quando a presença duma jaguatirica na boca da mata não levava o alarma a todo o acampamento. descansando nos intervalos em que o gado deitava para ruminar. animando-os no arrodeio. olhou para o outro lado. as suas aspas ficaram a boiar.

Não duvidava: – Toda terra tem seu uso. . mas aquela pancada pesadona. bandos e bandos de urubus a acompanhá-los na marcha lenta. aparece aí no meio do rio um toldo de carro. E como o cozinheiro batesse a borra do café no parapeito. Não essa chuvinha miúda. Enfim. aquelas baboseiras. A vaqueirama fechara num pasto a manada. e aquela penca de filhos às costas. ninguém ali duvidava. que no sertão cacheia os arrozais. pôs termo à conversa com um convite franco: – É entrar no cafedório.. pago o ajuste de sua gente. que desse à mulher do passador. – Conversas! – atalhou o boiadeiro.Faina dura! E de pouso a pouso. nem mecê parece viajado. dá-lhe por comiseração um tiro ao ouvido. Assentado sobre os calcanhares. pois sim. é verdade. para acabar com aquele martírio. abatendo-se às chusmas nos brejais lamarentos. sacando de um bolo de notas. E se casualmente por ali passou depois um vaqueiro no rastro dum animal fugido. e o lavrador abençoa como as primícias duma colheita abundante. no Rio Grande onde tivera a dita de nascer. estendeu-lhe uma pelega de cinco. a cuja sombra agonizava outra rês afrontada do mormaço. onde embalde briquitavam em roda com o laço os campeiros para livrá-la. contam os moradores. De vez em quando. enquanto está pelando! VIII Chovia aquela noite. aqueles bois lhe vão render um saldo compensador. que se movimenta rumo das malhadas distantes.. outros à luz da lua. e quebra e tala o milharal em que o matuto depositou as esperanças do ano. à canícula meridiana dos tabuleiros e cerradões. Benedito foi ter ao varandão dos tropeiros.. seu Juvêncio. não era soberba. O outro insistiu. escaldando o coador e repassasse depois a bebida. já de todo reconfortado com o trago da borracha de pinga que lhe oferecera o cozinheiro. mas não fizera aquilo por amor ao ganho. onde um novilho incauto se esforça atolado. – Tem histórias. e o olhar profundamente humano com que segue a boiada. apodrecendo numa agonia estupenda. seu Chico! – Nunca vira patetice igual à daquela terra. ouvir o bramido que solta a rês retida no atascal. enxugava as roupas. sorrindo: ora. e então é certa a morte duma pessoa afogada nas redondezas. – Pois este Pernaíba não é brinquedo de menina fêmea – asseverava o capataz. dada a baixeza de preço por que os adquiriu no interior de Goiás. que recusou. E é um espetáculo que cerra o coração. quando não se punham a banquetear na carniça da que ficou atrás. muitos tinham até visto ao meio-dia. porém.. braços estendidos para o fogo. mas ele encolheu os ombros.. Tomando pé na margem mineira. com a doença de seu homem. sobre a copa duma fruteira-de-lobo da chapada. nele é que não pegavam. Desculpasse. serenando nas alturas. que emudece a natureza e transe as árvores sob o látego do vento esfuziando nas baixadas. Pois sim. descontados os impostos e encostada enfim a boiada nas invernadas de Três Corações. picada de cascavel. nos travessões de mato por onde passaram. Povo franco. O boiadeiro meteu a mão no bolso da calça e. léguas e léguas dos vastos Gerais goianos. a cousa era outra: gente positiva. e o mundo é grande. cortada de relâmpagos ziguezagueantes e estampidos de trovão. enrolando uma palha de cigarro. para caber isso tudo.. Entanto. Mas não. comum às plagas do litoral. – Ora. mas a presteza em pôr fé naquelas bobagens! Já para o sul. necessitada. E ali fica sem auxílio. presa viva dos abutres que lhe arrancam às bicadas a carne palpitante. ora. não valia a pena teimar sem caso pensado.

o sanfoneiro espichava o fole do instrumento. e aos goles da caninha com gengibre que a dona da festa repartia amiúde. pernas trançadas. saiu-se com esta: Minha tia é magricela. entre as cordas de chuva. Logo o coro: É bom de chupar!. a do viandante desgarrado naqueles fundões. sob as toldas d'água cantando no telhado. E os demais... De cada vargem rebenta um olho-d'água. a pinguela do rio rodou légua abaixo. a despejar o seu conteúdo no prato de açúcar. Sentado ao canto num tamborete. desentranhando raízes nas enxurradas. a cabeça ora a uma banda.. Tem achaque no pulmão. a sensação da graça divina outorgada. É bom de chupar!. saiu ao terreiro. as abas do chapéu dobradas sobre o rosto. e é uma felicidade caída dos céus quando se avista. a cada passo a montaria empaca junto a um lamarão inabordável. apertando entre os dedos as chaves. saltando num pé. Montado. o forasteiro num relance varejou aquela cena.. Respondeu que fosse ao cão! Rolete de cana É bom de chupar!. Os demais guardaram silêncio.. O frio cerra.. em tigelas.Chuva brava. e berrou: – Negro! Vim buscar-te! Ele olhou. É bom de chupar!. turvo. intimidados com o tom imperativo do recém-vindo. despenhar-se nos grotões. esvazando nas covoadas e morrendo nos ribeirões. viva. que bamboleava derreada o corpo. Tem-se então. chorava um crioulinho atarracado: Rolete de cana É bom de chupar!. Mas alguém batera à porta. áspera provação. estalando nos fraguedos nus e picos de morrarias.... que realenta o ânimo do caminhante transmalhado naquelas funduras. e apanhando sobre a mesa um facão amolado com que raspara a rapadura. uma luzinha ao longe. sob o ponche encharcado. acompanhando.. o pala escorrendo água. aos convidados.. meio tomado. Daí o grande fundo de religiosidade daquela gente. na toada dolente da dança. junto ao prato da queimada. Naquele cochicholo da estrada.. É bom de chupar!.. Saracoteando na sala à frente duma mestiça. ora a outra.. .. a que sói muitas vezes. num desvio. Descobriu o Malaquias agachado sobre o garrafão de cachaça. Malaquias. o cateretê entrara duro pela noite. É bom de chupar!. que engrossam e transbordam mato adentro.. A festeira foi abrir. no atalho mais seguro. Fui pedi-la em casamento. ao princípio do povoado. olhos em alvo para o parceiro que a distinguira na roda. Com os raios que fendem meio a meio angicos e canjeranas. fortes caudais descem reboando pela garganta das serras. gemiam em conjunto: É bom de chupar!. transpor socalcos e barranquias.

era devido à presença da mulher. que tirara dos alforjes. Ultimava os aprestos do café.. fazendo tenção de levantar-se. moído de pancada. O que foi lá foi. dos vapores do álcool que lhe toldavam o juízo. enfim. acentuando as palavras. muito afável para os que não lhe deviam obrigação.. deixou cair o ferro. O patrão abusava de sua falta de letra. Deu-lha Malaquias com solene gravidade. não era. saltou-lhe então à goela num bote cego. aquela vida de cachorro de camarada. fogo central e apenas as espoletas estalaram. porém. meneando a cabeça. sem rancor: – Seu Dito fez mal.. Se não dava mostra de toda a ruindade que tinha. esticando como lhe parecia na conta. tolhida a destra pelo choque. sempre lhe tive na estima desde pequerrucho. faz favor.. metendo ambas as mãos à cadeia da gorja. Mais valia cair a gente no mundo. fitou-o demoradamente. – Hum! hum! aquilo é bicho mau que nem peste. O outro deixou-o desabafar em sossego.. .. quem pode!. pediu com voz humilde uma gota d'água. a espichar. – Estava no seu direito de ir para onde muito bem queria. seu Dito. Sem dentença. como fizera. presente do Malaquias. – Mas que tomasse sentido. o mais. não devia aceitar aquela incumbência. e como ficassem proseando num certo pé de camaradagem.. É chegar. rodando numa esporada a besta. que nem mesmo um imperador era agora capaz de resgatá-la! Ora. o preto falou sentencioso. e ela.– A mim ninguém amarra – urrou o preto riscando a terra com a faca. e o outro. e no fim. sem garantia no trato. nesse pé. trabalhando dia e noite como mouro. depois disse aliviado. o patrão de ano em ano mais exigente e desalmado. preso o cadeado da corrente à sobrechincha da sela. – Tinham vindo buscá-lo. num esforço penoso de quem procura coordenar as idéias.. Estirado nos baixeiros que lhe deixara Benedito. no que era estorvado pela corrente cuja extremidade o companheiro prendera por cautela ao pulso esquerdo. Benedito foi apará-la ao beiral e como se sentasse ao lado. Labutava na fazenda. transtornando os seus arranjos de abatimento do fim do mês. quase em segredo: – Olha. picando um rolo de fumo. nem sei mesmo como aprontei aquela tarantada na porta da Silvirina. De resto. e a esmoê-lo silenciosamente na palma da mão. no rancho do povoado. – Olha. o negro era camarada fugido. a olhar aboborado para as brasas do lume. Tempo de cativo e capitãodo-mato já passou. Sentia a goela seca. – Toca aí uma quadrilha. – E essa! – disseram uns aos outros boquiabertos. devia ao patrão. Mas Silvirina. deu-lhe com a coronha da arma uma pancada no cotovelo. que tirara pouco antes da garupa. atalhou com um muxoxo: – Ora. chegando-lhe aos lábios a copa do chapéu onde a recolhera. saltando do animal.. ou estourar aí para um canto. como sucedera ao Torquato por meter-se a respondão. O negro. a festeira. a danada. já Benedito o algemava com as ferropéias. Desafogou o pescoço. voltando-se para o sanfoneiro que se deixara ficar indiferente no tamborete. devia ser da cachaça. negro – disse de repente – se és o mesmo de sempre e dás a tua palavra de como não tentas fugir. – Quem entrar neste risco vai de encomenda pra Satanás. o preto. montou de novo e foi tocando o preso para a frente. e. não podia haver seriedade no ajuste. mas judeu até ali com os subordinados ou quem se metesse a empatar-lhe as vazas. que é que via? Dívidas e mais dívidas. enfurecido. Jugulado o adversário. limpando em cada ombro o fio d'água que escorria pelos cantos da boca.. sob o chuvisqueiro que recomeçava a cirandar. era tratar de folgar enquanto houvesse música. sem se importar com os protestos da assistência que dava mostras de querer intervir na questão. ia empurrando para o lume os gravetos que ardiam. a espichar. tiro-te esses estorvos. Malaquias voltava a si. aquele fazendeiro ainda havia de lhe dar o pago da sua dedicação. e o nagoa... assentados sobre as mantas. alvejando-lhe o braço para desarmá-lo. gente! Basta de pasmaceira. Seu Dito. De cócoras junto à fogueira. Benedito serviu-se da garrucha. que ostentava um vistoso corte de chita. – Ó seu Tomás – disse.

as trevas despejavam chuva com reiterada violência. que não queria Seu Dito zangado com o patrão. papo para o ar. Ele estava ali perto. para onde tangia João Vaqueiro uma ponta de gado. mais a beleza. parecia conversa. ficara apenas de pé. Hum! hum! Aquela cobra tinha veneno. E não sabia que aquilo era amor!. que um momento entreteram a ilusão de alcançá-los logo à cola. atupindo-o com o fumo que lhe emprestara o companheiro. como mansão sem moradores. Nem mesmo parecia marido de quem era! D. Luísa. numa baforada.... Malaquias.. curvado sobre as cinzas. dolorosamente. a pedido da Chica. cortando a galope a frente dum garraio refugado na porteira. comprimindo entre os joelhos as fontes.. mas era verdade. E quando a via passar entre as laranjeiras ou a acompanhá-la silencioso nos longos passeios pelo campo. E a filha saíra-lhe em tudo na bondade. A cancela bateu... Fugira a lembrança de Chica.temente a Deus. que inchara e se pusera a sangrar desde o pouso da boca da mata. chupando o canudo. essa sim. Àquela revelação. o chocalho da besta badalava cavamente. depois que o moço já andava metido lá.. IX Ainda não havia de todo anoitecido. agitava-se ao longe como um pequeno ponto sujo no horizonte. os telhados do Quilombo. – E olha. nimbada no fundo de suas recordações de infância. Êh! côou!. mal galgassem a encosta dos buritis. aos intervalos da borrasca. meneando a carapinha. – Quando andava ausente lá pelo povoado. Malaquias roncava.. de que a narrativa do preto avivara zelos ferozes. a pensar. Na tarde que caía. olhando para a janela de seu quarto. A prova estava em como bastou a patroa ir com os filhos passar algumas semanas em Curralinho. angelizando tudo.. uma santa... agachado numa touça de fedegoso.. repisou: – Seu Dito. no ar translúcido da tarde. nos rápidos instantes em que detinha em sua doce figura a imaginação. atalhando uma inclinação que não se sentira nunca com forças para revelar-se a si mesma. Não dissera nada até então.. a armar um laço para os filhos de João Vaqueiro.. e os dois endireitaram para o lanço principal. – Sabia de cousas. uivavam os ventos ríspidos. para que mandasse logo surrar o Torquato da maneira que fez. Seu Dito. Isso.. embora o comprido estirão a palmilhar que mediava ainda a vargem da fazenda. Fora. onde só se pode deter de joelhos. E como batesse o sarro do cachimbo. uns presentes que a mulata recusou. Ecoava tão perto o aboiado. Ouvira-a dizer num suspiro: – Benedito. o vulto do cavaleiro. em silêncio àquela hora e onde as luzes permaneciam apagadas. que mesmo parecia uma Virgem no altar. e até cá embaixo. E ele ali a pensar. mandara-lhe por ele. Olha.. uma lágrima nos olhos. junto aos ladridos do cão pastor mordendo a focinheira da rês espirrada. Êh!. como um ideal mui alto.. dolorosa saudade que ficava. morriam nele os olhos da carne.. olho pregado nas brasas que se consumiam. num chiar prolongado de guariba malferida. como as imagens das santas que se contemplam nas igrejas. e no largo. manquejando como vinha o Malaquias.. que latejavam. com uma estrepada de tucum no calcanhar. quando avistaram. . o moço sentia como que um aperto acerbo travar-lhe pouco a pouco.. as pancadas do coração. de que uma timidez excessiva o afastara na fazenda. seu Dito – ninguém lhe tirava da idéia – aquela moça tem paixão pelo senhor. vinha rolando o canto do vaqueano. estirado nos baixeiros. escadeirando o rapaz e dando com ele na cova.. toma tento naquele judeu. vira-a uma vez sob a mangueira do quintal. dentre currais. e era uma imensa. o velho botara o seu olho em riba da Chica. Depois. na vargem por onde subiam. num supremo e vigoroso lamento: – Êh côou!. ficou a banzar. E era já noite fechada quando transpuseram o mangueiro. Exaltava-a em pensamento. a meiga companheira de travessuras passadas.

Apressou-se porém em recolher o nagoa à casa do tronco. de fora! Ora essa.. que mais brava e trovejante se escutava a espaços. cuja mulher lhe serviu um quibebe de abóbora que foi depois levar ao Malaquias. o antigo legado da escravatura. ameaçando o preto acorrentado ao cepo. o azorrague estalou no ar e desceu sibilando sobre o lombo nu de Malaquias. e de manhãzinha estaria em casa ou enviava as suas ordens. Acordou dia alto com o estrépito dum animal que transpunha a cancela. donde não tardou em pouco o sangue a ressumar.. retrucou: – Êh. que é do patrão mais a família? Nhô Dito não sabia. Os homens entreolhavam-se. Desfeito o jejum forçado em que estava até aquela hora. atado sem defesa àquele tronco. O fazendeiro mal correspondeu à sua saudação. numa suave auréola de perdão e reconforto. às voltas com os negócios da política. Levantou-se numa sacudidela. segurando as bridas para que apeasse. Quanto ao patrão. gente! Ó vaqueiro! – gritou Benedito.. numa quebreira avassaladora. pagando mesmo com a vida. excedia as raias de seu entendimento. correu para a casa do tronco. Mandassem-nos assaltar a urna no povoado. cercado de seus homens. onde recolhia os arreios. talvez. a encher de espanto os demais. e estavam ali todos prontos a enfrentar o perigo. o seu devotamento. correr com um bando de ciganos que talasse os campos da redondeza. afrouxou a sanha do algoz. implacável. o empolgou numa assentada. olhava obstinadamente as cadeias do pulso. a verdadeira felicidade. Não estavam acostumados àquele mister. e a voz pigarrosa do coronel trovejando no terreiro. nem tinham ânimo para tanto. que. que aplacado já à trigésima vergastada. andava lá pelo povoado. todo exclamações. dirigiu-se para o seu quarto de solteiro. se preciso fosse. poderiam vir a bafejá-lo em cheio. onde ia repor Nequinho na escola. A nobreza daquelas almas brotava-lhes nítida do coração à flor dos olhos. João Vaqueiro pôs o nariz fora do paiol. empunhava o rebenque. – Ninguém?! ninguém?! – resfolegava a custo. recebiam correção os camaradas malandros. Mas surrar um preso. sem proferir palavra. a patroa fora no princípio do mês passar com nhá Lica uma temporada em Curralinho. a dar a novidade ao pessoal. Mas a voz do fazendeiro. compensando as horas mal dormidas ao relento. sob o ferro dos contrários. ordenava imperioso: – Que um de vocês chegue para aí às direitas o relho neste negro. Não sabia por quê. batendo a cinza do cachimbo. quando o outro o interpelou de novo: – Mas não se vá. olhos no teto. rosronou d'entre dentes: . farejou qualquer cousa no ar. mas aquela mudança contrariou o moço.. onde um sono solto. o verdadeiro descanso. Voltado para os camaradas. e numa mal disfarçada satisfação. Arrastando as chilenas. e talvez. onde o coronel. onde a visão de nhá Lica surgia agora iluminada duma nova luz. e saía já às carreiras. Àquela resignada mudez. O preto apanhou calado. – Pois eu mesmo vou mostrar como se ensina um cachorro! Enrijado. purpureado o rosto de cólera. que se derreava encapotado à sombra do batente. mandava um próprio avisá-lo. correu a apertar-lhe as mãos. que lhe punha tremuras na fala e os demais transidos. a divagar sobre toda aquela existência ali decorrida. espera aí um tiquinho. e acabando de vez com aquele mal-estar da viagem acidentada. homem de Deus. ao capricho dos fazendeiros. Deixou-se estar ainda algum tempo no leito. no rancho do vaqueiro.– Ó de casa! Êh.. pela pressa de chegar e dar cabo de sua missão. a tirá-lo duma senda por onde cega e erradamente enveredara antes. enfim. hesitantes entre desobedecer ou cumprir uma ordem que lhes parecia fora de todos os preceitos da lei humana. mas não seria aquele o transtorno. mal dando tento de Malaquias. que acendera momentos antes. arrancou-o de vez à inconseqüência daquele vago devanear. confundidos. sem sonhos.. e somente o cenho duro e feroz do senhor dava largas a um ódio surdo. na dependência à banda. mas tinha havido mudanças em casa. onde. êh! Nhô Dito! Cá chegou o homem.

entretanto. para nunca mais se erguer. mas não soltou um só gemido. fora sempre mais compassivo o patrão. Pediu apenas fogo para o pito. A taca cantava de cima. Era o filho do senhor a queixar-se de que o estavam espancando à traição. e. De vez em quando remoía os beiços. e não tugiu nem mugiu quando recebia a coça. ninguém pode aturar sem pôr a boca no mundo. nem quem a manejava. À noite.– Tens para hoje a tua conta. Ninguém lhe tirava da cachola que o filho do patrão estava também levando a sua sova nalguma parte. Histórias como aquela eram correntias no sertão. O senhor d'engenho apanhou o bacalhau. onde o pai suspendia o castigo. Agora. aí está. – Isso viu sá Quirina. entanto. só tinha em mente um pensamento: rever nhá Lica. Demais. lá no canavial ouviu-se um grito lamentoso. viu como o negro pitava o cachimbo? – Vi. ao tempo que os demais... fosse noutra fazenda e a tua medida seria acrescentada. O senhor mandara surrá-lo por vias dum furto. duvidavam.. em seu tempo de moça. que foi do tempo da escravidão.. Mas não havia ali perto ninguém. Enfim. e ele a tirar baforada mais baforada. para assistir àquela cena! Das outras vezes. Malaquias sempre foi homem de opinião. e nem que o matassem a pancada mudava de tenção. Malaquias também pitava a cinza do seu cachimbo. não se percebia em parte alguma. não topando viv'alma. Uma criatura não apanha assim sem pacto com o diabo. mas a correria. Pois bem! assim a tereia cantou-lhe nas costas. – Pois pergunta sá Quirina. Enfiou o chicote no cano da bota e meteu-se pelo interior da casa. Trezentas lambadas recebeu pai Romeu no cangaço sem que desse parecência de dor. que o outro já não podia agüentar. continuava a ruminar as suas rezas. poucos. desvairado. mastigando uma reza má. Lá chegou arquejante à casa do tronco. que me diz a respeito? A velha não mentiu. só mesmo a santa paciência de Nosso Senhor Jesus Cristo era capaz de tanto. o senhor moço embarafustou então pelo caminho de casa.. Deu-lhe o feitor uma tunda mestra. O preto. que atupiu de cinza. desobrigara-se do seu dever. – Ora. tinha certeza. as pancadas iam uma a uma caindo-lhe rijas nas costas. que desse o coronel satisfações a quem de direito. vomitando sangue pela boca. onde se reuniam os camaradas. Ouvia-se perfeitamente o zunido do vergalho a retalhar-lhe as carnes. viu aquele fato com os olhos da cara que a terra há de comer. foi ter ao paiol. Ora. gente. tal qual como o Malaquias! E narrou.. Pai Romeu. a distrair o espírito daquelas idéias importunas. a história de pai Romeu. Ali havia feitiço. E olha que não sou dos mais vingativos. a fumaça do cachimbo. veremos o resto depois.. trato daquele jeito. pitava o seu cachimbo.. e lá se estatelou atravessado no batente. interdito. onde não mais foi visto o resto do dia. e por esta luz me jurou que era verdadeiro. e ele a correr duma para outra banda. que aí está entrevada no jirau.. numa correria desatinada. Que lhe parece? O outro coçou a orelha. – Seu João. cumpria relevar. Os companheiros acudiram e bateram as moitas da redondeza. e que tem? – Pois andava ali feitiço. de que o escravo era inocente. Benedito achou-se às voltas com um grande arrependimento. Entre aquela gente simples não era costume a . lá dava Fidélis largas à imaginação: – Seu João. até não mais poder levantar o braço de cansado. Na forma de costume. Ter ido a tão longes terras buscar o nagoa. levavam a mão à cabeça e clamavam por socorro. indiferente. muito poucos. apanhando sempre.. As roupas em frangalho. tomados de pavor. e acrescentou outras tantas tacadas. achou que não devia piar. puxando. em Curralinho por exemplo. calado.

a manteiga. o requeijão. tivessem dado aquela pisa no filho do senhor. deitava logo com inveja o olho em riba. Outras vezes. João Vaqueiro que ali estava. e ia ter com o patrão. Com essas cabeças tenteava a existência. era vezo dizer-se previamente: Não punha a menor dúvida no acontecido. Ele coçava a orelha. mas. apressado. defendendo com aferro os negócios da fazenda. um vilão qualquer. Ora era a mulher do vaqueiro. como também viriam a servir filhos e netos. o queijo. A mulher fabricava com o leite. como outrora competia ao senhor feudal indicar. o dasapego nativo às questões de dinheiro. quando amojavam. Cuidava da criação de eito a eito. nem lhes passou pela mente discutir as razões. como tinham servido seu pai e avô. formando pouco a pouco a sua leva separada. Quanto ao ato arbitrário do coronel em chicotear o Malaquias. que o senhor encarecia. resultava escapar à rude singeleza daqueles homens a compreensão de semelhante arbitrariedade. Mas o patrão vira-lhe os arranjos. e que punham em prática quando bem lhes aprovinha.. Mas era um desejo. Entretanto. tangia dos malhadouros as vacas. a ofensa grave de que se julga alvo o sertanejo cuja palavra é tomada em suspeição. Continuava ali servindo. nas carnes palpitantes. Este. resultando daí todo o fruto da trabalheira do ano.. entre as garrancheiras e cipoais dos cercados.. que custara à vista oito mil-réis. se tinha! a formular contra aquele pé de cousas. a fim de evitar desandamento na mestiçagem. . continuava a servir a fazenda com o mesmo zelo de sempre. um novilho de valia que uma rodada mal segura pusera defeituoso. curava no curral a bicheira da bezerrada nova. desinteressado no ganho. ferrando-a com o ferro do patrão. compensavam-no largamente das vexações sofridas. ninguém aludiu. o mais prestimoso servidor da casa. Assim quando um caso como aquele ia de encontro às idéias assentadas sobre a experiência de cada dia. Demais. E vieram relatar o caso daquela maneira. estivesse o senhor na fazenda ou andasse ausente na capital. aproveitando a ocasião. mandava um portador adquirir o brinco no negócio. longe dele duvidar. tinha por ano a sua paga de vaqueiro. Chegada à casa. Era aquele um costume que assistia aos fazendeiros.mentira. da freqüência dessas usanças. ficava logo desacreditado para o resto da vida. e a mulher do vaqueiro tinha com que se pavonear do rancho à cozinha da casagrande.. lançava-o à sua conta o fazendeiro por vinte e mais. se protesto havia. enfim. tirado a dedo. Tudo podia ser neste mundo largo. o seu rebotalho era então pouco para saldar aquela rês perdida. as suas sortes penosamente apartadas. que fora ao povoado e lá cobiçara um guarda-chuva de cabo floreado na loja do major Higino. que iam no mercado render dinheiro à casa. era um zebu reprodutor picado de cobra. com gestos amplos de largueza. não duvidava.. também tinha as suas queixas. – Enfim. Talvez fossem os parceiros de pai Romeu que.. chocando as mais comezinhas noções que possuíam da realidade. para que se lhe abrissem as entranhas onde enfiar. e daí. que lhe dava a marca de tala. a razão duma sorte por lote de quatro crias. cuja família a vinha servindo de pais a filhos. os pés regelados das sortidas de caça. O amor àquela vida a que se acostumara desde os cueiros do balaio.. capando em tempo os boiecos. Se alguém aprontava um carapetão. era apenas a repugnância instintiva que sentiam todos em pactuar naquelas iniqüidades. Competia-lhes aquele direito.. Jogada a culpa sobre o vaqueiro por imperícia ou falta de vigilância. serem quase que insuficientes para resgatar o preço de semelhante bugiganga. entre a arraia-miúda de sua peonada. punha o marido ao corrente de seu capricho. sem que com isso levantassem entre os seus a mínima oposição. Vingança de cativo tem manha. ou mesmo um simples murmúrio de censura. E avançava as suas razões: – O fato podia explicar-se. na prosperidade dos quais punha mais cuidados que nos próprios arranjos. Aquilo não lhe proporcionaria a mínima utilidade na fazenda. E. Mas aquele guarda-chuva.. a ponto de não mais poder queixar-se depois..

a provocar terçóis e inflamações noturnas à vista de quem desastradamente ali detivesse o olhar sonolento e deslumbrado.Assim. e. Ajudara Fidélis a tanger o gado até a malhada próxima. a ampliá-lo e a exagerá-lo dum modo bizarro. encarniçando-se às vezes sobre um pequenino episódio do dia. Só na alma de Benedito. na boca da mata! Metido na macega. e fora depois tirar os palmitos de guariroba que lhe tinham recomendado na cozinha. imobilizava a natureza. Seguindo. E uma semana havia já que estava no Quilombo. as mãos ardendo do cabo da machadinha. e o couro do guarda-peito inutilizado por um violento rasgão de espinho de veludo. modorrava na rede do paiol. mas um novilho de nhá Lica. aquela dura soalhada que nas intermitências das chuvas castiga o solo goiano. indo pegar no pasto a Pelintra. onde os esperava João Vaqueiro com outra ponta. na tropelia do campeio. que recolhia agora à sombra dos laranjais. com um bando de pássaros-pretos que gorjeavam no coqueiro da cerca. sob as taiobas do açude. ou tinha sempre à vista um galho atravessado na galopada. A tarde já descia rápida. alentado meio-sangue reprodutor. . nem mesmo sabia quando lograriam pôr-se de novo a caminho de casa. Chegou moído. e. A grande luz faiscava intensa na fachada do edifício principal. deixado n'alma pela revelação de Malaquias. o impulso da primeira idéia. e. A mormaceira ardente daquele dia. que penas e aborrecimentos tantas vezes lhe poupara.. que.. Da parede. que abrasava. que até mesmo recusara a mão de sal no cocho da salgadeira. que ao recolher o gado apanhara quase toda na chapada. o bico semi-aberto de cansaço e insolação. enfim.. dera-lhe ainda pancas por uma boa estirada de tempo. X Pela volta das três horas. com as suas chistosas galhofas e o riso brincalhão sempre pronto a desabrochar nos lábios escarlates. na sonolência que o quebrantava. uma tênue e impalpável poeirada ascendia. onde ciscava uma cama fofa e esparrimava-se na frescura da terra. dando-lhe uma rodada merecida. do incômodo modorrar a um ligeiro sono reparador. ao badalar do sino chamando os fiéis à novena e à alegre garrulada dos pássaros-pretos nos coqueiros do adro. Uma necessidade brusca de revê-la apossou-se-lhe da alma. ao abrigo da soalheira. ele trazia as juntas doloridas. punha-lhe as artérias a latejar. Benedito recolheu-se do campeio. mais esclarecido.. o pampa meio bambo da labuta. mal o pensara já apanhava o cabresto. sem aragens. Assim. no pampa mascarado campeador. Zuniam-lhe os ouvidos. ao virar das onze e meia já tinha todas as reses encostadas num furado. catando no tijuco uma minhoca para a ninhada de pintainhos. não compreendia a fuga do nagoa. ocorreu-lhe súbito a lembrança da Chica. E quando veio o crepúsculo. e se pusera a picar no batente da porta o fumo do cigarro. quase o trespassava também de vez na mata. Benedito passava. Fora um dia trabalhoso aquele. emudecendo no terreiro o terno cacarejar da criação. na forma do costume. como um cão danado remordeu o remorso. Mal pousou a cabeça sobre o punho da rede. Fora o veranico. vira-a a vez primeira no arraial. três anos e tanto atrás. donde logo se ausentara o patrão. numa letargia contagiosa. ora era o novilho ateimado em encafuar-se na biboca. e a cabeça mais parecia uma zorra a zumbir. não fora topá-lo depois a jeito. e embalado num devaneio intraduzível. numa tarde calorenta como aquela. não tivera tempo ainda de pensar naquela alegre companheira de folgares. formas estranhas começaram a passear-lhe a imaginação. deixando-lhe expresso o encargo de vigiá-lo. a sugar ávida a água do rego. que acreditava vergonhosa. de que era preciso desviar-se a todo o custo. como não compreenderia nunca a sua dedicação a toda prova pela causa do fazendeiro. Por seu lado. já uma camoeca molesta chumbava-lhe as pálpebras. sob a guarda de Fidélis. após uma terrina de coalhada. tirando uma fumaçada distraído.

dum rival feliz. Arrancou-lhe num safanão o rosário dos dedos. pra que tanta zanga. a fazer diversas recomendações. descarregando-lhe por cima o peso da preocupação em que vinha: – Mulher. Tinha uma dúvida a doer-lhe a consciência quando o moço se despedia. que o via ali parado à soleira. mas achando atrás anteparo numa escora. que indagou medrosa: – Quem está aí? Não respondeu. certamente a vaca que vem aí lamber todas as noites o barro da parede assanhou o cachorro. na ânsia de ganhar o chapadão. deixa-te estar. e pô-lo depressa a caminho do palheiro. a repuxar a barba. Eram onze horas menos um quarto quando. cuja taramela cedeu à quarta. e já forçava a porta do quarto. O guegué fazia-lhe agora festas entre as pernas. matutando. a garrucha engatilhada. deu às carreiras rodeio à casa. pensativo. pôs-se a suspirar. proseando com João Vaqueiro. que investiu às cegas. após recusar o convite para a janta. voltando-se na sela. Fez com ambos os canos fogo naquela direção. no galope sustado da rosilha. e outra fala descansada de homem atalhando: – Não é preciso. voz dum macho lá dentro. a orelha aplicada à fechadura. por onde enfiou como uma cobra o braço. – Hum! hum! – pigarreou João Vaqueiro.. quando ouviu ranger lá dentro a janela que deitava para o oitão. relambendo o cano das botas.. como que duas pessoas se interrogavam precipitadamente. sempre despertou o faro do guegué no palheiro. e o gesto transmudado. – Também.. lá vou ver. e já aquietada. e. Benedito batia longe. e lobrigou ainda um vulto que descia apressuradamente a ladeira. onde Chica rezava de joelhos. diacho de bicho abelhudo! É tratar antes do que é da sua conta. já a cólera o colhia repentina. Escutou a cama ringir. por maior cautela que pusesse em dar volta ao fundo da casa e aflorar de sobreleve a porta em duas breves e secas pancadas. duas esporadas no vazio e a mula atravessou a cancela escancarada num galope mal contido. E num repente. deixa os outros em paz. resistiu ainda. E não falaram mais naquele assunto. achava-se de novo cá fora. Ele permaneceu silencioso. e voltou espumando ao interior. criatura! – interpelou-o a mulher. desviado na sombra. Entanto. apegada ao oratório. Ela abaixara a cabeça. – Sinal de que volta logo – ainda bradou de longe o cabra a rir.. três.. Lá dentro houve um rumor de conversa abafada. Como um raio entrou na cozinha. Um pontapé no ventre. – Cousas. numa súbita desconfiança. descarregando o ar da barriga. – Mulheres!. a reconhecê-lo. em todo o caso. e dizendo ir cear no povoado.. resolvera calar.Deixou-se ainda ficar dous minutos no curral. E o patrão que punha tanto empenho ao ordenar-lhe que em caso algum deixasse a fazenda. enfiando o casaco. homem de Deus? – não perguntara por mal. galgou com vagar a rampa que levava à casinhola da Chica. retirando a tranca. que estava posta. depois alteou-se a voz de Chica. e assim de joelhos. mas entre o dever e a amizade. E sumiram ambos numa depressão. lamuriando a intervalo das lágrimas: . Depois. assentou sucessivas patadas à porta. ladrando desabaladamente. ouviu a mulata que dizia: – Não foi nada. duas. apurava o ouvido à escuta. dando talvez passagem ao fugitivo. Àquela voz. Num pulo d'onça. De novo a voz de Chica perguntava quem estava lá fora. – Que é que te põe assim macambúzio. junto ao leito desmanchado. a chorar copiosamente. aos ganidos. indagou: – Quem era? Quem?!. – Hum! temos aí marosca feita. e uma. E recolheu-se. deixando arreada a mula no rancho dos tropeiros. deixando uma abertura. meio irado.

atirou-lhe o primeiro pontapé às nádegas. Ante o silêncio que mais uma vez o acolhia. uma suspeita súbita cresceu-lhe na mente superexcitada: . num esforço: – Mas quem era. vamos. interpelou de novo.. chegou à janela.. e o olhar baixo. jogou-a de bruços de encontro à parede. a repetir em desatino. passeando-lhe o corpo com as botas. pôs-se a festejar-lhe as faces mansamente. o olhar chamejante. tateando. com igual paixão. e. violentou-a com selvageria..– Ai! Jesus!. num arrependimento mudo agora.. XI A luz batia em chapa no forro de telha-vã. e desandou a espancá-la. Levantou-se às tontas. A um solavanco da mesa. puxando o tampo. lembrando sestas fervorosas e noitadas mais felizes.. enfim. a ver se conseguia obrigá-la a erguer o olhar culpado. A princípio. dobrou-se sobre aquele corpo que lhe opunha apenas a morna passividade dum silêncio obstinado. a candeia entornou-se e apagou. com igual furor. a negar toda a certeza daquele amor passado.. na inexplicável comoção que o ia insensivelmente invadindo e era como que a gota d'água na fervura. levantou o queixo à mulata que tremia. mas o aspecto desordenado dos objetos. e à luz do candeeiro que espalhava o seu clarão amortecido aos quatro cantos do aposento. a unhadas e mordidelas. bestialmente.. acordou-lhe brusca no espírito a cena da véspera.. ergueu-a com cuidado. num último e sanguinolento lampejo. Pela altura do sol. e furiosamente. a coronha da arma chuchou-lhe o peito. como tivesse ainda em resposta aquele choro frouxo e contínuo. Depois. assentou-a à borda da cama.. Não foi nada. e. sacudindo-lhe dolorosamente as arcadas do busto farto. da fidelidade e obediência antiga. não se recordou da hora nem onde estava. noutro tempo familiares. suavemente. apenas soluços. embalde.. – Vamos. Voltou-se então com a claridade. mordendo os beiços. Então. e àquela desordem dos trastes. quando abriu os olhos daquele sono de pedra. Encontrou-o deserto e frio. num assomo para o qual já não havia freio. Aquela inércia exasperava-o. estripando o seu conteúdo numa profusão de peças revolvidas. – Não chora!. e. quem? Não faço nada. as roupas atabalhoadamente atiradas aos montes pelos cantos. estancarlhe o pranto ao rosto esbraseado.. Ai! Jesus!... com rancor: – Quem era? Quem?!. E já sentindo que ia em breve fazer acompanhamento àquela choradeira desatada. estupidamente. Ora veja. perdida a tramontana. deformando e ampliando em torno os objetos dum feitio estranho.. retribuídas aos ganidos pela boca convulsa da amante. aos rugidos de fera. varrido numa raiva que não tardaria em pouco a explodir nalgum desmando. que lhe foram. que molenga!. diabo! Quem era o homem que estava aqui contigo? Soluços. derrubou-a de novo arrebatadamente. Batia o pé no chão. em que tentava. numa impulsiva revolta. que ainda se conservava cerrado. já dementado. um pasmo repentino sopitou-lhe a ira. cerrando os punhos. E foi com mal sofreada ânsia que procurou ao lado o lugar de Chica. pisou-a um instante barbaramente. Fustigou-lhe o rosto com as contas do rosário. reagindo contra a natureza que o traía. os baús abertos. diz. e.. que o rodeavam. já devia passar de meio-dia. rosnando sempre o estribilho feroz: – Quem era? Quem? Afinal. numa onda de sangue.. achou-se de todo desorientado. cortado a espaços pelo estrangulado soluçar. de cão corrido. eram a resposta às sucessivas e impacientadas perguntas. na semi-obscuridade do aposento.

cabra! Calango de chifre e macuta furada. ora. Bentinho Baiano e Generoso das Abóboras ao lado. só vive para aprontar maldade! E mais a mais. a acalmar a efervescência do sangue. e.Fugira a cabocla! Procurou-a ainda pela casa. mais parecia caçoada. Mas adiantara-se apenas para inteirá-lo do perigo e prestar-lhe o seu auxílio. caso resistisse. se preciso fosse. vergastando os ramos que encontrava dobrados sobre o caminho com o cabo do piraí. seu Dito. o Malaquias. o seu corpo luxurioso e fresco nos braços daquele . O álcool agiu depressa naquele organismo. pedindo atenção. se fosse com os demais. se não me está a cheirar que ainda hoje vejo o melaço dalgum desgraçado correr na ponta de minha franqueira! Insensivelmente. numa fúria mal recalcada. na marcha esquipada. uma escolta de Zé Velho. abriu num galope furioso. disposto ao que desse e viesse naquela embrulhada. e. alisava a coronha da garrucha. de que não compreendera ainda patavina. engrossado pelas chuvas da quinzena. após o que cravou esporas na besta. e esperou firme sobre os estribos. Era pois aquele velhote perrengue que se lhe metera com a Chica! Bom achado! Quem havia de tal convencê-lo! E aí estava explicado o silêncio birrento da mulata e a sua fuga pela manhã. aquela alma do diabo é que nem cobra. matando-o mesmo. só em pôr o pensamento na imagem da Chica. e João Vaqueiro. Dito. Já lá no fundo da baixada o mato da Estiva avolumava o seu listrão sombrio de frondes ramalhudas. O preto. numa rodada desastrosa. molhando a fonte e os pulsos. passarinhando para o lado. Fingiu aceitar e deram-lhe aquela clavina. volta donde veio e suma no mundo – disse o nagoa. meio ressabiado. pela manhã. não fora a segurança do cavaleiro. – O patrão tem gente à sua espera para o prender. armado duma clavina. numa tocaia que fizeram junto à cruz do Ambrosino. metido em fuxico de saias! – Então. a jararaca ia mostrar agora toda a peçonha que tinha. Fez uma ligeira ablução na água da cacimba. e conduzi-lo amarrado ao Quilombo. esperar a ele. vindo então com os outros emboscar-se no córrego da Estiva. Depois de ter mandado soltá-lo à casa do tronco. Não se deteve mais tempo a averiguar. O patrão chegara. que desde a véspera não ingeria alimento algum. rumo do Quilombo. que surdira como que por encanto de trás dum oco de pau. Dissipavam-se as dúvidas que viera entretendo pelo caminho. refletindo. com as esporadas que ia acrescentando ao ventre da besta. o xale desaparecido do cabide e a porta às escâncaras. avançou cauteloso. morto ou vivo. um dedo ao beiço. começou a sentir saibo de sangue na boca travosa. – Ora. Era um vulto. e já montado. na fazenda. caso pretendesse mesmo afrontar os capangas. vinha o marulhar cachoante do córrego nas pedreiras deslavadas. batendo os recantos. mas a ausência dalguns objetos preciosos guardados em certos escaninhos que sabia. sob o sol que assava. metendo o animal no trote picado. veio logo uma secura à garganta. a Pelintra estacou em dois corcovos bruscos. deixou-se ficar mais dous minutos na venda da Maruca. desconversou com a companhia. viria ao chão. atestavam bem em evidência a partida precipitada de sua moradora. entrou a bazofiar: – Vote. O outro. tomasse cuidado. à saída do povoado. e pela estrada. impondo silêncio. Com o vento. cortando o jejum com um rebate de meio dedal de cana. Corria à rédea solta. Bem dizia! O outro ouviu de mão no queixo. E explicou. na estrada. esbaforido. que tinha Seu Dito em muita amizade e com o qual não queria questão. deixando ao lado os pinguelões das ribeiras. para num salto transpor as barranquias. cuja boca revirara prudentemente para baixo. o que não aconselhava. dizendo vir apalpar o terreno e dar-lhes aviso quando aparecesse o vulto do moço na estrada. e desceu ao povoado. que patusco! Mas o sangue de todo não se lhe acalmara ainda nas veias. propôs-lhe em particular a desobriga da conta e mais uma boa molhadura de vinte mil-réis de quebra. De repente. – Seu Dito. quanto a ele. que não achara ainda onde descarregar. – Bem dizia eu. Lá ficaram os quatro à espera. Passada aquela onda de chacota.

Num fechar d'olhos estava desarmado. rosronou à companhia: – Que diacho de estupor é esse! Isto é lá cousa do outro mundo? É esta a primeira vez que trazem à porteira um poldro madraço em vias de capação? Pois as éguas do meu pasto não foram apuradas para roncolho dessa laia! É pô-lo manso. Passou o dorso sardento da sinistra pelos beiços. Entardecia quando o coronel. do alto duma árvore. tirem-lhe os estorvos do corpo. . Mais uma vez. Benedito penetrou as primeiras árvores da Estiva de sobreaviso. sobre a ponta do qual agitava um molambo de baeta. Uai. olho à esquerda. e já animal e cavaleiro desapareciam além. deixem apenas pés e mãos manietados. encostado ao poial. que estadeou às ventas da Pelintra. Deteve-se a amolar o ferro à piçarra do rego... Então Malaquias encolheu os ombros. debruçado a espaços.. Um riso surdo. tinham metido os trabucos ao ombro. a cada palavrão. saltou-lhe dali à frente o Zé Velho. num capoeiral da volta da estrada. indefinível. ora a outra banda. empunhando um forcado. tolhido e atirado como um fardo ao lombo da besta. João Vaqueiro. e já lá iam distantes. duma expressão maligna. que os da matula entraram sem detença a tocar.velho coroca.. como que para detê-lo ainda a tempo. ao aproximar-se. numa arrancada veloz. está que nem bezerro desmamado!. impaciente. rumo do Quilombo. enquanto forcejava com os cotovelos. depois comandou: – Amarrem o homem no curral. Tremia-lhe a voz. quando. e que devera ser o mesmo riso de Pêro Botelho às voltas com as almas do Purgatório. cego. Malaquias percebeu-lhe logo a intenção. olho à direita. a garrucha numa das mãos. uma revolta sanhuda sacudiu-o dos pés à cabeça. fincando esporas. zombeteiro quase. a repuxar-lhe os cantos da boca numa careta horripilante. enxotada a Pelintra à frente. voltando a fronte bronzeada e deprimida ora a uma. o vulto do negro aprumou-se no meio do campo. pesquisando. retirara-se para o seu rancho e. que distribuiu às canecas pela capangagem. pronto a varrer qualquer tiraço na lã grossa do pala que desdobrara na outra. ficou de longe espiando. no refugo. abafando todo o respeito antigo. enveredou por um trilho à esquerda. saiu ao terreiro. Zé Velho e Generoso. Generoso insinuava-se como uma cobra sob o ventre da mula. E os braços enredados pelo arrocho da correia. nunca viram? Pois o bicho parece mais esperto que a gente. Mandou vir da armazenagem um garrafão de restilo. na mais fera e imperiosa bruteza do instinto animal afrontado. e um laço sibilou-lhe à cabeça. pachorrentamente. derrubando-o pela perna. alumiou então o rosto do fazendeiro. Pelo lume dos olhos e o arreganho involuntário do gesto. prelibando o gozo da vingança. fareja depressa a sorte que o espera no moirão. e. cumprida a sua obrigação. e ia arengar no intuito de demovê-lo. batendo a poeira leve da estrada com as suas alpercatas de couro. eriçando-lhe as falripas do rosto.. Então o fazendeiro despiu o paletó e arregaçando as mangas da camisa. e uma necessidade imediata de desforço mostrou-se-lhe clara. rumo da Estiva. já Benedito afastava-se. caminho do homízio e do sertão. onde se empoleirara. e atravessando a arma à bandoleira. levantando as mãos no ar.. soerguendo o busto agigantado. antes que me desande no campo a descendência de alguma potranca de estima. fechado o corpo com o trago da pinga e embolsada a maquia da peita. rédeas aos dentes. Mas a cólera rugia-lhe dentro demasiadamente violenta para continuar naquele enxurro de chufas. os dedos da destra crispavam-selhe no cabo do quicé como cunhas. num facies de riso alvar e cínico. os viu chegar. Depois. vejam só. para o seu destino. ao peitoril da janela. mordendo os beiços. para a sua perdição. O cavaleiro mal teve tempo de sofrear. atirado certeiramente pela mão de João Vaqueiro. uma comprida folha de quicé debaixo do braço. a alimária. resignado. que o fazia crescer meio palmo na sela. sob a sua carga humana. E ainda bem não deitara o olhar investigador a uma pequena moita suspeita de marmelada.

. em papos fofos. que eleitos pelos círculos vizinhos. e repuxando os cordões.. Modorrava. mostrou uns flancos robustos. Entretanto. Deixou-se amputar em silêncio. de Hércules rústico. num corte hábil. e o mais forte esteio do partido no município. junto aos lavrados que possui. em que a sua personalidade semelhava desdobrar-se. e foi lavar as unhas sujas no limo do rego. a arroxear-lhe os punhos intumescidos. com o qual não tinha a mínima relação. uma das mais legítimas influências. e baixo. a assumir as suas respectivas funções de deputados e senadores no Congresso estadual. Desde que se sentira atravessado na Pelintra. recolhia os despojos sangrentos de sua vítima num caco de telha. as palavras do fazendeiro ressoavam-lhe à orelha sem significado. ali se detendo apenas dous minutos para um aperto de mão ao correligionário político do lugar. A operação foi demorada. coronéis e fazendeiros pela maioria como o senhor do Quilombo. Num gesto rápido. uma prostração profunda. quase choroso. olhos esgazeados. É pôr-se logo de pé. Tratos.. de novo partida. assistiraos a muitos. dolorosa. A marca de tala deu boa porcentagem este ano. Estava consumada a operação. peludos. a julgar pela contração intermitente de seus lábios convulsionados. o coronel. como um vago e longínquo zumbido de maribondos. de formas e maneiras várias. a quem era indiferente. como uma rês abatida. sobre cuja esteira de jirau perrengueava a mulher. sem mais palavra. . o operador espremera os testículos. se lhe embaralhava na mente. cujo fio o patrão experimentava na unha do polegar e a fitá-lo sinistramente? E a cadeia de idéias. dá de sobra para a nossa desobriga.. naquela interminável tarde sertaneja de verão.. sem movimento quase. na vargem em sombras. atado ao poste de tortura qual novo São Sebastião.Para Benedito. Já aquele pastor intrometido não sairia mais pela redondeza a importunar-lhe as potrancas de estima. Deu mais uma vez ordem a que atirassem com aquela rês pesteada no quarto escuro do tronco. olhava sem compreender. E a camisa muito curta. o coronel desabotoava-lhe d'alto a baixo as braguilhas da calça.. e sim um outro indivíduo estranho. João Vaqueiro. onde já voejavam moscas varejeiras.. olhava aquela cena. Aos últimos raios de sol a ferir obliquamente a cumeeira da casa.. que nos vamos daqui embora para nunca mais. punhos cerrados. e veio estacar junto à cancela do mangueiro. uma alegre cavalgada apontou ao longe. avisou: – É pôr-se logo de pé. sem coordenação. Dados os dois talhos longitudinais. e fechou-se na casa-grande. penetrando ruidosamente no pátio onde havia pouco se desenrolara aquela execução sumária. Mas como aquele. nessa e em outras fazendas do interior.. e dali ao pelourinho do curral. esses. paralisara no cabra a máquina do pensamento. Era um grupo de representantes do povo... à espera de que aquele pesadelo de chumbo. não exprimiram uma só queixa. acordou-a de manso. à maneira do que lhe acontecia nas horas de febre – quando dormitava das soalheiras apanhadas na labuta do campo – se dissipasse ao vir da noite. numa recaída de resguardo de parto. Que significava aquela lâmina reluzente. tudo lhe parecera como num sonho. os olhos. aos quais deu em cruz a laçada de uso como se faz aos marruás. que abriram. Iam prazenteiros e satisfeitos.. que depôs num moirão do cercado. A roupa caiu-lhe balofamente aos pés.... encostado ao poial. Mas a boca. separou-os de vez. apressados como estavam em chegar ao término da viagem. seqüência da excitação em que viera até aquele momento. e não era ele que ali estava jugulado pelo laço vaqueano. finda a tarefa. nas primeiras frescuras orvalhadas do crepúsculo.. que o estertor desordenado das arcadas do peito soerguia a breves intervalos. cruenta. pedia castigo divino! Entrou no seu rancho pobre de sapé. por ali iam de passagem. A cabeça pendida sobre o peito.

XII Na fazenda. – Fez muito bem... mais além. a filha do fazendeiro. e mesmo. nas vargens de mimoso e jaraguá. Um a um. tão ingrata e penosa agora de rever pela maldade dos homens? O patrão recolhera-se a Curralinho. naquele mesmo trato da campina.. mais duro e cruel... Emudecia em torno a natureza. os camaradas do sítio se tinham ido. sob os gravatás e ananases da beira da cerca. quem sabe. benfeitorias. coronel!! – disse um da comitiva. agora erma. após lenta agonia de uma semana sem pão e sem água no fundo da casa do tronco. lutando embalde com um atavismo de condição que o trazia atreito àquelas paragens. fazia-se triste e compungida ao acentuar as notas derradeiras da cantiga. se não mostrarmos energia. ao acompanhamento lúgubre das aves de má morte no telhado. Gente ordinária até ali.. pusera anúncio nos jornais da venda do Quilombo. para que persistir naquele pedaço de terra. E mais dolente e compungido se faria decerto o sertanejo.Enquanto se serviam do café. na azul transparência daqueles céus de abril. arrancou-se uma clara manhã. das ferropéias dum jugo para as de outro. as últimas galas da estação. com uma dívida de um conto e quinhentos mil-réis no costado por pagar. a água dos córregos ia escasseando. e ao chiar do carretão que conduzia cambotando os destroços de seu lar desfeito. valendo-se de novos contratos com fazendeiros do arredor. contou-lhes por alto o fazendeiro o acontecimento do dia.. o enterro de nhá Lica. que ofertava. lento e lento o tempo começara a sua obra de estrago e desconforto. fizera-lhe tantas vezes acompanhamento o grito triufante de nhô Dito. se soubesse que aquele seu descante agoniado.. traste imprestável e traiçoeiro. Morrera o infeliz. onde estava a família. rumo incerto de distantes terras onde iria recompor a vida transtornada. numa passividade fatalista de rebanho. . só serve mesmo para nos dar prejuízos e cabelos brancos. na tarde que baixava. que essa gente. a bela voz do vaqueano já não tinha aquela sonoridade vibrante de outrora no ecoar do aboiado.. tocando adiante da família maltrapilha os refugos de gado que conseguira ressalvar no seu ajuste final de contas. – Pois não. criação e mais gado miúdo. sob um sol de rachar. era a nênia fúnebre que acompanhava.. montam-nos o pêlo de botas e esporas. morta em Curralinho de tristeza e paixão. onde o tinham a mando enterrado. que vira crescer e tornar-se homem sob o seu olhar desvanecido. É que ali. na chapada. Também. donde urros de endemoninhado saíam na noite. Assim. e que – pobrezinho – lá ficava agora esquecido na fazenda. tangendo à frente dos seus remanescentes da antiga manada. Nas nascentes. morreu-me um dos tais. Já o inverno vinha próximo. Por último João Vaqueiro. sob a frialdade das noites. a sonhar o seu sonho de paz e de ventura noutra vida melhor. que ali se deixara ainda ficar. Ainda a semana passada. com pastos. E.

a Triste. pasto de lambaris. Hoje. na criação do gado. catas. as entranhas da terra. sob muitos aspectos. barrocas solapadas. ocupando o espaço de duzentos metros mais ou menos de circunferência. com as reminiscências da época da descoberta. a Madre de Ouro aviva. para delas dar cibo e páscigo à sede do luxo. irradiando em torno um brilho de mil chispas e centelhas. zelam e guardam para sempre inviolada em seu retiro.. enraizada. sabor que não têm ou já perderam os centros mercantilistas. Serenada a agitação das ondas. mais vivos e constantes são os atestados do delírio avoengo em esmiuçar. outrora sacudidos pelo estalo do relho dos feitores e o grito angustiado da escravatura. restam. à luz forte do dia. minas. papa-iscas e mais arraia miúda do lago. a aurifulgência de seus raios mágicos ante a adoração das florinhas anônimas. e de longos. do litoral. E à medida que se aproxima de seus arredores. debruçadas à beira da lagoa. ficou. a profundidade do poço. Fica nas proximidades de Bonfim. em devassar-lhe o líquido arcano. mui longos anos habitadora daquelas águas remansadas. o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII. surpreender o segredo. Foram-se os antigos bateeiros da descoberta. mais afoito e sôfrego. eis de novo. as aluviões de aventureiros e desbravadores à cata do rico filão. volve de novo à tentação da miragem e mergulha mais uma vez no lençol silencioso e frio. vago encanto do passado. do ouro.. argilosos e tristes. Contam moradores e viajantes que. guarda ainda. velam de melancolia o olhar do viandante que demanda àquele recanto do Planalto. mui transparente e cristalina na calma circundante. tomados de febre de riqueza e inovações. como na maioria das lendas. esboroando-se nas chuvas. voltando à tona o seu corpo tempos depois. Ficou-lhe. E se um. É a Madre de Ouro. uma coma verde de gordura corre a crista dos valos e carreiros. extinguiu-se a febre da mineração. pois. uma população pacífica e laboriosa. que o mistério do sítio. estripando-as. a refrangência. cujo encantamento curiosos e mergulhadores tentam. cujo estranho fulgor inebria e cega de deslumbramento e cobiça os olhos mortais ali empenhados. com a sua inconfundível arquitetura reinol. quando a superfície se lhe aquieta. estilo barroco. Embalde é a teima porém. o desvio de seus raios e momentâneo desaparecimento da visão assim lhe perturbem o imoto cristal. Meia Ponte e Vila Boa de Goiás. em outras profissões liberais. ao mesmo tempo que bonachona. uma enorme pedra responde do fundo das águas aos fogos do meio-dia. na lavagem do cascalho. das quais. um ponto qualquer de contato com a verdade. lavras. simplória e. a pedra maravilhosa. às bordas da frágil igarité. embala-a o mesmo sono de duzentos anos de Bela Adormecida. histórias e lendas. já então em via franca de decadência. à busca do encantado tesouro – obscuro Alberico a quem faltou o anel dos Niebelungen – logo o pune de morte a Madre gloriosa. Da primitiva exaltação. Arredores de Bonfim BONFIM é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas. alisado o espelho translúcido na queda da aragem. talvez porque haja no fundo. em vão. no comércio das letras. * * * . Escavações profundas. porém. minas ao desamparo. como um sol submerso. cousas mortas que a mente aviva e a tradição redoura.. página heróica do esforço extinto da raça.A Madre de Ouro Poço da Roda. Alveja em montes o pedrouço das formações à beira das estradas. o antiquado perfume de antanho. veeiros revolvidos.. Como Goiás. hospitaleira – aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea. ainda intacto. é a do Poço da Roda das mais populares. que à memória apraz reviver. tudo jaz ao abandono. fulgurando. no ermo de um descampado. como tradição. que faz a prosperidade do município na lavoura. ao esplendor bizantino da velha metrópole. de feição pesada.

História que tem a sua origem nos bólidos. toma na cozinha da choça um tição em brasa. pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda. cujo termo é a explosão do meteoro na noite silenciosa. E tal como a ouvimos. . detém a sua carreira vertiginosa. Logo. numa viagem aérea. cede a Aparição ao sortilégio do homem. a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente. no interior. fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa. E depois. Se esplende ali a Madre de Ouro sepultada no fundo do Poço da Roda. toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada. no ermo da noite. lascas. corre ao limiar e faz no espaço uma cruz de fogo.. continua entanto a sua peregrinação através de outras paragens do rincão goiano.. e arrebenta em estilhas. muitas vezes. calhaus e blocos. pedrouços. o seu quebranto consta do seguinte: Quem escuta ou vê. tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. filha do cósmico deslumbramento e da superstição primitiva.Tal é a lenda nesse trecho do território.

descobriu a grenha hirsuta. já à boquinha da noite. quebrar por um trilho de bicho do mato. . que veio esbarrar. como o pinto pelado da história. carijó preguiçoso cantou doutra banda.Pelo Caiapó Velho – NOITE escura e má. a fazer tretas e malícias para me perder. Imitei-o devotamente. isqueiro molhado. bucho fundo. E naquele vira-tem-mão do taquaral esconjurado. e.. e ele perdera o roteiro. este não duvidou torcer mão direita. chupava grosso o cigarrão desacoitado da orelha. vinte anos. lá isso não. Tocou então sem rumo certo. de orelhas arrebitadas. patrãozinho. patrãozinho. ateimado a passar ali mesmo o resto da noitada como Nosso Senhor fosse servido. topando logo aquela restinga alagadiça. lembrando meu velho tio Hilário ao fogo da trempe de pedra. onde o apanhou o pé-d'água. num descampado que deveria existir por detrás da restinga por onde trotava. que. O vento mudou de lá pra cá e o macho crioulo. sem qu'isso nos assustasse. – Pousada. acreditaria logo ser mitra do curupira. colhendo o cabresto do animal. o macho frontaberta chapinhava de orelha murcha e pêlo arrepiado. atolado no pantanal – um mundão de lameiro. acariciando com o olhar o interminável verde-pálido ondulado do jaraguá em florescência. por um bamburral danado adentro. no nosso rancho de Ipanema. – quando foi isto. Tenteando.. O tempo era bom e a viagem prosseguia como tinha começado – sob bons auspícios – e o camarada contentado.. ganhara um serrote e costeou pelo espigão. Nisto. repetiu: – Noite escura e má. desengonçando-se no pangaré piolhento. eu era moço. sorumbático e caduco. – Ó de fora – choramingou uma vozinha aflautada. tenteando. Corpo mole. tinia as rosetas. de sapo e de pernilongo. cabeceava macambúzio. num trotão bruto. nos fundões de Mato Grosso.. decidi apear no sombreiro de um jatobá velho casmurro e resmungão. e assunte que o bicho crioulo não encapotava assim. amiudou o passo. Embarafustara-me. a bater na trilha ensopada e falha de cascalho. couro de catingueiro curtido. – Ó de casa – repeti. e era mesmo malcriado para varar chapadões de sol a sol. e vir esbarrar num bebedouro de animais. tão fechado de liana e cipó. O sertanejo velho levou a mão ao chapéu. ao sair da mata grande. que me fez correr um arrepio de gosto pelo corpo. se não fosse sábado e dia de um santo da minha devoção. do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. fazendo lembrar uma viagem que fiz ainda na meninice com o tio Hilário pela lagoa dos Xarais. – Como dizia. caburé e falto de festas de viola e pagodeiras desde Santo Antônio. na porta do cochicholo embodocado – que por sinal me pareceu palácio maior do que o do excomungado Balalão e mesmo o do santo imperador Carlos Magno – donde saía um fio adelgaçado de luz. patrãozinho. frontaberta. ponche-pala encharcado e matalotagem virada mingau no sapiquá da garupeira. debaixo da pontinha de vento frio que vinha dos pântanos. farejando esterqueira. alegre como a amenidade do lugar. nem a mim nem a ele. sinhá-dona. Trovoada e relâmpago eram que nem roqueira e foguete de São João. na fiúza do faro de podengo do macho frontaberta.. Ai. Marinho? Em meados de 1868 ou 69. – O macho frontaberta de orelha murcha e pêlo arrepiado como o pinto pelado da história. a ruminar lembranças e saudades da vida antiga de arrieiro. bufando forte. Mas atoleiro era uma lazeira! Chafurdara-me no lameiro até o cabeção da cutuca. a cabeça zanzou logo à toa. tenteando. comendo dúzias de léguas. e o ponche-pala ia pingando pelo atalho em fora bagas de lama que lhe atiravam as patas do crioulo.. com dois trancos. – Ó de casa – gritei. tenteando. chapinhando ainda uns restos de poços. a brandura do sol e limpeza do tempo. Mas louvado seja Deus – e o chapéu de catingueiro descambou novamente para a nuca do caburé – patuá com benzedura e reza mansa contra tentação nunca abandonou peito velho do caboclo.

a falar verdade não oferecia segurança – e entrei. me pareceu uma robusta rapariga de faces gordas. as barras vinham quebrando – era madrugada. – Ceei. Apeei. a falar ao certo. sacudindo-o dos pés encravados nas chilenas ressoantes à grenha hirsuta. emudecera. o estômago adivinhando. que julgava roliços e macios. tinha pulado a tranqueira. sinhô moço. Encabrestei o madrasto no fundo de um grotão. desencilhei o frontaberta. ruflando caixa.A porta de toros de buriti amarrados por corda de embira abriu-se e a hospedeira – que à luz da candeia espetada lá no fundo. cantava empoleirado no oitão do chiqueiro. o ram-ram danado dos sapos e pelo beiral palha de arroz velha. a modo de carestia de azeite. que um ligeiro estremecimento fazia-lhe eriçar as falripas. mas que não se avexasse a sinhá dona. levantando os baixeiros aos poucos para que o macho não apanhasse resfriado. mas que eram lisos e escorregadios como bagre fora d'água. enjeitava zangado. pela estrada poeirenta em cujas margens florescia o jaraguá altanado. se for do seu agrado.. assim. entretanto. Quando levantei.. as primeiras estriadas do sol davam-lhe de testa nas bochechas rosadas da véspera e nas mãos que seguravam a tigelinha de barro amarelo. pronto pra cortar por esse mundão afora. patrãozinho. O macho. – Mas. mesmo em seus braços. A falar. como as cerdas de porco-espim acuado. pelo breu da noite adentro. mas dito por não dito. Mas a gente neste mundo de Cristo. já estaria de animal aparelhado. a casa está às ordens. entrei distraído. Mas. pareceu-me. que não. bochechas rosadas e boa corpulência – alongando o pescoço para o breu da noite. a chuva amiudava – nunca me hei de esquecer. O cabra. preguiçoso. é certo. sem mesmo ter enxugado os bofes com dois dedos de cachaça no fundo do cornimboque. meio ajudado pelo nascer do dia. onde podia se remediar com uma tora de toucinho na feijoada. E no moirão da porta. com a cabeça zonza pela comida e aguardente no bucho que não via ração desde manhãzinha. perguntou se tinha fome. Martinho. O estômago farejou toucinho com ranço e feijão bispado. apesar de tudo.. Não sei. assim. Que não. que sim – que desde as barras do dia andava em jejum. Naquela morna lassidão do descambar da tarde. pelo sertão sem morador. na parede picumãzenta. e assim. a vida do tropeiro é remédio bom para acabar com quindins. assim. que ele com pouco se contentava – um cuité de farinha seca com um taco de rapadura na goela e qualquer pedaço de couro velho para descansar o corpo. embarbicachado e arreado o macho. Saí fora. e salpicado aqui e acolá de fios brancos – violentamente. mas voltei atrás sarapantado. não sabia. assanhada. e esquentado. numa corre-coxia do diabo. a mais das vezes nem isso mesmo topa – que assim. beijando suas bochechas carnudas e empapuçadas. debaixo de chuva. e gargarejei a boca com a última guampada que me restava de pinga. de lá pra cá e de cá pra lá. vi logo. A chuva deixava de pingar pelo beiral palha de arroz velha da casa. Desacolchetei o ponche-pala. pronto pra cortar.. que. A fome. luxos e poetagens de não comer caruncho no feijão. Ganhei o rastro assuntando o chão com o fogo do isqueiro já enxuto no calor do corpo. me pareceu que a luz da candeia minguara. ia atalhando ela. murmurou com uma espécie de tremor na fala: – Vancê entra. que se abancasse à beira da trempe. onde fumegava uma infusão escura e gosmenta: – O café! Outra longa e irritada estremeção correu pelo corpo do caburé. Fora. quando a madrugada viesse amiudando. já dia feito. deitei e adormeci – quase sem assuntar – no jirau da mulher. minguara.. Pela porta aberta. A hospedeira – era sozinha – na sombra da luz. era braba. dei-lhe a mão de milho do embornal da garupa. mofo na farinha e coró e saltão no toucinho. .. olhando atentamente para o companheiro. assim. como cerdas de canela-ruiva. a fala sumiça da dona chamou-me de dentro: – O café! Entrei. o carijó. batendo o isqueiro e chupando grosso. patrãozinho. puxei-o depois para dentro da tranqueira no oitão da casa – que.

num pacatá furta-passo.. . a escaiolada e vasta pousada abria-nos os braços hospitaleiros no meio de uma fartura de currais coalhados de gado. pela estrada esmaecida e pulverulenta em fora.. viajava escoteiro pelas estradas ermas e alagadiças do Caiapó Velho. na ribanceira do descampado... patrãozinho. A estrela boieira ensaiava já o seu brilho lacrimejante engarupada sobre os cerros.. regougou noutro acesso de asco: – Macutena. E como inquirisse admirado.. como se quisesse arrancar do amo o peso esmagador daquela recordação do passado – que fazia o caburé contorcer-se em convulsões furiosas de vômitos na cutuca – quando. e longe.– Patrãozinho – e o sertanejo cuspiu forte para ambas as bandas da estrada – das bochechas e beiços arregaçados num vermelhão de apodrecido da rapariga. macutena. na cadência monótona. ritmática de viageiro. não os havia. O pangaré piolhento corria agora mais apressado emparelhando-se ao meu fouveiro.. por uma noite tenebrosa d'invernada. corria visguenta e fétida por entre uns tocos de dentes amarelos – patrãozinho – uma baba de empestado. Os dedos da mão..

pendiam. cantavam galos perto. como antigamente. tomando o passo. ensopando os campos. segue o alazão caminho afora. Em torno. silêncio absoluto. o caminho internava-se novamente na mata bruta. acaçapando-se. sob o pala quente de viageiro. Encachoeiravam-se longe. ingazeiros encapotavam-se no alto. sob o pala. vendo o borraceiro descer. e perfumes intensos de baunilha e flores silvestres evolavam-se da mata densa. as saraivadas. apenas um ou outro grosso pingo. de frutas sazonadas. rumo do sítio. ou o lépido alazão Dourado. acelerando a andadura do animal. ou peneirando grosso. cabeça baixa. Vejo. e passavam alto. no nevoeiro. por onde passava ao largo. nos plainos baixos. pensava: Aí ficam já os Peludos. Nas beiradas de mato dos barrancos – onde o carreiro se cavava fundo pelo trânsito continuado – marmeladas-de-cachorro ofereciam os seus negros e brilhantes frutos maduros. naquele seu grande choro de desconforto. no silêncio eterno da minha solidão. a rama superior.. O verde das campinas. um morador. Gaviões. em gritaria álacre de contentados. Plac! plac! ouço-a cantando em goteiras e cornijas. o molde de seus cascos ferrados. prosseguia.. ao borrifo. em cujas bordas carreiras viçosas de buritis contornavam capões. saputás polposos. deixando atrás. atravessando-o a escorrer. com eles. . através duma tela úmida as paisagens distantes de meu torrão natal. quedavam-se sonolentos e marasmáticos a olhar do cimo desnudo dos galhos secos das encruzilhadas. no cimento molhado da rua e nas vidraças embaçadas do meu quarto. ficava para trás. transposto o córrego. cacarejavam galinhas-d'angola – cocás. E a floresta prosseguia. em meio o rendilhado sombrio da floresta por onde vou. nessas primeiras chuvas de outubro.. Um grande ramo pendia às vezes. Dentro em pouco. Nas várzeas umentes de jaraguá. chapinhando pelo rego das enxurradas. ruminando saudades. E – plac! plac! – arremedando como agora a chuva das goteiras. E agitando as rédeas em abandono no arção. ruminando saudades. emperolado de orvalhada. as águas marulhentas de regatos perenes. por esses sertões. Não sei por que. – cães latiam dos currais e porteiras. prosseguia.Dias de chuva CAI a chuva lá fora. cracarás corriam escrutadores e solertes pelos campos. Às vezes. escondida nas sombras. E o aguaceiro molinhando. densamente fechada.. anos lá vão. como se uma grande e fantástica mó andasse remoendo cristais pelo céu de cinábrio. quando não vinham. cabeça baixa. e sobre a extensão imensamente esmeralda daqueles desertos rincões.. sentindo sob o pala de viagem a água cirandar forte. a silhueta pardacenta dos telhados. casais de araras e bandos de papagaios despregavam dum jenipapeiro qualquer de tapera o seu vôo balofo. vincado. esganiçadores e embolados. E chupitando a fumaça de minha cigarrilha de palha. no silêncio eterno da sua solidão. pelo alagado trilho de argila vermelha. seguia eu cabisbaixo. sob o pala de viagem.. crinas pendidas. tombava – poc! poc! – na camada espessa de folhas podres que atapetavam. em surtos rasteiros de carnívoros. nulificando-a. esfalfar-se até os jarretes do Dourado. numa grande paz e conforto da alma. metia a cabeça. A chuvarada continuava aberta. o carreiro calmoso. cabriolando e verdascando sobre os serros longes. e o alazão. das orlas de mato longe. indiferente e esquecido do mundo. duas léguas ainda a andar. paineiras esgalgadas e pequizeiros copudos dos cerrados. quando ganhava a chapada. o espírito embebe-se-me em doce e longínqua rêverie. afogava. E calculando. em matinadas hostis. Numa baixada. sigo eu. e. Dia em meio. um e outro mestiço zebu passeia pachorrento e indiferente. abafando os passos. desengonçado na sela. num grande descaso da borrasca. num tom berrante de cores escarlatemente retintas. à beira dos córregos. E. em férias. Assim. cavalgava eu por essas estradas ermas da minha terra remota. ruminando planos futuros. desce manso e manso. na folhagem. ao fundo. e afaz-se-me a que ando viajando. tinha deslumbramentos intensos de seiva robusta e viva. interminável e profunda. Olhava: era um sítio.. Aí. muricizeiros abriam-se em flor.. o ruído da chuva. escapulindo-se por uma ligeira aberta rasgada no folhedo pelo vento. ao misterioso e secreto entreabrir das corolas medrosas. um macho perrengue de aluguer. E. entanguidos. a resfolegar.

Ah! viagens e passeios antigos. sob a chuva ou a canícula. nos pagos da minha terra! Quão longe e distantes sois! .