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Universidad Central de Venezuela

Facultad de Humanidades y Educación


Escuela de Idiomas Modernos
Cultura de Portugués III

Análise do filme “Palabra e Utopia”

Benny Guevara
C.I. 16.876.600

Sexta-feira, 07 de Abril de 2006


INTRODUÇÃO

Durante o século XVII, Portugal e a Europa inteira encontravam-se num processo


de evolução de pensamento, o qual iria afectar todos os níveis da sociedade. O homem da
época começara a mudar a sua concepção teocêntrica do mundo algum tempo antes, razão
pela qual o século XVII foi caracterizado principalmente pelo questionamento das ideias
religiosas, em contraste com a importância do mesmo homem no Universo. A manifestação
desse questionamento através da Literatura, assim como de outras artes, durante a época
conhece-se como Período Barroco.
No que diz respeito da Literatura, os escritores insistem em reflectir o dualismo
entre a fé e a razão através de recursos estilísticos como o uso de antíteses e da linguagem
metafórica. A produção literária inclinava-se principalmente para duas tendências: o
conceptismo e o cultismo; consistindo o primeiro no jogo das ideias através do raciocínio
lógico e o segundo no jogo das palavras através da linguagem culta.
Em Portugal, a manifestação da ideologia do Barroco teve uma importante
representação no Padre António Vieira. Não só pela sua condição de homem religioso,
membro da ordem dos Jesuítas, mas também pela força das suas ideias, o Padre António
Vieira consiguiu combinar com grande sucesso os recursos da retórica clássica e a
argumentação com uma agudeza crítica sobre os preconceitos da época presentes na
sociedade e no clero. Tais características, longe de serem apreciadas em Portugal, levaram-
-no a confrontar o Tribunal do Santo Ofício, não assim na Itália, onde atinge uma reputação
tal que o Papa concorda em não o retirar da sua jurisdição.
A importância das ideias expostas pelo Padre Antonio Vieira através dos seus quase
duzentos sermões e mais de quinhentas cartas não remetem só ao século XVII, pelo
contrário, hoje têm tanta ou mais relevância do que nessa época. Isto faz com que o filme
“Palavra e Utopia” de Manoel de Oliveira tenha um valor histórico, pois nele são narrados
os factos mais importantes da vida do sacerdote, assim como são reproduzidos alguns dos
sermões e cartas redigidos por ele.
O FILME
Nascido em Lisboa em 1608, António Vieira viveu a sua infância na Baia, Brasil.
Formou-se no Colégio dos Jesuítas e ordenou-se padre em 1634. A sua estreia no púlpito
foi quando ainda era um estudante com o sermão Maria, Rosa Mística, o qual defendia o
direito à liberdade dos negros. Desempenhou cargos como pregador da Corte, embaixador
na França, na Holanda e em Roma. Durante a sua vida, defendeu a liberdade do índio, do
negro e do judeu, assim como o profetismo sebastianista, e combateu a Inquisição.
O filme desenvolve-se a partir de 1663, quando o Padre António Vieira é chamado a
Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício. A sua posição de nomeado
pregador jesuíta vê-se afectada pelas intrigas da corte. Perante os juízes, enquanto é
informado das acusações feitas contra ele, o Padre António Vieira revê o seu passado: os
anos que viveu no Brasil durante o noviciado, a sua ligação à causa dos índios e os seus
primeiros sucessos no púlpito.
Depois de ser banido de expor as suas ideias livremente, o Padre António Vieira
decide refugiar-se em Roma, onde a sua reputação cresce até conseguir o consentimento do
Papa em não o tirar da sua jurisdição. Além disso, ganha a estima da Rainha Cristina da
Suécia, quem o prende na corte e insiste em torná-lo o seu confessor. No entanto, a saudade
que o Padre António Vieira sente do seu país é mais forte, pelo que decide voltar a
Portugal, onde o frio acolhimento do rei D. Pedro o leva a partir novamente, mas nesta vez
para o Brasil, onde fica até o dia da sua morte em 1697.
O filme de Manoel de Oliveira é, em quase todos os aspectos, de tipo documentário.
Não há nele uma grande sequência de acções, senão uma representação de alguns dos
escritos mais significativos do Padre António Vieira, indudavelmente colocados no
contexto e a situação segundo as diferentes épocas da sua vida, e é precisamente através
destes escritos que o director do filme consegue construir uma imagem do padre e dos
valores que ele defendia.
CARTAS E SERMÕES
Como já foi dito, o Padre António Vieira escreveu cerca de duzentos sermões e
quinhentas cartas, dos quais são referidos no filme treze dos primeiros e quinze das
segundas. Enquanto os sermões servem para reflectir as ideias do Padre António Vieira, as
cartas ajudam a estabelecer uma sequência na sua vida e os obstáculos que teve que
confontar, com o tribunal inquisidor, o naufrágio que sofrera em Outubro de 1654 e,
finalmente, os pesares duma velhice solitária.
Um dos temas mais recurrentes nos escritos do Padre António Vieira é a defesa do
índio. Vieira manifesta a sua aprovação a que os índios sejam convertidos à religião cristã,
mas desaprova definitivamente que o índio seja oprimido e obrigado a servir, como o
expressa no seu Sermão do Domingo das Verdades quando diz: “...melhor é sustentar do
suor próprio, que do sangue alheio.” Insiste no Sermão pregado na Igreja do Colégio dos
Jesuítas do Maranhão em que o índio deve ser adaptado à vida sob às leis sem o uso da
força e respeitando os seus direitos: “Domar feras, amansar rebeldias, e reduzir a que vivam
conforme a razão os que por natureza e costume não têm uso dela, esta é a dificuldade
grande em toda a parte...”Expõe também no Sermão do Domingo das Verdades a real
importância que o índio tem para a República, afirmando que ela “não se pode sustentar
sem índios”.
Do memso jeito do que com os índios, o Padre António Vieira aboga numa das suas
cartas pelos judeus. Neste caso, vai dirigida a D. Rodrigo de Menezes no dia 24 de Outubro
de 1671 e nela afirma que é bem mais beneficioso procurar a conversão dos judeus do que a
sua persecução.
Por outra parte, no Sermão da 3ª quarta-feira da Quaresma, pregado na Capela Real
em 1651, Vieira ataca os vícios e misérias que existem em Portugal na época. Critica
directamente a ingratidão da pátria para quem a ela serve dizendo “Se serviste a pátria, que
vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”. Ao mesmo tempo, a
mensagem deste sermão é uma exaltação dum dos maiores princípios da Igreja, como é o
serviço sem a espera da recompensa.
Finalmente, e não com menor importância, estão as palavras com que o Padre
António Vieira enaltece o povo português e faz referência ao desígnio divino de converti-lo
num povo grande entre os povos. No Sermão de Santo António, pregado em Roma, na
Igreja de Santo António dos Portugueses, no dia 13 de Junho de 1670, Vieira combina o
seu nacionalismo com a sua devoção cristã, afirmando que os portugueses estavam
destinados a crescer, não por ele próprios, mas pela intervenção de Deus: “Nascer pequeno
e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o
nascimento, e tantas para a sepultura.”

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