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David Webster, A Sociedade Chope

David Webster, A Sociedade Chope

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Published by: Flávia Slompo on Mar 28, 2011
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O próprio Germani reconhece um pedigree muito reduzido, em que não menciona
sequer a existência de Chimele, seu meio-irmão mais novo. Claramente procedeu
também a uma “telescopia” das gerações entre si próprio e o antepassado fundador,
talvez na esperança de reforçar os seus direitos ao cargo. É interessante notar que

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mesmo os dois irmãos não conseguem (ou não querem) chegar a acordo sobre os seus
pedigrees. São consensuais no que diz respeito ao pai de ambos, mas pouco mais.
Nenhum deles reconhece a existência de Sangatelo, nem consegue demonstrar qualquer
relação com o chefe anterior.
Os pedigrees apresentados acima são pouco representativos em alguns aspectos:
pertencem a homens de um clã no interior do qual é transmitido o cargo de chefe, e que
por esse motivo recordam geralmente as ligações em maior profundidade e detalhe do
que é comum nos chopes. Para além disso, têm um maior incentivo para manipular os
seus pedigrees. No entanto, a falta de profundidade e o carácter vago das genealogias
caracterizam a sociedade chope e isto pode ser usado negativa ou positivamente. O
sentido negativo é o que atrás demonstrei, quando são omitidos alguns indivíduos no
pedigree; mas esta falta de rigor pode ser usada também pela positiva, criando ligações
fortes entre indivíduos que talvez tivessem apenas uma relação distante ou não tivessem
qualquer relação de parentesco entre si.
Contudo, em última análise, os laços de parentesco que compõem o pedigree ou a
genealogia são uma mistura de relações efectivas, de esquema mitológico e, por fim, de
reflexão, racionalização e manipulação das relações. É da política do parentesco num
sentido muito real que aqui se trata. Cada um dos três protagonistas apresentou o seu
pedigree como justificação dos seus direitos ao cargo de chefe. A maioria das pessoas
da povoação aceitou o de Sangatelo. Isto não significa que acreditassem que esse
pedigree fosse mais honesto ou rigoroso do que os dos seus rivais: a aceitação foi
política e a racionalização e legitimação vieram depois. Alguns anos mais tarde,
Sangatelo foi calmamente deposto e substituído por Germani. Todos os informantes o
justificaram afirmando que Germani era o homem “certo”, que as suas credenciais
genealógicas eram melhores do que as de Sangatelo e que ele deveria ter sido nomeado
chefe desde o início. É claro que a decisão foi política: Sangatelo não satisfazia como

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chefe e foi substituído. Mas foi deposto com base no mesmo tipo de legitimação que o
levou ao poder: a de que uma posição genealógica era mais forte do que a outra.
Apesar da ideologia agnática dos chopes, procurei demonstrar que, em rigor, não
se trata de uma sociedade puramente patrilinear. Na verdade, defendi que fosse
abandonado esse tipo de termos-estandarte, que tendem a ocultar mais do que revelam.
O problema reside em conceitos como o de “descendência”, que, até há não muito
tempo, eram geralmente objecto de explicações unifactoriais. No entanto, quando se
começa a “desenredar” as várias funções que são habitualmente abrangidas por este tipo
de noções, o assunto torna-se mais complexo. Uma forma possível de contornar o
problema é dispensar esse “chapéu” geral e tratar cada função separadamente, em
rubricas como a ideologia do sistema (dogmas de descendência) ou o recrutamento para
os grupos. Deveríamos também especificar as diferentes modalidades da descendência
e, como procurei fazer, notar se essas modalidades são lineares ou laterais.
Procurei mostrar que há um pendor cultural para os parentes agnáticos (como
ilustra a ideologia), mas mesmo neste âmbito há espaço de manobra, uma vez que as
linhagens são inexistentes e as memórias genealógicas são curtas. Para compensar a
pouca quantidade de parentes agnáticos que o indivíduo teria à sua disposição numa
sociedade como a dos nueres, os chopes enfatizam os parentes laterais, o que implica a
incorporação de parentes matrilaterais e afins em áreas da vida social que os povos
menos fluidos da África Austral tenderiam a excluir, ou a manter a um nível mínimo.
De todos os modos, os chopes recorrem também a tipos estruturais alternativos
aos parentes agnáticos quando recrutam membros para os grupos e para os conjuntos de
acção. Para além dos tipos de parentesco alternativos, a matrilateralidade e a afinidade,
existe ainda a estrutura de quase-parentesco da instituição do xará, bem como a
instituição da amizade especial, ou mesmo da amizade comum. Todos estes são tipos

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estruturais que encerram direitos e deveres recíprocos e que podem ser usados em
complementaridade ou concorrencialmente com a estrutura culturalmente favorecida.
Uma das consequências desta situação é que se desenvolveu um sistema social
que gera a necessidade de o indivíduo criar muitas lealdades, grande parte das quais é de
curta duração. O ritmo de sociação é acelerado (conceito útil usado por B. Sansom
1972: 210 e segs.). Um indivíduo ambicioso, como demonstrarei no capítulo final, é
capaz de manipular a plasticidade do seu sistema de parentesco a fim de alcançar o
máximo de benefícios que lhe seja possível.
Resta, pois, tentar dar conta da diferença entre os dogmas de descendência
patrilinear entre os chopes e a forma sobranceira como parecem muitas vezes esquecê-
los. Talvez, como dizia Lepervanche, devamos concluir que, para os chopes, a
descendência é uma construção ideal que “constitui uma maneira de falar sobre grupos”
(1968: 181). É um meio que permite formular, ordenar e classificar um universo de
pessoas importantes, e é também um meio de exprimir a solidariedade do grupo perante
outros grupos. O recrutamento para os grupos não requer pedigrees vastos como
condição sine qua non para a entrada: os grupos acolhem de bom grado os imigrantes.
A transmissão da propriedade e da riqueza não requer um sistema cuidadosamente
ordenado, pois nem uma nem outra existem em grandes quantidades. Estes parecem ser
alguns dos factores que conduzem a um desfasamento entre a ideologia e a acção.
Talvez o domínio onde a plasticidade do parentesco e da organização social é
mais nitidamente visível seja o das origens e método de recrutamento dos imigrantes. É
certo que entre os chopes há muita gente que vem, ou cujos antepassados vieram, de
outros povos vizinhos. Esta tendência era já notada em 1927, data em que H.-A. Junod
manifestou a sua frustração por não conseguir encontrar clãs que pudessem provar ser
os habitantes originais da terra dos chopes. O meu próprio trabalho de campo veio

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confirmar a experiência de Junod, que notou que a maioria dos clãs se dizem imigrantes
na terra dos chopes, alguns deles desde há muito pouco tempo.
Este processo torna-se possível devido à facilidade com que o sistema social dos
chopes é capaz de incorporar novos membros. O parentesco tem aqui um papel
importante, mas um imigrante sem qualquer parente que o patrocine pode ainda assim
instalar-se num dado local como “amigo” do seu patrono. Após algum tempo, contudo,
o parentesco pode ser chamado a intervir, através dos laços de afinidade. Como notei na
secção sobre a vicinalidade, é muitas vezes difícil saber qual é a natureza da ligação
original entre alguns membros, porque acontecia que os laços de “amizade” eram
muitas vezes reforçados por um casamento entre os dois grupos envolvidos. O líder da
vicinalidade, como também notei, é designado como “pai” dos seus seguidores, e
perante os estranhos o imigrante é tratado como se fosse efectivamente filho do
wahombe, sendo as normas de parentesco aplicadas a esse imigrante, com o “homem
grande” a servir de ponto de referência “paterna”.
A situação faz lembrar a que se verifica entre os nueres. Como mostrou o debate
recente sobre a composição dos grupos agnáticos entre os nueres, se a pessoa vive numa
sociedade e interage de acordo com as suas normas, pode considerar-se para todos os
efeitos que pertence a essa sociedade (cf. Glickman 1972a: 590). No caso dos nueres,
um dos principais mecanismos pelos quais a flexibilidade é alcançada consiste no
tratamento dos antepassados femininos como se fossem masculinos (cf. Glickman
1972b). Os chopes empregam vários mecanismos, alguns dos quais, tal como a
afinidade, já mencionei. Ainda uma outra prática consiste na tradução de um nome de
clã para a língua chope, mantendo assim o seu significado, que é muitas vezes o nome
de um animal, de um utensílio ou de um modo de estar (por exemplo, Nkumbi refere-se
ao “velho”, Ntsambe significa “simpático”, etc.). A tradução permite que a pessoa se
identifique com o clã chope do mesmo nome, no caso de este existir.
Contudo, em última análise, estes processos não são essenciais, porque a
formação dos grupos é tão fluida que o recrutamento é uma questão simples. O aspecto

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mais importante da flexibilidade do parentesco não é tanto o recrutamento de estranhos
como as possibilidades de manipulação dentro do clã e dos próprios grupos de
descendência, proporcionadas pela pouca profundidade das linhagens e pela amnésia
genealógica ao fim de pouco tempo.
A falta de profundidade e a flexibilidade do sistema de parentesco chope, como
argumentei, derivam da interacção complexa de vários factores, incluindo a ecologia, os
padrões de detenção de terras e o ambiente político. No próximo capítulo serão tratadas
outras características desta mesma síndrome: as normas de aliança, os seus padrões, a
instabilidade do casamento chope, os padrões de herança. Só através da separação dos
fios da complicada teia que é formada por todos estes factores poderemos compreender
a sociedade chope.

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