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Hermenêutica Constitucional

Profª. Me. Roberta Camineiro Baggio


Contextualização
■ Teoria subjetivista: voluntas legislatoris,
vontade do legislador. Há a busca de revelar
a vontade do legislador. O voluntarismo é a
maior característica
■ Teoria objetivista: voluntas legis. A lei,
após ser criada pelo legislador, cria
autonomia em relação a esse, passando a
ser portadora de uma vontade própria.
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Voluntarismo do juiz
Hans Kelsen: Interpretar é um ato de vontade “eu
quero” e não um ato de conhecimento “eu sei”.
Há uma moldura formada pelo Direito, que
contém todas as possibilidades de sentido p/
aplicação da norma. Portanto há uma
plurivocidade de sentidos da norma e não
apenas um sentido único. Assim, o juiz, na hora
de aplicar escolhe, por um ato de vontade a
norma a ser aplicada. Esse ato do juiz é
meramente político, é a tentativa de persuasão
da melhor saída. 3
Quanto às fontes
■ Autêntica: “A interpretação autêntica é aquela
feita pelo órgão aplicador do Direito. Ela cria o
Direito”
(Teoria Pura do Direito, p. 394)
■ Doutrinária: Segundo Kelsen, tudo aquilo que
for interpretação que não é fruto do órgão
aplicador do Direito é “interpretação inautência”
porque mão cria Direito. Interpretação
doutrinária é aquela própria da ciência, “que
denuncia a equivocidade resultante da
plurivocidade”
(Ferraz Jr., Introdução ao Estudo do Direito, p. 259).
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Quanto aos resultados
■ Declarativa: A declarativa ou específica,
especifica o sentido da norma disposto em
seu enunciado.
■ Extensiva: A extensiva amplia o sentido
da norma para além do que está contido
em sua letra.
■ Restritiva: A restritiva limita o sentido da
norma em relação a sua expressão literal.
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Métodos de Interpretação da
Constituição
1. Método Jurídico: Considera que a Constituição
deve ser interpretada como uma lei e, portanto,
deve seguir as regras tradicionais da
hermenêutica. Assim, engloba a análise dos
elementos:
■ Gramatical. Ponto de partida da interpretação,
que é o próprio texto da norma. É o método que
“atribui significados aos enunciados lingüísticos
do texto constitucional”
(Barroso, A interpretação e aplicação da
Constituição, p. 119)
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Método Jurídico
b) Lógico-sistemático. O ordenamento
jurídico possui uma unidade lógico-
racional. Qualquer interpretação deve
considerar, assim, o contexto geral ao
qual a norma está incluída, estabelecendo
a integração do ordenamento jurídico.

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Método Jurídico

c) Histórico: É o alcance do sentido da


lei a partir dos precedentes
legislativos. Mais utilizada no sistema
da common law e menos utilizada nos
sistemas que adotam a tradição
romano-germânica. Também
chamado de genético
(Barroso, A interpretação e aplicação da
Constituição, p. 124-5)
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Método Jurídico

d) Teleológico: A interpretação das normas


devem levar em conta a sua finalidade, o
valor maior estabelecido pelo
ordenamento para aquela determinada
norma.

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2. Método Tópico-problemático

A interpretação da Constituição é “um


processo aberto de argumentação
entre os vários participantes
(pluralismo de intérpretes) através da
qual se tenta adaptar ou adequar a
norma constitucional ao problema
concreto. [...]
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Método Tópico-problemático

[...] Os aplicadores-interpretadores servem-se


de vários topói ou pontos de vista, sujeitos à
prova das opiniões pró ou contra, a fim de
descortinar [...] a interpretação mais
conveniente para o problema.”

(Canotilho, J.J. Gomes. Direito Constitucional


e Teoria da Constituição, p. 1210).
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Crítica
“A concretização do texto constitucional a
partir dos topói merece sérias reticências.
Além de poder conduzir a um casuísmo
sem limites, a interpretação não deve partir
do problema para a norma, mas desta
para o problema.”
(Canotilho, J.J. Gomes. Direito
Constitucional e Teoria da Constituição, p.
1211).
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3. Método científico-espiritual

“A necessidade de interpretação da
Constituição deve ter em conta:
■ A ordem de valores subjacentes ao texto
constitucional;
■ O sentido da realidade da Constituição
como elemento do processo de
integração”.
(Canotilho, J.J. Gomes. Direito Constitucional
e Teoria da Constituição, p. 1212). 13
Método científico-espiritual
“A idéia de que a interpretação visa não tanto
dar respostas ao sentido dos conceitos do
texto constitucional, mas fundamentalmente
compreender o sentido e a realidade de
uma lei constitucional, conduz à articulação
desta lei com a integração espiritual real da
comunidade (com seus valores, com a
realidade existencial do Estado)”.
(Canotilho, J.J. Gomes. Direito Constitucional
e Teoria da Constituição, p. 1212).
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4. Método normativo-estruturante
“Na tarefa da concretização da norma
constitucional, o intérprete-aplicador deve
considerar tanto elementos resultantes da
interpretação do programa normativo,
quanto os decorrentes da investigação do
domínio normativo, a que correspondem, na
doutrina tradicional, respectivamente, a
norma propriamente dita e a situação
normada, o texto e a realidade social que o
mesmo intenta com formar”
(Inocêncio Mártires Coelho, p. 90) 15
5. Método de Interpretação
comparativa
“Pretende captar, de forma jurídico-comparatística, a
evolução da conformação, diferenciada ou
semelhante, de institutos jurídicos, normas e
conceitos nos vários ordenamentos jurídicos com
o fito de esclarecer o significado a atribuir a
determinados enunciados lingüísticos utilizados
na formulação de normas jurídicas”
(Canotilho, J.J. Gomes. Direito Constitucional e
Teoria da Constituição, p. 1212).
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6. Método hermenêutico-
concretizador
Tem como ponto de partida “a idéia de que a
leitura de um texto normativo se inicia pela
pré-compreensão do seu sentido através
do intérprete [...] É uma compreensão de
sentido em que o intérprete efetua uma
atividade prático-normativa, concretizando
a norma para e a partir de uma situação
histórica.”
(Canotilho, J.J. Gomes. Direito Constitucional
e Teoria da Constituição, p. 1212). 17
6. Método hermenêutico-
concretizador
Pressupostos:

1. Subjetivos: o intérprete desenha um papel


criador (pré-compreensão) na tarefa de
obtenção do sentido do texto
constitucional.

2. Objetivos: a consideração do contexto. O


intérprete atua como operador de
mediações entre o texto e a situação em
que se aplica. 18
6. Método hermenêutico-
concretizador
3. Relação entre o texto e o contexto com
a mediação criadora do intérprete,
transformando a interpretação em
movimento de ir e vir (círculo
hermenêutico)

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Hermenêutica filosófica
■ Tarefa da hermenêutica: Provocar pré-
juízos
■ Diferença ontológica: ente (coisa) e ser
(sentido). Diferença de como as coisas são.
■ Círculo Hermenêutico:
Précomreensão+Fusão de horizontes
■ Gadamer: ter horizonte significa não estar
limitado ao que está mais próximo de nós,
mas sim, poder ver além.
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Hermenêutica Filosófica
■ A eficácia do texto será dada a partir do sentido
que a hermenêutica lhe der

■ Por que a CF/88 não possui, em muitos aspectos,


efetividade?
■ Constituição: clama por um sentido que será
atribuído considerando fatos e contextos
diferenciados.
■ O sentido do ser de um ente não pode ser
constitutivo do ser de outros entes. Não se trata
apenas de considerar que a Constituição tenha um
sentido, mas perceber um sentido de Constituição. 21
Crítica à idéia de método
■ Não é o método de interpretação utilizado
que determina o sentido do texto, mas sim a
condição de ser no mundo de quem
interpreta.
■ O método objetifica o Direito, porque este
deixa de ser pensado em seu acontecer.
■ Fetichização do discurso jurídico:
ocultamento das condições de produção
■ Senso Comum Teórico: habitus
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Decisões Interpretativas

“Surgem no interior de um processo


hermenêutico-corretivo do texto
normativo, agregando-se acepções
muitas vezes aquém ou além do
explicitado ou querido pelo legislador”.

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Decisões Interpretativas
Existem duas técnicas de decisões
interpretativas, também consideradas
como técnicas de controle de
constitucionalidade:

1. Interpretação conforme a Constituição: há


a declaração de que uma lei é
constitucional com a interpretação que
lhe é conferida pelo órgão judicial
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Decisões Interpretativas

2. Nulidade Parcial sem redução de texto:


expressa exclusão, por
inconstitucionalidade, de
determinada(s) hipótese(s) de aplicação
do programa normativo sem que se
produza alteração expressa do texto
legal.

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Decisões Interpretativas
“Quando um órgão judicial atribui um determinado
sentido a um texto jurídico, é preciso ter claro que
está estabelecendo um dos sentidos possíveis,
muito embora a dificuldade hermenêutica que isso
represente [...] Trata-se de um salto paradigmático,
que rompe com as concepções tradicionais de
interpretação constitucional e com a própria
concepção de separação de poderes de Estado.”

Lenio Luiz Streck. Jurisdição Constitucional


e Hermenêutica. p.616.
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Princípios Interpretativos

1. Princípio da Razoabilidade

2. Princípio da Proporcionalidade

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Razoabilidade como eqüidade
1º. Utilizada como diretriz que exige a
relação das normas gerais com as
individualidades do caso concreto;
EQÜIDADE
Humberto Ávila

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Razoabilidade como eqüidade
“Um advogado requereu o adiamento do julgamento
perante o Tribunal do Júri porque era defensor de
outro caso rumoroso que seria julgado na mesma
época. O primeiro pedido foi deferido. Depois de
defender seu cliente, e diante da recomendação
de repouso por duas semanas, o advogado
requereu novo adiamento do julgamento. Nesse
caso, porém, o julgador indeferiu o pedido, por
considerar um descaso para com a Justiça [...]”
Humberto Ávila
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Razoabilidade como congruência

2º. Empregada como diretriz que exige uma


vinculação das normas jurídicas com o
mundo ao qual elas fazem referência;
CONGRUÊNCIA
Humberto Ávila

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Razoabilidade como congruência
“Uma lei estadual instituiu adicional de férias
de um terço para os inativos. Levada a
questão a julgamento, considerou-se
indevido o referido adicional, por traduzir
uma vantagem destituída de causa e do
necessário coeficiente de razoabilidade, na
medida em que só deve ter adicional de
férias quem tem férias [...]”.
Humberto Ávila
31
Razoabilidade como equivalência

3º. Utilizada como diretriz que exige a


relação de equivalência entre duas
grandezas. EQUIVALÊNCIA

Humberto Ávila

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Razoabilidade como equivalência
“ O STF declarou inconstitucional a criação
de taxa judiciária de percentual fixo, por
considerar que em alguns casos essa seria
tão alta que impossibilitaria o exercício de
um direito fundamental — obtenção de
prestação jurisdicional — além de não se
razoavelmente equivalente ao custo real do
serviço”.
Humberto Ávila
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Princípio da Proporcionalidade
“As competências administrativas só podem
ser validamente exercidas na extensão e
intensidade proporcionais ao que seja
realmente demandado para cumprimento
da finalidade de interesse público a que
estão atreladas”.

Celso Antônio Bandeira de Mello


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Princípio da Proporcionalidade
Exames Fundamentais da Proporcionalidade:

1. Adequação:
O meio promove o fim?

2. Necessidade:
Dentre os meios disponíveis e igualmente
adequados para promover o fim não há
outro meio menos restritivo de direitos?
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Princípio da Proporcionalidade

3. Proporcionalidade em sentido estrito:

As vantagens trazidas pela promoção do fim


correspondem às desvantagens provocadas
pela adoção do meio?

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Adequação
O meio deve levar à realização do fim.

“O STF examinou o caso de uma lei que


determinava, para o exercício legal da
profissão de corretor de imóveis, a
exigência de comprovação de condições de
capacidade. O Tribunal, no entanto,
entendeu que o exercício da profissão de
corretor de imóveis não dependia da
referida comprovação. (...)
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Adequação
(...) Em outras palavras, declarou que o meio
(atestado de condições de capacidade) não
promovia o fim (controle do exercício da
profissão). Em conseqüência, essa
exigência violava o exercício livre de
qualquer trabalho, ofício ou profissão.
Humberto Ávila

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Necessidade
“O exame da necessidade envolve a
verificação da existência de meios que
sejam alternativos àquele inicialmente
escolhido pelo Poder Legislativo ou Poder
Executivo, e que possam promover
igualmente o fim sem restringir, na mesma
intensidade, os direitos fundamentais
afetados.”
Humberto Ávila
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Necessidade
“O STF declarou inconstitucional lei que
previa a obrigatoriedade de pesagem de
botijão de gás à vista do consumidor, não
só por impor um ônus excessivo às
companhias, que teriam de dispor de uma
balança para cada veículo, mas também
porque a proteção dos consumidores
poderia ser preservada de outra forma
menos restritiva, como a fiscalização por
amostragem”.
Humberto Ávila
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Proporcionalidade em sentido
estrito
Exige a comparação entre a importância da
realização do fim e a intensidade da
restrição aos direitos fundamentais.

No caso dos botijões de gás, o grau de


importância da promoção do fim justifica o
grau de restrição causada aos direitos
fundamentais?
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“O postulado da proporcionalidade não
se identifica com o da razoabilidade:
esse exige, por exemplo, a
consideração das particularidades
individuais dos sujeitos atingidos pelo
ato de aplicação concreta do Direito,
sem qualquer menção a uma
proporção entre meios e fins.”
Humberto Ávila
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