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O epistemólogo Jean Piaget preocupou-se com o desenvolvimento do juízo moral na


criança logo no inicio de sua carreira, mas tal preocupação não foi recorrente em sua obra,
pois não voltou mais ao tema. Piaget estudou através de observações, a evolução da prática e
da consciência das regras do jogo. Observando um jogo de bola de gude, verificou que no
início as crianças jogam como que sozinhas ± etapa da anomia; para num segundo estágio se
interessarem por participar de atividades coletivas e com regras estabelecidas, a criança
começa tendo uma noção muito egocêntrica das regras, acredita em seu poder de coerção e as
considera uma coisa sagrada, que não deve ser mudada, mas não sabe dizer quem as
determinou - etapa da heteronomia - mesmo assim não hesita em criar suas próprias regras. A
terceira etapa ± autonomia ± tem suas características opostas à da fase da heteronomia,
correspondendo a uma visão adulta do jogo, embora a autonomia da prática da regra seja
anterior à da consciência dela. A evolução nos outros domínios da moral segue uma seqüência
similar à da compreensão de regras. Piaget investigou as concepções morais infantis em
relação ao dever em três situações distintas: o dano material, a mentira e o roubo. No
julgamento da primeira situação, para a criança, a culpabilidade do indivíduo depende dos
danos materiais de suas ações e não das intenções envolvidas. No caso, a criança na fase do
realismo moral acha mais culpada a criança que quebra dez copos sem querer do que a que
quebra um copo praticando alguma ação ilícita. Na segunda situação, considera mais
culpado quem tinha distorcido a verdade de forma flagrante (dizer que viu um cachorro
grande como um boi) do que quem tinha mentido intencionalmente para conseguir alguma
vantagem (dizer que tirou notas boas no colégio, quando isso não ocorreu), já que a primeira
situação é inaceitável e a segunda, sim. Sobre a questão da justiça, quanto menor a criança,
mais apropriado, para ela, que a punição seja feita através de castigo mesmo que ele não tenha
relação com o ato cometido, enquanto a mais velha favorece a explicação do motivo porque o
ato é condenável, como sendo mais válido para evitar que ele se repita. Piaget considera a
moral como um fato social e acredita nas relações interindividuais que divide em duas
categorias: a coação e a cooperação. Para Piaget o desenvolvimento intelectual e moral só
ocorre através da cooperação, pois dela derivam o respeito mútuo e a autonomia, enquanto a
coação, como um processo que supõe relação de subordinação, impede que exista uma
reciprocidade de ações e sentimentos, impossibilitando à criança a construção das estruturas
mentais operatórias necessárias à conquista da autonomia, imprescindível à formação e à
consolidação do mundo democrático. Piaget também discorre sobre a cisão existente entre o
discurso e a prática do juízo moral nas crianças, embora ele acredite que esta cisão não ocorra
freqüentemente. Ele elabora uma teoria que contempla a ação moral para que se possa levar o
futuro cidadão a cumprir o ideal libertário e democrático, e não a ser apenas um bom orador
ou juiz, porque acredita que é na ação moral que se confrontam afetividade e Razão.
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sohlberg foi professor na Universidade de Chicago, bem como na Universidade


Harvard. Especializou-se na investigação sobre educação e argumentação moral, sendo mais
conhecido pela sua teoria dos níveis de desenvolvimento moral. Muito influenciado pela
teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget, o trabalho de sohlberg refletiu e
desenvolveu as ideias de seu predecessor, ao mesmo tempo criando um novo campo na
psicologia: "desenvolvimento moral".
Ainda em 1971, contraiu um parasita tropical em Belize enquanto fazia um trabalho
transcultural. Como resultado disso, ele lutou contra a dor física e a depressão pelo resto de
sua vida. Em 19 de janeiro de 1987 ele pediu um dia de alta do hospital
de Massachusetts onde fazia tratamento, dirigiu até o Harbor de Boston, estacionou seu carro
em uma rua sem saída, e mergulhou no mar. Tendo aparentemente cometido suicídio, faleceu
aos 59 anos de idade
Em um estudo empírico realizado por Haggbloom et al. utilizando seis critérios, tais
como citações e reconhecimento, sohlberg foi considerado o trigésimo psicólogo mais
famoso do século XX.[2]
Dentre os seus principais sucessores, estão James Rest e Elliot Turiel, que deram
prosseguimentos às pesquisas de sohlberg com contribuições relevantes.

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A teoria do desenvolvimento moral é a mais conhecida de sohlberg. Sua teoria, assim
como a de Piaget, é universalista. Não afirma a universalidade das normas, mas a das
estruturas que permitem a aplicação das normas em contextos precisos e proporcionam
critérios para o juízo moral. Acredita que através de um processo maturacional e interativo,
todos os seres humanos têm a capacidade de chegar à plena competência moral, medida pelo
paradigma da moralidade autônoma, ou, como prefere sohlberg, pela da moralidade pós-
convencional.
Os seis estágios de sohlberg podem ser, generalizadamente, agrupados em três níveis
de dois estágios cada: pré-convencional, convencional, e pós-convencional.
Seguindo as exigências construcionistas de Piaget de um modelo de estágios, como
exposto em sua teoria do desenvolvimento cognitivo, é extremamente raro regredir em
estágios ± perder o uso de capacidades de estágios mais altos. Não se pode pular estágios,
cada um fornece uma nova e necessária perspectiva, mais abrangente e diferenciada de seu
predecessores, mas integradas com eles. Os estágios não avançam em "bloco", podendo a
pessoa estar em determinado estágio em uma área, e em outro estágio em outra área Sua teoria
é dinâmica, e não apenas estática. Potencialmente, todo indivíduo é capaz de transcender os
valores da cultura em que foi socializado, ele não apenas os incorpora passivamente. Com
isso, a própria cultura pode ser modificada.
Podemos esquematizar a teoria de sohlberg da seguinte maneira:
„ el 1 (Pré-Conencional)
1. Orientação "punição obediência"
(Como eu posso eitar a punição?)
2. Orientação auto-interesse (ou "hedonismo instrumental")
(O que eu ganho com isso?)
„ el 2 (Conencional)
3. Acordo interpessoal e conformidade
(„ormas sociais)
(Orientação "bom moço"/"boa moça")
4. Orientação "manutenção da ordem social e da autoridade"
(Moralidade "Lei e Ordem")
„ el 3 (Pós-Conencional)
5. Orientação "Contrato Social"
6. Princípios éticos universais
(Consciência principiada)

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sohlberg classificou os níveis de moralidade e seus respectivos estágios

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1. Estágio do castigo e da obediência

a) Valor moral defendido: obediência às regras e à autoridade. O correto é evitar infringir as


regras, obedecer por obedecer e evitar causar danos físicos a pessoas e propriedades;
b) Justificativa dos julgamentos: evitar o castigo e o exercício do poder superior que as
autoridades têm sobre o indivíduo;
c) Orientação sociomoral: egocêntrica

2. Estágio do objetivo instrumental individual e da troca

a) Valor moral defendido: seguir as regras quando for de interesse imediato. O correto é agir
para satisfazer os interesses e necessidades próprias e deixar que os outros façam o mesmo. O
correto é também o que é equitativo, ou seja, uma troca igual, uma transação, um acordo;
b) Justificativa dos julgamentos: servir a necessidades e interesses próprios em um mundo em
que há outras pessoas com seus interesses;
c) Orientação sociomoral: individualista concreta.

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3. Estágio das expectativas interpessoais mútuas, dos
relacionamentos e da conformidade
a) Valores defendidos: desempenhar o papel de uma pessoa boa (amável), preocupar-se com
os outros e seus sentimentos, ser leal e manter a confiança dos parceiros, estar motivado a
seguir as regras e expectativas;
b) Justificativa dos argumentos: precisa corresponder às expectativas alheias. Tem
necessidade de ser bom e correto a seus olhos e aos olhos dos outros (família, amigos etc.);
importa-se com os outros: se trocasse de papel, iria querer um bom comportamento de si
próprio. Este é o estágio da regra de ouro: aja com os outros como gostaria que eles agissem
com você.
c) Perspectiva sociomoral: do indivíduo em relação aos outros indivíduos.
4. Estágio da preservação do sistema social e da consciência
a) Valores defendidos: fazer seu dever na sociedade, apoiar a ordem social, manter o bem-
estar da sociedade ou do grupo. Cumprir os deveres com os quais se concordou, apoiar as leis;
b) Justificativa dos argumentos: manter o funcionamento das instituições como um todo, auto-
respeito ou consciência compreendida como cumprimento de obrigações definidas para si
próprio ou consideração das conseqüências dos atos. Pergunta-se "o que acontecerá se se
todos fizerem o mesmo?"
c) Orientação sociomoral: o ponto de vista é o do sistema que define papéis ou regras. As
relações individuais são consideradas em termos do lugar que ocupam dentro do sistema.

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5. Estágio dos direitos originários, do contrato social ou da utilidade
a) Valores defendidos: sustentar o direito, valores e contratos sociais básicos de uma
sociedade, mesmo quando em conflito com regras e leis concretas do grupo. Reconhecimento
de que os valores variam de cultura para cultura, mas que existem valores e direitos não
relativos como o direito à vida e à liberdade que devem ser defendidos independentemente da
opinião da maioria;
b) Justificativas da argumentação: obrigação de cumprir a lei em função de um contrato
social: protege seus direitos e os dos outros. Leis e deveres são baseados em cálculo do maior
bem para o maior número de pessoas (critério da utilidade).
c) Orientação sociomoral: o ponto de vista prioritário é o da sociedade. Quando há conflito
entre o ponto de vista moral e o legal, não consegue integrá-los.
6. Estágio dos princípios éticos universais
a) Valores defendidos: seguir o princípio ético universal de justiça que engloba os seguintes
conceitos: dignidade inviolável da humanidade; liberdade; solidariedade e igualdade. Leis são
válidas se seguirem esses princípios; se violarem esses princípios, não se deve obedecê-las
pois o princípio é superior à lei; os princípios têm validade independentemente da autoridade
de grupos ou pessoas que os sustentem e independentemente da identificação do sujeito com
essas pessoas e grupos;
b) Justificativas da argumentação: como ser racional, percebe a validade dos princípios e
compromete-se com eles;
c) Orientação sociomoral: ponto de vista moral, autônomo, do qual derivam os ajustes sociais.
É o ponto de vista do indivíduo racional que reconhece a natureza da moralidade e do respeito
pelos outros como fim e não como meio de chegar a alguma coisa.