O CONHECIMENTO E OS PRIMEIROS FILÓSOFOS OS FILÓSOFOS MODERNOS E A TEORIA DO CONHECIMENTO Quando se diz que a teoria do conhecimento tornou-se uma disciplina

específica da Filosofia somente com os filósofos modernos (a partir do século XVII) não se pretende dizer que antes deles o problema do conhecimento não havia ocupado outros filósofos, e sim que, para os modernos, a questão do conhecimento foi considerada anterior à da ontologia e pré-condição ou pré-requisito para a Filosofia e as ciências. Por que essa mudança de perspectiva dos gregos para os modernos? Porque entre eles instala-se o cristianismo, trazendo problemas que os antigos filósofos desconheciam. A perspectiva cristã introduziu algumas distinções que romperam com a idéia grega de uma participação direta e harmoniosa entre o nosso intelecto e a verdade, nosso ser e o mundo. O cristianismo fez distinção entre fé e razão, verdades reveladas e verdades racionais, matéria e espírito, corpo e alma; afirmou que o erro e a ilusão são parte da natureza humana em decorrência do caráter pervertido de nossa vontade, após o pecado original. Eis porque, durante toda a Idade Média, a fé tornou-se central para a Filosofia, pois era através dela que essas perguntas eram respondidas. Auxiliada pela graça divina, a fé iluminava nosso intelecto e guiava nossa vontade, permitindo à nossa razão o conhecimento do que está ao seu alcance, ao mesmo tempo em que nossa alma recebia os mistérios da revelação. A fé nos fazia saber (mesmo que não pudéssemos compreender como isso era possível) que, pela vontade soberana de Deus, era concedido à nossa alma imaterial conhecer as coisas materiais. Os filósofos modernos, porém, não aceitaram essas respostas e por esse motivo a questão do conhecimento tornou-se central para eles. Os gregos se surpreendiam que pudesse haver erro, ilusão e mentira. Como a verdade - aletheia - era concebida como presença e manifestação do verdadeiro aos nossos sentidos ou ao nosso intelecto, isto é, como presença do Ser à nossa experiência sensível ou ao puro pensamento, a pergunta filosófica só podia ser: Como é possível o erro ou a ilusão? Ou seja, como é possível ver o que não é, dizer o que não é, pensar o que não é?

embora diferente dos corpos. a situação é exatamente contrária. A vontade é livre e. que define a pessoa como um sujeito de direitos e de deveres. de nós mesmos e por isso precisamos saber se podemos ou não conhecer a verdade e em que condições tal conhecimento é possível. A teoria do conhecimento volta-se para a relação entre o pensamento e as coisas. pela primeira vez. somos responsáveis por nossos atos e pensamentos. o sujeito e o objeto do conhecimento. pode mergulhar nossa alma na ilusão e no erro. Nossa pessoa é nossa consciência. Se somos pessoas. Os dois filósofos que iniciam o exame da capacidade humana para o erro e a verdade são o inglês Francis Bacon e o francês René Descartes. pode conhecê-los. trouxe a idéia de que cada ser humano é uma pessoa. . memória e inteligência. Estar no erro ou na verdade dependerá. imaginação. O filósofo que propõe. A segunda tarefa foi a de explicar como a alma-consciência. pelo entendimento ou sujeito do conhecimento. portanto. Consideraram que a alma pode conhecer os corpos porque os representa intelectualmente por meio das idéias e estas são imateriais como a própria alma.Para os modernos. desde que a razão não contradiga a fé e se submeta a ela no tocante às verdades últimas e principais. em suma. como podemos conhecer a verdade? Se a verdade depender da fé e se depender da fraqueza da nossa vontade. a consciência (interior) e a realidade (exterior). como nossa razão poderá conhecê-la? O cristianismo. portanto. A partir do século XVII. e se nosso intelecto foi pervertida por nossa vontade pecadora. crucial e a Filosofia precisa começar pelo exame da capacidade humana de conhecer. Os primeiros filósofos cristãos e os medievais afirmavam que podemos conhecer a verdade. Se a verdade depende da revelação e da vontade divinas. O problema do conhecimento torna-se. aprisionada num corpo passional e fraco. que é nossa alma dotada de vontade. particularmente com santo Agostinho. portanto. A terceira tarefa foi a de explicar como a razão e o pensamento pode tornar-se mais fortes do que a vontade e controlá-la para que evite o erro. Essa idéia vem do Direito Romano. considerando cada uma delas destinada a conhecimentos diferentes e sem qualquer relação entre si. o entendimento e a realidade. uma teoria do conhecimento propriamente dita é o inglês John Locke. a teoria do conhecimento torna-se uma disciplina central da Filosofia. A primeira tarefa que os modernos se deram foi a de separar fé de razão.

e o que afirmou Locke. a finalidade das teorias e as capacidades do sujeito cognoscente relacionadas com os objetos que ele pode conhecer. começando pelas sensações até chegar ao pensamento. .LOCKE Locke é o iniciador da teoria do conhecimento propriamente dita porque se propõe a analisar cada uma das formas de conhecimento que possuímos a origem de nossas idéias e nossos discursos. Locke também distingue graus de conhecimento. no início da Metafísica. no início do Ensaio sobre o entendimento humano. Seguindo a trilha que fora aberta por Aristóteles. Comparemos o que escreveu Aristóteles.

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