Cena Lusófona

n.º 7 Setembro 2009
ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telf. e fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

nova vida e nova casa para a Cena Lusófona

Newton Moreno em Coimbra

A Cena no Café

Rui Madeira

À conversa com

n'As Bacantes

Um encontro

Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Cabo Verde

Teatro do Imaginário Angolar
de FERNANDO DE MACEDO São Tomé e Príncipe

editorial
Em Maio de 1897, o New York Journal publicou o obituário de Mark Twain, confundindo a morte de um primo seu, residente em Londres, com a morte do próprio escritor norte-americano. A resposta de Twain, reproduzida pelo jornal em 2 de Junho, ficou célebre: “o relato da minha morte é desmedidamente exagerado”. Nos contactos que temos feito ao longo dos últimos meses com muitos dos companheiros de percurso da Cena Lusófona, houve frequentes oportunidades para citar o autor de Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Os dois anos em que fomos forçados a suspender a nossa actividade tornaram a instituição praticamente invisível aos olhos da comunidade teatral lusófona e até, aparentemente, junto de entidades que antes nos haviam apoiado (algumas das quais directamente responsáveis pelas dificuldades que atravessámos). Resistimos, contudo, a carpir mágoas. O novo contrato assinado com o Ministério da Cultura português permite-nos retomar o projecto em que continuamos a acreditar. Perdeu-se tempo, é certo, e não é ainda seguro que não tenham sido desbaratados muitos dos esforços anteriormente realizados. Apesar do minimalismo dos recursos, mantemos intactas as ambições e o essencial dos objectivos a que nos propusemos em 1995. Assim entramos nesta nova fase. Reconstruindo a equipa e voltando a reunir a rede de parceiros construída em todo o espaço lusófono. Move-nos a consciência, partilhada com muitos daqueles com quem continuámos sempre em contacto, de que o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa permanece demasiado refém de retóricas vazias e abafado por sucessivos fogachos de ocasião. Mais do que um qualquer e deslocado sentido de “missão”, inspira-nos um sentido de responsabilidade perante expectativas que criámos e alimentámos e que nos custa defraudar. As expectativas não nascem do vazio. Nascem das dificuldades concretas, do quase nada que encontrámos em tantos sítios e que ajudámos a transformar num quase alguma coisa; nascem da vontade de partilha e do interesse pela descoberta que encontrámos noutros locais e que ajudámos a concretizar. Desde 1995, o mundo lusófono mudou muito. Cada um dos (agora) oito palcos em que nos movemos enfrenta novos e decisivos desafios para o seu futuro. Mas a ausência de discurso político sobre esta comunidade e sobre a forma como nos podemos e devemos relacionar parece ter sido preenchida apenas pela retórica do negócio. Velhos tiques, a que só a cultura pode fazer frente. Para que nos possamos conhecer melhor, uns aos outros e a nós próprios. É por isso que cá estamos, afinal e ainda.

Supernova
de ABEL NEVES Portugal

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Moçambique

Teatro I e II
obra dramatúrgica de JOSÉ MENA ABRANTES em dois volumes, Angola

Mar me quer
de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA Portugal / Moçambique

Teatro
obra completa do dramaturgo brasileiro NAUM ALVES DE SOUZA Brasil

Revista Setepalcos
(esgotados números 0, 1 e 2) N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO

Floripes Negra

Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de AUGUSTO BAPTISTA Álbum Fotográfico/Reportagem/Ensaio

edições.cena
À venda na sede da Cena Lusófona e no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, ou via encomenda postal, após solicitação por telefone, fax, ou e-mail.

Cena Lusófona

A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:

cenaberta ficha técnica
Director António Augusto

Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Baptista, Pedro Rodrigues | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | Revisão Sofia Lobo | ISSN 1645-9873 | N.º 7 distribuição gratuita | Tiragem 2000 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Tel. e Fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt
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Setembro 2009

A Cena no Café
Newton Moreno em Coimbra
© Pedro Rodrigues

O que vem aí
Newton Moreno apresentado por António Augusto Barros

Newton Moreno veio a Coimbra e abriu a 3 de Julho um novo ciclo de “A Cena no Café”. A conversa com o conhecido e reconhecido dramaturgo, actor e encenador brasileiro fluiu amena no Teatro da Cerca de São Bernardo.
Um dia, lá em Pernambuco, ao ver actuar um contador de histórias, decidiu que ia ser artista. Foi com esse propósito que “desceu” à grande metrópole: primeiro cursou teatro em Campinas e, depois, a especialização em dramaturgia no Curso de Artes Cénicas da Universidade de São Paulo. Desde esses tempos de faculdade que sentiu “o chamado dos dramaturgos para dentro dos grupos”. Por isso, precisa da “proximidade da sala de ensaios” e considera que “o trabalho de grupo foi sempre essencial para ter a coragem de escrever”. Disse estas coisas (e outras) Newton Moreno em Coimbra, no arranque de uma nova série da iniciativa da Cena Lusófona,“A Cena no Café”, desta vez no Teatro da Cerca de São Bernardo (3 de Julho). Newton Moreno (1968) é actor, encenador, dramaturgo e um dos criadores do colectivo “Os fofos encenam”, que se tem distinguido na cena paulistana mais recente. Os últimos anos têm trazido a Newton Moreno um reconhecimento invulgar enquanto dramaturgo, traduzido na atribuição de alguns dos mais prestigiados prémios (Prémios Shell 2004 e 2008 e da Associação Paulista de Críticos de Artes, em 2004, todos para melhor autor), e na montagem de textos seus por encenadores brasileiros de primeiro plano como Márcio Aurélio (num notável “Agreste”) e, mais recentemente (ainda em temporada), Aderbal Freire Filho, com “As Centenárias”. Durante “A Cena no Café”, Newton fez um percurso informal pelas suas peças, dialogou com a assistência e comentou excertos videográficos feitos a partir de “Agreste” e “A Refeição”. Dominante durante a conversa foi a sua forma de abordar a tradição, a fortíssima herança cultural nordestina, através da sua sensibilidade urbana e contemporânea, um trânsito teatral que Newton reinventa em múltiplas formas. Toda a obra de Newton, pouco publicada ainda, está disponível no Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona (CDI). Para além das já referidas, podem ser consultadas no CDI as peças “Dentro”, “A Cicatriz é a flor”, “Assombrações do Recife Velho”,“Ferro em brasa”,“Ópera”,“Vem, vai – o caminho dos mortos” e ainda textos originais como “The Célio Cruz show”, “Jacinta”, “Berço de pedra”, “O livro”, entre outros. A razão principal da estadia de Newton Moreno em Coimbra foi o convite do Centro de Estudos Sociais (CES) para participar no seminário “Espectáculo / Teatro / Cidade”, que decorreu entre 1 e 3 de Julho.

"A Cena no Café", assim chamada por corresponder, num primeiro momento, a encontros informais no Café Santa Cruz, café histórico no centro de Coimbra, entrou numa nova fase. A ideia é agora, mantendo os mesmos objectivos, passar a promover estes encontros entre artistas e agentes institucionais dos países de Língua portuguesa, essas novas Cenas no Café, em espaços alternativos, quer dentro da cidade de Coimbra, quer noutras cidades do país e, mais tarde, do estrangeiro. E aí prosseguir a apresentação de livros, a projecção de filmes, o desempenho de pequenas performances e espectáculos, a abordagem de projectos aos quais a Cena esteja ligada. Em 2009, nesta nova fase, houve já a "A Cena no Café" com Newton Moreno, no Bar da Cerca de São Bernardo. Estão agendadas mais três tertúlias: para Outubro, Novembro e Dezembro. "A Cena no Café" de Outubro está programada para Coimbra, em ligação com a Reitoria da Universidade de Coimbra, no âmbito dos Encontros de Outono, organizados pela Universidade e subordinados ao tema: “As ligações entre a Antropologia e a Arquitectura”. Em Novembro, teremos a primeira Cena no Café a realizar-se fora da cidade de Coimbra. Ocorrerá em Braga, num dos cafés históricos da cidade. Aí se pensa abordar o projecto da Cena Lusófona e as actividades em curso da Associação. A última Cena no Café prevista para 2009, de novo em Coimbra, irá centrar-se no “Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio Cultural” e no lançamento da revista Setepalcos sobre Cabo Verde.
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Uma nova vida para a
A Cena Lusófona assinou em Julho um contrato bi-anual com a Direcção-Geral das Artes de 2010, permite relançar a actividade da associação. Centro de Documentação, edições
O apoio do Ministério da Cultura à Cena Lusófona foi atribuído na sequência de uma candidatura apresentada ao Programa de Apoios Directos da DGArtes, na área dos cruzamentos disciplinares. O júri avaliou positivamente o plano de actividades apresentado pela Cena, particularmente nas vertentes do “diálogo efectivo com o universo de países onde se fala o Português”, “da preocupação clara com a ressonância cultural” e do manifesto “equilíbrio entre a apresentação de espectáculos e a reflexão”. O montante financeiro atribuído (120 mil euros/ano) ficou aquém do necessário para o relançamento pleno da actividade da instituição, representando cerca de 50% da verba solicitada na candidatura. Ainda assim, permite que a Cena Lusófona mantenha o principal propósito com que foi criada, em 1995: promover o inter conhecimento e dinamizar a comunicação e a circulação de artistas e espectáculos de teatro, música e dança no espaço lusófono. No concreto, este novo contrato com o Ministério da Cultura português possibilita que a associação retome alguns dos principais projectos, entretanto suspensos, especialmente nos campos da documentação, da edição e do intercâmbio teatral entre os países de Língua portuguesa.
Do contrato agora assinado com o Ministério da Cultura português constam objectivos específicos, que dão conta da ambição e da abrangência da intervenção a que a Cena Lusófona se propõe. Entre eles, além dos que se inscrevem nas actividades a desenvolver muito proximamente, destaca-se a conclusão e a disponibilização ao público do inventário de espaços cénicos nos países africanos – um trabalho iniciado há vários anos e que é essencial para a definição de uma rede qualificada de circulação e intercâmbio de espectáculos de teatro, música e dança pelo espaço lusófono, bem como para a inventariação de obras e outras intervenções técnicas necessárias. Depois, e retomando uma pista lançada na última Estação da Cena (Festival de Teatro que atingiu em 2003 a sua VI edição), aposta-se no incremento das relações culturais com a Galiza e na valorização da proximidade entre o Galego e a Língua portuguesa, prevendo actividades de intercâmbio e no plano editorial. tugueses no domínio do teatro, da música e da dança pelo espaço lusófono; Contribuir para o enriquecimento da oferta editorial e para a criação de novos textos no domínio da dramaturgia de Língua portuguesa; Dar visibilidade à proximidade entre a Língua portuguesa e o Galego, promovendo o contacto com artistas e instituições desta região espanhola; Colaborar com outros projectos e instituições cujos objectivos se encontrem na defesa comum da Língua portuguesa e no estímulo à criação artística e à investigação intercultural; Promover regularmente o contacto do público com o trabalho desenvolvido pela associação, através de encontros, festivais e de “A Cena no Café”; Organizar acções que valorizem a formação artística miscigenada numa estreita ligação entre aprendizagem e processos de criação artística.
© Augusto Baptista

Treze objectivos para o biénio 2009/2010
Aprofundar a pesquisa e a divulgação das manifestações artísticas tradicionais africanas; Apoiar a investigação especializada nas áreas artística e antropológica com vista à edição de monografias e documentários; Promover o encontro, o interconhecimento e o intercâmbio entre criadores, investigadores, educadores, promotores culturais e responsáveis institucionais dos oito países lusófonos; Dar visibilidade à riqueza e à diversidade das manifestações artísticas contemporâneas de cada país lusófono, em particular no que diz respeito às artes performativas; Concluir, disponibilizar ao público e construir um sistema de actualização regular do inventário de espaços cénicos nos países africanos; Concluir e disponibilizar ao público uma base de dados especializada de artes performativas do espaço lusófono (espaços cénicos, festivais, grupos e escolas de teatro e dança, performances, publicações periódicas, centros de documentação, actores e dramaturgos); Ampliar o catálogo já existente e incrementar a disponibilização ao público de documentação de artes performativas dos países lusófonos, a partir do CDI instalado em Coimbra e das suas extensões já existentes na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe; Contribuir para a internacionalização de artistas porActuais instalações da Cena Lusófona em Coimbra

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Setembro 2009

Cena Lusófona
do Ministério da Cultura. Este contrato, válido até ao final e intercâmbio teatral são as prioridades.

Próximas actividades
A reabertura ao público do Centro de Documentação, desde 8 de Setembro deste ano, é o primeiro sinal desta nova fase. O Centro pode ser visitado nas instalações da Cena em Coimbra (Rua António José de Almeida, número 2), de segunda a sexta-feira, entre as 10h00 e as 13h00 e as 14h30 e as 18h00. Os utilizadores podem, ainda, consultar e fazer pedidos on-line, dispor de atendimento especializado por parte da equipa de documentalistas da associação. O programa editorial foi retomado. Para além do "Cenaberta" (versão papel), com periodicidade trimestral, e do "Cenaberta on-line", estão já a ser preparadas as próximas revistas "Setepalcos" (cujo número seis, dedicado ao Teatro de Cabo Verde, sairá em Dezembro) e o próximo volume da colecção "Teatro", a publicar em 2010. Ainda em 2009, em Coimbra, vários responsáveis institucionais e agentes culturais dos países de Língua portuguesa participarão, em Dezembro, no Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. "A Cena no Café”, nas variadas formas que assumiu até 2006 (concertos, apresentação de livros, leituras, pequenas representações, tertúlias) volta igualmente à ribalta com regularidade e com um novo figurino: sessões em diferentes espaços e em diferentes cidades do país, correspondendo à dimensão nacional e internacional do projecto da Cena Lusófona e à abrangência e à diversidade dos públicos. Já em 2010, a Cena Lusófona espera abrir um novo capítulo na área das publicações, editando os primeiros DVD do projecto “Narradores Orais”, sobre as formas que a narração oral assume em São Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau.

Um projecto multidisciplinar
Depois de dois anos em que foi forçada a suspender quase toda a sua a actividade, devido à interrupção do financiamento público, a Cena Lusófona – agora que o cenário se alterou – prepara-se para dar continuidade ao trabalho desenvolvido desde 1995. O nosso percurso permitiu adquirir largo reconhecimento junto dos governos e de outros parceiros dos países de Língua portuguesa e, sobretudo, um conhecimento pormenorizado das características e das realidades concretas de cada um dos oito países. E de todos. O trabalho no terreno veio confirmar, por exemplo, várias das intuições iniciais quanto às origens comuns de diversas manifestações artísticas contemporâneas portuguesas e brasileiras e aos seus pontos de contacto com as artes performativas africanas. Permitiu abordar o Tchiloli, o Djambi, estudar as Cavalhadas em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde, acompanhar a viagem da princesa Floripes e dos Doze Pares de França por Portugal e Espanha, primeiro, e pelo imenso mundo lusófono e ibero-americano depois, perceber a força que ainda hoje o teatro popular tem entre nós, no Brasil, em São Tomé e Príncipe… Permitiu documentar, filmar os narradores orais em São Tomé e Príncipe, fotografar extensamente. Mas permitiu também encontros menos frequentes na exploração, por exemplo, das ligações entre a literatura de cordel (tradicional da Bahia e do nordeste brasileiro) e a história dos jograis na Europa Medieval, das raizes da Comedia dell'Arte ou dos diferentes caminhos que a tradição dos narradores orais foi seguindo dentro do universo da Língua portuguesa. Definida inicialmente como associação de intercâmbio teatral, a Cena Lusófona rapidamente se deu conta da multidisciplinaridade da sua intervenção – entre as várias artes performativas e entre estas e as ciências sociais, como a Antropologia, a História e a Sociologia. Hoje em dia, a associação assume sem reservas a relevância destes cruzamentos disciplinares e da sua complementaridade para a compreensão de vários fenómenos artísticos contemporâneos, tanto em Portugal e no Brasil como nos países africanos e em Timor, tanto nas grandes cidades, como Luanda e São Paulo, como no interior mais remoto de qualquer um dos países lusófonos. Da mesma forma, este conhecimento abrangente da multiplicidade de manifestações artísticas intimamente ligadas na origem, e que continuam a interpenetrar-se e a influenciar-se reciprocamente, reveste-se de um interesse prático para o próprio artista contemporâneo, esteja ele na Europa, em África, no Brasil ou em Timor.
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Cena Lu

novas
As novas instalações da Cena Lusófona, no Pátio da Inquisição, deverão estar concluídas em 2011, prevê o Gabinete para o Centro Histórico da Câmara Municipal de Coimbra. Em vias de ser vencido, enfim, um impasse que dura há mais de uma década.

© Augusto Baptista

Pátio da Inquisição: futuras instalações ao fundo

LEGENDA: A Pátio da Inquisição B CAV Centro de Artes Visuais C Teatro da Cerca de São Bernardo Futuras Instalações da Cena Lusófona Desenhos da autoria dos Arquitectos Eduardo Mota e José Martins, do Gabinete para o Centro Histórico da Câmara Municipal de Coimbra

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Setembro 2009

sófona
As obras de recuperação da Ala Central do Colégio das Artes, edifício do Centro Histórico de Coimbra em que se vai instalar a Cena Lusófona, têm início previsto ainda em 2009, após vencida a fase de concurso preparado pelos serviços técnicos da autarquia, e devem estar concluídas em 2011. A obra será financiada pelo programa “+ Centro”, no âmbito do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional), na sequência da candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Coimbra e aprovada no passado mês de Maio. O projecto de recuperação do edifício, que fica paredes-meias com o Centro de Artes Visuais e junto ao Teatro da Cerca de São Bernardo, tem a assinatura dos arquitectos Eduardo Mota e José Martins.

instalações em 2011
Para além da sede e dos escritórios, o projecto inclui instalações para o Centro de Documentação e Informação, a abrir mais espaço para livros e actividades e a melhorar as condições de trabalho dos utilizadores. No último piso, uma sala polivalente servirá para acções de formação e para um programa regular de actividades da Cena Lusófona. A entrada da Cena nas suas novas instalações marcará, espera-se, o arranque de uma etapa decisiva do seu percurso. A partir delas, e caso se consiga reunir os meios necessários, poderá desenvolver-se o Centro de Intercâmbio Teatral (CIT) de Coimbra, há muito ambicionado pela associação. Numa altura em que a Cena Lusófona retoma as suas actividades regulares, a notícia de que estas obras vão finalmente ter início (após um longo período de indefinição) é encarada com natural satisfação. Merece especial destaque o espaço reservado ao Centro de Documentação e Informação (CDI), que inclui uma ampla sala de leitura e áreas para o tratamento técnico e para a adequada conservação do espólio, bem como melhores condições de trabalho para os investigadores e para os utilizadores em geral. O CDI da Cena Lusófona é um dos mais completos centros de documentação especializados na dramaturgia de Língua portuguesa. A sua colecção é constituída por publicações periódicas, livros, fotografias, cassetes vídeo e outros materiais, que podem ser consultados no local ou através da internet.

PROJECTO DE ARQUITECTURA: Piso1

PROJECTO DE ARQUITECTURA: Corte e Alçado Sul
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À conversa com Rui Madeira
cenaberta conversou com Rui Madeira, membro da direcção da Cena Lusófona e director da Companhia de Teatro de Braga. A entrevista agora publicada é uma lúcida abordagem ao papel das pessoas e das estruturas no seio da Cena; ao que somos, para onde e com quem queremos ir. Caminhando entre redes “de afectos e de imaterialidades”. E de algum oportunismo.

A Cena Lusófona viveu tempos difíceis, anos sem qualquer apoio oficial. Como compreender este quase-milagre da sobrevivência? Mais do que sobreviver, nestes últimos três anos conseguimos a proeza de concretizar iniciativas, naturalmente condicionados. Mentiria se dissesse que a situação não nos afectou. Mas fizemos. Agora estamos num momento em que a Cena faz um esforço para retomar um percurso conforme as expectativas que foram criadas desde a sua formação, na esperança de que voltemos rapidamente a ter a relevância que esse trabalho e esse histórico merecem no panorama das artes cénicas da lusofonia. Que sentido dar hoje ao trabalho da Cena? Acho que devemos trabalhar no sentido de que a Cena seja não apenas um juntar, um agregar de pessoas, mas também um aglutinar de estruturas, para podermos responder melhor a eventuais maus momentos futuros. As dificuldades vividas nos últimos anos não têm a ver com problemas nossos, de projecto ou de pessoas, derivam da falta de perspectiva estratégica e política dos sucessivos governos; por comodidade podemos dizer: dos sucessivos governos portugueses. De facto, a importância da Cena extravasa os limites geográficos de Portugal. Embora seja um projecto que se iniciou aqui, os seus objectivos ultrapassam as fronteiras europeias, co-responsabilizam outros países e governos de Língua portuguesa. Neste aspecto eu acho que tem havido uma fraca análise dos governos da lusofonia em relação àquilo que a
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Cena potencia e pode ajudar, numa perspectiva mais alargada, na persecução de objectivos estratégicos que ultrapassam em muito a questão cultural. Como articulas o trabalho da Companhia de Teatro de Braga com o da Cena Lusófona? Todo o trabalho da Companhia tem sido enquadrado e tem sido assumido como um trabalho inserido no projecto Cena Lusófona. Com esta filosofia, nos últimos anos desenvolvemos uma série de iniciativas no Brasil, em vários Estados: "workshops", oficinas sobre escrita com a Regina Guimarães, oficinas sobre a prática teatral. Temos levado espectáculos a São Paulo, à Bahia e a várias cidades do Estado; temos participado em alguns Festivais. Fomos a São Paulo, ao 1.º Festival Ibero-Americano, com um texto do Nelson Rodrigues, "Doroteia", e temos feito imensos espectáculos, imensas acções. Em Agosto [a entrevista foi realizada no final de Julho de 2009] irei a São Paulo, mais propriamente à cidade de São Vicente, na baía de Santos, fazer uma oficina sobre "A Castro", de António Ferreira, destinada a actores que querem experimentar este trabalho.Tem sido desenvolvida uma importante acção no Brasil; ao mesmo tempo, nós temos recebido aqui companhias brasileiras. No domínio da acção articulada da Companhia de Teatro de Braga com a Cena Lusófona, há ainda o actual estágio de três actores brasileiros no seio da Companhia. Nós temos três elementos a trabalhar connosco, jovens actores brasileiros oriundos da Bahia. O trabalho de "As Bacantes" começou lá e teve como ob-

jectivo encontrar dois ou três jovens actores estagiários, numa base de acordo entre a Secretaria de Estado da Cultura da Bahia e a Perfeitura de Camaçari. Feita a selecção, eles vieram, nós fizemos em Portugal uma outra oficina para o Coro de "As Bacantes", juntámo-los, fizemos o espectáculo cá e voltámos a São Paulo. Em São Paulo fizemos uma outra oficina durante dez dias, seis horas por dia, para criar um coro para o espectáculo, com actrizes brasileiras. Em São Paulo, o espectáculo foi apresentado onde? Fizemos ensaios no espaço do TAPA, que é um parceiro da Cena Lusófona há muitos anos. O Eduardo Tolentino, o director do TAPA, tem participado em muitas actividades da Cena Lusófona. Ele integra uma rede amiga, que eu entendo a Cena também como uma rede de afectos. Fizemos esses ensaios no espaço do TAPA e depois apresentámos o espectáculo "As Bacantes" no Teatro Oficina do José Celso, outro exemplo de relações afectivas. Portanto, este mexer, numa base de projecto Cena, nós temo-lo mantido, naquilo que eu acho que cada uma das pessoas, cada um dos responsáveis do projecto devia manter. Do que atrás disseste extrai-se que encaras como muito estreita, indissociável, a relação da Companhia de Teatro de Braga com a Cena Lusófona. Nós pensamos que todo o trabalho desenvolvido pela Companhia com o Brasil ou com Moçambique, quer nas acções de formação, quer na apresentação dos espectáculos, deve e tem de ser enquadrado numa perspectiva de

Cena Lusófona. Não faria sentido ser de outra maneira. Custa-me admitir que pessoas, ao longo dos anos recorrentemente chamadas pela Cena para fazerem acções de formação, ali e acolá, possam ir agora a esses mesmos sítios, ignorando a Cena Lusófona. Custa-me também compreender que pessoas que foram convidadas pela Cena, que estiveram e participaram em acções da Cena, que conheceram este projecto, que sabiam quais eram os seus objectivos, quando catapultadas de repente para lugares de responsabilidade, se esqueçam de tudo, tentem apagar a Cena Lusófona e vão ao ponto de desenvolver projectos que sabem ter paternidade, autoria. E quem são essas pessoas? Acho que não interessa fulanizar. Sou crítico relativamente a quem andou ou anda pelo projecto Cena só quando há recursos. Estou a ser completamente sério, porque é exactamente isto que eu penso. Acho que um projecto desta natureza é também um projecto de imaterialidades, de sonhos, que só se concretiza quando as pessoas entenderem que podem juntar as responsabilidades estratégicas das suas estruturas com aquilo que é mais vasto. Talvez o trabalho da Companhia de Teatro de Braga no Brasil nunca se concretizasse se não houvesse Cena Lusófona. O trabalho de intercâmbio da Companhia de Teatro de Braga com a lusofonia esgota-se no Brasil? Hoje a companhia tem uma rede de contactos e de conhecimentos que nos levam infelizmente a não poder assumir muitas das propostas que nos chegam.

Setembro 2009

Rui Madeira (Santarém, 1955) é encenador e actor (teatro, cinema, televisão). Director da Companhia de Teatro de Braga e administrador executivo do Theatro Circo de Braga, é membro da direcção da Cena Lusófona e Docente, nas áreas do Corpo e da Expressão.

© Augusto Baptista

De qualquer modo, vamos receber aqui, em Setembro, o Isaías Machava, de Moçambique, do Maputo, que vai dirigir o Teatro África, onde está sedeada a Companhia Nacional de Canto e Dança. Vem fazer um estágio de seis meses, fruto de uma relação que nós estimulamos com a Companhia Nacional de Canto e Dança, e que levou a que o Frederico Bustorff esteja em Moçambique, desde Abril até Fevereiro do ano que vem, a fazer um documentário sobre os trinta anos de actividade da Companhia, ao mesmo tempo que desenvolve uma acção de formação para que essa estrutura tenha um departamento de imagem. Essa vertente lusófona, africana, brasileira, essa valência que consideras estruturante para a Companhia de Teatro de Braga, “aprendeste-a” na Cena? A experiência da Cena abriu-me claramente perspectivas no âmbito da lusofonia. Por isso eu falo da necessidade de abrir a Cena Lusófona não somente a pessoas mas também a estruturas, no sentido de responsabilizar mais os desempenhos. Nós sabemos que a Cena Lusófona, nos primeiros anos, foi entendida como mais uma instituição, vista de fora. Alguém que pretendia acolher projectos e distribuir apoios. E foi pouco entendida como verdadeiramente uma associação de pessoas que veiculam um objectivo, um sonho, um espaço de confronto… ... de confronto e de confluência. Exacto, de confronto e de confluência de pessoas da área da criação artística teatral… … de pessoas e de estruturas. Essa questão ficou muito de fora. No

momento em que a Cena Lusófona, por razões que a ultrapassam, viveu uma crise, de repente nós percebemos que afinal não éramos tantos assim. E se a Cena hoje se mantém deve-o à influência que essas pessoas tinham e têm em estruturas. Podia mais uma vez falar de nomes, mas basta referir isto: se não fossem algumas dessas estruturas talvez hoje não existíssemos. De facto, a Cena apoiou-se nos últimos anos em estruturas, através de pessoas ligadas à Universidade de Coimbra, a Companhias, empresas… Usando um ditado popular, quase parece que há males que vêm por bem. Não direi isso. De qualquer modo, vou considerar este período difícil da Cena Lusófona, estes últimos três anos, como algo revelador e importante e profícuo. Para mim, para a estrutura que eu dirijo, toda a gente na Companhia sabe o que é a Cena Lusófona. Na Companhia todos sabem que o trabalho que nós desenvolvemos no Brasil tem a ver com a Cena Lusófona. O teu trabalho no Brasil tem sede muito em São Paulo e Bahia. Quais são aí os principais parceiros? São vários. O meu amigo Sartini, que hoje dirige o Museu da Língua em São Paulo, a Creusa Borges, produtora e directora do Grupo Dragão Sete, as pessoas da Cooperativa Paulista de Teatro, o Eduardo Tolentino, do TAPA, o Fernando Calvozo, que dirige o Festival Ibero-Americano, muitos dos responsáveis culturais de cidades do Estado de São Paulo… Há uma geração de pessoas que trabalham junto da Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo ou

junto da Perfeitura que têm muito a ver com o nosso trabalho. Muita gente, muito interlocutor… Há uma rede de conhecimentos que passa por dentro quer do Governo de São Paulo, quer da Perfeitura, extremamente importante. O Márcio Meirelles, naquilo que nós na Bahia temos desenvolvido, tem enquadrado o intercâmbio dentro dos parâmetros pré-estabelecidos da política cultural do Estado. Há uma diferença entre o Márcio Meirelles Secretário da Cultura e o Márcio Meirelles director do Teatro Vila Velha. E ainda bem que é assim. Tudo quanto se faça apoiado pela Secretaria de Estado da Cultura da Bahia tem de ser determinado em concurso claro. O que disseste pressupõe uma relação continuada, ligação, rede. Pergunto, há a ideia de expandir essa malha? Nós temos a ideia de fazer coisas com Angola e inserir isso obviamente dentro do espaço da Cena Lusófona. Estamos a trabalhar com algumas empresas que estão em Braga, e que têm relações de trabalho e comerciais com Angola, no sentido de vermos o que podemos fazer. A questão de Moçambique… Brevemente, eu e o António Augusto Barros iremos fazer uma reunião com membros do novo Governo saído das últimas eleições da Galiza. A Companhia de Teatro de Braga desenvolve um trabalho de características regulares com a Galiza, envolvendo directores de Companhias, actores galegos. A Galiza pode ser um valor acrescentado, pode desenvolver sinergias que envolvam a Cena Lusófona como parceiro.

Um movimento em espiral, que, a dada altura, pode arrastar outros protagonistas? De facto, Portugal e Espanha, nós somos países da periferia da Europa.Talvez a Espanha não seja entendida assim, mas, se pensarmos na Galiza, percebemos melhor do que estamos a falar. Ao mesmo tempo, este canto ibérico tem relações profundíssimas com um vasto mundo americano, africano… o problema aqui é que nós não temos sustentação, uma política de apoio. Ao contrário do que acontece com outros. Não temos a noção da força e da importância que o Instituto Cervantes tem hoje no Brasil. Nos últimos dois, três anos, mais de oitenta delegações do Instituto Cervantes foram criadas no Brasil. Não avaliamos a força que as estruturas culturais francesas têm hoje em Moçambique, em Cabo Verde. Nós não fazemos ideia, não fazemos ideia quando falamos de País, porque nós, elementos da Cena Lusófona, temos esse conhecimento do terreno, dos factos, sabemos como as coisas funcionam, sabemos a importância do "Goethe-Institut" na Bahia. Nós, País, não conseguimos imprimir uma dinâmica cultural estruturada. Fala-se da Galp que tem umas plataformas na Baía de Santos, dos negócios com a Venezuela, mas o governo português não integra isso numa política cultural consentânea.

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São três: um rapaz, duas raparigas. Oriundos todos do Estado da Bahia, encontraram-se na oficina da Cena Lusófona organizada em 2008 no Brasil pela Companhia de Teatro de Braga, CTB. Encontraram-se eles e outros: quarenta, ao todo. O objectivo último desta acção de formação era seleccionar três actores para integrarem o elenco de "As Bacantes", do grego Eurípides. Entre os muitos participantes, foram eles os escolhidos.

Um encontro n'As Bacantes
© Augusto Baptista

Allex Miranda, Thamara Thaís e Mabelle Magalhães encontraram-se na oficina que o encenador Rui Madeira, director da Companhia de Teatro de Braga, CTB, e membro da direcção da Cena Lusófona, promoveu no final de Julho de 2008 em Salvador da Bahia, Brasil. E foram eles os escolhidos, entre os quarenta participantes na oficina, para em Braga integrarem depois outros patamares de formação. Pós-oficina da Bahia, em Outubro de 2008 e como o previsto, os três vieram para Portugal a fim de trabalharem o espectáculo "As Bacantes". A ideia inicial, dizem, era permanecerem em Braga durante seis meses e, apresentado esse espectáculo aqui, rumarem além-Atlântico para apresentação da peça, com o elenco reformulado por um coro de bacantes brasileiras. “Só que, neste interim, o Rui trabalhou com a gente "As Bacantes" e adorou fazer um outro espectáculo para trabalhar a nossa formação”. Por via disso, juntamente com dois actores portugueses, entraram na peça "Preconceito Vencido", de Marivaux, com estreia em Fevereiro de 2009. Concretizada uma digressão dos dois espectáculos por palcos portugueses (Braga, Forjães, Évora e Coimbra) viajam para o Brasil e, em Abril de 2009, animam outros palcos em S. Paulo (Teatro Oficina do Zé Celso e Espaço Mazaropi) e em Americana. Em Maio estão de volta a Portugal para responderem a novos reptos teatrais e prosseguirem o estágio na Companhia de Teatro de Braga, onde cenaberta os encontrou.

Os três jovens estagiários brasileiros trabalham com actores da Companhia de Teatro de Braga, profissionais experientes embarcados na mesma viagem formativa. cenaberta colheu as opiniões de Carlos Feio, Jaime Soares e Rogerio Boane sobre esta acção de formação, questionou-os: quem ensina quem?

Mabelle Magalhães, Alex Miranda e Thamara Thaís

Thamara Thaís 20 anos, fazia teatro em Camaçari, vivia em Arempebe, estudava jornalismo em Salvador da Bahia. O seu dia-a-dia era um triângulo complicado: “Pegar o onibus em Arempebe, ir para Salvador, depois voltar, depois ir para Camaçari para o teatro. Era muito difícil”. Quando soube da acção de formação da Cena prevista para Salvador, interessou-se, foi escolhida no seu Grupo de Teatro Resistência. “E aí eu abandonei a Universidade para vir para cá”. “Eu aqui tenho aprendido muito”. Aprendeu, por exemplo, que em Moçambique se fala Português. “Eu não sabia. Eu nunca imaginei. Quando o Rui esteve lá no Brasil e disse que tinha um actor moçambicano eu me espantei: mas será que ele sabe falar Português?” A mudança de ares fez bem a Thaís! “Tanto na vida profissional como na vida pessoal a gente vai amadurecendo. Aqui, sem família, conhecemos novas pessoas, fazemos amigos, estou crescendo muito com esta experiência”. Enquanto assinala a importância deste estágio da Cena “para reunir todas estas pessoas que falam a mesma língua” vive o fascínio do palco, destaca o mérito de “actuar com actores profissionais”. Allex Miranda 26 anos, companheiro de Thaís no Grupo de Teatro Resistência, nasceu em Nazaré das Farinhas, a cerca de 60 quilómetros de Salvador da Bahia, instalou-se com a família em Ilha da Taparica, cidade vizinha de Salvador. Na Ilha de Taparica, Allex estudou, fez a sua difícil iniciação teatral: “Eu era muito tímido, ficava a tremer, mas…”. Havia um mas redentor: “…mas tinha muita capacidade de memorização, gravava aqueles textos todos e conseguia dizê-los diante do público”. Em Salvador participou depois em "workshops" do projecto "Viver com Arte" da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia e, enfim, integrou a oficina da Cena Lusófona: "As Bacantes, uma Orgia de Poder". Vir para Portugal tem correspondido a uma experiência boa para Allex Miranda: “Nós aqui podemos ganhar o pão de cada dia com a coisa que nós amamos, o teatro”. Depois, realça a importância de conhecer actores, “com seu jeito novo de actuar”. De ter descoberto “o poder da palavra, o texto,

que o teatro para nós é uma coisa mais corporal”. Acha-se agora com mais bagagem, com mais capacidade para “vir a trabalhar lá no Brasil de uma forma melhor”. E aí informar “o trabalho construído aqui em Braga”, ser “um vínculo de ramificação deste projecto da Cena Lusófona, que, juntando diferenças, cria afinidades”. Mabelle Magalhães 25 anos, nasceu em Salvador da Bahia, cresceu com opções claras: “Eu não me lembro de querer outra profissão que não fosse ser actriz”. Fez oficinas de teatro no "Viver com Arte", acções gratuitas de formação promovidas pelo governo do Estado da Bahia. Fez outras oficinas. Muitas. Ingressou no curso de teatro da Universidade Federal da Bahia, mas a luta pela sobrevivência tolheu-lhe o sonho: “Tive de ir trabalhar numa empresa de call center”. O projecto "As Bacantes" da Cena Lusófona fê-la reencontrar-se com o destino, sina antiga: o Teatro. Estes tempos de formação na CTB, além do traquejo de palco, para Mabelle representam “um despertar da consciência”. Pensa em voz alta: “A consciência é muito importante para o trabalho do actor. Quando você está com o pensamento adormecido, não é capaz de fazer uma leitura clara do que o rodeia”. O estágio, propiciador de trabalho intenso com actores mais experientes, tem-lhe permitido ver com mais clareza o que para ela significa Teatro, “libertar-me de clichés”, ter um olhar esclarecido no palco e na vida: “Eu vejo o actor como uma parabólica do mundo, conectado com tudo em redor. O que está acontecendo na China, no sertão, tudo é importante”. Quanto ao mundo da lusofonia, Mabelle está-lhe surpreendendo o gingar dialéctico, o “somos, não sendo”: “Nós estamos num país bem mais sóbrio, menos colorido do que o Brasil. Por mais que a gente tenha a mesma Língua, hábitos parecidos, nós não somos iguais. Ao mesmo tempo que somos, não somos”. Numa visão introspectiva sobre a realidade brasileira, lamenta: “A gente não se conecta com os países que falam Português. A gente não tem a noção da África. Não sabe que Angola fala Português, que Moçambique fala Português. Somos poucos os que falam Português, precisamos mesmo de integração”.

Carlos Feio: Para eles e para nós este estágio é importante. Nós aprendemos coisas novas, linguajares diferentes. Aprendemos o mais básico e o mais fecundo, ao nível das relações entre as pessoas. Partilhamos mundos, segredos, histórias. Eles chegam com a sua experiência, o que pode significar uma grande dose de inexperiência, e conseguem integrar bem os desafios do palco. Surpreende como não se inquietam, espanta onde vão buscar a confiança. Talvez os encenadores, os companheiros de palco, nós, enfim, lhes criemos uma almofada que os defende quando partem para o trabalho, para os textos.

Jaime Soares: Eles vêm com outros métodos de trabalho, outros ritmos, outros modos de exprimir o Português, com outra musicalidade. Isso ajuda-nos a explorar um bocado mais a Língua e a palavra, até através da diferença. E eles aprendem a ter algumas noções mais europeias de trabalhar no teatro, isto a nível dos métodos, da organização, da abordagem da palavra. Ouvi-los a ler um texto, por causa da diferença cultural, isso também nos estimula. Eles têm uma relação com o teatro mais física. A nós isso dá-nos um aprendizado do corpo, leva-nos a explorar mais a musicalidade, o ritmo físico.

Rogerio Boane: Esta experiência desperta outras técnicas, eles têm um registo de representação diferente do meu. Que eu agora estou a tentar ligar o registo português com o meu, que é africano, e agora depara-se-me um outro registo, que é brasileiro, e que eu desconhecia. Eles têm outros tempos, outra respiração, outra vivência. Têm uma representação com alma, com sentimento, não é muito sobre a palavra, como o teatro português; não é muito sobre a terra, sobre o dia-a-dia, como o teatro africano. Esta experiência de palco com os brasileiros está a ser muito importante para mim. Eles sentem mais o que dizem do que escutam o que estão a dizer.

cenaberta 10

Setembro 2009

cenas breves
Luanda

Espaço do Elinga não será demolido
O edifício que acolhe o Elinga Teatro, classificado como Património Histórico e Cultural, não será demolido, como chegou a temer-se. A garantia foi dada pelo vice-ministro da Cultura, Cornélio Caley. O grupo mantém assim a sua sede histórica, em pleno coração da capital angolana. Conforme declarações de Cornélio Caley veiculadas pelo jornal angolano "O País", edição de 17 de Julho, o espaço que aloja o Elinga será preservado, continuando a ser um “verdadeiro testemunho histórico do passado colonial e parte integrante do património cultural do Povo Angolano”. Sobre a intervenção a empreender para requalificação do imóvel, o governante defendeu: “precisamos

de textos inéditos, entrevistas com autores, ensaios e outros materiais relativos ao teatro que actualmente se escreve no Brasil. Entre os autores com peças disponíveis no sítio estão nomes como Marcos Barbosa, Mário Bortolotto, Paula Chagas, Claudia Vasconcellos. Para além de textos originais, são disponibilizadas entrevistas com dramaturgos brasileiros contemporâneos, entre os quais Newton Moreno (que em Julho participou em Coimbra na tertúlia "A Cena no Café"), Samir Yazbek e José Paes de Lira. Na secção teses e ensaios, estão neste momento acessíveis os textos de André Luis Gomes (“Dramaturgia contemporânea: do palco ao livro”) e de Cássio Pires (“Do drama ao fragmento”). Disponível em www.dramaturgiacontemporanea. com.br, o sítio inclui ainda um fórum em que todos os leitores podem participar e uma agenda diária com os espectáculos em cena nas principais cidades do Brasil.
A.B.

tistas de seis países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e Portugal. A diversificada programação incluiu espectáculos teatrais, oficinas, palestras, espectáculos musicais e ainda uma mostra culinária. De acordo com informações avanças pela organização, assistiram à iniciativa cerca de dezassete mil pessoas. Os Artistas Unidos, com o espectáculo “Uma solidão demasiado ruidosa” (que venceu o prémio revelação) e Miguel Seabra, do Teatro Meridional (que dirigiu um workshop para actores) foram alguns dos participantes portugueses no Festival. O escritor moçambicano Mia Couto foi homenageado pelo conjunto da sua obra, tendo recebido o Troféu FESTLIP 2009.

Bahia

Novos livros de Armindo Bião
Armindo Bião, investigador brasileiro na área das artes cénicas, apresentou em Julho em Salvador da Bahia dois novos livros, que reúnem alguns dos seus textos dispersos: “Teatro de cordel e formação para a cena” e “Etnocenologia e a cena baiana”. Para além da sua actividade académica - foi o primeiro Coordenador do Programa de PósGraduação em Artes Cênicas PPGAC/ UFBA (1997/ 2003) e o primeiro Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas ABRACE (1998/ 2002), da qual é o Coordenador do Grupo de Trabalho de Etnocenologia, desde 2007 – Armindo Bião é também actor e encenador, tendo participado em cerca de 50 obras teatrais e audiovisuais.

Um dia, na eternidade, o Demónio aposta com Deus que, se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till.Vivendo numa Alemanha miserável, povoada de personagens grotescas e de espertalhões, o protagonista é abandonado ao frio e à fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é tornar-se ainda mais esperto e enganador. Assim começa a saga de Till, um típico anti-herói, cheio de artimanhas e dotado de um irresistível charme, criado pela cultura popular alemã da Idade Média. Uma personagem que, segundo a nota de apresentação do Galpão, tem parentesco com outros tipos de várias culturas, assemelhando-se, por exemplo, ao brasileiro Macunaíma ou ao ibérico Pedro Malasartes. Com encenação de Júlio Maciel, cenário e figurinos de Márcio Medina e direcção musical de Ernani Maletta, “Till, a saga de um herói torto” representa o regresso do Grupo Galpão ao teatro de rua e às suas formas de representação popular. Para o Grupo, a rua é um espaço importante para a democratização da arte e do teatro. “Ela nos traz desafios de como apresentar o espectáculo para um público amplo e sem restrições de idade, classe social ou formação intelectual. Isso tem reflexos em todos os elementos de criação, como a dramaturgia, a cenografia, os figurinos e a música”, afirma Eduardo Moreira, membro do Galpão. Estreado em Belo Horizonte no dia 3 de Julho, o espectáculo fez já um circuito por cinco festivais de Inverno - Congonhas, Ouro Preto, Itabira, Diamantina e Ouro Branco – e cumpriu a “Turnê Minaus 2009”, por quatro cidades do interior do Estado: Uberaba, Patos de Minas, Divinópolis e Sete Lagoas. No final de Setembro é apresentado no Rio de Janeiro, em dois locais distintos: Lagoa – Parque dos Patins (17 a 20) e Arcos da Lapa (24 e 25).
A.B.

Elinga Teatro, em Luanda

saber o que é que se pode preservar: se as partes frontais, se as partes internas (…). O que se vai fazer é requalificar no sentido de fazer com que a parte essencial que memoriza o passado esteja presente”. Ainda de acordo com "O País", a decisão de não demolir o espaço do Elinga terá resultado de protestos protagonizados por artistas, agentes culturais e pessoas anónimas, na sequência de um conjunto de debates à volta da preservação do Centro Histórico de Luanda. Em Maio do ano passado, nas vésperas da realização do primeiro Festival Internacional de Cultura e Artes de Luanda, organizado pelo Elinga Teatro, o director do grupo, José Mena Abrantes, anunciou o propósito das autoridades demolirem o referido edifício para aí instalarem um parque de estacionamento. Em Dezembro, o Elinga chegou mesmo a receber ordem de despejo por parte da Direcção Provincial da Habitação, o que desencadeou uma onda de indignação e de veementes protestos públicos.

Rio de Janeiro

FESTLIP planeia itinerância lusófona
No balanço muito positivo que faz da segunda edição do FESTLIP - Festival de Teatro da Língua Portuguesa, a produtora Tânia Pires, responsável pela organização, afirma que o festival “está perto de se tornar um projeto itinerante. Não só pelo Brasil como pelos países que integram o evento.” Entusiasmada, Tânia Pires considerou o FESTLIP “um marco na agenda cultural do Rio de Janeiro, superando as expectativas de crítica e público. A repercussão foi de âmbito internacional, o que mostra a importância cultural do Festival, reflectida na cobertura dada pelos países participantes e por toda Europa”. Neste contexto, a Talu Produções, sob a direcção de Tânia Pires, planeia ampliar o formato do festival já a partir de 2010, tornando-o itinerante pelos vários países de língua portuguesa. O festival tem o activo apoio do Governo brasileiro: “Promover a Língua portuguesa, em sua diversidade e dinamismo é tarefa indispensável ao fortalecimento de nossa cultura e à afirmação de nossa visão de mundo”, sustenta Marcelo Dantas, Director de Relações Internacionais do Ministério da Cultura. O Festlip 2009 decorreu entre 2 e 12 de Julho em vários palcos cariocas e envolveu oitenta ar-

"Till, a saga de um herói torto", pelo Galpão

Minas Gerais

Galpão bate recorde de espectadores
Em menos de dois meses, o mais recente espectáculo do Grupo Galpão, “Till, a saga de um herói torto” foi visto por cerca de 40 mil pessoas, um novo recorde na história do grupo. Depois da estreia em Belo Horizonte e da digressão pelo estado de Minas Gerais, o espectáculo chega ao Rio de Janeiro em final de Setembro.

O Grupo Galpão esteve em Portugal em 2001, a convite da Cena Lusófona e do FITEI, com o espectáculo “Romeu e Julieta”, apresentado em Coimbra, em Braga e no Porto.

Brasil

Dramaturgia contemporânea na net
Abriu recentemente um novo sítio na Internet dedicado à dramaturgia brasileira contemporânea. Editado por Paula Chagas Autran e Thereza Dantas, reúne já importante acervo

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cenaberta

setembro 2009

ROSTOS DA CENA

Jorge Biague
Na primeira pessoa, Jorge Biague — em vésperas de participar em Portugal num estágio de formação teatral promovido pela Cena Lusófona — confia ao cenaberta o que é ser actor hoje na Guiné-Bissau, dividido entre o Cinema de Flora Gomes e o Teatro. Evoca os primeiros passos, o percurso, o seu aprender fazendo. Os companheiros d’ “Os Fidalgos”. O teimoso trabalho do Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau. E a coragem, o saber continuar, o ir além da Cena, quando o chão ferve e os tempos são de tempestade.
Nasci no Sul da Guiné-Bissau, em Empada, região de Quinara, em 12 de Março de 1973. Fiz os estudos primários em Bolama e o Liceu em Bissau. A minha formação académica não prosseguiu, por motivos que não vale a pena estar a dizer. Chamo-me Jorge Quintino Biague e sou actor. Mas ser actor na Guiné é como ser desempregado. Comecei as minhas andanças de representação em 1992, com o bem conhecido realizador guineense Flora Gomes. Desde aí participei em todos os outros filmes do Flora, um homem muito especial na minha vida e na minha carreira artística. Com ele aprendi muita coisa. Trabalhar com o Flora é como andar numa biblioteca a vasculhar livros. Nos filmes do Flora, como por exemplo no “Po di Sangui”, fiz um dos papéis principais: o Mudo. No “Nha Fala” fiz o papel de Mito, o Doido. Entrei num filme de Sana Na Hada, outro realizador guineense. No filme “Djito tem ku tem”, de Suleimane Biai, fui o actor principal. Sem contar com pequenas participações em vários documentários. O filme “Nha Fala” foi decisivo para a formação do nosso grupo, ”Os Fidalgos”. Durante os ensaios houve contactos entre o Flora e o António Augusto Barros e o Flora aconselhou-nos a formar o grupo, com os actores e técnicos que já vinham desde o primeiro filme, “Mortu Nega”. E assim criámos “Os Fidalgos”, sob a forma de cooperativa cultural, grupo legal, com estatutos aprovados em Assembleia Geral de 2 de Fevereiro de 2002. Depois disso, tivemos a primeira oficina dada pel'A Cena Lusófona. Montámos o primeiro espectáculo d’ “Os Fidalgos”, criação colectiva dirigida pelo Andrejz Kowalski. Com este espectáculo,“O Lutador”, participámos na 5.ª Estação da Cena em São Tomé e Príncipe. Criámos “Makbunhe”, a partir de “Macbeth” de William Shakespeare, co-produção da Cena Lusófona que representámos na 6.ª Estação, em Coimbra. Depois fizemos “Mistida”, adaptação do romance de Abdulai Sila. E nunca mais paramos de trabalhar. Mas trabalhamos num mercado de produtos sem valor: na Guiné não se pode viver de Teatro. Há coisas importantes que quero lembrar quando visito o passado, como as relações entre a Cena e “Os Fidalgos”, sempre boas desde o início, queira Deus que isso continue assim. Foi graças às oficinas aqui organizadas pela Cena que hoje — actores, encenadores e técnicos — somos o que somos. Em cada oficina beneficiámos dos materiais que a Cena nos enviava, livros, peças de teatro de diversos escritores, luzes, o que nos permitiu formar uma biblioteca especializada, ter materiais de iluminação. Para além dos trabalhos com Andrezj Kowalski, a Cena organizou seis oficinas na Guiné-Bissau. Duas de biblioteca e documentação, dirigidas por Jorge Pais de Sousa: a primeira em 2003, a segunda em 2005.Também de iluminação houve duas oficinas: a primeira em 2003, dirigida por Elias Macovela, moçambicano; a segunda, em 2005, por José Manuel Marques. Filipe Crawford dirigiu duas oficinas de actuação, em 1995 e em 2005. Graças a estas oficinas somos hoje actores de palco e técnicos, ao mesmo tempo. Também é bom dizer que sempre nestas oficinas convidámos ou enviámos convites aos outros grupos para as integrarem, em que todos os participantes saem mesmo satisfeitos. Com o que aprendemos nesta formação e com os meios oferecidos organizamos nós depois outras oficinas e fundou-se o CIT Bissau (Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau), com mais de uma centena de livros sobre Teatro: uma biblioteca especializada que até agora está a ser dirigida por mim e pela Amélia da Silva, companheira da Cena e d’ “Os Fidalgos”. Desde aí, o CIT nunca mais parou. Quando a Cena deixou de nos poder apoiar financeiramente, o CIT funcionou com apoio da ONG Acção para o Desenvolvimento, AD. Isso foi possível com a intervenção do Flora Gomes, que falou com o director executivo da AD, Engº Carlos Silva (Pipito). E este nem pensou duas vezes, aceitou o pedido. Foi com esta grande ajuda que conseguimos sobreviver nesta tempestade. É bom dizer que AD é um dos parceiros da Cena na Guiné-Bissau e é das poucas ONG que aqui apoia ou aposta na Cultura. O CIT Bissau tem um blogspot www.citbissau. blogspot.com e fica situado nas instalações da AD, no Bairro Quelélé, onde funciona um ciber, uma biblioteca pública e, neste mesmo espaço, uma biblioteca especializada, frequentada sobretudo pela camada jovem, a que mais se interessa por Teatro. Em 2006 tínhamos 210 leitores e, no ano seguinte, 226. O horário de funcionamento é das oito da manhã às treze, mas quando temos um trabalho na biblioteca voltamos à tarde. A Cena contribuiu muito para que eu ficasse ligado ao Teatro, porque dantes era só o Cinema. Agora sinto que tenho obrigação de ajudar a que o Teatro ganhe o espaço que merece. Quando digo eu, quero dizer nós, “Os Fidalgos”, e os nossos parceiros, e a AD. Fazer teatro na Guiné é para quem tem muita coragem. E não desista de aprender. Importante para a minha formação é a possibilidade de participar agora no estágio da Cena Lusófona em Portugal. Tenho muita expectativa neste estágio, já que deixei de ir a Moçambique para a rodagem do novo filme com o Flora Gomes e os meus companheiros da carreira de Cinema. No primeiro estágio organizado pela Cena participou a Amélia da Silva, em 2003, e já está a dar muitos frutos: agora é ela a encenadora d’ “Os Fidalgos”.

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