Cena Lusófona

n.º 8 Dezembro 2009
ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telf. e fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

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intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa tem sido objecto de várias resoluções oficiais, projectos de intervenção e iniciativas pontuais. Permanece, contudo, a sensação de que há muito por fazer na aproximação e no inter-conhecimento entre os agentes culturais dos diversos países e na capacidade de articular meios e vontades em nome deste interesse comum.Quando caminhamos para a celebração do 15º aniversário da CPLP (em 2011), e num momento em que vários dos oito palcos lusófonos (aos quais se junta, como parceiro privilegiado, a Galiza) estão a iniciar um novo ciclo político (Angola, Portugal, GuinéBissau e Moçambique), a Cena Lusófona promove um encontro entre responsáveis institucio-

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encontro internacional sobre políticas de intercâmbio

Te a t r o d a C e r c a d e São Bernardo

COIMBRA

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Braga e Coimbra

A Cena no Café

imagens de um festival

mindelact 09

Walter Cristóvão

À conversa com

Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Cabo Verde

editorial
É uma das notícias deste cenaberta: Abel Neves venceu a III edição do Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva. A discrição com que o acontecimento foi divulgado nos órgãos de comunicação social dos dois países, para além de particularmente injusta para o premiado, é um bom exemplo da forma como as relações de cooperação cultural entre os países de língua portuguesa têm sido pensadas e concretizadas. Nos anos de 2005 e 2006, foram assinados cinco acordos, programas e protocolos de cooperação cultural entre Portugal e o Brasil, envolvendo os Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Cultura dos dois países, bem como instituições que deles dependem: o Instituto Camões e o Instituto das Artes, do lado português, e a Funarte, do lado brasileiro. Os objectivos, comuns a todos os documentos, são claros: “encorajar o diálogo cultural bem como o intercâmbio, a circulação, a investigação e a produção artística”. Quatro anos depois, seria útil avaliar a execução concreta destes acordos, para além das boas vontades formalmente expressas. E perceber que a instituição de um Prémio, por importante que seja, parece realmente pouco para tanta preparação anterior e tantas declarações de intenção. Mas é ainda mais intrigante que, havendo um resultado concreto destas parcerias, ele seja tão timidamente divulgado por quem o cria e não sejam aproveitadas todas as suas potencialidades. Uma co-produção entre Portugal e o Brasil, a partir de um texto seleccionado por um júri luso-brasileiro, patrocinado por instituições oficiais, deveria ser um acontecimento ímpar na vida teatral dos dois países, capaz de dar visibilidade e de incentivar outras formas de intercâmbio e de cooperação, deveria ter um efeito galvanizador e assumir-se como projecto exemplar. Ao nível multi-lateral, a situação não difere muito. As cimeiras dos Ministros da Cultura dos países da CPLP são momentos-chave para a definição e a prossecução de uma estratégia cultural comunitária. Desde 2000, os Ministros reuniram-se oficialmente por seis vezes. Dessas reuniões resultaram sempre declarações oficiais. Na primeira delas, realizada no Estoril, em Maio de 2000, convocada pelo ministro português Manuel Maria Carrilho, foi mesmo assinado um importante Plano de Acção (transcrito nas páginas deste cenaberta), com medidas sectoriais consideradas fundamentais para “o fomento dos intercâmbios culturais, o reforço dos laços históricos e a promoção de iniciativas comuns que valorizem o espaço de expressão linguística comum a que pertencem”. Passados sete anos, na última destas cimeiras, na cidade da Praia, os responsáveis pela Cultura dos países da CPLP reconheciam, no entanto, as “dificuldades diversas constatadas na implementação das Declarações de Estoril a Bissau” e voltavam a apresentar como projectos várias das iniciativas consideradas prioritárias em 2000. Assim, a pequena história destas cimeiras acaba por ser um clarificador diagnóstico. Como uma das instituições que há largos anos trabalham na concretização de circuitos de intercâmbio, de co-produções, de planos de formação, de redes estáveis de cooperação, atrevemo-nos a apontar uma das principais razões para esta discrepância entre os discursos oficiais e as condições e a atenção que são dadas aos agentes no terreno. A actuação dos organismos responsáveis pela aplicação das medidas politicamente enunciadas faz-se demasiadas vezes de costas voltadas para aqueles que as podem tornar concretas – no caso, os artistas e as estruturas de criação. Sem eles, sem o seu envolvimento activo, não adiantará nunca pensar-se em estreitar laços culturais. É por isso que, na altura em que retomamos a nossa actividade regular e em que, por coincidência, vários dos países da CPLP estão a iniciar novos ciclos políticos da sua vida democrática, organizamos em Coimbra o Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. Para que, com o contributo de todos, através de um indispensável diálogo entre decisores políticos e agentes culturais actuantes e situados no terreno, possamos começar a construir uma muito concreta, possível e frutuosa comunidade cultural de língua portuguesa. Cena Lusófona

Teatro do Imaginário Angolar
de FERNANDO DE MACEDO São Tomé e Príncipe

Supernova
de ABEL NEVES Portugal

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Moçambique

Teatro I e II
obra dramatúrgica de JOSÉ MENA ABRANTES (dois volumes) Angola

Mar me quer
de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA Portugal / Moçambique

Teatro
obra completa NAUM ALVES DE SOUZA Brasil

Revista Setepalcos
(esgotados números 0, 1 e 2) N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO

Floripes Negra

Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de AUGUSTO BAPTISTA Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio

edições.cena
À venda na sede da Cena Lusófona e no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, ou via encomenda postal, após solicitação por telefone, fax, ou e-mail.

A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:

cenaberta ficha técnica
Director António Augusto

Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Baptista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | Revisão Sofia Lobo | ISSN 1645-9873 | N.º 8 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Tel. e Fax (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt
cenaberta 2

Encontro Internacional sobre políticas de intercâmbio
Dez. 3 4 5 6 COIMBRA
O intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa tem sido objecto de várias resoluções oficiais, projectos de intervenção e iniciativas pontuais. Permanece, contudo, a sensação de que há muito por fazer na aproximação e no inter-conhecimento entre os agentes culturais dos diversos países e na capacidade de articular meios e vontades em nome deste interesse comum. Quando caminhamos para a celebração do 15.º aniversário da CPLP (em 2011), e num momento em que vários dos oito palcos lusófonos (aos quais se junta, como parceiro privilegiado, a Galiza) estão a iniciar um novo ciclo político (Angola, Portugal, Guiné-Bissau e Moçambique), a Cena Lusófona promove um encontro entre responsáveis institucionais e agentes culturais, ciente do papel relevante que o teatro pode desempenhar também enquanto instrumento de promoção da língua portuguesa. Tal como a Cena Lusófona, várias outras estruturas e personalidades têm desenvolvido projectos nesta área ao longo dos últimos anos. Por razões várias, o diálogo regular entre elas (condição basilar para uma intervenção sustentada, capaz de produzir resultados duradouros) nem sempre tem sido possível. Por outro lado, subsiste um grande desconhecimento, por parte das instituições oficiais, do trabalho que tem sido feito no terreno, mesmo, por vezes, dentro dos próprios países de onde emanam os projectos. O objectivo deste encontro é contribuir para ultrapassar estes constrangimentos. Sem o carácter oficial das cimeiras de Estados, mas com a vantagem de juntar à mesma mesa responsáveis políticos, artistas e outros agentes com experiência no terreno, ele constitui uma oportunidade para que nos possamos ouvir mutuamente. A partir deste conhecimento reforçado, e num contexto de diálogo informal, acreditamos que é possível realizar uma verdadeira reunião de trabalho, centrada não nos grandes princípios e estratégias de actuação, mas nas possibilidades concretas de articulação que estão ao alcance de todos. Uma tentativa, se quisermos, de descobrir os pequenos mas efectivos passos que temos de dar para conferir sentido e aplicabilidade aos compromissos que ciclicamente são assumidos.

cenaberta

Dezembro 2009

A Cena Lusófona
Tal qual a CPLP, a Cena Lusófona nasceu também em 1996, na sequência de um programa de intercâmbio concebido a convite do Governo Português. Quisemos construir um programa integrado, capaz de encontrar âncoras em parceiros locais, de fomentar a participação de todos os envolvidos, de criar raízes. Trabalhando com todos os países da CPLP, a Cena tem desenvolvido diversas actividades: circulação de espectáculos, planos continuados de formação, reconhecimento e apoio à qualificação de espaços cénicos nos países africanos, constituição de Centros de Intercâmbio Teatral, edição e divulgação da dramaturgia de língua portuguesa, constituição de um Centro de Documentação e Informação especializado, investigação sobre a tradição oral, organização de um festival itinerante pelos vários países, lançamento de pontes para o diálogo entre o universo lusófono e a Galiza; a constituição, enfim, de uma comunidade cultural de língua portuguesa, como base imprescindível para o inter-conhecimento, para a identificação das especificidades de cada caso, para a reciprocidade, para o trabalho conjunto, para a cooperação e para a solidariedade.
cenaberta 3

cenaberta

Declaração do Estoril
No âmbito do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, cenaberta publica a “Declaração do Estoril”, assinada em 2000, no final da primeira Reunião dos Ministros da Cultura da CPLP.
Os Ministros da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reunidos a convite do Governo Português, no Estoril, nos dias 5 e 6 de Maio de 2000: a) Conscientes que a cultura de cada povo constitui a força estruturante da sua identidade própria, formando a consciência colectiva que lhe assegura continuidade histórica e forjando o seu modo de percepção da vida e do mundo; b) Tendo em conta que os povos que representam partilham de uma herança histórico-cultural e linguística que os une, feita de um percurso comum de vários séculos que originou um património material e imaterial que urge preservar, valorizar e difundir; c) Cientes de que um tal património, tanto no que tem de comum, quanto na sua imensa diversidade, representa um potencial decisivo para o aprofundamento e consolidação das relações entre os povos, num espírito de compreensão e tolerância, bem como para a afirmação desta Comunidade noutras áreas do Mundo; d) Considerando ainda que a cultura deve constituir um direito fundamental, cujo exercício se torna tanto mais importante, quanto é certo que contribui activamente para o desenvolvimento da personalidade humana, para a transmissão e aprofundamento de conhecimentos, saberes e competências, para o respeito mútuo, bem como para a concretização do pluralismo, da responsabilidade, da cidadania e da vivência democrática; e) Certos também de que as actividades culturais constituem hoje importantes factores de desenvolvimento social e económico, pelo impacte directo e indirecto na criação de riqueza e de emprego; f) Considerando que o fenómeno de globalização das economias, a par dos avanços muito significativos das tecnologias de informação e comunicação, podem diluir as matrizes culturais mais profundas, atentando contra uma diversidade que se impõe salvaguardar; g) Decididos pois a contrariar um tal risco, através do fomento dos intercâmbios culturais, do reforço dos laços históricos e da promoção de iniciativas comuns que valorizem o espaço de expressão linguística comum a que pertencem. Declaram: 1) O seu firme propósito em contribuir para que a CPLP reforce a sua dimensão cultural, à qual se comprometem a dar visibilidade acrescida, procurando para tanto associar aos seus esforços a acção da sociedade civil. 2) O seu empenho em levar a cabo iniciativas destinadas a promover e valorizar a língua portuguesa, enquanto vasto património comum, intensificando as diligências com vista à sua utilização mais ampla e frequente em organizações internacionais, bem como a sua cooperação com outras línguas nacionais de Estados-membros da CPLP. 3) O seu compromisso quanto à criação de redes e parcerias transnacionais que desenvolvam projectos de colaboração no domínio da cultura, contribuindo para uma política de cooperação eficaz e de longo prazo. 4) O seu propósito em envidarem esforços junto dos membros competentes dos respectivos Governos no sentido de ser facilitada a circulação de intelectuais, criadores, artistas e outros agentes culturais, dentro dos limites dos respectivos compromissos internacionais. 5) O seu empenho em diligenciar juntos dos membros competentes dos respectivos Governos, bem como junto de órgãos dos espaços de integração a que pertençam, no sentido de se reduzirem os obstáculos alfandegários à circulação dos bens culturais, no quadro das respectivas vinculações internacionais. 6) O seu acordo em concederem aos investigadores e estudiosos do espaço da CPLP que se encontrem no respectivo território, condições de acesso às fontes documentais, bem como aos bens culturais pertencentes às colecções públicas, idênticas às de que beneficiam os seus cidadãos.
cenaberta 4

7) A sua intenção de enfatizarem no plano interno o potencial das artes e da cultura, na sensibilização das gerações mais novas para a importância da protecção e promoção das respectivas identidades culturais. 8) O seu desejo de conferir uma nova dimensão estratégica à cooperação no sector cultural, aprofundando e desenvolvendo relações cada vez mais estreitas nesta área, num espírito de igualdade, respeito e tolerância. 9) A sua disposição em promoverem fora das suas fronteiras acções conjuntas de difusão dos valores culturais comuns. 10) O seu propósito em diligenciarem junto de organizações internacionais, incluindo as instituições financeiras, no sentido da obtenção de financiamento para a recuperação e valorização do património comum que se encontra ameaçado.

Os Ministros da Cultura da CPLP manifestam ainda o seu profundo regozijo pela participação neste encontro de um representante de Timor-Leste, e afirmam a sua intenção de iniciar uma política de cooperação com o futuro Estado como forma de garantir a realização dos desígnios comuns. Acordam ainda em aprovar o Plano de acção anexo à presente Declaração, que reflecte a sua intenção de levarem a cabo, no mais curto espaço de tempo, efectivas acções de cooperação no domínio cultural. Mandatam, por último, o Ministro da Cultura de Portugal, com a colaboração do Secretariado Executivo da CPLP, para transmitir a presente Declaração à próxima Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, a decorrer este ano no Maputo.

Plano de acção
Os Ministros da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reunidos a convite do Governo Português, nos dias 5 e 6 de Maio de 2000, no Estoril, com o objectivo de consolidarem e desenvolverem os laços que os unem no domínio cultural, decidem: I – APROVAR O PRESENTE PLANO DE ACÇÃO, DESTINADO A PROMOVER AS SEGUINTES ACÇÕES COMUNS DE COOPERAÇÃO NO DOMÍNIO CULTURAL. I.1. – De âmbito global a) a realização de reuniões anuais dos Ministros da Cultura dos países da CPLP, em regime rotativo, determinando-se no final de cada reunião o local de realização da seguinte; b) a instituição do dia 17 de Julho, data da proclamação da CPLP, como o Dia da Cultura Lusófona, e a sua comemoração anual, incluindo diversas manifestações culturais concertadas entre os Estados-membros da Comunidade, nomeadamente a leitura de um clássico da literatura em Português, em todos os Estados-membros da CPLP; c) a realização regular de estudos e encontros técnicos, no âmbito das estruturas existentes em cada país, que sustentem as decisões políticas a adoptar nas reuniões de carácter ministerial; d) o reforço da colaboração institucional entre as diferentes entidades por si tuteladas; e) a criação, pela CPLP, com a colaboração com cada um dos Ministérios da Cultura, de uma página na Internet dedicada à literatura e demais manifestações culturais dos Estados-membros desta Comunidade; f) o funcionamento do Secretariado Executivo da CPLP como elemento de ligação entre os Ministérios da Cultura dos vários países, encarregando-o desde já da preparação da próxima reunião dos Ministros da Cultura em parceria com as entidades do país anfitrião; g) a nomeação em cada Ministério da Cultura, no prazo de 15 dias, da entidade ou do responsável pelo acompanhamento e implementação do Plano de Acção agora aprovado; h) a inclusão de Timor-Leste em todos os projectos a desenvolver no âmbito do presente Plano de Acção. I.2. – De âmbito sectorial I.2.1. A criação de um Fundo, denominado Fundo Cultural-CPLP, o qual poderá integrar, para além dos Ministérios da Cultura da CPLP, outras entidades de natureza pública e/ou privada, destinado a financiar: a) Na área do Património acções de recuperação, salvaguarda e valorização do património móvel e imóvel, representativo do passado histórico-cultural comum, aberto também à formação no âmbito da conservação e restauro, e que envolvam entidades de pelo menos três Estados-membros da CPLP; acções de cooperação no domínio do Direito do Património, nomeadamente com a finalidade de combater o tráfico ilícito de bens culturais. b) Na área do Livro e das Bibliotecas edição e aquisição de livros para difusão em bibliotecas públicas ou outras unidades documentais e que promova um maior conhecimento e intercâmbio das literaturas e culturas no espaço de língua portuguesa; o estabelecimento de parcerias que possibilitem e dinamizem a participação de autores de língua portuguesa em feiras do livro e festivais internacionais; a criação de um projecto de apoio à ampliação de conteúdos em língua portuguesa, em linha, referentes às temáticas do livro e das bibliotecas, estabelecendo múltiplas ligações entre si, por forma a incrementar o acesso à informação bibliográfica e cultural de língua portuguesa em rede, sob coordenação técnica de Portugal em parceria com o Brasil. c) Na área do Cinema e do Audiovisual projectos nas áreas da produção, distribuição, promoção e formação nestas áreas, bem como acções de conservação e restauro de obras cinematográficas, que envolvam entidades de pelo menos três Estados-membros da CPLP. Com vista à instituição deste Fundo, é criada uma comissão técnica, constituída pelos responsáveis ou entidades a nomear, nos termos da alínea g) do ponto I.1 do presente Plano de Acção, que, até ao final de Novembro de 2000 deverá elaborar o projecto de regulamento, que incluirá nomeadamente a proposta orçamental, a identificação das prioridades sectoriais e os valores percentuais a definir para cada sector, o seu modo de funcionamento e de gestão, os critérios de elegibilidade dos projectos a financiar e a forma do seu financiamento. A referida comissão trabalhará igualmente na elaboração do cronograma relativo à aplicação do presente plano de acção. I.2.2. Na área das Artes do Espectáculo e das Artes Visuais a criação de uma Bienal de Criadores de expressão portuguesa, de natureza temátil l l l l l l

ca, em regime de rotatividade entre todos os países da CPLP, incluindo a instituição de um Prémio na respectiva área, devendo os respectivos regulamentos e modos de funcionamento estar definidos até ao final de Dezembro de 2000. A primeira edição desta Bienal terá lugar em Cabo Verde, no segundo trimestre de 2001, e será dedicada à Música; a criação de um Programa de Itinerâncias que deverá envolver projectos de pelo menos três países da CPLP e que deverá viabilizar não apenas a circulação das obras e de valores culturais revelados na Bienal de Criadores, mas também outras obras representativas da criação artística dos vários países da CPLP; a continuação do seu apoio ao Projecto Cena Lusófona. I.2.3. Na área dos Direitos de Autor e Direitos Conexos o estabelecimento de um programa de apoio à elaboração de legislação e formação de técnicos, a coordenar por Portugal em parceria com o Brasil, devendo o seu modo de concretização e financiamento estar definidos até ao final de Dezembro de 2000.
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II – NO CUMPRIMENTO DO PLANO DE ACÇÃO ORA APROVADO: realizar, a convite do Ministro da Cultura do Brasil, a próxima reunião dos Ministros da Cultura no primeiro semestre de 2001, no Rio de Janeiro, comprometendo-se a enviar ao Secretariado Executivo da CPLP, até finais do corrente ano, propostas para a agenda dessa reunião; promover, por ocasião dessa segunda Cimeira, uma mostra de livros de autores Africanos e de Timor-Leste de expressão portuguesa, acção que se integra nos esforços a desenvolver desde já de maior promoção e divulgação desta literatura.
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Os Ministros da Cultura tomaram conhecimento e encorajam a realização do primeiro encontro de escritores e editores da CPLP, iniciativa do Secretariado Executivo desta Comunidade. Finalmente, em face do pedido apresentado pelos representantes de Timor-Leste, foi decidido conceder um apoio excepcional à constituição da biblioteca central de Dili, suportado pelo Brasil, por Portugal e pelos demais Estados-membros da CPLP que tenham disponibilidades para o fazer.

Estoril, 6 de Maio de 2000.

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COIMBRA Teatro da Cerca de São Bernardo

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Dezembro 2009

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Participantes
Instituições oficiais Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)* Portugal Ministério da Cultura de Portugal Secretaria de Estado da Cooperação de Portugal* Direcção-Geral das Artes Instituto Camões* Câmara Municipal de Coimbra Brasil Ministério da Cultura do Brasil* Secretaria de Cultura do Estado da Bahia Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo* Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul* Angola Ministério da Cultura de Angola* Cabo Verde Ministério da Cultura de Cabo Verde* Guiné-Bissau Ministério da Educação Nacional, Cultura e Ciências da Guiné-Bissau* São Tomé e Príncipe Ministério da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe Timor-Leste Embaixada da República Democrática de Timor-Leste em Portugal Moçambique Ministério da Educação e Cultura de Moçambique* Galiza (Espanha) Axencia Galega das Industrias Culturais (AGADIC)

intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa tem sido objecto de várias resoluções oficiais, projectos de intervenção e iniciativas pontuais. Permanece, contudo, a sensação de que há muito por fazer na aproximação e no inter-conhecimento entre os agentes culturais dos diversos países e na capacidade de articular meios e vontades em nome deste interesse comum. Quando caminhamos para a celebração do 15º aniversário da CPLP (em 2011), e num momento em que vários dos oito palcos lusófonos (aos quais se junta, como parceiro privilegiado, a Gali-

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16h00 21h30

Recepção aos convidados Sabina Freire, de Manoel Teixeira-Gomes [espectáculo pela Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite]
09h30 10h30

Dez

quin.

so ertne larutluc oibmâcretni odis met aseugut rop augníl ed sesíap ,siaicfio seõçuloser sairáv ed otcejbo -itaicini e oãçnevretni ed sotcejorp a ,odutnoc ,ecenamreP .siautnop sav rezaf rop otium áh euq ed oãçasnes -icehnoc-retni on e oãçamixorpa an sod siarutluc setnega so ertne otnem ed edadicapac an e sesíap sosrevid emon me sedatnov e soiem ralucit ra -nimac odnauQ .umoc esseretni etsed -na º51 od oãçarbelec a arap somah mun e ,)1102 me( PLPC ad oirásrevi otio sod soiráv euq me otnemom es siauq soa( sonofósul soclap -rap omoc ,atnuj oriec

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sex.

Sessão de abertura Painel I Palcos para o intercâmbio: os espaços cénicos nos países da CPLP
13h30 15h30

Dez

Agentes culturais, festivais e outras instituições não-governamentais Portugal A Escola da Noite – Grupo de Teatro de Coimbra Abel Neves Alkantara* Cena Lusófona Centro Dramático de Évora Companhia de Teatro de Braga Encontros da Lusofonia (Torres Novas) Festival Internacional de Expressão Ibérica (FITEI) Filipe Crawford Produções Teatro Meridional Teatro O Bando Universidade Lusófona* Brasil Circuito de Teatro Português (São Paulo) Cooperativa Cultural Brasileira Festival de Teatro de Língua Portuguesa (FESTLIP, Rio de Janeiro) Festival de Teatro Lusófono (Teresina, Piauí) Fundação Palmares* Angola Elinga Teatro Festival de Teatro e Artes de Luanda Cabo Verde Burbur Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo* Guiné-Bissau Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau (CIT/Bissau) São Tomé e Príncipe Centro de Intercâmbio Teatral de São Tomé (CIT/ São Tomé e Príncipe) Galiza (Espanha) Candido Pazó Manuel Guede Oliva Revista Galega de Teatro Sarabela Teatro
* a confirmar
cenaberta 5

Almoço Painel II Circuito teatral lusófono: festivais, intercâmbios e circulação regular entre os países de língua portuguesa
19h00 21h30

Jantar A Cena no Café
10h00

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sab.

Dez

Painel III Criação e difusão da dramaturgia de língua portuguesa: centros de documentação e edição teatral
13h00 15h00

Almoço Painel IV Dar e receber: co-produções e formação artística entre agentes culturais no espaço da CPLP
19h00 21h30

Jantar A Cena no Café
10h30 13h00

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Conclusões / Encerramento Almoço

Dez

dom.

cenaberta

"Auto da Paixão", Comédias do Minho

"Sizwe Banzi est mort", Dankun & Théatre Bouffes du Nord

mindelact
imagens de um
fotografia de Augusto Baptista

João Branco e Juventude em Marcha: encerramento

"As Novas Estátuas"

No encerramento do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, João Branco, coordenador do evento, mostrava-se satisfeito com os resultados. Esta 15.ª edição, nas suas palavras, constituiu o apogeu de um caminho, encetado em 1995, que progressivamente se foi iluminando. Um a um, chamou ao palco os elementos da equipa organizadora: da Produção ao Som, da Bilheteira ao Protocolo, Secretariado, Grafismo, Formação… Uma vintena de quadros, nem tanto, que tudo puseram de pé. De 10 a 20 de Setembro, pelos palcos da cidade do Mindelo, em São Vicente, Cabo Verde, passaram destacados grupos da cena nacional cabo-verdiana e da cena internacional, enriquecendo a Programação Principal do Mindelact, avaliada pela organização como a melhor de sempre. Pelo Festival Off passaram vários grupos oriundos de diferentes ilhas do país. Houve Teatrolândia, Teatro de Periferia, Teatro de Rua, Formação. Muito público, salas cheias. E foi tempo de evocação de Isabel Alves Costa, prestigiada figura da cena portuguesa, que tão cedo a morte roubou ao teatro. O que foi o Festival e, sobretudo, qual o ponto de situação da cena cabo-verdiana no actual momento, estes são temas a abordar na próxima edição da revista Setepalcos, toda ela centrada no teatro em Cabo Verde, à semelhança de outros números temáticos já publicados, dedicados ao teatro no Brasil, ao teatro na Galiza. E enquanto Setepalcos chega e não chega às bancas, neste interim, cenaberta abre-se às imagens do Festival.

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Dezembro 2009

"No Inferno", Grupo de Teatro do Centro Cultural Português

"Escuta aqui, seu ladrão", Sikinada - Companhia de Teatro

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Angola Bélgica Brasil Cabo Verde

"Chuva Brava", Juventude em Marcha

"4&30", Miragens Teatro

festival
grupos participantes
Miragens Teatro (Prémio Copacabana do Mindelact 2009) Cie. Mossoux Bonté Companhia Anjos Pornográficos Companhia e-Teatro Adriano Reis e Luciano Lopes (Cabo Verde/Portugal) Craq’Otchod (S. Vicente) Flávio Hamilton e Valdemar Santos (Cabo Verde/Portugal) Grupo de Teatro do Centro Cultural Português (S. Vicente) Grupo Dja D’Sal (Sal) Grupo Nova Casa (Boavista) Juventude em Marcha (Santo Antão) OTACA - Oficina de Teatro e Comunicação de Assomada (Santiago) Sara Estrela (Cabo Verde/Brasil) Sikinada - Companhia de Teatro (Santiago) TIM – Teatro Infantil do Mindelo (S. Vicente)

"Boka Noti", Otaca

Espanha
Carlos Martinez Enano
"Hora Minguarda", Grupo Nova Casa

Mali
Dankun & Théatre Bouffes du Nord (Mali/França)

Moçambique
Mutumbela Gogo

Portugal
Comédias do Minho Staticman

República Checa
Serge Art

"Cordá Dja D'Sal", Grupo Dja D'Sal

cenaberta 7

cenaberta

À Conversa com Walter Cristóvão
No Mindelact 2009, Festival Internacional de Teatro do Mindelo (Cabo Verde, 10 a 20 de Setembro), cenaberta cruzou-se com o grupo angolano “Miragens Teatro”. Em alta nesta edição do Mindelact, ao “Miragens” foi dado destaque de abertura no programa anunciador do evento; ao “Miragens” foi atribuído o “Prémio Copacabana 2009”, distinção especial consagrante dos muitos anos de participação do grupo no Mindelact, a reconhecer o empenho teatral dos seus actores e a marca do seu jovem director. De ficção, realidade, do seu “Miragens Teatro” e da cena em Angola nos fala Walter Cristóvão.
O “Miragens Teatro” nasce onde, quando? O grupo nasce no dia 7 de Junho de 1995, na comunidade católica de S. Luís, no município do Rangel, Bairro do Rangel, em Luanda. Quantos elementos tem hoje o grupo? Nós somos oito rapazes e cinco raparigas, com uma média de idades de 28 anos. Há uma estimativa do número de grupos que existem em Luanda? Nós estamos agora a ver se conseguimos fazer um levantamento. Fala-se em 200/300 grupos. E eu desconfio que seja este número. Há uns anos atrás, fui presidente de júri dum festival de teatro que se realiza de dois em dois anos, ao nível da igreja católica. O primeiro festival foi em 2003 e tinha cerca de 40 grupos. Em 2005 apareceram mais sete, oito, mas são grupos que ficam só ali, quer dizer, eles fazem um teatro mais à luz da Bíblia, ao nível da Igreja. Depois há os profanos, aí cerca de 150. E eu falei na religião só na vertente católica, não sei o que se passa com os outros ramos religiosos. É provável que existam outros grupos. Salas de espectáculo, há o Avenida… O Avenida foi demolido e vai ser reconstruído. O Nacional precisa de obras. Portanto, salas neste momento em Luanda? Neste momento, temos o salão da LAASP (Liga Angolana de Amizade e Solidariedade para com os Povos), na Vila Alice, e o anfiteatro da escola Njinga Mbandi, que foi remodelado e agora tem estado a servir o teatro. O espaço Elinga, na Mutamba, está ameaçado, diz-se que vão lá construir um shopping, com uma sala de teatro. Mas não é uma informação oficial, é o que se ouve. Existe ainda a sala do Centro Recreativo Kilamba, ao Rangel. Foi erguido, igualmente, um novo anfiteatro, mesmo nas barbas do nosso local de ensaios e tudo indica que seremos os gestores, mas só para o ano. Quer dizer, ao mesmo tempo que há a emergência de tanto grupo, não há salas? Exacto. Mas surgiu uma sala nova no município do Cazenga, o município que tem mais gente em Luanda, entregue à Associação Cultural de Globo Dikulu, que promove um festival. Embora o Cazenga tenha uma vertente muito pejorativa: a delinquência. É um município com índices de delinquência muito elevados, e isso afasta as pessoas. E os grupos conceituados não querem lá ir. Como estamos de formação teatral? Em termos de formação, o Ministério, pela primeira vez depois de 1995, mandou três elementos fazerem um curso superior a Cuba, no sentido de reforçarem a estrutura em Luanda. Felizmente, um desses três elementos, o José Teixeira, é membro do “Miragens”, está lá há dois anos. Uma menina é do “Etu-Lene”, chama-se Marcelina Boneca, o Afonso Zamunda é do grupo de teatro “Danda Mulundo”. Lá dentro fazem-se formações… Lá dentro, em Luanda? Sim, em Luanda. Olha, outro problema é a formação estar concentrada em Luanda, é uma coisa que nós também temos estado a criticar. Contratam-se brasileiros, vão para lá, ficam duas semanas, fazem uma formação, regressam. Mas esta formação, nos últimos dois anos, não aconteceu mais de quatro vezes. O “Horizonte Njinga Mbandi” fez duas formações de três meses cada. Há toda uma amálgama de problemas que é preciso resolver. A começar por onde? O que eu acho ser urgente é o aparecimento de pelo menos duas salas na capital e uma formação descentralizada de Luanda. Eu até já fiz uma proposta para que houvesse formação regional. Falta ao Ministério investir do ponto de vista estratégico naqueles que terão mais um pouco de conhecimento para estes promoverem formações regionais. Referes-te ao Ministério da Cultura? Sim, claro. Falta muito isso. A Dr.ª Rosa Cruz e Silva substituiu o ministro Boaventura Cardoso, mas nós vemos que o teatro continua a ser o parente distante. Quanto a formação, achas que existem hoje em Angola elementos capazes de serem os agentes dessa acção? O que acontece hoje em Luanda? Por exemplo, o "Miragens" fez “4&30”. Os outros, aquilo que acham ser novo, também querem fazer... O que não está bem é, por exemplo, vir alguém de Portugal, de Moçambique, do Brasil, fazer formação em Angola e ficar um mês, quinze, vinte dias – o que não é suficiente – e só em Luanda. Importante seria que o Ministério subvencionasse a vinda de formadores por períodos mais alargados para trabalharem em Luanda, em Benguela, no Huambo, onde há tradição de teatro, assim cresceríamos mais. Nós trabalhámos com Jacques-Henri Delcamp, um professor francês que foi levado pela Alliance Française. Ele ficou quatro meses em Luanda e aprendemos muita técnica. Com a presença do Jacques em Luanda mudou muito o teatro. A vinda de profissionais por temporadas dilatadas a Angola far-nos-ia muito bem. Qual a relação entre os grupos? Ao nível de grupos nós vamos trocando conversas, vamos saindo a passear, a jogar uma bola, a assistir a espectáculos, a fazer críticas, sugestões. É assim que a gente vai andando. Depois temos a Associação Angolana de Teatro, da qual eu já fui secretário-geral há quatro anos, mas agora pode dizer-se que a associação não faz o que devia fazer. Devia fazer associativismo, mas faz mais o papel de uma agência promotora de actividades. O “Elinga Teatro” entra também nesse círculo de relações? Nós sempre pensámos que uma forma de crescer seria com o “Elinga”. Quando começámos em 1995, já o “Elinga” estava muito longe. Já nós nos admirávamos só de ouvir e ler. Mas nunca houve essa fusão. Embora tenha de reconhecer que o José Mena Abrantes sempre se mostrou disponível, embora muito limitado pela actividade dele. Na minha óptica, o “Elinga” deveria atrair mais os grupos, como fez de forma excelente quando comemorou 20 anos [2008]. O Festival Internacional que então promoveu foi extraordinário, foi um espaço de troca de experiências muito forte. Vocês têm instalações próprias, uma sede? Não. Se tudo correr bem, no próximo ano vamos começar a trabalhar no processo de arranjar uma sala para nós. Além do “Horizonte Njinga Mbandi”, que tem um espaço próprio, o que acontece em Luanda? Os grupos exibem-se num sítio e depois têm de recolher as coisas. Nós tivemos de alugar uma casa em que guardamos o nosso material técnico. Mas um escritório far-nos-ia mais sólidos, com mais estratégias de trabalho. No caso concreto das peças que vocês constroem e levam a palco, são peças que resultam muito dos acontecimentos sociais, das coisas que ocorrem, ou vocês vão buscar as histórias aos livros, a textos publicados? De onde surge a inspiração, o enredo? É mais no quotidiano. O quotidiano é a base fundamental da criação do teatro em Angola. Só dois grupos é que se baseiam mais na literatura. Que grupos são? Temos o “Elinga” e temos um grupo que surgiu fruto de uma fracção – vamos assim dizer – do “Horizonte Njinga Mbandi”, “O Dadaísmo”. “O Dadaísmo” tem o apoio directo de uma pessoa que foi o secretário-geral da União de Escritores Angolanos, Botelho de Vasconcelos. E o “Elinga” trabalha à base da literatura do José Mena Abrantes. Vocês próprios andam atentos em busca de histórias do quotidiano? Por exemplo, agora há um problema em Luanda que tem a ver com a morte de oito jovens. Alguém telefonou à polícia e disse: – Há um grupo de delinquentes, reunidos no sítio tal. A polícia foi lá e jogou bala. Aquilo comoveu o país e nós estamos agora a fazer a recolha. Somos muito deste tipo de grupos, vamos onde está o foco da atenção, puxamos a história, fazemos. Vão onde há fogo, que é o caso da peça “4&30”, inspirada num acontecimento real. A queda do edifício de 12 andares, em que estava instalada a Direcção Nacional de Investigação Criminal, na fatídica madrugada do dia 29 de Março de 2008, e em que se perderam muitas vidas. Uma peça que vocês têm representado em muitos sítios de Luanda? Esta peça chama a atenção para a falta de estruturas teatrais. Nesta altura, nós não conseguimos levá-la para além da Liga Angolana de Amizade e Solidariedade com os Povos. Posso dizer que continua a ser a peça mais procurada em Angola neste momento. Nós exibimos e nunca há espaço para as pessoas. A sala está sempre cheia, há sempre gente a querer ver e a não conseguir. Para além de Cabo Verde, levaram o espectáculo a Portugal. Levámos o espectáculo a Portugal, ao Festival de Almada. A crítica foi muito favorável, o espectáculo teve grande aceitação. O “Miragens” não assume um teatro eminentemente político, de evocação do passado colonial, dessa pesada memória da história angolana? Não é a nossa vertente. Nós estamos agora a tentar fazer uma peça que se chama “A História das Histórias”. Queremos fazer esta peça, estamos a fazer recolhas. Mas as nossas preocupações são mais sociais, não muito no contexto político. Passamos um bocado ao lado da vertente política, embora haja pessoas que vêm com subjectividades: – Vocês queriam era dizer aquilo…; – Eh pá, se chegaste até aí é uma leitura tua.
Versão integral da entrevista em cenaberta on-line: www.cenalusofona.pt/cenaberta

© Augusto Baptista

Walter Cristóvão, director do "Miragens Teatro"

MIRAGENS TEATRO Bairro Nelito Soares Rua do Complexo IGCA LUANDA Angola www.miragensteatro.org info@miragensteatro.org

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A Cena no Café
© Paulo Nogueira © Pedro Rodrigues

Dezembro 2009

BRAGA

Um projecto multifacetado
“São Tomé era irmão de Santo António. Um dia um irmão foi falar com a mulher do outro e o apaixonado não gostou. Então fez o mesmo. E o outro também não gostou. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Taparam a estrada que os unia com mar". Assim nasceram as ilhas de São Tomé e Príncipe. Esta e outras histórias, contadas n'A Brasileira, Braga, na noite de 9 de Novembro, foram o mote da primeira sessão de A Cena no Café fora de Coimbra.
António Augusto Barros, Rui Madeira e Rogerio Boane falaram para uma sala cheia. Houve informação, discussão e muitas histórias. As primeiras de todas chegaram de longe, da ilha do Príncipe. Na projecção de um documentário de Ivo Ferreira – “Contadores de Histórias do Príncipe” – partilharam-se narrativas, crenças, tradições de um povo que resiste à morte da memória. Histórias de reis, animais, princesas, gigantes, de irmãos que se zangam e tantas outras, que sobrevivem a gerações e ensinam que “em África a oralidade tem um peso enorme. Mas as pessoas morrem e com elas estas histórias. Um dos nossos objectivos é registar, em todos os países, os contadores de histórias”. Palavras de António Augusto Barros: “Começámos pelo Príncipe. Está em processo de montagem o documentário sobre São Tomé e já está projectado o da Guiné-Bissau". Importante também é o facto de todos estes documentários serem falados em crioulo. Para além do português, “existem as línguas maternas que estão a desaparecer e é necessário preservar. São tesouros culturais que se estão a perder”. O mais importante não será exportar o português para outros países, acrescentou, mas sim fazer um esforço para aprofundar conhecimentos de cada realidade diferente da nossa. O interveniente seguinte foi Rogerio Boane. Hoje actor profissional da Companhia de Teatro de Braga, Rogerio veio para Portugal depois de ter sido escolhido em Moçambique, numa oficina de teatro.“Eu era bailarino. Entrava em danças teatrais em que contávamos uma história de uma forma tradicional, misturando canto e dança. Escolheram-me porque tinha uma grande carga de tradição no que fazia e isso interessou-lhes”. Convidado para um estágio internacional de actores em 2000, Rogerio juntou-se a outros jovens seleccionados, noutros países, pelo mesmo processo.“Através desse encontro”, diz, “descobri como somos diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais! Encontrei as semelhanças, a normalidade dentro das nossas culturas muito diferentes. O que a Cena Lusófona me fez foi mudar-me da dança para o teatro e dar-me a oportunidade de conhecer outras culturas e outros países”. Quanto ao futuro, o actor não hesita:“Voltar a Moçambique, levar a minha experiência e poder ajudar!”. Coube a Rui Madeira abordar outro projecto da Cena Lusófona: o inventário dos espaços cénicos nos países africanos de língua portuguesa.“Dos tempos do colonialismo aos dias de hoje, muito se construiu e destruiu. É importante saber que salas existem para se poder trabalhar, em que estado estão, que condições têm para montar um espectáculo. Serve também de alerta para que as entidades competentes de cada país se agarrem à sua reconstrução”.

COIMBRA

Arquitectura e antropologia
“Tudo na arquitectura é um acto de poder. Sobre o meio, sobre a Natureza, sobre os materiais. É sempre um acto de domínio”. Conclusão de José António Bandeirinha n'A Cena no Café dedicada à arquitectura e antropologia realizada no dia 16 de Novembro, no Café-Teatro do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. O inventário de espaços cénicos feito pela Cena Lusófona foi apontado como um paradigma das relações entre estas disciplinas.
Com o pretexto de servir como "aperitivo" aos Colóquios de Outono da Universidade de Coimbra (23 e 24 de Novembro), este encontro juntou os arquitectos José António Bandeirinha e Paulo Providência com os antropólogos Nuno Porto e Sandra Xavier para debater os cruzamentos entre arquitectura e antropologia. “A arquitectura tem-se apropriado do discurso da antropologia ao tentar aproximar-se das realidades sociais. O que é que os antropólogos pensam desta aproximação ao seu discurso? Até que ponto a hetero-identidade corresponde à auto-identidade das disciplinas?”, uma pergunta de Sandra Xavier. “Na minha opinião, a arquitectura aproxima-se da antropologia quando pretende estudar realidades não arquitectónicas”, concluiu. José António Bandeirinha, por seu lado, viajou por momentos marcantes da relação entre as duas disciplinas. Primeiro por uma fase de “namoro”, em que “a antropologia ensinou à arquitectura que não podia existir sem a construção social que lhe está subjacente. Mais tarde vem a fase do questionamento, de um ataque mútuo. Agora existem as duas, centradas em si próprias, com um certo amadurecimento que lhes permite fazer as duas coisas em simultâneo, namorar e criticar”. O arquitecto conimbricense exemplificou com o inventário dos espaços cénicos da Cena Lusófona: “Os arquitectos foram chamados para criar uma base de dados de espaços teatrais dos países lusófonos. Logo nos deparámos com situações ímpares: como é possível fazer um levantamento deste tipo no Príncipe, por exemplo, onde há o “Auto de Floripes” em que os actores são os habitantes e o palco a rua, a cidade? Como lidar com estas realidades como arquitectos? Optámos por inventariar todos os espaços onde há o hábito de fazer teatro”, explicou José António Bandeirinha, concluindo que: “Para essas inquietações foi sempre preciosíssima a presença dos antropólogos. Este é um belíssimo exemplo de colaboração entre arquitectura e antropologia”. Paulo Providência lançou algumas leituras sobre o modo como as disciplinas se complementam: “A antropologia tem interesse para a arquitectura quando esta se encontra em período de crise, quando deixa de acreditar nas formas. Então os arquitectos procuram olhar as coisas de outra forma. Por outro lado, a arquitectura tem uma aspiração muito antiga, a de ser considerada uma ciência. Quer ser rigorosa, ter leis que prevejam as formas, que a relacionem com a sociedade. Que tipos de habitação para que tipos de homem, de culturas?". Nuno Porto lembrou a definição de Malinowski, centrando a questão na relação entre indivíduos: “a antropologia é a ciência do sentido de humor”. E para haver humor, rematou Nuno Porto, “é preciso não estar sozinho”.
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cenaberta

cenas breves
Brasil

tação: Portimão, Lisboa, Ponta Delgada, Serpa, Póvoa do Varzim, Braga, Leiria, Castelo Branco e Vila Franca de Xira foram algumas das outras cidades visitadas. Luandino Vieira, recorde-se, recusou receber o Prémio Camões que lhe foi atribuído em 2006, alegando “motivos íntimos e pessoais”. Mais tarde, em entrevistas concedidas a alguns jornais culturais, diria que recusara o prémio por se considerar um escritor morto e que este deveria ser atribuído a alguém que continuasse a escrever. Acabou por publicar ainda mais dois títulos em 2006.

arquipélago de São Tomé e Príncipe. A programação incluiu uma exposição de artistas plásticos são-tomenses, conferências e a mostra e venda de livros de autores deste país. Inaugurada a 7 de Novembro, a iniciativa decorreu ao longo de todo o mês, incluindo a exposição “6 expressões são-tomenses”, com obras dos artistas Estanislau Neto, Ismael Sequeira, Le-Brimet, Plácido Vicente e Yolanda Esteves. Na “mostra de autores” são-tomenses estiveram representados os escritores Alda Espírito Santo, António Bondoso, Armindo Vaz de Almeida, Augusto Nascimento, Carlos Graça, Fernando de Macedo, Gerhard Seibert, Nocência Mata, Kathleen Becker, Olinda Beja e Sacramento Neto. Como conferencistas, participaram Augusto Nascimento, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa (“Controvérsias em torno da história de São Tomé e Príncipe”); Jorge Castilho, jornalista (“Um turista em S. Tomé e Príncipe”); e Gerhard Seibert, investigador do Centro de Estudos Africanos do ISCTE (“São Tomé e Príncipe: da “Independência Total” à dependência sem fim à vista”). Finalizou esta iniciativa uma sessão de leitura de poesia de Armindo Vaz de Almeida e de Alda Espírito Santo, por Carolina S. A Cena Lusófona associou-se a esta actividade, disponibilizando ao público os seus livros “Imaginário do teatro angolar”, de Fernando de Macedo, e “Floripes Negra”, de Augusto Baptista.

Alberto Guzik lança biografia de Naum Alves de Souza
“Imagem, Cena, Palavra” é o título da recente biografia do dramaturgo brasileiro Naum Alves de Souza. Escrita por Alberto Guzik e editada pela Imprensa Oficial, foi lançada em São Paulo, no passado mês de Outubro. Artistas, escritores e políticos encheram a sala do centro comercial Frei Caneca, num ambiente informal e agitado. Na mesma ocasião, foi apresentado um outro livro, “Teatro de Alberto Guzik”. O autor partilhou no seu blogue o entusiamo e a honra que sentiu: “Fiquei honradíssimo com a edição de minhas peças, assim como estou muito feliz porque a biografia do Naum tornou-se um livro lindo, que faz jus a esse criador ímpar, um ser de talento tão gigantesco quanto sua sensibilidade”. Para além de escritor e dramaturgo, Alberto Guzik é crítico teatral, actor, encenador e professor. Mestre em teatro pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Faz actualmente parte da companhia de teatro Os Satyros. Guzik acompanha desde há muito o trabalho de Naum Alves de Souza: em 2005, escreveu o prefácio do livro “Teatro”, editado pela Cena Lusófona, que reúne todas as peças de Naum escritas até àquela data.

maturgo, poeta e romancista, com vasta obra em Portugal e muitas colaborações no estrangeiro, é autor das peças para teatro “Amadis”, “Anákis”, “Touro”, “Terra”, “Medusa”, “Atlântico”, “Finisterrae” e “Arbor Mater”, “El Gringo”, “LoboWolf”, “Inter-rail”, “Além as Estrelas são a nossa Casa”, e, mais recentemente, “Nunca estive em Bagdad” e “Este Oeste Éden”. Autor, também, de textos para televisão, publicou o seu primeiro romance, “Corações Piegas” em 1996, seguido de “Asas para que vos quero” (1997). Em 1998 publica o livro de poesia “Eis o Amor a Fome e a Morte” e em 2002 um volume de ensaios, “Algures entre a resposta e a interrogação”. A obra de Abel Neves está representada na colecção “Cena Lusófona” com a peça “Supernova”, editada em 2000.

Espanha

Feira Galega das Artes Escenicas
A Cena Lusófona esteve representada na Feira Galega de Artes Escenicas, realizada em Santiago de Compostela de 19 a 23 de Outubro passado, com organização da Agência Galega das Indústrias Culturais (AGADIC). Mais de uma dezena de espectáculos foram contratados para digressão em 2010, com especial preferência pelo teatro para o público infantil. A Feira mantém a sua característica de “espaço de mercado”, permitindo a programadores de toda a Espanha e de Portugal o contacto com as mais recentes criações teatrais galegas e a contratação de algumas delas. Cinco espaços da cidade acolheram vinte companhias galegas num evento destinado aos produtores, distribuidores e demais agentes culturais de toda a Península Ibérica. O Auditório de Galicia concentrou uma vez mais as principais actividades da Feira: aí estiveram instalados o gabinete de coordenação, os stands das companhias de teatro, as mesas de debate e dois dos principais palcos do encontro, as salas Mozart e Ángel Brage. A programação alargou-se, no entanto, a mais salas da cidade de Santiago: ARTeria Zona Noroeste, Salón Teatro, Sala Nasa e Teatro Principal. Do balanço final da iniciativa deste ano resultaram duas apostas. Para além de se ter confirmado que o teatro para o público infantil é o género eleito para representar fora da Galiza, ficou também decidido que a AGADIC investirá cerca de 130 mil euros na distribuição dos 14 espectáculos galegos de teatro e dança que foram contratados por redes, festivais e espaços cénicos de comunidades autónomas e de Portugal. Contas feitas, em 2010 teremos companhias galegas a actuar na Andaluzia, Aragão, Valência, Castela-A-Mancha, Castela e Leão, Euscadi, Madrid, Múrcia, Navarra e nas localidades portuguesas de Abrantes, Águeda, Estarreja, Moita e Palmela.

Portugal

Nascido em Ourém mas residente em Angola desde muito novo, Luandino foi combatente do MPLA, preso pela PIDE na década de 50 e condenado a mais de dez anos de prisão.

Abel Neves vence Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia
O dramaturgo português Abel Neves foi galardoado com o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva pela sua peça “Jardim Suspenso”. O Prémio é uma iniciativa conjunta do Instituto Camões e da Funarte – Fundação Nacional de Arte do Ministério da Cultura do Brasil.

Brasil

Boaventura de Sousa Santos homenageado pelo Governo brasileiro
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos foi distinguido, no passado mês de Outubro, pelo Governo brasileiro com a Gran-Cruz da Ordem de Mérito Cultural 2009. Criada em 1995, a Ordem do Mérito Cultural é a mais alta comenda do Governo Brasileiro atribuída a personalidades e instituições que se destacam pelas suas contribuições à cultura brasileira e mundial. Boaventura de Sousa Santos, doutorado pela Universidade de Yale, é Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra. Para além da sua carreira académica, Boaventura de Sousa Santos tem-se distinguido pelo seu envolvimento em vários movimentos sociais de carácter emancipatório, tanto em Portugal como em África e na América-Latina.

© Pedro Rodrigues

Angola

Luandino apresenta em Portugal “Livro dos Guerrilheiros”
O escritor angolano Luandino Vieira apresentou no dia 15 de Setembro, na Livraria Almedina, em Coimbra, a sua obra mais recente, “Livro dos Guerrilheiros”. José Luandino Vieira, um dos mais importantes escritores africanos, passou por Coimbra com o seu “Livro dos Guerrilheiros”, obra com que interrompe um período de “hibernação” editorial. Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra que fez a apresentação do livro, salientou na obra de Luandino Vieira o “discurso angolanizado, de sintaxe diferente do português europeu” e a forma como ela apresenta “casos de opressão social e política e de enfrentamento de mundos culturais diferenciados”. Na sessão de apresentação do livro em Coimbra, na Almedina Estádio, Luandino Vieira respondeu às perguntas dos leitores e participou numa conversa sobre a sua vida e o seu percurso literário, internacionalmente reconhecido. A iniciativa integrou o ciclo “Comunidade de Leitores”, uma organização da livraria Almedina, da professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Ana Paula Arnaut, do Centro de Literatura Portuguesa e da Ideias Concertadas. Com “O Livro dos Guerrilheiros” editado este ano pela Editorial Caminho, Luandino Vieira tem viajado por todo o país em sessões de apresencenaberta 10

Abel Neves

Portugal

Mês de São Tomé e Príncipe na Galeria de Santa Clara
A Galeria-Bar de Santa Clara, em Coimbra, dedicou a sua programação de Novembro ao

A atribuição do prémio foi decidida por um júri luso-brasileiro de que fizeram parte Carlos Paulo, Gonçalo Amorim, João Paulo Cotrim e Rui Pina Coelho, do lado português, André Luiz Antunes Netto Carreira, Cristina Sobral Correa Jesus, Renato José Pecora e Tarciso de Souza Pereira, do lado brasileiro. O Prémio de Dramaturgia António José da Silva tem o valor monetário de quinze mil euros e garante a edição da obra premiada, a cargo das entidades que promovem a sua atribuição, em Portugal e no Brasil. O texto vencedor será também representado nos dois países, numa parceria estabelecida entre a Funarte, a Direcção-Geral das Artes e o Teatro Nacional de D. Maria II. Em Portugal, o espectáculo será apresentado na Sala Estúdio do TNDM II de 29 de Abril a 30 de Maio de 2010. De acordo com uma nota do Instituto Camões, o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva visa incentivar a escrita dramática em todos os seus géneros e o aparecimento de novos dramaturgos de língua portuguesa, reforçando as parcerias de desenvolvimento e cooperação cultural entre Portugal e o Brasil. Abel Neves nasceu em Montalegre em 1956. Dra-

Portugal

CTB e A Escola da Noite estreiam co-produção
A Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite, de Coimbra, estrearam, em co-produção, o espectáculo “Sabina Freire”, de Manoel Teixeira-Gomes.

© Paulo Nogueira

Dezembro 2009

Homenagem a um dos mais interessantes políticos portugueses da Primeira República, cuja obra literária permanece demasiado desconhecida, a peça “Sabina Freire” estreou no Theatro Circo de Braga. No passado dia 19, mudou-se de armas e bagagens para Coimbra, onde permanece para uma temporada no Teatro da Cerca de São Bernardo até dia 3 de Dezembro. A digressão nacional, que se prolongará pelo ano de 2010, arranca em breve. Encenado por Rui Madeira, director artístico da Companhia de Teatro de Braga, o espectáculo está integrado nas Comemorações do Centenário da República.

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na estante
Últimas aquisições do Centro de Documentação da Cena Lusófona
A Cidade: uma trilogia Lula Anagnostáki, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008. A dirección de actores Dani Salgado, n.º 7 da Colección Breviarios, Editorial Galaxia e IGAEM, 2006. A estátua perdida (Peça de teatro em cinco actos) Raul Mendes Fernandes, Ed. Ku Si Mon, 2008. A Expresión dramática na educación: Argumentos para situar a expresión dramática no centro do currículo Gavin Bolton, n.º11 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009. Almas Cativas e Poemas Dispersos Roberto de Mesquita, Ed. Município de Lajes do Pico, 2007. Almeida Garrett, Retrato Paratextual com Teatro ao Fundo Iolanda Ogando, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2009. As aventuras de Nhu Lobo Armindo Martins Tavares, Ed. Instituto Politécnico de Lisboa, 2008. As Presidentes – Peso a mais, sem peso: sem forma Werner Schwab, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Augusto Abelaira Coord. Paulo Alexandre Pereira, Ed.Universidade de Aveiro, 2008. Calderón Pier Paolo Pasolini, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Comida – Casas – Repartição Miguel Castro Caldas, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008. Crime e outras peças Peter Asmussen, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2006. Desejo e outras peças Josep M. Benet i Jornet, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Desmedida: Luanda São Paulo – São Francisco e volta Ruy Duarte de Carvalho, Ed. Cotovia, 2006. Do canto ao conto: Estudos de Literatura Portuguesa António Manuel Ferreira, Ed. Til-Fragmentos de educação, 2006. Doutor, por favor, máteme com xeito Xosé Teixeiro, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2009. Dramaturxia. Teoría e Práctica Afonso Becerra de Becerreá, n.º 9 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galaxia e IGAEM, 2007. Escrever a ruína Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, 2006. Hamelin Juan Mayorga, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Introdución á linguaxe musical Mónica Groba Lorenzo, n.º 8 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galaxia e IGAEM, 2006. Lilás Jon Fosse, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2006. Lusofilias Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, Dep. de Línguas e Culturas, 2008. Manual básico de iluminación escénica António López-Dávila, n.º 9 da Colección Breviarios, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009. Manual de práctica teatral feminista Elaine Aston, n.º 10 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galaxia e AGADIC, 2009.

O Eunuco de Inês de Castro: Teatro no País dos Mortos Armando Nascimento Rosa, Ed.Casa do Sul, 2006. O Fidalgo Aprendiz D. Francisco Manuel de Melo, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2007. O herói Incómodo: Utopia e Pessimismo no Teatro de Hilda Hilst Alva Martínez Teixeiro, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2009. O rapaz da última fila – Palavra de Cão Bucha e Estica Juan Mayorga, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008. O Teatro em Angola, Vol. I e II José Mena Abrantes, Ed. Nzila, 2005. Ofícios do livro Coord. António Manuel Ferreira e Maria Eugénia Pereira, Ed. Universidade de Aveiro, 2007. Palabra e acción. A obra de Manuel Lorenzo no sistema teatral galego Roberto Pascual, n.º 7 da Colección Máscaras, Editorial TrisTram, 2006. Peças Escolhidas, Vol. II Henrick Ibsen, Ed. Cotovia, 2008. Peças Escolhidas, Vol. II Carlo Goldoni, Ed. Cotovia, 2009. Pílades Pier Paolo Pasolini, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Poética Aristóteles, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2007. Relación de notícias sobre o teatro nos fondos da Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor (1882-1975) Laura Tato Fontaíña, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2009. Teatro José Maria Vieira Mendes, Ed. Cotovia, 2008. Teatro de rua: olhares e perspectivas Org. Narciso Telles e Ana Carneiro, Ed. E-papers, 2005. Teatro occidental: unha historia teatral desde a escenografía Anne Surgers, n.º 12 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009. !Todo o mundo a escena¡ A economia do teatro: unha ferramenta de xestión no sistema teatral galego Francisco J. Sanjiao, n.º 8 da Colección Máscaras, Editorial TrisTram, 2007. Tomaz de Figueiredo Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, 2007. Turandot, Vol. I e II Carlo Gozzi, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2007. Um Carvalho – Inglaterra: uma peça para galerias Tim Crouch, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008. Vésperas da Virgem Santíssima – Brilharetes Antonio Tarantino, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007. Xestión de proxectos e producíon de espectáculos Francisco Oti Rios, n.º 8 da Colección Breviarios, Editorial Galáxia e IGAEM, 2006.

DR

Brasil-Portugal

Meridional apresenta Contos em Viagem Brasil – outras rotas
O espectáculo do Teatro Meridional "Contos em Viagem Brasil - outras rotas", em cena em Lisboa até 19 de Dezembro, reúne textos de Adélia Prado, Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Lêdo Ivo e Mauro Mota.

Júlio Cardoso

A obra foi escrita por um dos autores contemporâneos mais premiados, o norte-americano Doug Wright, que obteve com esta peça, entre outros, o Prémio Pulitzer para Teatro e o Prémio Benjamim H. Danks da Academia Americana de Artes e Letras. Doug Wright inspirou-se na vida de um travesti alemão, personagem verídica, nascida como Lothar Berfeld, que reinventou a sua identidade e se assumiu como Charlotte von Mahlsdorf. A peça conta a história deste travesti que nasceu e cresceu na Alemanha Oriental, montando e preservando um museu fantástico e mantendo um cabaret clandestino na cave desse museu. O museu ainda existe e está aberto ao público – Museu Gründerzeit. Doug Wright transformou a curiosa história em “Eu Sou a Minha Própria Mulher”, peça escrita para um único actor interpretar não só a personagem principal, como as quase 30 outras que atravessam a acção. A Seiva Trupe vai apresentar este espectáculo comemorativo de Júlio Cardoso no Teatro do Campo Alegre, no Porto, nos meses de Janeiro e Fevereiro, seguindo depois em itinerância pelo país.

Definindo o Brasil como um “território imenso e grandioso, feito de paisagens plurais, múltiplas especificidades e uma magnificente produção literária”, o Teatro Meridional escolheu “viajar através de lugares que têm mais perto ou mais longe o Rio S. Francisco ou, como popularmente é chamado, o Velho Chico”. Um rio que atravessa cinco Estados – Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. “Foi da produção literária dos autores que nasceram nestes lugares que organizámos a Outra Viagem: a das palavras”, escrevem Miguel Seabra e Natália Luiza, responsáveis pela direcção artística do projecto. Com encenação de Miguel Seabra, “Contos em viagem Brasil – outras rotas” tem interpretação de Gina Tocchetto (texto) e António Pedro (música). O espaço cénico é de Jean-Guy Lecat e os figurinos de Marta Carreiras. Estará no Centro Cultural do Cartaxo a nove de Janeiro, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão a 29 de Janeiro e em Viseu nos dias 26 e 27 de Fevereiro no Teatro Viriato.

Seiva Trupe comemora meio século de carreira de Júlio Cardoso
Estreia no próximo mês de Janeiro o espectáculo comemorativo dos 50 anos de carreira do actor Júlio Cardoso – “Eu Sou a Minha Própria Mulher”, de Doug Wright, com encenação de João Mota.

© Margarida Dias

Portugal

Rui Madeira ganha Prémio Santareno
O actor e encenador Rui Madeira, director artístico da Companhia de Teatro de Braga e vice-presidente da Cena Lusófona, recebeu a 22 de Novembro o “Prémio Santareno de Teatro – Especial”, atribuído pela Câmara Municipal de Santarém e o Instituto Bernardo Santareno. A distinção premeia “o prestigiado percurso de décadas, como actor e encenador”.

© Augusto Baptista

Publicações Periódicas
(números mais recentes) Folhetim, Teatro do Pequeno Gesto (Rio de Janeiro-Brasil), n.º 27 (Jan-Jul/2008). Adágio, CENDREV – Centro Dramático de Évora, n.º 43 (2.º Semestre de 2007). Repertório, PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas da Universidade Federal da Bahia, n.º 12 (2009). Urdimento do Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas (Universidade do Estado de Santa Catarina), n.º 11 (2008). Casahamlet, n.º 11 (Maio/2009). Sinais de Cena, Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 11 (Junho/2009). Forma Breve, Universidade de Aveiro, n.º 6 (Dezembro/2008). Artistas Unidos, n.º 20 (Dezembro de 2007).

Rui Madeira

Para além de Rui Madeira, o júri decidiu premiar este ano, na mesma categoria, o encenador Joaquim Benite (director da Companhia de Teatro de Almada) e o actor António Júlio. Na categoria de peças de teatro inéditas, o vencedor foi o escritor Domingos Lobo, com a peça "Não deixes que a noite se apague".

cenaberta 11

cenaberta

Dezembro 2009

Nascido em 1978, Maputo, Moçambique, muito jovem ainda Rogerio Boane saltitou entre grupos de teatro, viveu fugazes experiências de palco. Desses tempos guarda memória do grupo Xitlhango. Aos 18 anos ingressa no Grupo de Canto e Dança Milorho, revela as suas invulgares capacidades de bailarino. Em 1999, o Grupo de Canto e Dança Milorho designa Rogerio Boane para participar, em Maputo, num workshop da Cena Lusófona: um encontro marcante na vida do actor, então com 21 anos. Este workshop, dirigido por Stephan Stroux, visava a escolha de um representante moçambicano no espectáculo “Quem Come Quem”, integrado no projecto Viagem ao Centro do Círculo, co-produção da Cena Lusófona, A Escola da Noite, Companhia de Teatro de Braga e Teatro Vila Velha (Brasil). “Eu era bailarino, mas como já tinha uma pequena experiência de palco no grupo Xitlhango, e os outros eram só bailarinos, fui considerado a pessoa mais indicada para fazer esse workshop de teatro”. Os convites foram dirigidos a todos os grupos de Moçambique, “o que contribuiu para diminuir rivalidades, aproximar os grupos e os actores, misturar actores e bailarinos”. Foram muitos e qualificados os participantes no workshop, “trinta e tal pessoas”, segundo as contas do Rogerio, “todas a concorrerem para um sonho. E estavam lá actores profissionais, com carreira de teatro. No fundo, o que eu queria era estar ali com aqueles actores profissionais, começarmos juntos. Normalmente, quando íamos para um espectáculo em que entravam os actores mais velhos, nós fazíamos uma pequena parte e, de repente, estávamos na estreia. Quase não havia contacto com eles, eles com as suas horas de ensaio…” O workshop durou cerca de duas semanas, Rogerio foi o eleito. E logo viaja para Portugal, instala-se em Coimbra. “Mais precisamente viemos para a Tocha. Foi lá onde nos encontrámos todos: os angolanos, os brasileiros, santomenses, todos os actores escolhidos. Os nossos primeiros ensaios foram lá. Ensaiávamos, dormíamos, tudo lá. Foi mesmo intensivo”. Da Tocha a preparação do "Quem Come Quem" rumou para Coimbra, para A Escola da Noite. Após a estreia no Teatro Gil Vicente, seguiram-se apresentações em Braga e no Porto (Palácio Cristal). “A ideia era que o espectáculo entrasse em digressão por todos os PALOP, mas por razões que me ultrapassam ficou só em Portugal”. Terminado o "Quem Come Quem", Rui Madeira, director da Companhia de Teatro de Braga (CTB), convida Rogerio Boane para integrar o próximo espectáculo da companhia. “Eu disse que sim, mas que teria de ir a Moçambique carregar as baterias. Estava na Europa há 3 meses...

© Augusto Baptista

ROSTOS DA CENA

Rogerio Boane
Integrante do elenco de "Quem Come Quem" e hoje na Companhia de Teatro de Braga, o moçambicano Rogerio Boane saltou da dança para o teatro. Pés em Portugal, "é aqui onde eu tenho de ficar a aprender", sonha regressar a Maputo "para criar abertura, trabalhar a sério. A sério, no sentido: com uma encenação a sério, com um cenário a sério, luzes a sério".
Além do mais não estava ainda convencido de que era actor”. A adensar as dúvidas: "A Gaivota". “Eu assisti a algumas peças deles, foi 'A Gaivota', fiquei com medo: muito texto, meu Deus, eu não sou capaz, falar, falar, decorar”. Em Moçambique, um telefonema do Rui Madeira decide-o: “Na altura ele disse que precisava de um bailarino. Essa parte é que me convenceu. E peguei e vim e fiz o meu primeiro espectáculo cá: “Uma Comédia na Estação”. Não mais parou. Entre muitas outras representações, levou a palco as peças "A Estalajadeira", de Carlo Goldoni, "Doroteia", de Nelson Rodrigues, "A Vida como Exemplo", de Alexej Schipenko, "As Bacantes", de Eurípides. Neste caldo teatral, nas reviravoltas de Maputo a Braga, a Cena Lusófona surge na vida de Rogerio Boane como o eixo em que giram as mudanças, tal qual o actor confia ao cenaberta: Como achas que o projecto Cena Lusófona marcou a tua vida de actor? A Cena Lusófona abriu-me oportunidades únicas e, de uma maneira directa ou indirecta, tem acompanhado o meu processo criativo, a minha evolução teatral.Tenho vivido e convivido imensamente com pessoas do espaço de língua portuguesa, não só aqui em Portugal, também no Brasil, onde já estive. E há muitas propostas para Angola, Cabo Verde, S.Tomé. Só que existem aquelas barreiras que têm dificultado, mas isso são coisas mais da produção e da falta de apoios à Cena. Mas de 2000 em diante ingressaste na Companhia de Teatro de Braga… Claro que nestes últimos anos este plano de intercâmbio teatral lusófono tem sido muito concretizado no âmbito da Companhia de Teatro de Braga, e por força do director Rui Madeira. Com a tua vida de actor hoje estabilizada, projectos? Eu sempre tive uma ideia, desde que vim para Portugal: voltar a Moçambique. Depois de me sentir formado, sinto-me em dívida para com o meu país, gostaria de dar uma certa formação. Em Moçambique não temos Escolas de Teatro. Mesmo eu, hoje actor profissional, a minha escola é a vida. Em Moçambique não há Escolas de Teatro, nem formadores. As pessoas formam-se através de workshops, depois vão-se integrando em grupos e vão fazendo. Alguns tiveram a oportunidade de participar numas co-produções, fizeram algumas peças cá, depois voltam a Moçambique, mas não conseguem continuar. Como queres desenvolver essa formação teatral em Moçambique? A minha ideia é dar uma formação continuada ou, na medida do possível, criar uma Escola de Teatro em parceria com a Cena Lusófona. Estando lá podia ser um veículo. Conheço as pessoas, conheço as dificuldades mesmo do terreno e a Cena viria com um projecto mais elaborado, que eu não tenho capacidade para fazer as coisas muito apuradas, orçamentos, acções, o que se podia ou não fazer, e também convidar actores e directores daqui para irem para lá. Sonho de envergadura… Nisso tudo eu seria um instrumento de campo. Eu queria ir mesmo ao campo encontrar aquelas pessoas que estão a fazer teatro e falar, assim de igual, sem ir lá como uma pessoa mais, que lhes transmite umas quantas coisas mas que depois eles não conseguem implementar, aquilo fica-lhes só na cabeça mas não funciona lá, que a realidade é outra. É preciso criar abertura, não só formar, criar espaços em que os grupos de teatro possam ir para esses espaços e trabalhar a sério. A sério, no sentido: com uma encenação a sério, com um cenário a sério, luzes a sério. Com mais organização? Nós lá fazemos tudo, como aqui numa certa altura os actores eram luminotécnicos, eram tudo, faziam tudo. Lá os grupos fazem tudo, trabalham para terem um sustento, e são obrigados a submeterem-se a projectos como o da embaixada de não sei o quê que apoia sobre a malária, então fazem teatro sobre a malária, a cooperação tal apoia sobre a fome, então fazem uma peça sobre a fome… Falta implementar o teatro que existe no Mutumbela Gogo. Os outros grupos encenam assim textos mais mediáticos. Agora falta trabalhar mesmo textos a sério. Esse teu projecto é coisa para curto prazo ou propósito de velho actor em final de carreira? É uma coisa que eu alimento dentro de mais alguns bons anos. É um projecto mais de maturidade, aí já não sei se fico lá, se fizer falta no projecto ficarei lá; mas também não gostaria de estar desligado da Cena Lusófona, porque vou precisar de uma ligação mesmo com Portugal. Ultimamente tens ido a Moçambique? Já lá não vou há quatro anos. Quando eu estava a dançar, quando era bailarino e não sabia se queria ser actor ou bailarino, regressava sempre uma vez por ano. Ia dar espectáculos com a minha companhia, para manutenção, para ganhar energias. A partir do momento em que escolhi ser actor, que decidi ficar aqui e continuar a minha carreira no teatro, já não tinha motivos, e então decidi ficar aqui. Que ir lá para carregar teatro, não vale a pena. Agora é aqui que eu tenho de aprender, é aqui onde eu tenho de ficar a aprender.

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