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Dossiê Eliane Duarte


Arte&Ensaios homenageia Eliane Duarte – falecida em 2006, aos 63 anos –, com a
publicação de uma poesia inédita de seu irmão, Chacal, a reedição de artigo de Paulo
Venancio Filho e breve biografia redigida por Viviane Matesco.

Esculturas como antifiguras. Como estamos distantes do con-


forto do literário e do encantamento do
cicatrizes fabuloso. Não é fácil ver a crueza imediata e
sem disfarces que essas obras-cicatrizes
Paulo Venancio Filho mostram. Aglomerada, a matéria se agrega
através de linhas de sutura, o ponto de jun-
A reorganização violentamente desorganiza- ção é costura vital, selvagem e primitiva. Es-
da do tecido, a superfície intumescida, as ses seres de peles, couros, cera, têm a for-
protuberâncias brilhantes da pele são uma ma de corpos massacrados; mais do que isso,
informe e urgente resposta da vida à forma são corpos feitos de corpos, aos quais a es-
da violência – a escultura de Eliane Duarte cultura dá uma segunda vida.
se produz como uma cicatriz. De onde vêem
essas formas? Não tanto do informe – do Inusitado, bizarro, estranho são palavras ape-
contrário da forma –, mas da regeneração nas aproximativas – e falsas. Também como
macerada da vida, de um impulso tão vital, na caricatura autêntica, o monstruoso que
que ultrapassa a forma organizada da vida e aparece no rosto humano é a premonição
a expõe pelo avesso, desfigurada e mons- da cicatriz, e a deformação busca antecipar
truosa. Todo corpo que expõe a violência pelo grotesco a violência subterrânea e não
excessiva irrompe e ultrapassa nossa convi- nomeada. Nas esculturas de Eliane Duarte
vência regular com as formas. Num mundo existe um impulso afim daquele de Goya: “O
violentamente vulgar, encontramos algo ver- sonho da razão produz monstros.”
dadeiramente invulgar, algo autêntico que Fisionomias, rostos e corpos macerados, mas-
não falsifica nem edulcora – esses trabalhos tigados pelo pesadelo da realidade. Carcaças
são radicalmente contra o tromp l’oeil da vi- próximas às de Rembrandt, corpos exaustos
olência. Essas esculturas, coisas sombrias e e sacrificados que não se sustentam, pendu-
desagradáveis, seres, monstruosidades, cria- rados nas paredes, caídos no chão.
turas da noite, formas subterrâneas, traçam
uma verdadeira história truncada e O fantástico das esculturas de Eliane Duarte
reconstituída da vida. Urgente, sem é ver as formas da razão mascadas e cuspidas
Matilha
Matilha, 2000/2002 genealogia ou pré-história. como um chiclete na calçada. Pois como
tecido, pigmento e cera Baudelaire viu em Goya, também aqui “toutes
de abelha A cicatriz configura um ponto de interseção; ces contorsions, ces faces bestiales, ces grimaces
480 x 220 x 40cm
(variável) o dentro revirado para fora, a marca indelé- diaboliques sont pénétrées d’humanité.”
participou da mostra vel da violação da pele e a restituição autên-
Galeria Anna Maria tica e grotesca da vida na carne desfigurada. Texto publicado no folder da exposição de Eliane Duarte na
Niemeyer, 2002 Cicatrizes criam pré-seres, pré-figuras, pré- Galeria Anna Maria Niemeyer em 2002
Foto: Adelmo Lapa
coleção João Sattamini/MAC- criaturas e também anti-seres, anticriaturas,
Niterói

HOMENAGEM • DOSSIÊ ELIANE DUARTE 111


eliane
eliane costura
crog crog crog ...
eliane vê a vida de viés
e não gosta do que vê
eliane explode tudo
catapimba! catapum!
eliane tece a vida divergente
cria bichos, fantasmas e os mantos
eliane faz da agulha sua guia
e da linha sua língua
eliane se recria na arte
eliane de carvalho duarte
crog crog crog ...

chacal rio 28/04/08

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Corpo temporânea de São Paulo, e internacionais,
como Galeria Canvas, no Porto, Coleção
como pele Fondation Cartier pour l’art contemporain,
em Paris, Bernard Soguel, em Basel, e as co-
Viviane Matesco leções Cisneros e Museo Alejandro Otero,
em Caracas.
Eliane Duarte estudou
na Escola de Artes Visu- Eliane Duarte começa a destacar-se no ce-
ais do Parque Lage en- nário artístico quando ganha o 1º Prêmio
tre 1987 e 1989. Quin- do Salão Nacional de Artes Plásticas da
ze anos mais tarde, em Funarte, em 1994, com a obra Veste. Desde
2003, já como artista então já aparece em sua poética o sentido
consagrada, realizou in- de maceração associado à idéia de gerar uma
dividual pelo Projeto pele. Posteriormente o corte e a costura de
Zona Instável nas Cava- tecidos macerados são desenvolvidos em
lariças no mesmo Par- pequenos seres estofados. Os trabalhos
que Lage. Entre as duas eram riscados em tecido, depois de acolcho-
datas a artista construiu ados e costurados, ganhavam vida em ele-
obra e trajetória sóli- mentos biomórficos.
das, expondo nos
principais museus e Quando nos deparamos com os trabalhos
centros culturais no de Eliane Duarte sentimos profunda estra-
Brasil e no exterior. nheza, uma vez que evocam calangos, tripas
Além de inúmeras e vísceras. No entanto, apesar de repulsivos,
individuais nas gale- juntos adquirem extrema sensualidade. O
rias Anna Maria visceral engloba aí tanto a repulsa como a
Niemeyer, no Rio, e Camargo Vilaça, em São atração e suspende os limites entre pólos
Paulo, expôs no Museu de Arte Contempo- aparentemente opostos. Essa ambigüidade
rânea de Niterói, Museu de Arte Moderna está também presente quando a artista tra-
do Rio de Janeiro, Paço Imperial, Museu de balha com a pele de animal, pois procura
Belas Artes do Rio de Janeiro, Itaú Cultural, dar vida à forma ainda no matadouro e, ao
Veste
Veste, 1993
em São Paulo. No exterior participou de co- preenchê-la com algodão, acrescenta o sig-
pigmento, lona e sisal
180 x 160cm (variável) letivas no Centro Cultural de Arte Contem- nificado de renascimento: ‘pega, mata e come
Prêmio Viagem ao Exterior porâneo, na Cidade do México; no Museo é o ciclo que vivemos, de morte e
no XIV Salão Nacional de
Alejandro Ottero, em Caracas; no Centro renascimento.’ 1 Se suas formas evocam
Artes Plásticas
Foto: Eduardo Câmara Cultural Culturgest, em Lisboa, Museo del vísceras, com a crueza de carcaças de ani-
coleção: Funarte-RJ
Barrio em Nova York; no Museo de Arte mais, a germinação e a renovação orgânica
Latino-Americana, em Buenos Aires, no presentes em seus conjuntos sugerem famí-
Sem título
título, 2004/2006 Coconut Grove Center, em Miami; no lias que se multiplicam. A força da produção
(ao lado) BildMuseet, em Umea, Suécia; na Fondation de Eliane Duarte reside, justamente, na ten-
cordas, barbante, pigmento
Cartier pour l’art contemporain, em Paris. são entre pólos opostos, como vida e mor-
e cera de abelha te. A artista faz a pele e costura a vida, ou
117 x15cm e 117 x 10cm Suas obras integram as mais importantes
participou da mostra coleções brasileiras, como João Sattamini/ melhor, as passagens que lhe são inerentes.
Heterodoxia, 2007 MAC-Niterói, Gilberto Chateaubriand/
Foto: Kadu Niemeyer 1 Eliane Duarte em entrevista a Viviane Matesco por ocasião
coleção particular MAM/RJ, Coleção do Museu de Arte Con- da exposição nas Cavalariças, em 2003.

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