A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .Ruth M.

Ipiranga. Chittó Gauer.com. ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. – Porto Alegre : EDIPUCRS. 6681 . Direito.edipucrs. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. 175 p. Normas Jurídicas.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av. Arquivo. – Dados eletrônicos. Título. Claude – Crítica e Interpretação.© EDIPUCRS. 4. Diploma da Fundação da Universidade. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. 3. RS . Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. 2.br http://www.br/orgaos/edipucrs/> 1. 1290.br . 2009. Lévi-Strauss. CDD 340. I.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs. Filosofia do Direito.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre.pucrs.

br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL. . Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Chittó Gauer chitto@pucrs.Ruth M.

Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa. . minhas netas.Para meus filhos Gabriel.

a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. meu “lar” acadêmico em Portugal. durante o período em que escrevi minha tese. no entanto. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. . O mais relevante. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. com ênfase. a psiquiatria e a filosofia.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. Quero aqui mencionar. fruto de uma longa convivência. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. de encontros e debates. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. início dos noventa. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico.

.............. 169 .......................... 154 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................................................ 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ............................................................... ciência e autenticidade .......................................................... 148 XV Juridicidade...............SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ......................................... 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação................................................................................ 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma ............................................................ 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ............................... 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise .......................... 16 A sedução da norma: fato social total ........................................................................... 138 XIV Norma.................... violência......................... 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ....................................................................... mito e memória ... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ......... 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo.......... 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana.................. 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora.................... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos .......

pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. sendo continuamente reinterpretado. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. Buscou compreender o obscuro. Desse modo. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. sabores. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. de forma harmônica. odores. sentidos. conciliando. em certo sentido. cores. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. como tradição histórica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. texturas. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada.

que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. 363-365. 1975. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. para a convivência dos incompatíveis. para um universal constituído por relações de complementaridade. Na análise das estruturas elementares de parentesco. p. 1 10 Ruth M. conosco.Aceitando. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. cit. No entanto. o aparelho de nosso ser social. op. da diferença e da identidade. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. em antropologia. Com efeito. rumou para as diferenças absolutas. a questão do Outro e do Mesmo. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. no entanto. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. p. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. Para o primeiro. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. pitoresca. contrariamente a essa tentativa. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. Sabemos que. a antropologia. a síntese à que ele se refere somos nós. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. é necessário. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. mas um universal lateral. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. distante. pois vivemos na unidade de uma só vida.. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. tomando a alteridade como objeto. então. 2 MERLEAU-PONTY. Os Pensadores. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. São Paulo. com Merleau-Ponty. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. porque diferente. 383-396. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. Chittó Gauer . Maurice. Abril Cultural. Para Merleau-Ponty. 1 que. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. superando a MERLEAU-PONTY. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. No ensaio Em toda e em nenhuma parte.

mas esta. No entanto. Para Arthur Miller. para além desta. 1996. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. em Bergson. 369-370). na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. o fato e o valor. Elogio da Filosofia. Flammarion. A desvalorização da imagem não corresponde. segundo ele. Franklin L Baumer. p. Maurice Merleau-Ponty. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. Edições 70. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. 1997). Martins Fontes. As teorias que falam sobre a imagem. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. destroem-na. 38. 1999. sem consequências. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. Vila Nova de Gaia. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. Martins Fontes. p. mais do que ser. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. 1990. se mexe. Edições 70. Franklin L. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. ensaia uma ruptura. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. I. Na busca pela compreensão da verdade.dicotomia sujeito-objeto. 5 BERGSON. 1990. Sendo assim. O Pensamento Europeu Moderno. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . 39. de modo algum. pois ele ainda reduz a imagem à memória. se revela a si própria através de nós. Matéria e Memória. uma espécie de contador da existência. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). que funciona mal no abandono do sonho. que englobou a norma e. desenvolve seu íntimo. isto é. não se estabelece. Henri. I. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. São Paulo. para Durand. Paris. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. 39. um mito (grifo nosso). 4 BAUMER. ainda. Durand acredita que. como diferença”. Fato. pp. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. no sentido dado pelo direito natural moderno. Nesta visão surge a lei. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. O Pensamento Europeu Moderno. alienando a sua função principal que é conhecer. ou ainda como um objeto fantasma. Bergson. uma história. p. Vila Nova de Gaia. No entanto. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. p. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. como fomentadores do erro. v. No entanto. São Paulo. v. conforme Bergson. 290. o ‘balanço vital’. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação.

portanto. criando muitos espaços de debate. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. grosso modo.ciência. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. não se descolaram do conhecimento antigo. Isso que significa que os cientistas dessa época. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. no ato de conhecer. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. justamente a crença na “verdade” científica. Partimos da premissa. o que denomino humanidades. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. Chittó Gauer . apenas visto como uma questão de especificidade. a literatura e outras. Ao corpus antigo. ainda que para fins de melhor compreensão. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. juntamente com uma visão fundamentalista. com a função primordial de normatizar as sociedades. e também se constata nas ciências humanas. As ciências humanas datam do século XIX. Mesmo no período iluminista. pode se constituir em um problema. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. corresponde. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. O enfoque da diferença é. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. No campo das humanidades. 12 Ruth M. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. que permite a sua “evolução”. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos.

1975. deslocando a análise do macro para o micro. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. empírico-formais e exatas. Nos finais do século XIX. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. A teoria da relatividade e a física. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. ou seja. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. assim. a biologia passou a explicar. diminuindo. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. para alguns darwinistas. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. A divisão tradicional entre as ciências humanas. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. São Paulo: Abril Cultural. basta pensarmos no século XVII.dando margem ao inumano. Spencer e Webb. para um universal constituído por relações de complementaridade. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. desde os finais do século XIX. Para Merleau-Ponty6. passou a sofrer vários abalos. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. para a convivência dos incompatíveis. Maurice. P. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. In: Os Pensadores. A antropologia. Para tanto. d) Foucault. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. tomando a alteridade como objeto. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . b) Freud. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. como Tylor. c) Lévi-Strauss. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. logo. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico.

e. No século XX. no entanto. o que há de exprimir não é mais diferido. que se ter presente que as linguagens – palavras. O “verdadeiro”. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. buscando. Marcel. escreve o autor. como explica Saussure. receba de outros seu sentido. assim. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais.P.. contraído de suas relações. Chittó Gauer ./EDUSP. porém. v. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. Há. MAUSS. São Paulo. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. o fato social não é uma regularidade compacta. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. Marcel. logo em seguida. a arte é imprescindível. independentemente da localização espaçotemporal. desse modo. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. é expresso pela palavra. cit. no momento. o Não. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. 14 Ruth M. Ao lado desse enfoque a antropologia. Contudo. pois. mas o homem como cimento afetivo. op. que “devemos. p. a negação. que “por mais que a palavra. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. não é a prece nem o direito. Na visão de Mauss 7. incluíram o rigor das demais ciências. enfim.U. 363-365. Logo. Sociologia e Antropologia. E. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. os linguistas. no apogeu do estruturalismo. necessariamente. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. 1974. I. portanto. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. à civilização. de produzir-se.de desenvolvimento semelhantes. o afrouxamento do método e.

tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 . Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”.

As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. a proibição do incesto. nos autores clássicos. A ser assim. tios. o religioso e o artístico. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. presentes de forma significativa no conjunto da obra.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. em grande parte. entre outros fatores. Toda a obra de Lévi-Strauss. 8. p. ao analisarem a estrutura de parentesco. o casamento é assumido como um ato individual. está baseada no “fato social total”. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. 1977. 9 16 Ruth M. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. Sob essa estrutura. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. irmãos. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. contudo. Proust. desenvolvido por Mauss. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. que. uma desconfiança em relação à filosofia. Perspectiva. os mitos. Toda e qualquer escolha dáse. em especial com a fenomenologia e se inspira. marcada pela liberdade de escolha. o pensamento selvagem e a filosófica. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. por exemplo. que revela preferências. encontramos o sistema de parentesco atual. porém. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. Mauss. podemos notar. norma estrutural do vínculo familiar. Saussure e Breton. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. Chittó Gauer . interesses. de certo modo. uma predileção por Bergson. sentimentos. São Paulo. Otávio. portanto. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. entre outros –. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. dialoga com o pensamento filosófico. uma escolha psicológica. com base na exclusão do outro consanguíneo.

a pintura. A compreensão do visível é dada pelo oculto./EDUSP. Alfred. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). metaforicamente. São Paulo. Poderíamos. Paris. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. E. 1985. Ferdinand. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. um super-racionalismo. 1974. Barcelona. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. Sociologia e Antropologia. Ëditions Du Seuil. 10 a presença marcante de Saussure. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. Um corte vertical. pela busca da relação entre o sensível e o racional. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. Marcel.P. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. Curso de linguística geral. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. na obra de Lévi-Strauss. No campo da estética. SAUSSURE. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. as capas invisíveis. Anagrama. 12 MALINOWSKI. 1995. Journal d’ethnographe. particularmente.a passagem da natureza para a cultura. a poesia e o mito. 1975. passagem que ocorre com a fundação da norma. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. Podemos identificar.U. Bronislaw. que revela o oculto. A contribuição de Lévi-Strauss. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. a fundação da norma se dá como um processo de violência. v. 13 RADCLIFFE-BROWN. Lisboa. I. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. Dom Quixote. Segundo alguns de seus intérpretes. além de Marcel Mauss. El método de la antropologia social. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. isto é.

no entanto. como no caso da fonologia. pensa a estrutura como um sistema. apenas adquirem significação participando de um sistema. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. as relações de parentesco são elementos de significação. economia. Chittó Gauer . mas participa da significação. 18 Ruth M. mitologias. significado (sentido). No que se refere à fundação da norma. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. o significante que precede e excede o significado. desse modo. ahistórica. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. Lévi-Strauss. dito de outro modo. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. como uma estrutura. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. seus elementos (oração. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. Foram as ideias de Mauss. sistema sempre normatizado.conforme a antropologia anglo-americana. mas como um sistema marcado por coesão interna. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. ainda que tais leis estejam ocultas. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. Cada sistema (parentesco. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. Assim como os fonemas. o historicismo e a fenomenologia. uma estrutura. portanto. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. O signo tem um caráter dual: significante (som). logo. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. palavra. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. O fonema é um campo de relações. mas apresentam uma racionalidade imanente. classificação. arte. O fonema não tem significado próprio. leis. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. A linguagem é um sistema de relações.

o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. não origem. Essa crítica. 14 Ao contrário de seus predecessores. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. a regra. aquilo não). A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio.religião) é um sistema de signos.. portanto. A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). É possível fazer muitas analogias: por exemplo. op. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. um conjunto de operações que transmitem mensagens. o pensamento e as coisas. cit. de acordo Otavio Paz. 14 PAZ. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. são um sonho simbólico. Lévi-Strauss. a significação e a nãosignificação. jurídicas. não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. carregada de interpretações filosóficas. 17. em seus estudos sobre o parentesco. A proibição também não aparece entre os animais. Em ambas. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. não tendo. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. binária (isto sim. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. Apesar das inúmeras interpretações míticas. Otávio. uma origem biológica ou instintiva. como a linguagem. mas consequência da proibição. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . Para Lévi-Strauss. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). p.

A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. constitui-se ao mesmo tempo na norma. alcançar uma generalidade universal. este Sim funda o homem. símbolos. Faz-se necessário compreender. considerada a fonte de todas as normas sociais. mas. o significante e o significado. à linguagem.religiosas e míticas. o espírito: algo que é nada. na significação do espírito. Se for possível encontrar essa generalização. é a raiz de toda proibição. pode-se dizer que não há uma oposição. equações. p. Esse tabu. pelo menos lógica. portanto. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. A proibição do incesto. op. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. inflexível. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. cit. de todas as leis. em si mesma. de toda moral e de toda punição. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. Chittó Gauer . a fundação da norma se deu com a negação. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. ou seja. Frente à análise sobre a fundação da norma. que não se defronta consigo mesmo. constitui a sociedade. carece de sentido ou de fundamento. ao trabalho e ao mito os homens são homens. é na própria diferença que a encontramos.. e esta. uma norma inflexível. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. Para Lévi-Strauss. metáfora. agora. embora pareça não ter justificação biológica. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. a norma proibitiva. 19 20 Ruth M. mas não de utilidade: graças a ela. fonte de todo limite. Logo. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. a posição. segundo o autor. como na linguagem. Otávio. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. no fato e no valor. nem razão de ser.

Em ambos os casos. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. Faz-se necessário ressaltar. Presença. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente.cultural. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. ainda. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. traçado na estrutura inata do espírito humano. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. afirma a existência de um evento originário. de levar a análise bastante longe”. sob a condição. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. o da comunicação procurada. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. Para Lévi-Strauss. antigos e modernos. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. Lévi-Strauss. o mesmo problema se apresenta. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. como o cremos. p. naturalmente. fundador da sociedade humana. Claude. 1952. que esta é a oposição entre lei e universalidade. Tal evento originário. 133. Raça e história. em Totem e Tabu. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. Lisboa. obrigação e necessidade. para Lévi-Strauss. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. subjacente a cada instituição e outros costumes. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). é a sua condição para o êxito. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos.

Rosaria. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). estando situado entre ambas. ao contrário.). o passo fundamental graças ao qual – e. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. Petrópolis. necessária e imposta pela exogamia. de caráter trans-eventual. essa proibição “não é de origem puramente cultural. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. Vozes. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. comunicação através dos bens e dos serviços. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. de resto. o momento da passagem da natureza à cultura. entre natureza e cultura. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. comunicação normatizada. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. 18 Na verdade. Ponto de encontro e articulação. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. 1984. Essa troca constitui-se. Assim. pp. 18 MICELA. portanto. comunicação por meio das mensagens. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (. 1982. Para Lévi-Strauss. Chittó Gauer . As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). sem pertencer integralmente a uma ou outra.. Brasiliense. 70-71. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos.. para o autor. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. Ao nível das estruturas elementares. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. Antropologia e Psicanálise. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. Claude.do incesto. nem de origem puramente natural. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. São Paulo. estrutural. 22 Ruth M. dada desde o inconsciente. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. esse universal.

19 não é exagero dizer que. 11-39. Paris. para a maior parte dos homens. Grasset. La Identidad. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. elevada a um plano de destaque. seguindo a reflexão do autor. muito atomizado. Claude. a permuta da própria nacionalidade. a humanidade. (Org. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz.tenha afirmado. é um espaço em branco no mapa das emoções. A norma. àquelas de onde provêm. é possível enquadrar nesse modelo. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. Nesses casos. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. pp. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. 1977. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. o fato de que o planejamento de organizações. direta ou imediata da natureza. Este aspecto leva a considerar. nossos sistemas de parentesco. Há. encontra-se fora de nós. ao menos “idealmente”. como ponto de referência coletivo. sua singularidade. pelos mais variados fatores. para isso. Mas. ou seja. pensada como estrutura. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. necessariamente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . muito embora seja indispensável como ponto de referência". em particular. e em nós como função simbólica. ou. ainda. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. da economia. que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. no entanto. A passagem às estruturas complexas do parentesco. sendo a negação simples. em suas conclusões sobre identidade. pode-se revelar altamente inoperante. nos sistemas naturais e sociais. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. de posturas psicológicas.).

365-366. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. 24 Ruth M. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. Considerando que. Esta ideia demarca as instituições. principalmente o direito. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. Segundo Merleau-Ponty. A autonomia constitui uma marca da modernidade. que coloca a natureza perante si. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. com o surgimento do indivíduo moderno. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. a dominação técnica e a história acumulativa”.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. aos valores. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. agora separado do ser social e político. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. a normatização sofreu alterações significativas. com Descartes. nas escolhas de vida. como objeto de conhecimento. sonhos românticos). na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. consciente de si mesmo. p. nas relações sociais. cit. op. op cit. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. Logo. Chittó Gauer . bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. ao surgimento do direito natural. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. em todas as instâncias da vida. ao direito subjetivo. caracterizada pela emancipação do indivíduo. a autonomia aparece para o indivíduo livre. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. MERLEAU-PONTY Maurice. vinculado à qualidade única do ser humano. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. Se.

Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. mas também máscaras de proteção. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição.Do ponto de vista sócio-histórico. como do amor conjugal. modos de agir. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. ao contrário. 13-79. características das sociedades tradicionais. com ele. Norbert. não obedecem a uma lógica exterior. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. para o afrouxamento do controle social tradicional. este por si só constitui espaço para a liberdade. no conjunto da sociedade. anteriormente determinantes. 1997. 22 ELIAS. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. A sociedade dos indivíduos. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. que se apresenta como base para a liberdade. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Rio de Janeiro. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. a partir dos séculos XV e XVI. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. Portanto. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. as maneiras de educação. vão se constituindo. Zahar. pp. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. no mundo urbano individualizado. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. na medida em que as trocas não se dão por posição social.

Louis. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. Quanto maior for a liberdade. A Verdade e as Formas Jurídicas. Berthold. Aléxis de. se formam o sujeito e as relações com a verdade. também é desejada. por outro o expõe. Jessé. com as quais cada um deve se conformar. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. como encargo muito difícil de ser cumprido. Ed. cit. isso sob o prisma da norma social. quanto maior o individualismo. Chittó Gauer . se poderá fazer uma história da verdade”. do conhecimento. Editora da UNB. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. e mais essa necessidade surgirá. dizemos que a liberdade tem seu custo. 28 FOUCAULT. O Antigo Regime e a Revolução. SOUZA. produz o indivíduo em sua autonomia. mas sim certos domínios de saber. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. 1979.. maior a socialização. a conformam e dela decorrem. domínios nos quais. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. ela. Neste sentido. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. Rio de Janeiro. a nossa sociedade funciona por normas. Rio de Janeiro. 27 FOUCAULT. cit. paradoxalmente. não por acaso. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. assim. em si mesmas. UNB. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. maior seu custo. 26 Ruth M. Nau. por um lado. Brasília. Brasília. Michel. Rocco. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. OËLZE. 27. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. op. 1985. ao mesmo tempo originário e absoluto. Norbert. na medida em que. (Orgs. Michel. p. 26 DUMONT. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. 142. 1998.). op. para o autor. Segundo Foucault 27. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Simmel e a Modernidade. paradoxalmente. mais nos socializamos. que se. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. quanto mais nos individualizamos. 25 ELIAS. 1999.

não é somente um valor. mais necessitamos de regulamentações. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. hoje “acelerada” de modo irreversível. O que podemos constatar é que. é possível falar da incerteza da liberdade. durante o século XX. O indivíduo se atomiza. considerado o aspecto mais significativo.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. mas constitui experiência de todos os dias. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. é produto da própria liberdade. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. mais especificamente no pós-guerra. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. O único laço que permanece é o de natureza institucional. deste modo. esta socialidade. A igualdade. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. portanto. mesmo das vinculadas às leis científicas.

tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. 31 LEVI-STRAUSS. cit. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. tudo está inter-relacionado. permitindo. por princípio e por fim. cit. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. em suma. Chittó Gauer . como diz Mauss. 14-15. econômicos. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. tudo se mistura. 14-15. Claude. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. 28 Ruth M. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. pp. estéticos. Antropologia estrutural dois. op.. op. religiosos. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. Claude. poder-se-ia dizer. sociedade. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. na teoria do fato social total. Tempo Brasileiro. Claude. ligado. pp. 14-15. cit. seu modo de organização e sua função diferencial. integral. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. 30 LEVI-STRAUSS. morfológicos ou outros. 1976. 14. 32 Se. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. Para o primeiro “a totalidade consiste. parece que. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. pp. Ao invés de aparecer como um postulado.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. 32 LEVI-STRAUSS. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. para cada um desses códigos.. o aspecto vivo. a totalidade social se manifesta na experiência. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. também.. Rio de Janeiro. Claude. a linguagem do direito. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. op. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. desta maneira. p. alma. segundo a teoria proposta por Mauss corpo.

em sua visão. O autor reconhece. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. no entanto. 16-17. nos diz respeito de forma total. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. levada até as categorias do inconsciente. apesar de tudo. LEVI-STRAUSS Claude. objetos. op. entretanto. como muitos pensam. confundir-nos opera. pensada como tradição. desse modo. portanto. a liberdade – uma forma de organização social. a partir dos elementos de sua existência social. O signo. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 .. Claude. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. independentemente das coisas que lhes correspondem. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. 18. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. pp. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. Há.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. com o qual não podemos. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. oferecendo-nos. ciência política. 17. também. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não.. um interesse privilegiado. ou ainda estudar as normas sociais. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. cit. cit. 19. Todavia. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. a justiça. assim como não podemos. nada deixou escapar. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. Neste caso. pp. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. op. direito. história.

Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. GEERTZ. segundo ele. gesticulam. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. Chittó Gauer . a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. ao mesmo tempo. no nível biológico. cit. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. Quando se comunicam os homens conversam. p. 36 35 30 Ruth M. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. 22. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia.. se deve ao fato de que. segundo as premissas que apresentamos. ao menos provisoriamente. junto ao significante. escrevem. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação.que se insere. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. Clifford. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. Destas transformações. No campo da antropologia a mitologia. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. segundo Geertz. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. op. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si.

desconsiderando. provavelmente. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. Em segundo lugar. Na entrevista. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. torna a análise muito problemática. Nova Luz sobre a Antropologia. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. Na opinião de Geertz. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. A antropologia de matriz norte-americana é. logo. Geertz é.lições de Geertz. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. não apenas as chamadas sociedades simples. a própria passagem do tempo. Explica que. entre outras coisas. de acordo com ele. Geertz fala do panorama da antropologia atual. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. No final. a história e a teoria literária. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. a exemplo do Brasil e da Índia. em disciplinas como a psicologia. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. GEERTZ Clifford. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. Jorge Zahar. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. 2001. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. São Paulo. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. mas também fora de sua área. em primeiro lugar. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 .

São Paulo. regras. se esforçando para explicar as diferenças em geral. Muitos juristas. 32 Ruth M. nem começaria a interpretar. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. A análise interpretativa da qual fala Geertz. Antropologia jurídica. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. contingência. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. historicamente. não interpretará nada. que diz estudar o "Homem". Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar.completamente geral. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. hábitos e leis sociais. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. direito. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. Mas isso não é niilismo. indeterminação. não tentará buscar compreender nada. de vagueza. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. In: SHIRLEY. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. a exemplo de Hans Kelsen. Robert W. que estuda tudo. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. p. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. o Marrocos ou o Brasil. a análise de suas normas. Neste caso o niilista não se importará com nada. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. não tentaria ao menos começar a entender os outros. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. Chittó Gauer . Ela tem que perceber qual é. 1987. elas fazem parte do repertório da antropologia. sem dúvida. política. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. literatura. 10. história. Saraiva. mesmo assim são respeitadas. como economia. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza.

São Paulo. se preferido for). é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. subjugadas e ignoradas. Robert W. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. exílio. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. isto é. sobre o comportamento do indivíduo. p. Antropologia jurídica.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. 1987. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. e regras secundárias. ostracismo ou morte. 40 SHIRLEY. como no caso das sociedades modernas. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. forças políticas estruturadas pelas instituições. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. isto é. esses dois planos compõem as estruturas sociais. normas da sociedade referentes às primárias. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. por outro lado. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. como crítico da metafísica (ou do humanismo. Saraiva. Em especial. ou seja. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . obra em que. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo.

162. sem estruturas. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. cit. O pensamento da diferença. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. GAUER. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. op. apenas a rememorou. Obras. Ortega y.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. O reino da estupidez e o reino da razão. 71-92. v. ou seja. plenitude da presença e estabilidade una. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. 44 GASSET. enquanto a temporalidade. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. igual e eventual. Chittó. p. De acordo com Vattimo. p. Madrid. Meditações do Quixote. 42 41 34 Ruth M. Chittó Gauer . O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. 1946. O ser da metafísica é o ser mutilado. 2006. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. Para Heidegger. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. cit. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. São Paulo. Livro Ibero-Americano. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. op. afirma o autor. que “mostra também um momento VATTIMO. Alianza Editorial. Gianni. nega o ser como fundamento.. 43 GASSET. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. 1977. José Ortega y. esquecido da subjetividade). sob essas premissas. no entanto. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". da objetividade sobre a subjetividade 41 e. Ruth M. Ao contrário de Geertz. 42 Há. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). para Heidegger.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. rememora o ser e o ente para além da presença. VI.

já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. segundo o autor. pela ética e pelo direito. Com esta análise em mente. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. resultado do domínio das coisas sobre o homem. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . Jessé. OËLZE. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. Rompera até com a cultura moderna. 1998. é um exemplo deste fenômeno. 10. revelado por Marx. mas também sem normas ou raízes”. na significação que nos interessa. cujo movimento na sociedade. Editora da UNB. não sujeito a mudanças.‘escandalosamente temporário’. no sentido tanto decadente quanto criativo. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. Brasília. abertura do pensamento e da cultura. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. o devir era uma das categorias principais do pensamento. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. sendo que. Simmel e a Modernidade. SOUZA. Berthold. O século XX. mas perigosa. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. O destino trágico. afinal. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser.). como fizera o século XIX. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. p. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. (Orgs. No final do século XIX. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia.

36 Ruth M. por um lado. Assim como na passagem natureza-cultura. Para o autor os direitos costumeiros são. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. 131-132. 1974. 48 MAUSS. Marcel. Segundo a análise. EPU/EDUSP. op. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. uma mistura de direito público e direito privado. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. pois nem tudo pode ser formulado. São Paulo. aos cargos. 49 MAUSS. de alienação e de troca. como a semítica. Marcel. Do mesmo modo. I. entre outras. muito antigo”. cit. I. p. p. a grega e a romana. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. nossas antigas civilizações. a família. Sociologia e Antropologia. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. Esta forma de instituição. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. Chittó Gauer . Marcel. às honras. Sociologia e Antropologia. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. Sociologia e Antropologia. romano. Marcel. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. p. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. 1974. de toda a sociedade. op cit. as pessoas e as coisas”. 234. MAUSS.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. 234. EPU/EDUSP. de alguma forma. negativa que contém um Sim afirmativo. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. o autor refere que às funções. São Paulo. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. culto 46 47 MAUSS. e. de direito não formulado e direito formulado. v. hindu e germânico. da família. e a dádiva por outro. v. II. v. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. Na opinião de Mauss. o Não. com elas.

Paris. portanto natural. o que. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. da herança. em sua origem. contudo. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. como já vimos. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. descende de pais livres. I. não separa os filhos. assim como a importância das coisas. estruturou-se nos mitos. liga-se à relação de parentesco. da propriedade. esta só lhe é conferida. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. figura do nome divino de Júpiter. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. 1969. que é lido como “Pai Celeste”. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. de fato. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. a maioridade biológica. Minuit. “Patricius”. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. “Patrius” se refere ao pai não físico. mãe). 207-212. seu auxiliar nas funções sagradas.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. Éd. não foi obra de legisladores. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. pp. herança. a morte do pai. autoridade. “Atta” educa a criança. exclui a relação de paternidade física. Èmile. o descendente de pais livres. da autoridade e da punição. propriedade. “Pater”. v. exprimindo uma hierarquia pessoal. traços que se mantiveram na época clássica. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. “Patricius”. do sânscrito “Pitar”. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação.

cit. pp. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. 54 MAUSS. e que se torna. é bastante notável que. Chittó Gauer . o “vínculo” de direito. p. a pretexto de não fazer sentido algum. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. bem como um certo número de formas desses contratos. 53 O contratante é primeiramente reus. Outros termos de direito. op. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. o nexum. Marcel. Seguindo a análise. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. cit. segundo Mauss. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. embora tenha sido eliminada.. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. pp.. além dos vínculos mágicos e religiosos. Marcel. pp. 38 Ruth M. Sob este aspecto. op. por seu espírito.se submetiam à sua autoridade. prestam-se para este estudo. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. A etimologia já fora proposta antes. cit. 135-136. 53 MAUSS.. que parte tanto das coisas como dos homens. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. além de família e res. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. A melhor etimologia de família é. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. no entanto. segundo Mauss. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. A religião. Marcel. ou seja. o nexum. 135-136. op. MAUSS. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. sem dúvida. ao contrário da natureza. Como observa Mauss. 133-138. casa. MarceL. Entre os direitos analisados. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. op. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. seu réus. a esse título. a que aproxima do sânscrito dhaman. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. quanto mais remontamos à antiguidade.. cit. isto é. 139. não concede a maioridade aos filhos. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS.

enfim. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. op.. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. o culpado e o responsável”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . “a origem do contrato. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos.coisa”. se nossa derivação semântica é aceita. que apresenta o seguinte: 55 “1°. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. de um ‘processo’ público. e rei-jetos por “implicado no processo”. cit. 3°. 2°. Para Mauss. com mais forte razão para reus. crescida à sombra do racionalismo. Há autores que traduzem res por “processo”. Mas essa tradução é arbitrária. “ao contrário. Como se pode observar. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. o indivíduo possuído pela coisa. todas as teorias do “quase-delito”. Marcel. investigar e decifrar os mistérios da natureza. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia.) de inferioridade espiritual. um termo processual. Desse ponto de vista. sobretudo. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. (.. A imagem. o sentido de culpado. segundo o autor. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. do nexum e da actio. supondo que o termo res é. 140. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. ficam um pouco mais esclarecidas. acabou por ter um efeito perverso. p.

jurídica. res. isto é. Discurso do método. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. Rocco. 1985. o sentido da palavra família. O individualismo. isto é. O Iluminismo. pp. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. ou seja. por sua vez. econômica. dicotomizando tanto coisas como homens. por uma pluralidade de centros de poder. op. Louis. Chittó Gauer . Lisboa.. Rio de Janeiro. 58 DESCARTES. religiosa. especializou-se e. pp. objetividade e subjetividade. assim. 12-16. passa a ter uma acepção difusa. as res que dela faziam parte. uma vez que o centro. 57 DESCARTES. razão e emoção. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. Essa busca. 117-118. já que deixa de haver um princípio organizador único. A exemplo do direito. 1993. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. René. no entanto. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. 57 permitiu o surgimento do dualismo. cit. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. A base tutelar da família foi fragmenta. um dos princípios que. de um “processo” público. passou a regulamentar de forma especializada. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. pp.mistérios da natureza. foi fragmentado. A criação do paradigma da modernidade. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. segundo Dumont. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. política. pessoas e coisas. 80-85. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. corpo-espírito. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. mas por uma pluralidade de outros. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. lícito e ilícito. antes uma acepção secundária. René. Para Dumont. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. deslocando. foram deslocados. não foi substituído por outro. ao fazê-lo. 56 40 Ruth M. Edições 70. cuja base se encontra na obra de Descartes. O sentido implicado no “processo”.

Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. isto é. mítica e religiosa. da observação. totêmica. mas afirma. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. por meio da experiência. que “Os cegos vêem com as mãos”. o modelo de visão do autor é o tato. buscou substituir várias autoridades. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. Esse conhecimento. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. da investigação.seu famoso Discurso. no entanto. em determinado ponto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 .

não por estarem superadas em face das transformações econômicas. que possui o indivíduo como melhor exemplo. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. 1970. 321. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. trocamos mensagens. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. A criação dos símbolos modernos. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. Chittó Gauer . Barcelona: Barral Editores. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. a consanguinidade. Marcel. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. Obras III. As transformações das instituições jurídicas. A separação natureza-cultura. Sociedad y ciências sociales. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. respeitamos regras. a exemplo do exercício do poder. da tradição e de instituições que a precederam. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. com base na crença da ciência. da mesma forma que os da língua. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. 320. p. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. está estruturada em uma concepção “natural”. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. estéticas e políticas das sociedades. de uniformização. 42 Ruth M. mas. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais.

São “versões” da vida em sociedade. quando 60 61 GEERTZ. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. apenas releu a forma. em parte. 63-73. segundo este último. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. “sujeito-da-razão”. que não conseguiram eliminar a regra geral. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. denominada legislação em sentido amplo. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. A interpretação das culturas. p. o que fazemos. não como uma ciência experimental em busca de leis. Tal postulação inspirou-se. teias. de conhecer as diferentes “realidades”. imposições. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . 61 A partir daí. Rio de Janeiro. 1978. além de não eliminar a norma fundante. Gottfried W. 15. criadas em sociedade. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. 1973. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. René. Zahar Editores. como. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. pois.sobre o pensamento e a ação. 1974. O crime e o castigo seguem convenções legais. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. e como devemos realizar nossas ações em sociedade. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. LEIBNIZ. à procura do significado”. Abril Cultural. como já referido. outras categorias foram derivadas. pp. por exemplo. porém não conseguiu eliminá-la. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. portanto. pp. São Paulo. proibições. Clifford. São Paulo. o indivíduo moderno. Os Pensadores XV. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. 62 DESCARTES. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. Os Pensadores XIX. Abril Cultural. 81-153. escolhas. mas como uma ciência interpretativa. as categorias coletivas. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII.

63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. John. elaborando a composição de orientações diversas. do conhecimento e da prática. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. além de outros como Hobbes e Kant. o “eu penso”. em Locke. elementos esses que seriam. 1973. 139-348. com capacidade de raciocinar e pensar. São Paulo. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). Ao refocalizar o velho (e original. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. a partir de sua análise. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. 44 Ruth M. reelaborado também pela visão de Locke. Abril Cultural. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. A partir dessa posição de Descartes. no entanto. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. pp. É. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. Tentou-se. no sentido heideggeriano). Para muitos autores. sem dúvida. Por outro lado. Locke e Rousseau. vistas como ontologicamente diferenciadas. determinado pelo “cogito ergo sum”. Os Pensadores XVII. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. irredutíveis. Chittó Gauer . O “indivíduo soberano”. sujeito da modernidade. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. Hobbes. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. assim. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados.

não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. mas sim uma unidade metodológica. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. após as críticas da escola histórica. Tanto é assim que. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. no entanto. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. 64 Essas questões. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. 1985. Outra prova é que. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. e os formalistas como Kant e Fichte. por exemplo. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. não eliminam o intento comum. Rocco. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. no entanto.estejam separados por uma fronteira intransponível. jurídico e político. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. Contudo. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. finalmente. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. e sim manutenção dos mesmos objetivos. Todas as correntes concordam. Não há dispersão. precisamente porque fundada. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. Na verdade. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . mas o modo de abordá-lo (a razão). todos pertencem à mesma “escola”. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. no final do século XIX. Rio de Janeiro. mas um princípio metodológico.

mas o método. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios.paradoxo da modernidade. A base seria não uma lógica do provável. Há. As teorias clássicas liberais de governo. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. 1967. George. Paris. a redenção do Siècle des Lumières. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. sepultura da medieval fé em Deus. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. da Europa chegou o progresso. ainda submersa no platônico mundo das sombras. o referencial filosófico-social básico. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. Payot. 183. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. sustentáculo da sociedade GUSDORF. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. v. Nesse sentido. O que caracteriza. portanto. No século XVIII. e foi definido. no interior dessa grande estrutura. IV. 65 46 Ruth M. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. Alemanha e outros países. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. p. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. o Estado-nação. Chittó Gauer . progrediram as ciências na Inglaterra. no entanto. e “eliminou” todas as diferenças. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. como modelos estáticos. o indivíduo passou a ser visto como o localizador.

Erving. Rio de Janeiro. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. Os indivíduos soberanos. uma comunidade simbólica. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. gestada ao nível da razão simbólica. E. “englobaram” todas as diferenças. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. nesse sentido. entre eles. Goffman. Zahar. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. Estigma. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. etc. inversamente. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados.moderna. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. para isto. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. entre o sujeito e seu entorno. Obviamente ao nos definirmos como tais. criadas por meio de tetos políticos. argentinos. Nesse contexto. Ao mesmo tempo. por outro lado. Basta recordar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . ou seja. fenômeno 66 GOFFMAN. Essas identidades não estão. 1982. os numerosos estudos sobre caráter nacional. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. ingleses. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. certamente. o estado. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. a qual é. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. e estas. assim. impressas em nossos genes. gerando. primordialmente. As culturas nacionais. com suas vontades. No entanto. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. necessidades e interesses.

religiosas. Chittó Gauer . embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. a atenção. posteriormente. desde os finais do século XVIII. consequentemente. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. dominação e hierarquia. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. No caso brasileiro. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. O modelo interativo. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. já no início do século XIX. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. entre outras. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. No início do século XIX. políticas. junto ao estado-nação e. com suas vontades. A lealdade e a identificação foram localizadas. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. nas sociedades ocidentais. O tema da nacionalidade. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. As diferenças regionais. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. há décadas atrás.este de índole essencialmente contemporânea. necessidades e interesses. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. à cultura nacional. Os indivíduos soberanos. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. étnicas.

um fato e uma norma. neste caso. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. como já afirmamos. 1985. mas a própria sociedade em ato. é prescrito. Os indivíduos soberanos. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. Em se tratando de sociedade moderna. Rio de Janeiro. 269. Embora essa dissolução tenha ocorrido. em muitos casos. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. No entanto. assim como não há indivíduo. Rocco. Louis. não havendo. pp. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. As idiossincrasias sociais. o valor e a norma. necessidades e interesses. o que tem por separar a ideia de valor. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. tornaram-se a figura central da lei. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema.relações sociais. e por assim dizer. que a norma não seria um efeito da sociedade. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. pelo próprio sistema de representações. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. O individualismo. por outro lado. há que se salientar a importância da norma. que. a negação da ordem escravocrata. com suas vontades. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. não há lei sem a impessoalidade. liberdade de escolha. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. ou o valor se vincula ao indivíduo. Como refere Dumont. as quais configuram a estrutura social. O valor está imbricado na própria configuração das ideias.270. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . 67 “o valor está imbricado.

Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. No entanto. abre toda a significação. Chittó Gauer . o fundamento primeiro do fato social. nada articula. 50 Ruth M. a norma.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela.

pois permite repensar a crise da ciência moderna. o mundo. da física e da química não apenas um avanço. p. Os Pensadores. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. pp. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . Um segundo fundamento. Na física. mais do que uma simples descoberta. Após o relativismo do racional e do empírico. Abril Cultural. versando sobre a descontinuidade. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. é antes criação”. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. BACHELARD. cit. antropologia e psicanálise. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. Os Pensadores. 756-758.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. Gaston. propôs uma noção de duração não bergsoniana. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. de Bergson a Bachelard. 756-758. 757. op. e entre vários filósofos. como se a terra.. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. pp. Gaston. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. São Paulo. op. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. 70 BACHELARD. cit. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. 1973. 68 69 BACHELARD. sobretudo. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. no decorrer do século XX. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. Gaston.

1974. desde a psicanálise até a cibernética. 74 LÉVI-STRAUSS. 76 são exemplos destas análises. 2000. Deus. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. p. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. op. 73 Sigmund FREUD. Difel. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. 73 do “pensamento selvagem”. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. O Pensamento Selvagem. Sociologia e Psicanálise. do mito e do “pensamento obscuro”. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. Rio de Janeiro. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. segundo o belo título de Henri Ellenberger. 2002. Roger. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. ou campos de conhecimento. 71 Para Durand. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. São Paulo. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. a história das Ideias. 3ª ed. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. o Simbolismo e o Surrealismo. Claude. Companhia Editora Nacional. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. 35. São Paulo.. cit. Chittó Gauer . Papirus. do onírico. Todavia. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. a psiquiatria e psicanálise. por exemplo. 1986. 75 CAILLOIS. A Interpretação dos Sonhos. Gilbert Durand. Imago. 2001. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. 76 BASTIDE. 72 Gilbert Durand. a natureza. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. Roger. Edições 70. O Mito e o Homem. a história e as normas sociais. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. cujo resultado. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. 71 52 Ruth M.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. a antropologia. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. São Paulo. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. Lisboa.

Portanto. as orientações psicoterapêuticas. como de fato o são. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. já de matiz clássica.. Bion.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. de certo modo. o importante é a existência de significados que. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. pois tal comparação confirma. Para Durand. Seguindo essa linha de investigação. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. Gilbert. baseadas na obra de Jung. entre outras contribuições. Freud. conclui que. Melanie Klein. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. Hartmann e tantos outros. em princípio. a função do sonho. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. 77 DURAND. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. op. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. uma vasta compilação e análise. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. cit. mesmo sendo arbitrários. as assertivas de Lévi-Strauss. a razão. em termos de interpretação. p. Alexander. extremamente minuciosa e complexa. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. Assim não há. 36. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica.

1975. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. Neste. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. veracidade e exatidão de uma teoria. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. Portanto. para Lévi-Strauss. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. que pode ser coletada e que. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. Desta constatação. semelhante a tantas outras. Chittó Gauer . deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique.. Georges. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. a partir de um modelo explicativo. 78 54 Ruth M. o que não se daria com as últimas. Esta forma moderna da técnica xamanística. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica).. pois. portanto. como comentário correlato. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. frente à sua realidade existencial e concreta. tira. mencionar a posição de Georges Devereux. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. Cabe.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. Ou seja.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. De qualquer modo. qualitativamente diferente do pensamento científico). como estas. que é a psicanálise. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. Amorrortu Editores. No entanto. que se opõe. não há mais lugar para o tempo mítico. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. senão no próprio homem. por uma confrontação de seus DEVEREUX. por atingir as causas reais da perturbação. Buenos Aires. Etnopsicoanálisis Complementarista. por sua natureza científica.

p. ou seja. ainda nos tempos atuais. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. E. Na verdade. tal análise é simplista. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. da força das emoções”. portanto. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. por sua vez. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 .métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. elaborou. no homem ocidental. ou formulação de uma identidade. No caso específico de Freud. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. como já havia dito Spinoza. Tempo Brasileiro. O papel primordial atribuído à razão. na passagem para o século XX. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. Assim. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. Antropologia Estrutural. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. soturno e traiçoeiro. para o citado autor. está 79 LÉVI-STRAUSS. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). Freud. 1970. com a linguagem dos símbolos. Rio de Janeiro. Claude.” 79 Veja-se. Nesse contexto. permite a via de acesso ao inconsciente. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. 224.

que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. mas. em última instância.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. nessa busca. a sociologia e a antropologia. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. com ela. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. dessa forma. Para Freud. o que correspondeu. de certa maneira. tal como a ciência moderna havia proposto. tanto Darwin como Freud. a descoberta do inconsciente. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. Chittó Gauer . Ao contrário. também contribuiu para essa crise do conhecimento. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. A contribuição de Ferdinand de Saussure. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Com essa posição. um duro golpe ao narcisismo humano. recriar os modelos universais. a psicologia. em nenhum sentido. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. não deu atenção à dinâmica psicológica). Kraepelin. Quando Freud buscou a subjetividade e. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. na qual se destaca E. nossas identidades. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. em outra área de pesquisas. encontrou. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. Acertaram. E isto Darwin o fez mostrando que. do mesmo modo que Freud. não só em áreas específicas. Correspondendo ao espírito da época Darwin. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. Afirmou Saussure que nós não somos. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. que traz consigo o desenvolvimento da razão. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. logo existo”. tentando.

não podemos utilizá-la para produzir significados. um sistema social e não individual. em uma relação um-a-um. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. tal questão está em grande parte superada. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. Lembremos que. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. por exemplo. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. A língua é.nos comunicarmos. Porém. No campo da etnopsicanálise. O significado das palavras não é fixo. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . por exemplo. para fins de análise histórica. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. Este autor optou por uma definição de normalidade que. de natureza teórica ou não. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. superando as contingências do relativismo. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. o par de termos opostos noitedia). Ela pré-existe a nós. Por outro lado. a opinião de Georges Devereux. em virtude de considerações de ordem variada. por exemplo). foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. e este fato mantém uma conotação de atualidade. nesse sentido. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. Devem ser consideradas também. Atualmente. No entanto. Essa foi. os de normalidade e anormalidade. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas.

A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. lançada por Lévi-Bruhl. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. de Freud. nesse ponto já superado. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. que antecedem uma maturidade mais plena. sem dúvida importantes. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. Para Durand. Chittó Gauer . em meio a um contexto dominado pelo racionalismo.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. 58 Ruth M. dando sentido e ordem ao universo e que é. da qual um grande número de culturas seria excluído. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. Caillois e Bastide. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. para lançar em descrédito a psicanálise. que anima a mente primitiva. basicamente. Na concepção de Durand. por muito tempo. Mesmo assim. Todavia. discutir a questão da alteridade. que possui uma conotação de natureza mais universal. mesmo no chamado mundo civilizado. em certa medida.

faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. Porém. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo.O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise.

como França e Inglaterra. 1974. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. trad. seleção. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. Abril Cultural. nos século XVII e XVIII. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. O humanismo renascentista. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. Chittó Gauer . A partir de meados do século XVI e. a posição marcadamente anticartesiana.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. Os Pensadores. evitando isolar-se em abstrações excessivas. notadamente. que se difundiu por toda a Europa. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. São Paulo. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. Evidentemente. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. 60 Ruth M. Giambattista. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. concepção defendida pelos estruturalistas. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos.

como a poesia e a história. que careceriam de demonstração lógica. Discurso do Método. contida no cogito. isto é. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”.. op cit. a ideia VICO. pois ele não se cria a si mesmo. é que o próprio criador a tenha criado. Editora Universidade de Brasília. Brasília. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. DESCARTES. por fim. em sua opinião. Dessa forma. 38.. 83 Ibid. “a história no exílio. 36. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. p. ergo sum.ao método matemático era. p. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. 82 Dessa forma. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. 81 Ao mesmo tempo. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. colocava. René. a perda de seu atributo de certeza. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . segundo o autor. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. 1981. Conforme afirmara: “a verdade é que. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. pois repousam no verossímil. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. a partir do modelo matemático. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. pouco encontrava que me convencesse. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. Giambattista. Por outro lado. ou seja. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. formulada por Descartes. desprovida de sentido. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. pois existiriam produtos humanos fundamentais. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem.

VICO. libertando-a da dependência das fontes escritas. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. à crítica fundada na razão. Abril Cultural. etc. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. justamente por ser o homem produto desta. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. G. ainda. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. Giambattista.. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. trad. Nessa perspectiva.de que as proposições matemáticas. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. leis. pois. p. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. colocada entre o falso e o verdadeiro. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. Chittó Gauer . Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. 1974. s/d. R. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. A reflexão do filósofo napolitano considerava. Lisboa. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. A Ideia de História. São Paulo. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. 85 84 62 Ruth M. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. O autor separou a história das ciências da natureza. governos. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. segundo Vico. seleção. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. Os Pensadores. Como diria Collingwood. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. o filósofo napolitano oferece a tópica. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. Editorial Presença. 88.

ao menos a vontade repouse sobre a consciência. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. Se uns e outros tivessem feito isso. as alianças. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . Segundo Vico. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. “O humano arbítrio. os tratados de paz. dotado de vontade. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. incertíssimo por sua própria natureza. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade.deles conhecidas e antevistas”. quanto fora dele. tanto em seu território. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. tais como os costumes e as leis. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. a fim de que. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. historiógrafos e críticos. como as guerras. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. a fim de que. de um lado. as viagens e os intercâmbios comerciais. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. vinculando esse direito às tradições. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas.

que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e.XVII. 64 Ruth M. Chittó Gauer . portanto. generalizável como totalidade.

Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. circunstância que compartilha com todos os organismos. 1989. como teoria explicativa da diferença. 1979. Zahar. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. 88 ou teoria da utilidade. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. consultar: Marshall Sahlins. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. a razão prática. A razão prática. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. 87 SAHLINS. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. Barcelona. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. Marshall. Rio de Janeiro. 87 paradigma da igualdade. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. independendo da questão temporal ou geográfica. Paidos. op.. O evolucionismo. e Clifford Geertz. El antropólogo como autor. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. cit. de interesse utilitário. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). Cultura e Razão Prática. No entanto. Nesse sentido. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo.

sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. as invenções e descobertas de certas sociedades. Um dos 66 Ruth M. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. portanto. levou a antropologia do século XIX. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. ao estudar as instituições. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. dessa forma. Nesse sentido. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. e em muitos casos até boa parte do século XX. para o progresso. Lewis Morgan. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). A definição dos três estágios – selvageria. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. procurou ordenar seus estágios evolutivos. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. da hierarquia entre evoluído e atrasado. desatrelada do tempo histórico e. Chittó Gauer . Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. estrutura e função. e Lewis Morgan (americano). A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. em um estágio primitivo. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. conhecer a diferença. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. v. Para tanto. Arthur Ramos. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. 92 70 Ruth M. Ana Maria Galdini Raimundo. 92 “na segunda metade do século XIX. tendo a sífilis como modelo. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. Então. Este “estigma de ODA. dez. 12. n. 2002. 6. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. Acesso em: 03 jan. agregou-se a teoria da degeneração. Disponível em: http://www. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana.polbr. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira.br/arquivo/wal1201. pela visão de seus teóricos. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. Autores como Nina Rodrigues. intelectuais e comportamentais.htm. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. Psychiatry On Line Brazil. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. 2001. Após as influências dessas escolas. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. Chittó Gauer .” A estas concepções organicistas. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. no qual. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. Juliano Moreira. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais".med. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. Conforme Ana Maria Oda. portadora de estigmas físicos. formada de índios. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. o Brasil deveria se engajar. sob circunstâncias apropriadas. dominaram as concepções organicistas.diferença. Um número expressivo de historiadores. entre outros.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. É inegável que o século passado. a antropologia. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. No entanto. homicídio. pela reestruturação política e social do mundo. assim como várias outras em diversas partes do mundo. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. já havia decretado sua morte. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. pois ambos operam como uma unidade sintética. do quadro social então presente na sociedade ocidental. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. Nos campos de concentração denominados “reservas”. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. de certa maneira. Tais ocorrências sociais. suicídio. associou-se à psiquiatria que. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. Nesse contexto. do mesmo modo. apesar das dúvidas 74 Ruth M. nesse rumo. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. neutro e objetivo. Chittó Gauer . e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista.de um modo de vida tradicional.

o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. em síntese. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). sintomáticos de uma patologia mental. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. Como se vê. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. Detecta-se. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. como processos dissociativos. assim como as instituições culturais em geral.“relativizantes”. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. Por um lado. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. A partir desses fatos. temos aqui dois fatores. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. Este pensamento como que matizou. então. uma patologia. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. Por exemplo. assim como ao nível das culturas camponesas. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. Portanto. com seus quadros de anomia psicossocial. consolida-se a etnopsiquiatria. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. comportamento. Esta. de saúde e enfermidade. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. desrealização e. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita.

O critério de eficácia é. critérios transculturais de análise. pois. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. ao nível do arbitrário. Mesmo assim. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. em princípio. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. mesmo que superficialmente. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. portanto. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. 95 76 Ruth M. Nesse caso. Não se pode afirmar. incluindo culturas urbanas. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. um ponto de encontro.qualquer agrupamento social. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. até. e aceitáveis De modo semelhante. assim. propondo. a qual legitima tal fenômeno. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. a observação feita por Lévi-Strauss. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. discutível. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. Ou seja. dessa maneira. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. Chittó Gauer . é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. entre o psiquiatra e o xamã. A partir disso. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. por exemplo. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. observação e tratamento. Seriam. convém lembrar.

isto é. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. 1975.. “(. (. Portanto. p.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. Antropologia Estrutural. 1970. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. uma vez que a psicanálise (assim como. Tempo Brasileiro. (.. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real.). em linhas gerais. Rio de Janeiro. que a doente adquire deles progressivamente. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une. num sentido favorável. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. mas. (. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. a partir de um modelo estrutural comum.. 255.. de outro modo informuláveis. à prática e ao simbolismo xamanístico. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura.” Georges Devereux. e ela é membro de uma sociedade que acredita. pp. Claude. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas. Buenos Aires.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento.. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem.LÉVI-STRAUSS..) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. aparentemente tão afastadas. Amorrortu. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. “Neste sentido. Empero. real ou suposto. 97 Como coloca DEVEREUX.. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite. 204-224. Etnopsicoanálisis Complementarista. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico.. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. sem isto. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. a reorganização. não tem importância: a doente acredita nela. ao mesmo tempo.

em si. principalmente no processo de tradução. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. melhor transitar no terreno da psiquiatria. Gregory Bateson. Este fato. poderão reformular. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. com grande benefício. por exemplo) como delirante. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. no caso. se for considerado conveniente. Afirmam os etnopsiquiatras que. em termos de enfermidade psíquica. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. Também é fato sabido que. Na verdade. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. por exemplo. a comprovação deste fato não trouxe. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. assim. levou várias décadas para concretizar-se. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. Chittó Gauer . não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. como Robert Merton. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. nada de inédito. a sociedade urbana norte americana. sem que isso o afete mais profundamente. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. sua prática terapêutica. Ruth Benedict e outros. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. Como se sabe. correspondam ou não à realidade. Em um primeiro momento. utilizando.

e que. idênticas a si mesmas. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. indistintamente aplicada. como seria o caso da “cultura da pobreza”. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. 98 Neste caso. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. agora ameaçada. a partir disso. tomados de um terror místico. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. ou seja. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. por exemplo. de certa maneira. 99 Assim. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. por exemplo. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. no entanto. por assim dizer. Parece que. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. no século passado. da cultura. de certa forma. e uma possessão patológica. muitas vezes encobertas. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. às populações primitivas. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico.esclarecedores a esse respeito. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. 99 No entanto. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. como objeto transacional. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. se mantêm assim. Não há. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. dentro dos paramentos de controle social. atemporais. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. nesses contextos. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. no transcurso de gerações. Ou seja.

situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. No entanto. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. E. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. op. em qualquer caso. en otra suele estar reprimido. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. esa lista correspondería punto por punto a una lista. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. Georges. pp. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. establecida por los etnólogos. em princípio. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. De los tres postulados que acabo de enunciar. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. no entanto. Deve-se considerar. 76-77. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. Para escapar a esta relatividade. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. em termos mais amplos. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. 2) El principio de las posibilidades limitadas.. 80 Ruth M. Chittó Gauer . cit. y aún se encuentra actualizado culturalmente. a normalidade psicológica do indivíduo.em seus diversos aspectos.

acentuada desde Durkheim. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (. Retornando ao exemplo acima.. em uma sociedade. de limites imprecisos. que se situa dentro de um contexto de relatividade. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno. p. cit.. se for levada às últimas consequências lógicas. tendo por assentado que esta cultura é normal. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. Coloca Devereux que. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. que são considerados como normais e ajustados à cultura. normalidade mental. 115. embora existam padrões. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. ob. Por outro lado. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. Estabelece-se. entre indivíduo e sociedade.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. elimina a tradicional distinção. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . como uma névoa. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos.) 2) El comportamiento de un grupo. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. 101 Assim. necessariamente.. Georges Devereux. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. valores e padrões em geral de uma cultura.. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”. também.. Haveria uma área transicional. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um.

e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. Este fato pode produzir diversos resultados. No que se refere ao indivíduo. a sociedade contemporânea. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. Mas quanto à posição de Devereux. de forma alguma. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. como se deslizasse por elas. na sociedade urbana. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. de caráter urbano. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. recusando-a em 82 Ruth M. Ou seja. Diante disso. de transformação. que envolvem o todo do contexto social. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. assim. Como se sabe. como por mudanças de nível “macro”. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. por exemplo. por assim dizer. Um determinado indivíduo. protegido e infragmentável. o que não significa.dessa maneira. Outro aspecto ressaltado por Devereux. produtora de “identidades fluidas”. Chittó Gauer . Por outro lado.

deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. difíceis de discernir. Mas por outro lado. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. de qualquer modo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . é um indicador de normalidade. ao mesmo tempo. Ela pode ser um fenômeno salutar e. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. na cultura urbana. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. E. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico.

A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. Perspectiva. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. mesmo os mais microscópicos.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. isso ocorreu. que a autora trabalha. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. isto é. Pureza e Perigo.. A sujeira é um fato que nos repugna. qual seja: a questão da ordem. São Paulo. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. quando com elas nos deparamos na estante de livros. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. da impureza. Esse fato não iniciou no século XIX. principalmente por meio das tarefas femininas. com ausência de resíduo. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. lavar. ficamos tentados a reler. 1976. No entanto. passar. nomeadamente no século XX. do perigo. normalmente associada ao belo. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. A estética. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. Há alguns dias. não menos importante. Chittó Gauer . que destaquei há tanto tempo. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. ligada às tarefas da casa. mesmo as mais microscópicas. 56. 84 Ruth M. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. assim como todo o tipo de discriminação. Deparei-me com Pureza e Perigo. O tempo de limpar. p. Mary. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. temos horror a certos tipos de sujeira. que deve estar livre de impurezas. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. da sujeira. desinfetar. como se isso fosse possível. Relendo algumas passagens do livro. etc. a pureza e a ausência de qualquer perigo. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina.

O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. O isolamento. exemplo de espaço privado. cit. do violento. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. vistos como perigosos. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. do monstruoso. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). em resumo. do disforme. A modernidade criou 103 DOUGLAS. op. como medida de exceção.pureza. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . p. buscando os ideais de ordem. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. portanto. perigosas. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização.. do feio. pois são perigos em potência. hospitais. Esses locais. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. assim como a ordem do espaço público. Na modernidade essa prática continuou. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. tal como foi criado nos tempos modernos. também foi submetida à disciplina da higiene). Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. Mary. passou-se a isolar casas. constituía-se na única forma de proteção. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. A modernidade disciplinou não apenas os homens.

104 86 Ruth M. Rocco. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. 270-274. seja nos regimes totalitários. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. presente nas sociedades ocidentais. Os exemplos históricos mais recentes. jurídicos. Os modernos esqueceram. pp. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. fascismo.essa compulsão. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. 1985. comunismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Quais os procedimentos políticos. a sedução das crenças e demais impurezas. porém. a todos os que podem se constituir em perigo. devem ser purificados ou eliminados. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. seja nos regimes políticos das democracias liberais. por mais paradoxal que possa parecer. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. Chittó Gauer . Rio de Janeiro. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. Há que se salientar. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. Quanto maior a exceção. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. maior a igualdade. sem muito esforço. utopia dos iluministas. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. Louis. administrativos. O individualismo. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. O mundo perfeito. Nos estados de exceção. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. como o nazismo. os perigosos. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. e está. transparente e livre de contaminações. a corrupção.

limpos. 1979. Esse aspecto traz problemas para a democracia. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. Coimbra. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Hans. 34. 105 a força de uma democracia. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. 5152. Se representação e identidade constituem. isto é. Coimbra. o exercício da soberania. a teoria SÁ. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. A partir desta constatação. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. por outro. Metamorfoses do poder. constituída pelo direito. João Baptista Machado. depurados.. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. uma coletivização ao extremo. estruturada na naturalização do indivíduo. Para o autor. com a tentativa de eliminação do estranho. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. Teoria Pura do Direito. entre a pureza e o perigo. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. pp. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. nos regimes democráticos. Trad. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. do desigual. Ariadne Editora. cabe aqui lembrar que. Os perigos precisam ser eliminados. na essência e no modelo. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. Armênio Amado. nas palavras de Franco de Sá. a força política se sustenta na medida em que se purifica. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. Por um lado. 4 ed. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . Alexandre Franco de. colocando distância entre a ordem e a desordem. nesse caso.uma tensão contraditória. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. 2004.

guerra total. que lembra sujeira e desordem. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. ou seja: isto. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. aquilo. o diferente. Chittó Gauer . O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. isto é. No entanto. na atualidade. A própria soberania. o anormal. que visava à eliminação das hierarquias medievais. além de outros. entre outros. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. exemplo de regime de exceção. tudo o que causa estranheza. nas teses de Schmitt. apud Alexandre Franco de Sá. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. como os nazismo-fascismos. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. o impuro. sofre evidências devastadoras. que serviam à identificação dos sujeitos. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. As práticas políticas adotadas na modernidade. do modelo e do antimodelo. cit. op. o doente. enfim. o sujo. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. do sujo e do limpo. em nome da igualdade. perigo. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. Hoje esses termos dissolvem-se. 107 a questão da exceção. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. “raça”. tal como pensada na 107 SCHMIT. A soberania da igualdade.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. que nasceu naturalizada. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. “gênero”. 88 Ruth M. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro.

nem sempre descritíveis em sua totalidade. deixou de ser a norma. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. necessariamente. sobretudo. que foi cometido pelo seu irmão. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. as famílias dos homens-bomba. locus do “aqui e agora”. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. entre outros lugares. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. da inclusão e. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. do perigo. o duelo entre tradição e modernidade. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. lugares de negociação em andamento. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais.modernidade. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. no relativismo. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. desconhecendo a questão dos direitos humanos. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. não consensual.

gerando a violência. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. Outra pergunta se faz necessária. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. não consensual. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. Chittó Gauer . sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. Não há preparação para lidar com o erro. matam o discurso político. ao lado do consenso cultural. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. Nesse quadro. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. associada a uma velocidade que. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. ordenadas. estruturante. os desvios sociais. a ausência do estado nos bolsões de miséria. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. é a velhice do mundo. os fundamentalismos. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. o consensual fica sendo os totalitarismos. enfim. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. protegidas dos perigos. segundo Virilio. tais como pensados desde o século XVIII. Com a superação do eterno retorno.determinismo racionalista. O presente se torna imprescindível. de uma identificação totalizante. A impossibilidade de uma verdade única. com as impurezas. A questão não envolve a justaposição da diferença. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. nesse 90 Ruth M.

ele é ex-cêntrico. Belo Horizonte. metrópole x colônia. fica comprometida. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. distante do historicismo teleológico das “causas”. O autor menciona que os “entre-lugares”. cit. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. as fímbrias. ou mesmo das raças. Para Bhabha. pp. passando a ser questionada. capaz de se autogerar. BHABHA Homi K. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. Nem ruptura. estado x sociedade. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. pureza x perigo e assim por diante. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. Como decorrência. O presente “é o tempo de agora”. ambivalente. ao mesmo tempo. As diferenças culturais são exercitadas. Homi K. capital x trabalho. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”.caso. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. O Local da Cultura. É o ocaso do etnocentrismo. do além. nem projeção. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. paradoxalmente. engendrando novos espaços e temporalidades. 2001. Editora UFMG. alargado. abandona-se a sequencialidade. os interstícios. a exemplo do nazismo. 20-46. O presente “não tem lugar”. enfim.. mas. op. o que implica um deslocamento constante.

pp. que inova e irrompe a atuação do presente. op cit. do puro e do impuro. de releitura da contemporaneidade. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. Ainda segundo Bhabha. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. dá seus últimos passos. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. quanto uma pureza cultural. tão pouco é completamente diferente desta. Ao invés do continuum cristalizado. de estabelecer seu próprio discurso institucional. que buscou sempre a exegese da diferença. BHABHA. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. Segundo Bhabha. mas sim reconhecida. op cit. Homi. 29. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. no sucessivo de passado-presente. de iniciar seu desejo histórico. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. pp. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. Na visão do autor. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). 92 Ruth M. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. não é uma passagem suave de transição e transcendência. Ao lado dessa reflexão. A tradição ocidental. A minoria não quer ser “incluída”. do material ao metafórico. há também um movimento político. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. de negar.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. Chittó Gauer . Isto é. Homi. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. 25-26. tornada semelhante. O Outro perde o poder de significar.. Igualdade na Diferença. como no caso da própria escravidão. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. ela mesma. superando a diacronia da história. 59. higienizada. na linguagem bejaminiana..

e. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . de memórias míticas e de identidade coletiva única. o precede e sucede. oferecendo-se ao sujeito. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas. de acordo com Bhabha. mas que. O rigor da indisciplina. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. cit. teleológicas ou míticas. foi preciso encontrar catequistas nativos. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. instaura com este uma dialética. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. 112 “o tempo de libertação é (. em si. simultânea e paradoxalmente. depende dele para existir. bem como da relação entre emissor. da articulação de uma política de negociação. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. As noções liberais de multiculturalismo. ter consciência. Homi. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. na qual representa o universal. 113 BHABHA. mensagem e receptor. aquilo que.. estrategicamente deslocado. 45. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. o arcabouço da tradição. sob a égide do discurso colonialista. quer dizer. 1994. 65-68. Como exemplo. no processo de manifestação simbólica da linguagem. de indecidibilidade significatória ou representacional”. p. Rio de Janeiro. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado..para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. Luiz Eduardo Soares. Relume-Dumará. op. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. porque existe. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita.) um tempo de incerteza cultural. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”.. mais crucialmente. pp. e para sua própria “eficácia”. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. Para Bhabha.

mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. pp. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. cit. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. não apenas muda a direção da história ocidental. ao explorar esse Terceiro Espaço. não como uma afirmação da vontade. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. Chittó Gauer . “Sobre o conceito de história”. Homi. 1987. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. o perigo da impureza racial. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. op. entendido como sujeira. nem como evocação da liberdade.. unificadora. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. Walter. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. Magia e técnica. São Paulo. Walter Benjamin. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. mas a regra. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. E. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. 114 94 Ruth M.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. Afinal. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. Editora Brasiliense. 115 FANON. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. Para ele. totalizante. a opressão. 114 A luta contra a discriminação. 72-75. apu BHABHA. A vida cotidiana Ver BENJAMIN.

“ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. A demanda da identificação – isto é. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. De acordo com Fanon. mas dá-se em relação a uma alteridade. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. cit. Ou seja. Homi. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. op. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. o branco escravizado por sua superioridade. pp. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. o autor chama de “delírio maniqueísta”. 76-78. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 .. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. A esse quadro social. seu olhar e seu locus. Esse pensamento supera o arco hermenêutico. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA.

e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. 119 DURKHEIN. 1970. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. pelo sentido declinante de comunidade. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Por outro lado. plenitudinário. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. que se originava em uma certa espécie de virtude. Claude. Madrid. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. Os Pensadores. Rio de Janeiro. São Paulo. A totalidade dos estados nacionais foi construída. Antropologia Estrutural I. a perda de valores espirituais unificados. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. em boa parte. 96 Ruth M. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. o amor ao próximo. Abril Cultural. Chittó Gauer . que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. 1974. que salientava a piedade. Morata. expressa na equivalência entre imagem e identidade. Tempo Brasileiro. nesse contexto. E. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. visual. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso.René. Reglas del metodo sociologico. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. 1973. Ao romper a estabilidade do ego. Ver LÉVI-STRAUSS. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e.

era necessário planejar uma nova solidariedade moral. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. no entanto. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta.século XIX já não possuíam. Para muitos. que era a causa da doença social. obp cit. Contudo. Franklin. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. Esses perigos. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. pois são perigos em potência. cit. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. 164. op. 164. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana.. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. que era o resultado da divisão do trabalho. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. que estimulava a mobilidade e a especialização. Era a crise espiritual. ou estavam em processo de perder. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). BAUMER. mesmo na maneira como pensa e. se 120 121 BAUMER. Para compensar a anomie. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . Franklin. durante o período Eduardiano. por outro lado. p. o que lhe deve”. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. 121 Estas receitas para a recuperação. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –.. conseqüentemente. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. p.

conduz à exceção. 98 Ruth M. O vazio das convicções humanistas. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. já que a pureza é inimiga da mudança. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. Estas constatações. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. acaba por se tornar totalizante. às apalpadelas. a moralidade. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós.transformaram em condição de análise. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. a ciência deixou o homem procurando. Se. ela própria uma forma de imoralidade. Contudo. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. o desmascaramento da fácil crença no progresso. Chittó Gauer . Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. Um modelo rígido de pureza. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. os paradoxos da filosofia liberal. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. da ambiguidade e da diferença. tal como o da igualdade moderna. a mente individual possui como função a vida social. na frase de Dewey. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. quando imposto. uma esquiva realidade. a história explicitou esses fatos.

o que os subordinava ao direito francês. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. o direito inglês. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. Os colonos eram considerados franceses. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. a cremação da viúva na pira do esposo morto. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. a commom law. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . A natureza das instituições legais britânicas. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. que são transmitidas de geração para geração. Ocorreram algumas exceções. uma vez que não há o instrumento da escrita. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. na Ásia.

Código Napoleônico. importante estudo. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. 262. No que se refere às regras sociais. Fundação Calouste Gulbenkian. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. Lisboa. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. R. Daryll. Como se pode verificar. via de regra. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. 264. a racionalidade não está ausente. No que se refere ao crime. p. A lei como duplo sistema. proteger e punir. boas e justas. e FORDE. daí resulta a obediência. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. 2ª edição. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. 122 100 Ruth M. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. Chittó Gauer . em 1926. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. Crime e costume na sociedade selvagem. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. que publicou. A. 1982. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais.

Caso contrário. Desse modo. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. Da fenomenologia das três dimensões temporais. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. 1974. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. A preocupação não é nova. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. Vozes. No entanto. Petrópolis. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. Quanto ao presente instantâneo. 124 SARTRE. o futuro não é ainda. nunca 123 VICO.do direito “primitivo” é processual. dotada de liberdade. presente. Os Pensadores. Estas pressuposições. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. toda a série se aniquilaria. Jean-Paul. Abril Cultural. São Paulo. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. de preferência à aplicação de regras formais. É preciso. seleção. como já afirmamos. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. 124 Em O ser e o nada. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. especialmente o terceiro capítulo. para um exame do ser do tempo. Cf. 1997. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. O ser e o nada. Giambattista. trad. a exemplo de Sartre. isto é. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. como o ponto sem dimensão. Giambattista Vico.

sobretudo. o que é verdade. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. tudo é presente. por um lado. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. tais como os elétrons. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos.elucidadas. Se a lembrança ressurge. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. traço atual. em etapas. pp. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. por outro. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. já que desmoronou no nada. Paris. 102 Ruth M. Arthur I. tal como os historiadores a descreveram. para explicar o aparecimento da consciência. na física atômica. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. em consequência de um processo presente. mais ou menos em 1927. o faz no presente. e lembrar a história. que dependem fortemente da teoria. Depois se convenceram de seus erros. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. por exemplo. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. integralmente. Assim. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. ou seja. 1996. Miller 125 afirma que. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. e tomaram consciência. Desse modo. Flammarion. durante o século XX. como fotógrafos das câmaras de gás. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. Chittó Gauer . da imagem-recordação. que é instantâneo e extratemporal. 369-370. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. tudo é em ato. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais.

São elas a 126 BECK. e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. O autor refere que essa transição.século XIX até metade do XX. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. anedotas. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. 3 . contudo. risco controlado. Trata-se. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. Paidós. Ulrich. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade).fracasso do controle. O processo de desindividualização. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. A Sociedade de Risco.advento da idade moderna. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. por outro lado. O individualismo determinou toda a organização política moderna. vontade de controle do risco.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . 2 . aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. da saturação da função que lhe é inerente. uma forma de insolência. ditos populares e a versatilidade das massas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . entre elas como risco. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. Por esse caminho apoiaram-se na representação. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. metáfora visual adaptada ao mundo invisível. Barcelona. pois. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. 1998. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas.

Michel. hoje está a mudar para a Idade da Mente. amor ou ódio. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. não em estruturas hierarquizadas. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. individual e coletivo. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. 127 104 Ruth M. 53-54. remete-nos à análise da flexibilidade. 1987. São Paulo. 1997. Chittó Gauer . que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. povo sem identidade. A corrosão do caráter. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. que ela mudou novamente.massa indefinida. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. Richard Sennett. geraram a implosão pós-modernista. Brasiliense. Rio de Janeiro. pp. MAFFESOLI. luz ou sombra. uma certa harmonia. 1999. 128 KERKHOVE. 1988. público e privado. O Conhecimento Comum. de calor ou frio. dor ou prazer. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. apenas um momento. Forense Universitária. Todas MAFFESOLI. O Tempo das Tribos. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. Para Kerckhove. Lisboa. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. Richard Sennett. uma mensagem. p. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. Derrick. ser adaptável a circunstâncias variáveis. 19. 175-194. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. é um conceito. de Hume. Michel. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. a organização que se dá em redes. sem se deixar quebrar por elas. nem uma ideia. Record. 218. A Pele da Cultura. a um só tempo. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. pp. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. Rio de Janeiro. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. Relógio D’Água. como diz Lévi-Strauss.

Aparece então a negação do fato real. Os acontecimentos não são aprendidos. dos políticos. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . assim. p. A Inércia Polar. o poder. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. Para Virilio. 1993. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. Publicações Dom Quixote. Criou-se um novo espaço-tempo. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. da matéria. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. Lisboa. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. mas sobrevoá-la. Nesse sentido. que não é finito.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. teórico da Dromologia. com essa plasticidade. Há. se o tempo é história. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. o mundo. 128. a velocidade é apenas sua alucinação. Depois da desintegração nuclear do espaço. de liberdade. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. na obra de Virilio. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. perdem-se. (do grego dromos = velocidade). ocorre a desintegração do tempo da luz. como se fosse um espetáculo. nesse sentido. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. Paul. abre um importante campo de reflexões. Em sua obra A inércia polar. A popularização da velocidade retira das forças militares. Seguindo nessa mesma trilha. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. Por outro lado. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. uma vez que as imagens não se fixam. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. Os nexos estabelecidos. Na atual velocidade. pois já não há ideias em luta com os fatos. Os conceitos trabalhados. escapam pela fluidez da velocidade.

Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. Chittó Gauer . pelo envelhecimento da história. A velocidade é a velhice do mundo. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. abrindo. A economia já é gerida à distância. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. construída historicamente. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. p. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. frente a essa visão. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. Nesse sentido. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. Eis a inércia da natureza relativista. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. com as quais faz os vetores do poder. ao declínio das atividades no espaço.usado para avaliar a capacidade humana. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. onde se situa? Onde estou. assim. mas onde estou eu. Assim. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. cit. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. 106 Ruth M. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. Para Virilio. Michel. 27. Descrever a violência. equivaleria dizer. op. 130 130 MAFFESOLI. um importante campo de questões filosóficas.

ou talvez fosse mais correto dizer. op.. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. os riscos de seu empreendimento. Quanto ao primeiro. mais do que tudo. no quadro de uma ideologia produtivista. no entanto.. de modo didático ou para a clareza de exposição que. o inacabamento e a falta e.. mais do que nunca. de apresentar os fatos e ligá-los. 28. o ponto de partida. p. cit. 28. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. 134 MAFFESOLI. Michel. 134 Nessa busca da diferença. que se pode mesmo. por si só. priorizar o estilo.. O reconhecimento da diferença é. 132 Por outro lado. Importa. Enfocar o vivido. quanto ao segundo. op. 30. tentando equacionar aquilo que. Maffesoli não deixa de enumerar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. por sua vez. portanto. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. analisá-las em si. continua não havendo nada de novo sob o sol. cit. p.Uma vez que. MAFFESOLI. 133 MAFFESOLI. op. Michel. p. segundo o próprio Maffesoli. Michel. nessa recusa em negá-la. cit. é constituído pela vida. op. cabe então. p. o vivido que. Sabe ele que. cit. como fica manifesto nessa introdução. desse modo. “Quanto a nós. até certo ponto. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. 133 Para além de uma aparência homogênea. Não se trata. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. 39. na própria introdução da obra. também. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". não pode ser equacionado. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. Michel.

recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. Temos. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. cit. não se deixa reduzir à simples razão. 136 Compreender. emprega o termo em diferentes momentos da obra. 51. A partir desse último termo tem-se. 41. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. então. então. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. A socialidade. um fértil campo de análise. apud Michel Maffesoli. 138 MAFFESOLI. em outros termos. fragmentada. op. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. MAFFESOLI. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. queiramos nós ou não. para elucidar tais questões. portanto. se fazem presentes no vivido. contemporaneamente. 41. quais os meios postos em ação. cit. Michel. uma vez que diz respeito ao fato social em si.entendimento das pulsões que.. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. op. o autor de A violência Totalitária irá. Compreender a ideia de socialidade torna-se. Chittó Gauer . Para tanto 135 136 HORKHEIMER. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. nada mais é do que um fenômeno recorrente. cit. Michel. portanto. assim. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. para reativar e revigorar a socialidade. A revolução serve. em última instância. por meio da reforma. sendo que a sua utilização. p. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. nesse sentido.. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. p. para Maffesoli. ganha aqui um caráter mais específico. embora relacionada ao conceito freudiano. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. a função unificadora do Estado e aquilo que. 137 MAFFESOLI. p. 138 A revolução.. op. 108 Ruth M.

na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. No exame do processo revolucionário. op. para o autor. Reformas e revoluções estão. 139 Nessa perspectiva. cit. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. A potência. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social. por sua vez. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. de um modo ainda mais específico. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. por si sós. nas palavras do autor. situadas na própria manifestação da socialidade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . É na conjugação das diferenças que. afirma que “a revolução não é. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. o Marxismo. 124. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. então. 95. As críticas ao racionalismo instrumental. Michel. já analisadas por muitos autores. que não são e nunca serão. mudança de estrutura. 139 MAFFESOLI. pp. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. Ao analisar. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. Desse modo.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. os elementos constitutivos do fato social. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. 64.. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. para Maffesoli. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. em primeiro lugar. mas mudança de velocidade”.

por sua vez. 281. por um lado. Michel. pp.. 281. capture-se a dimensão do ato criador. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”.. entretanto. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. cit. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. Ainda que não redutíveis entre si. será obtida de cima. nesse sentido. por um órgão centralizador. melhor seria dizer essa interdependência. 110 Ruth M. op. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. o progresso”. O totalitarismo seria. a pulsão de esperança. 193. 243. ou seja. 282. à perda de solidariedade orgânica. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. 156. tal 140 141 MAFFESOLI. pp. agora segundo Dumont. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. essa unidade. a primeira objetiva “amoedar o divino”. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. Chittó Gauer . O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. Se.instrumentalizando a razão. para tanto. cit. Logo. MAFFESOLI Michel. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. desse modo. 140 a segunda “amoedará. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. op. 159. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. O dinheiro na sociedade moderna.

Liberdade. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. permite uma margem de liberdade pessoal. isto é. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. Berthold. uma ideia força na visão de Baumer. Simmel e a modernidade.como analisado por Simmel. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. há muito anunciado por Thomas Kuhn. Jessé. 38. 142 completa o estudo sobre a violência. O aspecto subjetivo. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. cética relativamente ao poder das teorias. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. 39. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. 1998. A questão da liberdade. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. 33. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. Segundo Kuhn. (Orgs. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. segundo a visão de Simmel.). OËLZE. dependência de muitos x dependências de poucos). possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. ou seja. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. porventura. 12. Brasília: UnB. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. pp. como liberdade de movimento. da autonomia tanto social como individual. dinheiro. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. No entanto. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). 10. Tal como 142 SOUZA.

os movimentos que as prolongam. 83. ed. Edições 70. pp. Após uma visita à Rússia. que a pesquisa. pela memória. 92. Matéria e Memória. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. na medida em que as imagens. deduz. modificam o organismo. A análise resgata elementos de toda a percepção. POLANYI. Lisboa. é conquistada e não se pode considerar normal. tornou-se refém da norma. “uma forma mais elevada de análise”. 112 Ruth M. Deve-se considerar. qual seja. se fixam e se alinham nessa memória. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis.. pp. 91. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. criam no corpo disposições novas para agir. Henri. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS. Michael. 90. Topbooks Editora. Rio de Janeiro. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica.refere Stengers. pp. “o registro. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. 101. Martins Fontes. 146 BERGSON Henri. quando um novo paradigma. 145 posto que percepção é memória. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. prolongando-se em ação nascente. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. Como sustenta Bergson. p. 2. Para Bergson. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. nascida no seio da liberdade. As políticas da razão. 1999. no entanto. 89. 2003. 11.. 102. Para além destes aspectos. Chittó Gauer . 88. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. uma vez percebidas. 145 BERGSON. 1993. repara-se mais nelas”. conforme Polanyi. A lucidez é um produto de crise. cit. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. São Paulo. op. e. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. A lógica da liberdade. Isabelle.

calcada na razão moderna. criar um hábito do corpo. gera resistências das mais variadas formas. tornar-se-á cada vez mais impessoal. ser efetivamente a memória por excelência. organizá-los entre si e. Salo. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. a lembrança aprendida. Das duas memórias que acabamos de distinguir. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. montando um mecanismo. CARVALHO. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). Ruth M. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente".imediatamente perfeita. Lumen Juris. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito.). aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. isto é. “Criminologia e interdisciplinaridade”. Sistema penal e violência. cada vez mais estranha à nossa vida passada. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . 2007. a primeira parece. Chittó Gauer (Org. Rio de Janeiro. aliás. No entanto. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. pois coloca em xeque a base epistêmica. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. O contrário. Esse hábito. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. portanto.

O político e o cientista. mas porque acreditam nele” 149 . cit. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. via de regra. Para o autor. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. 148 149 WEBER. Presença. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. fundada sobre normas racionalmente criadas. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. 114 Ruth M. 10. o processo de criar poder. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. este é. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. Lisboa. obediência livre. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. pp. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Max. Chittó Gauer . Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. p. WEBER. 12. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. fundamentalmente. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. Assim. 3ª ed. 1979.. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. Max. op. portanto fogem à racionalidade. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. 11.

onde cada mitema designava um feixe de relações. combinatória. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. é diacrônico. Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. estrutura fonológica. 23. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. por sua posição no contexto. sintática. como elementos de um segundo discurso: o mito. e ao mesmo tempo pré-significativos. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. e em um segundo nível. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. Em um nível mais baixo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . seu tempo é irreversível. São significativos dentro da narrativa.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. Busca uma lei geral. O mito é fala. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. Otávio. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. formal. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. cit. Este se decifra por meio da linguagem. alude ao que passou. p. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). que são frases ou orações mínimas que. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. op. ao mesmo tempo é idioma.. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. Para comparar mito e linguagem.

o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. tal foco de atenção teve notório destaque. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. entre os quais Ruth Benedict. Assim. 1955 e El Individuó y su Sociedad. Sándor Rado. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. Harry S. Juntos. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. Chittó Gauer . Abraham. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. Tornou-se claro. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. por outro. mais especificamente. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. Durante os anos 30. para alguns. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. nessa atividade interdisciplinar. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. Principalmente nos Estados Unidos. 151 Ver KARDINER. 116 Ruth M. 1945. entre o incesto e a adivinhação. Sullivan e outros. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. México. Ralph Linton e Cora Du Bois. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. Anna Freud. México. então em franco desenvolvimento. O estruturalismo não pretende explicar a história. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. Fondo de Cultura Económica. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. Fondo de Cultura Económica. esta é apenas uma das variantes da estrutura. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa.

hipoteticamente.. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. cit. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. en otras palabras. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. fixados apenas de modo filogenético e. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. Así.. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. difieren de una sociedad a otra. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. 8-9. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. elaborou o conceito de personalidade básica. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. por outro lado observou-se que as culturas.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 . por motivos compreensíveis. para las diversas familias que forman dicha sociedad.se a humanidade. ob. além de serem diferentes entre si. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. Abraham Kardiner. 152 Embora os antropólogos. secundado por Ralph Linton. pp. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. Os comportamentos humanos não seriam. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. sino más bien a los sistemas proyectivos. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. aunque nunca idénticas. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. portanto. constituídas como faces especulares da mesma realidade.

as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. por exemplo. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. portanto. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. dogma. No entanto. mas sim doutrina. 153 118 Ruth M. Psiquiatría Dinámica. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. plenas de um grande potencial. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. C. durante a década de 30. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. como. debe decirse que la antropología estadounidense.. Buenos Aires. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção. Del estudio de la bibliografía antropológica. Kardiner. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. como duas disciplinas relativamente novas.. Editorial Paidós. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético.... 153 Este psicanalista conseguiu obter. Los llamados “neofreudianos” (Horney. 469. por sua vez. durante los últimos años. Fromm y otros) han ejercido. ou seja. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. Antes de comentar esse aspecto. Adler. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. como se sabe. Podemos ver. 1958. Franz Alexander e Helen Ross. gran influencia sobre los círculos antropológicos”... “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. para bien o para mal. As defecções de Jung. Chittó Gauer . citado por Henry W. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina.trabalho “sociológico” de Freud).. Não teoria. Brosin.. Os antropólogos. No entanto. a psicanálise e a antropologia. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo.. Kluckhohn. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. p. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. fé e crença.

em uma primeira versão. por exemplo. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. que passou a ser entendida. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. adotar. Abraham Kardiner. Assim. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. apesar do afastamento. Desse modo. diante disso. tais dados. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. p. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . Foi a partir dessa postura que. como Fairbairn e H. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. neste texto. infestadas ideologicamente. Sullivan. As instituições155 responsáveis. Ora. Retornando à contribuição de Kardiner. de certo modo. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. 47. predominante entre os membros de uma determinada cultura. em uma acepção ampla. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. nas primeiras décadas do século XX. ob. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”.mecanismos da cultura e da psique humana. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais).. as teorias raciais. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. ou dar maior importância. Cabe não esquecer que. como sendo a típica personalidade modal. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. extremamente heterogêneos. cit. em termos mais simplificados. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica.

seriam destinadas. e “domesticada”. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. em primárias e secundárias. as instituições secundárias. por exemplo. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). das manifestações dos mecanismos inconscientes. minorou. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. Chittó Gauer . tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. os mais variados sistemas de crenças religiosas. sob o rótulo de instituições secundárias. em grande parte. um derivado das primárias. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. a uma escala monocromática. Tal se daria. pela formação da personalidade básica. abrangendo instituições primárias e secundárias. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. Portanto. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. Partindo das premissas acima colocadas. o folclore e a religião. No entanto. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. Observe-se que o modelo de dupla causalidade.mútua causação. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. por assim dizer. Por outro lado. com os dois grandes sistemas projetivos. com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). Por isso. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. Kardiner analisou. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. de acordo com Kardiner. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. passaram a ser divididas. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. basicamente. por uma relativamente obscura lógica cultural. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva.

Madrid. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. Cabe observar. a la perversión o la aberración. Malinowski já havia percebido. disciplinamento precoce da sexualidade. em um escrito de 1923. 157 Como se vê. p.do criador da psicanálise. observe-se que. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. matrimônio. los cuentos de hadas y las leyendas. 156 No entanto. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. 378. Marvin. ojibwas e outras. isto é. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. por las costumbres y por las sanciones legales. navajos. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. comanche. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa.. Siglo Veintiuno. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. na vida dos membros das comunidades primitivas. A título de comparação. sistemas projetivos e outros. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. mitos. em si não ofereceu novidades. alor. puberdade. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . todo um conjunto de crenças religiosas. tanala. Una historia de las teorías de la cultura. quase com pretensões de exclusividade. 1985. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. nas ilhas Trobriand. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. Assim. Porém. nas culturas primitivas. indução ao trabalho. a contribuição de Kardiner. Como muito bem lembra Marvin Harris. rivalidade entre irmãos. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. porém. indução à afetividade. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. al igual que en el folclore de estos nativos. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. participação na vida social. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. afirmou Malinowski. e igualmente el de la magia muestra (.. El examen del mito. pomo.) el odio reprimido contra el tío materno. tapirapés. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. Siempre que las pasiones. fatores de integração social. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. 157 Citado em HARRIS.

obrigações. Entre estes. Se estas oscilaram. O selvagem passa toda a sua existência.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. de certo modo. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). pela maioria. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. continuam oscilando. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. cabe registrar que. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. Chittó Gauer . fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. de certo modo. nestas culturas urbanas. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. qualquer indivíduo. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. assim como. ou pelo difusionismo que. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. às causalidades registradas. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. direitos. por assim dizer. Considere-se. além desses aspectos. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. em princípio.

a realidades construídas coletivamente. 1994. e os objetivos de qualquer atividade mental. Assim. por conseguinte. não era de forma alguma aparente como posicionar (. suas origens. de forma alguma. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. significados e distinção não eram. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais.. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. Ao mesmo tempo. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. Em trabalhos posteriores. mais urgente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. por exemplo. como Fairbairn. e MITCHELL. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). Deve-se lembrar que Freud. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. 158 Portanto. para atraí-la a um âmbito próprio. p. Porto Alegre. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. em parte. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. As relações objetais tinham que ser explicadas. XII. do qual Freud é um dos grandes tributários. autores da área psicanalítica. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. Neste ponto.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. Artes Médicas. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”.. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. pelo fato da importância atribuída à cultura e. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. Assim.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. a partir de múltiplas individualidades interatuantes.

H. Fairbairn. de fora para dentro. é claro. portanto. Fromm. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. ao mesmo tempo em que se estabelece.). muito antes disso. em grande parte. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. o modelo primordial de “busca do objeto”. Nas análises das autoras citadas. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. surgem posições. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. onipresentes nas comunidades primitivas. que a ortodoxia freudiana. Ora.(com os objetos externos) na psicodinâmica. Sullivan e vários outros tentaram dar. por ex. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. em detrimento. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. Desse modo. De fato. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. os grupos familiares. pode-se entender que a maioria deles. como já foi colocado. Horney. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. as marcas da personalidade grupal. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. e o trabalho 124 Ruth M. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. Chittó Gauer . Isso não quer dizer. no âmbito da teoria psicanalítica. por esse último modelo. certa primazia às relações objetais. A opção. E. No entanto. ou seja. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. realizadas por Mead. K. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. para a criança.

para Lévi-Strauss. por meio de um duplo movimento. devemos lembrar o pluralismo das representações. pensado às vezes como o “novo”. eficaz. do extraordinário. fortificando e atenuando. Tratado de História das Religiões. 1970. Lisboa. Cosmos. Abraham Kardiner. 129-296. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). a troca restabelece. São Paulo. Editora Perspectiva. Em Alor. do novo. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. Assim. 1997. com grande destaque. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. Assim. na Nova Guiné. nesta pergunta. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. Como diz Eliade.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. pp. a diferença. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. de gerações e de linhagens. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. Para isso. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. como já referido anteriormente. cit.. as primeiras fases de socialização. São Paulo. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. puderam ser verificadas. focalizando. posteriormente. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. Sexo e Temperamento. passam a pensar no outro. temido ou fértil. examinado por Margareth Mead. fundador da sociedade humana. na personalidade do indivíduo adulto. ver Margareth Mead. ver Cora Dubois In. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. ob. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. Mircea. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. seria o da proibição do incesto. nos antagonismos. afirma a existência de um evento originário. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. p. Nesse sentido. 48. “o que é escolhido é implicitamente forte. como características típicas. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. Para esse assunto. Tal evento originário. Gilbert. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. 160 ELIADE. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . 161 DURAND. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. 1969. o diferente. em Totem e Tabu. 159 Lévi-Strauss. Martins Fontes. das convicções ou das situações desestabilizadoras.

mas para apreender os limites de sua própria diferença. 1997. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. Para o ser pensante. Emmanuel. o incógnito. encerrado na totalidade pela qual é constituído. É grande o número de autores que poderiam ser citados. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. da educação e muitas outras áreas. não apenas para observá-lo. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. Sob este aspecto. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. Petrópolis. Chittó Gauer . O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. do direito. Entre Nós. um não existente para si mesmo. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. que foi erigido como categoria autônoma. mas simultaneamente se complementa com ela. Ensaios Sobre a Alteridade. das instituições. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. o estudo das organizações. 126 Ruth M. Frente a esse quadro geral. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. a interioridade se opõe à exterioridade. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. Marshall B. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. entendê-lo e descrevê-lo. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. Para compreender tal fato. Merton. Ao falarmos sobre alteridade. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. 162 LEVINAS. Este é um cosmopolita. Vozes. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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essa proibição não é verbalizada. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. entre outros parentes próximos. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. ninguém pensa em proibi-la. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. 130 Ruth M. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição. entre elas. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. com ela. por outro não a determina. uma monstruosidade. uma transgressão que provoca horror e repulsa. Chittó Gauer . mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. 48-49. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. quando ocorre é visto como inaudita. os tios. Claude. op. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. em um plano diferente. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. Quer sejamos críticos ou liberais. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. cit. as metamorfoses das normas sociais. Nos exemplos de casamentos entre irmãos..primogenitura. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). e de maneira significativa. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. o pai. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. Se por um lado a natureza impõe a aliança. o irmão. e na forma metafórica o abuso de menores. pp. a irmã.

os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. II. não se trata de discutir a sua exclusão. mas todos os domínios do intelecto. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. o universo passou a ser misterioso. as questões teológicas passaram a não ter sentido. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. Cheguei a mim”. A ser assim. surrealismo.norma. Edições 70. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. 170 Apud BAUMER. 1990. na contemporaneidade. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. pp. a natureza tornou-se longínqua. entre outros temas do mundo da academia. John Galsworthy. Claude Lévi-Strauss. Raça e história. disse Mann. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. escrevia em 169 POUILLON. assumem significados sociais diferentes. existencialismo. Lisboa. 123127. que afetou não só a ciência. a arte e a religião. Franklin L. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. incluindo a literatura. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. v. Jean. O pensamento europeu moderno. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. além de deslocamentos contínuos. Lisboa. ou um movimento psicanalítico. mau ou indiferente. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. In. hierarquias variáveis. Para Pouillon. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. Presença. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. trata-se de constatar que. “Na verdade”. Se. 1952. ao invés de diminuirmos as funções da norma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . positivismo.

Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. BERGSON. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. v. Contudo. Entretanto. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. examinados sem pressuposições matemáticas. 172 171 132 Ruth M. nas classes sociais”. nos títulos da dívida pública. Assim. Conferências e Outros Escritos. o homem é inominável. 49. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. Há uma verdadeira descrença. Apud BAUMER. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. São Paulo.1926: “Como agora tudo é relativo. pp. Os Pensadores – Cartas. Trad. desenharia as articulações motoras dele.58. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. 1974. Franklin L. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. a recíproca não era verdadeira. no casamento. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. nas palavras do autor. II. que se aprofundou no século XX. para fixar as ideias. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. nas diferentes formas de energia. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. mas de uma hipótese metafísica. pois não se tratava de uma regra científica. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. no livre comércio. Abril Cultural. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. Assim. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. 1990. Os fatos. O pensamento europeu moderno. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. Franklin Leopoldo Silva. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. Edições 70. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. Henri . Chittó Gauer . Lisboa. ela apenas o exprime numa outra língua”. Dado um fato psicológico.

O realismo repousa na hipótese inversa. Somos aqui 173 BERGSON.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. Em suma. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . Henri. representam duas noções do real. por uma mágica intelectual inconsciente. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. cit. desdobrada e articulada no espaço. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. oferecida pela consciência humana. podemos escolher. enfim. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. op. com efeito. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. As palavras realismo e idealismo. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. em termos convencionais. entre dois sistemas de notação.

Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. numa representação”. Henri. sendo ele uma representação. 174 BERGSON. por um golpe de mágica. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. pela sua própria colocação. Para o idealismo. suprimir. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. representação. que determina a percepção do consciente. contudo. op. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. sugere-nos. uma vez de posse do estado cerebral. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. Bergson concebe. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. pois o problema em pauta. cit 58-59.naturalmente mágicos. Chittó Gauer . esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. 134 Ruth M. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. não poderia. na hipótese idealista. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista.

O olho e o espírito. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. se o real está desdobrado na representação. sem se alterar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. Lisboa. para perceber o universo. 25. a nossos olhos. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. e vê os quadros dos outros. p. isto é. de alguma forma.Aprofundando os dois sistemas. as respostas outras a outras faltas”. então. mas esquecemos que. 1997. uma vez feito. estendido nela e não contraído nela. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. Conservamos o cérebro tal qual é representado. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. no espaço. e. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. o quadro que responde a todas estas faltas. a cor que o quadro espera. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. pois. e vê. Grafilarte. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. erigimos. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. Oscilamos. sobre a paleta.

Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. e que os dois termos são. portanto. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. 2003. Homo Aestheticus. intercambiáveis”. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Chittó Gauer . por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. 136 Ruth M. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. ou um movimento psicanalítico como referi no início. a ser exterior ao homem empírico. o si próprio e a norma. 286. da parte com o todo. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. A Invenção do gosto na era democrática. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. enfim. Então. continua. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. Almeida. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. p. termos em que a ética moderna se formulou. e a razão prática. Segundo Luc Ferry. entretanto. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei.parte de outra. isto é. Coimbra. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia.

o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 . o hedonismo.

as teorias desenvolvidas por Einstein. O conhecimento foi tido como absoluto. Lisboa. da matemática. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. Max Planck. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. da neurociência. As emoções e os sentimentos. Prigogine. universal e eterno. no entanto. Publicações Europa-América. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. O Erro de Descartes. O fim das certezas chegou ao campo da física. Sob esse enfoque. é possível concordar com a ideia de que a ciência. 2000. via de regra. 138 Ruth M. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. A experimentação trouxe a primazia da técnica. cabal. entre outros. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. além de elucidar. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. objetividade. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. Há muito de crença nas verdades científicas. Não é por acaso que somos. Chittó Gauer . pelo menos de forma substancial. Neste sentido. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. e muitos outros. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. desde seu início. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. é cega a respeito de sua própria aventura. neutralidade e generalização. As tradições políticas modernas. Antônio R. 177 DAMÁSIO. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente.

Armênio Amado. Teoria Pura do Direito. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. Presença Ltda. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional.. Metamorfoses do poder. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. de forma precisa. Ariadne Editora. Hans. foi o jurista. Michel. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. ao perder o poder político que o caracterizava. podemos afirmar que o cientista. (Coleção Sophia 002). O Político e o Cientista. 181 MAFFESIOLI. ed. próprio da modernidade.mas também o culto das instituições. Trata-se do estado liberal. Esse estado. 121-122. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. Petrópolis. 2004. João Baptista Machado. 1919) foi aceita pelo autor. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. KELSEN. A ideia moderna de estado (Krabb. Vozes. 180 SÁ Alexandre Franco de.. Max. Seguindo as reflexões do autor. é que permite a emergência de um poder total. principalmente das instituições jurídicas. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. Coimbra. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. pp. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. 4. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. responsável pela construção do estado moderno. 30-31. mas o próprio direito". sem as quais esse sentimento se fragmentaria. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. 178 O autor descreve. 1979. 1996. 1979. Lisboa. neutro e liberal. Coimbra. que afirma: "não é o estado que é soberano. apagou a estética do mundo delimitado". surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. Trad. No fundo das aparências. pp. 178 179 WEBER.

Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. A soberania das formas institucionais. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. Mesmo os fatos mais evidentes. é. mas que assumiram uma verdade. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). como tentativa de eliminar a sacralidade. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. matrizes da sociedade ocidental moderna. a exemplo do estado. Fernando e MARTINS. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. 182 é uma alucinação dos sentidos. GIL. 2002. índice de si mesma. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. 182 140 Ruth M. o princípio secularizador. notórios. em sentido quase estrito da linguagem. A evidência. Revista de História das Ideias. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. de Duns Scot a Husserl. portanto. No entanto. O exemplo da soberania. constitui-se. racionais. portanto. que está inserida nos aparelhos de estado. como diz Rui Cunha Martins. racionais e mecânicas. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 19-20. Esta verdade é excessiva por natureza. Porém. 23. Rui Cunha. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. Modos da Verdade. Chittó Gauer . In. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. v. p. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito.

e transformação contínua nos sistemas culturais. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. François. o conceito de justo (conceito relativo. 1999. p. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. no qual prevalece o estado de direito. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. O sentido da racionalidade é sempre esse. Rui Cunha. 23.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. 185 OST. Fernando e MARTINS. Piaget. Como se sabe. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. um tempo diferente do tempo da segurança. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. que nos aproxima ao estado de natureza. 184 fruto da multiplicação. Revista de História das Ideias. 26. a violência. DP&A. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. v. 1997. De modo geral. 184 HALL. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. GIL. Rio de Janeiro. O tempo do direito. é "celebração móvel". Esse é um problema geral para os governos atuais. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . por outro lado. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. vista mais especificamente como criminalidade. Stuart. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. nas ciências do direito". Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. Modos da Verdade. Na tramitação do processo. denuncia a impotência do Estado. A identidade cultural na pós-modernidade. que não consegue cumprir o seu projeto. A identidade polarizada. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". em que o caráter problemático dos fins. Já não se acredita no devir. In. 2002. tal como analisada por Hall. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. Lisboa. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e.

A insuficiência da lógica 142 Ruth M. ora a violência. e. gerando ora a comunhão. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. própria da modernidade. separou ciência e política. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. ciência e direito. principalmente no campo das humanidades. marcado pela racionalidade falível. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. vista como uma inversão temporal. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. portanto. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. O direito deu lugar à relação frente a frente. assim como todos os campos de saber. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. bem como a duração dos códigos e das instituições. novas questões se fazem presentes. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social.Frente a essa complexidade. dos meios e dos resultados. Chittó Gauer . tal como se acreditava nos séculos passados. A produção normativa. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. O tempo da segurança. que deve ser (re)questionado a todo instante. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. Qual seria o remédio. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. No entanto. A dicotomia sujeito-objeto. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. do estado de direito já não existe. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores.

abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. 1997. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. 187 KERCKHOVE. Ao tomar-se o real pelo real. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. cit. Sua análise continua. impossíveis de mencionar em sua totalidade. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. ambíguas. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. op. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. A heterogeneidade. Derrick de. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. Um dos problemas no mundo globalizado. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. sentimentos. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. Derrick de. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. Lisboa. polifacetadas. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. em suas múltiplas faces. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. todos carregados de violência. Importante observar a conotação dada. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. ou seja. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). Relógio D'Água Editores.

temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. tal como referido por Kerckhove. A violência relatada de forma emblemática. em sua velocidade. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. representa. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. O mundo sem dinheiro.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". nesta leitura. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. trazem informações sobre a violência subterrânea. uma passagem decisiva. Rio de Janeiro. Brasiliense. 1988. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. Forense Universitária. não tão visíveis. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. O evento. 1987. Esses fatos. Michel. Outros eventos. principalmente do supérfluo. Ao lado destas questões inquietantes. no entanto. 144 Ruth M. mas continuamos caminhando. O Tempo das Tribos. Ver ainda O Conhecimento Comum. revela que não sabemos mais qual é o caminho. São Paulo. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. 188 MAFFESOLI. Chittó Gauer . o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. revelam apenas uma das faces da violência. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria.

adverte o autor. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . segundo Lewis. O pensamento europeu moderno. Edições 70. segundo este ponto de vista. cit. 191 KERCKHOVE. a velocidades cada vez maiores. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. op. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. além da preocupação com a instabilidade. 88. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. Entretanto. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". levado a efeito pelo historiador. integralmente dinâmico e nunca estático. Essa doutrina do tempo é. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. fazendo-as correr. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. v. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". o produto da ciência. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. A Ideia de História. I. G. Nele pode-se ler. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. Editorial Presença. Como afirmaria Collingwood. O termo. “isto que a realidade era. uma história. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". um devir. s/d. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. no 189 190 Apud BAUMER. Lisboa. que iniciou em fins do século XVIII. 1990. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. 24-26. pp. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. na literatura e na arte. bergsoniano. No entanto. tal como os futuristas queriam que fizessem. mas sem metas fixas. COLLINGWOOD. no mundo einsteniano. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. ou seja. Franklin L. um processo dialético sem fim. p.. a busca de uma racionalidade. Derrick de. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. Lisboa. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". R. a filha instável do pensamento positivista. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva.

É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. continuamente. tal como visto no início do século XX. e mais as protegemos. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. Chittó Gauer . é esse o paradoxo da aldeia global. A lógica da globalização não se concretiza. Por mais paradoxal que possa parecer. não há treino para o comportamento social e coletivo. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. uma vez que o fluxo é desequilibrado. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. Há várias formas de se falar sobre globalização. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação.entanto. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. Quanto mais noção temos da globalidade. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. mas nem sempre com sucesso. Ainda somos. Porém. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. mais ficamos conscientes das identificações locais. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. principalmente do poder do estado. o novo interesse pelo local. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. O impacto global cria.

a transformação e o perigo. o capitalismo global é. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . o absolutismo do puro. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. ao mesmo tempo. na verdade. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. valores. vê-se face a face com a cultura "alienígena". Assim. a impureza. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. deslocamentos de fronteiras. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. Trata-se de um desencontro cultural. com seu outro. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. Ocidente & Oriente. diáspora. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. com a diferença. Por outro lado. a mistura.desiguais de poder entre Norte x Sul. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. desigual. exótica. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. que. do império do ocidente. Kevin Robins lembra que. prioridades das formas de vida do ocidente. etc.

23. Thomas. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. 13. 5. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194.XIV Norma. 194 KUHN. p. para o autor. cit. cit. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. Thomas. São Paulo. op. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. durante algum tempo. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. 148 Ruth M. A estrutura das revoluções científica. Perspectiva. Para o autor. porém não podemos considerar como tal. 53. ela é. op. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real.. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. 31. 193 KUHN. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. p. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. Thomas. 195 KUHN. 30. p. Chittó Gauer . Thomas. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. p. cit. antes de mais nada. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. 1982. op.

afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. 242. Rio de Janeiro. nós.. Polanyi. A lógica da liberdade. supomos que alguém. mas sim lograr a expressão da personalidade. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. 196 em A lógica da liberdade. cit. op. p. p. 2003. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. POLANYI. Michael. Por outro lado. desejos consciente ou inconsciente. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. Topbooks Editora. Michael. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. Na análise sobre liberdade. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. 291. instintivamente. a plena afirmação de si próprio. de forma intencional. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . na obra de Polanyi. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. um sistema de leis 196 197 POLANYI. lemos. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. coloca-os daquele modo.

teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. intelectuais. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. que não permite eliminar o poder e a punição. no entanto. reflexo do ser-conjunto. Para isso. Temos. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. com sua independência. Chittó Gauer . portando organizadora. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. Tais desafios. dar uma logicidade ao ilógico. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. por outro lado. É importante salientar que essa distinção. ultrapassa a própria lógica da liberdade. assim como fez Freud. O inconsciente. com sua imagem de indivíduo-átomo que. estrutura das sociedades simples e antigas. O século XXI vê-se frente a desafios morais. no entanto. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. tal como colocado por Freud. ao mesmo tempo a liberdade. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. distingue-se dos outros. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo.contratuais que garanta essa situação e. assim como não resistiu ao charme do limite. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. seja um sistema de ordem espontânea. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. Neste sentido. não eliminou a banalidade do universal abstrato. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. éticos. entre outros. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. que pensar em deslocamentos. empenhada em espezinhar a razão moderna. por ser único. o pensamento falante manobrável tentou. mas sobre os que não podem se proteger dela. o primeiro não. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis.

insatisfação. A diferente face da desagregação social aparece. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. vista como a negação da independência. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. é stricto sensu a desestruturação social. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. pandemias. No entanto. etc. tanto as de repressão. o mundo como progresso. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. em atos de violência. geralmente. privilégios. Os dados científicos. com a conotação moral que a envolve. perversidade. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. que se revelam como explosões de inquietação. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. A estrutura perene de nossa história. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. Os antagonismos revelam-se. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. não podem ser interpretadas de forma linear. poder. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. desagregações. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. diferença. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. epidemias. como as de coerção. hierarquia. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. pobreza. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 .

projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. Editora da Universidade de Brasília. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. não é. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. Brasília. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. 199 BOBBIO. Norberto. ao mesmo tempo a liberdade. enquanto ação socialmente intersubjetiva. como poder controlador e limitador da violência. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. Já a vontade jurídica. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. No entanto. cit. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. O direito seria um regramento entre subjetividades. Chittó Gauer . na medida em que é condicionada. alienígena da sociedade. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. Direito e estado no pensamento de Kant. 72. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. Norberto. ela está fundada sobre dois alicerces. mas sim entre os arbítrios dos homens. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. op. 1984. os fins que ambiciona. 198 152 Ruth M. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. p. 71. nessa situação. seja por um sistema BOBBIO. Assim.

seja um sistema de ordem espontânea.jurídico pelo qual se administram as leis. ultrapassa a própria lógica da liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .

200 154 Ruth M. 200 é possível iniciar esta reflexão. quando inerentes à modernidade. Além disso. Abril Cultural. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (.. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. incertíssimo por sua própria natureza. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. violência. Os Pensadores. dentro de âmbitos que são. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. São Paulo. Chittó Gauer . nunca deixou de estimular. uma emergência que. Giambattista. Segundo o autor. simultaneamente.. batizada de civilização dos indivíduos. 1974. Se há alguma novidade.) este mundo civil VICO. Caracteriza-se.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana.. assim. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. a sua própria transgressão. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. Em termos de uma transgressão necessária. a velocidade e a crise de valores. (. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. acerca dos problemas acima mencionados. como é sabido. afinal. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. já muito antiga. trad. “O humano arbítrio. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. o da busca de valores. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. que são as duas fontes do direito natural das gentes.XV Juridicidade. Seleção.. de Giambattista Vico. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

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BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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criado pelo modelo Iluminista. o homem possui um cérebro temporário e improvável. pp. Por outro lado. a memória de ninguém. diversos. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. Chittó Gauer . hoje. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. Estampa. A 206 207 MAFFESOLI. Lisboa. átomo perfeito que lembra Deus. Michel op. de resgate de sociabilidades perdidas. 158 Ruth M. O Inumano.identitária. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. assim como das tradições. velozes. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. cit. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). Convivemos. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. com capacidade máxima de síntese. Este conceito. Jean-François. fascinantes. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. 15-28. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. ao fim e ao cabo. talvez. LYOTARD. dá lugar a uma estética do nós. 69-70.. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. 1998. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. trabalhado por Maffesoli. Logo. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. é a era da globalização do homem. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. pp.

O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. a origem e o fim. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. do local de nascimento e do Estado nacional. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. tempo-luz). como centro de referência. Paul. e. VIRILIO. Publicações Dom Quixote. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. do local de habitação. 209 em suas conclusões sobre identidade. Entre Nós. pp. as quais produzirão um novo eu. Claude. (Org. 124-125. simultaneamente. Vozes. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária.busca desse homem hoje é o grande desafio. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. Como lembra Lévi-Strauss. Grasset. 1993. Paris. que traz novas e inesperadas combinações culturais. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. Lisboa. Emmanuel. pp. mas sim a celebração do hibridismo. LÉVI-STRAUSS. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. 11-39. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. La Identidad. 36. da mistura. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. p. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas.). A inércia polar. muito embora seja indispensável como ponto de referência". Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. todavia. A estrutura dessas relações sociais exige. é para ela que nos encaminhamos”. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. Ensaios sobre a alteridade. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. Rio de Janeiro. 1977. 1997. da impureza. 210 LÉVINAS. esta é "uma entidade abstrata sem existência real.

está ligada à ideia de identidade. no entanto. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. II. e assim. 212 MAUSS. António. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política.de cada indivíduo. Marce. no processo de modelagem das relações sociais. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. maior prudência. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. da destruição. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. é um aumento de todas as formas de violência. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. superando a análise kantiana. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. estaria desaparecendo. etc. vista como a condição natural. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. Nossa noção tradicional de self. 1995. ou até à absorção por esta. No ensaio sobre a dádiva. Publicações Europa-América. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. da produção. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. uma entidade transitória. o que leva a uma sensação de morte. a morte da identidade construída por meio do individualismo. O que vemos. pp. v. No entanto. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. Chittó Gauer . fragmenta a sua imagem. perde seu sentido. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. para muitos. O Erro de Descartes: Emoção. Lisboa. 1974. porém. 39-49. Sociologia e Antropologia. EPU/EDUSP. São Paulo. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. A ideia de perder a identidade. configurando a identidade nacional. Razão e Cérebro Humano. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. 160 Ruth M. Nesse sentido. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. transformando-se em um modelo de simulação.. do tempo cíclico.

pp. Jessé. OËLZE. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. Simmel e a Modernidade. O dinheiro. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo.. que vai até o Iluminismo. em qualquer caso. A verdade moral está na Bíblia. cit. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. fundador do individualismo. 214 Pelo contrário. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. Nesse sentido. Berthold. Gilles. 25-30. pp. Dentro desta perspectiva. 32. Brasília. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. assim como outros ramos do saber. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. nos mandamentos divinos. Por tratar-se de um fato social. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. Estas fases. outras “assumem significados sociais diferentes”. 1998. porém. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos.). mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. por essência liberal e pragmática”. tem uma história. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . A ética. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas. e que pode ser a medida de todas as coisas. Editora da UNB. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. finalmente coisificou o humano. devem ser questionadas. que é impessoal como as leis. 22-30. Portanto. O paradoxo. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. vulgares. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. E por ser deveras custosa essa tarefa. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. 214 LIPOVETSKY. op.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. (Orgs. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”.

que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. a própria dignidade. que promove o presenteísmo. A 162 Ruth M. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. não se prestam a nada). a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. se não são uma felicidade. assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. e pensamos que seja ainda mais grave. O caso brasileiro não é diferente. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. fraude fiscal). família. remuneração escondida. entre elas. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. encarrega-se de dissolver as permanências. sindicato. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. entre outras). o bem-estar individualista. A própria velocidade. o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. Chittó Gauer . pode ser indicado para a maioria dos países. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção.racionalidade). tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. escola. No Brasil. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. 3) A terceira fase da moral. estimula os desejos. A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. que Lipovetski chama de pós-moralista. o ego. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista.

Cita. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. no altar da Família. Gilles. Por fim. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. que já não acredita no futuro. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. A liberdade trava. da Pátria. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. em uma lista de 17 qualidades morais. enquanto tal. a moral a la carte “não é a ideia do dever. Para o autor. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. na nota abaixo. ou seja. o valor da renúncia suprema a si próprio. Existem em França dois milhões de voluntários. sendo. sobretudo. da História.. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. como exceção. éticos): direitos humanos. pois não estamos no grau zero dos valores morais. Mas esta é apenas uma das facetas. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. as mulheres que assim o fazem. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura.000 assalariados a tempo inteiro. cit. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. Na Inglaterra e nos EUA. pois. pp. apesar do quadro preocupante. limita e impede a própria liberdade. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. honestidade. op. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. o caso da Madre Teresa. voluntários. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. 34-37. Os exemplos que citamos. de vez em quando. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. do Partido. apesar de estar fora de moda. ao que dizer que.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. Isso está deslocado no tempo. Mas. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. que se afunda. da Humanidade” 215. Para Lipovetski. com a prioridade incondicional do altruísmo. O autor refere que “quando se pede para destacar.

a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. pela intelectualização e. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. sacrifícios altruístas mínimos. 217 216 164 Ruth M. “indolores”. ter filhos por encomenda. viver em concubinato. espetacular. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. a la carte. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. A era do após-dever. censura pornográfica. 2000 p. No que diz respeito à violência. intermitente e. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. A família sobrevive. Duas Vocações. torcidas organizadas. principalmente. do que de grandes cruzadas moralizantes. LIPOVETSKY. caracterizada pela racionalização. Lisboa: Piaget. entre outras repressões. entre outras questões não menos importantes. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. na supervalorização das festas. como honestidade e respeito às leis. Ciência e Política. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). na cultura do presente. 217 Como visto. São Paulo. Chittó Gauer . a delinquência juvenil. melhor dito. p. IN: A sociedade em busca de valores. ao mesmo tempo. repressão total em matéria de drogas. Há. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. As práticas da solidariedade. no entanto. 29. epidérmica. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. ou seja. Gilles. Max. o que vale é o aqui e o agora. por exemplo. que podem ser escolhidos. Martin Claret. torna-se sentimental. passando à moral a la carte. última forma do consumo interativo de massa”. 2002. extremismo higienista. o aumento de pequenas violências no cotidiano. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). mas com a condição de que possa divorciar-se. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. Como a caridade mediática. incapazes de resolver os WEBER. descomprometidos. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. “a moral não desaparece. 57.

entre eles Simmel. sobretudo. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. do surgimento do direito natural. priorizar a ética da responsabilidade. Louis Wirt. No entanto. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. por um lado. Louis. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. op. o expõe. dos valores.). Ao descreverem a lógica da individualização. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. Nas sociedades SOUZA. para Dumont. ELIAS. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. pragmática. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. Daí. Vários historiadores e sociólogos. Nas análises. permanece. fundada em uma ação ético-liberal e. a hierarquia. Robert Ezra Park. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. OËLZE. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. produz o indivíduo na sua autonomia e. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. 1992. Difusão editorial.concretos problemas sociais. Rocco. ao mesmo tempo. Berthold. 220 DUMONT. os problemas da cidade. Lisboa. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. do direito subjetivo. cit. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. O Individualismo. Por outro viés. simultaneamente. Da mesma forma. A busca da excitação. 1985. Rio de Janeiro. Norbert. por outro. (Orgs. Jessé. 218 analisam os problemas da cultura moderna. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão.

Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. 221 166 Ruth M. 1999. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. o indivíduo. ao mesmo tempo. 730). O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. 1269). das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. “opções existenciais”. o sustentava. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. Isto é. que antes não tinha de fazer. A nova posição. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. ao mesmo tempo. supostamente própria do universo. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. a incorpora. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. Rio de Janeiro. mas. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. p. Martins Fontes. de maior precisão conceitual. da "eliminação" das diferenças. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. ou seja. dos grandes códigos modernos. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. como projeto a ser alcançado. p. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. com ele. Chittó Gauer . Vocabulário técnico e crítico da filosofia. opções morais” (moral a la carte). porque lhe eram impostas pela estrutura social. Em outra fonte léxica. Nova Fronteira. caracterizadamente holística. leva-o a “opções de vida. No entanto. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. 1986. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. termo de sentido filosófico que significa a tendência. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. São Paulo. liberta-se dela.

Na tradução oficial. a humanidade é. Problemas como o desvio social. O desafio do século XXI. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. tal como pensado no Ocidente. um recém-nascido. Religar os conhecimentos. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. possuir os mesmos direitos. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. embora balizada atualmente. afirma: “no campo jurídico. Da mesma forma. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. Acesso à humanidade em termos jurídicos. por óbvio. p. o terrorismo. na verdade.. na realidade é extremamente subversiva. Não a encontraríamos". criou a forma mais expressiva de violência. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito.poderia ser considerada igual e.. Seria possível pensar dessa forma na China. ausência do estado. Lisboa. 227. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. Complementando a análise. Significa qualquer Homem. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . No entanto. O título sugestivo do capítulo. Mireille. independentemente de qualquer condição. Se isso fosse viável. e em nenhum a palavra “humanidade”. No entanto. Esta noção. Piaget. bolsões de miséria e violência. Nesse sentido. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". apenas para citar os exemplos mais conhecidos. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito.]. [. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. A busca da igualdade. 1999. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito.

comum. leva ao consensual. simultânea a uma realidade única. o que impede relativizar em termos jurídicos. na igualdade. não consensual. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. eliminando os discursos dos direitos. Chittó Gauer . tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. Os direitos humanos. 168 Ruth M. legitimadas pelos direitos internacionais. em todos os níveis sociais e políticos. Para além dessa façanha. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. As diferenças se manifestam com violência. é eliminada pelas teorias do consenso. tal como o pensamento moderno o instituiu. derrubou o que restava da crença na unidade. vêm recebendo reações diversas. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. O discurso pensado como projetivo. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. A busca de um pensamento heterotópico. dos direitos humanos. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. Os resquícios dos totalitarismos.

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