A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Ruth M. Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .

Lévi-Strauss.br http://www.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av. 2009. 2. RS .br/orgaos/edipucrs/> 1. 1290. CDD 340. Arquivo. Ipiranga. Chittó Gauer. – Dados eletrônicos.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs.edipucrs. Diploma da Fundação da Universidade. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. I. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. – Porto Alegre : EDIPUCRS. Normas Jurídicas. Título. ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre. 4. Direito.com. 175 p.br . 3. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer.© EDIPUCRS. Filosofia do Direito. Claude – Crítica e Interpretação. 6681 .pucrs.

Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.Ruth M. Chittó Gauer chitto@pucrs. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL. .br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra.

Para meus filhos Gabriel. minhas netas. . Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa.

meu “lar” acadêmico em Portugal. Quero aqui mencionar. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. de encontros e debates. no entanto. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. fruto de uma longa convivência. início dos noventa. O mais relevante. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. . durante o período em que escrevi minha tese. com ênfase. a psiquiatria e a filosofia. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica.

........... 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo............................................................................................................................................. 138 XIV Norma...... mito e memória .................................. 16 A sedução da norma: fato social total ............................................. 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma ............ 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação................................................................................ 154 BIBLIOGRAFIA ................................................................................... 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise .... violência........................................ 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos ............................. 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ................. 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ........ 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ................................. 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana................... 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ......................................................... 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora.............................. ciência e autenticidade ...........................SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ......................................... 169 ................................................................................ 148 XV Juridicidade...........................

texturas. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. sendo continuamente reinterpretado. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . em certo sentido. conciliando. Buscou compreender o obscuro. de forma harmônica. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. odores. cores. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. Desse modo. como tradição histórica. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. sentidos. sabores.

p. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. é necessário. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. No entanto. 1975. pitoresca. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. 1 10 Ruth M. para um universal constituído por relações de complementaridade. superando a MERLEAU-PONTY. conosco. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. rumou para as diferenças absolutas. mas um universal lateral. então. op. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. a antropologia. 2 MERLEAU-PONTY. Para Merleau-Ponty. a questão do Outro e do Mesmo. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. Sabemos que. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. 1 que. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault.Aceitando. 363-365.. tomando a alteridade como objeto. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. contrariamente a essa tentativa. distante. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. para a convivência dos incompatíveis. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. Chittó Gauer . Para o primeiro. da diferença e da identidade. o aparelho de nosso ser social. a síntese à que ele se refere somos nós. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. Na análise das estruturas elementares de parentesco. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. Os Pensadores. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. Abril Cultural. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. no entanto. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. com Merleau-Ponty. pois vivemos na unidade de uma só vida. p. cit. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. 383-396. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. em antropologia. Com efeito. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. porque diferente. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. Maurice. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. São Paulo. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência.

conforme Bergson. para além desta. Para Arthur Miller. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. ainda. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. como diferença”. Franklin L. I. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. O Pensamento Europeu Moderno. como fomentadores do erro. de modo algum. alienando a sua função principal que é conhecer. uma espécie de contador da existência. Edições 70. 4 BAUMER. No entanto. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. que englobou a norma e. um mito (grifo nosso). o fato e o valor. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. Bergson. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. Henri. em Bergson. No entanto. se revela a si própria através de nós. o ‘balanço vital’. Maurice Merleau-Ponty. que funciona mal no abandono do sonho. Durand acredita que. destroem-na. v. Edições 70. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). O Pensamento Europeu Moderno. no sentido dado pelo direito natural moderno. pp. ensaia uma ruptura. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. São Paulo. Vila Nova de Gaia. A desvalorização da imagem não corresponde. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. isto é. Paris. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. Flammarion. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. ou ainda como um objeto fantasma.dicotomia sujeito-objeto. desenvolve seu íntimo. p. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. 39. Elogio da Filosofia. Martins Fontes. No entanto. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. sem consequências. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. Na busca pela compreensão da verdade. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. 5 BERGSON. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . 38. 290. 1999. se mexe. p. Sendo assim. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. 1990. mas esta. 1996. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. I. São Paulo. segundo ele. Martins Fontes. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Nesta visão surge a lei. uma história. 369-370). ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. para Durand. mais do que ser. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. pois ele ainda reduz a imagem à memória. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. p. p. Fato. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. 1997). v. Vila Nova de Gaia. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. 1990. Matéria e Memória. 39. As teorias que falam sobre a imagem. não se estabelece. Franklin L Baumer.

de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. apenas visto como uma questão de especificidade. o que denomino humanidades. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. Mesmo no período iluminista. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. no ato de conhecer. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. com a função primordial de normatizar as sociedades. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. pode se constituir em um problema. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. No campo das humanidades. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. justamente a crença na “verdade” científica. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. a literatura e outras. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. O enfoque da diferença é. que permite a sua “evolução”. grosso modo. As ciências humanas datam do século XIX. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX.ciência. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. Ao corpus antigo. ainda que para fins de melhor compreensão. não se descolaram do conhecimento antigo. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. Isso que significa que os cientistas dessa época. portanto. Chittó Gauer . corresponde. Partimos da premissa. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. 12 Ruth M. e também se constata nas ciências humanas. criando muitos espaços de debate. juntamente com uma visão fundamentalista. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. não impediram que se sacralizasse uma nova crença.

Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. a biologia passou a explicar. para a convivência dos incompatíveis. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. como Tylor. São Paulo: Abril Cultural. para um universal constituído por relações de complementaridade. 1975. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. Nos finais do século XIX. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. A divisão tradicional entre as ciências humanas. para alguns darwinistas. P. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. diminuindo. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. Spencer e Webb. deslocando a análise do macro para o micro. Para tanto. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. tomando a alteridade como objeto. assim. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. Maurice. ou seja. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade.dando margem ao inumano. A antropologia. A teoria da relatividade e a física. b) Freud. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. empírico-formais e exatas. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. logo. desde os finais do século XIX. Para Merleau-Ponty6. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. passou a sofrer vários abalos. c) Lévi-Strauss. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. basta pensarmos no século XVII. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. d) Foucault. In: Os Pensadores.

no entanto. que “devemos. o que há de exprimir não é mais diferido. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. Há. p. que “por mais que a palavra. buscando. incluíram o rigor das demais ciências. escreve o autor. não é a prece nem o direito.U. enfim./EDUSP. é expresso pela palavra. à civilização. a arte é imprescindível. a negação. no momento. assim. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. MAUSS. porém. Logo. v. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. Na visão de Mauss 7. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. o fato social não é uma regularidade compacta. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio.de desenvolvimento semelhantes. de produzir-se. o afrouxamento do método e. 1974. No século XX. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. 363-365. cit. mas o homem como cimento afetivo. Marcel. pois. e. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. necessariamente. independentemente da localização espaçotemporal. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais. portanto. op. E.. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. o Não. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. logo em seguida. que se ter presente que as linguagens – palavras. Sociologia e Antropologia. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. O “verdadeiro”. Contudo. Marcel. I. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. São Paulo. 14 Ruth M. desse modo. como explica Saussure. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. no apogeu do estruturalismo. Chittó Gauer .P. Ao lado desse enfoque a antropologia. receba de outros seu sentido. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. os linguistas. contraído de suas relações.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX. Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”.

portanto. Perspectiva. Toda e qualquer escolha dáse. uma predileção por Bergson. norma estrutural do vínculo familiar. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. desenvolvido por Mauss. 9 16 Ruth M. em grande parte. que. 8. podemos notar. Proust. que revela preferências. entre outros fatores. irmãos. presentes de forma significativa no conjunto da obra. o casamento é assumido como um ato individual. tios. Saussure e Breton. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. com base na exclusão do outro consanguíneo. a proibição do incesto. encontramos o sistema de parentesco atual. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. dialoga com o pensamento filosófico. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. está baseada no “fato social total”. os mitos. uma desconfiança em relação à filosofia. nos autores clássicos. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. A ser assim. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. Otávio. em especial com a fenomenologia e se inspira. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. o pensamento selvagem e a filosófica. entre outros –. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. o religioso e o artístico. de certo modo. marcada pela liberdade de escolha. uma escolha psicológica. São Paulo. porém. sentimentos. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. ao analisarem a estrutura de parentesco.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. interesses. p. Toda a obra de Lévi-Strauss. 1977. Mauss. por exemplo. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. contudo. Chittó Gauer . Sob essa estrutura.

U. particularmente. passagem que ocorre com a fundação da norma. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. 12 MALINOWSKI. que revela o oculto. Lisboa. na obra de Lévi-Strauss. as capas invisíveis. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. pela busca da relação entre o sensível e o racional. a pintura. Segundo alguns de seus intérpretes. E. Anagrama. Barcelona. El método de la antropologia social.P. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. 1975. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. v. um super-racionalismo. a poesia e o mito. A contribuição de Lévi-Strauss. Podemos identificar. Alfred. Ferdinand. I. Bronislaw. metaforicamente. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). 1995. Um corte vertical. além de Marcel Mauss. Paris./EDUSP. a fundação da norma se dá como um processo de violência. SAUSSURE. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . Poderíamos. A compreensão do visível é dada pelo oculto. Curso de linguística geral.a passagem da natureza para a cultura. Sociologia e Antropologia. Dom Quixote. 10 a presença marcante de Saussure. Journal d’ethnographe. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. Ëditions Du Seuil. 1985. Marcel. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. 1974. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. 13 RADCLIFFE-BROWN. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. isto é. No campo da estética. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. São Paulo.

dito de outro modo. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. mas apresentam uma racionalidade imanente. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. o historicismo e a fenomenologia. Foram as ideias de Mauss. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. pensa a estrutura como um sistema. ahistórica. Assim como os fonemas. seus elementos (oração. O fonema é um campo de relações. O signo tem um caráter dual: significante (som). que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. ainda que tais leis estejam ocultas. uma estrutura. no entanto. sistema sempre normatizado. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. significado (sentido). Chittó Gauer . palavra. portanto. mas como um sistema marcado por coesão interna. 18 Ruth M. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. mitologias. desse modo. Lévi-Strauss. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. como no caso da fonologia. arte. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. leis. mas participa da significação. economia. No que se refere à fundação da norma. O fonema não tem significado próprio. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. o significante que precede e excede o significado. Cada sistema (parentesco. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. as relações de parentesco são elementos de significação. A linguagem é um sistema de relações. apenas adquirem significação participando de um sistema. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema.conforme a antropologia anglo-americana. classificação. como uma estrutura. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. logo. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais.

não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. como a linguagem. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. Em ambas. em seus estudos sobre o parentesco. 17. A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. Para Lévi-Strauss. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. a significação e a nãosignificação. portanto. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. cit. 14 PAZ. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). 14 Ao contrário de seus predecessores. não tendo. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. op. p. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal.. mas consequência da proibição. carregada de interpretações filosóficas. binária (isto sim. jurídicas. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. um conjunto de operações que transmitem mensagens. não origem. A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. Otávio. A proibição também não aparece entre os animais. são um sonho simbólico. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto.religião) é um sistema de signos. Essa crítica. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. uma origem biológica ou instintiva. Apesar das inúmeras interpretações míticas. o pensamento e as coisas. a regra. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). Lévi-Strauss. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). de acordo Otavio Paz. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. aquilo não). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 .

em si mesma. portanto. p. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. cit. Chittó Gauer . pode-se dizer que não há uma oposição. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. constitui a sociedade. embora pareça não ter justificação biológica. Esse tabu. Otávio. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. Frente à análise sobre a fundação da norma. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. à linguagem. como na linguagem. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. ou seja.religiosas e míticas. o significante e o significado. pelo menos lógica. uma norma inflexível. A proibição do incesto. este Sim funda o homem. a norma proibitiva.. inflexível. agora. que não se defronta consigo mesmo. mas. na significação do espírito. a fundação da norma se deu com a negação. carece de sentido ou de fundamento. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. 19 20 Ruth M. metáfora. é na própria diferença que a encontramos. o espírito: algo que é nada. de todas as leis. considerada a fonte de todas as normas sociais. de toda moral e de toda punição. alcançar uma generalidade universal. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. e esta. nem razão de ser. Para Lévi-Strauss. Logo. fonte de todo limite. equações. ao trabalho e ao mito os homens são homens. mas não de utilidade: graças a ela. Se for possível encontrar essa generalização. é a raiz de toda proibição. constitui-se ao mesmo tempo na norma. a posição. op. segundo o autor. Faz-se necessário compreender. símbolos. no fato e no valor. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural.

Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. antigos e modernos. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). para Lévi-Strauss. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . traçado na estrutura inata do espírito humano. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. subjacente a cada instituição e outros costumes. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. naturalmente. 133. o da comunicação procurada. 1952. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. obrigação e necessidade. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. Para Lévi-Strauss. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. fundador da sociedade humana. afirma a existência de um evento originário. p. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. o mesmo problema se apresenta. em Totem e Tabu.cultural. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. Presença. Claude. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. como o cremos. ainda. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. de levar a análise bastante longe”. Tal evento originário. Em ambos os casos. Raça e história. é a sua condição para o êxito. que esta é a oposição entre lei e universalidade. sob a condição. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. Faz-se necessário ressaltar. Lisboa. Lévi-Strauss. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação.

do incesto. entre natureza e cultura. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. Vozes. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. estrutural. Para Lévi-Strauss. 18 MICELA. comunicação através dos bens e dos serviços. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). com a consequente regulamentação da troca de mulheres. pp. 1982. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. necessária e imposta pela exogamia. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes.. Essa troca constitui-se. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. São Paulo. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. de caráter trans-eventual. Ao nível das estruturas elementares. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. comunicação normatizada. estando situado entre ambas. Chittó Gauer . adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. Petrópolis. ao contrário. para o autor. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). esse universal. sem pertencer integralmente a uma ou outra. essa proibição “não é de origem puramente cultural.. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. Rosaria. Ponto de encontro e articulação. nem de origem puramente natural. Brasiliense. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. Claude. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. o passo fundamental graças ao qual – e. Assim. 18 Na verdade. de resto. o momento da passagem da natureza à cultura. Antropologia e Psicanálise. comunicação por meio das mensagens. 22 Ruth M. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura.). e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. portanto. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (. 1984. 70-71. dada desde o inconsciente.

é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. Nesses casos.tenha afirmado. a humanidade. o fato de que o planejamento de organizações. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. ou. necessariamente. ainda. Claude. pelos mais variados fatores. A norma. em particular. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. encontra-se fora de nós. de posturas psicológicas. Grasset. a permuta da própria nacionalidade. nossos sistemas de parentesco. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. como ponto de referência coletivo. em suas conclusões sobre identidade. muito atomizado. Há. é um espaço em branco no mapa das emoções. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. muito embora seja indispensável como ponto de referência". A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. La Identidad. para a maior parte dos homens. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. Este aspecto leva a considerar. da economia. (Org. 1977. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. é possível enquadrar nesse modelo. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. pensada como estrutura. elevada a um plano de destaque. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. no entanto. e em nós como função simbólica. 19 não é exagero dizer que. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. àquelas de onde provêm. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. direta ou imediata da natureza. ou seja. Mas.). sendo a negação simples. nos sistemas naturais e sociais. 11-39. A passagem às estruturas complexas do parentesco. seguindo a reflexão do autor. sua singularidade. para isso. pode-se revelar altamente inoperante. ao menos “idealmente”. pp. Paris. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real.

caracterizada pela emancipação do indivíduo. nas relações sociais. com o surgimento do indivíduo moderno. consciente de si mesmo. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. Segundo Merleau-Ponty. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. cit. Chittó Gauer . ao surgimento do direito natural. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. que coloca a natureza perante si. 365-366. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. p. A autonomia constitui uma marca da modernidade. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. vinculado à qualidade única do ser humano. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Considerando que. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. 24 Ruth M. MERLEAU-PONTY Maurice. com Descartes. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. Se. aos valores. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. ao direito subjetivo. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. a autonomia aparece para o indivíduo livre. em todas as instâncias da vida. op cit. nas escolhas de vida. Logo. a dominação técnica e a história acumulativa”. a normatização sofreu alterações significativas. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. principalmente o direito. sonhos românticos). Esta ideia demarca as instituições.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. agora separado do ser social e político. como objeto de conhecimento. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. op. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos.

na medida em que as trocas não se dão por posição social. Rio de Janeiro. 13-79. no mundo urbano individualizado. como do amor conjugal. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. Portanto. 1997. A sociedade dos indivíduos. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. anteriormente determinantes. no conjunto da sociedade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . não obedecem a uma lógica exterior. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. a partir dos séculos XV e XVI. que se apresenta como base para a liberdade. para o afrouxamento do controle social tradicional. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Zahar. 22 ELIAS. vão se constituindo. características das sociedades tradicionais. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. mas também máscaras de proteção. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. ao contrário. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. com ele. modos de agir. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. pp. Norbert. as maneiras de educação.Do ponto de vista sócio-histórico. este por si só constitui espaço para a liberdade. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta.

quanto mais nos individualizamos. cit.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. e mais essa necessidade surgirá. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. O Antigo Regime e a Revolução. Michel. 25 ELIAS. Berthold. com as quais cada um deve se conformar. Jessé. na medida em que. Neste sentido. que se. paradoxalmente. Chittó Gauer . O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. Simmel e a Modernidade. 27. Ed. Michel. em si mesmas. Nau. mas sim certos domínios de saber. cit.). Aléxis de. Louis. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. Quanto maior for a liberdade. ao mesmo tempo originário e absoluto. 26 Ruth M. Brasília. Norbert. Rio de Janeiro. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. Segundo Foucault 27. p.. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. se formam o sujeito e as relações com a verdade. maior a socialização. também é desejada. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. quanto maior o individualismo. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. a conformam e dela decorrem. A Verdade e as Formas Jurídicas. Brasília. OËLZE. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. 1999. por outro o expõe. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. domínios nos quais. dizemos que a liberdade tem seu custo. maior seu custo. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. 1998. Rio de Janeiro. 27 FOUCAULT. mais nos socializamos. Editora da UNB. produz o indivíduo em sua autonomia. Rocco. 142. se poderá fazer uma história da verdade”. por um lado. a nossa sociedade funciona por normas. 1979. SOUZA. (Orgs. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. UNB. op. 1985. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. para o autor. op. ela. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. como encargo muito difícil de ser cumprido. paradoxalmente. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. isso sob o prisma da norma social. 28 FOUCAULT. 26 DUMONT. assim. não por acaso. do conhecimento.

Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. hoje “acelerada” de modo irreversível. mais necessitamos de regulamentações. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. mas constitui experiência de todos os dias. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. mesmo das vinculadas às leis científicas. é possível falar da incerteza da liberdade. durante o século XX. O que podemos constatar é que. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. O indivíduo se atomiza. O único laço que permanece é o de natureza institucional. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. é produto da própria liberdade. esta socialidade. mais especificamente no pós-guerra. portanto.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. não é somente um valor. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. considerado o aspecto mais significativo. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. A igualdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . deste modo.

Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. Claude. 31 LEVI-STRAUSS. tudo está inter-relacionado. por princípio e por fim. estéticos. religiosos. pp. 32 Se. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. Antropologia estrutural dois. alma. tudo se mistura. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. seu modo de organização e sua função diferencial. a linguagem do direito. 14-15. sociedade. op. pp. econômicos. 28 Ruth M. pp. 14-15. o aspecto vivo.. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados.. op. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. para cada um desses códigos. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. Claude. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. Ao invés de aparecer como um postulado. também. 14-15. em suma. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. Tempo Brasileiro.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. Rio de Janeiro. morfológicos ou outros. permitindo. 14. a totalidade social se manifesta na experiência. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. Claude. 32 LEVI-STRAUSS. ligado. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. Chittó Gauer . poder-se-ia dizer. cit. integral. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. Para o primeiro “a totalidade consiste. cit. como diz Mauss. 1976. op. cit. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. p. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. Claude. 30 LEVI-STRAUSS. parece que. na teoria do fato social total. desta maneira..

nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. a liberdade – uma forma de organização social. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. nada deixou escapar. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 .. 16-17. um interesse privilegiado. ou ainda estudar as normas sociais. pp. direito. cit.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. no entanto. história. LEVI-STRAUSS Claude. a justiça. levada até as categorias do inconsciente. 19. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. desse modo. O autor reconhece. nos diz respeito de forma total. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. assim como não podemos. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. ciência política. objetos. portanto. também. como muitos pensam. Claude. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. cit. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. pensada como tradição. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. entretanto. oferecendo-nos. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. apesar de tudo. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. em sua visão. com o qual não podemos.. 18. Há. O signo. Neste caso. a partir dos elementos de sua existência social. 17. independentemente das coisas que lhes correspondem. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. Todavia. op. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. op. pp. confundir-nos opera.

a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar.que se insere. Quando se comunicam os homens conversam. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. No campo da antropologia a mitologia. p. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. no nível biológico. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. cit. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. Chittó Gauer . ao menos provisoriamente. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. junto ao significante. ao mesmo tempo. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber.. Clifford. escrevem. segundo Geertz. 22. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. 36 35 30 Ruth M. op. GEERTZ. segundo ele. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. se deve ao fato de que. segundo as premissas que apresentamos. gesticulam. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. Destas transformações.

a exemplo do Brasil e da Índia. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. 2001. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades.lições de Geertz. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. a história e a teoria literária. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. Geertz é. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. em primeiro lugar. provavelmente. em disciplinas como a psicologia. desconsiderando. Jorge Zahar. mas também fora de sua área. Geertz fala do panorama da antropologia atual. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. logo. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. No final. Nova Luz sobre a Antropologia. Em segundo lugar. São Paulo. torna a análise muito problemática. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. de acordo com ele. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. GEERTZ Clifford. entre outras coisas. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. Explica que. Na entrevista. a própria passagem do tempo. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. Na opinião de Geertz. não apenas as chamadas sociedades simples. A antropologia de matriz norte-americana é. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio.

elas fazem parte do repertório da antropologia. direito. literatura. Robert W. história. São Paulo. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. Neste caso o niilista não se importará com nada. não tentará buscar compreender nada. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. Chittó Gauer . Ela tem que perceber qual é. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. como economia. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. 10. Antropologia jurídica. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. historicamente. contingência. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. Mas isso não é niilismo. 1987. nem começaria a interpretar. p. de vagueza. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. Saraiva. mesmo assim são respeitadas. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. o Marrocos ou o Brasil. In: SHIRLEY. que estuda tudo. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. sem dúvida. A análise interpretativa da qual fala Geertz. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. 32 Ruth M. regras. se esforçando para explicar as diferenças em geral. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. política. a análise de suas normas. não interpretará nada. indeterminação. Muitos juristas.completamente geral. que diz estudar o "Homem". não tentaria ao menos começar a entender os outros. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. a exemplo de Hans Kelsen. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. hábitos e leis sociais. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas.

40 SHIRLEY. se preferido for). isto é. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. Em especial. São Paulo. ostracismo ou morte. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. sobre o comportamento do indivíduo. Robert W. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. por outro lado. forças políticas estruturadas pelas instituições. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. e regras secundárias. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. Saraiva. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. Antropologia jurídica. normas da sociedade referentes às primárias. p. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. como no caso das sociedades modernas. isto é. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. esses dois planos compõem as estruturas sociais. obra em que. 1987. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. como crítico da metafísica (ou do humanismo. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. ou seja.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. subjugadas e ignoradas. exílio.

p. 42 41 34 Ruth M. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. Livro Ibero-Americano. O ser da metafísica é o ser mutilado.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. rememora o ser e o ente para além da presença. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". Para Heidegger. Ruth M. Chittó. 1946. Chittó Gauer . O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. op.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. 162. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. afirma o autor. Ortega y. VI. Madrid. O pensamento da diferença. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. p. Gianni. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. Obras. igual e eventual. Ao contrário de Geertz. Alianza Editorial. enquanto a temporalidade. 42 Há. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. GAUER. no entanto. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. apenas a rememorou. 1977.. esquecido da subjetividade). 43 GASSET. Meditações do Quixote. 2006. nega o ser como fundamento. O reino da estupidez e o reino da razão. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. 71-92. sem estruturas. 44 GASSET. José Ortega y. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. De acordo com Vattimo. cit. plenitude da presença e estabilidade una. ou seja. op. sob essas premissas. v. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. que “mostra também um momento VATTIMO. São Paulo. para Heidegger. cit.

O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. p. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. O século XX. na significação que nos interessa. O destino trágico. Rompera até com a cultura moderna. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. segundo o autor. afinal. Editora da UNB. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. abertura do pensamento e da cultura. Jessé. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . revelado por Marx. Com esta análise em mente. Berthold. OËLZE. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. mas perigosa. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. não sujeito a mudanças. sendo que. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. como fizera o século XIX. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. no sentido tanto decadente quanto criativo. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. o devir era uma das categorias principais do pensamento. pela ética e pelo direito. é um exemplo deste fenômeno. (Orgs.‘escandalosamente temporário’. resultado do domínio das coisas sobre o homem.). podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. cujo movimento na sociedade. SOUZA. mas também sem normas ou raízes”. Brasília. Simmel e a Modernidade. 10. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. No final do século XIX. 1998.

hindu e germânico. 1974. o autor refere que às funções. EPU/EDUSP. por um lado. de direito não formulado e direito formulado. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. nossas antigas civilizações. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. Marcel. de toda a sociedade. I. de alienação e de troca. pois nem tudo pode ser formulado. 131-132. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. v. da família. a família. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. 234. culto 46 47 MAUSS.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. muito antigo”. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. 48 MAUSS. entre outras. Sociologia e Antropologia. Na opinião de Mauss. romano. Assim como na passagem natureza-cultura. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. como a semítica. EPU/EDUSP. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. Sociologia e Antropologia. São Paulo. o Não. op cit. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. Marcel. e. Esta forma de instituição. Segundo a análise. São Paulo. com elas. p. aos cargos. e a dádiva por outro. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. as pessoas e as coisas”. Sociologia e Antropologia. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. Marcel. op. uma mistura de direito público e direito privado. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. p. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. Do mesmo modo. v. v. I. às honras. 49 MAUSS. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. 234. II. cit. Chittó Gauer . Para o autor os direitos costumeiros são. Marcel. p. 1974. MAUSS. 36 Ruth M. de alguma forma. negativa que contém um Sim afirmativo. a grega e a romana.

da autoridade e da punição. assim como a importância das coisas. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. “Patricius”. exclui a relação de paternidade física. traços que se mantiveram na época clássica. 1969. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. da propriedade. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. “Atta” educa a criança. em sua origem. figura do nome divino de Júpiter. a morte do pai. “Patricius”. 207-212. da herança. como já vimos. de fato. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. o que. não foi obra de legisladores. a maioridade biológica. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. Minuit. v. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. portanto natural. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. não separa os filhos. propriedade. Paris. “Patrius” se refere ao pai não físico. descende de pais livres. mãe). o descendente de pais livres. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. I. pp. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. herança. estruturou-se nos mitos.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. do sânscrito “Pitar”. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. autoridade. “Pater”. que é lido como “Pai Celeste”. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. liga-se à relação de parentesco. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. contudo. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. Éd. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. esta só lhe é conferida. Èmile. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. exprimindo uma hierarquia pessoal. seu auxiliar nas funções sagradas.

das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. a pretexto de não fazer sentido algum. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. op. cit. 139.. embora tenha sido eliminada. A etimologia já fora proposta antes. por seu espírito. cit. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. Marcel. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. o nexum. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. Chittó Gauer . cit. a esse título. pp. Seguindo a análise.. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. prestam-se para este estudo. 133-138. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. 135-136. sem dúvida. segundo Mauss. Marcel. quanto mais remontamos à antiguidade. ou seja. pp. p.se submetiam à sua autoridade. Sob este aspecto. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. Outros termos de direito. 54 MAUSS. ao contrário da natureza. casa. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. o “vínculo” de direito.. A religião. além de família e res. MAUSS. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. é bastante notável que. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. no entanto. Como observa Mauss. 53 O contratante é primeiramente reus. não concede a maioridade aos filhos. bem como um certo número de formas desses contratos. isto é. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. 38 Ruth M. MarceL.. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. a que aproxima do sânscrito dhaman. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. além dos vínculos mágicos e religiosos. pp. Entre os direitos analisados. seu réus. A melhor etimologia de família é. op. que parte tanto das coisas como dos homens. Marcel. segundo Mauss. op. e que se torna. op. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. 53 MAUSS. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. o nexum. cit. 135-136.

de um ‘processo’ público. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. supondo que o termo res é.) de inferioridade espiritual. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. cit. (.. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. op.coisa”.. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. “a origem do contrato. p. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . “ao contrário. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. todas as teorias do “quase-delito”. Desse ponto de vista. Há autores que traduzem res por “processo”. Mas essa tradução é arbitrária. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. segundo o autor. sobretudo. um termo processual. do nexum e da actio. Como se pode observar. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Marcel. e rei-jetos por “implicado no processo”. investigar e decifrar os mistérios da natureza. o indivíduo possuído pela coisa. ficam um pouco mais esclarecidas. se nossa derivação semântica é aceita. que apresenta o seguinte: 55 “1°. Para Mauss. A imagem. o sentido de culpado. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia. com mais forte razão para reus. crescida à sombra do racionalismo. acabou por ter um efeito perverso. 3°. 140. 2°. enfim. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. o culpado e o responsável”.

Essa busca. Discurso do método. pp. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. já que deixa de haver um princípio organizador único. religiosa. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. deslocando. política. ao fazê-lo. 58 DESCARTES. O individualismo. as res que dela faziam parte. isto é. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. A criação do paradigma da modernidade. o sentido da palavra família. 1985. passou a regulamentar de forma especializada. 56 40 Ruth M. corpo-espírito. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. lícito e ilícito. pp. op. O sentido implicado no “processo”. Rio de Janeiro. ou seja. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. Lisboa. razão e emoção. cit. pessoas e coisas. 117-118. econômica. antes uma acepção secundária. um dos princípios que. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. segundo Dumont. passa a ter uma acepção difusa. Louis. jurídica. Rocco. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. objetividade e subjetividade. por uma pluralidade de centros de poder. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição.. isto é. foram deslocados. A base tutelar da família foi fragmenta. A exemplo do direito. foi fragmentado. de um “processo” público. mas por uma pluralidade de outros. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. 57 DESCARTES. O Iluminismo. res. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. 80-85. uma vez que o centro. pp. René. cuja base se encontra na obra de Descartes. 57 permitiu o surgimento do dualismo. no entanto. Chittó Gauer .mistérios da natureza. Edições 70. Para Dumont. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. não foi substituído por outro. especializou-se e. por sua vez. dicotomizando tanto coisas como homens. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. René. assim. 12-16. 1993. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão.

totêmica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz.seu famoso Discurso. da observação. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. mas afirma. isto é. buscou substituir várias autoridades. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. em determinado ponto. que “Os cegos vêem com as mãos”. Esse conhecimento. da investigação. no entanto. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. por meio da experiência. mítica e religiosa. o modelo de visão do autor é o tato.

mas. Chittó Gauer . da tradição e de instituições que a precederam. está estruturada em uma concepção “natural”. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. Barcelona: Barral Editores. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. Sociedad y ciências sociales. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. Marcel. de uniformização. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. da mesma forma que os da língua. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. a exemplo do exercício do poder. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. não por estarem superadas em face das transformações econômicas.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. a consanguinidade. 1970. com base na crença da ciência. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. trocamos mensagens. 42 Ruth M. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. estéticas e políticas das sociedades. que possui o indivíduo como melhor exemplo. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. 321. Obras III. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. p. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. A criação dos símbolos modernos. As transformações das instituições jurídicas. A separação natureza-cultura. respeitamos regras. 320.

62 DESCARTES. Abril Cultural. outras categorias foram derivadas. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. Tal postulação inspirou-se. por exemplo. pp. o que fazemos. pois. São Paulo. portanto. Abril Cultural. como. segundo este último. 1973. p. 63-73. criadas em sociedade. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. “sujeito-da-razão”. à procura do significado”. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. A interpretação das culturas. 61 A partir daí. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. mas como uma ciência interpretativa. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. além de não eliminar a norma fundante. São Paulo. Os Pensadores XIX. Os Pensadores XV. René. proibições. 15. que não conseguiram eliminar a regra geral. O crime e o castigo seguem convenções legais. 1974. pp. Clifford. o indivíduo moderno. escolhas.sobre o pensamento e a ação. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. quando 60 61 GEERTZ. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . não como uma ciência experimental em busca de leis. denominada legislação em sentido amplo. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. Gottfried W. São “versões” da vida em sociedade. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. de conhecer as diferentes “realidades”. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. imposições. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. porém não conseguiu eliminá-la. teias. em parte. Zahar Editores. 81-153. Rio de Janeiro. as categorias coletivas. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. LEIBNIZ. 1978. como já referido. apenas releu a forma. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. e como devemos realizar nossas ações em sociedade.

estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. pp. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. Os Pensadores XVII. sujeito da modernidade. reelaborado também pela visão de Locke. Hobbes. 44 Ruth M. elementos esses que seriam. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. sem dúvida. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. no entanto. 1973. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. a partir de sua análise. elaborando a composição de orientações diversas. em Locke. Locke e Rousseau. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. Abril Cultural. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. Ao refocalizar o velho (e original. Chittó Gauer . Para muitos autores. John. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. o “eu penso”. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. assim. do conhecimento e da prática. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. É. Tentou-se. O “indivíduo soberano”. Por outro lado. A partir dessa posição de Descartes. São Paulo. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. 139-348. vistas como ontologicamente diferenciadas. no sentido heideggeriano). além de outros como Hobbes e Kant. com capacidade de raciocinar e pensar. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. determinado pelo “cogito ergo sum”. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. irredutíveis. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos.

O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. jurídico e político. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. Rio de Janeiro. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. Outra prova é que. Tanto é assim que. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”.estejam separados por uma fronteira intransponível. Rocco. no final do século XIX. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. 64 Essas questões. após as críticas da escola histórica. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. Todas as correntes concordam. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. por exemplo. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. Contudo. precisamente porque fundada. mas o modo de abordá-lo (a razão). enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. no entanto. e os formalistas como Kant e Fichte. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. 1985. Na verdade. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. Não há dispersão. todos pertencem à mesma “escola”. no entanto. e sim manutenção dos mesmos objetivos. mas um princípio metodológico. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. finalmente. mas sim uma unidade metodológica. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. não eliminam o intento comum. Kant e Fichte consultar Louis Dumont.

Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. p. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. e foi definido. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. A base seria não uma lógica do provável. como modelos estáticos. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. Alemanha e outros países. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). elas passaram para uma forma mais coletiva e social. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. No século XVIII. IV. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. e “eliminou” todas as diferenças. 1967. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. v. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. portanto. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. 65 46 Ruth M. no entanto. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. o referencial filosófico-social básico. a redenção do Siècle des Lumières.paradoxo da modernidade. Chittó Gauer . Payot. As teorias clássicas liberais de governo. George. no interior dessa grande estrutura. sepultura da medieval fé em Deus. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. Nesse sentido. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. sustentáculo da sociedade GUSDORF. 183. o Estado-nação. mas o método. O que caracteriza. Paris. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. Há. da Europa chegou o progresso. progrediram as ciências na Inglaterra. ainda submersa no platônico mundo das sombras. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas.

inversamente. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. Estigma. e estas. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. 1982. ou seja. Essas identidades não estão. “englobaram” todas as diferenças. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. E.moderna. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. gerando. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. entre o sujeito e seu entorno. certamente. o estado. As culturas nacionais. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. assim. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. Erving. Goffman. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. necessidades e interesses. argentinos. os numerosos estudos sobre caráter nacional. Zahar. Ao mesmo tempo. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. entre eles. etc. No entanto. criadas por meio de tetos políticos. fenômeno 66 GOFFMAN. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. Nesse contexto. por outro lado. Basta recordar. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. impressas em nossos genes. nesse sentido. gestada ao nível da razão simbólica. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. uma comunidade simbólica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . Os indivíduos soberanos. Obviamente ao nos definirmos como tais. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. para isto. a qual é. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. com suas vontades. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. ingleses. Rio de Janeiro. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. primordialmente.

desde os finais do século XVIII. a atenção. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. com suas vontades. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. As diferenças regionais. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. políticas. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. religiosas.este de índole essencialmente contemporânea. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. dominação e hierarquia. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. há décadas atrás. posteriormente. consequentemente. nas sociedades ocidentais. à cultura nacional. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. Chittó Gauer . já no início do século XIX. étnicas. Os indivíduos soberanos. A lealdade e a identificação foram localizadas. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. O modelo interativo. entre outras. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. No caso brasileiro. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. necessidades e interesses. junto ao estado-nação e. O tema da nacionalidade. No início do século XIX. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. que exprime as formas originais de 48 Ruth M.

como já afirmamos. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. tornaram-se a figura central da lei. um fato e uma norma. As idiossincrasias sociais. é prescrito. O individualismo. liberdade de escolha. 269. No entanto. há que se salientar a importância da norma. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. por outro lado. com suas vontades. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. Embora essa dissolução tenha ocorrido. que a norma não seria um efeito da sociedade. 1985. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. pelo próprio sistema de representações. em muitos casos. mas a própria sociedade em ato. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. e por assim dizer. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. Rio de Janeiro. 67 “o valor está imbricado.relações sociais. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. ou o valor se vincula ao indivíduo. assim como não há indivíduo. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. não há lei sem a impessoalidade. Louis. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato.270. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. pp. Como refere Dumont. necessidades e interesses. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. as quais configuram a estrutura social. Rocco. não havendo. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. o que tem por separar a ideia de valor. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . neste caso. que. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. o valor e a norma. a negação da ordem escravocrata. Em se tratando de sociedade moderna. Os indivíduos soberanos. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade.

nada articula. No entanto. a norma. Chittó Gauer . abre toda a significação. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. o fundamento primeiro do fato social. 50 Ruth M.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. op. propôs uma noção de duração não bergsoniana. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. op. 1973. pp. Os Pensadores. cit. antropologia e psicanálise.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. pp. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. é antes criação”. o mundo. Gaston. como se a terra. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. São Paulo. 757. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. 68 69 BACHELARD. da física e da química não apenas um avanço. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. Gaston. Um segundo fundamento. sobretudo. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. Na física. pois permite repensar a crise da ciência moderna. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. e entre vários filósofos. Abril Cultural. no decorrer do século XX. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. p. cit. Gaston. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. 756-758. Após o relativismo do racional e do empírico. mais do que uma simples descoberta. Os Pensadores.. 70 BACHELARD. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. de Bergson a Bachelard. BACHELARD. versando sobre a descontinuidade. 756-758. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’.

desde a psicanálise até a cibernética. Lisboa. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. 35. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. Companhia Editora Nacional. 1986. 2000. do mito e do “pensamento obscuro”. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. Gilbert Durand. Difel. 76 BASTIDE. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. Roger. 2001. p. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. São Paulo. a psiquiatria e psicanálise. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. do onírico. por exemplo. op. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. Edições 70. a antropologia. O Pensamento Selvagem. São Paulo. 76 são exemplos destas análises. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. 73 Sigmund FREUD. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. a história das Ideias. Papirus. cit. São Paulo. 71 Para Durand. 75 CAILLOIS. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. Roger. 3ª ed. Todavia. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. Claude. Deus. O Mito e o Homem. Rio de Janeiro. o Simbolismo e o Surrealismo. A Interpretação dos Sonhos.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. 74 LÉVI-STRAUSS. segundo o belo título de Henri Ellenberger. 2002. a natureza. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados.. a história e as normas sociais. 72 Gilbert Durand. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. 73 do “pensamento selvagem”. ou campos de conhecimento. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. Chittó Gauer . Sociologia e Psicanálise. Imago. 71 52 Ruth M. 1974. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. cujo resultado. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide.

em termos de interpretação. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. cit. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. 36. entre outras contribuições. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. 77 DURAND. as orientações psicoterapêuticas. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. pois tal comparação confirma. em princípio. Seguindo essa linha de investigação. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. Freud. Gilbert. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. op. Alexander.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. p. conclui que. Assim não há. as assertivas de Lévi-Strauss. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. Bion. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. Hartmann e tantos outros. baseadas na obra de Jung. Para Durand. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica.. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. de certo modo. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. extremamente minuciosa e complexa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . uma vasta compilação e análise. Melanie Klein. mesmo sendo arbitrários. a razão. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. o importante é a existência de significados que. Portanto. a função do sonho. já de matiz clássica. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. como de fato o são.

por uma confrontação de seus DEVEREUX. que é a psicanálise. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. Esta forma moderna da técnica xamanística. semelhante a tantas outras. a partir de um modelo explicativo. frente à sua realidade existencial e concreta.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. que pode ser coletada e que. portanto. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. Ou seja. tira. veracidade e exatidão de uma teoria. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. qualitativamente diferente do pensamento científico). Portanto. como comentário correlato. por sua natureza científica. 1975.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). senão no próprio homem. Neste. 78 54 Ruth M. como estas. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. para Lévi-Strauss. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. No entanto. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. De qualquer modo. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. Cabe. Chittó Gauer . não há mais lugar para o tempo mítico. Buenos Aires. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. por atingir as causas reais da perturbação.. que se opõe.. Georges. pois. mencionar a posição de Georges Devereux. Etnopsicoanálisis Complementarista. Amorrortu Editores. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. Desta constatação. o que não se daria com as últimas.

na passagem para o século XX. O papel primordial atribuído à razão. 1970. E. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. Freud. ainda nos tempos atuais. como já havia dito Spinoza. 224.” 79 Veja-se. por sua vez. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. para o citado autor. ou seja. Rio de Janeiro. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. Nesse contexto. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. elaborou. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. soturno e traiçoeiro. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. Na verdade. permite a via de acesso ao inconsciente. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. com a linguagem dos símbolos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. está 79 LÉVI-STRAUSS. p. da força das emoções”. No caso específico de Freud. Claude. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. Antropologia Estrutural. no homem ocidental. Assim. portanto. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. Tempo Brasileiro. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. ou formulação de uma identidade.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. tal análise é simplista. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana).

em nenhum sentido. na qual se destaca E. tanto Darwin como Freud. do mesmo modo que Freud. Com essa posição. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. recriar os modelos universais. A contribuição de Ferdinand de Saussure. um duro golpe ao narcisismo humano. não deu atenção à dinâmica psicológica).profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. tentando. não só em áreas específicas. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. nossas identidades. Ao contrário. E isto Darwin o fez mostrando que. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. a psicologia. a sociologia e a antropologia. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. Para Freud. em última instância. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. tal como a ciência moderna havia proposto. dessa forma. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. o que correspondeu. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. que traz consigo o desenvolvimento da razão. mas. nessa busca. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. também contribuiu para essa crise do conhecimento. a descoberta do inconsciente. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. Kraepelin. Correspondendo ao espírito da época Darwin. Afirmou Saussure que nós não somos. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. logo existo”. Acertaram. em outra área de pesquisas. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. Quando Freud buscou a subjetividade e. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. de certa maneira. com ela. Chittó Gauer . Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. encontrou. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza.

Atualmente. nesse sentido. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. A língua é. em uma relação um-a-um. a opinião de Georges Devereux. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. por exemplo). é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. não podemos utilizá-la para produzir significados. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. superando as contingências do relativismo.nos comunicarmos. em virtude de considerações de ordem variada. Essa foi. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. por exemplo. tal questão está em grande parte superada. Devem ser consideradas também. Ela pré-existe a nós. por exemplo. os de normalidade e anormalidade. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . e este fato mantém uma conotação de atualidade. Por outro lado. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. Este autor optou por uma definição de normalidade que. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. O significado das palavras não é fixo. Lembremos que. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. de natureza teórica ou não. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. para fins de análise histórica. um sistema social e não individual. No campo da etnopsicanálise. o par de termos opostos noitedia). com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. No entanto. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. Porém.

o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. dando sentido e ordem ao universo e que é. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. de Freud. Para Durand. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. nesse ponto já superado. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. que possui uma conotação de natureza mais universal. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. 58 Ruth M. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. basicamente. Chittó Gauer . Caillois e Bastide. em certa medida. para lançar em descrédito a psicanálise. Na concepção de Durand. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. Todavia. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. lançada por Lévi-Bruhl. sem dúvida importantes. por muito tempo. discutir a questão da alteridade. da qual um grande número de culturas seria excluído. Mesmo assim. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. que anima a mente primitiva. que antecedem uma maturidade mais plena. mesmo no chamado mundo civilizado. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria.

Porém. faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo.O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise.

Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. Os Pensadores. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. evitando isolar-se em abstrações excessivas. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. 60 Ruth M. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. Giambattista. nos século XVII e XVIII. como França e Inglaterra. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. seleção. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. Evidentemente. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. a posição marcadamente anticartesiana. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. O humanismo renascentista. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. notadamente.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. concepção defendida pelos estruturalistas. 1974. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. trad. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. que se difundiu por toda a Europa. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. Abril Cultural. Chittó Gauer . assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. São Paulo. A partir de meados do século XVI e. a Itália mergulharia no ostracismo cultural.

pouco encontrava que me convencesse. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. p. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. Editora Universidade de Brasília. Por outro lado. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. René. contida no cogito. ergo sum. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. em sua opinião. desprovida de sentido. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. ou seja.ao método matemático era. que careceriam de demonstração lógica. 1981. a ideia VICO. pois ele não se cria a si mesmo. formulada por Descartes. 82 Dessa forma. a partir do modelo matemático. Discurso do Método. Giambattista. 81 Ao mesmo tempo. a perda de seu atributo de certeza. pois existiriam produtos humanos fundamentais. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. “a história no exílio. isto é. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem.. colocava. 38. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. por fim. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e.. como a poesia e a história. op cit. é que o próprio criador a tenha criado. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. 83 Ibid. segundo o autor. 36. Brasília. Conforme afirmara: “a verdade é que. Dessa forma. p. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. DESCARTES. pois repousam no verossímil. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo.

leis. Os Pensadores. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. 88. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. à crítica fundada na razão. Nessa perspectiva. G. A Ideia de História. colocada entre o falso e o verdadeiro. R. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. s/d. A reflexão do filósofo napolitano considerava. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. VICO.. seleção. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. ainda. governos. pois. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. etc. justamente por ser o homem produto desta. Giambattista. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. libertando-a da dependência das fontes escritas. trad. o filósofo napolitano oferece a tópica. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. segundo Vico. Chittó Gauer . Editorial Presença. 85 84 62 Ruth M.de que as proposições matemáticas. 1974. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. Lisboa. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. O autor separou a história das ciências da natureza. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. p. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. Abril Cultural. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. Como diria Collingwood. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. São Paulo. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história.

a fim de que. de um lado. vinculando esse direito às tradições. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. os tratados de paz. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. incertíssimo por sua própria natureza. tais como os costumes e as leis. Se uns e outros tivessem feito isso. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. as alianças. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . Segundo Vico. a fim de que. historiógrafos e críticos. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. tanto em seu território. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. como as guerras. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. quanto fora dele. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. ao menos a vontade repouse sobre a consciência. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. dotado de vontade. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. as viagens e os intercâmbios comerciais.deles conhecidas e antevistas”. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. “O humano arbítrio.

XVII. generalizável como totalidade. portanto. que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e. Chittó Gauer . 64 Ruth M.

VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. A razão prática. O evolucionismo. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. 88 ou teoria da utilidade. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. 87 paradigma da igualdade. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. de interesse utilitário. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. El antropólogo como autor. circunstância que compartilha com todos os organismos. Marshall. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica.. consultar: Marshall Sahlins. independendo da questão temporal ou geográfica. como teoria explicativa da diferença. Cultura e Razão Prática. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. op. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. e Clifford Geertz. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. Paidos. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. 1979. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. No entanto. 87 SAHLINS. a razão prática. cit. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII. Barcelona. Zahar. Nesse sentido. 1989. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. Rio de Janeiro.

Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. da hierarquia entre evoluído e atrasado. as invenções e descobertas de certas sociedades. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. desatrelada do tempo histórico e. levou a antropologia do século XIX. estrutura e função. dessa forma. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. portanto. Nesse sentido. A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. conhecer a diferença. para o progresso. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. e em muitos casos até boa parte do século XX. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. e Lewis Morgan (americano). O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia).ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. em um estágio primitivo. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. A definição dos três estágios – selvageria. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. procurou ordenar seus estágios evolutivos. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. ao estudar as instituições. Chittó Gauer . Lewis Morgan. Um dos 66 Ruth M.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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v. tendo a sífilis como modelo. Após as influências dessas escolas. pela visão de seus teóricos. n. dominaram as concepções organicistas. o Brasil deveria se engajar. dez. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. 2002. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. Este “estigma de ODA. Então. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. agregou-se a teoria da degeneração. 92 70 Ruth M. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. intelectuais e comportamentais. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil.br/arquivo/wal1201. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. Arthur Ramos. Juliano Moreira. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. 92 “na segunda metade do século XIX. Psychiatry On Line Brazil. 2001. Disponível em: http://www. Ana Maria Galdini Raimundo. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”.htm. Chittó Gauer . sob circunstâncias apropriadas. portadora de estigmas físicos. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. entre outros. formada de índios. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. Acesso em: 03 jan. Conforme Ana Maria Oda.diferença.med. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça.polbr. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. 12. no qual.” A estas concepções organicistas. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. Um número expressivo de historiadores. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. Para tanto. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. Autores como Nina Rodrigues. 6.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. Nos campos de concentração denominados “reservas”. Chittó Gauer . suicídio. Nesse contexto. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. do quadro social então presente na sociedade ocidental. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. de certa maneira. pela reestruturação política e social do mundo. já havia decretado sua morte. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. nesse rumo. assim como várias outras em diversas partes do mundo. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. neutro e objetivo. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. No entanto. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. É inegável que o século passado. pois ambos operam como uma unidade sintética. apesar das dúvidas 74 Ruth M. associou-se à psiquiatria que. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. do mesmo modo. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. homicídio. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana.de um modo de vida tradicional. a antropologia. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. Tais ocorrências sociais.

assim como as instituições culturais em geral. Esta. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . comportamento. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. como processos dissociativos. com seus quadros de anomia psicossocial. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. de saúde e enfermidade. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. desrealização e. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. temos aqui dois fatores. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. então. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. Por exemplo. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. em síntese. Detecta-se. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. A partir desses fatos. uma patologia. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. sintomáticos de uma patologia mental.“relativizantes”. Este pensamento como que matizou. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. assim como ao nível das culturas camponesas. consolida-se a etnopsiquiatria. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. Por um lado. Como se vê. Portanto. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita.

Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. entre o psiquiatra e o xamã. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. discutível. O critério de eficácia é. critérios transculturais de análise. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. Não se pode afirmar. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. propondo. Nesse caso. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. portanto. e aceitáveis De modo semelhante. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. até. dessa maneira. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. Seriam. a observação feita por Lévi-Strauss. a qual legitima tal fenômeno. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. em princípio. Ou seja. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. pois. um ponto de encontro. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”.qualquer agrupamento social. por exemplo. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. assim. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. Chittó Gauer . mesmo que superficialmente. 95 76 Ruth M. observação e tratamento. convém lembrar. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. incluindo culturas urbanas. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. ao nível do arbitrário. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. Mesmo assim. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. A partir disso.

Rio de Janeiro. uma vez que a psicanálise (assim como. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. “Neste sentido. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. (.. pp.. Portanto. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. Etnopsicoanálisis Complementarista. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. Buenos Aires.. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem. a partir de um modelo estrutural comum. que a doente adquire deles progressivamente. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu.). a reorganização. em linhas gerais. 204-224. mas. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. Claude. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. sem isto. 1975. à prática e ao simbolismo xamanístico. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. Empero.. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico.. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une.” Georges Devereux. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss.) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. 97 Como coloca DEVEREUX. 1970. real ou suposto.. não tem importância: a doente acredita nela. num sentido favorável.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar.LÉVI-STRAUSS. (. isto é. Antropologia Estrutural. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . Amorrortu. 255. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento.. e ela é membro de uma sociedade que acredita. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. Tempo Brasileiro. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. ao mesmo tempo. p. aparentemente tão afastadas.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento.. “(. de outro modo informuláveis. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. (.

Chittó Gauer . por exemplo) como delirante. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. principalmente no processo de tradução. Em um primeiro momento. se for considerado conveniente. no caso. em termos de enfermidade psíquica.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. em si. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. Na verdade. Ruth Benedict e outros. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. com grande benefício. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. utilizando. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. por exemplo. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. a comprovação deste fato não trouxe. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. a sociedade urbana norte americana. assim. melhor transitar no terreno da psiquiatria. nada de inédito. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. Também é fato sabido que. Afirmam os etnopsiquiatras que. Este fato. Como se sabe. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. como Robert Merton. poderão reformular. levou várias décadas para concretizar-se. sua prática terapêutica. Gregory Bateson. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. correspondam ou não à realidade. sem que isso o afete mais profundamente. o comportamento não é o único elemento a ser considerado.

Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. da cultura. 99 No entanto. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. a partir disso. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. no transcurso de gerações. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. e que. se mantêm assim. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. tomados de um terror místico. por exemplo. nesses contextos. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. no século passado. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. como objeto transacional. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . Não há. 99 Assim. Ou seja. e uma possessão patológica. 98 Neste caso. dentro dos paramentos de controle social.esclarecedores a esse respeito. de certa maneira. idênticas a si mesmas. no entanto. indistintamente aplicada. por assim dizer. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. ou seja. como seria o caso da “cultura da pobreza”. às populações primitivas. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. agora ameaçada. atemporais. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. Parece que. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. por exemplo. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. de certa forma. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. muitas vezes encobertas.

2) El principio de las posibilidades limitadas. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. E. 76-77. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux.em seus diversos aspectos. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. esa lista correspondería punto por punto a una lista. em termos mais amplos. Deve-se considerar. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. a normalidade psicológica do indivíduo. op. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. en otra suele estar reprimido. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. Chittó Gauer . pp. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. De los tres postulados que acabo de enunciar. 80 Ruth M. em qualquer caso. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. em princípio. establecida por los etnólogos.. Georges. No entanto. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. Para escapar a esta relatividade. no entanto. cit. y aún se encuentra actualizado culturalmente. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente.

Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. em uma sociedade. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. Estabelece-se. que são considerados como normais e ajustados à cultura. 101 Assim. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. necessariamente. como uma névoa. elimina a tradicional distinção. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. p. cit.) 2) El comportamiento de un grupo. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. acentuada desde Durkheim. de um indivíduo ajustar-se aos papéis.. Coloca Devereux que. que se situa dentro de um contexto de relatividade. 115. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. normalidade mental. ob. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. também... unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”. valores e padrões em geral de uma cultura. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno. embora existam padrões. de limites imprecisos. entre indivíduo e sociedade. Haveria uma área transicional.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais.. se for levada às últimas consequências lógicas. Retornando ao exemplo acima. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade.. Por outro lado. tendo por assentado que esta cultura é normal. Georges Devereux. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 .

e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. na sociedade urbana. Outro aspecto ressaltado por Devereux. de caráter urbano. Um determinado indivíduo. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. de forma alguma. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. por exemplo. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria.dessa maneira. o que não significa. por assim dizer. recusando-a em 82 Ruth M. assim. como se deslizasse por elas. Diante disso. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. a sociedade contemporânea. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. Como se sabe. Mas quanto à posição de Devereux. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. de transformação. como por mudanças de nível “macro”. que envolvem o todo do contexto social. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. Este fato pode produzir diversos resultados. protegido e infragmentável. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. Ou seja. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. Chittó Gauer . Por outro lado. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. produtora de “identidades fluidas”. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. No que se refere ao indivíduo.

sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. na cultura urbana. de qualquer modo. ao mesmo tempo. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . difíceis de discernir. E. é um indicador de normalidade. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores. Mas por outro lado. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. Ela pode ser um fenômeno salutar e.

como se isso fosse possível. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. do perigo. isto é. Relendo algumas passagens do livro. a pureza e a ausência de qualquer perigo. mesmo os mais microscópicos. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. passar. A estética. normalmente associada ao belo. lavar. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. da sujeira. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. principalmente por meio das tarefas femininas. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. mesmo as mais microscópicas. nomeadamente no século XX. p. O tempo de limpar. qual seja: a questão da ordem. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. isso ocorreu. que a autora trabalha. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. 56. A sujeira é um fato que nos repugna. ficamos tentados a reler. No entanto. não menos importante. Esse fato não iniciou no século XIX. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. da impureza. temos horror a certos tipos de sujeira.. Há alguns dias. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. que deve estar livre de impurezas. Mary. assim como todo o tipo de discriminação. Perspectiva. que destaquei há tanto tempo. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. etc. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. com ausência de resíduo. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. quando com elas nos deparamos na estante de livros. Deparei-me com Pureza e Perigo. 1976. ligada às tarefas da casa. Chittó Gauer . verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. desinfetar. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. Pureza e Perigo. 84 Ruth M. São Paulo. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que.

em resumo.pureza. A modernidade disciplinou não apenas os homens. vistos como perigosos. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. A modernidade criou 103 DOUGLAS. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. pois são perigos em potência. Esses locais. do monstruoso. p. cit. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. portanto. do feio. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Na modernidade essa prática continuou. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. assim como a ordem do espaço público. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. do violento. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). buscando os ideais de ordem. perigosas. do disforme. O isolamento. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . também foi submetida à disciplina da higiene). passou-se a isolar casas. exemplo de espaço privado. hospitais. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. tal como foi criado nos tempos modernos. como medida de exceção. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. op. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça.. Mary. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. constituía-se na única forma de proteção.

assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. O individualismo. a sedução das crenças e demais impurezas. Há que se salientar. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. Os modernos esqueceram. 1985. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. Rocco. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. por mais paradoxal que possa parecer. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. 270-274. utopia dos iluministas. seja nos regimes políticos das democracias liberais. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. devem ser purificados ou eliminados. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. a todos os que podem se constituir em perigo. 104 86 Ruth M. seja nos regimes totalitários. Louis. como o nazismo. sem muito esforço. Chittó Gauer . e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. comunismo. Quanto maior a exceção. e está. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. os perigosos. O mundo perfeito. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. transparente e livre de contaminações. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. fascismo. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. pp. a corrupção. jurídicos. porém. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. Rio de Janeiro. administrativos. Os exemplos históricos mais recentes. Quais os procedimentos políticos. Nos estados de exceção. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. maior a igualdade.essa compulsão. presente nas sociedades ocidentais. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea.

entre a pureza e o perigo. pp. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. colocando distância entre a ordem e a desordem. uma coletivização ao extremo. por outro. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. A partir desta constatação. nos regimes democráticos. Coimbra. depurados. isto é. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. na essência e no modelo. limpos. Ariadne Editora. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. Por um lado. Hans. Trad. 5152. Para o autor. do desigual. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . Se representação e identidade constituem. constituída pelo direito. com a tentativa de eliminação do estranho. 34. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. Alexandre Franco de.uma tensão contraditória. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. nas palavras de Franco de Sá. Os perigos precisam ser eliminados. Armênio Amado. a força política se sustenta na medida em que se purifica. Metamorfoses do poder. Esse aspecto traz problemas para a democracia. estruturada na naturalização do indivíduo. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. o exercício da soberania. nesse caso. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. Teoria Pura do Direito. cabe aqui lembrar que. 105 a força de uma democracia. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. 1979. a teoria SÁ. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Coimbra. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. 2004. João Baptista Machado. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. 4 ed. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem..

o diferente. que serviam à identificação dos sujeitos. que lembra sujeira e desordem. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. Hoje esses termos dissolvem-se. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. na atualidade. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. o impuro. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. aquilo. além de outros. tudo o que causa estranheza. do modelo e do antimodelo. em nome da igualdade. perigo. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. isto é.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. op. A soberania da igualdade. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. o anormal. o sujo. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. exemplo de regime de exceção. “raça”. cit. 88 Ruth M. o doente. entre outros. 107 a questão da exceção. que nasceu naturalizada. que visava à eliminação das hierarquias medievais. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. No entanto. sofre evidências devastadoras. nas teses de Schmitt. As práticas políticas adotadas na modernidade. tal como pensada na 107 SCHMIT. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. guerra total. como os nazismo-fascismos. Chittó Gauer . ou seja: isto. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. apud Alexandre Franco de Sá. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. A própria soberania. do sujo e do limpo. enfim. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. “gênero”.

necessariamente. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”.modernidade. do perigo. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. não consensual. no relativismo. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. da inclusão e. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. o duelo entre tradição e modernidade. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. nem sempre descritíveis em sua totalidade. entre outros lugares. que foi cometido pelo seu irmão. sobretudo. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . Eles podem aparecer no desespero epistemológico. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. as famílias dos homens-bomba. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. deixou de ser a norma. locus do “aqui e agora”. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. desconhecendo a questão dos direitos humanos. lugares de negociação em andamento. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra.

todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. ao lado do consenso cultural. Chittó Gauer . enfim. de uma identificação totalizante. segundo Virilio. os fundamentalismos. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. matam o discurso político. Não há preparação para lidar com o erro. tais como pensados desde o século XVIII. ordenadas. Com a superação do eterno retorno. o consensual fica sendo os totalitarismos. gerando a violência. é a velhice do mundo. os desvios sociais. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. Outra pergunta se faz necessária. A impossibilidade de uma verdade única. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. Nesse quadro. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. protegidas dos perigos. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social.determinismo racionalista. O presente se torna imprescindível. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. com as impurezas. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. não consensual. nesse 90 Ruth M. estruturante. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. associada a uma velocidade que. a ausência do estado nos bolsões de miséria. A questão não envolve a justaposição da diferença. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade.

o que implica um deslocamento constante. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. alargado. distante do historicismo teleológico das “causas”. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. pureza x perigo e assim por diante. ou mesmo das raças. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. enfim. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. mas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . passando a ser questionada. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades.. pp. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. 20-46. Para Bhabha. capaz de se autogerar. ele é ex-cêntrico.caso. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. Belo Horizonte. do além. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. op. nem projeção. Nem ruptura. engendrando novos espaços e temporalidades. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. os interstícios. Editora UFMG. As diferenças culturais são exercitadas. capital x trabalho. É o ocaso do etnocentrismo. Como decorrência. 2001. O presente “não tem lugar”. paradoxalmente. Homi K. metrópole x colônia. ambivalente. as fímbrias. a exemplo do nazismo. abandona-se a sequencialidade. ao mesmo tempo. O Local da Cultura. O presente “é o tempo de agora”. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. fica comprometida. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. cit. O autor menciona que os “entre-lugares”. estado x sociedade. BHABHA Homi K. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos.

25-26. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. há também um movimento político. não é uma passagem suave de transição e transcendência. 59. pp. quanto uma pureza cultural. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). superando a diacronia da história.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. de releitura da contemporaneidade. Homi. que buscou sempre a exegese da diferença. higienizada. dá seus últimos passos. 29. Homi. que inova e irrompe a atuação do presente. tão pouco é completamente diferente desta. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA. do material ao metafórico. do puro e do impuro. Isto é. Igualdade na Diferença. Segundo Bhabha. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. op cit. na linguagem bejaminiana. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. de iniciar seu desejo histórico. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. BHABHA. tornada semelhante. de estabelecer seu próprio discurso institucional.. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. Chittó Gauer . Na visão do autor. pp. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. ela mesma. Ao invés do continuum cristalizado. op cit. de negar. Ao lado dessa reflexão. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. como no caso da própria escravidão. 92 Ruth M. A tradição ocidental. O Outro perde o poder de significar. Ainda segundo Bhabha. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. A minoria não quer ser “incluída”. mas sim reconhecida. no sucessivo de passado-presente.. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. é quando o presente explode para fora do contínuo da história.

) um tempo de incerteza cultural. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. de acordo com Bhabha. e. depende dele para existir. Para Bhabha. O rigor da indisciplina. da articulação de uma política de negociação. cit. Relume-Dumará. As noções liberais de multiculturalismo. estrategicamente deslocado. 45. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. oferecendo-se ao sujeito. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. ter consciência. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. Como exemplo. de indecidibilidade significatória ou representacional”. sob a égide do discurso colonialista. op. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”... Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. de memórias míticas e de identidade coletiva única. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. teleológicas ou míticas. mais crucialmente.. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. bem como da relação entre emissor. instaura com este uma dialética. quer dizer. em si. p. 113 BHABHA. Homi. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . simultânea e paradoxalmente. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. aquilo que. no processo de manifestação simbólica da linguagem. e para sua própria “eficácia”. pp. foi preciso encontrar catequistas nativos. 112 “o tempo de libertação é (. 1994. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. Rio de Janeiro. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. Luiz Eduardo Soares. mensagem e receptor. mas que. 65-68. porque existe. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. o precede e sucede. o arcabouço da tradição. na qual representa o universal.

o perigo da impureza racial. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. cit. Para ele. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. 114 94 Ruth M. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. pp. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. não como uma afirmação da vontade.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. Afinal. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. Walter Benjamin. totalizante. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão.. mas a regra. 1987. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. São Paulo. E. “Sobre o conceito de história”. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. Homi. a opressão. 114 A luta contra a discriminação. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. op. ao explorar esse Terceiro Espaço. unificadora. 72-75. apu BHABHA. nem como evocação da liberdade. entendido como sujeira. Editora Brasiliense. não apenas muda a direção da história ocidental. Walter. Magia e técnica. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. Chittó Gauer . Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. 115 FANON. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. A vida cotidiana Ver BENJAMIN.

Esse pensamento supera o arco hermenêutico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. Homi. pp. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. A esse quadro social.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social.. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. Ou seja. seu olhar e seu locus. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. o branco escravizado por sua superioridade. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. 76-78. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. cit. mas dá-se em relação a uma alteridade. De acordo com Fanon. o autor chama de “delírio maniqueísta”. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. A demanda da identificação – isto é. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. op.

A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. São Paulo. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. Tempo Brasileiro. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. 1973. a perda de valores espirituais unificados. Ao romper a estabilidade do ego. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. 96 Ruth M. Claude. Abril Cultural. nesse contexto. E. Os Pensadores.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. Morata. Por outro lado. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. Ver LÉVI-STRAUSS. pelo sentido declinante de comunidade. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. Madrid. 1970. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. Reglas del metodo sociologico. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. que salientava a piedade. Rio de Janeiro. em boa parte. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. A totalidade dos estados nacionais foi construída. expressa na equivalência entre imagem e identidade. 119 DURKHEIN. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. plenitudinário. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. visual. 1974. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. Chittó Gauer . Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. o amor ao próximo. que se originava em uma certa espécie de virtude.René. Antropologia Estrutural I.

. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. pois são perigos em potência. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. cit. obp cit. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. era necessário planejar uma nova solidariedade moral. por outro lado. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). mesmo na maneira como pensa e. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. 121 Estas receitas para a recuperação. Franklin.século XIX já não possuíam. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. que era o resultado da divisão do trabalho. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. o que lhe deve”. p. Para compensar a anomie.. Contudo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. durante o período Eduardiano. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. que era a causa da doença social. se 120 121 BAUMER. Franklin. 164. que estimulava a mobilidade e a especialização. op. Era a crise espiritual. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. Esses perigos. Para muitos. no entanto. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. 164. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. BAUMER. ou estavam em processo de perder. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. p. conseqüentemente.

na frase de Dewey. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. acaba por se tornar totalizante. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. 98 Ruth M. a moralidade. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. tal como o da igualdade moderna. a ciência deixou o homem procurando. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real. ela própria uma forma de imoralidade. Se. uma esquiva realidade. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. da ambiguidade e da diferença. o desmascaramento da fácil crença no progresso.transformaram em condição de análise. Chittó Gauer . conduz à exceção. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. às apalpadelas. Um modelo rígido de pureza. O vazio das convicções humanistas. quando imposto. Estas constatações. a história explicitou esses fatos. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. já que a pureza é inimiga da mudança. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. Contudo. os paradoxos da filosofia liberal. a mente individual possui como função a vida social. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão.

Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. na Ásia. Ocorreram algumas exceções. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. o direito inglês. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. a cremação da viúva na pira do esposo morto. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. o que os subordinava ao direito francês. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. Os colonos eram considerados franceses. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. uma vez que não há o instrumento da escrita. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. A natureza das instituições legais britânicas. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. que são transmitidas de geração para geração. a commom law. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa.

encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. 1982. 262. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. Daryll. 122 100 Ruth M. A lei como duplo sistema. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. e FORDE. A. Lisboa. em 1926. daí resulta a obediência. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. No que se refere às regras sociais. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei.Código Napoleônico. via de regra. boas e justas. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. que publicou. 2ª edição. p. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. 264. Chittó Gauer . No que se refere ao crime. Fundação Calouste Gulbenkian. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. Crime e costume na sociedade selvagem. proteger e punir. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. a racionalidade não está ausente. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. Como se pode verificar. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. importante estudo. R. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais.

nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. 124 Em O ser e o nada. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. É preciso. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. Cf. seleção. Da fenomenologia das três dimensões temporais. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. Abril Cultural. como já afirmamos. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. Giambattista Vico. Caso contrário. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. dotada de liberdade. São Paulo. 1997. de preferência à aplicação de regras formais. especialmente o terceiro capítulo. Os Pensadores. para um exame do ser do tempo.do direito “primitivo” é processual. nunca 123 VICO. presente. Desse modo. Estas pressuposições. A preocupação não é nova. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. trad. No entanto. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. como o ponto sem dimensão. o futuro não é ainda. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. Petrópolis. toda a série se aniquilaria. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. Giambattista. Quanto ao presente instantâneo. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. 1974. Vozes. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. O ser e o nada. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. a exemplo de Sartre. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. isto é. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. 124 SARTRE. Jean-Paul. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade.

Paris. na física atômica. Assim. e tomaram consciência. o faz no presente. para explicar o aparecimento da consciência. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. por exemplo. 369-370. Miller 125 afirma que. Depois se convenceram de seus erros. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. pp. Chittó Gauer . tudo é presente. Desse modo. Arthur I. já que desmoronou no nada. da imagem-recordação. o que é verdade. em consequência de um processo presente. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. 102 Ruth M. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. por um lado. e lembrar a história. em etapas. tal como os historiadores a descreveram. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. sobretudo. que dependem fortemente da teoria. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. por outro. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. durante o século XX. que é instantâneo e extratemporal. Se a lembrança ressurge. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. como fotógrafos das câmaras de gás. integralmente. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. ou seja. mais ou menos em 1927. traço atual. Flammarion. 1996. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. tais como os elétrons. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos.elucidadas. tudo é em ato.

ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. 3 . da saturação da função que lhe é inerente. Paidós. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. anedotas. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. O processo de desindividualização. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). Ulrich.advento da idade moderna. ditos populares e a versatilidade das massas. Por esse caminho apoiaram-se na representação. risco controlado. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos.século XIX até metade do XX. A Sociedade de Risco. 2 . metáfora visual adaptada ao mundo invisível. O autor refere que essa transição. 1998. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência.fracasso do controle. por outro lado. entre elas como risco. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. contudo. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. pois. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. Trata-se. São elas a 126 BECK. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas. uma forma de insolência. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. vontade de controle do risco. O individualismo determinou toda a organização política moderna. Barcelona.

128 KERKHOVE. MAFFESOLI. nem uma ideia. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. Para Kerckhove. 1987. Brasiliense. Richard Sennett. p. a um só tempo. Michel. que ela mudou novamente. Michel. Record. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. Lisboa. 1988. é um conceito. pp. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. A Pele da Cultura. Derrick. Relógio D’Água. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. 53-54. 127 104 Ruth M. O Tempo das Tribos. de Hume. apenas um momento. 1999. Chittó Gauer . Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. individual e coletivo. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. Todas MAFFESOLI. 218. luz ou sombra. dor ou prazer. hoje está a mudar para a Idade da Mente. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”.massa indefinida. remete-nos à análise da flexibilidade. Rio de Janeiro. 19. pp. ser adaptável a circunstâncias variáveis. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. sem se deixar quebrar por elas. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. 1997. povo sem identidade. uma mensagem. São Paulo. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. uma certa harmonia. Forense Universitária. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. a organização que se dá em redes. Rio de Janeiro. público e privado. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. geraram a implosão pós-modernista. não em estruturas hierarquizadas. 175-194. como diz Lévi-Strauss. Richard Sennett. A corrosão do caráter. amor ou ódio. O Conhecimento Comum. de calor ou frio. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator.

Para Virilio. A popularização da velocidade retira das forças militares. da matéria.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. pois já não há ideias em luta com os fatos. que não é finito. com essa plasticidade. mas sobrevoá-la. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. Aparece então a negação do fato real. ocorre a desintegração do tempo da luz. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. Lisboa. assim. Depois da desintegração nuclear do espaço. A Inércia Polar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. escapam pela fluidez da velocidade. 1993. p. Os nexos estabelecidos. Criou-se um novo espaço-tempo. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. Seguindo nessa mesma trilha. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. Publicações Dom Quixote. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. Por outro lado. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. 128. na obra de Virilio. teórico da Dromologia. perdem-se. se o tempo é história. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. Há. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. como se fosse um espetáculo. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. (do grego dromos = velocidade). assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. dos políticos. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. a velocidade é apenas sua alucinação. Os acontecimentos não são aprendidos. Na atual velocidade. Paul. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. de liberdade. Em sua obra A inércia polar. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. o poder. o mundo. nesse sentido. abre um importante campo de reflexões. Nesse sentido. uma vez que as imagens não se fixam. Os conceitos trabalhados.

A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. Nesse sentido. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. abrindo. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. Michel. mas onde estou eu. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. construída historicamente. assim. equivaleria dizer. A economia já é gerida à distância. um importante campo de questões filosóficas. Para Virilio. frente a essa visão. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. Descrever a violência. op. p. A velocidade é a velhice do mundo. ao declínio das atividades no espaço. com as quais faz os vetores do poder. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. Eis a inércia da natureza relativista. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. cit. pelo envelhecimento da história. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. onde se situa? Onde estou.usado para avaliar a capacidade humana. Chittó Gauer . A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. Assim. 130 130 MAFFESOLI. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. 27. 106 Ruth M. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações.

30. Não se trata. Michel. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. priorizar o estilo. segundo o próprio Maffesoli. 39. no quadro de uma ideologia produtivista. também. 28. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. op. o ponto de partida. p. cabe então. cit. os riscos de seu empreendimento. continua não havendo nada de novo sob o sol. MAFFESOLI. p. p. cit.. cit. quanto ao segundo. o vivido que. desse modo. mais do que tudo. Enfocar o vivido. 133 MAFFESOLI. até certo ponto. op. não pode ser equacionado. ou talvez fosse mais correto dizer. por sua vez. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. Sabe ele que.Uma vez que. de modo didático ou para a clareza de exposição que.. cit. no entanto. op.. analisá-las em si. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. como fica manifesto nessa introdução. portanto. Michel. 134 Nessa busca da diferença. Michel. 28. o inacabamento e a falta e. de apresentar os fatos e ligá-los. 134 MAFFESOLI. mais do que nunca. O reconhecimento da diferença é. Maffesoli não deixa de enumerar. Michel. que se pode mesmo. 133 Para além de uma aparência homogênea. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. na própria introdução da obra. é constituído pela vida. Quanto ao primeiro. Importa. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. nessa recusa em negá-la. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . p. 132 Por outro lado. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. por si só.. op. tentando equacionar aquilo que. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. “Quanto a nós.

para reativar e revigorar a socialidade.entendimento das pulsões que. apud Michel Maffesoli. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. 108 Ruth M. 136 Compreender. o autor de A violência Totalitária irá. portanto. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. então. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. para Maffesoli. nada mais é do que um fenômeno recorrente. op.. p. em última instância. p.. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. 41. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. então. em outros termos. 41. Chittó Gauer . a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. 51. por meio da reforma. emprega o termo em diferentes momentos da obra. assim. A revolução serve.. MAFFESOLI. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. um fértil campo de análise. Temos. uma vez que diz respeito ao fato social em si. contemporaneamente. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. ganha aqui um caráter mais específico. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. a função unificadora do Estado e aquilo que. quais os meios postos em ação. op. fragmentada. A socialidade. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. Compreender a ideia de socialidade torna-se. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. op. se fazem presentes no vivido. A partir desse último termo tem-se. cit. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. nesse sentido. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. Michel. 137 MAFFESOLI. sendo que a sua utilização. Michel. para elucidar tais questões. cit. não se deixa reduzir à simples razão. cit. 138 A revolução. portanto. embora relacionada ao conceito freudiano. p. queiramos nós ou não. 138 MAFFESOLI.

em primeiro lugar. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. então. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. 139 Nessa perspectiva.. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. Ao analisar. de um modo ainda mais específico. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. 95. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. No exame do processo revolucionário. mudança de estrutura. É na conjugação das diferenças que. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social. para o autor. 64. afirma que “a revolução não é. para Maffesoli. 139 MAFFESOLI. por sua vez. A potência. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. 124. os elementos constitutivos do fato social. situadas na própria manifestação da socialidade. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. Michel. que não são e nunca serão. Desse modo. por si sós. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. cit. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. op.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . o Marxismo. Reformas e revoluções estão. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. pp. nas palavras do autor. já analisadas por muitos autores. As críticas ao racionalismo instrumental. mas mudança de velocidade”.

Michel. O dinheiro na sociedade moderna. a primeira objetiva “amoedar o divino”. 156.instrumentalizando a razão. por sua vez. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. essa unidade. por um órgão centralizador.. 159. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. ou seja. para tanto. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. Logo. op. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. será obtida de cima. capture-se a dimensão do ato criador. 140 a segunda “amoedará. à perda de solidariedade orgânica. cit. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. o progresso”. entretanto. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. 243. pp. cit. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. a pulsão de esperança. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. O totalitarismo seria. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. agora segundo Dumont. nesse sentido. melhor seria dizer essa interdependência. 193. Chittó Gauer . Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. por um lado. 281. Ainda que não redutíveis entre si. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. tal 140 141 MAFFESOLI. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. pp. 110 Ruth M. op. 281. MAFFESOLI Michel.. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. 282. desse modo. Se.

porventura. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. Tal como 142 SOUZA. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade.). Liberdade. segundo a visão de Simmel. uma ideia força na visão de Baumer. como liberdade de movimento. isto é. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. permite uma margem de liberdade pessoal. Segundo Kuhn. 10. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. 38. Jessé. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. da autonomia tanto social como individual. No entanto. Simmel e a modernidade. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. 33. (Orgs. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . 142 completa o estudo sobre a violência. 1998. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. O aspecto subjetivo. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. cética relativamente ao poder das teorias. pp. há muito anunciado por Thomas Kuhn. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. Berthold. 39. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea.como analisado por Simmel. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. dependência de muitos x dependências de poucos). aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). OËLZE. dinheiro. Brasília: UnB. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. A questão da liberdade. 12. ou seja.

11. quando um novo paradigma. pp. 2. Para Bergson. os movimentos que as prolongam. A lucidez é um produto de crise. que a pesquisa. A lógica da liberdade. 145 BERGSON. POLANYI. 101. 1993. 92. 112 Ruth M. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. 88. nascida no seio da liberdade. pp. se fixam e se alinham nessa memória. ed. uma vez percebidas. deduz. p. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. Michael. 89. prolongando-se em ação nascente. As políticas da razão. repara-se mais nelas”. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS.. conforme Polanyi. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. no entanto. 91. tornou-se refém da norma. Após uma visita à Rússia. “o registro. A análise resgata elementos de toda a percepção. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. modificam o organismo.refere Stengers. Topbooks Editora. cit. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. Edições 70. Isabelle. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. Chittó Gauer . 102. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. 2003. Como sustenta Bergson. criam no corpo disposições novas para agir. 145 posto que percepção é memória. Deve-se considerar. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. pela memória. na medida em que as imagens. Henri. 83. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. e. 146 BERGSON Henri. Matéria e Memória. op. Para além destes aspectos. Lisboa. qual seja. pp. 90. 1999.. é conquistada e não se pode considerar normal. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. Martins Fontes. São Paulo. Rio de Janeiro. “uma forma mais elevada de análise”.

ela conservará para a memória seu lugar e sua data. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". No entanto. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. pois coloca em xeque a base epistêmica. 2007. Lumen Juris. criar um hábito do corpo. aliás. Chittó Gauer (Org. Esse hábito. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . Sistema penal e violência.imediatamente perfeita. CARVALHO. portanto. gera resistências das mais variadas formas. isto é. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. montando um mecanismo. calcada na razão moderna. O contrário. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. cada vez mais estranha à nossa vida passada. Ruth M. Das duas memórias que acabamos de distinguir. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. Salo.). organizá-los entre si e. tornar-se-á cada vez mais impessoal. a primeira parece. Rio de Janeiro. a lembrança aprendida. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. ser efetivamente a memória por excelência. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. “Criminologia e interdisciplinaridade”.

WEBER. 10. Max. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. mas porque acreditam nele” 149 . Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. fundamentalmente. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. p. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. cit. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. 11. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. 3ª ed. via de regra. este é. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. O político e o cientista. portanto fogem à racionalidade. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Max. 1979. Lisboa. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade.. Presença. Assim. Chittó Gauer . Para o autor. o processo de criar poder. fundada sobre normas racionalmente criadas. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. 114 Ruth M. obediência livre. 148 149 WEBER. op. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. 12. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. pp. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista.

descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. seu tempo é irreversível. op. p. que são frases ou orações mínimas que. Otávio. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos.. Em um nível mais baixo. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. combinatória. Busca uma lei geral. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. sintática. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. Para comparar mito e linguagem. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. por sua posição no contexto. Este se decifra por meio da linguagem. O mito é fala. cit. alude ao que passou. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). formal.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. São significativos dentro da narrativa. Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. é diacrônico. onde cada mitema designava um feixe de relações. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. ao mesmo tempo é idioma. e em um segundo nível. como elementos de um segundo discurso: o mito. 23. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. estrutura fonológica. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. e ao mesmo tempo pré-significativos.

México. esta é apenas uma das variantes da estrutura. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. nessa atividade interdisciplinar. então em franco desenvolvimento. Fondo de Cultura Económica. Chittó Gauer .dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. México. 151 Ver KARDINER. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. entre o incesto e a adivinhação. tal foco de atenção teve notório destaque. 1955 e El Individuó y su Sociedad. Harry S. Abraham. O estruturalismo não pretende explicar a história. Assim. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. Tornou-se claro. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. Anna Freud. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. 116 Ruth M. mais especificamente. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. 1945. para alguns. entre os quais Ruth Benedict. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. por outro. Principalmente nos Estados Unidos. Juntos. Fondo de Cultura Económica. Sullivan e outros. Durante os anos 30. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. Ralph Linton e Cora Du Bois. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. Sándor Rado.

elaborou o conceito de personalidade básica. por outro lado observou-se que as culturas. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. cit. 8-9. ob. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 ..se a humanidade. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. constituídas como faces especulares da mesma realidade. secundado por Ralph Linton. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. 152 Embora os antropólogos. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. além de serem diferentes entre si. sino más bien a los sistemas proyectivos. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. Abraham Kardiner. Así. para las diversas familias que forman dicha sociedad.. por motivos compreensíveis. hipoteticamente. portanto. aunque nunca idénticas. pp. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común.. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. en otras palabras. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. fixados apenas de modo filogenético e. difieren de una sociedad a otra. Os comportamentos humanos não seriam. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas.

“Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. p. 469.. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. durante los últimos años. Adler.trabalho “sociológico” de Freud). portanto. fé e crença. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. como se sabe... C. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. Editorial Paidós.. dogma. por exemplo. 1958. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. como duas disciplinas relativamente novas. Fromm y otros) han ejercido. para bien o para mal. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo.. Kluckhohn. As defecções de Jung. Brosin. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. Chittó Gauer . as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção.. 153 118 Ruth M. ou seja. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. Não teoria. Franz Alexander e Helen Ross. como. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. Buenos Aires.. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. a psicanálise e a antropologia. mas sim doutrina. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. No entanto. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos.. 153 Este psicanalista conseguiu obter. Del estudio de la bibliografía antropológica. citado por Henry W.. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. Antes de comentar esse aspecto. debe decirse que la antropología estadounidense. Los llamados “neofreudianos” (Horney.. Psiquiatría Dinámica. No entanto. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético. durante a década de 30. plenas de um grande potencial. Kardiner. Podemos ver. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. por sua vez. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. Os antropólogos.

embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. Cabe não esquecer que. neste texto. ou dar maior importância. Retornando à contribuição de Kardiner. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. 47. em uma acepção ampla. apesar do afastamento. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. Foi a partir dessa postura que. em uma primeira versão. cit. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. Abraham Kardiner. como sendo a típica personalidade modal. adotar. Ora. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. por exemplo. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. que passou a ser entendida. como Fairbairn e H. tais dados.mecanismos da cultura e da psique humana. ob. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 .. em termos mais simplificados. Assim. de certo modo. predominante entre os membros de uma determinada cultura. infestadas ideologicamente. as teorias raciais. nas primeiras décadas do século XX. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. diante disso. Sullivan. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. Desse modo. As instituições155 responsáveis. extremamente heterogêneos. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. p. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner.

por uma relativamente obscura lógica cultural. por exemplo. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. Kardiner analisou. Portanto. Por isso. Partindo das premissas acima colocadas. basicamente. Chittó Gauer . o folclore e a religião. em grande parte. por assim dizer. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. as instituições secundárias. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. com os dois grandes sistemas projetivos. de acordo com Kardiner. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. das manifestações dos mecanismos inconscientes. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. e “domesticada”. sob o rótulo de instituições secundárias.mútua causação. No entanto. passaram a ser divididas. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. abrangendo instituições primárias e secundárias. um derivado das primárias. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. em primárias e secundárias. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. Por outro lado. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). Tal se daria. minorou. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. a uma escala monocromática. seriam destinadas. os mais variados sistemas de crenças religiosas. pela formação da personalidade básica.

embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. alor. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. A título de comparação. disciplinamento precoce da sexualidade. indução à afetividade. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. Malinowski já havia percebido. e igualmente el de la magia muestra (. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. Marvin. sistemas projetivos e outros. mitos. pomo. navajos. a contribuição de Kardiner. Siglo Veintiuno. fatores de integração social. nas ilhas Trobriand. Una historia de las teorías de la cultura. na vida dos membros das comunidades primitivas. 157 Citado em HARRIS. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. ojibwas e outras. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. El examen del mito. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. em um escrito de 1923. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. tanala. comanche.. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. Madrid. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. isto é. puberdade. Porém. los cuentos de hadas y las leyendas.) el odio reprimido contra el tío materno. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. matrimônio. 378. Como muito bem lembra Marvin Harris. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. Cabe observar. todo um conjunto de crenças religiosas. 1985. porém. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. Siempre que las pasiones. indução ao trabalho. participação na vida social. al igual que en el folclore de estos nativos. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. afirmou Malinowski. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. por las costumbres y por las sanciones legales. observe-se que. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje.do criador da psicanálise. tapirapés. a la perversión o la aberración. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. nas culturas primitivas. Assim. 156 No entanto. em si não ofereceu novidades. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. p.. rivalidade entre irmãos. quase com pretensões de exclusividade. 157 Como se vê.

ou pelo difusionismo que. nestas culturas urbanas. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. obrigações. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. além desses aspectos. qualquer indivíduo. de certo modo. cabe registrar que. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. pela maioria. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. direitos. O selvagem passa toda a sua existência. por assim dizer. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. Chittó Gauer . Considere-se. assim como. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. Entre estes. continuam oscilando. Se estas oscilaram. em princípio. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. de certo modo. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. às causalidades registradas. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas.

“A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . Neste ponto. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. como Fairbairn. a realidades construídas coletivamente. do qual Freud é um dos grandes tributários. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. de forma alguma. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. Assim. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. Artes Médicas. Em trabalhos posteriores... significados e distinção não eram. 1994.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. mais urgente. por conseguinte. Porto Alegre. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. p. XII. Deve-se lembrar que Freud. Ao mesmo tempo. As relações objetais tinham que ser explicadas. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. não era de forma alguma aparente como posicionar (. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. em parte. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. e MITCHELL. Assim. autores da área psicanalítica. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. 158 Portanto. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. suas origens. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. para atraí-la a um âmbito próprio. por exemplo. pelo fato da importância atribuída à cultura e. e os objetivos de qualquer atividade mental.

Fromm. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. pode-se entender que a maioria deles. as marcas da personalidade grupal. Horney. os grupos familiares. no âmbito da teoria psicanalítica. certa primazia às relações objetais. portanto. onipresentes nas comunidades primitivas. Ora. em detrimento. H. Desse modo. para a criança. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. K. Isso não quer dizer. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt).). transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. De fato. surgem posições. o modelo primordial de “busca do objeto”. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. por ex. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. Nas análises das autoras citadas. que a ortodoxia freudiana. No entanto. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. é claro. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. de fora para dentro. E. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. e o trabalho 124 Ruth M. realizadas por Mead. como já foi colocado.(com os objetos externos) na psicodinâmica. muito antes disso. Sullivan e vários outros tentaram dar. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. Chittó Gauer . ao mesmo tempo em que se estabelece. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. por esse último modelo. ou seja. em grande parte. A opção. Fairbairn. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”.

Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. nesta pergunta. focalizando. São Paulo. a troca restabelece. como já referido anteriormente. 48. Em Alor. o diferente. 129-296. a diferença. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. Sexo e Temperamento. Como diz Eliade. Nesse sentido. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. Assim. do novo. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. 1997. com grande destaque. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. ver Cora Dubois In. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. “o que é escolhido é implicitamente forte. seria o da proibição do incesto. Abraham Kardiner. das convicções ou das situações desestabilizadoras. ver Margareth Mead. 1969. 159 Lévi-Strauss. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. Tratado de História das Religiões. Para esse assunto. São Paulo. puderam ser verificadas. pensado às vezes como o “novo”. ob. 1970. para Lévi-Strauss. como características típicas. 161 DURAND. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. 160 ELIADE. Para isso. Editora Perspectiva. examinado por Margareth Mead. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . fundador da sociedade humana. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. devemos lembrar o pluralismo das representações. Assim. nos antagonismos. temido ou fértil. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. passam a pensar no outro.. cit. Cosmos. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. Tal evento originário. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. fortificando e atenuando. afirma a existência de um evento originário. na Nova Guiné. de gerações e de linhagens. Martins Fontes. na personalidade do indivíduo adulto. as primeiras fases de socialização. Mircea. posteriormente. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. pp. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. Gilbert.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. por meio de um duplo movimento. eficaz. do extraordinário. Lisboa. p. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. em Totem e Tabu.

Chittó Gauer . São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. Petrópolis. Para compreender tal fato. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. não apenas para observá-lo. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. 1997. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. da educação e muitas outras áreas. 162 LEVINAS. Sob este aspecto. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. Ao falarmos sobre alteridade. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. Vozes. que foi erigido como categoria autônoma. o incógnito. o estudo das organizações. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. mas para apreender os limites de sua própria diferença. mas simultaneamente se complementa com ela. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. Emmanuel. do direito. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. Marshall B. Este é um cosmopolita. das instituições. encerrado na totalidade pela qual é constituído. entendê-lo e descrevê-lo. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. É grande o número de autores que poderiam ser citados. a interioridade se opõe à exterioridade. Frente a esse quadro geral. Para o ser pensante. Merton. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. um não existente para si mesmo. Ensaios Sobre a Alteridade. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. Entre Nós. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. 126 Ruth M. Talvez caiba um destaque especial a Robert K.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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entre elas. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. Se por um lado a natureza impõe a aliança. 130 Ruth M. e na forma metafórica o abuso de menores.primogenitura. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. e de maneira significativa. essa proibição não é verbalizada. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. em um plano diferente. quando ocorre é visto como inaudita. os tios. Nos exemplos de casamentos entre irmãos. com ela. uma monstruosidade. Chittó Gauer . pp. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. Quer sejamos críticos ou liberais. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. op. entre outros parentes próximos. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. Claude. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. ninguém pensa em proibi-la. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). as metamorfoses das normas sociais. a irmã. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. cit. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas.. por outro não a determina. uma transgressão que provoca horror e repulsa. o pai. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. 48-49. o irmão. ela também nos faz questionar a sua função organizadora.

Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. Presença. ao invés de diminuirmos as funções da norma. Lisboa. O pensamento europeu moderno. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. Franklin L. escrevia em 169 POUILLON. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. trata-se de constatar que. John Galsworthy. existencialismo. assumem significados sociais diferentes. não se trata de discutir a sua exclusão.norma. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. positivismo. na contemporaneidade. 123127. In. a arte e a religião. A ser assim. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. ou um movimento psicanalítico. Para Pouillon. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. as questões teológicas passaram a não ter sentido. entre outros temas do mundo da academia. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. Cheguei a mim”. disse Mann. que afetou não só a ciência. Raça e história. Edições 70. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. mau ou indiferente. II. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. Se. surrealismo. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. a natureza tornou-se longínqua. 1952. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. Jean. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. incluindo a literatura. v. Lisboa. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. mas todos os domínios do intelecto. pp. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. Claude Lévi-Strauss. o universo passou a ser misterioso. 1990. “Na verdade”. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. além de deslocamentos contínuos. hierarquias variáveis. 170 Apud BAUMER.

Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. Os Pensadores – Cartas. Apud BAUMER. Franklin Leopoldo Silva.58. v. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. a recíproca não era verdadeira. Henri . pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. Franklin L. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. no casamento. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. que se aprofundou no século XX. nas palavras do autor. Abril Cultural. Conferências e Outros Escritos. Dado um fato psicológico. mas de uma hipótese metafísica. São Paulo. BERGSON. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. Chittó Gauer . 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. para fixar as ideias. desenharia as articulações motoras dele. o homem é inominável. Há uma verdadeira descrença. II. O pensamento europeu moderno. examinados sem pressuposições matemáticas. 1990. Assim. 49. Contudo. Os fatos. nos títulos da dívida pública. pp. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. 172 171 132 Ruth M. nas diferentes formas de energia. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. 1974. Entretanto. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. no livre comércio. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. Assim. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. Edições 70. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente.1926: “Como agora tudo é relativo. Lisboa. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. ela apenas o exprime numa outra língua”. Trad. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. pois não se tratava de uma regra científica. nas classes sociais”.

representam duas noções do real. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. oferecida pela consciência humana. com efeito. desdobrada e articulada no espaço. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. op. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. cit. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. Em suma. O realismo repousa na hipótese inversa. por uma mágica intelectual inconsciente. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. Henri. entre dois sistemas de notação. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. podemos escolher. enfim. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. Somos aqui 173 BERGSON. As palavras realismo e idealismo. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. em termos convencionais.

Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. uma vez de posse do estado cerebral. sugere-nos. pela sua própria colocação. Henri. na hipótese idealista. contudo. sendo ele uma representação. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. pois o problema em pauta. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. por um golpe de mágica. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. cit 58-59. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. que determina a percepção do consciente. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. Chittó Gauer .naturalmente mágicos. Bergson concebe. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. 174 BERGSON. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. 134 Ruth M. suprimir. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. Para o idealismo. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. op. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. representação. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. não poderia. numa representação”.

isto é. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. erigimos. o quadro que responde a todas estas faltas. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. sem se alterar. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. então. Oscilamos. uma vez feito. a cor que o quadro espera. no espaço. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. Conservamos o cérebro tal qual é representado. 25. e. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. pois. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . se o real está desdobrado na representação. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. de alguma forma. para perceber o universo. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. Lisboa. sobre a paleta. estendido nela e não contraído nela. a nossos olhos. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. p. e vê os quadros dos outros. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. e vê. Grafilarte. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. 1997. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. as respostas outras a outras faltas”. mas esquecemos que.Aprofundando os dois sistemas. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. O olho e o espírito.

Homo Aestheticus. termos em que a ética moderna se formulou. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. Almeida. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental.parte de outra. 286. a ser exterior ao homem empírico. 2003. portanto. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. intercambiáveis”. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. A Invenção do gosto na era democrática. p. ou um movimento psicanalítico como referi no início. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. Segundo Luc Ferry. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. o si próprio e a norma. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. enfim. e a razão prática. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Coimbra. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. e que os dois termos são. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. entretanto. da parte com o todo. Então. 136 Ruth M. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. continua. Chittó Gauer . Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. isto é.

o hedonismo.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 . o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.

juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. Chittó Gauer . O fim das certezas chegou ao campo da física. é possível concordar com a ideia de que a ciência. 138 Ruth M. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. além de elucidar. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. Não é por acaso que somos. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. pelo menos de forma substancial. 177 DAMÁSIO. objetividade. via de regra. 2000. neutralidade e generalização. Max Planck. Antônio R. as teorias desenvolvidas por Einstein. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. As emoções e os sentimentos. e muitos outros. entre outros. As tradições políticas modernas. Lisboa. O conhecimento foi tido como absoluto. Publicações Europa-América. cabal. O Erro de Descartes. é cega a respeito de sua própria aventura. Neste sentido. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. Há muito de crença nas verdades científicas. da neurociência. universal e eterno. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. da matemática. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. Sob esse enfoque. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. no entanto. desde seu início. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. A experimentação trouxe a primazia da técnica. Prigogine.

Coimbra. 30-31. A ideia moderna de estado (Krabb. 2004. Seguindo as reflexões do autor. 4. ao perder o poder político que o caracterizava. principalmente das instituições jurídicas. apagou a estética do mundo delimitado". 178 179 WEBER. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. responsável pela construção do estado moderno. Trata-se do estado liberal. 1979. Vozes. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. Hans. de forma precisa. No fundo das aparências. Max. Coimbra.mas também o culto das instituições. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. KELSEN. (Coleção Sophia 002). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. João Baptista Machado. 178 O autor descreve. Ariadne Editora. Presença Ltda. Teoria Pura do Direito. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. podemos afirmar que o cientista. Armênio Amado. Michel. 121-122. Trad. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. Lisboa. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. é que permite a emergência de um poder total. 1996. ed. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. neutro e liberal. 1979. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. mas o próprio direito". que afirma: "não é o estado que é soberano. 1919) foi aceita pelo autor.. foi o jurista. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. pp. Esse estado. pp. próprio da modernidade. Petrópolis. O Político e o Cientista. 181 MAFFESIOLI. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. 180 SÁ Alexandre Franco de. Metamorfoses do poder..

impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. 182 é uma alucinação dos sentidos. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. Chittó Gauer . como diz Rui Cunha Martins. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. índice de si mesma. A evidência. matrizes da sociedade ocidental moderna. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. Rui Cunha. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. Porém. a exemplo do estado. como tentativa de eliminar a sacralidade. o princípio secularizador. 2002. racionais. Mesmo os fatos mais evidentes. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). In. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. v. 19-20. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. Revista de História das Ideias. 23. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. GIL. O exemplo da soberania. p. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. No entanto. notórios. portanto. que está inserida nos aparelhos de estado. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. racionais e mecânicas. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. Fernando e MARTINS. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. 182 140 Ruth M. de Duns Scot a Husserl. em sentido quase estrito da linguagem. é. portanto. A soberania das formas institucionais. Esta verdade é excessiva por natureza. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. mas que assumiram uma verdade. constitui-se. Modos da Verdade.

e transformação contínua nos sistemas culturais. denuncia a impotência do Estado. no qual prevalece o estado de direito. O sentido da racionalidade é sempre esse. o conceito de justo (conceito relativo. é "celebração móvel". 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . De modo geral. In. por outro lado. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. vista mais especificamente como criminalidade. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. nas ciências do direito". 1999. v. Piaget. Rio de Janeiro. A identidade polarizada. Revista de História das Ideias. 184 HALL. Modos da Verdade. Lisboa. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. François. tal como analisada por Hall. DP&A. Rui Cunha. O tempo do direito. Stuart. Fernando e MARTINS. Como se sabe. em que o caráter problemático dos fins. que não consegue cumprir o seu projeto. A identidade cultural na pós-modernidade. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. Na tramitação do processo. Já não se acredita no devir. 185 OST. 26.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. 1997. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. GIL. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. a violência. Esse é um problema geral para os governos atuais. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. 23. 184 fruto da multiplicação. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. um tempo diferente do tempo da segurança. que nos aproxima ao estado de natureza. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. p. 2002. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real.

Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. No entanto. separou ciência e política. ciência e direito. ora a violência. e. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. O direito deu lugar à relação frente a frente. Qual seria o remédio. A produção normativa.Frente a essa complexidade. que deve ser (re)questionado a todo instante. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. assim como todos os campos de saber. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. dos meios e dos resultados. vista como uma inversão temporal. bem como a duração dos códigos e das instituições. do estado de direito já não existe. própria da modernidade. portanto. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. O tempo da segurança. principalmente no campo das humanidades. gerando ora a comunhão. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. Chittó Gauer . essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. tal como se acreditava nos séculos passados. novas questões se fazem presentes. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. marcado pela racionalidade falível. A dicotomia sujeito-objeto. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação.

Derrick de. cit. Importante observar a conotação dada. Lisboa. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. Derrick de. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. Ao tomar-se o real pelo real. todos carregados de violência. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. 187 KERCKHOVE. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . ambíguas. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. Relógio D'Água Editores. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. 1997. polifacetadas. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. Um dos problemas no mundo globalizado. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. op. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. sentimentos. em suas múltiplas faces. ou seja. Sua análise continua. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. A heterogeneidade. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). impossíveis de mencionar em sua totalidade.

188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. revelam apenas uma das faces da violência. representa. Rio de Janeiro. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. principalmente do supérfluo. A violência relatada de forma emblemática. O mundo sem dinheiro. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. não tão visíveis. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. tal como referido por Kerckhove. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. O evento. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. Esses fatos. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. São Paulo. revela ainda a forma saturada de ver o mundo.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". uma passagem decisiva. 144 Ruth M. O Tempo das Tribos. nesta leitura. 188 MAFFESOLI. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. Ver ainda O Conhecimento Comum. revela que não sabemos mais qual é o caminho. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. no entanto. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. 1988. Ao lado destas questões inquietantes. trazem informações sobre a violência subterrânea. Forense Universitária. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. mas continuamos caminhando. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. Brasiliense. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Michel. Outros eventos. 1987. Chittó Gauer . em sua velocidade.

e é caracterizada por ser uma "civilização legal". I. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. integralmente dinâmico e nunca estático. Lisboa. op. que iniciou em fins do século XVIII. Editorial Presença. O termo. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. cit. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". segundo este ponto de vista. um devir. levado a efeito pelo historiador. segundo Lewis. O pensamento europeu moderno. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. 1990. ou seja.. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". o produto da ciência. pp. v. tal como os futuristas queriam que fizessem. Edições 70. s/d. No entanto. além da preocupação com a instabilidade. 191 KERCKHOVE. 88. Derrick de. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. a velocidades cada vez maiores. R. na literatura e na arte. Nele pode-se ler. a filha instável do pensamento positivista. mas sem metas fixas. COLLINGWOOD. adverte o autor. Franklin L. Entretanto. “isto que a realidade era. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. 24-26. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. a busca de uma racionalidade. no mundo einsteniano. Lisboa. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. uma história. G. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. p. Como afirmaria Collingwood. bergsoniano. um processo dialético sem fim. fazendo-as correr. A Ideia de História. Essa doutrina do tempo é. no 189 190 Apud BAUMER.

é esse o paradoxo da aldeia global. Por mais paradoxal que possa parecer. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. Quanto mais noção temos da globalidade. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. mais ficamos conscientes das identificações locais. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. Porém. O impacto global cria. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. mas nem sempre com sucesso. não há treino para o comportamento social e coletivo. Chittó Gauer . tal como visto no início do século XX. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. principalmente do poder do estado. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. Há várias formas de se falar sobre globalização. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. A lógica da globalização não se concretiza.entanto. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. Ainda somos. uma vez que o fluxo é desequilibrado. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. o novo interesse pelo local. continuamente. e mais as protegemos.

A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. a impureza. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. a transformação e o perigo. etc. Por outro lado. com a diferença. prioridades das formas de vida do ocidente. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias.desiguais de poder entre Norte x Sul. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. o absolutismo do puro. Assim. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. deslocamentos de fronteiras. desigual. Ocidente & Oriente. Kevin Robins lembra que. diáspora. vê-se face a face com a cultura "alienígena". como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. ao mesmo tempo. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. valores. que. a mistura. Trata-se de um desencontro cultural. exótica. com seu outro. na verdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . do império do ocidente. o capitalismo global é. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar.

para o autor. cit. Thomas. 5. A estrutura das revoluções científica. antes de mais nada. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. p. São Paulo. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. 31. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. 30.. porém não podemos considerar como tal. Thomas. 148 Ruth M. 194 KUHN. cit. Para o autor. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. p. p. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. 193 KUHN. Perspectiva.XIV Norma. ela é. durante algum tempo. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. op. Thomas. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. 13. 195 KUHN. 53. 23. 1982. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. Thomas. op. Chittó Gauer . cit. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. p. op.

p. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. Na análise sobre liberdade. a plena afirmação de si próprio. op. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. um sistema de leis 196 197 POLANYI. nós. mas sim lograr a expressão da personalidade. p. POLANYI. 291. Michael.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. 242. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. 196 em A lógica da liberdade. coloca-os daquele modo. Polanyi. Por outro lado. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. Michael. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . de forma intencional.. instintivamente. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. desejos consciente ou inconsciente. Rio de Janeiro. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. A lógica da liberdade. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. cit. Topbooks Editora. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. supomos que alguém. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. 2003. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. na obra de Polanyi. lemos.

Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. no entanto. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. reflexo do ser-conjunto. É importante salientar que essa distinção. Neste sentido. seja um sistema de ordem espontânea. no entanto. que pensar em deslocamentos. ultrapassa a própria lógica da liberdade. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. tal como colocado por Freud. Para isso. Tais desafios. ao mesmo tempo a liberdade. dar uma logicidade ao ilógico. estrutura das sociedades simples e antigas. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. que não permite eliminar o poder e a punição. com sua imagem de indivíduo-átomo que. por ser único. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. portando organizadora. intelectuais. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. assim como fez Freud. distingue-se dos outros. mas sobre os que não podem se proteger dela. o pensamento falante manobrável tentou. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. por outro lado. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. Temos. ela também nos faz questionar a sua função organizadora.contratuais que garanta essa situação e. o primeiro não. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. O inconsciente. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. assim como não resistiu ao charme do limite. não eliminou a banalidade do universal abstrato. com sua independência. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. empenhada em espezinhar a razão moderna. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. entre outros. éticos. Chittó Gauer . teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. O século XXI vê-se frente a desafios morais.

tanto as de repressão. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. poder. pobreza. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. diferença. com a conotação moral que a envolve. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. como as de coerção. hierarquia. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. não podem ser interpretadas de forma linear. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. Os dados científicos. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. é stricto sensu a desestruturação social. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. geralmente. No entanto. A estrutura perene de nossa história. que se revelam como explosões de inquietação. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. epidemias. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. em atos de violência. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. insatisfação. pandemias. Os antagonismos revelam-se. privilégios. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. desagregações.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. perversidade. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. vista como a negação da independência. A diferente face da desagregação social aparece. etc. o mundo como progresso.

1984. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. cit. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. Norberto.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. p. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. 199 BOBBIO. alienígena da sociedade. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. não é. nessa situação. 72. seja por um sistema BOBBIO. enquanto ação socialmente intersubjetiva. No entanto. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. na medida em que é condicionada. Norberto. ela está fundada sobre dois alicerces. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. Chittó Gauer . mas sim entre os arbítrios dos homens. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. 71. como poder controlador e limitador da violência. Assim. Já a vontade jurídica. Brasília. O direito seria um regramento entre subjetividades. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. 198 152 Ruth M. Editora da Universidade de Brasília. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. op. Direito e estado no pensamento de Kant. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. ao mesmo tempo a liberdade. os fins que ambiciona.

seja um sistema de ordem espontânea. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .jurídico pelo qual se administram as leis. ultrapassa a própria lógica da liberdade.

mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. afinal. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo.) este mundo civil VICO. incertíssimo por sua própria natureza. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. Caracteriza-se. acerca dos problemas acima mencionados. que são as duas fontes do direito natural das gentes. violência. Abril Cultural. Chittó Gauer . Em termos de uma transgressão necessária. Segundo o autor. trad. a sua própria transgressão. batizada de civilização dos indivíduos. a velocidade e a crise de valores.XV Juridicidade.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. 200 é possível iniciar esta reflexão. de Giambattista Vico. como é sabido. Os Pensadores. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Seleção.. Giambattista. já muito antiga. 1974. 200 154 Ruth M. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que.. (. o da busca de valores. simultaneamente. Além disso.. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. São Paulo. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. “O humano arbítrio. uma emergência que. quando inerentes à modernidade. assim. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. Se há alguma novidade. dentro de âmbitos que são.. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). nunca deixou de estimular. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

201

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
203 202

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Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
204

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teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. Chittó Gauer . o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. talvez. o homem possui um cérebro temporário e improvável. trabalhado por Maffesoli. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. de resgate de sociabilidades perdidas. Michel op. pp.. assim como das tradições. diversos. Por outro lado. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. 158 Ruth M.identitária. hoje. fascinantes. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. átomo perfeito que lembra Deus. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. Convivemos. é a era da globalização do homem. pp. Lisboa. com capacidade máxima de síntese. criado pelo modelo Iluminista. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. 15-28. Jean-François. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. ao fim e ao cabo. velozes. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. dá lugar a uma estética do nós. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. A 206 207 MAFFESOLI. 69-70. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. cit. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. Logo. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. 1998. Este conceito. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. a memória de ninguém. Estampa. LYOTARD. O Inumano. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual.

124-125. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. Entre Nós. tempo-luz). da mistura. Publicações Dom Quixote. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. 1977. LÉVI-STRAUSS. Claude. as quais produzirão um novo eu. da impureza. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. 209 em suas conclusões sobre identidade.). esta é "uma entidade abstrata sem existência real. 210 LÉVINAS. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. Paul. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. A inércia polar. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. muito embora seja indispensável como ponto de referência". simultaneamente. La Identidad. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. Emmanuel. Rio de Janeiro. 1997. 36. VIRILIO. a origem e o fim. pp. do local de habitação. 1993. 11-39. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . Lisboa. é para ela que nos encaminhamos”. do local de nascimento e do Estado nacional. mas sim a celebração do hibridismo. todavia. Vozes. p. Paris. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. que traz novas e inesperadas combinações culturais.busca desse homem hoje é o grande desafio. e. como centro de referência. (Org. pp. Grasset. Ensaios sobre a alteridade. Como lembra Lévi-Strauss. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. A estrutura dessas relações sociais exige.

No entanto. transformando-se em um modelo de simulação. da destruição. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. Nossa noção tradicional de self. configurando a identidade nacional. da produção. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. O Erro de Descartes: Emoção. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. No ensaio sobre a dádiva. Chittó Gauer . pp. Lisboa. São Paulo. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. e assim. no processo de modelagem das relações sociais. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. vista como a condição natural. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. estaria desaparecendo. António. do tempo cíclico. 212 MAUSS. maior prudência. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. a morte da identidade construída por meio do individualismo. para muitos. Nesse sentido.. II. Razão e Cérebro Humano. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. está ligada à ideia de identidade. ou até à absorção por esta. perde seu sentido. etc. EPU/EDUSP. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. fragmenta a sua imagem. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. 1995. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. 1974. A ideia de perder a identidade. Publicações Europa-América. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. 39-49. O que vemos. é um aumento de todas as formas de violência. Sociologia e Antropologia. v. no entanto. uma entidade transitória.de cada indivíduo. superando a análise kantiana. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. o que leva a uma sensação de morte. 160 Ruth M. porém. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. Marce.

nos mandamentos divinos. 1998. Dentro desta perspectiva. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas. Estas fases. 214 Pelo contrário. assim como outros ramos do saber. cit. 32. (Orgs. porém. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. Por tratar-se de um fato social.). e que pode ser a medida de todas as coisas. Gilles. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. outras “assumem significados sociais diferentes”. Nesse sentido. A verdade moral está na Bíblia. pp. O dinheiro. Editora da UNB. tem uma história. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. por essência liberal e pragmática”. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. E por ser deveras custosa essa tarefa. Simmel e a Modernidade. em qualquer caso. 25-30. Berthold. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . fundador do individualismo. que vai até o Iluminismo. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. devem ser questionadas. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. finalmente coisificou o humano. O paradoxo. 214 LIPOVETSKY. op. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. pp.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. 22-30. Portanto. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. A ética. que é impessoal como as leis. OËLZE. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA.. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. vulgares. Jessé. Brasília.

escola. encarrega-se de dissolver as permanências. sindicato. estimula os desejos. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. e pensamos que seja ainda mais grave. O caso brasileiro não é diferente. Chittó Gauer . A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. A própria velocidade. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. entre elas. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. 3) A terceira fase da moral. a própria dignidade. o ego. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. fraude fiscal). se não são uma felicidade. que promove o presenteísmo. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. família. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. remuneração escondida. No Brasil. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. entre outras). assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). o bem-estar individualista. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. pode ser indicado para a maioria dos países. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. que Lipovetski chama de pós-moralista. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. não se prestam a nada). A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. A 162 Ruth M. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade.racionalidade). A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista.

da Humanidade” 215. Para o autor. apesar de estar fora de moda. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. Existem em França dois milhões de voluntários. limita e impede a própria liberdade.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade.000 assalariados a tempo inteiro. que já não acredita no futuro. Na Inglaterra e nos EUA. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. Para Lipovetski. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. A liberdade trava. sobretudo. honestidade. apesar do quadro preocupante. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. as mulheres que assim o fazem. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. Cita. Mas esta é apenas uma das facetas. cit. Gilles. a moral a la carte “não é a ideia do dever. ou seja. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). voluntários. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. pois. pois não estamos no grau zero dos valores morais. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. da História. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . da Pátria. de vez em quando. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. em uma lista de 17 qualidades morais. como exceção. enquanto tal. sendo. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. éticos): direitos humanos. op. na nota abaixo. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. do Partido. no altar da Família. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. 34-37. ao que dizer que. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. com a prioridade incondicional do altruísmo. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. Mas. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. que se afunda. pp. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. o valor da renúncia suprema a si próprio. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. Os exemplos que citamos.. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. Por fim. o caso da Madre Teresa. O autor refere que “quando se pede para destacar. Isso está deslocado no tempo.

o que vale é o aqui e o agora. no entanto.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. do que de grandes cruzadas moralizantes. entre outras repressões. Lisboa: Piaget. As práticas da solidariedade. mas com a condição de que possa divorciar-se. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). na cultura do presente. caracterizada pela racionalização. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). a la carte. extremismo higienista. torna-se sentimental. pela intelectualização e. como honestidade e respeito às leis. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. Como a caridade mediática. principalmente. São Paulo. p. A família sobrevive. LIPOVETSKY. ou seja. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. que podem ser escolhidos. “a moral não desaparece. Ciência e Política. Martin Claret. na supervalorização das festas. espetacular. última forma do consumo interativo de massa”. entre outras questões não menos importantes. ao mesmo tempo. passando à moral a la carte. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. torcidas organizadas. Duas Vocações. No que diz respeito à violência. viver em concubinato. descomprometidos. melhor dito. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. incapazes de resolver os WEBER. sacrifícios altruístas mínimos. 217 Como visto. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. a delinquência juvenil. epidérmica. repressão total em matéria de drogas. Gilles. 2000 p. 2002. 29. censura pornográfica. Chittó Gauer . “indolores”. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. IN: A sociedade em busca de valores. por exemplo. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. 217 216 164 Ruth M. A era do após-dever. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. 57. ter filhos por encomenda. Max. o aumento de pequenas violências no cotidiano. intermitente e. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. Há.

218 analisam os problemas da cultura moderna. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. simultaneamente. fundada em uma ação ético-liberal e. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. Difusão editorial. Robert Ezra Park. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. produz o indivíduo na sua autonomia e. Nas sociedades SOUZA. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. a hierarquia. Nas análises. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. Vários historiadores e sociólogos. dos valores. Lisboa. 1985. ELIAS. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . entre eles Simmel. (Orgs. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. sobretudo. Jessé. Ao descreverem a lógica da individualização. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. para Dumont. Louis Wirt. No entanto. por outro. O Individualismo. Rio de Janeiro. Daí. 220 DUMONT.). ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. ao mesmo tempo. Rocco. pragmática. o expõe. Louis. Por outro viés. Berthold. A busca da excitação. do direito subjetivo. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. op. permanece. do surgimento do direito natural. os problemas da cidade. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. Da mesma forma. 1992. OËLZE. Norbert. por um lado. cit. priorizar a ética da responsabilidade.concretos problemas sociais. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.

o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. “opções existenciais”. termo de sentido filosófico que significa a tendência. de maior precisão conceitual. 221 166 Ruth M. mas. da "eliminação" das diferenças. leva-o a “opções de vida. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. porque lhe eram impostas pela estrutura social. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. que antes não tinha de fazer. p. Isto é. como projeto a ser alcançado. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. ao mesmo tempo. o indivíduo. o sustentava. ou seja. São Paulo. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. liberta-se dela. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. supostamente própria do universo. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. ao mesmo tempo. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. a incorpora. 1269). opções morais” (moral a la carte). Nova Fronteira. 730). das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. 1986. caracterizadamente holística. Martins Fontes. Em outra fonte léxica. Rio de Janeiro. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. A nova posição. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. No entanto. com ele. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. p. dos grandes códigos modernos. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. Chittó Gauer . Vocabulário técnico e crítico da filosofia. 1999. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

O desafio do século XXI. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. Acesso à humanidade em termos jurídicos. Problemas como o desvio social. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. possuir os mesmos direitos. por óbvio. Não a encontraríamos". p. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. Significa qualquer Homem. criou a forma mais expressiva de violência. Seria possível pensar dessa forma na China. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. Nesse sentido. Da mesma forma. Mireille. Religar os conhecimentos. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”.poderia ser considerada igual e. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. a humanidade é. afirma: “no campo jurídico. Complementando a análise. Esta noção.]. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito.. Na tradução oficial. Lisboa. No entanto. e em nenhum a palavra “humanidade”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . Piaget. 227. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. o terrorismo. embora balizada atualmente. [. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". Se isso fosse viável. na realidade é extremamente subversiva. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito.. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. A busca da igualdade. 1999. um recém-nascido. bolsões de miséria e violência. apenas para citar os exemplos mais conhecidos. No entanto. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. tal como pensado no Ocidente. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". O título sugestivo do capítulo. na verdade. independentemente de qualquer condição. ausência do estado.

eliminando os discursos dos direitos. em todos os níveis sociais e políticos. tal como o pensamento moderno o instituiu. 168 Ruth M. na igualdade. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. simultânea a uma realidade única. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. legitimadas pelos direitos internacionais. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. As diferenças se manifestam com violência. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. é eliminada pelas teorias do consenso. Os resquícios dos totalitarismos. A busca de um pensamento heterotópico. Os direitos humanos.comum. o que impede relativizar em termos jurídicos. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. Para além dessa façanha. leva ao consensual. O discurso pensado como projetivo. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. dos direitos humanos. Chittó Gauer . vêm recebendo reações diversas. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. não consensual. derrubou o que restava da crença na unidade.

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