A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .Ruth M.

edipucrs.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre. I. Chittó Gauer. Filosofia do Direito. Lévi-Strauss. Arquivo. 3. 2.com.br . Diploma da Fundação da Universidade. RS . ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. 6681 .br http://www.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs.© EDIPUCRS. 2009. Direito. 4. Normas Jurídicas. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. CDD 340. Título. Claude – Crítica e Interpretação.br/orgaos/edipucrs/> 1.pucrs. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : EDIPUCRS. Ipiranga. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. 1290. 175 p.

Ruth M. . Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História.br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Chittó Gauer chitto@pucrs. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL.

Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa.Para meus filhos Gabriel. . minhas netas.

Quero aqui mencionar. de encontros e debates. . no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. com ênfase. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. fruto de uma longa convivência. início dos noventa. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. durante o período em que escrevi minha tese. O mais relevante. meu “lar” acadêmico em Portugal. a psiquiatria e a filosofia. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. no entanto. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS.

..................................................... 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise ......................................................................................... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ....... 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação.................................................................................... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos .SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ................................................................... 148 XV Juridicidade................................................. ciência e autenticidade ..................... 169 ................................................................................................................................................................ 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma ..... violência...................... 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ............... 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ................... 138 XIV Norma............................. mito e memória .. 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura .................. 16 A sedução da norma: fato social total .......................... 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora................ 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana.............. 154 BIBLIOGRAFIA ............ 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo...................................................................................................................

Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. sendo continuamente reinterpretado. conciliando. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. odores. como tradição histórica. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. sabores. texturas. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. Desse modo. em certo sentido. de forma harmônica. cores. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. sentidos. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. Buscou compreender o obscuro. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 .I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social.

Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. p. para a convivência dos incompatíveis.Aceitando. Os Pensadores. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. então. 363-365. pois vivemos na unidade de uma só vida. 2 MERLEAU-PONTY. em antropologia. tomando a alteridade como objeto. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. a questão do Outro e do Mesmo. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. superando a MERLEAU-PONTY. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. Abril Cultural.. para um universal constituído por relações de complementaridade. No entanto. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. é necessário. Maurice. porque diferente. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. Chittó Gauer . Para o primeiro. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. Sabemos que. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. conosco. mas um universal lateral. rumou para as diferenças absolutas. com Merleau-Ponty. São Paulo. 1 10 Ruth M. p. Na análise das estruturas elementares de parentesco. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. Para Merleau-Ponty. no entanto. 383-396. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. contrariamente a essa tentativa. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. da diferença e da identidade. Com efeito. a síntese à que ele se refere somos nós. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. 1975. 1 que. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. pitoresca. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. o aparelho de nosso ser social. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. cit. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. a antropologia. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. op. distante. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser.

ainda. 39. 1999. p. Franklin L. ou ainda como um objeto fantasma. Nesta visão surge a lei. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. p. 1997). No entanto. Vila Nova de Gaia. Edições 70. para além desta. I. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. Franklin L Baumer. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. se revela a si própria através de nós. destroem-na. Edições 70. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. Paris. 1990. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. p. A desvalorização da imagem não corresponde. segundo ele. Na busca pela compreensão da verdade. 38. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. 4 BAUMER. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. Para Arthur Miller. 290. uma espécie de contador da existência. de modo algum. mais do que ser. ensaia uma ruptura. um mito (grifo nosso). sem consequências. No entanto. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). no sentido dado pelo direito natural moderno. não se estabelece. Elogio da Filosofia. se mexe. Durand acredita que. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. como diferença”. Fato. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Bergson. Sendo assim. São Paulo. I. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. Flammarion. Martins Fontes. 1996. No entanto. v. o fato e o valor. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. como fomentadores do erro. Matéria e Memória. v. Henri. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. para Durand. pp. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. Martins Fontes. uma história. conforme Bergson. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. O Pensamento Europeu Moderno. 1990. São Paulo. que englobou a norma e. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. pois ele ainda reduz a imagem à memória.dicotomia sujeito-objeto. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. alienando a sua função principal que é conhecer. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. mas esta. 5 BERGSON. Vila Nova de Gaia. em Bergson. As teorias que falam sobre a imagem. que funciona mal no abandono do sonho. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. 369-370). “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. o ‘balanço vital’. O Pensamento Europeu Moderno. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. desenvolve seu íntimo. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. isto é. 39. p. Maurice Merleau-Ponty.

ainda que para fins de melhor compreensão. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. no ato de conhecer. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. não se descolaram do conhecimento antigo. a literatura e outras. Mesmo no período iluminista.ciência. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. criando muitos espaços de debate. que permite a sua “evolução”. corresponde. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. pode se constituir em um problema. e também se constata nas ciências humanas. grosso modo. Chittó Gauer . a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. com a função primordial de normatizar as sociedades. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. Isso que significa que os cientistas dessa época. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. 12 Ruth M. portanto. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. o que denomino humanidades. juntamente com uma visão fundamentalista. No campo das humanidades. apenas visto como uma questão de especificidade. Partimos da premissa. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. Ao corpus antigo. O enfoque da diferença é. As ciências humanas datam do século XIX. justamente a crença na “verdade” científica. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas.

a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. São Paulo: Abril Cultural. In: Os Pensadores. tomando a alteridade como objeto. logo. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. Maurice. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. Nos finais do século XIX. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. A divisão tradicional entre as ciências humanas. passou a sofrer vários abalos. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. Para Merleau-Ponty6. d) Foucault. diminuindo. A teoria da relatividade e a física. c) Lévi-Strauss. Para tanto. P. ou seja. assim. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . Spencer e Webb. deslocando a análise do macro para o micro. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. A antropologia. b) Freud. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. para alguns darwinistas. a biologia passou a explicar. desde os finais do século XIX. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. empírico-formais e exatas. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. basta pensarmos no século XVII. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. 1975. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. para a convivência dos incompatíveis. como Tylor. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. para um universal constituído por relações de complementaridade.dando margem ao inumano.

1974. Há. Logo. independentemente da localização espaçotemporal. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. Marcel. que “por mais que a palavra. a arte é imprescindível.U. necessariamente. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. porém. no entanto. que se ter presente que as linguagens – palavras. Na visão de Mauss 7. No século XX. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. pois.P. escreve o autor. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. Contudo. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. cit. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. enfim. incluíram o rigor das demais ciências. é expresso pela palavra. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. assim. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. mas o homem como cimento afetivo. 363-365. MAUSS. no apogeu do estruturalismo. São Paulo. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo./EDUSP. o Não. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. v. Marcel. à civilização. receba de outros seu sentido. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. que “devemos. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. como explica Saussure. não é a prece nem o direito.de desenvolvimento semelhantes. de produzir-se. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais.. no momento. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. 14 Ruth M. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. o fato social não é uma regularidade compacta. O “verdadeiro”. logo em seguida. a negação. Ao lado desse enfoque a antropologia. Sociologia e Antropologia. op. o afrouxamento do método e. o que há de exprimir não é mais diferido. Chittó Gauer . I. portanto. p. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. desse modo. buscando. E. contraído de suas relações. os linguistas. e.

tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX. Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .

São Paulo. desenvolvido por Mauss. de certo modo. porém. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. p. Mauss. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. tios. por exemplo. sentimentos. o casamento é assumido como um ato individual. o pensamento selvagem e a filosófica. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. em especial com a fenomenologia e se inspira. Sob essa estrutura. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. podemos notar. nos autores clássicos. Proust. encontramos o sistema de parentesco atual. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. a proibição do incesto. 9 16 Ruth M. Otávio. irmãos. entre outros –. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. marcada pela liberdade de escolha. contudo. dialoga com o pensamento filosófico. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. uma escolha psicológica. em grande parte.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. Toda e qualquer escolha dáse. os mitos. o religioso e o artístico. A ser assim. Saussure e Breton. que. Perspectiva. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. Chittó Gauer . ao analisarem a estrutura de parentesco. uma predileção por Bergson. interesses. 8. Toda a obra de Lévi-Strauss. uma desconfiança em relação à filosofia. entre outros fatores. que revela preferências. está baseada no “fato social total”. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. 1977. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. presentes de forma significativa no conjunto da obra. portanto. norma estrutural do vínculo familiar. com base na exclusão do outro consanguíneo.

10 a presença marcante de Saussure. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. 13 RADCLIFFE-BROWN./EDUSP. Ferdinand. passagem que ocorre com a fundação da norma. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. metaforicamente. I. a fundação da norma se dá como um processo de violência. A compreensão do visível é dada pelo oculto. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. Segundo alguns de seus intérpretes.P. Curso de linguística geral. um super-racionalismo. No campo da estética. Anagrama. isto é. Lisboa. além de Marcel Mauss. as capas invisíveis. E. Sociologia e Antropologia. que revela o oculto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 .a passagem da natureza para a cultura. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown.U. Alfred. a poesia e o mito. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. 1975. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. 12 MALINOWSKI. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. Dom Quixote. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. Um corte vertical. v. São Paulo. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. 1985. SAUSSURE. Paris. 1995. Barcelona. 1974. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). Marcel. Poderíamos. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. Ëditions Du Seuil. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. A contribuição de Lévi-Strauss. El método de la antropologia social. Podemos identificar. particularmente. a pintura. Bronislaw. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. na obra de Lévi-Strauss. Journal d’ethnographe. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. pela busca da relação entre o sensível e o racional.

O fonema não tem significado próprio. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. ainda que tais leis estejam ocultas. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. ahistórica. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. Lévi-Strauss. O signo tem um caráter dual: significante (som). As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. Foram as ideias de Mauss. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. A linguagem é um sistema de relações. apenas adquirem significação participando de um sistema. Assim como os fonemas. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. mas apresentam uma racionalidade imanente. economia. as relações de parentesco são elementos de significação. seus elementos (oração. leis. palavra. O fonema é um campo de relações. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. no entanto. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. portanto. desse modo.conforme a antropologia anglo-americana. logo. o historicismo e a fenomenologia. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. Chittó Gauer . mitologias. sistema sempre normatizado. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. classificação. 18 Ruth M. mas como um sistema marcado por coesão interna. como no caso da fonologia. pensa a estrutura como um sistema. No que se refere à fundação da norma. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. como uma estrutura. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. dito de outro modo. significado (sentido). Cada sistema (parentesco. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. arte. mas participa da significação. uma estrutura. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. o significante que precede e excede o significado. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais.

religião) é um sistema de signos. A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. como a linguagem. Apesar das inúmeras interpretações míticas. a significação e a nãosignificação. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. o pensamento e as coisas. aquilo não). Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. mas consequência da proibição. 14 PAZ. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. A proibição também não aparece entre os animais. a regra. um conjunto de operações que transmitem mensagens. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. não tendo. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. são um sonho simbólico. Essa crítica. portanto. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). 14 Ao contrário de seus predecessores. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. de acordo Otavio Paz. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. binária (isto sim. 17. não origem. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. cit. Para Lévi-Strauss. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. jurídicas. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). em seus estudos sobre o parentesco. p. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. Em ambas. Otávio. carregada de interpretações filosóficas. uma origem biológica ou instintiva. op. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade.. A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. Lévi-Strauss.

. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. ou seja. op. embora pareça não ter justificação biológica. Esse tabu. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. Otávio. é a raiz de toda proibição. carece de sentido ou de fundamento.religiosas e míticas. a norma proibitiva. de todas as leis. de toda moral e de toda punição. na significação do espírito. no fato e no valor. equações. cit. mas não de utilidade: graças a ela. 19 20 Ruth M. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. é na própria diferença que a encontramos. nem razão de ser. e esta. ao trabalho e ao mito os homens são homens. em si mesma. portanto. considerada a fonte de todas as normas sociais. a fundação da norma se deu com a negação. mas. inflexível. símbolos. pelo menos lógica. o significante e o significado. este Sim funda o homem. constitui-se ao mesmo tempo na norma. A proibição do incesto. o espírito: algo que é nada. como na linguagem. metáfora. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. uma norma inflexível. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. p. Frente à análise sobre a fundação da norma. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. alcançar uma generalidade universal. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. fonte de todo limite. Se for possível encontrar essa generalização. Para Lévi-Strauss. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. segundo o autor. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. Logo. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. a posição. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. Faz-se necessário compreender. agora. Chittó Gauer . à linguagem. que não se defronta consigo mesmo. pode-se dizer que não há uma oposição. constitui a sociedade.

enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. Em ambos os casos. como o cremos. o mesmo problema se apresenta. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. fundador da sociedade humana. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. Raça e história. ainda. o da comunicação procurada. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . é a sua condição para o êxito. Faz-se necessário ressaltar. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. Tal evento originário. sob a condição. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. Lévi-Strauss. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. que esta é a oposição entre lei e universalidade. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. Lisboa. para Lévi-Strauss. obrigação e necessidade. em Totem e Tabu. subjacente a cada instituição e outros costumes. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. afirma a existência de um evento originário. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta.cultural. traçado na estrutura inata do espírito humano. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. p. antigos e modernos. 1952. 133. de levar a análise bastante longe”. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. Claude. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. Presença. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. naturalmente. Para Lévi-Strauss. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro.

Rosaria. São Paulo. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. 1982. Essa troca constitui-se. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. Petrópolis. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. Assim. dada desde o inconsciente.do incesto. sem pertencer integralmente a uma ou outra. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. de resto. Vozes. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. 70-71. entre natureza e cultura. estando situado entre ambas. necessária e imposta pela exogamia. ao contrário. 18 MICELA. estrutural. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. esse universal. comunicação através dos bens e dos serviços. o passo fundamental graças ao qual – e. portanto. Antropologia e Psicanálise. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). comunicação por meio das mensagens. Ponto de encontro e articulação. o momento da passagem da natureza à cultura. pp. 18 Na verdade. 22 Ruth M. Para Lévi-Strauss. essa proibição “não é de origem puramente cultural. Claude. para o autor. 1984.). Ao nível das estruturas elementares. Chittó Gauer . além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. comunicação normatizada. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia.. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura. de caráter trans-eventual. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. Brasiliense.. nem de origem puramente natural. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência.

ainda. pode-se revelar altamente inoperante.tenha afirmado. ou. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. sua singularidade. a humanidade. sendo a negação simples. em suas conclusões sobre identidade. Nesses casos. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. pensada como estrutura. Paris. e em nós como função simbólica. a permuta da própria nacionalidade. A norma. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. àquelas de onde provêm. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. muito embora seja indispensável como ponto de referência". é um espaço em branco no mapa das emoções. Este aspecto leva a considerar. é possível enquadrar nesse modelo. Grasset. 19 não é exagero dizer que. como ponto de referência coletivo. que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. 1977.). (Org. ou seja. para isso. da economia. A passagem às estruturas complexas do parentesco. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . ao menos “idealmente”. encontra-se fora de nós. 11-39. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. Claude. nos sistemas naturais e sociais. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. em particular. elevada a um plano de destaque. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. direta ou imediata da natureza. Mas. no entanto. muito atomizado. Há. pelos mais variados fatores. La Identidad. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. pp. necessariamente. seguindo a reflexão do autor. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. o fato de que o planejamento de organizações. para a maior parte dos homens. de posturas psicológicas. nossos sistemas de parentesco.

a dominação técnica e a história acumulativa”. Chittó Gauer . p. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. Se. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. op cit. em todas as instâncias da vida. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. a normatização sofreu alterações significativas. como objeto de conhecimento. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. aos valores. consciente de si mesmo. Considerando que. nas relações sociais. caracterizada pela emancipação do indivíduo. principalmente o direito. Segundo Merleau-Ponty. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. Esta ideia demarca as instituições. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. ao surgimento do direito natural. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. que coloca a natureza perante si. cit. ao direito subjetivo. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. A autonomia constitui uma marca da modernidade. MERLEAU-PONTY Maurice. 365-366. 24 Ruth M. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. com Descartes. com o surgimento do indivíduo moderno. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. a autonomia aparece para o indivíduo livre. op. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. nas escolhas de vida.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. agora separado do ser social e político. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. sonhos românticos). Logo. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. vinculado à qualidade única do ser humano.

mas também máscaras de proteção. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. vão se constituindo. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. 13-79. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. no mundo urbano individualizado. na medida em que as trocas não se dão por posição social. A sociedade dos indivíduos. 22 ELIAS. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. anteriormente determinantes. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. este por si só constitui espaço para a liberdade. as maneiras de educação. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Rio de Janeiro.Do ponto de vista sócio-histórico. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . Portanto. Norbert. como do amor conjugal. ao contrário. Zahar. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. características das sociedades tradicionais. pp. 1997. que se apresenta como base para a liberdade. não obedecem a uma lógica exterior. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. com ele. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. para o afrouxamento do controle social tradicional. a partir dos séculos XV e XVI. modos de agir. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. no conjunto da sociedade. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente.

SOUZA. com as quais cada um deve se conformar. 25 ELIAS. dizemos que a liberdade tem seu custo. A Verdade e as Formas Jurídicas. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. Nau. Neste sentido. paradoxalmente. Quanto maior for a liberdade. isso sob o prisma da norma social. 1998. p. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. não por acaso. do conhecimento. como encargo muito difícil de ser cumprido. Brasília. 1985. 1999. Chittó Gauer . se formam o sujeito e as relações com a verdade. 26 DUMONT. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. se poderá fazer uma história da verdade”. domínios nos quais. 142. maior a socialização. mais nos socializamos. O Antigo Regime e a Revolução. Aléxis de. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. op. Rocco. Michel. Jessé. na medida em que. Ed. por um lado. quanto mais nos individualizamos. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. cit. a conformam e dela decorrem. mas sim certos domínios de saber. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. e mais essa necessidade surgirá. para o autor. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. Segundo Foucault 27. op. OËLZE. assim. Norbert. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. 27. Berthold. maior seu custo. Louis. 28 FOUCAULT. 27 FOUCAULT. por outro o expõe. produz o indivíduo em sua autonomia. Rio de Janeiro.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. 26 Ruth M. cit. paradoxalmente. em si mesmas. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. UNB. (Orgs. Brasília.. também é desejada.). ao mesmo tempo originário e absoluto. 1979. quanto maior o individualismo. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. Simmel e a Modernidade. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. ela. Rio de Janeiro. Michel. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. que se. Editora da UNB. a nossa sociedade funciona por normas.

e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. A igualdade. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. esta socialidade. é produto da própria liberdade. é possível falar da incerteza da liberdade. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. mais especificamente no pós-guerra. mais necessitamos de regulamentações. hoje “acelerada” de modo irreversível. considerado o aspecto mais significativo. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. mesmo das vinculadas às leis científicas. O que podemos constatar é que. O único laço que permanece é o de natureza institucional. deste modo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. não é somente um valor. durante o século XX. O indivíduo se atomiza. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. portanto. mas constitui experiência de todos os dias. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação.

pp. integral. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. morfológicos ou outros. em suma. estéticos. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. permitindo. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30.. cit. op. 14-15. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. 31 LEVI-STRAUSS. também. tudo se mistura. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. a totalidade social se manifesta na experiência. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. pp. op. 32 LEVI-STRAUSS. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. na teoria do fato social total. parece que. Ao invés de aparecer como um postulado. seu modo de organização e sua função diferencial. 30 LEVI-STRAUSS.. o aspecto vivo. p. Chittó Gauer . ligado. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. por princípio e por fim. alma. poder-se-ia dizer. 14. Claude. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente..III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. econômicos. pp. como diz Mauss. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. 14-15. Para o primeiro “a totalidade consiste. Claude. Claude. 14-15. Tempo Brasileiro. cit. desta maneira. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. religiosos. op. sociedade. 32 Se. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. Claude. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. 28 Ruth M. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. Rio de Janeiro. para cada um desses códigos. Antropologia estrutural dois. cit. a linguagem do direito. tudo está inter-relacionado. 1976. da arte e da religião como constituintes de projeções do social.

O autor reconhece. Todavia. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. desse modo. LEVI-STRAUSS Claude. 16-17. um interesse privilegiado. pp. independentemente das coisas que lhes correspondem. no entanto. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. 19. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. nada deixou escapar. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. levada até as categorias do inconsciente. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. história. 17. Neste caso. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação.. com o qual não podemos. pensada como tradição. a liberdade – uma forma de organização social. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. 18. a partir dos elementos de sua existência social.. op. cit. a justiça. em sua visão. ou ainda estudar as normas sociais.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. direito. ciência política. Há. O signo. oferecendo-nos. nos diz respeito de forma total. confundir-nos opera. cit. op. como muitos pensam. apesar de tudo. assim como não podemos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . objetos. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. pp. também. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. Claude. portanto. entretanto.

segundo as premissas que apresentamos. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. escrevem. Clifford. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. Destas transformações. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. p. op. cit.. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. Quando se comunicam os homens conversam. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. gesticulam. junto ao significante. se deve ao fato de que. 22. No campo da antropologia a mitologia. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. ao mesmo tempo. no nível biológico. ao menos provisoriamente. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. Chittó Gauer . a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil.que se insere. segundo ele. GEERTZ. 36 35 30 Ruth M. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. segundo Geertz.

provavelmente. 2001. em primeiro lugar. Em segundo lugar. Nova Luz sobre a Antropologia. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. Explica que. em disciplinas como a psicologia. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. Jorge Zahar. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. não apenas as chamadas sociedades simples. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. a própria passagem do tempo. No final. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. a história e a teoria literária. logo. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. mas também fora de sua área. Geertz é. Na entrevista. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. entre outras coisas.lições de Geertz. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. São Paulo. torna a análise muito problemática. A antropologia de matriz norte-americana é. GEERTZ Clifford. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. Na opinião de Geertz. a exemplo do Brasil e da Índia. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. Geertz fala do panorama da antropologia atual. desconsiderando. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . o estudo de sociedades complexas e muito grandes. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. de acordo com ele. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?".

regras. literatura. historicamente. direito. 1987. hábitos e leis sociais. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. se esforçando para explicar as diferenças em geral. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. que estuda tudo.completamente geral. Robert W. 10. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. a exemplo de Hans Kelsen. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. elas fazem parte do repertório da antropologia. Neste caso o niilista não se importará com nada. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. Chittó Gauer . sem dúvida. Antropologia jurídica. como economia. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. nem começaria a interpretar. Ela tem que perceber qual é. In: SHIRLEY. indeterminação. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. não interpretará nada. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. São Paulo. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. não tentaria ao menos começar a entender os outros. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. não tentará buscar compreender nada. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. que diz estudar o "Homem". A análise interpretativa da qual fala Geertz. o Marrocos ou o Brasil. Saraiva. mesmo assim são respeitadas. de vagueza. 32 Ruth M. a análise de suas normas. contingência. p. história. Muitos juristas. política. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. Mas isso não é niilismo. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista.

Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. Antropologia jurídica. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. isto é. isto é. por outro lado. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. se preferido for). 1987. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. como crítico da metafísica (ou do humanismo. ostracismo ou morte. esses dois planos compõem as estruturas sociais. sobre o comportamento do indivíduo. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. Saraiva. e regras secundárias. exílio. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. São Paulo. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . forças políticas estruturadas pelas instituições. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. normas da sociedade referentes às primárias. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. obra em que. Em especial. ou seja. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. 40 SHIRLEY. como no caso das sociedades modernas. subjugadas e ignoradas. Robert W. p. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social.

O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. Alianza Editorial. Meditações do Quixote. 44 GASSET. op. cit. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. José Ortega y. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. 43 GASSET. Gianni. 162. Obras. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". O pensamento da diferença.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. 42 Há. 1946. Ao contrário de Geertz. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. rememora o ser e o ente para além da presença. para Heidegger. De acordo com Vattimo. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. afirma o autor. v.. Ortega y. 42 41 34 Ruth M. plenitude da presença e estabilidade una. igual e eventual. Para Heidegger. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. São Paulo. apenas a rememorou. sob essas premissas. sem estruturas. no entanto. 71-92. Livro Ibero-Americano. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. nega o ser como fundamento. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. 1977. op. enquanto a temporalidade. p. ou seja. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. que “mostra também um momento VATTIMO. GAUER. 2006. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. VI. O ser da metafísica é o ser mutilado. Chittó Gauer . Ver ainda La rebelión de las massas (1930). reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. esquecido da subjetividade). O reino da estupidez e o reino da razão. cit. Chittó. Madrid. Ruth M. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. p. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico.

Com esta análise em mente. No final do século XIX. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. O século XX. Rompera até com a cultura moderna. como fizera o século XIX.‘escandalosamente temporário’. resultado do domínio das coisas sobre o homem. não sujeito a mudanças.). pela ética e pelo direito. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. SOUZA. Jessé. Simmel e a Modernidade. mas perigosa. O destino trágico. 10. Brasília. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. Editora da UNB. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. sendo que. OËLZE. (Orgs. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. mas também sem normas ou raízes”. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. no sentido tanto decadente quanto criativo. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. abertura do pensamento e da cultura. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. o devir era uma das categorias principais do pensamento. afinal. segundo o autor. é um exemplo deste fenômeno. Berthold. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . revelado por Marx. p. na significação que nos interessa. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. cujo movimento na sociedade. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. 1998. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral.

o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. por um lado. culto 46 47 MAUSS. Esta forma de instituição. p. p. 48 MAUSS. 234. uma mistura de direito público e direito privado. 131-132. pois nem tudo pode ser formulado. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. de alienação e de troca. hindu e germânico. São Paulo. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. Marcel. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. MAUSS. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. entre outras. Marcel. romano. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. com elas. v. o autor refere que às funções. de direito não formulado e direito formulado. 49 MAUSS. v. 1974. nossas antigas civilizações. op cit. 36 Ruth M. II. o Não. cit. Marcel. p. 1974. Marcel. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. as pessoas e as coisas”. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. de alguma forma. Assim como na passagem natureza-cultura. e. I. EPU/EDUSP. aos cargos. Segundo a análise. a grega e a romana. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. São Paulo. Do mesmo modo. muito antigo”. como a semítica. 234.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. Sociologia e Antropologia. Sociologia e Antropologia. negativa que contém um Sim afirmativo. Sociologia e Antropologia. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. Chittó Gauer . v. EPU/EDUSP. de toda a sociedade. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. Para o autor os direitos costumeiros são. I. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. da família. Na opinião de Mauss. às honras. e a dádiva por outro. op. a família.

liga-se à relação de parentesco. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. o que. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. da autoridade e da punição. não separa os filhos. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . descende de pais livres. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. do sânscrito “Pitar”. da herança. “Patricius”. “Atta” educa a criança. Éd. “Pater”. contudo. que é lido como “Pai Celeste”. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. traços que se mantiveram na época clássica. 1969. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. v. de fato. não foi obra de legisladores. figura do nome divino de Júpiter. herança. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. Paris. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. a maioridade biológica. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. “Patricius”. autoridade. Minuit. propriedade. pp. exprimindo uma hierarquia pessoal. mãe). Èmile. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. seu auxiliar nas funções sagradas. como já vimos. portanto natural. exclui a relação de paternidade física. a morte do pai. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. esta só lhe é conferida. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. I. o descendente de pais livres.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. da propriedade. assim como a importância das coisas. em sua origem. “Patrius” se refere ao pai não físico. estruturou-se nos mitos. 207-212.

prestam-se para este estudo. Seguindo a análise. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. A religião. além dos vínculos mágicos e religiosos. o nexum. Sob este aspecto. op.. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. no entanto. 38 Ruth M. A melhor etimologia de família é. cit. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. cit. Outros termos de direito. 135-136. op. a pretexto de não fazer sentido algum. bem como um certo número de formas desses contratos. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. Marcel. ao contrário da natureza.se submetiam à sua autoridade. 53 MAUSS. segundo Mauss. quanto mais remontamos à antiguidade. que parte tanto das coisas como dos homens. pp. Chittó Gauer . o nexum. Entre os direitos analisados.. op. Marcel. ou seja. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. é bastante notável que. Marcel. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. segundo Mauss.. cit. a esse título. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. cit. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos.. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. 133-138. embora tenha sido eliminada. o “vínculo” de direito. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. 54 MAUSS. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. além de família e res. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. op. MAUSS. p. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. casa. isto é. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. 53 O contratante é primeiramente reus. a que aproxima do sânscrito dhaman. seu réus. sem dúvida. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. por seu espírito. pp. MarceL. pp. e que se torna. não concede a maioridade aos filhos. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. Como observa Mauss. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. 135-136. A etimologia já fora proposta antes. 139.

coisa”. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia.. de um ‘processo’ público. “ao contrário. crescida à sombra do racionalismo. o sentido de culpado. se nossa derivação semântica é aceita. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. Há autores que traduzem res por “processo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . 2°. investigar e decifrar os mistérios da natureza. o culpado e o responsável”. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. que apresenta o seguinte: 55 “1°. acabou por ter um efeito perverso. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. ficam um pouco mais esclarecidas. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. (. supondo que o termo res é. do nexum e da actio. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos.) de inferioridade espiritual. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. Marcel. cit. A imagem. p. sobretudo. segundo o autor.. “a origem do contrato. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Como se pode observar. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. 140. todas as teorias do “quase-delito”. e rei-jetos por “implicado no processo”. Mas essa tradução é arbitrária. o indivíduo possuído pela coisa. enfim. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. Desse ponto de vista. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. op. Para Mauss. com mais forte razão para reus. 3°. um termo processual. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa.

que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. A base tutelar da família foi fragmenta. 56 40 Ruth M. por sua vez. especializou-se e. antes uma acepção secundária. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. 57 DESCARTES.. Lisboa. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. A criação do paradigma da modernidade. assim. cit. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. uma vez que o centro. corpo-espírito. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. Discurso do método. objetividade e subjetividade. as res que dela faziam parte. pp. Rocco. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. 57 permitiu o surgimento do dualismo. 12-16. segundo Dumont. razão e emoção. cuja base se encontra na obra de Descartes. 1985. 1993. ao fazê-lo. René. pp. O sentido implicado no “processo”. econômica. jurídica. foram deslocados. ou seja. o sentido da palavra família. um dos princípios que. Chittó Gauer . Essa busca. 58 DESCARTES. passou a regulamentar de forma especializada. não foi substituído por outro. isto é. 117-118. deslocando. O Iluminismo. isto é. foi fragmentado. já que deixa de haver um princípio organizador único. passa a ter uma acepção difusa. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. René. pp. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. dicotomizando tanto coisas como homens. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. pessoas e coisas. mas por uma pluralidade de outros. política. Para Dumont.mistérios da natureza. por uma pluralidade de centros de poder. res. Louis. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. Rio de Janeiro. no entanto. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. O individualismo. 80-85. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. A exemplo do direito. lícito e ilícito. de um “processo” público. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. religiosa. Edições 70. op.

buscou substituir várias autoridades. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. por meio da experiência.seu famoso Discurso. o modelo de visão do autor é o tato. isto é. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. Esse conhecimento. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. que “Os cegos vêem com as mãos”. totêmica. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. em determinado ponto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . da investigação. Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. mas afirma. da observação. no entanto. mítica e religiosa.

instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. a exemplo do exercício do poder. A criação dos símbolos modernos. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. estéticas e políticas das sociedades. respeitamos regras. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. Barcelona: Barral Editores. 320. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. com base na crença da ciência. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. mas.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. 1970. da tradição e de instituições que a precederam. Obras III. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. Sociedad y ciências sociales. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. trocamos mensagens. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. Marcel. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. Chittó Gauer . de uniformização. da mesma forma que os da língua. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. 321. a consanguinidade. p. que possui o indivíduo como melhor exemplo. 42 Ruth M. A separação natureza-cultura. As transformações das instituições jurídicas. está estruturada em uma concepção “natural”. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos.

como. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. p. Abril Cultural. A interpretação das culturas. denominada legislação em sentido amplo. à procura do significado”. de conhecer as diferentes “realidades”. escolhas. O crime e o castigo seguem convenções legais. Os Pensadores XV. 15. São “versões” da vida em sociedade. Gottfried W. mas como uma ciência interpretativa. pp. as categorias coletivas. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. em parte. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. 63-73. Rio de Janeiro. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . São Paulo. e como devemos realizar nossas ações em sociedade. Zahar Editores. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. “sujeito-da-razão”. proibições. além de não eliminar a norma fundante. porém não conseguiu eliminá-la. 62 DESCARTES. como já referido. teias. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. quando 60 61 GEERTZ. o indivíduo moderno. que não conseguiram eliminar a regra geral. Clifford. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. não como uma ciência experimental em busca de leis.sobre o pensamento e a ação. LEIBNIZ. apenas releu a forma. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. pp. por exemplo. René. o que fazemos. 1973. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. 81-153. portanto. Abril Cultural. 1974. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. imposições. Tal postulação inspirou-se. 61 A partir daí. segundo este último. Os Pensadores XIX. criadas em sociedade. São Paulo. 1978. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. pois. outras categorias foram derivadas.

importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. elaborando a composição de orientações diversas. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Os Pensadores XVII. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. além de outros como Hobbes e Kant. pp. 44 Ruth M. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. do conhecimento e da prática. São Paulo. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. determinado pelo “cogito ergo sum”. Hobbes. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. assim. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. o “eu penso”. É. reelaborado também pela visão de Locke. vistas como ontologicamente diferenciadas. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. sujeito da modernidade. Chittó Gauer . O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. sem dúvida. Tentou-se.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. Para muitos autores. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. no entanto. em Locke. elementos esses que seriam. A partir dessa posição de Descartes. O “indivíduo soberano”. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. a partir de sua análise. no sentido heideggeriano). John. Abril Cultural. 139-348. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. Ao refocalizar o velho (e original. 1973. Por outro lado. Locke e Rousseau. irredutíveis. com capacidade de raciocinar e pensar.

e sim manutenção dos mesmos objetivos. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. mas um princípio metodológico. Tanto é assim que. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. Todas as correntes concordam. Não há dispersão. precisamente porque fundada. Contudo. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. no final do século XIX. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. no entanto. não eliminam o intento comum. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. 1985. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. Rio de Janeiro. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). Outra prova é que. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. e os formalistas como Kant e Fichte. jurídico e político. por exemplo. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. após as críticas da escola histórica. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. mas o modo de abordá-lo (a razão). mas sim uma unidade metodológica. Rocco. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. todos pertencem à mesma “escola”. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. 64 Essas questões. no entanto. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas.estejam separados por uma fronteira intransponível. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. Na verdade. finalmente.

elas passaram para uma forma mais coletiva e social. Chittó Gauer . criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. mas o método. a redenção do Siècle des Lumières. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. 1967. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. como modelos estáticos. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. 183. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. progrediram as ciências na Inglaterra. v. Nesse sentido. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. As teorias clássicas liberais de governo. No século XVIII. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. 65 46 Ruth M. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. ainda submersa no platônico mundo das sombras. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. A base seria não uma lógica do provável. IV. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. da Europa chegou o progresso. Há. no interior dessa grande estrutura.paradoxo da modernidade. o referencial filosófico-social básico. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. sepultura da medieval fé em Deus. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). portanto. Alemanha e outros países. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. Paris. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. e “eliminou” todas as diferenças. O que caracteriza. p. e foi definido. sustentáculo da sociedade GUSDORF. o Estado-nação. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. Payot. no entanto. George.

ou seja. Ao mesmo tempo. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. para isto. 1982. Zahar. “englobaram” todas as diferenças. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . o estado. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. os numerosos estudos sobre caráter nacional. primordialmente. certamente. As culturas nacionais. e estas. ingleses. uma comunidade simbólica. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. Estigma.moderna. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. Basta recordar. impressas em nossos genes. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. Nesse contexto. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. Os indivíduos soberanos. criadas por meio de tetos políticos. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. Rio de Janeiro. gestada ao nível da razão simbólica. Obviamente ao nos definirmos como tais. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. Erving. argentinos. fenômeno 66 GOFFMAN. No entanto. necessidades e interesses. Goffman. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. Essas identidades não estão. gerando. nesse sentido. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. por outro lado. inversamente. entre o sujeito e seu entorno. E. etc. a qual é. entre eles. com suas vontades. assim. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação.

entre outras. nas sociedades ocidentais. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. religiosas. No caso brasileiro. políticas. há décadas atrás. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. Os indivíduos soberanos. à cultura nacional. desde os finais do século XVIII. posteriormente. com suas vontades. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. junto ao estado-nação e. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. necessidades e interesses. Chittó Gauer . As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. As diferenças regionais. A lealdade e a identificação foram localizadas. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. O modelo interativo.este de índole essencialmente contemporânea. já no início do século XIX. a atenção. O tema da nacionalidade. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. No início do século XIX. étnicas. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. dominação e hierarquia. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. consequentemente.

O individualismo. pelo próprio sistema de representações. necessidades e interesses. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. As idiossincrasias sociais. é prescrito. um fato e uma norma. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. em muitos casos. não há lei sem a impessoalidade. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. Como refere Dumont. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. a negação da ordem escravocrata. o que tem por separar a ideia de valor. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. que. mas a própria sociedade em ato. Rio de Janeiro.270. neste caso. com suas vontades. por outro lado. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. 67 “o valor está imbricado.relações sociais. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. e por assim dizer. Embora essa dissolução tenha ocorrido. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. o valor e a norma. não havendo. Em se tratando de sociedade moderna. que a norma não seria um efeito da sociedade. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. liberdade de escolha. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. há que se salientar a importância da norma. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. Rocco. 1985. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. pp. tornaram-se a figura central da lei. Os indivíduos soberanos. as quais configuram a estrutura social. ou o valor se vincula ao indivíduo. No entanto. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. como já afirmamos. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. Louis. 269. assim como não há indivíduo.

Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. 50 Ruth M. nada articula. Chittó Gauer . No entanto. abre toda a significação. o fundamento primeiro do fato social. a norma.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela.

Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. Gaston. 756-758. da física e da química não apenas um avanço. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. op. BACHELARD.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. São Paulo. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. mais do que uma simples descoberta. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. Após o relativismo do racional e do empírico. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. Os Pensadores. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. 757. Gaston. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. Um segundo fundamento. é antes criação”. cit. 1973. no decorrer do século XX. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. pois permite repensar a crise da ciência moderna. antropologia e psicanálise. sobretudo. Os Pensadores. pp. 68 69 BACHELARD. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. pp. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. 70 BACHELARD. Abril Cultural. e entre vários filósofos. Gaston. p. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. op. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. como se a terra. 756-758. versando sobre a descontinuidade. propôs uma noção de duração não bergsoniana.. Na física. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . de Bergson a Bachelard. o mundo. cit. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’.

São Paulo. 71 52 Ruth M. Companhia Editora Nacional. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. Difel. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. 1974. do onírico. 71 Para Durand. 76 BASTIDE. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. a antropologia. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. p. Papirus. Roger. Rio de Janeiro. Todavia. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. São Paulo. Edições 70. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. segundo o belo título de Henri Ellenberger. São Paulo. 2000. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. por exemplo. a história e as normas sociais. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. O Mito e o Homem. 73 Sigmund FREUD. Gilbert Durand. Deus. 2002. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Sociologia e Psicanálise. 75 CAILLOIS. Claude.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. cujo resultado. 2001. ou campos de conhecimento. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. 3ª ed. Lisboa. a natureza. O Pensamento Selvagem. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. 72 Gilbert Durand. o Simbolismo e o Surrealismo. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. desde a psicanálise até a cibernética. Roger. 74 LÉVI-STRAUSS. cit.. do mito e do “pensamento obscuro”. a psiquiatria e psicanálise. Chittó Gauer . Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. 1986. Imago. a história das Ideias. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. 35. 73 do “pensamento selvagem”. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. op. A Interpretação dos Sonhos. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. 76 são exemplos destas análises.

adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. Gilbert. Assim não há. como de fato o são. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. já de matiz clássica. conclui que. Bion. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. as assertivas de Lévi-Strauss. mesmo sendo arbitrários. op. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica.. 36.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. o importante é a existência de significados que. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. Melanie Klein. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. em princípio. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. baseadas na obra de Jung. a razão. uma vasta compilação e análise. pois tal comparação confirma. Seguindo essa linha de investigação. Para Durand. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. p. em termos de interpretação. extremamente minuciosa e complexa. 77 DURAND. de certo modo. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. Hartmann e tantos outros. a função do sonho. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . Alexander. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. Portanto. Freud. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. cit. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. as orientações psicoterapêuticas. entre outras contribuições.

Neste. Amorrortu Editores. por uma confrontação de seus DEVEREUX. por sua natureza científica. Cabe. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. No entanto. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. semelhante a tantas outras. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. portanto. que pode ser coletada e que... seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. 1975. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. Georges. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). Chittó Gauer . como comentário correlato.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. como estas. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. para Lévi-Strauss. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. veracidade e exatidão de uma teoria. Buenos Aires. 78 54 Ruth M. frente à sua realidade existencial e concreta. De qualquer modo. Esta forma moderna da técnica xamanística. Portanto. tira. por atingir as causas reais da perturbação. Desta constatação. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. a partir de um modelo explicativo. qualitativamente diferente do pensamento científico). senão no próprio homem. não há mais lugar para o tempo mítico. Ou seja. Etnopsicoanálisis Complementarista. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. que é a psicanálise. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. que se opõe. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. o que não se daria com as últimas. pois. mencionar a posição de Georges Devereux. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”.

ainda nos tempos atuais. está 79 LÉVI-STRAUSS. por sua vez. No caso específico de Freud. ou seja. Antropologia Estrutural.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. Claude. O papel primordial atribuído à razão. portanto. no homem ocidental. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. Tempo Brasileiro. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. na passagem para o século XX. da força das emoções”. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. Freud. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). tal análise é simplista. E. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. ou formulação de uma identidade. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. Assim. soturno e traiçoeiro. 1970. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. com a linguagem dos símbolos. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. p.” 79 Veja-se. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. elaborou. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. 224. Rio de Janeiro. Nesse contexto. Na verdade. permite a via de acesso ao inconsciente. como já havia dito Spinoza. para o citado autor.

nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. em última instância. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. do mesmo modo que Freud. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. não só em áreas específicas. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. dessa forma. nessa busca. encontrou. A contribuição de Ferdinand de Saussure. tentando. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. logo existo”. Para Freud. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. na qual se destaca E. que traz consigo o desenvolvimento da razão. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. mas. Quando Freud buscou a subjetividade e. a sociologia e a antropologia. tanto Darwin como Freud. um duro golpe ao narcisismo humano.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. Com essa posição. nossas identidades. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. com ela. tal como a ciência moderna havia proposto. Correspondendo ao espírito da época Darwin. Chittó Gauer . Afirmou Saussure que nós não somos. também contribuiu para essa crise do conhecimento. o que correspondeu. Ao contrário. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. Acertaram. não deu atenção à dinâmica psicológica). recriar os modelos universais. a psicologia. a descoberta do inconsciente. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. em outra área de pesquisas. Kraepelin. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. E isto Darwin o fez mostrando que. de certa maneira. em nenhum sentido.

com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. a opinião de Georges Devereux. e este fato mantém uma conotação de atualidade. um sistema social e não individual. em uma relação um-a-um. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. por exemplo. para fins de análise histórica. de natureza teórica ou não. No entanto. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . superando as contingências do relativismo. por exemplo. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. Lembremos que. Atualmente. por exemplo). O significado das palavras não é fixo. tal questão está em grande parte superada. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico.nos comunicarmos. Por outro lado. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. Devem ser consideradas também. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. nesse sentido. Essa foi. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. os de normalidade e anormalidade. No campo da etnopsicanálise. Ela pré-existe a nós. não podemos utilizá-la para produzir significados. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. A língua é. em virtude de considerações de ordem variada. Porém. o par de termos opostos noitedia). Este autor optou por uma definição de normalidade que.

mas nelas algumas questões precisam ser revistas. 58 Ruth M. para lançar em descrédito a psicanálise. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. mesmo no chamado mundo civilizado. Para Durand. basicamente. da qual um grande número de culturas seria excluído. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. sem dúvida importantes. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. em certa medida. Chittó Gauer . Mesmo assim. de Freud. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. que anima a mente primitiva. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. dando sentido e ordem ao universo e que é. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. Todavia. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. Na concepção de Durand. que antecedem uma maturidade mais plena. Caillois e Bastide. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. por muito tempo. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. que possui uma conotação de natureza mais universal. discutir a questão da alteridade. lançada por Lévi-Bruhl. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. nesse ponto já superado. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico.

O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise. faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . Porém.

VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. que se difundiu por toda a Europa. evitando isolar-se em abstrações excessivas. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. notadamente. O humanismo renascentista. nos século XVII e XVIII. concepção defendida pelos estruturalistas. como França e Inglaterra. a posição marcadamente anticartesiana. trad. Evidentemente. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. 1974. Abril Cultural. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. Giambattista. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. 60 Ruth M. Os Pensadores. seleção. São Paulo. A partir de meados do século XVI e. Chittó Gauer .

Dessa forma. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. Discurso do Método. Conforme afirmara: “a verdade é que.ao método matemático era. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. Giambattista. 81 Ao mesmo tempo. p. ergo sum.. “a história no exílio. isto é. 82 Dessa forma. segundo o autor. desprovida de sentido. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. a ideia VICO. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. é que o próprio criador a tenha criado. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. que careceriam de demonstração lógica. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. 38. colocava. pois existiriam produtos humanos fundamentais. pois repousam no verossímil. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. René. Por outro lado. contida no cogito. DESCARTES. Brasília. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. a partir do modelo matemático. pouco encontrava que me convencesse. 83 Ibid. p. pois ele não se cria a si mesmo. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. op cit. ou seja. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. a perda de seu atributo de certeza. Editora Universidade de Brasília. em sua opinião. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. 36. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. 1981. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. formulada por Descartes.. como a poesia e a história. por fim.

s/d. pois. Como diria Collingwood. justamente por ser o homem produto desta. G. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática.. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. 88. A reflexão do filósofo napolitano considerava. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. Giambattista. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. governos. segundo Vico. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. p. A Ideia de História. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. à crítica fundada na razão. seleção. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. trad. ainda. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. São Paulo. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. 85 84 62 Ruth M. leis. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. Os Pensadores. Chittó Gauer . Editorial Presença. 1974. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. Abril Cultural. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. R. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. Nessa perspectiva. O autor separou a história das ciências da natureza. libertando-a da dependência das fontes escritas. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. VICO. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. etc. O passado não pode ser visto com os olhos do presente.de que as proposições matemáticas. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. o filósofo napolitano oferece a tópica. colocada entre o falso e o verdadeiro. Lisboa. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico.

as alianças. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. os tratados de paz. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. incertíssimo por sua própria natureza. as viagens e os intercâmbios comerciais. a fim de que. vinculando esse direito às tradições. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. como as guerras. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. tais como os costumes e as leis. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. dotado de vontade. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . tanto em seu território.deles conhecidas e antevistas”. Se uns e outros tivessem feito isso. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. quanto fora dele. de um lado. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. a fim de que. “O humano arbítrio. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. Segundo Vico. historiógrafos e críticos. ao menos a vontade repouse sobre a consciência.

64 Ruth M. portanto. generalizável como totalidade. Chittó Gauer . que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e.XVII.

El antropólogo como autor. Barcelona. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. circunstância que compartilha com todos os organismos. como teoria explicativa da diferença. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. a razão prática. Rio de Janeiro. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII. consultar: Marshall Sahlins. Marshall. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. cit. 1979. Nesse sentido. A razão prática. independendo da questão temporal ou geográfica. Cultura e Razão Prática. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. No entanto. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . 87 paradigma da igualdade. de interesse utilitário. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. op. O evolucionismo. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática).. e Clifford Geertz. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. 88 ou teoria da utilidade. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. Zahar. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. 87 SAHLINS. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. 1989. Paidos.

dessa forma. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. Nesse sentido. estrutura e função. em um estágio primitivo. Lewis Morgan. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. para o progresso. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). portanto. conhecer a diferença.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. ao estudar as instituições. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. A definição dos três estágios – selvageria. desatrelada do tempo histórico e. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. e Lewis Morgan (americano). as invenções e descobertas de certas sociedades. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. Um dos 66 Ruth M. e em muitos casos até boa parte do século XX. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. da hierarquia entre evoluído e atrasado. levou a antropologia do século XIX. procurou ordenar seus estágios evolutivos. Chittó Gauer . A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses).

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Ruth M. Chittó Gauer

Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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Para tanto. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”.br/arquivo/wal1201. formada de índios. agregou-se a teoria da degeneração. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. n. 2002. 92 70 Ruth M. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". Acesso em: 03 jan. Disponível em: http://www. Conforme Ana Maria Oda. sob circunstâncias apropriadas. Psychiatry On Line Brazil. intelectuais e comportamentais. o Brasil deveria se engajar. Após as influências dessas escolas. 2001. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. no qual. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. Ana Maria Galdini Raimundo. 6. Juliano Moreira. pela visão de seus teóricos. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. Este “estigma de ODA. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. Então. portadora de estigmas físicos.” A estas concepções organicistas. 12. tendo a sífilis como modelo.diferença. dez.htm. v. 92 “na segunda metade do século XIX. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. Arthur Ramos.med. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. Chittó Gauer . Autores como Nina Rodrigues. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. entre outros. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. Um número expressivo de historiadores. dominaram as concepções organicistas. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório.polbr. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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Ruth M. Chittó Gauer

estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. nesse rumo. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. apesar das dúvidas 74 Ruth M. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. Chittó Gauer . e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. neutro e objetivo. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. Nos campos de concentração denominados “reservas”. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. do quadro social então presente na sociedade ocidental. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. homicídio. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. Nesse contexto.de um modo de vida tradicional. do mesmo modo. pela reestruturação política e social do mundo. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. associou-se à psiquiatria que. pois ambos operam como uma unidade sintética. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. de certa maneira. Tais ocorrências sociais. É inegável que o século passado. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. assim como várias outras em diversas partes do mundo. suicídio. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. já havia decretado sua morte. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. No entanto. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. a antropologia. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas.

desrealização e. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . uma patologia. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). como processos dissociativos. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. Portanto. comportamento. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. em síntese. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. com seus quadros de anomia psicossocial. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. A partir desses fatos. Por exemplo. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. de saúde e enfermidade. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. temos aqui dois fatores. Como se vê. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. assim como ao nível das culturas camponesas. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. assim como as instituições culturais em geral. Este pensamento como que matizou. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. consolida-se a etnopsiquiatria. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. Esta.“relativizantes”. Detecta-se. Por um lado. sintomáticos de uma patologia mental. então.

a observação feita por Lévi-Strauss. dessa maneira. por exemplo. incluindo culturas urbanas. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. entre o psiquiatra e o xamã. critérios transculturais de análise. portanto. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. em princípio. observação e tratamento. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. um ponto de encontro. pois. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. O critério de eficácia é. discutível. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. mesmo que superficialmente. até. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. 95 76 Ruth M. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. assim. Não se pode afirmar. a qual legitima tal fenômeno. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. A partir disso. e aceitáveis De modo semelhante. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. ao nível do arbitrário. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. Mesmo assim. propondo. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. convém lembrar. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. Seriam. Chittó Gauer . Ou seja. Nesse caso.qualquer agrupamento social. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido.

que a doente adquire deles progressivamente. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite. real ou suposto. 204-224.. ao mesmo tempo. p.. Empero.. (. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. num sentido favorável. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. (. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace.. Etnopsicoanálisis Complementarista.LÉVI-STRAUSS.). “(. aparentemente tão afastadas. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. (. Tempo Brasileiro. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo. uma vez que a psicanálise (assim como. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. sem isto.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento. “Neste sentido. 1970. à prática e ao simbolismo xamanístico.. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. a partir de um modelo estrutural comum. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas.” Georges Devereux. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real.. Portanto. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une. mas.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. 1975. Amorrortu.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. de outro modo informuláveis. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. em linhas gerais.) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. 255. Buenos Aires. isto é. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. e ela é membro de uma sociedade que acredita. Rio de Janeiro. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. 97 Como coloca DEVEREUX. a reorganização. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. não tem importância: a doente acredita nela. pp. Claude.. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . Antropologia Estrutural. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem..

levou várias décadas para concretizar-se. se for considerado conveniente. Afirmam os etnopsiquiatras que. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. poderão reformular. utilizando. Ruth Benedict e outros. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. sem que isso o afete mais profundamente. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. por exemplo) como delirante. assim. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. Este fato. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. Chittó Gauer . sua prática terapêutica. no caso. principalmente no processo de tradução. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. correspondam ou não à realidade. Em um primeiro momento. melhor transitar no terreno da psiquiatria. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. por exemplo. com grande benefício. Também é fato sabido que. nada de inédito. como Robert Merton. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. em termos de enfermidade psíquica. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. a sociedade urbana norte americana. Gregory Bateson. Na verdade. em si. a comprovação deste fato não trouxe. Como se sabe. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade.

pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. de certa maneira. 98 Neste caso. Ou seja. como objeto transacional. idênticas a si mesmas. tomados de um terror místico. 99 No entanto. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização.esclarecedores a esse respeito. Parece que. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. muitas vezes encobertas. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. e que. e uma possessão patológica. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. ou seja. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. de certa forma. nesses contextos. a partir disso. às populações primitivas. no entanto. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. da cultura. indistintamente aplicada. por exemplo. atemporais. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . no século passado. no transcurso de gerações. por exemplo. Não há. 99 Assim. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. se mantêm assim. dentro dos paramentos de controle social. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. como seria o caso da “cultura da pobreza”. por assim dizer. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. agora ameaçada. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e.

3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. establecida por los etnólogos. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. em princípio. pp. a normalidade psicológica do indivíduo. 2) El principio de las posibilidades limitadas. esa lista correspondería punto por punto a una lista. 80 Ruth M. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. Deve-se considerar. Para escapar a esta relatividade. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. Chittó Gauer . extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. No entanto.em seus diversos aspectos. 76-77. De los tres postulados que acabo de enunciar. Georges. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente. y aún se encuentra actualizado culturalmente. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. op. cit. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. em termos mais amplos. em qualquer caso. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. en otra suele estar reprimido. E. no entanto..

elimina a tradicional distinção. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. que são considerados como normais e ajustados à cultura.. 115. se for levada às últimas consequências lógicas. Estabelece-se. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. Coloca Devereux que. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. normalidade mental. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. Por outro lado. tendo por assentado que esta cultura é normal. de limites imprecisos.. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. Retornando ao exemplo acima. Georges Devereux.. também..) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”. p.) 2) El comportamiento de un grupo. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. como uma névoa.. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. ob. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. embora existam padrões. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. necessariamente. que se situa dentro de um contexto de relatividade. 101 Assim. Haveria uma área transicional. em uma sociedade. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (. valores e padrões em geral de uma cultura. cit. acentuada desde Durkheim. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. entre indivíduo e sociedade.

Como se sabe. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental.dessa maneira. assim. No que se refere ao indivíduo. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. como se deslizasse por elas. Um determinado indivíduo. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. como por mudanças de nível “macro”. Chittó Gauer . de transformação. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. de caráter urbano. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. Este fato pode produzir diversos resultados. de forma alguma. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. por assim dizer. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. protegido e infragmentável. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. a sociedade contemporânea. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. Outro aspecto ressaltado por Devereux. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. Ou seja. recusando-a em 82 Ruth M. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. Diante disso. Por outro lado. o que não significa. produtora de “identidades fluidas”. na sociedade urbana. que envolvem o todo do contexto social. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. por exemplo. Mas quanto à posição de Devereux.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. E. ao mesmo tempo. Ela pode ser um fenômeno salutar e. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. é um indicador de normalidade. difíceis de discernir. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. de qualquer modo. na cultura urbana. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores. Mas por outro lado. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica.

isto é. ficamos tentados a reler. Mary. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. 84 Ruth M. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. Pureza e Perigo. que a autora trabalha. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. p. lavar. nomeadamente no século XX. A estética. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. isso ocorreu. Perspectiva. como se isso fosse possível. etc. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. a pureza e a ausência de qualquer perigo. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. principalmente por meio das tarefas femininas. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. 56. Deparei-me com Pureza e Perigo. desinfetar. que deve estar livre de impurezas. qual seja: a questão da ordem. normalmente associada ao belo. não menos importante. passar.. da sujeira. do perigo. Há alguns dias. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. mesmo as mais microscópicas. Relendo algumas passagens do livro. No entanto. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. Chittó Gauer . O tempo de limpar. Esse fato não iniciou no século XIX. 1976. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. ligada às tarefas da casa. com ausência de resíduo. assim como todo o tipo de discriminação. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. mesmo os mais microscópicos. que destaquei há tanto tempo. A sujeira é um fato que nos repugna. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. da impureza. temos horror a certos tipos de sujeira. São Paulo. quando com elas nos deparamos na estante de livros. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza.

Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. hospitais. p. tal como foi criado nos tempos modernos. do violento. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. A modernidade disciplinou não apenas os homens. perigosas. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. vistos como perigosos. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). buscando os ideais de ordem. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. como medida de exceção. em resumo. do feio.. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários.pureza. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. Esses locais. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. A modernidade criou 103 DOUGLAS. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. Na modernidade essa prática continuou. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. op. Mary. portanto. passou-se a isolar casas. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. também foi submetida à disciplina da higiene). até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. constituía-se na única forma de proteção. O isolamento. do monstruoso. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. do disforme. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. exemplo de espaço privado. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. pois são perigos em potência. assim como a ordem do espaço público. cit. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 .

Quais os procedimentos políticos. 270-274. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. Os exemplos históricos mais recentes.essa compulsão. porém. Louis. e está. seja nos regimes totalitários. maior a igualdade. Rocco. Há que se salientar. fascismo. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. O individualismo. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. seja nos regimes políticos das democracias liberais. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. Rio de Janeiro. a corrupção. 1985. Quanto maior a exceção. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. transparente e livre de contaminações. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. os perigosos. presente nas sociedades ocidentais. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. utopia dos iluministas. Os modernos esqueceram. Chittó Gauer . administrativos. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. jurídicos. devem ser purificados ou eliminados. por mais paradoxal que possa parecer. como o nazismo. 104 86 Ruth M. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. a todos os que podem se constituir em perigo. a sedução das crenças e demais impurezas. sem muito esforço. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. pp. Nos estados de exceção. O mundo perfeito. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. comunismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.

A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. Os perigos precisam ser eliminados. 105 a força de uma democracia. A partir desta constatação. colocando distância entre a ordem e a desordem. uma coletivização ao extremo. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias.uma tensão contraditória. depurados. Teoria Pura do Direito. Metamorfoses do poder. a teoria SÁ. 5152. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. Coimbra. com a tentativa de eliminação do estranho. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. a força política se sustenta na medida em que se purifica. do desigual. isto é. Trad. Hans. 34. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. Por um lado. entre a pureza e o perigo. o exercício da soberania. Armênio Amado. Se representação e identidade constituem. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. pp. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . por outro. nas palavras de Franco de Sá. Coimbra. nos regimes democráticos. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. na essência e no modelo. João Baptista Machado.. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. 1979. cabe aqui lembrar que. 2004. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. Esse aspecto traz problemas para a democracia. Ariadne Editora. estruturada na naturalização do indivíduo. 4 ed. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. nesse caso. Alexandre Franco de. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. Para o autor. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. constituída pelo direito. limpos.

sofre evidências devastadoras. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. cit. No entanto. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. A própria soberania. entre outros. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. enfim. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. além de outros. em nome da igualdade. o diferente. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. 88 Ruth M. Hoje esses termos dissolvem-se. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. op. Chittó Gauer . tudo o que causa estranheza. do modelo e do antimodelo. isto é. nas teses de Schmitt. exemplo de regime de exceção. tal como pensada na 107 SCHMIT. o sujo. apud Alexandre Franco de Sá. que nasceu naturalizada. “raça”. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. guerra total.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. 107 a questão da exceção. ou seja: isto. que visava à eliminação das hierarquias medievais. do sujo e do limpo. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. “gênero”. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. na atualidade. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. perigo. A soberania da igualdade. o doente. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. o anormal. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. que lembra sujeira e desordem. como os nazismo-fascismos. aquilo. As práticas políticas adotadas na modernidade. o impuro. que serviam à identificação dos sujeitos.

necessariamente. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. lugares de negociação em andamento. deixou de ser a norma. desconhecendo a questão dos direitos humanos. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. no relativismo. nem sempre descritíveis em sua totalidade. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. da inclusão e. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. do perigo. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. o duelo entre tradição e modernidade. as famílias dos homens-bomba. não consensual. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. que foi cometido pelo seu irmão. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. locus do “aqui e agora”. entre outros lugares. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos.modernidade. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. sobretudo. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos.

nesse 90 Ruth M. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. protegidas dos perigos. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. Com a superação do eterno retorno. segundo Virilio. os desvios sociais. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. o consensual fica sendo os totalitarismos. não consensual. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. os fundamentalismos. enfim. de uma identificação totalizante. Outra pergunta se faz necessária. tais como pensados desde o século XVIII. matam o discurso político. A impossibilidade de uma verdade única. com as impurezas. A questão não envolve a justaposição da diferença. ordenadas. ao lado do consenso cultural. Nesse quadro. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. gerando a violência. associada a uma velocidade que. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. estruturante. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. é a velhice do mundo.determinismo racionalista. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. Chittó Gauer . O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. Não há preparação para lidar com o erro. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. a ausência do estado nos bolsões de miséria. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. O presente se torna imprescindível. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta.

A interferência das minorias ocupa o território da cultura. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. abandona-se a sequencialidade. as fímbrias. nem projeção. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. 20-46. distante do historicismo teleológico das “causas”. 2001. passando a ser questionada. Belo Horizonte. pureza x perigo e assim por diante. alargado. É o ocaso do etnocentrismo. ele é ex-cêntrico. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. enfim. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. capaz de se autogerar. op. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. Homi K. O Local da Cultura. Editora UFMG. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. fica comprometida. ambivalente. Como decorrência. engendrando novos espaços e temporalidades. a exemplo do nazismo. paradoxalmente. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado.. O presente “não tem lugar”. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. estado x sociedade.caso. O autor menciona que os “entre-lugares”. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. As diferenças culturais são exercitadas. Nem ruptura. capital x trabalho. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. do além. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. metrópole x colônia. o que implica um deslocamento constante. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. pp. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. mas. Para Bhabha. BHABHA Homi K. ou mesmo das raças. O presente “é o tempo de agora”. ao mesmo tempo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. os interstícios. cit.

tornada semelhante. BHABHA. op cit. mas sim reconhecida. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. Ainda segundo Bhabha. pp. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. de releitura da contemporaneidade. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. A minoria não quer ser “incluída”. Segundo Bhabha. 59. O Outro perde o poder de significar. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA.. de estabelecer seu próprio discurso institucional. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). 92 Ruth M. 29. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. higienizada. dá seus últimos passos. não é uma passagem suave de transição e transcendência. superando a diacronia da história. na linguagem bejaminiana. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. de negar. do puro e do impuro. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. Na visão do autor. op cit. tão pouco é completamente diferente desta. do material ao metafórico. Homi.. como no caso da própria escravidão. de iniciar seu desejo histórico. Isto é. no sucessivo de passado-presente. Ao invés do continuum cristalizado. 25-26. há também um movimento político. A tradição ocidental. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. Chittó Gauer . que inova e irrompe a atuação do presente.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. que buscou sempre a exegese da diferença. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. quanto uma pureza cultural. Igualdade na Diferença. pp. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. Homi. Ao lado dessa reflexão. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. ela mesma.

Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. Luiz Eduardo Soares.. estrategicamente deslocado. depende dele para existir. teleológicas ou míticas. e. quer dizer. na qual representa o universal. foi preciso encontrar catequistas nativos. de acordo com Bhabha. 113 BHABHA. simultânea e paradoxalmente. sob a égide do discurso colonialista. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. As noções liberais de multiculturalismo. 45. em si. e para sua própria “eficácia”. instaura com este uma dialética. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. O rigor da indisciplina. da articulação de uma política de negociação. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. mensagem e receptor. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. Como exemplo. Para Bhabha. de memórias míticas e de identidade coletiva única. mas que. de indecidibilidade significatória ou representacional”. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas. Rio de Janeiro.. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. ter consciência. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. 1994. bem como da relação entre emissor. 65-68. Relume-Dumará.. pp. porque existe. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”. o arcabouço da tradição. p. mais crucialmente.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. 112 “o tempo de libertação é (. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. op. o precede e sucede. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. aquilo que. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . no processo de manifestação simbólica da linguagem. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. cit. Homi.) um tempo de incerteza cultural. oferecendo-se ao sujeito.

mas a regra. Walter Benjamin. “Sobre o conceito de história”. São Paulo. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. Homi. 114 A luta contra a discriminação.. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. 115 FANON. Magia e técnica. o perigo da impureza racial. op. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. Afinal. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. Chittó Gauer . a opressão. totalizante. Editora Brasiliense. 114 94 Ruth M. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. unificadora. nem como evocação da liberdade. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. Para ele. não apenas muda a direção da história ocidental. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. Walter. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. 1987. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. ao explorar esse Terceiro Espaço. não como uma afirmação da vontade. 72-75. pp. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. apu BHABHA. entendido como sujeira. cit. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. E.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . Ou seja. Esse pensamento supera o arco hermenêutico. mas dá-se em relação a uma alteridade. 76-78. A demanda da identificação – isto é. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. op.. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. o branco escravizado por sua superioridade. o autor chama de “delírio maniqueísta”. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. pp. cit. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. Homi. De acordo com Fanon. A esse quadro social. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. seu olhar e seu locus.

acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. em boa parte. que se originava em uma certa espécie de virtude. E. nesse contexto. pelo sentido declinante de comunidade. plenitudinário. Chittó Gauer . o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. que salientava a piedade. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Os Pensadores. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. Ver LÉVI-STRAUSS. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. Ao romper a estabilidade do ego. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. Morata. Abril Cultural. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES.René. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. São Paulo. Madrid. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. A totalidade dos estados nacionais foi construída. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. Reglas del metodo sociologico. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. expressa na equivalência entre imagem e identidade. a perda de valores espirituais unificados. 96 Ruth M. 1973. visual. 1974. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. Por outro lado. Rio de Janeiro. Antropologia Estrutural I. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. 1970. o amor ao próximo. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. 119 DURKHEIN. Tempo Brasileiro. Claude.

no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. se 120 121 BAUMER.século XIX já não possuíam. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. Era a crise espiritual. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. era necessário planejar uma nova solidariedade moral. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. p. Para muitos. mesmo na maneira como pensa e. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). 164. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta. que era a causa da doença social. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . 121 Estas receitas para a recuperação. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. ou estavam em processo de perder. BAUMER. que era o resultado da divisão do trabalho. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. Esses perigos. cit.. Franklin. no entanto. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. o que lhe deve”. Para compensar a anomie. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. p. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. conseqüentemente. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana.. obp cit. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. op. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. durante o período Eduardiano. Franklin. por outro lado. 164. que estimulava a mobilidade e a especialização. pois são perigos em potência. Contudo.

Estas constatações. a ciência deixou o homem procurando. os paradoxos da filosofia liberal. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período.transformaram em condição de análise. na frase de Dewey. Contudo. acaba por se tornar totalizante. Um modelo rígido de pureza. conduz à exceção. às apalpadelas. O vazio das convicções humanistas. tal como o da igualdade moderna. a moralidade. ela própria uma forma de imoralidade. Se. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real. uma esquiva realidade. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. já que a pureza é inimiga da mudança. Chittó Gauer . 98 Ruth M. da ambiguidade e da diferença. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. a mente individual possui como função a vida social. o desmascaramento da fácil crença no progresso. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. quando imposto. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. a história explicitou esses fatos. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental.

A natureza das instituições legais britânicas. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. Ocorreram algumas exceções. que são transmitidas de geração para geração. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. na Ásia. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. a commom law. uma vez que não há o instrumento da escrita. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. o que os subordinava ao direito francês. Os colonos eram considerados franceses. a cremação da viúva na pira do esposo morto. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. o direito inglês. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas.

essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais.Código Napoleônico. 122 100 Ruth M. Daryll. via de regra. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. Como se pode verificar. em 1926. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. Lisboa. e FORDE. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. 1982. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. proteger e punir. Crime e costume na sociedade selvagem. que publicou. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. p. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. No que se refere às regras sociais. No que se refere ao crime. A. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. A lei como duplo sistema. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. Fundação Calouste Gulbenkian. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. R. 264. boas e justas. 262. importante estudo. daí resulta a obediência. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. Chittó Gauer . 2ª edição. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. a racionalidade não está ausente.

São Paulo. 1997.do direito “primitivo” é processual. A preocupação não é nova. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. Desse modo. 124 SARTRE. 124 Em O ser e o nada. Giambattista Vico. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. No entanto. como já afirmamos. Jean-Paul. como o ponto sem dimensão. 1974. Petrópolis. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. Vozes. Estas pressuposições. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. especialmente o terceiro capítulo. Abril Cultural. presente. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. dotada de liberdade. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. Quanto ao presente instantâneo. Cf. O ser e o nada. a exemplo de Sartre. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. de preferência à aplicação de regras formais. isto é. Os Pensadores. toda a série se aniquilaria. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. Da fenomenologia das três dimensões temporais. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. nunca 123 VICO. Giambattista. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. seleção. Caso contrário. para um exame do ser do tempo. trad. o futuro não é ainda. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. É preciso.

se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. na física atômica. que dependem fortemente da teoria. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. Paris. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. mais ou menos em 1927. 369-370. tais como os elétrons. ou seja. em consequência de um processo presente. Depois se convenceram de seus erros. em etapas. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. tudo é em ato. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. 102 Ruth M. o faz no presente. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. Desse modo.elucidadas. durante o século XX. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. Assim. Arthur I. como fotógrafos das câmaras de gás. já que desmoronou no nada. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. e tomaram consciência. Flammarion. pp. para explicar o aparecimento da consciência. tal como os historiadores a descreveram. traço atual. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. Miller 125 afirma que. 1996. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. por um lado. tudo é presente. por outro. Se a lembrança ressurge. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. o que é verdade. integralmente. e lembrar a história. da imagem-recordação. Chittó Gauer . sobretudo. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. que é instantâneo e extratemporal. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. por exemplo. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos.

tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. 2 . Barcelona. e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. O individualismo determinou toda a organização política moderna.advento da idade moderna. por outro lado. Paidós.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. metáfora visual adaptada ao mundo invisível. 1998.fracasso do controle. pois. anedotas. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. Trata-se. Por esse caminho apoiaram-se na representação. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. contudo. O processo de desindividualização. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. uma forma de insolência.século XIX até metade do XX. da saturação da função que lhe é inerente. O autor refere que essa transição. A Sociedade de Risco. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). 3 . Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. ditos populares e a versatilidade das massas. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. Ulrich. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. entre elas como risco. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . Esses problemas foram tratados de formas múltiplas. vontade de controle do risco. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. risco controlado. São elas a 126 BECK.

Derrick. 218. ser adaptável a circunstâncias variáveis. MAFFESOLI. 128 KERKHOVE. hoje está a mudar para a Idade da Mente. Michel. A Pele da Cultura. como diz Lévi-Strauss. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. sem se deixar quebrar por elas. Todas MAFFESOLI. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. Richard Sennett. A corrosão do caráter. 127 104 Ruth M. a organização que se dá em redes. 175-194. individual e coletivo. público e privado. de calor ou frio. luz ou sombra. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. São Paulo. de Hume. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. O Conhecimento Comum. Rio de Janeiro. Chittó Gauer . geraram a implosão pós-modernista. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. povo sem identidade. pp. 19. Relógio D’Água. apenas um momento. Record. 1988. p. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. Richard Sennett. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. remete-nos à análise da flexibilidade. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. uma mensagem. Lisboa. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. não em estruturas hierarquizadas. O Tempo das Tribos. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. uma certa harmonia. nem uma ideia. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. 1997. que ela mudou novamente. dor ou prazer. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. pp. a um só tempo. Brasiliense. Para Kerckhove. amor ou ódio. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. é um conceito. 1999. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”.massa indefinida. Rio de Janeiro. 53-54. 1987. Forense Universitária. Michel. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu.

mas sobrevoá-la. Os acontecimentos não são aprendidos. (do grego dromos = velocidade). A popularização da velocidade retira das forças militares. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. assim. uma vez que as imagens não se fixam. abre um importante campo de reflexões. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. ocorre a desintegração do tempo da luz. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. Lisboa. que não é finito. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. Para Virilio. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. Há. Paul. Criou-se um novo espaço-tempo. se o tempo é história. Na atual velocidade. Seguindo nessa mesma trilha. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. Os nexos estabelecidos. A Inércia Polar. como se fosse um espetáculo. a velocidade é apenas sua alucinação. 1993. da matéria. p. de liberdade. Por outro lado. Nesse sentido. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. Aparece então a negação do fato real. dos políticos. Em sua obra A inércia polar. Depois da desintegração nuclear do espaço. escapam pela fluidez da velocidade. na obra de Virilio. pois já não há ideias em luta com os fatos. Os conceitos trabalhados. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . o mundo. nesse sentido. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. teórico da Dromologia. Publicações Dom Quixote. com essa plasticidade. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. perdem-se. o poder. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. 128.

construída historicamente. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. pelo envelhecimento da história. assim. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. mas onde estou eu. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. abrindo. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. onde se situa? Onde estou. A velocidade é a velhice do mundo. ao declínio das atividades no espaço. Assim. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. op. Nesse sentido.usado para avaliar a capacidade humana. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. Chittó Gauer . frente a essa visão. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. p. Para Virilio. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. com as quais faz os vetores do poder. Descrever a violência. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. Eis a inércia da natureza relativista. Michel. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. cit. um importante campo de questões filosóficas. A economia já é gerida à distância. 106 Ruth M. 27. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. equivaleria dizer. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. 130 130 MAFFESOLI.

ou talvez fosse mais correto dizer. MAFFESOLI. cit. 134 MAFFESOLI. que se pode mesmo.. Não se trata. é constituído pela vida. cit. op. Michel. 30. 28.. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. por si só. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. priorizar o estilo. portanto.Uma vez que. segundo o próprio Maffesoli. Quanto ao primeiro. Michel. 132 Por outro lado. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. p. analisá-las em si. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. mais do que nunca. não pode ser equacionado. o ponto de partida. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. os riscos de seu empreendimento. continua não havendo nada de novo sob o sol. p. por sua vez. cit. nessa recusa em negá-la. desse modo. até certo ponto. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. op. op.. cabe então. 133 Para além de uma aparência homogênea. no entanto. Maffesoli não deixa de enumerar. Michel. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. quanto ao segundo. também. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. tentando equacionar aquilo que. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. 39. o vivido que. como fica manifesto nessa introdução. o inacabamento e a falta e.. p. p. Michel. Sabe ele que. 28. de modo didático ou para a clareza de exposição que. 133 MAFFESOLI. 134 Nessa busca da diferença. O reconhecimento da diferença é. “Quanto a nós. Enfocar o vivido. mais do que tudo. op. cit. na própria introdução da obra. Importa. no quadro de uma ideologia produtivista. de apresentar os fatos e ligá-los.

nesse sentido.entendimento das pulsões que. Temos. 41. embora relacionada ao conceito freudiano. portanto. se fazem presentes no vivido. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. fragmentada.. ganha aqui um caráter mais específico. cit. 51. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. Michel.. p. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. op. cit. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. nada mais é do que um fenômeno recorrente. cit. op. A socialidade. op. A partir desse último termo tem-se. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. MAFFESOLI. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. por meio da reforma. 41. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. emprega o termo em diferentes momentos da obra. o autor de A violência Totalitária irá. para elucidar tais questões. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. apud Michel Maffesoli. contemporaneamente. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. não se deixa reduzir à simples razão.. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. Michel. 137 MAFFESOLI. 138 A revolução. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. para Maffesoli. então. para reativar e revigorar a socialidade. um fértil campo de análise. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. a função unificadora do Estado e aquilo que. sendo que a sua utilização. queiramos nós ou não. quais os meios postos em ação. então. 108 Ruth M. 136 Compreender. p. p. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. em última instância. A revolução serve. em outros termos. Compreender a ideia de socialidade torna-se. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. Chittó Gauer . assim. uma vez que diz respeito ao fato social em si. 138 MAFFESOLI. portanto.

pp. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. os elementos constitutivos do fato social. em primeiro lugar. situadas na própria manifestação da socialidade. já analisadas por muitos autores. 95. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. para o autor. No exame do processo revolucionário. op. por si sós. 139 Nessa perspectiva. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. mas mudança de velocidade”. afirma que “a revolução não é. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. que não são e nunca serão. cit. de um modo ainda mais específico. É na conjugação das diferenças que. Reformas e revoluções estão. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. mudança de estrutura. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. Desse modo. o Marxismo.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. 64. 124. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. então. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. A potência. por sua vez. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. Michel. As críticas ao racionalismo instrumental. Ao analisar. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. nas palavras do autor. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . 139 MAFFESOLI. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo.. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. para Maffesoli. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta.

por sua vez. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. essa unidade. Chittó Gauer . MAFFESOLI Michel. será obtida de cima. cit. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. desse modo. O totalitarismo seria. 193. Se. Logo.. à perda de solidariedade orgânica. 156. 282. entretanto. por um lado. 159. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. Michel. pp. a pulsão de esperança. op. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. 110 Ruth M. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. O dinheiro na sociedade moderna. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. para tanto. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. cit. 281. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. pp. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. o progresso”. a primeira objetiva “amoedar o divino”.. ou seja. Ainda que não redutíveis entre si. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. capture-se a dimensão do ato criador. por um órgão centralizador. 281. melhor seria dizer essa interdependência. 140 a segunda “amoedará. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado.instrumentalizando a razão. nesse sentido. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. agora segundo Dumont. op. tal 140 141 MAFFESOLI. 243.

enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. porventura. Brasília: UnB. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. há muito anunciado por Thomas Kuhn. uma ideia força na visão de Baumer. Segundo Kuhn. Tal como 142 SOUZA. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. (Orgs. Simmel e a modernidade. isto é. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. pp. 39. OËLZE. dinheiro. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). 12. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . Jessé. permite uma margem de liberdade pessoal. Berthold. 38. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. 33. 142 completa o estudo sobre a violência. da autonomia tanto social como individual. segundo a visão de Simmel. No entanto.como analisado por Simmel. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. O aspecto subjetivo. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. como liberdade de movimento. Liberdade.). sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. ou seja. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. 10. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. A questão da liberdade. cética relativamente ao poder das teorias. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. 1998. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. dependência de muitos x dependências de poucos). A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental.

e. As políticas da razão. 112 Ruth M. prolongando-se em ação nascente. p. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. 11. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. Rio de Janeiro. 91. POLANYI. repara-se mais nelas”. 102. Edições 70. ed. Martins Fontes. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. que a pesquisa. Matéria e Memória. Henri. 90. 89. Topbooks Editora. deduz. na medida em que as imagens. pp. criam no corpo disposições novas para agir. qual seja. quando um novo paradigma. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS.. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. 145 posto que percepção é memória. A lucidez é um produto de crise. Após uma visita à Rússia. Isabelle. conforme Polanyi. Lisboa. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. 145 BERGSON. A análise resgata elementos de toda a percepção. Chittó Gauer . os movimentos que as prolongam. Para além destes aspectos.. Como sustenta Bergson. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. Michael. nascida no seio da liberdade. 146 BERGSON Henri. pela memória. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. se fixam e se alinham nessa memória. pp. 1999. “o registro. A lógica da liberdade. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. 2003. Para Bergson. tornou-se refém da norma. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. no entanto. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. 101. São Paulo. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. cit. op. 92.refere Stengers. 88. modificam o organismo. 83. uma vez percebidas. é conquistada e não se pode considerar normal. “uma forma mais elevada de análise”. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. pp. Deve-se considerar. 1993. 2.

sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. a lembrança aprendida. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . 2007. calcada na razão moderna. Rio de Janeiro. gera resistências das mais variadas formas. portanto. a primeira parece. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. No entanto. Das duas memórias que acabamos de distinguir. Sistema penal e violência. pois coloca em xeque a base epistêmica. “Criminologia e interdisciplinaridade”. tornar-se-á cada vez mais impessoal. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez.imediatamente perfeita. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. ser efetivamente a memória por excelência. Esse hábito. CARVALHO. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. isto é. Salo. Ruth M. aliás. montando um mecanismo. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. organizá-los entre si e. Chittó Gauer (Org.). Lumen Juris. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. criar um hábito do corpo. cada vez mais estranha à nossa vida passada. O contrário. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido.

via de regra. cit. Max. fundada sobre normas racionalmente criadas. mas porque acreditam nele” 149 . 114 Ruth M. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. portanto fogem à racionalidade. 10. 1979. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. 11. O político e o cientista.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. p. o processo de criar poder. fundamentalmente. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. Assim. Chittó Gauer .. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. Lisboa. pp. 148 149 WEBER. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. WEBER. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. 12. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. este é. Max. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. Presença. op. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. obediência livre. 3ª ed. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. Para o autor.

e em um segundo nível. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. O mito é fala. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. ao mesmo tempo é idioma. combinatória. 23.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. é diacrônico. p. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. alude ao que passou. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. Para comparar mito e linguagem. Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. como elementos de um segundo discurso: o mito. formal. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. seu tempo é irreversível. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. cit. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. Este se decifra por meio da linguagem. que são frases ou orações mínimas que. São significativos dentro da narrativa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . op. e ao mesmo tempo pré-significativos. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem.. sintática. Em um nível mais baixo. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. por sua posição no contexto. estrutura fonológica. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. onde cada mitema designava um feixe de relações. Otávio. Busca uma lei geral. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato.

Fondo de Cultura Económica. Sándor Rado. Sullivan e outros. O estruturalismo não pretende explicar a história. 151 Ver KARDINER. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. 1945. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. Ralph Linton e Cora Du Bois. então em franco desenvolvimento. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. Durante os anos 30. entre o incesto e a adivinhação. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. 1955 e El Individuó y su Sociedad. Assim. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. por outro. Abraham. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. Tornou-se claro. esta é apenas uma das variantes da estrutura. mais especificamente. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. México. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. Juntos. 116 Ruth M. para alguns. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. Harry S. nessa atividade interdisciplinar. Chittó Gauer . México. tal foco de atenção teve notório destaque. Fondo de Cultura Económica. entre os quais Ruth Benedict. Principalmente nos Estados Unidos. Anna Freud. Fronteras Psicológicas de la Sociedad.

hipoteticamente. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. Abraham Kardiner.se a humanidade. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. cit. portanto.. Así. ob. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes.. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. por outro lado observou-se que as culturas. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. Os comportamentos humanos não seriam. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. 152 Embora os antropólogos. além de serem diferentes entre si. 8-9. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas. constituídas como faces especulares da mesma realidade. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. para las diversas familias que forman dicha sociedad. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. pp. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. fixados apenas de modo filogenético e. aunque nunca idénticas. sino más bien a los sistemas proyectivos. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. elaborou o conceito de personalidade básica. secundado por Ralph Linton. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. difieren de una sociedad a otra. por motivos compreensíveis. en otras palabras. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais.. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 .

citado por Henry W. 1958. Editorial Paidós. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. Kardiner. Franz Alexander e Helen Ross. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. como duas disciplinas relativamente novas. Não teoria.. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético.. Del estudio de la bibliografía antropológica. No entanto. 153 118 Ruth M. debe decirse que la antropología estadounidense. por sua vez. Os antropólogos. Psiquiatría Dinámica. C.. como se sabe.. p.. Kluckhohn. mas sim doutrina.. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção. As defecções de Jung. plenas de um grande potencial. “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”... Antes de comentar esse aspecto. 469. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo.trabalho “sociológico” de Freud). Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto.. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. Brosin. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. para bien o para mal.. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. como. durante a década de 30.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. Fromm y otros) han ejercido. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. dogma. a psicanálise e a antropologia. portanto. por exemplo. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. durante los últimos años. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. fé e crença. ou seja. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. Adler. No entanto. 153 Este psicanalista conseguiu obter. Podemos ver. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. Chittó Gauer . Buenos Aires. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos. Los llamados “neofreudianos” (Horney.

em termos mais simplificados. infestadas ideologicamente. Assim. Retornando à contribuição de Kardiner. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. p. Foi a partir dessa postura que. extremamente heterogêneos. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. ou dar maior importância. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. neste texto. tais dados. que passou a ser entendida. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). adotar. apesar do afastamento. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. Abraham Kardiner.mecanismos da cultura e da psique humana. Sullivan. predominante entre os membros de uma determinada cultura. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. As instituições155 responsáveis. ob. em uma primeira versão. por exemplo. nas primeiras décadas do século XX. as teorias raciais. em uma acepção ampla. como Fairbairn e H. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. de certo modo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . Cabe não esquecer que. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). como sendo a típica personalidade modal. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. diante disso. 47. cit. Ora. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação.. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. Desse modo.

ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. Por outro lado. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. as instituições secundárias. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. de acordo com Kardiner. basicamente. passaram a ser divididas. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. em grande parte. sob o rótulo de instituições secundárias. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. por exemplo. minorou. os mais variados sistemas de crenças religiosas. e “domesticada”. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. Portanto. Por isso. com os dois grandes sistemas projetivos. por uma relativamente obscura lógica cultural. abrangendo instituições primárias e secundárias. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). pela formação da personalidade básica. a uma escala monocromática. seriam destinadas. em primárias e secundárias. com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. um derivado das primárias. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. por assim dizer. Kardiner analisou. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. Chittó Gauer . Partindo das premissas acima colocadas. das manifestações dos mecanismos inconscientes. Tal se daria. o folclore e a religião.mútua causação. No entanto.

se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. disciplinamento precoce da sexualidade. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. pomo. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. Porém. mitos. 378. Assim. Cabe observar. nas ilhas Trobriand. tapirapés. 156 No entanto. todo um conjunto de crenças religiosas. participação na vida social. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. afirmou Malinowski. A título de comparação. a contribuição de Kardiner. porém. isto é. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. El Desarrollo de la Teoría Antropológica.do criador da psicanálise. sistemas projetivos e outros. fatores de integração social. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. quase com pretensões de exclusividade. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. e igualmente el de la magia muestra (. Siglo Veintiuno. comanche. a la perversión o la aberración. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. indução ao trabalho. Siempre que las pasiones. Madrid. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. Una historia de las teorías de la cultura. na vida dos membros das comunidades primitivas. matrimônio.. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. indução à afetividade. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. puberdade. tanala. 157 Citado em HARRIS. Marvin. p. ojibwas e outras. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. Como muito bem lembra Marvin Harris. em si não ofereceu novidades. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. navajos. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. alor. los cuentos de hadas y las leyendas. por las costumbres y por las sanciones legales.. 1985. nas culturas primitivas. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. Malinowski já havia percebido.) el odio reprimido contra el tío materno. al igual que en el folclore de estos nativos. 157 Como se vê. em um escrito de 1923. El examen del mito. rivalidade entre irmãos. observe-se que.

às causalidades registradas. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. de certo modo. assim como. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. O selvagem passa toda a sua existência. obrigações. direitos. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). por assim dizer. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. cabe registrar que. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. qualquer indivíduo. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. Se estas oscilaram. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. Chittó Gauer . perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. nestas culturas urbanas. além desses aspectos. de certo modo. continuam oscilando. pela maioria. Entre estes. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. em princípio. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. Considere-se. ou pelo difusionismo que. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere.

não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. suas origens. a realidades construídas coletivamente. Artes Médicas. autores da área psicanalítica. Em trabalhos posteriores. Deve-se lembrar que Freud. significados e distinção não eram. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. e MITCHELL.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. do qual Freud é um dos grandes tributários. em parte. pelo fato da importância atribuída à cultura e. 1994. Assim. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. por exemplo. Assim. 158 Portanto. Neste ponto. As relações objetais tinham que ser explicadas. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. como Fairbairn. XII. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais. e os objetivos de qualquer atividade mental.. para atraí-la a um âmbito próprio. mais urgente. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. Porto Alegre. de forma alguma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 .. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. por conseguinte. p. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. não era de forma alguma aparente como posicionar (. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. Ao mesmo tempo.

certa primazia às relações objetais. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). pode-se entender que a maioria deles.(com os objetos externos) na psicodinâmica. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. realizadas por Mead. A opção. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. K. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. Desse modo. E. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. e o trabalho 124 Ruth M. no âmbito da teoria psicanalítica.). para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. Fromm. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. H. ou seja. muito antes disso. Sullivan e vários outros tentaram dar. Fairbairn. para a criança. de fora para dentro. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. Chittó Gauer . que a ortodoxia freudiana. o modelo primordial de “busca do objeto”. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. Isso não quer dizer. em detrimento. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. por ex. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. os grupos familiares. onipresentes nas comunidades primitivas. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. De fato. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. por esse último modelo. Ora. é claro. portanto. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. No entanto. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. em grande parte. Horney. as marcas da personalidade grupal. ao mesmo tempo em que se estabelece. Nas análises das autoras citadas. como já foi colocado. surgem posições.

o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. cit. fundador da sociedade humana. 159 Lévi-Strauss. como características típicas. passam a pensar no outro. das convicções ou das situações desestabilizadoras. Assim. Cosmos. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. afirma a existência de um evento originário. examinado por Margareth Mead. 161 DURAND. pensado às vezes como o “novo”. posteriormente. ob. nos antagonismos. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. Martins Fontes. Tal evento originário.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. Abraham Kardiner. Sexo e Temperamento. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. ver Margareth Mead. para Lévi-Strauss. 48. na personalidade do indivíduo adulto. Gilbert. pp. Mircea. por meio de um duplo movimento. a diferença. seria o da proibição do incesto. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. na Nova Guiné. Assim. como já referido anteriormente. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. Em Alor. Para esse assunto. as primeiras fases de socialização. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. devemos lembrar o pluralismo das representações. do extraordinário. o diferente. temido ou fértil. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. 1997. Lisboa. Editora Perspectiva. “o que é escolhido é implicitamente forte. de gerações e de linhagens. 1970. fortificando e atenuando. puderam ser verificadas. p. Para isso. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. a troca restabelece. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. São Paulo. focalizando. Nesse sentido. 160 ELIADE. nesta pergunta. 129-296. com grande destaque. Tratado de História das Religiões. 1969. São Paulo. ver Cora Dubois In. eficaz. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . Como diz Eliade. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. do novo. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. em Totem e Tabu.

a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. Chittó Gauer . Talvez caiba um destaque especial a Robert K. na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. Marshall B. mas para apreender os limites de sua própria diferença. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. do direito. Emmanuel. que foi erigido como categoria autônoma. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. Frente a esse quadro geral. a interioridade se opõe à exterioridade. o estudo das organizações. Este é um cosmopolita. 162 LEVINAS. Sob este aspecto.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. 126 Ruth M. um não existente para si mesmo. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. encerrado na totalidade pela qual é constituído. Para o ser pensante. Ao falarmos sobre alteridade. Vozes. Petrópolis. mas simultaneamente se complementa com ela. o incógnito. Merton. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. 1997. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. entendê-lo e descrevê-lo. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. Ensaios Sobre a Alteridade. da educação e muitas outras áreas. das instituições. não apenas para observá-lo. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. É grande o número de autores que poderiam ser citados. Para compreender tal fato. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. Entre Nós. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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ninguém pensa em proibi-la. Se por um lado a natureza impõe a aliança. uma monstruosidade. 48-49. com ela. Quer sejamos críticos ou liberais. em um plano diferente. 130 Ruth M. entre elas.primogenitura. o pai. Nos exemplos de casamentos entre irmãos. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. Claude. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. os tios. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. as metamorfoses das normas sociais. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. a irmã. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. uma transgressão que provoca horror e repulsa. cit. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. o irmão. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. quando ocorre é visto como inaudita. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. e de maneira significativa. por outro não a determina. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição.. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. op. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. Chittó Gauer . essa proibição não é verbalizada. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). o que se verifica é uma ampliação da função das normas. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. entre outros parentes próximos. e na forma metafórica o abuso de menores. pp. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições.

“seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. assumem significados sociais diferentes. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. Para Pouillon. Se. além de deslocamentos contínuos. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. v. entre outros temas do mundo da academia. surrealismo. pp. 123127. “Na verdade”. trata-se de constatar que. ao invés de diminuirmos as funções da norma. Cheguei a mim”. que afetou não só a ciência. 1952. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. Franklin L. incluindo a literatura. existencialismo. A ser assim. mau ou indiferente. Claude Lévi-Strauss. as questões teológicas passaram a não ter sentido. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. hierarquias variáveis. Edições 70. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. a natureza tornou-se longínqua. a arte e a religião. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. Raça e história. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. não se trata de discutir a sua exclusão. Jean. 1990. Lisboa. O pensamento europeu moderno. na contemporaneidade. escrevia em 169 POUILLON. John Galsworthy. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. In. o universo passou a ser misterioso. mas todos os domínios do intelecto. Presença. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. 170 Apud BAUMER. Lisboa. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. ou um movimento psicanalítico. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo.norma. disse Mann. positivismo. II.

Os fatos. Conferências e Outros Escritos. Franklin Leopoldo Silva. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. II. Franklin L. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. o homem é inominável. pp.1926: “Como agora tudo é relativo. Assim. Contudo. ela apenas o exprime numa outra língua”. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. 49. 1974. nas diferentes formas de energia. nos títulos da dívida pública. O pensamento europeu moderno. no livre comércio. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. a recíproca não era verdadeira. Trad. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese.58. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. Abril Cultural. Henri . Dado um fato psicológico. Os Pensadores – Cartas. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. examinados sem pressuposições matemáticas. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. desenharia as articulações motoras dele. para fixar as ideias. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. nas palavras do autor. Chittó Gauer . mas de uma hipótese metafísica. Lisboa. Apud BAUMER. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. v. que se aprofundou no século XX. pois não se tratava de uma regra científica. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. nas classes sociais”. no casamento. Assim. Edições 70. São Paulo. Entretanto. 172 171 132 Ruth M. 1990. Há uma verdadeira descrença. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. BERGSON.

segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. em termos convencionais. O realismo repousa na hipótese inversa. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. representam duas noções do real. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. Em suma. As palavras realismo e idealismo. enfim. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. por uma mágica intelectual inconsciente. com efeito. desdobrada e articulada no espaço. op. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. entre dois sistemas de notação. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. Somos aqui 173 BERGSON. cit. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. oferecida pela consciência humana. Henri. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. podemos escolher. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição.

naturalmente mágicos. uma vez de posse do estado cerebral. numa representação”. Henri. contudo. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. 174 BERGSON. op. Para o idealismo. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. sugere-nos. 134 Ruth M. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. que determina a percepção do consciente. Chittó Gauer . pela sua própria colocação. Bergson concebe. pois o problema em pauta. na hipótese idealista. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. sendo ele uma representação. por um golpe de mágica. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. cit 58-59. não poderia. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. suprimir. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. representação.

o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. Conservamos o cérebro tal qual é representado. pois. sem se alterar. então. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. as respostas outras a outras faltas”. isto é. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . 25. no espaço. sobre a paleta. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. estendido nela e não contraído nela. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. Lisboa. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. a nossos olhos. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. o quadro que responde a todas estas faltas. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. Oscilamos. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. mas esquecemos que. O olho e o espírito. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. e. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. para perceber o universo. p. e vê os quadros dos outros. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. 1997. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. e vê. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. Grafilarte. se o real está desdobrado na representação.Aprofundando os dois sistemas. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. de alguma forma. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. a cor que o quadro espera. uma vez feito. erigimos.

A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. continua. Segundo Luc Ferry. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. isto é. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. 286. p. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Chittó Gauer . e a razão prática. intercambiáveis”. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. a ser exterior ao homem empírico. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. ou um movimento psicanalítico como referi no início. e que os dois termos são.parte de outra. Então. enfim. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. termos em que a ética moderna se formulou. A Invenção do gosto na era democrática. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. 136 Ruth M. o si próprio e a norma. portanto. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. Coimbra. Almeida. da parte com o todo. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. Homo Aestheticus. entretanto. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. 2003. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos.

o hedonismo. o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 .Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60.

2000. Antônio R. via de regra. Prigogine. Há muito de crença nas verdades científicas. no entanto. Lisboa. as teorias desenvolvidas por Einstein. entre outros. Publicações Europa-América. 138 Ruth M. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. Max Planck. universal e eterno. O conhecimento foi tido como absoluto. As emoções e os sentimentos. cabal. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. As tradições políticas modernas. A experimentação trouxe a primazia da técnica. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. O fim das certezas chegou ao campo da física. Não é por acaso que somos. é possível concordar com a ideia de que a ciência. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. da matemática. objetividade. pelo menos de forma substancial. Sob esse enfoque. além de elucidar. é cega a respeito de sua própria aventura. e muitos outros. Neste sentido. da neurociência. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. Chittó Gauer . não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. desde seu início. 177 DAMÁSIO. O Erro de Descartes. neutralidade e generalização.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante.

responsável pela construção do estado moderno. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. Presença Ltda. pp. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. neutro e liberal. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. 178 O autor descreve. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. é que permite a emergência de um poder total. Trad. 1919) foi aceita pelo autor. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. O Político e o Cientista. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. apagou a estética do mundo delimitado". 4. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. 1996. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. Seguindo as reflexões do autor. Trata-se do estado liberal. 180 SÁ Alexandre Franco de. João Baptista Machado. 181 MAFFESIOLI. Max. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. Vozes. ed. principalmente das instituições jurídicas. Ariadne Editora. Esse estado. A ideia moderna de estado (Krabb. 30-31.. pp. que afirma: "não é o estado que é soberano. mas o próprio direito". Armênio Amado. (Coleção Sophia 002). Coimbra. 1979. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. 121-122. Petrópolis. foi o jurista. KELSEN. de forma precisa. Michel. 1979. Coimbra. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. 178 179 WEBER. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . No fundo das aparências.mas também o culto das instituições.. 2004. Hans. Teoria Pura do Direito. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. podemos afirmar que o cientista. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. Lisboa. ao perder o poder político que o caracterizava. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. próprio da modernidade. Metamorfoses do poder.

o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. mas que assumiram uma verdade. Chittó Gauer . como diz Rui Cunha Martins. Rui Cunha. matrizes da sociedade ocidental moderna. índice de si mesma. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. No entanto. 2002. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. 23. Revista de História das Ideias. notórios. o princípio secularizador. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. O exemplo da soberania. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. que está inserida nos aparelhos de estado. GIL. v. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. constitui-se. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. de Duns Scot a Husserl. racionais. a exemplo do estado. A soberania das formas institucionais. como tentativa de eliminar a sacralidade. é. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. Mesmo os fatos mais evidentes. Fernando e MARTINS. p. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). 19-20.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. Modos da Verdade. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. A evidência. portanto. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. Porém. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. racionais e mecânicas. In. Esta verdade é excessiva por natureza. 182 é uma alucinação dos sentidos. portanto. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. em sentido quase estrito da linguagem. 182 140 Ruth M. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado.

2002. o conceito de justo (conceito relativo. 185 OST. A identidade polarizada. denuncia a impotência do Estado. no qual prevalece o estado de direito. Na tramitação do processo. De modo geral. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. tal como analisada por Hall. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. Fernando e MARTINS. e transformação contínua nos sistemas culturais. 1999. 26. vista mais especificamente como criminalidade. A identidade cultural na pós-modernidade. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. Como se sabe. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. Stuart. que nos aproxima ao estado de natureza. 1997. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . Piaget. O sentido da racionalidade é sempre esse. a violência. In. Modos da Verdade. Lisboa. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. Rui Cunha. por outro lado. O tempo do direito. um tempo diferente do tempo da segurança. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. Esse é um problema geral para os governos atuais. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. 184 fruto da multiplicação. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. Já não se acredita no devir. é "celebração móvel".A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. Rio de Janeiro. François. GIL. em que o caráter problemático dos fins. 184 HALL. que não consegue cumprir o seu projeto. DP&A. p. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. 23. Revista de História das Ideias. nas ciências do direito". v.

Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. separou ciência e política. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. Qual seria o remédio. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. ora a violência. marcado pela racionalidade falível. portanto.Frente a essa complexidade. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. principalmente no campo das humanidades. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. A produção normativa. bem como a duração dos códigos e das instituições. própria da modernidade. Chittó Gauer . e. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. O tempo da segurança. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. que deve ser (re)questionado a todo instante. No entanto. gerando ora a comunhão. O direito deu lugar à relação frente a frente. novas questões se fazem presentes. A dicotomia sujeito-objeto. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. do estado de direito já não existe. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. dos meios e dos resultados. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. tal como se acreditava nos séculos passados. ciência e direito. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. assim como todos os campos de saber. vista como uma inversão temporal. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia.

186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. op. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. 187 KERCKHOVE. Derrick de. ou seja. Ao tomar-se o real pelo real. 1997. Lisboa. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. Derrick de. impossíveis de mencionar em sua totalidade. Relógio D'Água Editores. Um dos problemas no mundo globalizado. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. polifacetadas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . cit. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. Sua análise continua. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. todos carregados de violência. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. ambíguas. em suas múltiplas faces. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. A heterogeneidade. Importante observar a conotação dada. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. sentimentos. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica).

188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. O evento. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. Esses fatos. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. Outros eventos. principalmente do supérfluo. representa. Ao lado destas questões inquietantes. mas continuamos caminhando. 1987. Chittó Gauer . Ver ainda O Conhecimento Comum. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. em sua velocidade. A violência relatada de forma emblemática. 188 MAFFESOLI. São Paulo. nesta leitura. 144 Ruth M. Michel. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. revela que não sabemos mais qual é o caminho. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. tal como referido por Kerckhove. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. O mundo sem dinheiro. Forense Universitária. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. no entanto. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". O Tempo das Tribos. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Rio de Janeiro. uma passagem decisiva. revelam apenas uma das faces da violência. não tão visíveis. trazem informações sobre a violência subterrânea. 1988. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. Brasiliense. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria.

fazendo-as correr. pp. Edições 70. O pensamento europeu moderno. No entanto. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. no 189 190 Apud BAUMER. ou seja. 88. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". v. o produto da ciência. p. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. op. Editorial Presença. Lisboa. bergsoniano. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. levado a efeito pelo historiador. segundo este ponto de vista. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. Lisboa. adverte o autor. mas sem metas fixas.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. Entretanto. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. a velocidades cada vez maiores. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". cit. A Ideia de História. Franklin L. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. Nele pode-se ler. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . 1990. uma história. Derrick de. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". R. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. 191 KERCKHOVE. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. tal como os futuristas queriam que fizessem. G. O termo. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. “isto que a realidade era. um processo dialético sem fim. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". COLLINGWOOD. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. que iniciou em fins do século XVIII. a busca de uma racionalidade. segundo Lewis. na literatura e na arte.. além da preocupação com a instabilidade. no mundo einsteniano. I. integralmente dinâmico e nunca estático. Essa doutrina do tempo é. a filha instável do pensamento positivista. 24-26. um devir. Como afirmaria Collingwood. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". s/d.

As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. mas nem sempre com sucesso. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. e mais as protegemos. O impacto global cria. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. uma vez que o fluxo é desequilibrado. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. Porém. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. Ainda somos. A lógica da globalização não se concretiza. tal como visto no início do século XX. principalmente do poder do estado.entanto. Por mais paradoxal que possa parecer. Chittó Gauer . continuamente. Quanto mais noção temos da globalidade. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. Há várias formas de se falar sobre globalização. o novo interesse pelo local. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. mais ficamos conscientes das identificações locais. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. não há treino para o comportamento social e coletivo. é esse o paradoxo da aldeia global.

migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. exótica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. Ocidente & Oriente. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. ao mesmo tempo. diáspora. Trata-se de um desencontro cultural. deslocamentos de fronteiras.desiguais de poder entre Norte x Sul. Kevin Robins lembra que. na verdade. a transformação e o perigo. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. valores. a mistura. Assim. com a diferença. o absolutismo do puro. que. prioridades das formas de vida do ocidente. do império do ocidente. Por outro lado. o capitalismo global é. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. desigual. etc. com seu outro. a impureza. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. vê-se face a face com a cultura "alienígena". instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença.

Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. A estrutura das revoluções científica. durante algum tempo. cit. cit. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. Thomas. 1982. 13. 5. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. Thomas. p. 30. p. 53. Para o autor. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. cit. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. Chittó Gauer . 194 KUHN. 23. op. São Paulo. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN.XIV Norma. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. p. 148 Ruth M. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. para o autor. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. op. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. Thomas. Thomas. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. antes de mais nada. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. 31. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. 193 KUHN. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. porém não podemos considerar como tal. ela é. Perspectiva. p.. 195 KUHN. op.

Não por acaso o discurso dos direitos humanos. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. 242. Por outro lado. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. de forma intencional. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. Rio de Janeiro. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. op. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. Michael. instintivamente. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança.. 2003. A lógica da liberdade. um sistema de leis 196 197 POLANYI.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. desejos consciente ou inconsciente. p. POLANYI. 196 em A lógica da liberdade. coloca-os daquele modo. nós. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. lemos. Polanyi. supomos que alguém. na obra de Polanyi. cit. Topbooks Editora. 291. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. a plena afirmação de si próprio. Na análise sobre liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. Michael. p. mas sim lograr a expressão da personalidade. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções.

A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. com sua imagem de indivíduo-átomo que. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. no entanto. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. por outro lado. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. não eliminou a banalidade do universal abstrato.contratuais que garanta essa situação e. o pensamento falante manobrável tentou. no entanto. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. Tais desafios. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. que não permite eliminar o poder e a punição. o primeiro não. Temos. É importante salientar que essa distinção. assim como fez Freud. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. entre outros. dar uma logicidade ao ilógico. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. tal como colocado por Freud. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. por ser único. O inconsciente. ultrapassa a própria lógica da liberdade. ao mesmo tempo a liberdade. Chittó Gauer . que pensar em deslocamentos. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. distingue-se dos outros. reflexo do ser-conjunto. mas sobre os que não podem se proteger dela. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. estrutura das sociedades simples e antigas. com sua independência. O século XXI vê-se frente a desafios morais. Para isso. Neste sentido. éticos. empenhada em espezinhar a razão moderna. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. assim como não resistiu ao charme do limite. portando organizadora. intelectuais. seja um sistema de ordem espontânea. A particularidade é que essa antiga forma classificatória.

cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . Os dados científicos. é stricto sensu a desestruturação social. etc. não podem ser interpretadas de forma linear. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. pandemias. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. com a conotação moral que a envolve. pobreza. hierarquia. insatisfação. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. No entanto. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. em atos de violência. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. A diferente face da desagregação social aparece. vista como a negação da independência. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. epidemias. Os antagonismos revelam-se. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. A estrutura perene de nossa história. poder. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. perversidade. geralmente. tanto as de repressão. que se revelam como explosões de inquietação. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. como as de coerção. privilégios. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. o mundo como progresso. diferença. desagregações.

certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. p. op. 199 BOBBIO. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. os fins que ambiciona. alienígena da sociedade. ao mesmo tempo a liberdade. ela está fundada sobre dois alicerces. Editora da Universidade de Brasília. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. O direito seria um regramento entre subjetividades. como poder controlador e limitador da violência. nessa situação. Brasília. não é. na medida em que é condicionada. 1984. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. mas sim entre os arbítrios dos homens. cit. Norberto. No entanto. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. 72. Já a vontade jurídica. Chittó Gauer . enquanto ação socialmente intersubjetiva. Norberto. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. 71. 198 152 Ruth M. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. Assim. seja por um sistema BOBBIO. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. Direito e estado no pensamento de Kant.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .jurídico pelo qual se administram as leis. ultrapassa a própria lógica da liberdade. seja um sistema de ordem espontânea.

parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. trad. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. nunca deixou de estimular. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). Além disso. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. dentro de âmbitos que são. afinal. incertíssimo por sua própria natureza. Em termos de uma transgressão necessária. violência. Abril Cultural. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades.. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. como é sabido. Se há alguma novidade. (. a velocidade e a crise de valores. São Paulo. Caracteriza-se. a sua própria transgressão. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. acerca dos problemas acima mencionados. uma emergência que. 200 154 Ruth M.. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. Seleção. simultaneamente. “O humano arbítrio. 1974. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. assim. já muito antiga. Chittó Gauer . não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (.) este mundo civil VICO. 200 é possível iniciar esta reflexão. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. Segundo o autor.XV Juridicidade.. quando inerentes à modernidade. Giambattista. batizada de civilização dos indivíduos. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. que são as duas fontes do direito natural das gentes. o da busca de valores. de Giambattista Vico.. Os Pensadores.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

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BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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15-28. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. Logo. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação.. ao fim e ao cabo. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. é a era da globalização do homem. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. Estampa. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. fascinantes. de resgate de sociabilidades perdidas. dá lugar a uma estética do nós. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. Por outro lado. 69-70. Convivemos. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. átomo perfeito que lembra Deus. assim como das tradições. LYOTARD. 158 Ruth M. pp. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. cit. pp.identitária. velozes. a memória de ninguém. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). o homem possui um cérebro temporário e improvável. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. hoje. trabalhado por Maffesoli. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. Michel op. diversos. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. Chittó Gauer . 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. O Inumano. Lisboa. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. Jean-François. 1998. talvez. A 206 207 MAFFESOLI. Este conceito. com capacidade máxima de síntese. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. criado pelo modelo Iluminista.

Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. VIRILIO. Ensaios sobre a alteridade. mas sim a celebração do hibridismo. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . 209 em suas conclusões sobre identidade. p.busca desse homem hoje é o grande desafio. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. Paul. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. que traz novas e inesperadas combinações culturais. pp. Publicações Dom Quixote. 124-125. Lisboa. 1977. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. tempo-luz). A inércia polar. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. a origem e o fim. Como lembra Lévi-Strauss. do local de nascimento e do Estado nacional. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. Rio de Janeiro.). Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. 36. simultaneamente. Claude. do local de habitação. como centro de referência. todavia. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. Paris. da impureza. da mistura. Emmanuel. (Org. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. é para ela que nos encaminhamos”. 1993. 210 LÉVINAS. e. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. A estrutura dessas relações sociais exige. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. 1997. La Identidad. LÉVI-STRAUSS. pp. Entre Nós. Vozes. muito embora seja indispensável como ponto de referência". as quais produzirão um novo eu. Grasset. 11-39.

EPU/EDUSP. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. A ideia de perder a identidade. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. Razão e Cérebro Humano. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. do tempo cíclico. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. Nesse sentido. para muitos. Lisboa.. transformando-se em um modelo de simulação. vista como a condição natural. configurando a identidade nacional. está ligada à ideia de identidade. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. 39-49. uma entidade transitória. 160 Ruth M. Marce. Publicações Europa-América. etc. O Erro de Descartes: Emoção. António. a morte da identidade construída por meio do individualismo. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. v. da destruição. estaria desaparecendo. fragmenta a sua imagem. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. 1995. Chittó Gauer . poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. superando a análise kantiana. no entanto. maior prudência. 1974. no processo de modelagem das relações sociais. ou até à absorção por esta. No entanto. da produção. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. porém. Nossa noção tradicional de self. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. Sociologia e Antropologia. pp. o que leva a uma sensação de morte. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. O que vemos. perde seu sentido. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. São Paulo. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. II.de cada indivíduo. No ensaio sobre a dádiva. 212 MAUSS. e assim. é um aumento de todas as formas de violência. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação.

que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. 214 LIPOVETSKY. pp. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. O dinheiro. A verdade moral está na Bíblia. outras “assumem significados sociais diferentes”. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. nos mandamentos divinos. 214 Pelo contrário. 22-30. Berthold. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. 32. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. Editora da UNB. Portanto. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. Jessé. (Orgs. assim como outros ramos do saber. Dentro desta perspectiva. A ética. porém. op. finalmente coisificou o humano. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. e que pode ser a medida de todas as coisas. que vai até o Iluminismo.. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. em qualquer caso. Nesse sentido. cit. Brasília. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. tem uma história. OËLZE. devem ser questionadas. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. que é impessoal como as leis. pp. Simmel e a Modernidade. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. E por ser deveras custosa essa tarefa. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. O paradoxo.). vulgares. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. Por tratar-se de um fato social. fundador do individualismo. 1998. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. por essência liberal e pragmática”. Estas fases. Gilles. 25-30. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais.

O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. 3) A terceira fase da moral. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. escola. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. que Lipovetski chama de pós-moralista. A 162 Ruth M. estimula os desejos. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. Chittó Gauer . e pensamos que seja ainda mais grave. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. que promove o presenteísmo. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. família. pode ser indicado para a maioria dos países. O caso brasileiro não é diferente. sindicato. o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. o bem-estar individualista. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. a própria dignidade. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. fraude fiscal). Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. o ego. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. remuneração escondida. entre outras).racionalidade). onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. se não são uma felicidade. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. não se prestam a nada). A própria velocidade. A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. No Brasil. encarrega-se de dissolver as permanências. entre elas. assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade.

mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. ou seja. Mas esta é apenas uma das facetas. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . apesar de estar fora de moda. o valor da renúncia suprema a si próprio. de vez em quando. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. na nota abaixo. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. O autor refere que “quando se pede para destacar. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. sendo. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). Para Lipovetski. que se afunda. Isso está deslocado no tempo. como exceção. da Humanidade” 215. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma.. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. pois. éticos): direitos humanos. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. que já não acredita no futuro. pois não estamos no grau zero dos valores morais. com a prioridade incondicional do altruísmo. Os exemplos que citamos. Para o autor. da Pátria. A liberdade trava. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. em uma lista de 17 qualidades morais. limita e impede a própria liberdade. as mulheres que assim o fazem. do Partido. pp. cit. Mas. Existem em França dois milhões de voluntários. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas.000 assalariados a tempo inteiro. honestidade. apesar do quadro preocupante. Por fim. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. voluntários. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. Na Inglaterra e nos EUA. op. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. Gilles. a moral a la carte “não é a ideia do dever. no altar da Família. enquanto tal. sobretudo. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. Cita. da História. 34-37. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. o caso da Madre Teresa. ao que dizer que.

217 216 164 Ruth M. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. Ciência e Política. ter filhos por encomenda. pela intelectualização e. “indolores”. repressão total em matéria de drogas. 57. entre outras repressões. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). Há. intermitente e. entre outras questões não menos importantes. na cultura do presente. do que de grandes cruzadas moralizantes. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). viver em concubinato. que podem ser escolhidos. IN: A sociedade em busca de valores. 2002. 217 Como visto. Duas Vocações. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. a la carte. principalmente. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. No que diz respeito à violência. censura pornográfica. A família sobrevive. na supervalorização das festas. Como a caridade mediática. melhor dito. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. p.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. As práticas da solidariedade. sacrifícios altruístas mínimos. “a moral não desaparece. São Paulo. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. como honestidade e respeito às leis. Max. espetacular. Lisboa: Piaget. epidérmica. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. 2000 p. torcidas organizadas. a delinquência juvenil. ou seja. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. o que vale é o aqui e o agora. torna-se sentimental. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. descomprometidos. o aumento de pequenas violências no cotidiano. passando à moral a la carte. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. mas com a condição de que possa divorciar-se. incapazes de resolver os WEBER. extremismo higienista. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. A era do após-dever. ao mesmo tempo. por exemplo. Chittó Gauer . no entanto. 29. última forma do consumo interativo de massa”. Martin Claret. Gilles. LIPOVETSKY. caracterizada pela racionalização.

simultaneamente. entre eles Simmel. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. Vários historiadores e sociólogos. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. sobretudo. Nas sociedades SOUZA. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. permanece. Ao descreverem a lógica da individualização. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. dos valores. do surgimento do direito natural. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. por outro. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. do direito subjetivo. Da mesma forma. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. pragmática. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. Nas análises. Norbert. Louis. 1985. produz o indivíduo na sua autonomia e. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Lisboa. Louis Wirt. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. fundada em uma ação ético-liberal e. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. 220 DUMONT. priorizar a ética da responsabilidade. Robert Ezra Park. OËLZE. op. para Dumont. o expõe. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. Rocco. No entanto. Por outro viés. ELIAS. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. Berthold. Jessé. O Individualismo.concretos problemas sociais. ao mesmo tempo. A busca da excitação. Difusão editorial. Rio de Janeiro. 218 analisam os problemas da cultura moderna. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. 1992. Daí. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. cit.). por um lado. (Orgs. os problemas da cidade. a hierarquia. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou.

que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. Isto é. A nova posição. 730). que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. “opções existenciais”. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. o sustentava. o indivíduo. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. caracterizadamente holística. porque lhe eram impostas pela estrutura social. mas. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. da "eliminação" das diferenças. 1999. São Paulo. 1986. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. Em outra fonte léxica. ao mesmo tempo. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. ou seja. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. como projeto a ser alcançado. termo de sentido filosófico que significa a tendência. 221 166 Ruth M. leva-o a “opções de vida. 1269). opções morais” (moral a la carte). No entanto. p. ao mesmo tempo. liberta-se dela. Chittó Gauer . A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. de maior precisão conceitual. a incorpora. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. que antes não tinha de fazer. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. p. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. Rio de Janeiro. supostamente própria do universo. com ele. Martins Fontes. dos grandes códigos modernos. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. Nova Fronteira. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.

do modelo único e do domínio da potência norte-americana. Na tradução oficial. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito.]. Mireille. Lisboa. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito. [. O título sugestivo do capítulo. e em nenhum a palavra “humanidade”. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". apenas para citar os exemplos mais conhecidos. embora balizada atualmente. No entanto. bolsões de miséria e violência. No entanto. 227. Se isso fosse viável. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. 1999. O desafio do século XXI. Seria possível pensar dessa forma na China. a humanidade é. Piaget. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. Nesse sentido.. por óbvio.. Significa qualquer Homem. A busca da igualdade. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. criou a forma mais expressiva de violência. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". Não a encontraríamos". por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. um recém-nascido.poderia ser considerada igual e. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. Problemas como o desvio social. Da mesma forma. possuir os mesmos direitos. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. p. ausência do estado. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. Complementando a análise. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. Esta noção. Religar os conhecimentos. independentemente de qualquer condição. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. Acesso à humanidade em termos jurídicos. na realidade é extremamente subversiva. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. na verdade. afirma: “no campo jurídico. tal como pensado no Ocidente. o terrorismo.

168 Ruth M. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. leva ao consensual. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. dos direitos humanos. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. o que impede relativizar em termos jurídicos. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. na igualdade. A busca de um pensamento heterotópico. tal como o pensamento moderno o instituiu. Os direitos humanos. é eliminada pelas teorias do consenso. derrubou o que restava da crença na unidade. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. As diferenças se manifestam com violência. em todos os níveis sociais e políticos. eliminando os discursos dos direitos. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. Para além dessa façanha. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. O discurso pensado como projetivo. simultânea a uma realidade única. vêm recebendo reações diversas. Os resquícios dos totalitarismos. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. não consensual. Chittó Gauer . legitimadas pelos direitos internacionais.comum.

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