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A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .Ruth M.

– Porto Alegre : EDIPUCRS.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre. Lévi-Strauss. Título. – Dados eletrônicos.br/orgaos/edipucrs/> 1. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. Diploma da Fundação da Universidade. 4. Normas Jurídicas. ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. 1290.com. Chittó Gauer.br .BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs. 2. RS . I. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra.br http://www. Filosofia do Direito. Ipiranga. Arquivo. 175 p. Direito. CDD 340. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. Claude – Crítica e Interpretação.edipucrs.pucrs.© EDIPUCRS. 6681 .1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av. 2009. 3.

Ruth M. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. . PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL. Chittó Gauer chitto@pucrs. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História.br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra.

minhas netas.Para meus filhos Gabriel. Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa. .

nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável. fruto de uma longa convivência. Quero aqui mencionar. meu “lar” acadêmico em Portugal. de encontros e debates. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. . durante o período em que escrevi minha tese. início dos noventa.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. no entanto. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. a psiquiatria e a filosofia. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. O mais relevante. com ênfase. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta.

..................................................... 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ............................. 16 A sedução da norma: fato social total ............. 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana....................... mito e memória ................................................ 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise ...... 154 BIBLIOGRAFIA ..........SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ........................................... 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma .................................. 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ....................................... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos ...................... 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma ................. 138 XIV Norma................................................................................. 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo......................................................................................................................................................................................... ciência e autenticidade .............................................. violência............................... 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ...................... 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação................................................................ 169 ...................... 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora................... 148 XV Juridicidade.................

I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. sabores. texturas. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. como tradição histórica. em certo sentido. Desse modo. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. conciliando. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. de forma harmônica. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. sendo continuamente reinterpretado. odores. cores. Buscou compreender o obscuro. sentidos.

o aparelho de nosso ser social. conosco.Aceitando. Com efeito. no entanto. p. cit. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. São Paulo. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. pois vivemos na unidade de uma só vida. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. superando a MERLEAU-PONTY. em antropologia. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. p. tomando a alteridade como objeto. Na análise das estruturas elementares de parentesco. com Merleau-Ponty. 1 que. mas um universal lateral. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. a antropologia. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. Abril Cultural. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. é necessário. No entanto. para a convivência dos incompatíveis. Os Pensadores. Para Merleau-Ponty. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. Sabemos que. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. 2 MERLEAU-PONTY. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. rumou para as diferenças absolutas. a síntese à que ele se refere somos nós. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. 1975. porque diferente. op. para um universal constituído por relações de complementaridade. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. 363-365. então. 1 10 Ruth M. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. Maurice. distante. contrariamente a essa tentativa. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. pitoresca. Para o primeiro.. 383-396. Chittó Gauer . cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. a questão do Outro e do Mesmo. da diferença e da identidade. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana.

conforme Bergson. Elogio da Filosofia. se mexe. 369-370). pois são uma teoria da imaginação sem imagens. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. Franklin L. que englobou a norma e. Henri. pp. ainda. não se estabelece. 1999. Martins Fontes. desenvolve seu íntimo. I. Franklin L Baumer.dicotomia sujeito-objeto. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. 5 BERGSON. O Pensamento Europeu Moderno. isto é. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. 1990. O Pensamento Europeu Moderno. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. Edições 70. Vila Nova de Gaia. 38. Sendo assim. 290. Bergson. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. o ‘balanço vital’. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. p. como diferença”. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. Martins Fontes. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. como fomentadores do erro. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. Matéria e Memória. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. Edições 70. para Durand. Nesta visão surge a lei. No entanto. Para Arthur Miller. Maurice Merleau-Ponty. para além desta. alienando a sua função principal que é conhecer. p. 39. ou ainda como um objeto fantasma. Durand acredita que. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. 4 BAUMER. A desvalorização da imagem não corresponde. ensaia uma ruptura. de modo algum. mas esta. São Paulo. 39. pois ele ainda reduz a imagem à memória. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. As teorias que falam sobre a imagem. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. Na busca pela compreensão da verdade. 1997). sem consequências. São Paulo. uma espécie de contador da existência. um mito (grifo nosso). Fato. p. Flammarion. v. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. que funciona mal no abandono do sonho. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). em Bergson. 1990. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. o fato e o valor. I. segundo ele. se revela a si própria através de nós. No entanto. 1996. p. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. uma história. Vila Nova de Gaia. mais do que ser. No entanto. Paris. no sentido dado pelo direito natural moderno. v. destroem-na.

grosso modo. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. Partimos da premissa. Ao corpus antigo. ainda que para fins de melhor compreensão. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. criando muitos espaços de debate. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. e também se constata nas ciências humanas. com a função primordial de normatizar as sociedades.ciência. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. o que denomino humanidades. no ato de conhecer. juntamente com uma visão fundamentalista. 12 Ruth M. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. apenas visto como uma questão de especificidade. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. a literatura e outras. que permite a sua “evolução”. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. portanto. Mesmo no período iluminista. Chittó Gauer . constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. corresponde. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. Isso que significa que os cientistas dessa época. As ciências humanas datam do século XIX. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. O enfoque da diferença é. pode se constituir em um problema. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. No campo das humanidades. não se descolaram do conhecimento antigo. justamente a crença na “verdade” científica.

P. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. ou seja. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. desde os finais do século XIX. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. Para Merleau-Ponty6. A divisão tradicional entre as ciências humanas. d) Foucault. para a convivência dos incompatíveis. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. assim. Maurice. c) Lévi-Strauss. tomando a alteridade como objeto. deslocando a análise do macro para o micro. São Paulo: Abril Cultural. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. Nos finais do século XIX. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. A teoria da relatividade e a física. 1975. In: Os Pensadores. Spencer e Webb. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . basta pensarmos no século XVII. A antropologia. para alguns darwinistas. b) Freud. para um universal constituído por relações de complementaridade. Para tanto. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. empírico-formais e exatas. a biologia passou a explicar. diminuindo. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. que a sociedade evoluía em fases sucessivas.dando margem ao inumano. logo. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. como Tylor. passou a sofrer vários abalos. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação.

I. o que há de exprimir não é mais diferido. porém. à civilização. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. que se ter presente que as linguagens – palavras. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. Ao lado desse enfoque a antropologia. o afrouxamento do método e. Logo. incluíram o rigor das demais ciências. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. Marcel. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. cit. que “devemos. buscando. necessariamente. assim. p. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. No século XX. não é a prece nem o direito. E. é expresso pela palavra. v. e. São Paulo. portanto. que “por mais que a palavra. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma.. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. Há. 1974. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. desse modo. MAUSS. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Chittó Gauer . de produzir-se.de desenvolvimento semelhantes. pois.U./EDUSP. Na visão de Mauss 7. no apogeu do estruturalismo. independentemente da localização espaçotemporal. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. no momento. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. receba de outros seu sentido. escreve o autor. Contudo. Sociologia e Antropologia. enfim. op. 363-365.P. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. 14 Ruth M. os linguistas. como explica Saussure. o fato social não é uma regularidade compacta. o Não. no entanto. O “verdadeiro”. mas o homem como cimento afetivo. logo em seguida. a arte é imprescindível. Marcel. contraído de suas relações. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. a negação.

Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”. tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .

em grande parte. 8. Otávio. tios. entre outros fatores. desenvolvido por Mauss. os mitos. em especial com a fenomenologia e se inspira. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. p. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. uma escolha psicológica. porém. que. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. Toda e qualquer escolha dáse. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. Mauss. que revela preferências.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. irmãos. está baseada no “fato social total”. com base na exclusão do outro consanguíneo. Perspectiva. uma desconfiança em relação à filosofia. Saussure e Breton. o religioso e o artístico. interesses. São Paulo. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. o pensamento selvagem e a filosófica. entre outros –. Toda a obra de Lévi-Strauss. portanto. encontramos o sistema de parentesco atual. contudo. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. Chittó Gauer . de certo modo. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. por exemplo. norma estrutural do vínculo familiar. nos autores clássicos. dialoga com o pensamento filosófico. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. marcada pela liberdade de escolha. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. 1977. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. sentimentos. uma predileção por Bergson. Sob essa estrutura. Proust. o casamento é assumido como um ato individual. podemos notar. A ser assim. ao analisarem a estrutura de parentesco. presentes de forma significativa no conjunto da obra. 9 16 Ruth M. a proibição do incesto.

SAUSSURE. um super-racionalismo. A contribuição de Lévi-Strauss. I. Bronislaw. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. particularmente. Poderíamos. isto é. que revela o oculto. Ferdinand. na obra de Lévi-Strauss. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. No campo da estética. 1974. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). Sociologia e Antropologia. além de Marcel Mauss. Segundo alguns de seus intérpretes.U. 1995. Curso de linguística geral. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. São Paulo. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. Journal d’ethnographe. Podemos identificar. El método de la antropologia social.P. v. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações./EDUSP. Um corte vertical. A compreensão do visível é dada pelo oculto. Anagrama. embora se trate de uma filosofia antifilosófica.a passagem da natureza para a cultura. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . 10 a presença marcante de Saussure. Dom Quixote. Lisboa. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. Ëditions Du Seuil. as capas invisíveis. Alfred. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. a poesia e o mito. Paris. E. a fundação da norma se dá como um processo de violência. 12 MALINOWSKI. Marcel. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. passagem que ocorre com a fundação da norma. 13 RADCLIFFE-BROWN. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. pela busca da relação entre o sensível e o racional. 1985. Barcelona. a pintura. 1975. metaforicamente.

entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. pensa a estrutura como um sistema. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. O signo tem um caráter dual: significante (som). arte. dito de outro modo. No que se refere à fundação da norma. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. 18 Ruth M. significado (sentido). As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. sistema sempre normatizado. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. mas como um sistema marcado por coesão interna. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. mas participa da significação. A linguagem é um sistema de relações. as relações de parentesco são elementos de significação. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. mitologias. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. O fonema não tem significado próprio. como no caso da fonologia. classificação. palavra. ahistórica. desse modo. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. o historicismo e a fenomenologia. portanto. seus elementos (oração. Chittó Gauer . leis. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. O fonema é um campo de relações. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. o significante que precede e excede o significado. mas apresentam uma racionalidade imanente. no entanto. Lévi-Strauss. economia. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. Cada sistema (parentesco. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. Assim como os fonemas. ainda que tais leis estejam ocultas. Foram as ideias de Mauss. como uma estrutura. uma estrutura. apenas adquirem significação participando de um sistema.conforme a antropologia anglo-americana. logo. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas.

a regra. cit. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. 14 Ao contrário de seus predecessores. A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). portanto. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. A proibição também não aparece entre os animais. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). Em ambas. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. em seus estudos sobre o parentesco. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. um conjunto de operações que transmitem mensagens. carregada de interpretações filosóficas. Lévi-Strauss. uma origem biológica ou instintiva. de acordo Otavio Paz. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. Para Lévi-Strauss. mas consequência da proibição. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. 14 PAZ. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. como a linguagem. não tendo. aquilo não). Apesar das inúmeras interpretações míticas. são um sonho simbólico. Otávio. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. 17. op. não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. a significação e a nãosignificação. não origem. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . o pensamento e as coisas. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. Essa crítica. jurídicas.religião) é um sistema de signos.. binária (isto sim. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. p. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente.

15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. nem razão de ser. Faz-se necessário compreender. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. considerada a fonte de todas as normas sociais. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. ou seja. de toda moral e de toda punição.. Esse tabu. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. à linguagem. Para Lévi-Strauss. Logo. portanto. alcançar uma generalidade universal. constitui-se ao mesmo tempo na norma. é na própria diferença que a encontramos. segundo o autor. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. a posição. o espírito: algo que é nada. op. de todas as leis. como na linguagem. que não se defronta consigo mesmo. a fundação da norma se deu com a negação. Se for possível encontrar essa generalização. na significação do espírito. símbolos. constitui a sociedade. mas. em si mesma. pelo menos lógica. equações. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. ao trabalho e ao mito os homens são homens. A proibição do incesto. 19 20 Ruth M. é a raiz de toda proibição. carece de sentido ou de fundamento. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. Frente à análise sobre a fundação da norma. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. a norma proibitiva. mas não de utilidade: graças a ela. cit. fonte de todo limite. o significante e o significado. no fato e no valor. metáfora. Otávio. inflexível. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. p. Chittó Gauer . pode-se dizer que não há uma oposição. uma norma inflexível. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. agora. e esta. este Sim funda o homem.religiosas e míticas. embora pareça não ter justificação biológica.

subjacente a cada instituição e outros costumes. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. Lisboa. antigos e modernos. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. o da comunicação procurada. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. Tal evento originário. Lévi-Strauss. afirma a existência de um evento originário. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. traçado na estrutura inata do espírito humano. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. sob a condição. o mesmo problema se apresenta. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. Em ambos os casos. Claude. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. ‘primitivos’ e ‘civilizados’.cultural. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. p. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. de levar a análise bastante longe”. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. é a sua condição para o êxito. obrigação e necessidade. Raça e história. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. 1952. ainda. fundador da sociedade humana. como o cremos. em Totem e Tabu. Para Lévi-Strauss. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. que esta é a oposição entre lei e universalidade. 133. naturalmente. para Lévi-Strauss. Presença. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. Faz-se necessário ressaltar. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta.

E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. Brasiliense. Ponto de encontro e articulação. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. Claude.do incesto. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. Petrópolis. ao contrário. 1984. Vozes. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura. Rosaria. estando situado entre ambas. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. dada desde o inconsciente. comunicação através dos bens e dos serviços. para o autor. 70-71. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (.. comunicação normatizada. Antropologia e Psicanálise. Para Lévi-Strauss. entre natureza e cultura. Assim. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. 18 MICELA. essa proibição “não é de origem puramente cultural. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. portanto. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. de caráter trans-eventual. necessária e imposta pela exogamia. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. sem pertencer integralmente a uma ou outra. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. 22 Ruth M. esse universal. Ao nível das estruturas elementares. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. comunicação por meio das mensagens. o passo fundamental graças ao qual – e. Essa troca constitui-se. São Paulo. 1982. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS.. estrutural. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). Chittó Gauer .). de resto. nem de origem puramente natural. pp. o momento da passagem da natureza à cultura. 18 Na verdade.

Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. Claude. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. no entanto. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. La Identidad. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. seguindo a reflexão do autor. pp. Há. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. Nesses casos. de posturas psicológicas. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas.tenha afirmado. Este aspecto leva a considerar. elevada a um plano de destaque. para isso. o fato de que o planejamento de organizações. como ponto de referência coletivo. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. pensada como estrutura. Paris. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. A passagem às estruturas complexas do parentesco. ou.). necessariamente. a permuta da própria nacionalidade. 11-39. Grasset. ao menos “idealmente”. (Org. àquelas de onde provêm. ainda. e em nós como função simbólica. muito embora seja indispensável como ponto de referência". que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. para a maior parte dos homens. em particular. Mas. 1977. a humanidade. é um espaço em branco no mapa das emoções. sua singularidade. 19 não é exagero dizer que. nossos sistemas de parentesco. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. ou seja. pode-se revelar altamente inoperante. em suas conclusões sobre identidade. sendo a negação simples. nos sistemas naturais e sociais. encontra-se fora de nós. pelos mais variados fatores. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. da economia. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. direta ou imediata da natureza. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . A norma. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. é possível enquadrar nesse modelo. muito atomizado.

21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. que coloca a natureza perante si. agora separado do ser social e político. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. op cit. principalmente o direito. 365-366. op. consciente de si mesmo. com Descartes. a dominação técnica e a história acumulativa”. nas relações sociais. em todas as instâncias da vida. nas escolhas de vida. Se. caracterizada pela emancipação do indivíduo. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. aos valores. ao direito subjetivo. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. a autonomia aparece para o indivíduo livre. vinculado à qualidade única do ser humano. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. cit. p. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. a normatização sofreu alterações significativas. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. Esta ideia demarca as instituições. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. com o surgimento do indivíduo moderno. Chittó Gauer . 24 Ruth M. A autonomia constitui uma marca da modernidade. como objeto de conhecimento. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. ao surgimento do direito natural. MERLEAU-PONTY Maurice.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. Logo. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. sonhos românticos). Segundo Merleau-Ponty. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. Considerando que.

para o afrouxamento do controle social tradicional. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. como do amor conjugal. as maneiras de educação. 22 ELIAS. no mundo urbano individualizado. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. Zahar. Rio de Janeiro. 1997. no conjunto da sociedade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . 13-79. este por si só constitui espaço para a liberdade. que se apresenta como base para a liberdade. mas também máscaras de proteção. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. na medida em que as trocas não se dão por posição social. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. anteriormente determinantes. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. a partir dos séculos XV e XVI. características das sociedades tradicionais. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. ao contrário.Do ponto de vista sócio-histórico. modos de agir. A sociedade dos indivíduos. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. não obedecem a uma lógica exterior. com ele. vão se constituindo. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. Norbert. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Portanto. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. pp.

1999. Michel. SOUZA. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. quanto maior o individualismo. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. Rio de Janeiro. op. 27. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. dizemos que a liberdade tem seu custo. 1998. Jessé.). quanto mais nos individualizamos. que se. UNB. Louis. p. 1979. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. Editora da UNB. com as quais cada um deve se conformar. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. Brasília. 1985. para o autor. Norbert. Berthold. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. 27 FOUCAULT. se poderá fazer uma história da verdade”. cit. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. 142. em si mesmas. O Antigo Regime e a Revolução. paradoxalmente. Rio de Janeiro. e mais essa necessidade surgirá. produz o indivíduo em sua autonomia. Simmel e a Modernidade. por outro o expõe. Rocco. 25 ELIAS. op. Neste sentido. 26 DUMONT. Michel. na medida em que. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. não por acaso. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. Segundo Foucault 27. A Verdade e as Formas Jurídicas. ela. cit. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. maior seu custo. mais nos socializamos. Brasília. Quanto maior for a liberdade. do conhecimento. paradoxalmente. ao mesmo tempo originário e absoluto. 26 Ruth M. 28 FOUCAULT. Nau. Aléxis de. mas sim certos domínios de saber. a nossa sociedade funciona por normas. OËLZE. (Orgs. como encargo muito difícil de ser cumprido.. Chittó Gauer . domínios nos quais. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. Ed. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. por um lado. isso sob o prisma da norma social. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. assim. maior a socialização. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. se formam o sujeito e as relações com a verdade. a conformam e dela decorrem. também é desejada.

durante o século XX. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. O indivíduo se atomiza. é produto da própria liberdade. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. O que podemos constatar é que. mesmo das vinculadas às leis científicas. é possível falar da incerteza da liberdade. hoje “acelerada” de modo irreversível. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. mais especificamente no pós-guerra. A igualdade. esta socialidade. mais necessitamos de regulamentações. portanto. mas constitui experiência de todos os dias. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. considerado o aspecto mais significativo. deste modo. Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. O único laço que permanece é o de natureza institucional.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. não é somente um valor.

tudo se mistura. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. seu modo de organização e sua função diferencial. 1976. Claude. por princípio e por fim. integral. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. Claude. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. 32 LEVI-STRAUSS. permitindo. a totalidade social se manifesta na experiência. Ao invés de aparecer como um postulado. cit. op. 14. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. parece que. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. op. pp. em suma. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. na teoria do fato social total.. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. econômicos. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. cit. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. ligado. a linguagem do direito. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. Para o primeiro “a totalidade consiste. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. alma. Antropologia estrutural dois. poder-se-ia dizer. 14-15.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. como diz Mauss. Tempo Brasileiro. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. Claude. o aspecto vivo.. Chittó Gauer . também. tudo está inter-relacionado. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. estéticos. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. 14-15. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. cit. op. desta maneira. sociedade. 31 LEVI-STRAUSS. para cada um desses códigos. 32 Se. pp. pp. religiosos. 28 Ruth M.. Claude. p. Rio de Janeiro. morfológicos ou outros. 30 LEVI-STRAUSS. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. 14-15.

Há. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. Claude. Todavia. LEVI-STRAUSS Claude. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. objetos. levada até as categorias do inconsciente. cit. cit. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. a liberdade – uma forma de organização social. também. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. como muitos pensam. portanto. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. ciência política. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. a justiça.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. em sua visão. a partir dos elementos de sua existência social. oferecendo-nos. entretanto.. ou ainda estudar as normas sociais. história. Neste caso. desse modo. pp. confundir-nos opera. nada deixou escapar. O signo. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. 16-17. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. com o qual não podemos. pensada como tradição. 19. assim como não podemos. apesar de tudo. independentemente das coisas que lhes correspondem. 17. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. pp. um interesse privilegiado. direito. op. 18. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. O autor reconhece. no entanto. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. nos diz respeito de forma total.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . op.

a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. cit. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. Clifford. ao mesmo tempo. segundo ele. Quando se comunicam os homens conversam. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. escrevem. Destas transformações. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. 22. gesticulam. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. 36 35 30 Ruth M. junto ao significante. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. segundo Geertz. se deve ao fato de que. ao menos provisoriamente. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. p. segundo as premissas que apresentamos. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. GEERTZ. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos.. No campo da antropologia a mitologia. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX.que se insere. Chittó Gauer . as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. no nível biológico. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. op.

um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. de acordo com ele. torna a análise muito problemática. Nova Luz sobre a Antropologia. Na opinião de Geertz. desconsiderando. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. Em segundo lugar. provavelmente. a exemplo do Brasil e da Índia. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito.lições de Geertz. não apenas as chamadas sociedades simples. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. entre outras coisas. em disciplinas como a psicologia. em primeiro lugar. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. Explica que. 2001. a própria passagem do tempo. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. mas também fora de sua área. a história e a teoria literária. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. GEERTZ Clifford. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. Na entrevista. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. Geertz fala do panorama da antropologia atual. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. No final. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. Geertz é. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. Jorge Zahar. logo. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. A antropologia de matriz norte-americana é. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. São Paulo.

10. não interpretará nada. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. regras. São Paulo. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. 1987. elas fazem parte do repertório da antropologia. historicamente. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. A análise interpretativa da qual fala Geertz.completamente geral. Ela tem que perceber qual é. a exemplo de Hans Kelsen. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. política. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. hábitos e leis sociais. Antropologia jurídica. não tentará buscar compreender nada. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. de vagueza. literatura. contingência. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. indeterminação. Robert W. história. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. o Marrocos ou o Brasil. In: SHIRLEY. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. Chittó Gauer . direito. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. Mas isso não é niilismo. mesmo assim são respeitadas. Saraiva. Neste caso o niilista não se importará com nada. nem começaria a interpretar. não tentaria ao menos começar a entender os outros. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. a análise de suas normas. sem dúvida. como economia. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. p. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. que estuda tudo. se esforçando para explicar as diferenças em geral. que diz estudar o "Homem". Muitos juristas. 32 Ruth M.

natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. Em especial. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. isto é. como no caso das sociedades modernas. p. 40 SHIRLEY. como crítico da metafísica (ou do humanismo. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. Saraiva. esses dois planos compõem as estruturas sociais. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. normas da sociedade referentes às primárias. exílio. subjugadas e ignoradas. se preferido for). Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. ou seja. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. obra em que. isto é. São Paulo. por outro lado. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. forças políticas estruturadas pelas instituições. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. Antropologia jurídica. Robert W. ostracismo ou morte. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. sobre o comportamento do indivíduo. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. 1987. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. e regras secundárias.

da objetividade sobre a subjetividade 41 e. para Heidegger. afirma o autor. Alianza Editorial. cit. Ao contrário de Geertz. 2006. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. nega o ser como fundamento. op. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. rememora o ser e o ente para além da presença. O reino da estupidez e o reino da razão. no entanto. 71-92. O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença.. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". Obras. Meditações do Quixote. 1977. 42 41 34 Ruth M. ou seja. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. São Paulo. Para Heidegger. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). Chittó Gauer . 1946.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. esquecido da subjetividade). reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. sob essas premissas. Ruth M. Livro Ibero-Americano. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. Ortega y. 44 GASSET. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. v. que “mostra também um momento VATTIMO. 43 GASSET. igual e eventual. 162. sem estruturas. 42 Há. p. GAUER. cit. Madrid. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. O pensamento da diferença. VI. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. Chittó. op. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. p. De acordo com Vattimo. O ser da metafísica é o ser mutilado.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. enquanto a temporalidade. Gianni. José Ortega y. plenitude da presença e estabilidade una. apenas a rememorou. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente.

conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. (Orgs. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. revelado por Marx. 10. Editora da UNB. mas perigosa. não sujeito a mudanças. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. Rompera até com a cultura moderna. segundo o autor. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. pela ética e pelo direito. Simmel e a Modernidade. na significação que nos interessa. No final do século XIX. resultado do domínio das coisas sobre o homem. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia.‘escandalosamente temporário’. é um exemplo deste fenômeno. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . o devir era uma das categorias principais do pensamento. O destino trágico. afinal. OËLZE. abertura do pensamento e da cultura.). Brasília. Berthold. p. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. Com esta análise em mente. no sentido tanto decadente quanto criativo. sendo que. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. Jessé. O século XX. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. mas também sem normas ou raízes”. como fizera o século XIX. cujo movimento na sociedade. 1998. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. SOUZA.

p. Marcel. da família. I. o autor refere que às funções. op. 36 Ruth M. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. entre outras. hindu e germânico. por um lado. a grega e a romana. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. 1974. Marcel. MAUSS. Chittó Gauer . v. Sociologia e Antropologia. as pessoas e as coisas”. 234. p. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. uma mistura de direito público e direito privado. Do mesmo modo. 49 MAUSS. 131-132. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. aos cargos. romano. Assim como na passagem natureza-cultura. de direito não formulado e direito formulado. nossas antigas civilizações. às honras. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. culto 46 47 MAUSS. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. e a dádiva por outro. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. EPU/EDUSP.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. a família. Na opinião de Mauss. pois nem tudo pode ser formulado. de toda a sociedade. o Não. Marcel. com elas. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. 234. de alienação e de troca. Sociologia e Antropologia. de alguma forma. p. Segundo a análise. Para o autor os direitos costumeiros são. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. I. II. Marcel. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. op cit. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. v. v. Sociologia e Antropologia. e. São Paulo. São Paulo. 1974. cit. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. como a semítica. negativa que contém um Sim afirmativo. Esta forma de instituição. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. EPU/EDUSP. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. 48 MAUSS. muito antigo”.

que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. v. I. “Patricius”. da propriedade. “Pater”. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . contudo. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. como já vimos. o que. “Atta” educa a criança. da herança. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. Èmile. não foi obra de legisladores. herança. propriedade. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. pp. da autoridade e da punição. traços que se mantiveram na época clássica. esta só lhe é conferida. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. seu auxiliar nas funções sagradas. Minuit. de fato. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. figura do nome divino de Júpiter. autoridade.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. em sua origem. liga-se à relação de parentesco. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. Paris. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. descende de pais livres. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. a maioridade biológica. “Patrius” se refere ao pai não físico. 1969. que é lido como “Pai Celeste”. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. o descendente de pais livres. portanto natural. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. mãe). assim como a importância das coisas. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. a morte do pai. exprimindo uma hierarquia pessoal. Éd. “Patricius”. do sânscrito “Pitar”. não separa os filhos. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. estruturou-se nos mitos. exclui a relação de paternidade física. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. 207-212.

Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. op. Como observa Mauss. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. pp. Seguindo a análise. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. cit. além dos vínculos mágicos e religiosos. o “vínculo” de direito. isto é. MarceL. além de família e res. op. Entre os direitos analisados. p. Marcel. não concede a maioridade aos filhos. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. 38 Ruth M.. casa. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. bem como um certo número de formas desses contratos. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. pp. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. Outros termos de direito. 53 O contratante é primeiramente reus. 53 MAUSS. 135-136. a pretexto de não fazer sentido algum. o nexum.. op. ao contrário da natureza. op. segundo Mauss. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. ou seja. no entanto. A religião. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. MAUSS. sem dúvida. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. prestam-se para este estudo. Marcel. que parte tanto das coisas como dos homens. 135-136. segundo Mauss. 54 MAUSS.. A etimologia já fora proposta antes. Marcel. por seu espírito. seu réus. embora tenha sido eliminada. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. o nexum. a esse título.. cit. Sob este aspecto. 133-138. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. Chittó Gauer . Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. cit. 139. e que se torna. é bastante notável que. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa.se submetiam à sua autoridade. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. quanto mais remontamos à antiguidade. cit. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. A melhor etimologia de família é. a que aproxima do sânscrito dhaman. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. pp.

visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. crescida à sombra do racionalismo. segundo o autor. todas as teorias do “quase-delito”. 140.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . Desse ponto de vista. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. o indivíduo possuído pela coisa.coisa”. o culpado e o responsável”. “ao contrário. enfim. “a origem do contrato. p. se nossa derivação semântica é aceita. que apresenta o seguinte: 55 “1°. do nexum e da actio. acabou por ter um efeito perverso. Marcel. (. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. Mas essa tradução é arbitrária. de um ‘processo’ público. com mais forte razão para reus. A imagem. o sentido de culpado. investigar e decifrar os mistérios da natureza. um termo processual. 2°. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”.. cit. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico.) de inferioridade espiritual. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. op. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. sobretudo. e rei-jetos por “implicado no processo”. supondo que o termo res é. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Para Mauss. Há autores que traduzem res por “processo”. 3°. ficam um pouco mais esclarecidas. Como se pode observar. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia.

que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. deslocando. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. O individualismo. passou a regulamentar de forma especializada. 80-85. as res que dela faziam parte. corpo-espírito. 58 DESCARTES. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. Rio de Janeiro. 56 40 Ruth M. René. res. antes uma acepção secundária. op. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. Louis. 1985. O Iluminismo. Para Dumont. segundo Dumont. pp. ao fazê-lo. mas por uma pluralidade de outros. A exemplo do direito. por sua vez. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. René. A criação do paradigma da modernidade. política. no entanto. objetividade e subjetividade. especializou-se e. isto é. foi fragmentado. Lisboa. de um “processo” público. 1993. econômica.. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. 57 DESCARTES. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. 117-118. pp. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. cuja base se encontra na obra de Descartes. já que deixa de haver um princípio organizador único. jurídica. isto é. Rocco. pp. Discurso do método. religiosa. O sentido implicado no “processo”. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. Chittó Gauer . razão e emoção. uma vez que o centro. não foi substituído por outro. lícito e ilícito. dicotomizando tanto coisas como homens. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. ou seja. por uma pluralidade de centros de poder. cit. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. A base tutelar da família foi fragmenta. um dos princípios que. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. Essa busca. 12-16. assim. o sentido da palavra família. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. foram deslocados. 57 permitiu o surgimento do dualismo. pessoas e coisas. passa a ter uma acepção difusa. Edições 70.mistérios da natureza.

Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. em determinado ponto. mítica e religiosa. o modelo de visão do autor é o tato. da observação. no entanto.seu famoso Discurso. por meio da experiência. da investigação. totêmica. isto é. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . de decifrar a natureza em geral e a sua própria. Esse conhecimento. mas afirma. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. que “Os cegos vêem com as mãos”. buscou substituir várias autoridades.

321. mas. Chittó Gauer . não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. Barcelona: Barral Editores. A criação dos símbolos modernos. com base na crença da ciência. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. trocamos mensagens. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. da tradição e de instituições que a precederam. p. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. Sociedad y ciências sociales. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. a consanguinidade. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. está estruturada em uma concepção “natural”. da mesma forma que os da língua. 320. 42 Ruth M. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. respeitamos regras. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. estéticas e políticas das sociedades. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. As transformações das instituições jurídicas. de uniformização. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. Marcel.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. Obras III. 1970. A separação natureza-cultura. a exemplo do exercício do poder. que possui o indivíduo como melhor exemplo. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social.

nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. Os Pensadores XIX. porém não conseguiu eliminá-la. de conhecer as diferentes “realidades”. por exemplo. como já referido. como. Zahar Editores. Rio de Janeiro. apenas releu a forma. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. criadas em sociedade. pp. não como uma ciência experimental em busca de leis. O crime e o castigo seguem convenções legais. em parte. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. além de não eliminar a norma fundante. Os Pensadores XV. pois. p. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. denominada legislação em sentido amplo. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. portanto. à procura do significado”. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. teias. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Tal postulação inspirou-se. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. o indivíduo moderno. 81-153. 61 A partir daí. LEIBNIZ. segundo este último. Clifford. Gottfried W. pp. “sujeito-da-razão”.sobre o pensamento e a ação. que não conseguiram eliminar a regra geral. o que fazemos. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. São Paulo. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. René. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. 62 DESCARTES. 63-73. as categorias coletivas. 1978. e como devemos realizar nossas ações em sociedade. Abril Cultural. escolhas. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. 1973. 15. A interpretação das culturas. 1974. proibições. Abril Cultural. mas como uma ciência interpretativa. São “versões” da vida em sociedade. outras categorias foram derivadas. imposições. São Paulo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. quando 60 61 GEERTZ. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos.

Tentou-se. 139-348. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. vistas como ontologicamente diferenciadas. Os Pensadores XVII. elementos esses que seriam. O “indivíduo soberano”. com capacidade de raciocinar e pensar. São Paulo. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. reelaborado também pela visão de Locke. assim. A partir dessa posição de Descartes. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. É. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. 1973. Por outro lado. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. o “eu penso”. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. do conhecimento e da prática. além de outros como Hobbes e Kant. sujeito da modernidade. Abril Cultural. no entanto. Ao refocalizar o velho (e original. em Locke. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. Chittó Gauer . 44 Ruth M. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. determinado pelo “cogito ergo sum”. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. Hobbes.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). Locke e Rousseau. a partir de sua análise. no sentido heideggeriano). enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. pp. sem dúvida. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. John. Para muitos autores. elaborando a composição de orientações diversas. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. irredutíveis. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo.

em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. 64 Essas questões. jurídico e político. 1985. precisamente porque fundada. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Todas as correntes concordam. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. após as críticas da escola histórica. mas um princípio metodológico. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. Rio de Janeiro. Não há dispersão. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. por exemplo.estejam separados por uma fronteira intransponível. Outra prova é que. não eliminam o intento comum. no entanto. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. Na verdade. Contudo. no final do século XIX. mas sim uma unidade metodológica. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. e os formalistas como Kant e Fichte. e sim manutenção dos mesmos objetivos. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. Rocco. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. no entanto. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). Tanto é assim que. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. todos pertencem à mesma “escola”. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. mas o modo de abordá-lo (a razão). finalmente. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural.

a redenção do Siècle des Lumières. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. Há. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. p. sepultura da medieval fé em Deus. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). ainda submersa no platônico mundo das sombras. portanto. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. v. No século XVIII. Paris. o Estado-nação. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. 183. o referencial filosófico-social básico. Alemanha e outros países.paradoxo da modernidade. progrediram as ciências na Inglaterra. Payot. e “eliminou” todas as diferenças. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. da Europa chegou o progresso. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. Nesse sentido. no entanto. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. O que caracteriza. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. sustentáculo da sociedade GUSDORF. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. A base seria não uma lógica do provável. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. Chittó Gauer . 1967. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. no interior dessa grande estrutura. mas o método. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. As teorias clássicas liberais de governo. George. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. como modelos estáticos. IV. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. e foi definido. 65 46 Ruth M.

por outro lado. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. Erving. argentinos. Nesse contexto. os numerosos estudos sobre caráter nacional. o estado. Zahar. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. entre o sujeito e seu entorno. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. E. e estas. fenômeno 66 GOFFMAN. ingleses. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. a qual é. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. uma comunidade simbólica. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. para isto. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. certamente. Essas identidades não estão. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. Ao mesmo tempo. “englobaram” todas as diferenças. com suas vontades. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual.moderna. necessidades e interesses. primordialmente. No entanto. Obviamente ao nos definirmos como tais. Estigma. Os indivíduos soberanos. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. gestada ao nível da razão simbólica. nesse sentido. inversamente. impressas em nossos genes. As culturas nacionais. 1982. assim. gerando. Rio de Janeiro. Goffman. entre eles. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . ou seja. criadas por meio de tetos políticos. Basta recordar. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. etc.

que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. Os indivíduos soberanos. com suas vontades. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. A lealdade e a identificação foram localizadas. políticas. No caso brasileiro. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. As diferenças regionais. desde os finais do século XVIII. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. religiosas. O tema da nacionalidade. étnicas. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. dominação e hierarquia. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. junto ao estado-nação e. consequentemente. à cultura nacional. a atenção. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. entre outras.este de índole essencialmente contemporânea. há décadas atrás. nas sociedades ocidentais. No início do século XIX. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. necessidades e interesses. O modelo interativo. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. posteriormente. já no início do século XIX. Chittó Gauer . dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. tornaram-se a figura central dos discursos políticos.

liberdade de escolha. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. o que tem por separar a ideia de valor. por outro lado. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. pelo próprio sistema de representações. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. Embora essa dissolução tenha ocorrido. em muitos casos. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. Como refere Dumont. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. é prescrito. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. 1985. não havendo. Em se tratando de sociedade moderna. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . No entanto. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. pp. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. O individualismo. As idiossincrasias sociais. Os indivíduos soberanos. um fato e uma norma. neste caso. a negação da ordem escravocrata. e por assim dizer. não há lei sem a impessoalidade. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. como já afirmamos. que a norma não seria um efeito da sociedade.270. com suas vontades. necessidades e interesses. mas a própria sociedade em ato.relações sociais. 269. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. 67 “o valor está imbricado. ou o valor se vincula ao indivíduo. que. assim como não há indivíduo. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. tornaram-se a figura central da lei. o valor e a norma. as quais configuram a estrutura social. Rio de Janeiro. Rocco. Louis. há que se salientar a importância da norma.

o fundamento primeiro do fato social. a norma. Chittó Gauer . nada articula. abre toda a significação. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela. No entanto. 50 Ruth M.

Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. pois permite repensar a crise da ciência moderna. op. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. Gaston. Após o relativismo do racional e do empírico. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. BACHELARD. Gaston. de Bergson a Bachelard. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. Os Pensadores. Os Pensadores. é antes criação”. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. 757. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. 1973. Abril Cultural. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. cit. da física e da química não apenas um avanço. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. Um segundo fundamento. antropologia e psicanálise. op. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. como se a terra. pp. versando sobre a descontinuidade. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. pp. 68 69 BACHELARD. no decorrer do século XX. é possível pontuar o foco da crise epistemológica.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. Na física. sobretudo. 70 BACHELARD. São Paulo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 .. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. 756-758. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’. propôs uma noção de duração não bergsoniana. mais do que uma simples descoberta. 756-758. o mundo. p. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. e entre vários filósofos. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. cit. Gaston.

a antropologia. São Paulo. a natureza. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. São Paulo. Claude. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. a história das Ideias. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. o Simbolismo e o Surrealismo. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. O Mito e o Homem. 2001. foi a ‘descoberta do inconsciente’”.. por exemplo. Difel. a psiquiatria e psicanálise. do mito e do “pensamento obscuro”. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. 3ª ed. Edições 70. O Pensamento Selvagem. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. 73 Sigmund FREUD. Chittó Gauer . a história e as normas sociais. Lisboa. 75 CAILLOIS. Roger. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. op. p. Gilbert Durand. 2000. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. ou campos de conhecimento. Imago. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. 72 Gilbert Durand. 1986. cujo resultado. segundo o belo título de Henri Ellenberger. 2002. Todavia. 71 Para Durand. 76 são exemplos destas análises. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. A Interpretação dos Sonhos. 73 do “pensamento selvagem”. Sociologia e Psicanálise. Roger. Papirus. Companhia Editora Nacional. cit. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. 71 52 Ruth M. 35. do onírico. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. Deus. 74 LÉVI-STRAUSS. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. Rio de Janeiro. 1974. 76 BASTIDE. São Paulo.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. desde a psicanálise até a cibernética.

. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. op. mesmo sendo arbitrários. Alexander. Para Durand. Seguindo essa linha de investigação. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. Melanie Klein. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. o importante é a existência de significados que. as orientações psicoterapêuticas. entre outras contribuições. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. uma vasta compilação e análise. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. 36. a razão. a função do sonho. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. 77 DURAND. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . Gilbert. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. conclui que. Hartmann e tantos outros.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. Assim não há. como de fato o são. as assertivas de Lévi-Strauss. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. baseadas na obra de Jung. Freud. em termos de interpretação. Portanto. já de matiz clássica. de certo modo. em princípio. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. p. cit. extremamente minuciosa e complexa. pois tal comparação confirma. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. Bion.

Etnopsicoanálisis Complementarista. não há mais lugar para o tempo mítico. Cabe. Ou seja. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. que é a psicanálise. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). Buenos Aires. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. por uma confrontação de seus DEVEREUX. Georges.. tira. frente à sua realidade existencial e concreta. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. Desta constatação. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. qualitativamente diferente do pensamento científico). a partir de um modelo explicativo. como comentário correlato. De qualquer modo. que se opõe. senão no próprio homem. Neste. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. que pode ser coletada e que.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. 78 54 Ruth M. Amorrortu Editores. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. pois.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. portanto. veracidade e exatidão de uma teoria. por atingir as causas reais da perturbação. Portanto. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. o que não se daria com as últimas. Esta forma moderna da técnica xamanística. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. mencionar a posição de Georges Devereux. Chittó Gauer . 1975. como estas. semelhante a tantas outras. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. por sua natureza científica. No entanto. para Lévi-Strauss..

com a linguagem dos símbolos. No caso específico de Freud. Nesse contexto. Tempo Brasileiro. soturno e traiçoeiro. tal análise é simplista. ou seja. Claude. Rio de Janeiro. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. 1970. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 .” 79 Veja-se. E. ou formulação de uma identidade. como já havia dito Spinoza. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. permite a via de acesso ao inconsciente. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. portanto. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. está 79 LÉVI-STRAUSS. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. Assim. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. p. da força das emoções”. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. Antropologia Estrutural. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. Freud. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). Na verdade. O papel primordial atribuído à razão. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. ainda nos tempos atuais. no homem ocidental. elaborou. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. racionalismo que sempre guiou sua tarefa.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. 224. por sua vez. na passagem para o século XX. para o citado autor.

Correspondendo ao espírito da época Darwin. Com essa posição. E isto Darwin o fez mostrando que. a psicologia. Para Freud. Ao contrário. também contribuiu para essa crise do conhecimento. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. em última instância. nossas identidades. não deu atenção à dinâmica psicológica). Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. Chittó Gauer . as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. de certa maneira. nessa busca. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. não só em áreas específicas. tal como a ciência moderna havia proposto. Kraepelin. Afirmou Saussure que nós não somos. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. tanto Darwin como Freud. mas. A contribuição de Ferdinand de Saussure. que traz consigo o desenvolvimento da razão. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. em nenhum sentido. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. recriar os modelos universais. tentando. em outra área de pesquisas. Quando Freud buscou a subjetividade e. a sociologia e a antropologia. a descoberta do inconsciente. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. do mesmo modo que Freud. um duro golpe ao narcisismo humano. o que correspondeu. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. na qual se destaca E. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. logo existo”. dessa forma. Acertaram. com ela. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. encontrou. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível.

Essa foi. Lembremos que.nos comunicarmos. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. A língua é. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. nesse sentido. a opinião de Georges Devereux. Ela pré-existe a nós. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. Atualmente. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . o par de termos opostos noitedia). por exemplo. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. superando as contingências do relativismo. os de normalidade e anormalidade. de natureza teórica ou não. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. para fins de análise histórica. tal questão está em grande parte superada. O significado das palavras não é fixo. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. em virtude de considerações de ordem variada. em uma relação um-a-um. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. por exemplo). por exemplo. e este fato mantém uma conotação de atualidade. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. No campo da etnopsicanálise. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. Porém. No entanto. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. não podemos utilizá-la para produzir significados. Por outro lado. Este autor optou por uma definição de normalidade que. Devem ser consideradas também. um sistema social e não individual.

ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. Na concepção de Durand. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. nesse ponto já superado. que anima a mente primitiva. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. para lançar em descrédito a psicanálise. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. basicamente. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. dando sentido e ordem ao universo e que é. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. mesmo no chamado mundo civilizado. Caillois e Bastide. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. Todavia. que antecedem uma maturidade mais plena. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. sem dúvida importantes. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. de Freud. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. da qual um grande número de culturas seria excluído. Mesmo assim. discutir a questão da alteridade. Chittó Gauer . 58 Ruth M. Para Durand.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. lançada por Lévi-Bruhl. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. em certa medida. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. por muito tempo. que possui uma conotação de natureza mais universal.

Porém. faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo.O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 .

Chittó Gauer . evitando isolar-se em abstrações excessivas. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. Giambattista. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. notadamente. O humanismo renascentista. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. São Paulo. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. Evidentemente. concepção defendida pelos estruturalistas. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. que se difundiu por toda a Europa. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. A partir de meados do século XVI e. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. trad. a posição marcadamente anticartesiana. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. nos século XVII e XVIII. Os Pensadores. Abril Cultural. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. 60 Ruth M. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. 1974. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. como França e Inglaterra. seleção.

Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. René. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. formulada por Descartes. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . Conforme afirmara: “a verdade é que. p.. ou seja. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. p. Por outro lado. 36. 1981. em sua opinião. por fim. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa.ao método matemático era. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. que careceriam de demonstração lógica. 38. colocava. a ideia VICO. contida no cogito. Editora Universidade de Brasília. é que o próprio criador a tenha criado. 81 Ao mesmo tempo. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. DESCARTES. como a poesia e a história. Giambattista. a perda de seu atributo de certeza. 83 Ibid. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. Brasília. a partir do modelo matemático. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar.. “a história no exílio. pois existiriam produtos humanos fundamentais. op cit. isto é. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. pouco encontrava que me convencesse. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. Discurso do Método. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. Dessa forma. pois repousam no verossímil. ergo sum. desprovida de sentido. 82 Dessa forma. pois ele não se cria a si mesmo. segundo o autor.

Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. s/d. justamente por ser o homem produto desta. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. São Paulo. colocada entre o falso e o verdadeiro.de que as proposições matemáticas. segundo Vico. trad. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. Como diria Collingwood. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. o filósofo napolitano oferece a tópica. p. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. A reflexão do filósofo napolitano considerava. Editorial Presença. G. 1974. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. Os Pensadores. seleção. O autor separou a história das ciências da natureza. leis. Nessa perspectiva. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. governos. etc. VICO.. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. Abril Cultural. pois. 85 84 62 Ruth M. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. libertando-a da dependência das fontes escritas. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. R. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. Lisboa. 88. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. A Ideia de História. Giambattista. à crítica fundada na razão. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. Chittó Gauer . ainda. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas.

os tratados de paz. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. historiógrafos e críticos. a fim de que. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. vinculando esse direito às tradições. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. quanto fora dele. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. dotado de vontade. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. Segundo Vico. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. “O humano arbítrio. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. como as guerras. a fim de que.deles conhecidas e antevistas”. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. de um lado. tanto em seu território. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. tais como os costumes e as leis. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. incertíssimo por sua própria natureza. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. as viagens e os intercâmbios comerciais. as alianças. Se uns e outros tivessem feito isso. ao menos a vontade repouse sobre a consciência. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 .

generalizável como totalidade. que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e. portanto. Chittó Gauer .XVII. 64 Ruth M.

independendo da questão temporal ou geográfica. Zahar. Paidos. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. A razão prática. Cultura e Razão Prática. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática).VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. Rio de Janeiro. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. 88 ou teoria da utilidade. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. op. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. Nesse sentido. circunstância que compartilha com todos os organismos. O evolucionismo. de interesse utilitário. a razão prática. como teoria explicativa da diferença. consultar: Marshall Sahlins. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. Marshall. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. No entanto. e Clifford Geertz. El antropólogo como autor. 87 paradigma da igualdade. Barcelona. 87 SAHLINS. 1989. 1979. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse.. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. cit. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII.

A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. para o progresso. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). Lewis Morgan. A definição dos três estágios – selvageria. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. portanto. Um dos 66 Ruth M. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. e Lewis Morgan (americano). o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. procurou ordenar seus estágios evolutivos. as invenções e descobertas de certas sociedades. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. em um estágio primitivo. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. estrutura e função. desatrelada do tempo histórico e. Nesse sentido. dessa forma. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. da hierarquia entre evoluído e atrasado. conhecer a diferença. Chittó Gauer . ao estudar as instituições. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. e em muitos casos até boa parte do século XX. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. levou a antropologia do século XIX. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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n. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. tendo a sífilis como modelo. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. agregou-se a teoria da degeneração. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. Acesso em: 03 jan. Após as influências dessas escolas. Ana Maria Galdini Raimundo. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. Este “estigma de ODA. Disponível em: http://www. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. no qual. Conforme Ana Maria Oda. Psychiatry On Line Brazil. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias.polbr.htm. Então. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais.diferença. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. o Brasil deveria se engajar. intelectuais e comportamentais. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional.” A estas concepções organicistas. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. Chittó Gauer . dez. 2002.br/arquivo/wal1201. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. pela visão de seus teóricos. 2001. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. 92 70 Ruth M.med. entre outros. Um número expressivo de historiadores. Para tanto. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. v. 12. 6. Autores como Nina Rodrigues. Juliano Moreira. dominaram as concepções organicistas. Arthur Ramos. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. portadora de estigmas físicos. formada de índios. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. 92 “na segunda metade do século XIX. sob circunstâncias apropriadas.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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Ruth M. Chittó Gauer

estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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Nesse contexto. de certa maneira. do mesmo modo. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. neutro e objetivo. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. apesar das dúvidas 74 Ruth M. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. associou-se à psiquiatria que. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. No entanto. a antropologia. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. já havia decretado sua morte. pela reestruturação política e social do mundo. assim como várias outras em diversas partes do mundo. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. nesse rumo. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. do quadro social então presente na sociedade ocidental. Tais ocorrências sociais. pois ambos operam como uma unidade sintética. Nos campos de concentração denominados “reservas”. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. Chittó Gauer .de um modo de vida tradicional. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. suicídio. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. É inegável que o século passado. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. homicídio. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta.

noções bem definidas de normalidade/anormalidade. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . consolida-se a etnopsiquiatria. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. Por exemplo. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. com seus quadros de anomia psicossocial. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. sintomáticos de uma patologia mental. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. comportamento. assim como as instituições culturais em geral. então. Detecta-se. Como se vê. desrealização e. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita. A partir desses fatos. como processos dissociativos. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade.“relativizantes”. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. temos aqui dois fatores. uma patologia. Este pensamento como que matizou. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. Esta. Por um lado. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. em síntese. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. Portanto. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. assim como ao nível das culturas camponesas. de saúde e enfermidade.

um ponto de encontro. observação e tratamento. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. a observação feita por Lévi-Strauss. por exemplo. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. critérios transculturais de análise. convém lembrar. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. em princípio. entre o psiquiatra e o xamã. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. Ou seja. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. 95 76 Ruth M. mesmo que superficialmente. a qual legitima tal fenômeno. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. assim.qualquer agrupamento social. dessa maneira. O critério de eficácia é. e aceitáveis De modo semelhante. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. Não se pode afirmar. Mesmo assim. Seriam. portanto. propondo. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. discutível. Chittó Gauer . A partir disso. ao nível do arbitrário. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. até. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. incluindo culturas urbanas. Nesse caso. pois.

mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. Claude. uma vez que a psicanálise (assim como. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. de outro modo informuláveis..) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. e ela é membro de uma sociedade que acredita. (. não tem importância: a doente acredita nela. “Neste sentido. 1975. Portanto. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. Buenos Aires.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. 1970. aparentemente tão afastadas. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem. 204-224. “(. num sentido favorável. (.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas. Tempo Brasileiro.. 255. Empero. à prática e ao simbolismo xamanístico. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite.. 97 Como coloca DEVEREUX. pp.).. ao mesmo tempo. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une.. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. real ou suposto. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. (. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. sem isto. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. mas.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. Amorrortu.” Georges Devereux. Etnopsicoanálisis Complementarista.. que a doente adquire deles progressivamente.. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. a reorganização. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. isto é. p. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 .. a partir de um modelo estrutural comum. em linhas gerais.LÉVI-STRAUSS.

a sociedade urbana norte americana. Também é fato sabido que.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. Chittó Gauer . Em um primeiro momento. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. Como se sabe. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. por exemplo) como delirante. em si. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. no caso. como Robert Merton. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. levou várias décadas para concretizar-se. poderão reformular. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. Na verdade. por exemplo. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. assim. sem que isso o afete mais profundamente. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. Este fato. se for considerado conveniente. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. com grande benefício. sua prática terapêutica. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. nada de inédito. Gregory Bateson. Afirmam os etnopsiquiatras que. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. a comprovação deste fato não trouxe. melhor transitar no terreno da psiquiatria. Ruth Benedict e outros. principalmente no processo de tradução. utilizando. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. correspondam ou não à realidade. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. em termos de enfermidade psíquica.

não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. por assim dizer. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. dentro dos paramentos de controle social. de certa forma. idênticas a si mesmas. Não há. por exemplo. no transcurso de gerações. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. a partir disso. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. às populações primitivas. da cultura. e uma possessão patológica. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. ou seja. Ou seja. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . constituindo-se em um elemento ego-sintônico. e que. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. no entanto. 98 Neste caso. 99 Assim. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. Parece que. indistintamente aplicada. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. 99 No entanto. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. se mantêm assim. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. agora ameaçada. como objeto transacional. nesses contextos. de certa maneira. muitas vezes encobertas. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. como seria o caso da “cultura da pobreza”. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. tomados de um terror místico. por exemplo.esclarecedores a esse respeito. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. atemporais. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. no século passado.

op. De los tres postulados que acabo de enunciar. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. E. y aún se encuentra actualizado culturalmente. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. em princípio. Para escapar a esta relatividade. Georges. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. 76-77. em qualquer caso. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto.em seus diversos aspectos. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. 2) El principio de las posibilidades limitadas. No entanto. pp. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. en otra suele estar reprimido. a normalidade psicológica do indivíduo. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. 80 Ruth M. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. esa lista correspondería punto por punto a una lista.. establecida por los etnólogos. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. Deve-se considerar. em termos mais amplos. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. no entanto. Chittó Gauer . cit.

e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. Por outro lado.. como uma névoa. Retornando ao exemplo acima. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. normalidade mental. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. Coloca Devereux que. Georges Devereux. também. Haveria uma área transicional. em uma sociedade. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. necessariamente. valores e padrões em geral de uma cultura. Estabelece-se.. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”.. entre indivíduo e sociedade. tendo por assentado que esta cultura é normal. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. que são considerados como normais e ajustados à cultura. acentuada desde Durkheim. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. elimina a tradicional distinção. p.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. 101 Assim. de limites imprecisos. cit. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo.) 2) El comportamiento de un grupo.. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um.. se for levada às últimas consequências lógicas. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. ob. que se situa dentro de um contexto de relatividade. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. embora existam padrões. 115. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social.

dessa maneira. por exemplo. Este fato pode produzir diversos resultados. Chittó Gauer . uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. de transformação. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. como se deslizasse por elas. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. que envolvem o todo do contexto social. assim. a sociedade contemporânea. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. protegido e infragmentável. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. Mas quanto à posição de Devereux. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. Diante disso. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. de caráter urbano. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. No que se refere ao indivíduo. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. como por mudanças de nível “macro”. o que não significa. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. na sociedade urbana. recusando-a em 82 Ruth M. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. Por outro lado. Outro aspecto ressaltado por Devereux. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. por assim dizer. Um determinado indivíduo. Ou seja. Como se sabe. de forma alguma. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. produtora de “identidades fluidas”. que elas tenham um razoável padrão de normalidade.

O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. na cultura urbana. E. Ela pode ser um fenômeno salutar e. Mas por outro lado. difíceis de discernir. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. ao mesmo tempo. é um indicador de normalidade. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. de qualquer modo.

as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. São Paulo. quando com elas nos deparamos na estante de livros. Mary. Há alguns dias. da impureza. como se isso fosse possível. p.. principalmente por meio das tarefas femininas. isso ocorreu. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. desinfetar. 1976. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. lavar. que destaquei há tanto tempo. que a autora trabalha. mesmo as mais microscópicas. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. temos horror a certos tipos de sujeira. Pureza e Perigo. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. não menos importante. nomeadamente no século XX. ligada às tarefas da casa. mesmo os mais microscópicos. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. 56. Perspectiva. com ausência de resíduo. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. etc. Relendo algumas passagens do livro. da sujeira. Chittó Gauer .IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. Deparei-me com Pureza e Perigo. que deve estar livre de impurezas. passar. Esse fato não iniciou no século XIX. O tempo de limpar. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. A sujeira é um fato que nos repugna. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. do perigo. assim como todo o tipo de discriminação. A estética. isto é. normalmente associada ao belo. No entanto. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. ficamos tentados a reler. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. a pureza e a ausência de qualquer perigo. 84 Ruth M. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. qual seja: a questão da ordem. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza.

Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. pois são perigos em potência. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. do monstruoso. buscando os ideais de ordem. p. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. A modernidade criou 103 DOUGLAS. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. exemplo de espaço privado. Na modernidade essa prática continuou. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. A modernidade disciplinou não apenas os homens. passou-se a isolar casas. do disforme. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. Mary. do violento. assim como a ordem do espaço público.. vistos como perigosos. perigosas. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. como medida de exceção. também foi submetida à disciplina da higiene). Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. em resumo. constituía-se na única forma de proteção. tal como foi criado nos tempos modernos. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. cit. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). O isolamento.pureza. op. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. portanto. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. do feio. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. hospitais. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. Esses locais.

jurídicos. por mais paradoxal que possa parecer. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. administrativos. como o nazismo. 1985. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. a sedução das crenças e demais impurezas.essa compulsão. utopia dos iluministas. e está. 104 86 Ruth M. fascismo. devem ser purificados ou eliminados. seja nos regimes políticos das democracias liberais. O individualismo. Os exemplos históricos mais recentes. Rocco. pp. Há que se salientar. seja nos regimes totalitários. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. a todos os que podem se constituir em perigo. presente nas sociedades ocidentais. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. 270-274. Quais os procedimentos políticos. porém. Chittó Gauer . e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. transparente e livre de contaminações. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. a corrupção. Rio de Janeiro. Louis. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. Nos estados de exceção. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. Os modernos esqueceram. Quanto maior a exceção. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. os perigosos. O mundo perfeito. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. sem muito esforço. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. maior a igualdade. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. comunismo.

entre a pureza e o perigo. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. Ariadne Editora. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. a teoria SÁ. do desigual. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Teoria Pura do Direito. 34. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . 2004. Trad. 5152. o exercício da soberania. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. estruturada na naturalização do indivíduo.. uma coletivização ao extremo. 4 ed. cabe aqui lembrar que. isto é. por outro. Hans. 1979. pp. Esse aspecto traz problemas para a democracia. limpos. Para o autor. 105 a força de uma democracia. Os perigos precisam ser eliminados. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. na essência e no modelo. com a tentativa de eliminação do estranho. Se representação e identidade constituem. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. A partir desta constatação. colocando distância entre a ordem e a desordem. Por um lado. constituída pelo direito. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. a força política se sustenta na medida em que se purifica. nas palavras de Franco de Sá. Alexandre Franco de. nos regimes democráticos. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. depurados. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. Coimbra. João Baptista Machado. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. nesse caso. Metamorfoses do poder. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade.uma tensão contraditória. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. Coimbra. Armênio Amado.

Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. tudo o que causa estranheza. o anormal. 88 Ruth M. do sujo e do limpo. perigo.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. na atualidade. como os nazismo-fascismos. As práticas políticas adotadas na modernidade. que serviam à identificação dos sujeitos. A soberania da igualdade. o impuro. além de outros. entre outros. que lembra sujeira e desordem. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. 107 a questão da exceção. No entanto. que visava à eliminação das hierarquias medievais. aquilo. que nasceu naturalizada. “gênero”. o sujo. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. Hoje esses termos dissolvem-se. em nome da igualdade. “raça”. tal como pensada na 107 SCHMIT. o diferente. exemplo de regime de exceção. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. A própria soberania. cit. o doente. ou seja: isto. nas teses de Schmitt. enfim. isto é. Chittó Gauer . O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. op. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. apud Alexandre Franco de Sá. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. guerra total. sofre evidências devastadoras. do modelo e do antimodelo. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção.

Esses temas não se encontram necessariamente juntos. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. do perigo. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. necessariamente. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. no relativismo. não consensual. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. que foi cometido pelo seu irmão. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. desconhecendo a questão dos direitos humanos. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. as famílias dos homens-bomba. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. deixou de ser a norma. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. da inclusão e. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. nem sempre descritíveis em sua totalidade. lugares de negociação em andamento.modernidade. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. sobretudo. entre outros lugares. locus do “aqui e agora”. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. o duelo entre tradição e modernidade.

não consensual. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. A questão não envolve a justaposição da diferença. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. associada a uma velocidade que. segundo Virilio. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. Com a superação do eterno retorno. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. enfim. a ausência do estado nos bolsões de miséria. estruturante. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. Outra pergunta se faz necessária. Nesse quadro. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. é a velhice do mundo. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. nesse 90 Ruth M. tais como pensados desde o século XVIII. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. Chittó Gauer . enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. de uma identificação totalizante. O presente se torna imprescindível. gerando a violência. Não há preparação para lidar com o erro. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. A impossibilidade de uma verdade única. o consensual fica sendo os totalitarismos.determinismo racionalista. os fundamentalismos. protegidas dos perigos. os desvios sociais. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. ordenadas. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. ao lado do consenso cultural. com as impurezas. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. matam o discurso político. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais.

Nem ruptura. O autor menciona que os “entre-lugares”. enfim. É o ocaso do etnocentrismo. a exemplo do nazismo. O presente “não tem lugar”. passando a ser questionada.. 2001. alargado. Como decorrência. abandona-se a sequencialidade. cit. As diferenças culturais são exercitadas. o que implica um deslocamento constante. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. ele é ex-cêntrico. pp. Homi K. metrópole x colônia. estado x sociedade. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. capaz de se autogerar. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. capital x trabalho. ou mesmo das raças. O presente “é o tempo de agora”. ambivalente. Belo Horizonte. Editora UFMG. os interstícios.caso. O Local da Cultura. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. as fímbrias. do além. ao mesmo tempo. 20-46. op. fica comprometida. BHABHA Homi K. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. nem projeção. Para Bhabha. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. engendrando novos espaços e temporalidades. paradoxalmente. mas. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. pureza x perigo e assim por diante. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. distante do historicismo teleológico das “causas”. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . A interferência das minorias ocupa o território da cultura.

Homi. dá seus últimos passos. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. de estabelecer seu próprio discurso institucional. op cit. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. na linguagem bejaminiana. do puro e do impuro. não é uma passagem suave de transição e transcendência. do material ao metafórico. como no caso da própria escravidão. higienizada.. 92 Ruth M. no sucessivo de passado-presente. Chittó Gauer . Ao invés do continuum cristalizado. BHABHA. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. que buscou sempre a exegese da diferença. 25-26. O Outro perde o poder de significar. pp. 29. Segundo Bhabha. mas sim reconhecida. há também um movimento político. Na visão do autor. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. Homi. Isto é. tornada semelhante. ela mesma. de iniciar seu desejo histórico. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). 59. Ainda segundo Bhabha. A minoria não quer ser “incluída”..internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. pp. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. superando a diacronia da história. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA. quanto uma pureza cultural. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. A tradição ocidental. tão pouco é completamente diferente desta. Ao lado dessa reflexão. que inova e irrompe a atuação do presente. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. op cit. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. de releitura da contemporaneidade. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. Igualdade na Diferença. de negar. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”.

na qual representa o universal. Para Bhabha. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. porque existe. aquilo que. e para sua própria “eficácia”. cit. Homi.. teleológicas ou míticas. 112 “o tempo de libertação é (. de memórias míticas e de identidade coletiva única. quer dizer. o precede e sucede. simultânea e paradoxalmente. de acordo com Bhabha. sob a égide do discurso colonialista. bem como da relação entre emissor. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. mensagem e receptor. em si. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. no processo de manifestação simbólica da linguagem. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas..para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. oferecendo-se ao sujeito. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”. Luiz Eduardo Soares. instaura com este uma dialética. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. 45. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. 1994. 113 BHABHA. da articulação de uma política de negociação. p. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. 65-68. Rio de Janeiro. o inclui — tornando-o possível — e o exclui.) um tempo de incerteza cultural. e. O rigor da indisciplina. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . mais crucialmente. Relume-Dumará. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis.. mas que. As noções liberais de multiculturalismo. o arcabouço da tradição. op. pp. estrategicamente deslocado. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. Como exemplo. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. foi preciso encontrar catequistas nativos. depende dele para existir. ter consciência. de indecidibilidade significatória ou representacional”.

“Sobre o conceito de história”. a opressão. Editora Brasiliense. unificadora. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. apu BHABHA. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. totalizante. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. Magia e técnica. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. cit. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. 72-75.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. 114 94 Ruth M. ao explorar esse Terceiro Espaço. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. E. entendido como sujeira. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. Chittó Gauer . 115 FANON. São Paulo. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. op. Para ele. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. pp. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. Walter Benjamin. 1987. mas a regra. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo.. Afinal. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. não como uma afirmação da vontade. o perigo da impureza racial. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. não apenas muda a direção da história ocidental. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. 114 A luta contra a discriminação. nem como evocação da liberdade. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. Homi. Walter.

op. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. o autor chama de “delírio maniqueísta”. De acordo com Fanon. pp. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. o branco escravizado por sua superioridade. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. 76-78. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. Ou seja. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . Esse pensamento supera o arco hermenêutico. Homi. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. mas dá-se em relação a uma alteridade. A demanda da identificação – isto é.. A esse quadro social. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. cit. seu olhar e seu locus.

Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. pelo sentido declinante de comunidade. plenitudinário. E. Chittó Gauer . 1973. em boa parte. que se originava em uma certa espécie de virtude. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. Madrid. expressa na equivalência entre imagem e identidade. nesse contexto. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. Por outro lado. visual. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. Morata. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. que salientava a piedade.René. Os Pensadores. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. a perda de valores espirituais unificados. 1970. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. Ao romper a estabilidade do ego. Ver LÉVI-STRAUSS. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Rio de Janeiro. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. o amor ao próximo. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. Claude. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. 119 DURKHEIN. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. Tempo Brasileiro. São Paulo. A totalidade dos estados nacionais foi construída. 96 Ruth M. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. 1974. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. Antropologia Estrutural I.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. Reglas del metodo sociologico. Abril Cultural.

164. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. no entanto. op. o que lhe deve”. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. se 120 121 BAUMER. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. obp cit. durante o período Eduardiano. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . BAUMER. p. p. Contudo. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. que estimulava a mobilidade e a especialização. 121 Estas receitas para a recuperação. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. que era o resultado da divisão do trabalho. Franklin. ou estavam em processo de perder. Para muitos. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. pois são perigos em potência.. Para compensar a anomie. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. era necessário planejar uma nova solidariedade moral. por outro lado. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. mesmo na maneira como pensa e. conseqüentemente. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. que era a causa da doença social. Esses perigos. cit. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta.século XIX já não possuíam. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. Franklin. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Era a crise espiritual.. 164. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. na família e nas lealdades sociais e vocacionais.

a ciência deixou o homem procurando. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. tal como o da igualdade moderna. a história explicitou esses fatos. Estas constatações. o desmascaramento da fácil crença no progresso. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. Um modelo rígido de pureza. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. na frase de Dewey. 98 Ruth M. Se. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. quando imposto.transformaram em condição de análise. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. O vazio das convicções humanistas. a mente individual possui como função a vida social. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. às apalpadelas. conduz à exceção. Chittó Gauer . os paradoxos da filosofia liberal. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. da ambiguidade e da diferença. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. ela própria uma forma de imoralidade. uma esquiva realidade. acaba por se tornar totalizante. a moralidade. já que a pureza é inimiga da mudança. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. Contudo. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real.

por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. Os colonos eram considerados franceses. que são transmitidas de geração para geração. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. Ocorreram algumas exceções. o que os subordinava ao direito francês. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. uma vez que não há o instrumento da escrita. o direito inglês. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. a cremação da viúva na pira do esposo morto. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . a commom law. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. A natureza das instituições legais britânicas. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. na Ásia. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade.

ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. Chittó Gauer . Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. Como se pode verificar. R. Crime e costume na sociedade selvagem. A lei como duplo sistema. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. que publicou. Fundação Calouste Gulbenkian. No que se refere às regras sociais. No que se refere ao crime. 1982. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. Daryll. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. e FORDE. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. em 1926. p. daí resulta a obediência. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. 122 100 Ruth M. a racionalidade não está ausente. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. Lisboa. 264. 2ª edição. proteger e punir. 262. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento.Código Napoleônico. boas e justas. A. via de regra. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. importante estudo.

Giambattista Vico. presente. Vozes. 1974. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. No entanto. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. Quanto ao presente instantâneo. A preocupação não é nova. 124 Em O ser e o nada. Estas pressuposições. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. como o ponto sem dimensão.do direito “primitivo” é processual. como já afirmamos. especialmente o terceiro capítulo. de preferência à aplicação de regras formais. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. a exemplo de Sartre. Cf. 1997. Os Pensadores. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. Desse modo. trad. São Paulo. nunca 123 VICO. Da fenomenologia das três dimensões temporais. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. Caso contrário. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. seleção. Giambattista. para um exame do ser do tempo. O ser e o nada. toda a série se aniquilaria. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. dotada de liberdade. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. Petrópolis. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. Jean-Paul. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. É preciso. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. 124 SARTRE. o futuro não é ainda. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. isto é. Abril Cultural.

Flammarion. Paris. e tomaram consciência. da imagem-recordação. o que é verdade. por exemplo. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. traço atual. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. para explicar o aparecimento da consciência. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. mais ou menos em 1927. por outro. em consequência de um processo presente. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. sobretudo. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. tudo é presente. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. tal como os historiadores a descreveram. Assim. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. que é instantâneo e extratemporal. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. Arthur I. Miller 125 afirma que. que dependem fortemente da teoria. e lembrar a história. Chittó Gauer . Desse modo. durante o século XX. integralmente. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. pp. 1996. ou seja. na física atômica. 102 Ruth M. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. já que desmoronou no nada. como fotógrafos das câmaras de gás. por um lado.elucidadas. 369-370. Depois se convenceram de seus erros. o faz no presente. Se a lembrança ressurge. tais como os elétrons. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. em etapas. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. tudo é em ato.

da saturação da função que lhe é inerente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . Ulrich. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência.século XIX até metade do XX. Por esse caminho apoiaram-se na representação. O processo de desindividualização. anedotas. entre elas como risco. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. A Sociedade de Risco. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). de uma maneira de se interrogar sobre as massas. 2 . As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. Trata-se.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. contudo. O individualismo determinou toda a organização política moderna. vontade de controle do risco. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e.fracasso do controle. metáfora visual adaptada ao mundo invisível. São elas a 126 BECK. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. Paidós. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. 1998. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. risco controlado. pois. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. uma forma de insolência. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. 3 . Barcelona. ditos populares e a versatilidade das massas. por outro lado. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas.advento da idade moderna. O autor refere que essa transição.

sempre dou com uma ou outra determinada percepção. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é.massa indefinida. 128 KERKHOVE. pp. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. a organização que se dá em redes. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. 1988. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. Record. como diz Lévi-Strauss. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. Chittó Gauer . São Paulo. Todas MAFFESOLI. MAFFESOLI. Rio de Janeiro. Para Kerckhove. A corrosão do caráter. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. Richard Sennett. geraram a implosão pós-modernista. A Pele da Cultura. Richard Sennett. Lisboa. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. a um só tempo. 175-194. 53-54. que ela mudou novamente. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. Michel. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. Brasiliense. Rio de Janeiro. nem uma ideia. Forense Universitária. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. público e privado. individual e coletivo. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. 127 104 Ruth M. ser adaptável a circunstâncias variáveis. O Conhecimento Comum. amor ou ódio. apenas um momento. Derrick. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. de Hume. pp. 1997. Michel. 1987. é um conceito. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. 1999. Relógio D’Água. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. uma mensagem. hoje está a mudar para a Idade da Mente. 19. uma certa harmonia. povo sem identidade. p. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. remete-nos à análise da flexibilidade. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. luz ou sombra. não em estruturas hierarquizadas. 218. de calor ou frio. sem se deixar quebrar por elas. O Tempo das Tribos. dor ou prazer.

o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. Depois da desintegração nuclear do espaço. Na atual velocidade. Os nexos estabelecidos. Seguindo nessa mesma trilha. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. Paul. p. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. Em sua obra A inércia polar. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. (do grego dromos = velocidade). mas sobrevoá-la. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. na obra de Virilio. o mundo. Por outro lado. assim. da matéria. Para Virilio. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. pois já não há ideias em luta com os fatos. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. se o tempo é história. Publicações Dom Quixote. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. Os conceitos trabalhados. Os acontecimentos não são aprendidos. nesse sentido. Criou-se um novo espaço-tempo. Lisboa. perdem-se. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. A popularização da velocidade retira das forças militares.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. escapam pela fluidez da velocidade. uma vez que as imagens não se fixam. Há. abre um importante campo de reflexões. ocorre a desintegração do tempo da luz. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . Aparece então a negação do fato real. o poder. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. 1993. com essa plasticidade. de liberdade. 128. a velocidade é apenas sua alucinação. dos políticos. Nesse sentido. teórico da Dromologia. como se fosse um espetáculo. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. A Inércia Polar. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. que não é finito. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade.

equivaleria dizer. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. mas onde estou eu. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. Para Virilio. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. 106 Ruth M. assim. op. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. Assim. frente a essa visão. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. abrindo. onde se situa? Onde estou. p. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. Chittó Gauer . um importante campo de questões filosóficas. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada.usado para avaliar a capacidade humana. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. Michel. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. 130 130 MAFFESOLI. Descrever a violência. pelo envelhecimento da história. ao declínio das atividades no espaço. 27. Eis a inércia da natureza relativista. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. cit. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. construída historicamente. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. Nesse sentido. A velocidade é a velhice do mundo. A economia já é gerida à distância. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. com as quais faz os vetores do poder.

Não se trata.Uma vez que. desse modo. 133 Para além de uma aparência homogênea. até certo ponto. no quadro de uma ideologia produtivista. cabe então. também. por si só. como fica manifesto nessa introdução. 39. op. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. Michel. os riscos de seu empreendimento. o inacabamento e a falta e. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". cit. p. tentando equacionar aquilo que. 30. quanto ao segundo. op. na própria introdução da obra. Maffesoli não deixa de enumerar. é constituído pela vida. segundo o próprio Maffesoli. de modo didático ou para a clareza de exposição que. nessa recusa em negá-la. portanto. por sua vez. 134 MAFFESOLI. 134 Nessa busca da diferença. Michel. de apresentar os fatos e ligá-los. não pode ser equacionado. cit. priorizar o estilo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 .. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI.. p. no entanto.. 28. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. que se pode mesmo. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. cit. Quanto ao primeiro. 28. ou talvez fosse mais correto dizer. analisá-las em si. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. p. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. Michel. 133 MAFFESOLI. op. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. p. Michel. Sabe ele que. MAFFESOLI. O reconhecimento da diferença é. o ponto de partida. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. Importa. 132 Por outro lado. cit.. “Quanto a nós. op. mais do que tudo. Enfocar o vivido. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. mais do que nunca. continua não havendo nada de novo sob o sol. o vivido que.

portanto. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. Chittó Gauer . essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder.. 108 Ruth M. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. sendo que a sua utilização.. 41. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. apud Michel Maffesoli. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. 138 A revolução. em última instância. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder.. A partir desse último termo tem-se. então. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. cit. MAFFESOLI. a função unificadora do Estado e aquilo que. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. para Maffesoli. nesse sentido. ganha aqui um caráter mais específico. Temos. um fértil campo de análise. uma vez que diz respeito ao fato social em si. contemporaneamente. A socialidade. op. 41. p. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. portanto. se fazem presentes no vivido. fragmentada. por meio da reforma. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. embora relacionada ao conceito freudiano. 137 MAFFESOLI.entendimento das pulsões que. 51. cit. nada mais é do que um fenômeno recorrente. não se deixa reduzir à simples razão. para reativar e revigorar a socialidade. o autor de A violência Totalitária irá. p. 136 Compreender. então. quais os meios postos em ação. assim. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. Michel. cit. op. A revolução serve. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. op. Michel. emprega o termo em diferentes momentos da obra. para elucidar tais questões. Compreender a ideia de socialidade torna-se. queiramos nós ou não. p. 138 MAFFESOLI. em outros termos.

A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. 139 MAFFESOLI. para Maffesoli. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. É na conjugação das diferenças que. situadas na própria manifestação da socialidade. por si sós.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. 95. op. A potência. Ao analisar.. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. então. por sua vez. As críticas ao racionalismo instrumental. de um modo ainda mais específico. Reformas e revoluções estão. mudança de estrutura. No exame do processo revolucionário. Michel. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. os elementos constitutivos do fato social. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . já analisadas por muitos autores. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. 64. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. afirma que “a revolução não é. pp. mas mudança de velocidade”. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. que não são e nunca serão. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. Desse modo. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. para o autor. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. cit. 124. 139 Nessa perspectiva. o Marxismo. nas palavras do autor. em primeiro lugar.

como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. pp. 243. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo.. 159. desse modo. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. 281. a pulsão de esperança. o progresso”. O totalitarismo seria. será obtida de cima. cit. 110 Ruth M. 282. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. por um lado. 281. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. op. op. 140 a segunda “amoedará. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. Logo. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. Se. Ainda que não redutíveis entre si. 156. nesse sentido. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. a primeira objetiva “amoedar o divino”. pp. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado.. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. para tanto. tal 140 141 MAFFESOLI. capture-se a dimensão do ato criador. MAFFESOLI Michel. 193. essa unidade. melhor seria dizer essa interdependência. ou seja. entretanto. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. cit. por um órgão centralizador. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. Chittó Gauer . O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. e não mais a partir de uma espontaneidade social”.instrumentalizando a razão. O dinheiro na sociedade moderna. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. à perda de solidariedade orgânica. Michel. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. agora segundo Dumont. por sua vez.

O aspecto subjetivo. Jessé. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. Brasília: UnB. cética relativamente ao poder das teorias. A questão da liberdade. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. segundo a visão de Simmel. isto é. 38. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. OËLZE. como liberdade de movimento. Simmel e a modernidade. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. Tal como 142 SOUZA. No entanto. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). permite uma margem de liberdade pessoal.como analisado por Simmel. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. (Orgs. dinheiro. da autonomia tanto social como individual. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. 33. 39. uma ideia força na visão de Baumer. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . porventura. Liberdade. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. ou seja. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. Berthold. 1998. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. Segundo Kuhn. pp.). 10. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. dependência de muitos x dependências de poucos). constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. há muito anunciado por Thomas Kuhn. 12. 142 completa o estudo sobre a violência.

e. cit. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. “o registro. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. 90. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS. é conquistada e não se pode considerar normal. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. 1999. POLANYI. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. criam no corpo disposições novas para agir. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. op.. Como sustenta Bergson. 88. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. repara-se mais nelas”. uma vez percebidas. As políticas da razão. deduz. 145 BERGSON. São Paulo. Topbooks Editora. qual seja. 91. 1993. pela memória. Lisboa. os movimentos que as prolongam. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. pp. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. pp. Para Bergson. que a pesquisa. ed. prolongando-se em ação nascente. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica.. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. A lucidez é um produto de crise. 112 Ruth M.refere Stengers. “uma forma mais elevada de análise”. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. Isabelle. 2003. Martins Fontes. Chittó Gauer . faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. na medida em que as imagens. 101. 89. modificam o organismo. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. pp. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. 83. no entanto. A análise resgata elementos de toda a percepção. 146 BERGSON Henri. nascida no seio da liberdade. p. 2. Após uma visita à Rússia. tornou-se refém da norma. se fixam e se alinham nessa memória. Para além destes aspectos. 145 posto que percepção é memória. 102. 11. Michael. A lógica da liberdade. Deve-se considerar. 92. conforme Polanyi. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. Rio de Janeiro. Henri. quando um novo paradigma. Edições 70. Matéria e Memória.

ser efetivamente a memória por excelência. aliás. pois coloca em xeque a base epistêmica. portanto. tornar-se-á cada vez mais impessoal. criar um hábito do corpo. Rio de Janeiro. montando um mecanismo. calcada na razão moderna. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. “Criminologia e interdisciplinaridade”. organizá-los entre si e. CARVALHO. Sistema penal e violência. Ruth M. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas).imediatamente perfeita. No entanto. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. cada vez mais estranha à nossa vida passada. 2007. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". Esse hábito. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. Das duas memórias que acabamos de distinguir. a lembrança aprendida. Lumen Juris. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. a primeira parece.). isto é. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. O contrário. Salo. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. Chittó Gauer (Org. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. gera resistências das mais variadas formas.

via de regra. fundada sobre normas racionalmente criadas. 11. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. 114 Ruth M. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. o processo de criar poder. portanto fogem à racionalidade. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. WEBER. fundamentalmente. Assim. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. Lisboa. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. 12. mas porque acreditam nele” 149 . O político e o cientista. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. 10. Max. 148 149 WEBER. Chittó Gauer .XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. 1979. cit. este é. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição.. 3ª ed. pp. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. p. Max. Presença. op. Para o autor. obediência livre. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos.

Otávio. 23.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. e ao mesmo tempo pré-significativos. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. alude ao que passou. por sua posição no contexto.. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. Para comparar mito e linguagem. O mito é fala. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. cit. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). é diacrônico. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. op. estrutura fonológica. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. sintática. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . e em um segundo nível. onde cada mitema designava um feixe de relações. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. p. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. que são frases ou orações mínimas que. Busca uma lei geral. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. Em um nível mais baixo. como elementos de um segundo discurso: o mito. combinatória. ao mesmo tempo é idioma. Este se decifra por meio da linguagem. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. seu tempo é irreversível. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. formal. Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. São significativos dentro da narrativa.

Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. México. Abraham. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. 1945. Fondo de Cultura Económica. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. Durante os anos 30. nessa atividade interdisciplinar. Sullivan e outros. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. Chittó Gauer . Assim. Fondo de Cultura Económica. por outro. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. Juntos. Sándor Rado. 1955 e El Individuó y su Sociedad. para alguns. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. esta é apenas uma das variantes da estrutura. O estruturalismo não pretende explicar a história. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. Ralph Linton e Cora Du Bois. entre os quais Ruth Benedict. Tornou-se claro. Harry S. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. 116 Ruth M. México. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. Anna Freud. mais especificamente. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. 151 Ver KARDINER. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. então em franco desenvolvimento. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. tal foco de atenção teve notório destaque. Principalmente nos Estados Unidos. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. entre o incesto e a adivinhação.

difieren de una sociedad a otra. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. secundado por Ralph Linton. sino más bien a los sistemas proyectivos. Abraham Kardiner.. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. portanto. por motivos compreensíveis. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. por outro lado observou-se que as culturas. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes. pp.se a humanidade. fixados apenas de modo filogenético e. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. 152 Embora os antropólogos. 8-9. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. elaborou o conceito de personalidade básica. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. para las diversas familias que forman dicha sociedad. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. aunque nunca idénticas. Os comportamentos humanos não seriam. en otras palabras. constituídas como faces especulares da mesma realidade.. além de serem diferentes entre si. cit. hipoteticamente. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 . explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos.. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas. ob. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. Así.

153 Este psicanalista conseguiu obter. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. durante los últimos años. Psiquiatría Dinámica.. como. 153 118 Ruth M.trabalho “sociológico” de Freud). 1958.. C. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. por sua vez. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. Os antropólogos. Antes de comentar esse aspecto. No entanto. ou seja.. Buenos Aires. Franz Alexander e Helen Ross. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. dogma. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos. “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. Kardiner. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo. p. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. No entanto. Del estudio de la bibliografía antropológica. portanto.. Chittó Gauer .desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. a psicanálise e a antropologia. Brosin. citado por Henry W. por exemplo.. plenas de um grande potencial. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. debe decirse que la antropología estadounidense. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. Los llamados “neofreudianos” (Horney. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. durante a década de 30. Podemos ver. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. mas sim doutrina... Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. Não teoria. As defecções de Jung. Fromm y otros) han ejercido. para bien o para mal. Adler. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. Editorial Paidós. como se sabe. fé e crença. 469.. Kluckhohn. como duas disciplinas relativamente novas... Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia.

como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney.. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. infestadas ideologicamente. cit. que passou a ser entendida. Ora. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. por exemplo. adotar. Foi a partir dessa postura que. ou dar maior importância. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). Sullivan. diante disso. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. em uma acepção ampla. predominante entre os membros de uma determinada cultura. de certo modo.mecanismos da cultura e da psique humana. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). nas primeiras décadas do século XX. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. extremamente heterogêneos. Cabe não esquecer que. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. em uma primeira versão. as teorias raciais. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. 47. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. p. Desse modo. Retornando à contribuição de Kardiner. ob. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. As instituições155 responsáveis. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. apesar do afastamento. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. Assim. tais dados. neste texto. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. em termos mais simplificados. Abraham Kardiner. como Fairbairn e H. como sendo a típica personalidade modal.

As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. por assim dizer. seriam destinadas. passaram a ser divididas. com os dois grandes sistemas projetivos. os mais variados sistemas de crenças religiosas. minorou. Tal se daria. Kardiner analisou. sob o rótulo de instituições secundárias. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. de acordo com Kardiner. um derivado das primárias. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. as instituições secundárias. basicamente. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. Por isso. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. Portanto. pela formação da personalidade básica. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. em primárias e secundárias. Partindo das premissas acima colocadas. No entanto. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. por uma relativamente obscura lógica cultural. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. das manifestações dos mecanismos inconscientes. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. Chittó Gauer . Por outro lado. o folclore e a religião. abrangendo instituições primárias e secundárias. e “domesticada”. a uma escala monocromática. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).mútua causação. por exemplo. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. em grande parte.

Porém. a contribuição de Kardiner. Marvin. Como muito bem lembra Marvin Harris. fatores de integração social. porém. ojibwas e outras. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. 157 Citado em HARRIS. p. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social.. 157 Como se vê. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. El examen del mito. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. mitos. participação na vida social. comanche.) el odio reprimido contra el tío materno. tapirapés. Madrid. al igual que en el folclore de estos nativos. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. todo um conjunto de crenças religiosas. matrimônio. a la perversión o la aberración. sistemas projetivos e outros. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. Siglo Veintiuno. los cuentos de hadas y las leyendas. nas culturas primitivas. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. Siempre que las pasiones. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. pomo. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. em si não ofereceu novidades. Malinowski já havia percebido. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. alor. isto é. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. navajos. quase com pretensões de exclusividade. indução à afetividade. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . Assim. por las costumbres y por las sanciones legales. disciplinamento precoce da sexualidade. observe-se que. rivalidade entre irmãos. Una historia de las teorías de la cultura. 156 No entanto. Cabe observar. A título de comparação. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. afirmou Malinowski. nas ilhas Trobriand. indução ao trabalho. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. na vida dos membros das comunidades primitivas. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. puberdade.do criador da psicanálise. em um escrito de 1923. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos.. e igualmente el de la magia muestra (. 378. tanala. 1985. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear.

como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. pela maioria. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. assim como. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. O selvagem passa toda a sua existência. obrigações. de certo modo. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. direitos. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. Se estas oscilaram. Considere-se. às causalidades registradas. qualquer indivíduo. continuam oscilando. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. Entre estes. por assim dizer. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. Chittó Gauer . derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. além desses aspectos. de certo modo. nestas culturas urbanas. em princípio. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. ou pelo difusionismo que. cabe registrar que. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente.

do qual Freud é um dos grandes tributários.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. Assim. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. autores da área psicanalítica. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. Deve-se lembrar que Freud. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante.. 158 Portanto. e MITCHELL. p. Neste ponto. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. e os objetivos de qualquer atividade mental.. suas origens. mais urgente. para atraí-la a um âmbito próprio. como Fairbairn. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. Artes Médicas. Em trabalhos posteriores. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. 1994. pelo fato da importância atribuída à cultura e. As relações objetais tinham que ser explicadas. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. por conseguinte. Ao mesmo tempo. em parte. Assim. a realidades construídas coletivamente. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. significados e distinção não eram. de forma alguma. não era de forma alguma aparente como posicionar (. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. XII. por exemplo. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . Porto Alegre.

Horney. que a ortodoxia freudiana. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. Chittó Gauer . certa primazia às relações objetais. no âmbito da teoria psicanalítica. pode-se entender que a maioria deles. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. ou seja. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. portanto. Isso não quer dizer. em grande parte. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. surgem posições. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. como já foi colocado. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. é claro. Ora. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. os grupos familiares. por ex. as marcas da personalidade grupal. A opção. realizadas por Mead. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. em detrimento. e o trabalho 124 Ruth M. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. para a criança. muito antes disso. E. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. K. De fato. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. onipresentes nas comunidades primitivas. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. Desse modo. ao mesmo tempo em que se estabelece. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. o modelo primordial de “busca do objeto”.(com os objetos externos) na psicodinâmica. H. Nas análises das autoras citadas. de fora para dentro. No entanto. Fromm. Sullivan e vários outros tentaram dar. Fairbairn. por esse último modelo.). assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade.

enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. Mircea. As Estruturas Simbólicas do Imaginário.. as primeiras fases de socialização. puderam ser verificadas. cit. como características típicas. 1969.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. a troca restabelece. Lisboa. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. Sexo e Temperamento. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . o diferente. temido ou fértil. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. focalizando. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. para Lévi-Strauss. na Nova Guiné. Tal evento originário. posteriormente. por meio de um duplo movimento. Para esse assunto. pp. “o que é escolhido é implicitamente forte. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. na personalidade do indivíduo adulto. fortificando e atenuando. fundador da sociedade humana. 129-296. passam a pensar no outro. do extraordinário. 159 Lévi-Strauss. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. São Paulo. de gerações e de linhagens. ver Margareth Mead. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. das convicções ou das situações desestabilizadoras. nos antagonismos. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. ver Cora Dubois In. com grande destaque. Abraham Kardiner. 1970. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. Assim. Editora Perspectiva. 1997. nesta pergunta. seria o da proibição do incesto. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. em Totem e Tabu. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. Como diz Eliade. ob. 48. pensado às vezes como o “novo”. Cosmos. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. devemos lembrar o pluralismo das representações. Martins Fontes. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. São Paulo. Assim. a diferença. afirma a existência de um evento originário. p. examinado por Margareth Mead. eficaz. 161 DURAND. Tratado de História das Religiões. do novo. como já referido anteriormente. 160 ELIADE. Gilbert. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. Em Alor. Para isso. Nesse sentido.

Este é um cosmopolita. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. Vozes. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. 1997. entendê-lo e descrevê-lo. que foi erigido como categoria autônoma. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. Para o ser pensante. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. mas simultaneamente se complementa com ela. 162 LEVINAS. um não existente para si mesmo. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. Marshall B. Frente a esse quadro geral. das instituições. Merton. Entre Nós. Sob este aspecto. mas para apreender os limites de sua própria diferença. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. 126 Ruth M. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. Para compreender tal fato. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. Ensaios Sobre a Alteridade. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. o incógnito.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. a interioridade se opõe à exterioridade. Chittó Gauer . da educação e muitas outras áreas. o estudo das organizações. não apenas para observá-lo. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. Petrópolis. Emmanuel. É grande o número de autores que poderiam ser citados. encerrado na totalidade pela qual é constituído. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. Ao falarmos sobre alteridade. do direito.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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e na forma metafórica o abuso de menores. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas.primogenitura. uma transgressão que provoca horror e repulsa. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. essa proibição não é verbalizada. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. Se por um lado a natureza impõe a aliança. quando ocorre é visto como inaudita. ninguém pensa em proibi-la. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. por outro não a determina. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. Chittó Gauer . Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. cit. Claude. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. entre outros parentes próximos. pp. com ela. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. op. os tios. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. a irmã. uma monstruosidade. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. Nos exemplos de casamentos entre irmãos. as metamorfoses das normas sociais. entre elas. Quer sejamos críticos ou liberais. e de maneira significativa. 130 Ruth M.. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. em um plano diferente. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição. 48-49. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. o pai. o irmão.

a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. pp. Presença. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. além de deslocamentos contínuos. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. 170 Apud BAUMER. mas todos os domínios do intelecto. incluindo a literatura. as questões teológicas passaram a não ter sentido. que afetou não só a ciência. trata-se de constatar que. a arte e a religião. Lisboa. Cheguei a mim”. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. Edições 70. não se trata de discutir a sua exclusão. assumem significados sociais diferentes. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. existencialismo. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. ou um movimento psicanalítico.norma. mau ou indiferente. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. 1952. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. Se. Para Pouillon. Raça e história. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . O pensamento europeu moderno. escrevia em 169 POUILLON. 123127. Franklin L. Claude Lévi-Strauss. o universo passou a ser misterioso. na contemporaneidade. v. entre outros temas do mundo da academia. Jean. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. disse Mann. positivismo. A ser assim. II. Lisboa. In. hierarquias variáveis. “Na verdade”. John Galsworthy. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. surrealismo. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. 1990. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. a natureza tornou-se longínqua. ao invés de diminuirmos as funções da norma. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história.

Dado um fato psicológico. Há uma verdadeira descrença. Henri . 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. pp. pois não se tratava de uma regra científica. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. nas palavras do autor. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. nas diferentes formas de energia. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. São Paulo. nos títulos da dívida pública.1926: “Como agora tudo é relativo. Franklin L. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. Os Pensadores – Cartas. Trad. Lisboa. Abril Cultural. 1990. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. Assim. o homem é inominável. v. que se aprofundou no século XX. BERGSON. Contudo. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. 172 171 132 Ruth M. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. Apud BAUMER. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries.58. ela apenas o exprime numa outra língua”. a recíproca não era verdadeira. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. nas classes sociais”. Edições 70. II. O pensamento europeu moderno. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. 49. para fixar as ideias. Conferências e Outros Escritos. desenharia as articulações motoras dele. no livre comércio. 1974. no casamento. Chittó Gauer . Assim. mas de uma hipótese metafísica. Franklin Leopoldo Silva. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. Os fatos. Entretanto. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. examinados sem pressuposições matemáticas. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral.

por uma mágica intelectual inconsciente. com efeito. Em suma. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. cit. enfim. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. em termos convencionais. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. representam duas noções do real. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. desdobrada e articulada no espaço.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. oferecida pela consciência humana. O realismo repousa na hipótese inversa. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. As palavras realismo e idealismo. entre dois sistemas de notação. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. Henri. Somos aqui 173 BERGSON. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. podemos escolher. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. op. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação.

Henri. contudo. numa representação”. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. não poderia. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. pela sua própria colocação. que determina a percepção do consciente. uma vez de posse do estado cerebral. representação. cit 58-59. sugere-nos. Bergson concebe. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. sendo ele uma representação. na hipótese idealista. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. por um golpe de mágica. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo.naturalmente mágicos. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. suprimir. Para o idealismo. pois o problema em pauta. op. 174 BERGSON. Chittó Gauer . não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. 134 Ruth M. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos.

sobre a paleta. uma vez feito. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. a cor que o quadro espera. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. a nossos olhos. se o real está desdobrado na representação. de alguma forma. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. Oscilamos. estendido nela e não contraído nela. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. O olho e o espírito. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. isto é. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. 25. para perceber o universo. e.Aprofundando os dois sistemas. mas esquecemos que. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. e vê. Conservamos o cérebro tal qual é representado. 1997. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . o quadro que responde a todas estas faltas. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. Grafilarte. Lisboa. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. sem se alterar. e vê os quadros dos outros. no espaço. as respostas outras a outras faltas”. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. p. pois. erigimos. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. então. e o que falta ao quadro para ser ele próprio.

Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. continua. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. Então. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. a ser exterior ao homem empírico. Segundo Luc Ferry. enfim. da parte com o todo. p. 286. e a razão prática. Coimbra.parte de outra. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. intercambiáveis”. o si próprio e a norma. 136 Ruth M. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. e que os dois termos são. A Invenção do gosto na era democrática. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. ou um movimento psicanalítico como referi no início. termos em que a ética moderna se formulou. 2003. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. isto é. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. Homo Aestheticus. entretanto. Almeida. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Chittó Gauer . A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. portanto.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 . o hedonismo. o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60.

Prigogine. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. O conhecimento foi tido como absoluto. cabal. no entanto. Não é por acaso que somos. Chittó Gauer . A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. desde seu início. e muitos outros. pelo menos de forma substancial. Max Planck. A experimentação trouxe a primazia da técnica. 138 Ruth M. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. universal e eterno. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. As tradições políticas modernas. além de elucidar. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. é cega a respeito de sua própria aventura. via de regra. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. Antônio R. 2000. Publicações Europa-América. 177 DAMÁSIO. objetividade. é possível concordar com a ideia de que a ciência. entre outros. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. Sob esse enfoque. Lisboa. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. da neurociência. As emoções e os sentimentos. O fim das certezas chegou ao campo da física. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. Neste sentido. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. O Erro de Descartes. Há muito de crença nas verdades científicas. neutralidade e generalização. as teorias desenvolvidas por Einstein. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. da matemática. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação.

próprio da modernidade. 180 SÁ Alexandre Franco de. (Coleção Sophia 002). Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. 2004. pp. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais.. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. apagou a estética do mundo delimitado". Vozes. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. Max. 30-31. é que permite a emergência de um poder total. pp. ed. Petrópolis. 1919) foi aceita pelo autor. ao perder o poder político que o caracterizava. mas o próprio direito". de forma precisa. que afirma: "não é o estado que é soberano. Metamorfoses do poder. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. Lisboa. 178 179 WEBER. Seguindo as reflexões do autor. responsável pela construção do estado moderno. Ariadne Editora. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. 1979. 178 O autor descreve. 121-122. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. 1979. Coimbra. O Político e o Cientista. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. 4. Coimbra. Presença Ltda. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora.mas também o culto das instituições. 1996.. A ideia moderna de estado (Krabb. Trad. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . KELSEN. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. Trata-se do estado liberal. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. foi o jurista. neutro e liberal. 181 MAFFESIOLI. Armênio Amado. Hans. podemos afirmar que o cientista. No fundo das aparências. João Baptista Machado. Michel. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. Teoria Pura do Direito. principalmente das instituições jurídicas. Esse estado.

em sentido quase estrito da linguagem. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. p. In. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. racionais. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. mas que assumiram uma verdade. Rui Cunha.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. 23. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. Porém. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. No entanto. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. constitui-se. o princípio secularizador. Modos da Verdade. Esta verdade é excessiva por natureza. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. A soberania das formas institucionais. v. 19-20. racionais e mecânicas. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. Revista de História das Ideias. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. Chittó Gauer . está há muito tempo indicando a sua ineficácia. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. portanto. que está inserida nos aparelhos de estado. índice de si mesma. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). notórios. 182 é uma alucinação dos sentidos. 2002. GIL. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. é. A evidência. 182 140 Ruth M. matrizes da sociedade ocidental moderna. a exemplo do estado. de Duns Scot a Husserl. O exemplo da soberania. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. Fernando e MARTINS. Mesmo os fatos mais evidentes. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. como tentativa de eliminar a sacralidade. como diz Rui Cunha Martins. portanto.

Esse é um problema geral para os governos atuais. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. Stuart. 23. 1997. Já não se acredita no devir. 2002. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. 185 OST. denuncia a impotência do Estado. vista mais especificamente como criminalidade. que nos aproxima ao estado de natureza. GIL. In. por outro lado. a violência. A identidade polarizada. o conceito de justo (conceito relativo. A identidade cultural na pós-modernidade. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. e transformação contínua nos sistemas culturais. nas ciências do direito". Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". Modos da Verdade. tal como analisada por Hall. Rio de Janeiro. 184 HALL. 184 fruto da multiplicação. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . no qual prevalece o estado de direito. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. De modo geral. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. Como se sabe. Piaget. um tempo diferente do tempo da segurança. DP&A. François. v. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. Revista de História das Ideias. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. O sentido da racionalidade é sempre esse. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. p. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. que não consegue cumprir o seu projeto. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. 1999. 26. O tempo do direito. em que o caráter problemático dos fins. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. Na tramitação do processo. Lisboa. é "celebração móvel". Rui Cunha. Fernando e MARTINS.

A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. ora a violência. Qual seria o remédio. Chittó Gauer . e. novas questões se fazem presentes. do estado de direito já não existe.Frente a essa complexidade. A produção normativa. que deve ser (re)questionado a todo instante. portanto. própria da modernidade. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. separou ciência e política. gerando ora a comunhão. principalmente no campo das humanidades. ciência e direito. No entanto. bem como a duração dos códigos e das instituições. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. assim como todos os campos de saber. marcado pela racionalidade falível. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. vista como uma inversão temporal. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. tal como se acreditava nos séculos passados. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. dos meios e dos resultados. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. O tempo da segurança. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. A dicotomia sujeito-objeto. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. O direito deu lugar à relação frente a frente. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento.

Importante observar a conotação dada.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. em suas múltiplas faces. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. Um dos problemas no mundo globalizado. ambíguas. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. op. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. A heterogeneidade. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. sentimentos. Ao tomar-se o real pelo real. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). impossíveis de mencionar em sua totalidade. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. polifacetadas. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. Relógio D'Água Editores. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. 1997. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. todos carregados de violência. Derrick de. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. ou seja. Derrick de. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. Lisboa. 187 KERCKHOVE. Sua análise continua. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. cit.

uma passagem decisiva.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". 1987. A violência relatada de forma emblemática. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. São Paulo. Ver ainda O Conhecimento Comum. tal como referido por Kerckhove. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. revela que não sabemos mais qual é o caminho. revelam apenas uma das faces da violência. Esses fatos. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. O Tempo das Tribos. em sua velocidade. principalmente do supérfluo. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. representa. O evento. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. no entanto. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. 188 MAFFESOLI. Michel. Ao lado destas questões inquietantes. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. trazem informações sobre a violência subterrânea. Rio de Janeiro. 144 Ruth M. nesta leitura. Forense Universitária. O mundo sem dinheiro. Outros eventos. mas continuamos caminhando. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. 1988. Chittó Gauer . A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. não tão visíveis. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Brasiliense.

integralmente dinâmico e nunca estático. COLLINGWOOD. uma história. que iniciou em fins do século XVIII. cit. bergsoniano. segundo este ponto de vista. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. A Ideia de História. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. Nele pode-se ler. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". no mundo einsteniano. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. a velocidades cada vez maiores. no 189 190 Apud BAUMER. Franklin L. adverte o autor. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". um processo dialético sem fim. s/d. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". No entanto. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. Edições 70. a busca de uma racionalidade. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. p. O pensamento europeu moderno. 24-26. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. pp. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. v. Lisboa. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. Derrick de. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. 191 KERCKHOVE. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. G. ou seja. I. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. “isto que a realidade era. Como afirmaria Collingwood. um devir. fazendo-as correr. a filha instável do pensamento positivista. levado a efeito pelo historiador. atirando as pessoas para um "êxtase de ação".. Entretanto. mas sem metas fixas. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. R. Lisboa. o produto da ciência.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. op. 88. na literatura e na arte. 1990. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". Editorial Presença. Essa doutrina do tempo é. segundo Lewis. O termo. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. tal como os futuristas queriam que fizessem. além da preocupação com a instabilidade.

Ainda somos. Há várias formas de se falar sobre globalização. Por mais paradoxal que possa parecer. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. tal como visto no início do século XX. é esse o paradoxo da aldeia global. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. o novo interesse pelo local. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. principalmente do poder do estado. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. continuamente. A lógica da globalização não se concretiza. O impacto global cria. uma vez que o fluxo é desequilibrado. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. Porém. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. Quanto mais noção temos da globalidade. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. não há treino para o comportamento social e coletivo. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades.entanto. Chittó Gauer . mais ficamos conscientes das identificações locais. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. mas nem sempre com sucesso. e mais as protegemos.

com a diferença. etc. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . a impureza. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. que. ao mesmo tempo. vê-se face a face com a cultura "alienígena". o capitalismo global é. desigual. a transformação e o perigo. Ocidente & Oriente. Kevin Robins lembra que. Trata-se de um desencontro cultural. na verdade. diáspora. Assim. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. exótica. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. Por outro lado. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. a mistura.desiguais de poder entre Norte x Sul. o absolutismo do puro. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. valores. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. do império do ocidente. com seu outro. prioridades das formas de vida do ocidente. deslocamentos de fronteiras. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional.

cit. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. 194 KUHN. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. antes de mais nada. 195 KUHN. 53. 5.XIV Norma. 23. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. 193 KUHN. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. p. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. cit. p. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. 31. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. 1982. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. 13. durante algum tempo. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. Thomas. Perspectiva.. Thomas. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. Thomas. op. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. 148 Ruth M. op. A estrutura das revoluções científica. Para o autor. op. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. cit. para o autor. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. Thomas. p. porém não podemos considerar como tal. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. 30. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. ela é. p. Chittó Gauer . a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. São Paulo.

de forma intencional. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. na obra de Polanyi. desejos consciente ou inconsciente. 196 em A lógica da liberdade. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. 242. mas sim lograr a expressão da personalidade. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. op. cit. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. Na análise sobre liberdade. a plena afirmação de si próprio. Topbooks Editora.. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. coloca-os daquele modo. instintivamente. supomos que alguém. Por outro lado. p. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . Polanyi. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. p. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. POLANYI. um sistema de leis 196 197 POLANYI. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. lemos. Michael. 2003. Rio de Janeiro. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. nós. Michael.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. 291. A lógica da liberdade. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras.

por ser único. distingue-se dos outros. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. É importante salientar que essa distinção. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. ao mesmo tempo a liberdade. com sua imagem de indivíduo-átomo que. assim como fez Freud. entre outros. assim como não resistiu ao charme do limite. portando organizadora. Para isso. empenhada em espezinhar a razão moderna. que não permite eliminar o poder e a punição. o pensamento falante manobrável tentou. mas sobre os que não podem se proteger dela. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. Temos. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. reflexo do ser-conjunto. O século XXI vê-se frente a desafios morais. tal como colocado por Freud. Chittó Gauer . A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. por outro lado. no entanto. estrutura das sociedades simples e antigas. não eliminou a banalidade do universal abstrato. intelectuais. seja um sistema de ordem espontânea. no entanto. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. Tais desafios. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. ultrapassa a própria lógica da liberdade. com sua independência. Neste sentido. que pensar em deslocamentos. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. O inconsciente. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. o primeiro não. dar uma logicidade ao ilógico.contratuais que garanta essa situação e. éticos.

embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. insatisfação. vista como a negação da independência. poder. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. A estrutura perene de nossa história. geralmente. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. tanto as de repressão. com a conotação moral que a envolve. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. pobreza. é stricto sensu a desestruturação social. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . diferença. Os antagonismos revelam-se. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. No entanto. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. hierarquia. que se revelam como explosões de inquietação. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. perversidade. o mundo como progresso. privilégios. epidemias. etc. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. Os dados científicos. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. como as de coerção. pandemias. desagregações. não podem ser interpretadas de forma linear. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. A diferente face da desagregação social aparece. em atos de violência.

Assim. Direito e estado no pensamento de Kant. op. 199 BOBBIO. Brasília. No entanto. 71. Norberto. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. alienígena da sociedade. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. Norberto. na medida em que é condicionada. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. O direito seria um regramento entre subjetividades. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. ao mesmo tempo a liberdade. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. Já a vontade jurídica. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. os fins que ambiciona. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. enquanto ação socialmente intersubjetiva. p. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. 198 152 Ruth M. Editora da Universidade de Brasília. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. mas sim entre os arbítrios dos homens. como poder controlador e limitador da violência. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. 72. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. cit. 1984. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. Chittó Gauer . ela está fundada sobre dois alicerces. não é. seja por um sistema BOBBIO.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. nessa situação. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199.

ultrapassa a própria lógica da liberdade. seja um sistema de ordem espontânea. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .jurídico pelo qual se administram as leis.

na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. São Paulo. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. violência. de Giambattista Vico. (. afinal. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). Além disso. “O humano arbítrio. Se há alguma novidade. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. que são as duas fontes do direito natural das gentes. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. nunca deixou de estimular. Abril Cultural. trad. Segundo o autor. batizada de civilização dos indivíduos. a velocidade e a crise de valores. Em termos de uma transgressão necessária... 200 154 Ruth M. já muito antiga.) este mundo civil VICO. simultaneamente. uma emergência que. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. incertíssimo por sua própria natureza. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. 1974. assim. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. Chittó Gauer . Seleção. como é sabido. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. quando inerentes à modernidade. a sua própria transgressão. o da busca de valores.XV Juridicidade. acerca dos problemas acima mencionados. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. Caracteriza-se.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume.. Giambattista. Os Pensadores. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas.. 200 é possível iniciar esta reflexão. dentro de âmbitos que são.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

201

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. fascinantes. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. talvez. Chittó Gauer . LYOTARD. cit. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. é a era da globalização do homem. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. o homem possui um cérebro temporário e improvável. átomo perfeito que lembra Deus. assim como das tradições. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). de resgate de sociabilidades perdidas. criado pelo modelo Iluminista. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. O Inumano. Estampa. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal.. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. 15-28. Este conceito. dá lugar a uma estética do nós. 1998. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. A 206 207 MAFFESOLI. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. trabalhado por Maffesoli. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. a memória de ninguém. Por outro lado. Convivemos. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. diversos. pp. Lisboa. ao fim e ao cabo. velozes. Michel op. 158 Ruth M. hoje.identitária. com capacidade máxima de síntese. Jean-François. pp. Logo. 69-70.

). a origem e o fim. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária.busca desse homem hoje é o grande desafio. pp. Entre Nós. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. da impureza. do local de nascimento e do Estado nacional. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. VIRILIO. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. e. LÉVI-STRAUSS. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. 124-125. 36. 209 em suas conclusões sobre identidade. Vozes. 1993. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. 11-39. La Identidad. p. que traz novas e inesperadas combinações culturais. como centro de referência. 210 LÉVINAS. A inércia polar. 1997. (Org. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . Publicações Dom Quixote. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. as quais produzirão um novo eu. pp. Rio de Janeiro. A estrutura dessas relações sociais exige. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. Como lembra Lévi-Strauss. da mistura. todavia. mas sim a celebração do hibridismo. tempo-luz). Grasset. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. 1977. simultaneamente. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. Emmanuel. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. do local de habitação. Paul. Ensaios sobre a alteridade. Lisboa. Claude. Paris. é para ela que nos encaminhamos”. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. muito embora seja indispensável como ponto de referência". Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas.

. 1995. do tempo cíclico. Chittó Gauer . condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. para muitos. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. São Paulo. II. António. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. transformando-se em um modelo de simulação. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. Razão e Cérebro Humano. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. da produção. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. No ensaio sobre a dádiva. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. da destruição. etc. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. no processo de modelagem das relações sociais. Lisboa. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. v. pp. a morte da identidade construída por meio do individualismo. está ligada à ideia de identidade. maior prudência. 1974. estaria desaparecendo. 160 Ruth M. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. Nesse sentido. 212 MAUSS. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. 39-49. Sociologia e Antropologia. perde seu sentido. ou até à absorção por esta. superando a análise kantiana. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. A ideia de perder a identidade. Marce. o que leva a uma sensação de morte. O Erro de Descartes: Emoção. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar.de cada indivíduo. vista como a condição natural. no entanto. é um aumento de todas as formas de violência. Publicações Europa-América. configurando a identidade nacional. e assim. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. EPU/EDUSP. Nossa noção tradicional de self. No entanto. O que vemos. fragmenta a sua imagem. porém. uma entidade transitória.

Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. 214 Pelo contrário. Dentro desta perspectiva.. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. O paradoxo. finalmente coisificou o humano. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. tem uma história. Gilles. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. A verdade moral está na Bíblia. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. Jessé. devem ser questionadas. por essência liberal e pragmática”. 32. 25-30. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. outras “assumem significados sociais diferentes”. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. OËLZE. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. pp. Simmel e a Modernidade. que é impessoal como as leis. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. nos mandamentos divinos.). pp. porém. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. E por ser deveras custosa essa tarefa. Editora da UNB. e que pode ser a medida de todas as coisas. 214 LIPOVETSKY. que vai até o Iluminismo. 1998. em qualquer caso. Brasília. assim como outros ramos do saber. 22-30. (Orgs. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. Estas fases. Por tratar-se de um fato social. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. Portanto. vulgares. O dinheiro. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. op. cit. Nesse sentido. A ética. fundador do individualismo. Berthold.

a própria dignidade. entre elas. estimula os desejos. e pensamos que seja ainda mais grave. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. pode ser indicado para a maioria dos países. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. escola. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. A própria velocidade. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). um exemplo emblemático foi o movimento feminista. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. o bem-estar individualista. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade. entre outras). Chittó Gauer . assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. não se prestam a nada). se não são uma felicidade. 3) A terceira fase da moral. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. No Brasil. sindicato. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. o ego. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal.racionalidade). dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. fraude fiscal). família. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. remuneração escondida. que Lipovetski chama de pós-moralista. encarrega-se de dissolver as permanências. que promove o presenteísmo. O caso brasileiro não é diferente. A 162 Ruth M. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal.

sobretudo. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. voluntários. pp. pois. sendo. em uma lista de 17 qualidades morais. no altar da Família. limita e impede a própria liberdade. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. Existem em França dois milhões de voluntários. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. ao que dizer que. de vez em quando. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. o caso da Madre Teresa. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. Cita. do Partido. as mulheres que assim o fazem. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). honestidade. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. A liberdade trava..ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. 34-37. cit. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. que já não acredita no futuro. Para o autor. da Humanidade” 215. da História.000 assalariados a tempo inteiro. Para Lipovetski. Por fim. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. Na Inglaterra e nos EUA. pois não estamos no grau zero dos valores morais. O autor refere que “quando se pede para destacar. Mas esta é apenas uma das facetas. a moral a la carte “não é a ideia do dever. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. o valor da renúncia suprema a si próprio. Gilles. op. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . como exceção. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. ou seja. que se afunda. éticos): direitos humanos. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. enquanto tal. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. Isso está deslocado no tempo. da Pátria. Mas. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. apesar de estar fora de moda. Os exemplos que citamos. com a prioridade incondicional do altruísmo. na nota abaixo. apesar do quadro preocupante. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado.

2000 p. A era do após-dever. principalmente. mas com a condição de que possa divorciar-se. repressão total em matéria de drogas. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. Como a caridade mediática. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). como honestidade e respeito às leis. por exemplo. “a moral não desaparece. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. que podem ser escolhidos. melhor dito. censura pornográfica. p. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. na supervalorização das festas. 217 Como visto. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). Max. o que vale é o aqui e o agora. entre outras repressões. ou seja. 29. caracterizada pela racionalização. 57. Lisboa: Piaget. torcidas organizadas. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. epidérmica. incapazes de resolver os WEBER. Há. Ciência e Política. entre outras questões não menos importantes. Martin Claret. descomprometidos. ao mesmo tempo. intermitente e. do que de grandes cruzadas moralizantes. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. Duas Vocações. Chittó Gauer . LIPOVETSKY.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. extremismo higienista. torna-se sentimental. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. Gilles. ter filhos por encomenda. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. última forma do consumo interativo de massa”. viver em concubinato. IN: A sociedade em busca de valores. no entanto. São Paulo. “indolores”. o aumento de pequenas violências no cotidiano. As práticas da solidariedade. pela intelectualização e. espetacular. a la carte. na cultura do presente. a delinquência juvenil. 217 216 164 Ruth M. passando à moral a la carte. A família sobrevive. sacrifícios altruístas mínimos. No que diz respeito à violência. 2002.

A busca da excitação. ELIAS. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. priorizar a ética da responsabilidade. sobretudo. Rio de Janeiro. para Dumont. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro.concretos problemas sociais. por outro. Daí. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 .). os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. cit. Norbert. Lisboa. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. 1985. No entanto. Difusão editorial. do direito subjetivo. os problemas da cidade. do surgimento do direito natural. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. entre eles Simmel. por um lado. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rocco. Jessé. a hierarquia. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. Robert Ezra Park. o expõe. Ao descreverem a lógica da individualização. Vários historiadores e sociólogos. (Orgs. Por outro viés. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. OËLZE. 218 analisam os problemas da cultura moderna. ao mesmo tempo. Berthold. fundada em uma ação ético-liberal e. pragmática. O Individualismo. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. Da mesma forma. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. Louis Wirt. simultaneamente. op. produz o indivíduo na sua autonomia e. permanece. 220 DUMONT. 1992. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. Nas sociedades SOUZA. dos valores. Nas análises. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. Louis.

Isto é. p. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. porque lhe eram impostas pela estrutura social. o sustentava. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. termo de sentido filosófico que significa a tendência. com ele. São Paulo. 730). Vocabulário técnico e crítico da filosofia. dos grandes códigos modernos. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. liberta-se dela. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. a incorpora. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. supostamente própria do universo.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. como projeto a ser alcançado. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. A nova posição. Martins Fontes. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. Chittó Gauer . 221 166 Ruth M. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. caracterizadamente holística. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. opções morais” (moral a la carte). p. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. leva-o a “opções de vida. 1986. 1999. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. que antes não tinha de fazer. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. ou seja. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. Nova Fronteira. o indivíduo. 1269). que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. Em outra fonte léxica. de maior precisão conceitual. No entanto. mas. Rio de Janeiro. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. “opções existenciais”. da "eliminação" das diferenças.

e em nenhum a palavra “humanidade”. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". Complementando a análise. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. Problemas como o desvio social. [. O desafio do século XXI. do modelo único e do domínio da potência norte-americana.. Piaget. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. Esta noção. Seria possível pensar dessa forma na China. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. o terrorismo. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los.poderia ser considerada igual e. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. O título sugestivo do capítulo. Na tradução oficial. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. apenas para citar os exemplos mais conhecidos. 1999. afirma: “no campo jurídico. criou a forma mais expressiva de violência. Mireille. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito.. bolsões de miséria e violência. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. Acesso à humanidade em termos jurídicos. Lisboa. tal como pensado no Ocidente. Da mesma forma. Se isso fosse viável. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. um recém-nascido. por óbvio. embora balizada atualmente. independentemente de qualquer condição. possuir os mesmos direitos. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. 227. No entanto. na realidade é extremamente subversiva. A busca da igualdade. Religar os conhecimentos. Não a encontraríamos". nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. ausência do estado. Nesse sentido. Significa qualquer Homem. No entanto. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”.]. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito. p. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. na verdade. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. a humanidade é.

em todos os níveis sociais e políticos. legitimadas pelos direitos internacionais. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. O discurso pensado como projetivo. Os resquícios dos totalitarismos. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado.comum. vêm recebendo reações diversas. eliminando os discursos dos direitos. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. o que impede relativizar em termos jurídicos. Para além dessa façanha. As diferenças se manifestam com violência. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. leva ao consensual. não consensual. dos direitos humanos. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. derrubou o que restava da crença na unidade. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. simultânea a uma realidade única. 168 Ruth M. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. na igualdade. Chittó Gauer . pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. Os direitos humanos. tal como o pensamento moderno o instituiu. A busca de um pensamento heterotópico. é eliminada pelas teorias do consenso.

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