A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .Ruth M.

ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. 6681 . – Dados eletrônicos.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs. 2. Filosofia do Direito.br/orgaos/edipucrs/> 1. Direito.br http://www. 175 p.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av. CDD 340.edipucrs. Ipiranga.br . Claude – Crítica e Interpretação. Arquivo.pucrs. 3. 1290. 2009. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M.© EDIPUCRS. Lévi-Strauss. 4. Título. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. RS . Normas Jurídicas. Diploma da Fundação da Universidade.com. I.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre. Chittó Gauer. – Porto Alegre : EDIPUCRS.

br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História.Ruth M. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. . Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL. Chittó Gauer chitto@pucrs.

.Para meus filhos Gabriel. Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa. minhas netas.

O mais relevante.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. Quero aqui mencionar. fruto de uma longa convivência. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. meu “lar” acadêmico em Portugal. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. com ênfase. a psiquiatria e a filosofia. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. de encontros e debates. no entanto. . O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. durante o período em que escrevi minha tese. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. início dos noventa. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável.

.............. 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação................................ violência.............................. 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo.................................. 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ...... 16 A sedução da norma: fato social total ......... 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora........................................... 138 XIV Norma.................................... 148 XV Juridicidade.. ciência e autenticidade .... 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise ...................... 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ..........................................................................................SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ................................... 154 BIBLIOGRAFIA ............................... mito e memória ............................................................... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil .......................................................................................................................... 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana........................................................................................................................................ 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma .................... 169 ............................................................................ 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma .... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos ...............

como tradição histórica. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . Buscou compreender o obscuro. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. sabores. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. cores. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. texturas. de forma harmônica. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. em certo sentido. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. sendo continuamente reinterpretado. conciliando. Desse modo. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. odores. sentidos. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado.

é necessário. Maurice. p. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. Para o primeiro. distante. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. em antropologia. contrariamente a essa tentativa. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. Chittó Gauer . porque diferente. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. rumou para as diferenças absolutas. pitoresca. pois vivemos na unidade de uma só vida. Com efeito. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. São Paulo. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. p. da diferença e da identidade. para um universal constituído por relações de complementaridade. então. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. No entanto. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. para a convivência dos incompatíveis. 1 que. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. no entanto. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. Os Pensadores. 2 MERLEAU-PONTY. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. a antropologia. 1 10 Ruth M. com Merleau-Ponty. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. conosco. No ensaio Em toda e em nenhuma parte.. o aparelho de nosso ser social. 363-365. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. superando a MERLEAU-PONTY. 1975. Sabemos que. a questão do Outro e do Mesmo. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. cit. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. a síntese à que ele se refere somos nós. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. mas um universal lateral. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo.Aceitando. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. tomando a alteridade como objeto. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. Para Merleau-Ponty. Na análise das estruturas elementares de parentesco. 383-396. Abril Cultural. op.

a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). segundo ele. No entanto. Henri. Flammarion. como fomentadores do erro. uma história. mas esta. 39. No entanto. 1999. O Pensamento Europeu Moderno. No entanto. ensaia uma ruptura. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. Nesta visão surge a lei. 369-370). Sendo assim. não se estabelece. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. 1996. como diferença”. São Paulo. se revela a si própria através de nós. para Durand. que funciona mal no abandono do sonho. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . As teorias que falam sobre a imagem. I. Elogio da Filosofia. Bergson. O Pensamento Europeu Moderno. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. São Paulo. p. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. um mito (grifo nosso). 1990. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. o ‘balanço vital’. no sentido dado pelo direito natural moderno. ou ainda como um objeto fantasma. alienando a sua função principal que é conhecer. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. Na busca pela compreensão da verdade. Maurice Merleau-Ponty. Para Arthur Miller. 290. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. o fato e o valor. Fato. A desvalorização da imagem não corresponde. p. 5 BERGSON. Franklin L Baumer. 4 BAUMER. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. 1997). Martins Fontes. conforme Bergson. p. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. desenvolve seu íntimo. uma espécie de contador da existência. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. Vila Nova de Gaia. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. em Bergson. v. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. I. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. 38. se mexe. Edições 70. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. Paris. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. que englobou a norma e. de modo algum. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. pois ele ainda reduz a imagem à memória. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. Franklin L. Vila Nova de Gaia. Matéria e Memória. Edições 70. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. para além desta. sem consequências. isto é. destroem-na. p. ainda. 1990. pp. v. Durand acredita que. Martins Fontes. 39. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida.dicotomia sujeito-objeto. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. mais do que ser. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático.

Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. corresponde. O enfoque da diferença é. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. o que denomino humanidades. e também se constata nas ciências humanas. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. ainda que para fins de melhor compreensão. no ato de conhecer. justamente a crença na “verdade” científica. juntamente com uma visão fundamentalista. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. 12 Ruth M. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito.ciência. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. criando muitos espaços de debate. No campo das humanidades. portanto. Chittó Gauer . grosso modo. As ciências humanas datam do século XIX. pode se constituir em um problema. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. apenas visto como uma questão de especificidade. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. a literatura e outras. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. não se descolaram do conhecimento antigo. Ao corpus antigo. Mesmo no período iluminista. Isso que significa que os cientistas dessa época. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. que permite a sua “evolução”. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. com a função primordial de normatizar as sociedades. Partimos da premissa.

logo. 1975. A antropologia. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. Maurice. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. empírico-formais e exatas. Nos finais do século XIX. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. para alguns darwinistas. Para tanto. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. A divisão tradicional entre as ciências humanas. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. assim. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. a biologia passou a explicar. basta pensarmos no século XVII. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. Para Merleau-Ponty6. d) Foucault. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. desde os finais do século XIX. diminuindo. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. Spencer e Webb. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador.dando margem ao inumano. tomando a alteridade como objeto. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. A teoria da relatividade e a física. ou seja. deslocando a análise do macro para o micro. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. b) Freud. para um universal constituído por relações de complementaridade. passou a sofrer vários abalos. São Paulo: Abril Cultural. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. P. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . como Tylor. c) Lévi-Strauss. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. In: Os Pensadores. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. para a convivência dos incompatíveis. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências.

/EDUSP. 14 Ruth M. E. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. Na visão de Mauss 7. MAUSS. buscando.de desenvolvimento semelhantes. logo em seguida. desse modo. independentemente da localização espaçotemporal. no momento. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. Logo. Sociologia e Antropologia. à civilização. 1974. São Paulo. receba de outros seu sentido. Contudo. O “verdadeiro”. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. contraído de suas relações. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. necessariamente.U. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. 363-365. que “por mais que a palavra. I. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. no entanto. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. pois. o afrouxamento do método e. o fato social não é uma regularidade compacta. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. Há. a negação. não é a prece nem o direito. Marcel. portanto. no apogeu do estruturalismo. os linguistas. de produzir-se. assim.P. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. Chittó Gauer . op. p. Marcel. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. é expresso pela palavra. o Não. v. que se ter presente que as linguagens – palavras. cit. escreve o autor. Ao lado desse enfoque a antropologia. mas o homem como cimento afetivo. porém. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. como explica Saussure. a arte é imprescindível. que “devemos. e. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais. o que há de exprimir não é mais diferido. enfim. incluíram o rigor das demais ciências. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. No século XX.. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma.

Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”. tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .

encontramos o sistema de parentesco atual. Otávio. podemos notar. dialoga com o pensamento filosófico. uma predileção por Bergson. em especial com a fenomenologia e se inspira. portanto. A ser assim. sentimentos. uma escolha psicológica. de certo modo. interesses. que revela preferências. entre outros fatores. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. contudo. marcada pela liberdade de escolha. 8. em grande parte. uma desconfiança em relação à filosofia.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. com base na exclusão do outro consanguíneo. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. ao analisarem a estrutura de parentesco. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. o pensamento selvagem e a filosófica. está baseada no “fato social total”. presentes de forma significativa no conjunto da obra. o casamento é assumido como um ato individual. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. p. Proust. Perspectiva. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. que. Chittó Gauer . Sob essa estrutura. tios. Saussure e Breton. 1977. entre outros –. desenvolvido por Mauss. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. norma estrutural do vínculo familiar. Mauss. 9 16 Ruth M. o religioso e o artístico. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. os mitos. Toda e qualquer escolha dáse. São Paulo. por exemplo. Toda a obra de Lévi-Strauss. nos autores clássicos. irmãos. a proibição do incesto. porém.

metaforicamente. Podemos identificar. as capas invisíveis.P. 1985. Dom Quixote. Poderíamos. A contribuição de Lévi-Strauss. Anagrama. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. São Paulo. v. 1975. a poesia e o mito. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. Bronislaw. a fundação da norma se dá como um processo de violência. Alfred. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). Marcel. que revela o oculto. Curso de linguística geral.a passagem da natureza para a cultura. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. Ferdinand. Um corte vertical. A compreensão do visível é dada pelo oculto. No campo da estética. Journal d’ethnographe. 12 MALINOWSKI. 1974./EDUSP. um super-racionalismo. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. E. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. Sociologia e Antropologia. na obra de Lévi-Strauss. El método de la antropologia social. Paris. a pintura. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. isto é. I. Barcelona. particularmente. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. SAUSSURE. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. além de Marcel Mauss. passagem que ocorre com a fundação da norma.U. Lisboa. Segundo alguns de seus intérpretes. 1995. Ëditions Du Seuil. 10 a presença marcante de Saussure. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. 13 RADCLIFFE-BROWN. pela busca da relação entre o sensível e o racional.

Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. A linguagem é um sistema de relações. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. sistema sempre normatizado.conforme a antropologia anglo-americana. economia. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. ainda que tais leis estejam ocultas. No que se refere à fundação da norma. portanto. O signo tem um caráter dual: significante (som). Cada sistema (parentesco. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. como no caso da fonologia. leis. O fonema não tem significado próprio. desse modo. palavra. classificação. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. apenas adquirem significação participando de um sistema. mas apresentam uma racionalidade imanente. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. seus elementos (oração. mitologias. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. mas como um sistema marcado por coesão interna. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. Foram as ideias de Mauss. Chittó Gauer . Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. 18 Ruth M. as relações de parentesco são elementos de significação. Assim como os fonemas. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. logo. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. Lévi-Strauss. O fonema é um campo de relações. pensa a estrutura como um sistema. uma estrutura. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. dito de outro modo. mas participa da significação. ahistórica. significado (sentido). como uma estrutura. o historicismo e a fenomenologia. o significante que precede e excede o significado. no entanto. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. arte.

religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. cit. A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros).religião) é um sistema de signos. 14 Ao contrário de seus predecessores. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. carregada de interpretações filosóficas. op. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais.. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. como a linguagem. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. uma origem biológica ou instintiva. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. Apesar das inúmeras interpretações míticas. em seus estudos sobre o parentesco. de acordo Otavio Paz. Em ambas. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. são um sonho simbólico. portanto. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. jurídicas. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. não tendo. mas consequência da proibição. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. p. não origem. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. aquilo não). Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. a significação e a nãosignificação. o pensamento e as coisas. Lévi-Strauss. 14 PAZ. 17. Essa crítica. Para Lévi-Strauss. Otávio. um conjunto de operações que transmitem mensagens. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . A proibição também não aparece entre os animais. a regra. binária (isto sim.

mas não de utilidade: graças a ela. constitui a sociedade. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. considerada a fonte de todas as normas sociais. Frente à análise sobre a fundação da norma. Chittó Gauer . pelo menos lógica. Esse tabu. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. portanto. alcançar uma generalidade universal.religiosas e míticas. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. e esta. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. A proibição do incesto. embora pareça não ter justificação biológica. ou seja. como na linguagem. ao trabalho e ao mito os homens são homens. a fundação da norma se deu com a negação. mas. a posição. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. em si mesma. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. op. no fato e no valor. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. este Sim funda o homem. equações. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. carece de sentido ou de fundamento. é na própria diferença que a encontramos. Otávio. de todas as leis. fonte de todo limite. segundo o autor. à linguagem. o espírito: algo que é nada. na significação do espírito. Faz-se necessário compreender. inflexível. Para Lévi-Strauss. 19 20 Ruth M. Logo. Se for possível encontrar essa generalização. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. a norma proibitiva. metáfora. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. símbolos. constitui-se ao mesmo tempo na norma. uma norma inflexível. agora. p. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. o significante e o significado. de toda moral e de toda punição.. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. que não se defronta consigo mesmo. pode-se dizer que não há uma oposição. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. cit. é a raiz de toda proibição. nem razão de ser.

Tal evento originário. traçado na estrutura inata do espírito humano. p. Claude. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. naturalmente. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. subjacente a cada instituição e outros costumes. que esta é a oposição entre lei e universalidade. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. antigos e modernos. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. Faz-se necessário ressaltar. Lévi-Strauss. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. fundador da sociedade humana. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. Em ambos os casos. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. obrigação e necessidade. o da comunicação procurada. de levar a análise bastante longe”. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. Lisboa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . como o cremos. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. 133. o mesmo problema se apresenta. para Lévi-Strauss. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. em Totem e Tabu. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. é a sua condição para o êxito. Presença. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. Para Lévi-Strauss. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. ainda. 1952. afirma a existência de um evento originário. Raça e história. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913.cultural. sob a condição. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente.

que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes.). Petrópolis. sem pertencer integralmente a uma ou outra. São Paulo. esse universal.. necessária e imposta pela exogamia. portanto. 1984. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). pp. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. Rosaria. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). comunicação por meio das mensagens. para o autor. 1982. estrutural. o passo fundamental graças ao qual – e. o momento da passagem da natureza à cultura. Vozes. comunicação normatizada. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. 18 Na verdade. estando situado entre ambas. 18 MICELA. ao contrário. de resto. essa proibição “não é de origem puramente cultural. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. Essa troca constitui-se. Antropologia e Psicanálise.do incesto. Assim. Claude. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (.. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. comunicação através dos bens e dos serviços. nem de origem puramente natural. Ao nível das estruturas elementares. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. Chittó Gauer . 22 Ruth M. de caráter trans-eventual. Ponto de encontro e articulação. entre natureza e cultura. 70-71. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. dada desde o inconsciente. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. Para Lévi-Strauss. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. Brasiliense. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura.

deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. 1977. pelos mais variados fatores. pp. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. direta ou imediata da natureza. 19 não é exagero dizer que. Mas. elevada a um plano de destaque. sua singularidade. sendo a negação simples. Grasset. que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. como ponto de referência coletivo. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. da economia.tenha afirmado. necessariamente. Nesses casos. Paris. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. ou. o fato de que o planejamento de organizações. pensada como estrutura. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . é um espaço em branco no mapa das emoções. Há. àquelas de onde provêm. A passagem às estruturas complexas do parentesco. para isso. e em nós como função simbólica. para a maior parte dos homens. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. ao menos “idealmente”. nos sistemas naturais e sociais. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. A norma. La Identidad. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. pode-se revelar altamente inoperante. (Org. em suas conclusões sobre identidade. a permuta da própria nacionalidade. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. encontra-se fora de nós. é possível enquadrar nesse modelo. de posturas psicológicas. ou seja. Claude. muito atomizado. a humanidade. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. muito embora seja indispensável como ponto de referência". seguindo a reflexão do autor. 11-39. ainda. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. no entanto. Este aspecto leva a considerar. em particular. nossos sistemas de parentesco. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real.).

De Mauss à Claude Lévi-Strauss. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. Se. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. aos valores. Esta ideia demarca as instituições. Logo. consciente de si mesmo. cit. com Descartes. Considerando que. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. caracterizada pela emancipação do indivíduo. 24 Ruth M. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. 365-366. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. op cit. Chittó Gauer . mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. em todas as instâncias da vida. vinculado à qualidade única do ser humano. que coloca a natureza perante si. principalmente o direito. nas escolhas de vida. ao surgimento do direito natural. MERLEAU-PONTY Maurice. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. a autonomia aparece para o indivíduo livre. como objeto de conhecimento. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. A autonomia constitui uma marca da modernidade. a dominação técnica e a história acumulativa”. ao direito subjetivo. com o surgimento do indivíduo moderno. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. sonhos românticos). p. a normatização sofreu alterações significativas. nas relações sociais. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. agora separado do ser social e político. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. Segundo Merleau-Ponty. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. op.

características das sociedades tradicionais. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. no mundo urbano individualizado. Norbert. 13-79. A sociedade dos indivíduos. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. como do amor conjugal. mas também máscaras de proteção. na medida em que as trocas não se dão por posição social. vão se constituindo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . Portanto. a partir dos séculos XV e XVI. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. para o afrouxamento do controle social tradicional. não obedecem a uma lógica exterior. as maneiras de educação. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. 1997. ao contrário. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. 22 ELIAS. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. pp. Rio de Janeiro. Zahar.Do ponto de vista sócio-histórico. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. modos de agir. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. anteriormente determinantes. no conjunto da sociedade. este por si só constitui espaço para a liberdade. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. com ele. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. que se apresenta como base para a liberdade. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais.

paradoxalmente. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. 142. Rio de Janeiro. em si mesmas. por um lado. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. Brasília. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. Jessé. com as quais cada um deve se conformar. como encargo muito difícil de ser cumprido. se poderá fazer uma história da verdade”. (Orgs. cit. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. dizemos que a liberdade tem seu custo. assim. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. Editora da UNB.. A Verdade e as Formas Jurídicas. 25 ELIAS. Berthold. Simmel e a Modernidade. O Antigo Regime e a Revolução. e mais essa necessidade surgirá. que se. op. a nossa sociedade funciona por normas. Aléxis de. Ed. Louis. Rio de Janeiro. p. também é desejada. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. 1985. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. UNB. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. Nau. do conhecimento. Segundo Foucault 27.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. 27 FOUCAULT. Chittó Gauer . mas sim certos domínios de saber. SOUZA. 28 FOUCAULT. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. Michel. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. quanto mais nos individualizamos.). Michel. maior a socialização. ela. maior seu custo. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. para o autor. 26 Ruth M. domínios nos quais. 26 DUMONT. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. se formam o sujeito e as relações com a verdade. paradoxalmente. a conformam e dela decorrem. ao mesmo tempo originário e absoluto. não por acaso. OËLZE. Rocco. Neste sentido. quanto maior o individualismo. mais nos socializamos. Quanto maior for a liberdade. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Brasília. cit. 1979. isso sob o prisma da norma social. na medida em que. 27. produz o indivíduo em sua autonomia. 1998. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. op. Norbert. por outro o expõe. 1999.

aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. O único laço que permanece é o de natureza institucional. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. mas constitui experiência de todos os dias. é possível falar da incerteza da liberdade. mesmo das vinculadas às leis científicas. O que podemos constatar é que. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. mais necessitamos de regulamentações. considerado o aspecto mais significativo. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. durante o século XX. A igualdade. esta socialidade. hoje “acelerada” de modo irreversível. O indivíduo se atomiza. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . deste modo. Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. portanto. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. não é somente um valor. é produto da própria liberdade.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. mais especificamente no pós-guerra.

os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. como diz Mauss. pp. para cada um desses códigos. op. 28 Ruth M. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. parece que. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. religiosos. integral. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. 14.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. Claude. 30 LEVI-STRAUSS. em suma. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. ligado. alma. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. 31 LEVI-STRAUSS. seu modo de organização e sua função diferencial. Claude. econômicos. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. Para o primeiro “a totalidade consiste. permitindo. a linguagem do direito. sociedade.. op. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. Claude. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. Claude. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. 32 Se. Tempo Brasileiro. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. o aspecto vivo. poder-se-ia dizer. cit. 1976. a totalidade social se manifesta na experiência. Rio de Janeiro. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. Chittó Gauer . em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. tudo está inter-relacionado. pp. 14-15. p. cit. morfológicos ou outros. na teoria do fato social total. 14-15. 14-15.. cit. por princípio e por fim. pp. op. também.. desta maneira. Antropologia estrutural dois. 32 LEVI-STRAUSS. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. tudo se mistura. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. Ao invés de aparecer como um postulado. estéticos.

cit. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. Claude. pp. nada deixou escapar. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . em sua visão. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. um interesse privilegiado. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. a liberdade – uma forma de organização social.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. história. nos diz respeito de forma total. independentemente das coisas que lhes correspondem. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. O autor reconhece. ou ainda estudar as normas sociais. op. 19. 16-17. entretanto. oferecendo-nos. a justiça. cit. a partir dos elementos de sua existência social. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. objetos. op. também. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. LEVI-STRAUSS Claude.. Neste caso. pensada como tradição. apesar de tudo. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. Há. com o qual não podemos. pp. desse modo. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. como muitos pensam. 17. 18.. levada até as categorias do inconsciente. Todavia. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. no entanto. ciência política. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. confundir-nos opera. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. direito. assim como não podemos. O signo. portanto.

do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. segundo Geertz. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. 36 35 30 Ruth M. No campo da antropologia a mitologia. se deve ao fato de que. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. GEERTZ. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. Clifford.que se insere. ao menos provisoriamente. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam.. escrevem. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. Quando se comunicam os homens conversam. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. junto ao significante. Chittó Gauer . p. segundo ele. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. ao mesmo tempo. cit. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. segundo as premissas que apresentamos. a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. op. gesticulam. Destas transformações. 22. no nível biológico.

Jorge Zahar. logo. Explica que. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. em disciplinas como a psicologia. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. a própria passagem do tempo. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. entre outras coisas. Nova Luz sobre a Antropologia. provavelmente. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. A antropologia de matriz norte-americana é. torna a análise muito problemática. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. em primeiro lugar. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. 2001. desconsiderando. Na entrevista. GEERTZ Clifford. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. a exemplo do Brasil e da Índia. No final. mas também fora de sua área. São Paulo. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. Em segundo lugar. não apenas as chamadas sociedades simples. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". Geertz fala do panorama da antropologia atual. a história e a teoria literária. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . de acordo com ele. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito.lições de Geertz. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. Na opinião de Geertz. Geertz é. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java.

assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. que estuda tudo. Chittó Gauer . indeterminação. A análise interpretativa da qual fala Geertz. São Paulo. mesmo assim são respeitadas. Muitos juristas. política. Ela tem que perceber qual é. que diz estudar o "Homem". Saraiva. história. Mas isso não é niilismo. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. hábitos e leis sociais. 1987. não tentaria ao menos começar a entender os outros. de vagueza. se esforçando para explicar as diferenças em geral. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. o Marrocos ou o Brasil. Antropologia jurídica. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. não tentará buscar compreender nada. não interpretará nada. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. elas fazem parte do repertório da antropologia. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. p. 32 Ruth M. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. nem começaria a interpretar. como economia. Robert W. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas.completamente geral. Neste caso o niilista não se importará com nada. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. direito. In: SHIRLEY. 10. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. contingência. a exemplo de Hans Kelsen. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. sem dúvida. historicamente. a análise de suas normas. regras. literatura. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. Todas essas questões devem ser levadas em consideração.

questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. subjugadas e ignoradas. sobre o comportamento do indivíduo. Antropologia jurídica. Robert W. ostracismo ou morte. isto é. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. normas da sociedade referentes às primárias. Em especial. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. se preferido for). A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. 1987. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. por outro lado. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. esses dois planos compõem as estruturas sociais. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. p. ou seja. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. 40 SHIRLEY. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. como no caso das sociedades modernas. São Paulo. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . exílio. isto é. obra em que. Saraiva. como crítico da metafísica (ou do humanismo. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. forças políticas estruturadas pelas instituições. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. e regras secundárias. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes.

ou seja. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. afirma o autor. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). nega o ser como fundamento. VI. para Heidegger. apenas a rememorou. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. plenitude da presença e estabilidade una. Para Heidegger. 42 Há. cit. Ao contrário de Geertz. op. De acordo com Vattimo. 2006.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. rememora o ser e o ente para além da presença. José Ortega y. igual e eventual. Chittó Gauer . Obras. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. Ruth M. 71-92. 1946. O pensamento da diferença. Meditações do Quixote. colocando em comunicação objetividade e subjetividade.. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". Gianni. Madrid. Ortega y. p. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. Livro Ibero-Americano. O reino da estupidez e o reino da razão. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. 43 GASSET. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. São Paulo. 162. sob essas premissas. 1977. enquanto a temporalidade. Alianza Editorial. sem estruturas. cit. que “mostra também um momento VATTIMO. Chittó. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. no entanto. p. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. op. 44 GASSET. GAUER. 42 41 34 Ruth M. O ser da metafísica é o ser mutilado. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. v. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. esquecido da subjetividade).

p. Simmel e a Modernidade.). como fizera o século XIX. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. OËLZE. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. sendo que. pela ética e pelo direito. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. 10. Brasília. cujo movimento na sociedade. mas também sem normas ou raízes”. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. O século XX. não sujeito a mudanças. na significação que nos interessa. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. O destino trágico.‘escandalosamente temporário’. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. é um exemplo deste fenômeno. revelado por Marx. 1998. Editora da UNB. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. Jessé. afinal. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. no sentido tanto decadente quanto criativo. (Orgs. o devir era uma das categorias principais do pensamento. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . Berthold. abertura do pensamento e da cultura. No final do século XIX. segundo o autor. mas perigosa. resultado do domínio das coisas sobre o homem. Com esta análise em mente. SOUZA. Rompera até com a cultura moderna.

p. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. p. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. culto 46 47 MAUSS. uma mistura de direito público e direito privado. da família. v. Do mesmo modo. v. 49 MAUSS. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. Segundo a análise. Esta forma de instituição. São Paulo. o autor refere que às funções. I. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. Marcel. 48 MAUSS. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. romano.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. cit. 1974. entre outras. Assim como na passagem natureza-cultura. negativa que contém um Sim afirmativo. como a semítica. Para o autor os direitos costumeiros são. de toda a sociedade. Chittó Gauer . e. 234. Sociologia e Antropologia. nossas antigas civilizações. por um lado. op. Marcel. com elas. 131-132. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. v. muito antigo”. p. I. aos cargos. II. São Paulo. Sociologia e Antropologia. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. 234. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. 1974. hindu e germânico. o Não. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. as pessoas e as coisas”. op cit. a grega e a romana. 36 Ruth M. de direito não formulado e direito formulado. e a dádiva por outro. Marcel. às honras. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. EPU/EDUSP. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. pois nem tudo pode ser formulado. Marcel. EPU/EDUSP. Sociologia e Antropologia. Na opinião de Mauss. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. de alguma forma. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. MAUSS. de alienação e de troca. a família.

“Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. figura do nome divino de Júpiter. assim como a importância das coisas. herança. “Atta” educa a criança. portanto natural. não separa os filhos. esta só lhe é conferida. pp. como já vimos. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. Minuit. “Patricius”. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. a maioridade biológica. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. o descendente de pais livres. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. propriedade. não foi obra de legisladores. autoridade. “Patrius” se refere ao pai não físico. que é lido como “Pai Celeste”. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. liga-se à relação de parentesco. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. contudo. descende de pais livres. mãe). a morte do pai. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. traços que se mantiveram na época clássica. I. do sânscrito “Pitar”. 1969. 207-212. “Patricius”. em sua origem. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. da herança. da autoridade e da punição. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. “Pater”. exclui a relação de paternidade física. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. Èmile. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. Éd. de fato. Paris. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. da propriedade. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. exprimindo uma hierarquia pessoal. v. seu auxiliar nas funções sagradas. o que. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. estruturou-se nos mitos.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai.

Como observa Mauss. Outros termos de direito. o “vínculo” de direito. 54 MAUSS. que parte tanto das coisas como dos homens. Seguindo a análise. é bastante notável que. além dos vínculos mágicos e religiosos. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. a pretexto de não fazer sentido algum. no entanto. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. além de família e res. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. MarceL. 53 O contratante é primeiramente reus. bem como um certo número de formas desses contratos. 135-136.. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. o nexum. cit. cit. sem dúvida. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. quanto mais remontamos à antiguidade. 133-138. segundo Mauss. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. a esse título. op.se submetiam à sua autoridade. op. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. prestam-se para este estudo. A etimologia já fora proposta antes. seu réus. ao contrário da natureza. p. casa. pp. 139. op. a que aproxima do sânscrito dhaman. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. op. por seu espírito. o nexum. cit. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. Marcel. ou seja. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. embora tenha sido eliminada. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. não concede a maioridade aos filhos. cit. 135-136. Marcel. Entre os direitos analisados.. Marcel. segundo Mauss. Sob este aspecto. pp. pp. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. e que se torna. 38 Ruth M. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. MAUSS.. 53 MAUSS. Chittó Gauer . A religião. A melhor etimologia de família é.. isto é.

investigar e decifrar os mistérios da natureza. segundo o autor. o indivíduo possuído pela coisa. Há autores que traduzem res por “processo”. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. o sentido de culpado. ficam um pouco mais esclarecidas.. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. Como se pode observar. (. 3°.) de inferioridade espiritual. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. sobretudo..coisa”. Marcel. Mas essa tradução é arbitrária. supondo que o termo res é. Para Mauss. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. um termo processual. “a origem do contrato. todas as teorias do “quase-delito”. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. do nexum e da actio. se nossa derivação semântica é aceita. o culpado e o responsável”. acabou por ter um efeito perverso. A imagem. “ao contrário. enfim. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. Desse ponto de vista. 140. 2°. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. de um ‘processo’ público. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. com mais forte razão para reus. op. crescida à sombra do racionalismo. e rei-jetos por “implicado no processo”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. cit. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. p. que apresenta o seguinte: 55 “1°. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa.

o sentido da palavra família. Para Dumont. pp. Lisboa. 80-85. passa a ter uma acepção difusa. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. Chittó Gauer . não foi substituído por outro. por uma pluralidade de centros de poder. já que deixa de haver um princípio organizador único. pp. ao fazê-lo. lícito e ilícito. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. corpo-espírito. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. A base tutelar da família foi fragmenta. Edições 70. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. Discurso do método. A exemplo do direito. religiosa. pessoas e coisas. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. A criação do paradigma da modernidade. cuja base se encontra na obra de Descartes. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. 57 permitiu o surgimento do dualismo. econômica. O individualismo. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. Rocco. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. 1985. as res que dela faziam parte. deslocando. jurídica. um dos princípios que. René. 12-16. mas por uma pluralidade de outros.mistérios da natureza. política. foram deslocados. de um “processo” público. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. 117-118. ou seja. razão e emoção. objetividade e subjetividade.. O sentido implicado no “processo”. segundo Dumont. op. foi fragmentado. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. antes uma acepção secundária. dicotomizando tanto coisas como homens. no entanto. pp. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. 58 DESCARTES. passou a regulamentar de forma especializada. Rio de Janeiro. res. 57 DESCARTES. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. Louis. Essa busca. René. O Iluminismo. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. uma vez que o centro. isto é. 56 40 Ruth M. 1993. especializou-se e. por sua vez. cit. assim. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. isto é.

embora não tivesse por premissa eliminar a religião.seu famoso Discurso. no entanto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . da investigação. que “Os cegos vêem com as mãos”. o modelo de visão do autor é o tato. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. mítica e religiosa. mas afirma. totêmica. por meio da experiência. da observação. Esse conhecimento. Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. isto é. em determinado ponto. buscou substituir várias autoridades.

estéticas e políticas das sociedades. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. Sociedad y ciências sociales. 321. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. A separação natureza-cultura. da tradição e de instituições que a precederam. 320. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. 42 Ruth M. A criação dos símbolos modernos. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. Barcelona: Barral Editores. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. a consanguinidade. da mesma forma que os da língua. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. Chittó Gauer . respeitamos regras. trocamos mensagens. mas. que possui o indivíduo como melhor exemplo. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. a exemplo do exercício do poder. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. p. está estruturada em uma concepção “natural”. com base na crença da ciência. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. Marcel. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. As transformações das instituições jurídicas. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. 1970.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. de uniformização. Obras III. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática.

O crime e o castigo seguem convenções legais. Tal postulação inspirou-se.sobre o pensamento e a ação. não como uma ciência experimental em busca de leis. pp. segundo este último. René. A interpretação das culturas. 81-153. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. pois. Clifford. pp. São Paulo. p. mas como uma ciência interpretativa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . e como devemos realizar nossas ações em sociedade. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. 1973. Gottfried W. Rio de Janeiro. como já referido. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. quando 60 61 GEERTZ. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. por exemplo. apenas releu a forma. em parte. Abril Cultural. Abril Cultural. denominada legislação em sentido amplo. São Paulo. proibições. LEIBNIZ. o indivíduo moderno. de conhecer as diferentes “realidades”. Os Pensadores XV. teias. à procura do significado”. Zahar Editores. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. portanto. 1974. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. 1978. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. imposições. 62 DESCARTES. criadas em sociedade. além de não eliminar a norma fundante. 15. o que fazemos. porém não conseguiu eliminá-la. que não conseguiram eliminar a regra geral. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. “sujeito-da-razão”. as categorias coletivas. outras categorias foram derivadas. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. escolhas. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. Os Pensadores XIX. como. 63-73. São “versões” da vida em sociedade. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. 61 A partir daí.

elaborando a composição de orientações diversas. determinado pelo “cogito ergo sum”. Chittó Gauer . do conhecimento e da prática. Locke e Rousseau. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. a partir de sua análise. John. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. reelaborado também pela visão de Locke. vistas como ontologicamente diferenciadas. Para muitos autores. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. com capacidade de raciocinar e pensar. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. pp. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. 1973. assim. além de outros como Hobbes e Kant. o “eu penso”. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. 44 Ruth M. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. sem dúvida. O “indivíduo soberano”. no entanto. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. Tentou-se. Os Pensadores XVII. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. São Paulo. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. 139-348. em Locke. elementos esses que seriam. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. no sentido heideggeriano). As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Ao refocalizar o velho (e original. sujeito da modernidade. Por outro lado. Hobbes. A partir dessa posição de Descartes.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). irredutíveis. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. Abril Cultural. É. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano.

e sim manutenção dos mesmos objetivos. por exemplo. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. após as críticas da escola histórica. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. e os formalistas como Kant e Fichte. jurídico e político. mas sim uma unidade metodológica. 64 Essas questões. no entanto. Contudo. finalmente. Rio de Janeiro. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos.estejam separados por uma fronteira intransponível. mas um princípio metodológico. mas o modo de abordá-lo (a razão). que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. 1985. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. Todas as correntes concordam. todos pertencem à mesma “escola”. Tanto é assim que. Outra prova é que. não eliminam o intento comum. Na verdade. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. precisamente porque fundada. Rocco. no entanto. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. Não há dispersão. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. no final do século XIX. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas.

da Europa chegou o progresso. Alemanha e outros países. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante.paradoxo da modernidade. como modelos estáticos. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. sustentáculo da sociedade GUSDORF. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. sepultura da medieval fé em Deus. no interior dessa grande estrutura. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. mas o método. ainda submersa no platônico mundo das sombras. Chittó Gauer . 1967. A base seria não uma lógica do provável. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). o referencial filosófico-social básico. o Estado-nação. Nesse sentido. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. IV. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. As teorias clássicas liberais de governo. Paris. 65 46 Ruth M. No século XVIII. George. e foi definido. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. O que caracteriza. v. a redenção do Siècle des Lumières. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. e “eliminou” todas as diferenças. 183. Há. no entanto. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. Payot. p. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. progrediram as ciências na Inglaterra. portanto.

o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. para isto. Erving. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. certamente. Nesse contexto. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. a qual é. impressas em nossos genes. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . gerando. primordialmente. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista.moderna. 1982. etc. e estas. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. Ao mesmo tempo. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. Rio de Janeiro. Basta recordar. Estigma. nesse sentido. argentinos. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. Obviamente ao nos definirmos como tais. por outro lado. gestada ao nível da razão simbólica. entre o sujeito e seu entorno. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. com suas vontades. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. Zahar. ou seja. No entanto. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. E. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. o estado. Goffman. inversamente. criadas por meio de tetos políticos. Essas identidades não estão. As culturas nacionais. entre eles. os numerosos estudos sobre caráter nacional. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. Os indivíduos soberanos. “englobaram” todas as diferenças. uma comunidade simbólica. fenômeno 66 GOFFMAN. necessidades e interesses. ingleses. assim.

há décadas atrás. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. A lealdade e a identificação foram localizadas. dominação e hierarquia. junto ao estado-nação e. O tema da nacionalidade. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. já no início do século XIX. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. étnicas. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. consequentemente. Os indivíduos soberanos. posteriormente. As diferenças regionais. desde os finais do século XVIII. Chittó Gauer . com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. O modelo interativo. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. à cultura nacional. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. a atenção. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. religiosas. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra.este de índole essencialmente contemporânea. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. No início do século XIX. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. com suas vontades. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. nas sociedades ocidentais. políticas. No caso brasileiro. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. entre outras. necessidades e interesses.

com suas vontades. ou o valor se vincula ao indivíduo.270. 269. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. pelo próprio sistema de representações. assim como não há indivíduo. é prescrito. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. não há lei sem a impessoalidade. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. Embora essa dissolução tenha ocorrido. que. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. em muitos casos. Em se tratando de sociedade moderna. O individualismo. 1985. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. por outro lado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . Os indivíduos soberanos. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. há que se salientar a importância da norma. liberdade de escolha. o valor e a norma. As idiossincrasias sociais. Como refere Dumont. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. pp. um fato e uma norma. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. não havendo. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. as quais configuram a estrutura social. como já afirmamos. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. e por assim dizer.relações sociais. o que tem por separar a ideia de valor. 67 “o valor está imbricado. a negação da ordem escravocrata. mas a própria sociedade em ato. necessidades e interesses. que a norma não seria um efeito da sociedade. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. neste caso. Louis. tornaram-se a figura central da lei. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. No entanto. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. Rio de Janeiro. Rocco.

a norma. 50 Ruth M. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. o fundamento primeiro do fato social. abre toda a significação. nada articula.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela. No entanto. Chittó Gauer .

passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. p. cit. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. Após o relativismo do racional e do empírico. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. Na física. o mundo. pp. São Paulo. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’. 1973. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. antropologia e psicanálise. e entre vários filósofos. 68 69 BACHELARD.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . Gaston. Gaston. 756-758. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. de Bergson a Bachelard. Abril Cultural. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. como se a terra. Gaston. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. Os Pensadores. BACHELARD. cit. mais do que uma simples descoberta. versando sobre a descontinuidade. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. 756-758. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. op. pois permite repensar a crise da ciência moderna. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. sobretudo. propôs uma noção de duração não bergsoniana. 70 BACHELARD. no decorrer do século XX. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. é antes criação”.. 757. pp. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. da física e da química não apenas um avanço. Os Pensadores. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. op. Um segundo fundamento.

Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. São Paulo. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. cujo resultado. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. 76 BASTIDE. a psiquiatria e psicanálise. 73 Sigmund FREUD. 2000. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. cit. Roger. segundo o belo título de Henri Ellenberger. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. a antropologia. p. 76 são exemplos destas análises. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. A Interpretação dos Sonhos. Sociologia e Psicanálise. Edições 70. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. O Mito e o Homem. Lisboa. do mito e do “pensamento obscuro”. 72 Gilbert Durand. São Paulo. Chittó Gauer . 71 52 Ruth M. Difel. 35. desde a psicanálise até a cibernética. a história e as normas sociais. 75 CAILLOIS. 71 Para Durand. Todavia. São Paulo. op..Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. 2001. Deus. por exemplo. do onírico. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. O Pensamento Selvagem. Imago. 1974. Claude. o Simbolismo e o Surrealismo. 2002. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. 74 LÉVI-STRAUSS. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Roger. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. 1986. Rio de Janeiro. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. a natureza. a história das Ideias. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. 73 do “pensamento selvagem”. Gilbert Durand. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. Papirus. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. 3ª ed. Companhia Editora Nacional. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. ou campos de conhecimento.

entre outras contribuições. Bion. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. conclui que.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. 36. o importante é a existência de significados que. em princípio. uma vasta compilação e análise. baseadas na obra de Jung. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . Seguindo essa linha de investigação. Freud. em termos de interpretação. já de matiz clássica. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. como de fato o são. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. extremamente minuciosa e complexa. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. p. Gilbert. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. Para Durand. as assertivas de Lévi-Strauss. de certo modo. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma.. a razão. as orientações psicoterapêuticas. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. op. cit. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. Melanie Klein. Assim não há. Hartmann e tantos outros. Alexander. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. pois tal comparação confirma. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. Portanto. mesmo sendo arbitrários. 77 DURAND. a função do sonho. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica.

que é a psicanálise. que pode ser coletada e que. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. 78 54 Ruth M. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. como estas. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural.. Amorrortu Editores. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. 1975. a partir de um modelo explicativo. Desta constatação. senão no próprio homem. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. Neste. portanto. veracidade e exatidão de uma teoria. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. semelhante a tantas outras. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. o que não se daria com as últimas. Cabe. Portanto. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. Ou seja. tira. pois. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). que se opõe. frente à sua realidade existencial e concreta. Chittó Gauer . não há mais lugar para o tempo mítico. No entanto. para Lévi-Strauss. por sua natureza científica. De qualquer modo. Esta forma moderna da técnica xamanística. Etnopsicoanálisis Complementarista.. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. qualitativamente diferente do pensamento científico). ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. como comentário correlato. mencionar a posição de Georges Devereux. Georges.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. por atingir as causas reais da perturbação. por uma confrontação de seus DEVEREUX. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. Buenos Aires. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem.

Rio de Janeiro. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. ou formulação de uma identidade. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. portanto. No caso específico de Freud. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. por sua vez. Freud. Claude. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. da força das emoções”. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. ou seja. ainda nos tempos atuais. para o citado autor. Tempo Brasileiro. na passagem para o século XX. Na verdade. 224. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. soturno e traiçoeiro. Antropologia Estrutural. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . 1970. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. E. como já havia dito Spinoza. Nesse contexto.” 79 Veja-se. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. com a linguagem dos símbolos. p. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. permite a via de acesso ao inconsciente.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. tal análise é simplista. no homem ocidental. O papel primordial atribuído à razão. está 79 LÉVI-STRAUSS. elaborou. Assim.

os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. que traz consigo o desenvolvimento da razão. Para Freud. E isto Darwin o fez mostrando que. na qual se destaca E. também contribuiu para essa crise do conhecimento. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. mas. o que correspondeu. de certa maneira. nessa busca. a descoberta do inconsciente. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. Afirmou Saussure que nós não somos. Com essa posição. do mesmo modo que Freud. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. com ela. a psicologia. Quando Freud buscou a subjetividade e. nossas identidades. em última instância. um duro golpe ao narcisismo humano. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. em outra área de pesquisas. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. dessa forma. tanto Darwin como Freud. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. Kraepelin. não só em áreas específicas. Acertaram. tentando. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. A contribuição de Ferdinand de Saussure. Chittó Gauer . que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. a sociologia e a antropologia. não deu atenção à dinâmica psicológica). logo existo”. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. Ao contrário. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. encontrou. em nenhum sentido. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. Correspondendo ao espírito da época Darwin. recriar os modelos universais. tal como a ciência moderna havia proposto. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional.

Lembremos que. No entanto. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. Por outro lado. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. por exemplo). os de normalidade e anormalidade. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. tal questão está em grande parte superada. em virtude de considerações de ordem variada. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. O significado das palavras não é fixo. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. Essa foi. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. Ela pré-existe a nós. por exemplo. por exemplo. de natureza teórica ou não. e este fato mantém uma conotação de atualidade. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. em uma relação um-a-um. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. No campo da etnopsicanálise.nos comunicarmos. a opinião de Georges Devereux. superando as contingências do relativismo. o par de termos opostos noitedia). tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . Este autor optou por uma definição de normalidade que. Devem ser consideradas também. não podemos utilizá-la para produzir significados. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. A língua é. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. um sistema social e não individual. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. Porém. Atualmente. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. nesse sentido. para fins de análise histórica.

mas nelas algumas questões precisam ser revistas. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. nesse ponto já superado. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. por muito tempo. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. em certa medida. basicamente. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. que possui uma conotação de natureza mais universal. Caillois e Bastide. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. Para Durand.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. 58 Ruth M. Na concepção de Durand. lançada por Lévi-Bruhl. Chittó Gauer . para lançar em descrédito a psicanálise. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. Mesmo assim. Todavia. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. dando sentido e ordem ao universo e que é. da qual um grande número de culturas seria excluído. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. de Freud. que antecedem uma maturidade mais plena. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. sem dúvida importantes. discutir a questão da alteridade. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. que anima a mente primitiva. mesmo no chamado mundo civilizado.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 .O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise. Porém. sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo. faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico.

Chittó Gauer . que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. Evidentemente. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. A partir de meados do século XVI e. nos século XVII e XVIII. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. São Paulo. 1974. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. trad. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. seleção. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. O humanismo renascentista. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. notadamente. Os Pensadores. Giambattista. concepção defendida pelos estruturalistas. Abril Cultural. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. a posição marcadamente anticartesiana. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. 60 Ruth M. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. que se difundiu por toda a Europa. como França e Inglaterra. evitando isolar-se em abstrações excessivas.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social.

Giambattista. 83 Ibid. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. pouco encontrava que me convencesse. Discurso do Método. a partir do modelo matemático. pois existiriam produtos humanos fundamentais. como a poesia e a história. 81 Ao mesmo tempo. desprovida de sentido. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . contida no cogito. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. DESCARTES. a perda de seu atributo de certeza. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. 1981. 82 Dessa forma. p. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. colocava. ou seja.. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. em sua opinião. p. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. ergo sum. Conforme afirmara: “a verdade é que. formulada por Descartes. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. 38. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”.. por fim. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. Brasília. pois ele não se cria a si mesmo. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. “a história no exílio. isto é.ao método matemático era. pois repousam no verossímil. 36. que careceriam de demonstração lógica. segundo o autor. op cit. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. Por outro lado. René. Dessa forma. é que o próprio criador a tenha criado. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. Editora Universidade de Brasília. a ideia VICO.

etc. Chittó Gauer . R. governos. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. Nessa perspectiva. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. 88. A reflexão do filósofo napolitano considerava. p. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. Os Pensadores. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. Editorial Presença.. 1974. ainda. Giambattista. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico.de que as proposições matemáticas. o filósofo napolitano oferece a tópica. seleção. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. justamente por ser o homem produto desta. pois. Como diria Collingwood. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. Lisboa. à crítica fundada na razão. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. segundo Vico. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. São Paulo. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. s/d. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. O autor separou a história das ciências da natureza. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. Abril Cultural. A Ideia de História. G. trad. libertando-a da dependência das fontes escritas. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. 85 84 62 Ruth M. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. VICO. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. leis. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. colocada entre o falso e o verdadeiro. À razão cartesiana Vico oferece o engenho.

ao menos a vontade repouse sobre a consciência. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo.deles conhecidas e antevistas”. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. vinculando esse direito às tradições. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. Se uns e outros tivessem feito isso. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. quanto fora dele. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. “O humano arbítrio. como as guerras. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. Segundo Vico. a fim de que. tais como os costumes e as leis. historiógrafos e críticos. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. as viagens e os intercâmbios comerciais. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. os tratados de paz. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. dotado de vontade. incertíssimo por sua própria natureza. de um lado. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. tanto em seu território. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. a fim de que. as alianças. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade.

Chittó Gauer . 64 Ruth M.XVII. que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e. generalizável como totalidade. portanto.

A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. a razão prática. 1989. como teoria explicativa da diferença. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. 87 paradigma da igualdade.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. Nesse sentido. No entanto. El antropólogo como autor. de interesse utilitário. Cultura e Razão Prática. e Clifford Geertz. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. consultar: Marshall Sahlins. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII. cit. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito.. 88 ou teoria da utilidade. 1979. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. Paidos. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. 87 SAHLINS. Marshall. Barcelona. Zahar. A razão prática. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. independendo da questão temporal ou geográfica. circunstância que compartilha com todos os organismos. O evolucionismo. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). Rio de Janeiro. op.

barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. em um estágio primitivo. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. conhecer a diferença. e Lewis Morgan (americano). procurou ordenar seus estágios evolutivos. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. estrutura e função. A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. da hierarquia entre evoluído e atrasado. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. dessa forma.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. e em muitos casos até boa parte do século XX. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). Lewis Morgan. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. ao estudar as instituições. Um dos 66 Ruth M. as invenções e descobertas de certas sociedades. Chittó Gauer . O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. levou a antropologia do século XIX. Nesse sentido. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. A definição dos três estágios – selvageria. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. portanto. desatrelada do tempo histórico e. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. para o progresso.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. v. Autores como Nina Rodrigues. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil.med. 12. 92 70 Ruth M. 2002. 92 “na segunda metade do século XIX.diferença. Arthur Ramos. Chittó Gauer . entre outros. Conforme Ana Maria Oda. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. dez. agregou-se a teoria da degeneração. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. Disponível em: http://www. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. intelectuais e comportamentais. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. n.htm. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. Então. formada de índios. Para tanto. 6. pela visão de seus teóricos. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. Psychiatry On Line Brazil. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. portadora de estigmas físicos. tendo a sífilis como modelo. Acesso em: 03 jan. Após as influências dessas escolas.polbr. Um número expressivo de historiadores. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. Ana Maria Galdini Raimundo.br/arquivo/wal1201. o Brasil deveria se engajar. Este “estigma de ODA.” A estas concepções organicistas. dominaram as concepções organicistas. Juliano Moreira. sob circunstâncias apropriadas. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". no qual. 2001. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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É inegável que o século passado. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. do mesmo modo. a antropologia. Chittó Gauer . No entanto. de certa maneira. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. neutro e objetivo. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. Nos campos de concentração denominados “reservas”.de um modo de vida tradicional. pela reestruturação política e social do mundo. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. nesse rumo. Nesse contexto. do quadro social então presente na sociedade ocidental. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. assim como várias outras em diversas partes do mundo. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. pois ambos operam como uma unidade sintética. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. apesar das dúvidas 74 Ruth M. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. já havia decretado sua morte. suicídio. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. associou-se à psiquiatria que. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. homicídio. Tais ocorrências sociais. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX.

assim como as instituições culturais em geral. assim como ao nível das culturas camponesas. Por exemplo. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. desrealização e. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles.“relativizantes”. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). de saúde e enfermidade. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. Esta. Por um lado. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. Portanto. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. temos aqui dois fatores. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. consolida-se a etnopsiquiatria. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. como processos dissociativos. então. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. com seus quadros de anomia psicossocial. Detecta-se. Como se vê. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . uma patologia. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. sintomáticos de uma patologia mental. Este pensamento como que matizou. A partir desses fatos. comportamento. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. em síntese. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar.

até. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. ao nível do arbitrário. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. mesmo que superficialmente. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. Nesse caso. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. 95 76 Ruth M. propondo. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. convém lembrar. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. O critério de eficácia é. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. assim. Não se pode afirmar. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais.qualquer agrupamento social. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. Mesmo assim. incluindo culturas urbanas. a observação feita por Lévi-Strauss. A partir disso. discutível. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. observação e tratamento. em princípio. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. critérios transculturais de análise. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. Seriam. por exemplo. a qual legitima tal fenômeno. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. um ponto de encontro. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. e aceitáveis De modo semelhante. pois. portanto. Ou seja. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. dessa maneira. entre o psiquiatra e o xamã. Chittó Gauer .

E é a passagem a esta expressão verbal (que permite. de outro modo informuláveis. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. p. mas.LÉVI-STRAUSS.). a reorganização. real ou suposto. pp. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem. uma vez que a psicanálise (assim como.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar.” Georges Devereux. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. 204-224. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. (.. isto é. Rio de Janeiro. num sentido favorável. Amorrortu. 97 Como coloca DEVEREUX. (. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. sem isto. a partir de um modelo estrutural comum. e ela é membro de uma sociedade que acredita. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. 255.. em linhas gerais. Claude. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. Etnopsicoanálisis Complementarista. aparentemente tão afastadas. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo..) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. “(. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 .. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une. não tem importância: a doente acredita nela. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas.. ao mesmo tempo. Empero.. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica.. Antropologia Estrutural. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. Buenos Aires. que a doente adquire deles progressivamente. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas. 1970. Tempo Brasileiro. Portanto. à prática e ao simbolismo xamanístico. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real. (.) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos.. “Neste sentido. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. 1975.

enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. Ruth Benedict e outros. Na verdade. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. se for considerado conveniente. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. levou várias décadas para concretizar-se. em termos de enfermidade psíquica. a comprovação deste fato não trouxe. utilizando. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. Afirmam os etnopsiquiatras que. a sociedade urbana norte americana. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. assim. Este fato. Chittó Gauer . poderão reformular. por exemplo) como delirante. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. correspondam ou não à realidade. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. Como se sabe. em si. sem que isso o afete mais profundamente. principalmente no processo de tradução. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. nada de inédito. por exemplo. no caso. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. Gregory Bateson. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. como Robert Merton. com grande benefício. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. melhor transitar no terreno da psiquiatria. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. Em um primeiro momento. Também é fato sabido que. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. sua prática terapêutica. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria.

e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. por exemplo. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. a partir disso. como seria o caso da “cultura da pobreza”. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. no século passado. se mantêm assim. agora ameaçada. idênticas a si mesmas. Ou seja. muitas vezes encobertas. e que. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. no entanto. às populações primitivas. como objeto transacional. Não há. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. ou seja. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. indistintamente aplicada. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social.esclarecedores a esse respeito. tomados de um terror místico. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. atemporais. da cultura. nesses contextos. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. 98 Neste caso. no transcurso de gerações. dentro dos paramentos de controle social. por exemplo. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. 99 No entanto. e uma possessão patológica. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. Parece que. por assim dizer. de certa maneira. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. 99 Assim. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. de certa forma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual.

unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. 80 Ruth M. Chittó Gauer . Deve-se considerar.em seus diversos aspectos. a normalidade psicológica do indivíduo. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. cit. No entanto. em princípio. em qualquer caso. De los tres postulados que acabo de enunciar. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. y aún se encuentra actualizado culturalmente. 2) El principio de las posibilidades limitadas. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente.. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. Para escapar a esta relatividade. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. op. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. en otra suele estar reprimido. E. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. pp. establecida por los etnólogos. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. 76-77. Georges. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. esa lista correspondería punto por punto a una lista. em termos mais amplos. no entanto. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta.

valores e padrões em geral de uma cultura. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. que se situa dentro de um contexto de relatividade. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. entre indivíduo e sociedade. p. Haveria uma área transicional. acentuada desde Durkheim. 115. necessariamente.. de limites imprecisos. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno. cit. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. Georges Devereux. em uma sociedade. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (.. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. também. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. se for levada às últimas consequências lógicas..que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. tendo por assentado que esta cultura é normal. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. Coloca Devereux que. normalidade mental. elimina a tradicional distinção. ob. Por outro lado.. como uma névoa. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”.) 2) El comportamiento de un grupo. 101 Assim. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. que são considerados como normais e ajustados à cultura. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . Estabelece-se. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. Retornando ao exemplo acima. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular.. embora existam padrões.

refere-se à capacidade para enfrentar transformações. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. Ou seja. recusando-a em 82 Ruth M. a sociedade contemporânea. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. Chittó Gauer . Mas quanto à posição de Devereux. protegido e infragmentável. Este fato pode produzir diversos resultados. na sociedade urbana. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. Por outro lado. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. produtora de “identidades fluidas”. como por mudanças de nível “macro”. Como se sabe. Outro aspecto ressaltado por Devereux. por assim dizer. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. Um determinado indivíduo. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. de forma alguma. No que se refere ao indivíduo. que envolvem o todo do contexto social. assim. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. como se deslizasse por elas. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. o que não significa. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. de caráter urbano. Diante disso. por exemplo. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. de transformação. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor.dessa maneira.

Ela pode ser um fenômeno salutar e. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 .nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. Mas por outro lado. de qualquer modo. ao mesmo tempo. E. difíceis de discernir. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. é um indicador de normalidade. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores. na cultura urbana. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado.

como se isso fosse possível. Esse fato não iniciou no século XIX. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. A estética. com ausência de resíduo. 1976. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. assim como todo o tipo de discriminação. A sujeira é um fato que nos repugna. 84 Ruth M. mesmo as mais microscópicas. ligada às tarefas da casa. 56. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. desinfetar. Há alguns dias. passar. Relendo algumas passagens do livro. mesmo os mais microscópicos. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. p. ficamos tentados a reler. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. que deve estar livre de impurezas. lavar. nomeadamente no século XX. normalmente associada ao belo. etc. O tempo de limpar. principalmente por meio das tarefas femininas. Mary. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. a pureza e a ausência de qualquer perigo. No entanto. temos horror a certos tipos de sujeira. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. isto é.. Chittó Gauer . não menos importante. do perigo. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. que destaquei há tanto tempo. quando com elas nos deparamos na estante de livros. Pureza e Perigo. isso ocorreu. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. da sujeira. que a autora trabalha. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. Deparei-me com Pureza e Perigo. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. qual seja: a questão da ordem. Perspectiva. São Paulo. da impureza. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70.

deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. A modernidade criou 103 DOUGLAS. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). exemplo de espaço privado.pureza. hospitais. O isolamento. Na modernidade essa prática continuou. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça.. cit. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. do violento. portanto. Mary. em resumo. A modernidade disciplinou não apenas os homens. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. pois são perigos em potência. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. tal como foi criado nos tempos modernos. como medida de exceção. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. vistos como perigosos. Esses locais. do monstruoso. constituía-se na única forma de proteção. passou-se a isolar casas. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. perigosas. também foi submetida à disciplina da higiene). mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . op. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. p. assim como a ordem do espaço público. do disforme. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. buscando os ideais de ordem. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. do feio.

A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. Os modernos esqueceram. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. como o nazismo. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. maior a igualdade. seja nos regimes políticos das democracias liberais. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. porém. devem ser purificados ou eliminados. Quanto maior a exceção. Os exemplos históricos mais recentes. presente nas sociedades ocidentais. Rio de Janeiro. seja nos regimes totalitários. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. os perigosos. Rocco. fascismo. a todos os que podem se constituir em perigo. a corrupção. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. por mais paradoxal que possa parecer. pp. comunismo. 1985. Louis. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. sem muito esforço. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. Chittó Gauer . Nos estados de exceção. e está. O individualismo. Há que se salientar. administrativos. a sedução das crenças e demais impurezas. Quais os procedimentos políticos. utopia dos iluministas. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum.essa compulsão. jurídicos. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. O mundo perfeito. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. 270-274. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. 104 86 Ruth M. transparente e livre de contaminações.

2004. Teoria Pura do Direito. João Baptista Machado. A partir desta constatação. Os perigos precisam ser eliminados. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. por outro. estruturada na naturalização do indivíduo. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. nas palavras de Franco de Sá. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. Hans. pp. Se representação e identidade constituem. na essência e no modelo. nos regimes democráticos. a força política se sustenta na medida em que se purifica. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. constituída pelo direito. Coimbra. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN.. isto é. cabe aqui lembrar que. colocando distância entre a ordem e a desordem. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. com a tentativa de eliminação do estranho. do desigual. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. 1979. uma coletivização ao extremo. 4 ed. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. Metamorfoses do poder. 34. Armênio Amado. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. depurados. Coimbra. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. o exercício da soberania. limpos. entre a pureza e o perigo. nesse caso. Por um lado. Alexandre Franco de. a teoria SÁ.uma tensão contraditória. Esse aspecto traz problemas para a democracia. Ariadne Editora. Trad. 105 a força de uma democracia. 5152. Para o autor.

o doente. No entanto. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. o anormal. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. o impuro. que nasceu naturalizada. isto é. além de outros. A própria soberania. na atualidade. “gênero”. perigo. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. do sujo e do limpo. apud Alexandre Franco de Sá. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. tal como pensada na 107 SCHMIT. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. que serviam à identificação dos sujeitos.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. que visava à eliminação das hierarquias medievais. 88 Ruth M. cit. o diferente. op. guerra total. Hoje esses termos dissolvem-se. A soberania da igualdade. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. sofre evidências devastadoras. Chittó Gauer . Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. As práticas políticas adotadas na modernidade. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. 107 a questão da exceção. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. como os nazismo-fascismos. exemplo de regime de exceção. o sujo. enfim. tudo o que causa estranheza. “raça”. que lembra sujeira e desordem. do modelo e do antimodelo. em nome da igualdade. entre outros. aquilo. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. nas teses de Schmitt. ou seja: isto.

sobretudo. do perigo. entre outros lugares. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. desconhecendo a questão dos direitos humanos. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico.modernidade. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. o duelo entre tradição e modernidade. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. que foi cometido pelo seu irmão. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. deixou de ser a norma. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. no relativismo. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. lugares de negociação em andamento. nem sempre descritíveis em sua totalidade. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. necessariamente. não consensual. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. as famílias dos homens-bomba. locus do “aqui e agora”. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. da inclusão e. embasada na premissa da inclusão e da exclusão.

A impossibilidade de uma verdade única. tais como pensados desde o século XVIII. não consensual. Chittó Gauer . é a velhice do mundo. ordenadas. protegidas dos perigos. Não há preparação para lidar com o erro. os desvios sociais. A questão não envolve a justaposição da diferença. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. enfim. segundo Virilio. de uma identificação totalizante. associada a uma velocidade que. Com a superação do eterno retorno. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. Outra pergunta se faz necessária. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. com as impurezas. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. O presente se torna imprescindível. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. nesse 90 Ruth M. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta.determinismo racionalista. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. o consensual fica sendo os totalitarismos. a ausência do estado nos bolsões de miséria. matam o discurso político. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. estruturante. os fundamentalismos. gerando a violência. Nesse quadro. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. ao lado do consenso cultural.

passando a ser questionada. nem projeção. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. estado x sociedade. Nem ruptura. os interstícios. É o ocaso do etnocentrismo. ele é ex-cêntrico. pp.caso. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. Como decorrência.. op. Para Bhabha. O presente “é o tempo de agora”. do além. fica comprometida. O presente “não tem lugar”. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. Homi K. ao mesmo tempo. alargado. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . 2001. enfim. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. O Local da Cultura. pureza x perigo e assim por diante. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. paradoxalmente. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. Editora UFMG. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. abandona-se a sequencialidade. as fímbrias. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. a exemplo do nazismo. O autor menciona que os “entre-lugares”. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. Belo Horizonte. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. engendrando novos espaços e temporalidades. ambivalente. capital x trabalho. capaz de se autogerar. o que implica um deslocamento constante. distante do historicismo teleológico das “causas”. mas. metrópole x colônia. cit. As diferenças culturais são exercitadas. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. ou mesmo das raças. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. BHABHA Homi K. 20-46.

quanto uma pureza cultural. Na visão do autor. Isto é. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. op cit. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. superando a diacronia da história. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. ela mesma. pp. Ao lado dessa reflexão. Chittó Gauer . Homi. A minoria não quer ser “incluída”. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. que buscou sempre a exegese da diferença. que inova e irrompe a atuação do presente. Homi. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. 59. pp. de estabelecer seu próprio discurso institucional. 25-26. como no caso da própria escravidão.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. O Outro perde o poder de significar. Igualdade na Diferença.. de negar. tornada semelhante. 92 Ruth M. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. dá seus últimos passos. higienizada. tão pouco é completamente diferente desta. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”.. Segundo Bhabha. no sucessivo de passado-presente. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). do puro e do impuro. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. 29. de releitura da contemporaneidade. Ao invés do continuum cristalizado. na linguagem bejaminiana. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. BHABHA. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. não é uma passagem suave de transição e transcendência. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA. do material ao metafórico. op cit. de iniciar seu desejo histórico. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. mas sim reconhecida. há também um movimento político. A tradição ocidental. Ainda segundo Bhabha. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”.

Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. Homi. instaura com este uma dialética.. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. o arcabouço da tradição. de memórias míticas e de identidade coletiva única. depende dele para existir. 112 “o tempo de libertação é (. mas que. sob a égide do discurso colonialista.. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. mais crucialmente. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. aquilo que. O rigor da indisciplina. de acordo com Bhabha. Relume-Dumará. da articulação de uma política de negociação. Luiz Eduardo Soares. em si. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. As noções liberais de multiculturalismo. Como exemplo. pp. op. mensagem e receptor. 1994. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas. o precede e sucede. e para sua própria “eficácia”. no processo de manifestação simbólica da linguagem.. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. de indecidibilidade significatória ou representacional”. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. e. cit. 65-68. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”. p. oferecendo-se ao sujeito. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. quer dizer. simultânea e paradoxalmente. porque existe. ter consciência. na qual representa o universal. Para Bhabha. foi preciso encontrar catequistas nativos.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. estrategicamente deslocado. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. 113 BHABHA. Rio de Janeiro. bem como da relação entre emissor. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo.) um tempo de incerteza cultural. 45. teleológicas ou míticas.

pp. cit. “Sobre o conceito de história”. totalizante. E. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. ao explorar esse Terceiro Espaço. nem como evocação da liberdade. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. op. Homi.. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. 72-75. 1987. não como uma afirmação da vontade. Afinal. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. não apenas muda a direção da história ocidental. Walter Benjamin. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. unificadora. Chittó Gauer . Editora Brasiliense. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. Magia e técnica. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. apu BHABHA. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. entendido como sujeira. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. Walter. 114 94 Ruth M. São Paulo. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. o perigo da impureza racial. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. 114 A luta contra a discriminação. mas a regra. 115 FANON. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. Para ele. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. a opressão.

pp. cit. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. o autor chama de “delírio maniqueísta”. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. De acordo com Fanon. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. o branco escravizado por sua superioridade. A demanda da identificação – isto é.. Esse pensamento supera o arco hermenêutico. Homi. Ou seja. op. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. seu olhar e seu locus. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. mas dá-se em relação a uma alteridade.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . A esse quadro social. 76-78. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”.

a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. Rio de Janeiro. o amor ao próximo. Morata. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. E. Chittó Gauer . São Paulo.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. Ao romper a estabilidade do ego. Ver LÉVI-STRAUSS. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. pelo sentido declinante de comunidade. 1970. que salientava a piedade. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. Os Pensadores. Antropologia Estrutural I. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. Claude. 119 DURKHEIN. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. 1973. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. Abril Cultural. que se originava em uma certa espécie de virtude. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. expressa na equivalência entre imagem e identidade. 1974. Tempo Brasileiro. Reglas del metodo sociologico. plenitudinário. visual. Madrid. A totalidade dos estados nacionais foi construída. 96 Ruth M. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo.René. em boa parte. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Por outro lado. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. nesse contexto. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. a perda de valores espirituais unificados. a solicitude e falta de confiança em si mesmo.

121 Estas receitas para a recuperação. 164. cit. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. Franklin. conseqüentemente. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. op. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. por outro lado. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. Esses perigos. Contudo. Para compensar a anomie. BAUMER. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. p.. se 120 121 BAUMER. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. Franklin. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. no entanto. que era o resultado da divisão do trabalho. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. durante o período Eduardiano. essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. 164. ou estavam em processo de perder. mesmo na maneira como pensa e.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . que estimulava a mobilidade e a especialização. Para muitos. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). era necessário planejar uma nova solidariedade moral. obp cit. p. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Era a crise espiritual. o que lhe deve”. que era a causa da doença social. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta.século XIX já não possuíam. pois são perigos em potência.

uma esquiva realidade. Um modelo rígido de pureza. Se. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. da ambiguidade e da diferença. Estas constatações. conduz à exceção. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. tal como o da igualdade moderna. Contudo. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. a ciência deixou o homem procurando. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. acaba por se tornar totalizante. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental.transformaram em condição de análise. Chittó Gauer . o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. a moralidade. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. o desmascaramento da fácil crença no progresso. a história explicitou esses fatos. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. 98 Ruth M. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. a mente individual possui como função a vida social. às apalpadelas. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. O vazio das convicções humanistas. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. já que a pureza é inimiga da mudança. os paradoxos da filosofia liberal. quando imposto. ela própria uma forma de imoralidade. na frase de Dewey. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação.

uma vez que não há o instrumento da escrita. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. o direito inglês. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . a cremação da viúva na pira do esposo morto. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. Ocorreram algumas exceções. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. Os colonos eram considerados franceses. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. A natureza das instituições legais britânicas. a commom law. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. na Ásia. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. que são transmitidas de geração para geração. o que os subordinava ao direito francês. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento.

O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. Fundação Calouste Gulbenkian. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. via de regra. 264. boas e justas. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. A. em 1926.Código Napoleônico. Lisboa. p. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. Chittó Gauer . 2ª edição. a racionalidade não está ausente. No que se refere ao crime. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. No que se refere às regras sociais. Como se pode verificar. daí resulta a obediência. 262. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. que publicou. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. 1982. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. A lei como duplo sistema. 122 100 Ruth M. importante estudo. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. proteger e punir. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. e FORDE. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. Crime e costume na sociedade selvagem. R. Daryll.

do direito “primitivo” é processual. para um exame do ser do tempo. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. como já afirmamos. especialmente o terceiro capítulo. Da fenomenologia das três dimensões temporais. Cf. No entanto. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. 1974. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. A preocupação não é nova. presente. Abril Cultural. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. Estas pressuposições. Quanto ao presente instantâneo. O ser e o nada. Desse modo. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. de preferência à aplicação de regras formais. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. toda a série se aniquilaria. nunca 123 VICO. trad. 1997. Giambattista. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. Os Pensadores. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. a exemplo de Sartre. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. Vozes. São Paulo. 124 SARTRE. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. Giambattista Vico. Jean-Paul. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . como o ponto sem dimensão. isto é. Petrópolis. É preciso. seleção. Caso contrário. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. dotada de liberdade. o futuro não é ainda. 124 Em O ser e o nada.

Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. Desse modo. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. na física atômica. ou seja. sobretudo. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. tudo é em ato. por exemplo. Assim. como fotógrafos das câmaras de gás. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. pp. em etapas. para explicar o aparecimento da consciência. Flammarion. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. que dependem fortemente da teoria. 102 Ruth M. que é instantâneo e extratemporal. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. tais como os elétrons. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. integralmente. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. Se a lembrança ressurge. Miller 125 afirma que. 369-370. tal como os historiadores a descreveram. Paris. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Chittó Gauer . obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. traço atual. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. 1996. e tomaram consciência. o que é verdade. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. o faz no presente. mais ou menos em 1927. durante o século XX. da imagem-recordação. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. por um lado. já que desmoronou no nada. Depois se convenceram de seus erros. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente.elucidadas. Arthur I. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. em consequência de um processo presente. e lembrar a história. tudo é presente. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. por outro.

que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. Barcelona. São elas a 126 BECK. 3 . Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. A Sociedade de Risco. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. entre elas como risco. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. por outro lado.advento da idade moderna. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. 2 . metáfora visual adaptada ao mundo invisível. Paidós. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. Por esse caminho apoiaram-se na representação. anedotas.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade.fracasso do controle. pois. da saturação da função que lhe é inerente. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . O autor refere que essa transição. Trata-se.século XIX até metade do XX. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. O individualismo determinou toda a organização política moderna. ditos populares e a versatilidade das massas. 1998. contudo. risco controlado. Ulrich. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . Esses problemas foram tratados de formas múltiplas. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. uma forma de insolência. vontade de controle do risco. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. O processo de desindividualização.

Richard Sennett. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. a organização que se dá em redes. ser adaptável a circunstâncias variáveis. nem uma ideia. A Pele da Cultura. Forense Universitária. hoje está a mudar para a Idade da Mente. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. Para Kerckhove. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. A corrosão do caráter. amor ou ódio. Record. dor ou prazer. de calor ou frio. Lisboa. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. 175-194. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. 1987. Todas MAFFESOLI. Richard Sennett. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. individual e coletivo. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. Derrick. Michel. Brasiliense. Relógio D’Água. 19. pp.massa indefinida. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. é um conceito. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. uma mensagem. que ela mudou novamente. povo sem identidade. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. 1999. a um só tempo. pp. 53-54. O Conhecimento Comum. apenas um momento. não em estruturas hierarquizadas. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. p. público e privado. 127 104 Ruth M. 218. O Tempo das Tribos. sem se deixar quebrar por elas. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. uma certa harmonia. de Hume. 128 KERKHOVE. 1988. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. São Paulo. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. luz ou sombra. como diz Lévi-Strauss. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. 1997. remete-nos à análise da flexibilidade. Michel. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. MAFFESOLI. Chittó Gauer . geraram a implosão pós-modernista.

estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. como se fosse um espetáculo. uma vez que as imagens não se fixam. Por outro lado. se o tempo é história. Publicações Dom Quixote. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. Paul. Os acontecimentos não são aprendidos. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. dos políticos. Os conceitos trabalhados. de liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . Criou-se um novo espaço-tempo. abre um importante campo de reflexões. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. Aparece então a negação do fato real. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. Há. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. Lisboa. nesse sentido. da matéria. Em sua obra A inércia polar. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. Na atual velocidade. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. na obra de Virilio. Para Virilio. A popularização da velocidade retira das forças militares. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. a velocidade é apenas sua alucinação. A Inércia Polar. perdem-se. que não é finito. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. o mundo. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. ocorre a desintegração do tempo da luz. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. Seguindo nessa mesma trilha. Nesse sentido. Depois da desintegração nuclear do espaço. mas sobrevoá-la. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. escapam pela fluidez da velocidade. (do grego dromos = velocidade). o poder. pois já não há ideias em luta com os fatos. com essa plasticidade. Os nexos estabelecidos. 128. p. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. assim. 1993. teórico da Dromologia.

O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. abrindo. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. com as quais faz os vetores do poder. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. Para Virilio. 106 Ruth M. p. 130 130 MAFFESOLI. assim. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. Nesse sentido. pelo envelhecimento da história. mas onde estou eu. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade.usado para avaliar a capacidade humana. Assim. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. 27. frente a essa visão. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. Eis a inércia da natureza relativista. cit. A velocidade é a velhice do mundo. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. um importante campo de questões filosóficas. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. Michel. A economia já é gerida à distância. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. Descrever a violência. equivaleria dizer. op. Chittó Gauer . vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. construída historicamente. onde se situa? Onde estou. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. ao declínio das atividades no espaço. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações.

cit. mais do que tudo. Sabe ele que.. portanto. também. p. o inacabamento e a falta e. p. Não se trata. cit. 133 Para além de uma aparência homogênea. o ponto de partida.. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". segundo o próprio Maffesoli. Michel. O reconhecimento da diferença é. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. não pode ser equacionado. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. Quanto ao primeiro. nessa recusa em negá-la. Michel. Michel.. “Quanto a nós. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil.. priorizar o estilo. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. na própria introdução da obra. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. de apresentar os fatos e ligá-los. op. de modo didático ou para a clareza de exposição que.Uma vez que. Importa. Enfocar o vivido. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . os riscos de seu empreendimento. 30. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. 134 MAFFESOLI. no quadro de uma ideologia produtivista. cabe então. 39. cit. mais do que nunca. por si só. é constituído pela vida. p. Michel. op. 133 MAFFESOLI. como fica manifesto nessa introdução. o vivido que. analisá-las em si. 28. continua não havendo nada de novo sob o sol. Maffesoli não deixa de enumerar. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. MAFFESOLI. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. 134 Nessa busca da diferença. tentando equacionar aquilo que. cit. quanto ao segundo. por sua vez. 132 Por outro lado. até certo ponto. 28. p. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. no entanto. op. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. ou talvez fosse mais correto dizer. que se pode mesmo. desse modo. op.

então. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. quais os meios postos em ação. 138 MAFFESOLI.. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. para elucidar tais questões. nada mais é do que um fenômeno recorrente. nesse sentido. A socialidade. queiramos nós ou não. um fértil campo de análise. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. 51. contemporaneamente. Compreender a ideia de socialidade torna-se. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. p. Chittó Gauer . ganha aqui um caráter mais específico. 136 Compreender.. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. cit. A partir desse último termo tem-se. portanto. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. sendo que a sua utilização. cit. fragmentada. embora relacionada ao conceito freudiano. cit. A revolução serve.entendimento das pulsões que. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. op. apud Michel Maffesoli. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. para Maffesoli. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. então. 41. Michel. assim. 138 A revolução. em outros termos. MAFFESOLI. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. uma vez que diz respeito ao fato social em si. op. o autor de A violência Totalitária irá. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. 108 Ruth M. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. op. Michel. 41. por meio da reforma. 137 MAFFESOLI. emprega o termo em diferentes momentos da obra.. p. se fazem presentes no vivido. a função unificadora do Estado e aquilo que. Temos. portanto. em última instância. para reativar e revigorar a socialidade. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. p. não se deixa reduzir à simples razão.

. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. 139 Nessa perspectiva. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. já analisadas por muitos autores. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. os elementos constitutivos do fato social. para o autor. por si sós. É na conjugação das diferenças que. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. em primeiro lugar. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. nas palavras do autor. situadas na própria manifestação da socialidade. de um modo ainda mais específico. As críticas ao racionalismo instrumental. No exame do processo revolucionário. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. que não são e nunca serão. 95. afirma que “a revolução não é. pp. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. 139 MAFFESOLI. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. Ao analisar. A potência. cit. por sua vez. o Marxismo. 64. op. Michel. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. mas mudança de velocidade”. então. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. Reformas e revoluções estão. Desse modo. para Maffesoli. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. mudança de estrutura. 124. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência.

por sua vez. O dinheiro na sociedade moderna. melhor seria dizer essa interdependência. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. o progresso”. 193. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que.instrumentalizando a razão. a pulsão de esperança. tal 140 141 MAFFESOLI. 243. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. op. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. Logo. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. à perda de solidariedade orgânica. cit. 156. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. por um lado. 282. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. entretanto. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total.. agora segundo Dumont. nesse sentido. Chittó Gauer . capture-se a dimensão do ato criador. a primeira objetiva “amoedar o divino”. para tanto. 281. op. O totalitarismo seria. Se. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. ou seja. pp. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. 159. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. Michel. desse modo. cit. Ainda que não redutíveis entre si. essa unidade. 110 Ruth M. pp. por um órgão centralizador. MAFFESOLI Michel.. será obtida de cima. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. 281. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. 140 a segunda “amoedará.

permite uma margem de liberdade pessoal. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. 142 completa o estudo sobre a violência. (Orgs. Simmel e a modernidade. 12. Brasília: UnB. Segundo Kuhn. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. 39. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. segundo a visão de Simmel. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. isto é. como liberdade de movimento. pp. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. O aspecto subjetivo. 10. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. dependência de muitos x dependências de poucos). e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. ou seja. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. 38. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. 1998. Tal como 142 SOUZA. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. Liberdade. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. cética relativamente ao poder das teorias. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . Jessé. há muito anunciado por Thomas Kuhn.). dinheiro. uma ideia força na visão de Baumer. No entanto. 33. porventura. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica.como analisado por Simmel. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). OËLZE. A questão da liberdade. da autonomia tanto social como individual. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. Berthold. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea.

nascida no seio da liberdade. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. As políticas da razão. A análise resgata elementos de toda a percepção. São Paulo. op. 88. Chittó Gauer . 145 BERGSON. 145 posto que percepção é memória. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS. e. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. Martins Fontes. repara-se mais nelas”. pp. 83. Para além destes aspectos. A lucidez é um produto de crise. qual seja. modificam o organismo. 89. Rio de Janeiro. Lisboa. 92. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. cit. Como sustenta Bergson. Deve-se considerar. se fixam e se alinham nessa memória. 91. Edições 70. pp. Matéria e Memória. ed. 2. conforme Polanyi. Após uma visita à Rússia. 1993. 1999. Para Bergson. 112 Ruth M. quando um novo paradigma. Isabelle. “o registro. é conquistada e não se pode considerar normal. pp.refere Stengers. tornou-se refém da norma. 2003. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. 102. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. A lógica da liberdade. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. na medida em que as imagens. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. prolongando-se em ação nascente.. Henri. criam no corpo disposições novas para agir. POLANYI. 146 BERGSON Henri. Michael. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. no entanto. pela memória. 11. “uma forma mais elevada de análise”. os movimentos que as prolongam. 90. uma vez percebidas. 101. que a pesquisa. Topbooks Editora. p. deduz. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”..

ela conservará para a memória seu lugar e sua data. a primeira parece. isto é.imediatamente perfeita. Das duas memórias que acabamos de distinguir. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. ser efetivamente a memória por excelência. 2007. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. pois coloca em xeque a base epistêmica. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. gera resistências das mais variadas formas. calcada na razão moderna. a lembrança aprendida. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. Rio de Janeiro. portanto. Ruth M.). Sistema penal e violência. “Criminologia e interdisciplinaridade”. Salo. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. organizá-los entre si e. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". Esse hábito. O contrário. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. montando um mecanismo. tornar-se-á cada vez mais impessoal. Lumen Juris. criar um hábito do corpo. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). aliás. Chittó Gauer (Org. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. cada vez mais estranha à nossa vida passada. CARVALHO. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. No entanto.

este é. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. 12. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. Assim. fundada sobre normas racionalmente criadas. 10. Lisboa. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui.. mas porque acreditam nele” 149 . aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. cit. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. 3ª ed. op. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. Presença. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. obediência livre. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. pp. o processo de criar poder. O político e o cientista. Chittó Gauer . É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. fundamentalmente. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. WEBER. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Para o autor. Max. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. 1979. p. 11. 148 149 WEBER. via de regra. 114 Ruth M. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. portanto fogem à racionalidade. Max.

Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. como elementos de um segundo discurso: o mito. São significativos dentro da narrativa. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. é diacrônico. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. que são frases ou orações mínimas que. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. alude ao que passou. combinatória. Em um nível mais baixo. Otávio. ao mesmo tempo é idioma. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . op. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. sintática. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. e em um segundo nível. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. onde cada mitema designava um feixe de relações. O mito é fala. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações.. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. Busca uma lei geral. por sua posição no contexto. seu tempo é irreversível. 23. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. formal. Para comparar mito e linguagem. p. e ao mesmo tempo pré-significativos. cit. estrutura fonológica. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. Este se decifra por meio da linguagem.

Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. esta é apenas uma das variantes da estrutura. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. O estruturalismo não pretende explicar a história. Anna Freud. Principalmente nos Estados Unidos. mais especificamente. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. 151 Ver KARDINER. Assim. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. então em franco desenvolvimento. Ralph Linton e Cora Du Bois. Fondo de Cultura Económica. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. Tornou-se claro. Durante os anos 30. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. Sándor Rado. 1955 e El Individuó y su Sociedad. tal foco de atenção teve notório destaque. Juntos. Harry S. Sullivan e outros. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. nessa atividade interdisciplinar. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. entre o incesto e a adivinhação. México. por outro. para alguns. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. 1945. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. entre os quais Ruth Benedict. Fondo de Cultura Económica. 116 Ruth M. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. Abraham. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. Chittó Gauer . México.

em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. ob. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. 152 Embora os antropólogos. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. para las diversas familias que forman dicha sociedad. portanto. difieren de una sociedad a otra. sino más bien a los sistemas proyectivos.. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. constituídas como faces especulares da mesma realidade. fixados apenas de modo filogenético e.. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. além de serem diferentes entre si. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. Abraham Kardiner.. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. Así. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. elaborou o conceito de personalidade básica. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. Os comportamentos humanos não seriam. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. hipoteticamente. en otras palabras.se a humanidade. por motivos compreensíveis. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. pp. cit. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas. aunque nunca idénticas. secundado por Ralph Linton. por outro lado observou-se que as culturas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 . Foi a partir dessas considerações que Kardiner. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. 8-9.

Franz Alexander e Helen Ross. para bien o para mal. dogma. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. por exemplo. ou seja. debe decirse que la antropología estadounidense.. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. fé e crença. Kluckhohn. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. No entanto. citado por Henry W. Chittó Gauer . Antes de comentar esse aspecto.. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético. p. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. 1958. durante a década de 30. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos.. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo. como duas disciplinas relativamente novas.. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. durante los últimos años. Não teoria. Editorial Paidós. portanto. como se sabe. 469..desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica.. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. por sua vez. C. 153 118 Ruth M. a psicanálise e a antropologia. Fromm y otros) han ejercido. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner.. como. Kardiner. As defecções de Jung. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. Psiquiatría Dinámica. Los llamados “neofreudianos” (Horney. plenas de um grande potencial. Podemos ver. Os antropólogos.. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana.trabalho “sociológico” de Freud).. 153 Este psicanalista conseguiu obter. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. Del estudio de la bibliografía antropológica. Adler. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. No entanto. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção.. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. Brosin. mas sim doutrina. Buenos Aires. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . Ora. cit. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. Retornando à contribuição de Kardiner. Cabe não esquecer que. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. em uma acepção ampla. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. como Fairbairn e H. Sullivan. que passou a ser entendida. Assim. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. ou dar maior importância. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). por exemplo. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. adotar. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). as teorias raciais. apesar do afastamento. p. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. 47. Foi a partir dessa postura que. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. ob. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. Abraham Kardiner. predominante entre os membros de uma determinada cultura.. extremamente heterogêneos. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. neste texto. diante disso. tais dados. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. infestadas ideologicamente. em uma primeira versão. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. As instituições155 responsáveis. como sendo a típica personalidade modal. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. Desse modo. em termos mais simplificados. nas primeiras décadas do século XX. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. de certo modo.mecanismos da cultura e da psique humana.

um derivado das primárias. abrangendo instituições primárias e secundárias. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. Portanto. minorou. basicamente. as instituições secundárias. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. Por outro lado. Por isso. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. pela formação da personalidade básica. os mais variados sistemas de crenças religiosas. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. seriam destinadas. em primárias e secundárias. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. das manifestações dos mecanismos inconscientes. Chittó Gauer . a uma escala monocromática. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. por assim dizer. de acordo com Kardiner. No entanto. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. por uma relativamente obscura lógica cultural. o folclore e a religião. passaram a ser divididas. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. com os dois grandes sistemas projetivos. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. Partindo das premissas acima colocadas. sob o rótulo de instituições secundárias. em grande parte. por exemplo.mútua causação. Kardiner analisou. e “domesticada”. Tal se daria. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão.

comanche. El examen del mito. na vida dos membros das comunidades primitivas. a la perversión o la aberración. participação na vida social. mitos. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. navajos. em um escrito de 1923. 156 No entanto. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . ojibwas e outras. a contribuição de Kardiner. Como muito bem lembra Marvin Harris. Siempre que las pasiones. nas ilhas Trobriand. 378. nas culturas primitivas. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. A título de comparação. porém. puberdade. indução à afetividade. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. sistemas projetivos e outros. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje.do criador da psicanálise. al igual que en el folclore de estos nativos. 157 Como se vê. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. Malinowski já havia percebido. quase com pretensões de exclusividade. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. Siglo Veintiuno.. matrimônio. Porém. todo um conjunto de crenças religiosas. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. pomo. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. 1985. afirmou Malinowski. em si não ofereceu novidades. e igualmente el de la magia muestra (. alor. Cabe observar. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. disciplinamento precoce da sexualidade. tapirapés. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. p. Marvin.. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos.) el odio reprimido contra el tío materno. observe-se que. por las costumbres y por las sanciones legales. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. isto é. tanala. rivalidade entre irmãos. Assim. fatores de integração social. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. los cuentos de hadas y las leyendas. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. Madrid. Una historia de las teorías de la cultura. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. 157 Citado em HARRIS. indução ao trabalho.

principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. nestas culturas urbanas. Se estas oscilaram. em princípio. cabe registrar que. Chittó Gauer . de certo modo. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. assim como. ou pelo difusionismo que. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. por assim dizer. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. pela maioria. obrigações. Considere-se. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). continuam oscilando. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. às causalidades registradas. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. direitos. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. O selvagem passa toda a sua existência. qualquer indivíduo. Entre estes. de certo modo. além desses aspectos. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão.

Ao mesmo tempo. por conseguinte. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. mais urgente. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. a realidades construídas coletivamente. não era de forma alguma aparente como posicionar (. Artes Médicas. suas origens. Assim. XII. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. 1994. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica..papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. p. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). pelo fato da importância atribuída à cultura e. e MITCHELL. do qual Freud é um dos grandes tributários. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. significados e distinção não eram. Em trabalhos posteriores. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . como Fairbairn. Deve-se lembrar que Freud. Assim. a partir de múltiplas individualidades interatuantes.. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. por exemplo. As relações objetais tinham que ser explicadas. em parte. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. de forma alguma. 158 Portanto. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. Neste ponto. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. e os objetivos de qualquer atividade mental. autores da área psicanalítica. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. para atraí-la a um âmbito próprio. Porto Alegre.

assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. pode-se entender que a maioria deles. Nas análises das autoras citadas. E. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. No entanto. por esse último modelo. que a ortodoxia freudiana. em grande parte. o modelo primordial de “busca do objeto”. como já foi colocado. Chittó Gauer . Isso não quer dizer. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. surgem posições. no âmbito da teoria psicanalítica. ao mesmo tempo em que se estabelece. H. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. Sullivan e vários outros tentaram dar. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. onipresentes nas comunidades primitivas. K. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. é claro. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. Fairbairn. portanto. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. muito antes disso. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. certa primazia às relações objetais. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. Horney. para a criança.). Ora. A opção. as marcas da personalidade grupal. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. de fora para dentro. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). Desse modo. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. por ex. ou seja. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. Fromm. realizadas por Mead. em detrimento. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões.(com os objetos externos) na psicodinâmica. De fato. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. os grupos familiares. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. e o trabalho 124 Ruth M. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano.

Para esse assunto. do extraordinário. com grande destaque. examinado por Margareth Mead. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. 1969. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. Assim. Lisboa. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. Tratado de História das Religiões. devemos lembrar o pluralismo das representações. 129-296. fortificando e atenuando. Sexo e Temperamento. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. seria o da proibição do incesto. Martins Fontes. o diferente. ver Margareth Mead. Nesse sentido. na Nova Guiné. 160 ELIADE. ob. ver Cora Dubois In. como já referido anteriormente. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. 1970. na personalidade do indivíduo adulto. posteriormente. Em Alor. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. passam a pensar no outro. em Totem e Tabu. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. Mircea. pensado às vezes como o “novo”. Abraham Kardiner. as primeiras fases de socialização. nesta pergunta. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. p. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. Gilbert. Para isso. por meio de um duplo movimento. São Paulo. do novo.. 159 Lévi-Strauss.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. 1997. Cosmos. de gerações e de linhagens. São Paulo. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. Assim. temido ou fértil. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. Editora Perspectiva. como características típicas. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. fundador da sociedade humana. focalizando. 161 DURAND. Tal evento originário. nos antagonismos. das convicções ou das situações desestabilizadoras. 48. pp. a troca restabelece. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. Como diz Eliade. eficaz. para Lévi-Strauss. a diferença. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. puderam ser verificadas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . afirma a existência de um evento originário. “o que é escolhido é implicitamente forte. cit.

um não existente para si mesmo. o estudo das organizações.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. entendê-lo e descrevê-lo. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. Merton. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. Para compreender tal fato. não apenas para observá-lo. Frente a esse quadro geral. 126 Ruth M. mas para apreender os limites de sua própria diferença. Petrópolis. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. Entre Nós. encerrado na totalidade pela qual é constituído. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. mas simultaneamente se complementa com ela. na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. 1997. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. Este é um cosmopolita. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. Marshall B. Vozes. a interioridade se opõe à exterioridade. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. Sob este aspecto. 162 LEVINAS. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. É grande o número de autores que poderiam ser citados. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. Emmanuel. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. Para o ser pensante. que foi erigido como categoria autônoma. Chittó Gauer . o incógnito. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. Ensaios Sobre a Alteridade. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. Ao falarmos sobre alteridade. da educação e muitas outras áreas. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. das instituições. do direito. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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com ela. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições.primogenitura. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). Nos exemplos de casamentos entre irmãos. a irmã. uma monstruosidade. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. entre elas.. Quer sejamos críticos ou liberais. ninguém pensa em proibi-la. uma transgressão que provoca horror e repulsa. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. Claude. e na forma metafórica o abuso de menores. os tios. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. 130 Ruth M. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. Chittó Gauer . quando ocorre é visto como inaudita. em um plano diferente. o pai. Se por um lado a natureza impõe a aliança. entre outros parentes próximos. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. essa proibição não é verbalizada. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. por outro não a determina. pp. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. cit. e de maneira significativa. as metamorfoses das normas sociais. o irmão. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. op. 48-49. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição.

o homem tornou-se problemático e não apenas bom. A ser assim. Franklin L. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. não se trata de discutir a sua exclusão. 1952. ou um movimento psicanalítico. escrevia em 169 POUILLON. mas todos os domínios do intelecto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . que afetou não só a ciência. Se. entre outros temas do mundo da academia. incluindo a literatura. 123127. “Na verdade”. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. John Galsworthy. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. 170 Apud BAUMER.norma. Para Pouillon. Raça e história. positivismo. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. II. Jean. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. o universo passou a ser misterioso. ao invés de diminuirmos as funções da norma. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. Lisboa. Lisboa. trata-se de constatar que. existencialismo. Cheguei a mim”. 1990. mau ou indiferente. assumem significados sociais diferentes. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. O pensamento europeu moderno. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. v. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. disse Mann. surrealismo. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. na contemporaneidade. as questões teológicas passaram a não ter sentido. além de deslocamentos contínuos. Edições 70. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. hierarquias variáveis. pp. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. a arte e a religião. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. In. Claude Lévi-Strauss. a natureza tornou-se longínqua. Presença.

sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. pois não se tratava de uma regra científica. Assim.1926: “Como agora tudo é relativo. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. que se aprofundou no século XX. examinados sem pressuposições matemáticas. Lisboa. para fixar as ideias. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. nas palavras do autor. a recíproca não era verdadeira. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. Abril Cultural. ela apenas o exprime numa outra língua”. Edições 70. no casamento. Franklin Leopoldo Silva. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. pp. no livre comércio. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. Chittó Gauer . Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único.58. o homem é inominável. v. 1974. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. Henri . 49. Trad. Há uma verdadeira descrença. O pensamento europeu moderno. São Paulo. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. Assim. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. II. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. Dado um fato psicológico. nas diferentes formas de energia. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. Entretanto. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. mas de uma hipótese metafísica. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. Contudo. desenharia as articulações motoras dele. nas classes sociais”. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. Apud BAUMER. 172 171 132 Ruth M. Os Pensadores – Cartas. Os fatos. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. Conferências e Outros Escritos. BERGSON. 1990. nos títulos da dívida pública. Franklin L.

representam duas noções do real. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. com efeito. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . Henri. op.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. cit. O realismo repousa na hipótese inversa. Somos aqui 173 BERGSON. por uma mágica intelectual inconsciente. enfim. em termos convencionais. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. entre dois sistemas de notação. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. podemos escolher. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. desdobrada e articulada no espaço. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. oferecida pela consciência humana. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. Em suma. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. As palavras realismo e idealismo.

O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. Para o idealismo. uma vez de posse do estado cerebral. suprimir. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. sugere-nos. não poderia. 134 Ruth M. sendo ele uma representação. pois o problema em pauta. Henri. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo.naturalmente mágicos. Bergson concebe. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. 174 BERGSON. na hipótese idealista. contudo. cit 58-59. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. que determina a percepção do consciente. numa representação”. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. pela sua própria colocação. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. op. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. representação. Chittó Gauer . todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. por um golpe de mágica.

Lisboa. erigimos. no espaço. Conservamos o cérebro tal qual é representado. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. p. o quadro que responde a todas estas faltas. e vê. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. sobre a paleta. as respostas outras a outras faltas”. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. Oscilamos. isto é. 1997. se o real está desdobrado na representação. estendido nela e não contraído nela. O olho e o espírito. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo.Aprofundando os dois sistemas. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. mas esquecemos que. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. de alguma forma. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. a cor que o quadro espera. a nossos olhos. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. uma vez feito. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . sem se alterar. para perceber o universo. Grafilarte. e. então. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. 25. pois. e vê os quadros dos outros. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e.

136 Ruth M. da parte com o todo. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. e a razão prática.parte de outra. A Invenção do gosto na era democrática. termos em que a ética moderna se formulou. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. Então. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Homo Aestheticus. Almeida. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. a ser exterior ao homem empírico. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. o si próprio e a norma. portanto. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. continua. ou um movimento psicanalítico como referi no início. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. enfim. isto é. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. Coimbra. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. Chittó Gauer . Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. entretanto. e que os dois termos são. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. p. Segundo Luc Ferry. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. 286. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. intercambiáveis”. 2003.

o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. o hedonismo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 .

Publicações Europa-América. da neurociência. neutralidade e generalização. e muitos outros. as teorias desenvolvidas por Einstein. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. cabal. entre outros. é possível concordar com a ideia de que a ciência. O Erro de Descartes. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. é cega a respeito de sua própria aventura. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. Lisboa. O fim das certezas chegou ao campo da física. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. via de regra. Há muito de crença nas verdades científicas. As tradições políticas modernas. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. 138 Ruth M. universal e eterno. no entanto. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. objetividade. Neste sentido. além de elucidar. 2000. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. Não é por acaso que somos. desde seu início. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. A experimentação trouxe a primazia da técnica.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. da matemática. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. pelo menos de forma substancial. Sob esse enfoque. Max Planck. As emoções e os sentimentos. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. 177 DAMÁSIO. Antônio R. Chittó Gauer . Prigogine. O conhecimento foi tido como absoluto. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade.

de forma precisa. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. ed. 178 O autor descreve. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. ao perder o poder político que o caracterizava. Hans. próprio da modernidade. 180 SÁ Alexandre Franco de. responsável pela construção do estado moderno.. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. No fundo das aparências. Teoria Pura do Direito. Petrópolis.. Michel. é que permite a emergência de um poder total. Trata-se do estado liberal. 1996. 2004. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . que afirma: "não é o estado que é soberano. Coimbra. Metamorfoses do poder. O Político e o Cientista. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. 1919) foi aceita pelo autor. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. podemos afirmar que o cientista. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. Vozes. foi o jurista. (Coleção Sophia 002). assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. Esse estado. 1979. 121-122. 178 179 WEBER. Trad. A ideia moderna de estado (Krabb. Ariadne Editora. Seguindo as reflexões do autor. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. Max. 30-31. pp. Presença Ltda. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. 4. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. mas o próprio direito". E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. neutro e liberal.mas também o culto das instituições. Coimbra. principalmente das instituições jurídicas. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. 181 MAFFESIOLI. Lisboa. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. João Baptista Machado. apagou a estética do mundo delimitado". Armênio Amado. KELSEN. pp. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. 1979.

índice de si mesma. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. que está inserida nos aparelhos de estado. constitui-se. No entanto. Fernando e MARTINS. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. racionais e mecânicas. racionais. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. Modos da Verdade. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. p. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. In. de Duns Scot a Husserl. Mesmo os fatos mais evidentes. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. v. como diz Rui Cunha Martins. como tentativa de eliminar a sacralidade. mas que assumiram uma verdade. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. A soberania das formas institucionais. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). 2002. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. O exemplo da soberania. em sentido quase estrito da linguagem. 19-20. Revista de História das Ideias. o princípio secularizador. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. portanto. 182 140 Ruth M. GIL. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. 23. notórios. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. Chittó Gauer . a exemplo do estado. é. Esta verdade é excessiva por natureza. matrizes da sociedade ocidental moderna. A evidência. portanto. 182 é uma alucinação dos sentidos. Porém. Rui Cunha.

mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. Lisboa. In. 184 fruto da multiplicação. e transformação contínua nos sistemas culturais. 1999. GIL. O tempo do direito. Esse é um problema geral para os governos atuais. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. vista mais especificamente como criminalidade. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. a violência. 23. nas ciências do direito". Já não se acredita no devir. um tempo diferente do tempo da segurança. denuncia a impotência do Estado. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. Piaget.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. 26. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. p. é "celebração móvel". Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. que não consegue cumprir o seu projeto. em que o caráter problemático dos fins. tal como analisada por Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 185 OST. no qual prevalece o estado de direito. Rui Cunha. 1997. Revista de História das Ideias. Na tramitação do processo. De modo geral. Stuart. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. o conceito de justo (conceito relativo. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. François. DP&A. O sentido da racionalidade é sempre esse. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . Fernando e MARTINS. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. que nos aproxima ao estado de natureza. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". A identidade polarizada. v. 2002. Rio de Janeiro. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. Modos da Verdade. Como se sabe. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. 184 HALL. por outro lado.

vista como uma inversão temporal. O tempo da segurança. A produção normativa. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. separou ciência e política. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. gerando ora a comunhão. Qual seria o remédio. O direito deu lugar à relação frente a frente.Frente a essa complexidade. e. ora a violência. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. própria da modernidade. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. portanto. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. tal como se acreditava nos séculos passados. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. marcado pela racionalidade falível. assim como todos os campos de saber. A dicotomia sujeito-objeto. Chittó Gauer . do estado de direito já não existe. bem como a duração dos códigos e das instituições. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. que deve ser (re)questionado a todo instante. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. No entanto. dos meios e dos resultados. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. ciência e direito. novas questões se fazem presentes. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. principalmente no campo das humanidades.

Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. cit. Derrick de. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. ou seja. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. sentimentos. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. polifacetadas. A heterogeneidade. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. Sua análise continua. 1997. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. Um dos problemas no mundo globalizado. op. Importante observar a conotação dada. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. ambíguas. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. 187 KERCKHOVE. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. Lisboa. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. Relógio D'Água Editores. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. Ao tomar-se o real pelo real. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. todos carregados de violência. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . impossíveis de mencionar em sua totalidade. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. Derrick de. em suas múltiplas faces.

questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. 144 Ruth M. revela que não sabemos mais qual é o caminho. Chittó Gauer . Rio de Janeiro. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. trazem informações sobre a violência subterrânea. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. no entanto. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. A violência relatada de forma emblemática. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. O evento. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. 1987. não tão visíveis. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. Michel. revelam apenas uma das faces da violência. Brasiliense. Outros eventos. Forense Universitária. 1988.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". São Paulo. O Tempo das Tribos. 188 MAFFESOLI. representa. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. uma passagem decisiva. em sua velocidade. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. Ver ainda O Conhecimento Comum. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. principalmente do supérfluo. nesta leitura. Ao lado destas questões inquietantes. tal como referido por Kerckhove. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. Esses fatos. mas continuamos caminhando. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. O mundo sem dinheiro.

“isto que a realidade era. Entretanto. pp. segundo Lewis. Lisboa. O pensamento europeu moderno.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. COLLINGWOOD.. no 189 190 Apud BAUMER. I. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. fazendo-as correr. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". Lisboa. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". mas sem metas fixas. Franklin L. Nele pode-se ler. Como afirmaria Collingwood. a filha instável do pensamento positivista. op. cit. Essa doutrina do tempo é. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. que iniciou em fins do século XVIII. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. a velocidades cada vez maiores. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". além da preocupação com a instabilidade. G. tal como os futuristas queriam que fizessem. Edições 70. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. o produto da ciência. 24-26. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. No entanto. ou seja. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". uma história. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. 191 KERCKHOVE. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. O termo. A Ideia de História. um devir. Derrick de. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. adverte o autor. levado a efeito pelo historiador. p. 88. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. R. v. integralmente dinâmico e nunca estático. bergsoniano. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". um processo dialético sem fim. na literatura e na arte. a busca de uma racionalidade. 1990. s/d. no mundo einsteniano. Editorial Presença. segundo este ponto de vista. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos.

uma vez que o fluxo é desequilibrado. mais ficamos conscientes das identificações locais. Por mais paradoxal que possa parecer. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. tal como visto no início do século XX. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva.entanto. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. O impacto global cria. A lógica da globalização não se concretiza. continuamente. mas nem sempre com sucesso. e mais as protegemos. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. é esse o paradoxo da aldeia global. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. Porém. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. Quanto mais noção temos da globalidade. Chittó Gauer . Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. o novo interesse pelo local. principalmente do poder do estado. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. não há treino para o comportamento social e coletivo. Há várias formas de se falar sobre globalização. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. Ainda somos.

instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. Por outro lado. vê-se face a face com a cultura "alienígena". a transformação e o perigo. etc. na verdade. a mistura. Ocidente & Oriente. prioridades das formas de vida do ocidente. a impureza. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. do império do ocidente. o capitalismo global é. Kevin Robins lembra que. com seu outro. ao mesmo tempo.desiguais de poder entre Norte x Sul. o absolutismo do puro. que. Assim. exótica. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . diáspora. Trata-se de um desencontro cultural. valores. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. deslocamentos de fronteiras. com a diferença. desigual.

op. p. 13. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. A estrutura das revoluções científica. São Paulo. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. Thomas. 31. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. Thomas. 30. p. cit. antes de mais nada. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. cit. para o autor. 1982. ela é. 194 KUHN.XIV Norma. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. porém não podemos considerar como tal. durante algum tempo. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. op. Thomas. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. 5. 148 Ruth M. Thomas. Perspectiva. 195 KUHN. 23. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. 193 KUHN. 53. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. Chittó Gauer . p. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma.. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. cit. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. Para o autor. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. op. p.

a plena afirmação de si próprio. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. coloca-os daquele modo. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença.. 2003. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. Por outro lado. um sistema de leis 196 197 POLANYI. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. Michael. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. cit. mas sim lograr a expressão da personalidade. 242. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. Topbooks Editora. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. Michael. de forma intencional. p. Na análise sobre liberdade. desejos consciente ou inconsciente. nós. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. Polanyi. na obra de Polanyi. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. POLANYI. instintivamente. Rio de Janeiro. 291. p. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. supomos que alguém.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. A lógica da liberdade. 196 em A lógica da liberdade. lemos. op. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 .

assim como não resistiu ao charme do limite. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. Temos. com sua imagem de indivíduo-átomo que. ultrapassa a própria lógica da liberdade. distingue-se dos outros. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. intelectuais. o primeiro não. no entanto. mas sobre os que não podem se proteger dela. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. Tais desafios. o pensamento falante manobrável tentou. que não permite eliminar o poder e a punição. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. O inconsciente. por outro lado. com sua independência. seja um sistema de ordem espontânea. portando organizadora. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte.contratuais que garanta essa situação e. Para isso. O século XXI vê-se frente a desafios morais. tal como colocado por Freud. entre outros. empenhada em espezinhar a razão moderna. não eliminou a banalidade do universal abstrato. reflexo do ser-conjunto. éticos. É importante salientar que essa distinção. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. Neste sentido. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. estrutura das sociedades simples e antigas. por ser único. assim como fez Freud. Chittó Gauer . precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. ao mesmo tempo a liberdade. no entanto. que pensar em deslocamentos. dar uma logicidade ao ilógico. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M.

pobreza. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. No entanto. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. privilégios. tanto as de repressão. poder. que se revelam como explosões de inquietação. Os antagonismos revelam-se. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. A estrutura perene de nossa história. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. hierarquia. perversidade. etc. A diferente face da desagregação social aparece. desagregações. é stricto sensu a desestruturação social.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. em atos de violência. insatisfação. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. diferença. pandemias. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. como as de coerção. epidemias. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. vista como a negação da independência. não podem ser interpretadas de forma linear. o mundo como progresso. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. Os dados científicos. geralmente. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. com a conotação moral que a envolve.

os fins que ambiciona. ela está fundada sobre dois alicerces. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. No entanto. 199 BOBBIO.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. 71. como poder controlador e limitador da violência. Brasília. cit. 1984. Assim. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. na medida em que é condicionada. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. enquanto ação socialmente intersubjetiva. Chittó Gauer . ao mesmo tempo a liberdade. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. nessa situação. 198 152 Ruth M. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. não é. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. O direito seria um regramento entre subjetividades. alienígena da sociedade. seja por um sistema BOBBIO. Direito e estado no pensamento de Kant. op. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. Norberto. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. Editora da Universidade de Brasília. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. Norberto. 72. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. Já a vontade jurídica. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. p. mas sim entre os arbítrios dos homens. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva.

ultrapassa a própria lógica da liberdade.jurídico pelo qual se administram as leis. seja um sistema de ordem espontânea. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .

a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade.) este mundo civil VICO.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume. Os Pensadores. trad. assim. violência. como é sabido. que são as duas fontes do direito natural das gentes. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. Se há alguma novidade. 200 154 Ruth M. 1974. Segundo o autor. (. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. Chittó Gauer ... uma emergência que. incertíssimo por sua própria natureza. Seleção. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. Além disso.. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. Em termos de uma transgressão necessária. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. a velocidade e a crise de valores. Abril Cultural. o da busca de valores. simultaneamente. de Giambattista Vico. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. dentro de âmbitos que são. Giambattista. batizada de civilização dos indivíduos. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. Caracteriza-se. acerca dos problemas acima mencionados. nunca deixou de estimular. afinal.. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). quando inerentes à modernidade. São Paulo. já muito antiga.XV Juridicidade. 200 é possível iniciar esta reflexão. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. a sua própria transgressão. “O humano arbítrio.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

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BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. pp.. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. cit. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. LYOTARD. 158 Ruth M. hoje. o homem possui um cérebro temporário e improvável. ao fim e ao cabo. Lisboa. Convivemos. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. assim como das tradições. Michel op. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. criado pelo modelo Iluminista. Jean-François. dá lugar a uma estética do nós. trabalhado por Maffesoli. 15-28. a memória de ninguém. Logo. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. Por outro lado. 69-70. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. Estampa. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). 1998. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. Este conceito. fascinantes. é a era da globalização do homem. O Inumano. diversos. velozes. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. A 206 207 MAFFESOLI. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. talvez. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. de resgate de sociabilidades perdidas. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. com capacidade máxima de síntese. pp. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. átomo perfeito que lembra Deus. Chittó Gauer . Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada.identitária.

Emmanuel. 210 LÉVINAS. 11-39. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. Rio de Janeiro. mas sim a celebração do hibridismo. que traz novas e inesperadas combinações culturais. Vozes. do local de nascimento e do Estado nacional. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. A inércia polar. Paul. do local de habitação. (Org. simultaneamente. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações.busca desse homem hoje é o grande desafio. 124-125. Paris. p. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. Ensaios sobre a alteridade. a origem e o fim. 36. muito embora seja indispensável como ponto de referência". pp. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história.). como centro de referência. 1997. tempo-luz). La Identidad. Publicações Dom Quixote. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. Grasset. Como lembra Lévi-Strauss. Lisboa. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. LÉVI-STRAUSS. da impureza. pp. VIRILIO. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. todavia. 1993. 209 em suas conclusões sobre identidade. as quais produzirão um novo eu. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. Claude. A estrutura dessas relações sociais exige. 1977. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. da mistura. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. Entre Nós. é para ela que nos encaminhamos”. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. e.

assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. a morte da identidade construída por meio do individualismo.de cada indivíduo. ou até à absorção por esta. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. Publicações Europa-América. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. EPU/EDUSP. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. Lisboa. vista como a condição natural. Marce. do tempo cíclico. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. 160 Ruth M.. etc. uma entidade transitória. da produção. Sociologia e Antropologia. no entanto. para muitos. estaria desaparecendo. pp. 1974. 39-49. Nesse sentido. fragmenta a sua imagem. superando a análise kantiana. está ligada à ideia de identidade. no processo de modelagem das relações sociais. No entanto. e assim. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. II. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. No ensaio sobre a dádiva. transformando-se em um modelo de simulação. 1995. porém. é um aumento de todas as formas de violência. Chittó Gauer . poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. o que leva a uma sensação de morte. O que vemos. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. da destruição. São Paulo. A ideia de perder a identidade. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. configurando a identidade nacional. Nossa noção tradicional de self. v. 212 MAUSS. António. maior prudência. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. perde seu sentido. Razão e Cérebro Humano. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. O Erro de Descartes: Emoção.

214 Pelo contrário. Estas fases. pp. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. 1998. O dinheiro. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. A ética. 22-30. que é impessoal como as leis. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. Nesse sentido. 214 LIPOVETSKY. Gilles. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. O paradoxo. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. em qualquer caso. assim como outros ramos do saber. Brasília. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . Berthold. (Orgs. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. pp. outras “assumem significados sociais diferentes”. E por ser deveras custosa essa tarefa. cit. tem uma história. Dentro desta perspectiva. e que pode ser a medida de todas as coisas. por essência liberal e pragmática”. OËLZE. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. devem ser questionadas. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. porém. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. que vai até o Iluminismo. op. Jessé. Portanto. Por tratar-se de um fato social. vulgares. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. 32. A verdade moral está na Bíblia. Editora da UNB. fundador do individualismo. Simmel e a Modernidade. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas.. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. finalmente coisificou o humano. nos mandamentos divinos.). 25-30. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra.

o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. A própria velocidade. A 162 Ruth M. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. 3) A terceira fase da moral. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. O caso brasileiro não é diferente. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. não se prestam a nada). O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). No Brasil. família. o bem-estar individualista. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. e pensamos que seja ainda mais grave. Chittó Gauer . o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. a própria dignidade. sindicato. fraude fiscal). entre outras). Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade.racionalidade). se não são uma felicidade. o ego. que Lipovetski chama de pós-moralista. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. que promove o presenteísmo. encarrega-se de dissolver as permanências. pode ser indicado para a maioria dos países. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). remuneração escondida. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. escola. estimula os desejos. entre elas. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal.

as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. apesar de estar fora de moda. o valor da renúncia suprema a si próprio. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. cit. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. Para o autor. Existem em França dois milhões de voluntários. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. enquanto tal. pois não estamos no grau zero dos valores morais. da História. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. limita e impede a própria liberdade. Por fim. 34-37. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. da Pátria. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. ao que dizer que. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. de vez em quando. ou seja. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. em uma lista de 17 qualidades morais. o caso da Madre Teresa. a moral a la carte “não é a ideia do dever. pois. que já não acredita no futuro. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. do Partido. como exceção. que se afunda. Para Lipovetski. éticos): direitos humanos. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. Os exemplos que citamos. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. sobretudo.. Isso está deslocado no tempo. as mulheres que assim o fazem. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. Gilles. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. Mas esta é apenas uma das facetas. op. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. O autor refere que “quando se pede para destacar. honestidade. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. pp. Mas. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. Cita.000 assalariados a tempo inteiro. na nota abaixo. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. no altar da Família. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. A liberdade trava. voluntários. Na Inglaterra e nos EUA. com a prioridade incondicional do altruísmo. sendo. apesar do quadro preocupante. da Humanidade” 215. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 .

da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. As práticas da solidariedade. intermitente e. São Paulo. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. entre outras repressões. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. Gilles. que podem ser escolhidos. caracterizada pela racionalização. epidérmica. “indolores”. espetacular. a la carte. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. Lisboa: Piaget. sacrifícios altruístas mínimos. ou seja. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. ter filhos por encomenda. Há. entre outras questões não menos importantes. melhor dito. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. 57. “a moral não desaparece. no entanto. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. A era do após-dever. por exemplo. principalmente. na supervalorização das festas. Como a caridade mediática. passando à moral a la carte. 217 216 164 Ruth M. o aumento de pequenas violências no cotidiano. Duas Vocações. viver em concubinato. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). repressão total em matéria de drogas. descomprometidos. IN: A sociedade em busca de valores. No que diz respeito à violência. na cultura do presente. como honestidade e respeito às leis. p. Ciência e Política. do que de grandes cruzadas moralizantes. LIPOVETSKY. torna-se sentimental. extremismo higienista. pela intelectualização e. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. a delinquência juvenil. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. Chittó Gauer . ao mesmo tempo. torcidas organizadas. mas com a condição de que possa divorciar-se. 29. Max. 217 Como visto. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. 2000 p. o que vale é o aqui e o agora. última forma do consumo interativo de massa”. 2002. Martin Claret.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. censura pornográfica. incapazes de resolver os WEBER. A família sobrevive. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores).

1985. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. para Dumont. Nas análises. Jessé. sobretudo. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Lisboa. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. Rio de Janeiro. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. a hierarquia. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. Ao descreverem a lógica da individualização. ELIAS. Daí. OËLZE. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. A busca da excitação. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. O Individualismo. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. Louis Wirt. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Robert Ezra Park. Rocco. pragmática. ao mesmo tempo. op. produz o indivíduo na sua autonomia e. 1992. Louis. Vários historiadores e sociólogos. por outro. priorizar a ética da responsabilidade. do direito subjetivo. cit. dos valores. No entanto. por um lado. Nas sociedades SOUZA.concretos problemas sociais. Berthold. 220 DUMONT. o expõe. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. Difusão editorial. Da mesma forma. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. simultaneamente. do surgimento do direito natural. Norbert. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. os problemas da cidade. Por outro viés.). permanece. (Orgs. fundada em uma ação ético-liberal e. 218 analisam os problemas da cultura moderna. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. entre eles Simmel.

O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. com ele. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. que antes não tinha de fazer. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. 221 166 Ruth M. 730). dos grandes códigos modernos. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. a incorpora. o sustentava. Em outra fonte léxica. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. o indivíduo. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. leva-o a “opções de vida. “opções existenciais”. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. mas. 1999. da "eliminação" das diferenças. Isto é. termo de sentido filosófico que significa a tendência. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. liberta-se dela. Rio de Janeiro. porque lhe eram impostas pela estrutura social. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. p. opções morais” (moral a la carte). foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. caracterizadamente holística. São Paulo. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. No entanto. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. como projeto a ser alcançado. A nova posição. de maior precisão conceitual. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. 1986. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. ou seja. Chittó Gauer . Martins Fontes. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. supostamente própria do universo. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. 1269). p. Nova Fronteira.

O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. criou a forma mais expressiva de violência. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". A busca da igualdade. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito.]. O desafio do século XXI. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". por óbvio. No entanto. Lisboa. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". um recém-nascido. No entanto. Piaget. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. o terrorismo.poderia ser considerada igual e. Mireille. afirma: “no campo jurídico. Nesse sentido. Acesso à humanidade em termos jurídicos. Se isso fosse viável.. Seria possível pensar dessa forma na China. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. independentemente de qualquer condição. Problemas como o desvio social. [. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. possuir os mesmos direitos. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. bolsões de miséria e violência. Religar os conhecimentos. Na tradução oficial. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . ausência do estado. apenas para citar os exemplos mais conhecidos. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. 1999. e em nenhum a palavra “humanidade”. Significa qualquer Homem. Complementando a análise. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. p. Não a encontraríamos". Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. Esta noção. tal como pensado no Ocidente. embora balizada atualmente. O título sugestivo do capítulo. a humanidade é. 227. na realidade é extremamente subversiva. Da mesma forma. na verdade.. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle.

no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. Chittó Gauer . na igualdade. O discurso pensado como projetivo. 168 Ruth M. simultânea a uma realidade única. Os direitos humanos. tal como o pensamento moderno o instituiu. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. derrubou o que restava da crença na unidade. Os resquícios dos totalitarismos. não consensual. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. As diferenças se manifestam com violência.comum. A busca de um pensamento heterotópico. legitimadas pelos direitos internacionais. é eliminada pelas teorias do consenso. Para além dessa façanha. o que impede relativizar em termos jurídicos. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. eliminando os discursos dos direitos. dos direitos humanos. vêm recebendo reações diversas. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. leva ao consensual. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. em todos os níveis sociais e políticos.

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