A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .Ruth M.

br . ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. Diploma da Fundação da Universidade. 2009. CDD 340. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. Claude – Crítica e Interpretação. Arquivo. – Porto Alegre : EDIPUCRS. 6681 . 1290. Título. Filosofia do Direito. – Dados eletrônicos.com. 3. Chittó Gauer. 2. Ipiranga.© EDIPUCRS. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. 175 p.pucrs.br/orgaos/edipucrs/> 1. RS . 4.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs. Lévi-Strauss. Normas Jurídicas.br http://www. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. Direito.edipucrs. I.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre.

Chittó Gauer chitto@pucrs. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL.br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. .Ruth M.

Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa. .Para meus filhos Gabriel. minhas netas.

O mais relevante. no entanto. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. durante o período em que escrevi minha tese. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. de encontros e debates. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. meu “lar” acadêmico em Portugal. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. Quero aqui mencionar. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. fruto de uma longa convivência. a psiquiatria e a filosofia. com ênfase. . início dos noventa. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever.

............................................................... 169 .................................. 148 XV Juridicidade.................................................. 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ............................. 16 A sedução da norma: fato social total .................................. 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ........ ciência e autenticidade ....... 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo...SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ................................................................................................................................. 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora.......................................................................................... 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma .............................................. violência.... 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana.......................... 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época .................................... 138 XIV Norma.................................... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos ........................................ 154 BIBLIOGRAFIA .......... 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação.. mito e memória ....................................................................................................... 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise ................................................... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil .......................

odores. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. sentidos. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. como tradição histórica. em certo sentido. Buscou compreender o obscuro. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. sendo continuamente reinterpretado. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. de forma harmônica. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. Desse modo. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. sabores. texturas. cores. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. conciliando.

1975. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. Para Merleau-Ponty. a questão do Outro e do Mesmo. Abril Cultural. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. Maurice. 1 que. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. pois vivemos na unidade de uma só vida. Os Pensadores. o aparelho de nosso ser social. Para o primeiro. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. superando a MERLEAU-PONTY. cit. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas.Aceitando. 363-365. conosco. São Paulo. a antropologia. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. No entanto. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Sabemos que. 383-396. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. p. mas um universal lateral. 2 MERLEAU-PONTY. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. pitoresca. da diferença e da identidade. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. em antropologia. contrariamente a essa tentativa. tomando a alteridade como objeto. Chittó Gauer . então. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. distante. p. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. 1 10 Ruth M. porque diferente. Com efeito. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. rumou para as diferenças absolutas. a síntese à que ele se refere somos nós. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. no entanto. com Merleau-Ponty. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. é necessário. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. para a convivência dos incompatíveis. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia.. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. Na análise das estruturas elementares de parentesco. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. op. para um universal constituído por relações de complementaridade.

Franklin L. I. não se estabelece. que englobou a norma e. pp. como fomentadores do erro. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. Martins Fontes. O Pensamento Europeu Moderno. o fato e o valor. Fato. 39. que funciona mal no abandono do sonho. O Pensamento Europeu Moderno. No entanto. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. Martins Fontes. mais do que ser. uma espécie de contador da existência. o ‘balanço vital’. pois ele ainda reduz a imagem à memória. sem consequências. p. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. Nesta visão surge a lei. p. segundo ele. Edições 70. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. Maurice Merleau-Ponty. Paris. 39. se revela a si própria através de nós. de modo algum. Para Arthur Miller. Matéria e Memória. Henri. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. Bergson. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). Flammarion. desenvolve seu íntimo. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. conforme Bergson. um mito (grifo nosso). se mexe. 38. No entanto. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. São Paulo. destroem-na. ainda. 1997). contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. v. 290. São Paulo. p. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. ensaia uma ruptura. no sentido dado pelo direito natural moderno. As teorias que falam sobre a imagem. A desvalorização da imagem não corresponde. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. Vila Nova de Gaia. ou ainda como um objeto fantasma. 1996. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. como diferença”. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. Edições 70. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. 369-370). segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts.dicotomia sujeito-objeto. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. 4 BAUMER. 1990. 1999. Elogio da Filosofia. Na busca pela compreensão da verdade. p. v. mas esta. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. 1990. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. 5 BERGSON. isto é. para Durand. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. para além desta. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. I. Durand acredita que. No entanto. em Bergson. uma história. Sendo assim. alienando a sua função principal que é conhecer. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. Vila Nova de Gaia. Franklin L Baumer.

Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. pode se constituir em um problema. não se descolaram do conhecimento antigo.ciência. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. 12 Ruth M. As ciências humanas datam do século XIX. o que denomino humanidades. a literatura e outras. justamente a crença na “verdade” científica. Ao corpus antigo. Chittó Gauer . no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. O enfoque da diferença é. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. grosso modo. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. Partimos da premissa. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. Isso que significa que os cientistas dessa época. apenas visto como uma questão de especificidade. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. no ato de conhecer. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. portanto. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. corresponde. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. ainda que para fins de melhor compreensão. juntamente com uma visão fundamentalista. Mesmo no período iluminista. que permite a sua “evolução”. criando muitos espaços de debate. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. com a função primordial de normatizar as sociedades. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. No campo das humanidades. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. e também se constata nas ciências humanas. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas.

para um universal constituído por relações de complementaridade. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. desde os finais do século XIX. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. c) Lévi-Strauss. A antropologia. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. d) Foucault. ou seja. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. Maurice. b) Freud. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. Para tanto. basta pensarmos no século XVII. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. empírico-formais e exatas. A teoria da relatividade e a física. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. deslocando a análise do macro para o micro. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. Nos finais do século XIX. para alguns darwinistas. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. a biologia passou a explicar. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . 1975. tomando a alteridade como objeto. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. para a convivência dos incompatíveis. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. logo. Spencer e Webb. como Tylor. diminuindo. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. Para Merleau-Ponty6. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. passou a sofrer vários abalos. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. In: Os Pensadores. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. P. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade.dando margem ao inumano. A divisão tradicional entre as ciências humanas. São Paulo: Abril Cultural. assim.

de desenvolvimento semelhantes. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. o fato social não é uma regularidade compacta. e./EDUSP. de produzir-se. Na visão de Mauss 7. Contudo. I. escreve o autor. mas o homem como cimento afetivo. op. Marcel. Chittó Gauer . Ao lado desse enfoque a antropologia. porém. cit. os linguistas.P. independentemente da localização espaçotemporal. pois. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. a arte é imprescindível. buscando. logo em seguida. Marcel. 363-365. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. desse modo. Logo. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. E. 1974. o que há de exprimir não é mais diferido. São Paulo. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. O “verdadeiro”. No século XX. assim. 14 Ruth M. portanto. contraído de suas relações. o afrouxamento do método e. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. receba de outros seu sentido. é expresso pela palavra. Sociologia e Antropologia. v. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. o Não. Há. no entanto.. p. não é a prece nem o direito. incluíram o rigor das demais ciências. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. como explica Saussure.U. MAUSS. necessariamente. no apogeu do estruturalismo. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. que “por mais que a palavra. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. a negação. que se ter presente que as linguagens – palavras. no momento. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais. à civilização. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. enfim. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. que “devemos.

Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”. tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .

uma predileção por Bergson. 1977. São Paulo. dialoga com o pensamento filosófico. interesses. Toda e qualquer escolha dáse. por exemplo. ao analisarem a estrutura de parentesco. irmãos. de certo modo. norma estrutural do vínculo familiar. Saussure e Breton. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. tios. o religioso e o artístico. com base na exclusão do outro consanguíneo. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. está baseada no “fato social total”. uma desconfiança em relação à filosofia. Perspectiva. encontramos o sistema de parentesco atual. que. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. Proust. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. Toda a obra de Lévi-Strauss. Sob essa estrutura. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. podemos notar. nos autores clássicos. Otávio. que revela preferências. 8. porém. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. Chittó Gauer . a proibição do incesto. entre outros fatores. em grande parte. marcada pela liberdade de escolha. em especial com a fenomenologia e se inspira. entre outros –. sentimentos. os mitos.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. p. portanto. Mauss. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. desenvolvido por Mauss. 9 16 Ruth M. uma escolha psicológica. contudo. A ser assim. o casamento é assumido como um ato individual. presentes de forma significativa no conjunto da obra. o pensamento selvagem e a filosófica.

1975. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. Journal d’ethnographe. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. A contribuição de Lévi-Strauss. São Paulo. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown.U. 13 RADCLIFFE-BROWN. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . Marcel. 1974. SAUSSURE. Bronislaw. Dom Quixote. Ëditions Du Seuil. Poderíamos. 1985. Paris.P. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. Anagrama. 10 a presença marcante de Saussure. a pintura. I. um super-racionalismo. El método de la antropologia social. Um corte vertical. A compreensão do visível é dada pelo oculto. particularmente. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. E. pela busca da relação entre o sensível e o racional. as capas invisíveis. passagem que ocorre com a fundação da norma. a fundação da norma se dá como um processo de violência. No campo da estética. além de Marcel Mauss. Curso de linguística geral. que revela o oculto. Barcelona. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto./EDUSP. Segundo alguns de seus intérpretes. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. Alfred.a passagem da natureza para a cultura. a poesia e o mito. 1995. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. na obra de Lévi-Strauss. Sociologia e Antropologia. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). Ferdinand. 12 MALINOWSKI. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. metaforicamente. Lisboa. isto é. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. Podemos identificar. v.

Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. como uma estrutura. No que se refere à fundação da norma. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. Chittó Gauer . leis. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. classificação. O signo tem um caráter dual: significante (som). significado (sentido). sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. uma estrutura. A linguagem é um sistema de relações. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. Assim como os fonemas. desse modo. portanto. sistema sempre normatizado. economia. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. Lévi-Strauss. mas participa da significação. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. mas como um sistema marcado por coesão interna. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema.conforme a antropologia anglo-americana. Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. o historicismo e a fenomenologia. logo. pensa a estrutura como um sistema. mitologias. dito de outro modo. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. arte. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. ainda que tais leis estejam ocultas. palavra. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. O fonema é um campo de relações. O fonema não tem significado próprio. mas apresentam uma racionalidade imanente. apenas adquirem significação participando de um sistema. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. as relações de parentesco são elementos de significação. no entanto. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. o significante que precede e excede o significado. 18 Ruth M. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. Foram as ideias de Mauss. como no caso da fonologia. ahistórica. Cada sistema (parentesco. seus elementos (oração.

um conjunto de operações que transmitem mensagens. a significação e a nãosignificação. Otávio. mas consequência da proibição. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. não tendo. 14 Ao contrário de seus predecessores. como a linguagem. a regra. A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. op. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. são um sonho simbólico. carregada de interpretações filosóficas. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. de acordo Otavio Paz. em seus estudos sobre o parentesco. A proibição também não aparece entre os animais. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. uma origem biológica ou instintiva. 17. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. binária (isto sim. não origem. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. Em ambas. Para Lévi-Strauss. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. portanto. jurídicas. p. cit.religião) é um sistema de signos. Apesar das inúmeras interpretações míticas. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. o pensamento e as coisas. não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). Lévi-Strauss. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). Essa crítica. aquilo não). 14 PAZ..

. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. equações. A proibição do incesto. o espírito: algo que é nada. carece de sentido ou de fundamento. constitui-se ao mesmo tempo na norma. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. alcançar uma generalidade universal. Frente à análise sobre a fundação da norma. embora pareça não ter justificação biológica. ou seja. Esse tabu. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. é a raiz de toda proibição. de todas as leis. na significação do espírito. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. a posição. este Sim funda o homem. portanto. pelo menos lógica. metáfora. como na linguagem. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. cit. símbolos. que não se defronta consigo mesmo. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. op. de toda moral e de toda punição. constitui a sociedade. à linguagem. Chittó Gauer . Faz-se necessário compreender. a fundação da norma se deu com a negação. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. Otávio. ao trabalho e ao mito os homens são homens. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. em si mesma. o significante e o significado. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. considerada a fonte de todas as normas sociais. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. segundo o autor. fonte de todo limite. p. Se for possível encontrar essa generalização. agora. Para Lévi-Strauss. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. mas. a norma proibitiva. 19 20 Ruth M.religiosas e míticas. é na própria diferença que a encontramos. nem razão de ser. e esta. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. uma norma inflexível. no fato e no valor. inflexível. pode-se dizer que não há uma oposição. mas não de utilidade: graças a ela. Logo.

sem nunca se caracterizarem como arbitrários. naturalmente. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. de levar a análise bastante longe”. como o cremos. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. Lisboa. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. Em ambos os casos. sob a condição. fundador da sociedade humana. em Totem e Tabu. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. traçado na estrutura inata do espírito humano. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. que esta é a oposição entre lei e universalidade. antigos e modernos. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. 133. ‘primitivos’ e ‘civilizados’.cultural. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. Lévi-Strauss. Claude. Faz-se necessário ressaltar. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. o mesmo problema se apresenta. Presença. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. p. afirma a existência de um evento originário. ainda. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. subjacente a cada instituição e outros costumes. 1952. obrigação e necessidade. para Lévi-Strauss. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. Para Lévi-Strauss. o da comunicação procurada. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. Raça e história. é a sua condição para o êxito. Tal evento originário. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente.

. 70-71. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. Essa troca constitui-se. 18 MICELA. Chittó Gauer . o passo fundamental graças ao qual – e. 1982. o momento da passagem da natureza à cultura. Petrópolis. 22 Ruth M. entre natureza e cultura. comunicação normatizada. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). nem de origem puramente natural. Ao nível das estruturas elementares. Rosaria. Assim. Vozes. São Paulo. Antropologia e Psicanálise. essa proibição “não é de origem puramente cultural. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. Ponto de encontro e articulação. de caráter trans-eventual. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. Claude. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. necessária e imposta pela exogamia. dada desde o inconsciente. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. pp. para o autor.do incesto. sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. Brasiliense. de resto. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. portanto. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (. sem pertencer integralmente a uma ou outra. Para Lévi-Strauss. estrutural. comunicação através dos bens e dos serviços. 18 Na verdade.. esse universal. 1984. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. comunicação por meio das mensagens. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. ao contrário. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia.). nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. estando situado entre ambas.

é um espaço em branco no mapa das emoções. pode-se revelar altamente inoperante. de posturas psicológicas. em particular. sua singularidade. A norma. La Identidad. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. nos sistemas naturais e sociais. muito atomizado. Este aspecto leva a considerar. para a maior parte dos homens. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. pelos mais variados fatores. àquelas de onde provêm. direta ou imediata da natureza. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. ou seja. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. para isso. a permuta da própria nacionalidade. em suas conclusões sobre identidade. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. 19 não é exagero dizer que. ainda. a humanidade. que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. seguindo a reflexão do autor. o fato de que o planejamento de organizações. elevada a um plano de destaque. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz.tenha afirmado. e em nós como função simbólica. pp.). encontra-se fora de nós. como ponto de referência coletivo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . da economia. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. 11-39. muito embora seja indispensável como ponto de referência". (Org. necessariamente. pensada como estrutura. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. Mas. 1977. no entanto. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. ao menos “idealmente”. nossos sistemas de parentesco. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. Claude. Grasset. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. ou. A passagem às estruturas complexas do parentesco. é possível enquadrar nesse modelo. Paris. Nesses casos. Há. sendo a negação simples.

op. op cit. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. a dominação técnica e a história acumulativa”. caracterizada pela emancipação do indivíduo. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. que coloca a natureza perante si. nas relações sociais. Logo. 365-366. com Descartes. a normatização sofreu alterações significativas. como objeto de conhecimento. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. nas escolhas de vida. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. ao surgimento do direito natural. a autonomia aparece para o indivíduo livre. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. ao direito subjetivo. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. principalmente o direito. MERLEAU-PONTY Maurice. sonhos românticos). consciente de si mesmo.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. em todas as instâncias da vida. Considerando que. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. Chittó Gauer . aos valores. agora separado do ser social e político. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. Esta ideia demarca as instituições. Se. p. vinculado à qualidade única do ser humano. com o surgimento do indivíduo moderno. A autonomia constitui uma marca da modernidade. Segundo Merleau-Ponty. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. cit. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. 24 Ruth M.

Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. na medida em que as trocas não se dão por posição social. anteriormente determinantes. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Norbert. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. as maneiras de educação. para o afrouxamento do controle social tradicional. mas também máscaras de proteção. 22 ELIAS. como do amor conjugal. pp. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. no conjunto da sociedade. Zahar. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. 13-79. 1997. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. A sociedade dos indivíduos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . que se apresenta como base para a liberdade. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. no mundo urbano individualizado. modos de agir. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. ao contrário. características das sociedades tradicionais. este por si só constitui espaço para a liberdade. Portanto. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos.Do ponto de vista sócio-histórico. vão se constituindo. Rio de Janeiro. a partir dos séculos XV e XVI. com ele. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. não obedecem a uma lógica exterior.

Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. SOUZA.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. Chittó Gauer .). 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. com as quais cada um deve se conformar. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. Quanto maior for a liberdade. mais nos socializamos. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE. que se. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. Louis. (Orgs. Neste sentido. produz o indivíduo em sua autonomia. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. maior seu custo. Aléxis de. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. mas sim certos domínios de saber. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. como encargo muito difícil de ser cumprido. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. Rio de Janeiro. 26 Ruth M. por um lado. a conformam e dela decorrem. paradoxalmente. Segundo Foucault 27. se formam o sujeito e as relações com a verdade. dizemos que a liberdade tem seu custo. Berthold. Michel. para o autor. Ed. quanto maior o individualismo. p. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. 26 DUMONT. assim. na medida em que. também é desejada. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Jessé. cit. do conhecimento. A Verdade e as Formas Jurídicas. se poderá fazer uma história da verdade”. paradoxalmente. isso sob o prisma da norma social. domínios nos quais. 1998.. Nau. 142. Editora da UNB. Brasília. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. 25 ELIAS. e mais essa necessidade surgirá. Rio de Janeiro. Brasília. cit. Michel. 27 FOUCAULT. op. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. 1999. UNB. Rocco. 27. quanto mais nos individualizamos. ao mesmo tempo originário e absoluto. a nossa sociedade funciona por normas. ela. maior a socialização. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. por outro o expõe. 1985. em si mesmas. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. OËLZE. 28 FOUCAULT. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. op. Norbert. não por acaso. 1979. O Antigo Regime e a Revolução. Simmel e a Modernidade.

Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. deste modo. durante o século XX. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. O único laço que permanece é o de natureza institucional. hoje “acelerada” de modo irreversível. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . mais especificamente no pós-guerra. mais necessitamos de regulamentações. mesmo das vinculadas às leis científicas. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. esta socialidade. não é somente um valor. O indivíduo se atomiza. A igualdade. O que podemos constatar é que. é possível falar da incerteza da liberdade. considerado o aspecto mais significativo. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. é produto da própria liberdade. mas constitui experiência de todos os dias. Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. portanto. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação.

pp. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. op. ligado. 14-15. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. na teoria do fato social total.. estéticos. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. para cada um desses códigos. Tempo Brasileiro. poder-se-ia dizer. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. pp. cit. em suma. o aspecto vivo. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. Claude.. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. Claude. Chittó Gauer . em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. tudo se mistura. a totalidade social se manifesta na experiência. permitindo. Claude. alma. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. tudo está inter-relacionado. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. Para o primeiro “a totalidade consiste. Ao invés de aparecer como um postulado. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. 14. 28 Ruth M. Antropologia estrutural dois. 30 LEVI-STRAUSS. morfológicos ou outros. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente.. pp. econômicos. 14-15. como diz Mauss. p. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. op. integral. cit. Claude. sociedade. por princípio e por fim. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. op. 32 Se. desta maneira. parece que. Rio de Janeiro. 32 LEVI-STRAUSS. seu modo de organização e sua função diferencial. cit. religiosos. 31 LEVI-STRAUSS. também. 14-15. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. a linguagem do direito. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. 1976.

estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. cit. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. 16-17. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. Há. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. com o qual não podemos. O signo. a liberdade – uma forma de organização social. nada deixou escapar. nos diz respeito de forma total. no entanto. portanto. LEVI-STRAUSS Claude. Claude. ciência política. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. 18. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. 19. 17. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. pp. pensada como tradição. também.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar.. oferecendo-nos. op. confundir-nos opera. direito. O autor reconhece. Neste caso. a partir dos elementos de sua existência social. levada até as categorias do inconsciente. Todavia. em sua visão. a justiça. um interesse privilegiado. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. pp. assim como não podemos. op. independentemente das coisas que lhes correspondem. história. ou ainda estudar as normas sociais. cit. como muitos pensam.. desse modo. entretanto. apesar de tudo. objetos. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente.

GEERTZ. No campo da antropologia a mitologia. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. ao menos provisoriamente. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. 22. Clifford. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. segundo Geertz. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. cit. segundo as premissas que apresentamos. op. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. 36 35 30 Ruth M. Chittó Gauer . “sabemos que de fato e até mesmo de direito. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. segundo ele. Destas transformações. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. ao mesmo tempo. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. gesticulam.que se insere. p. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. junto ao significante. se deve ao fato de que. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas.. escrevem. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. Quando se comunicam os homens conversam. no nível biológico. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação.

da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. Na opinião de Geertz. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. entre outras coisas. São Paulo. desconsiderando. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. mas também fora de sua área. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral.lições de Geertz. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . Nova Luz sobre a Antropologia. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". de acordo com ele. Explica que. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. torna a análise muito problemática. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. logo. não apenas as chamadas sociedades simples. em primeiro lugar. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. em disciplinas como a psicologia. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. A antropologia de matriz norte-americana é. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. GEERTZ Clifford. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. provavelmente. Em segundo lugar. 2001. a exemplo do Brasil e da Índia. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. No final. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. Jorge Zahar. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. a própria passagem do tempo. a história e a teoria literária. Geertz fala do panorama da antropologia atual. Geertz é. Na entrevista.

É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. sem dúvida. a exemplo de Hans Kelsen. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. indeterminação. direito. A análise interpretativa da qual fala Geertz. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. contingência. a análise de suas normas. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. elas fazem parte do repertório da antropologia. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. que estuda tudo. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. Chittó Gauer . se esforçando para explicar as diferenças em geral. Muitos juristas. Saraiva. de vagueza. Ela tem que perceber qual é. 10. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. Mas isso não é niilismo. como economia. nem começaria a interpretar. 1987. p. mesmo assim são respeitadas. Neste caso o niilista não se importará com nada. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista.completamente geral. historicamente. história. São Paulo. In: SHIRLEY. que diz estudar o "Homem". não tentará buscar compreender nada. literatura. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. não interpretará nada. Robert W. o Marrocos ou o Brasil. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. política. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. 32 Ruth M. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. regras. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. hábitos e leis sociais. não tentaria ao menos começar a entender os outros. Antropologia jurídica.

por outro lado. exílio. São Paulo. isto é. Antropologia jurídica. forças políticas estruturadas pelas instituições. 1987. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. Saraiva. isto é. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. Robert W. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. sobre o comportamento do indivíduo. obra em que. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. p. subjugadas e ignoradas. ostracismo ou morte. Em especial. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. como no caso das sociedades modernas. se preferido for).natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. normas da sociedade referentes às primárias. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. ou seja. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. e regras secundárias. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . como crítico da metafísica (ou do humanismo. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. 40 SHIRLEY. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. esses dois planos compõem as estruturas sociais. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”.

fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. 42 41 34 Ruth M. Ao contrário de Geertz. Gianni. O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. op. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. O pensamento da diferença. Ruth M. 71-92. colocando em comunicação objetividade e subjetividade.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. plenitude da presença e estabilidade una. rememora o ser e o ente para além da presença. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. José Ortega y. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. v. Madrid. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. O ser da metafísica é o ser mutilado. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. Para Heidegger. 1977. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. ou seja. sem estruturas. p.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. cit. afirma o autor. Livro Ibero-Americano. cit. De acordo com Vattimo. esquecido da subjetividade).. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. GAUER. VI. no entanto. sob essas premissas. para Heidegger. 162. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. Obras. 2006. Ortega y. 42 Há. igual e eventual. Meditações do Quixote. op. que “mostra também um momento VATTIMO. apenas a rememorou. Alianza Editorial. São Paulo. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). p. 1946. 43 GASSET. Chittó Gauer . transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. Chittó. nega o ser como fundamento. 44 GASSET. enquanto a temporalidade. O reino da estupidez e o reino da razão.

podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. é um exemplo deste fenômeno. No final do século XIX. 1998. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. O destino trágico. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. Rompera até com a cultura moderna. p.). revelado por Marx. Simmel e a Modernidade. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . afinal. SOUZA. OËLZE. pela ética e pelo direito. não sujeito a mudanças. Brasília. como fizera o século XIX. mas perigosa. (Orgs. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. abertura do pensamento e da cultura. resultado do domínio das coisas sobre o homem. Com esta análise em mente. no sentido tanto decadente quanto criativo. segundo o autor. mas também sem normas ou raízes”. O século XX. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. Editora da UNB. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. na significação que nos interessa. sendo que. o devir era uma das categorias principais do pensamento.‘escandalosamente temporário’. 10. Jessé. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. Berthold. cujo movimento na sociedade.

I. aos cargos. II. pois nem tudo pode ser formulado. 48 MAUSS. 131-132. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. Marcel. e. Do mesmo modo. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. 1974. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. MAUSS. de direito não formulado e direito formulado. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. de alienação e de troca. de alguma forma. Chittó Gauer . romano. op. v. Para o autor os direitos costumeiros são. entre outras. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. v. uma mistura de direito público e direito privado. Na opinião de Mauss. Esta forma de instituição. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. Sociologia e Antropologia. Sociologia e Antropologia. I. p. São Paulo. op cit. Marcel. cit. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. a grega e a romana. 1974. por um lado. p. a família. 234. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. negativa que contém um Sim afirmativo. com elas. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. p. como a semítica. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. 49 MAUSS. as pessoas e as coisas”. hindu e germânico. Sociologia e Antropologia. EPU/EDUSP. v. Segundo a análise. Marcel. e a dádiva por outro. de toda a sociedade. o autor refere que às funções. nossas antigas civilizações. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. Marcel. EPU/EDUSP. às honras. 234. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. São Paulo. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. culto 46 47 MAUSS.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. muito antigo”. Assim como na passagem natureza-cultura. o Não. da família. 36 Ruth M.

Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. como já vimos. a morte do pai. não foi obra de legisladores. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. “Patricius”. “Pater”. mãe). do sânscrito “Pitar”. Èmile. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. v. pp. Paris. exclui a relação de paternidade física. autoridade. I. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. que é lido como “Pai Celeste”. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. da propriedade. da autoridade e da punição. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. propriedade. de fato. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. assim como a importância das coisas. o que. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. figura do nome divino de Júpiter. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. esta só lhe é conferida. traços que se mantiveram na época clássica. “Patricius”. contudo. não separa os filhos. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. 1969. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. estruturou-se nos mitos. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. a maioridade biológica. da herança. Minuit. o descendente de pais livres. Éd. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. exprimindo uma hierarquia pessoal. 207-212. portanto natural. “Atta” educa a criança. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. seu auxiliar nas funções sagradas. herança. em sua origem. liga-se à relação de parentesco. “Patrius” se refere ao pai não físico. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . descende de pais livres.

além dos vínculos mágicos e religiosos.. não concede a maioridade aos filhos. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. Entre os direitos analisados. 133-138. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. por seu espírito. Como observa Mauss. o nexum. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. 139. A melhor etimologia de família é. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. Outros termos de direito. Chittó Gauer . a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. cit. A etimologia já fora proposta antes. op. bem como um certo número de formas desses contratos. o “vínculo” de direito. a esse título. 54 MAUSS. 135-136. o nexum. quanto mais remontamos à antiguidade. Marcel. 38 Ruth M. cit. no entanto. pp. embora tenha sido eliminada. op. a que aproxima do sânscrito dhaman. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. pp. isto é. pp. MarceL. Marcel. prestam-se para este estudo. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro.. 135-136. cit. e que se torna.se submetiam à sua autoridade. casa. Seguindo a análise.. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. Marcel. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. op. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. p. op. seu réus. A religião. sem dúvida. 53 MAUSS. a pretexto de não fazer sentido algum. MAUSS. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. cit. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. segundo Mauss. que parte tanto das coisas como dos homens. além de família e res. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. ao contrário da natureza. é bastante notável que. 53 O contratante é primeiramente reus. Sob este aspecto. segundo Mauss. ou seja.. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas.

segundo o autor. 2°. o sentido de culpado. com mais forte razão para reus. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. cit. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia. Desse ponto de vista.. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. investigar e decifrar os mistérios da natureza. enfim. op. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. que apresenta o seguinte: 55 “1°. 140. p. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. ficam um pouco mais esclarecidas. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. Mas essa tradução é arbitrária. um termo processual. supondo que o termo res é. “a origem do contrato. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. do nexum e da actio. (. Marcel. se nossa derivação semântica é aceita. Como se pode observar. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 .coisa”. o culpado e o responsável”. acabou por ter um efeito perverso. e rei-jetos por “implicado no processo”. Para Mauss. sobretudo. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus.) de inferioridade espiritual.. crescida à sombra do racionalismo. o indivíduo possuído pela coisa. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. de um ‘processo’ público. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. A imagem. “ao contrário. Há autores que traduzem res por “processo”. todas as teorias do “quase-delito”. 3°. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir.

antes uma acepção secundária. não foi substituído por outro. Essa busca. o sentido da palavra família. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. 80-85. pessoas e coisas. René. jurídica. no entanto. op. Rocco. um dos princípios que. política. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. pp. segundo Dumont. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. lícito e ilícito. por sua vez. mas por uma pluralidade de outros. de um “processo” público. passa a ter uma acepção difusa. especializou-se e. O Iluminismo. isto é. Discurso do método.mistérios da natureza. 57 permitiu o surgimento do dualismo. isto é. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. 1993. René. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. 58 DESCARTES. uma vez que o centro. Rio de Janeiro. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. 56 40 Ruth M. cuja base se encontra na obra de Descartes. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. A exemplo do direito. razão e emoção. pp. 12-16. Chittó Gauer . Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. 1985. as res que dela faziam parte. A criação do paradigma da modernidade. Para Dumont. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. foram deslocados. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. Lisboa. por uma pluralidade de centros de poder. 57 DESCARTES. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. ao fazê-lo. pp. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. corpo-espírito. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. objetividade e subjetividade. A base tutelar da família foi fragmenta. Louis. 117-118. O individualismo. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. já que deixa de haver um princípio organizador único. assim. cit. deslocando. Edições 70. O sentido implicado no “processo”.. passou a regulamentar de forma especializada. econômica. dicotomizando tanto coisas como homens. foi fragmentado. res. ou seja. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. religiosa.

da observação. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. da investigação. buscou substituir várias autoridades. mas afirma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . mítica e religiosa. Esse conhecimento. Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. no entanto. por meio da experiência. o modelo de visão do autor é o tato. isto é. em determinado ponto.seu famoso Discurso. totêmica. que “Os cegos vêem com as mãos”. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu.

política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. 1970. Barcelona: Barral Editores. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. 321. A separação natureza-cultura. A criação dos símbolos modernos. Obras III. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. trocamos mensagens. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. 320. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. a exemplo do exercício do poder. de uniformização. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. da mesma forma que os da língua. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss. Sociedad y ciências sociales. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. que possui o indivíduo como melhor exemplo. respeitamos regras. Chittó Gauer . Marcel. p. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. 42 Ruth M. estéticas e políticas das sociedades. com base na crença da ciência. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. da tradição e de instituições que a precederam. As transformações das instituições jurídicas. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. a consanguinidade. mas. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. está estruturada em uma concepção “natural”. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades.

portanto. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. que não conseguiram eliminar a regra geral. como. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. proibições. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. Tal postulação inspirou-se. Rio de Janeiro. outras categorias foram derivadas. teias. apenas releu a forma. 15. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. pp. Os Pensadores XV. quando 60 61 GEERTZ. mas como uma ciência interpretativa. as categorias coletivas. o indivíduo moderno. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. Gottfried W. Clifford. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. denominada legislação em sentido amplo. 63-73. A interpretação das culturas. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . 1974. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. criadas em sociedade. “sujeito-da-razão”. imposições. 61 A partir daí. 1973. 62 DESCARTES. LEIBNIZ. São Paulo. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. René. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. de conhecer as diferentes “realidades”. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. pp. 1978. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. 81-153. São “versões” da vida em sociedade. por exemplo. Zahar Editores. p. não como uma ciência experimental em busca de leis. porém não conseguiu eliminá-la. Abril Cultural.sobre o pensamento e a ação. em parte. Os Pensadores XIX. pois. e como devemos realizar nossas ações em sociedade. o que fazemos. à procura do significado”. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. segundo este último. escolhas. São Paulo. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. Abril Cultural. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. como já referido. O crime e o castigo seguem convenções legais. além de não eliminar a norma fundante.

estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. Por outro lado. assim. 1973. do conhecimento e da prática. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. o “eu penso”. O “indivíduo soberano”. A partir dessa posição de Descartes. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. sem dúvida. É. Ao refocalizar o velho (e original. Para muitos autores. a partir de sua análise. John. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. em Locke. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. sujeito da modernidade. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. Chittó Gauer . além de outros como Hobbes e Kant. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Abril Cultural. pp. no sentido heideggeriano). Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. Os Pensadores XVII. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. reelaborado também pela visão de Locke. 44 Ruth M. com capacidade de raciocinar e pensar. Locke e Rousseau. 139-348. elaborando a composição de orientações diversas. São Paulo. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. Tentou-se. Hobbes. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. vistas como ontologicamente diferenciadas. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. no entanto. elementos esses que seriam. irredutíveis. determinado pelo “cogito ergo sum”.

Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. Contudo. e sim manutenção dos mesmos objetivos. mas um princípio metodológico. por exemplo. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. precisamente porque fundada. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. todos pertencem à mesma “escola”. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . Não há dispersão. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). e os formalistas como Kant e Fichte. Na verdade.estejam separados por uma fronteira intransponível. mas o modo de abordá-lo (a razão). não eliminam o intento comum. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. Rocco. 64 Essas questões. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. após as críticas da escola histórica. jurídico e político. mas sim uma unidade metodológica. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. no entanto. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. no final do século XIX. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. Tanto é assim que. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. Todas as correntes concordam. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. no entanto. finalmente. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. Outra prova é que. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. Rio de Janeiro. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. 1985.

paradoxo da modernidade. IV. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. no entanto. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. As teorias clássicas liberais de governo. A base seria não uma lógica do provável. e “eliminou” todas as diferenças. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. Paris. mas o método. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. da Europa chegou o progresso. sustentáculo da sociedade GUSDORF. Alemanha e outros países. o referencial filosófico-social básico. O que caracteriza. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. 1967. Chittó Gauer . Nesse sentido. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. como modelos estáticos. George. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. sepultura da medieval fé em Deus. No século XVIII. a redenção do Siècle des Lumières. 183. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. ainda submersa no platônico mundo das sombras. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. Há. no interior dessa grande estrutura. 65 46 Ruth M. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. progrediram as ciências na Inglaterra. e foi definido. v. o Estado-nação. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. portanto. Payot. p.

Obviamente ao nos definirmos como tais. inversamente. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. a qual é. 1982. entre o sujeito e seu entorno. criadas por meio de tetos políticos. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. necessidades e interesses. nesse sentido. Rio de Janeiro. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. ingleses. Nesse contexto. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. e estas. etc. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. primordialmente. Goffman. certamente. argentinos. E. o estado. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. entre eles. gerando. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. ou seja. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. os numerosos estudos sobre caráter nacional. “englobaram” todas as diferenças. Basta recordar. por outro lado. gestada ao nível da razão simbólica. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. Estigma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . As culturas nacionais. Zahar. impressas em nossos genes. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual.moderna. No entanto. Essas identidades não estão. uma comunidade simbólica. Erving. fenômeno 66 GOFFMAN. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. Ao mesmo tempo. Os indivíduos soberanos. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. para isto. com suas vontades. assim. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna.

já no início do século XIX. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. As diferenças regionais. étnicas. No caso brasileiro. nas sociedades ocidentais. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. O modelo interativo. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. religiosas. A lealdade e a identificação foram localizadas. políticas. consequentemente. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. dominação e hierarquia. Os indivíduos soberanos. posteriormente. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. Chittó Gauer . deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. O tema da nacionalidade. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. a atenção. No início do século XIX. desde os finais do século XVIII. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. à cultura nacional. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. entre outras. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. junto ao estado-nação e. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. há décadas atrás. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. necessidades e interesses.este de índole essencialmente contemporânea. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. com suas vontades.

passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. 1985. mas a própria sociedade em ato. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. como já afirmamos. Rio de Janeiro. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. Os indivíduos soberanos. por outro lado. No entanto. O individualismo. em muitos casos. ou o valor se vincula ao indivíduo. tornaram-se a figura central da lei. liberdade de escolha. 269. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. Como refere Dumont. Embora essa dissolução tenha ocorrido.270. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. 67 “o valor está imbricado. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. e por assim dizer. não há lei sem a impessoalidade. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. com suas vontades. as quais configuram a estrutura social. é prescrito. necessidades e interesses. Louis. assim como não há indivíduo. a negação da ordem escravocrata. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. o valor e a norma.relações sociais. As idiossincrasias sociais. pp. o que tem por separar a ideia de valor. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. que. que a norma não seria um efeito da sociedade. um fato e uma norma. neste caso. não havendo. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. há que se salientar a importância da norma. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. Rocco. Em se tratando de sociedade moderna. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. pelo próprio sistema de representações. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato.

a norma.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela. Chittó Gauer . 50 Ruth M. nada articula. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. No entanto. abre toda a significação. o fundamento primeiro do fato social.

Bachelard assinala: “nos campos da matemática. pp. 756-758. Após o relativismo do racional e do empírico. cit. op. propôs uma noção de duração não bergsoniana. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. 1973. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. é antes criação”. no decorrer do século XX. cit.. antropologia e psicanálise. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. 68 69 BACHELARD. 757. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. 756-758. pp. Um segundo fundamento. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. BACHELARD. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. Os Pensadores. Abril Cultural. pois permite repensar a crise da ciência moderna. o mundo. Os Pensadores. Gaston. e entre vários filósofos. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. 70 BACHELARD. p. como se a terra. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. Gaston. da física e da química não apenas um avanço. São Paulo. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. versando sobre a descontinuidade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. de Bergson a Bachelard. mais do que uma simples descoberta.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. sobretudo. op. Gaston. Na física. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’.

cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. do onírico. A Interpretação dos Sonhos. O Pensamento Selvagem. a natureza. 2002. 71 52 Ruth M. desde a psicanálise até a cibernética. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. cit. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. o Simbolismo e o Surrealismo. 74 LÉVI-STRAUSS. Chittó Gauer . 71 Para Durand.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. Lisboa. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. 2001. a história das Ideias. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. cujo resultado. 35.. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. Claude. Todavia. São Paulo. segundo o belo título de Henri Ellenberger. Papirus. 72 Gilbert Durand. São Paulo. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. Edições 70. Deus. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. Gilbert Durand. 2000. 76 BASTIDE. Difel. 1986. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. a psiquiatria e psicanálise. p. Sociologia e Psicanálise. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. O Mito e o Homem. por exemplo. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. 3ª ed. op. 76 são exemplos destas análises. do mito e do “pensamento obscuro”. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. Roger. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. 73 Sigmund FREUD. a antropologia. Roger. Rio de Janeiro. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. São Paulo. 75 CAILLOIS. a história e as normas sociais. 1974. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. 73 do “pensamento selvagem”. Imago. Companhia Editora Nacional. ou campos de conhecimento.

conclui que. já de matiz clássica. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. baseadas na obra de Jung. Hartmann e tantos outros. de certo modo. como de fato o são.. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. as assertivas de Lévi-Strauss. a função do sonho. pois tal comparação confirma. 77 DURAND. entre outras contribuições. Bion. Assim não há. a razão. Seguindo essa linha de investigação.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. Melanie Klein. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. mesmo sendo arbitrários. Portanto. Para Durand. em princípio. Freud. Gilbert. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. em termos de interpretação. p. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. o importante é a existência de significados que. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. 36. extremamente minuciosa e complexa. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. cit. op. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. as orientações psicoterapêuticas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . Alexander. uma vasta compilação e análise. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram.

a partir de um modelo explicativo. De qualquer modo. por uma confrontação de seus DEVEREUX. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. pois. Neste. Cabe. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. tira. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. que é a psicanálise. frente à sua realidade existencial e concreta. semelhante a tantas outras.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. que pode ser coletada e que. Georges. Buenos Aires. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. 78 54 Ruth M.. No entanto. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral.. o que não se daria com as últimas. Etnopsicoanálisis Complementarista. para Lévi-Strauss. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. senão no próprio homem. Amorrortu Editores. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. mencionar a posição de Georges Devereux. Desta constatação. 1975. Chittó Gauer . e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. não há mais lugar para o tempo mítico. como comentário correlato. Portanto. que se opõe. qualitativamente diferente do pensamento científico). por atingir as causas reais da perturbação. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. como estas. Esta forma moderna da técnica xamanística. Ou seja. portanto. veracidade e exatidão de uma teoria. por sua natureza científica.

na passagem para o século XX. como já havia dito Spinoza. 224. Na verdade. Nesse contexto. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. ou formulação de uma identidade. com a linguagem dos símbolos. está 79 LÉVI-STRAUSS. permite a via de acesso ao inconsciente. Claude. elaborou. por sua vez. no homem ocidental.” 79 Veja-se. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. com o fim de libertar o homem da “servidão humana.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. Assim. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. No caso específico de Freud. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). portanto. tal análise é simplista. O papel primordial atribuído à razão. para o citado autor. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . Antropologia Estrutural. da força das emoções”. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. Tempo Brasileiro. E. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. 1970. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. soturno e traiçoeiro. ou seja. p. Freud. Rio de Janeiro. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. ainda nos tempos atuais. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas.

mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. do mesmo modo que Freud. em nenhum sentido. nossas identidades. o que correspondeu. a descoberta do inconsciente.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. Afirmou Saussure que nós não somos. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. em última instância. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. um duro golpe ao narcisismo humano. em outra área de pesquisas. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Quando Freud buscou a subjetividade e. não só em áreas específicas. Acertaram. tentando. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. a psicologia. Para Freud. mas. que traz consigo o desenvolvimento da razão. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. Kraepelin. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. tal como a ciência moderna havia proposto. encontrou. também contribuiu para essa crise do conhecimento. recriar os modelos universais. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. A contribuição de Ferdinand de Saussure. com ela. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. nessa busca. logo existo”. não deu atenção à dinâmica psicológica). linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. de certa maneira. Ao contrário. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. Com essa posição. Chittó Gauer . tanto Darwin como Freud. na qual se destaca E. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. dessa forma. a sociologia e a antropologia. Correspondendo ao espírito da época Darwin. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. E isto Darwin o fez mostrando que.

No entanto. superando as contingências do relativismo. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. Devem ser consideradas também. por exemplo). Ela pré-existe a nós. Atualmente. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. A língua é. não podemos utilizá-la para produzir significados. Essa foi. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. para fins de análise histórica. tal questão está em grande parte superada. No campo da etnopsicanálise. e este fato mantém uma conotação de atualidade.nos comunicarmos. em virtude de considerações de ordem variada. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. por exemplo. um sistema social e não individual. os de normalidade e anormalidade. Este autor optou por uma definição de normalidade que. Por outro lado. Lembremos que. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . em uma relação um-a-um. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. nesse sentido. Porém. por exemplo. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. o par de termos opostos noitedia). com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. a opinião de Georges Devereux. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. de natureza teórica ou não. O significado das palavras não é fixo.

Na concepção de Durand. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. mesmo no chamado mundo civilizado. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. que possui uma conotação de natureza mais universal. nesse ponto já superado. da qual um grande número de culturas seria excluído. que anima a mente primitiva. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. discutir a questão da alteridade. dando sentido e ordem ao universo e que é. por muito tempo. basicamente. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. que antecedem uma maturidade mais plena. lançada por Lévi-Bruhl. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. Para Durand. de Freud. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. para lançar em descrédito a psicanálise. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. Todavia. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. 58 Ruth M. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. em certa medida. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. Caillois e Bastide. sem dúvida importantes. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. Chittó Gauer . Mesmo assim.

O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo. faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. Porém.

nos século XVII e XVIII. A partir de meados do século XVI e. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. evitando isolar-se em abstrações excessivas. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. como França e Inglaterra. Evidentemente. que se difundiu por toda a Europa. Chittó Gauer . e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. 60 Ruth M. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. a posição marcadamente anticartesiana. São Paulo. seleção. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. Giambattista. 1974. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. O humanismo renascentista. Abril Cultural. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. Os Pensadores. notadamente. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. trad. concepção defendida pelos estruturalistas. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento.

Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. p. Brasília. Dessa forma. Por outro lado. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. pois existiriam produtos humanos fundamentais. 81 Ao mesmo tempo. “a história no exílio. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. 36. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. contida no cogito. op cit. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . a ideia VICO. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. é que o próprio criador a tenha criado. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. p. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”.ao método matemático era. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. Conforme afirmara: “a verdade é que. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. 38. que careceriam de demonstração lógica.. 82 Dessa forma. DESCARTES. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. ou seja. René. em sua opinião. desprovida de sentido. 83 Ibid. Editora Universidade de Brasília. 1981. pouco encontrava que me convencesse.. a partir do modelo matemático. formulada por Descartes. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. Discurso do Método. ergo sum. por fim. como a poesia e a história. Giambattista. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. isto é. colocava. pois repousam no verossímil. segundo o autor. pois ele não se cria a si mesmo. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. a perda de seu atributo de certeza. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade.

à crítica fundada na razão. G. leis. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. segundo Vico.. São Paulo. Como diria Collingwood. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. pois. Giambattista. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. seleção. VICO. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. colocada entre o falso e o verdadeiro. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. governos. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova.de que as proposições matemáticas. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. A Ideia de História. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. Os Pensadores. libertando-a da dependência das fontes escritas. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. o filósofo napolitano oferece a tópica. s/d. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. 85 84 62 Ruth M. p. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. 88. Abril Cultural. etc. Chittó Gauer . trad. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. justamente por ser o homem produto desta. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. Nessa perspectiva. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. 1974. Editorial Presença. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. R. ainda. A reflexão do filósofo napolitano considerava. Lisboa. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. O autor separou a história das ciências da natureza.

quanto fora dele. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. ao menos a vontade repouse sobre a consciência. dotado de vontade. historiógrafos e críticos. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. Segundo Vico. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. tais como os costumes e as leis. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. as alianças. a fim de que. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. como as guerras. tanto em seu território. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. de um lado. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. as viagens e os intercâmbios comerciais. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo.deles conhecidas e antevistas”. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. “O humano arbítrio. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. Se uns e outros tivessem feito isso. a fim de que. vinculando esse direito às tradições. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. os tratados de paz. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. incertíssimo por sua própria natureza.

XVII. que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e. generalizável como totalidade. 64 Ruth M. Chittó Gauer . portanto.

O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). cit. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII. O evolucionismo. Rio de Janeiro. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. 88 ou teoria da utilidade. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. Paidos. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. consultar: Marshall Sahlins. independendo da questão temporal ou geográfica. 87 paradigma da igualdade. op. e Clifford Geertz. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. 1979.. 87 SAHLINS. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . Zahar. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. Nesse sentido. El antropólogo como autor. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. Cultura e Razão Prática. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. No entanto.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. de interesse utilitário. A razão prática. como teoria explicativa da diferença. a razão prática. Barcelona. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. Marshall. 1989. circunstância que compartilha com todos os organismos. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados.

barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. e em muitos casos até boa parte do século XX. Chittó Gauer . A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. da hierarquia entre evoluído e atrasado. para o progresso. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. procurou ordenar seus estágios evolutivos. Lewis Morgan. dessa forma. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. levou a antropologia do século XIX. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. A definição dos três estágios – selvageria. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. portanto. e Lewis Morgan (americano). desamarrou a análise antropológica da análise histórica. ao estudar as instituições. desatrelada do tempo histórico e. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. Um dos 66 Ruth M. as invenções e descobertas de certas sociedades. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. conhecer a diferença. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. estrutura e função. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. em um estágio primitivo.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. Nesse sentido.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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n.diferença. Este “estigma de ODA. 6. 2002.br/arquivo/wal1201. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. Psychiatry On Line Brazil.polbr. 92 70 Ruth M. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. Juliano Moreira. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. intelectuais e comportamentais. Ana Maria Galdini Raimundo. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. Então. tendo a sífilis como modelo. dez. Após as influências dessas escolas. Autores como Nina Rodrigues. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. dominaram as concepções organicistas.htm. 2001. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana.” A estas concepções organicistas. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. Para tanto. 12. sob circunstâncias apropriadas. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. portadora de estigmas físicos. Disponível em: http://www. entre outros. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. no qual. Um número expressivo de historiadores. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista.med. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. Arthur Ramos. Acesso em: 03 jan. pela visão de seus teóricos. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. Chittó Gauer . antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. o Brasil deveria se engajar. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. agregou-se a teoria da degeneração. v. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. Conforme Ana Maria Oda. 92 “na segunda metade do século XIX. formada de índios.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

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suicídio. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. nesse rumo.de um modo de vida tradicional. de certa maneira. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. Nos campos de concentração denominados “reservas”. homicídio. É inegável que o século passado. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. a antropologia. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. já havia decretado sua morte. apesar das dúvidas 74 Ruth M. pela reestruturação política e social do mundo. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. pois ambos operam como uma unidade sintética. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. Tais ocorrências sociais. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. Nesse contexto. assim como várias outras em diversas partes do mundo. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. do mesmo modo. do quadro social então presente na sociedade ocidental. neutro e objetivo. associou-se à psiquiatria que. No entanto. Chittó Gauer .

tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. Esta. A partir desses fatos. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. então. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. comportamento. como processos dissociativos. de saúde e enfermidade. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. em síntese. desrealização e.“relativizantes”. Detecta-se. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. Por um lado. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. Por exemplo. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. assim como as instituições culturais em geral. Este pensamento como que matizou. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. assim como ao nível das culturas camponesas. sintomáticos de uma patologia mental. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. uma patologia. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. Como se vê. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. temos aqui dois fatores. com seus quadros de anomia psicossocial. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. Portanto. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). consolida-se a etnopsiquiatria. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita.

em princípio.qualquer agrupamento social. e aceitáveis De modo semelhante. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. até. Chittó Gauer . A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. dessa maneira. Seriam. a qual legitima tal fenômeno. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. convém lembrar. assim. 95 76 Ruth M. pois. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. um ponto de encontro. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. incluindo culturas urbanas. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. Mesmo assim. critérios transculturais de análise. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. Nesse caso. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. propondo. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. entre o psiquiatra e o xamã. ao nível do arbitrário. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. O critério de eficácia é. mesmo que superficialmente. discutível. Não se pode afirmar. portanto. por exemplo. Ou seja. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. A partir disso. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. observação e tratamento. a observação feita por Lévi-Strauss.

1970. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. real ou suposto. p. que a doente adquire deles progressivamente. aparentemente tão afastadas.) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. uma vez que a psicanálise (assim como. isto é. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. sem isto. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. Rio de Janeiro. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico..para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. (. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real. Antropologia Estrutural. a reorganização.).LÉVI-STRAUSS. ao mesmo tempo. a partir de um modelo estrutural comum. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . pp.. Claude. em linhas gerais. 97 Como coloca DEVEREUX. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. mas. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. “Neste sentido. Empero. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento. à prática e ao simbolismo xamanístico.. não tem importância: a doente acredita nela.” Georges Devereux. (. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. 255. num sentido favorável. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. Etnopsicoanálisis Complementarista. de outro modo informuláveis. Portanto. Buenos Aires. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem. e ela é membro de uma sociedade que acredita.. Amorrortu. 204-224.. Tempo Brasileiro.. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite. (.. “(.. 1975. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente.

enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. como Robert Merton.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. Este fato. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. sua prática terapêutica. Em um primeiro momento. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. nada de inédito. Como se sabe. no caso. assim. em termos de enfermidade psíquica. poderão reformular. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. a sociedade urbana norte americana. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. sem que isso o afete mais profundamente. se for considerado conveniente. Ruth Benedict e outros. principalmente no processo de tradução. em si. utilizando. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. correspondam ou não à realidade. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. por exemplo. por exemplo) como delirante. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. Gregory Bateson. Também é fato sabido que. melhor transitar no terreno da psiquiatria. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. a comprovação deste fato não trouxe. Afirmam os etnopsiquiatras que. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. Chittó Gauer . levou várias décadas para concretizar-se. com grande benefício. Na verdade.

por assim dizer. e uma possessão patológica. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. Ou seja. 99 No entanto. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. idênticas a si mesmas. dentro dos paramentos de controle social. da cultura. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. tomados de um terror místico. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. no transcurso de gerações. nesses contextos. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. se mantêm assim. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”.esclarecedores a esse respeito. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. por exemplo. no entanto. 98 Neste caso. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. indistintamente aplicada. atemporais. muitas vezes encobertas. Parece que. a partir disso. agora ameaçada. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. de certa maneira. e que. de certa forma. ou seja. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. no século passado. como objeto transacional. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. às populações primitivas. como seria o caso da “cultura da pobreza”. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. Não há. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. por exemplo. 99 Assim. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional.

76-77. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. a normalidade psicológica do indivíduo. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. no entanto. De los tres postulados que acabo de enunciar. 2) El principio de las posibilidades limitadas. Chittó Gauer . No entanto. pp. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente.em seus diversos aspectos. y aún se encuentra actualizado culturalmente. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. em termos mais amplos. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. Georges. cit.. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. Para escapar a esta relatividade. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. em princípio. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. establecida por los etnólogos. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. E. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. op. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. 80 Ruth M. Deve-se considerar. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. em qualquer caso. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. esa lista correspondería punto por punto a una lista. en otra suele estar reprimido. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico.

devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. embora existam padrões. Retornando ao exemplo acima. Estabelece-se. em uma sociedade.. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (.. que são considerados como normais e ajustados à cultura. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. Coloca Devereux que. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. de limites imprecisos.. necessariamente. normalidade mental. se for levada às últimas consequências lógicas. Haveria uma área transicional. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. cit. valores e padrões em geral de uma cultura.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”. tendo por assentado que esta cultura é normal.. como uma névoa. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. 101 Assim. p. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. Por outro lado. de um indivíduo ajustar-se aos papéis.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. elimina a tradicional distinção. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. também.. 115. Georges Devereux. que se situa dentro de um contexto de relatividade. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. acentuada desde Durkheim. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno.) 2) El comportamiento de un grupo. entre indivíduo e sociedade. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. ob.

que elas tenham um razoável padrão de normalidade. Diante disso. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. Como se sabe. produtora de “identidades fluidas”. na sociedade urbana. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. No que se refere ao indivíduo. assim. de forma alguma. o que não significa. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. por assim dizer. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. recusando-a em 82 Ruth M. como se deslizasse por elas. de caráter urbano. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. a sociedade contemporânea. Chittó Gauer . Ou seja. Este fato pode produzir diversos resultados. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. Outro aspecto ressaltado por Devereux. de transformação. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. Por outro lado. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. que envolvem o todo do contexto social. protegido e infragmentável. Um determinado indivíduo. Mas quanto à posição de Devereux. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. como por mudanças de nível “macro”. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. por exemplo.dessa maneira. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor.

O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. de qualquer modo. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. na cultura urbana. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. Mas por outro lado. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. Ela pode ser um fenômeno salutar e. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. ao mesmo tempo. difíceis de discernir. é um indicador de normalidade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . E. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa.

Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. que destaquei há tanto tempo. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. qual seja: a questão da ordem. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. passar. não menos importante. que a autora trabalha. mesmo as mais microscópicas. do perigo. A sujeira é um fato que nos repugna. Esse fato não iniciou no século XIX. 56. Pureza e Perigo. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. 84 Ruth M. temos horror a certos tipos de sujeira. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. principalmente por meio das tarefas femininas. normalmente associada ao belo. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. Relendo algumas passagens do livro. isto é. Perspectiva. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. assim como todo o tipo de discriminação. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. com ausência de resíduo. Há alguns dias. Deparei-me com Pureza e Perigo. ligada às tarefas da casa. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. 1976. da sujeira. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. a pureza e a ausência de qualquer perigo. São Paulo.. Chittó Gauer . Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. nomeadamente no século XX. lavar. que deve estar livre de impurezas. A estética. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. etc. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. da impureza. p. No entanto. quando com elas nos deparamos na estante de livros. O tempo de limpar.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. desinfetar. isso ocorreu. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. Mary. como se isso fosse possível. ficamos tentados a reler. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. mesmo os mais microscópicos.

assim como a ordem do espaço público. p. como medida de exceção. em resumo. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. Esses locais. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. pois são perigos em potência. constituía-se na única forma de proteção. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. hospitais. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. vistos como perigosos. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. Na modernidade essa prática continuou. O isolamento.. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . do disforme. A modernidade disciplinou não apenas os homens. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. op. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. perigosas. do monstruoso. cit. portanto. A modernidade criou 103 DOUGLAS.pureza. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. exemplo de espaço privado. tal como foi criado nos tempos modernos. buscando os ideais de ordem. do violento. do feio. também foi submetida à disciplina da higiene). A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. Mary. passou-se a isolar casas. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença.

o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos.essa compulsão. seja nos regimes totalitários. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. Quanto maior a exceção. devem ser purificados ou eliminados. comunismo. Chittó Gauer . 1985. Quais os procedimentos políticos. Há que se salientar. os perigosos. seja nos regimes políticos das democracias liberais. fascismo. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. como o nazismo. a todos os que podem se constituir em perigo. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. a corrupção. jurídicos. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. Nos estados de exceção. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. 270-274. porém. O mundo perfeito. maior a igualdade. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. Rio de Janeiro. Rocco. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. por mais paradoxal que possa parecer. utopia dos iluministas. presente nas sociedades ocidentais. O individualismo. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. sem muito esforço. pp. a sedução das crenças e demais impurezas. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Os exemplos históricos mais recentes. 104 86 Ruth M. Os modernos esqueceram. e está. administrativos. transparente e livre de contaminações. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. Louis.

A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. limpos. João Baptista Machado. Por um lado. a força política se sustenta na medida em que se purifica. Para o autor. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. estruturada na naturalização do indivíduo. nesse caso. colocando distância entre a ordem e a desordem. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. Se representação e identidade constituem. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. Metamorfoses do poder. Teoria Pura do Direito. 34. Coimbra. A partir desta constatação. na essência e no modelo. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade.uma tensão contraditória. apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. por outro. uma coletivização ao extremo. Alexandre Franco de. Ariadne Editora. Os perigos precisam ser eliminados. nas palavras de Franco de Sá. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. depurados. a teoria SÁ. 1979. do desigual. Coimbra. isto é. com a tentativa de eliminação do estranho. 5152. 2004. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade.. Esse aspecto traz problemas para a democracia. o exercício da soberania. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. entre a pureza e o perigo. cabe aqui lembrar que. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Hans. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . 105 a força de uma democracia. Trad. constituída pelo direito. Armênio Amado. nos regimes democráticos. pp. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. 4 ed. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma.

Hoje esses termos dissolvem-se. do sujo e do limpo. “gênero”. na atualidade. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. aquilo. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. enfim. que lembra sujeira e desordem. No entanto. A soberania da igualdade. cit. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. 88 Ruth M. o sujo. tal como pensada na 107 SCHMIT. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. tudo o que causa estranheza. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. como os nazismo-fascismos. nas teses de Schmitt. A própria soberania. “raça”. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. que serviam à identificação dos sujeitos. o impuro. 107 a questão da exceção. apud Alexandre Franco de Sá. Chittó Gauer . o anormal. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. ou seja: isto. o diferente. o doente. além de outros. As práticas políticas adotadas na modernidade. guerra total. em nome da igualdade. entre outros. que visava à eliminação das hierarquias medievais. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. que nasceu naturalizada. perigo. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. exemplo de regime de exceção. op. sofre evidências devastadoras. isto é. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. do modelo e do antimodelo.

A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. lugares de negociação em andamento. do perigo. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. não consensual. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. sobretudo. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. necessariamente. no relativismo. que foi cometido pelo seu irmão. nem sempre descritíveis em sua totalidade. locus do “aqui e agora”. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. as famílias dos homens-bomba. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. entre outros lugares. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. desconhecendo a questão dos direitos humanos. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. da inclusão e. o duelo entre tradição e modernidade. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. deixou de ser a norma.modernidade. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global.

protegidas dos perigos. segundo Virilio. A questão não envolve a justaposição da diferença. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. é a velhice do mundo. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. ordenadas. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. não consensual. O presente se torna imprescindível. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. os desvios sociais. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. Não há preparação para lidar com o erro. os fundamentalismos. com as impurezas. gerando a violência. associada a uma velocidade que. Com a superação do eterno retorno. A impossibilidade de uma verdade única. estruturante. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. enfim. Outra pergunta se faz necessária. Chittó Gauer . Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. o consensual fica sendo os totalitarismos. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. matam o discurso político. tais como pensados desde o século XVIII. Nesse quadro. ao lado do consenso cultural. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. a ausência do estado nos bolsões de miséria.determinismo racionalista. de uma identificação totalizante. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. nesse 90 Ruth M.

nem projeção. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. o que implica um deslocamento constante. O presente “é o tempo de agora”. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. capaz de se autogerar. O presente “não tem lugar”. ou mesmo das raças. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. enfim. Editora UFMG. alargado. É o ocaso do etnocentrismo. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. a exemplo do nazismo. distante do historicismo teleológico das “causas”. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. abandona-se a sequencialidade. os interstícios. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. Homi K. 20-46. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. mas. estado x sociedade. ambivalente. Nem ruptura. Belo Horizonte. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. engendrando novos espaços e temporalidades. 2001. O autor menciona que os “entre-lugares”. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. passando a ser questionada. cit. ao mesmo tempo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 .. capital x trabalho. ele é ex-cêntrico. As diferenças culturais são exercitadas. BHABHA Homi K. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. metrópole x colônia. paradoxalmente. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. op. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. Para Bhabha. as fímbrias. Como decorrência.caso. O Local da Cultura. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. do além. pp. fica comprometida. pureza x perigo e assim por diante.

caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. como no caso da própria escravidão. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. Igualdade na Diferença. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. não é uma passagem suave de transição e transcendência. Na visão do autor. ela mesma. Isto é. 59. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). de negar. Segundo Bhabha. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. Ainda segundo Bhabha. de estabelecer seu próprio discurso institucional. A minoria não quer ser “incluída”. no sucessivo de passado-presente. quanto uma pureza cultural. op cit. tornada semelhante. de iniciar seu desejo histórico. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. mas sim reconhecida. op cit. Homi. que buscou sempre a exegese da diferença. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. 92 Ruth M. 29. do puro e do impuro. BHABHA. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. Chittó Gauer . dá seus últimos passos. que inova e irrompe a atuação do presente. A tradição ocidental. O Outro perde o poder de significar. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. pp. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência.. há também um movimento político. 25-26. higienizada. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. na linguagem bejaminiana. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). pp.. de releitura da contemporaneidade. superando a diacronia da história. Homi. tão pouco é completamente diferente desta. Ao invés do continuum cristalizado. Ao lado dessa reflexão. do material ao metafórico.

no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. e para sua própria “eficácia”. p. Rio de Janeiro. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. 113 BHABHA. o precede e sucede. em si. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. foi preciso encontrar catequistas nativos. mais crucialmente. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. Relume-Dumará. e. na qual representa o universal. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”.. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. Luiz Eduardo Soares. As noções liberais de multiculturalismo. Homi. o arcabouço da tradição. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. Como exemplo. porque existe. instaura com este uma dialética. da articulação de uma política de negociação. simultânea e paradoxalmente. estrategicamente deslocado. 45. sob a égide do discurso colonialista. quer dizer. aquilo que. mas que. de memórias míticas e de identidade coletiva única. cit. 65-68. teleológicas ou míticas. op. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. bem como da relação entre emissor. 112 “o tempo de libertação é (. ter consciência. de indecidibilidade significatória ou representacional”. 1994. depende dele para existir. Para Bhabha. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. pp. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas.) um tempo de incerteza cultural. mensagem e receptor.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. O rigor da indisciplina. oferecendo-se ao sujeito. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . no processo de manifestação simbólica da linguagem. de acordo com Bhabha... A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação.

influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. Afinal. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. não apenas muda a direção da história ocidental. nem como evocação da liberdade. cit. totalizante. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. mas a regra. unificadora. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. Walter Benjamin. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. Editora Brasiliense. Walter. Magia e técnica. apu BHABHA. E. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. “Sobre o conceito de história”. 72-75. ao explorar esse Terceiro Espaço. entendido como sujeira. 115 FANON. 1987. Homi. Para ele. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. op. 114 94 Ruth M. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. 114 A luta contra a discriminação. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. Chittó Gauer .O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. São Paulo. não como uma afirmação da vontade. o perigo da impureza racial. a opressão. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. pp.. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”.

Ou seja. pp. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. A demanda da identificação – isto é. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. 76-78. De acordo com Fanon. cit.. o branco escravizado por sua superioridade. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. o autor chama de “delírio maniqueísta”. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. A esse quadro social. Homi. op. Esse pensamento supera o arco hermenêutico. seu olhar e seu locus.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. mas dá-se em relação a uma alteridade.

Reglas del metodo sociologico. Claude. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. Por outro lado. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. Chittó Gauer . Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. 1974. em boa parte. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. 1973. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. pelo sentido declinante de comunidade. Rio de Janeiro. a perda de valores espirituais unificados. o amor ao próximo. Os Pensadores. que se originava em uma certa espécie de virtude.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. Antropologia Estrutural I. expressa na equivalência entre imagem e identidade. São Paulo. E. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. Ver LÉVI-STRAUSS. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. plenitudinário. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. 96 Ruth M. Morata. Abril Cultural. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. 1970. Tempo Brasileiro. que salientava a piedade. visual. 119 DURKHEIN. nesse contexto. A totalidade dos estados nacionais foi construída. Ao romper a estabilidade do ego. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade.René. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. Madrid. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica.

mesmo na maneira como pensa e. 164. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. durante o período Eduardiano. Para muitos. Para compensar a anomie. se 120 121 BAUMER. 121 Estas receitas para a recuperação. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. por outro lado. pois são perigos em potência. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. no entanto.século XIX já não possuíam. Esses perigos. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. conseqüentemente. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. o que lhe deve”. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. Franklin. p. p. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. que era o resultado da divisão do trabalho. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. que era a causa da doença social. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. que estimulava a mobilidade e a especialização.. op. Era a crise espiritual. era necessário planejar uma nova solidariedade moral. Franklin. na família e nas lealdades sociais e vocacionais.. cit. obp cit. 164. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. BAUMER. ou estavam em processo de perder. Contudo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 .

evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. a ciência deixou o homem procurando. 98 Ruth M. ela própria uma forma de imoralidade. O vazio das convicções humanistas. Contudo. o desmascaramento da fácil crença no progresso. Chittó Gauer . quando imposto. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. Se. já que a pureza é inimiga da mudança. da ambiguidade e da diferença. acaba por se tornar totalizante. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. Estas constatações. a história explicitou esses fatos. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. na frase de Dewey. às apalpadelas. a mente individual possui como função a vida social. Um modelo rígido de pureza. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. tal como o da igualdade moderna. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. os paradoxos da filosofia liberal. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. uma esquiva realidade.transformaram em condição de análise. conduz à exceção. a moralidade. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio.

uma vez que não há o instrumento da escrita. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. a commom law. Ocorreram algumas exceções. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. A natureza das instituições legais britânicas. a cremação da viúva na pira do esposo morto. que são transmitidas de geração para geração. na Ásia. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. o direito inglês. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. Os colonos eram considerados franceses. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. o que os subordinava ao direito francês.

essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. em 1926. No que se refere ao crime. Daryll. 264. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. 1982. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. 262. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. A. Chittó Gauer . que publicou. p. daí resulta a obediência. proteger e punir. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento.Código Napoleônico. via de regra. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. R. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. Como se pode verificar. A lei como duplo sistema. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. a racionalidade não está ausente. boas e justas. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. No que se refere às regras sociais. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. e FORDE. importante estudo. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. 122 100 Ruth M. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. 2ª edição. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. Crime e costume na sociedade selvagem. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN.

partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. Quanto ao presente instantâneo. para um exame do ser do tempo. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. 124 SARTRE. nunca 123 VICO. No entanto. como o ponto sem dimensão. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. 1974. Da fenomenologia das três dimensões temporais. Petrópolis. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . Vozes. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. São Paulo. trad. Jean-Paul. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. O ser e o nada. 1997. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno.do direito “primitivo” é processual. de preferência à aplicação de regras formais. É preciso. Os Pensadores. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. toda a série se aniquilaria. Estas pressuposições. seleção. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. Cf. especialmente o terceiro capítulo. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. Giambattista Vico. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. dotada de liberdade. como já afirmamos. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. o futuro não é ainda. 124 Em O ser e o nada. Desse modo. Abril Cultural. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. presente. Caso contrário. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. Giambattista. a exemplo de Sartre. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. A preocupação não é nova. isto é.

por um lado. ou seja. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. pp. integralmente. mais ou menos em 1927. Se a lembrança ressurge. na física atômica. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. já que desmoronou no nada. 102 Ruth M. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. tudo é presente. Flammarion. que é instantâneo e extratemporal. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. 369-370. tal como os historiadores a descreveram. como fotógrafos das câmaras de gás. Assim. durante o século XX. por outro. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. Chittó Gauer . seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Miller 125 afirma que. o que é verdade. e lembrar a história. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. 1996. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. da imagem-recordação. Desse modo. o faz no presente. tais como os elétrons. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. em etapas. em consequência de um processo presente. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. que dependem fortemente da teoria. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis.elucidadas. Paris. por exemplo. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. tudo é em ato. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. traço atual. Arthur I. sobretudo. para explicar o aparecimento da consciência. Depois se convenceram de seus erros. e tomaram consciência. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral.

à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. Barcelona. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. A Sociedade de Risco. São elas a 126 BECK. Paidós. Por esse caminho apoiaram-se na representação. 2 . ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. Ulrich. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. Trata-se. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. vontade de controle do risco. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. entre elas como risco. anedotas. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. O autor refere que essa transição. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. da saturação da função que lhe é inerente. uma forma de insolência. 1998. ditos populares e a versatilidade das massas. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. pois.fracasso do controle.século XIX até metade do XX. O individualismo determinou toda a organização política moderna. por outro lado. 3 . contudo. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. O processo de desindividualização. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e.advento da idade moderna. metáfora visual adaptada ao mundo invisível. risco controlado. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas.

de calor ou frio. pp. 128 KERKHOVE. 1999. Rio de Janeiro. amor ou ódio. Derrick. de Hume. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. Todas MAFFESOLI. é um conceito. dor ou prazer. 1987. São Paulo. Record. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. ser adaptável a circunstâncias variáveis. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. uma certa harmonia. 53-54. Richard Sennett. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. individual e coletivo. Chittó Gauer . A Pele da Cultura. nem uma ideia. Rio de Janeiro.massa indefinida. 1988. remete-nos à análise da flexibilidade. 175-194. não em estruturas hierarquizadas. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. hoje está a mudar para a Idade da Mente. pp. povo sem identidade. Lisboa. 1997. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. Richard Sennett. Michel. Para Kerckhove. Brasiliense. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. que ela mudou novamente. uma mensagem. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. 218. sem se deixar quebrar por elas. apenas um momento. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. O Tempo das Tribos. Relógio D’Água. A corrosão do caráter. a um só tempo. público e privado. geraram a implosão pós-modernista. MAFFESOLI. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. Forense Universitária. luz ou sombra. Michel. p. 127 104 Ruth M. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. O Conhecimento Comum. como diz Lévi-Strauss. 19. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. a organização que se dá em redes.

estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. p. a velocidade é apenas sua alucinação. perdem-se. o poder. pois já não há ideias em luta com os fatos. 1993. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. que não é finito. Os nexos estabelecidos. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. de liberdade. Por outro lado. Aparece então a negação do fato real. assim. dos políticos. da matéria. A Inércia Polar. Para Virilio. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. Seguindo nessa mesma trilha. Nesse sentido. abre um importante campo de reflexões. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. Publicações Dom Quixote. uma vez que as imagens não se fixam. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. com essa plasticidade. Na atual velocidade. A popularização da velocidade retira das forças militares. mas sobrevoá-la. o mundo. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. como se fosse um espetáculo. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. teórico da Dromologia. Os acontecimentos não são aprendidos. Paul. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. Lisboa. nesse sentido. Depois da desintegração nuclear do espaço. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. Criou-se um novo espaço-tempo. Há. 128. Em sua obra A inércia polar. escapam pela fluidez da velocidade. Os conceitos trabalhados. (do grego dromos = velocidade). está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. na obra de Virilio. se o tempo é história. ocorre a desintegração do tempo da luz.

Michel. mas onde estou eu. Chittó Gauer . Eis a inércia da natureza relativista. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. A economia já é gerida à distância. onde se situa? Onde estou. Para Virilio. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. ao declínio das atividades no espaço. construída historicamente. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. op. frente a essa visão. Nesse sentido. A velocidade é a velhice do mundo. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. abrindo.usado para avaliar a capacidade humana. Assim. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. equivaleria dizer. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. com as quais faz os vetores do poder. pelo envelhecimento da história. um importante campo de questões filosóficas. 27. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. 106 Ruth M. Descrever a violência. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. p. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. assim. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. 130 130 MAFFESOLI. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. cit.

o ponto de partida. 28. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. desse modo. nessa recusa em negá-la. até certo ponto. analisá-las em si.. o inacabamento e a falta e. “Quanto a nós. O reconhecimento da diferença é. priorizar o estilo. Michel. 39. 134 Nessa busca da diferença.. Maffesoli não deixa de enumerar. não pode ser equacionado. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. tentando equacionar aquilo que. portanto. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. por sua vez. 28. op. 133 Para além de uma aparência homogênea. Importa. 132 Por outro lado. cit. 133 MAFFESOLI. Michel. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . Sabe ele que. cit. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. também. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. Michel. 30. p. Michel. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. MAFFESOLI. op. Quanto ao primeiro. como fica manifesto nessa introdução. na própria introdução da obra. Não se trata. por si só. o vivido que.. cabe então. p. cit. ou talvez fosse mais correto dizer. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. continua não havendo nada de novo sob o sol. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. segundo o próprio Maffesoli. os riscos de seu empreendimento. Enfocar o vivido. mais do que nunca.. de modo didático ou para a clareza de exposição que. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. cit.Uma vez que. quanto ao segundo. p. no quadro de uma ideologia produtivista. mais do que tudo. op. que se pode mesmo. é constituído pela vida. de apresentar os fatos e ligá-los. op. 134 MAFFESOLI. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. p. no entanto.

137 MAFFESOLI. um fértil campo de análise. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. para reativar e revigorar a socialidade. emprega o termo em diferentes momentos da obra. Temos. uma vez que diz respeito ao fato social em si.. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. fragmentada. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. queiramos nós ou não. então. A socialidade. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. A partir desse último termo tem-se. apud Michel Maffesoli. para Maffesoli. p. Ao analisar a maneira como o poder configura-se.entendimento das pulsões que. p. não se deixa reduzir à simples razão. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. sendo que a sua utilização. 41. quais os meios postos em ação. A revolução serve. 41. então. cit. Compreender a ideia de socialidade torna-se. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. 136 Compreender. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. Chittó Gauer . nada mais é do que um fenômeno recorrente. portanto. 51. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. op. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. 138 A revolução. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. nesse sentido. Michel. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. cit. cit. 108 Ruth M. em última instância.. a função unificadora do Estado e aquilo que. ganha aqui um caráter mais específico.. MAFFESOLI. contemporaneamente. para elucidar tais questões. o autor de A violência Totalitária irá. por meio da reforma. 138 MAFFESOLI. p. em outros termos. se fazem presentes no vivido. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. assim. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. op. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. op. embora relacionada ao conceito freudiano. Michel. portanto.

O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. situadas na própria manifestação da socialidade. por sua vez. Desse modo. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. A potência. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. 139 MAFFESOLI. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. 124. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. então. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. 64. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. o Marxismo. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. op. que não são e nunca serão. para o autor. cit. Reformas e revoluções estão. No exame do processo revolucionário. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. É na conjugação das diferenças que. Ao analisar.. 95. para Maffesoli. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. Michel. em primeiro lugar. os elementos constitutivos do fato social. de um modo ainda mais específico. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. mas mudança de velocidade”. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. já analisadas por muitos autores. afirma que “a revolução não é. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. nas palavras do autor. mudança de estrutura. 139 Nessa perspectiva. pp. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. As críticas ao racionalismo instrumental. por si sós.

Michel. 159. cit. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. o progresso”. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. 243.. essa unidade. 110 Ruth M. O totalitarismo seria. nesse sentido.instrumentalizando a razão. op. 140 a segunda “amoedará. por um lado. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. Se. melhor seria dizer essa interdependência. O dinheiro na sociedade moderna.. 282. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. para tanto. ou seja. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. 193. capture-se a dimensão do ato criador. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. Logo. agora segundo Dumont. a pulsão de esperança. por sua vez. cit. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. será obtida de cima. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. por um órgão centralizador. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. op. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. MAFFESOLI Michel. 281. pp. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. tal 140 141 MAFFESOLI. Ainda que não redutíveis entre si. Chittó Gauer . 156. pp. a primeira objetiva “amoedar o divino”. entretanto. 281. à perda de solidariedade orgânica. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. desse modo.

enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. Brasília: UnB.como analisado por Simmel. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. como liberdade de movimento. Tal como 142 SOUZA. segundo a visão de Simmel. A questão da liberdade. No entanto. 33. 12. 10. OËLZE. 142 completa o estudo sobre a violência. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. dinheiro. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. Liberdade. uma ideia força na visão de Baumer. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. O aspecto subjetivo. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. da autonomia tanto social como individual. 1998. porventura. Simmel e a modernidade. 38. 39. há muito anunciado por Thomas Kuhn.). pp. Berthold. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. Segundo Kuhn. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. isto é. Jessé. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). dependência de muitos x dependências de poucos). ou seja. (Orgs. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. permite uma margem de liberdade pessoal. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. cética relativamente ao poder das teorias.

prolongando-se em ação nascente. 89. 91. Matéria e Memória.. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. 2003. conforme Polanyi. Edições 70. São Paulo. Michael. Chittó Gauer . A lucidez é um produto de crise. Como sustenta Bergson. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. nascida no seio da liberdade. pp. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. Rio de Janeiro. quando um novo paradigma. e. 112 Ruth M. na medida em que as imagens. criam no corpo disposições novas para agir. 102. “uma forma mais elevada de análise”. Para além destes aspectos. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. tornou-se refém da norma. 92.refere Stengers. Isabelle. ed. cit. deduz. 11. qual seja. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. no entanto. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. A lógica da liberdade. 145 posto que percepção é memória. pp. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. modificam o organismo. 145 BERGSON. 1999. repara-se mais nelas”. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. 90. pela memória. op. Topbooks Editora. 2. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. Martins Fontes. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. Para Bergson. 83. As políticas da razão. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos.. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. Lisboa. 88. Henri. se fixam e se alinham nessa memória. 146 BERGSON Henri. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. Após uma visita à Rússia. é conquistada e não se pode considerar normal. 1993. Deve-se considerar. p. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. “o registro. que a pesquisa. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. 101. uma vez percebidas. os movimentos que as prolongam. POLANYI. pp. A análise resgata elementos de toda a percepção.

2007. aliás. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. isto é. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. O contrário. Chittó Gauer (Org. Esse hábito. cada vez mais estranha à nossa vida passada. ser efetivamente a memória por excelência. a primeira parece. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea.imediatamente perfeita. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. criar um hábito do corpo. CARVALHO. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . gera resistências das mais variadas formas.). pois coloca em xeque a base epistêmica. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. calcada na razão moderna. Rio de Janeiro. Lumen Juris. organizá-los entre si e. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. Salo. a lembrança aprendida. “Criminologia e interdisciplinaridade”. No entanto. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. portanto. Das duas memórias que acabamos de distinguir. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). tornar-se-á cada vez mais impessoal. Sistema penal e violência. montando um mecanismo. Ruth M. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração.

p. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. o processo de criar poder. pp. O político e o cientista. Chittó Gauer . os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. Para o autor. Lisboa.. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. portanto fogem à racionalidade. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. Max. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. WEBER. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. 11. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. 3ª ed. fundada sobre normas racionalmente criadas. Assim. este é. fundamentalmente. via de regra. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. op. 1979. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. mas porque acreditam nele” 149 . Max. 148 149 WEBER. Presença. 10. 12. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. cit. obediência livre. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. 114 Ruth M.

combinatória. p. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. alude ao que passou. por sua posição no contexto. formal. e ao mesmo tempo pré-significativos. onde cada mitema designava um feixe de relações. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. cit. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. O mito é fala. Otávio. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). Para comparar mito e linguagem. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. sintática. op. e em um segundo nível. é diacrônico. 23. Busca uma lei geral. como elementos de um segundo discurso: o mito. estrutura fonológica. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. Este se decifra por meio da linguagem. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. São significativos dentro da narrativa. ao mesmo tempo é idioma. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. Em um nível mais baixo.. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. seu tempo é irreversível. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. que são frases ou orações mínimas que.

nessa atividade interdisciplinar. Harry S. Fondo de Cultura Económica. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. Chittó Gauer . 116 Ruth M. México. Durante os anos 30. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. Anna Freud. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. esta é apenas uma das variantes da estrutura. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. para alguns. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. 1955 e El Individuó y su Sociedad. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. Assim. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. O estruturalismo não pretende explicar a história. Ralph Linton e Cora Du Bois. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. entre o incesto e a adivinhação. tal foco de atenção teve notório destaque. 1945. 151 Ver KARDINER. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. México. por outro. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. Tornou-se claro. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. Juntos. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. Fondo de Cultura Económica. Abraham. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. então em franco desenvolvimento. mais especificamente. Sullivan e outros. Sándor Rado. entre os quais Ruth Benedict. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. Principalmente nos Estados Unidos.

pp. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. Abraham Kardiner. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. Así. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. secundado por Ralph Linton. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. elaborou o conceito de personalidade básica. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes... 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta.se a humanidade. portanto. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. difieren de una sociedad a otra. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. para las diversas familias que forman dicha sociedad. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. por outro lado observou-se que as culturas. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica.. aunque nunca idénticas. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. Os comportamentos humanos não seriam. 152 Embora os antropólogos. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. ob. por motivos compreensíveis. sino más bien a los sistemas proyectivos. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. cit. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. hipoteticamente. além de serem diferentes entre si. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. en otras palabras. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. 8-9. constituídas como faces especulares da mesma realidade. fixados apenas de modo filogenético e. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 .

cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas. Buenos Aires. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. como. As defecções de Jung. 153 118 Ruth M. debe decirse que la antropología estadounidense. a psicanálise e a antropologia. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. por exemplo.. citado por Henry W. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. como se sabe. 469. Brosin. Podemos ver. dogma. portanto. Kluckhohn. ou seja. Os antropólogos.. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud.. durante los últimos años.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. durante a década de 30. Los llamados “neofreudianos” (Horney. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo. Antes de comentar esse aspecto. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. Franz Alexander e Helen Ross. No entanto. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. Fromm y otros) han ejercido. C. p.. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana.. Editorial Paidós. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético.. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología.. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. para bien o para mal. Chittó Gauer . gran influencia sobre los círculos antropológicos”. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção. No entanto. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. mas sim doutrina. Não teoria. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. plenas de um grande potencial. “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. fé e crença.. como duas disciplinas relativamente novas. Psiquiatría Dinámica. Kardiner. 153 Este psicanalista conseguiu obter. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos.trabalho “sociológico” de Freud). 1958... Adler. por sua vez. Del estudio de la bibliografía antropológica.

em uma primeira versão. Assim. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). extremamente heterogêneos. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. cit. Sullivan.. como sendo a típica personalidade modal. predominante entre os membros de uma determinada cultura. apesar do afastamento. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. Foi a partir dessa postura que. em termos mais simplificados. Retornando à contribuição de Kardiner. nas primeiras décadas do século XX. ob. adotar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. de certo modo. p. que passou a ser entendida. como Fairbairn e H. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. em uma acepção ampla. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. neste texto. diante disso. ou dar maior importância. por exemplo.mecanismos da cultura e da psique humana. As instituições155 responsáveis. infestadas ideologicamente. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). as teorias raciais. Desse modo. Ora. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. Abraham Kardiner. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. 47. Cabe não esquecer que. tais dados.

por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. em grande parte. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. pela formação da personalidade básica. Chittó Gauer . os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. por uma relativamente obscura lógica cultural. Tal se daria.mútua causação. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. Partindo das premissas acima colocadas. os mais variados sistemas de crenças religiosas. por assim dizer. das manifestações dos mecanismos inconscientes. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). basicamente. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. seriam destinadas. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. minorou. e “domesticada”. Por outro lado. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. em primárias e secundárias. No entanto. com os dois grandes sistemas projetivos. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. o folclore e a religião. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). abrangendo instituições primárias e secundárias. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. Portanto. de acordo com Kardiner. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. por exemplo. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. passaram a ser divididas. Por isso. Kardiner analisou. as instituições secundárias. um derivado das primárias. a uma escala monocromática. sob o rótulo de instituições secundárias.

participação na vida social. porém. nas culturas primitivas. todo um conjunto de crenças religiosas. Siempre que las pasiones. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. a contribuição de Kardiner. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. a la perversión o la aberración. Porém. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. sistemas projetivos e outros. por las costumbres y por las sanciones legales. 157 Citado em HARRIS. em si não ofereceu novidades. pomo. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. El examen del mito. Madrid. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. indução à afetividade. mitos. Malinowski já havia percebido. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. los cuentos de hadas y las leyendas. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. Cabe observar. matrimônio. Assim. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. Siglo Veintiuno. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. quase com pretensões de exclusividade. disciplinamento precoce da sexualidade. puberdade. ojibwas e outras. indução ao trabalho. Una historia de las teorías de la cultura. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. 378. rivalidade entre irmãos. na vida dos membros das comunidades primitivas. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”.) el odio reprimido contra el tío materno. observe-se que. p. nas ilhas Trobriand. fatores de integração social. navajos. 1985. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. A título de comparação. 156 No entanto. afirmou Malinowski. comanche. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. Como muito bem lembra Marvin Harris.do criador da psicanálise. El Desarrollo de la Teoría Antropológica... alor. tanala. e igualmente el de la magia muestra (. isto é. 157 Como se vê. tapirapés. al igual que en el folclore de estos nativos. em um escrito de 1923. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. Marvin. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 .

obrigações. de certo modo. de certo modo. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. continuam oscilando. pela maioria. ou pelo difusionismo que. O selvagem passa toda a sua existência. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. Considere-se. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). qualquer indivíduo. Se estas oscilaram. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. cabe registrar que. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. direitos. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. Entre estes. além desses aspectos. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. Chittó Gauer .as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. por assim dizer. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. assim como. em princípio. às causalidades registradas. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. nestas culturas urbanas. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna.

mais urgente.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. a realidades construídas coletivamente. autores da área psicanalítica. e os objetivos de qualquer atividade mental. Ao mesmo tempo. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. 158 Portanto. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. Neste ponto. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais. suas origens. pelo fato da importância atribuída à cultura e. significados e distinção não eram. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. do qual Freud é um dos grandes tributários. não era de forma alguma aparente como posicionar (. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. Assim. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. por exemplo. e MITCHELL. Porto Alegre. Deve-se lembrar que Freud. de forma alguma. Em trabalhos posteriores. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. como Fairbairn. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. 1994. para atraí-la a um âmbito próprio. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . XII. As relações objetais tinham que ser explicadas..) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. Artes Médicas. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. p. por conseguinte. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. em parte. Assim.. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram.

o modelo primordial de “busca do objeto”. Chittó Gauer . na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. os grupos familiares. Sullivan e vários outros tentaram dar. em grande parte. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. De fato. e o trabalho 124 Ruth M. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. Isso não quer dizer. surgem posições. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. por ex. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. de fora para dentro. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. A opção. Nas análises das autoras citadas. portanto. as marcas da personalidade grupal. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. Desse modo. como já foi colocado. assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. Ora. no âmbito da teoria psicanalítica. K. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). para a criança. H. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. que a ortodoxia freudiana. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. certa primazia às relações objetais. pode-se entender que a maioria deles. muito antes disso. E. Fromm.).(com os objetos externos) na psicodinâmica. ou seja. ao mesmo tempo em que se estabelece. onipresentes nas comunidades primitivas. é claro. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. Horney. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. por esse último modelo. Fairbairn. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. em detrimento. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. realizadas por Mead. No entanto. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência.

Tratado de História das Religiões. as primeiras fases de socialização. Editora Perspectiva. do extraordinário. Lisboa. de gerações e de linhagens. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. afirma a existência de um evento originário. Nesse sentido. a diferença. Sexo e Temperamento. 129-296. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. ver Margareth Mead. examinado por Margareth Mead. Como diz Eliade. o diferente. com grande destaque. Martins Fontes. por meio de um duplo movimento. cit. Gilbert. Mircea. eficaz. 1997. para Lévi-Strauss. 48.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. do novo. Em Alor. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. focalizando. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. na personalidade do indivíduo adulto. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. das convicções ou das situações desestabilizadoras. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. fundador da sociedade humana. Para esse assunto. as consequências da precoce rejeição materna que resultam.. nesta pergunta. pensado às vezes como o “novo”. como características típicas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. a troca restabelece. São Paulo. Para isso. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. 159 Lévi-Strauss. Assim. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. São Paulo. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. puderam ser verificadas. seria o da proibição do incesto. devemos lembrar o pluralismo das representações. 1970. ob. nos antagonismos. Assim. ver Cora Dubois In. 161 DURAND. “o que é escolhido é implicitamente forte. em Totem e Tabu. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. passam a pensar no outro. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. como já referido anteriormente. fortificando e atenuando. Cosmos. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. na Nova Guiné. 160 ELIADE. temido ou fértil. 1969. pp. posteriormente. Tal evento originário. Abraham Kardiner. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. p. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949).

na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. 126 Ruth M. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. Ao falarmos sobre alteridade. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. encerrado na totalidade pela qual é constituído. Para compreender tal fato. Ensaios Sobre a Alteridade. Emmanuel. Sob este aspecto. Entre Nós. Merton. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. das instituições. Este é um cosmopolita.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. do direito. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. Marshall B. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. a interioridade se opõe à exterioridade. que foi erigido como categoria autônoma. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. não apenas para observá-lo. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. mas para apreender os limites de sua própria diferença. 1997. um não existente para si mesmo. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. Frente a esse quadro geral. Vozes. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. mas simultaneamente se complementa com ela. da educação e muitas outras áreas. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. o estudo das organizações. É grande o número de autores que poderiam ser citados. Chittó Gauer . Para o ser pensante. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. 162 LEVINAS. Petrópolis. o incógnito. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. entendê-lo e descrevê-lo.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. Se por um lado a natureza impõe a aliança. e de maneira significativa. uma transgressão que provoca horror e repulsa. a irmã. 48-49. quando ocorre é visto como inaudita. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). uma monstruosidade. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. por outro não a determina.primogenitura. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. Chittó Gauer . pp. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. op. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. essa proibição não é verbalizada. entre outros parentes próximos. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. em um plano diferente. 130 Ruth M. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. e na forma metafórica o abuso de menores. as metamorfoses das normas sociais. Claude. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. Nos exemplos de casamentos entre irmãos. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. ninguém pensa em proibi-la. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. Quer sejamos críticos ou liberais. com ela.. entre elas. cit. o irmão. os tios. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. o pai.

Se. A ser assim. Franklin L. Lisboa. Raça e história. escrevia em 169 POUILLON. na contemporaneidade. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. “Na verdade”. 1990. hierarquias variáveis. assumem significados sociais diferentes. surrealismo. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados.norma. Cheguei a mim”. II. John Galsworthy. positivismo. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. v. Jean. o universo passou a ser misterioso. disse Mann. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. que afetou não só a ciência. 1952. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. mau ou indiferente. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. ou um movimento psicanalítico. 123127. trata-se de constatar que. mas todos os domínios do intelecto. a arte e a religião. Edições 70. incluindo a literatura. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. entre outros temas do mundo da academia. pp. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. Lisboa. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. Claude Lévi-Strauss. In. 170 Apud BAUMER. O pensamento europeu moderno. além de deslocamentos contínuos. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. Para Pouillon. Presença. ao invés de diminuirmos as funções da norma. existencialismo. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. a natureza tornou-se longínqua. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. não se trata de discutir a sua exclusão. as questões teológicas passaram a não ter sentido.

1926: “Como agora tudo é relativo. nas classes sociais”. desenharia as articulações motoras dele. Henri . que se aprofundou no século XX. examinados sem pressuposições matemáticas. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. Trad. nas palavras do autor. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. Franklin Leopoldo Silva. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. II. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. São Paulo. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. BERGSON. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. a recíproca não era verdadeira. 1974. para fixar as ideias. Assim. pp. ela apenas o exprime numa outra língua”. Os Pensadores – Cartas. Entretanto. Apud BAUMER. Assim. 49. nas diferentes formas de energia. Contudo. 1990. o homem é inominável. Edições 70. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. Dado um fato psicológico. Há uma verdadeira descrença. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. Chittó Gauer . já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. Lisboa. nos títulos da dívida pública.58. mas de uma hipótese metafísica. Franklin L. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. Conferências e Outros Escritos. 172 171 132 Ruth M. Abril Cultural. v. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. pois não se tratava de uma regra científica. O pensamento europeu moderno. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. no livre comércio. no casamento. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. Os fatos.

O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. com efeito. em termos convencionais. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. enfim. representam duas noções do real. por uma mágica intelectual inconsciente. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. entre dois sistemas de notação. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. Somos aqui 173 BERGSON. op. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. cit.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. oferecida pela consciência humana. Henri. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. podemos escolher. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. O realismo repousa na hipótese inversa. As palavras realismo e idealismo. desdobrada e articulada no espaço. Em suma. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido.

sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. Henri. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. 174 BERGSON. pois o problema em pauta. que determina a percepção do consciente. Para o idealismo. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. sendo ele uma representação. contudo. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. Bergson concebe. suprimir. representação. numa representação”. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. cit 58-59. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. não poderia. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. uma vez de posse do estado cerebral. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. sugere-nos. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. pela sua própria colocação. na hipótese idealista. 134 Ruth M.naturalmente mágicos. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. por um golpe de mágica. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. op. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. Chittó Gauer . 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade.

Grafilarte. o quadro que responde a todas estas faltas. Oscilamos. então. 25. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. as respostas outras a outras faltas”. erigimos. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. a cor que o quadro espera. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. p. isto é. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. de alguma forma. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. 1997.Aprofundando os dois sistemas. O olho e o espírito. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. no espaço. e vê. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. Conservamos o cérebro tal qual é representado. e vê os quadros dos outros. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. estendido nela e não contraído nela. uma vez feito. para perceber o universo. mas esquecemos que. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. sobre a paleta. e. a nossos olhos. Lisboa. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. sem se alterar. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. se o real está desdobrado na representação. pois.

Coimbra. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. 286. a ser exterior ao homem empírico. o si próprio e a norma. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. e que os dois termos são. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo.parte de outra. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. intercambiáveis”. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. 136 Ruth M. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. Chittó Gauer . e a razão prática. ou um movimento psicanalítico como referi no início. entretanto. Almeida. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. portanto. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. Então. Segundo Luc Ferry. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. p. isto é. termos em que a ética moderna se formulou. enfim. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. continua. da parte com o todo. Homo Aestheticus. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. A Invenção do gosto na era democrática. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. 2003. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral.

o hedonismo. o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 .

assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. Publicações Europa-América. O conhecimento foi tido como absoluto. da matemática. 2000. neutralidade e generalização. O fim das certezas chegou ao campo da física. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. as teorias desenvolvidas por Einstein. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. universal e eterno. desde seu início. 138 Ruth M. é possível concordar com a ideia de que a ciência. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. Lisboa. Chittó Gauer . cabal. Neste sentido. objetividade. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. A experimentação trouxe a primazia da técnica.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. O Erro de Descartes. via de regra. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. além de elucidar. 177 DAMÁSIO. e muitos outros. no entanto. pelo menos de forma substancial. Max Planck. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. é cega a respeito de sua própria aventura. As tradições políticas modernas. da neurociência. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. Sob esse enfoque. Há muito de crença nas verdades científicas. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. entre outros. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. Não é por acaso que somos. Antônio R. Prigogine. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. As emoções e os sentimentos.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 .. principalmente das instituições jurídicas. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. Trad. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. Michel. neutro e liberal. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. foi o jurista. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. Metamorfoses do poder. mas o próprio direito". Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. Coimbra. responsável pela construção do estado moderno. de forma precisa. 2004.mas também o culto das instituições. KELSEN. 1996.. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. João Baptista Machado. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. 180 SÁ Alexandre Franco de. 4. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. ed. Trata-se do estado liberal. (Coleção Sophia 002). Teoria Pura do Direito. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. 178 179 WEBER. No fundo das aparências. 1979. que afirma: "não é o estado que é soberano. 121-122. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. pp. 1919) foi aceita pelo autor. Hans. 1979. é que permite a emergência de um poder total. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. Presença Ltda. Vozes. 30-31. apagou a estética do mundo delimitado". Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. 178 O autor descreve. A ideia moderna de estado (Krabb. Ariadne Editora. Esse estado. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. Lisboa. Max. podemos afirmar que o cientista. Seguindo as reflexões do autor. Coimbra. ao perder o poder político que o caracterizava. pp. Petrópolis. 181 MAFFESIOLI. Armênio Amado. O Político e o Cientista. próprio da modernidade.

que está inserida nos aparelhos de estado. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. racionais. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). racionais e mecânicas. 182 é uma alucinação dos sentidos. GIL. o princípio secularizador. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. In. Chittó Gauer . 19-20.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. Revista de História das Ideias. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. notórios. índice de si mesma. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. 23. constitui-se. Fernando e MARTINS. Mesmo os fatos mais evidentes. A soberania das formas institucionais. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. como diz Rui Cunha Martins. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. A evidência. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. como tentativa de eliminar a sacralidade. mas que assumiram uma verdade. p. Rui Cunha. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. No entanto. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. 2002. em sentido quase estrito da linguagem. a exemplo do estado. portanto. Porém. O exemplo da soberania. é. portanto. de Duns Scot a Husserl. Modos da Verdade. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. Esta verdade é excessiva por natureza. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. matrizes da sociedade ocidental moderna. v. 182 140 Ruth M.

184 HALL. 23. Lisboa. no qual prevalece o estado de direito. vista mais especificamente como criminalidade. tal como analisada por Hall. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". 2002. 26. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na tramitação do processo. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. Já não se acredita no devir. Rui Cunha. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. DP&A. GIL. O sentido da racionalidade é sempre esse. 1999. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. 184 fruto da multiplicação. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. 1997. Rio de Janeiro. Piaget. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. denuncia a impotência do Estado. Modos da Verdade. O tempo do direito. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. e transformação contínua nos sistemas culturais. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. p. em que o caráter problemático dos fins. Revista de História das Ideias. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. Fernando e MARTINS. Como se sabe. Stuart. nas ciências do direito". In. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . De modo geral. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. A identidade polarizada. A identidade cultural na pós-modernidade. 185 OST. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. por outro lado. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. que nos aproxima ao estado de natureza. François. é "celebração móvel". um tempo diferente do tempo da segurança. Esse é um problema geral para os governos atuais. o conceito de justo (conceito relativo. que não consegue cumprir o seu projeto. a violência. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. v.

portanto. vista como uma inversão temporal. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. novas questões se fazem presentes. separou ciência e política. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. A produção normativa. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. A dicotomia sujeito-objeto. ora a violência. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. assim como todos os campos de saber. Chittó Gauer .Frente a essa complexidade. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. que deve ser (re)questionado a todo instante. do estado de direito já não existe. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. dos meios e dos resultados. Qual seria o remédio. própria da modernidade. No entanto. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. ciência e direito. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. tal como se acreditava nos séculos passados. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. O tempo da segurança. gerando ora a comunhão. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. marcado pela racionalidade falível. e. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. principalmente no campo das humanidades. O direito deu lugar à relação frente a frente. bem como a duração dos códigos e das instituições.

tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. op. Importante observar a conotação dada. Sua análise continua.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. em suas múltiplas faces. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. ambíguas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. polifacetadas. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. A heterogeneidade. Ao tomar-se o real pelo real. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. 1997. Um dos problemas no mundo globalizado. cit. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. Derrick de. sentimentos. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). pode ser pensado por meio da ilusão midiática. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. 187 KERCKHOVE. ou seja. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. Lisboa. impossíveis de mencionar em sua totalidade. Derrick de. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. Relógio D'Água Editores. todos carregados de violência.

revela ainda a forma saturada de ver o mundo. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. nesta leitura. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. uma passagem decisiva. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. 1988. Michel. mas continuamos caminhando. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. Forense Universitária. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. tal como referido por Kerckhove. 188 MAFFESOLI. revelam apenas uma das faces da violência. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. A violência relatada de forma emblemática. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. Esses fatos.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. Ver ainda O Conhecimento Comum. Brasiliense. 1987. em sua velocidade. Rio de Janeiro. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. Outros eventos. principalmente do supérfluo. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. revela que não sabemos mais qual é o caminho. O mundo sem dinheiro. no entanto. 144 Ruth M. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. O Tempo das Tribos. Ao lado destas questões inquietantes. O evento. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. São Paulo. Chittó Gauer . trazem informações sobre a violência subterrânea. representa. não tão visíveis. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito.

um processo dialético sem fim. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". tal como os futuristas queriam que fizessem.. o produto da ciência. 191 KERCKHOVE. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. G. ou seja. R. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. além da preocupação com a instabilidade. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. Derrick de. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. Essa doutrina do tempo é. 1990. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. 24-26. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. Lisboa. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. s/d. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. a filha instável do pensamento positivista. Entretanto. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". Franklin L. O termo. op. “isto que a realidade era. 88. p. uma história. na literatura e na arte. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. um devir. Como afirmaria Collingwood. No entanto. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. mas sem metas fixas. I. segundo Lewis. Lisboa. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". O pensamento europeu moderno. fazendo-as correr. cit. no mundo einsteniano. Edições 70. pp. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . bergsoniano. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. v. a busca de uma racionalidade. Nele pode-se ler. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". integralmente dinâmico e nunca estático. A Ideia de História. levado a efeito pelo historiador. a velocidades cada vez maiores. COLLINGWOOD. Editorial Presença. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. no 189 190 Apud BAUMER. adverte o autor. segundo este ponto de vista. que iniciou em fins do século XVIII.

Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. o novo interesse pelo local. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. mas nem sempre com sucesso. uma vez que o fluxo é desequilibrado. Ainda somos. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. é esse o paradoxo da aldeia global. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. Por mais paradoxal que possa parecer. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. A lógica da globalização não se concretiza. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. tal como visto no início do século XX. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. O impacto global cria. não há treino para o comportamento social e coletivo. continuamente. Quanto mais noção temos da globalidade.entanto. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. Chittó Gauer . com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. e mais as protegemos. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. Há várias formas de se falar sobre globalização. principalmente do poder do estado. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. mais ficamos conscientes das identificações locais. Porém.

com seu outro. diáspora. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. na verdade. deslocamentos de fronteiras. Por outro lado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . que.desiguais de poder entre Norte x Sul. Assim. a mistura. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. valores. vê-se face a face com a cultura "alienígena". exótica. do império do ocidente. desigual. Trata-se de um desencontro cultural. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. o capitalismo global é. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. etc. o absolutismo do puro. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. Kevin Robins lembra que. com a diferença. ao mesmo tempo. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. Ocidente & Oriente. a impureza. a transformação e o perigo. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. prioridades das formas de vida do ocidente. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional.

op. Thomas. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. Thomas. para o autor. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. A estrutura das revoluções científica. op. 193 KUHN. Para o autor.XIV Norma. 148 Ruth M. 53. porém não podemos considerar como tal. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. 13.. antes de mais nada. op. 30. São Paulo. cit. Thomas. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. durante algum tempo. Perspectiva. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. 194 KUHN. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. p. 23. Chittó Gauer . Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. 31. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. 5. ela é. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. 195 KUHN. cit. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. 1982. cit. p. Thomas. p. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. p.

cit. coloca-os daquele modo. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. Na análise sobre liberdade. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. um sistema de leis 196 197 POLANYI. op. Michael. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. p. Polanyi. p. A lógica da liberdade. 196 em A lógica da liberdade. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. nós. na obra de Polanyi.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. 242. Michael. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. 2003. 291. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. instintivamente. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. de forma intencional. a plena afirmação de si próprio. Por outro lado. Rio de Janeiro. desejos consciente ou inconsciente. supomos que alguém. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança.. Topbooks Editora. lemos. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. mas sim lograr a expressão da personalidade. POLANYI.

ultrapassa a própria lógica da liberdade. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. portando organizadora. tal como colocado por Freud. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. estrutura das sociedades simples e antigas. com sua independência. ao mesmo tempo a liberdade. por outro lado. que não permite eliminar o poder e a punição. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. entre outros. o pensamento falante manobrável tentou.contratuais que garanta essa situação e. Temos. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. Neste sentido. O século XXI vê-se frente a desafios morais. Para isso. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. com sua imagem de indivíduo-átomo que. seja um sistema de ordem espontânea. Chittó Gauer . seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. não eliminou a banalidade do universal abstrato. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. intelectuais. distingue-se dos outros. empenhada em espezinhar a razão moderna. no entanto. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. reflexo do ser-conjunto. o primeiro não. no entanto. éticos. assim como fez Freud. por ser único. que pensar em deslocamentos. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. Tais desafios. mas sobre os que não podem se proteger dela. assim como não resistiu ao charme do limite. É importante salientar que essa distinção. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. dar uma logicidade ao ilógico. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. O inconsciente. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas.

todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. o mundo como progresso. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. geralmente. como as de coerção. Os antagonismos revelam-se. epidemias. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. perversidade. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. etc. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. A diferente face da desagregação social aparece. é stricto sensu a desestruturação social. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. privilégios. em atos de violência. Os dados científicos. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. poder. com a conotação moral que a envolve. pobreza. tanto as de repressão. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. não podem ser interpretadas de forma linear. No entanto. insatisfação. diferença. desagregações. hierarquia. pandemias. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. que se revelam como explosões de inquietação. vista como a negação da independência. A estrutura perene de nossa história.

O direito seria um regramento entre subjetividades. na medida em que é condicionada. 198 152 Ruth M. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. alienígena da sociedade.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. op. ela está fundada sobre dois alicerces. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. Brasília. 199 BOBBIO. Direito e estado no pensamento de Kant. enquanto ação socialmente intersubjetiva. Norberto. os fins que ambiciona. Chittó Gauer . Já a vontade jurídica. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. como poder controlador e limitador da violência. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. Norberto. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. 71. nessa situação. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. p. não é. ao mesmo tempo a liberdade. mas sim entre os arbítrios dos homens. No entanto. seja por um sistema BOBBIO. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. Assim. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. 1984. cit. Editora da Universidade de Brasília. 72.

jurídico pelo qual se administram as leis. seja um sistema de ordem espontânea. ultrapassa a própria lógica da liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .

dentro de âmbitos que são. 200 é possível iniciar esta reflexão. nunca deixou de estimular. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades.. Em termos de uma transgressão necessária. incertíssimo por sua própria natureza. “O humano arbítrio.) este mundo civil VICO. Se há alguma novidade. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. Caracteriza-se. Abril Cultural. Giambattista... batizada de civilização dos indivíduos. 1974. assim. São Paulo. Segundo o autor. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. simultaneamente. que são as duas fontes do direito natural das gentes. violência. Chittó Gauer . pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. trad. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer.XV Juridicidade. afinal. acerca dos problemas acima mencionados. como é sabido. a sua própria transgressão.. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Seleção. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. o da busca de valores. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). uma emergência que. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. 200 154 Ruth M. quando inerentes à modernidade. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. de Giambattista Vico. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. Os Pensadores. Além disso. a velocidade e a crise de valores. (. já muito antiga.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

201

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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Lisboa. velozes. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. cit. pp. LYOTARD. A 206 207 MAFFESOLI. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). 158 Ruth M. Logo. com capacidade máxima de síntese. hoje. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. 1998. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. Jean-François. Este conceito. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. trabalhado por Maffesoli. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. pp. assim como das tradições. Chittó Gauer . A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. fascinantes. Convivemos. é a era da globalização do homem. talvez. 15-28. de resgate de sociabilidades perdidas. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. O Inumano. a memória de ninguém. o homem possui um cérebro temporário e improvável. dá lugar a uma estética do nós. 69-70. criado pelo modelo Iluminista. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. Por outro lado. diversos. átomo perfeito que lembra Deus. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. ao fim e ao cabo.. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado.identitária. Estampa. Michel op.

36. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. e. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. da mistura. como centro de referência. Ensaios sobre a alteridade. 209 em suas conclusões sobre identidade. Claude. a origem e o fim. 1993. 210 LÉVINAS.busca desse homem hoje é o grande desafio. Paris. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . Vozes. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. Paul. Como lembra Lévi-Strauss. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. muito embora seja indispensável como ponto de referência". pp. p. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. mas sim a celebração do hibridismo. do local de habitação. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. 1977. La Identidad. (Org. que traz novas e inesperadas combinações culturais. 11-39. 1997. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. Grasset.). as quais produzirão um novo eu. todavia. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. pp. tempo-luz). Publicações Dom Quixote. simultaneamente. 124-125. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. do local de nascimento e do Estado nacional. da impureza. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. LÉVI-STRAUSS. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. A estrutura dessas relações sociais exige. Entre Nós. é para ela que nos encaminhamos”. A inércia polar. Rio de Janeiro. Lisboa. VIRILIO. Emmanuel. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história.

Razão e Cérebro Humano. porém. Sociologia e Antropologia. no processo de modelagem das relações sociais. São Paulo. O que vemos. etc. II. maior prudência. 1974. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. da destruição. Lisboa. ou até à absorção por esta. Chittó Gauer .. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. transformando-se em um modelo de simulação. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. do tempo cíclico. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. perde seu sentido. é um aumento de todas as formas de violência. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. EPU/EDUSP. 212 MAUSS. estaria desaparecendo. pp. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. No entanto. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. O Erro de Descartes: Emoção. o que leva a uma sensação de morte. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. Publicações Europa-América. configurando a identidade nacional. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. Marce. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. Nesse sentido. Nossa noção tradicional de self. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. fragmenta a sua imagem. 39-49. A ideia de perder a identidade. António. uma entidade transitória. para muitos. e assim. superando a análise kantiana. 160 Ruth M. está ligada à ideia de identidade. v. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. a morte da identidade construída por meio do individualismo. 1995. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. da produção. No ensaio sobre a dádiva.de cada indivíduo. vista como a condição natural. no entanto.

nos mandamentos divinos. pp. assim como outros ramos do saber. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. tem uma história. 22-30. op. Editora da UNB. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 .).. A ética. E por ser deveras custosa essa tarefa. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. Simmel e a Modernidade. O dinheiro. Jessé. 25-30. Portanto. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. e que pode ser a medida de todas as coisas. fundador do individualismo. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. vulgares. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas. (Orgs. que é impessoal como as leis. pp. Nesse sentido. que vai até o Iluminismo. por essência liberal e pragmática”. cit. Berthold. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. em qualquer caso. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. A verdade moral está na Bíblia. Gilles. Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. Estas fases. finalmente coisificou o humano. 32. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. outras “assumem significados sociais diferentes”. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. Brasília. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. Por tratar-se de um fato social. porém. devem ser questionadas. O paradoxo. 214 LIPOVETSKY. Dentro desta perspectiva. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. 1998. OËLZE.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. 214 Pelo contrário.

assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). se não são uma felicidade. sindicato. Chittó Gauer . pode ser indicado para a maioria dos países. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. estimula os desejos. família. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. fraude fiscal). A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. A própria velocidade. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. 3) A terceira fase da moral. a própria dignidade. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. que Lipovetski chama de pós-moralista. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. encarrega-se de dissolver as permanências. e pensamos que seja ainda mais grave. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). A 162 Ruth M. No Brasil. o ego. escola. remuneração escondida. entre elas. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever.racionalidade). Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. O caso brasileiro não é diferente. o bem-estar individualista. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. que promove o presenteísmo. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. não se prestam a nada). entre outras). A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal.

Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. o valor da renúncia suprema a si próprio.. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. Por fim. Na Inglaterra e nos EUA. ao que dizer que. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. ou seja. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. O autor refere que “quando se pede para destacar. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. cit. com a prioridade incondicional do altruísmo. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. em uma lista de 17 qualidades morais. Gilles. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. pois não estamos no grau zero dos valores morais. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. apesar do quadro preocupante. voluntários. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. que se afunda. que já não acredita no futuro. de vez em quando. limita e impede a própria liberdade. Isso está deslocado no tempo. o caso da Madre Teresa. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. Mas esta é apenas uma das facetas. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. Mas. sobretudo. Cita. da Pátria. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. do Partido. A liberdade trava. da Humanidade” 215. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. da História. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . Existem em França dois milhões de voluntários. como exceção. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. as mulheres que assim o fazem. apesar de estar fora de moda.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. a moral a la carte “não é a ideia do dever. Para Lipovetski. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. pp. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. pois. sendo.000 assalariados a tempo inteiro. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. op. honestidade. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. éticos): direitos humanos. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. enquanto tal. no altar da Família. Os exemplos que citamos. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. na nota abaixo. 34-37. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. Para o autor. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado.

caracterizada pela racionalização. 29. espetacular. no entanto. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. na supervalorização das festas. descomprometidos. 217 216 164 Ruth M. Ciência e Política. mas com a condição de que possa divorciar-se. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. na cultura do presente. São Paulo. passando à moral a la carte. viver em concubinato. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. do que de grandes cruzadas moralizantes. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. o que vale é o aqui e o agora. torcidas organizadas. última forma do consumo interativo de massa”. extremismo higienista. “indolores”. As práticas da solidariedade. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. incapazes de resolver os WEBER. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. Lisboa: Piaget. melhor dito. 217 Como visto.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. Como a caridade mediática. IN: A sociedade em busca de valores. censura pornográfica. principalmente. “a moral não desaparece. Gilles. torna-se sentimental. repressão total em matéria de drogas. No que diz respeito à violência. A era do após-dever. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. ter filhos por encomenda. 2000 p. por exemplo. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. LIPOVETSKY. epidérmica. intermitente e. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. Há. entre outras repressões. o aumento de pequenas violências no cotidiano. a la carte. que podem ser escolhidos. sacrifícios altruístas mínimos. 2002. pela intelectualização e. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). p. a delinquência juvenil. 57. ou seja. Duas Vocações. Chittó Gauer . Martin Claret. como honestidade e respeito às leis. Max. ao mesmo tempo. A família sobrevive. entre outras questões não menos importantes.

). permanece. por outro. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. A busca da excitação. sobretudo. 218 analisam os problemas da cultura moderna. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. op. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. produz o indivíduo na sua autonomia e. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Louis. dos valores. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. OËLZE. Por outro viés.concretos problemas sociais. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. Rio de Janeiro. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. cit. do direito subjetivo. (Orgs. O Individualismo. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. 1992. Daí. por um lado. Difusão editorial. Lisboa. Vários historiadores e sociólogos. pragmática. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. priorizar a ética da responsabilidade. Norbert. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. Ao descreverem a lógica da individualização. 1985. os problemas da cidade. Rocco. Jessé. 220 DUMONT. o expõe. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. Berthold. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Nas análises. ao mesmo tempo. No entanto. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. Robert Ezra Park. a hierarquia. do surgimento do direito natural. Da mesma forma. entre eles Simmel. Nas sociedades SOUZA. ELIAS. Louis Wirt. para Dumont. simultaneamente. fundada em uma ação ético-liberal e.

ou seja. porque lhe eram impostas pela estrutura social. São Paulo. como projeto a ser alcançado. ao mesmo tempo. da "eliminação" das diferenças. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. No entanto. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. leva-o a “opções de vida. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. supostamente própria do universo. o sustentava. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. a incorpora. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. 1999. o indivíduo. ao mesmo tempo. dos grandes códigos modernos. p. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. 1986. Martins Fontes. 730). Nova Fronteira. Isto é. A nova posição. mas. liberta-se dela. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. opções morais” (moral a la carte). Vocabulário técnico e crítico da filosofia. 1269). de maior precisão conceitual. p. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. Em outra fonte léxica. “opções existenciais”. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. com ele. 221 166 Ruth M. Rio de Janeiro. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. caracterizadamente holística. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. que antes não tinha de fazer. termo de sentido filosófico que significa a tendência. Chittó Gauer .

Lisboa. afirma: “no campo jurídico. na verdade. No entanto. Significa qualquer Homem. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". Se isso fosse viável. Seria possível pensar dessa forma na China. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. Esta noção. Piaget. Religar os conhecimentos. Não a encontraríamos". No entanto.poderia ser considerada igual e. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito. ausência do estado. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. por óbvio. 227. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. um recém-nascido. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. o terrorismo.]. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. a humanidade é. Complementando a análise.. Mireille. O desafio do século XXI. Problemas como o desvio social. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. [. p. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. independentemente de qualquer condição. Na tradução oficial. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". criou a forma mais expressiva de violência. bolsões de miséria e violência. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado.. possuir os mesmos direitos. na realidade é extremamente subversiva. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . Da mesma forma. O título sugestivo do capítulo. A busca da igualdade. apenas para citar os exemplos mais conhecidos. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. tal como pensado no Ocidente. Acesso à humanidade em termos jurídicos. 1999. e em nenhum a palavra “humanidade”. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. Nesse sentido. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. embora balizada atualmente.

A busca de um pensamento heterotópico. o que impede relativizar em termos jurídicos. derrubou o que restava da crença na unidade. simultânea a uma realidade única. leva ao consensual. 168 Ruth M. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. Para além dessa façanha. eliminando os discursos dos direitos. As diferenças se manifestam com violência. é eliminada pelas teorias do consenso. O discurso pensado como projetivo. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal.comum. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. Os direitos humanos. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. vêm recebendo reações diversas. legitimadas pelos direitos internacionais. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. na igualdade. Chittó Gauer . no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. dos direitos humanos. não consensual. tal como o pensamento moderno o instituiu. em todos os níveis sociais e políticos. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. Os resquícios dos totalitarismos.

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