A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Ruth M. Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .

com.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av.br/orgaos/edipucrs/> 1. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra.© EDIPUCRS. 3. Normas Jurídicas. Título. 6681 . Ipiranga. CDD 340. Lévi-Strauss. 175 p. Direito.br http://www. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. 2009. Chittó Gauer.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs.edipucrs.br . Diploma da Fundação da Universidade. 2. I. – Dados eletrônicos.pucrs.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www. Filosofia do Direito. – Porto Alegre : EDIPUCRS. Claude – Crítica e Interpretação. 1290. 4. Arquivo. RS .

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Chittó Gauer chitto@pucrs.Ruth M. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História.br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. .

minhas netas. .Para meus filhos Gabriel. Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa.

no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. com ênfase. O mais relevante. durante o período em que escrevi minha tese. a psiquiatria e a filosofia. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. início dos noventa. de encontros e debates. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. fruto de uma longa convivência. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. no entanto. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. . O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. Quero aqui mencionar. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. meu “lar” acadêmico em Portugal.

.. 154 BIBLIOGRAFIA ...................................................................... 169 ........................ 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora........................................................... 148 XV Juridicidade... 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos ....................................................................................SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença .................. 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana.............................. 138 XIV Norma................... 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma ......... 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo......................................................................... 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação....... 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época .................... 16 A sedução da norma: fato social total ............................... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ............................................................................................................... 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura .............................................................................................................. 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise .......... 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ..................... violência.......................................... mito e memória ........................ ciência e autenticidade .........................................................

Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. cores.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. odores. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. como tradição histórica. conciliando. Desse modo. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. sentidos. texturas. de forma harmônica. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. sendo continuamente reinterpretado. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. Buscou compreender o obscuro. em certo sentido. sabores.

com Merleau-Ponty. incessante prova de si pelo outro e do outro por si. para a convivência dos incompatíveis. porque diferente. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. para um universal constituído por relações de complementaridade. o aparelho de nosso ser social. em antropologia. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. pitoresca. pois vivemos na unidade de uma só vida.. Na análise das estruturas elementares de parentesco. p. São Paulo.Aceitando. No entanto. Chittó Gauer . cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. 1975. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. Abril Cultural. Maurice. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. contrariamente a essa tentativa. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. mas um universal lateral. Os Pensadores. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. da diferença e da identidade. p. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. 383-396. tomando a alteridade como objeto. a síntese à que ele se refere somos nós. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. rumou para as diferenças absolutas. a questão do Outro e do Mesmo. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. cit. Para o primeiro. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. conosco. 1 10 Ruth M. distante. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. no entanto. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. 2 MERLEAU-PONTY. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental. 1 que. forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. Sabemos que. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. superando a MERLEAU-PONTY. op. então. é necessário. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. Para Merleau-Ponty. reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. Com efeito. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. 363-365. a antropologia.

segundo ele. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. uma história. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. Elogio da Filosofia. 290. v. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. 39. 369-370). Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. mas esta. destroem-na. 4 BAUMER. de modo algum. Henri. uma espécie de contador da existência. ainda. se revela a si própria através de nós. O Pensamento Europeu Moderno. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. Martins Fontes. Matéria e Memória. como fomentadores do erro. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. 1990. v. Na busca pela compreensão da verdade. em Bergson. que englobou a norma e. 1990. Flammarion. para Durand. Edições 70. Sendo assim. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. 5 BERGSON. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida.dicotomia sujeito-objeto. p. No entanto. ou ainda como um objeto fantasma. 38. São Paulo. alienando a sua função principal que é conhecer. um mito (grifo nosso). Vila Nova de Gaia. que funciona mal no abandono do sonho. Vila Nova de Gaia. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. isto é. I. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. Para Arthur Miller. o fato e o valor. 39. São Paulo. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. Paris. p. Fato. pp. no sentido dado pelo direito natural moderno. 1997). A desvalorização da imagem não corresponde. Maurice Merleau-Ponty. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. mais do que ser. não se estabelece. Franklin L Baumer. p. conforme Bergson. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. para além desta. Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. desenvolve seu íntimo. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. Edições 70. sem consequências. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. p. se mexe. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . o ‘balanço vital’. como diferença”. Nesta visão surge a lei. 1999. Franklin L. As teorias que falam sobre a imagem. No entanto. pois ele ainda reduz a imagem à memória. ensaia uma ruptura. 1996. O Pensamento Europeu Moderno. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Durand acredita que. I. No entanto. na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. Martins Fontes. Bergson.

criando muitos espaços de debate. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. Partimos da premissa. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos. Isso que significa que os cientistas dessa época. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes.ciência. não se descolaram do conhecimento antigo. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. No campo das humanidades. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. juntamente com uma visão fundamentalista. Ao corpus antigo. apenas visto como uma questão de especificidade. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. com a função primordial de normatizar as sociedades. que permite a sua “evolução”. a literatura e outras. grosso modo. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. e também se constata nas ciências humanas. ainda que para fins de melhor compreensão. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. justamente a crença na “verdade” científica. corresponde. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. 12 Ruth M. portanto. O enfoque da diferença é. Mesmo no período iluminista. É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. pode se constituir em um problema. o que denomino humanidades. As ciências humanas datam do século XIX. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. no ato de conhecer. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. Chittó Gauer . o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença.

Esse exemplo pode ser constatado historicamente. Para Merleau-Ponty6. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. c) Lévi-Strauss. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. Spencer e Webb. diminuindo. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”.dando margem ao inumano. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. Maurice. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . deslocando a análise do macro para o micro. empírico-formais e exatas. A antropologia. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. d) Foucault. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. b) Freud. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. para um universal constituído por relações de complementaridade. para a convivência dos incompatíveis. Para tanto. P. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. como Tylor. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. tomando a alteridade como objeto. assim. ou seja. a biologia passou a explicar. basta pensarmos no século XVII. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. In: Os Pensadores. A divisão tradicional entre as ciências humanas. São Paulo: Abril Cultural. 1975. Nos finais do século XIX. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. desde os finais do século XIX. logo. A teoria da relatividade e a física. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. para alguns darwinistas. passou a sofrer vários abalos.

Na visão de Mauss 7. incluíram o rigor das demais ciências. que se ter presente que as linguagens – palavras. a negação. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. Sociologia e Antropologia. mas o homem como cimento afetivo. portanto. receba de outros seu sentido. Há./EDUSP. escreve o autor. 14 Ruth M. MAUSS. op. e. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. cit. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo.U. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. assim. o Não. desse modo.de desenvolvimento semelhantes. v. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. necessariamente. o afrouxamento do método e. a arte é imprescindível. 1974. à civilização. que “por mais que a palavra. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. buscando.. no apogeu do estruturalismo. no momento. porém. é expresso pela palavra. 363-365. Marcel. Marcel. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. que “devemos. I. independentemente da localização espaçotemporal. o fato social não é uma regularidade compacta. Chittó Gauer . de produzir-se. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. Ao lado desse enfoque a antropologia. O “verdadeiro”. pois. enfim. Contudo. os linguistas.P. o que há de exprimir não é mais diferido. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. logo em seguida. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. No século XX. São Paulo. no entanto. não é a prece nem o direito. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem. contraído de suas relações. E. p. em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Logo. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais. como explica Saussure.

tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX. Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 .em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”.

com base na exclusão do outro consanguíneo. São Paulo. Toda e qualquer escolha dáse. A ser assim. Perspectiva. dialoga com o pensamento filosófico. uma predileção por Bergson. uma desconfiança em relação à filosofia. portanto. Saussure e Breton. uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. tios. 8. desenvolvido por Mauss. entre outros –. Proust. ao analisarem a estrutura de parentesco. podemos notar. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. de certo modo. que revela preferências. uma escolha psicológica. por exemplo. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. Otávio. 9 16 Ruth M. nos autores clássicos. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. Chittó Gauer . o pensamento selvagem e a filosófica. o casamento é assumido como um ato individual. os mitos. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. marcada pela liberdade de escolha. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. está baseada no “fato social total”. contudo. o religioso e o artístico. Sob essa estrutura. Mauss. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. entre outros fatores. em especial com a fenomenologia e se inspira. sentimentos. irmãos. p. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. que. em grande parte. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. interesses. presentes de forma significativa no conjunto da obra. norma estrutural do vínculo familiar. encontramos o sistema de parentesco atual. 1977. porém. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. Toda a obra de Lévi-Strauss. a proibição do incesto.

refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças.P. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. I. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. A compreensão do visível é dada pelo oculto. SAUSSURE. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais. Dom Quixote. particularmente. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. 1974. além de Marcel Mauss. 13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. Journal d’ethnographe. 10 a presença marcante de Saussure. pela busca da relação entre o sensível e o racional. São Paulo. 13 RADCLIFFE-BROWN. Paris. metaforicamente. Alfred. isto é. Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. Podemos identificar. um super-racionalismo. Lisboa. Poderíamos. Marcel.U. Anagrama. 1995. E. 12 MALINOWSKI. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. Barcelona. que revela o oculto. No campo da estética. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. a poesia e o mito. v. Bronislaw. El método de la antropologia social.a passagem da natureza para a cultura. passagem que ocorre com a fundação da norma. Curso de linguística geral. a pintura. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . Segundo alguns de seus intérpretes. 1985. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. embora se trate de uma filosofia antifilosófica./EDUSP. Um corte vertical. Ëditions Du Seuil. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. A contribuição de Lévi-Strauss. as capas invisíveis. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. a fundação da norma se dá como um processo de violência. Sociologia e Antropologia. 1975. na obra de Lévi-Strauss. Ferdinand.

Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. ahistórica. Assim como os fonemas. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo. Chittó Gauer . as relações de parentesco são elementos de significação. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. uma estrutura. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. O fonema é um campo de relações. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. arte. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. mas apresentam uma racionalidade imanente. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo.conforme a antropologia anglo-americana. 18 Ruth M. A linguagem é um sistema de relações. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. mitologias. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. No que se refere à fundação da norma. logo. seus elementos (oração. palavra. O signo tem um caráter dual: significante (som). ainda que tais leis estejam ocultas. leis. mas como um sistema marcado por coesão interna. no entanto. Foram as ideias de Mauss. Lévi-Strauss. sistema sempre normatizado. o historicismo e a fenomenologia. classificação. dito de outro modo. o significante que precede e excede o significado. significado (sentido). mas participa da significação. desse modo. portanto. Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. como uma estrutura. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. como no caso da fonologia. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. apenas adquirem significação participando de um sistema. O fonema não tem significado próprio. Cada sistema (parentesco. economia. pensa a estrutura como um sistema.

o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. Otávio. binária (isto sim. a significação e a nãosignificação. A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. Apesar das inúmeras interpretações míticas. mas consequência da proibição. a regra. cit. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. A proibição também não aparece entre os animais. de acordo Otavio Paz. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). jurídicas. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. aquilo não). op. Em ambas. Para Lévi-Strauss. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). um conjunto de operações que transmitem mensagens. 17. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). 14 Ao contrário de seus predecessores. Lévi-Strauss. Essa crítica. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. o pensamento e as coisas. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica.religião) é um sistema de signos. não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. não tendo. 14 PAZ. uma origem biológica ou instintiva. são um sonho simbólico. em seus estudos sobre o parentesco. p. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. não origem.. como a linguagem. portanto. carregada de interpretações filosóficas. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas.

na significação do espírito. de toda moral e de toda punição. ao trabalho e ao mito os homens são homens. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. o significante e o significado. constitui-se ao mesmo tempo na norma. A proibição do incesto. a norma proibitiva. fonte de todo limite. mas não de utilidade: graças a ela. cit. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. op. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. à linguagem. Faz-se necessário compreender. e esta. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural.religiosas e míticas. segundo o autor. equações. carece de sentido ou de fundamento. o espírito: algo que é nada. p. como na linguagem. pelo menos lógica. no fato e no valor. nem razão de ser. símbolos. este Sim funda o homem. Logo. ou seja. Frente à análise sobre a fundação da norma. a posição. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. é na própria diferença que a encontramos. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. de todas as leis. alcançar uma generalidade universal. agora. mas. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. Para Lévi-Strauss. inflexível. Esse tabu. é a raiz de toda proibição. uma norma inflexível. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. constitui a sociedade. metáfora.. pode-se dizer que não há uma oposição. Se for possível encontrar essa generalização. portanto. embora pareça não ter justificação biológica. considerada a fonte de todas as normas sociais. que não se defronta consigo mesmo. a fundação da norma se deu com a negação. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. Otávio. em si mesma. 19 20 Ruth M. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. Chittó Gauer .

Presença. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. para Lévi-Strauss. de levar a análise bastante longe”. Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada.cultural. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). obrigação e necessidade. p. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. Lisboa. Raça e história. Em ambos os casos. sob a condição. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . 1952. O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. ainda. Lévi-Strauss. Tal evento originário. que esta é a oposição entre lei e universalidade. Claude. subjacente a cada instituição e outros costumes. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. o mesmo problema se apresenta. traçado na estrutura inata do espírito humano. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. 133. Para Lévi-Strauss. afirma a existência de um evento originário. o da comunicação procurada. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. em Totem e Tabu. naturalmente. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. como o cremos. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. fundador da sociedade humana. é a sua condição para o êxito. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. Faz-se necessário ressaltar. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. antigos e modernos. sem nunca se caracterizarem como arbitrários.

sem pertencer integralmente a uma ou outra.. o passo fundamental graças ao qual – e. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos. Claude. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. São Paulo. 1984. que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. Assim. o momento da passagem da natureza à cultura. ao contrário. 18 Na verdade. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (.do incesto. Ponto de encontro e articulação.). sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. Ao nível das estruturas elementares. dada desde o inconsciente. 1982. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. comunicação normatizada. Antropologia e Psicanálise. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. Rosaria. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. essa proibição “não é de origem puramente cultural. Brasiliense. Essa troca constitui-se. portanto. 18 MICELA. 22 Ruth M. entre natureza e cultura. necessária e imposta pela exogamia. comunicação através dos bens e dos serviços. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura. de caráter trans-eventual. esse universal. nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. nem de origem puramente natural. estrutural. 70-71. para o autor. estando situado entre ambas. Petrópolis. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. de resto. 17 Por meio dos mecanismos de trocas.. comunicação por meio das mensagens. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). Para Lévi-Strauss. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. Vozes. Chittó Gauer . que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). pp.

de posturas psicológicas. seguindo a reflexão do autor. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. no entanto. é um espaço em branco no mapa das emoções. La Identidad. ao menos “idealmente”. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. da economia. Mas. direta ou imediata da natureza. nossos sistemas de parentesco. A norma. 11-39. para a maior parte dos homens. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. pensada como estrutura. 1977. em suas conclusões sobre identidade. pelos mais variados fatores. sua singularidade. nos sistemas naturais e sociais. Nesses casos. necessariamente. Claude. o fato de que o planejamento de organizações. A passagem às estruturas complexas do parentesco. ou. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 .tenha afirmado. Há. sendo a negação simples. para isso. Paris. ou seja. ainda. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. muito atomizado. a humanidade. àquelas de onde provêm. e em nós como função simbólica. é possível enquadrar nesse modelo. a permuta da própria nacionalidade. muito embora seja indispensável como ponto de referência". As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. 19 não é exagero dizer que. pp. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. (Org. encontra-se fora de nós. em particular. pode-se revelar altamente inoperante.). que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. Grasset. como ponto de referência coletivo. Este aspecto leva a considerar. elevada a um plano de destaque. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas.

consciente de si mesmo. a dominação técnica e a história acumulativa”. com o surgimento do indivíduo moderno. nas escolhas de vida. caracterizada pela emancipação do indivíduo. Considerando que. a autonomia aparece para o indivíduo livre. ao direito subjetivo. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. principalmente o direito. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. p. 24 Ruth M. 365-366. agora separado do ser social e político. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. a normatização sofreu alterações significativas. nas relações sociais. cit. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. A autonomia constitui uma marca da modernidade. Logo. op cit.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. Se. ao surgimento do direito natural. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. aos valores. vinculado à qualidade única do ser humano. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. Chittó Gauer . tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. op. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. MERLEAU-PONTY Maurice. em todas as instâncias da vida. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. Segundo Merleau-Ponty. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. com Descartes. que coloca a natureza perante si. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. como objeto de conhecimento. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. Esta ideia demarca as instituições. sonhos românticos).

que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. anteriormente determinantes. 13-79. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. Rio de Janeiro. pp.Do ponto de vista sócio-histórico. as maneiras de educação. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. não obedecem a uma lógica exterior. 22 ELIAS. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. mas também máscaras de proteção. modos de agir. no conjunto da sociedade. características das sociedades tradicionais. que se apresenta como base para a liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . para o afrouxamento do controle social tradicional. vão se constituindo. como do amor conjugal. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. na medida em que as trocas não se dão por posição social. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Portanto. este por si só constitui espaço para a liberdade. Norbert. com ele. a partir dos séculos XV e XVI. ao contrário. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. 1997. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. no mundo urbano individualizado. A sociedade dos indivíduos. Zahar.

Brasília. que se. ela. produz o indivíduo em sua autonomia. 25 ELIAS. maior seu custo. Rio de Janeiro. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. em si mesmas. op. Aléxis de. para o autor. a conformam e dela decorrem. dizemos que a liberdade tem seu custo. 1985. cit. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. Brasília. 26 Ruth M. se poderá fazer uma história da verdade”. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. Ed. mais nos socializamos. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. também é desejada. com as quais cada um deve se conformar. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. assim. 1979. Simmel e a Modernidade. ao mesmo tempo originário e absoluto. domínios nos quais. e mais essa necessidade surgirá. Berthold. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. por um lado. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. Editora da UNB. UNB. Quanto maior for a liberdade. não por acaso. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. mas sim certos domínios de saber. 1998. 142. maior a socialização. paradoxalmente. Louis. quanto maior o individualismo. isso sob o prisma da norma social. Nau. do conhecimento. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. se formam o sujeito e as relações com a verdade. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. Segundo Foucault 27. (Orgs. A Verdade e as Formas Jurídicas. a nossa sociedade funciona por normas. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. SOUZA. na medida em que. Jessé. cit. 27 FOUCAULT. 28 FOUCAULT. Norbert. Michel. op.. Neste sentido. paradoxalmente. 1999. OËLZE. p. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. como encargo muito difícil de ser cumprido. quanto mais nos individualizamos. 26 DUMONT. Rocco. Rio de Janeiro. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. Michel. Chittó Gauer .). Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. por outro o expõe. 27. O Antigo Regime e a Revolução.

A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. durante o século XX. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos. O único laço que permanece é o de natureza institucional. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. deste modo. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. hoje “acelerada” de modo irreversível. A igualdade. O indivíduo se atomiza. é produto da própria liberdade. não é somente um valor.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. mesmo das vinculadas às leis científicas. portanto. mais necessitamos de regulamentações. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. considerado o aspecto mais significativo. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações. O que podemos constatar é que. mas constitui experiência de todos os dias. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. esta socialidade. é possível falar da incerteza da liberdade. mais especificamente no pós-guerra. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 .

31 LEVI-STRAUSS. tudo está inter-relacionado. pp.. morfológicos ou outros. 30 LEVI-STRAUSS. op. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. p. a linguagem do direito. op. sociedade. Para o primeiro “a totalidade consiste. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. 14-15. alma. 32 Se. integral. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. Antropologia estrutural dois.. religiosos. Ao invés de aparecer como um postulado. 14-15. cit.. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. para cada um desses códigos. 14. estéticos. seu modo de organização e sua função diferencial. pp. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. ligado. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. Rio de Janeiro. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. também. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. desta maneira. parece que. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. pp. 28 Ruth M. por princípio e por fim. na teoria do fato social total. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. permitindo. Claude. Claude. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. poder-se-ia dizer. 32 LEVI-STRAUSS. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. Claude.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. econômicos. cit. o aspecto vivo. 1976. cit. em suma. como diz Mauss. a totalidade social se manifesta na experiência. 14-15. op. tudo se mistura. Tempo Brasileiro. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. Chittó Gauer . segundo a teoria proposta por Mauss corpo. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. Claude. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”.

a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia. 17. pp. independentemente das coisas que lhes correspondem. pp. desse modo. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. como muitos pensam. assim como não podemos. 16-17. um interesse privilegiado. ciência política. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. a liberdade – uma forma de organização social. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. O autor reconhece. entretanto. op. cit. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. apesar de tudo. confundir-nos opera.. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. nos diz respeito de forma total. 18. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. op. a justiça. Há.. nada deixou escapar. Claude. no entanto. pensada como tradição. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . 19. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. cit. em sua visão. LEVI-STRAUSS Claude. O signo. Todavia. história. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. ou ainda estudar as normas sociais. Neste caso. com o qual não podemos. oferecendo-nos. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. levada até as categorias do inconsciente. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. portanto. também. objetos. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. a partir dos elementos de sua existência social. direito.

do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. ao menos provisoriamente. p.. No campo da antropologia a mitologia. “sabemos que de fato e até mesmo de direito. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. ao mesmo tempo.que se insere. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido. junto ao significante. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. cit. 22. Clifford. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. GEERTZ. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. no nível biológico. escrevem. Destas transformações. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. segundo as premissas que apresentamos. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. se deve ao fato de que. segundo ele. Quando se comunicam os homens conversam. 36 35 30 Ruth M. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si. Chittó Gauer . gesticulam. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais. segundo Geertz. op. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude.

38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. Na opinião de Geertz. Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral.lições de Geertz. Em segundo lugar. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. A antropologia de matriz norte-americana é. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. em primeiro lugar. No final. o estudo de sociedades complexas e muito grandes. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". em disciplinas como a psicologia. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. logo. não apenas as chamadas sociedades simples. mas também fora de sua área. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. desconsiderando. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. provavelmente. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. Jorge Zahar. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. torna a análise muito problemática. a exemplo do Brasil e da Índia. a própria passagem do tempo. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. Geertz fala do panorama da antropologia atual. Na entrevista. Explica que. Nova Luz sobre a Antropologia. entre outras coisas. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade. de acordo com ele. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. São Paulo. 2001. Geertz é. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. GEERTZ Clifford. a história e a teoria literária.

sem dúvida. elas fazem parte do repertório da antropologia. direito. o Marrocos ou o Brasil. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. literatura. que estuda tudo. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. que diz estudar o "Homem". Todas essas questões devem ser levadas em consideração. Chittó Gauer . A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. não interpretará nada. não tentaria ao menos começar a entender os outros. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. São Paulo. indeterminação. Muitos juristas. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. não tentará buscar compreender nada. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. In: SHIRLEY. a análise de suas normas. como economia. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. 1987. contingência. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. Saraiva. Ela tem que perceber qual é. a exemplo de Hans Kelsen. o seu papel particular na interpretação do que ocorre. história. Robert W. de vagueza. Antropologia jurídica. 32 Ruth M. regras. em um lugar como a Índia ou a Indonésia.completamente geral. se esforçando para explicar as diferenças em geral. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. política. historicamente. hábitos e leis sociais. mesmo assim são respeitadas. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. Neste caso o niilista não se importará com nada. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. nem começaria a interpretar. p. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. Mas isso não é niilismo. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. A análise interpretativa da qual fala Geertz. 10.

Em especial. como no caso das sociedades modernas. é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. São Paulo. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. obra em que. como crítico da metafísica (ou do humanismo. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. normas da sociedade referentes às primárias. 1987. se preferido for). Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . subjugadas e ignoradas. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. Antropologia jurídica. isto é. ou seja. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. isto é. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. Robert W. e regras secundárias. exílio.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. esses dois planos compõem as estruturas sociais. ostracismo ou morte. por outro lado. sobre o comportamento do indivíduo. p. Saraiva. 40 SHIRLEY. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. forças políticas estruturadas pelas instituições.

Gianni. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. 42 Há. igual e eventual. esquecido da subjetividade). Chittó Gauer . 42 41 34 Ruth M. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. Ao contrário de Geertz. ou seja.. sob essas premissas. São Paulo. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. Para Heidegger. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. O pensamento da diferença. no entanto. 71-92. p. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. sem estruturas. 1977. enquanto a temporalidade. que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. Madrid. 2006. VI. 44 GASSET. p. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. Ortega y. plenitude da presença e estabilidade una.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. Alianza Editorial. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência. 162. que “mostra também um momento VATTIMO. O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. Obras. O reino da estupidez e o reino da razão. José Ortega y. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. cit. Meditações do Quixote. apenas a rememorou. afirma o autor. nega o ser como fundamento. rememora o ser e o ente para além da presença. op. cit. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. op. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. Livro Ibero-Americano. GAUER. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser".Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. v. Ruth M. 43 GASSET. De acordo com Vattimo. 1946. Chittó. O ser da metafísica é o ser mutilado. para Heidegger. Ver ainda La rebelión de las massas (1930).

45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . Editora da UNB. No final do século XIX. Jessé. como fizera o século XIX. resultado do domínio das coisas sobre o homem. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. afinal. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. p. o devir era uma das categorias principais do pensamento. cujo movimento na sociedade. não sujeito a mudanças. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. no sentido tanto decadente quanto criativo. 10. mas perigosa. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. Brasília. a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano.). conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. OËLZE. abertura do pensamento e da cultura. mas também sem normas ou raízes”. sendo que. segundo o autor. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. na significação que nos interessa. SOUZA. pela ética e pelo direito. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. Berthold. 1998. revelado por Marx. O destino trágico. Rompera até com a cultura moderna. O século XX. Simmel e a Modernidade. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova.‘escandalosamente temporário’. (Orgs. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. é um exemplo deste fenômeno. Com esta análise em mente.

aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. p. Esta forma de instituição. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. 36 Ruth M. Do mesmo modo. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. de alguma forma. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. I. v. op cit. e. II. como a semítica. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. aos cargos. 131-132. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. Assim como na passagem natureza-cultura. negativa que contém um Sim afirmativo. o autor refere que às funções. Sociologia e Antropologia. São Paulo. op. às honras. Chittó Gauer . o Não. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. MAUSS. p. as pessoas e as coisas”. pois nem tudo pode ser formulado. e a dádiva por outro. Marcel. Sociologia e Antropologia. a família. Marcel. Marcel. Na opinião de Mauss. São Paulo. de toda a sociedade. da família. Segundo a análise. muito antigo”.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. p. EPU/EDUSP. hindu e germânico. por um lado. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. cit. v. a grega e a romana. v. I. Marcel. 48 MAUSS. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. Para o autor os direitos costumeiros são. com elas. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. Sociologia e Antropologia. nossas antigas civilizações. 234. uma mistura de direito público e direito privado. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. 49 MAUSS. EPU/EDUSP. 234. 1974. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. de alienação e de troca. romano. 1974. culto 46 47 MAUSS. de direito não formulado e direito formulado. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. entre outras. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu.

esta só lhe é conferida. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. que é lido como “Pai Celeste”.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. “Patrius” se refere ao pai não físico. I. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. figura do nome divino de Júpiter. estruturou-se nos mitos. em sua origem. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. assim como a importância das coisas. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . autoridade. a morte do pai. Minuit. da autoridade e da punição. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. descende de pais livres. mãe). herança. “Atta” educa a criança. pp. não foi obra de legisladores. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. “Patricius”. liga-se à relação de parentesco. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. Éd. traços que se mantiveram na época clássica. contudo. 207-212. do sânscrito “Pitar”. exclui a relação de paternidade física. portanto natural. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. exprimindo uma hierarquia pessoal. não separa os filhos. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. propriedade. da propriedade. “Patricius”. seu auxiliar nas funções sagradas. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. Èmile. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. v. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. 1969. daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. a maioridade biológica. como já vimos. da herança. o descendente de pais livres. de fato. Paris. o que. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. “Pater”.

que parte tanto das coisas como dos homens. 54 MAUSS. a que aproxima do sânscrito dhaman. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. pp. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. 53 MAUSS. 133-138. Marcel. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. A melhor etimologia de família é. Sob este aspecto. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. além de família e res. o “vínculo” de direito. 139. pp. seu réus. op. cit. sem dúvida. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. Chittó Gauer . prestam-se para este estudo. não concede a maioridade aos filhos. Seguindo a análise. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. op. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. 135-136. op. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. p.. Outros termos de direito. 38 Ruth M. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. Marcel. Como observa Mauss. por seu espírito. isto é. o nexum.. embora tenha sido eliminada. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. além dos vínculos mágicos e religiosos. ou seja. Marcel.se submetiam à sua autoridade. As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. quanto mais remontamos à antiguidade. casa. e que se torna. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”.. ao contrário da natureza. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. a pretexto de não fazer sentido algum. é bastante notável que. cit.. A religião. Entre os direitos analisados. no entanto. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. pp. MAUSS. segundo Mauss. 135-136. cit. cit. 53 O contratante é primeiramente reus. a esse título. op. MarceL. A etimologia já fora proposta antes. o nexum. segundo Mauss. bem como um certo número de formas desses contratos.

Marcel. 3°. todas as teorias do “quase-delito”. (. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. o indivíduo possuído pela coisa. sobretudo. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. 2°. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia. 140. op. com mais forte razão para reus. cit. o culpado e o responsável”. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. do nexum e da actio. A imagem. “a origem do contrato. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. Para Mauss. supondo que o termo res é. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. que apresenta o seguinte: 55 “1°. Mas essa tradução é arbitrária. investigar e decifrar os mistérios da natureza. ficam um pouco mais esclarecidas. de um ‘processo’ público. Desse ponto de vista. “ao contrário. se nossa derivação semântica é aceita. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. Há autores que traduzem res por “processo”. Como se pode observar. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente. o sentido de culpado.. segundo o autor. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 .. e rei-jetos por “implicado no processo”.) de inferioridade espiritual. enfim.coisa”. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. p. crescida à sombra do racionalismo. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. um termo processual. acabou por ter um efeito perverso.

de um “processo” público. A criação do paradigma da modernidade. isto é. Edições 70. pp. deslocando. 56 40 Ruth M. especializou-se e. as res que dela faziam parte. pessoas e coisas. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. ou seja. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. 58 DESCARTES. política. O sentido implicado no “processo”. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. O individualismo. René. passou a regulamentar de forma especializada. 57 permitiu o surgimento do dualismo. corpo-espírito. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. ao fazê-lo. passa a ter uma acepção difusa. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. assim. Chittó Gauer . dicotomizando tanto coisas como homens.. foram deslocados. 12-16. cit. 117-118. o sentido da palavra família. foi fragmentado. isto é. 57 DESCARTES. religiosa. cuja base se encontra na obra de Descartes. jurídica. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. 1993. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. A exemplo do direito. René. um dos princípios que.mistérios da natureza. pp. lícito e ilícito. Lisboa. 1985. mas por uma pluralidade de outros. Discurso do método. op. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. Rocco. por uma pluralidade de centros de poder. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. por sua vez. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. A base tutelar da família foi fragmenta. no entanto. 80-85. Louis. não foi substituído por outro. Essa busca. econômica. objetividade e subjetividade. Para Dumont. res. Rio de Janeiro. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. pp. já que deixa de haver um princípio organizador único. razão e emoção. O Iluminismo. segundo Dumont. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. antes uma acepção secundária. uma vez que o centro. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo.

Esse conhecimento. que “Os cegos vêem com as mãos”. Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz.seu famoso Discurso. de decifrar a natureza em geral e a sua própria. buscou substituir várias autoridades. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. por meio da experiência. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. da observação. isto é. em determinado ponto. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. mas afirma. da investigação. totêmica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 . o modelo de visão do autor é o tato. mítica e religiosa. no entanto.

Barcelona: Barral Editores. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. As transformações das instituições jurídicas. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. a consanguinidade. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. que possui o indivíduo como melhor exemplo. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. da mesma forma que os da língua. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. de uniformização. Sociedad y ciências sociales. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. 42 Ruth M. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. A separação natureza-cultura. Marcel. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. 320. 1970. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades. p. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. a exemplo do exercício do poder. trocamos mensagens. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. estéticas e políticas das sociedades. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. respeitamos regras. da tradição e de instituições que a precederam. 321. A criação dos símbolos modernos. com base na crença da ciência. mas. Obras III. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. Chittó Gauer . Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. está estruturada em uma concepção “natural”.

e como devemos realizar nossas ações em sociedade. imposições. proibições. Os Pensadores XV. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. por exemplo. à procura do significado”. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. Abril Cultural. LEIBNIZ. como já referido. São “versões” da vida em sociedade. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. pp. 61 A partir daí. em parte. Gottfried W. “sujeito-da-razão”. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. pois. pp. de conhecer as diferentes “realidades”. A interpretação das culturas. Abril Cultural. 62 DESCARTES. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. 81-153. mas como uma ciência interpretativa. p. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade. Clifford. portanto. São Paulo. outras categorias foram derivadas. quando 60 61 GEERTZ. O crime e o castigo seguem convenções legais. São Paulo. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. Zahar Editores. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. 1973. 15. que não conseguiram eliminar a regra geral. como. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. 1974. criadas em sociedade. o que fazemos. teias. escolhas. apenas releu a forma. Rio de Janeiro. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos.sobre o pensamento e a ação. Tal postulação inspirou-se. as categorias coletivas. René. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. denominada legislação em sentido amplo. segundo este último. porém não conseguiu eliminá-la. não como uma ciência experimental em busca de leis. 63-73. 1978. além de não eliminar a norma fundante. o indivíduo moderno. Os Pensadores XIX.

Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). Chittó Gauer . no entanto. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. John. Hobbes. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. É. os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. do conhecimento e da prática. a partir de sua análise. As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Locke e Rousseau. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. 139-348. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. Tentou-se. em Locke. determinado pelo “cogito ergo sum”. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. vistas como ontologicamente diferenciadas. no sentido heideggeriano). e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. 1973. o “eu penso”. sem dúvida. Abril Cultural. além de outros como Hobbes e Kant. Ao refocalizar o velho (e original. com capacidade de raciocinar e pensar. 44 Ruth M. O “indivíduo soberano”. elementos esses que seriam. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. sujeito da modernidade. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. reelaborado também pela visão de Locke. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. assim. Os Pensadores XVII. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. elaborando a composição de orientações diversas. A partir dessa posição de Descartes. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. irredutíveis. Por outro lado. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. Para muitos autores. pp.

no entanto. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). Contudo. 1985. Tanto é assim que. Rio de Janeiro. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. Na verdade.estejam separados por uma fronteira intransponível. 64 Essas questões. por exemplo. mas sim uma unidade metodológica. Não há dispersão. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. todos pertencem à mesma “escola”. mas o modo de abordá-lo (a razão). no final do século XIX. precisamente porque fundada. jurídico e político. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. após as críticas da escola histórica. mas um princípio metodológico. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. Outra prova é que. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Todas as correntes concordam. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. não eliminam o intento comum. Rocco. no entanto. finalmente. e os formalistas como Kant e Fichte. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. e sim manutenção dos mesmos objetivos. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes.

v. e “eliminou” todas as diferenças. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. A base seria não uma lógica do provável. no entanto. Nesse sentido. Payot. Há. como modelos estáticos. mas o método. progrediram as ciências na Inglaterra. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). Alemanha e outros países. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. sustentáculo da sociedade GUSDORF. 1967. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. Paris. ainda submersa no platônico mundo das sombras. a redenção do Siècle des Lumières. IV. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. p. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. sepultura da medieval fé em Deus.paradoxo da modernidade. o Estado-nação. 183. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. As teorias clássicas liberais de governo. 65 46 Ruth M. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. o referencial filosófico-social básico. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. Chittó Gauer . George. da Europa chegou o progresso. No século XVIII. O que caracteriza. e foi definido. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. portanto. no interior dessa grande estrutura. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira.

permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. o estado. a qual é. primordialmente. com suas vontades. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”.moderna. Goffman. entre eles. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. uma comunidade simbólica. E. Essas identidades não estão. Nesse contexto. entre o sujeito e seu entorno. impressas em nossos genes. gestada ao nível da razão simbólica. nesse sentido. certamente. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. inversamente. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. No entanto. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . ingleses. gerando. Estigma. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. Erving. Obviamente ao nos definirmos como tais. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. etc. Zahar. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais. argentinos. As culturas nacionais. por outro lado. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. Rio de Janeiro. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. Os indivíduos soberanos. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. e estas. os numerosos estudos sobre caráter nacional. Ao mesmo tempo. para isto. 1982. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. ou seja. Basta recordar. estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. “englobaram” todas as diferenças. criadas por meio de tetos políticos. assim. fenômeno 66 GOFFMAN. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. necessidades e interesses.

com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”.este de índole essencialmente contemporânea. A lealdade e a identificação foram localizadas. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. O modelo interativo. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. O tema da nacionalidade. entre outras. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. à cultura nacional. consequentemente. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. baseadas nos direitos e consentimentos individuais. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. No caso brasileiro. posteriormente. religiosas. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. junto ao estado-nação e. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. As diferenças regionais. Os indivíduos soberanos. Chittó Gauer . nas sociedades ocidentais. necessidades e interesses. há décadas atrás. étnicas. No início do século XIX. políticas. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. desde os finais do século XVIII. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. dominação e hierarquia. já no início do século XIX. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. a atenção. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. com suas vontades. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros.

As idiossincrasias sociais. não havendo. pp. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. o que tem por separar a ideia de valor. Como refere Dumont. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. por outro lado. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. não há lei sem a impessoalidade. em muitos casos. pelo próprio sistema de representações.270. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. a negação da ordem escravocrata. Rocco. Louis. com suas vontades. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. tornaram-se a figura central da lei. 1985.relações sociais. necessidades e interesses. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema. há que se salientar a importância da norma. Rio de Janeiro. liberdade de escolha. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. assim como não há indivíduo. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. as quais configuram a estrutura social. mas a própria sociedade em ato. Em se tratando de sociedade moderna. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. No entanto. como já afirmamos. O individualismo. 269. Os indivíduos soberanos. um fato e uma norma. o valor e a norma. neste caso. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. que. é prescrito. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. e por assim dizer. Embora essa dissolução tenha ocorrido. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. ou o valor se vincula ao indivíduo. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. 67 “o valor está imbricado. que a norma não seria um efeito da sociedade. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade.

50 Ruth M. o fundamento primeiro do fato social. a norma.acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela. nada articula. No entanto. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. Chittó Gauer . abre toda a significação.

69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. Gaston. BACHELARD. Gaston. 757. e entre vários filósofos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. 1973. no decorrer do século XX. como se a terra. Os Pensadores. op. de Bergson a Bachelard. São Paulo. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. p. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. pp. Um segundo fundamento. 70 BACHELARD. mais do que uma simples descoberta. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. cit. 68 69 BACHELARD. é antes criação”. Os Pensadores. antropologia e psicanálise. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. Após o relativismo do racional e do empírico.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard. op. Gaston.. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. sobretudo. pp. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. cit. 756-758. versando sobre a descontinuidade. pois permite repensar a crise da ciência moderna. Na física. Abril Cultural. propôs uma noção de duração não bergsoniana. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’. 756-758. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. da física e da química não apenas um avanço. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas. o mundo.

a natureza. a história e as normas sociais. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. 73 do “pensamento selvagem”. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. São Paulo. Rio de Janeiro. 71 52 Ruth M. 71 Para Durand. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. a antropologia. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. Roger. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. Difel. Roger. 2001. 1986. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. O Pensamento Selvagem. O Mito e o Homem. Gilbert Durand. São Paulo. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. 76 BASTIDE. segundo o belo título de Henri Ellenberger. desde a psicanálise até a cibernética. a história das Ideias. 74 LÉVI-STRAUSS. 1974. por exemplo.. 72 Gilbert Durand. São Paulo. 2002. Claude. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. a psiquiatria e psicanálise. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. Papirus. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. do onírico. Sociologia e Psicanálise. do mito e do “pensamento obscuro”. A Interpretação dos Sonhos. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. 3ª ed. ou campos de conhecimento. Deus. Lisboa. 76 são exemplos destas análises. cit. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. p. Chittó Gauer . Todavia. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. Imago. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. 75 CAILLOIS. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. Companhia Editora Nacional. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. o Simbolismo e o Surrealismo. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. Edições 70. op. 2000. cujo resultado. 73 Sigmund FREUD. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. 35.

p. extremamente minuciosa e complexa. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. Portanto. em termos de interpretação. como de fato o são.. baseadas na obra de Jung. de certo modo. Gilbert. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. entre outras contribuições. as orientações psicoterapêuticas. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. Seguindo essa linha de investigação.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. cit. uma vasta compilação e análise. 77 DURAND. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. op. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. mesmo sendo arbitrários. conclui que. já de matiz clássica. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. Alexander. Bion. a razão. o importante é a existência de significados que. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. 36. Melanie Klein. as assertivas de Lévi-Strauss. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. Para Durand. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. Hartmann e tantos outros. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. Freud. Assim não há. pois tal comparação confirma. a função do sonho. em princípio.

Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. portanto. senão no próprio homem. o que não se daria com as últimas. a partir de um modelo explicativo. como comentário correlato. Ou seja. Portanto. por sua natureza científica. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. 1975. Georges. semelhante a tantas outras. Chittó Gauer . deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. qualitativamente diferente do pensamento científico).. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural.. Neste. De qualquer modo. tira. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. Esta forma moderna da técnica xamanística. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. não há mais lugar para o tempo mítico. seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. Amorrortu Editores. No entanto. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. Etnopsicoanálisis Complementarista. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. como estas. que é a psicanálise. para Lévi-Strauss. 78 54 Ruth M. Cabe. mencionar a posição de Georges Devereux. por uma confrontação de seus DEVEREUX. pois. Desta constatação. Buenos Aires. que pode ser coletada e que. que se opõe. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. frente à sua realidade existencial e concreta. o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). veracidade e exatidão de uma teoria. por atingir as causas reais da perturbação.

No caso específico de Freud. está 79 LÉVI-STRAUSS. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. Na verdade. Claude. 1970. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. soturno e traiçoeiro. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano.” 79 Veja-se. ou formulação de uma identidade. permite a via de acesso ao inconsciente. na passagem para o século XX. para o citado autor. como já havia dito Spinoza. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. O papel primordial atribuído à razão. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. Nesse contexto. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. da força das emoções”. Tempo Brasileiro. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção. portanto. Rio de Janeiro. elaborou. 224. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. Freud. ainda nos tempos atuais. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. no homem ocidental. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. com a linguagem dos símbolos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). Assim. ou seja. encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. por sua vez. E. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. p. tal análise é simplista. Antropologia Estrutural. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior.

A contribuição de Ferdinand de Saussure. Correspondendo ao espírito da época Darwin. com ela. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. também contribuiu para essa crise do conhecimento. um duro golpe ao narcisismo humano. o que correspondeu. Kraepelin. em nenhum sentido. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. encontrou. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. Chittó Gauer . ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. Com essa posição. nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. a sociologia e a antropologia. E isto Darwin o fez mostrando que. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. Ao contrário. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. nossas identidades. Acertaram. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. a descoberta do inconsciente. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. a psicologia. Afirmou Saussure que nós não somos. na qual se destaca E. do mesmo modo que Freud. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. não só em áreas específicas. Quando Freud buscou a subjetividade e. tanto Darwin como Freud. logo existo”. que traz consigo o desenvolvimento da razão. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. não deu atenção à dinâmica psicológica). recriar os modelos universais. tentando. Para Freud. mas. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. dessa forma. em última instância. tal como a ciência moderna havia proposto. em outra área de pesquisas. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo.profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. nessa busca. de certa maneira.

Ela pré-existe a nós. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. a opinião de Georges Devereux. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. por exemplo. Devem ser consideradas também. tal questão está em grande parte superada. apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. os de normalidade e anormalidade. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. superando as contingências do relativismo. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. No campo da etnopsicanálise. Porém. em uma relação um-a-um. não podemos utilizá-la para produzir significados. Lembremos que. O significado das palavras não é fixo. por exemplo). Essa foi. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. por exemplo. Este autor optou por uma definição de normalidade que. é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. em virtude de considerações de ordem variada. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. de natureza teórica ou não. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. Por outro lado. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. A língua é. Atualmente. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . nesse sentido. um sistema social e não individual. No entanto. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. o par de termos opostos noitedia).nos comunicarmos. e este fato mantém uma conotação de atualidade. para fins de análise histórica.

Chittó Gauer . pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. sem dúvida importantes. 58 Ruth M. Mesmo assim. da qual um grande número de culturas seria excluído. Todavia. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu. por muito tempo. dando sentido e ordem ao universo e que é. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. que possui uma conotação de natureza mais universal. basicamente. para lançar em descrédito a psicanálise. discutir a questão da alteridade. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. de Freud. Na concepção de Durand. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. em certa medida. Caillois e Bastide. que anima a mente primitiva. lançada por Lévi-Bruhl. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. nesse ponto já superado. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. Para Durand. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. que antecedem uma maturidade mais plena. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. mesmo no chamado mundo civilizado. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. um aspecto estrutural de todo pensamento humano.

O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise. Porém. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo.

Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. Evidentemente. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. que se difundiu por toda a Europa. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. a posição marcadamente anticartesiana. O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. Giambattista. 1974. A partir de meados do século XVI e. São Paulo. 60 Ruth M. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. seleção. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. concepção defendida pelos estruturalistas.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. como França e Inglaterra. nos século XVII e XVIII. notadamente. trad. Os Pensadores. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. Abril Cultural. evitando isolar-se em abstrações excessivas. Chittó Gauer . que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes. O humanismo renascentista. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”.

A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. como a poesia e a história. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. 83 Ibid. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. pois ele não se cria a si mesmo. DESCARTES.ao método matemático era. Editora Universidade de Brasília. Por outro lado. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. p. 81 Ao mesmo tempo. a partir do modelo matemático. por fim. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. René. contida no cogito. em sua opinião. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. é que o próprio criador a tenha criado. Brasília. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo.. Conforme afirmara: “a verdade é que. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. “a história no exílio. segundo o autor. pouco encontrava que me convencesse. op cit. pois existiriam produtos humanos fundamentais. ou seja. 36. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. isto é. 1981. colocava. Giambattista. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”.. desprovida de sentido. 82 Dessa forma. a ideia VICO. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. Dessa forma. que careceriam de demonstração lógica. Discurso do Método. formulada por Descartes. a perda de seu atributo de certeza. 38. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. p. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência. pois repousam no verossímil. ergo sum. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção.

G. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. segundo Vico. A reflexão do filósofo napolitano considerava. justamente por ser o homem produto desta. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. São Paulo. Abril Cultural. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. colocada entre o falso e o verdadeiro. p. à crítica fundada na razão. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. A Ideia de História. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. Chittó Gauer . prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. 85 84 62 Ruth M. R. governos. trad. Editorial Presença. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. VICO. Giambattista. 88. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. seleção. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano.de que as proposições matemáticas. Lisboa. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. O autor separou a história das ciências da natureza. ainda. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. 1974. s/d. leis. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. o filósofo napolitano oferece a tópica. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. Nessa perspectiva. pois. Como diria Collingwood. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. Os Pensadores. etc.. O passado não pode ser visto com os olhos do presente. libertando-a da dependência das fontes escritas. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo.

Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. vinculando esse direito às tradições. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. os tratados de paz. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. dotado de vontade. historiógrafos e críticos. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. quanto fora dele. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. as alianças. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. de um lado. como as guerras. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado. Segundo Vico. “O humano arbítrio. Se uns e outros tivessem feito isso. as viagens e os intercâmbios comerciais. As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. a fim de que. tanto em seu território. e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. a fim de que. incertíssimo por sua própria natureza. ao menos a vontade repouse sobre a consciência. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. tais como os costumes e as leis.deles conhecidas e antevistas”.

64 Ruth M. generalizável como totalidade. Chittó Gauer .XVII. portanto. que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e.

A razão prática. 1979. No entanto. Cultura e Razão Prática. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. independendo da questão temporal ou geográfica. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. Rio de Janeiro. El antropólogo como autor. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”. 87 SAHLINS. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . circunstância que compartilha com todos os organismos. A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período. Nesse sentido. consultar: Marshall Sahlins. 1989. 87 paradigma da igualdade. op. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). como teoria explicativa da diferença. Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. Marshall.. cit. a razão prática. de interesse utilitário. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. O evolucionismo. Barcelona. Paidos. 88 ou teoria da utilidade. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. e Clifford Geertz. Zahar. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse.

Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. e em muitos casos até boa parte do século XX. ao estudar as instituições. as invenções e descobertas de certas sociedades. procurou ordenar seus estágios evolutivos. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. Lewis Morgan. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. e Lewis Morgan (americano). e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. estrutura e função. portanto. A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. A definição dos três estágios – selvageria. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. desatrelada do tempo histórico e.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. Um dos 66 Ruth M. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia). levou a antropologia do século XIX. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. em um estágio primitivo. Nesse sentido. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. dessa forma. da hierarquia entre evoluído e atrasado. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. Chittó Gauer . barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. conhecer a diferença. para o progresso.

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
89

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

67

significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

90

68

Ruth M. Chittó Gauer

Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
91

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

69

debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade. Ana Maria Galdini Raimundo. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. tendo a sífilis como modelo. n. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais".” A estas concepções organicistas. Conforme Ana Maria Oda. formada de índios. Após as influências dessas escolas. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. dominaram as concepções organicistas. 2002. Acesso em: 03 jan. Chittó Gauer . Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. no qual. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. agregou-se a teoria da degeneração.br/arquivo/wal1201. Este “estigma de ODA. Para tanto. Então. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época.med. pela visão de seus teóricos. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. Arthur Ramos. Psychiatry On Line Brazil. Disponível em: http://www. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. Autores como Nina Rodrigues. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. 92 70 Ruth M. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”.polbr.diferença. 12. 92 “na segunda metade do século XIX.htm. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. portadora de estigmas físicos. Juliano Moreira. v. intelectuais e comportamentais. Um número expressivo de historiadores. dez. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. 2001. entre outros. sob circunstâncias apropriadas. 6. no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista. o Brasil deveria se engajar.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

71

população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
93

ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

72

Ruth M. Chittó Gauer

estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
94

WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

73

Tais ocorrências sociais. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. homicídio. nesse rumo. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. Nos campos de concentração denominados “reservas”. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. a antropologia. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. assim como várias outras em diversas partes do mundo. associou-se à psiquiatria que. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. além da penosa situação enfrentada pelas minorias.de um modo de vida tradicional. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. já havia decretado sua morte. neutro e objetivo. Nesse contexto. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e. É inegável que o século passado. de certa maneira. entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. Chittó Gauer . No entanto. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. pela reestruturação política e social do mundo. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. suicídio. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo. do mesmo modo. pois ambos operam como uma unidade sintética. apesar das dúvidas 74 Ruth M. do quadro social então presente na sociedade ocidental.

os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . como processos dissociativos.“relativizantes”. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita. Por um lado. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. em síntese. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. Este pensamento como que matizou. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. temos aqui dois fatores. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. comportamento. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. assim como ao nível das culturas camponesas. Como se vê. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. Por exemplo. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. consolida-se a etnopsiquiatria. desrealização e. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. Portanto. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. Esta. uma patologia. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. com seus quadros de anomia psicossocial. Detecta-se. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). sintomáticos de uma patologia mental. então. A partir desses fatos. assim como as instituições culturais em geral. de saúde e enfermidade.

pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. e aceitáveis De modo semelhante. um ponto de encontro. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental. pois. ao nível do arbitrário. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. dessa maneira. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. Ou seja. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. incluindo culturas urbanas. critérios transculturais de análise.qualquer agrupamento social. em princípio. Nesse caso. assim. entre o psiquiatra e o xamã. por exemplo. Mesmo assim. convém lembrar. portanto. até. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. Chittó Gauer . Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. a observação feita por Lévi-Strauss. discutível. a qual legitima tal fenômeno. O critério de eficácia é. 95 76 Ruth M. propondo. observação e tratamento. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. Não se pode afirmar. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. Seriam. A partir disso. mesmo que superficialmente. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo.

à prática e ao simbolismo xamanístico. Portanto..) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. num sentido favorável. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. (. 255. derivadas de un modelo de pensamiento cultural.. a partir de um modelo estrutural comum. E é a passagem a esta expressão verbal (que permite.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss.). pp. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. (. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. sem isto. ao mesmo tempo. real ou suposto. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo.. Claude. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. aparentemente tão afastadas. 1975. que a doente adquire deles progressivamente. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real. em linhas gerais. mas. “Neste sentido. uma vez que a psicanálise (assim como. de outro modo informuláveis. Etnopsicoanálisis Complementarista. p. isto é. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. a reorganização. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. Antropologia Estrutural.” Georges Devereux. Tempo Brasileiro. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. Buenos Aires. não tem importância: a doente acredita nela. Amorrortu. Empero. 97 Como coloca DEVEREUX. e ela é membro de uma sociedade que acredita.. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo..para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar. “(. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. Rio de Janeiro. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas.. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. (.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica.. 204-224.. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem.LÉVI-STRAUSS. 1970.

a sociedade urbana norte americana. como Robert Merton. com grande benefício. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. nada de inédito. no caso. não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. utilizando. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. principalmente no processo de tradução. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. correspondam ou não à realidade. assim. em termos de enfermidade psíquica. Gregory Bateson. Em um primeiro momento.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. poderão reformular. sua prática terapêutica. Na verdade. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. levou várias décadas para concretizar-se. Afirmam os etnopsiquiatras que. Também é fato sabido que. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. em si. a comprovação deste fato não trouxe. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. Como se sabe. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. Este fato. Ruth Benedict e outros. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. Chittó Gauer . É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. sem que isso o afete mais profundamente. por exemplo. tal como foi entendida por Lévi-Strauss. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. melhor transitar no terreno da psiquiatria. se for considerado conveniente. por exemplo) como delirante. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M.

a partir disso. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. idênticas a si mesmas. nesses contextos. ou seja. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. 99 No entanto. e uma possessão patológica. tomados de um terror místico. e que. se mantêm assim. dentro dos paramentos de controle social.esclarecedores a esse respeito. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. como seria o caso da “cultura da pobreza”. Não há. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. no entanto. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. de certa forma. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. no transcurso de gerações. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. de certa maneira. muitas vezes encobertas. às populações primitivas. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. por assim dizer. no século passado. da cultura. indistintamente aplicada. por exemplo. Parece que. Ou seja. 99 Assim. como objeto transacional. atemporais. ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. 98 Neste caso. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . agora ameaçada. por exemplo.

3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. Chittó Gauer . unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. pp. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad.. Deve-se considerar. y aún se encuentra actualizado culturalmente.em seus diversos aspectos. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. Para escapar a esta relatividade. em princípio. no entanto. em termos mais amplos. 76-77. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. De los tres postulados que acabo de enunciar. No entanto. establecida por los etnólogos. en otra suele estar reprimido. E. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal. Georges. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. em qualquer caso. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. 80 Ruth M. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. cit. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. a normalidade psicológica do indivíduo. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente. 2) El principio de las posibilidades limitadas. op. esa lista correspondería punto por punto a una lista.

tendo por assentado que esta cultura é normal. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. que se situa dentro de um contexto de relatividade.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. 101 Assim. como uma névoa. também. p. acentuada desde Durkheim. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. Retornando ao exemplo acima. Georges Devereux. em uma sociedade. entre indivíduo e sociedade.. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. Estabelece-se. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. se for levada às últimas consequências lógicas.) 2) El comportamiento de un grupo. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. necessariamente. que são considerados como normais e ajustados à cultura. valores e padrões em geral de uma cultura.. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . cit. elimina a tradicional distinção. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno.. 115. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. embora existam padrões. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura.. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais. Por outro lado. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. de limites imprecisos. Coloca Devereux que.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”.. ob. Haveria uma área transicional. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. normalidade mental. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social.

a sociedade contemporânea. Como se sabe. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs.dessa maneira. o que não significa. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. na sociedade urbana. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. protegido e infragmentável. produtora de “identidades fluidas”. como por mudanças de nível “macro”. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. de caráter urbano. assim. de forma alguma. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. Mas quanto à posição de Devereux. como se deslizasse por elas. Este fato pode produzir diversos resultados. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. Um determinado indivíduo. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. recusando-a em 82 Ruth M. por assim dizer. por exemplo. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. Diante disso. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria. Ou seja. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. de transformação. que envolvem o todo do contexto social. caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. Por outro lado. Chittó Gauer . uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. Outro aspecto ressaltado por Devereux. No que se refere ao indivíduo.

de qualquer modo. na cultura urbana.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . Ela pode ser um fenômeno salutar e. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. E. ao mesmo tempo. Mas por outro lado. difíceis de discernir. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. é um indicador de normalidade. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores.

como se isso fosse possível. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. desinfetar. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. assim como todo o tipo de discriminação. a pureza e a ausência de qualquer perigo. 84 Ruth M. O tempo de limpar. passar. Pureza e Perigo. A estética. Deparei-me com Pureza e Perigo. 56. Chittó Gauer . as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. com ausência de resíduo. ligada às tarefas da casa. isto é. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. temos horror a certos tipos de sujeira.. que a autora trabalha. Esse fato não iniciou no século XIX. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. lavar. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. ficamos tentados a reler. A sujeira é um fato que nos repugna. do perigo. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. etc. nomeadamente no século XX. São Paulo. Perspectiva. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. mesmo os mais microscópicos. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. p. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. Mary. No entanto. principalmente por meio das tarefas femininas. quando com elas nos deparamos na estante de livros. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. Relendo algumas passagens do livro. Há alguns dias. isso ocorreu. que deve estar livre de impurezas. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. da impureza. qual seja: a questão da ordem. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. normalmente associada ao belo. 1976. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. não menos importante. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. da sujeira. mesmo as mais microscópicas. que destaquei há tanto tempo.

Na modernidade essa prática continuou. do monstruoso. O isolamento. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. hospitais. buscando os ideais de ordem. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. do disforme. Mary. p. do violento. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. portanto. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. assim como a ordem do espaço público. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. como medida de exceção.. também foi submetida à disciplina da higiene). constituía-se na única forma de proteção. em resumo. higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. pois são perigos em potência. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. op. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. cit. tal como foi criado nos tempos modernos. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. A modernidade disciplinou não apenas os homens. exemplo de espaço privado. vistos como perigosos.pureza. do feio. passou-se a isolar casas. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. A modernidade criou 103 DOUGLAS. Esses locais. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. perigosas.

1985. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. 104 86 Ruth M. a corrupção. seja nos regimes totalitários. pp. porém. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. e está. Há que se salientar. a todos os que podem se constituir em perigo. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. presente nas sociedades ocidentais. Rio de Janeiro. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. Nos estados de exceção. por mais paradoxal que possa parecer. sem muito esforço. jurídicos. Os exemplos históricos mais recentes. Quais os procedimentos políticos. maior a igualdade. Louis. O mundo perfeito. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo.essa compulsão. transparente e livre de contaminações. comunismo. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. seja nos regimes políticos das democracias liberais. a sedução das crenças e demais impurezas. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. como o nazismo. fascismo. Os modernos esqueceram. devem ser purificados ou eliminados. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea. 270-274. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. Rocco. O individualismo. Chittó Gauer . Quanto maior a exceção. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. administrativos. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros. os perigosos. utopia dos iluministas.

nas palavras de Franco de Sá. 4 ed. entre a pureza e o perigo. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias.uma tensão contraditória. do desigual. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade.. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. Os perigos precisam ser eliminados. Teoria Pura do Direito. nos regimes democráticos. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. Metamorfoses do poder. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. cabe aqui lembrar que. isto é. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. a força política se sustenta na medida em que se purifica. constituída pelo direito. 34. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Para o autor. colocando distância entre a ordem e a desordem. 1979. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. Se representação e identidade constituem. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. Trad. com a tentativa de eliminação do estranho. Por um lado. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. o exercício da soberania. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. depurados. pp. a teoria SÁ. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. Ariadne Editora. Esse aspecto traz problemas para a democracia. Hans. por outro. limpos. Coimbra. estruturada na naturalização do indivíduo. Armênio Amado. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. 2004. 105 a força de uma democracia. João Baptista Machado. Coimbra. 5152. A partir desta constatação. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. uma coletivização ao extremo. nesse caso. Alexandre Franco de. na essência e no modelo.

tudo o que causa estranheza. que lembra sujeira e desordem. A soberania da igualdade. em nome da igualdade. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. Chittó Gauer . exemplo de regime de exceção. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. que serviam à identificação dos sujeitos. As práticas políticas adotadas na modernidade. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. sofre evidências devastadoras. 107 a questão da exceção. “gênero”. guerra total. No entanto. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. entre outros. perigo. do sujo e do limpo. enfim. o impuro. “raça”. do modelo e do antimodelo. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. ou seja: isto. aquilo. o sujo. como os nazismo-fascismos. cit. além de outros. Hoje esses termos dissolvem-se. que visava à eliminação das hierarquias medievais. nas teses de Schmitt. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. na atualidade.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. tal como pensada na 107 SCHMIT. que nasceu naturalizada. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. o diferente. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. 88 Ruth M. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. o doente. o anormal. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. A própria soberania. isto é. op. apud Alexandre Franco de Sá.

dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. da inclusão e. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. no relativismo. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. do perigo. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. que foi cometido pelo seu irmão. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. o duelo entre tradição e modernidade. entre outros lugares. nem sempre descritíveis em sua totalidade. sobretudo. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. deixou de ser a norma. as famílias dos homens-bomba. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. embasada na premissa da inclusão e da exclusão. Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. necessariamente. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. desconhecendo a questão dos direitos humanos.modernidade. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. locus do “aqui e agora”. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. lugares de negociação em andamento. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. não consensual.

A impossibilidade de uma verdade única. matam o discurso político. protegidas dos perigos. nesse 90 Ruth M. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. A questão não envolve a justaposição da diferença. os desvios sociais. ordenadas. estruturante. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. segundo Virilio. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. é a velhice do mundo. Com a superação do eterno retorno. Outra pergunta se faz necessária. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. de uma identificação totalizante. o consensual fica sendo os totalitarismos.determinismo racionalista. os fundamentalismos. não consensual. A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. associada a uma velocidade que. tais como pensados desde o século XVIII. Não há preparação para lidar com o erro. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. enfim. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. Chittó Gauer . com as impurezas. ao lado do consenso cultural. a ausência do estado nos bolsões de miséria. gerando a violência. O presente se torna imprescindível. Nesse quadro. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. ele é ex-cêntrico. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. abandona-se a sequencialidade. passando a ser questionada. op. o que implica um deslocamento constante. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. do além. É o ocaso do etnocentrismo. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. alargado. 20-46.. Como decorrência. O presente “é o tempo de agora”.caso. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. pp. enfim. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. Para Bhabha. engendrando novos espaços e temporalidades. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. capaz de se autogerar. os interstícios. As diferenças culturais são exercitadas. 2001. O Local da Cultura. BHABHA Homi K. distante do historicismo teleológico das “causas”. mas. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. O autor menciona que os “entre-lugares”. Editora UFMG. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. fica comprometida. O presente “não tem lugar”. nem projeção. Homi K. paradoxalmente. ambivalente. a exemplo do nazismo. ou mesmo das raças. cit. metrópole x colônia. capital x trabalho. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. ao mesmo tempo. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro. as fímbrias. Belo Horizonte. Nem ruptura. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. estado x sociedade. pureza x perigo e assim por diante.

superando a diacronia da história. do material ao metafórico. Isto é. quanto uma pureza cultural. ela mesma. como no caso da própria escravidão. higienizada. Igualdade na Diferença. de estabelecer seu próprio discurso institucional. A minoria não quer ser “incluída”. pp. 25-26. Ao invés do continuum cristalizado. na linguagem bejaminiana. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. mas sim reconhecida. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. que inova e irrompe a atuação do presente. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. que buscou sempre a exegese da diferença. 92 Ruth M. op cit. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). é quando o presente explode para fora do contínuo da história. A tradição ocidental. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. tão pouco é completamente diferente desta. há também um movimento político.. Ainda segundo Bhabha. do puro e do impuro. no sucessivo de passado-presente. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. Ao lado dessa reflexão. Homi. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. O Outro perde o poder de significar. BHABHA. Na visão do autor. de negar. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –.. não é uma passagem suave de transição e transcendência. Segundo Bhabha. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. 29. Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA. de releitura da contemporaneidade. 59. tornada semelhante. dá seus últimos passos. pp.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. Homi. de iniciar seu desejo histórico. Chittó Gauer . op cit. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si).

que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas.. de acordo com Bhabha. aquilo que. mais crucialmente. 113 BHABHA. de indecidibilidade significatória ou representacional”. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. depende dele para existir. Rio de Janeiro. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”. assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal. bem como da relação entre emissor. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. ter consciência.) um tempo de incerteza cultural. O rigor da indisciplina. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. e para sua própria “eficácia”. 112 “o tempo de libertação é (. o inclui — tornando-o possível — e o exclui. As noções liberais de multiculturalismo.. foi preciso encontrar catequistas nativos. Homi. no processo de manifestação simbólica da linguagem. instaura com este uma dialética. quer dizer. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. o precede e sucede. mensagem e receptor. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. estrategicamente deslocado. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. Como exemplo. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. 1994. na qual representa o universal. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. sob a égide do discurso colonialista. Para Bhabha. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. 65-68. p. de memórias míticas e de identidade coletiva única. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. o arcabouço da tradição. simultânea e paradoxalmente. da articulação de uma política de negociação. e. 45. Relume-Dumará. em si. Luiz Eduardo Soares. mas que.. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . pp. teleológicas ou míticas. porque existe. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. op. cit. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. oferecendo-se ao sujeito.

Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. E.. Para ele. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. 1987. ao explorar esse Terceiro Espaço. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. cit. mas a regra. não apenas muda a direção da história ocidental. Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. entendido como sujeira. apu BHABHA. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. Walter. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. totalizante. 114 94 Ruth M. Afinal. op. unificadora. a opressão. Editora Brasiliense. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. Chittó Gauer . Homi. o perigo da impureza racial. Walter Benjamin. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. 115 FANON. 114 A luta contra a discriminação. São Paulo. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. nem como evocação da liberdade. Magia e técnica. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. 72-75. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. “Sobre o conceito de história”. não como uma afirmação da vontade. pp.

Esse pensamento supera o arco hermenêutico. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. cit. op. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. mas dá-se em relação a uma alteridade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . A demanda da identificação – isto é. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. Homi. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. o autor chama de “delírio maniqueísta”.. pp. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. De acordo com Fanon. A esse quadro social. Ou seja. c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. seu olhar e seu locus. 76-78. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. o branco escravizado por sua superioridade.

que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. Tempo Brasileiro. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. visual. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. que salientava a piedade. mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. plenitudinário. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade. 96 Ruth M. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. nesse contexto. o amor ao próximo. Chittó Gauer . São Paulo. E. Os Pensadores. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. pelo sentido declinante de comunidade. Rio de Janeiro.René. A totalidade dos estados nacionais foi construída. 1974. 119 DURKHEIN. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. Abril Cultural. 1973. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. Madrid.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. Antropologia Estrutural I. Claude. Reglas del metodo sociologico. Ao romper a estabilidade do ego. 1970. Ver LÉVI-STRAUSS. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. Por outro lado. a perda de valores espirituais unificados. que se originava em uma certa espécie de virtude. Morata. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. expressa na equivalência entre imagem e identidade. em boa parte. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação.

Para muitos. que era a causa da doença social. op. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la. no entanto. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. o que lhe deve”. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. pois são perigos em potência. que estimulava a mobilidade e a especialização. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. obp cit. 164. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição.. era necessário planejar uma nova solidariedade moral. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. se 120 121 BAUMER. cit. conseqüentemente. Contudo. ou estavam em processo de perder. durante o período Eduardiano. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta.. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. que era o resultado da divisão do trabalho. 164. Para compensar a anomie. Esses perigos. p. Franklin. por outro lado. Era a crise espiritual. 121 Estas receitas para a recuperação. mesmo na maneira como pensa e. Franklin. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. BAUMER. p. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva).século XIX já não possuíam. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência.

já que a pureza é inimiga da mudança. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. a moralidade. da ambiguidade e da diferença. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. a ciência deixou o homem procurando. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. Chittó Gauer . uma esquiva realidade. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. na frase de Dewey. Um modelo rígido de pureza. Se. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. Estas constatações. os paradoxos da filosofia liberal. quando imposto. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. conduz à exceção. As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. a história explicitou esses fatos. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. acaba por se tornar totalizante. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. O vazio das convicções humanistas. 98 Ruth M. tal como o da igualdade moderna. Contudo. o desmascaramento da fácil crença no progresso. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo.transformaram em condição de análise. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. a mente individual possui como função a vida social. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. às apalpadelas. ela própria uma forma de imoralidade. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real.

Os colonos eram considerados franceses. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. uma vez que não há o instrumento da escrita. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. o direito inglês. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. a commom law. As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. na Ásia. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. A natureza das instituições legais britânicas. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. a cremação da viúva na pira do esposo morto. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. o que os subordinava ao direito francês. Ocorreram algumas exceções.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento. desde que os interesses britânicos não corressem perigo. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. que são transmitidas de geração para geração. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz.

R. boas e justas. 2ª edição. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. A. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. No que se refere ao crime. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. Daryll. p. em 1926.Código Napoleônico. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. No que se refere às regras sociais. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. 262. importante estudo. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. 1982. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. via de regra. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. 122 100 Ruth M. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. Chittó Gauer . Fundação Calouste Gulbenkian. que publicou. a racionalidade não está ausente. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter. Como se pode verificar. e FORDE. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”. Lisboa. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. Crime e costume na sociedade selvagem. 264. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. daí resulta a obediência. A lei como duplo sistema. proteger e punir.

O ser e o nada. Estas pressuposições. 124 Em O ser e o nada. É preciso. dotada de liberdade. 1997. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. trad. Jean-Paul. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. presente. o futuro não é ainda. seleção. Desse modo. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. Vozes. de preferência à aplicação de regras formais. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. especialmente o terceiro capítulo. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. como o ponto sem dimensão. como já afirmamos. Caso contrário. Petrópolis. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. isto é. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. No entanto. Quanto ao presente instantâneo. nunca 123 VICO. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. para um exame do ser do tempo.do direito “primitivo” é processual. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . 124 SARTRE. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação. toda a série se aniquilaria. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. Giambattista. Os Pensadores. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. São Paulo. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. Da fenomenologia das três dimensões temporais. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. Giambattista Vico. a exemplo de Sartre. A preocupação não é nova. Cf. Abril Cultural. 1974.

102 Ruth M. Chittó Gauer . Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. mais ou menos em 1927. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. 369-370. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. Desse modo. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. ou seja. pp. Assim. Paris. durante o século XX. em consequência de um processo presente. integralmente. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. em etapas. 1996. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. já que desmoronou no nada. e lembrar a história. o faz no presente. Miller 125 afirma que. que dependem fortemente da teoria. Se a lembrança ressurge. e tomaram consciência. Depois se convenceram de seus erros. por outro. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. tal como os historiadores a descreveram. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. na física atômica. tudo é em ato. que é instantâneo e extratemporal. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. Arthur I. o que é verdade. para explicar o aparecimento da consciência. sobretudo. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. por um lado.elucidadas. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. Flammarion. traço atual. da imagem-recordação. por exemplo. seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. tudo é presente. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. tais como os elétrons. como fotógrafos das câmaras de gás.

Barcelona. da saturação da função que lhe é inerente. 3 . 2 . O processo de desindividualização. ditos populares e a versatilidade das massas. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. entre elas como risco. vontade de controle do risco.advento da idade moderna. O individualismo determinou toda a organização política moderna. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas. O autor refere que essa transição. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. anedotas. Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. A Sociedade de Risco.século XIX até metade do XX. Trata-se. uma forma de insolência. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. por outro lado. risco controlado. metáfora visual adaptada ao mundo invisível. contudo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 . Paidós. 1998. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). de uma maneira de se interrogar sobre as massas.fracasso do controle.à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. pois. Ulrich. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo. São elas a 126 BECK. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. Por esse caminho apoiaram-se na representação. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX.

luz ou sombra. 1988. de calor ou frio. MAFFESOLI. 218. O Tempo das Tribos. remete-nos à análise da flexibilidade. Todas MAFFESOLI. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. é um conceito. Chittó Gauer . Record. hoje está a mudar para a Idade da Mente. Lisboa. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. 1999. 19. Brasiliense. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. 175-194. p. Rio de Janeiro. uma mensagem. Michel. A corrosão do caráter. Derrick. Rio de Janeiro. como diz Lévi-Strauss. dor ou prazer. pp. nem uma ideia. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. ser adaptável a circunstâncias variáveis. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. Para Kerckhove. 53-54. público e privado. de Hume. 1997. A Pele da Cultura. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. povo sem identidade. O Conhecimento Comum. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. São Paulo. amor ou ódio. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. pp. 1987. sem se deixar quebrar por elas. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. apenas um momento. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. individual e coletivo. não em estruturas hierarquizadas. 127 104 Ruth M. geraram a implosão pós-modernista. a organização que se dá em redes. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. Relógio D’Água. que ela mudou novamente. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. a um só tempo. 128 KERKHOVE.massa indefinida. Michel. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. uma certa harmonia. Forense Universitária. Richard Sennett. Richard Sennett.

Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. Na atual velocidade. dos políticos. abre um importante campo de reflexões. da matéria. se o tempo é história. o mundo. Para Virilio. de liberdade. que não é finito. Publicações Dom Quixote. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. Aparece então a negação do fato real. a velocidade é apenas sua alucinação. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. A Inércia Polar. Nesse sentido. Os acontecimentos não são aprendidos.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. nesse sentido. A popularização da velocidade retira das forças militares. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . Há. Seguindo nessa mesma trilha. Os nexos estabelecidos. p. pois já não há ideias em luta com os fatos. (do grego dromos = velocidade). Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. Por outro lado. uma vez que as imagens não se fixam. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. assim. o poder. com essa plasticidade. A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. teórico da Dromologia. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. ocorre a desintegração do tempo da luz. 1993. mas sobrevoá-la. Em sua obra A inércia polar. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. Criou-se um novo espaço-tempo. Lisboa. Depois da desintegração nuclear do espaço. 128. Os conceitos trabalhados. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. Paul. escapam pela fluidez da velocidade. na obra de Virilio. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. como se fosse um espetáculo. perdem-se.

A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. um importante campo de questões filosóficas. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. com as quais faz os vetores do poder. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. Assim. cit. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. frente a essa visão. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. A economia já é gerida à distância. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. Nesse sentido. ao declínio das atividades no espaço. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. Chittó Gauer . 130 130 MAFFESOLI. op. 106 Ruth M. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. Eis a inércia da natureza relativista. assim. onde se situa? Onde estou. Para Virilio. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. construída historicamente. equivaleria dizer. Descrever a violência. A velocidade é a velhice do mundo.usado para avaliar a capacidade humana. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. mas onde estou eu. pelo envelhecimento da história. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. p. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. abrindo. Michel. 27.

op. não pode ser equacionado. o ponto de partida. por si só. que se pode mesmo. desse modo. o vivido que. no entanto. Quanto ao primeiro. 133 Para além de uma aparência homogênea. na própria introdução da obra. Enfocar o vivido. p. Michel. Maffesoli não deixa de enumerar. os riscos de seu empreendimento. continua não havendo nada de novo sob o sol. 39. MAFFESOLI. Sabe ele que. 134 MAFFESOLI. p. op. mais do que tudo. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. cit. portanto. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. Michel. de apresentar os fatos e ligá-los. no quadro de uma ideologia produtivista. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . 134 Nessa busca da diferença. Não se trata. 28. também.. é constituído pela vida. mais do que nunca. 30. como fica manifesto nessa introdução. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. Michel. O reconhecimento da diferença é.. “Quanto a nós. cabe então. p. até certo ponto. de modo didático ou para a clareza de exposição que. tentando equacionar aquilo que. Michel. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". quanto ao segundo. ou talvez fosse mais correto dizer. 132 Por outro lado. op. por sua vez. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. op. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. o inacabamento e a falta e. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”. nessa recusa em negá-la. analisá-las em si. priorizar o estilo.. cit.Uma vez que. 28. p. Importa. 133 MAFFESOLI.. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. segundo o próprio Maffesoli. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. cit. cit.

então. apud Michel Maffesoli. cit. em outros termos. emprega o termo em diferentes momentos da obra. op. cit. para elucidar tais questões. um fértil campo de análise. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder. se fazem presentes no vivido. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. portanto. portanto. contemporaneamente. então. quais os meios postos em ação. fragmentada. cit. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. MAFFESOLI. op. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social.entendimento das pulsões que. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. 138 MAFFESOLI. em última instância. Para tanto 135 136 HORKHEIMER. para reativar e revigorar a socialidade. 108 Ruth M. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. Compreender a ideia de socialidade torna-se. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. uma vez que diz respeito ao fato social em si. p. assim. 137 MAFFESOLI. 41. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. 138 A revolução. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. Chittó Gauer .. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. para Maffesoli. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. op. p. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. a função unificadora do Estado e aquilo que. A socialidade. por meio da reforma. 51. 41.. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. Michel. embora relacionada ao conceito freudiano.. o autor de A violência Totalitária irá. 136 Compreender. Temos. Michel. ganha aqui um caráter mais específico. não se deixa reduzir à simples razão. sendo que a sua utilização. queiramos nós ou não. A partir desse último termo tem-se. p. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. A revolução serve. nada mais é do que um fenômeno recorrente. nesse sentido.

. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . que não são e nunca serão. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. o Marxismo. por sua vez. 139 MAFFESOLI. 139 Nessa perspectiva. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. então. em primeiro lugar. Desse modo. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. É na conjugação das diferenças que. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. 95. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. para Maffesoli. os elementos constitutivos do fato social. mas mudança de velocidade”. A potência. situadas na própria manifestação da socialidade. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. já analisadas por muitos autores. nas palavras do autor. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. pp. Michel. No exame do processo revolucionário. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. cit. por si sós. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. Reformas e revoluções estão. As críticas ao racionalismo instrumental. há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. 64. afirma que “a revolução não é. Ao analisar. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. op. para o autor. 124. mudança de estrutura. de um modo ainda mais específico.

110 Ruth M. Michel.. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. 282. capture-se a dimensão do ato criador. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. 159. 281. op. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. para tanto. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. por um órgão centralizador.. por um lado. nesse sentido. desse modo. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. op. 193. 156. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. O dinheiro na sociedade moderna. o progresso”. essa unidade. entretanto.instrumentalizando a razão. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. 243. pp. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. por sua vez. agora segundo Dumont. à perda de solidariedade orgânica. ou seja. tal 140 141 MAFFESOLI. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. a primeira objetiva “amoedar o divino”. cit. 140 a segunda “amoedará. a pulsão de esperança. cit. Ainda que não redutíveis entre si. pp. melhor seria dizer essa interdependência. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. Chittó Gauer . 281. MAFFESOLI Michel. Se. será obtida de cima. Logo. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. O totalitarismo seria.

OËLZE. há muito anunciado por Thomas Kuhn. da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. 142 completa o estudo sobre a violência. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). Jessé. O aspecto subjetivo. Liberdade. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. 33. No entanto. segundo a visão de Simmel. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. 1998. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 .). A questão da liberdade. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. Berthold. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. dinheiro. constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. uma ideia força na visão de Baumer.como analisado por Simmel. como liberdade de movimento. 12. cética relativamente ao poder das teorias. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. Tal como 142 SOUZA. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. permite uma margem de liberdade pessoal. Segundo Kuhn. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. pp. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. Simmel e a modernidade. 39. 38. isto é. ou seja. da autonomia tanto social como individual. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. (Orgs. 10. Brasília: UnB. porventura. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. dependência de muitos x dependências de poucos).

pp. 11. Henri. 92. 102. A lógica da liberdade. pp. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. Matéria e Memória. Como sustenta Bergson. p. 145 BERGSON.refere Stengers. 89. cit. 101. uma vez percebidas. 90. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. op. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. Rio de Janeiro. ed. deduz. A análise resgata elementos de toda a percepção. Lisboa. e. é conquistada e não se pode considerar normal. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. 83. A lucidez é um produto de crise. Chittó Gauer . conforme Polanyi. os movimentos que as prolongam. 1999.. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. São Paulo. As políticas da razão. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS. pela memória. prolongando-se em ação nascente. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. “o registro. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. Para além destes aspectos. no entanto. 146 BERGSON Henri. que a pesquisa. 2003. criam no corpo disposições novas para agir. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos. nascida no seio da liberdade. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. qual seja. Deve-se considerar. 2. tornou-se refém da norma. repara-se mais nelas”. 91. 88. na medida em que as imagens. Edições 70. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. POLANYI. 145 posto que percepção é memória.. Após uma visita à Rússia. quando um novo paradigma. Topbooks Editora. se fixam e se alinham nessa memória. Isabelle. modificam o organismo. Michael. 1993. Para Bergson. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. Martins Fontes. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. “uma forma mais elevada de análise”. pp. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. 112 Ruth M.

organizá-los entre si e. Ruth M. Salo. tornar-se-á cada vez mais impessoal. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. montando um mecanismo. isto é. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . aliás. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”.imediatamente perfeita. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). 2007. calcada na razão moderna. pois coloca em xeque a base epistêmica. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. ser efetivamente a memória por excelência. CARVALHO. só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. Sistema penal e violência. portanto. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. O contrário. criar um hábito do corpo. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. cada vez mais estranha à nossa vida passada. “Criminologia e interdisciplinaridade”. a lembrança aprendida. Das duas memórias que acabamos de distinguir. a primeira parece. Rio de Janeiro. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea.). o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. Lumen Juris. Chittó Gauer (Org. No entanto. inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. gera resistências das mais variadas formas. Esse hábito.

cit. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. fundada sobre normas racionalmente criadas. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. Para o autor. Chittó Gauer . pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. 11. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. op. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. WEBER. o processo de criar poder.. 148 149 WEBER. 1979. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. Assim. O político e o cientista. obediência livre. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal. fundamentalmente. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. Max. 3ª ed. mas porque acreditam nele” 149 . Lisboa. 10. 12. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. p. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. portanto fogem à racionalidade. pp. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Presença. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. 114 Ruth M. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. via de regra. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. Max. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. este é. Não há oposição entre pensamento lógico e mítico.

Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. Busca uma lei geral.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. p. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. e em um segundo nível. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. O mito é fala. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. estrutura fonológica. ao mesmo tempo é idioma. Em um nível mais baixo. 23. e ao mesmo tempo pré-significativos.. formal. seu tempo é irreversível. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. por sua posição no contexto. sintática. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. onde cada mitema designava um feixe de relações. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. como elementos de um segundo discurso: o mito. que são frases ou orações mínimas que. cit. op. Otávio. combinatória. São significativos dentro da narrativa. Para comparar mito e linguagem. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. alude ao que passou. é diacrônico. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. Este se decifra por meio da linguagem. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos.

conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. então em franco desenvolvimento. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. nessa atividade interdisciplinar. Assim. O estruturalismo não pretende explicar a história. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. Sándor Rado. esta é apenas uma das variantes da estrutura.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. Principalmente nos Estados Unidos. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. Abraham. Harry S. 1955 e El Individuó y su Sociedad. mais especificamente. 116 Ruth M. México. entre os quais Ruth Benedict. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. entre o incesto e a adivinhação. Chittó Gauer . 1945. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. Tornou-se claro. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. México. Durante os anos 30. tal foco de atenção teve notório destaque. 151 Ver KARDINER. Juntos. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. Ralph Linton e Cora Du Bois. Fondo de Cultura Económica. Anna Freud. Sullivan e outros. Fondo de Cultura Económica. 151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. por outro. para alguns. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis.

além de serem diferentes entre si. Abraham Kardiner. constituídas como faces especulares da mesma realidade. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas.se a humanidade. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. portanto. elaborou o conceito de personalidade básica.. fixados apenas de modo filogenético e. aunque nunca idénticas. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 . explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. 8-9.. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. cit. pp. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. Así. Os comportamentos humanos não seriam. para las diversas familias que forman dicha sociedad. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó.. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. sino más bien a los sistemas proyectivos.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes. difieren de una sociedad a otra. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. por motivos compreensíveis. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. ob. 152 Embora os antropólogos. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. hipoteticamente. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. en otras palabras. por outro lado observou-se que as culturas. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. secundado por Ralph Linton. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños.

Os antropólogos. ou seja. debe decirse que la antropología estadounidense.. Buenos Aires. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. No entanto.. Chittó Gauer . Los llamados “neofreudianos” (Horney. Kluckhohn. Del estudio de la bibliografía antropológica. Editorial Paidós.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina. durante a década de 30. Psiquiatría Dinámica. a psicanálise e a antropologia. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. Adler. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção. como duas disciplinas relativamente novas. mas sim doutrina.. No entanto. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. 153 Este psicanalista conseguiu obter. Antes de comentar esse aspecto. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. dogma. Fromm y otros) han ejercido. citado por Henry W. durante los últimos años.. Brosin. As defecções de Jung.trabalho “sociológico” de Freud). 153 118 Ruth M.. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. portanto. 469. Kardiner. p. Não teoria. por exemplo.. 1958. fé e crença. C.. por sua vez. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “. para bien o para mal. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo.. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas.. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia. como se sabe. Podemos ver. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología.. diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. como. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos. Franz Alexander e Helen Ross. “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. plenas de um grande potencial.

deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. como sendo a típica personalidade modal. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. tais dados. adotar. Desse modo. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. em termos mais simplificados. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e. como Fairbairn e H. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. de certo modo. nas primeiras décadas do século XX. cit. As instituições155 responsáveis..mecanismos da cultura e da psique humana. apesar do afastamento. Foi a partir dessa postura que. em uma primeira versão. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. neste texto. Sullivan. Ora. Cabe não esquecer que. extremamente heterogêneos. predominante entre os membros de uma determinada cultura. Assim. que passou a ser entendida. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. em uma acepção ampla. ou dar maior importância. p. por exemplo. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). infestadas ideologicamente. diante disso. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. Abraham Kardiner. ob. as teorias raciais. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para. 47. Retornando à contribuição de Kardiner.

como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. No entanto. As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). por exemplo. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. seriam destinadas. por assim dizer. Por isso. de acordo com Kardiner. em primárias e secundárias. Por outro lado. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. em grande parte. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. as instituições secundárias. das manifestações dos mecanismos inconscientes. os mais variados sistemas de crenças religiosas. minorou. o folclore e a religião. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. Chittó Gauer . com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).mútua causação. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. Tal se daria. basicamente. sob o rótulo de instituições secundárias. Kardiner analisou. a uma escala monocromática. passaram a ser divididas. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. pela formação da personalidade básica. um derivado das primárias. com os dois grandes sistemas projetivos. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. e “domesticada”. Partindo das premissas acima colocadas. por uma relativamente obscura lógica cultural. abrangendo instituições primárias e secundárias. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. Portanto.

Madrid. p. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. todo um conjunto de crenças religiosas. nas culturas primitivas. Como muito bem lembra Marvin Harris. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. A título de comparação. 156 No entanto. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. a contribuição de Kardiner. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski.. alor.do criador da psicanálise. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. matrimônio. quase com pretensões de exclusividade. 157 Citado em HARRIS. e igualmente el de la magia muestra (. indução ao trabalho. Assim. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. nas ilhas Trobriand. El examen del mito. afirmou Malinowski. Siglo Veintiuno. los cuentos de hadas y las leyendas. Porém. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. pomo. na vida dos membros das comunidades primitivas. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. Este aspecto voltará a ser abordado adiante.. Cabe observar. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. puberdade.) el odio reprimido contra el tío materno. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. a la perversión o la aberración. participação na vida social. fatores de integração social. porém. 157 Como se vê. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. tapirapés. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. em um escrito de 1923. comanche. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. mitos. isto é. rivalidade entre irmãos. indução à afetividade. tanala. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . sistemas projetivos e outros. Siempre que las pasiones. navajos. 378. por las costumbres y por las sanciones legales. 1985. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. observe-se que. ojibwas e outras. em si não ofereceu novidades. disciplinamento precoce da sexualidade. al igual que en el folclore de estos nativos. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. Marvin. Una historia de las teorías de la cultura. Malinowski já havia percebido.

ou pelo difusionismo que. cabe registrar que. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. por assim dizer. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. direitos. Entre estes. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. Chittó Gauer . nestas culturas urbanas. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. qualquer indivíduo. os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. de certo modo. além desses aspectos. assim como.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. de certo modo. O selvagem passa toda a sua existência. pela maioria. às causalidades registradas. em princípio. obrigações. principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. Se estas oscilaram. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. continuam oscilando. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. Considere-se.

requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. para atraí-la a um âmbito próprio. Ao mesmo tempo. por conseguinte. p. As relações objetais tinham que ser explicadas. por exemplo. significados e distinção não eram. Artes Médicas. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. e os objetivos de qualquer atividade mental. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. Assim. a realidades construídas coletivamente. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). Porto Alegre.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . e MITCHELL. como Fairbairn. de forma alguma. 158 Portanto.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. pelo fato da importância atribuída à cultura e. não era de forma alguma aparente como posicionar (. Assim. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. do qual Freud é um dos grandes tributários. Em trabalhos posteriores. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. XII. Neste ponto. Deve-se lembrar que Freud.. 1994. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. em parte. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. autores da área psicanalítica. mais urgente. suas origens.

Sullivan e vários outros tentaram dar. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. Horney. muito antes disso. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. No entanto. e o trabalho 124 Ruth M. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. é claro. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. A opção. Desse modo. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. Ora. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência. em grande parte. por esse último modelo. assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. o modelo primordial de “busca do objeto”. Fromm. Nas análises das autoras citadas. as marcas da personalidade grupal. de fora para dentro. ou seja. como já foi colocado. E. os grupos familiares. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. surgem posições. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. Isso não quer dizer. De fato. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. K. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. onipresentes nas comunidades primitivas. por ex. para a criança.). pode-se entender que a maioria deles. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. que a ortodoxia freudiana. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX.(com os objetos externos) na psicodinâmica. H. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. Fairbairn. no âmbito da teoria psicanalítica. em detrimento. ao mesmo tempo em que se estabelece. Chittó Gauer . configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. certa primazia às relações objetais. portanto. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos. realizadas por Mead.

foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. devemos lembrar o pluralismo das representações. 1970. Como diz Eliade. temido ou fértil. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. 159 Lévi-Strauss. as primeiras fases de socialização. do extraordinário. ob. fortificando e atenuando. Gilbert. nesta pergunta. Editora Perspectiva. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. Assim. Cosmos. 1997. pp. para Lévi-Strauss. por meio de um duplo movimento. cit. São Paulo. Para isso. 1969. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. examinado por Margareth Mead. 161 DURAND. Nesse sentido. São Paulo. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. nos antagonismos. Sexo e Temperamento. p. Mircea. 129-296. Em Alor. 160 ELIADE. a troca restabelece. ver Cora Dubois In.. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. Para esse assunto. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. em Totem e Tabu. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. pensado às vezes como o “novo”. Abraham Kardiner. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . Tal evento originário. “o que é escolhido é implicitamente forte. seria o da proibição do incesto. fundador da sociedade humana. de gerações e de linhagens. focalizando. eficaz. 48. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. Lisboa. passam a pensar no outro. com grande destaque. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. como já referido anteriormente. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). na Nova Guiné. ver Margareth Mead. o diferente. a diferença. afirma a existência de um evento originário. Martins Fontes. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. puderam ser verificadas. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. posteriormente. como características típicas. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. do novo. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. Tratado de História das Religiões. Assim. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. das convicções ou das situações desestabilizadoras. na personalidade do indivíduo adulto. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual.

da educação e muitas outras áreas. Sob este aspecto. não apenas para observá-lo. Emmanuel. Para o ser pensante. mas para apreender os limites de sua própria diferença. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. Ensaios Sobre a Alteridade. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. a interioridade se opõe à exterioridade. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados. 162 LEVINAS. o estudo das organizações. Entre Nós. Chittó Gauer . na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. um não existente para si mesmo. do direito. Marshall B. entendê-lo e descrevê-lo. Petrópolis. encerrado na totalidade pela qual é constituído. 1997. o incógnito. Frente a esse quadro geral.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. Este é um cosmopolita. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. que foi erigido como categoria autônoma. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. Merton. É grande o número de autores que poderiam ser citados. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. Para compreender tal fato. Vozes. Ao falarmos sobre alteridade. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. 126 Ruth M. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. mas simultaneamente se complementa com ela. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. das instituições.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

163 164

Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

127

Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

128

Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

166 167

LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

129

quando ocorre é visto como inaudita. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). entre outros parentes próximos. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. em um plano diferente. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição.. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. cit. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. Chittó Gauer . o irmão. op. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido.primogenitura. já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. os tios. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. Quer sejamos críticos ou liberais. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. 48-49. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. uma transgressão que provoca horror e repulsa. e na forma metafórica o abuso de menores. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. por outro não a determina. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. as metamorfoses das normas sociais. ninguém pensa em proibi-la. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura. Nos exemplos de casamentos entre irmãos. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. essa proibição não é verbalizada. uma monstruosidade. o pai. Claude. pp. e de maneira significativa. entre elas. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. com ela. a irmã. Se por um lado a natureza impõe a aliança. 130 Ruth M.

170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. disse Mann. Se. Jean. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. entre outros temas do mundo da academia. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. 1990. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. II. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. assumem significados sociais diferentes.norma. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. John Galsworthy. a arte e a religião. 1952. além de deslocamentos contínuos. 170 Apud BAUMER. as questões teológicas passaram a não ter sentido. Claude Lévi-Strauss. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. na contemporaneidade. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. Lisboa. v. a natureza tornou-se longínqua. Lisboa. existencialismo. 123127. escrevia em 169 POUILLON. Raça e história. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. mau ou indiferente. mas todos os domínios do intelecto. “Na verdade”. O pensamento europeu moderno. In. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. não se trata de discutir a sua exclusão. ou um movimento psicanalítico. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. ao invés de diminuirmos as funções da norma. trata-se de constatar que. Edições 70. Cheguei a mim”. Franklin L. surrealismo. que afetou não só a ciência. A ser assim. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . pp. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. Para Pouillon. o universo passou a ser misterioso. Presença. positivismo. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. hierarquias variáveis. incluindo a literatura.

como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. v. Franklin L. Abril Cultural. nas classes sociais”. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. 1974. nos títulos da dívida pública. Assim. Chittó Gauer . sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. 172 171 132 Ruth M. no livre comércio. Edições 70. 49. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. Há uma verdadeira descrença. a recíproca não era verdadeira. São Paulo. Trad. II. pois não se tratava de uma regra científica. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. ela apenas o exprime numa outra língua”. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. Franklin Leopoldo Silva. O pensamento europeu moderno. pp. 1990. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único.1926: “Como agora tudo é relativo. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. examinados sem pressuposições matemáticas. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. no casamento. Conferências e Outros Escritos. Dado um fato psicológico. Henri . nas diferentes formas de energia. Contudo. mas de uma hipótese metafísica. BERGSON. Lisboa. Os Pensadores – Cartas. nas palavras do autor. Os fatos. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. Entretanto.58. Assim. desenharia as articulações motoras dele. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. para fixar as ideias. o homem é inominável. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. que se aprofundou no século XX. Apud BAUMER.

sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. desdobrada e articulada no espaço. oferecida pela consciência humana. por uma mágica intelectual inconsciente. O realismo repousa na hipótese inversa. em termos convencionais. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. cit. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. representam duas noções do real. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. Henri. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. As palavras realismo e idealismo. entre dois sistemas de notação. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. op. Somos aqui 173 BERGSON. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. podemos escolher. com efeito. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. enfim. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. Em suma. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é.

não poderia. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. contudo. representação.naturalmente mágicos. pois o problema em pauta. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. 134 Ruth M. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas. pela sua própria colocação. cit 58-59. por um golpe de mágica. que determina a percepção do consciente. Bergson concebe. numa representação”. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. Henri. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. 174 BERGSON. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. op. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. sugere-nos. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. Para o idealismo. uma vez de posse do estado cerebral. suprimir. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. sendo ele uma representação. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. Chittó Gauer . na hipótese idealista.

Oscilamos. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. para perceber o universo. se o real está desdobrado na representação. 1997. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. sem se alterar. estendido nela e não contraído nela. a cor que o quadro espera. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. Lisboa. de alguma forma. as respostas outras a outras faltas”. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. e. então. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. e vê. mas esquecemos que. sobre a paleta. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 . O olho e o espírito. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. isto é. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. uma vez feito. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. no espaço. Conservamos o cérebro tal qual é representado. pois. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. a nossos olhos. e vê os quadros dos outros. o quadro que responde a todas estas faltas. erigimos.Aprofundando os dois sistemas. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. 25. p. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. Grafilarte. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência.

e que os dois termos são. e a razão prática. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. Então. Homo Aestheticus. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. entretanto. termos em que a ética moderna se formulou. 136 Ruth M. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. Almeida. ou um movimento psicanalítico como referi no início.parte de outra. continua. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. 2003. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. p. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. o si próprio e a norma. Coimbra. Chittó Gauer . 286. a ser exterior ao homem empírico. isto é. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. Segundo Luc Ferry. intercambiáveis”. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. portanto. enfim. da parte com o todo. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. A Invenção do gosto na era democrática. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência.

Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. o hedonismo. o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 .

Sob esse enfoque. as teorias desenvolvidas por Einstein. As tradições políticas modernas. Neste sentido. cabal. Max Planck. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. da neurociência. O conhecimento foi tido como absoluto. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. Antônio R. neutralidade e generalização. O Erro de Descartes. e muitos outros. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. O fim das certezas chegou ao campo da física. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. é possível concordar com a ideia de que a ciência. 177 DAMÁSIO. da matemática. além de elucidar. universal e eterno. Chittó Gauer . Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. 138 Ruth M. Há muito de crença nas verdades científicas. As emoções e os sentimentos. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. Publicações Europa-América. é cega a respeito de sua própria aventura. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. pelo menos de forma substancial. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. entre outros. via de regra.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. Não é por acaso que somos. Lisboa. 2000. Prigogine. no entanto. objetividade. A experimentação trouxe a primazia da técnica. desde seu início.

Hans. 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional.mas também o culto das instituições. podemos afirmar que o cientista. O Político e o Cientista. 1979. Ariadne Editora. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. Max. Coimbra. ao perder o poder político que o caracterizava. 2004. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. Seguindo as reflexões do autor. Vozes. Presença Ltda. 30-31. próprio da modernidade. 178 O autor descreve.. Esse estado. 4. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. mas o próprio direito". Armênio Amado. pp. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. João Baptista Machado. 178 179 WEBER. Trata-se do estado liberal. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. (Coleção Sophia 002). A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . de forma precisa. Michel. Metamorfoses do poder. 181 MAFFESIOLI. Teoria Pura do Direito. 1919) foi aceita pelo autor. responsável pela construção do estado moderno. 1996. principalmente das instituições jurídicas. ed.. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. 1979. Coimbra. No fundo das aparências. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. neutro e liberal. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. Lisboa. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. apagou a estética do mundo delimitado". Trad. KELSEN. 121-122. Petrópolis. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. A ideia moderna de estado (Krabb. pp. é que permite a emergência de um poder total. 180 SÁ Alexandre Franco de. foi o jurista. que afirma: "não é o estado que é soberano.

demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. é. Chittó Gauer . A soberania das formas institucionais. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). In. mas que assumiram uma verdade. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. A evidência. Fernando e MARTINS. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. O exemplo da soberania. 182 é uma alucinação dos sentidos. 19-20. índice de si mesma. de Duns Scot a Husserl. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. GIL. constitui-se. racionais. Rui Cunha. Mesmo os fatos mais evidentes. 23. Modos da Verdade. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. a exemplo do estado. portanto. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. 182 140 Ruth M. como diz Rui Cunha Martins.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. matrizes da sociedade ocidental moderna. notórios. portanto. 2002. como tentativa de eliminar a sacralidade. o princípio secularizador. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. v. No entanto. p. Porém. que está inserida nos aparelhos de estado. racionais e mecânicas. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. Esta verdade é excessiva por natureza. Revista de História das Ideias. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. em sentido quase estrito da linguagem. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes.

Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica. denuncia a impotência do Estado. a violência. no qual prevalece o estado de direito. Piaget. Modos da Verdade. o conceito de justo (conceito relativo. Fernando e MARTINS. 26. Na tramitação do processo. De modo geral. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. Stuart. por outro lado. um tempo diferente do tempo da segurança. v. 2002. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. e transformação contínua nos sistemas culturais. p. O sentido da racionalidade é sempre esse. tal como analisada por Hall. vista mais especificamente como criminalidade. que não consegue cumprir o seu projeto. é "celebração móvel". que nos aproxima ao estado de natureza. por meio de sua neutralidade e imparcialidade. 1999. Esse é um problema geral para os governos atuais. François. Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. GIL. 23. em que o caráter problemático dos fins. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. DP&A. O tempo do direito. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. 184 HALL. Rio de Janeiro. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. 184 fruto da multiplicação. Lisboa. Já não se acredita no devir. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. A identidade polarizada. Como se sabe.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. 1997. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. 185 OST. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. nas ciências do direito". portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. Rui Cunha. Revista de História das Ideias. In. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". A identidade cultural na pós-modernidade.

novas questões se fazem presentes. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. O direito deu lugar à relação frente a frente. marcado pela racionalidade falível. vista como uma inversão temporal. ora a violência.Frente a essa complexidade. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. e. No entanto. assim como todos os campos de saber. O tempo da segurança. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. própria da modernidade. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. A produção normativa. Qual seria o remédio. Chittó Gauer . ciência e direito. do estado de direito já não existe. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. gerando ora a comunhão. que deve ser (re)questionado a todo instante. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. principalmente no campo das humanidades. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. separou ciência e política. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. bem como a duração dos códigos e das instituições. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. dos meios e dos resultados. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. A dicotomia sujeito-objeto. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. tal como se acreditava nos séculos passados. portanto.

todos carregados de violência. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. Sua análise continua. Lisboa. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. Um dos problemas no mundo globalizado. Relógio D'Água Editores. em suas múltiplas faces. Ao tomar-se o real pelo real. polifacetadas. ou seja. A heterogeneidade. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. impossíveis de mencionar em sua totalidade. op. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. 187 KERCKHOVE. sentimentos. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. Derrick de. Importante observar a conotação dada. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. 1997. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. Derrick de. ambíguas.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. cit. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”.

A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. uma passagem decisiva. 188 MAFFESOLI. tal como referido por Kerckhove. não tão visíveis. um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. mas continuamos caminhando. revela que não sabemos mais qual é o caminho. no entanto. 144 Ruth M. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. O Tempo das Tribos. A violência relatada de forma emblemática. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". trazem informações sobre a violência subterrânea. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. Forense Universitária. 1987. O mundo sem dinheiro. nesta leitura. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. Outros eventos. Ao lado destas questões inquietantes. São Paulo. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. O evento. revelam apenas uma das faces da violência. 1988. Brasiliense. em sua velocidade. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Esses fatos. Rio de Janeiro. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. representa. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. Ver ainda O Conhecimento Comum. Chittó Gauer . Michel. principalmente do supérfluo. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz.

s/d. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. segundo este ponto de vista. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". Editorial Presença. 1990. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. adverte o autor. tal como os futuristas queriam que fizessem. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". no mundo einsteniano. na literatura e na arte. No entanto. Essa doutrina do tempo é. o produto da ciência. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". ou seja. fazendo-as correr. op. que iniciou em fins do século XVIII. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. pp. bergsoniano. G. cit. levado a efeito pelo historiador. COLLINGWOOD. Edições 70. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. R.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. v. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. a velocidades cada vez maiores. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. Como afirmaria Collingwood. “isto que a realidade era. uma história. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. A Ideia de História. O pensamento europeu moderno. 88. a busca de uma racionalidade. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . Franklin L. a filha instável do pensamento positivista. no 189 190 Apud BAUMER. p. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. além da preocupação com a instabilidade. Nele pode-se ler. I. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". Derrick de. assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. 191 KERCKHOVE. um processo dialético sem fim. integralmente dinâmico e nunca estático. um devir. Entretanto. O termo. Lisboa. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. segundo Lewis.. 24-26. mas sem metas fixas. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. Lisboa.

principalmente do poder do estado. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. é esse o paradoxo da aldeia global. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. Porém. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. Chittó Gauer . O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. Quanto mais noção temos da globalidade. tal como visto no início do século XX. A lógica da globalização não se concretiza. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. não há treino para o comportamento social e coletivo. o novo interesse pelo local. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. Por mais paradoxal que possa parecer. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. e mais as protegemos. Há várias formas de se falar sobre globalização. uma vez que o fluxo é desequilibrado. mas nem sempre com sucesso. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. O impacto global cria. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. mais ficamos conscientes das identificações locais.entanto. continuamente. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. Ainda somos.

prioridades das formas de vida do ocidente. a mistura.desiguais de poder entre Norte x Sul. a impureza. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. com a diferença. do império do ocidente. na verdade. etc. ao mesmo tempo. exótica. Ocidente & Oriente. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. diáspora. deslocamentos de fronteiras. que. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. a transformação e o perigo. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. Assim. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. Kevin Robins lembra que. valores. não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. o capitalismo global é. vê-se face a face com a cultura "alienígena". Por outro lado. desigual. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades. com seu outro. Trata-se de um desencontro cultural. o absolutismo do puro.

ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. ela é. Thomas. 5. cit. porém não podemos considerar como tal. para o autor. p. 195 KUHN. Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. Thomas. Chittó Gauer . p. 31. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. cit. op. op. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. 193 KUHN. 30. Thomas. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata.XIV Norma. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. p. 23. cit. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. 13. A estrutura das revoluções científica. 148 Ruth M. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. Thomas. Perspectiva. São Paulo. 53. p.. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas. 194 KUHN. Para o autor. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. antes de mais nada. op. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. durante algum tempo. 1982.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. supomos que alguém. cit. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. um sistema de leis 196 197 POLANYI. p. desejos consciente ou inconsciente. lemos. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. instintivamente. op. Michael. p. coloca-os daquele modo. 242. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. Rio de Janeiro. A lógica da liberdade. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. a plena afirmação de si próprio. 2003. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. mas sim lograr a expressão da personalidade. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. nós. Na análise sobre liberdade. A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal.. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. 196 em A lógica da liberdade. POLANYI. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. de forma intencional. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. 291. Por outro lado. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. Michael. Polanyi. na obra de Polanyi. Topbooks Editora.

embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. por ser único. assim como fez Freud. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. Para isso. ao mesmo tempo a liberdade. mas sobre os que não podem se proteger dela. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. Tais desafios. reflexo do ser-conjunto. distingue-se dos outros. o pensamento falante manobrável tentou. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. com sua independência. assim como não resistiu ao charme do limite. intelectuais. Temos. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. seja um sistema de ordem espontânea. tal como colocado por Freud. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. entre outros. não eliminou a banalidade do universal abstrato. estrutura das sociedades simples e antigas. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. no entanto. portando organizadora. que não permite eliminar o poder e a punição. ultrapassa a própria lógica da liberdade. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. É importante salientar que essa distinção. éticos. O século XXI vê-se frente a desafios morais. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. Neste sentido. por outro lado. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. Chittó Gauer . O inconsciente. que pensar em deslocamentos. o primeiro não. dar uma logicidade ao ilógico. com sua imagem de indivíduo-átomo que. empenhada em espezinhar a razão moderna. no entanto.contratuais que garanta essa situação e. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas.

pandemias. insatisfação. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. poder. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. hierarquia. No entanto. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. A diferente face da desagregação social aparece. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. epidemias. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. diferença. geralmente. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. privilégios. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. vista como a negação da independência. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. não podem ser interpretadas de forma linear. pobreza. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . perversidade. é stricto sensu a desestruturação social. o mundo como progresso. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. desagregações. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. etc. A estrutura perene de nossa história. com a conotação moral que a envolve. em atos de violência. Os antagonismos revelam-se.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. que se revelam como explosões de inquietação. Os dados científicos. como as de coerção. tanto as de repressão.

1984. 199 BOBBIO. alienígena da sociedade. Editora da Universidade de Brasília. Já a vontade jurídica. Brasília. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. os fins que ambiciona. seja por um sistema BOBBIO. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. na medida em que é condicionada. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. p. Norberto. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. não é. No entanto. nessa situação. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. op. mas sim entre os arbítrios dos homens. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir. Assim. 71. 72. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. cit. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. O direito seria um regramento entre subjetividades. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. enquanto ação socialmente intersubjetiva. ao mesmo tempo a liberdade. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. como poder controlador e limitador da violência. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. ela está fundada sobre dois alicerces. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. Norberto. Chittó Gauer . A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. 198 152 Ruth M. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. Direito e estado no pensamento de Kant.

jurídico pelo qual se administram as leis. seja um sistema de ordem espontânea. ultrapassa a própria lógica da liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 .

Giambattista. (. trad. Se há alguma novidade. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Abril Cultural. 1974. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. assim. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo.) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume. Em termos de uma transgressão necessária. a sua própria transgressão... incertíssimo por sua própria natureza. acerca dos problemas acima mencionados. afinal. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. São Paulo. 200 é possível iniciar esta reflexão. batizada de civilização dos indivíduos. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. Seleção. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas.. 200 154 Ruth M. nunca deixou de estimular. “O humano arbítrio.XV Juridicidade. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. simultaneamente. que são as duas fontes do direito natural das gentes.. já muito antiga. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. o da busca de valores. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. como é sabido.) este mundo civil VICO. de Giambattista Vico. Além disso. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. dentro de âmbitos que são. Os Pensadores. a velocidade e a crise de valores. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. quando inerentes à modernidade. Segundo o autor. Caracteriza-se. violência. Chittó Gauer . mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. uma emergência que.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

201

BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

155

A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
203 202

156

Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
204

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

157

O Inumano. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. com capacidade máxima de síntese. Chittó Gauer . A 206 207 MAFFESOLI. Lisboa.identitária.. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. pp. Estampa. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. fascinantes. Convivemos. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. diversos. LYOTARD. criado pelo modelo Iluminista. pp. o homem possui um cérebro temporário e improvável. 1998. cit. talvez. Logo. 15-28. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. é a era da globalização do homem. átomo perfeito que lembra Deus. 69-70. Jean-François. Este conceito. trabalhado por Maffesoli. a memória de ninguém. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. dá lugar a uma estética do nós. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. de resgate de sociabilidades perdidas. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. hoje. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. Por outro lado. assim como das tradições. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento. velozes. 158 Ruth M. ao fim e ao cabo. Michel op. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle.

La Identidad. Como lembra Lévi-Strauss. Entre Nós. 124-125. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. (Org. as quais produzirão um novo eu. LÉVI-STRAUSS. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. do local de nascimento e do Estado nacional. Claude. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. muito embora seja indispensável como ponto de referência". A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. da mistura. 209 em suas conclusões sobre identidade. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. Paul. e. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. simultaneamente. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. do local de habitação. todavia. pp. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. tempo-luz). Grasset. 1997. 1993. 36.busca desse homem hoje é o grande desafio. Emmanuel. Paris. A estrutura dessas relações sociais exige. 210 LÉVINAS. como centro de referência. é para ela que nos encaminhamos”. mas sim a celebração do hibridismo. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. Ensaios sobre a alteridade. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. Lisboa. 11-39. p. VIRILIO. A inércia polar. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. 1977. Publicações Dom Quixote. do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma. Rio de Janeiro. a origem e o fim. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . pp. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. da impureza. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo.). impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. que traz novas e inesperadas combinações culturais. Vozes. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são.

v.. fragmenta a sua imagem. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. Lisboa. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. 1995. é um aumento de todas as formas de violência. Nossa noção tradicional de self. etc. transformando-se em um modelo de simulação. uma entidade transitória. O que vemos. Razão e Cérebro Humano. e assim. 160 Ruth M. EPU/EDUSP. ou até à absorção por esta. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. superando a análise kantiana. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. 1974. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. São Paulo. 212 MAUSS. pp. Nesse sentido. Publicações Europa-América. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. do tempo cíclico. tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. da destruição. A ideia de perder a identidade. perde seu sentido. a morte da identidade construída por meio do individualismo. Sociologia e Antropologia. da produção. Marce. estaria desaparecendo. maior prudência. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. António. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. No entanto.de cada indivíduo. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. O Erro de Descartes: Emoção. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. no entanto. vista como a condição natural. para muitos. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. Chittó Gauer . No ensaio sobre a dádiva. II. configurando a identidade nacional. o que leva a uma sensação de morte. 39-49. no processo de modelagem das relações sociais. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. está ligada à ideia de identidade. porém.

Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. assim como outros ramos do saber. Gilles. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. 214 LIPOVETSKY. 1998. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 . (Orgs. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. cit. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. finalmente coisificou o humano. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. em qualquer caso. tem uma história. E por ser deveras custosa essa tarefa. que é impessoal como as leis. 214 Pelo contrário. Estas fases. pp. O dinheiro.. Nesse sentido. O paradoxo. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. 22-30. outras “assumem significados sociais diferentes”. 25-30. e que pode ser a medida de todas as coisas.). aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. OËLZE. que vai até o Iluminismo. A verdade moral está na Bíblia. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. pp. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. porém. Simmel e a Modernidade. Portanto. devem ser questionadas. vulgares. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. 32. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. Por tratar-se de um fato social. A ética. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. Editora da UNB. nos mandamentos divinos. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. Jessé. op. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. Berthold. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. Brasília. fundador do individualismo. por essência liberal e pragmática”. Dentro desta perspectiva.

o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. 3) A terceira fase da moral. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. remuneração escondida. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. No Brasil. A 162 Ruth M. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. a própria dignidade. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. encarrega-se de dissolver as permanências. A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. que Lipovetski chama de pós-moralista. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”.racionalidade). sindicato. A própria velocidade. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. que promove o presenteísmo. em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”. família. e pensamos que seja ainda mais grave. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. O caso brasileiro não é diferente. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. estimula os desejos. não se prestam a nada). a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. o bem-estar individualista. se não são uma felicidade. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. fraude fiscal). tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. escola. pode ser indicado para a maioria dos países. o ego. Chittó Gauer . entre elas. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. entre outras). um exemplo emblemático foi o movimento feminista.

Gilles. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais.. a moral a la carte “não é a ideia do dever. apesar do quadro preocupante. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. Mas. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. o valor da renúncia suprema a si próprio. apesar de estar fora de moda. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. o caso da Madre Teresa. que se afunda. que já não acredita no futuro. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. da Humanidade” 215. de vez em quando. ao que dizer que. Por fim. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo. Os exemplos que citamos. Para Lipovetski. honestidade. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. cit. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. Para o autor. pois. na nota abaixo. pois não estamos no grau zero dos valores morais. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). Mas esta é apenas uma das facetas. enquanto tal. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. A liberdade trava. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. da História. Isso está deslocado no tempo. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. Na Inglaterra e nos EUA. no altar da Família. em uma lista de 17 qualidades morais. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. do Partido. limita e impede a própria liberdade. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. éticos): direitos humanos. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . 34-37. sobretudo. Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. pp. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. Existem em França dois milhões de voluntários.000 assalariados a tempo inteiro. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. Cita. sendo. as mulheres que assim o fazem. com a prioridade incondicional do altruísmo. ou seja. O autor refere que “quando se pede para destacar. op.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. como exceção. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. da Pátria. voluntários.

“a moral não desaparece. São Paulo. 217 Como visto. ter filhos por encomenda. entre outras repressões. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. o que vale é o aqui e o agora. como honestidade e respeito às leis. Martin Claret. a la carte. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. melhor dito. Duas Vocações. Há. A era do após-dever. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. 57. ou seja. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. ao mesmo tempo. Lisboa: Piaget. principalmente. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. o aumento de pequenas violências no cotidiano. torna-se sentimental. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. incapazes de resolver os WEBER. p. na supervalorização das festas. A família sobrevive. na cultura do presente. a delinquência juvenil. extremismo higienista. que podem ser escolhidos. intermitente e. do que de grandes cruzadas moralizantes. IN: A sociedade em busca de valores. por exemplo. “indolores”. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. espetacular.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. mas com a condição de que possa divorciar-se. repressão total em matéria de drogas. 2002. Como a caridade mediática. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. última forma do consumo interativo de massa”. sacrifícios altruístas mínimos. 2000 p. entre outras questões não menos importantes. torcidas organizadas. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. passando à moral a la carte. As práticas da solidariedade. viver em concubinato. epidérmica. censura pornográfica. Chittó Gauer . pela intelectualização e. Ciência e Política. 217 216 164 Ruth M. caracterizada pela racionalização. no entanto. 29. No que diz respeito à violência. Max. descomprometidos. LIPOVETSKY. Gilles.

por outro. Louis Wirt. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. O Individualismo. Robert Ezra Park. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. Norbert. Por outro viés. sobretudo. 1992. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. (Orgs. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. dos valores. do direito subjetivo. para Dumont. o expõe. do surgimento do direito natural. por um lado. os problemas da cidade. ao mesmo tempo. op. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Difusão editorial. A busca da excitação. produz o indivíduo na sua autonomia e. Berthold. Rocco. 218 analisam os problemas da cultura moderna. Da mesma forma. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. pragmática. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Nas sociedades SOUZA. Daí. Louis. simultaneamente. 1985.concretos problemas sociais. ELIAS. Lisboa. cit. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. Vários historiadores e sociólogos.). a hierarquia. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. Ao descreverem a lógica da individualização. Rio de Janeiro. Jessé. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão. priorizar a ética da responsabilidade. entre eles Simmel. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas. permanece. OËLZE. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. fundada em uma ação ético-liberal e. Nas análises. 220 DUMONT. No entanto.

mas. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. No entanto. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. ao mesmo tempo. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. da "eliminação" das diferenças. 1986. como projeto a ser alcançado. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. o sustentava. 1269). o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. ou seja. dos grandes códigos modernos. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. p. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. o indivíduo. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. A nova posição. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria. leva-o a “opções de vida. de maior precisão conceitual. 730). com ele. a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. opções morais” (moral a la carte). Em outra fonte léxica. Rio de Janeiro. caracterizadamente holística. que antes não tinha de fazer. porque lhe eram impostas pela estrutura social. a incorpora.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. Isto é. São Paulo. liberta-se dela. “opções existenciais”. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. termo de sentido filosófico que significa a tendência. supostamente própria do universo. 221 166 Ruth M. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. p. Martins Fontes. Nova Fronteira. ao mesmo tempo. o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. 1999. Chittó Gauer . Vocabulário técnico e crítico da filosofia.

criou a forma mais expressiva de violência. 1999. Piaget. um recém-nascido. Seria possível pensar dessa forma na China. Acesso à humanidade em termos jurídicos. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". Mireille. Lisboa. ausência do estado. na verdade. Complementando a análise. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito. Nesse sentido. Religar os conhecimentos. embora balizada atualmente. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno.poderia ser considerada igual e. Na tradução oficial. Não a encontraríamos". nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. Significa qualquer Homem. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". possuir os mesmos direitos. teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. a humanidade é. Se isso fosse viável. Da mesma forma. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle. apenas para citar os exemplos mais conhecidos. tal como pensado no Ocidente.. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . 227. o terrorismo.].. afirma: “no campo jurídico. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. No entanto. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. e em nenhum a palavra “humanidade”. O desafio do século XXI. No entanto. Problemas como o desvio social. O título sugestivo do capítulo. por óbvio. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito. independentemente de qualquer condição. A busca da igualdade. na realidade é extremamente subversiva. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. p. também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. [. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. Esta noção. bolsões de miséria e violência.

pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. vêm recebendo reações diversas. Para além dessa façanha. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. na igualdade. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. simultânea a uma realidade única. em todos os níveis sociais e políticos.comum. Os direitos humanos. não consensual. tal como o pensamento moderno o instituiu. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. o que impede relativizar em termos jurídicos. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. A busca de um pensamento heterotópico. eliminando os discursos dos direitos. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. O discurso pensado como projetivo. Os resquícios dos totalitarismos. dos direitos humanos. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. leva ao consensual. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. legitimadas pelos direitos internacionais. 168 Ruth M. é eliminada pelas teorias do consenso. As diferenças se manifestam com violência. Chittó Gauer . derrubou o que restava da crença na unidade.

ed. Edições 70. Martins Fontes. BERGSON. I. BAUMER. Os Pensadores. Edições 70. Paris. São Paulo. “Sobre o conceito de história”. São Paulo. Franklin. 1987. O Local da Cultura. BASTIDE. Sistema penal e violência. Roger. Gaston. v. 2. Homi K. “Criminologia e interdisciplinaridade”. Salo. Leopoldo Silva. BENJAMIN. São Paulo. A Sociedade de Risco. Lisboa. Brasília.BIBLIOGRAFIA BACHELARD.. Abril Cultural. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. Roger. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 169 . Henri. Editora UFMG. CARVALHO. Os Pensadores – Cartas. CAILLOIS. São Paulo. 1973. BHABHA. Ulrich. Walter. 1999. v. Ruth M. 2007. BOBBIO.). 1984. Abril Cultural. Paidós. 1990. Lumen Juris. O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica. I. Editora da Universidade de Brasília. BECK. Barcelona. Franklin L Baumer. 1998. O Mito e o Homem. Sociologia e Psicanálise. Trad. BENVENISTE. Companhia Editora Nacional. Conferências e Outros Escritos. ______. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. 1974. Direito e estado no pensamento de Kant.. São Paulo. 2001. Editora Brasiliense. Walter Benjamin. Norberto. O Pensamento Europeu Moderno. Magia e técnica. Vila Nova de Gaia. II. Belo Horizonte. v. Èmile. 1986. Rio de Janeiro. Matéria e Memória. Chittó Gauer (Org.

Rocco. Pureza e Perigo. Mireille. António. 1973. G. O Erro de Descartes: Emoção. Lisboa. Madrid. São Paulo. 1993. Discurso do método. Publicações Europa-América. Razão e Cérebro Humano. Louis. Os Pensadores XV. Buenos Aires. Editora Universidade de Brasília. s/d. Lisboa. São Paulo. Cosmos. Lisboa. E. R. São Paulo. Brasília. 1976. 170 Ruth M. Piaget. Amorrortu Editores. Norbert. Martins Fontes. ______. René. Difel. A Ideia de História. Edições 70. Morata. Gilbert. ______. O desafio do século XXI. Rio de Janeiro. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. 1970. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. Religar os conhecimentos. As Estruturas Antropológicas do Imaginário. ELIADE. Tratado de História das Religiões. Lisboa. Etnopsicoanálisis Complementarista. Reglas del metodo sociológico. Lisboa. DURAND. ______. Chittó Gauer . 1997. Lisboa. 1992. O individualismo. Discurso do Método. DOUGLAS.. DUMONT. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. DELMAS-MARTY. DEVEREUX. Perspectiva. Rio de Janeiro. Difusão editorial.COLLINGWOOD. DURKHEIN. Georges. Mary. 1985. A busca da excitação. Mircea. 1995. 2001. 1974. 1975. Editorial Presença. 1999. DESCARTES. 1981. DAMÁSIO. Abril Cultural. ELIAS.

Madrid. v. Paidos. La rebelión de las masas (1930). Rio de Janeiro.ELIAS. 23. Chittó. 1990. Erik H. Modos da Verdade. In. Rio de Janeiro. São Paulo. São Paulo. Didier e LÉVI-STRAUSS. Nau. VI. Identidad. Livro Ibero-Americano. ______. ______. Obras. FREUD. 2002. A sociedade dos indivíduos. Jorge Zahar. Coimbra. 2003. O reino da estupidez e o reino da razão. Michel. 1968. ______. 1978. 1946. GASSET. Claude. Juventud y Crisis. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 171 . Fernando e MARTINS. A interpretação das culturas. São Paulo. Ruth M. Zahar Editores. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Imago. ERIBOM. Norbert. GAUER. Barcelona. Rui Cunha. Rio de Janeiro. ______. Ed. A Invenção do gosto na era democrática. Almeida. v. El Antropólogo Como Autor. Homo Aestheticus. Zahar. Alianza Editorial. Nova Luz sobre a Antropologia. Paidós. De Perto e de Longe. Sigmund. 2000. 1999. ERIKSON. Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. Nova Fronteira. 1989 GIL. A Verdade e as Formas Jurídicas. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. FOUCAULT. Meditações do Quixote. A Interpretação dos Sonhos. Revista de História das Ideias. FERRY Luc. 1977. GEERTZ Clifford. Rio de Janeiro. 2006. 2001. José Ortega y. Buenos Aires. 1997.

Editora Perspectiva. Lisboa. São Paulo. Rio de Janeiro. Madrid. Coimbra. GUSDORF. Abraham. Marvin. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). Estigma. HARRIS. 4 ed. LEIBNIZ.STRAUSS. 1982. A estrutura das revoluções científica.. Os Pensadores XIX. DP&A. Perspectiva. Paris. Trad. 1994. Abril Cultural. São Paulo. Zahar. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. Prisões e Conventos. 1967. Relógio D'Água Editores. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. Una historia de las teorías de la cultura. O pensamento Selvagem. Saraiva. In: SHIRLEY. 1955 e El Individuó y su Sociedad. México. 1997. Thomas. 1987. Robert. 1982.GOFFMAN. v. Fondo de Cultura Económica. Campinas: Papirus. Payot. 1989. Claude. ______. Teoria Pura do Direito. A identidade cultural na pós-modernidade. HALL. KELSEN Hans. 1974. Manicômios. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. 1945. 172 Ruth M. W. George. Porto Alegre. Antropologia jurídica. Armênio Amado. 1974. 1979. Siglo Veintiuno. Erving. e MITCHELL. Fondo de Cultura Económica. Artes Médicas. Rio de Janeiro. 1985. IV. LÉVI. Chittó Gauer . São Paulo. São Paulo. 1997. KERCKHOVE. ______. KARDINER. México. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. Derrick de. Gottfried W. João Baptista Machado. KUHN. Stuart. GREENBERG. El Desarrollo de la Teoría Antropológica.

1970. LIPOVETSKY. São Paulo. No fundo das aparências. Petrópolis. Rio de Janeiro. São Paulo. Sociedad y ciências sociales. Lisboa: Piaget. Forense Universitária. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). Sociologia e Antropologia. IN: A sociedade em busca de valores. Barcelona: Barral Editores. 1974. Obras III. 1976. Vozes. ______. ______. LYOTARD. ______. São Paulo. ______. 1996. Brasiliense. Vozes. ______. John. Tempo Brasileiro. 2002. 1970. MALINOWSKI. 1973.. ______. MAUSS. Claude. 1982. 1988. Antropologia Estrutural. Petrópolis. O Pensamento Selvagem. A era do após-dever. (Org. Petrópolis. 1977. O Inumano. MAFFESOLI. Rio de Janeiro. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 173 . 3ª ed. Emmanuel.). 1987. Estampa. 1997. Journal d’ethnographe. Os Pensadores XVII. Rio de Janeiro. O Tempo das Tribos. EPU/EDUSP. Papirus. 1998. 2000. Lisboa. São Paulo. Antropologia Estrutural I. Entre Nós. Ensaios Sobre a Alteridade. Grasset. Tempo Brasileiro.LÉVI-STRAUSS. LEVINAS. v. Bronislaw. II. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). Gilles. 1970. Tempo Brasileiro. ______. Rio de Janeiro. Antropologia estrutural dois. ______. Conhecimento Comum. Paris. La Identidad. Vozes. Marcel. Ëditions Du Seuil. Jean-François. 1985. LOCKE. Abril Cultural. Paris. Michel.

II. São Paulo. 1996. Alfred. São Paulo. Arthur I. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo.MAUSS. Presença.med. PAZ. São Paulo. Chittó Gauer . Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. Brasiliense. 1975. ______. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. A. Fundação Calouste Gulbenkian. POUILLON. Sociologia e Antropologia. El método de la antropologia social. 1974. Grafilarte. O tempo do direito. 2003. e FORDE. MICELA Rosaria. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. 1982. MILLER. POLANYI. v. Abril Cultural. Michael.htm. EPU/EDUSP. In.polbr. São Paulo. 2002. Lisboa. Sociologia e Antropologia. Ana Maria Galdini Raimundo. n. Perspectiva. ______. Piaget. I. Paris. OST. Acesso em: 03 jan. O olho e o espírito. São Paulo. 1999. 1952. 174 Ruth M. ODA. Topbooks Editora. 1977. EPU/EDUSP. Jean. 1997. Claude Lévi-Strauss. 1974. dez. RADCLIFFE-BROWN. Psychiatry On Line Brazil. v. Barcelona. Otávio. Lisboa. 2001. François. Lisboa. A lógica da liberdade. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. Anagrama. 1975. Lisboa. Rio de Janeiro. 12. Os Pensadores. 2ª edição. MERLEAU-PONTY. v. Maurice. Disponível em: http://www. Flammarion. RADCLIFFE-BROWN. Marcel.br/arquivo/wal1201. 1984. R. Antropologia e Psicanálise. Raça e história. Daryll. 6.

SARTRE. O rigor da indisciplina. SOUZA. 1987. Henry. Giambattista. 1965. O Político e o Cientista. Relume-Dumará. 1979. As políticas da razão. São Paulo. Seleção. Lisboa. STENGERS. Vozes. Dom Quixote. UNB. Personalidade na Natureza. 2004. Kluckhohn e Murray. na Sociedade e na Cultura. (Orgs. Brasília. Antropologia jurídica. Berthold. Rio de Janeiro. O ser e o nada. “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”. Brasília.). 1998. (Coleção Sophia 002) SAHLINS. Zahar. Coimbra. Editora da UNB. Isabelle. 1979. Itatiaia. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. 1994. Os Pensadores. 1974. O Antigo Regime e a Revolução. Ariadne Editora. Belo Horizonte. VIRILIO. Petrópolis. Metamorfoses do poder. A inércia polar. 1979. Publicações Dom Quixote. 1997. OËLZE. Abril Cultural. 1993. Simmel e a Modernidade. São Paulo.. Marshall. Max. SHIRLEY. TOCQUEVILLE. Jessé. Lisboa. Edições 70. WEBER. trad. Aléxis de. Lisboa. Luiz Eduardo. Lisboa. Cultura e Razão Prática. Rio de Janeiro. Ferdinand. SOARES. Saraiva.SÁ. Paul. WEGROCKI. Curso de lingüística geral. 1995. Robert W. Jean-Paul. Alexandre Franco de. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 175 . SAUSSURE. VICO. 1993. Presença Ltda.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful