A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Joaquim Clotet Vice-Reitor: Evilázio Teixeira Conselho Editorial: Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS: Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe

Ruth M. Chittó Gauer A FUNDAÇÃO DA NORMA para além da racionalidade histórica Porto Alegre 2009 .

br/orgaos/edipucrs/> 1.br http://www. RS . Filosofia do Direito. – Dados eletrônicos. Claude – Crítica e Interpretação. 3. Lévi-Strauss.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS Av.Prédio 33 Caixa Postal 1429 90619-900 Porto Alegre.br . Normas Jurídicas. 4. ISBN: 978-85-7430-926-2 (On-line) Publicação Eletrônica Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader Modo de Acesso: <http://www.com. Direito. 1290. Ipiranga. 2. Diploma da Fundação da Universidade. Ruth Maria Chittó A fundação da norma : para além da racionalidade histórica [recurso eletrônico] / Ruth M. I.pucrs. CDD 340. Chittó Gauer.© EDIPUCRS. Título. Arquivo.BRASIL Fone/Fax: (51) 3320-3711 E-mail: edipucrs@pucrs. 6681 . 175 p.edipucrs. 2009. 2009 Capa: Vinícius de Almeida Xavier Ilustração da capa: Universidade de Coimbra. Diagramação: Stephanie Schmidt Skuratowski Revisão linguística: do autor Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) G267f Gauer. – Porto Alegre : EDIPUCRS.

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Professora do Programa de PósGraduação em Ciências Criminais. . Chittó Gauer chitto@pucrs. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL BRASIL.br Doutora em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Coimbra.Ruth M. Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em História.

Para meus filhos Gabriel. . minhas netas. Alexandre e Rosane e para Viviane e Vanessa.

a psiquiatria e a filosofia. o qual ajudou enormemente o diálogo com o direito. O mais relevante. A todos devo o entendimento de que a ansiedade da incompletude acompanha a vontade de compreender a complexidade do ato de escrever. início dos noventa. foi o de terem-me proporcionado a condição para perceber que a erudição deve receber o tempero do estilo. meu “lar” acadêmico em Portugal. O projeto deste livro surgiu de reflexões iniciadas nos finais dos anos oitenta. nos quais a contribuição dos alunos foi inestimável.AGRADECIMENTOS A ajuda recebida para a escrita deste livro aconteceu de forma casual ela chegou por meio de muitas pessoas em momentos diversos. Tenho a satisfação particular em reconhecer a influência crucial de ideias vindas de longas conversas e debates acadêmicos na outra margem do Atlântico. no Instituto de História e Teoria das Ideias da Universidade de Coimbra. assim como de atividades acadêmicas desenvolvidas por conta de disciplinas que ministrei em Programas de Pós-Graduação da PUCRS. O registro de gratidão certamente não dimensiona a importância que esse grupo de pesquisadores e amigos representa para minha vida acadêmica. . com ênfase. fruto de uma longa convivência. de encontros e debates. no entanto. durante o período em que escrevi minha tese. a importância de meus colegas do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais por terem fornecido um terreno exemplar e generoso. Quero aqui mencionar. especialmente com os Professores Doutores Fernando Catroga e Rui Cunha Vide Martins.

.................. 169 ................................................................................................................................................................................. 36 V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma .......... ciência e autenticidade ............... 114 A sedução da objetividade: natureza & cultura ........................................ 99 O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma ............................. mito e memória ............. 28 Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos .................................................. 154 BIBLIOGRAFIA ................................ 42 VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise ............................ 65 IX X XI XII Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora.............................................. 84 A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo.......SUMÁRIO I II III IV A norma totalizadora frente à diferença ...................... 16 A sedução da norma: fato social total .................................... 138 XIV Norma............................................................................... violência. 148 XV Juridicidade............................................ 129 XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação............................................. 9 A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana...................... 60 VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil ........ 51 VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época ......................................................................................................

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 9 . Desse modo. pois se articula com oposições binárias ligadas a estruturas mentais que revelam os processos cerebrais inerentes à lógica racional. mas a um desafio crítico relacionado ao campo da história e das ciências sociais. LéviStrauss pôs fim ao divórcio entre inteligibilidade e sensibilidade. sendo continuamente reinterpretado. A interpretação decorrente desse esforço pode ser denominada como uma espécie de jogo abstrato que se relaciona com a “realidade”. mas também quando analisamos os mitos e os ritos. em certo sentido.I A norma totalizadora frente à diferença Lévi-Strauss articulou várias técnicas oriundas da ciência moderna para demarcar o limite entre natureza e cultura como fundamento de suas investigações sobre as relações sociais. cores. a interminável busca de sentido do homem e o mundo construído por ele: um mundo configurado por formas. como tradição histórica. Não se pode desenvolver uma análise satisfatória do estruturalismo sem levar em consideração que não apenas a atividade intelectual é importante para uma interpretação da sociedade. de forma harmônica. Buscou compreender o obscuro. conciliando. o não aparente na aparência de uma “realidade” que se manifesta como significante de toda ordem social. sabores. sentidos. Essa lógica é percebida não apenas quando se manifesta por meio da racionalidade científica. O estruturalismo inaugurado pela escola sociológica francesa tem como representante mais conhecido Lévi-Strauss e propõe recuperar os processos que estavam latentes entre corpo e espírito: reconciliar o paradoxo significou afastarse de Descartes e de seu dualismo. sem negar a racionalidade e a posição que o autor tomou ao tratar o fato social como coisa. texturas. odores. mas também a prática como um plano da percepção do sensível. em um jogo que não diz respeito ao confronto com o passado. A negação da natureza pode ser pensada como a inesgotável significação que torna sua presença uma totalidade material representificada na linguagem e demarcada.

reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento é circunscrita pela comprovação da ausência de totalidade da racionalidade. com Merleau-Ponty. trata-se de aprender a ver o que é nosso como se fôssemos estrangeiros. Sabemos que. Sob esse aspecto é possível marcar a distância entre Merleau-Ponty e Foucault. cuja aquisição é possível por meio da experiência etnológica. e como se fosse nosso o que é estrangeiro. Maurice. para um universal constituído por relações de complementaridade. Os Pensadores. superando a MERLEAU-PONTY. Abril Cultural. para a convivência dos incompatíveis. Lévi-Strauss abre a possibilidade de se pensar a fundação da norma quando busca não mais o universal de sobrevôo de um método estritamente objetivo. é necessário. tomando a alteridade como objeto. a etnologia levava ao alargamento da racionalidade porque desembocava na ontologia. determina a impossibilidade definitiva de alcançar o outro. contrariamente a essa tentativa. Na análise das estruturas elementares de parentesco. que é herdeiro de uma problemática nitidamente merleaupontyana. Merleau-Ponty se refere à China vista em uma fotografia e à China vivida pelos Chineses – a primeira é exótica. rumou para as diferenças absolutas. o aparelho de nosso ser social. e usando como arma o elogio da esquizofrenia derivada do mundo esquizofrênico. op. rompendo o que é familiar ao nosso pensamento. cit. Com efeito. porque diferente. 1 10 Ruth M. no entanto. Para o primeiro. Chittó Gauer . forma a unidade de uma “universalidade oblíqua”. da diferença e da identidade. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. A abertura de Les Mots e les Choses mantém a China vista em sua distância fotográfica: a enciclopédia borgiana. Para Merleau-Ponty. pois vivemos na unidade de uma só vida. a síntese à que ele se refere somos nós. 363-365. p. No ensaio Em toda e em nenhuma parte. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. em antropologia. que pode ser desfeito e refeito da mesma forma que podemos aprender a falar outras línguas. 383-396. a antropologia. mas um universal lateral. Poder-se-ia dizer que há muitas lições a se tirar desta posição do autor. pitoresca. No entanto. ao contrário do pensamento francês contemporâneo. o pensamento francês contemporâneo exacerbou a alteridade. Essa experiência alargada referida pelo autor2 é construída por um sistema de referência que inclui todas as diferenças. a segunda é uma outra maneira de alcançar uma relação com o ser. 2 MERLEAU-PONTY. a questão do Outro e do Mesmo. A metafísica (e a metafísica nas ciências humanas) emerge quando se põe o problema da alteridade. Tais diferenças não se constituem necessariamente em outros. conosco. a experiência equivale a nossa inserção como sujeitos sociais em um todo cuja síntese já está feita e é laboriosamente procurada por nossa inteligência. incessante prova de si pelo outro e do outro por si.Aceitando. São Paulo. cortes e rupturas que dominam as práticas e teorias humanas. um projeto social e político que também nos diz respeito e por intermédio do qual nos comunicamos com o que é diferente de nós e que. então. 1 que. distante.. p. 1975. reagindo contra um certo hegelianismo presente em Merleau-Ponty. levam a uma interrogação radical da racionalidade estreita apresentada pelo saber ocidental.

de modo algum. p. O Pensamento Europeu Moderno. Franklin L. São Paulo. 1997). 39. isto é. “deve então reconhecer-se que a diferença que configura esse pensamento está circunscrita pela comprovação de uma “nova verdade”. Elogio da Filosofia. p. a estrutura revelada pelo etnólogo e generalizada pelas outras ciências deixava claro que não há dados nem essências (pontos fixos e completos a serem marcados e explicitados). Em muitos momentos a imaginação é vista como responsável por erros e falsidades. 3 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 11 . o fato e o valor. O pensamento ocidental tem-se caracterizado por desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. No entanto. Edições 70. como fomentadores do erro. 39. uma história. Sendo assim. I. mas que o real (vínculo sujeitoobjeto) se configura em um processo contínuo de reestruturação. pois são uma teoria da imaginação sem imagens. 1990. mas que volta a organizar-se pela atenção perceptiva da vida. uma espécie de contador da existência. ao abrir novas dimensões para um continuun da consciência. O que julgamos ser coincidência é coexistência” (Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. Paris. 5 precisamente a que é ditada pela BAUMER. I. é preciso lembrar que Bergson postulou a existência de uma misteriosa intuição e assim permitiu transferir o espírito ao coração das coisas a fim de fundar a sua unidade. ainda. ao papel que ela desempenha no campo das motivações culturais. mais do que ser. Franklin L Baumer. desenvolve seu íntimo. pois ele ainda reduz a imagem à memória. conforme Bergson. segundo Gilbert Durand (As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Nesta visão surge a lei. Bergson. “desta forma possibilitou que o pensamento moderno se firmasse em larga medida. v. Bergson convidou todo mundo a transpor o objetivismo e o tédio do reino enigmático. 290. Matéria e Memória. Martins Fontes. Flammarion. São Paulo. Na busca pela compreensão da verdade. valor e a norma passam a ser compreendidos como lei no pensamento iluminista. para Durand. segundo ele. v. No entanto. p. p. Henri. a gênese traçada pelas obras de Bergson revela que “é a nossa própria história que contamos a nós mesmos. se revela a si própria através de nós. contendo em si a possibilidade de transformação e um devir apenas sentido. Maurice Merleau-Ponty. 369-370). na nova visão de mundo que os ocidentais ajudaram a consolidar como força dominante 4 e que. para além desta. que funciona mal no abandono do sonho. em Bergson. alienando a sua função principal que é conhecer. natural através do qual exprimimos o nosso acordo com todas as formas de ser. As teorias que falam sobre a imagem. a imagem sempre aparece como sombra do objeto. 1990. Não somos a pedra mas ela entra na nossa vida. Martins Fontes. os modernos3 tentaram impor a violência da visão totalitária construída com a precisão da ciência. Vila Nova de Gaia. Durand acredita que. mas esta. ou ainda como um objeto fantasma. se mexe. A desvalorização da imagem não corresponde. que englobou a norma e. Para Arthur Miller. como diferença”. o ‘balanço vital’. ensaia uma ruptura. Fato. sem consequências. Eis o motivo que levou Miller a afirmar que o autor foi o filósofo dos artistas do início do século XX. Tanto a tendência de miniaturização da imagem quanto a recordação dela comentem o erro de “coisificar” a imagem e seu dinamismo. 4 BAUMER. 5 BERGSON. Vila Nova de Gaia. no sentido dado pelo direito natural moderno.dicotomia sujeito-objeto. Edições 70. No entanto. 1996. 38. O Pensamento Europeu Moderno. não se estabelece. um mito (grifo nosso). os objetos imaginários sempre foram tomados como duvidosos. 1999. destroem-na. pp.

É fundamental lembrar que os critérios epistemológicos das ciências humanas variam muito. com a função primordial de normatizar as sociedades. no ato de conhecer. As ciências humanas datam do século XIX. justamente a crença na “verdade” científica. corresponde. Chittó Gauer . que permite a sua “evolução”. o que denomino humanidades. de que a diferença entre humanidades e ciências humanas é complexa. a literatura e outras. Acreditava-se que o conhecimento produzido pelos clássicos construiria um “novo” homem. no entanto nascem com forte vínculo com a “realidade”. não impediram que se sacralizasse uma nova crença. portanto. Há nesta racionalização a pretensão de eliminar a fé. criando muitos espaços de debate. Há que se pensar em incluir tanto as disciplinas voltadas ao conhecimento quanto as artes. e também se constata nas ciências humanas. a problemática da comprovação científica se fez presente a partir do século XIX. constitui-se como o traço mais visível nas humanidades. ainda que para fins de melhor compreensão. 12 Ruth M. ao tentarem compreender os fenômenos cósmicos desvinculando-os da crença religiosa. não se descolaram do conhecimento antigo. Ao corpus antigo. tal como pensam muitos historiadores e pedagogos. juntamente com uma visão fundamentalista. Isso que significa que os cientistas dessa época. A ideia de que nessas disciplinas se modifica o sujeito. grosso modo. Mesmo no período iluminista. As dicotomias criadas tanto pelos adeptos do empirismo como pelos da metafísica não salvaram o homem de ser mutilado. Partimos da premissa. pode se constituir em um problema.ciência. O mundo acadêmico caracterizou de diversas formas as diferenças entre o que se convencionou chamar de humanidades e de ciências humanas. que circunscreve as humanidades desde os gregos e que foi revigorado na Renascença. apenas visto como uma questão de especificidade. o mito e as crenças em todos os eventos que não pudessem ser explicados pela racionalidade científica. No campo das humanidades. A ideia de que as humanidades trariam lições de vida. O enfoque da diferença é. O papel pedagógico dessa concepção estruturou a formação cultural no Ocidente. Compõe a verdade científica o conjunto de leis elaborado pelos modernos e contemporâneos.

tomando a alteridade como objeto. Para tanto. alteraram tanto a posição do observado quanto a do observador. a história das sociedades também estava sujeita às leis da natureza. b) Freud. Essas experiências se constituíram em grande sucesso. empírico-formais e exatas. Para Merleau-Ponty6. ao tentar chegar às condições físico-químicas da psique. A base do pensamento das pesquisas conhecidas como “de ponta” reside no fato de que a linguagem técnica de uma área permite a ampliação de outra área. ou seja. 1975. Podemos citar quatro autores que consideramos exemplos emblemáticos e contundentes desse fato: a) Durkheim. c) Lévi-Strauss. A teoria da relatividade e a física. 368 6 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 13 . para alguns darwinistas. fornece à filosofia um instrumento para o alargamento da razão. Certamente os resultados das interpretações dos autores acima citados revelaram-se mais importantes do que a quebra de normas científicas que permitiu a ampliação da análise. Maurice. no qual se construiu a matriz das atuais ciências denominadas “exatas” ou “duras”. basta pensarmos no século XVII. Nos finais do século XIX. que a sociedade evoluía em fases sucessivas. logo. A divisão tradicional entre as ciências humanas. A antropologia. São Paulo: Abril Cultural. formalizando as relações sociais mediante o uso da teoria dos conjuntos. a distância entre as ciências humanas e algumas outras ciências. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. assim. como Tylor. para a convivência dos incompatíveis. desde os finais do século XIX. Spencer e Webb. P. deslocando simultaneamente o lugar do observador e do objeto a ser observado. A geometria alcançou o papel de fornecedor de paradigmas para todo o conhecimento que se pretendesse científico. para um universal constituído por relações de complementaridade. quando tratou os fenômenos sociais como coisa. Esse exemplo pode ser constatado historicamente. In: Os Pensadores. tendendo a seguir linhas MERLEAU-PONTY. d) Foucault.dando margem ao inumano. a metafísica nas ciências humanas emerge quando se coloca o problema da alteridade. deslocando a análise do macro para o micro. diminuindo. O esforço em preservar as fronteiras do conhecimento é um dos grandes problemas enfrentados pelas Universidades quando buscam a inovação. a biologia passou a explicar. passou a sofrer vários abalos.

em A linguagem indireta e as vozes do silêncio. escreve o autor. São Paulo. a sociedade passaria da selvageria à barbárie. buscando. E. no momento. imprimi-se e atinamos com alguma coisa”. que “devemos. ao transmitir a preocupação com as significações e com a maneira como poderiam ser vistas pelos diferentes agentes sociais.de desenvolvimento semelhantes. à civilização. a ampliação das perspectivas de surgimento de novas hipóteses – o ato criativo. e. 14 Ruth M. enfim. Os exemplos nos levam a pensar que a possibilidade de inovação está associada à abertura de espaços experimentais para que se testem linguagens fora de seus lugares de origem.. incluíram o rigor das demais ciências. mas um sistema eficaz de signos ou uma rede de valores simbólicos que se insere no individual mais profundo. Na visão de Mauss 7. independentemente da localização espaçotemporal. conceitos – não têm transparência suficiente para expressar o próprio ato criativo. MAUSS. 1974. o que há de exprimir não é mais diferido. Um dos exemplos mais significativos da utilização de conceitos de diferentes campos de saber aplicados a um saber específico pode ser encontrado na obra de Marcel Mauss. Contudo. necessariamente. mas o homem como cimento afetivo. cit. não é a prece nem o direito. Sociologia e Antropologia. v. op. No século XX. o fato social não é uma regularidade compacta. a negação. pois. A importância do estruturalismo reside na nova possibilidade que oferece: a linguagem de uma área permite revolucionar outras áreas. abriu a possibilidade de revolucionar a percepção das relações humanas. o Não. Marcel. assim. portanto. receba de outros seu sentido. o afrouxamento do método e. 363-365. de produzir-se. Marcel. A análise de Merleau-Ponty 8 é fundamental quando lembra. logo em seguida. a arte é imprescindível.U. no entanto. desse modo. O “verdadeiro”. que “por mais que a palavra./EDUSP. que se ter presente que as linguagens – palavras. Há. Esse homem pode ser “apreendido” pela palavra – a norma. Ao lado desse enfoque a antropologia. como explica Saussure. I. Chittó Gauer . porém.P. é expresso pela palavra. no apogeu do estruturalismo. Há ainda que lembrar que o próprio Merleau-Ponty afirma. dizer da linguagem em sua relação com o sentido o que Simone Beauvoir diz do corpo 7 8 MAUSS. Logo. contraído de suas relações. a regulação pensada como norma que circunscreve o indivíduo não o suprime. p. os linguistas.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 15 . Nessa perspectiva as estruturas sociais representadas pelas diferentes normas instituídas devem ser analisadas de forma que se abandone a ideia de que tenham surgido “naturalmente”. tal como acreditavam alguns pensadores do século XIX.em sua relação com o espírito: que não é primeiro nem segundo”.

9 16 Ruth M. os mitos. o religioso e o artístico. Chittó Gauer . uma vez que a concepção antropológica como parte de uma futura semiologia e suas reflexões sobre o pensamento (selvagem e civilizado) revelam. O tema central dos trabalhos de Lévi-Strauss centra-se na busca do entendimento sobre PAZ. porém. o casamento é assumido como um ato individual. norma estrutural do vínculo familiar. podemos notar. nos autores clássicos. em especial com a fenomenologia e se inspira. A ser assim. marcada pelo individualismo criado pelo direito natural moderno. Otávio. Otávio Paz9 defende a tese de que os escritos de Lévi-Strauss são importantes em dimensões como a antropológica. Toda e qualquer escolha dáse. ao analisarem a estrutura de parentesco. Sob essa estrutura. 1977. a liberdade de escolha não excluiu o átomo inicial fundante da sociedade. por exemplo. Claude Lévi-Strauss ou o Novo Festim de Esopo. tios. marcada pela liberdade de escolha. A afirmativa de que a sociedade constitui-se em um sistema total de relações. uma escolha psicológica. Toda a obra de Lévi-Strauss. interesses. Perspectiva. Saussure e Breton. encontramos o sistema de parentesco atual.II A fundação da norma: a metáfora sexual e a condição humana Na tradição ocidental contemporânea. além de ser marcado pela ausência de laços de consanguinidade – pais. que engloba tanto os aspectos materiais quanto o jurídico. uma predileção por Bergson. sentimentos. constitui a estrutura no sistema da família nuclear. o pensamento selvagem e a filosófica. contudo. dialoga com o pensamento filosófico. com base na exclusão do outro consanguíneo. São Paulo. entre outros fatores. presentes de forma significativa no conjunto da obra. a proibição do incesto. irmãos. que revela preferências. O poder da norma vista pela interpretação de Lévi-Strauss é um fator estrutural sem o qual não se compreende a lógica e o sentido da sociedade. está baseada no “fato social total”. Proust. 8. As influências de tais pensadores são especialmente perceptíveis quando Lévi-Strauss apresenta seu diálogo contínuo entre o concreto e o abstrato. desenvolvido por Mauss. uma desconfiança em relação à filosofia. p. portanto. que. de certo modo. entre outros –. Mauss. em grande parte.

13 Os primeiros trabalhos de Lévi-Strauss foram concebidos 10 11 MAUSS. Lisboa. a pintura. A compreensão do visível é dada pelo oculto. A obra de Lévi-Strauss revela ainda coincidências e discrepâncias com relação à posição culturalista de Franz Boas e ao funcionalismo de Malinowski 12 e Radcliffe-Brown. 12 MALINOWSKI. Paris. Segundo alguns de seus intérpretes. SAUSSURE. um super-racionalismo. Ferdinand. metaforicamente. Bronislaw. Journal d’ethnographe. é ainda extremamente significativa em vários campos de saber cujas bases se encontram na premissa da unidade do pensamento (da filosofia). Lévi-Strauss busca inspiração no marxismo e em Freud para compreender as estruturas não aparentes da sociedade e da psique humana. que revela o oculto. 1985. 1974. Alfred. Poderíamos. Anagrama. A história condensada nas idades geológicas da terra é também um entrelaçado de relações. Podemos pensar o sistema de relações instituído pela norma.P. esta última vista pelo autor como sendo diacrônica e sincrônica ao mesmo tempo. embora se trate de uma filosofia antifilosófica. pela busca da relação entre o sensível e o racional. 10 a presença marcante de Saussure. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 17 . 1975. Marcel. 13 RADCLIFFE-BROWN. passagem que ocorre com a fundação da norma. Curso de linguística geral.a passagem da natureza para a cultura. 11 no qual busca a compreensão sobre a linguística. Dom Quixote. El método de la antropologia social. E. Sociologia e Antropologia. Um corte vertical. A contribuição de Lévi-Strauss. a fundação da norma se dá como um processo de violência. aproximar o pensamento de Lévi-Strauss daquele do geólogo que busca a explicação dos conteúdos aparentes no que está encoberto. Barcelona./EDUSP. (um monismo) em si mesma uma busca da racionalidade do inconsciente. No campo da estética. Ëditions Du Seuil. Os exemplos mais significativos disso são a linguagem e a paisagem. em uma obra que pretende ser apenas antropológica. as capas invisíveis. v. estudos sobre a arte indo-americana e as ideias indígenas sobre a música. a poesia e o mito. 1995. São Paulo. na obra de Lévi-Strauss. Podemos identificar. O autor busca compreender o lugar do homem no sistema da natureza. é uma estrutura que determina e dá sentido às aparências superficiais.U. refutam o pensamento sobre barbárie ou selvageria utilizado pela civilização ocidental para denominar as diferenças. I. além de Marcel Mauss. particularmente. isto é.

No que se refere à fundação da norma. Chittó Gauer . Passa da ideia de sociedade como uma totalidade de funções à de um sistema de comunicações. dito de outro modo. significado (sentido). 18 Ruth M. Assim como os fonemas. entre outros) é como uma linguagem que pode ser traduzida à linguagem de outro sistema. apenas adquirem significação participando de um sistema. que o prepararam para saltar do funcionalismo ao estruturalismo.conforme a antropologia anglo-americana. fonema) são valorizados ao serem considerados em relação com os outros. pensa a estrutura como um sistema. desse modo. economia. mas participa da significação. arte. uma estrutura. Foram as ideias de Mauss. A linguagem é um sistema de relações. O método utilizado pelo autor se funda mais em analogia do que em identidade. palavra. Compreende a estrutura não só como um fenômeno resultante da associação dos homens. sistema sempre normatizado. as relações de parentesco são elementos de significação. logo. a repetição das formas das regras de matrimônio em todas as sociedades faz pensar. classificação. que os fenômenos visíveis são o produto do jogo de leis gerais. As posições de LéviStrauss confrontam o funcionalismo. mitologias. Sua relação e sua posição junto aos outros fonemas no interior do vocábulo tornam possível a significação. portanto. Cada sistema (parentesco. como no caso da fonologia. seus elementos (oração. Lévi-Strauss se propôs aplicar a linguística à antropologia. sua função significativa consiste na designação de uma relação de alteridade ou oposição em relação aos outros fonemas. leis. Lévi-Strauss a associa à estrutura de parentesco e afirma que é atemporal. como uma estrutura. mas como um sistema marcado por coesão interna. O fonema não tem significado próprio. Tanto os fonemas quanto as relações de parentesco são elaborações do espírito no nível do pensamento inconsciente. O signo tem um caráter dual: significante (som). Lévi-Strauss concebe a sociedade como um conjunto de signos. Para ele as categorias inconscientes não são irracionais ou funcionais. o historicismo e a fenomenologia. Lévi-Strauss. ainda que tais leis estejam ocultas. no entanto. e cada sistema é regido por um código que permite (caso decifrado) sua tradução a outro sistema. O fonema é um campo de relações. mas apresentam uma racionalidade imanente. Se a linguagem (e a sociedade inteira: ritos. o significante que precede e excede o significado. ahistórica.

A proibição do desejo pela mãe e o assassinato do pai – poder e punição – não correspondem a nenhuma realidade histórica ou antropológica. As normas do matrimônio e os sistemas de parentesco constituem-se em uma espécie de linguagem. Esta concepção da linguagem termina em uma disjuntiva: se apenas a linguagem tem sentido. Partindo da premissa de que todas as sociedades conhecem e praticam a norma. Lévi-Strauss. a universalidade da proibição em suas várias modalidades é análoga à universalidade da linguagem (diferente de idiomas). A metamorfose do som bruto em fonema se reproduz na metamorfose da sexualidade animal em sistema de matrimônio. Trata-se de uma complexa estrutura inconsciente. elementos desse sistema de significações que é o sistema de parentesco. a significação e a nãosignificação. mas serve-se da primeira para tornar inteligíveis as segundas. não se aplica inteiramente a LéviStrauss. 14 PAZ. A proibição também não aparece entre os animais. religiosas e filosóficas não temos uma teoria racional que explique a origem e a vigência da proibição. uma origem biológica ou instintiva. carregada de interpretações filosóficas. Essa crítica. Lévi-Strauss rechaça todas as teorias que pretendem explicar o enigma do tabu do incesto. 17. como a linguagem. o pensamento e as coisas. Apesar das inúmeras interpretações míticas. a regra. p. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 19 . op. um conjunto de operações que transmitem mensagens. jurídicas. É possível fazer muitas analogias: por exemplo. desde as finalistas e eugenéticas até a de Freud. não origem.. de acordo Otavio Paz. seleciona e combina (signos verbais e mulheres). Para Lévi-Strauss. cit. aquilo não). não pretende explicar a proibição do incesto a partir das regras matrimoniais. mas consequência da proibição. binária (isto sim. o universo não-linguístico carece de sentido e de realidade. não tendo. ou então tudo é linguagem (dos átomos até os astros).religião) é um sistema de signos. em seus estudos sobre o parentesco. portanto. são um sonho simbólico. Em ambas. Otávio. as mulheres (como as palavras) são signos (e não só valor). 14 Ao contrário de seus predecessores. cujo tema central é o das relações entre o universo do discurso e a realidade não-verbal. o que significam os signos? Um símbolo nos remete a outro símbolo.

A proibição do incesto. portanto. constitui a sociedade. é a raiz de toda proibição. em si mesma. op. Faz-se necessário compreender. equações. p. pode-se dizer que não há uma oposição. 19 20 Ruth M. embora pareça não ter justificação biológica. no fato e no valor. por outro lado não temos uma teoria racional que dê conta de sua vigência. o espírito: algo que é nada. inflexível. como na linguagem. de toda moral e de toda punição. Lévi-Strauss busca responder a negação da natureza. mas não de utilidade: graças a ela. Frente à análise sobre a fundação da norma. mas uma organização sistemática que se compreende por meio de uma análise estrutural. Logo. e esta. A pergunta sobre o fundamento do tabu do incesto se resolve na pergunta sobre a significação do homem. Há que se ter presente a posição de Lévi-Strauss: para o autor. considerada a fonte de todas as normas sociais. Esse tabu. constitui-se ao mesmo tempo na norma.religiosas e míticas. Neste aspecto faz-se necessário admitir que as diferenças não constituem dado natural. Chittó Gauer . agora. A questão fundamental relacionada à norma é a tentativa de compreensão da norma primordial. carece de sentido ou de fundamento. pelo menos lógica. deve-se formular a seguinte pergunta: é possível elaborar uma estrutura geral das estruturas? Se há um sistema de diferenças. mas.. a posição. uma norma inflexível. na significação do espírito. Esse Não contém um Sim: a proibição não apenas separa a sexualidade animal da sexualidade social. a norma proibitiva. de todas as leis. é na própria diferença que a encontramos. Otávio. o significante e o significado. ou seja. Para Lévi-Strauss. a fundação da norma se deu com a negação. ao trabalho e ao mito os homens são homens. segundo o autor. Se for possível encontrar essa generalização. cit. Neste aspecto se percebe o fundamento mais importante de suas reflexões. nem razão de ser. entre a ordem natural e a ordem 15 PAZ. este Sim funda o homem. alcançar uma generalidade universal. que não se defronta consigo mesmo. estamos diante de uma operação inconsciente do espírito humano que. fonte de todo limite. símbolos. metáfora. à linguagem. 15 foi o primeiro Não que o homem opôs à natureza.

Claude. Esta oposição entre natureza e cultura pode ser negada. outras vezes entre um eu objetivo e um outro subjetivizado. a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas que são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos. o inconsciente seria o mediador entre o eu e o outro. traçado na estrutura inata do espírito humano.cultural. p. sob a condição. Raça e história. ‘primitivos’ e ‘civilizados’. O objetivo do autor parece ligado à busca de um inventário de possibilidades inconscientes de cada relação. Nos dois casos também a procura positiva dos itinerários inconscientes deste encontro. Lévi-Strauss. o da comunicação procurada. o mesmo problema se apresenta. Se a explicação dos fenômenos sociais deve ser procurada em leis universais que regem as atividades do inconsciente. como o cremos. é a sua condição para o êxito. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. corre-se o risco de perder a compreensão do individual. ainda. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 21 . Retomemos o tema da norma primordial sob outro ângulo: seguindo a preocupação da busca das estruturas de parentesco por meio da lógica dos sistemas científicos. de levar a análise bastante longe”. obrigação e necessidade. 133. fundador da sociedade humana. seria o da proibição 16 LÉVI-STRAUSS. O paradoxo apresentado pelo autor é querer reconciliar a etnologia e a história. antigos e modernos. subjacente a cada instituição e outros costumes. é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente. Presença. sem nunca se caracterizarem como arbitrários. para Lévi-Strauss. em Totem e Tabu. 1952. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). O fato de querer conciliar uma tal situação demonstra a sua consciência sobre o limite de tal proposta. Para Lévi-Strauss. naturalmente. no qual a compatibilidade e a incompatibilidade que cada uma dessas relações mantêm com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica para desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis. no próprio momento em que a concepção que ele possui da primeira leva à desvalorização da segunda. que esta é a oposição entre lei e universalidade. afirma a existência de um evento originário. Lisboa. Em ambos os casos. Lévi-Strauss 16 define o êxito da seguinte forma: “se. na história das diferentes sociedades e na irreversibilidade dos indivíduos. Tal evento originário. Faz-se necessário ressaltar. algumas vezes entre um eu subjetivo e um eu objetivante.

nem tampouco é uma combinação de elementos compósitos: constitui. o momento da passagem da natureza à cultura. estrutural. dada desde o inconsciente. portanto. 1982. que deve ser decodificado para a compreensão de seus elementos básicos e estruturantes. As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). São Paulo. nem de origem puramente natural. 22 Ruth M. 18 Na verdade. Antropologia e Psicanálise. Brasiliense.. Claude. entre natureza e cultura. 70-71. de caráter trans-eventual. E é a partir daqui que se organizam as proposições teóricas que servem como suporte para o método de análise estrutural em antropologia. Para Lévi-Strauss. Chittó Gauer . que sintetiza a proibição do incesto e a exogamia. Embora Lévi-Strauss 17 LÉVI-STRAUSS. ocorre em pelo menos três níveis: comunicação através das mulheres. estando situado entre ambas. comunicação normatizada. com a consequente regulamentação da troca de mulheres. que obedecem a uma rigorosa e complexa lógica instituída em nível inconsciente (aqui é conceituado de modo radicalmente diverso do freudiano). Vozes. 18 MICELA. Essa troca constitui-se. ao contrário. Ao nível das estruturas elementares. todo o sistema social funda-se em um complexo sistema de comunicação cuja estrutura.. Ponto de encontro e articulação. pp. e nos quais as mulheres constituem o objeto de troca por excelência. 1984. Assim. comunicação através dos bens e dos serviços. essa proibição “não é de origem puramente cultural. ponto no qual se assenta a ordem social construída pelo homem. sem pertencer integralmente a uma ou outra. o tabu do incesto constitui o vínculo originário que une a esfera biológica à social. de resto. comunicação por meio das mensagens. Petrópolis. adotada com vistas ao estabelecimento de alianças entre os grupos humanos.do incesto. além de uma estrutura subjacente a todo sistema de parentesco e a todo sistema social primitivo. para o autor. representa o lugar onde se articula o modelo sincrônico. Rosaria. necessária e imposta pela exogamia. Tudo o que está submetido a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular”. Tudo o que é universal no homem pertence à ordem da natureza e é caracterizado pela espontaneidade (. o passo fundamental graças ao qual – e. esse universal.). sobretudo no qual – realiza-se a passagem natureza-cultura. 17 Por meio dos mecanismos de trocas. todo sistema cultural seria um sistema de comunicação.

sua singularidade. para isso. A atomização das decisões quebra a lógica da reciprocidade. nos sistemas naturais e sociais. As observações realizadas por Lévi-Strauss permitiram que fossem decodificados os sistemas contemporâneos de parentesco. que esta "é uma entidade abstrata sem existência real. Nesses casos. muito embora seja indispensável como ponto de referência". Este aspecto leva a considerar. ainda. é possível enquadrar nesse modelo. 1977. pelos mais variados fatores.tenha afirmado. a permuta da própria nacionalidade. elevada a um plano de destaque. pp. 19 não é exagero dizer que. o fato de que o planejamento de organizações. pois o nível de “harmonia” estruturante na conduta fundada pelo Não foi deslocado para a impessoalidade totalizadora em que a reciprocidade não encontra espaço. para a maior parte dos homens. de posturas psicológicas. é fundamental que se trate de sociedades na quais o indivíduo é. em particular. e em nós como função simbólica.). nossos sistemas de parentesco. A passagem às estruturas complexas do parentesco. ou. e uma cultura – aquela que está 19 LÉVI-STRAUSS. Claude. pode-se revelar altamente inoperante. necessariamente. Tal atomização criou situações sociais nas quais se detecta a revolta dos fatos contra os códigos e um sistema de justiça que não satisfaz. pensada como estrutura. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 23 . Grasset. Há. da economia. seguindo a reflexão do autor. 11-39. A norma. direta ou imediata da natureza. em suas conclusões sobre identidade. (Org. é um espaço em branco no mapa das emoções. Paris. a humanidade. faz com que a decisão sobre suas relações se encontre ao nível do eu. encontra-se fora de nós. que contemple apenas a racionalidade e os elementos racionais. ao menos “idealmente”. uma variável a levar em conta: assim como as transformações de relações profissionais são substituíveis nas sociedades complexas. sendo a negação simples. deve ser definida em perspectivas com variantes complexas que envolvem as trocas e as normas. Frente a essa complexidade Lévi-Strauss encaminha uma abordagem histórica das instituições da Idade Média e das instituições indo-européias e semíticas: a análise histórica imporá a distinção entre uma cultura que proíbe absolutamente o incesto. muito atomizado. como ponto de referência coletivo. Mas. no entanto. Nestes sistemas a determinação do cônjuge fica a cargo de condicionamentos diversos e complexos a exemplo da demografia. La Identidad. ou seja. àquelas de onde provêm.

nas relações sociais. mesmo que não estejam convencidos das circunstâncias. vinculado à qualidade única do ser humano. sonhos românticos). como objeto de conhecimento. a dominação técnica e a história acumulativa”. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. 21 Essa contribuição se refere aos princípios de organização. 24 Ruth M. 20 21 MERLEAU-PONTY Maurice. 20 “precisamente este tipo de cultura mostrou-se capaz de enfrentar um corpo a corpo com a natureza e criar a ciência. ao surgimento do direito natural. com o surgimento do indivíduo moderno. principalmente o direito. Logo. que irá se diferenciar nas diversas formas de habitar. Segundo Merleau-Ponty. nas escolhas de vida. com Hobbes e Rousseau se reconstitui a realidade social partindo-se da ideia de que todos os indivíduos são livres e se associam de forma voluntária mediante contratos sociais que paulatinamente estabelecem. Se. Considerando que. que se caracteriza pelo rompimento de “amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. tais como a leitura silenciosa (textos de edificação moral. Podemos complementar lembrando que tal cultura passou a normatizar essas relações com a mesma complexidade com que as trocas continuam a se realizar. não se pode negar a grande contribuição que essa “nova” categoria social trouxe à sociedade moderna. na autonomia apontada pelo anonimato das multidões. agora separado do ser social e político. ao direito subjetivo. em todas as instâncias da vida. consciente de si mesmo. op. na medida em que percebe o todo social como produto da associação voluntária e livre dos indivíduos. há a apresentação da figura do sujeito cognoscente. Esta ideia demarca as instituições. a normatização sofreu alterações significativas.na origem dos sistemas de parentesco contemporâneos – que joga ardilosamente com a natureza e algumas vezes rodeiam a proibição do incesto. O indivíduo passa a aparecer no plano das representações filosóficas como sujeito autônomo. a autonomia aparece para o indivíduo livre. que coloca a natureza perante si. cit. na libertação representada pelo acesso ao mercado através das trocas econômicas. A autonomia constitui uma marca da modernidade. De Mauss à Claude Lévi-Strauss. com Descartes. Chittó Gauer . aos valores. bem como em novos hábitos determinados por atitudes individuais. op cit. Caracteriza-se pelo surgimento de uma intimidade. MERLEAU-PONTY Maurice. 365-366. caracterizada pela emancipação do indivíduo. p.

modos de agir. a partir dos séculos XV e XVI. ao contrário. com ele. Para além desta regulamentação o direito regulamenta as mais íntimas das ações sociais no mundo atual. Se nas comunidades tradicionais cada pessoa se situava em um lugar determinado pela hierarquia estruturante. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 25 . vão se constituindo. características das sociedades tradicionais. que foi se configurando em nossas evidências fundamentais. que se apresenta como base para a liberdade. o lugar fixo abre espaço para a mobilidade. no mundo urbano individualizado. de capacidades de autocontrole e de auto-restrição. Este desenvolvimento urbano não ocorreu sem a perspectiva econômica fundada no desenvolvimento do mercado. Os acordos no mundo contemporâneo foram regulamentados pelo direito o qual normatiza todas as relações sociais inseridas institucionalmente. no conjunto da sociedade. mas também máscaras de proteção. na medida em que as trocas não se dão por posição social. para o afrouxamento do controle social tradicional. Rio de Janeiro. este por si só constitui espaço para a liberdade. mas antes de tudo respondem a acordos entre indivíduos. Foi nos centros urbanos modernos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. A sociedade dos indivíduos. Zahar. contrapondo-se a uma lógica guiada pela posição hierárquica e pela razão econômica. das hierarquias tanto sociais quanto familiares. anteriormente determinantes. que poderão representar não apenas a “fachada” dos indivíduos. pp. 1997. 22 ELIAS. Norbert. Portanto.Do ponto de vista sócio-histórico. a categoria indivíduo se caracteriza por uma reivindicação tanto da independência individual. as maneiras de educação. O modo de vida urbano abriu espaço para o anonimato e. a figura do indivíduo é formada a partir de uma progressiva interiorização de várias normas de conduta. 13-79. não obedecem a uma lógica exterior. Outro fator reside no surgimento da consciência de uma interioridade. As análises de Norbert Elias22 apresentam como. como do amor conjugal.

A Verdade e as Formas Jurídicas. do conhecimento. Aléxis de. ela. Chittó Gauer . com as quais cada um deve se conformar. maior seu custo. afirma que “só se desembaraçando desses grandes temas do sujeito. Norbert. cit. Em diferentes graus todos são sensíveis à ambivalência apontada pela modernidade. Michel. Há na liberdade individual uma crença de verdade que Foucault considera ser um dos grandes temas privilegiados pelos relatos legitimadores do presente. 26 Ruth M. 28 Com a atual 23 24 TOCQUEVILLE.Historiadores e sociólogos como Tocqueville. 1998. apontando os diversos processos que simultaneamente a provocam. a nossa sociedade funciona por normas. 27 FOUCAULT. Jessé. assim. como encargo muito difícil de ser cumprido.). quanto mais nos individualizamos. Louis. 26 buscaram descrever esta lógica de individualização. utilizando eventualmente o modelo nietzscheano. mas sim certos domínios de saber. cit. 142. (Orgs. 1999. por outro o expõe. 23 Simmel24 e a sua posteridade da Escola de Chicago. O Antigo Regime e a Revolução. Michel. 26 DUMONT.. na medida em que. mais nos socializamos. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Foucault assinala que não são as condições políticas e econômicas da existência que constituem. 25 ELIAS. Não por acaso Norbert Ellias coloca o indivíduo em relação com a sociedade em sua totalidade. 1979. isso sob o prisma da norma social. por um lado. Segundo Foucault 27. dizemos que a liberdade tem seu custo. paradoxalmente. a conformam e dela decorrem. para o autor. Simmel e a Modernidade. não por acaso. Rio de Janeiro. maior a socialização. e mais essa necessidade surgirá. mais necessária será a interiorização de um determinado número de obrigações. Nau. 28 FOUCAULT. se poderá fazer uma história da verdade”. 27. SOUZA. Essa individualização crescente configura uma sociedade crescente. Brasília. p. os obstáculos a desmontar e a decodificar em prol da busca da verdade. se formam o sujeito e as relações com a verdade. Berthold. Norbert Elias 25 e Louis Dumont. 1985. Quanto maior for a liberdade. OËLZE. op. Neste sentido. que se. Brasília. produz o indivíduo em sua autonomia. Ed. domínios nos quais. Ao mesmo tempo em que a norma social limita a ação dos indivíduos. paradoxalmente. também é desejada. O paradoxo da liberdade impõe um preço: quanto maior a liberdade. ao mesmo tempo originário e absoluto. quanto maior o individualismo. Rio de Janeiro. UNB. em si mesmas. Rocco. Editora da UNB. op.

Isso aponta para o fato de que quanto mais livres somos. na medida em que tal norma origina comportamentos racionalizados que englobam as atividades em geral. O indivíduo frente ao outro é um ser igual em direitos. portanto. mesmo das vinculadas às leis científicas. considerado o aspecto mais significativo. A ampliação da normalização contemporânea pode ser verificada em diferentes aspectos que vão desde o planejamento urbano às normas de higiene. A emancipação foi pensada pelos reformadores sociais como um ideal de emancipação das populações. A igualdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 27 . O único laço que permanece é o de natureza institucional. durante o século XX. mais necessitamos de regulamentações. é produto da própria liberdade. O que podemos constatar é que. Esta forma de autonomia está posta na sociedade salarial. e isso não se apresenta pura e simplesmente como proclamação teórica e jurídica. não é somente um valor. deste modo. é possível falar da incerteza da liberdade. A racionalização rompeu com as formas de solidariedade das sociedades tradicionais. hoje “acelerada” de modo irreversível. a partir da emergência das necessidades de leis e de regulamentos.mutação no que diz respeito ao lugar da experiência. mais especificamente no pós-guerra. mas uma prática cotidiana que exige um aumento contínuo da liberdade e de sua limitação. esta socialidade. mas constitui experiência de todos os dias. a vida em sociedade passou a se caracterizar por um significativo aumento de normas. O indivíduo se atomiza. aspectos do modo de vida e a forma como são construídas as habitações.

Chittó Gauer . 31 LEVI-STRAUSS. op.. em ocasiões bem determinadas: “por exemplo quando se agita a totalidade da sociedade e de suas instituições”. para cada um desses códigos. os fatos sociais não são fragmentos esparsos e isolados. na rede de interrelações funcionais em todos os planos”. o direito como outro conhecimento especializado pode ser visto como fato social total. cit. em suma. parece que. econômicos. segundo a teoria proposta por Mauss corpo. 14. 1976. p. eles permanecem ao mesmo tempo jurídicos. o aspecto vivo. 31 Entendemos que essa totalidade não suprime o caráter específico dos fenômenos. Para o primeiro “a totalidade consiste. alma. Claude. Se o essencial se constitui no “movimento como um todo”. 32 LEVI-STRAUSS. a totalidade social se manifesta na experiência. 14-15.. desta maneira. poder-se-ia dizer. sociedade. da arte e da religião como constituintes de projeções do social. tudo se mistura. e formada de uma multidão de planos distintos e justaposto”30. integral. pp. seu modo de organização e sua função diferencial. também. compreender a natureza das relações que eles mantêm uns com os outros”. ligado. 30 LEVI-STRAUSS. 14-15. tudo está inter-relacionado. Nesse sentido é que Mauss influenciou LéviStrauss. Antropologia estrutural dois. pp. Claude. Claude. estéticos. o instante fugidio em que a sociedade e os homens tomam consciência de si 29 LEVI-STRAUSS. op. Claude. a percepção deve ser do grupo por inteiro e o seu comportamento é. 32 Se. op. tal como referido por Lévi-Strauss: 29 “Não seria conveniente esperar que as ciências particulares tivessem aprofundado. pp. religiosos. como diz Mauss. cit.. 14-15. morfológicos ou outros.III A sedução da norma: fato social total Pensar a norma como fato social total implica compreendermos a lógica. cit. Ao contrário da análise sociológica que embasava as interpretações sobre os eventos sociais publicadas anteriormente. Rio de Janeiro. a linguagem do direito. instância privilegiada que pode ser apreendida no nível da observação. 28 Ruth M. Tempo Brasileiro. na teoria do fato social total. permitindo. a noção de totalidade é menos importante do que a maneira bem particular como Mauss a concebe: “folheada. Ao invés de aparecer como um postulado. Sob o risco de sermos acusados de paradoxais. por princípio e por fim.

no entanto. estudar a norma desvinculada da especificidade social em 33 34 LEVI-STRAUSS. ou ainda estudar as normas sociais. O exemplo citado por Lévi-Strauss 34 propõe uma questão: “quando consideramos um sistema de crenças – digamos o totemismo – poderíamos acrescentar o direito. op. uma síntese que coincide exatamente com a que elaboramos”. história. também. independentemente das coisas que lhes correspondem. portanto. objetos. a pergunta que nos fazemos é: o que tudo isso significa?” Para respondê-la. em sua visão. Podemos fazer uma analogia perguntando: o que substitui a norma. uma segunda dificuldade no que se refere à condição de pensar a norma como fato social total: a extensão do caráter de signo a todos os fenômenos sociais. Mesmo assim Lévi-Strauss 33 afirma que “a prova permanecerá bem ilusória: não saberemos jamais se o outro. cit. desse modo. pensada como tradição. nada deixou escapar.mesmos e de sua situação perante outros deve ser a única garantia de que a análise preliminar. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 29 . assim como não podemos. cit. nos diz respeito de forma total. direito. ciência política.. Por outro lado se faz necessário compreender que estas ciências não poderão construir perspectivas gerais se não levarem em conta os inventários empíricos da antropologia. esforçamo-nos por traduzir em nossa linguagem regras primitivamente dada em uma linguagem diferente. nem estudar os ritos sem analisar os objetos e as substâncias que o oficiante utiliza e manipula. apesar de tudo. 19. como muitos pensam. 17. e para quem ela é substituível? Sabemos que o domínio da norma está impregnado de significação. pp. 16-17. Não podemos estudar os deuses e ignorar suas imagens. é o definido como aquilo que substitui alguma coisa para alguém. O signo. 18. que alguns dos fatos sociais totais pertencem às ciências em particular: economia.. a liberdade – uma forma de organização social. com o qual não podemos. O autor reconhece. a partir dos elementos de sua existência social. um interesse privilegiado. LEVI-STRAUSS Claude. entretanto. Todavia. Há. levada até as categorias do inconsciente. Claude. confundir-nos opera. é essencial perceber que Lévi-Strauss propõe interpretar signos e não. estas disciplinas consideram principalmente os fatos que estão mais próximos de nós. op. a justiça. Neste caso. pp. oferecendo-nos.

22. Destas transformações. Se bem que anatômicas e fisiológicas essas modificações não podem ser definidas nem estudadas apenas em relação ao indivíduo”. segundo Geertz. criam regras e normas para que essa comunicação se efetive: quem se comunica com quem? Quando? Onde? Em que condições e em que tempo? As respostas a essas questões devem ser buscadas. a exemplo da antropologia filosófica e da biologia. as modificações de estrutura e de funcionamento do cérebro. As pesquisas realizadas por outros antropólogos após a segunda metade do século XX trouxeram várias outras contribuições para o campo da interpretação. segundo ele. No campo da antropologia a mitologia. no nível biológico. a emergência da cultura permanecerá um mistério para o homem enquanto ele não conseguir determinar. 36 35 30 Ruth M. segundo as premissas que apresentamos. do isolamento dos fenômenos sociais dos demais campos do saber. Esse aumento da comunicação em nível mundial não necessariamente tornou a vida mais fácil. o meio intersubjetivo indispensável para que elas prossigam. Chittó Gauer . “sabemos que de fato e até mesmo de direito. Tudo são símbolos e signos que se colocam como intermediários entre indivíduos e sociedades. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. Para o antropólogo norte-americano um dos principais deveres dos antropólogos (e dos cientistas sociais.que se insere. se deve ao fato de que. escrevem. Clifford. ao mesmo tempo. 36 tornou-se dispensável após o aumento do volume de comunicação e da integração entre os seres humanos. op. ao menos provisoriamente. de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum entendimento entre si.. p. A certeza passada por Lévi-Strauss sobre a necessidade. Esta especificidade deve levar em conta não apenas o espaço. Quando se comunicam os homens conversam. a cultura representa simultaneamente o resultado e o modo social de apreensão – criando. junto ao significante. GEERTZ. 35 É importante salientar que tal reflexão foi apresentada pelo autor na primeira metade do século XX. gesticulam. Essa é uma das mais relevantes LEVI-STRAUSS Claude. cit. mas fundamentalmente o tempo traduzido pelo ritmo social imprimido.

Geertz entendeu que os estudos dessas sociedades específicas não poderiam ser extirpados e analisados separadamente da sociedade em geral. Na entrevista. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. um estudo que pretende entender "quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são. Geertz conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. a exemplo do Brasil e da Índia. Em segundo lugar. de acordo com ele. Criador da chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. 38 Uma de suas metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido. não apenas para a própria teoria e prática antropológicas. 37 Depois de Claude Lévi-Strauss. dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas. torna a análise muito problemática. em primeiro lugar. provavelmente. São Paulo. Nova Luz sobre a Antropologia. o antropólogo lida com uma gama maior de sociedades. a própria passagem do tempo. A antropologia não pode mais ser uma ciência GEERTZ Clifford. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. logo. GEERTZ Clifford. foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade.lições de Geertz. Na opinião de Geertz. mas também fora de sua área. Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicada na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001. Jorge Zahar. desconsiderando. o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem?". não apenas as chamadas sociedades simples. 2001. a história e a teoria literária. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo. em disciplinas como a psicologia. da leitura do "texto" cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo. Geertz fala do panorama da antropologia atual. o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto após a segunda metade do século XX. 38 37 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 31 . o estudo de sociedades complexas e muito grandes. Explica que. A antropologia de matriz norte-americana é. interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito. entre outras coisas. daquilo que vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro. No final. Geertz é.

1987. Saraiva. direito. hábitos e leis sociais. história. porém o direito permite a utilização de modelos lógicos nem sempre encontrados em outras áreas. E isso deve ser realizado ao lado de outras disciplinas. ainda que não estejam escritos em códigos de direito. Robert W. Mas isso não é niilismo. a análise de suas normas. p. 32 Ruth M. Antropologia jurídica. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza. São Paulo. Geertz diz: “acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. a exemplo de Hans Kelsen. elas fazem parte do repertório da antropologia. Esse fato não significa que os indivíduos obedeçam às regras intuitivamente ou mesmo sem questionar. Há muitas regras e costumes no interior de todas as sociedades que não são leis. A experiência de compreender outras culturas assemelha-se mais a entender um provérbio ou ler um poema do que alcançar uma comunhão. Muitos juristas. de vagueza. mesmo assim são respeitadas. regras. que estuda tudo. historicamente. que diz estudar o "Homem". sem dúvida. A interpretação utilizada pelo autor vem acompanhada do aspecto dialógico na medida em que pensa a cultura como movimento. Neste caso o niilista não se importará com nada. e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos. o Marrocos ou o Brasil. literatura. não tentaria ao menos começar a entender os outros. não interpretará nada. A análise interpretativa da qual fala Geertz. Chittó Gauer . como economia. Todas essas questões devem ser levadas em consideração. política. o seu papel particular na interpretação do que ocorre.completamente geral. da mesma forma que certos hábitos que têm efeito social na estrutura das sociedades são respeitados. indeterminação. possui sua matriz de pensamento na hermenêutica. se esforçando para explicar as diferenças em geral. não tentará buscar compreender nada. In: SHIRLEY. A hermenêutica utilizada por antropólogos vem. 39 demonstraram que a 39 KELSEN Hans. contingência. Um dos objetos mais apropriados para interpretar as sociedades complexas é. em um lugar como a Índia ou a Indonésia. Ela tem que perceber qual é. assim como as diferenças existentes no campo relativo às formas de normatização das relações sociais. isso é o modo como se vê o mundo quando se é realmente um niilista. O niilismo não faz parte das crenças de Geertz: afirma ele que se fosse niilista. nem começaria a interpretar. 10.

se preferido for). é também correto afirmar que essas regras por vezes são manipuladas. Robert W. normas da sociedade referentes às primárias. Antropologia jurídica.natureza fundamental do direito é o poder que tem a sociedade de aplicar sanções ou punir uma conduta disruptiva ou “ilegal”. Em especial. questiona a noção de ser (apenas como simples presença) própria da objetividade. esses dois planos compõem as estruturas sociais. p. O domínio tradicional do estudo da diferença no mundo ocidental ocupou um ponto central na reflexão de Heidegger desde Ser e Tempo. exílio. instituições sobre conduta e instituição para punir condutas extravagantes. A ausência de controle interno em qualquer sociedade exige o desenvolvimento de outras formas de controle social. Podemos pensar em instituições que fazem as leis e instituições que aplicam a lei. Se a questão da diferença pautou as pesquisas da escola idealista de antropologia legal. forças políticas estruturadas pelas instituições. como crítico da metafísica (ou do humanismo. são evocados para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não como simples ato punitivo. 10 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 33 . 40 Segundo Shirley o antropólogo Paul Bohannan propôs uma visão semelhante quando escreveu que a maioria das sociedades tem “dupla institucionalização”. isto é. 40 SHIRLEY. Em que pese as diferenças entre sociedades simples e sociedades complexas. Saraiva. e regras secundárias. ostracismo ou morte. por outro lado. ou seja. Na constatação de diferenças entre sociedade simples e sociedade complexa há que se levar em conta que nas primeiras as sanções. Comparar os diferentes tipos de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais leva ao conhecimento de estruturas normativas com formas diferenciadas que se equivalem às estruturas das instituições modernas. São Paulo. 1987. a qual insiste em que as sociedades sem estado possuem regras amplas sobre como os comportamentos sociais devem ser pautados. Há no campo da antropologia um campo de pesquisa muito desenvolvido que é a do direito comparado. O autor refere que “em qualquer sociedade há regras primárias. isto é. obra em que. subjugadas e ignoradas. como no caso das sociedades modernas. As primeiras representam o conjunto das forças sociais e as segundas. sobre o comportamento do indivíduo. fórmulas sociais para aplicar sanções àquelas que não obedecem às regras primárias”.

apenas a rememorou. que “mostra também um momento VATTIMO. plenitude da presença e estabilidade una. 2006. da objetividade sobre a subjetividade 41 e. cit. O reino da estupidez e o reino da razão. Ruth M. Chittó Gauer . José Ortega y. O estar-aí (o ser-no-mundo) é o ser-para-a-morte que vive continuamente a possibilidade de não existir mais. colocando em comunicação objetividade e subjetividade. considerando-o com um “evento” (um acontecimento temporal) de um horizonte histórico sem repetição. Livro Ibero-Americano. 1977. v. 162. 42 Há. p. 44 significa “o querer criador de um novo âmbito de realidade”. De acordo com Vattimo. que salientar a concepção de devir na ótica dos modernos. fato estável e uno (Sujeito ideal da ciência.Rio de Janeiro: Lúmen & Júris. cit. a tirania dos modelos modernos não deixou de se situar no contexto da Estupidez. reabilita o ser estabelecendo suas conexões (diferenciantes) como ente. São Paulo. Alianza Editorial. Ver ainda La rebelión de las massas (1930). Ao contrário de Geertz. Para Heidegger.Heidegger problematizou as reais possibilidades de tal noção descrever/compreender a existência e a história do homem. O pensamento da diferença. Chittó. Heidegger não considera Nietzsche um pensador da diferença porque julga que este último não problematizou (“o porquê da instituição”) a diferença. Meditações do Quixote. O ser da metafísica é o ser mutilado. para Heidegger. op. 44 GASSET. quando Nietzsche escreveu que “do próprio ser já não há mais nada” e falou da “metafísica como história do ser". que está escondido no ente-presença (esquecido na presença) e condicionado como fundamento. fundada e consagrada no gênero humano) submetida à tirania do significante sobre o significado. enquanto a temporalidade. sob essas premissas. Madrid. 43 GASSET. afirma o autor. op. 42 41 34 Ruth M. rememora o ser e o ente para além da presença. para Ortega y Gasset 43 o mundo contemporâneo significa o niilismo. p. igual e eventual. VI. Gianni. desconsiderando seu caráter de eventualidade factualizada no horizonte histórico. 71-92. Heidegger anunciou a não coincidência do horizonte da presença e do ente-presente. esquecido da subjetividade). no entanto. GAUER. Obras.. sem estruturas. transformou o ser homem-sujeito-consciência em envio e transmissão histórico-destinal (a história com história da humanidade. ou seja. nega o ser como fundamento. 1946. Ortega y.

abertura do pensamento e da cultura. ou pelo menos recusava-se a considerá-la definitiva. OËLZE. (Orgs. o devir era uma das categorias principais do pensamento. no sentido tanto decadente quanto criativo. SOUZA. Jessé. A influência que Simmel recebeu de Nietzsche. revelado por Marx. e Nietzsche não estava só quando sentia o advento de uma nova era. Simmel e a Modernidade. cujo movimento na sociedade. resultado do domínio das coisas sobre o homem. já há muito diagnosticada por Simmel 45 quando analisou o papel do dinheiro na sociedade e a separação entre as culturas subjetiva e objetiva – fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. A morte do homem retratada pela robótica é um exemplo significativo da coisificação da humanidade. No final do século XIX. caracterizada por uma reapreciação de valores e por uma nova. Berthold. como fizera o século XIX. mas perigosa. pela ética e pelo direito.‘escandalosamente temporário’. segundo o autor. Max Weber e Karl Marx revelam sua visão acerca da coisificação do ser humano. na significação que nos interessa. p. O destino trágico. se dá com base na liberdade e é uma forma de lidar com os constrangimentos e obrigações impostos pela moral. O caráter fetichista da produção de mercadorias no capitalismo. afinal. aponta para o fato peculiar de que as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser. Brasília. podemos pensar na desmoralização da cultura europeia. Com esta análise em mente. mas também sem normas ou raízes”. sendo que. Rompera até com a cultura moderna. era o primeiro período da história que não encontrava qualquer padrão no passado. 10. 1998. não sujeito a mudanças.). a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro é fundamento das duas. é um exemplo deste fenômeno. conforme apresentado por Ortega y Gasset na obra A Rebelião das Massas. Editora da UNB. 45 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 35 . O século XX.

Marcel. p. Marcel. Para o autor os direitos costumeiros são. pois nem tudo pode ser formulado. v. às honras. o qual permitiu a circulação de mulheres e criou a instituição familiar. a grega e a romana. a história do direito antigo permitiu a compreensão das transformações da moral. distinguem claramente entre a obrigação e a prestação não gratuita. por um lado. Chittó Gauer . Sociologia e Antropologia. MAUSS. 1974. Sociologia e Antropologia. e a dádiva por outro. II. ainda permanece com suas especificidades nas diferentes sociedades contemporâneas. I. 131-132. as pessoas e as coisas”. 48 ”vivemos em sociedades que distinguem fortemente (a oposição é agora criticada por alguns juristas) os direitos reais e os direitos pessoais. 49 MAUSS. da família. 48 MAUSS. culto 46 47 MAUSS. Marcel. Marcel. negativa que contém um Sim afirmativo. Há consciência e conhecimento latente em todo o direito. a família. São Paulo. fazer com que os indivíduos sejam respeitados. 234. Esta forma de instituição. o Não. hindu e germânico. 36 Ruth M. de alienação e de troca. aos direitos acrescenta-se a pessoa moral 47. de toda a sociedade. p. como a semítica. EPU/EDUSP. romano. v. 49 Dentro da tradição indo-européia encontramos o culto aos antepassados nas sociedades latina e helênica. p. Na opinião de Mauss. Os fenômenos jurídicos são os fenômenos morais organizados. de direito não formulado e direito formulado. Sociologia e Antropologia. cit.IV Os deslocamentos da norma: reinvenção de termos Para Mauss o direito é o modo de organizar as expectativas coletivas. entre outras. com elas. 1974. forneceu a transição para a moral e para o próprio direito. Mas não seriam tais distinções muito recentes nos direitos das grandes civilizações? “A pergunta feita pelo autor é respondida após minucioso exame sobre a sobrevivência dos princípios do direito indo-europeu. e. op. v. op cit. EPU/EDUSP. Esta separação é fundamental: ela constitui a condição mesma de uma parte de nosso sistema de propriedade. muito antigo”. Assim como na passagem natureza-cultura. 234. o autor refere que às funções. uma mistura de direito público e direito privado. de alguma forma. A consciência moral introduz a consciência na concepção jurídica 46. A moral e a prática das trocas utilizadas pelas sociedades que precederam as nossas guardam traços importantes de seu princípio fundador. nossas antigas civilizações. aos cargos. Segundo a análise. São Paulo. Do mesmo modo. I.

“Patricius”. em sua origem. a morte do pai. herança. como já vimos. 1969. “Patricius”. 50 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 37 . daí a diferença entre “Atta”e “Pater”. liga-se à relação de parentesco. A “Pátria Potestas” é o poder que se liga à ideia de pai em geral. não separa os filhos. As origens etimológicas permitem que interpretemos a ligação da religião doméstica com a natureza: o pai seria o chefe do culto e o filho. “Pater”. do sânscrito “Pitar”. Éd. da herança.cujo objetivo era o de reafirmar os papéis sociais (pai. O pátrio poder é uma das peças fundamentais para se entender a antiga concepção da família. Encontramos um terceiro adjetivo vinculado a “Pater”. Esses diferentes significados estão relacionados à natureza sagrada dos papéis sociais oriundos da família: se a natureza concede ao filho a maioridade. “Atta” educa a criança. Considerando a origem etimológica do termo latino “Pater”. seu auxiliar nas funções sagradas. Le vocabulaire dês instituitions indo-européennes. Minuit. portanto natural. A forma latina se originou de inovação: “Dyen Pater”. O termo “Pater” é a qualificação permanente do Deus Supremo dos indo-europeus. estruturou-se nos mitos. assim como a importância das coisas. a forma mais genuína é o nome de “Pai”. propriedade. traços que se mantiveram na época clássica. do mesmo modo que o vocativo grego “Zeû Páter”. “Patrius” se refere ao pai não físico. a maioridade biológica. esta só lhe é conferida. 207-212. pois estamos longe do parentesco estritamente físico e “Pater” não designa o pai no sentido pessoal. O direito de propriedade e de sucessão nasceu enraizado nos costumes. v. de fato. “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater”. exprimindo uma hierarquia pessoal. I. figura do nome divino de Júpiter. contudo. assim como o termo “Paternus” é o adjetivo derivado de “Pater” que exprime o pai físico e pessoal. pp. Encontramos no vocabulário das sociedades indoeuropéias 50 a “Patria Potestas” que se constitui no poder que se liga à ideia de pai em geral. exclui a relação de paternidade física. descende de pais livres. o descendente de pais livres. Èmile. A hierarquia estabelecida vincula-se apenas a determinado tempo. quando os rituais sagrados legitimarem tal situação. da propriedade. que se mantinham unidos ao lar paterno e que BENVENISTE. o que. a exemplo do poder que se liga à ideia de pai em geral e não apenas de paternidade biológica. que é lido como “Pai Celeste”. Paris. autoridade. não foi obra de legisladores. da autoridade e da punição. mãe).

ou seja. Entre os direitos analisados. 139. seu réus. isto é. 38 Ruth M. A melhor etimologia de família é. p. para uma análise atenta ela oferece um sentido muito claro. prestam-se para este estudo.se submetiam à sua autoridade.. MarceL. não concede a maioridade aos filhos. é bastante notável que. bem como um certo número de formas desses contratos. casa. o exemplo do contrato mais antigo do direito romano é. Marcel. é mais viável pensarmos em “pátrio poder” do que em “poder paterno”. por seu espírito. a ponto de designar mesmo os viveres e os meios de subsistência familiar. Seguindo a análise. Este vínculo é marcado por alguns termos antigos do direito dos latinos e dos povos itálicos. o nexum. pp. 54 MAUSS. 135-136. segundo Mauss. op. 53 MAUSS. que parte tanto das coisas como dos homens. o nexum. Chittó Gauer . As coisas não são os seres inertes que o direito de Justiniano e nossos direitos entendem: “Antes de tudo. op. a esse título. 52 Ainda que tenha sua definição no Digesto. cit. além de família e res.. deparamo-nos com a seguinte afirmativa: 51 “há um vínculo nas coisas. Essa presença ausente do pai morto cria o culto doméstico. o “vínculo” de direito. parecem associar-se a esse sistema de “vínculos” espirituais criados pelo fato bruto. a que aproxima do sânscrito dhaman. das palavras e dos gestos do formalismo jurídico”.. cit. op.. ao contrário da natureza. 135-136. cit. embora tenha sido eliminada. cit. sem dúvida. elas fazem parte da família: a família romana compreende as res e não somente as pessoas”. segundo Mauss. É o homem que é possuído pela 51 52 MAUSS. Como observa Mauss. quanto mais remontamos à antiguidade. MAUSS. A etimologia já fora proposta antes. além dos vínculos mágicos e religiosos. mais o sentido da palavra família denote as res que dela fazem parte. pp. pp. Marcel. A religião. é antes de tudo o homem que recebeu a res de outro. Quase todos os termos do contrato e da obrigação. 53 O contratante é primeiramente reus. Marcel. e que se torna. 133-138. a pretexto de não fazer sentido algum. 54 “reus é originariamente um genitivo em os de res e substitui rei-jetos. que já se destacava do fundo de contratos coletivos e também das antigas dádivas. Sob este aspecto. no entanto. op. Outros termos de direito. o indivíduo que está a ele ligado pela própria coisa.

Desse ponto de vista. o sentido de culpado. Mas essa tradução é arbitrária. 3°. cit.coisa”. com mais forte razão para reus. A imagem. Para Mauss. A genealogia dos conceitos apresentados no ensaio que examinamos permite a constatação de que a diacronia se manifesta na sincronia. desigual moralmente no que diz respeito à capacidade racional de inquirir. (. do nexum e da actio. e rei-jetos por “implicado no processo”. de desigualdade moral face ao entregador (trandens)”. Movimentos como a Reforma e o Protestantismo libertaram a consciência individual das instituições religiosas e da igreja e colocaram o indivíduo diretamente sob os olhos de Deus. revelando a lógica interna dos termos que chegaram à nossa civilização tanto por meio do direito natural moderno como dos grandes códigos e dos códigos penais dele oriundos. ela dominou uma linguagem que foi rapidamente incorporada por interesses comerciais e de persuasão política. p. se nossa derivação semântica é aceita. o culpado e o responsável”. “a origem do contrato. supondo que o termo res é.. Marcel. sobretudo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 39 . enfim. todas as teorias do “quase-delito”. compreende-se que o sentido de implicado no ‘processo’ é antes uma acepção secundária”. um termo processual. O Humanismo colocou o homem no centro do universo e as revoluções científicas fizeram do indivíduo um decifrador dos 55 MAUSS. é ainda mais derivado da genealogia dos sentidos e da maneira inversa da que é seguida de ordinário por Mauss. Como se pode observar. de um ‘processo’ público. Ao ficar à margem da reflexão crítica sobre seu papel gnosiológico. Há autores que traduzem res por “processo”. que apresenta o seguinte: 55 “1°. crescida à sombra do racionalismo. o indivíduo possuído pela coisa. O mero fato de ter a coisa coloca o accipiens em um estado incerto de ‘quaseculpabilidade’. acabou por ter um efeito perverso. que olhava com desdém para a possibilidade de ver o culpado de qualquer ato ilícito como um indivíduo inferior espiritualmente.) de inferioridade espiritual. “ao contrário.. visto que toda a res e toda traditio de res é objeto de um ‘negócio’. 2°. investigar e decifrar os mistérios da natureza. ficam um pouco mais esclarecidas. o indivíduo implicado no negócio causado pela traditio da coisa. op. 140. segundo o autor.

isto é. 58 DESCARTES. res. no entanto. esbarrou na própria concepção de apreensão da razão. 117-118. Descartes 58 faz uma longa argumentação sobre o método em todo o DUMONT. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Desta forma estruturou-se todo o pensamento moderno. Louis. não foi substituído por outro. religiosa. assim. A base tutelar da família foi fragmenta. Tanto a norma instituída pelo tabu do incesto quanto a dádiva e as suas derivações semânticas de res e toda a traditio de res como objeto de um “negócio”. cuja base se encontra na obra de Descartes. por uma pluralidade de centros de poder.. A criação do paradigma da modernidade. Chittó Gauer . Rocco. com isso ocorre um deslocamento em sua estrutura inicial. como forma reguladora das normas que deferiram as relações sociais. passa a ter uma acepção difusa. uma vez que o centro. 56 se constituiu como um dos valores cardeais de nossa sociedade de tipo moderno “foi o igualitarismo surgido a partir do individualismo”. 57 permitiu o surgimento do dualismo. um dos princípios que. 57 DESCARTES. o sentido da palavra família. o “primado das relações do homem com as coisas deu origem à categoria do econômico como atividade distinta”. conferiu ao homem um racionalismo desvinculado do subjetivismo. op. deslocando. A exemplo do direito. lícito e ilícito. segundo Dumont. dicotomizando tanto coisas como homens. Discurso do método. 1993. Ao lado destes aspectos fundantes da modernidade. por sua vez. pessoas e coisas. de um “processo” público. jurídica. política. mas por uma pluralidade de outros. pp. econômica. pp. passou a regulamentar de forma especializada. que criou a crença na possibilidade de se buscar a perfeição. objetividade e subjetividade. 56 40 Ruth M. antes uma acepção secundária.mistérios da natureza. pp. já que deixa de haver um princípio organizador único. Tal deslocamento operou uma transformação em escala indefinida. René. ao fazê-lo. Para Dumont. especializou-se e. cit. A autonomia do indivíduo acarretou as várias autonomias. Rio de Janeiro. razão e emoção. O sentido implicado no “processo”. ou seja. Lisboa. corpo-espírito. foram deslocados. que antes denotava uma totalidade de pessoas e coisas. 1985. as res que dela faziam parte. O individualismo. Essa busca. Edições 70. 80-85. foi fragmentado. isto é. esse indivíduo racional liberto do dogma e da intolerância tinha diante de si a totalidade da história humana para ser dominada. O Iluminismo. René. 12-16.

de decifrar a natureza em geral e a sua própria. no entanto. Não por acaso criou-se a ideia de que o homem seria capaz. o modelo de visão do autor é o tato. buscou substituir várias autoridades. mítica e religiosa. da observação. embora não tivesse por premissa eliminar a religião. em determinado ponto. é este o limite em que a própria concepção de razão criada pelo autor se desenvolveu. Esse conhecimento. por uma autoridade laica estruturada no direito natural moderno. isto é. por meio da experiência. totêmica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 41 .seu famoso Discurso. da investigação. mas afirma. que “Os cegos vêem com as mãos”.

1970. seja ela de cunho matrilinear ou patrilinear. definindo um conjunto de regras que dispõem 59 MAUSS. Marcel. A visão do poder instituída pela norma de parentesco. Obras III. Barcelona: Barral Editores. 42 Ruth M. que possui o indivíduo como melhor exemplo. não por estarem superadas em face das transformações econômicas. está estruturada em uma concepção “natural”. 321. nos submetemos a normas e utilizamos símbolos. As transformações das instituições jurídicas. pela necessidade de se harmonizar a moral e o direito às transformações sociais. da tradição e de instituições que a precederam. da mesma forma que os da língua. não alteraram a sua relação a uma tendência de unificação. uma espécie de “linguagem” pela qual falamos uns com os outros. estéticas e políticas das sociedades. A unidade anterior deu lugar à separação e à especialização. A criação dos símbolos modernos. A separação natureza-cultura. pelo menos desde os gregos e romanos onde o pensamento jurídico regulamentava as relações sociais. a exemplo do exercício do poder. p. consideradas incertas em face das mudanças ocorridas nas sociedades ocidentais. Essa opinião do autor59 nos leva a pensar sobre determinadas formas de organização das sociedades.V A impessoalidade funda a categoria do indivíduo e redimensiona a norma Os fenômenos jurídicos. com base na crença da ciência. reorganizou-se a partir de um “novo” remapeamento social. a consanguinidade. Esta “unidade” jurídica nasce no seio da própria ordem moral. respeitamos regras. mas. Vários antropólogos procuraram unir o conceito de cultura à ideia de um código. Chittó Gauer . política dos países do ocidente de tal forma que a ordem moral e mental assim como a ordem política e jurídica se estruturam em constituições de forma muito semelhante. trocamos mensagens. de uniformização. são os mesmos que representam o que é de mais característico de uma sociedade. Essa permanência constitui-se precisamente no caminho para se conhecer a função social da norma jurídica e da dogmática. permanece como sistema fundamental na retórica jurídica. A unificação dos códigos no mundo ocidental pode ser detectada pela ordem jurídica. Sociedad y ciências sociales. 320. instituída segundo a premissa de Lévi-Strauss.

LEIBNIZ. pp. em parte. como. 63-73. mas como uma ciência interpretativa. apenas releu a forma. segundo este último. portanto. o que fazemos. pois. de conhecer as diferentes “realidades”. 1978. um conjunto de “verdades” relativas aos atores sociais que nela aprendem como existir. 81-153. e as existências alternativas por meio das quais ocorre o movimento social. 1973. “sujeito-da-razão”. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 43 . 62 DESCARTES. Abril Cultural. Rio de Janeiro. 60 A atuação dos indivíduos na sociedade contemporânea se dá por meio de mensagens codificadas por normas sociais tradicionais ao lado de uma normatização escrita. Este conjunto normativo é logicamente entrelaçado e compõe os códigos modernos. A cultura ocidental moderna pode ser vista como essencialmente semiótica. O crime e o castigo seguem convenções legais. escritas que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos. A racionalidade moderna colocou o indivíduo no mundo e com ele descentrou a estrutura da norma fundante. teias. como já referido. Gottfried W. imposições. proibições. São Paulo. Essa legislação é entendida como um sistema de comunicação que dá sentido à nossa vida. Abril Cultural. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. por exemplo. Os Pensadores XIX. Os Pensadores XV. Zahar Editores. o indivíduo moderno. além de não eliminar a norma fundante. que não conseguiram eliminar a regra geral. Clifford. porém não conseguiu eliminá-la. O nascimento do indivíduo “soberano” foi uma construção que se efetivou entre o período renascentista do século XVI e o iluminismo do século XVIII. não dá conta de interpretar o fluxo do discurso social. e como devemos realizar nossas ações em sociedade. criadas em sociedade. René. p. São Paulo. as categorias coletivas. tal como defendida por Max Weber e referida por Geertz. 1974. não como uma ciência experimental em busca de leis. à procura do significado”. denominada legislação em sentido amplo. A interpretação das culturas. São “versões” da vida em sociedade. outras categorias foram derivadas. não escrita: o direito a possuir um par desde que escolhido fora da consanguinidade.sobre o pensamento e a ação. pp. Tal postulação inspirou-se. nos princípios ontológicos contidos no monadismo de Leibniz. 61 A partir daí. quando 60 61 GEERTZ. Descartes 62 contribuiu para a construção dessa nova categoria. 15. escolhas. “o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. Todo esse sistema de comunicação racionalizado. Neste último período se postulou o indivíduo como entidade maior.

As contribuições dos autores acima citados embasaram a compreensão do direito natural moderno. Ele era o “sujeito” da modernidade em dois sentidos: a origem ou o “sujeito” da razão. Abril Cultural. É. 139-348. sujeito da modernidade. 1973. determinado pelo “cogito ergo sum”. Para muitos autores. Descartes interpretou a dualidade por meio dos elementos essenciais configurados em sua teoria. 63 em seu Ensaio acerca do entendimento humano. além de outros como Hobbes e Kant. enquanto para os juristas filósofos (ou filósofos juristas) a matéria do direito natural compreende tanto o direito privado como o público. irredutíveis. com capacidade de raciocinar e pensar. do conhecimento e da prática. O “indivíduo soberano”. é preciso evitar considerar que eles 63 LOCKE. sem dúvida. para os três grandes fundadores dos princípios filosóficos do direito natural moderno. Hobbes.estabeleceu a separação (chórismos) entre substância espacial (res extensa) e substância pensante (res cogitans). Por outro lado. Ao refocalizar o velho (e original. elementos esses que seriam. Locke e Rousseau. O pensamento acerca da nova compreensão humana foi. reelaborado também pela visão de Locke. Os Pensadores XVII. John. a partir de sua análise. o “eu penso”. Tentou-se. tema metafísico do dualismo entre mente e matéria. São Paulo. a categoria do “sujeito cartesiano” ficou conhecida como elemento básico constituinte do pensamento filosófico ocidental. assim. o tema de suas obras centrou-se quase exclusivamente no Direito público. elaborando a composição de orientações diversas. e aquele que sofria as consequências dessas práticas – aquele que estava submetido a elas. Chittó Gauer . vistas como ontologicamente diferenciadas. uma análise que desvelasse os fundamentos da natureza do Estado. importante lembrar que o nome de “escola do direito natural” esconde autores e correntes diversas: filósofos como os acima citados. está inscrito no processo e nas práticas sociais da modernidade. 44 Ruth M. no entanto. pp. No centro da mente ele colocou o sujeito individual. que se ocuparam de problemas jurídicos e políticos. A partir dessa posição de Descartes. Sua definição de “mesmidade (sameness) de um ser racional” possibilitou a criação do modelo de identidade igualitária e contínua para o indivíduo. em Locke. Embora haja uma divisão entre os variados sistemas concernentes aos autores mencionados. no sentido heideggeriano). os teóricos do direito natural moderno formaram uma escola.

64 Essas questões. que pretende uma análise psicológica da natureza humana. apesar da dualidade de objeto e dos variados matizes teóricos. que se pode falar em uma escola do direito natural enquanto esta não constituiu uma unidade metafísica ou ideológica. 64 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 45 . mas um princípio metodológico. no entanto. Contudo.estejam separados por uma fronteira intransponível. e sim manutenção dos mesmos objetivos. Rocco. enquanto outros pertencem à história das doutrinas políticas. Não há dúvidas de que uns pertencem à história das doutrinas jurídicas. em um sentido “epocal” de alicerçamento filosófico. por exemplo. no final do século XIX. não existe divergência entre os jusnaturalistas quanto a objetivos tais como. e os formalistas como Kant e Fichte. O objetivo comum de construir uma Ética racional separada definitivamente da teologia e capaz por si mesma. jurídico e político. O Individualismo: Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. no entanto. a distinção estabelecida entre empiristas como Hobbes. finalmente. todos pertencem à mesma “escola”. Todas as correntes concordam. Pela primeira vez na história da reflexão sobre a conduta humana se permitiu subordinar tal conduta a um tratamento científico. Não há dispersão. Essa universalidade fundou o Sobre a abordagem da Filosofia em Hobbes. garantiria a universalidade dos princípios da conduta humana. Nesse sentido devemos considerar que o que caracterizou o movimento em seu conjunto não foi o objeto em si (natureza). precisamente porque fundada. Tanto é assim que. mas o modo de abordá-lo (a razão). mas sim uma unidade metodológica. ainda que esse tenha sido realizado de modo diverso. convencionou-se chamar de direito racional o direito natural. 1985. Kant e Fichte consultar Louis Dumont. que deduzem o direito a partir de uma ideia transcendente de homem. Na verdade. após as críticas da escola histórica. não foi um princípio ontológico que pressupõe uma metafísica comum. os tratadistas não sabiam dizer se teria sido por influência de Hegel o dar-se a possibilidade de reservar a Kant o uso do termo direito racional. Outra prova é que. em uma análise e em uma crítica racional dos fundamentos. não eliminam o intento comum. o que é sinônimo de pertencer aos mesmos “ismos”. Rio de Janeiro.

e “eliminou” todas as diferenças. sustentáculo da sociedade GUSDORF. 65 46 Ruth M. A visão de Georges Gusdorf 65 auxilia a interpretar o paradigma da ciência moderna. A civilização das luzes estendeu-se por todos os continentes. IV. p. precisaram dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que compõem as democracias modernas. Não se pode tratar essa questão sem ter presente a dinâmica da vida social. mas o método. Há. baseadas nos direitos individuais e na ciência moderna. elas passaram para uma forma mais coletiva e social. mas uma lógica que analisaria e prescreveria as regras dos raciocínios. Les principes de La Pensée ao Siècle des Lumières. no entanto. No século XVIII. ideou-se a emancipação definitiva e total da humanidade. o referencial filosófico-social básico. portanto. o movimento em seu conjunto não é tanto o objeto. O que caracteriza. o Estado-nação. George. O campo científico passou a ser pensado como possibilidade de progresso e por meio dele (do progresso). As teorias clássicas liberais de governo. o espírito precursor desta é ampliado e aprofundado e o fenômeno intelectual daí resultante. ainda submersa no platônico mundo das sombras. Nesse sentido.paradoxo da modernidade. e foi definido. a redenção do Siècle des Lumières. da Europa chegou o progresso. uma “ciência moral” à qual se poderia aplicar o método matemático. A ciência moderna ligou a investigação das forças da natureza à utilidade das mesmas para beneficiar a humanidade. progrediram as ciências na Inglaterra. como modelos estáticos. que lembrar que na medida em que as sociedades modernas se tornaram mais complexas. sepultura da medieval fé em Deus. Paris. A igualdade moderna “unificou” o pensamento ocidental. Payot. Les Sciences Humaines et la Pensée Occidentale. no interior dessa grande estrutura. 1967. Alemanha e outros países. A base seria não uma lógica do provável. v. Se há um fio condutor único que mantêm unidos os jusnaturalistas e permite captar certa unidade é a ideia de que é possível construir uma ciência verdadeira. 183. criou condições para a emergência das ciências sociais no século XIX. o indivíduo passou a ser visto como o localizador. É de fundamental importância a reflexão acerca da organização do Estadonação para se poder pensar o ponto de referência global de muitos processos sociais isolados. Chittó Gauer .

estamos usando de uma metáfora plena de múltiplos significados. uma comunidade simbólica. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 47 . para isto. gestada ao nível da razão simbólica. criadas por meio de tetos políticos. nesse sentido. gerando. Nesse contexto. passou a ser visto como localizado no interior da estrutura formadora da sociedade moderna. Essas identidades não estão. No entanto. a qual é. fenômeno 66 GOFFMAN. Obviamente ao nos definirmos como tais. por outro lado. o processo maciço “integracional” e abrangente próprio da “sociedade de massas”. e estas. ou seja. entre o sujeito e seu entorno. primordialmente. As culturas nacionais. certamente. O cidadão individual constituiu-se no elemento funcional do estado burocrático moderno. 1982. “englobaram” todas as diferenças. o modo como os processos e as estruturas sociais são sustentados pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. um sentimento de indefinição em virtude da ausência de um referencial básico. inversamente. entre eles. ingleses. As descrições sociológicas a respeito do indivíduo moderno encontram um modelo significativo na obra dos interacionistas simbólicos e. Ao mesmo tempo. Basta recordar. Além dessa obra todos os títulos publicados pelo autor são importantes para o entendimento dos diferentes papéis sociais do indivíduo moderno em uma perspectiva interacionista. Os indivíduos soberanos. necessidades e interesses. Goffman. constitui-se em um produto intelectual próprio da primeira metade do século atual. 66 O modelo interativo elaborou uma minuciosa anatomia do processo de reciprocidade que se dá entre o “interior” e o “exterior”. nós todos sabemos que ser identificado com a sua nação remete à compreensão de um sistema de representações culturais que identificam uma nação. Rio de Janeiro. Erving. permaneceram como figura central tanto nos discursos da economia quanto nos das leis modernas. o estado. com suas vontades. assim. os numerosos estudos sobre caráter nacional. A individualidade foi colocada em termos de identidades culturais.moderna. Zahar. argentinos. frequentemente situaram-se sob a forma de identidades nacionais. o indivíduo passou a ser explicado por meio do modo como são formadas suas subjetividades (a interioridade de si próprio) nas participações mais amplas. impressas em nossos genes. a ideia de homem sem identidade nacional parece criar uma tensão. etc. Estigma. Uma das formas possíveis (e simultâneas) de autodefinição dos indivíduos será como sendo brasileiros. E.

baseadas nos direitos e consentimentos individuais. a esfera jurídica que acompanhou a formação das instituições e das hierarquias sociais não permitiu delinear a nacionalidade sem ferir a igualdade pretendida pela construção jurídica. As diferenças regionais. políticas. deveriam ser unificadas por uma “unidade política” que nascia com a independência. A lealdade e a identificação foram localizadas. e para o qual pensadores como Heidegger e Ortega y Gasset já chamaram. há décadas atrás. Chittó Gauer . necessidades e interesses. Os parlamentares brasileiros tiveram dificuldades ao definir quem eram os indivíduos que formariam os cidadãos brasileiros. esse tema aparece pela primeira vez nos discursos dos deputados constituintes de 1823. junto ao estado-nação e. já no início do século XIX. a atenção. dominação e hierarquia. com sua reciprocidade estável entre “interior” e “exterior”.este de índole essencialmente contemporânea. o debate se articulou em torno das teorias clássicas liberais de governo. Dar solução a essas questões sem abolir a escravidão. cujo princípio liberal não conseguiria conciliar uma solução que não fosse contraditória. étnicas. tornaram-se a figura central dos discursos políticos. tendo que dar conta das estruturas do estadonação. Os indivíduos soberanos. entre outras. resolver a situação dos índios e estender à população de baixa renda os direitos políticos constituiu-se um problema aos parlamentares liderados pelos Egressos de Coimbra. Como definir nacionalidade implicava manifestações das relações sociais que expressavam poder e. Podemos observar que as questões sobre a escravidão. embasou-se nos debates ocorridos na primeira metade do século XX. As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos. os índios e a população de baixa renda foram questões muito complexas resolvidas de forma a procurar soluções que não alterassem a proposta da Constituição. No início do século XIX. que tiveram forte oposição dos defensores da permanência das instituições coloniais. No caso brasileiro. O tema da nacionalidade. dificuldade que se relacionou à complexidade das relações estabelecidas desde o início da colonização portuguesa. religiosas. nas sociedades ocidentais. consequentemente. com suas vontades. mas são formadas e transformadas por representações que só puderam ser construídas após o surgimento do indivíduo. à cultura nacional. posteriormente. O modelo interativo. que exprime as formas originais de 48 Ruth M. desde os finais do século XVIII.

um fato e uma norma. as quais configuram a estrutura social. de segurança e o direito de propriedade para todos e de excluir os direitos políticos a alguns foi uma das tentativas de dar solução ao problema.relações sociais. 269. 67 “o valor está imbricado. mas a própria sociedade em ato. Louis. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 49 . que. em muitos casos. tornaram-se a figura central da lei. Rio de Janeiro. Como refere Dumont. A racionalidade moderna possibilitou a dissolução do poder da norma. já que para se pensar em lei faz-se necessário incluir o fato. As idiossincrasias sociais. as estruturas normativas que convencionam as relações de parentesco. o que tem por separar a ideia de valor. passam a ser compreendidos como sendo a lei no pensamento iluminista. que a norma não seria um efeito da sociedade. Essa antítese exprime-se na linguagem de Tönnies: vontade espontânea e vontade arbitrária. A própria concepção de indivíduo implica uma ampla liberdade de escolha. O individualismo. com suas vontades. assim como não há indivíduo. ou o valor se vincula ao indivíduo. a negação da ordem escravocrata. Embora essa dissolução tenha ocorrido.270. Rocco. 1985. O indivíduo como valor social exige que a sociedade lhe delegue uma parte de sua capacidade de fixar os valores. O valor está imbricado na própria configuração das ideias. pp. permanecem: esse é o fato que possibilita pensar. A proposta apresentada por Maciel da Costa de conceder o direito de liberdade. A liberdade de consciência é um exemplo emblemático. a situação do índio e da população de baixa renda compunham uma realidade que não possibilitava eliminar os vínculos patrimonialistas das relações sociais nacionais. é prescrito. Em se tratando de sociedade moderna. A ser assim poder-se-ia pensar que o fundamental e o 67 DUMONT. neste caso. pelo próprio sistema de representações. sendo o fulcro da questão da liberdade de escolha”. a questão do direito ultrapassou a questão da lei. conduziu o debate no sentido de buscar rumos alternativos para que se pudesse desenhar a identidade nacional. e por assim dizer. Alguns valores em vez de emanarem da sociedade. por outro lado. liberdade de escolha. pois a lei representa ao mesmo tempo um valor. não há lei sem a impessoalidade. Os indivíduos soberanos. necessidades e interesses. No entanto. não havendo. como já afirmamos. há que se salientar a importância da norma. o valor e a norma. são determinados pelo indivíduo para o seu próprio uso.

abre toda a significação. a norma. No entanto. o fundamento primeiro do fato social. Chittó Gauer .acessível para a sociedade seria o paradoxo das palavras e da relação com o outro – análogo ao “fonema Zero” de que falam os linguistas – ela. Fato esse que pode ser expressão de conflitos sociais e do modo como esses conflitos são institucionalmente resolvidos. nada articula. 50 Ruth M.

Abril Cultural. Após o relativismo do racional e do empírico. pois permite repensar a crise da ciência moderna. pp. BACHELARD. Na física. uma das teses centrais da epistemologia de Bachelard é a de que a abordagem do objeto científico deve ser feita por meio do uso sucessivo de diversos métodos. que parte de novos pressupostos epistemológicos e exercitá-los tornam-se uma atividade que. 1973. pp. mais do que uma simples descoberta. sobretudo. versando sobre a descontinuidade. passível de ser compreendida em todos os campos do saber na medida em que a teoria da relatividade e a física alteraram a posição do observador. 70 BACHELARD. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 51 . e entre vários filósofos.. antropologia e psicanálise. que se fundamenta na “ritmanálise que Bachelard declara ter encontrado em ‘du Philosophe brésilien’. op. p. é possível pontuar o foco da crise epistemológica. as coisas adquirissem uma outra estrutura desde que se coloca a explicação sobre novas bases”. mas a instauração de um ‘novo espírito científico’. São Paulo. op. Gaston. 757. 68 quando examina as grandes conquistas da ciência a partir do século XIX e. 69 de Lúcio Alberto Pinheiro dos Santos” 70. o mundo. Os Pensadores. A obra de Bachelard tornou-se fundamental. 68 69 BACHELARD. no decorrer do século XX. da física e da química não apenas um avanço. a constatação da crise conduziu à experiência interdisciplinar. cit. Bachelard assinala: “nos campos da matemática. como se a terra. de Bergson a Bachelard. 756-758. reconhece que “com a ciência einsteniana começa uma sistemática revolução das noções de base: a ciência experimenta então aquilo que Nietzsche chama de ‘tremor de conceitos’. Detectou-se a partir desta nova posição a diminuição da distância entre as ciências humanas. cit. Os Pensadores. 756-758. Um segundo fundamento. Gaston. Ligada à questão das ricas contribuições obtidas na colaboração entre história das ideias. incluindo-se posteriormente Merleau-Ponty. propôs uma noção de duração não bergsoniana. Gaston. é antes criação”. cabe a seguinte observação: na atualidade é possível falar sobre a existência de uma crise das ciências humanas.VI A crise do racionalismo e o retorno ao mito: cumplicidade com a psicanálise Acompanhando Bachelard.

sabemos que é perfeitamente possível tratar de temas que possam receber uma abordagem interdisciplinar. São Paulo. O Pensamento Selvagem. Roger. Roger. a história das Ideias. cujos exemplos encontram-se presentes na literatura contemporânea. São Paulo. 2001. segundo o belo título de Henri Ellenberger. 76 são exemplos destas análises. Claude. Esses enclaves foram mais importantes como movimento e menos como respostas sobre as questões perenes – o homem. A Interpretação dos Sonhos. Sociologia e Psicanálise. Todavia. Ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. 72 as análises de Freud sobre o papel do inconsciente. Seguidamente observamos manifestações reveladoras de um sentimento crítico acerca da união desses postulados. foi a ‘descoberta do inconsciente’”. Embora haja toda uma resistência a essa aproximação. 75 CAILLOIS. até mesmo da alucinação – e dos alucinógenos – estabeleceu-se progressivamente. 35. a antropologia. Lisboa. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. Chittó Gauer . cit. 73 Sigmund FREUD. Gilbert Durand. Difel. Segundo DURAND: “Os bastiões de resistência dos valores do imaginário no seio do reino triunfante do cientificismo racionalista foram o Romantismo. Papirus. 1974. 71 Para Durand. 2002. 76 BASTIDE.Do final do século XIX até nossos dias nasceu uma série de novos campos de conhecimento. ou campos de conhecimento. São Paulo. Imago. desde a psicanálise até a cibernética. op. Companhia Editora Nacional.. 74 Roger Caillois 75 e Roger Bastide. apesar da dificuldade criada pela ausência de uma terminologia comum e pelo caráter vago de alguns conceitos. o Simbolismo e o Surrealismo. como uma via de várias ramificações que permita falar em interdisciplinaridade. E foi no cerne desses movimentos que uma reavaliação positiva do sonho. 73 do “pensamento selvagem”. Rio de Janeiro. a história e as normas sociais. Esses métodos ocasionariam uma desordem incompatível com os pressupostos de cada disciplina. A tentativa de um diálogo entre as diferentes ciências. por exemplo. 71 52 Ruth M. Deus. cujo resultado. p. do onírico. a psiquiatria e psicanálise. 3ª ed. Edições 70. 2000. divulgados pela antropologia de Claude Lévi-Strauss. O Mito e o Homem. recebe críticas em função dos postulados e dos métodos que cada campo de saber adota. 1986. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. 72 Gilbert Durand. Isso pode ser percebido com relativa facilidade na atividade interdisciplinar que envolve campos de saber como. Hoje esses novos saberes tentam aperfeiçoar um diálogo. a natureza. 74 LÉVI-STRAUSS. do mito e do “pensamento obscuro”.

o importante é a existência de significados que. Isto pode ser comparado com o coeficiente de eficácia entre as diversas teorias que inspiram. Seguindo essa linha de investigação. 77 Ao lado das análises sobre a fundação da norma. Hartmann e tantos outros. Portanto. Para Durand. em princípio. Qualquer manifestação da imagem representa uma espécie de intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma tomada de consciência ativa. A maior parte de suas investigações nessa área está contida na série Mitológica. uma maior eficácia terapêutica das técnicas psicanalíticas sobre as xamanísticas.Gilbert Durand afirma que a psicanálise de Freud teve como grande papel dar o primeiro passo na direção da crítica da esfera consciente. p. op. Daí ela possuir o status de um símbolo e constituir o modelo de um pensamento indireto no qual um significante ativo remete a um significado obscuro”. adquirem eficácia curativa na medida em que se submetem a uma lógica do inconsciente capaz de dar sentido àquilo que o paciente (tanto no caso do xamã como do psicanalista) experimenta como sofrimento psíquico. cit. mesmo sendo arbitrários. em qualquer modalidade de construção de um universo simbólico. a razão. Melanie Klein. como de fato o são. de certo modo. baseadas na obra de Jung. na medida em que não se estabelece a partir dela a primazia prática de qualquer teoria e sua superação empírica por outras. o autor estabelece interessantes estudos comparativos a respeito do que ele denomina eficácia simbólica. Lévi-Strauss se concentrou no terreno da mitologia. Confrontando técnicas e simbolismos xamanísticos de natureza curativa com a teoria e prática psicanalítica. Gilbert. Assim não há. 77 DURAND. em termos de interpretação. Bion. “Os estudos clínicos de Freud e a repetição das experiências terapêuticas – o famoso divã – comprovaram o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. as orientações psicoterapêuticas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 53 . as assertivas de Lévi-Strauss. Freud. pois tal comparação confirma. de milhares de mitos oriundos das chamadas sociedades primitivas. uma vasta compilação e análise. extremamente minuciosa e complexa.. Alexander. 36. entre outras contribuições. a função do sonho. mostrando o papel crucial desempenhado pelo inconsciente. já de matiz clássica. conclui que.

qualitativamente diferente do pensamento científico). o importante na análise de Lévi-Strauss não se refere exatamente à eficácia terapêutica (ou eficácia simbólica). pois. a arte curativa é apenas um componente da totalidade maior correspondente à organização simbólica do universo tal como é proposta em um determinado sistema cultural. De qualquer modo. não há mais lugar para o tempo mítico. resulta na construção de uma ordem e sentido que situa o homem. Desta constatação. por sua natureza científica. que se opõe. a psicanálise é mais uma elaboração mitológica (e. senão no próprio homem. como comentário correlato. No entanto. mencionar a posição de Georges Devereux. como estas. para Lévi-Strauss. deve-se salientar a diferença entre a psicanálise como terapia e como modo de conhecimento da psique.. Buenos Aires. 78 Para este etnopsiquiatra existe uma diferença fundamental entre a teoria psicanalítica e as teorias xamanísticas em geral. Cabe. ao arbitrário cultural contido nas construções mitológicas. Cabe mencionar as palavras com as quais Lévi-Strauss encerra seus escritos sobre a eficácia simbólica: “a forma mítica tem precedência sobre o conteúdo da narrativa (. ao mesmo tempo em que a esperança de aprofundar suas bases teóricas e de melhor compreender o mecanismo de sua eficácia. a partir de um modelo explicativo. por uma confrontação de seus DEVEREUX.. a psicanálise pode recolher uma confirmação de sua validade. o que não se daria com as últimas. que pode ser coletada e que. Portanto. Devereux entende que a realidade psíquica pode ser atingida e compreendida de um modo “científico”. Georges. Esta forma moderna da técnica xamanística. por atingir as causas reais da perturbação. 78 54 Ruth M.não será a partir de resultados concretos (ao contrário do que ocorre nas ciências naturais) que se poderá verificar o maior ou menor acerto. tira. pois a primeira promoveria uma verdadeira melhora ou cura. e o mesmo deve ser aplicado ao xamanismo. Amorrortu Editores.) sabe-se bem que todo mito é uma procura do tempo perdido. mas sim ao fato de que tanto o pensamento do xamã como o do psicanalista compartilham dos mesmos supostos mitológicos básicos. Ou seja. Chittó Gauer . seus caracteres particulares do fato de que na civilização mecânica. Etnopsicoanálisis Complementarista. semelhante a tantas outras. portanto. Neste. 1975. frente à sua realidade existencial e concreta. que é a psicanálise. veracidade e exatidão de uma teoria.

para o citado autor. ou seja. Na verdade. por sua vez. mas pelo que é: um discurso mitológico do homem ocidental sobre si mesmo. da força das emoções”. ainda nos tempos atuais. 224. como já havia dito Spinoza. Antropologia Estrutural. p. Rio de Janeiro.métodos e de suas finalidades com os de seus grandes predecessores: os xamãs e os feiticeiros. Freud. com o fim de libertar o homem da “servidão humana. permite a via de acesso ao inconsciente. na passagem para o século XX. no qual habitavam os mais obscuros instintos e as mais condenáveis facetas da psique humana. racionalismo que sempre guiou sua tarefa. A discussão recai sobre a ênfase (indevida. portanto. ou formulação de uma identidade. soturno e traiçoeiro. Claude. e ao homem como ente qualitativamente diferenciado pelo predomínio da razão sobre as outras faculdades psíquicas. que para Lévi-Strauss a validade da psicanálise é sancionada pela respeitável tradição mitológica que. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 55 . encontramos nesse terreno de discussão uma variante da questão maior. um novo modelo de identidade que permitiu ao homem ocidental viver a si mesmo em termos de uma auto-imagem que. E. comentando que Freud viveu em um impasse não explicitado e não resolvido entre o modelo junguiano e o seu próprio. com a linguagem dos símbolos. conforme Lévi-Strauss) dada aos conteúdos do inconsciente durante o processo de interpretação deste. a psicanálise obtém reconhecimento não pelo que ela pretende ser (uma tentativa de abordagem científica da psique humana). No caso específico de Freud. está 79 LÉVI-STRAUSS. elaborou. Tal discussão inscreve-se no quadro maior dos debates a respeito da respectiva importância que deve ser atribuída às estruturas lógicas do inconsciente e aos conteúdos da psique. sem fugir aos parâmetros do racionalismo da mais recente tradição cartesiana. qual seja a dos modos de construção da identidade nos diferentes sistemas culturais. Assim. na medida em que aborda apenas um aspecto imobilizado do complexo e constantemente renovado pensamento freudiano. Nesse contexto. Lévi-Strauss contesta as posições teóricas freudianas. 1970. no homem ocidental. tal análise é simplista. foi seriamente abalado com o desvelamento de um mundo interior. Tempo Brasileiro.” 79 Veja-se. O papel primordial atribuído à razão. assinale-se o impacto que sua teoria assestou sobre a auto-concepção.

a sociologia e a antropologia. logo existo”. o autor arrasa o sujeito cognoscente e racional provido de uma identidade fixa e unificada – o sujeito cartesiano do “penso. em última instância. os sacralizados princípios da cultura e da civilização empastavam-se no visgo da materialidade biológica. com ela. na qual se destaca E. sentido pelos mores de seu tempo como negadores de uma transcendência que vinculava o homem aos ídolos erigidos pela civilização. Isso deve ser levado em conta para tornar o século XX mais compreensível. linguista estrutural que muito influenciou Lévi-Strauss. em outra área de pesquisas. a psicologia. mas como elemento difuso no contexto cultural mais amplo. impregnado de concepções que fundamentavam a visão evolucionista da humanidade como evolução alavancada na e pela evolução biológica. e contribuiu para o descentramento do sujeito construído com base no racionalismo. em nenhum sentido. nossas identidades. Correspondendo ao espírito da época Darwin. mas. como a psiquiatria (que na fase pré-freudiana. de certa maneira. E isto Darwin o fez mostrando que. Ao contrário. também contribuiu para essa crise do conhecimento. a descoberta do inconsciente. Quando Freud buscou a subjetividade e. não só em áreas específicas. Para Freud. Lévi-Strauss procurou confirmar a universalidade do sistema simbólico. os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. que traz consigo o desenvolvimento da razão. um duro golpe ao narcisismo humano. Esse aspecto da teoria freudiana teve um profundo impacto sobre o pensamento moderno. que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela da Razão. Acertaram. ao “descentramento cosmológico” produzido pela revolução copernicana. dessa forma. tentando. do mesmo modo que Freud. não deixou de lançar uma luz sobre obscuros mecanismos da natureza. Afirmou Saussure que nós não somos. não deu atenção à dinâmica psicológica).profundamente radicada nos modos contemporâneos de pensar e sentir. tal como a ciência moderna havia proposto. recriar os modelos universais. o que correspondeu. Com essa posição. nessa busca. encontrou. Embora possamos utilizar a língua para 56 Ruth M. A contribuição de Ferdinand de Saussure. tanto Darwin como Freud. as obscuras forças ameaçadoras da integridade racional. Chittó Gauer . nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente. Kraepelin.

é interessante reportarmo-nos às vicissitudes do desenvolvimento dessa disciplina. Essa foi. por exemplo. superando as contingências do relativismo. há uma vastidão temática que é passível de ser analisada por meio de uma lógica própria. Porém. por exemplo). durante muito tempo foram questionados conceitos que devem ser considerados básicos como. que durante décadas se dedicou a estudos etnopsicanalíticos. Devem ser consideradas também. e este fato mantém uma conotação de atualidade. em virtude de considerações de ordem variada. tornou básica para a análise dos fenômenos psicodinâmicos nas mais variadas culturas. Mas não apenas uma lógica como também uma sensibilidade acurada do pesquisador para os fenômenos psicossociais. No campo da etnopsicanálise. os de normalidade e anormalidade. tal questão está em grande parte superada. com os objetos ou eventos no mundo existente fora da língua. Lembremos que. ao passo que critérios de normalidade estabelecidos desde uma perspectiva transcultural não coincidiam com essa perspectiva. Por outro lado. em uma relação um-a-um. com o desenvolvimento do pensamento na área de etnopsicanálise. A língua é. de natureza teórica ou não. as complexas relações entre a teoria do pesquisador e as pressões políticas de alguns grupos tradicionalmente tidos por psiquicamente desajustados na sociedade ocidental (como os homossexuais. O significado das palavras não é fixo. os antropólogos herdeiros do relativismo cultural foram conduzidos a considerar como “normais” (com todas as ambiguidades contidas nesse termo) certas atitudes prevalecentes como comportamento modal em certas culturas. por exemplo. onde as áreas da etnologia e a psicologia se diluem. um sistema social e não individual. foi comum que pesquisadores voltados para a área da etnopsicanálise considerassem de modo inexato os processos de cura xamanística e o mundo místico. Atualmente. O significado surge nas relações de similaridade e diferença que as palavras têm com outras palavras no interior do código da língua (como por exemplo. a opinião de Georges Devereux. o par de termos opostos noitedia). apenas nos posicionamos no interior das regras da língua e dos sistemas de significados de nossa cultura. não podemos utilizá-la para produzir significados. para fins de análise histórica. Este autor optou por uma definição de normalidade que. tanto primitivo como o que A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 57 . nesse sentido. Ela pré-existe a nós.nos comunicarmos. No entanto.

comprova-se o papel decisivo das imagens como mensagens que afloram do fundo do inconsciente do psiquismo recalcado para o consciente. nesse ponto já superado. que anima a mente primitiva. como as já mencionadas abordagens de LéviStrauss. Caillois e Bastide. pelo menos aos olhos dos antropólogos que adotaram uma visão mais superficial dessa teoria. Para Durand. sem que se torne necessário recorrer a modos arcaicos de funcionamento da psique. ao menos nos aspectos que permanecem atrelados ao evolucionismo do século XIX. dando sentido e ordem ao universo e que é. quando interpreta que um significante ativo remete a um significado obscuro. basicamente. mas nelas algumas questões precisam ser revistas. Na concepção de Durand. lançada por Lévi-Bruhl. por muito tempo. e para isso é indispensável o apelo à etnopsicanálise. a noção de participação mística é extremamente útil e esclarecedora. o enfoque dado por Freud sobre o modelo de pensamento difere do sistema de parentesco – norma constitutiva – proposto por Lévi-Strauss. Chittó Gauer . discutir a questão da alteridade. sem dúvida importantes. A atribuição de uma mentalidade pré-lógica ao primitivo se constituiu em uma ficção (desmascarada e interpretada por Lévi-Strauss no conjunto de sua obra) por muito tempo aceita. formaram-se alguns enclaves que deram ao papel do imaginário seu merecido valor. na medida em que etnocentricamente lançou a mentalidade primitiva no terreno da infantilidade e da doença mental. Todavia. de Freud. sem conseguir vislumbrar a complexa lógica orientada para o princípio da realidade.pode ser encontrado ainda hoje em contextos urbanos ocidentais. Mas a concepção da existência de uma suposta psicopatologia como elemento constituinte e essencial da mente primitiva tem raízes que se encontram nos trabalhos. em meio a um contexto dominado pelo racionalismo. 58 Ruth M. embora o próprio Lévi-Bruhl não a tenha captado na totalidade de seu sentido e de sua abrangência. para lançar em descrédito a psicanálise. um aspecto estrutural de todo pensamento humano. Mesmo assim. mesmo no chamado mundo civilizado. Isso derivou do uso que se fez da noção de pensamento pré-lógico. Mas discutir as posições de Lévi-Bruhl é. em certa medida. da qual um grande número de culturas seria excluído. A fundação da norma estrutura um significado não apenas obscuro. que antecedem uma maturidade mais plena. que possui uma conotação de natureza mais universal. A fábula narrada em Totem e Tabu contribuiu.

faz-se necessário lembrar: as primeiras denúncias sobre a violência totalizadora da racionalidade moderna são anteriores às reflexões ocorridas no âmbito do pensamento antropológico ou psicanalítico. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 59 . sem deixar de ser uma tentativa de fuga do racionalismo. Porém.O Não constituinte da norma circunscreve a psicanálise.

evitando isolar-se em abstrações excessivas. notadamente. como França e Inglaterra. Giambattista Vico 80 estava com razão quando afirmava que “A mente humana naturalmente se inclina a deleitar-se com o uniforme”. 60 Ruth M. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. estava relacionada à condição periférica ocupada pela península italiana no desenvolvimento do pensamento europeu. Os Pensadores. Giambattista. Chittó Gauer . O autor foi um dos principais representantes do hegemônico pensamento Italiano dos séculos XV e XVI. A pretensão racionalista de submeter o conhecimento 80 VICO. Esse papel de vanguarda cultural foi sendo comprometido pela decadência econômica das cidades italianas e pelo avanço da Contra-Reforma. Evidentemente. estabeleceram um padrão imitado no restante do continente europeu. que se difundiu por toda a Europa. assumida por Vico desde o início de sua frustrada carreira acadêmica. Para Vico a filosofia deveria buscar compreender os produtos culturais humanos. Sua crítica à pretensão iluminista de compreender a experiência humana à luz das ciências naturais e a valorização da mitologia e da poesia como fontes de conhecimento tornaram Vico um opositor do racionalismo corrente de pensamento. A partir de meados do século XVI e. 1974. que se tornaria hegemônico nos séculos seguintes.VII Crítica à razão totalizadora: um exemplo de época Se a norma fundante estrutura todo e qualquer ordenamento social. e sua vasta produção em diversos campos do conhecimento. O pensamento de Giambattista Vico (1668-1744) insere-se dentro desse contexto histórico. O humanismo renascentista. concepção defendida pelos estruturalistas. São Paulo. seleção. Os novos centros do pensamento deslocaramse para áreas reformadas. a posição marcadamente anticartesiana. nos século XVII e XVIII. a Itália mergulharia no ostracismo cultural. Abril Cultural. O posterior esquecimento a que foi relegado seu pensamento relacionavase à sua posição anticartesiana e contrária ao Iluminismo. As ideias de Vico estavam ao mesmo tempo marcadas por uma muito discreta reflexão materialista e pelo anticartesianismo. trad.

ao método matemático era. ou seja. colocava. op cit. por fim. ergo sum. Um aspecto essencial dessa posição é o caráter problemático assumido pela ideia de verdade. Dessa forma. 83 Ibid.. Discurso do Método. aproveitando velhas paredes construídas para outros fins”. segundo o autor. DESCARTES. pois ele não se cria a si mesmo. em sua opinião. Brasília. formulada por Descartes. René. isto é. Assim o homem não conhece a causa do seu próprio ser. Giambattista. O cogito é apenas a consciência do ser e não sua ciência. p. a condição de ser capaz verdadeiramente de conhecer qualquer coisa. a diversidade aparece perante o modelo cartesiano como um incômodo a ser removido. Conforme afirmara: “a verdade é que. o princípio de que ideias claras e distintas constituem o fundamento da verdade. Editora Universidade de Brasília. o racionalismo teleológico cartesiano buscava obsessivamente uma unidade metodológica à qual a história não se adaptava. aproximando-a das fábulas e narrativas literárias que não produzem nenhum resultado”. 1981. pouco encontrava que me convencesse. desprovida de sentido. a perda de seu atributo de certeza. enquanto me preocupava em considerar os costumes de outros homens. 36. Esse ideal da unidade era repetidamente referido por Descartes: “Assim vê-se que os edifícios projetados e concluídos por um único arquiteto são habitualmente mais belos e harmônicos do que aqueles que muitos procuraram reformar. 38. a crença de que a existência de Deus pode ser provada e. p.. Para Vico a verdade e o fato ou o verdadeiro e o feito se equivalem. como a poesia e a história. 82 Dessa forma. que careceriam de demonstração lógica. pois existiriam produtos humanos fundamentais. Vico resgata a história do limbo a que fora lançado pelo cartesianismo. A crença na existência de ideias inatas e a proposta de unidade metodológica. Por outro lado. 81 Ao mesmo tempo. a ideia VICO. pois percebia neles quase tanta diversidade quanto a que notara antes entre as opiniões dos filósofos”. contida no cogito. de compreendê-la como oposta à sua simples percepção. 82 81 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 61 . é que o próprio criador a tenha criado. a partir do modelo matemático. “a história no exílio. pois repousam no verossímil. 83 Vico condenava o cartesianismo em seus três elementos fundamentais: o apelo à autoconsciência.

de que as proposições matemáticas. Vico ofereceu um modelo teórico-metodológico ao mesmo tempo crítico e construtivo. Ao desprezo cartesiano pelas ciências humanas. R. p. seleção. avaliam-nas a partir das coisas COLLIGGWOOD. o filósofo afirmou a possibilidade humana de conhecer a história. A Ideia de História. libertando-se de sistemas racionalistas e abstratos na busca dos aspectos mais concretos da história. VICO. leis. Como diria Collingwood. abrindo caminho para a confecção de uma teoria da história situada em novo patamar. Ao condenar a aplicação do método matemático às ciências humanas. libertando-a da dependência das fontes escritas. arte que disciplina e dirige os procedimentos inventivos do engenho. Os Pensadores. trad. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou”. 1974. pois. faculdade de descobrir o verossímil e o novo. enquanto autoevidência de ideias claras e distintas. 84 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. etc.. é essencial compreender os fenômenos humanos à luz de suas dimensões históricas. Nessa perspectiva. justamente por ser o homem produto desta. Lisboa. colocada entre o falso e o verdadeiro. mas desprovido de qualquer garantia infalível de verdade. G. s/d. Giambattista. Abril Cultural. 85 84 62 Ruth M. Chittó Gauer . O passado não pode ser visto com os olhos do presente. A reflexão do filósofo napolitano considerava. governos. O passado como passado interessa enquanto continuidade do desenvolvimento geral das sociedades humanas. o filósofo napolitano oferece a tópica. segundo Vico. Editorial Presença. ainda. O verossímil pode ser compreendido como uma verdade problemática. À razão cartesiana Vico oferece o engenho. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. pois a ordem das ideias deve proceder conforme a ordem das coisas. Vico critica o modelo contratualista hobbesiano. sem o sentido tautológico do alcançar o progresso na acepção iluminista. uma vez que as verdades matemáticas fazem parte de um sistema produzido pelo próprio homem. O autor separou a história das ciências da natureza. Nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. 88. são fundamento da certeza é inadmissível para Vico. a história como processo dentro do qual o homem se expressa na criação de instituições. à crítica fundada na razão. 85 uma “outra propriedade da mente humana é que os homens sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. São Paulo.

As tradições populares devem ter motivos públicos de verdade. a fim de que. os tratados de paz. de um lado. Se uns e outros tivessem feito isso. historiógrafos e críticos. teriam sido mais úteis às repúblicas e nos teriam antecedido no meditar esta ciência. que são as duas fontes do direito natural das gentes”. tanto em seu território. ao menos a vontade repouse sobre a consciência. incertíssimo por sua própria natureza. a fim de que. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. dotado de vontade. Segundo Vico. não podendo satisfazer ao intelecto com a ciência. Vico permite recuperar questões que a racionalidade moderna havia desprezado.deles conhecidas e antevistas”. existente desde o século A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 63 . e de outro pela incompletude do direito frente à complexidade das condutas sociais. A passagem de uma estrutura comunitária para uma estrutura individualista não se operou em uma condição favorecida pela preexistência de um conceito de sujeito responsável. Os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. quanto fora dele. as viagens e os intercâmbios comerciais. quanto os filólogos que não se deram ao cuidado de verificar as suas autoridades pela razão dos filósofos. Ao focar as necessidades e as utilidades como base do direito natural. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. como as guerras. Os limites do direito natural moderno estão representados na impossibilidade de dar conta das demandas sociais voltadas para a estruturação da conduta de vida que é preenchida pelo direito. A concepção de dignidade definida por Vico entende como filólogos todos os gramáticos. Esta mesma dignidade comprova haverem falhado pela metade tanto os filósofos que não aferiram as suas razões pela autoridade dos filólogos. por isso nasceram e se conservaram por longos espaços de tempo para massas de povos em suas totalidades. vinculando esse direito às tradições. ao menos se disponham a enfrentar os limites das verdades científicas. tais como os costumes e as leis. “O humano arbítrio. que se ocuparam do conhecimento das línguas e das empresas dos povos. A estrutura jurídica e seu sistema de normas não atendem os reclamos sociais em sua complexidade. Nesse sentido contribuiu para o entendimento de que os homens que não sabem a verdade das coisas procuram ater-se ao certo. as alianças.

que conferiu ao conceito do direito subjetivo uma plausibilidade e uma legitimidade impessoal e. 64 Ruth M. Chittó Gauer .XVII. generalizável como totalidade. portanto.

1979. consultar: Marshall Sahlins. Barcelona. Paidos. Propõe a razão simbólica ou significativa como oposição à razão prática ou teoria da utilidade. Zahar. El antropólogo como autor. a razão prática. 87 SAHLINS. O referencial se constitui na utilidade prática como uma reação orgânica (o costume se origina na prática). Neste sentido retira da pauta a visão evolucionista da qualidade das culturas calcada em uma visão linear de tempo. A questão do significado se constitui na realidade que diferencia o homem indepentendemente do tempo e do espaço. 87 paradigma da igualdade. explicava as diferenças entre “civilizados” e “selvagens”.VIII A racionalidade moderna frente à diferença: os pioneiros da etnopsiquiatra do Brasil 86 Para os Antropólogos do século XIX. a visão evolucionista impediu que essa análise se colocasse como viável e o cientificismo Agradeço a contribuição do Professor Doutor Luiz Ricardo Michaelsen Centurião com quem escrevi o capítulo ora apresentado o qual originalmente foi publicado na forma de artigo. O evolucionismo. op. circunstância que compartilha com todos os organismos. cit. e Clifford Geertz. 88 ou teoria da utilidade. Sahlins se propôs fazer uma crítica à ideia de que as culturas eram formuladas a partir da atividade prática. Rio de Janeiro. a cultura é vista como um instrumento ou um conjunto de meios à disposição do sujeito. parte do pressuposto de que a cultura é uma realização instrumental de necessidades biológicas constituídas a partir da ação prática e do interesse. A razão simbólica toma como qualidade distintiva do homem não o fato de que se deve viver em um mundo material. Nesse sentido. No entanto.. 88 Sobre Razão Prática e Razão Simbólica. criado de acordo com as circunstâncias de cada sociedade. Cultura e Razão Prática. Neste sentido a questão da norma fundante passa a ser pensada como uma questão descolada da diacronia: lida por meio da sincronia ela se reatualiza continuamente. 86 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 65 . A noção de evolução estava ligada ao desenvolvimento orgânico e já se encontrava presente nos debates dos iluministas do século XVIII. de interesse utilitário. como teoria explicativa da diferença. apareceu como ideia básica para toda uma grande fase da teoria antropológica. independendo da questão temporal ou geográfica. mas o fato de fazê-lo de acordo com um esquema de significados. 1989. A razão prática. Marshall. O evolucionismo biológico uniu-se ao evolucionismo social nesse período.

Nesse sentido a diferença não mais se encontrava na sociedade do eu. e em muitos casos até boa parte do século XX. O antropólogo passou a ter necessidade de “conhecer” o “outro”. Em que pese permanecer vinculado ao paradigma da razão prática. desamarrou a análise antropológica da análise histórica. Essa classificação levou à interpretação de que a história era única para toda a humanidade. sua proposta caminhou para uma análise funcionalista das sociedades. dessa forma. desatrelada do tempo histórico e. as invenções e descobertas de certas sociedades. Os antropólogos evolucionistas mais conhecidos do século XIX foram Sir James George Frazer e Sir Edward Tylor (ingleses). portanto. estrutura e função. e Lewis Morgan (americano). Um dos 66 Ruth M. da hierarquia entre evoluído e atrasado. A definição dos três estágios – selvageria. mas que mais cedo ou mais tarde chegariam a tornar-se “civilizados”. A abertura para uma análise sincrônica criou o método para a antropologia. Radcliffe-Brown propôs sair da abordagem historicista da cultura para uma abordagem funcionalista e. conhecer a diferença. No trabalho desses antropólogos observa-se a preocupação com as transformações das sociedades. para o progresso. procurou ordenar seus estágios evolutivos. A questão da diferença também foi o núcleo básico do paradigma da razão prática.ocupou grande parte dos escritos dos finais do século XIX aos meados do século XX. Malinowski e Radcliffe-Brown são nomes que se destacam na antropologia funcionalista. ao estudar as instituições. Nesse sentido. Chittó Gauer . Lewis Morgan. a defender a tese de que os “selvagens” haviam parado no tempo. Radcliffe-Brown discorda dessa visão unificadora da história. Com essa posição dá um passo adiante na análise antropológica. A explicação de que todas as formações sociais tinham origens remotas e caminhavam no mesmo sentido. o estudo direcionou a pesquisa no sentido de valorizar a sociedade em si. e a comparação dos diferentes se faz por meio da análise de processo. O exemplo de Morgan povoou os escritos históricos que tentaram explicar as diferenças por meio dessa visão unificadora e reducionista. Ao analisar o “funcionamento” da sociedade. barbárie e civilização – tornou-se conhecida do mundo acadêmico. em um estágio primitivo. levou a antropologia do século XIX. defendendo a ideia de que o presente (sincronia) não precisava ser explicado pelo passado (diacronia).

antropólogos que mais contribuiu para o conhecimento do “outro” e que seguiu a análise funcionalista foi Malinowski. Os seus trabalhos de campo são de enorme importância. Foi no contato com a diferença que o autor publicou o importante clássico da antropologia: Os Argonautas do Pacifico Ocidental, cujos relatos do arquipélago formado pelas ilhas Trobriand e das sociedades que o habitavam demonstram a contribuição desse campo científico para o estudo da diferença. Os seus estudos sobre o “sistema de trocas”, Kula, revelam que os objetos valem não pelos seus aspectos utilitários ou comerciais, mas pela sua posse pura e simples. Não menos importante que os autores citados, temos a contribuição de Durkheim, quando cria a ruptura entre o social e o individual. A partir dessa ruptura o social não pode ser mais explicado pelo individual. Para além dessa contribuição, Durkheim demonstrou que os fenômenos psíquicos não se explicam pelos biológicos, o complexo pelo simples, o superior pelo inferior, o todo pelas partes. Essas interpretações são importantes para as ciências sociais; a maior contribuição de Durkheim, no entanto, encontra-se em seu livro As Regras do Método Sociológico, em cujo primeiro capítulo trata do Fato Social e o define como sendo coercitivo, extenso e externo, e com isso cria o objeto sociológico. Com esses autores, a ideia de cultura se desprende da história e a sincronia possibilita o estudo da diferença. No plano teórico, a noção de fato social consagra a autonomia do objeto das ciências sociais. 89 Ainda dentro do paradigma dominante, surge no campo de conhecimento da antropologia a concepção da razão ligada ao simbólico, o paradigma da razão simbólica, ou teoria da cultura. Esse paradigma encaminha a explicação sobre a diferença embasado na compreensão de que a realidade é uma construção simbólica. Essa teoria parte do princípio de que o homem vive em um mundo material criado por ele de acordo com o esquema de significados que ele próprio estabelece (arbitrário cultural). A criação do significado é uma realidade que distingue e constitui os homens. As relações sociais são compostas e organizadas pelo significado, portanto, a experiência é organizada como uma situação simbólica. As culturas, para os seguidores dessa teoria, são ordens de
GEERTZ, Clifford, El Antropólogo Como Autor, Barcelona, Paidos, 1989. Ainda do mesmo autor, ver A Interpretação das Cultura, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
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significados de pessoas e coisas. A tarefa do antropólogo seria a de buscar o arbitrário cultural que define toda e qualquer sociedade. O paradigma da razão simbólica influenciou enormemente os historiadores adeptos da história construída pela difusão nos contatos humanos, assim como os historiadores da história das mentalidades. É esse paradigma que alimenta duas escolas teóricas que fundam o pensamento da antropologia contemporânea. A primeira delas é a escola americana, conhecida como difusionista ou escola culturalista, que teve como representante mais ilustre Franz Boas, o qual, no início desse século, influenciou toda uma geração de antropólogos, entre eles Gilberto Freyre. Boas relativizou as noções evolucionistas e as ideias de cultura e história. Foi com ele que se iniciou o estudo das culturas humanas em suas particularidades. Para o autor a diferença de cada sociedade se constituía a partir das condições históricas, climáticas, linguísticas, entre outras especificidades. Nesse sentido, cada cultura seria única. O relativismo cultural de Boas tornou-se uma ruptura na tradição evolucionista, na medida em que destruiu a absolutização da visão eurocêntrica criada pelo paradigma da igualdade. Com o relativismo tornaram-se possíveis as pesquisas sobre lingúistica, folclore, geografia, migrações, organizações sociais e, assim, foi aberta importante área de pesquisa sobre a diferença, em que pese o autor não haver organizado uma teoria geral da cultura. A segunda grande escola alimentada pelo paradigma da razão simbólica foi o estruturalismo francês, que tem como maior representante Lévi-Strauss. Há uma grande influência da interpretação do Brasil dada por LéviStrauss. 90 O autor influenciou toda uma geração de brasileiros quando foi Professor na Universidade de São Paulo (USP) na década de 30. Foi aceito como Professor em 1934. Após longo período no Brasil voltou à França, retomando, alguns anos depois, a sua primeira estada para pesquisas sobre tribos indígenas no Brasil, junto aos índios Caduveo, Bororó, Nanbikwara e Tupi. Antes de realizar essa pesquisa com os grupos indicados, o autor manteve contatos com os índios

A obra de Lévi-Strauss é fundamental para a compreensão de inúmeros trabalhos de antropólogos brasileiros. Seu trabalho mais importante sobre o Brasil é Tristes Trópicos, Lisboa, Edições 70 Ltda., 1986. Sobre a questão das raças, citamos o livro Raça e História, publicado pela UNESCO em 1952.

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Kaingang do Paraná, como uma forma de ensaio para a pesquisa posterior. Dessas pesquisas resultou uma homenagem à diferença por meio dos índios dos trópicos em Tristes Trópicos. Sua grande contribuição, como estruturalista, foi a busca de invariantes. Na procura dessas invariantes, o autor realiza uma das mais belas etnografias deste século. Além do contato com os índios, faz uma análise muito completa sobre a sociedade brasileira; no capítulo IX e no capítulo XI, faz uma descrição de São Paulo e do Rio de Janeiro. O autor definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Usou a cidade brasileira como um bom objeto para pensar sobre essas questões. Ao analisar o interior do Brasil, principalmente Goiânia, o autor descreve o país como os viajantes do século XVIII e do século XIX. Nesse sentido, utiliza o meio e a raça para a sua descrição, como os intelectuais do século XIX e do início deste século. Lévi-Strauss afirma: 91 “Fui ao Brasil porque queria ser etnólogo”. A descrição densa usada pelo autor (etnografia) constituiuse em um material muito vasto, principalmente sobre os Bororós, que mais tarde é publicado em uma análise do sistema de parentesco em Antropologia Estrutural 1, tomando-se um clássico da Antropologia. Nesta obra Lévi-Strauss analisa as estruturas de certas tribos do Brasil central e as considera muito primitivas pelo baixo nível de cultura material. Por outro lado, afirma que elas se caracterizaram por uma estrutura social de grande complexidade, abrangendo diversos sistemas de metades que se entrecortam e que são dotados de funções específicas, clãs, classes de idade, associações esportivas ou cerimoniais e outras formas de agrupamento. O conjunto conceitual utilizado pelos estruturalistas e pela chamada escola sociológica francesa, mais especificamente a escola estruturalista, da qual LéviStrauss é o melhor representante, assim como Boas o é da escola culturalista, assenta a sua análise na razão simbólica, conceito que permite a compreensão do significante como algo que precede e excede o significado, isto é, como anterior, da origem, e posterior, pois o extrapola. A absoluta igualdade do ser humano constitui-se na exteriorização do significante que se expressa na
ERIBOM, Didier e LÉVI-STRAUSS, Claude, De Perto e de Longe, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, pp. 31-33.
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O Brasil reunia todas as condições para que esta degeneração ocorresse. a neuropsiquiatria localizacionista tentou fornecer subsídios para a formulação de teorias explicativas causais sobre a doença mental. o Brasil deveria se engajar.htm. Os seus seguidores criaram linhas de pesquisa dentro de muitas universidades brasileiras. era necessário encontrar uma solução que resolvesse o incômodo problema da população urbana e rural pobre e mestiça. Esses autores estão circunscritos ao pensamento de sua época. objetivando uma explicação que possibilitasse a compreensão da unidade nacional. Arthur Ramos. portadora de estigmas físicos. Então. Juliano Moreira. Este “estigma de ODA. Acesso em: 03 jan. Disponível em: http://www. 2001. intelectuais e comportamentais. tendo a sífilis como modelo. agregou-se a teoria da degeneração. negros e mestiços de pouco valor no avanço do processo civilizatório. Para tanto. formada de índios. Chittó Gauer . entre outros. um processo progressivo de degeneração mental em qualquer população humana. sob circunstâncias apropriadas. antropólogos e sociólogos se debruçou sobre elas buscando um suporte epistemológico que se adequasse à nossa diversidade.br/arquivo/wal1201. Muitos autores tentaram explicar as diferenças que constituíam a população brasileira por meio de uma análise racial-evolucionista.med. Este fato se agravaria pelas características da população brasileira. “A teoria da degenerescência na fundação da psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira”. as produções científicas brasileiras foram muito significativas. n. O princípio desta teoria afirma que poderia haver. Psychiatry On Line Brazil.polbr. 2002. 92 70 Ruth M. 6. Essas duas escolas possibilitaram uma interpretação diferenciada para o Brasil. Após as influências dessas escolas. pela visão de seus teóricos. debruçaram-se sobre a diversidade étnico-cultural e social do Brasil. dez. no qual. Ana Maria Galdini Raimundo.” A estas concepções organicistas. Um exemplo significativo dessa presença encontra-se em muitos livros "didáticos" e em vários programas "culturais". no entanto aparecem em nível de senso comum até nossos dias. no que se refere às teorias etiológicas sobre as doenças mentais. Um número expressivo de historiadores. dominaram as concepções organicistas. Autores como Nina Rodrigues. 12. No Brasil a influência da Antropologia chegou já no século XIX por meio do evolucionismo. v.diferença. Conforme Ana Maria Oda. 92 “na segunda metade do século XIX.

origem” acompanhou o pensamento de todos os intelectuais brasileiros que, no início do século XX, estavam imbuídos do sentimento, e alguns da certeza, de existir alguma espécie de maldição tropical que arrastaria o Brasil para fora do processo histórico e o colocaria à margem da evolução experimentada pela humanidade na Europa e nos Estados Unidos. Neste aspecto, os intelectuais brasileiros assemelharam-se aos mexicanos, que erroneamente pensaram que, introduzindo formas de governo e estruturas políticas e econômicas ocidentais, acabariam por ocidentalizar-se. No Brasil, a suposta maldição tropical continuou a revelar-se com uma exuberância e virulência que parecia aumentar cada vez mais, na medida em que os pensadores brasileiros mais elegiam a Europa como parâmetro. Nesse caminho, acabaram por caracterizar o povo brasileiro (e alguns, a si próprios) como uma ofensa ao senso estético e à dignidade humana. Como antecipação ao que hoje é chamado de Psiquiatria Cultural ou Etnopsiquiatria, houve um interesse, no início do século XX, em comparar os quadros psicopatológicos descritos pelos psiquiatras europeus, com a finalidade de verificar-se qual sua utilidade e aplicabilidade no Brasil. Aventava-se a hipótese de que haveria enfermidades mentais próprias dos trópicos. Levantou-se a hipótese de uma essência invariante, característica de toda doença mental, à qual se acrescentariam os fatores culturais diversificados que dariam fundamento para as variações sintomáticas. Neste ponto, os psiquiatras de inícios do século XX não foram diferentes de muitos psicoanalistas contemporâneos, empenhados em encontrar uma “enfermidade básica” oculta detrás da doença aparente e sua sintomatologia. Apesar de tudo, enriqueceu-se o conhecimento psiquiátrico na medida em que os psicopatologistas brasileiros daquele tempo tentaram ligar a enfermidade a fatores tais como o clima e os grupos culturais dos quais seus pacientes eram originários. Sendo assim, não se deve restringir a contribuição de um Arthur Ramos, por exemplo, apenas ao terreno da patologia mental. Devem ser levadas em conta suas pesquisas sobre folclore e manifestações culturais populares em geral. Isto se aplica também a seu mestre, o maranhense Nina Rodrigues, com seus estudos de “coletividades anormais”, e a Juliano Moreira, entre vários outros. Cabe destacar a grande importância de Nina Rodrigues e sua intenção de avaliar e explicar cientificamente o comportamento das camadas pobres da

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população brasileira e de, “em conseqüência, ditar as regras para a avaliação de indivíduos cujas atitudes fossem consideradas mórbidas, decidir quanto à sua imputabilidade penal e principalmente, sugerir meios preventivos para evitar a loucura e o crime”. 93 Apoiado na teoria da degeneração, e vendo, como muitos outros, uma grande possibilidade de aceleração de um processo degenerativo já existente na população brasileira, em virtude de suas características raciais inferiores, cria Raimundo Nina Rodrigues uma antropologia criminal que deveria ser aplicada como elemento purificador e preventivo dos processos de degeneração que, para ele, se encontravam ativos na população do Brasil. Esta antropologia criminal deveria levar em conta os mais diversos fatores, desde o clima à composição racial do homem brasileiro. Na obra de Nina Rodrigues aparecem estereótipos e preconceitos que ainda hoje estão presentes: a indolência tropical, a atávica inferioridade psíquica e moral do mestiço, do negro e do índio, e várias outras considerações, como, por exemplo, a incapacidade dos grupos miscigenados ou das “raças inferiores” assimilarem códigos morais que, na verdade, só poderiam ser compreendidos, assimilados e aplicados pela raça branca. Com ligeiras variantes, esta interpretação da sociedade brasileira está presente em trabalhos médicos como os de Arthur Ramos, Juliano Moreira, e vários outros que, naqueles tempos, lançaram os fundamentos da etnopsiquiatria no Brasil. A pesquisa antropológica, sempre preocupada com os temas da relatividade e universalidade, o que por si só mostra uma situação de crise e de auto-identificação na sociedade contemporânea, buscou aprofundar as

discussões a respeito do que é normal e anormal nas mais diferentes sociedades. É preciso ter em conta que esta busca é sintônica às dúvidas que o homem ocidental tem, atualmente, sobre si próprio. De qualquer modo, tornou-se problemático ver o comportamento humano apenas em função das categorias da cultura ocidental. Esta postura, reversa à do etnocentrismo, também exemplifica a crise cultural do Ocidente, pois dificilmente um grupo cultural que não esteja mergulhado em algum tipo de crise irá buscar orientações de vida em outras culturas. No entanto, assim se deu na área da psicologia social voltada para o
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ODA, Ana Maria Raimundo, op.. cit.

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estudo de culturas não ocidentais, na medida em que os antropólogos ampliaram e diversificaram progressivamente suas perspectivas teóricas. Nesse processo, as áreas de consenso tornaram-se cada vez mais restritas e ao mesmo tempo genéricas, e disso resultou um grande avanço qualitativo na compreensão das sociedades humanas em seus aspectos psicossociais. É no cerne desses debates que se colocam questões como as levantadas, por exemplo, por Ruth Benedict, Abraham Kardiner, Margaret Mead e outros que tiveram a tendência a enfatizar os aspectos psicológicos e psiquiátricos dos sistemas culturais. Ruth Benedict, quando se refere à polarização normal/anormal, a partir de um amplo material etnográfico propõe como ponto de partida que se observem as seguintes questões: 1) investigação do comportamento considerado anormal em nossa cultura, mas normal em outras configurações sociais; 2) dos tipos de anormalidades não encontradas na civilização ocidental; 3) do comportamento considerado normal em nossa sociedade, mas anormal em outras. 94 O problema subjacente é o da definição de normalidade sem cair na armadilha do relativismo. A etnopsiquiatria pode ser considerada como um ramo interdisciplinar originado nas primeiras décadas do século XX, em decorrência das pesquisas efetuadas pelos antropólogos que, de uma maneira ou outra, se filiaram à chamada escola de cultura e personalidade. Uma das características das pesquisas por eles realizadas consiste na investigação profunda das culturas não ocidentais e da relação dos processos culturais com a psique individual. Algumas circunstâncias estimularam essa linha de investigação. Por exemplo, a existência, nos Estados Unidos, de comunidades indígenas confinadas em reservas, e em intenso processo de desagregação psicossocial, proporcionou farto material para investigações no terreno das psicopatologias. Simultaneamente à desagregação
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WEGROCKI, Henry, “Crítica dos Conceitos Culturais e Estatísticos de Anormalidade”, Kluckhohn e Murray, Personalidade na Natureza, na Sociedade e na Cultura, Belo Horizonte, Itatiaia, 1965, p. 425. Como coloca Wegrocki: “Alguns tipos de personalidade deixam de encontrar realização numa cultura, embora haja alguma razão para supor que poderiam ter florescido noutra. Algumas culturas dão margem a uma variedade de ajustamentos pessoais; noutras, o indivíduo que não se conforma ao modelo único é castigado de forma tão cruel que se torna neurótico ou, talvez, no caso de ter predisposição constitucional, psicótico. O comportamento tido como anormal numa cultura é socialmente aceitável noutra. Não faz muitos anos, os padrões de normalidade pareciam prestes a desaparecer, em face de um total relativismo. Hoje, porém, concorda-se que certos tipos de reação mental podem ser considerados anormais em qualquer sociedade”, op. cit., p. 423.

A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica

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Como as ciências sociais e a psicologia estavam constituídas dentro do discurso positivista. de certa maneira. e a interação entre ambos revela-se como fato evidente. elas pretenderam construir-se como modelo de análise. neutro e objetivo. É inegável que o século passado. já havia decretado sua morte. Os processos de degradação mental correm paralelos aos de degradação social. também passou a ser aplicada na interpretação do mundo ocidental e.de um modo de vida tradicional. nesse rumo. suicídio. além da penosa situação enfrentada pelas minorias. marcado por duas guerras mundiais que até hoje deixam suas sequelas. pois ambos operam como uma unidade sintética. era oriunda do mesmo discurso racional e positivista. Chittó Gauer . entendendo-se por isso a crença no poder da razão e da racionalidade. assim como várias outras em diversas partes do mundo. constituíram-se em um elemento de aproximação entre a antropologia e a psiquiatria. produziu crises de âmbito generalizado ou restrito. associou-se à psiquiatria que. vista como autodotada de uma racionalidade enriquecida pela compreensão das culturas não ocidentais. o fantasma do relativismo cultural abalou os alicerces da neutralidade e objetividade. uma vez que nenhuma afirmação poderia arrogar-se o direito de ter validade absoluta. do mesmo modo. assim como pelo reposicionamento das minorias e muitos outros fatores. Como a certeza em princípios transcendentais é uma exigência lógica e psicológica da mente humana. pela reestruturação política e social do mundo. os indivíduos pertencentes a essas culturas perderam sua orientação de vida e sentiram-se vivendo em um mundo que. No entanto. também as amplas reformulações pelas quais passou o ocidente no século XX. Nos campos de concentração denominados “reservas”. Estes fatos demonstram o nível de anomia ao qual chegaram as populações indígenas. a antropologia. Tais ocorrências sociais. incesto e abandono de modelos tradicionais sem que se encontrasse um substitutivo compensador. Nesse contexto. Situações de anomia sempre estimulam os investigadores que atuam tanto na área psicológica como na sociológica. apesar das dúvidas 74 Ruth M. A partir disto pode-se conjeturar que o interesse etnopsiquiátrico por populações que sofreram em maior ou menor grau com a colonização teve por motivação. homicídio. do quadro social então presente na sociedade ocidental. verificou-se uma alta taxa de alcoolismo.

uma patologia. assim como ao nível das culturas camponesas. de saúde e enfermidade. os sistemas religiosos passam a ser redefinidos a partir de sua função como sistemas projetivos. Por exemplo. utilizaram-se categorias psiquiátricas para melhor compreender os sistemas de crença. como atestam as numerosas monografias escritas a respeito desses assuntos. Onde ela está? No indivíduo e no sistema cultural que a produz e aceita. tendo à sua frente um grande campo de estudos e aplicações. impregnou as categorias analíticas dos antropólogos. sintomáticos de uma patologia mental. como processos dissociativos. e quando se tratava de analisar a vida mental dos povos sem escrita. ou mesmo ao nível policultural e cosmopolita das grandes metrópoles. temos aqui dois fatores. a metapsicologia conduzia quase que naturalmente a considerar as práticas terapêuticas não ocidentais.“relativizantes”. Os estados de transe e possessão tão comuns nas práticas médicas. Este pensamento como que matizou. como resultado de processos psíquicos coletivos cuja dinâmica e estrutura era necessário analisar. mágicas e religiosas primitivas passam a ser caracterizados como processos de despersonalização. Por um lado. em síntese. Como se vê. então. assim como as instituições culturais em geral. em seu sistema classificatório e ordenamento simbólico. Os antropólogos nunca consideraram irrelevantes esses dados culturais. com seus quadros de anomia psicossocial. começa a considerar os sistemas de classificação não ocidentais e não científicos referentes à normalidade-anormalidade e saúdedoença que se mantêm nas sociedades primitivas (das quais os antropólogos inicialmente extraíram a maior parte do material para investigação). Observe-se que as culturas humanas em geral possuem. Esta. desrealização e. os rituais e mitologia de A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 75 . Portanto. o recurso à psicanálise e à psiquiatria era imediato. apostou-se na racionalidade como elemento de validação da realidade objetiva. Nos primórdios da velha escola antropológica de cultura e personalidade. comportamento. ao menos de maneira mais sistemática e organizada. ou mesmo de comunidades ocidentais urbanas. além de práticas terapêuticas prescritas e bem ordenadas na relação doença-terapia. noções bem definidas de normalidade/anormalidade. A partir desses fatos. constituiu-se um cerne de pensamento freudiano. consolida-se a etnopsiquiatria. Detecta-se.

A partir disso. por exemplo) como elementos sociais que devem ser postos sob o prisma analítico. Chittó Gauer . a qual legitima tal fenômeno. uma representação que o homem ocidental faz de si mesmo. O que se pode colocar é o fato de que deve haver um ponto comum. Nesse caso. pois. mesmo que superficialmente. Seriam. por exemplo. a qualquer distorção e limitação imposta pelo princípio do relativismo cultural. em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos. que as terapias e teorias médicas “selvagens” sejam despidas de qualquer eficácia ou. em princípio. temos o uso da etnopsiquiatria no sentido em que esta é vista como transcendente às determinações e constrangimentos culturais. A experiência vivida pelo índio pode ser vista pela psiquiatria como um fenômeno dissociativo que se dá em um quadro de patologia mental controlada pelos mecanismos culturais. ao nível do arbitrário. até. que sejam menos eficazes nos casos de transtornos psiquiátricos. padrões de validez universal que escapam às limitações impostas pelo relativismo cultural. sentindo esse estado iniciático de ingresso ao mundo do sagrado como um privilégio concedido. um ponto de encontro. convém lembrar. aquilo que o índio vê como um estado de transe místico e possessão que o leva a uma profunda experiência de cunho religioso – por exemplo. desde que dado no suporte da razão simbólica de sua cultura. pode-se afirmar que o sistema de classificação elaborado no DSM – IV corresponde a uma categorização etnocêntrica que não deixa de ser. entre o psiquiatra e o xamã. Este processo exige que se considerem as teorias e categorias nativas 95 (nativas em seu sentido mais amplo. quando se refere ao tratamento de uma enfermidade psicossomática entre os índios Cuna do Panamá: “A cura consistiria. propondo. Não haveria uma “exterioridade” que garantisse o caráter científico de tal classificação. observação e tratamento. é possível pensar até que ponto a psiquiatria pode ser utilizada como um referencial de validez universal escapando. e sua eficácia seria do tipo “eficácia simbólica”. Não se pode afirmar. critérios transculturais de análise. Esta seria apenas fruto do arbitrário cultural. Ou seja. e aceitáveis De modo semelhante. Esta é a posição de Gezà Roheim e Georges Devereux quando dão importância à orientação autoplástica combinada com o princípio de realidade e capacidade de sublimação adequados. 95 76 Ruth M. assim. portanto. discutível. a observação feita por Lévi-Strauss. O critério de eficácia é. Mesmo assim. dessa maneira. incluindo culturas urbanas. oriundo de certas necessidades básicas do homem ocidental.qualquer agrupamento social.

Amorrortu. a partir de um modelo estrutural comum. (.. es preferible apartar el problema de la validez intrínseca de los materiales psiquiátricos primitivos y tratar de demostrar únicamente que están organizados en un conjunto teórico coerente. viver sob uma forma ordenada e inteligível uma experiência real. à prática e ao simbolismo xamanístico. Antropologia Estrutural.LÉVI-STRAUSS. e ela é membro de uma sociedade que acredita. não tem importância: a doente acredita nela.. Claude. Que a mitologia do xaman não corresponda a uma realidade objetiva. a validade universal não está na especificidade da psiquiatria.” Georges Devereux. mas.. anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico. num sentido favorável. aparentemente tão afastadas. a reorganização.. Buenos Aires. Sua originalidade provém de que ela aplica a uma perturbação orgânica um método bem próximo dessas últimas.). E é a passagem a esta expressão verbal (que permite.. Portanto. p. y facultades lógicas capazes de organizar en un sistema teórico las intuiciones obtenidas de ese modo. da sequência cujo desenvolvimento a doente sofreu. (. (. isto é. que a doente adquire deles progressivamente.. Por esta razón jamás podemos saber con certeza si los datos de los ‘psiquiatras’ primitivos representan intuiciones científicas auténticas o si son simples fantasías. real ou suposto. estructurado conforme a modelos culturales del pensamiento. 255. sem isto. derivadas de un modelo de pensamiento cultural. 204-224. 97 Como coloca DEVEREUX. no curso da qual os conflitos se realizam numa ordem e num plano que permitem seu livre desenvolvimento e conduzem ao seu desenlace. Esta experiência vivida recebe na psicanálise o nome de abreação”. Empero.) 96 No ponto de vista de Lévi-Strauss. 97 como é o caso daquelas nas quais o discurso mágico e religioso não se diferencia do discurso médico. Tempo Brasileiro. 96 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 77 . 1970. uma vez que a psicanálise (assim como. pp. Em face da crença desvinculada da realidade objetiva verifica-se que “o xaman oferece à sua doente uma linguagem.. “(.) los primitivos disponen de dos importantes herramientas de la investigación psiquiátricas: un inconsciente capaz de comunicarse con empatía con los neuróticos y psicóticos. dando-se os dois simultaneamente durante o processo de cura. 1975. mas sim naquilo que ela possui em comum com outras práticas médicas e terapêuticas. observamos que o tratamento psiquiátrico-psicanalítico não pode ser visto como fato substantivamente diferenciado do xamanismo. Rio de Janeiro.. qualquer outra terapia mental “pela palavra”) se une. em linhas gerais. de outro modo informuláveis. “Neste sentido. mas porque este conhecimento torna possível uma experiência específica. na qual se podem exprimir imediatamente estados não formulados. ao mesmo tempo. a cura xamanística se situa a meio caminho entre nossa medicina orgânica e terapêuticas psicológicas como a psicanálise. Etnopsicoanálisis Complementarista.para o espírito as dores que o corpo se recusa a tolerar.) os conflitos e as resistências se dissolvem não por causa do conhecimento.

não é importante que a classificação e interpretação da enfermidade. Também é fato sabido que.O processo transdisciplinar que uniu psiquiatria e antropologia ocorreu a partir de antropólogos que se propuseram sair dos entraves conceituais de sua disciplina para. que hoje em dia é tido como trivial na psiquiatria. em termos de enfermidade psíquica. se for considerado conveniente. Chittó Gauer . tal como foi entendida por Lévi-Strauss. melhor transitar no terreno da psiquiatria. como Robert Merton. assim. nada de inédito. poderão reformular. o comportamento não é o único elemento a ser considerado. Mas é importante que elas possuam um “fundo de sentido”. em si. levou várias décadas para concretizar-se. sem que isso o afete mais profundamente. os recursos terapêuticos que a comunidade cultural oferece ao paciente. a sociedade urbana norte americana. É neste aspecto que deve ser considerada a grande importância de Margaret Mead. na medida em que se considerar com maior atenção o sistema cultural do paciente. a comprovação deste fato não trouxe. principalmente no processo de tradução. com grande benefício. Afirmam os etnopsiquiatras que. feita de acordo com as categorias “nativas” da cultura do paciente. por exemplo. Ruth Benedict e outros. O que houve de diferente foi a sistematização e o aprofundamento analítico desta relação. combinação e interpenetração do discurso médico no discurso cultural do qual o paciente é oriundo. Sempre é necessário lembrar o fenômeno da “eficácia simbólica”. principalmente no momento em que se propõe à análise dos tipos de conduta desviante e comportamento convencional existentes na sociedade. sem esquecer a produção dos grandes teóricos da sociologia norte-americana. por exemplo) como delirante. uma vez que a própria psiquiatria vinha considerando a relação entre patologia mental e entorno social. Como se sabe. Este autor dedicou-se a uma temática psicossocial de largo alcance. utilizando. Gregory Bateson. Este fato. um indivíduo pode viver uma experiência culturalmente sancionada (um ritual. enquanto outro vive a mesma experiência apenas como ritual. Em um primeiro momento. sua prática terapêutica. Na verdade. Cultos de transe e possessão são muito 78 Ruth M. no caso. atribuindo-se grande importância ao processo de socialização primária. A grande contribuição se deu no esclarecimento obtido a respeito das relações e interpenetrações do indivíduo com a sociedade que o rodeia. correspondam ou não à realidade.

nesses contextos. da cultura. produzidos pelas próprias estruturas sociais do grupo e. indistintamente aplicada. o processo de desintegração psicossocial que pode acompanhar certos fenômenos migratórios.esclarecedores a esse respeito. como seria o caso da “cultura da pobreza”. não apenas é aceito (pelos “nativos”) como fato normal. Isso não impede que alguns indivíduos possam participar dos mesmos cultos e executar a mesma coreografia ritual. a partir disso. ao menos pelos critérios da psiquiatria ocidental. dentro dos paramentos de controle social. tomados de um terror místico. como objeto transacional. há uma diferença entre comportamento observado e experiência subjetiva. 98 Neste caso. por exemplo. e uma possessão patológica. 99 No entanto. que tem na atribuição a elas do terror místico uma de suas características. Malinowski mostra como os habitantes da aldeia de Kiriwina se comportavam com indiferença e aborrecimento quando se viam na obrigação de participar de cultos religiosos. um dos interesses básicos para a etnopsiquiatria reside no fenômeno subjetivo que revela as diferenças. atemporais. E também é necessário levantar a questão de até que ponto o delírio religioso. de certa forma. como também é adequado a uma integração sadia e funcional da mente e. ou seja. principalmente se for recordado que os próprios adeptos do culto distinguem entre uma possessão normal. e uma tênue e imprecisa linha que separa razão e loucura. Não há. Parece que. as culturas não ocidentais foram alvo de uma maciça projeção. às populações primitivas. se mantêm assim. constituindo-se em um elemento ego-sintônico. os fatores patogênicos podem ocorrer também como fato cristalizado. Seu caráter patogênico é o elemento que mantém essas culturas como sólidas e integradas 98 Observe-se que a noção de terror místico. por assim dizer. Ou seja. muitas vezes encobertas. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 79 . ocorreu justamente no período em que o discurso oficial do Ocidente sobre si mesmo estava passando por um forte processo de laicização. agora ameaçada. Esta é uma possibilidade que pode mostrar-se de modo evidente em casos de desintegração cultural e social. no entanto. 99 Assim. um fator que aponte para a possibilidade de desorganização social. de certa maneira. e que. no século passado. A literatura antropológica é rica na descrição de culturas que poderiam ser encaradas como claramente “doentes”. É preciso lembrar também a possibilidade de uma determinada cultura ser “patogênica”. idênticas a si mesmas. no transcurso de gerações. entre crença e prática religiosa e delírio religioso e atuação. pode levar os migrantes a conceberem sua cultura tradicional. por exemplo.

Georges. op. 100 Pode-se estabelecer que a etnopsiquiatria desenvolveu os estudos da influência dos fatores culturais na formação tanto da mente normal como dos fenômenos de natureza patológica. no entanto. que impede de pensar o sistema cultural como uma realidade dotada de “áreas de conflito” e “áreas livres de conflito”. De los tres postulados que acabo de enunciar. esa lista correspondería punto por punto a una lista. pp. Também deve ser lembrado que a adjetivação de “normal” ou “doente” é um critério absolutista. 76-77. situando-os em uma posição 100 DEVEREUX. assim como o ajustamento a uma cultura normal atesta. é preciso estar doente para se ajustar a uma cultura doente. a normalidade psicológica do indivíduo. cit. Chittó Gauer . Deve-se considerar. establecida por los etnólogos. extraeré una conclusión incontrastable: Si todos los psicoanalistas preparasen una lista completa de todas las pulsiones y de todos los deseos y fantasías revelados en el medio clínico. Afirma este psiquiatra que existem "três postulados empiricamente verificables: 1) La unidad psíquica de la humanidad. 2) El principio de las posibilidades limitadas. Para escapar a esta relatividade. 3) El hecho de que um ítem que en una sociedad dada existe de modo manifiesto. sempre a marca de um “etnocentrismo inconsciente” que pode pairar sobre os conceitos de normal e anormal.em seus diversos aspectos. No entanto. Tal procedimento significa enfatizar os fatores culturais. unidad que incluye uma capacidad de variabilidad extrema. en otra suele estar reprimido. em princípio. y aún se encuentra actualizado culturalmente. a simulação que se torna possível no desempenho de papéis sociais pode acobertar formas de desajustamento. é possível apelar para a argumentação desenvolvida por Devereux. a integração do indivíduo a esse tipo de cultura pode significar que. de todas las creencias y de todos los procedimientos culturales conocidos”. E. mantendo-se a crença na existência de critérios universais desde os quais seria possível uma melhor compreensão da doença psiquiátrica e da normalidade nos mais variados contextos culturais. em termos mais amplos.. em qualquer caso. 80 Ruth M.

considerado como grupo y no principalmente como agregado de indivíduos discretos. necessariamente. uma correlação entre fenômeno cultural individual e fenômeno psicológico individual.. p. ob. Haveria uma área transicional. entre indivíduo e sociedade. 101 Assim.que permita ao pensamento etnopsiquiátrico a compreensão das características que enlaçam o inconsciente cultural com o inconsciente individual. onde se apagam as nebulosas distinções entre indivíduo e entorno. normalidade mental. o ajustamento a esses padrões “normais” não implica. Por outro lado.. unidade esta que permitiria criar conceitos absolutos que transcenderiam os constrangimentos conceituais de qualquer cultura em particular. solo es comprensible en los términos de un marco de referencia especificamente sociologista y de leyes culturales (. devemos lembrar as personalidades psicopáticas que atuam Uma interpretação diferente é dada por Devereux: “ 1) El comportamiento del indivíduo. também. mas a partir dos quais não se pode desvelar a subjetividade que se encontra por detrás da máscara social. que se constituiriam como um “uniforme normativo” vestido pelos integrantes de uma cultura. e o que poderia ser chamado de endofenômeno (o psíquico) e exofenômeno (o cultural) se resolve em uma síntese unificadora que.. solo es comprensible dentro de un marco de referencia específicamente psicológico y en los términos de leyes psicológicas (.. de um indivíduo ajustar-se aos papéis. que se situa dentro de um contexto de relatividade. Coloca Devereux que. se for levada às últimas consequências lógicas.) Entre estos dos extremos se sitúa una serie de fenômenos “fronterizos” o transicionales cuyo “lugar geométrico” habitual es el pequeño grupo”.. valores e padrões em geral de uma cultura. embora existam padrões. 101 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 81 . cit. acentuada desde Durkheim. Georges Devereux. elimina a tradicional distinção. Devereux se protege da armadilha do relativismo postulando a unidade psíquica da humanidade. Ambos aparecem para constituir a especificidade de cada um. tendo por assentado que esta cultura é normal. Novamente surgem aqui os problemas criados pela polarização normal/anormal. a polarização eu-entorno passa a ser despojada da substantividade que historicamente lhe é atribuída. 115. como uma névoa. que são considerados como normais e ajustados à cultura. de limites imprecisos. Retornando ao exemplo acima. Estabelece-se. este autor dá evidência aos processos de ajustamento ou desajustamento que atuam por detrás dos desempenhos de papéis sociais.) 2) El comportamiento de un grupo. considerado como tal y no en función de su pertenencia a la sociedad humana. em uma sociedade.

caberia questionar o status mental daquele que não se ajusta à mudança. Diante disso. Mas quanto à posição de Devereux. Por outro lado. seja ele um habitante das selvas equatoriais da Nova Guiné ou de um grande centro urbano. a sociedade contemporânea. No que se refere ao indivíduo. a transformação sócio-cultural é vivida como uma constante. tanto ao nível do indivíduo como também ao nível dos grandes processos culturais e sociais. uma vez que a cultura e a natureza são regidas pelo princípio de permanência. recusando-a em 82 Ruth M. Este fato pode produzir diversos resultados. na sociedade urbana. que envolvem o todo do contexto social. apesar da velocidade social característica da sociedade urbana. exige e impõe a mudança pessoal e cultural e retira o lastro de solidez dado pela permanência. Outro aspecto ressaltado por Devereux. Será um ajustamento dado ao modo de não ajustamento. entende-se que este passará por diversas experiências e mudanças no transcurso de sua existência. passará tanto por mudanças no papel particular que ele ocupa. Mesmo que uma criança arapesh se aterrorize com as reais ou imaginadas torturas pelas quais passará em seu ritual de iniciação para a vida adulta. protegido e infragmentável. como se deslizasse por elas.dessa maneira. de forma alguma. no que se refere a situações abrangentes de grande transformação social. que estabelece um quantum de normalidade utilizando como critério a capacidade de ajustamento. e que poderia indicar um nível adequado de saúde mental. assim. refere-se à capacidade para enfrentar transformações. ele fará uma adaptação superficial e se manterá em um encapsulamento auto-protetor. por exemplo. não é um conceito “forte” nesse tipo de sociedade. por assim dizer. como por mudanças de nível “macro”. o que não significa. Um determinado indivíduo. produtora de “identidades fluidas”. cabe indagar até que ponto este etnopsiquiatra não se deixou levar por uma imposição cultural e de sobrevivência derivada do estilo de vida que o século XX impôs. Ou seja. de qualquer modo seu grupo tribal lhe oferece uma “base de segurança” pelo próprio fato de que o conceito de mudança. Chittó Gauer . de caráter urbano. que elas tenham um razoável padrão de normalidade. Como se sabe. de transformação. Mas podemos observar que o “selvagem” passa por transformações “imóveis”. como se não pudessem atingir seu si próprio que estaria.

A recusa à mudança não é um fato que necessariamente revelará uma patologia mental. tendo em vista a manutenção de um ego desvalido e desvalorizado. deve-se considerar o fato de culturas que são tão refratárias à transformação. essa recusa à mudança pode mostrar uma defesa. é um indicador de normalidade.nome de um senso que o mantém atrelado à sua realidade imóvel. ao mesmo tempo. E. na cultura urbana. caberia perguntar se o sucesso na sobrevivência pessoal. que deixam pouca margem de dúvida a respeito de seu caráter patológico. Mas por outro lado. de qualquer modo. sentida fortemente como egodistônica ou sócio-distônica. difíceis de discernir. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 83 . Ela pode ser um fenômeno salutar e. O desenvolvimento de uma patologia mental nesse tipo de pessoa dependerá de vários fatores.

qual seja: a questão da ordem. 1976. Chittó Gauer . mesmo os mais microscópicos. do perigo. Relendo algumas passagens do livro. temos horror a certos tipos de sujeira. que destaquei há tanto tempo. p. que a autora trabalha. com ausência de resíduo. isso ocorreu. passar. verifiquei o enfoque dado pela autora sobre as questões da pureza. que deve estar livre de impurezas. da sujeira. quando com elas nos deparamos na estante de livros. 56. A obsessão pela limpeza é configurada pela disciplina. como se isso fosse possível. Desde a era vitoriana podemos observar esse comportamento obsessivo. principalmente por meio das tarefas femininas. desinfetar. isto é. Há alguns dias. mesmo as mais microscópicas. Nada mais importante para essa obsessão do que a busca desesperada pelo modelo que retrate limpeza. No entanto. normalmente associada ao belo.. etc. A beleza está vinculada à aparência de limpeza do corpo. A ordem está colada à organização: todas as coisas em seus lugares e todos os lugares com suas coisas igualmente ordenadas e purificadas. Deparei-me com Pureza e Perigo. 102 livro com o qual trabalhei na década de 70. A ênfase no exame destas questões está vinculada à outra problemática. nomeadamente no século XX. Mary. Pureza e Perigo. Muito antes as questões de 102 DOUGLAS. assim como todo o tipo de discriminação. a pureza e a ausência de qualquer perigo. ligada às tarefas da casa. lavar. Perspectiva.IX Da diferença perigosa ao perigo da igualdade totalizadora Mary Douglas é uma destas autoras que. A sujeira é um fato que nos repugna. ficamos tentados a reler. que nem sempre costumamos relacionar à impureza e ao perigo. Tudo o que nos cerca deve estar imune à contaminação e à impureza. Embora as casas e mesmo as ruas das cidades exalassem odores não muito agradáveis. O tempo de limpar. nada mais apropriado do que pensar na ordem para compreender a desordem. da impureza. ocupava mais de doze horas diárias de trabalho pesado e estafante. colou-se de tal modo à limpeza que a transformou em uma obsessão. A estética. as mulheres tinham uma jornada diária de trabalho que hoje não podemos sequer imaginar. São Paulo. Pensei como a ordem fundamenta todo um padrão de comportamento. 84 Ruth M. passamos pensando o quanto é importante a limpeza. não menos importante. Esse fato não iniciou no século XIX.

higiene e sujeira estabeleciam a ordem da casa (espaço privado). Na modernidade essa prática continuou. e assim as consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Neste processo de limpeza os perigos são semi-identitários. do violento. exemplo de espaço privado. como medida de exceção. op. A reflexão sobre a sujeira envolve pensar a relação entre a ordem e a desordem. do disforme. tenha estruturado todas as ações sociais e políticas desde seu início com o objetivo de eliminar diferenças contaminadoras e. constituía-se na única forma de proteção. de todos os modelos perigosos para as convenções estabelecidas pela civilização. A modernidade criou 103 DOUGLAS. pois são perigos em potência. As técnicas disciplinares preocupam-se não apenas com a sujeira e a doença.pureza. portanto. do monstruoso. do feio. A representação sobre a limpeza e a pureza pretende eliminar a entrada do grotesco. O isolamento. A modernidade disciplinou não apenas os homens. Esses locais. Mary. A civilização perseguiu freneticamente o controle e o domínio de toda e qualquer forma de perigo. tal como foi criado nos tempos modernos. Talvez possamos afirmar que o modelo de igualdade. Desde a antiguidade o isolamento foi uma prática utilizada para evitar a contaminação. buscando os ideais de ordem. Nada mais eficaz do que a disciplina moderna para garantir a ordem. p. deveriam estar bloqueados como forma de imunidade dos locais limpos. também foi submetida à disciplina da higiene). vistos como perigosos. até quarteirões inteiros de cidades como forma de proteção dos espaços não contaminados. 18 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 85 . em resumo. assim como a ordem do espaço público. Mary Douglas 103 refere que o reconhecimento de qualquer coisa fora do lugar constitui-se em ameaça. passou-se a isolar casas.. Se a limpeza dos espaços públicos foi e é realizada pelas instituições vinculadas à esfera da administração e das políticas públicas (a casa. O exemplo histórico de exclusão mais conhecido é o dos leprosos. O respeito com as convenções e a higiene se constitui em duas ferramentas eficazes de controle social. elas trataram e tratam de organizar meios para disciplinar todas as formas de expressão e de comportamento. mas todas as coisas que pudessem estar fora do lugar. cit. hospitais. do modo como sentamos à mesa até a mais cotidiana comunicação. perigosas.

O individualismo. Quais os procedimentos políticos. Os modernos esqueceram. 270-274. A eliminação dos adversários políticos é vista como uma forma de limpeza e atinge os opositores. como o nazismo. maior a igualdade. esse desejo irresistível de ordem e de segurança. seja nos regimes políticos das democracias liberais. Louis. seria totalmente limpo e idêntico a si mesmo. pp. porém. purificando a sociedade e assim “protegendo” e ordenando a vida pública e privada. no entanto que não haveria imunidade para o egoísmo. Quanto maior a exceção. Rocco. os perigosos. seja nos regimes totalitários. assim como as formas mais diferenciadas de ditaduras na contemporaneidade comprovam. Dumont 104 sugere que o nacional socialismo tenha revelado a essência – mesmo que essa opinião possa causar algum. presente nas sociedades ocidentais. todos os que são identificados como potencialmente contaminadores. mas não suficientemente incômodo mal-estar – da sociedade contemporânea.essa compulsão. a utilização de práticas de saneamento dos sistemas políticos. devem ser purificados ou eliminados. Rio de Janeiro. transparente e livre de contaminações. Há que se salientar. a sedução das crenças e demais impurezas. Os exemplos históricos mais recentes. O mundo perfeito. A racionalidade expressa pelas convenções e pelas leis tinha como fim imunizar a sociedade contra a violência. que a violência depuradora sempre esteve mais presente nos ambientes onde a exceção se constitui a regra. por mais paradoxal que possa parecer. administrativos. 104 86 Ruth M. fascismo. a corrupção. Chittó Gauer . Nos estados de exceção. e está. e quais os dispositivos que permitiriam a busca da construção e manutenção de uma sociedade higienizada e imunizada? A compulsão pela ordem esteve. o niilismo e para a exploração de um número enorme de seres humanos. comunismo. Quando os estados passaram a estabelecer políticas públicas para cuidar do corpo da população. jurídicos. 1985. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. a todos os que podem se constituir em perigo. A atomização do indivíduo fez com que prevalecesse DUMONT. A manutenção do modelo igualitário ganha espaço na mesma proporção em que os regimes totalitários e de exceção se aprofundam. sem muito esforço. utopia dos iluministas. abriu-se a possibilidade para a inclusão de alguns e logicamente a exclusão de outros.

2004. 105 a força de uma democracia. Teoria Pura do Direito.. o nivelamento de todas as diferenças conduziu à pior das tiranias. a teoria SÁ. para que a totalidade se faça no conjunto da sociedade. Partindo da premissa de que a democracia tem por base uma igualdade. com a tentativa de eliminação do estranho. A partir desta constatação. constituída pelo direito. entre a pureza e o perigo. 1979. cabe aqui lembrar que. uma coletivização ao extremo. Se representação e identidade constituem. Hans Kelsen 106 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal. nas palavras de Franco de Sá. estruturada na naturalização do indivíduo. Para ele a desnaturalização estava em obra na própria formação da fraternidade. Coimbra. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. o que pressupõe a exclusão do desigual (diferente) em nome da ordem. colocando distância entre a ordem e a desordem. A ausência de laços de solidariedade implica na abertura da exclusão em nome da ordem igualitária totalizadora. 105 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 87 . apresenta-se como a soberania da ausência de soberania. a força política se sustenta na medida em que se purifica. (Coleção Sophia 002) 106 KELSEN. Coimbra. impedindo que ele se torne um perigo ameaçador da homogeneidade. não é possível falar de democracia que prescinda da identidade. Esse aspecto traz problemas para a democracia. isto é. Alexandre Franco de. do desigual. Para o autor. Ariadne Editora. Os perigos precisam ser eliminados. A teoria pura do direito é vista pelo autor como forma acabada da universalidade da ordem jurídica em termos de racionalidade. nesse caso. o exercício da soberania. A presença de qualquer grau de homogeneização e de exclusão daquele que não é homogêneo implica na configuração de uma totalidade. Trad. Metamorfoses do poder. limpos. nos regimes democráticos. João Baptista Machado. por outro. Armênio Amado. 4 ed. Hans. pp. 34.uma tensão contraditória. Esse fato eliminou o caráter carismático do vínculo social e abriu a possibilidade de eliminar os laços de solidariedade que uniam as comunidades e estruturavam a sociedade. a emancipação gerou o individualismo arrebatado. Por um lado. depurados. É Jaques Derrida quem tenta pensar “a democracia por vir” por meio do apelo de uma outra fraternidade. Contemporaneamente a sociedade de massa revela a impossibilidade de pensar na forma. 5152. na essência e no modelo.

além de outros. Chittó Gauer . o anormal. No entanto. Hoje esses termos dissolvem-se. A lógica da exclusão foi a base para a construção de termos como “classe”. 107 a questão da exceção. o pensamento moderno estruturou uma forma de exclusão que obscureceu a possibilidade de preferência. do sujo e do limpo. tudo o que causa estranheza. que visava à eliminação das hierarquias medievais. A própria soberania. ou seja: isto. na atualidade. Essa pretensão de controle social nada mais é do que a submissão da ação pelo comportamento: a ação enquanto possibilidade de criação e o comportamento pautado pela previsibilidade. perigo. o doente. “gênero”. As dimensões de territorialidade que circunscreviam os espaços sociais romperam-se e a ordem das coisas. O tecido social precisou ser impermeabilizado a tal ponto que a sua proteção torna difícil pensar em rupturas que permitam a contaminação. cit. em nome da igualdade. nas teses de Schmitt. guerra total. como os nazismo-fascismos. op. Fica evidente que a política da igualdade potencializa a violência de várias formas: eliminando todo e qualquer outro. sofre evidências devastadoras. o sujo. ficou profundamente contaminada pelos vários eventos do século XX – entre os exemplos mais emblemáticos citamos os regimes de exceção. É seguindo essa reflexão que podemos encontrar. “raça”. A busca de novos fundamentos não será suficiente para imunizá-la da correção que é uma forma de evidência devoradora. enfim. entre outros. exemplo de regime de exceção. Reafirma o paradigma do “ou isto ou aquilo”. A perspectiva da previsibilidade encontra-se vinculada à lógica binária e dual típica do pensamento moderno. tal como pensada na 107 SCHMIT. A soberania da igualdade. apud Alexandre Franco de Sá. Poderíamos preferir a inclusão e não a exclusão. aquilo. estavam pautadas pela prescrição de condições de controle dos comportamentos individuais e coletivos. que serviam à identificação dos sujeitos. que nasceu naturalizada. o impuro. O autor explora profundamente a relação entre o ocaso da soberania política e a emergência do conceito de guerra humanitária enquanto guerra discriminante ou criminalizante. isto é. As práticas políticas adotadas na modernidade.pura do direito está para a soberania como a verdade está para a evidência. 88 Ruth M. o diferente. do modelo e do antimodelo. que lembra sujeira e desordem.

nem sempre descritíveis em sua totalidade.modernidade. deixou de ser a norma. Eles podem aparecer no desespero epistemológico. O “embate cultural” – que caracteriza as crises sociais da atualidade – não envolve. da inclusão e. O certo é que a sociedade já não consegue ser explicada pelo positivismo e pelo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 89 . Podemos observar que todas as práticas culturais estão sob o contato contínuo entre o local e o global. não consensual. no relativismo. Há uma intensa negociação nesses “entre-lugares”. permitiria uma maior visibilidade da crise na qual estamos todos envolvidos. ao mesmo tempo em que impossibilita pensar uma igualdade tal como defendida pelos direitos humanos. desconhecendo a questão dos direitos humanos. locus do “aqui e agora”. A soma das partes envolvidas e suas demandas não implica um único resultado. o duelo entre tradição e modernidade. que julgam segundo os princípios específicos de sua cultura. que são punidas pelo crime cometido por eles quando suas casas são destruídas. necessariamente. A premente necessidade de relativizar a verdade e vincular a análise a um pensamento heterotópico. sobretudo. fato esse que impede a simples questão que pautou a inclusão/exclusão. lugares de negociação em andamento. entre outros lugares. Alguns exemplos mais marcantes podem ser apontados: o caso da mulher paquistanesa condenada à morte por crime de honra. O dispositivo irrefreável de Foucault pode ser um exemplo emblemático. as famílias dos homens-bomba. do perigo. Esses temas não se encontram necessariamente juntos. que foi cometido pelo seu irmão. O advento dos fundamentalismos (tentativa lograda de resgate) é apenas um lado do caleidoscópio social no qual as questões da ordem. Esses fatos suscitam questões que focalizam aqueles processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais. da exclusão constituem-se como locus das políticas atuais. dá-se um processo de “despurificação” das identidades sociais. As reflexões sobre os temas acima abordados são fundamentais para a compreensão da crise epistemológica que vivemos. Por intermédio de alguns fenômenos contemporâneos. A retenção de uma essência identitária – esforço nostálgico de afirmação – é cada vez menos viável. noventa e cinco por cento dos casos julgados no Paquistão são realizados pelos conselheiros locais. mas implementa múltiplas negociações e sobredeterminações que conduzem a compreensão de formas de organizações complexas. embasada na premissa da inclusão e da exclusão.

ao lado do consenso cultural. o consensual fica sendo os totalitarismos. não se trata apenas de inclusão e reconhecimento das “minorias”. Outra pergunta se faz necessária. A impossibilidade de uma verdade única.determinismo racionalista. uma vez que as palavras não possuem a transparência necessária. enquadradas na limpeza purificadora que ordena o social. O caos dá visibilidade a uma instabilidade que é apenas aparente. identificar o discurso em nível de senso comum torna-se fundamental para visualizar como o discurso da purificação se faz presente inconscientemente. não consensual. Somos seduzidos por outros mecanismos que dão maior visibilidade. os desvios sociais. de uma identificação totalizante. segundo Virilio. todos os determinismos totalitários próprios de tempos de descrença e de desconstrução de verdades limpas. é a velhice do mundo. ordenadas. Com a superação do eterno retorno. gerando a violência. a ausência do estado nos bolsões de miséria. O presente se torna imprescindível. tais como pensados desde o século XVIII. A questão não envolve a justaposição da diferença. estruturante. Qual o papel do estado frente à invisibilidade? Frente à pergunta. Nesse quadro. Ao lado da simultaneidade temos a invisibilidade. só podemos pensar neles como possibilidade de nos imunizarmos. Não há preparação para lidar com o erro. matam o discurso político. os fundamentalismos. o tempo cíclico foi substituído pelo tempo linear projetivo que estruturou a visão de que o tempo se transformou em história. associada a uma velocidade que. a sedução poderia ser dispensada? No entanto. nesse 90 Ruth M. com a possibilidade de termos a ditadura do modelo revelador da ordem dos Estados nacionais. Essa visão foi quebrada pela simultaneidade. protegidas dos perigos. Vivemos uma época em que a própria temporalidade deixou de ser vista de forma totalitária. Qual o lugar da realidade única? Em tempos polifônicos é impossível pensar na Babel. o consensual passaria a ser o totalitarismo? Todos os determinismos são totalitários? Pode-se propor um pensamento heterotópico. com as impurezas. sem levar em conta que as teorias do consenso existem para tornar invisíveis as manifestações políticas partidárias? Onde estão os requisitos dos totalitarismos? Em todos os níveis sociais as suas manifestações ocorrem quotidianamente. Chittó Gauer . A base dessa visão estruturada na totalidade linear e no determinismo racionalista foi fragmentada. enfim.

fica comprometida. Belo Horizonte. As diferenças culturais são exercitadas. O autor refere ainda que o presente torna-se “obeso”. distante do historicismo teleológico das “causas”. op. O presente “é o tempo de agora”. 109 “essa passagem intersticial entre identificações fixas abre possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem hierarquia suposta ou imposta”. Homi K. contém ambos (porque os re-significa) e nenhum. estado x sociedade. O que é impressionante no novo 108 109 BHABHA. É o ocaso do etnocentrismo. a exemplo do nazismo. o exotismo minoritário não é um mix de diversidades. cit.. ao mesmo tempo. mas uma transformação qualitativa: o nascimento de novas conexões que extrapolam as dualidades minoria x maioria. anulando as categorias de “centro” e “periferia”. O Local da Cultura. passando a ser questionada. É nesse sentido que a fronteira se torna o lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante. Editora UFMG. Para Bhabha. o que equivale ao fim da hierarquia centro-periferia e sua correspondente temporalidade: o presente não é o meio do caminho entre passado e futuro.caso. enfim. capital x trabalho. expandido pelas experiências nascidas do hibridismo cultural. O autor menciona que os “entre-lugares”. nem projeção. paradoxalmente. do além. mas. A ideia da homogeneidade vista como pureza das culturas nacionais. o que implica um deslocamento constante. ambivalente. mas não produz a multiplicação da prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. pureza x perigo e assim por diante. os interstícios. abandona-se a sequencialidade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 91 . 20-46. ele é ex-cêntrico. correspondem ao locus no qual se exercitam as relações sociais. engendrando novos espaços e temporalidades. O presente “não tem lugar”. pp. Concordamos com Bhabha 108 sobre a possibilidade de afirmar o deslocamento do lugar onde as relações sociais se concretizam. as fímbrias. Como decorrência. na medida em que essa re-significação subverte a fixidez de suas características. capaz de se autogerar. o ideal essencializador (ou identitário) seria reforçado. BHABHA Homi K. alargado. 2001. metrópole x colônia. A interferência das minorias ocupa o território da cultura. Nem ruptura. ou mesmo das raças.

A experiência social da “teoria crítica ocidental” perfaz um caminho que vai da consideração do “bom selvagem” de Rousseau ao “bom” e dócil corpo da diferença nos discursos contemporâneos do multiculturalismo. é quando o presente explode para fora do contínuo da história. reconfigurando-o como “entre-lugar” contingente. 59. 92 Ruth M. pp. há também um movimento político. como no caso da própria escravidão. do puro e do impuro. Essa concepção permite a compreensão de experiências como sendo. A minoria não quer ser “incluída”. quanto uma pureza cultural. Isto é. de estabelecer seu próprio discurso institucional. ela mesma. tão pouco é completamente diferente desta. no sucessivo de passado-presente. superando a diacronia da história.. pp. Ainda segundo Bhabha. 25-26. Segundo Bhabha. Trata-se de um movimento de “renovação” do passado. O desejo de reconhecimento (como o “Eu não pareço com você”. de releitura da contemporaneidade. BHABHA. de iniciar seu desejo histórico. dá seus últimos passos. tornada semelhante. higienizada. op cit. do material ao metafórico. é um processo de deslocamento e disjunção que não totaliza a experiência. que buscou sempre a exegese da diferença. da música do Rappa) introduz a negação ao contingente. Ao lado dessa reflexão. Homi.internacionalismo é que o movimento do específico ao geral. Ao invés do continuum cristalizado. mas sim reconhecida. pois impõe uma transcendência (reconhecimento além do tempo). Na visão do autor.. de negar. A tradição ocidental. O Outro perde o poder de significar. Igualdade na Diferença. a marca da impossibilidade de se localizar tanto uma origem. “na medida em que esse espaço do além torna-se um espaço de intervenção no aqui e no agora”. 29. o diálogo cultural engendra uma espécie de “novo conceito de novo”. na linguagem bejaminiana. 110 A meia passagem da cultura contemporânea. a modernidade tropical pós-colonial não é a Mesma do “Velho Mundo” – autenticada –. não é uma passagem suave de transição e transcendência. que inova e irrompe a atuação do presente. op cit. 111 reconhecer implica deslocar o fundo fixo da identidade. Homi. caracterizado pela emergência constante da “tradução cultural”. embora nunca tenha conseguido superar o arco hermenêutico para além do outro (como o próprio em si). Chittó Gauer . Produz um problema insolúvel de diferença cultural 110 111 BHABHA.

da articulação de uma política de negociação. Como exemplo. o arcabouço da tradição. bem como da relação entre emissor.. na qual representa o universal. o precede e sucede. Bhabha lembra que na relação entre hinduísmo e cristianismo. sugere-se o capítulo “Hermenêutica e Ciências Humanas”. que traziam consigo suas próprias ambivalências e contradições culturais e políticas. Para uma análise da complexidade do processo de enunciação. Rio de Janeiro. de memórias míticas e de identidade coletiva única.) um tempo de incerteza cultural. no qual Luiz Eduardo Soares afirma que a linguagem “antecede o sujeito. 113 BHABHA. Homi. o inclui — tornando-o possível — e o exclui.para a própria interpelação da autoridade cultural colonial. pp. A luta se dá frequentemente entre o tempo e as narrativas historicistas. Relume-Dumará. op. 45. depende dele para existir. teleológicas ou míticas. 65-68. 1994. no processo de manifestação simbólica da linguagem. mensagem e receptor. O que essa relação inconsciente introduz é uma ambivalência no ato da interpretação”. As noções liberais de multiculturalismo. de acordo com Bhabha. quer dizer. aquilo que. estrategicamente deslocado. e para sua própria “eficácia”. que representa tanto as condições gerais da linguagem quanto a implicação específica do enunciado em uma estratégia performativa e institucional da qual ela não pode. 112 “o tempo de libertação é (. ter consciência. p. cit. mais crucialmente.. sob a égide do discurso colonialista. de intercâmbio de culturas e de cultura da humanidade constituem uma retórica que considera as culturas como portadoras de conteúdos totalizáveis. Luiz Eduardo Soares. mas que. uma diferença manifesta no próprio lugar do enunciado. Isso se justifica porque “o pacto da interpretação nunca é simplesmente um ato de comunicação entre o Eu e o Você designados no enunciado. e suas interconexões com a teoria hermenêutica. porque existe. foi preciso encontrar catequistas nativos. O rigor da indisciplina. 113 112 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 93 . assumindo concretude nas particularizações que ele realiza”. Uma cultura não pode ser auto-suficiente por causa da différance da escrita. de indecidibilidade significatória ou representacional”. prescindindo de sua intervenção para configurar-se em sua essencialidade universal.. do tradicionalismo – de direita ou de esquerda – e o campo deslizante. A produção de sentido requer que esses dois lugares sejam mobilizados na passagem para um Terceiro Espaço. oferecendo-se ao sujeito. Para Bhabha. simultânea e paradoxalmente. em si. e. instaura com este uma dialética.

mas a regra. Magia e técnica. Walter Benjamin. Homi. temos a possibilidade de evitar a política da polaridade e emergir como os outros de nós mesmos. 114 A luta contra a discriminação. unificadora.O que o autor pretende é desafiar “a noção de identidade histórica da cultura como força homogeneizante. Importante lembrar ainda outra expressão de Bhabha. quando cita a seguinte passagem do texto bejaminiano: “o estado de emergência em que vivemos não é a exceção. influenciada pelo pensamento de Walter Benjamim. mas também contesta a transparência da realidade social como imagem pré-dada do conhecimento humano. 72-75. Walter. nem como evocação da liberdade.. “Sobre o conceito de história”. 114 94 Ruth M. Temos de nos ater a um conceito de história que corresponda a essa visão”. “tal mito do Homem e da Sociedade é fundamentalmente minado na situação colonial”. Afinal. o entre-lugar – que carrega o fardo do significado da cultura. a própria natureza da humanidade se aliena na condição da discriminação e a partir daquela “declividade nua” ela emerge. arte e política: ensaios de literatura e história da cultura. Chittó Gauer . Esse fim nos levaria ao abandono da inclusão-exclusão. entendido como sujeira. mas como uma indagação enigmática: o que quer o homem? Fanon 115 desloca a dúvida e questiona: o que deseja o homem negro? Ao articular o problema da alienação cultural colonial na linguagem psicanalítica da demanda e do desejo. mesmo antes de recorrermos a instâncias históricas empíricas que demonstram seu hibridismo. Editora Brasiliense. pp. a opressão. E. A análise da despersonalização não somente aliena a ideia iluminista de homem. autenticada pelo passado originário mantido vivo na tradição nacional de um Povo”. não como uma afirmação da vontade. 115 FANON. mas também contesta sua ideia historicista de tempo como um todo progressivo e ordenado. op. apu BHABHA. A vida cotidiana Ver BENJAMIN. Sua perspectiva desloca a narrativa da nação ocidental de modo a tornar manifesto que o discurso sobre a "pureza" inerente às culturas (ou a pureza racial) é insustentável. 1987. Para este fim deveríamos lembrar que é o “inter” – fio cortante da tradução e da negociação. Para ele. cit. Fanon “questiona radicalmente a formação tanto da autoridade individual como da social na forma como vêm a se desenvolver nos discursos da soberania social”. ao explorar esse Terceiro Espaço. totalizante. São Paulo. não apenas muda a direção da história ocidental. o perigo da impureza racial.

. Daí emergem três condições subjacentes a uma compreensão do processo de identificação na analítica do desejo: a) “existência” não é transcendente. “ambos se comportam de acordo com uma orientação neurótica”. Bhabha afirma que esta transferência revela a incerteza psíquica da relação colonial porque suas representações fendidas “são o palco da divisão entre corpo e alma que encena o artifício da identidade”. ser para um Outro – implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”. o branco escravizado por sua superioridade. Não é o Eu colonialista nem o Outro colonizado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 95 . c) a identificação nunca é a afirmação de uma identidade pré-dada. De acordo com Fanon. op. b) o próprio lugar da identificação já contém uma cisão porque “é precisamente naquele uso ambivalente de ‘diferente’ – ser diferente daqueles que são diferentes faz de você o mesmo – que o Inconsciente fala da forma da alteridade. “o que é freqüentemente chamado de alma negra é um artefato do homem branco”. A esse quadro social. 116 Os retratos pós-coloniais manifestam o ponto de fuga de duas tradições familiares do discurso da identidade: a tradição filosófica da identidade como processo de auto-reflexão no espelho da natureza humana – tal como o cogito 116 BHABHA. cit. Esse pensamento supera o arco hermenêutico. o autor chama de “delírio maniqueísta”. a sombra amarrada do adiamento e do deslocamento. Homi. nunca uma profecia auto cumpridora — é sempre a produção de uma imagem de identidade e a transformação do sujeito ao assumir aquela imagem. Ou seja. A demanda da identificação – isto é. uma divisão que atravessa tanto a pele branca quanto a preta no processo de firmamento da autoridade individual e social. o colonizador só existe em relação ao colonizado e o negro em relação ao branco. 76-78. pp.exibe uma “constelação de delírio” que medeia as relações sociais normais de seus sujeitos: o preto escravizado por sua inferioridade. mas dá-se em relação a uma alteridade. mas a perturbadora distância entre os dois que constitui a figura da alteridade colonial”. seu olhar e seu locus.

mas que não desempenharam um papel social que tivesse impedido a discriminação. expressa na equivalência entre imagem e identidade. o crescimento do poder do Estado e da cultura de massas. 1970. O historiador Jacob Burckhardt via claramente o lado decadente da natureza humana e. Claude. 1974. que pode ser pensada como a autointerpretação política do mundo contemporâneo. Tempo Brasileiro. que se originava em uma certa espécie de virtude. Os Pensadores. a perda de valores espirituais unificados. que salientava a piedade. É a impossibilidade de reivindicar uma origem para o Eu (ou o Outro) dentro de uma tradição de representação que concebe a identidade como a satisfação de um objeto de visão totalizante. visual. a arte secreta da invisibilidade muda os próprios termos de nossa percepção da pessoa. 1973. A totalidade dos estados nacionais foi construída. a solicitude e falta de confiança em si mesmo. O poder total construído com base na impessoalidade e na igualdade permitiu o discurso da identidade. em boa parte. A própria questão da identificação só emerge no intervalo entre a recusa e a designação. plenitudinário. a inclusão dos iguais e a exclusão dos diferentes. Funciona como dobradiça da passagem entre natureza e cultura. acreditava que ele era uma barreira permanente ao progresso. 96 Ruth M. Ver LÉVI-STRAUSS. Morata. Antropologia Estrutural I. Madrid. e isto era precisamente o que os europeus do final do 117 118 Ver DESCARTES. Por outro lado. 119 DURKHEIN. o amor ao próximo. Abril Cultural. pelo sentido declinante de comunidade. Ao romper a estabilidade do ego. Reglas del metodo sociologico. que foram substituídos pela possibilidade de “liberdade” de credo. Seu argumento principal considerava a decadência essencialmente como um decréscimo geral na vitalidade.ergo sum cartesiano 117 – e a visão antropológica da diferença da identidade humana enquanto localizada na divisão natureza/cultura – tal como aponta Claude Lévi-Strauss 118 acerca do tabu do incesto. e mesmo o aumento do conhecimento constituíram-se em ações políticas baseadas na liberdade. “a moral das velhas senhoras” do cristianismo e da burguesia. E. Durkheim 119 observou que as sociedades tiveram sempre mitos coletivos para que pudessem existir.René. nesse contexto. por um conhecimento do Outro e sua representação no ato da articulação e da enunciação. Chittó Gauer . Rio de Janeiro. Ela é encenada na luta agônica entre a demanda epistemológica. São Paulo.

op. A ética para ser ensinada nas escolas devia “salientar o dualismo da natureza humana: por um lado a individualidade do homem e a dignidade da pessoa humana. o que lhe deve”. Esses perigos. na família e nas lealdades sociais e vocacionais. Para isso o autor defendeu uma nova ética secular e um novo tipo de instituição. Baumer120 afirma que se trata do deslocamento de um novo mundo irracional do Fin-de-Siècle para o mundo sóbrio da razão e da ciência. que estimulava a mobilidade e a especialização. que era o resultado da divisão do trabalho.século XIX já não possuíam. ou o declínio das velhas crenças que deixara um vazio religioso e metafísico. pois são perigos em potência. por outro lado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 97 . era necessário planejar uma nova solidariedade moral. Para Durkheim a Europa sofria de uma anomie (colapso geral da consciência coletiva). essa era a melhor explicação da decadência contemporânea. se 120 121 BAUMER. conseqüentemente. durante o período Eduardiano. Para muitos. BAUMER. cit... 121 Estas receitas para a recuperação. mesmo na maneira como pensa e. ajudam a explicar a evaporação parcial do ânimo pessimista. Contudo. e deste modo não apenas separava as pessoas umas das outras. baseadas em uma crença na liberdade da história tal como da natureza. 164. p. e assim consideramos desagradáveis e as varremos vigorosamente. Durkheim só pertencia a este novo mundo irracional. que era a causa da doença social. Franklin. no entanto. como as tornava críticas em relação às normas tradicionais. Era a crise espiritual. p. daí a importância de Mary Douglas quando lembra que o reconhecimento de quaisquer coisas fora do lugar constitui-se em ameaça. Para compensar a anomie. ou estavam em processo de perder. o lado social de sua natureza e até que ponto a sociedade o afecta. Franklin. 164. o progresso fora agora desmascarado e era evidente para um número cada vez maior de pessoas que não havia nada de natural nele. Ao voltar ao pensamento de Durkheim. Na complexidade do mundo atual há muita coisa fora do lugar – que não cabe na lógica cartesiana –. obp cit. Ele compreendia a suprema importância para a sociedade das crenças comuns e dos vínculos que tradicionalmente se encarnavam na religião. no sentido em que via a decadência e procurava maneiras de curá-la.

às apalpadelas. devemos esperar o surgimento de um outro padrão cultural que possa ser gestado em um ambiente que leve em consideração os limites e as desilusões com a lógica moderna e com o próprio humanismo. já que a pureza é inimiga da mudança. Se a ânsia pelo rigor existe em todos nós. Com relação ao advento de uma cultura unificadora. a moralidade. O vazio das convicções humanistas. Freud deixou-o procurando em vão uma realidade em seu próprio e mais íntimo eu. entre a dignidade e igualdade humanas no plano do ideal/real.transformaram em condição de análise. uma esquiva realidade. conduz à exceção. O tema da desilusão frente à história da violência contemporânea parece estar presente e revela a crise dos tempos atuais. evidenciando a violência produzida pela cultura humanista iluminista. Contudo. 98 Ruth M. e acarretaram o surgimento de uma nova perspectiva do mundo. da ambiguidade e da diferença. baseadas na crença da liberdade da história tal como da natureza. Um modelo rígido de pureza. acaba por se tornar totalizante. ela própria uma forma de imoralidade. temos que ter presente que o rigor está repleto de inadequação. a história explicitou esses fatos. a mente individual possui como função a vida social. quando imposto. desmontaram a fragilidade da visão de totalidade e superioridade. Estas constatações. as pretensões morais totalitárias que encobrem a real vontade de domínio. Se. o desmascaramento da fácil crença no progresso. ajudam a explicar parcialmente o ânimo pessimista do período. Chittó Gauer . As metamorfoses ocorridas no século passado afetaram as atitudes humanas em relação às tradições do passado e aos modos de expressão. tal como o da igualdade moderna. o progresso foi desmascarado e torna-se evidente para um número cada vez maior de intelectuais que não há nada de automático ou certo nele. na frase de Dewey. a ciência deixou o homem procurando. os ataques frontais aos valores e pressupostos que fundamentavam a cultura ocidental. os paradoxos da filosofia liberal.

desde que os interesses britânicos não corressem perigo. o que os subordinava ao direito francês. A fixidez implica fugir da conjugação – a norma diz. A natureza das instituições legais britânicas. No caso o direito consuetudinário serviu também para manter o domínio. Esse caso é exemplar para verificar a permanência da tradição em relação a uma dominação eficaz. Nas sociedades simples o cumprimento de regras sociais se faz de forma tradicional. Esse fato é verificável após o A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 99 . As regras de uma sociedade são construídas como bases sociais estruturadas nas tradições narradas. na Ásia. No caso inglês podemos perceber a manutenção da tradição ao lado da legislação do país que dominava. uma vez que não há o instrumento da escrita. a cremação da viúva na pira do esposo morto. por exemplo: na África o costume de pagamento pelo noivo à família da noiva e. o conhecimento de todas as normas pela comunidade deve ser obrigatório. o direito inglês. sempre foi fundamentada teoricamente com base nos regulamentos locais da comunidade. Um bom exemplo de manutenção do uso do direito consuetudinário na estrutura de dominação é o que foi utilizado pelos britânicos nos domínios da África e da Ásia. cabe aos antecessores transmitir esse conhecimento por meio da narrativa. o ato social está inscrito em uma dinâmica diferenciada das premissas regulatórias construídas pelas tradições. Os colonos eram considerados franceses. O exemplo francês permite demonstrar que a política de dominação foi totalmente contrária à utilizada pelos britânicos.X A fixidez da norma frente ao fluxo contemporâneo Todo discurso é marcado por uma dada concepção do tempo que se insere na lógica da narrativa. que são transmitidas de geração para geração. As sanções são aplicadas sempre que houver a transgressão de qualquer norma. Essa constatação serve para compreendermos que a administração da justiça local nas regiões coloniais foi exercida pelos líderes políticos ou religiosos nativos que detinham o poder em paralelo ao do dominador na medida em que se constituíam nos responsáveis pelos processos locais. a commom law. o limite é colocado como padrão social que visa impedir a quebra de certas regras previamente definidas. Se a norma regulamenta a sociedade ao evocar o limite previamente construído. Ocorreram algumas exceções. O costume local podia prevalecer se não contradissesse o Parlamento.

proteger e punir. A imutabilidade da racionalidade construiu o meta relato totalizador e o tempo linear se defrontou com a fixidez da norma frente ao fluxo contínuo da história. O que é justo e bom pode mudar de sociedade para sociedade assim como historicamente como os exemplos citados acima são ilustrativos. Crime e costume na sociedade selvagem. encontraram-se argumentos para afirmar que a base RADCLIFFE-BROWN. essa dualidade está relacionada à contradição em qualquer estudo jurídico que se relacione com as regras sociais. em 1926. O direito consiste em uma série de normas e regras consideradas. Os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. 2ª edição. No que se refere ao crime. Em ambos os estudos a presença de uma lógica diferente da do Ocidente moderno não coloca as instituições dessas sociedades em uma condição de diferença. ela apenas se desloca em relação à lógica ocidental. que publicou. Lisboa. Chittó Gauer . p. 122 100 Ruth M. via de regra. e FORDE. O grande nome da antropologia do direito foi Malinowski. No caso do Brasil os portugueses aplicavam as Ordenações do Reino. a obra de Radcliffe-Brown 122 trata dos efeitos patrimoniais do casamento no grupo dos Zulus e os efeitos do divórcio. R. defronta-se com duas premissas fundantes: a racionalidade imutável e totalizadora e o tempo linear. boas e justas. uma vez que a constatação de ser um mau caráter só poderia vir pelo consenso sobre uma variedade de experiências. Como se pode verificar. podemos pensar que elas se organizam pela dualidade: política e lei. A. Nesse caso previam-se sanções para frustrar o que o criminoso poderia vir a fazer e não pelo que fizera. Daryll. foi constatado que o único crime público em tais sociedades era o de ser um mau caráter.Código Napoleônico. 264. 262. 1982. Fundação Calouste Gulbenkian. A lei como duplo sistema. Sobre os sistemas políticos africanos de parentesco e casamento. daí resulta a obediência. a racionalidade não está ausente. Em um grande número de sociedades estudadas pelos especialistas em antropologia do direito. os outros delitos eram vistos como afetando apenas interesses individuais. No que se refere às regras sociais. A racionalidade do processo de dominação colonialista não pode eliminar de todo as normas sociais das sociedades locais consideradas como irracionais. importante estudo. A antropologia britânica do início do século XX deu enorme contribuição para os estudos do direito “primitivo”.

Jean-Paul. seleção. como o ponto sem dimensão. 124 SARTRE. Sartre revela a sua visão sobre a temporalidade: estrutura organizada e os três pretendidos elementos do tempo (passado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 101 . o futuro não é ainda. Caso contrário. esse direito não segue as premissas do direito racional moderno. Da fenomenologia das três dimensões temporais. Cf. 1997. O ser e o nada. Giambattista Vico. Petrópolis. É preciso. São Paulo. dos quais alguns não são ainda e outros não são já. A preocupação não é nova. Uma das grandes preocupações que povoam o pensamento da intelectualidade contemporânea está relacionada com a necessidade de se pensar uma “nova” razão. como já afirmamos. presente.do direito “primitivo” é processual. Seria possível pensar o mundo civil como à época de Vico? Ilustrativa para esse debate parece ser a posição dos existencialistas. 1974. nunca 123 VICO. partir de uma descrição préontológica e fenomenológica de suas três dimensões. No entanto. isto é. Os Pensadores. Estas pressuposições. para um exame do ser do tempo. Vozes. sempre que das coisas remotas e desconhecidas não podem fazer nenhuma ideia. trad. a resolução de disputa para manter a harmonia da comunidade. Cada dimensão deve aparecer sobre o fundo da totalidade temporal. nos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova. toda a série se aniquilaria. Abril Cultural. não é em absoluto: é o limite de uma divisão infinita. mas sim como elementos estruturados de uma síntese original. O passado invoca e toda a teoria sobre a memória implica uma pressuposição sobre o ser do passado. dotada de liberdade. Quanto ao presente instantâneo. 123 afirma: “Outra propriedade da mente humana é que os homens. a exemplo de Sartre. Giambattista. 124 Em O ser e o nada. de preferência à aplicação de regras formais. Assim obteremos uma intuição da temporalidade global. avaliam-nas a partir das coisas deles conhecidas e antevistas”. nos encontraremos diante deste paradoxo: o passado não é mais. especialmente o terceiro capítulo. Desse modo. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. futuro) não devem ser vistos como uma coleção de datas cuja soma deva ser efetuada como uma série infinita de agoras. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação.

seria uma pegada marcada agora em um grupo de células cerebrais.elucidadas. os cientistas se ocuparam particularmente da pesquisa de representações do mundo invisível. 102 Ruth M. Chittó Gauer . Assim. 369-370. Já houve quem afirmasse que a história da humanidade não passa dos relatos de atrocidades e violências cometidas pelos humanos. tal como os historiadores a descreveram. Miller 125 afirma que. como uma ruptura no equilíbrio protoplasmático no agrupamento celular. e tomaram consciência. que é instantâneo e extratemporal. 1996. Lembrar a história da violência é ter presentes as questões da imagem-recordação. se a lembrança continua existindo é necessário que seja a título de modificação presente de nosso ser. o que é verdade. o faz no presente. que dependem fortemente da teoria. na qual os cientistas tentaram ler a natureza a partir dos fatos. parece que se quer atribuir o ser somente ao presente. mais ou menos em 1927. Flammarion. graças aos conceitos abstratos do mundo sensível. Extrapolamos a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas. Qual é o ser de um ser passado? O senso comum: o passado não é mais. durante o século XX. Não há meio algum de distinguir entre percepção e imagem. e lembrar a história. das restrições inerentes à imagem visual e 125 MILLER. Se a lembrança ressurge. Paris. se pretendemos fazer desta uma percepção renascente. pois o traço mnemônico não tem uma existência virtual enquanto lembrança: é. traço atual. como fotógrafos das câmaras de gás. da imagem-recordação. Intuitions de Génie: images et crétivité dans les sciences et les arts. por exemplo. em consequência de um processo presente. por um lado. ou seja. em etapas. Todos eles supuseram que pudessem manipular as entidades invisíveis. Arthur I. tais como os elétrons. tudo é presente. sobretudo. por outro. pp. tudo é em ato. para explicar o aparecimento da consciência. Aí se encontra o paralelismo psicofisiológico. Depois se convenceram de seus erros. obscureceram o problema da recordação e da temporalidade em geral. Esta pressuposição ontológica engendrou a famosa teoria dos traços cerebrais: já que o passado não é mais. na física atômica. Desse modo. já que desmoronou no nada. integralmente.

São elas a 126 BECK. uma forma de insolência. Por esse caminho apoiaram-se na representação. pois. por outro lado. requereu transformações dramáticas dos conceitos de imagem visual e da intuição. As configurações que permitem compreender a superação do individualismo se expressam em Beck como metáforas que salientam o aspecto confusional da sociedade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 103 .à linguagem da abordagem desse assunto misterioso. Para além do risco e sua impossibilidade de controle temos o declínio do político. Os problemas de tempo e espaço levam os cientistas a pesquisar e rever a representação da natureza no século XX. O autor refere que essa transição. 3 . anedotas. Barcelona.fracasso do controle. contudo. Paidós. É assim que Ulrich Beck 126 divide a sociedade de risco em três fases: 1 . metáfora visual adaptada ao mundo invisível. entre elas como risco. ainda não fomos capazes de compreender de forma mais contundente as questões da violência. que se manifesta de diversas formas: o desprezo pelos políticos. A saturação da forma política caminha lado a lado com a saturação do individualismo.século XIX até metade do XX. da saturação da função que lhe é inerente. A Sociedade de Risco.advento da idade moderna. aparecimento de novos e incontrolados riscos provenientes da sociedade industrial tardia. 1998. domesticar e mensurar o risco para reduzir a sua ocorrência. 2 . O individualismo determinou toda a organização política moderna. diferente da estrutura complexa ou orgânica da contemporaneidade). Embora tenhamos ultrapassado a racionalidade do universo a partir de raros pontos de certezas e. Sabemos que a representação da natureza sempre constituiu problema central para a ciência. vontade de controle do risco. O Estado como expressão por excelência da ordem política protege o indivíduo da comunidade. Ulrich. ditos populares e a versatilidade das massas. de uma maneira de se interrogar sobre as massas. e da valorização do papel pessoal permite pensar nas massas assim com as tribos que nelas se cristalizam (estrutura mecânica da modernidade. risco controlado. Esses problemas foram tratados de formas múltiplas. tenhamos conseguido dar visibilidade ao risco. O processo de desindividualização. Trata-se.

1997. O Conhecimento Comum. a um só tempo. luz ou sombra. Michel. 1988. uma mensagem. remete-nos à análise da flexibilidade. individual e coletivo. Desde essa época procurou-se encontrar princípios de regulação e recuperação interiores que resgatassem o senso de individualidade do fluxo sensório”. Chittó Gauer . povo sem identidade. ser adaptável a circunstâncias variáveis. sempre dou com uma ou outra determinada percepção. Sennett 127 explica a origem da palavra flexibilidade. que entrou na língua inglesa no século XV e designa a capacidade de ceder e recuperar-se. 218. Kerckhove 128 auxilia a compreensão da ausência da continuidade quando diz que os computadores. uma certa harmonia. 19. hoje está a mudar para a Idade da Mente. de calor ou frio. 1999. Momentos e mensagem não possuem o status de verdades universais. A natureza humana há muito não pode ser considerada uma essência. Forense Universitária. Rio de Janeiro. É exatamente quando pensávamos que a realidade estava sob controle.massa indefinida. apenas um momento. Os primeiros filósofos modernos comparavam o dobramento da flexibilidade com os poderes de sensação do eu. dor ou prazer. 128 KERKHOVE. tribalismo como nebulosa de pequenas entidades. como diz Lévi-Strauss. Michel. público e privado. é um conceito. A corrosão do caráter. Lisboa. pp. Relógio D’Água. ao acelerarem o ritmo da nossa cultura televisiva. Na idade da mídia eletrônica o controle da linguagem torna-se público. Sennett refere o filósofo por meio de uma afirmativa importante para se pensar a flexibilidade: "quando entro mais intimamente no que chamo de eu. 1987. ao ver a possibilidade de se pensar como participante/ator. MAFFESOLI. não em estruturas hierarquizadas. Richard Sennett. 53-54. Com a Internet temos o primeiro meio oral e escrito. Richard Sennett. A Pele da Cultura. mudou da Idade Média para a Idade da Razão. Na obra o autor justifica sua apreensão em “dar provas de uma preocupação metafórica que evite a petrificarão do objeto analisado”. Todas MAFFESOLI. Para Kerckhove. nem uma ideia. sem se deixar quebrar por elas. de Hume. pp. A negação da existência do sujeito nos permite pensar que o homem é. Citando o Ensaio sobre o entendimento humano. Record. amor ou ódio. 127 104 Ruth M. A ligação entre mente pública e individual é feita por meio de redes abertas que recobrem todo o Planeta em um tempo “real”. a organização que se dá em redes. Brasiliense. p. O Tempo das Tribos. que ela mudou novamente. Derrick. geraram a implosão pós-modernista. São Paulo. 175-194. Rio de Janeiro.

A velocidade é vista por Virilio como a alavanca do mundo. a análise de Paul Virilio nos dá boas pistas para pensarmos por meio de conceitos que fogem à verdade. Publicações Dom Quixote. pois já não há ideias em luta com os fatos. p. da matéria. de liberdade. 128. como se fosse um espetáculo. assim como a velocidade-riqueza não é mais obtida apenas pelos banqueiros ou por alguns poucos que tomam decisões. abre um importante campo de reflexões. Os acontecimentos não são aprendidos. Os nexos estabelecidos. uma vez que as imagens não se fixam. ganharam uma expansão a partir das relações estabelecidas com os exemplos citados. de autodeterminação e até de consciência que antes os homens tinham reservado para si. Virilio associa as distâncias-espaço às distâncias-tempo e. Por outro lado. se o tempo é história. Paul. Para Virilio. Na atual velocidade. Lisboa. na obra de Virilio. o poder. Nesse sentido. Nesse sentido os acontecimentos desvanecem-se. o mundo. uma alucinação perspectiva que destrói toda a extensão da cronologia. a inércia torna-se um segundo conceito 129 VIRILIO. a velocidade é apenas sua alucinação. O fato provocará uma mutação cultural na qual a profundidade temporal superará a profundidade espacial da perspectiva renascentista. o controle do tempo é remetido a uma análise sobre o poder. mas sobrevoá-la. está chegando a um ponto de instantaneidade nos nossos deslocamentos. A Inércia Polar. Virilio 129 desenvolve seu trabalho como urbanista. nesse sentido.estas teorias introduzem na matéria os conceitos de historicidade e de processo. 1993. A popularização da velocidade retira das forças militares. Os conceitos trabalhados. Depois da desintegração nuclear do espaço. Aparece então a negação do fato real. assim. Seguindo nessa mesma trilha. dos políticos. uma desconstrução como fruto do recente primado do tempo sobre o espaço. teórico da Dromologia. que não é finito. Há. Para a compreensão do mundo faz-se necessário não mais ver a sociedade a partir de dentro. ocorre a desintegração do tempo da luz. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 105 . Em sua obra A inércia polar. com essa plasticidade. (do grego dromos = velocidade). Passamos do tempo extensivo da história ao tempo intensivo de uma instantaneidade sem história. a velocidade e o espaço são enfocados a partir da experiência das guerras. escapam pela fluidez da velocidade. Criou-se um novo espaço-tempo. embasamse na mutabilidade constante de suas reflexões. perdem-se.

O ser torna-se incerto quanto à sua posição no espaço e indeterminado quanto ao seu verdadeiro regime de tempo. Mostra-nos ainda as categorias de velocidade. abrindo. Chittó Gauer . frente a essa visão. A velocidade pensada pelo autor já se fazia sentir no século XIX. reflete a pretensão de abordar as “peças de um enigma que se imbricam. com as quais faz os vetores do poder. onde se situa? Onde estou.usado para avaliar a capacidade humana. Não interroga o diálogo homem-máquina sobre o meio ambiente. A possibilidade de análise do imponderável permite apresentar uma outra história do Estado que não se confunde com a reprodução do espaço militar e mesmo civil. se complementam e dão assim os grandes contornos do visível na aparência de nossa vida”. O autor contribui para uma análise que associa as distânciasespaço às distâncias-tempo. construída historicamente. equivaleria dizer. assim. Para Virilio. A verdade dos fenômenos é sempre limitada pela sua velocidade. Ela é vista por muitos como um moinho satânico que corrói toda tradição. Virilio vê a política como energia e o poder como o elemento movido por essa energia. Assim. op. A economia já é gerida à distância. um importante campo de questões filosóficas. 106 Ruth M. A ecologia não poderá desenvolver-se sem apreender a economia do espaço-tempo das atividades humanas e suas rápidas mutações. A ecologia comete a incompreensão do caráter relativista das atividades do homem. A velocidade é a velhice do mundo. 130 130 MAFFESOLI. mas onde estou eu. p. a ciência política estaria ligada à passagem e à possessão. Michel. e à esclerose dos reflexos ocasionados pelo envelhecimento do mundo. é a desnaturação do presente-vivo convertido em TelePresente-Vivo. 27. Descrever a violência. ao declínio das atividades no espaço. capacidade essa que é identificada pela imponderabilidade. se estou em toda parte? A questão não será mais quem sou eu. vivemos a inércia comportamental devido à velocidade. A lei que determina que um corpo não pode estar presente no espaço onde há outro corpo já está defasada. A tele-presença não apenas permite isso quanto traz a questão da Propriopercepção: e a presença. pelo envelhecimento da história. Nesse sentido. Eis a inércia da natureza relativista. cit.

p. cit. até certo ponto. 134 Nessa busca da diferença. no quadro de uma ideologia produtivista. gostaríamos de mostrar que se pode matizar e apreciar diversamente essas facetas variadas de uma realidade. 28. de apresentar os fatos e ligá-los. no entanto. de modo didático ou para a clareza de exposição que. também. é constituído pela vida.. 133 Para além de uma aparência homogênea. p. mais do que nunca. na própria introdução da obra. cit. Sabe ele que. Enfocar o vivido. Michel. Maffesoli não deixa de enumerar. o trabalho em questão pode muito bem ser considerado inútil. decorre daí o não 131 132 MAFFESOLI. priorizar o estilo. a forma de dizer e fazer da própria análise proposta ao longo da obra um “aparelho crítico conseqüente”. op. 39. que se pode mesmo. 134 MAFFESOLI. Quanto ao primeiro. continua não havendo nada de novo sob o sol. por si só.. ou talvez fosse mais correto dizer. mais do que tudo. como fica manifesto nessa introdução. “reconhecer nossa época através do discurso múltiplo e com a ajuda dos discursos que o precederam". os riscos de seu empreendimento. Michel. op. tentando equacionar aquilo que. observase o próprio transcurso da crítica ao racionalismo e uma não aceitação do princípio da realidade como constituinte único do dado social. “Quanto a nós. 132 Por outro lado. portanto.. cit. Importa. importa mostrar o lugar onde se defrontam forças antagônicas e compreender a pluralidade a partir de um quadro de transitoriedade cíclica. MAFFESOLI. op. o vivido que. o ponto de partida. cit. Maffesoli irá dizer-nos que o mesmo acaba por não levar em consideração o devir. elas remetem uma a outra e entram em ressonância na grande harmonia da diferença”.. segundo o próprio Maffesoli. 133 MAFFESOLI. o inacabamento e a falta e. cabe então. Michel. p. 30. 28. nessa recusa em negá-la. O reconhecimento da diferença é. op. Sabe ele que uma obra que não pretende contribuir com teorias que irão mudar o mundo e não se vale da tentativa de produzir conceitos tende a ser classificada como improdutiva e diletante. não pode ser equacionado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 107 . desse modo. Michel. Não se trata. p. 131 Fazer dela um “trabalho minucioso de comparativismo e despesa ostentatória”. por sua vez. analisá-las em si.Uma vez que. quanto ao segundo.

51. portanto. Ao analisar a maneira como o poder configura-se. A socialidade. multidimensional e polifônica que atravessa a realidade social. quais as medidas empregadas para assegurar sua manutenção?” 135 Deve-se levar em consideração que. emprega o termo em diferentes momentos da obra. então. fragmentada. 108 Ruth M. Um poder que “não muda de natureza desde que não sejam questionadas as suas invariantes estruturais”. 41. em outros termos.. contemporaneamente. op. uma vez que não apenas renova o poder como também se torna responsável por uma nova fundação simbólica da sociedade. se fazem presentes no vivido. 41. para reativar e revigorar a socialidade. p. MAFFESOLI. Chittó Gauer . Para tanto 135 136 HORKHEIMER. está inscrita em uma estrutura ou forma fundamental. nesse sentido. não se deixa reduzir à simples razão. p. op. é preciso partir de um entendimento sobre “o confronto do uno e do múltiplo. A partir desse último termo tem-se. sendo que a sua utilização. tendo como motor a submissão ou a dependência que se manifesta na sua ambivalência”. então. para Maffesoli. As questões suscitadas passam a ser “como se determina o poder.. é também aquilo que carrega consigo uma potência que é anterior ao poder. cit. recorrer a uma ideia de dinâmica social para além do reducionismo racionalista e da própria negação pulsional. 137 A questão do campo do poder pode ser vista. quando este se coloca como uma contraposição a todo e qualquer empreendimento unificador. apud Michel Maffesoli. essencial para que entendamos os chamados processos revolucionários e a violência em suas diferentes instâncias. em última instância. um fértil campo de análise. quais os meios postos em ação. Compreender a ideia de socialidade torna-se. Michel. cit. 137 MAFFESOLI. portanto. Michel. 138 A revolução. queiramos nós ou não. o autor de A violência Totalitária irá. 136 Compreender. Temos. cit. op. A revolução serve. uma vez que diz respeito ao fato social em si. pode ser entendido como o “retorno do reprimido”. p.entendimento das pulsões que.. por meio da reforma. a ideia de um poder que se nutre daquilo que supostamente o contesta. nada mais é do que um fenômeno recorrente. para elucidar tais questões. embora relacionada ao conceito freudiano. ganha aqui um caráter mais específico. 138 MAFFESOLI. a função unificadora do Estado e aquilo que. assim.

para o autor. de uma socialidade que abarca ainda a própria potência. Maffesoli irá salientar o artificialismo da crítica que o sustenta. pré-existe à emergência do político em suas diferentes instâncias. que não são e nunca serão. quando recorre a Monnerot o autor enfatiza uma das invariâncias que caracterizam o citado processo. Michel. 139 Nessa perspectiva. Se há uma circularidade nos fatos que os coloca longe de toda e qualquer ideia de progresso. voltam-se exclusivamente para os aspectos tributários da potência. cit. A potência. Enfocar tais eventos é captar um dos aspectos da potência. de um modo ainda mais específico. então. O caráter recorrente da revolução ou mesmo de todo e qualquer reformismo remetenos. por si sós. No exame do processo revolucionário. Reformas e revoluções estão. para Maffesoli. em primeiro lugar. Podemos deduzir que a violência é inerente ao propósito de o poder garantir reformas parciais e insignificantes. É na conjugação das diferenças que.. 139 MAFFESOLI. mas mudança de velocidade”. A violência pode ser pensada como um instrumento utilizado pela própria civilização. que diz respeito a uma “circulação acelerada das elites”. 124. “se rompe a unilateralidade entrópica e se indica a vitalidade do múltiplo”. é captar um pouco daquilo que precede a consolidação do político e do econômico. mudança de estrutura.se faz necessário reconsiderarmos a maneira como vemos a violência. afirma que “a revolução não é. o Marxismo. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 109 . há também momentos de maior aceleração no modo como estes se consolidam. Ela não pode ser pensada como resto anacrônico de uma ordem bárbara em vias de extinção. os elementos constitutivos do fato social. já analisadas por muitos autores. A visão progressista que se possa ter sobre as vicissitudes do social em nada é compatível como a potência que. na medida em que a própria ideologia marxista nada mais faz do que tentar aperfeiçoar o mundo. op. à própria questão da incongruência das diferentes concepções progressistas da história. pp. por sua vez. Desse modo. As críticas ao racionalismo instrumental. “faz parte desse domínio ainda mal explorado que se chama o imaginário”. situadas na própria manifestação da socialidade. nas palavras do autor. 64. Ao analisar. 95. todo e qualquer microevento constituinte da vida cotidiana revela uma forma de atuar da vida social.

é a resposta desvairada que a organização economista acha para um individualismo que lhe foi necessário no início. para tanto. Ainda que não redutíveis entre si. Tratase da possibilidade de compreensão dos próprios mitos prometeicos do progresso sem que. capture-se a dimensão do ato criador. ambas mostram-se atreladas a uma visão linear da história reinante no pensamento ocidental. pp. entretanto. será obtida de cima. por sua vez. Michel. O totalitarismo seria. Chittó Gauer . 159. cit.. cit. e não mais a partir de uma espontaneidade social”. O dinheiro na sociedade moderna. melhor seria dizer essa interdependência. pp. consecutiva ao desenvolvimento de um individualismo integral. por um órgão centralizador. é no trabalho “que se juntam a racionalização da existência e as utopias tecnocráticas”. como uma espécie de reunificação abstrata diante dos perigos de uma desagregação total. ou seja. tal 140 141 MAFFESOLI. 193. o progresso”. valendo-se daquilo que serve de substrato ao próprio Estado. deteve-se principalmente na sua estreita relação como o totalitarismo. op. 281. 281. agora segundo Dumont. MAFFESOLI Michel. 243. atendendo assim “as necessidades de uma classe em extensão e em seguida são as realidades sociais que devem também ficar tão evidentes quanto as verdades geométricas”. nesse sentido. 141 O totalitarismo estatal e a planificação da existência surgem. op.instrumentalizando a razão. a primeira objetiva “amoedar o divino”. o socialismo e o totalitarismo: trata-se de um desdobramento lógico e contínuo de premissas inteiramente contidas na organização econômica da sociedade”. desse modo. O direito moderno acaba também sofrendo uma espécie de reconstituição geométrica em relação ao próprio direito romano. 156.. à perda de solidariedade orgânica. a pulsão de esperança. Logo. O entendimento da emergência do individualismo na sociedade moderna. Podemos pensar que as forças que sustentam a religião e aquelas que irão sustentar a ideia de revolução se assemelham. essa unidade. 140 a segunda “amoedará. 282. Maffesoli irá ainda mais longe nessa análise ao afirmar que: “Não há antinomia entre o capitalismo. Se. por um lado. uma espécie de “reação lógica a um processo de atomização. 110 Ruth M.

da liberdade do fazer científico e de suas “proibições” nem sempre tácitas. enquanto a economia monetária e a mediação das relações humanas por meio do dinheiro apresentam-se como fundamento das duas. 12.como analisado por Simmel. é uma forma de lidar com constrangimentos e obrigações. 1998. o ponto focal que põe em tensão o cientista torna-se vetor de uma criatividade que. ou seja. há muito anunciado por Thomas Kuhn. cética relativamente ao poder das teorias. Simmel e a modernidade. uma ideia força na visão de Baumer. A separação entre as culturas subjetiva e objetiva é fenômeno geral e característico da modernidade ocidental. Berthold. a relação entre a noção de anomalia e o ponto crítico em que uma diferença se reconhece como significativa desestabiliza o paradigma e não a competência do cientista. não terá sido inspirada por uma atitude lúcida. As diferenças entre os campos conceituais que configuram o saber dos pesquisadores de diferentes áreas encaminharam para o que podemos denominar de escândalo fecundo. 38. O autor refere ainda que somente a cultura objetiva se torna crescentemente cultivada e rica. Já na cultura objetiva o desenvolvimento é proporcionado pela economia monetária e pela divisão social do trabalho. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 111 . constitui-se em tema fundamental para se pensar a normatização da sociedade contemporânea. como liberdade de movimento. dependência de muitos x dependências de poucos). (Orgs. e auto-realização pessoal é apenas uma mera possibilidade. Segundo Kuhn. A questão da liberdade. permite uma margem de liberdade pessoal. isto é. Brasília: UnB. sobretudo como ferramenta para a compreensão das diferenças. 142 completa o estudo sobre a violência. Liberdade. segundo a visão de Simmel. 39. 33. enquanto os indivíduos se tornam cada vez mais pobres e pouco cultivados. No entanto. Tal como 142 SOUZA. possibilitando éticos e a essa uma personalidade maior libertada de de constrangimentos pessoais oportunidade autodeterminação e desenvolvimento. O aspecto subjetivo. da autonomia tanto social como individual. Jessé. OËLZE. aproximação e distância em relação aos outros (impessoalidade). porventura. dinheiro. pp. sendo que as teias de relações ficam mais rarefeitas e múltiplas (permuta de contingências. 10.).

Após uma visita à Rússia. 1999. tornou-se refém da norma. p. Há que se levar em conta ainda o objetivo primordial da epistemologia. conforme Polanyi. pela memória. Martins Fontes. Michael. Deve-se considerar. Topbooks Editora. 90. 89. 1993. A lucidez é um produto de crise. modificam o organismo. Matéria e Memória. “uma forma mais elevada de análise”. cit. A lógica da liberdade. O aspecto acima apontado discute o autogoverno da ciência de forma contundente. 144 Essa atividade só ocorre quando a liberdade de criar pauta a atividade acadêmica. uma vez percebidas. 146 BERGSON Henri. que a pesquisa. o de investigar as condições necessárias para atingir a coerência entre o conteúdo semântico dos conceitos e o tratamento formal ao qual os submetemos.. nascida no seio da liberdade. 11. na medida em que as imagens. op. POLANYI. 102. 112 Ruth M. qual seja. criam no corpo disposições novas para agir. pp. se fixam e se alinham nessa memória. deduz. Como sustenta Bergson. 88. um novo tipo de inteligibilidade impõe uma escolha. Para além destes aspectos. As políticas da razão. de fatos e imagens únicos em seu gênero se processa em todos os momentos da duração”. Mas não devemos deixar de lembrar o que afirma sobre a memória como lembrança: “como as lembranças aprendidas são mais úteis. variáveis encobertas e condições em que ambas se imbricam. faz-se necessário ter em conta as variáveis observáveis. 101. Henri. pp. 91. no entanto. Polanyi escreveu em 1958 importantes contribuições à epistemologia com seus conceitos de “dimensão tácita” e “inversão moral”. é conquistada e não se pode considerar normal. 92. 83.. 145 posto que percepção é memória. São Paulo. Rio de Janeiro. e. 2003. prolongando-se em ação nascente. Chittó Gauer . Lisboa. 2. A lembrança espontânea é 143 144 STENGERS.refere Stengers. repara-se mais nelas”. 143 a quebra da autonomia de comunidades científicas põe em causa as bases da ciência e não o cientista. 146 Sob esse enfoque as normas interiorizadas desde a infância fundam a ação dos indivíduos em sociedade. Uma interpretação resultante de uma liberdade criativa requer uma análise que se constitua em simultâneo com a síntese. quando um novo paradigma. Edições 70. A “crise paradigmática” torna-se coletiva quando o cientista conquistou o poder de contra-interpretar os resultados dos próprios colegas. ed. 145 BERGSON. A análise resgata elementos de toda a percepção. Isabelle. “o registro. pp. que “a pesquisa científica é a arte de fazer certas espécies de descobertas”. Para Bergson. os movimentos que as prolongam.

Sistema penal e violência. isto é. 2007. CARVALHO. pois coloca em xeque a base epistêmica. e só me lembro de tê-lo adquirido porque apelo à memória espontânea. ser efetivamente a memória por excelência. 147 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 113 . só é lembrança porque me lembro de tê-lo adquirido. tornar-se-á cada vez mais impessoal. a tudo aquilo que Bachelard designava “obstáculo epistemológico”. A segunda “é antes o hábito esclarecido pela memória do que a memória propriamente". O contrário. sairá do tempo à medida que a lição for mais bem sabida.imediatamente perfeita. cada vez mais estranha à nossa vida passada. 147 Evidenciar a insuficiência do monólogo jurídico à luz da complexidade (marca indelével das sociedades contemporâneas). Das duas memórias que acabamos de distinguir. portanto. somente por meio de novas linguagens é que se pode fazer a necessária recusa ao saber jurídico sedimentado. Essa visão enfrenta muita resistência no Direito. organizá-los entre si e. aquela que data os acontecimentos e apenas os registra uma vez. Ruth M. Salo. a primeira parece. o tempo não poderia acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la. criar um hábito do corpo. a lembrança aprendida. calcada na razão moderna. Seu papel (o da repetição) é simplesmente utilizar cada vez mais os movimentos pelos quais a primeira se desenvolve. No entanto. Lumen Juris. “Criminologia e interdisciplinaridade”. Chittó Gauer (Org. Rio de Janeiro. ela conservará para a memória seu lugar e sua data. gera resistências das mais variadas formas. Esse hábito.). inserindo o Direito na epistemologia da incerteza e na fluidez da aceleração. aliás. montando um mecanismo.

Chittó Gauer . Não há oposição entre pensamento lógico e mítico. Weber 148 desenvolveu uma análise detalhada para a compreensão do conceito de legitimação. Podemos dizer que a legitimação não é simplesmente ato de uma legislatura ou de um órgão oficial. 114 Ruth M. Essa forma de legitimidade carismática permite uma analogia com o mito. Ao contrário da legitimidade baseada na legalidade. 12. O autor refere que a autoridade legítima é a autoridade sem oposição perceptível. mas porque acreditam nele” 149 . Assim.. Max. A legitimidade com base no encanto é vinculada ao heroísmo. fundada sobre normas racionalmente criadas. pois este garante a obediência mesmo quando há oposição. 3ª ed. A autoridade possui legitimidade porque a sociedade crê nela. Presença. Lisboa. op. O político e o cientista. WEBER. na crença na validade de preceitos legais e na competência objetiva. 10. diante do mito Lévi-Strauss adota uma posição intelectualista e critica a fenomenologia da religião. Para o autor. É importante referir ainda que a legitimidade de uma figura que Weber identifica como “alguém que leva dentro a chamada para ser condutor de homens. ou outras qualidades de caudilho que um indivíduo possui. Essa crença relaciona-se muito mais com uma perspectiva mitológica do que com uma perspectiva racionalista. portanto fogem à racionalidade. Os atributos que essa autoridade representa ter são da ordem da crença. Os exemplos apontados para essa forma de obediência estão relacionados pela legitimidade “tradicional” a exemplo dos patriarcas e dos príncipes patrimoniais do antigo regime. obediência livre. Max. 1979. fundamentalmente. pp. aplicada pela autoridade legítima diferentemente do poder. ou um padrão de ordens e obediência justo na opinião dos membros de determinadas sociedades. p.XI O fundamento do sistema de comunicação: a crença como norma A norma legitima é. 148 149 WEBER. este é. apenas não sabemos como devem ser lidos os mitos. A linguagem ocupa no mito um lugar semelhante ao do sistema fonológico dentro da linguagem. cit. 11. aos profetas aos chefes guerreiros aos grandes demagogos. via de regra. os quais lhe não prestam obediência porque o mande o costume ou uma norma legal. o processo de criar poder. Uma segunda forma de legitimidade vincula-se a autoridade do encanto (carisma) pessoal e extraordinário com base na confiança pessoal.

e em um segundo nível. onde cada mitema designava um feixe de relações. estrutura fonológica. Otávio Paz 150 faz uma reflexão: se o mito é uma paralinguagem. Este se decifra por meio da linguagem. uma estrutura que se atualiza cada vez que é contada a história. op. Em seu ensaio A Estrutura dos Mitos. p. alude ao que passou. formal. por sua posição no contexto. 23.. sua relação com a linguagem é inversa à do sistema de parentesco. Otávio. Em um nível mais baixo. e ao mesmo tempo pré-significativos. Ele determinou os mitemas das diversas versões e dispôs em colunas horizontais e verticais. Busca uma lei geral. O mito opera com a linguagem como se fosse um sistema présignificativo: o que diz o mito não é o que dizem as palavras do mito. é um sistema de significações que se serve de elementos não linguísticos. O mito é fala. O mito oferece uma solução ao conflito por meio de um sistema de símbolos que operam à maneira dos sistemas da lógica e da matemática.A língua é sincrônica e seu tempo é reversível. Não lhe interessa o conteúdo do mito ou oferecer uma nova interpretação. descrevem uma relação importante entre os diversos aspectos do relato. Lévi-Strauss aplica as mesmas leis combinatórias a mitos de outras civilizações. mas sim decifrar sua estrutura: o sistema de relações que o determina (igual a todos os outros mitos). Graças aos mitemas os mitos são: fala (diacronia) – narrativa – tempo irreversível – Idioma (sincronia) – estrutura – tempo reversível. é diacrônico. Nas adivinhações (índios da América do Norte) e mitos relativos a corujas que proferem enigmas existe uma 150 PAZ. ao mesmo tempo é idioma. combinatória. cit. como elementos de um segundo discurso: o mito. Lévi-Strauss usa o mito de Édipo como premissa de suas ideias. Os mitemas são entrelaçados ou feixes de relações mínimas e operam em um nível superior ao puramente linguístico. Qual seria a paralinguagem para decifrar o sentido dos mitos? Retorna o problema do sentido da significação. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 115 . Para comparar mito e linguagem. Ao encontrar a estrutura do mito de Édipo. que são frases ou orações mínimas que. sintática. Lévi-Strauss busca os elementos constitutivos do mito: os mitemas. seu tempo é irreversível. São significativos dentro da narrativa.

151 influenciado pelas inovações teóricas e técnicas aportadas por Sándor Ferenczi. Abraham. por outro. Sem que houvesse uma diminuição na continuidade de outras formas de investigação. Chittó Gauer . Ralph Linton e Cora Du Bois. México. Foi durante o período situado entre as duas guerras mundiais que se deu a recíproca atração entre antropologia e psicologia ou. A operação mental em ambos os casos é idêntica: unir dois termos contraditórios. Durante os anos 30. Juntos. com os dados obtidos pelos antropólogos em suas pesquisas de campo. Harry S. Fondo de Cultura Económica. e desse fato surgiu a tentativa de aliar os conhecimentos da psicanálise. mais especificamente. Essa relação se reproduz em outros mitos e também de maneira inversa. México.dupla analogia com o mito de Édipo: por um lado entre a esfinge e a coruja. Anna Freud. pois a resposta a um enigma une dois termos inconciliáveis e o incesto também une duas pessoas inconciliáveis. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. Lévi-Strauss entendia a possibilidade de estudar o mito mais como uma operação mental do que como uma projeção histórica. o psiquiatra e psicanalista Abraham Kardiner. A influência freudiana já se havia feito sentir nos Estados Unidos. foram os primeiros a iniciar uma tentativa sistemática de utilizar teorias e técnicas psicodinâmicas na análise de dados etnográficos. Tornou-se claro. 1945. o problema de estabelecer até que ponto as características da cultura são ou não pré-determinadas por constantes de natureza universal. Assim. 116 Ruth M. entre o incesto e a adivinhação. nessa atividade interdisciplinar. para alguns. tal foco de atenção teve notório destaque. entre a antropologia e psicanálise ou psicologia denominada como “profunda”. conseguiu juntar em torno de si certo número de antropólogos. Principalmente nos Estados Unidos. a antropologia dedicou uma boa parte de seus interesses ao esclarecimento dos aspectos inconscientes da cultura. esta é apenas uma das variantes da estrutura. Sullivan e outros. Fondo de Cultura Económica. Os elementos históricos ficam integrados nesse sistema de transformações que abarca desde os sistemas de parentesco e as instituições políticas até a mitologia e as práticas rituais. 1955 e El Individuó y su Sociedad. 151 Ver KARDINER. O estruturalismo não pretende explicar a história. entre os quais Ruth Benedict. então em franco desenvolvimento. que passaram a ter um papel de destaque em sua carreira. Sándor Rado.

ob. Fronteras Psicológicas de La Sociedad. embora este modelo forneça uma base ampla para a interpretação dos fenômenos de cultura e personalidade. Os comportamentos humanos não seriam. é necessário – afirma Kardiner – reconstruir os problemas de adaptação que toda a sociedade enfrenta. que dariam vida e forma aos diversos sistemas culturais. caracteriza-se pelo psiquismo com estruturas básicas comuns a todos os membros da espécie. elaborou o conceito de personalidade básica. que seria largamente aplicado nos estudos etnológicos. difieren de una sociedad a otra.se a humanidade. 152 Embora os antropólogos. modificam-se de acordo com o ambiente ecológico e com a interação entre carecimentos biológicos e instituições. 4) Que las técnicas modeladas culturalmente para el cuidado y la crianza de los niños. portanto. Así. em muitos aspectos importantes concernentes à realidade psicocultural. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 117 . para las diversas familias que forman dicha sociedad. por outro lado observou-se que as culturas. Abraham Kardiner. aunque nunca idénticas.. sino más bien a los sistemas proyectivos. aos quais corresponderiam respostas psicológicas e sociais diferenciadas. além de serem diferentes entre si. constituídas como faces especulares da mesma realidade. Foi a partir dessas considerações que Kardiner. es en sí mismo una configuración que comprende varios elementos diferentes y se basa en los siguientes postulados: 1) Que las experiencias tempranas del individuó ejercen un efecto duradero sobre su personalidad.. son modeladas culturalmente y tienden a ser semejantes. 2) Que experiencias similares tienden a producir configuraciones similares en la personalidad de los individuos que se sujetan a ellas.. especialmente sobre el desarrollo de sus sistemas proyectivos. Esto no corresponde a la personalidad total del individuó. pp. en otras palabras. al sistema de valores y actitudes que son básicos para la configuración de la personalidad del individuó. tivessem sua atenção atraída preferencialmente para Totem e Tabu (inclusive por ser o primeiro 152 “El concepto de tipos de personalidad básica.” Acrescenta-se a seguinte definição: “El tipo de personalidad básica para cualquier sociedad es la configuración de personalidad compartida por la mayoría de sus miembros como resultado de las primeras experiencias que tuvieron en común. 8-9. por motivos compreensíveis. fixados apenas de modo filogenético e. explicam-se com base na dinâmica entre carecimentos biológicos fundamentais (neste ponto se verifica a influência do biologismo freudiano) e os condicionamentos que as instituições exercem em resposta a carecimentos e estímulos. hipoteticamente. cit. Para compreender a dinâmica de atuação dos instintos e pulsões em sociedades diferenciadas. 3) Que las técnicas que los miembros de una sociedad cualquiera emplean en el cuidado y en la crianza de los niños. el mismo tipo de personalidad básica puede reflejarse en diferentes formas de conducta y puede participar en muchas configuraciones diferentes de personalidad total”. A teoria psicocultural gira em torno da adaptação a necessidades fundamentais comuns a todos os seres humanos. secundado por Ralph Linton.

diretamente junto a diversos antropólogos que ainda hoje são considerados como clássicos de um período da disciplina antropológica. Brosin. Podemos ver. para bien o para mal. p. e o movimento psicanalítico como um todo foi infestado por sectarismos dos mais variados. mas sim doutrina.. Os antropólogos. portanto. debe decirse que la antropología estadounidense. como se sabe.trabalho “sociológico” de Freud). No entanto. talvez o passo mais decisivo para o movimento de aproximação entre antropologia e psicanálise (movimento que depois involucraria outras tendências psicológicas e a própria psiquiatria) tenha sido dado por Abraham Kardiner. Buenos Aires. Antes de comentar esse aspecto. Chittó Gauer .. Adler.. parece haber hallado sólo en el psicoanálisis las bases de una psicología social susceptible de desarrollo. fé e crença. como duas disciplinas relativamente novas. surge la abrumadora impresión de que los antropólogos de este país sólo leen con dedicación a los autores psicoanalíticos. Franz Alexander e Helen Ross. a psicanálise e a antropologia. gran influencia sobre los círculos antropológicos”. mesmo que condizente com suas teorias referentes ao modelo estrutural-pulsional e filogenético. Aunque algunos antropólogos estadounidenses han demostrado cierto interés por los problemas de la percepción y por los tests de inteligencia... “Examen de la Influencia del Psicoanálisis Sobre el Pensamiento Actual”. unem-se na tentativa de desvendar os obscuros Cabe aqui uma citação mais extensa: “.desde un comienzo los antropólogos estadounidenses han sido influídos casi exclusivamente por la psiquiatría psicoanalítica. la psicología académica ha ejercido una influencia mínima sobre la antropología. Psiquiatría Dinámica.. um dos textos mais mitológicos e de menos fundamentação empírica da obra freudiana. As defecções de Jung. as transformações teóricas ocorridas na evolução do neurologista vienense foram acompanhadas com suma atenção.. 1958. e a riqueza contida na observação psicanalítica não passou por alto. Kardiner. Kluckhohn. como. ou seja. C. 153 Este psicanalista conseguiu obter. Essa realidade fica evidente quando lembramos que Freud seguidamente se referia à psicanálise como sendo uma doutrina.. dogma. 153 118 Ruth M.. as variantes que a psicanálise assumiu tornaramse um elemento profundamente enriquecedor para ela própria. Fromm y otros) han ejercido. 469. Não teoria. Stekel e tantos outros criaram uma diáspora em torno de Freud. durante los últimos años. durante a década de 30. citado por Henry W. os dados etnográficos necessários para a elaboração de hipóteses e especulações.. plenas de um grande potencial. por sua vez. No entanto. os já mencionados Ralph Linton e Cora DuBois. Los llamados “neofreudianos” (Horney. Editorial Paidós. Del estudio de la bibliografía antropológica. cabe lembrar que na década de 30 a psicanálise estava (como ainda hoje está) longe de poder ser considerada um movimento unificado. por exemplo. também estavam organizados em torno de um fértil campo de debates e divergências teóricas.

predominante entre os membros de uma determinada cultura. Foi a partir dessa necessidade que Kardiner construiu a noção de personalidade básica. ou dar maior importância. Sullivan. esse modelo designará de maneira ampla a tendência psíquica para a formação de relações interpessoais. por exemplo. como sendo a típica personalidade modal. Foi a partir dessa postura que. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 119 . infestadas ideologicamente. extremamente heterogêneos. que Kardiner voltou-se atentamente para o estudo das instituições que os diversos sistemas culturais elaboravam com uma grande riqueza de matizes e variedades. não implicou em um abandono total do modelo pulsional (o que seria uma impossibilidade teórica). os desenvolvimentos da antropologia devem ser considerados como um avanço. Desse modo. embora as conclusões então obtidas na investigação etnopsicanalítica atualmente possam ser consideradas elementares. Retornando à contribuição de Kardiner. cit. apesar do afastamento. neste texto.mecanismos da cultura e da psique humana. Cabe não esquecer que. 155 O conceito de instituição foi definido por Kardiner. Abraham Kardiner. como se torna evidente pela sua simpatia por psicanalistas tais como Harry Sullivan e Karen Horney. que goza de aceptación común y cuya violación o desviación crea ciertas perturbaciones en el individúo o en el grupo”. ob. tais dados. de certo modo. em um processo de 154 A noção de modelo estrutural-objetal será tomada. adotar. p. diante disso. como Fairbairn e H. em termos mais simplificados. a uma teoria que contemplasse mais o papel das relações objetais 154 e sua influência nas vicissitudes da psique humana (mais adiante falaremos de dois modelos básicos na psicanálise: o orientado para as estruturas pulsionais e o orientado para as estruturas objetais). 47. Foi aquele período um dos momentos férteis da antropologia e. nas primeiras décadas do século XX. pode-se observar que este pesquisador aparentemente distanciou-se da ênfase dada por Freud às estruturas pulsionais para.. Ora. em uma acepção ampla. Assim. deviam ser agrupados a partir de conceitos básicos e norteadores que lhes dessem sentidos e que fornecessem ao pesquisador uma capacidade de interpretação. da seguinte maneira: “un modo fijo de pensamiento o de conducta que puede comunicarse. As instituições155 responsáveis. em uma primeira versão. deve-se destacar o caráter de novidade com o qual se revestiram naqueles tempos. não serão discutidas as posições de psicanalistas tão diferenciados entre si. que passou a ser entendida. mas que de qualquer maneira têm um ponto em comum em sua oposição a aspectos do modelo estrutural-pulsional freudiano. as teorias raciais. correspondiam ao modo sancionado de percepção da alteridade na cultura ocidental e.

pode-se inferir que uma das funções das instituições secundárias seria a de fornecer bases para a exposição socialmente aceita. um derivado das primárias. a dar expressão cultural às configurações psicodinâmicas geradas a partir das instituições primárias. Por isso. mitologias e rituais da vida quotidiana existentes entre as culturas primitivas das quais se dispusessem dados etnográficos fidedignos. com inspiração nos conceitos explanados por Freud em seus estudos sociológicos Totem e Tabu (1912) Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). Kardiner analisou. Elaborando suas análises desde a matriz freudiana dedicou-se assim. pela formação da personalidade básica. com os dois grandes sistemas projetivos. abrangendo instituições primárias e secundárias. Chittó Gauer . as instituições secundárias. No entanto. os mais variados sistemas de crenças religiosas.mútua causação. minorou. por exemplo. mesmo não concordando integralmente com as interpretações 120 Ruth M. a uma escala monocromática. e “domesticada”. os estudos de Mauss e Durkheim devem ser analisados sem nenhuma espécie de reducionismo que os empobreça. como foi o caso do pensamento sociológico francês de início do século XX. por meio dos quais a “psicopatologia da vida quotidiana” encontraria um meio lícito de expressão. o folclore e a religião. tal observação deve ser complementada com o comentário de que é uma atitude problemática reduzir a riqueza e fecundidade de uma escola de pensamento. em grande parte. passaram a ser divididas. Por outro lado. O Porvir de uma Ilusão (1927) e O Malestar da Civilização (1930). As primeiras seriam aquelas instituições mais relacionadas com as fases iniciais de socialização do indivíduo. basicamente. de acordo com Kardiner. Isso é mostrado pela percepção sutil de Mauss quando se trata de vincular as normas da cultura à experimentação idiossincrásica que o indivíduo tem destas. por uma relativamente obscura lógica cultural. sob o rótulo de instituições secundárias. o acirrado sociologismo que campeava na escola sociológica francesa. por assim dizer. Partindo das premissas acima colocadas. em primárias e secundárias. Portanto. ao estudo de sistemas concernentes à mentalidade coletiva. das manifestações dos mecanismos inconscientes. seriam destinadas. Observe-se que o modelo de dupla causalidade. Tal se daria.

Siglo Veintiuno. 156 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 121 . participação na vida social. Malinowski já havia percebido. Marvin. A título de comparação. Porém. isto é. se manifiestan inconfundiblemente sus específicas represiones. Madrid. a la perversión o la aberración. o nível de envolvimento que o sistema de parentesco exige. Una historia de las teorías de la cultura. puberdade.) el odio reprimido contra el tío materno. e igualmente el de la magia muestra (.. quase com pretensões de exclusividade. nas ilhas Trobriand. observe-se que. 156 No entanto. todo um conjunto de crenças religiosas. por las costumbres y por las sanciones legales. alor. em si não ofereceu novidades. pomo. 157 Como se vê. um aspecto interessante que ressalta neste exemplo refere-se ao fato de termos. o fenômeno que depois seria analisado mais minuciosamente por Kardiner. afirmou Malinowski. indução à afetividade. a contribuição de Kardiner. El folklore de los melanesios refleja igualmente el complejo matrilinear. comanche. tapirapés. Como muito bem lembra Marvin Harris. o se manifiestan en qualquier otro de los acontecimientos dramáticos que de vez en cuando sacuden la vida rutinaria de una comunidad salvaje. tanala. embora nas atuais sociedades urbanas a família e No estudo das culturas marquesa. 157 Citado em HARRIS. normalmente contenidas por los rígidos tabúes. nas culturas primitivas. que “En esta versión completa de mis resultados psicoanalíticos tendría que ser capaz de demostrar que en la vida social. embora se destacando pelo aporte de novos dados etnográficos. os pressupostos mais gerais da abordagem de Kardiner já estão contidos nas assertivas de Malinowski. fatores de integração social. não chegou a representar uma abordagem totalmente inédita.do criador da psicanálise. navajos. Cabe observar. porém. ojibwas e outras. al igual que en el folclore de estos nativos. sistemas projetivos e outros. ordinariamente enmascarado bajo una actitud convencional de reverencia”. Este aspecto voltará a ser abordado adiante. Kardiner enfatizou diversos aspectos: cuidados maternos. em um escrito de 1923. Siempre que las pasiones. rivalidade entre irmãos. mitos. los cuentos de hadas y las leyendas. rompen los lazos tradicionales y llegan al crimen. matrimônio. 1985. disciplinamento precoce da sexualidade. na vida dos membros das comunidades primitivas.. 378. siempre esas pasiones revelan el odio matriarcal al tío materno o los deseos incestuosos respecto de la hermana. indução ao trabalho. contos populares e outros fatores tais como os apontados por Malinowski. que expressam inequivocamente disfunções latentes de natureza familiar. El examen del mito. p. El Desarrollo de la Teoría Antropológica. Assim.

principalmente o primitivo passa praticamente toda a sua existência atado aos deveres. fatores que ligavam diretamente as manifestações culturais aos fenômenos do inconsciente.as primeiras relações objetais continuem a ser tidas. apelando com exagerada exclusividade para os fenômenos de difusão. além desses aspectos. derivadas de estudos que seguiam outras matrizes teóricas. perfil sem o qual não teriam maior sentido do que se apresentarem como uma exótica coleção de dados aleatórios. por assim dizer. desfruta de oportunidades de evasão do ambiente primário de origem em uma escala muito maior do que o membro de culturas primitivas ou camponesas. Chittó Gauer . Este foi um aspecto diferencial em relação à causalidade desenvolvida pelo evolucionismo em seus mais variados matizes (inclusive o marxismo) em vista da ênfase dada aos aspectos biológicos ou tecnoeconômicos. nestas culturas urbanas. Considere-se. cabe registrar que. compromissos e relações de índole variada determinadas pela complexa estrutura de parentesco na qual se insere. continuam oscilando. Se estas oscilaram. entre uma maior ou menor ênfase no 122 Ruth M. Embora seja um fato intrínseco a todas as orientações antropológicas o de trabalharem dentro de um perfil de busca de nexos causais entre fenômenos aparentemente díspares (intra ou interculturais). os adeptos da orientação psicocultural acoplaram. às causalidades registradas. desvalorizou as interpretações causais intraculturais em função de uma versão mais simplificada sobre a gênese dos fenômenos culturais. Um dos aspectos nucleares do novo modelo de causalidade estabelecido pela orientação voltada para os estudos de cultura e personalidade reflete-se diretamente sobre o desenvolvimento interno das teorias psicanalíticas. qualquer indivíduo. direitos. que os trabalhos desenvolvidos pela escola de cultura e personalidade permitiram a elaboração de peculiares nexos causais no que se refere aos fenômenos da cultura. de certo modo. como determinantes na moldagem personalidade do indivíduo. pela maioria. que ocorreriam quase que exclusivamente pelo processo de difusão. de certo modo. Entre estes. obrigações. em princípio. de tal forma que praticamente nenhuma de suas atitudes em consonância com a “prova da realidade” pode ser analisada fora do caráter “familiar” que a impregna. O selvagem passa toda a sua existência. assim como. ou pelo difusionismo que. preso ou vinculado a essa unidade altamente inclusiva que é o sistema de parentesco.

e os objetivos de qualquer atividade mental.. pelo fato da importância atribuída à cultura e. é necessário colocar algumas observações mais pertinentes ao âmbito da psicanálise. do qual Freud é um dos grandes tributários. a grande importância que Freud atribuiu à equiparação da psicanálise com as ciências naturais. quando se coloca o problema de analisar a importância das relações objetais 158 GREENBERG. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 123 . a realidades construídas coletivamente. e MITCHELL. não poderia encapsular o homem em um restrito modelo biológico próprio do evolucionismo do século XIX. como Fairbairn. mais urgente. suas origens. “A pesquisa de Freud levou-o ao que ele via como as ‘profundezas’ da experiência humana. p. 1994. automaticamente fornecidos e compreendidos dentro da antiga teoria da pulsão”.papel das relações objetais frente à estrutura pulsional consagrada por Freud. requisitos gerados pelo corpo que fornecem a energia para. autores da área psicanalítica. quando Freud realmente tomou o problema do ‘ego’ e sua relação com o mundo externo e outras pessoas. que desenvolveram a partir das teorias kleinianas uma ênfase maior nas relações objetais (entendidas aqui como relações com objetos externos). 158 Portanto. por conseguinte. mas a investigação das pulsões e suas vicissitudes parecia o mais importante. em parte. Assim. às pulsões que eram manifestações da natureza biológica do homem. As relações objetais tinham que ser explicadas.) aqueles processos dentro de sua teoria das pulsões. passou a elaborar como um dos pontos centrais desta o conceito de pulsão. Ele não considerava as relações com o mundo externo e as outras pessoas sem importância. de certo modo compartilham da orientação antropológica psicocultural que. no início do desenvolvimento da teoria psicanalítica. por exemplo. de forma alguma. Neste ponto. a partir de múltiplas individualidades interatuantes. XII. significados e distinção não eram. Ao mesmo tempo. a orientação psicocultural parece ter lançado um forte impulso na direção de uma maior valorização das relações objetais na estruturação da psicodinâmica humana. Porto Alegre. Assim. para atraí-la a um âmbito próprio. não era de forma alguma aparente como posicionar (. Em trabalhos posteriores.. Relações Objetais na Teoria Psicanalítica. os antropólogos de orientação psicocultural deslocaram. Artes Médicas. Deve-se lembrar que Freud.

De fato. bastantes divergentes daquela linha que originalmente foi sugerida por Freud e à qual. pode-se entender que a maioria deles. como os antropólogos têm no conceito de cultura o fundamento para a elaboração de suas teorias. Cora DuBois e tantos outros para que isso ressalte como uma evidência. o modelo primordial de “busca do objeto”. nos determinantes filogenéticos de natureza biológica. e o trabalho 124 Ruth M. muito antes disso. configurando o entorno no qual o indivíduo estabelece suas primeiras relações. por ex. Fromm. onipresentes nas comunidades primitivas. Nas análises das autoras citadas. assim como em outros antropólogos da escola de cultura e personalidade. Sullivan e vários outros tentaram dar. Ruth Benedict (embora esta tenha sido influenciada em parte pela teoria da Gestalt). certa primazia às relações objetais. A opção. Totem e Tabu e O Mal-estar da Civilização são exemplos dessa influência.(com os objetos externos) na psicodinâmica. como já foi colocado. parece que o grande elo entre antropologia e psicanálise se deu a partir de um acordo em torno da importância das relações objetais. H. K. portanto. ou seja. Ora. ele se manteve apegado durante toda a sua carreira. Isso não quer dizer. da ênfase quase exclusiva posta nas pulsões e. para os processos de gênese e constituição do psiquismo humano. realizadas por Mead. de fora para dentro. transformam a noção de cultura em um conceito “sagrado”. em grande parte. Chittó Gauer . por esse último modelo. para a criança. não podem deixar de “invadir” e conformar a mente infantil imprimindo nesta. na associação que desenvolveram com a psicologia profunda. Muito elucidativas a esse respeito são as observações sobre os sistemas de parentesco na Nova Guiné (entre eles o sistema “em corda”. E. e particularmente por meio das obras “sociológicas” de Freud. deslocando para um segundo plano a questão das pulsões. No entanto. surgem posições. as marcas da personalidade grupal. o grande passo de união entre as duas disciplinas foi dado com a primazia atribuída às relações objetais. para o modelo (que compreende variações internas) de relações “objetais”. mais atada ao mecanicismo biológico e ao positivismo naturalista do século XIX. Basta examinar os trabalhos de Margareth Mead. ao mesmo tempo em que se estabelece. é claro. Fairbairn. Horney. os grupos familiares. Desse modo. em detrimento. que a ortodoxia freudiana. no âmbito da teoria psicanalítica.). não tenha exercido uma influência sobre a antropologia. e esse conceito aponta diretamente para modos de relação entre os indivíduos.

seria o da proibição do incesto. Os antropólogos debruçaramse sobre as culturas tribais para tentar compreender o outro. São Paulo. pensado às vezes como o “novo”. para Lévi-Strauss. em Totem e Tabu. por meio de um duplo movimento. temido ou fértil. enfrentando o mesmo enigma que Freud se propusera resolver em 1913. como características típicas. Nesse sentido. p. ainda que a escolha se faça pela singularização do insólito. a troca restabelece. Gilbert. devemos lembrar o pluralismo das representações. focalizando. examinado por Margareth Mead. 160 ELIADE. puderam ser verificadas. do extraordinário. Para esse assunto.desenvolvido por Kardiner e DuBois em Alor. Em Alor. nos antagonismos. São Paulo. por meio da qual se mantém como elemento dinâmico da estrutura familiar um sistema de relações baseado no antagonismo sexual. Tal evento originário. 129-296. Fronteras Psicológicas de la Sociedad. pp. as consequências da precoce rejeição materna que resultam. do novo. 48. as primeiras fases de socialização. posteriormente. a diferença. Martins Fontes. “o que é escolhido é implicitamente forte. 159 Lévi-Strauss. eficaz. das convicções ou das situações desestabilizadoras. Sexo e Temperamento.. Outro ponto importante para pensarmos as relações entre antropologia e psicanálise é a utilização do conceito de alteridade. Tratado de História das Religiões. Para aqueles que souberam demonstrar vivacidade no encontro dos contrários. Como diz Eliade. Mircea. em um tipo modal que apresenta vários sintomas reveladores de um bloqueio e não integração das etapas evolutivas. As Estruturas Simbólicas do Imaginário. dos quais deriva o lastro 159 O sistema “em corda”. fundador da sociedade humana. ob. com grande destaque. ver Cora Dubois In. cit. passam a pensar no outro. Este é um problema cultural e epistemológico muito complexo: o que seria ter a verdadeira compreensão do outro? Há. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 125 . afirma a existência de um evento originário. 1997. o detalhismo e a individualização cujas respostas adquirem sentido por meio dos arquétipos subjacentes. fortificando e atenuando. Assim. 1969. Cosmos. de gerações e de linhagens. nesta pergunta. como o que pode sempre revelar uma escolha para a exaurida civilização ocidental. mostra uma adaptação patológica da comunidade tribal. foi examinado um tipo de cultura no qual se encontram fortes distorções psíquicas constituindo a personalidade básica de seus membros. Para isso. 1970. em Estruturas Elementares de Parentesco (1949). na personalidade do indivíduo adulto. 161 DURAND. 160 Sempre que os antropólogos se deparam com as diferenças. na Nova Guiné. Durand 161 nos ensina que a força do imaginário está presente para indicar-nos tudo o que leve à tensão paradoxal. Assim. ver Margareth Mead. o que foi escolhido e revelado como tal torna-se eventualmente perigoso”. Abraham Kardiner. Editora Perspectiva. o diferente. Lisboa. como já referido anteriormente.

na diversidade exuberante que alicerça os fundamentos existenciais do homem moderno. nada mais exemplar do que o caso do homem da modernidade. Emmanuel. que foi erigido como categoria autônoma. Seguindo a via de aliar preocupações de índole teórica com problemas concretos. Petrópolis. o que possibilita um avanço em investigações sobre os mais variados temas. Merton. Vozes. O arquétipo e o detalhismo individualizador acoplam-se nas estruturas fundamentais e arquetípicas da mente. um não existente para si mesmo. 126 Ruth M. Sob este aspecto. onde as estruturas básicas da mente permitiram a interiorização de conteúdos heterogêneos em uma ambiguidade em que o local e o global puderam transmutar-se nessa outra coisa. a não ser que se pretenda erigir abstrações sem sentido. encerrado na totalidade pela qual é constituído. 1997. Ensaios Sobre a Alteridade. a identidade por meio da história individual é o processo cambiante da síntese eu-entorno. mas simultaneamente se complementa com ela. Chittó Gauer . muitos autores têm aberto portas de comunicação entre as disciplinas. É grande o número de autores que poderiam ser citados. Ao falarmos sobre alteridade. não apenas para observá-lo. Entre Nós. Marshall B. 162 quando afirma que “Um ser particular só pode ser tomado por uma totalidade se carece de pensamento”. do direito. Essa possibilidade ocorre por meio da lógica do descentramento. 162 LEVINAS. mas para apreender os limites de sua própria diferença. Para compreender tal fato. Para o ser pensante. Nesse sentido é possível dizer que esse ser seria uma inconsciência petrificada. das instituições. Este é um cosmopolita. Talvez caiba um destaque especial a Robert K. o incógnito.cultural que dá o molde a essa atitude detalhista. pensamos na expressão de Emmanuel Lévinas. tem permitido a utilização de uma prática interdisciplinar sem a qual não haveria uma compreensão mais alargada desses fenômenos sociais. São essas estruturas que impulsionam a construção do detalhe. entendê-lo e descrevê-lo. o estudo das organizações. a interioridade se opõe à exterioridade. Frente a esse quadro geral. O contato com a diferença possibilitou o deslocamento do homem para o seu próprio interior. separa-se do lugar onde se considera seguro e busca o incerto. da educação e muitas outras áreas. de tal maneira que esses dois termos não podem ser dissociados.

Clinard e Edwin Lemmert, 163 que dentro dos parâmetros da escola funcionalista, desenvolveram interessantes estudos sobre a anomia psicossocial, assim como a Erving Goffman, que muito contribuiu para a compreensão do comportamento humano em instituições, a partir da aplicação da micro-sociologia das instituições psiquiátricas. 164 Também não cabe desprezar a contribuição de outros, que como Goffman são herdeiros da chamada Escola de Chicago, tais quais Morris Janowicz (instituições militares), Howard Becker (profissões e desvio social) e, no que se refere à psicanálise de orientação culturalista, K. Horney e E. Fromm. No caso da etnopsicanálise, a investigação dos quadros culturais auxilia em muito a compreensão dos padrões de comportamentos considerados normais ou desviantes nas diferentes sociedades. Um dos trabalhos que podem ser referidos no marco de uma visão transdisciplinar que alia sociologia, antropologia e psicanálise, foi realizado por Erik H. Erikson. Este autor, escrevendo sobre temas concernentes à infância, identidade e crise social, nas décadas de 50 e 60, realizou um excelente diálogo entre valores sociais e a identidade individual. Segundo Erikson, “as formulações originais de Freud, referentes ao eu e sua relação com a sociedade dependem necessariamente do estado geral da teoria psicanalítica”. 165 Com isto, Erikson busca acentuar o fato de que a obra de Freud se presta a múltiplas leituras, e, em última instância, será a relação da psicanálise com os processos sociais mais amplos que irão determinar o predomínio desta ou daquela interpretação do pensamento freudiano. Esta relativização “epocal” aplicada para as análises do pensamento de Freud é de máxima importância, e nisso desempenha um papel fundamental a constante atualização da teoria psicanalítica frente aos avanços da etnologia e ao aporte de dados etnográficos. Tal atualização pode se dar na medida em que o psicanalista se volte, a partir de um enfoque psicocultural, para os fenômenos da cultura em suas múltiplas idiossincrasias e variações. Mas, quando se fala em dados etnográficos, deve-se registrar que no momento atual estes se referem, quase que exclusivamente, a elementos da atual cultura urbana e civilização industrial.

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Ver Marshall B. Clinard, Anomia y Conducta Desviada, Buenos Aires, Paidós, 1967. GOFFMAN, Erving, Manicômios, Prisões e Conventos, São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. 165 ERIKSON, Erik H, Identidad, Juventud y Crisis, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 38.

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Com isto levanta-se o fundo de crise no qual a sociedade ocidental se move nos tempos contemporâneos. Em face disso, a necessidade de autoreflexão parece ter adquirido uma importância cada vez maior, e tudo se dá como se um sentimento de perplexidade e insegurança estivesse enraizado na realidade cultural de nossos dias. Tal estado de espírito se reflete, como não poderia deixar de ser, no pensamento social que inclui áreas tão variadas como psicanálise, filosofia, história, sociologia, antropologia e outras. Assim,

retrocedendo algumas décadas, não podemos deixar de lembrar a influência que o pensamento de Sartre exerceu sobre a geração pós-guerra. O elemento de fascínio contido nas reflexões filosóficas desse autor emana diretamente de sua concepção do homem, que o situa em uma dimensão de facticidade e contingência. Ou seja, elimina-se a possibilidade de uma transcendência que dê sentido e justificação à existência humana. Nega-se assim todo um passado metafísico que alicerçou a civilização ocidental. Não há mais transcendência que justifique a existência humana. Tudo se dá no reino do fático e da gratuidade. Pois bem, o pensamento sartriano é importante na medida em que aponta para um sentimento que existe em estado difuso no homem do século XX, e que se reflete, no tempo contemporâneo, das mais diversas maneiras. Assim, por exemplo, a importância da busca de soluções mágicas impõe-se cada vez mais, como é possível verificar mesmo em uma análise superficial. Nega-se a racionalidade, vista como geradora da cultura tecnológica e desumanizante, em nome de modos filo e ontogeneticamente arcaicos de pensamento.

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Ruth M. Chittó Gauer

XII A sedução da objetividade: natureza & cultura

Para Lévi-Strauss, 166 “a ausência da norma parece oferecer o critério mais seguro que permita distinguir um processo natural de um processo cultural”. Na concepção do autor há um círculo vicioso ao se procurar na natureza a origem das regras institucionais que são inscritas na cultura e que dificilmente pode ser concebida sem a intervenção da linguagem. Refere que “a constância e a regularidade existem, a bem dizer, tanto na natureza quanto na cultura. Mas a primeira aparece precisamente no domínio em que a segunda se manifesta mais fracamente, e vice versa”. 167 A objetividade utilizada pelo autor leva a pensar na permanência tanto da herança biológica quanto da tradição cultural. A ser assim, nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre fatos da natureza e da cultura, além do mecanismo da articulação deles. Esta reflexão, no entanto, oferece a possibilidade de identificar a presença ou a ausência da regra dos comportamentos não sujeitos às determinações instintivas. No caso da presença da regra há a sobreposição da cultura sobre a natureza, diferentemente do pensado pelos evolucionistas do século XIX e do início do XX. A presença da norma indica que o conjunto complexo de crenças, costumes, estipulações, instituições, em todas as sociedades, é o que o autor designa como proibição do incesto. Essa proibição apresenta, sem o menor equívoco e indissoluvelmente reunido, os dois caracteres nos quais reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas, isto é, constituem uma regra, mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao mesmo tempo caráter de universalidade. Esta premissa defendida por Lévi-Strauss permite pensar que a etnologia contemporânea, em sua grande parte, defende a tese segundo a qual todas as sociedades sancionam com penalidades variáveis, podendo ir da execução dos culpados à reprovação difusa, e às vezes até à zombaria. É fundamental compreender que o tabu adquire características específicas em cada sociedade, no entanto, a norma é universal. Se há sociedades que permitem o casamento entre irmãos, elas estão acordadas no direito de uma concessão de

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LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., p. 46. LÉVI-STRAUSS, Claude, op. cit., pp. 46-47.

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entre outros parentes próximos. o irmão. Inclui-se nas sociedades ocidentais a auréola de terror respeitoso sobre as coisas sagradas. o pai. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. as metamorfoses das normas sociais. Claude.primogenitura. Chittó Gauer . já que ninguém explicita essa proibição? Os pais não verbalizam aos seus filhos que é proibido desejar ou desposar a mãe. entre elas. indicados pelo autor (Egito e Japão em período antigo). Nos exemplos de casamentos entre irmãos. Ao ultrapassar a natureza cria condições para se compreender esta outra forma de natureza que é também cultural. e na forma metafórica o abuso de menores. uma transgressão que provoca horror e repulsa. Partindo destas premissas podemos dizer que essa norma apresenta-se à reflexão com toda a ambiguidade que. com ela. Se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. A proibição do incesto possui ao mesmo tempo a universalidade das tendências e dos instintos e o caráter coercitivo das instituições. mesmo tendo em conta a sua dinâmica social e. explica sem dúvida o caráter sagrado da norma enquanto tal. cit. ninguém pensa em proibi-la. consta o incesto em sua forma cultural instituída pela tradição judaica cristã. Se por um lado a natureza impõe a aliança. É alguma coisa que se coloca como impossível de acontecer. a irmã. Uma das dificuldades da nossa reflexão sobre a questão da norma deve-se ao fato de vivermos em uma condição de dependência delas. 48-49. 130 Ruth M. Quer sejamos críticos ou liberais.. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? No caso da sociedade contemporânea ocidental. uma monstruosidade. op. e de maneira significativa. temos vivido com a ideia de que existe uma condição de dependência da 168 LÉVI-STRAUSS. quando ocorre é visto como inaudita. por outro não a determina. pp. Ela transcende o ato reprodutivo que se encontra no campo da natureza. Pode surgir a pergunta: por que o incesto é proibido. 168 a universalidade não é menos aparente do que o caráter normativo da instituição. o que se verifica é uma ampliação da função das normas. em um plano diferente. os tios. essa proibição não é verbalizada. O exemplo anteriormente citado é um fenômeno que apresenta ao mesmo tempo o caráter distintivo dos fatos da natureza e o caráter distintivo – teoricamente contraditório do precedente – dos fatos da cultura.

123127. positivismo. trata-se de constatar que. incluindo a literatura. os cientistas sociais lutam com uma nova ciência política desprovida de valores enquanto novos mitos sociais “chocantes” provocam desordens em todo mundo. “Na verdade”. Esse fato contribuiu para o surgimento de uma sociedade de litígios. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 131 . In. mas todos os domínios do intelecto.norma. entre outros temas do mundo da academia. Cheguei a mim”. as questões teológicas passaram a não ter sentido. que afetou não só a ciência. o homem tornou-se problemático e não apenas bom. Franklin L. 170 Apud BAUMER. ao invés de diminuirmos as funções da norma. A norma fundante exprime e constitui um sistemático universo de leis que se correspondem em domínios e níveis diferenciados. o exemplo mais emblemático pode ser constatado pelo enorme aumento de processos. Raça e história. o universo passou a ser misterioso. escrevia em 169 POUILLON. vivemos em uma sociedade onde o direito – pensado como conjunto normativo das relações sociais – tornouse o modo mais corrente de resolução de conflitos. Qual o sentido da regulação e da regulamentação social que se revestem de ideais normativos de conduta? Mesmo que muitas das normas sociais permaneçam semelhantes no decorrer da história. Para Pouillon. a natureza tornou-se longínqua. John Galsworthy. Jean. Lisboa. 170 É provável que muitas pessoas não possam prescindir que se fale sobre romantismo. assumem significados sociais diferentes. hierarquias variáveis. 1990. Lisboa. “seria demasiado dizer que cheguei à psicanálise. pp. Edições 70. disse Mann. ou um movimento psicanalítico. 1952. Claude Lévi-Strauss. O autor que prefaciou a obra “O mundo como Comédia”. v. no entanto esse princípio não esgota todas as suas modalidades. Nesse sentido a cultura pode ser pensada como a comunicação regulada e regulamentada. não se trata de discutir a sua exclusão. além de deslocamentos contínuos. a que Thomas Mann chamou de “um movimento mundial”. surrealismo. Se. mau ou indiferente. 169 o humanismo jurídico está posto em causa: já podemos prescindir da norma? Ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. a arte e a religião. A ser assim. Presença. O pensamento europeu moderno. na contemporaneidade. Cada universo social exprime inteiramente o princípio social que o fundamenta. existencialismo. II. Mas existe um sentido em que o poder foge à concepção “normal”.

58. pois ao mesmo estado cerebral corresponderiam estados psíquicos diversos. sugerem uma hipótese mais sutil relativamente à correspondência entre estado psicológico e estado cerebral. o homem é inominável. Chittó Gauer . a afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico era coisa totalmente diferente. Conferências e Outros Escritos. Assim. ela apenas o exprime numa outra língua”. já não podemos confiar de modo absoluto em Deus. examinados sem pressuposições matemáticas. e menciona que a ideia de uma equivalência entre o estado psíquico e o estado cerebral correspondente permeia uma boa parte da filosofia moderna. 1974. desenharia as articulações motoras dele. Destaca que era interessante para a fisiologia vincular-se a esta tese. Os Pensadores – Cartas. O pensamento europeu moderno. 49. Alguns admitem a equivalência ou o paralelismo das duas séries. Assim. Os fatos. a recíproca não era verdadeira. que é também fruto da impossibilidade de se nominar o humano. Trad. 171 Faz-se necessário complementar a sua posição dizendo que nem o psicologismo. Bergson 172 reconheceu o problema dos muitos egos e da dificuldade de juntá-los em um único. Entretanto. 1990. pois não se tratava de uma regra científica. “a consciência não diz nada mais do que se passa no cérebro. Apud BAUMER. mas de uma hipótese metafísica. Ela deriva em linha direta do cartesianismo. “O cérebro e o pensamento: uma ilusão filosófica”. Há uma verdadeira descrença. Dado um fato psicológico. Abril Cultural. seria possível a determinação do estado cerebral concomitante. no casamento. para fixar as ideias. Franklin L. Franklin Leopoldo Silva. BERGSON. v. a tese poderia ser formulada no sentido de que a um estado cerebral corresponde um estado psíquico determinado ou. II. nem o ceticismo descrevem de uma forma convincente a nova mentalidade surgida nos finais do XIX. como se ela fornecesse a tradução fisiológica integral da atividade psicológica. São Paulo. nas diferentes formas de energia. nas classes sociais”. Edições 70. pp. Bergson sustenta não haver dúvida sobre as origens metafísicas desta tese. nas palavras do autor. Contudo. 172 171 132 Ruth M. o estado cerebral somente exprimiria ações que se encontrassem pré-formadas no estado psicológico. Henri .1926: “Como agora tudo é relativo. que se aprofundou no século XX. Lisboa. nos títulos da dívida pública. no livre comércio.

oferecida pela consciência humana. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 133 . e que as articulações do real são as mesmas de nossas representações. Henri. Somos aqui 173 BERGSON. Trata-se de duas maneiras diferentes de compreensão do real. representam duas noções do real. O realismo fala de coisas e o idealismo de representações. abandonando um ou outro no exato momento em que estamos para ser surpreendidos em flagrante delito de contradição. O realismo repousa na hipótese inversa. 3o) a tese do paralelismo somente é sustentável se os dois sistemas de notação fossem empregados ao mesmo tempo: “ela só parece inteligível se. que por trás da percepção do atual há poderes e virtualidades ocultos: é. passamos instantaneamente do idealismo para o realismo. propondose a estabelecer três pontos: 1o) a opção pela notação idealista implica contradição com a afirmação de um paralelismo (equivalência) entre os estado psicológico e o estado cerebral. Dizer que a matéria existe independentemente de nossa representação é pretender que sob nossa representação da matéria há uma causa inacessível desta representação.“A afirmação dogmática do paralelismo psicofisiológico implica um artifício dialético pelo qual se passa sub-repticiamente de certo sistema de notação para o sistema oposto. podemos escolher. entre dois sistemas de notação. enfim. cit. segundo Bergson: “o idealismo é um sistema de notação implicando que todo o essencial da matéria é mostrado ou mostrável na representação que dele temos. com efeito. As palavras realismo e idealismo. sem levar em conta a substituição”173: quando falamos de objetos exteriores. 2o) na notação realista estará transposta a mesma contradição. E os dois sistemas são aceitáveis contando que se adira estritamente ao escolhido. Afirmou o autor que todos concordariam com o fato de que os dois postulados se excluem. em termos convencionais. op. Podemos tratar esses objetos e as mudanças que se operam neles como as coisas ou representações. afirmar que as divisões e articulações visíveis em nossa representação são puramente relativas à nossa maneira de perceber”. Em suma. sendo que uma implica a possibilidade e a outra a impossibilidade de identificar as coisas com a representação. desdobrada e articulada no espaço. por uma mágica intelectual inconsciente.

um movimento recebido pelo organismo que vai preparar as reações apropriadas. todos os objetos percebidos sem que nada mude no que se passa na consciência. Para o idealismo. op. pois este é o estado cerebral causado pelos objetos e não pelo próprio objeto. Bergson concebe. uma vez de posse do estado cerebral. não poderia. Chittó Gauer .naturalmente mágicos. O cérebro não esboça as próprias enquanto a primeira preenche totalmente o campo da representações. pela sua própria colocação. esboçar a totalidade da representação a não ser que deixasse de ser uma parte para tornar-se essa totalidade. que determina a percepção do consciente. Mas a verdade é que se passa inconscientemente de um ponto de vista idealista a um ponto de vista pseudo-realista. 134 Ruth M. Formulada em uma linguagem rigorosamente idealista. suprimir. Nada há nas coisas além do que é mostrado ou do que é mostrável na imagem que elas apresentam. pois o problema em pauta. sendo ele uma representação. Fazer dos estados cerebrais o equivalente das percepções e das lembranças consistirá sempre em afirmar que a parte é o todo. As imagens do mundo exterior e o mundo intercerebral são supostamente de mesma natureza. O deslizamento do idealismo para o realismo é favorecido por muitas ilusões teóricas. os dois pontos de vista do realismo e do idealismo. contudo. cit 58-59. representação. a tese do paralelismo se resumiria nesta proposição contraditória: a parte é o todo. 174 BERGSON. e por outro lado questiona se a função do cérebro se reduziria a sofrer certos efeitos das outras representações e a esboçar as articulações motoras. 174 A tese do paralelismo consistirá em sustentar que podemos. Henri. não se deixaria levar tão facilmente por elas se não fosse encorajado pelos fatos. numa representação”. sugere-nos. sendo a questão psicofisiológica das relações entre o cérebro e o pensamento. por um golpe de mágica. que a modificação cerebral seja um efeito da ação dos objetos exteriores. na hipótese idealista. e a segunda imagem é uma ínfima parte do campo da representação. uma vez que o termo ‘cérebro’ nos faz pensar numa coisa e o termo pensamento. os objetos exteriores são imagens e o cérebro é uma delas.

O olho e o espírito. os movimentos cerebrais em equivalentes de toda a representação. Também implícita é a ideia de que se duas totalidades são solidárias. pois. o quadro que responde a todas estas faltas.Aprofundando os dois sistemas. no espaço. Conservamos o cérebro tal qual é representado. só tem que se dilatar no espaço restrito da superfície do cérebro. e vê os quadros dos outros. de alguma forma. cavaleiros dos sistemas reunidos em um só. a cor que o quadro espera. Grafilarte. verdadeira ‘câmera escura’ em que se reproduz em tamanho reduzido o mundo circundante”. podemos pensar na hipótese de que o realismo não é mais do que um ideal destinado a lembrar-nos que nunca aprofundaremos suficientemente a explicação da realidade e que deveremos estabelecer relações mais íntimas entre as partes do real que se justapõem. a nossos olhos. Tendo por premissa que o realismo não pode ultrapassar o idealismo em suas explicações. 1997. as respostas outras a outras faltas”. 25. cada parte de uma é solidária a determinada 175 MERLEAU-PONTY. enquanto o realismo tem estes dados por superficiais e estas divisões por artificiais. isto é. e. veríamos que o idealismo tem por essência o fato de se deter no que está dado no espaço e nas divisões espaciais. se o real está desdobrado na representação. uma vez feito. mas tão rapidamente que nos acreditamos imóveis e. p. e vê. e o que falta ao quadro para ser ele próprio. do idealismo ao realismo e do realismo ao idealismo. o que significa que o cérebro não é uma entidade independente. Oscilamos. Disso passa bruscamente para uma realidade que seria subjacente à representação: ela é subparcial. e aquilo que falta ao mundo para ser quadro. Neste sentido podemos lembrar Merleau-Ponty175 quando afirma: “o olho vê o mundo. erigimos. sobre a paleta. sem se alterar. Esta aparente conciliação de duas afirmações inconciliáveis é a própria essência da tese do paralelismo. mas esquecemos que. então. Lisboa. A relação do cérebro ao restante da representação era então a parte do todo. uma concentração da representação na substância cortical: “A consciência. estendido nela e não contraído nela. para perceber o universo. ele não pode mais encerrar as potencialidades e as virtualidades de que falava o realismo. A ideia implícita (inconsciente) é a de uma alma cerebral. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 135 .

por que ainda não podemos prescindir da norma como poder de punir da mesma forma que negamos outros valores? A reflexão dos modernos sobre castigo e poder se desvinculou da cosmovisão hierarquizada. entretanto. 136 Ruth M. mas nem por isso anula a distância que separa o autor e o nomos. Coimbra. A hierarquia a que a virtude antiga se referia desapareceu e o mundo substancial se retraiu. ou um movimento psicanalítico como referi no início. e também não com a sociologia dos costumes que levou vários contemporâneos a considerar toda e qualquer norma como um produto histórico relativo ao estado de uma sociedade determinada. 2003. Bergson procurou destacar a contradição inerente à própria tese do paralelismo. como uma variação de estado cerebral não acontece sem uma variação do estado de consciência. A Invenção do gosto na era democrática. Então. A concepção moderna nem por isso permaneceu menos apegada à ideia de uma transcendência da lei em relação aos desejos do indivíduo. A ética do poder de punição da lei não se confunde com a psicologia.parte de outra. Segundo Luc Ferry. A ideia de autonomia supõe que a lei seja a minha lei. Por meio da análise que ultrapassa idealismo versus realismo. Esse fato ocorreu por meio de um esforço que tem o mérito do dever imposto pelo imperativo respeito à lei. e que os dois termos são. intercambiáveis”. Bergson concluiu que “a qualquer fração do estado de consciência corresponde uma parte determinada do estado cerebral. Se ninguém precisa dizer que houve uma revolução na física no século XX. como uma lesão da atividade cerebral provoca uma lesão da atividade consciente. isto é. 286. o si próprio e a norma. 176 “Estudos realizados nos 176 FERRY Luc. portanto. Almeida. termos em que a ética moderna se formulou. Chittó Gauer . como não há estado de consciência que não tenha concomitante estado cerebral. enfim. pela sua universalidade e pelo seu estatuto transcendental. e a razão prática. a ser exterior ao homem empírico. Reconheceu o problema dos muitos egos e a dificuldade de juntá-los em um único. A relação do estado cerebral com a representação poderia muito bem ser a do parafuso com a máquina. da parte com o todo. p. Homo Aestheticus. continua.

o narcisismo se haviam apoderado das questões morais tradicionais”.Estados Unidos e na França revelam que após os anos 60. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 137 . o hedonismo.

desde seu início. objetividade. neutralidade e generalização. A experimentação trouxe a primazia da técnica. assim como muito de otimismo acerca das vantagens que o conhecimento traz para a humanidade. Sob esse enfoque. Publicações Europa-América. advertidos de que decisões sensatas provêm de uma cabeça fria e de que emoções e razão jamais se misturam. universal e eterno. As premissas que embasaram essa concepção de ciência e que serviram como pressupostos para o direito estão estruturadas na experimentação. é possível concordar com a ideia de que a ciência. via de regra. no entanto. Lisboa. juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente. Antônio Damásio 177 sugere que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade. Chittó Gauer . além de elucidar. As tradições políticas modernas. As emoções e os sentimentos. O Erro de Descartes. não atingiram a forma tradicional de pensar de vários campos do conhecimento. 2000. Não é por acaso que somos.XIII A Ilusão Totalizadora e a Violência da Fragmentação A ciência moderna criou premissas e métodos vinculados a uma verdade totalizante. da matemática. O fim das certezas chegou ao campo da física. assumiram explicitamente não apenas a necessidade de um sentimento comum racionalizado e homogeneizado. Antônio R. Neste sentido. Essas premissas se complementam e demarcam o conhecimento científico. a objetividade sustentou o discurso da neutralidade do cientista assim como a do juiz. e muitos outros. 138 Ruth M. é cega a respeito de sua própria aventura. auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões para um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. 177 DAMÁSIO. entre outros. Sabemos que as pesquisas com base na ciência moderna levaram os muitos avanços em todos os campos do saber. Prigogine. A perspectiva largamente difundida era a de que existiam sistemas neurológicos diferentes para a razão e para a emoção. Há muito de crença nas verdades científicas. Max Planck. O conhecimento foi tido como absoluto. as teorias desenvolvidas por Einstein. pelo menos de forma substancial. cabal. a tentação inicial foi a de fazer valer a vida comum dos homens naquilo que se poderia chamar de uma mútua partilha de verdades. mas não chegou ainda nas ciências sociais aplicadas. da neurociência.

Não é por acaso que muitos intelectuais atribuem ao direito moderno a condição de aplicação da racionalidade e da burocracia institucional. Esse estado. foi o jurista.. Ariadne Editora. 1979. Armênio Amado. E é esta ideia de soberania do direito que permitiu ao autor 180 afirmar que Kelsen pode defender na sua teoria pura do direito a identidade entre o estado e a própria ordem legal por ele sustentada. KELSEN. 178 O autor descreve. assim como neutro diante dos eventuais conflitos sociais. Vozes. 181 MAFFESIOLI. podemos afirmar que o cientista. Na contemporaneidade a soberania do estado passou a ser a soberania do direito. A estrutura da sociedade moderna está pautada no direito tal como foi analisado por Max Weber na obra O cientista e o político. 178 179 WEBER. Coimbra. apagou a estética do mundo delimitado". O Político e o Cientista.mas também o culto das instituições. ed. João Baptista Machado. (Coleção Sophia 002). Teoria Pura do Direito. pp. ao perder o poder político que o caracterizava. que afirma: "não é o estado que é soberano. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 139 . responsável pela construção do estado moderno. Michel. Presença Ltda. religiosos e culturais que ocorreram no seu interior. Max. 121-122. 4. surge como tendencialmente neutro e não interveniente diante de uma sociedade que se desorganiza a partir de si mesma. principalmente das instituições jurídicas. mas o próprio direito". 181 quando refere: "o desencantamento do mundo. Com esse enfoque poderíamos afirmar que o sentido do político pode ser pensado como descrito por Maffesoli. Seguindo as reflexões do autor. Metamorfoses do poder. 180 SÁ Alexandre Franco de. Essa visão nos leva a pensar sob outro enfoque a crise do direito e do estado que. próprio da modernidade. neutro e liberal.. Trad. disposto pelo princípio do laisser passer diante das leis imanentes à organização econômica e técnica da sociedade. Lisboa. 1919) foi aceita pelo autor. o papel do cientista e do jurista na construção do estado e das instituições modernas. sem as quais esse sentimento se fragmentaria. A ideia moderna de estado (Krabb. 1979. A presença do jurista permitiu a organização de todas as instituições laicas na modernidade. Petrópolis. de forma precisa. é que permite a emergência de um poder total. A preocupação com a fragmentação talvez seja um dos problemas que leva à manutenção das tradições de forma conservadora. Hans Kelsen 179 defendeu a identidade entre o Estado e a própria ordem legal com base nesta premissa. Trata-se do estado liberal. No fundo das aparências. 2004. pp. Hans. Coimbra. 30-31. 1996.

Mesmo os fatos mais evidentes. que reivindicaram para si a verdade como substância afirmada em si e negada no outro (a seu tempo excluído como alguém infiel). como diz Rui Cunha Martins. racionais. In. A experiência vivida vem apresentando outras lógicas. como elemento estruturador das sociedades ocidentais modernas. dilacera-se frente à corrosão da própria lei. a exemplo do estado. p. Modos da Verdade. como tentativa de eliminar a sacralidade. é.Podemos dizer que a experiência coletiva acumulada levou à constatação de que as grandes máquinas institucionais. a prática utilizada é a extirpação de elementos que impeçam a explicitação daqueles fatores que poderiam conotar um problema para o convencimento do que se quer que seja tido como verdade. matrizes da sociedade ocidental moderna. portanto. No entanto. 182 140 Ruth M. O exemplo da soberania. 23. o mais desconcertante nessa tese é que se pode considerar como conservadora a ideia de soberania do direito e da neutralidade do estado. ela foi exaustivamente atestada por grandes filósofos. GIL. A soberania só pode ser entendida enquanto legitimidade do poder do estado: hoje é possível pensar neste poder soberano? A estrutura jurídica se fez a partir da secularização. em sentido quase estrito da linguagem. Em toda a argumentação realizada em qualquer âmbito. v. chamados no âmbito judiciário de flagrante delito. A evidência. mas que assumiram uma verdade. 2002. Revista de História das Ideias. Esta verdade é excessiva por natureza. A soberania das formas institucionais. o princípio secularizador. impossível torná-los visíveis em sua totalidade e também para todos. racionais e mecânicas. de Duns Scot a Husserl. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Fernando e MARTINS. carregam uma nebulosidade que os impede de ser totalmente transparentes. 182 é uma alucinação dos sentidos. o direito penal continua usando a premissa da evidência dos fatos. vista enquanto legitimidade de poder legalmente constituído. 19-20. notórios. nas quais outras sensibilidades e solidariedades engendram novas formas de experiência social. que está inserida nos aparelhos de estado. Rui Cunha. Porém. demonstram ser ineficazes para atender a demanda da complexidade atual. está há muito tempo indicando a sua ineficácia. constitui-se. índice de si mesma. portanto. Chittó Gauer .

Fernando Gil 183 analisa a questão da evidência dizendo que "o direito garantista é um outro sistema de constrangimento imposto à evidência. Modos da Verdade. Esse mal endógeno da máquina jurídica precisa ser revertido. O tempo do direito. 1999. Revista de História das Ideias. 185 OST. a preocupação das garantias está na defesa de que a visibilidade do fato não antecipe a decisão judicial. mas sempre dotado de valor) é eminentemente arbitrário e. deixa transparecer uma reivindicação de ordenamentos sociais mais justos. Piaget. 26. Rui Cunha. 23. Stuart. GIL. nas ciências do direito". In. A identidade polarizada. que não consegue cumprir o seu projeto. o conceito de justo (conceito relativo. 184 fruto da multiplicação. Lisboa. 1997. Como se sabe. DP&A. Já não se acredita no devir. se problema real ou ficção discursiva é outro assunto. dos meios e dos resultados possa conduzir a outros critérios de oportunidades. 183 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 141 . e transformação contínua nos sistemas culturais. Ost 185 refere que "o direito tradicional dá lugar ao direito excepcional e ao homem vitimado inscrito e datado numa sociedade onde há um elevado nível de desordem simbólica". denuncia a impotência do Estado. Esse é um problema geral para os governos atuais. Esses fatores levam ao tempo da insegurança. 2002. Fernando e MARTINS. tal como analisada por Hall. Rio de Janeiro. v. Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. por outro lado. vista mais especificamente como criminalidade. Impõe-se o imperativo de uma nova gestão pública. portanto não se acredita no projeto (muitas vezes mais anunciado que desejado) de unificar e equilibrar a sociedade. a violência. De modo geral. é "celebração móvel". por meio de sua neutralidade e imparcialidade. Para tanto se faz necessário equilibrar o tempo da promessa com o tempo de requestionamento. O sentido da racionalidade é sempre esse. em que o caráter problemático dos fins. que nos aproxima ao estado de natureza. O século XX revelou que a garantia pretendida por esses princípios foi desmontada pela realidade empírica divulgada em tempo real. 184 HALL. p. Entre tantas inseguranças temos a insegurança jurídica.A tradição jurídica tende a agir frente ao flagrante delito deslocando para o juiz a responsabilidade de julgar uma verdade tida como óbvia. um tempo diferente do tempo da segurança. A identidade cultural na pós-modernidade. no qual prevalece o estado de direito. Na tramitação do processo. François.

e. A flexibilidade das prestações e a precariedade dos empregos. A insuficiência da lógica 142 Ruth M. dos meios e dos resultados. impossível de ser explicada sob o olhar de uma só ciência com base na “verdade" absolutizada e na imparcialidade do julgador. marcado pela racionalidade falível. Dessa forma ocorre a heterogeneidade do elo social. A produção normativa. Chittó Gauer . Qual seria o remédio. novas questões se fazem presentes. principalmente no campo das humanidades. Uma nova gestão implica a integração da incerteza e da indeterminação dos valores. O direito deu lugar à relação frente a frente. Caminharíamos para uma insegurança que nos levaria a um estado de natureza? Sabemos que a insegurança jurídica é um mal endógeno da máquina jurídica. o dever ser jurídico? Há consciência de que um fator de segurança importante é o equilíbrio do tempo da promessa com o tempo de (re)questionamento. a nova direção das condutas é vista como um problema a construir. operacionaliza de forma a dirigir os critérios de oportunidade que resultam das condições "reais" dos contextos de implementação. Toda e qualquer forma de ilícito pode ser considerada um fenômeno complexo. vista como uma inversão temporal. assim como todos os campos de saber. bem como a duração dos códigos e das instituições. A organização política estruturada no direito moderno já não possui a eficácia do controle social. ciência e direito. separou ciência e política. Impõe-se o imperativo da gestão pública: o direito apresenta características do (re)questionamento e da temporalidade. essa gestão deve assumir o caráter problemático dos fins. As transformações nos levam a constatar uma ausência de controle. que deve ser (re)questionado a todo instante. do estado de direito já não existe. tal como se acreditava nos séculos passados. dão lugar a um tempo que é percebido como que em frangalhos. No entanto. ora a violência. Dos finais do XIX aos nossos dias a discussão em torno da insuficiência teórica da ciência se constituiu no grande debate. própria da modernidade. portanto. gerando ora a comunhão. impondo o imperativo de viver o dia-a-dia para todos os segmentos da sociedade. O tempo da segurança.Frente a essa complexidade. desde Kant tentou-se superar essa dicotomia. Um dos diagnósticos mais claros dessa crise é o declínio do político. A dicotomia sujeito-objeto.

as tensões nos remetem a pensar sobre o cansaço da civilização.cartesiana para explicar fenômenos complexos é uma constatação. Derrick de. sentimentos. próprias para compreensões (ou compressões) subjetivas. 187 em que faz uma comparação entre a passagem bíblica da destruição da Torre de Babel e das muralhas de Jericó e uma “catástrofe de software”. Relógio D'Água Editores. pode ser pensado por meio da ilusão midiática. A complexidade destas problemáticas implica visualizar um número considerável de eventos caracterizados como exemplos de globalização. e esse cansaço talvez seja um dos elementos para diagnosticarmos as vivências dos homens na atualidade – o homem que vive em margens indefinidas. uma implosão da linguagem universal em novos e variados padrões. cit. As lutas inexpiáveis entre diferentes ordens de valores do mundo que desloca fronteiras geram polaridades reagrupadoras de atitudes. abre-se a possibilidade de que o próprio excesso da ilusão midiática faça as vezes de desilusão vital. Referindo-se aos atentados ao World Trade Center. Osama Bin Laden 186 KERCKHOVE. e neste sentido afirma que: "A overdose de informação é o que permite visualizar a repetição de um padrão. Um dos problemas no mundo globalizado. Não foi apenas um atentado terrorista contra um alvo simbólico do capitalismo. Sua análise continua. tal como conceituado a partir da segunda metade do século XX. 1997. polifacetadas. Ao tomar-se o real pelo real. reviveu um dos temas de seu livro A Pele da Cultura. práticas que se encontram em constante tensão no cotidiano. Importante observar a conotação dada. op. A Pele da Cultura (Uma investigação sobre a nova realidade eletrônica). impossíveis de mencionar em sua totalidade. A heterogeneidade. o autor afirma: "Os arquitetos de Babel foram punidos por aquilo que os tornava orgulhosos: a universalidade de sua linguagem”. 187 KERCKHOVE. pois enfatiza a transformação da cosmovisão que ocorre no mundo atual. Lisboa. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 143 . ambíguas. Um exemplo importante foi disponibilizado pela Internet com um comentário de Kerckhove. ou seja. Entre os fenômenos mais complexos temos a violência. Derrick de. todos carregados de violência. Cabe selecionar alguns pontos de referência para pensarmos sobre essa inquietante problemática. 186 Sobre os incidentes de setembro de 2001. em suas múltiplas faces. houve uma ruptura com um padrão saturado de ver o mundo.

um limite em relação ao desenvolvimento da linguagem humana. temos um mundo monetário que auxiliou em muito a implementação de um ritmo social quase alucinatório. Ver ainda O Conhecimento Comum. representa. não significará a ausência do seu papel tal como construído pela modernidade. O mundo sem dinheiro. O avanço do conhecimento durante o século passado permitiu o surgimento de uma série de eventos que se revelaram incontroláveis: a chuva de bombas durante a Primeira Grande Guerra. Podemos dizer que há uma falta de transparência das palavras para descrever o evento cuja imagem revela uma implosão indescritível. não tão visíveis. questiona LéviStrauss ainda nas primeiras décadas do século XX. Chittó Gauer . 1987. em sua velocidade. A violência relatada de forma emblemática. Outros eventos. Esse mundo se amplia graças ao consumo desenfreado. revela ainda a forma saturada de ver o mundo. O Tempo das Tribos. revela que não sabemos mais qual é o caminho. mas continuamos caminhando. trazem informações sobre a violência subterrânea. Essas representações revelaram muito da violência que a crença no projeto científico promoveu e dos riscos que o tão prometido progresso traz. principalmente do supérfluo. que precisa ser examinado em sua relação com a violência e o direito. Ao lado destas questões inquietantes. 144 Ruth M. nesta leitura. A economia monetária permitiu a aceleração do ritmo social na modernidade. Rio de Janeiro. 188 está atrelada ao desaparecimento do indivíduo moderno e ao surgimento do tribalismo. em que a imagem em tempo real excede a lógica das palavras e das interpretações. 1988.derrubou a crença do ocidente em sua razão materialista". a violência subterrânea tal como descrita por Michel Maffesoli. Como podemos pensar na criança criativa em um mundo do descartável. o uso de armamento atômico na Segunda Guerra. tal como referido por Kerckhove. Michel. Forense Universitária. São Paulo. Esses fatos. uma passagem decisiva. revelam apenas uma das faces da violência. no entanto. 188 MAFFESOLI. Brasiliense. além de todo o processo armamentista ocorrido durante a Guerra Fria. O evento.

R. 24-26. O termo. Kerckhove 191 refere que o termo Aldeia Global (termo introduzido por Marshall McLuhan) parece estar em conflito com os crescentes regionalismos. prova apenas a crença na verdade de quem as formulou". Lisboa. atirando as pessoas para um "êxtase de ação". assim como entre historiadores e filósofos como Oswald Spengler. além da preocupação com a instabilidade. fazendo-as correr. uma história. 88. toda a legislação moderna que tenta coibir a violência não tem alcançado seus objetivos. segundo este ponto de vista. segundo Lewis. ou seja. mas sem metas fixas. A Ideia de História. op. Como afirmaria Collingwood. I. Editorial Presença. Lewis 189 chamou a atenção para a importância do tempo no pensamento ocidental moderno. pp. a filha instável do pensamento positivista. integralmente dinâmico e nunca estático. 191 KERCKHOVE. adverte o autor. o produto da ciência. É como se fosse uma visitante recém-chegada a uma cidade que desconhece totalmente o seu significado. Entretanto. um processo dialético sem fim.A tradição ocidental manifesta-se hoje como uma consequência do processo de racionalização. Nele pode-se ler. “isto que a realidade era. O pensamento europeu moderno. Essa doutrina do tempo é. na literatura e na arte. p. G. A língua geral da lei parece não ecoar na violência da sociedade contemporânea. separatismos e movimentos locais que aparecem na última década. no 189 190 Apud BAUMER. e é caracterizada por ser uma "civilização legal". um devir. que iniciou em fins do século XVIII. Lewis deplorava esse novo culto ao tempo. que inventou a frase ‘Mundo-como-história’. cit. Franklin L. Lisboa. s/d. Edições 70. 190 “a noção de ideias claras e distintas é completamente subjetiva. os costumes impostos por meio do "senso comum" às sociedades humanas. no mundo einsteniano. uma vez que "esse mundo civil foi feito certamente pelos homens". 1990. Uma das formas de ver a questão da modernidade está associada ao tempo.. a compreensão histórica necessitava perceber as "ordens universais". bergsoniano. v. Derrick de. Esse espírito foca o aspecto dinâmico da realidade. Ele encontrou-a presente na filosofia contemporânea. No entanto. tal como os futuristas queriam que fizessem. a busca de uma racionalidade. levado a efeito pelo historiador. referindo-se a isto como o triunfo do "Espírito do tempo". A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 145 . Essa percepção opera com um movimento de reinterpretação das tradições. A globalização adquiriu novas faces a partir da última década do século XX. COLLINGWOOD. a velocidades cada vez maiores.

revela o complexo panorama das telecomunicações internacionais que vem acompanhando a globalização. Porém. uma vez que o fluxo é desequilibrado. As telecomunicações impõem forçosamente uma associação. não há treino para o comportamento social e coletivo. O impacto global cria. Há menos espaço para nos movermos em uma aldeia do que em uma cidade. O hiperlocal e o complemento inevitável do hiperglobal. o novo interesse pelo local. é esse o paradoxo da aldeia global. principalmente do poder do estado. As comunidades humanas vivem a diferentes velocidades. Não há protocolo que nos prepare para estes confrontos desorganizados. A inércia da natureza relativista não é suficiente para apagar a questão da globalização como um último esforço para o apagamento das diferenças. mais ficamos conscientes das identificações locais. Por mais paradoxal que possa parecer. A metáfora "Aldeia Global" é uma noção de escala. há que se salientar que não se pode pensar o global substituindo o local. mas nem sempre com sucesso. A lógica da globalização não se concretiza. Ainda somos. Não há possibilidade de se saber o que será mais afetado pela globalização. A geometria do poder global emprestará diferentes problemas. Há várias formas de se falar sobre globalização. Quanto mais noção temos da globalidade. continuamente. tal como visto no início do século XX. pois continuam existindo relações 146 Ruth M. Entre os mais visíveis podemos lembrar o deslocamento do próprio poder. o atual panorama aponta para prováveis produções que devem ocorrem simultaneamente com novas identificações globais e novas identificações locais. e mais as protegemos. com níveis muito diferentes de experiência social são lançadas de encontro umas às outras sem aviso ou medição. A televisão já havia fornecido o conhecimento de que existiam várias nações na terra e éramos todos aldeões do mesmo planeta. É mais importante pensar em uma nova articulação entre o global e o local. Chittó Gauer . o caminho da homogeneização global leva cada vez mais à ampliação do fascínio pela diferença e à justificação da fragmentação.entanto. É uma expressão que se refere à terra quando esta se constitui em uma única comunidade comunicativa à distância. foi-nos imposta uma situação implosiva – e potencialmente explosiva. Estes fatos revelam que mudou a forma de mudança.

vê-se face a face com a cultura "alienígena". como força transcendente e universalizadora da modernização e da modernidade. o capitalismo global é. na verdade. valores. a transformação e o perigo. Esse absoluto se fragmenta na velocidade da impossibilidade de se realizar. Há quem afirme que a globalização é um fenômeno que atinge apenas o ocidente. embora se projetando a si próprio como trans-histórico e transacional. desigual. deslocamentos de fronteiras. diáspora. etc. um processo de ocidentalização que cada vez mais se empenha na exportação de mercadorias. do império do ocidente. instalam-se os hibridismos que tendem a superar tanto a igualdade como a diferença. acompanhados da descrença no futuro e da violência que se transmutou em formas que desconhecíamos. exótica. a mistura. Ocidente & Oriente. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 147 . não podemos esquecer a volta dos fundamentalismos. Assim. prioridades das formas de vida do ocidente. ao mesmo tempo. Por outro lado. que. migrações criam condições para que se instalem duas ou mais identidades.desiguais de poder entre Norte x Sul. Trata-se de um desencontro cultural. A duração da tecnociência sobre a democracia dá visibilidade ao resto do ocidente: processos migratórios. com a diferença. Kevin Robins lembra que. O livro Versos Satânicos celebra o hibridismo. a impureza. com seu outro. o absolutismo do puro.

Questionando aquilo que no passado era propriamente científico Thomas Kuhn 192 elabora o conceito de Paradigma. p. p. 13. Perspectiva. Thomas. 193 KUHN. que “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver” 195. para o autor. a articulação do paradigma visa aparar as diferenças e ambiguidades residuais para buscar universalidades que permitam aplicá-lo a um conjunto de problemas correlatos 194. ela é. ciência e autenticidade A história da ciência há muito demonstrou ser possível que mitos e equívocos fossem e ainda sejam produzidos pelos mesmos processos que hoje nos levam ao conhecimento científico. os paradigmas se constituem em uma moldura do conhecimento sobre o mundo. antes de mais nada. op. 53. durante algum tempo. uma busca de aprofundamento entre o abstrato e o real. Seguindo as reflexões apresentadas não há possibilidade de encararmos a realidade como uma das interpretações apresentadas pela analise hermenêutica. op. p. Chittó Gauer . Thomas. 30. 195 KUHN. Thomas. Thomas. 148 Ruth M. cit. Para o autor. São Paulo. O autor refere que “considera Paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que. As reações à concepção de Paradigma de Khun podem ser apoiadas na tese que outros autores já defenderam. 23. Entre elas a de que o essencial já não é o 192 KUHN. uma tentativa de aumentar a precisão do conhecimento sobre fatos que o paradigma mostrar ser relevante. a forma de ver o mundo sob esse enfoque se transformaria segundo a cosmovisão representada pelas revoluções científicas. forneceram problemas e soluções modulares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” 193. cit.XIV Norma. Podemos referir ainda que nesta compreensão a autenticidade da ciência estaria ligada às mudanças do olhar sobre determinados problemas que são designados pelos cientistas.. porém não podemos considerar como tal. 1982. por meio de novos instrumentos na medida em que o paradigma é uma tese abstrata. 194 KUHN. 31. 5. op. A estrutura das revoluções científica. cit. A palavra paradigma sugere um modelo ou mesmo um padrão. p.

196 em A lógica da liberdade. afirma que sempre que vemos um arranjo bem-ordenado de coisas e de homens. Michael. nós. na obra de Polanyi. p. tampouco com a verdade tal como a suposta autonomia dos critérios de avaliação dos produtos científicos. Já não se pode interpretar a não ser em termos de “conflitos psíquicos”: é a vitória do terapêutico sobre o religioso. expressão mais acabada da cosmovisão newtoniana da era das resoluções. p. 197 que a “conclusão a que chegamos é que tanto a liberdade econômica como a ordem jurídica estabelecida para a salvaguarda e orientação da liberdade só se justificam para fins de gerência de uma tarefa particular”. lemos. a plena afirmação de si próprio. Não por acaso o discurso dos direitos humanos. a ética da autenticidade compensa o narcisismo por meio de um suplemento de tolerância e de respeito ao outro fazendo com que a alteridade tenha garantido a sua segurança. 242. cit.. Por outro lado. Tal modo de ver as coisas consiste em limitar a liberdade das coisas e dos homens de continuarem como estão ou de se moverem segundo suas vontades. coloca-os daquele modo. Na análise sobre liberdade. de forma intencional. é que a referência à própria ideia de limite parece deslegitimada pela exigência imperiosa da plena realização individual e o direito à diferença. Como a permanência de situações bem-ordenadas constitui-se de situações que permanecem em temporalidades muito pouco douradoras. 2003. supomos que alguém. A lógica da liberdade.confronto com as normas exteriores impositivas da atividade científica baseada em uma epistemologia normativa. torna-se hoje sinônimo de “direito da diferença”. desejos consciente ou inconsciente. Rio de Janeiro. Topbooks Editora. Vivemos a substituição da moral pela psicologia e a ansiedade tomou lugar da culpabilidade. Essa tendência vincula-se à alternativa totalitária e constitui-se em uma ficção. op. Polanyi. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 149 . A ética moderna não abandonou o projeto de responder à questão dos limites tanto no plano moral como no jurídico: o princípio da autolimitação – limite da liberdade – e a universalidade da lei permanecem e se confrontam com a sacralização do autêntico enquanto tal. A tendência de se pensar na autolimitação implica fazer uma relação com a questão de ordem. Michael. instintivamente. 291. POLANYI. um sistema de leis 196 197 POLANYI. mas sim lograr a expressão da personalidade.

intelectuais. reflexo do ser-conjunto. estrutura das sociedades simples e antigas. com sua independência. O século XXI vê-se frente a desafios morais. não eliminou a banalidade do universal abstrato. não permitiram que abdicássemos de problemáticas ainda não respondidas: se a fundação da norma nos faz pensar na ordem classificatória das relações de parentesco. embora a explicação do inconsciente tenha sido pautada na lógica moderna. tal como colocado por Freud. Chittó Gauer . com sua imagem de indivíduo-átomo que. mas sobre os que não podem se proteger dela. não podemos deixar de notar que o progresso da ciência e da técnica nos leva a pensar o quanto é urgente tratar dos limites. ela também nos faz questionar a sua função organizadora. O sucesso da ciência nos fez esquecer de seus insucessos e de seus monstros. Tais desafios. seja um sistema jurídico pelo qual se administram essas leis. distingue-se dos outros. foi o apanágio de muitos filósofos e encontrou eco até mesmo no universo da ciência – veja-se o sucesso da epistemologia. Seria possível pensar uma sociedade sem princípios normativos? A antiga norma. que não permite eliminar o poder e a punição. dar uma logicidade ao ilógico. A autenticidade jurídica deve vincular-se a um sistema social manifesto de forma espontânea. entre outros. pode ser encontrada nas organizações complexas contemporâneas. Para isso. por outro lado. assim como não resistiu ao charme do limite. Embora se tenha afirmado que nenhum pensamento se desliga completamente de um suporte. A particularidade é que essa antiga forma classificatória. éticos. ao mesmo tempo a liberdade. seja um sistema de ordem espontânea. no entanto. Temos. Neste sentido. o pensamento falante manobrável tentou. que pensar em deslocamentos. ultrapassa a própria lógica da liberdade. portando organizadora. precisamos perceber a sedução da autonomia moderna – moralidade moderna –. empenhada em espezinhar a razão moderna. O inconsciente. no entanto.contratuais que garanta essa situação e. teria criado o cúmulo da paranoia ou a negação de que a estrutura dos mitos e de 150 Ruth M. por ser único. É importante salientar que essa distinção. o primeiro não. possibilitou no mundo contemporâneo a ética da autenticidade e a sua crítica. com o consenso da autenticidade atribuída ao consumo contemporâneo. Poder e punição se deslocaram na contemporaneidade de tal forma que a norma já não incide apenas sobre o ilícito. assim como fez Freud.

em atos de violência. que se revelam como explosões de inquietação. privilégios. fornece uma representação caleidoscópica das múltiplas e diferentes partes que formam uma "realidade" em constante equilíbrio de antagonismos. não podem ser interpretadas de forma linear. embasados em premissas de que existe uma causalidade especificamente material para os atos mais cotidianos. é stricto sensu a desestruturação social. sem que seja necessário reduzi-la ou mesmo incluí-la em uma hermenêutica redutora. A importância das imagens transmitidas pelos meios de comunicação retrata as diferentes formas de violência. as imagens da desagregação expressam com extrema sensibilidade os resultados de traumas vivenciados pela sociedade. diferença. pandemias. desagregações.todos os sistemas de parentesco possui uma coerência interna. conferindo visibilidade à face “noturna” de um mundo que se afastou radicalmente da promessa feita pelos modernos dos séculos dezessete e dezoito. nas quais o representado pode ser exclusivamente uma projeção do pensamento. situada em um sentimento ambíguo entre a tradição e modernidade redentora. No entanto. vista como a negação da independência. A redução advém de crenças em uma história única que explicaria as diferentes formas de manifestações dramáticas que demonstram cabalmente uma outra face do “destino” pensado para a humanidade desde o período iluminista. com a conotação moral que a envolve. pobreza. o mundo como progresso. A representação da violência não pode ser igualada a outras formas pensadas como puras. além de outras manifestações entendidas como expressões da violência. Estas imagens desvelam a sistemática intelectualista estabelecida. Os dados científicos. Os antagonismos revelam-se. A diferente face da desagregação social aparece. hierarquia. Essa premissa leva a pensar que a igualdade moderna. como as de coerção. tanto as de repressão. poder. A estrutura perene de nossa história. é antes a negação da ordem do que uma outra maneira de exprimir o ético. etc. A objetivação e a racionalização construíram a promessa de um mundo com soluções positivas para os problemas da humanidade: fome. epidemias. apenas para reduzir o simbolizado dos diferentes processos de violência sem mistério. vistos como um dos mais preocupantes fenômenos da atualidade. insatisfação. perversidade. cujo A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 151 . geralmente.

Brasília. A liberdade do arbítrio de um pode continuar com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal 199. A liberdade vista como valor maior garantiria a liberdade da ciência e a autenticidade do valor científico. A liberdade seria o valor maior porque seria o único valor que viabilizaria a construção de outros valores. 71. cit. enquanto ação socialmente intersubjetiva. ao mesmo tempo a liberdade. 199 BOBBIO. Assim. sem inviabilizar a liberdade individual intersubjetiva. A vontade de dar leis como forma de controle é ambicionada por governantes sempre que o poder foge ao controle. Chittó Gauer . como poder controlador e limitador da violência. no entanto um regramento entre os desejos das subjetividades. A definição do autor assenta-se na ambição de que o regulamento jurídico pode viabilizar a manifestação da justiça entendida não como segurança ou igualdade mas como liberdade. impõe perguntar quais os fins a que se destinam. alienígena da sociedade. na medida em que é condicionada. certo é que se há alguma novidade nas reflexões ora apresentadas. 72. Se a lei apenas regra as relações externas entre os indivíduos não pode a lei se preocupar com finalidades individuais. nessa situação. 1984. Editora da Universidade de Brasília. O direito seria um regramento entre subjetividades. inauditos na sua conjugação: a possibilidade de ver alguma coisa já inacessível no tempo e a possibilidade de ver alguma coisa acessível na história do direito. Cabe aqui referendar o que acima afirmamos sobre a visão de liberdade em Polanyi quando refere que. balizar a condição diferencial e o estatuto particular de fenômenos sociais vinculados a processos violentos implica compreender que a violência não é um fato anacrônico. No entanto. seja por um sistema BOBBIO. não é. os fins que ambiciona. 198 152 Ruth M. ela está fundada sobre dois alicerces. Norberto.projeto racional de progresso desemboca em monstruosidades impensáveis do ponto de vista da premissa que criou a perspectiva do futuro glorioso. op. mas apenas sobre como os fins podem ser alcançados sob o ponto de vista formal. Direito e estado no pensamento de Kant. As características que validam o direito são apresentadas por Kant 198 a partir do que é direito para o autor. Norberto. p. Esses governantes se defrontam com a vontade moral de sociedade que é autônoma. Já a vontade jurídica. mas sim entre os arbítrios dos homens. Faz a distinção entre arbítrio e desejo afirmando que o primeiro se liga à consciência pela capacidade da ação de produzir.

jurídico pelo qual se administram as leis. ultrapassa a própria lógica da liberdade. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 153 . seja um sistema de ordem espontânea.

1974. (.. já muito antiga. incertíssimo por sua própria natureza.XV Juridicidade. simultaneamente. Abril Cultural. Caracteriza-se. Lembrando alguns dos axiomas contidos na obra Princípios de (Uma) Ciência Nova (1725). como é sabido. não se radicará tanto na possibilidade da transgressão — uma vez que. a sua própria transgressão. trad. e notas de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Além disso. São Paulo. uma emergência que. Partimos de um pressuposto de três hipóteses de trabalho: a crise do individualismo. Segundo o autor. que são as duas fontes do direito natural das gentes. não há nada mais natural do que celebrar os costumes naturais (. Giambattista. parece dotar a violência de uma particular sensibilidade para pensar a relação entre a velocidade e a crise de valores. Seleção. “O humano arbítrio. assim. o da busca de valores. afinal. consolida-se e se determina pelo senso comum dos homens no que tange às necessidades e utilidades humanas. As respectivas tensões criadas nos tempos atuais levam à análise da complexidade. na medida em que ela permite a compreensão da civilização ocidental. 200 é possível iniciar esta reflexão. os limites sugeridos pela modernidade tendem a desaparecer. a própria existência de separações normalizadoras e de classificações. Em termos de uma transgressão necessária. Se há alguma novidade. a velocidade e a crise de valores. nunca deixou de estimular..) o direito natural das gentes foi ordenado pelo costume.. ao ocorrer em paridade com um amálgama de fenômenos híbridos e virtualmente nômades. a questão da identidade e do acesso à justiça somente se torna possível quando os vinculamos com a velocidade no mundo da complexidade. acerca dos problemas acima mencionados.) este mundo civil VICO. 200 154 Ruth M. pois nasceu com os costumes humanos que surgiram da natureza comum das nações (que é o objeto preciso dessa ciência) e tal direito preserva a sociedade humana. quando inerentes à modernidade. dentro de âmbitos que são. de Giambattista Vico. Os Pensadores. Chittó Gauer .. batizada de civilização dos indivíduos. mito e memória Situar os problemas da violência como prática cultural. violência.

foi certamente feito pelos homens, pelo que se podem e devem encontrar os seus princípios nas modificações da nossa própria mente humana”. A vaidade das nações é expressa pela historiografia, lugar em que os historiadores normalmente se ocupam apenas dos feitos gloriosos na história de seus respectivos países, sem revelar outros aspectos menos dignos de suas nações. A vaidade dos eruditos e o espírito acadêmico que move os historiadores tende a fazê-los crer que, no passado histórico, estão a dialogar com seus pares. Salvo em uma tentativa de reconstituição da história imanente do pensamento, a partir de personalidades, tal fato não ocorre. Os fatos demonstram que, na maioria das vezes, a proeminência de personalidades históricas não coincide com a reflexão histórico-filosófica. Para Vico, é falsa a ideia de que quando nações apresentam instituições análogas, necessariamente copiaram-se entre si. Embora seja possível admitir influências entre nações, o mais correto seria afirmar que nenhuma sociedade aprende da outra aquilo para a qual não estava previamente preparada (grifo meu). Além disso, a proximidade da época não torna os antigos, por exemplo, mais bem informados sobre um período histórico. Tais reflexões do autor nos permitem pensar outras questões vinculadas aos aspectos culturais como a linguagem e o mito. Linguagem e mito exprimem a evolução do espírito humano. O mito e a linguagem mítica possuem princípios classificadores, uma lógica imanente que opera na tentativa de apreensão da natureza com os recursos inerentes às possibilidades da consciência humana. Portanto, antes de considerar a arte como objeto de prazer e embelezamento e os mitos como ficções extravagantes de um tempo de obscuridade, lembremo-nos de Vico, quando diz que “as fábulas são as primeiras histórias dos povos gentios, e podem ser imensamente relevantes e informativas desde que corretamente interpretadas". Eis por que motivo ele dirá que “a verdade só pode ser pensada como sendo uma experiência relativa ao tempo [sendo que,] sob essa ótica, não há narrativa mestra ou perspectiva realista que forneça um repertório de fatos fora do mito”. 201

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BERGSON, Henri, Matéria e Memória, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 290.

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A propósito do mito, convirá recordar aqui, com Lévi-Strauss, 202 que o mito não é poema, nem ciência, nem filosofia, embora coincida com o primeiro por seus processos (função poética), com a segunda por sua lógica e com a última por sua ambição de nos fornecer uma ideia do universo. Sob esse enfoque, a verdade científica (e a ciência, para Lévi-Stauss, traduz o mito por meio de sequências de proposições) constitui-se em uma narrativa que pretende explicar a lógica do universo. Quererá isto dizer que a verdade científica, tal como é concebida na tradição ocidental moderna, assenta na construção de narrativas de tipo mítico? Há aqui uma situação algo paradoxal. De fato, o mito é constituído de uma lógica que não se encaixa na concepção do saber moderno, que criou uma linguagem desvinculada do mito. Mas, por outro lado, se tivermos em conta que o ideal de cumulatividade que, no contexto da modernidade, sustenta a verdade, inscreve esta última em um tempo histórico que solicita um esforço narrativo, então aquela hipótese merece, ao menos, ser colocada, pois, como explica Durand, 203 todo o mito é uma relação com o tempo, é, sobretudo, “uma procura do tempo perdido”. Mais ainda: o mito “é um esboço de racionalização sobre um mundo à partida não coincidente com a razão desse esforço, pois utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias”. Não choca reconhecer, portanto, usando a afirmativa do autor, que também a ideia de uma verdade absolutizada pela ciência moderna, ao pretender conferir uma ordem a um mundo não previamente organizado de acordo com os seus cânones, formulou-se narrativamente. Não podia formular-se a não ser narrativamente. As linguagens e as idades podem ser exemplificadas pelas palavras do autor: “Os primeiros povos foram poetas”, e os primeiros códigos jurídicos foram expressos em forma de versos. Também os primeiros historiadores eram poetas. Na Idade dos deuses havia a linguagem ritual – das mãos, por exemplo, ou escritas sagradas como os chineses e egípcios. Na Idade heroica, simbolismos convencionados (heráldica, por exemplo). Na Idade dos homens, os alfabetos propriamente ditos, baseados na razão, sinônimo de civilização. Na idade dos
LÉVI- STRAUSS, Claude. O pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989. DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997.
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Ruth M. Chittó Gauer

Deuses, todas as coisas são obras de Deus. E na idade contemporânea, o que dizer da violência, dos valores, da justiça, dos mitos, de Deus, da razão e da civilização? A civilização ocidental vive, no mundo contemporâneo, um momento em que o ceticismo e o dogmatismo nos levam à impossibilidade do conhecimento. Ambos estão equivocados na medida em que nos colocam frente ao imobilismo, esquecendo que vivemos em movimento. A vida é movimento para frente e o equilíbrio é dinâmico, já que fundado justamente no movimento. O ceticismo impulsionou o fim do dogmatismo, das certezas científicas criou, por um lado, um imobilismo e, por outro, não conseguiu eliminar o movimento. O fluxo, desde Heráclito, tornou-se rei no pensamento ocidental. A lógica do ser é o movimento, a inovação, inscrita no tempo. A priorização do Devir sobre o Ser, levou à busca do progresso, com base no tempo linear estruturado no projeto progressista. Com essa premissa, acreditou-se ser possível controlar o futuro. Futuro de felicidade, onde o paraíso terreno substituiria o paraíso divino. A dinâmica da humanidade retratada pela inovação criou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, 204 a era do apósdever. Na sociedade atual, vemos o indivíduo concebendo a si mesmo como seu próprio universo. O horizonte esgota-se nele mesmo. É a política do cada um por si, fruto de uma cultura hedonista-utilitarista, em contraposição à cultura do dever, de essência teológica ou resultante do culto laico da abnegação. E, segundo Lipovetsky, não devemos lamentar isso, porque o nosso mundo parece mais necessitado de responsabilidade ética do que de cruzadas morais heroicas. Essas constatações nos encaminham para o pensamento sobre a necessidade de mudar nossa maneira de avaliarmos os reagrupamentos sociais. Maffesoli205 propõe a utilização do conceito de Stimmung isto é, atmosfera, tal qual pensada pelo romantismo alemão, ou ainda o conceito inglês de feeling, para descrever essas novas formas de relação social. A ênfase da análise é o que reúne essas novas formas de socialidade e não o que as separa. O mito apresenta, para esses grupos, uma função agregadora, ultrapassa a lógica
LIPOVETSKY, Gilles, “Prefácio e Introdução. A era do após-dever”, Edgar Morin e Ilya Prigogine (Orgs.), A sociedade em busca de valores – Para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo, Lisboa, Piaget, 2001. 205 MAFFESOLI, Michel, O Tempo das Tribos. O declínio do Individualismo nas sociedades de Massa, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1987.
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diversos. O Inumano. 206 constitui-se em uma tela para onde convergem as análises das sociedades complexas após a segunda metade do século passado. assim como das tradições. A 206 207 MAFFESOLI. LYOTARD. de resgate de sociabilidades perdidas. Lyotard 207 menciona a criação de um centro de memória que estará para além do ser e de qualquer possibilidade de controle. ao fim e ao cabo. com capacidade máxima de síntese. Estampa. Logo. o homem possui um cérebro temporário e improvável. trabalhado por Maffesoli. Michel op. Esses indicadores de mudança nas formas de relação social ocorrem simultaneamente e criam problemáticas instigantes e muito diferentes das que afligiam os homens do século XIX e do início do século XX. ambos interagem em um não-espaço cosmolocal. As novas tecnologias (eletrônica e informática) estão possibilitando a criação de novos bens culturais. hoje.. criado pelo modelo Iluminista. 69-70. No mundo contemporâneo passou-se a conhecer "novas" formas de identificação: as gangues são um bom exemplo de uma tentativa. átomo perfeito que lembra Deus. Este conceito. pp. Lisboa. 158 Ruth M. cit. a memória de ninguém. pp. é a era da globalização do homem. dá lugar a uma estética do nós. Será isso progresso? Esta capacidade cada vez maior de síntese global da memória acaba por constituir. Chittó Gauer . indicando a supervalorização do presente (presenteísmo). 1998. com uma complexidade tecnológica que caminha rapidamente para a produção de conhecimento desvinculado das instituições. Convivemos. fascinantes. o que implica a dissolução total do poder sobre o conhecimento.identitária. revelando-se um misto de indiferença e de energia pontual. a abertura planetária não eliminou a tendências de certas especificidades. Caminha-se para a elaboração de outro tipo de síntese do conhecimento. 15-28. Por outro lado. velozes. Jean-François. tradicionalmente as únicas responsáveis pelo avanço da ciência. A busca do homem que vive essa fragmentação não pode ser mais comparada à mônada. A sociedade deixou de ser uma totalidade unificada e integrada a uma transcendência para tornar-se aberta. teremos em breve a “extinção” da universidade como único local de produção e circulação privilegiado de conhecimento. Há um desprezo por toda atitude projetiva e uma grande intensidade na ação. talvez.

Paul. mas sim a celebração do hibridismo. Nas palavras de Emmanuel Lévinas. A inércia polar. A constatação da existência de novas formas de relação indica que estamos vivendo uma transformação que ocorre com uma velocidade gigantesca. O que fazer com a ciência? Esta é uma das perguntas que Paul Virilo 208 faz quando analisa a troca de referencial – da terra para a luz (velocidade. pp. tempo-luz). Paris. Esta dificuldade parece hoje resolvida em parte pelas novas tecnologias da interatividade instantânea. Claude. as quais produzirão um novo eu. 124-125. Lisboa. que traz novas e inesperadas combinações culturais. 1977. Talvez estejamos “fortalecendo” a produção de uma nova identificação unificada por uma trans-história. impedindo assim que se capte uma imagem coerente das novas identificações. São as muitas perguntas que fazemos e para as quais não temos respostas acabadas. (Org. 1997. La Identidad. Publicações Dom Quixote. a origem e o fim. LÉVI-STRAUSS. qual o seu referencial? Qual o elemento que pode ser o ponto seguro se a terra deixou de ser? A mudança de referencial da terra para a luz (velocidade) teria levado o homem a um egotismo supremo. 210 quando pensamos que conhecemos o outro é porque nos falta conhecimento. Como lembra Lévi-Strauss. A estrutura dessas relações sociais exige. do local de nascimento e do Estado nacional. do local de habitação.). 209 em suas conclusões sobre identidade. O autor afirma que “é difícil imaginar uma sociedade que negue o corpo. Rio de Janeiro. todavia. simultaneamente. Tais fatos permitem localizar pontos de referência identitária. Vozes. 36. Do vazio do ambiente virtual as técnicas de comunicação são. Ensaios sobre a alteridade. cuja identificação quebre os parâmetros da visão iluminista. e. como centro de referência. esta é "uma entidade abstrata sem existência real. Emmanuel. 210 LÉVINAS. VIRILIO. Grasset. 11-39. A identificação parece ser geralmente mais forte quando se trata da família. Nossas referências se encontram em um processo veloz de mudanças. 1993. p. da mistura. pp. é para ela que nos encaminhamos”. Entre Nós. da impureza.busca desse homem hoje é o grande desafio. Isso não significa a ressurreição de ideologias nacionalistas ou regionalismos vinculados às ideias puristas. 209 208 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 159 . muito embora seja indispensável como ponto de referência". do mesmo modo que foi progressivamente negando a alma.

ou até à absorção por esta. incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage.. assim como formas mais elaboradas e conscientes de autoregulamentação. prende-se à necessidade de liberdade e de independência política. porém. conceitos sujeitos à avaliação relativizante dos mais diversos grupos de interesse. e corresponde a um conjunto não transitório de fatos e modos de ser únicos que caracterizam uma pessoa”. poderíamos dizer que estaríamos superando o eterno retorno à natureza e entrando em um momento no qual a violência. Lisboa. etc. está ligada à ideia de identidade. Publicações Europa-América. tal como refere António Damásio: 211 “o self central. Marce. transformando-se em um modelo de simulação. é um aumento de todas as formas de violência. o que leva a uma sensação de morte. EPU/EDUSP. O Erro de Descartes: Emoção. 160 Ruth M. 1974. II. superando a análise kantiana. uma entidade transitória. fragmenta a sua imagem. da destruição. acompanhadas de uma diminuição da espontaneidade no agir e no falar. O que vemos. A transmissão contínua que sobreviveu pela tradição. no processo de modelagem das relações sociais. vista como a condição natural. pp. condição básica para o surgimento dos grandes códigos e que essa mesma impessoalidade permitiu que 211 DAMÁSIO. Sociologia e Antropologia.de cada indivíduo. para muitos. No entanto. estaria desaparecendo. 39-49. a morte da identidade construída por meio do individualismo. no entanto. da produção. em termos de autoproteção e pragmatismo exacerbado. do tempo cíclico. convém lembrar que o individualismo moderno criou a impessoalidade. António. maior prudência. 1995. A ideia de perder a identidade. São Paulo. Esses fatos permitem pensar que estamos caminhando para a superação do estado de natureza definitivamente. v. configurando a identidade nacional. Marcel Mauss 212 afirma que o anagrama ou a troca dádiva não são episódios curiosos de antropólogos que explicam a reversibilidade da troca. Chittó Gauer . tal perda seria equivalente a sofrer uma morte coletiva. e assim. a independência política ou econômica marca a história do indivíduo e da nação. No ensaio sobre a dádiva. Nossa noção tradicional de self. perde seu sentido. Nesse sentido. 212 MAUSS. A resistência à fusão da própria unidade de sobrevivência com uma unidade maior. Razão e Cérebro Humano.

Aqui as sanções post mortem – juízo final – são importantes para os ditames morais. pois se muitas permanecem invariáveis ao longo dos séculos. mas penosa do dever para se entregar ao comando de uma ética da responsabilidade. ou a troca dádiva de Mauss já não possui o mesmo papel que possuía em sociedades simples. Por tratar-se de um fato social. devem ser questionadas. cit. Inicia Lipovetski dizendo que os valores morais são sempre os mesmos desde o Decálogo. Simmel213 explica que o “caráter impessoal e não colorido. tal história vincula-se a diferentes momentos que são identificados por imprimirem prioridades éticas. A ética. outras “assumem significados sociais diferentes”.). porém. Gilles. nos mandamentos divinos. O paradoxo. assim como outros ramos do saber. pp. que vai até o Iluminismo. op. tem de se reforçar continuamente ao longo da história cultural na medida em que o dinheiro tem de substituir mais e mais coisas cada vez mais variadas”. Brasília. Sob esse enfoque a análise sobre o anagrama. 2) A segunda é laico-moralista e se dá nas sociedades modernas. o indivíduo é instado “a emancipar-se da tutela tranquilizante. A moral é independente dos dogmas religiosos-cristãos. por envolverem um “sentido social de que se revestem os ideais éticos e as regras de conduta”. 25-30. 22-30. Os princípios morais passam a ser pensados a partir da racionalidade (a deusa razão) e são universais porque presentes em todos os homens (todos os homens nascem dotados de SOUZA. por vezes o indivíduo tenta dela escapar. Estas fases.o dinheiro tornasse impessoal todo processo de trocas. que é típico para o dinheiro em oposição aos outros valores específicos. levou à dissolução das antigas formas de enquadramento e não mostra. por essência liberal e pragmática”. aquilo a que se poderia chamar o "grau zero" dos valores. OËLZE. finalmente coisificou o humano. A verdade moral está na Bíblia. 214 Pelo contrário. fundador do individualismo. 214 LIPOVETSKY. Lipovetski define três fases essenciais da história da moral ocidental: 1) A primeira e mais longa pode ser classificada como a fase da moralteológica. 213 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 161 .. em qualquer caso. (Orgs. Jessé. e que pode ser a medida de todas as coisas. tem uma história. Simmel e a Modernidade. E por ser deveras custosa essa tarefa. Berthold. 1998. 32. O dinheiro. Portanto. Dentro desta perspectiva. Nesse sentido. que é impessoal como as leis. Editora da UNB. pp. vulgares.

racionalidade). escola. da obrigação moral “intransigente e disciplinadora”. o bem-estar individualista. a felicidade (Jorge Luís Borges: a obrigação de todas as coisas é ser uma felicidade. assiste-se ao crescimento de guetos: famílias sem pai (ou com vários pais). A Igreja continuou a influenciar fortemente a cultura do dever: austeridade e repressividade que pode ser lida como a secularização do direito penal. Chittó Gauer . Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. e pensamos que seja ainda mais grave. se não são uma felicidade. sindicato. A cultura de comunicação-consumo de massa aniquilou com os mandamentos morais difíceis. tráfico de drogas (onde muitas vezes o traficante é o pai). O caso brasileiro não é diferente. fraude fiscal). pode ser indicado para a maioria dos países. No Brasil. que é o do dever absoluto: a ética do sacrifício. O homem pode ser virtuoso sem a ajuda de Deus e do dogmatismo teológico. o processo de secularização sacoulhe um aspecto essencial. estimula os desejos. onde um em cada cinco contribuintes comete fraudes sobre o imposto de rendimentos. As sociedades se voltam para a transgressão dos princípios éticos e jurídicos (corrupção. um exemplo emblemático foi o movimento feminista. 3) A terceira fase da moral. violência e delinquência aumentadas em níveis que fogem ao controle formal. remuneração escondida. A moralidade é possível mesmo para os pagãos e hereges e não precisa dos castigos do inferno para ser autêntica. família. entre outras). o ego. o pensamento dominante ainda é da chamada Lei do Gérson. que promove o presenteísmo. A cultura ocidental contemporânea transformou o humano em utilitarista. que Lipovetski chama de pós-moralista. dissolveu as formas de enquadramento e autocontrole do indivíduo. encarrega-se de dissolver as permanências. entre elas. Agora a sociedade caminha para a ausência da necessidade do dever. Há um enfraquecimento das instâncias formais de controle social (igreja. A própria velocidade. O paradoxo reside no fato de que ao independentizar-se da religiosidade. A 162 Ruth M. não se prestam a nada). em detrimento da abnegação e da cultura da ética dos sacrifícios. A sociedade perde os pontos de referência tradicionais. Essas transgressões são comuns em todos os países: o exemplo dos EUA. a própria dignidade. que solapou o esforço em prol dos benefícios imediatos e midiáticos: “A especulação tomou o lugar da produção”.

Hoje as boas maneiras são consideradas mais importantes que a solidariedade. honestidade. éticos): direitos humanos. sendo que ela se tornou um valor de massa – afasta as ideias apocalípticas sobre o nosso tempo.. entre 40 a 50 por cento dos adultos são. embora sejam elogiáveis suas ações altruístas. Mas esta é apenas uma das facetas. da Pátria. no altar da Família. Afirmamos um núcleo estável de valores (morais. mas a ideologia do dever disciplinador e hiperbólico. cit. pois. op. Os exemplos que citamos. da História. 215 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 163 . o respeito pelos princípios morais é apenas citado uma vez em cada quatro: a própria ideia da educação moral perdeu o valor”. cujo funcionamento ocorre dentro de um caos organizador”. de vez em quando. as mulheres que assim o fazem. com a prioridade incondicional do altruísmo. isso não impede que um em cada dois franceses contribua “com dinheiro para um acontecimento lançado por uma operação mediática excepcional. Toda esta argumentação é encaminhada para criticar a teoria de um caos totalmente desorganizado. É sempre o princípio da ‘desordem organizadora’ que funciona”. Cita. enquanto tal. Existem em França dois milhões de voluntários. essas preferências “já não tem nada que ver com a interiorização de uma moral exigente em si mesma. Gilles. Outra exemplificação do “caos organizador” é o fato de que já não se apela para morrer pela Pátria. Lipovetski acaba com o mito do macho provedor. Isso está deslocado no tempo. do Partido. ou seja. Por fim. podem servir de parâmetro para constatar que as transformações ocorridas após LIPOVETSKY. O autor refere que “quando se pede para destacar. apenas 15 por cento dos europeus se preocupam em mencionar o altruísmo. 75 por cento falam da necessidade de trabalhar bem para ter um bom emprego. o ideal altruísta teve uma espécie de renascimento. o caso da Madre Teresa. A obrigação de socorrer o outro ocupa apenas o 15° lugar entre 17. sobretudo. 34-37. A liberdade trava. Para o autor.ausência de padrões de referência ética (des)estrutura a sociedade. como exceção. apesar de estar fora de moda. Igualmente como ocorre com a tolerância – que é a segunda virtude a ser inculcada nas crianças. na nota abaixo. da Humanidade” 215. ao falar que “a cultura do fim do século já não limita imperativamente e idealmente os homens” (ensino da moral do trabalho). apesar do quadro preocupante.000 assalariados a tempo inteiro. pp. em uma lista de 17 qualidades morais. as cinco virtudes que desejaríamos ver prioritariamente inculcadas nas crianças. Na Inglaterra e nos EUA. que se afunda. Essa ideia sucumbe em razão do individualismo. Dois franceses em cada três apoiaram a instauração do Rendimento Mínimo de Inserção. a moral a la carte “não é a ideia do dever. embora a democracia nunca tenha estado em tão “boa forma”. cujo trabalho efetuado é equivalente ao de 500. limita e impede a própria liberdade. que já não acredita no futuro. o valor da renúncia suprema a si próprio. pois não estamos no grau zero dos valores morais. Ao mesmo nível da paciência! Quando se interroga a faixa dos 13-17 anos sobre aquilo que os pais verdadeiramente lhes ensinaram. sendo. dignidade: “O mundo da autonomia das morais contemporânea não leva à desordem sem freio dos costumes: a cultura. Para Lipovetski. Mas. voluntários. mas capacita a humanidade a empenhar-se cada vez mais em suas atividades profissionais. ao que dizer que.

No que diz respeito à violência. Temos mais necessidade do alargamento e proliferação das virtudes mais modestas. 57. p. por exemplo. Essas transformações estão muito bem refletidas nas tribos urbanas. melhor dito. a delinquência juvenil. principalmente. Lisboa: Piaget. o que vale é o aqui e o agora. como honestidade e respeito às leis. Há. no entanto. 217 Como visto. Seria o fim das ilusões? Esses fatos não indicam que exista menos moral. 29. Max. outra tendência que busca o comprometimento moral mais arraigado: antiaborto. Como a caridade mediática. Gilles. sacrifícios altruístas mínimos. o aumento de pequenas violências no cotidiano. Para comprovar tais referências é suficiente consultar as redes de grupos de internautas e verificar a importância da busca da felicidade a qualquer custo.a segunda metade do século XX dizem respeito às sociedades ocidentais como um todo. 216 segundo a qual “o fim precípuo de nossa época. ou seja. A era do após-dever. mas que aquela moral tradicional deixou de ser socialmente legítima (o culto do dever de sacrifício). intermitente e. na supervalorização das festas. As práticas da solidariedade. São Paulo. LIPOVETSKY. Martin Claret. descomprometidos. ter filhos por encomenda. Talvez aqui coubesse inserir a constatação de Max Weber. repressão total em matéria de drogas. a tendência mais forte de nossa sociedade atual é por uma “moral sem obrigações nem sanções”. censura pornográfica. basta que relembremos de diferentes tribos como: gangues urbanas. pela intelectualização e. passando à moral a la carte. última forma do consumo interativo de massa”. a la carte. 2002. do que de grandes cruzadas moralizantes. entre outras repressões. torna-se sentimental. na cultura do presente. “indolores”. 2000 p. viver em concubinato. Duas Vocações. da caridade pela tele-entrega ou do 0800 para doações são reveladoras dessas transformações. torcidas organizadas. entre outras questões não menos importantes. caracterizada pela racionalização. mas com a condição de que possa divorciar-se. Edgar Morin Ilya Prigogini (organizadores). que podem ser escolhidos. “a moral não desaparece. IN: A sociedade em busca de valores. Chittó Gauer . extremismo higienista. 217 216 164 Ruth M. Ciência e Política. espetacular. A família sobrevive. pelo ‘desencantamento do mundo’ levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes”. epidérmica. incapazes de resolver os WEBER. ao mesmo tempo.

Robert Ezra Park. Norbert. entre outros refutaram essa posição preferindo analisar a cultura da pobreza. Lisboa. No entanto. todos são sensíveis à ambivalência desta modernidade que. permanece. do direito subjetivo. os problemas da cidade. por um lado. permitiu observar o afrouxamento dos laços sociais nas sociedades campesinas que migraram para áreas urbanas.). A busca da excitação. 220 DUMONT. pragmática. para Dumont. Simmel anuncia a coisificação do indivíduo pelo dinheiro. O paradoxo levou à violência da inclusão/exclusão.concretos problemas sociais. Por outro viés. e esse rompimento criou outras amarras no que se refere aos princípios de organização. discutiram a desorganização da cultura no processo de urbanização enquanto Oscar Lewis. Da mesma forma. Alguns membros da chamada “Escola de Chicago”. (Orgs. op. capaz de estabelecer o melhor para os indivíduos e não o bem idealizado. vemos Elias 219 esmerar-se para explicar a sociedade dos indivíduos e a violência como característica mais regular e manifesta na vida cotidiana. vinculado à sua qualidade única de ser humano dissociado do ser social e político. Difusão editorial. Daí. 219 218 A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 165 . sobretudo. Rio de Janeiro. do surgimento do direito natural. ELIAS. Jessé. Berthold. por outro. ao se debruçarem sobre os problemas da urbanização relacionados com o continuum rural urbano criaram um conceito de cultura urbana. entre eles Simmel. A desorganização da cultura vista no processo de urbanização explicitou. Dumont 220 refere que “a grande contribuição da sociedade moderna foi o aparecimento do indivíduo caracterizado pelo rompimento de amarras que o prendiam à sociedade tradicional”. Louis Wirt. Ao descreverem a lógica da individualização. simultaneamente. Louis. O Individualismo. cit. 1985. 218 analisam os problemas da cultura moderna. dos valores. os autores desta “Escola” abriram espaço importante para pensar a liberdade quando debateram o anonimato das grandes metrópoles. Vários historiadores e sociólogos. produz o indivíduo na sua autonomia e. ao mesmo tempo. OËLZE. Nas sociedades SOUZA. a hierarquia. fundada em uma ação ético-liberal e. 1992. A preocupação com os problemas da exclusão nas áreas tradicionais do conhecimento foi enfocado com outras perspectivas. Nas análises. Uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. priorizar a ética da responsabilidade. Rocco. o expõe.

Nova Fronteira. 1986. da busca da igualdade e da liberdade como fundamentos estrutural da sociedade e. 221 166 Ruth M. 1999. mas. termo de sentido filosófico que significa a tendência. O lugar fixo abriu espaços para a mobilidade a qual se constituiu como a base para novos estudos sobre a liberdade individual. Chittó Gauer . a impossibilidade de submeter-se à ordem exterior. A nova posição. à síntese de “unidades em totalidades organizadas” (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. nas quais a humanidade Holística deriva de holismo. de maior precisão conceitual. o sustentava. Em uma explicação simples: o sujeito liberta-se da armadura. Rio de Janeiro. que se instalou a partir das revoluções do final do século XVIII. o indivíduo. 730). leva-o a “opções de vida. ou seja. ao mesmo tempo. 1269). o protegia) para deparar-se com a sua assimilação. opções morais” (moral a la carte). p. supostamente própria do universo. Em outra fonte léxica. que nasceu sob a égide do paradoxo acima mencionado. graças às crenças no projeto político e a um tempo linear. dos grandes códigos modernos. das hierarquias tanto sociais como as familiares características das sociedades tradicionais. Martins Fontes. com ele. o afrouxamento do controle social tradicional não significa maior liberdade. O fim das desigualdades levaria ao surgimento de sociedades mais justas. como projeto a ser alcançado. porque lhe eram impostas pela estrutura social. O exemplo da armadura (que coincidentemente era peça importante da indumentária medieval) pode esclarecer que o indivíduo moderno saiu dela (que o encerrava. A questão relacionada ao estilo de vida urbano e à abertura para o anonimato e. caracterizadamente holística. São Paulo. a incorpora. “opções existenciais”. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. da visão de unidade totalizada da cultura ocidental. mas o preço a ser pago por essa libertação é a incorporação da própria armadura. Isto é. foi nos centros urbanos contemporâneos que o indivíduo desvinculou-se dos laços de dependência. ao mesmo tempo. da "eliminação" das diferenças. holismo é a “teoria segundo a qual o todo é algo mais do que a soma das suas partes” (André Lalande. liberta-se dela. que antes não tinha de fazer. No entanto. Os desdobramentos que ocorreram após esse fato são de todos conhecidos: o surgimento dos estados nacionais. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. p. 221 O Ocidente moderno criou essa categoria.tradicionais onde ocorreu o processo de urbanização haveria uma maior mobilidade o que permitiria ampliar os espaços de liberdade.

227. Acesso à humanidade em termos jurídicos. Significa qualquer Homem. A busca da igualdade. Da mesma forma. No entanto. p. Religar os conhecimentos. criou a forma mais expressiva de violência. afirma: “no campo jurídico. “Acesso à humanidade em termos jurídicos”. O que vemos é uma grande maioria tratada como os outros do direito. na realidade é extremamente subversiva. A sedução do direito parece impossível de ser dispensada. possuir os mesmos direitos. por óbvio. a humanidade é. por exemplo? A autora refere que nesse país há duas maneiras de traduzir “direito do homem". também não devemos procurar a palavra “Homem” nos manuais de direito”. Apesar de ter consultado uma dezena de clássicos de introdução ao direito encontrou apenas em dois a palavra "Homem". teríamos a possibilidade de poder identificar o discurso em nível de senso 222 DELMAS-MARTY. Lisboa. nos levam a pensar sobre o descaso do estado frente a essa invisibilidade. Nesse sentido. na verdade. [. um recém-nascido. Não a encontraríamos". Problemas como o desvio social. No entanto.]. ausência do estado. Seria possível pensar dessa forma na China. que foge ao controle do estado e das tecnologias mais modernas de controle.. os termos que se empregam remetem à ideia de "força e de Poder". Na tradução oficial. independentemente de qualquer condição. Se isso fosse viável. embora balizada atualmente.poderia ser considerada igual e. do modelo único e do domínio da potência norte-americana. bolsões de miséria e violência. modelo “exemplar” dessa unidade de dominação. Esta noção. tal como pensado no Ocidente. para o poder do estado sobre o Homem e não aos direitos do Homem contra o Estado. A Fundação da Norma: para além da racionalidade histórica 167 . Complementando a análise. nos leva a pensar sobre a questão dos direitos humanos. concordamos com Delmas-Marty 222 quando refere que "não devemos procurar a palavra Humanidade nos manuais de introdução ao direito. Os direitos humanos seriam a conquista mais importante do direito natural moderno. O título sugestivo do capítulo.. 1999. o terrorismo. e em nenhum a palavra “humanidade”. Piaget. Não é de se admirar que o direito não tenha por função principal protegê-los. Delmas-Marty desenvolveu pesquisa em manuais de direito. é importante pensar sobre a invisibilidade dos termos humanidade e humano nos manuais de direito. O desafio do século XXI. Mireille. apenas para citar os exemplos mais conhecidos.

já não possuem o lugar que almejavam e já não atendem às complexas relações estabelecidas internamente e em nível internacional. As diferenças se manifestam com violência. legitimadas pelos direitos internacionais. A verdade dos fatos circunscritos e legitimados pelo direito transmite uma estabilidade aparente. Nesta forma de pensar a humanidade não há lugar para a diferença. na igualdade.comum. Os resquícios dos totalitarismos. não consensual. o que impede relativizar em termos jurídicos. 168 Ruth M. A busca de um pensamento heterotópico. nascidos sob a égide da proteção aos indivíduos. em todos os níveis sociais e políticos. Hoje a violência ganha dimensões que ultrapassam qualquer racionalidade. O discurso pensado como projetivo. no domínio controlado pela tecnociência e no poder do Império. cuja função é tornar invisíveis as manifestações dos diferentes. tanto no interior dos estados-nações como internacionalmente. Para além dessa façanha. pois ele permite observar indicadores que nos levariam a concluir que na sociedade atual não há preparação para se lidar com o erro. Chittó Gauer . simultânea a uma realidade única. Os direitos humanos. O custo dessa forma de política começa a ser cobrado. o que impõe um totalitarismo circunscrito pelo determinismo do único. vêm recebendo reações diversas. derrubou o que restava da crença na unidade. eliminando os discursos dos direitos. O consenso sobre a ideia de totalidade tem levado a política internacional a ações de violência brutal. tal como o pensamento moderno o instituiu. leva ao consensual. dos direitos humanos. é eliminada pelas teorias do consenso.

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