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Um Olhar (Atento) sobre Timor

Um Olhar (Atento) sobre Timor

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Neste livro estão as minhas impressões sobre Timor e sobre os timorenses. Dele constam textos sobre os meus primeiros sete anos, dos dez em que por ali andei, publicados no Jornal “A Voz de Trás-os-Montes”.
Em 2004 resolvi fazer um diário da minha estadia em Janeiro-Fevereiro e em Junho-Julho. Nele procurei transmitir fielmente as minhas impressões sobre os meus alunos, sobre o povo, os governantes, os educadores, as ONGs e o seu trabalho, a RTP Internacional, etc. Todos os textos foram consequência de um olhar atento, mas que “filtra” o que não interessa e transmite o quanto há de bom neste país.
Neste livro estão as minhas impressões sobre Timor e sobre os timorenses. Dele constam textos sobre os meus primeiros sete anos, dos dez em que por ali andei, publicados no Jornal “A Voz de Trás-os-Montes”.
Em 2004 resolvi fazer um diário da minha estadia em Janeiro-Fevereiro e em Junho-Julho. Nele procurei transmitir fielmente as minhas impressões sobre os meus alunos, sobre o povo, os governantes, os educadores, as ONGs e o seu trabalho, a RTP Internacional, etc. Todos os textos foram consequência de um olhar atento, mas que “filtra” o que não interessa e transmite o quanto há de bom neste país.

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ROTARY CLUB DE VILA REAL

Um Olhar (atento) sobre Timor

Vila Real 2007

Título: Um Olhar (atento) sobre Timor Autor: Manuel Cordeiro Edição do Autor Composição e Montagem: Manuel Cordeiro ISBN: 978-972-669-811-1 Depósito Legal: 258173/07 Impressão: Serviços Gráficos da UTAD

PREFÁCIO O Professor Manuel Cordeiro ensina em Timor. As suas visitas de trabalho servem, também, para semear valores. O Povo de Timor tem muitos valores, como demonstrou em mais de vinte anos de Resistência, para não sucumbir como Povo, como Nação, como comunidade cristã. E tem os seus mártires e heróis. Mas, assim como houve um projecto antes de 1975, para justificar uma invasão, guerra e anexação, houve, posteriormente, poderes e organizações que revolveram as cinzas, de que Timor emergia, para incendiar nova convulsão, talvez mais maléfica. Como antes, 1975, houve ambições sobre os valores estratégicos e energéticos, a cobiça foi espreitando oportunidades, e debilidades, no decorrer da curta experiência de governo soberano. Talvez, uma das oportunidades exploradas (entre outras também tentadoras), tenha sido a manifestação de Abril de 2006, com certo tom religioso, sensível são povo, com imagens e símbolos da sua crença. Seguiram-se vários episódios de crescente violência que não mais pararam. Se parece que os agentes do programa do caos para a morte da Nação continuam activos e peritos, na sua estratégia, felizmente que também se percebe que há quem persevere em manifestar esperança e coragem na ajuda ao Povo de Timor, a aguentar esta crise de um ano, para não desanimar de si mesmo, segurando o imenso tesouro obtido na vitória do Referendo para a Independência. O Professor Manuel Cordeiro é desses amigos que sente o novo drama do Povo de Timor, e quer estar a seu lado, fomentando esperança, cultivando valores, ensinando os jovens universitários timorenses. Os acontecimentos que se foram dando em Timor, desde 1999, ano do Referendo, até 2007, oferecem tumultuoso campo de estudo para sociólogos, psicólogos e pastoralistas no aspecto religioso.

Sem dúvida que em cerca de 450 anos de contacto com Portugal, foram as Missões Católicas que mais terão intentado contribuir para a transformação da alma dos Povos de Timor, oferendo-lhe os maiores valores humanos universais e bíblicos, em concreto o Evangelho de Jesus Cristo. A Administração do Governo, embora lenta também não esteve inactiva. Sem essa contribuição de 4 séculos, de certo, não teria aparecido Timor como Nação soberana, em 2002. No seu Diário de vida e ensino em Timor, o Professor Manuel Cordeiro apercebeu-se, luminosamente, das lacunas na formação pessoal dos jovens, a desordem, os movimentos organizados “semi-militarizados”, como ameaça da ordem pública, igualmente com a brandura ou nulidade da autoridade em impor a disciplina necessária para o trabalho, o desenvolvimento e o Bem comum de um Povo soberano. Assim, as coisas chegaram a uma situação – talvez objectivo dos sinistros planos – em que a própria soberania corre perigo eminente. Talvez que, se no final da manifestação do ano passado, tivesse havido um “árbitro” atento, ele teria levantado o “cartão amarelo” (pelo menos), aos actuantes em cena, para que os seus responsáveis máximos avaliassem os perigos em que lançavam o futuro e a soberania do pais que a todos pertence. A dedicação dos Professores Portugueses, como o Professor Manuel Cordeiro é, de certo, dos elementos de mais qualidade e lealdade que hoje o Povo de Timor tem a seu lado. Certamente que estes professores representam o Povo Português que, agora, como em Setembro de 1999, está em suspenso, inquieto, mas solidário com o Povo Timorense. Oxalá que os Povos de Timor, amando a Pátria acima de tudo, todos unidos ultrapassem este drama, com o fizeram de 1975 a 1999. Díli, 7 de Março de 2007-03-09 P. João Felgueiras, S.J.

ANO DE 2004 JANEIRO - FEVEREIRO

11 DE JANEIRO - Domingo Depois de duas noites de viagem cheguei a Díli, pela quarta vez. Pelo caminho ficaram muitas horas passadas nos aeroportos de Londres, Singapura e Darwin. Sem dúvida que é uma viagem muito cansativa, mas tudo se supera quando os motivos que nos levam a tomar certas atitudes na nossa vida, são nobres, como os da solidariedade e da cooperação. Não houvera tanta gente pelo mundo desprendida de muitas das regalias que hoje se podem desfrutar, e não sei o que seria de povos que foram atingidos pelo vírus da pouca sorte, não tendo os mais elementares recursos para terem uma vida com dignidade. Timor está no rol desses países. É por isso que a falta de comodidades que aqui encontramos e a que estamos habituados em nossas casas, são superadas pela esperança de contribuir para que alguma coisa na vida destes povos se altere no sentido de tornar mais dignas as suas gentes. Quando se aterra no aeroporto Presidente Nicolau Lobato, parece que mudámos de mundo. O desenvolvimento que se observa nos países que se tocam durante o trajecto, é um contraste completo com a pobreza das infraestruturas deste aeroporto. Acresce que ao aterrar, o nosso pensamento vai sempre para a Indonésia, pois a arquitectura dos edifícios da gare não permite qualquer dúvida. Trata-se de típicos edifícios em espiral parecendo querer chegar ao céu. O trajecto para casa lembra o estagnamento das estruturas viárias e da construção civil. Tudo continua como na primeira vez que aqui cheguei em Novembro de 2001. Todos fazemos votos para que tudo isto se transforme para melhor, pois só assim se podem criar boas condições de vida às pessoas.
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Na ausência da carrinha da missão portuguesa usámos o táxi que, em cerca de 15 minutos percorre o trajecto passando por Comoro onde se pode ver o antigo aeroporto no tempo de Portugal, embora para pequenas aeronaves. Hoje é o Heliporto das Nações Unidas. A passagem pela avenida que passa em frente ao Hotel Timor, Makota no tempo dos indonésios, mantém o seu nome original, ou seja, Almirante Américo Tomás. Embora não exista qualquer placa pode confirmar-se pela indicação da placa de um pequeno hotel que se encontra quando se chega ao final da avenida. Chegados a casa foram-nos distribuídos os quartos tendo-me tocado em sortes um pertencente à casa nº 1.

12 DE JANEIRO – Segunda-feira Devido à diferença de horas e apesar de ter passado duas noites quase sem dormir, a noite foi muito curta para mim. Uma boa parte foi consumida acordado. Bem cedo me levantei e me dirigi para a Universidade onde fiquei a saber qual o horário que me foi destinado. Tenho aulas das 8 horas às 11 horas da manhã de segunda a sexta-feira, pois vou leccionar duas disciplinas ao terceiro ano. Embora as aulas só comecem amanhã, alguns dos alunos fizeram-me uma visita pela manhã. Como já sou seu docente desde 2001, não é de admirar que a minha presença de novo, lhes causasse algum contentamento. São muitos meses que levamos juntos. Posso dizer que os conheço muito bem. Desde sempre tenho batido em pontos que considero fundamentais para a formação dos jovens de hoje, os adultos de amanhã: a responsabilidade, o trabalho, o espírito de sacrifício, a vontade de progredir, etc. Confesso que não é fácil incutir nestes jovens estes valores. Não creio que a culpa seja só deles. Atribuo-a mais ao modo como cresceram, cultivando o facilitismo, o deixa andar, o não faz mal, etc. Que parece terem sido apanágio da educação que os indonésios lhes quiseram impor. Enfim da minha parte vou
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continuar a bater sempre no realce destes valores. Pode ser que alguma coisa fique. Depois do almoço fui ao supermercado abastecer-me. Aproveitei para, atentamente, tentar descobrir algumas mudanças de tudo o que rodeia o trajecto, feito sempre ao correr do mar, passando pelo complexo do Sporting de Díli, depois em frente ao Palácio do Governo, e seguindo pelas traseiras da antiga intendência. O sol abrasador alterna com a sombra fresquinha dos gondãos ou gondoeiros que se alinham ao longo do passeio, com os seus troncos de alguns metros de diâmetro. O dia terminou com o habitual envio de mensagem via telemóvel a dar conta de que mais um dia passou.

13 DE JANEIRO – Terça-feira Comecei com as aulas de Instalações Eléctricas. Depois de saudar os alunos, velhos conhecidos, e depois de fazer as recomendações habituais centradas na assunção da responsabilidade, da pontualidade, da necessidade de trabalhar e outras recomendações mais ou menos triviais, iniciei a transmissão de conhecimentos, tarefa sempre muito árdua, principalmente quando o alvo são estudantes que pouco compreendem a língua portuguesa e pouca vontade manifestam em aprendê-la. Aliás esse é um tema que devia concentrar as atenções não só dos cooperantes portugueses, mas também dos governantes timorenses. A opção pela língua portuguesa como língua oficial foi uma decisão ousada e de risco. Para ter consequência na obtenção dos objectivos em vista vai ser necessário lutar muito para alterar as mentalidades de quem foi “martelado” durante os anos de ocupação indonésia com as virtualidades da língua indonésia e com os malefícios da língua portuguesa. Acrescido a isto temos ainda o facto de o português ter sido pura e simplesmente proibido a partir de certa altura.

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O dia foi normal. Muito quente e abafado como muitos outros que terei de passar neste período clima que se faz sentir em Timor.

14 DE JANEIRO – Quarta-feira Dia perfeitamente normal. Começou com as aulas desde as 8 horas às 11 horas. Seguiu-se o almoço, no restaurante da Dona Eugénia, atascado, mas limpo e com comida de alguma qualidade. Os legumes que diariamente põe à disposição dos comensais são de comer e chorar por mais. Pela tarde descansei, como nos meus tempos de criança na bem transmontana aldeia de Remondes, olhando de cima para o Rio Sabor que passa bem abaixo dos olhos dos remondeses. Todos os dias me dirijo para o quarto logo após o almoço a fim de retemperar as forças para enfrentar o calor que se faz sentir. Como não podia deixar de ser houve a habitual deslocação ao supermercado, com dois objectivos subjacentes: abastecimento de bens alimentares e “matar” o tempo. Pela tarde fui fazer uma visita ao MAC – Movimento de Adolescentes e Crianças da Irmâ Eliene, para lhe mostrar que já estava em Díli, com todas as tarefas que tínhamos combinado devidamente cumpridas. Fui recebido com muito carinho pela Irmã, pelo senhor Jeremias, tocador de órgão e de viola que normalmente acompanha, em regime de voluntariado, as canções que as meninas e os meninos cantam e por toda a criançada. Despedi-me com tudo combinado para na próxima segunda-feira comparecer de novo para pormos todos os assuntos em dia. A viagem de regresso foi já de noite sem que isso constituísse qualquer preocupação da minha parte tal é a confiança que deposito nas pessoas com quem me cruzo no trajecto. Ao fim do dia ainda houve tempo para combinar com um dos guardas de serviço às casas da cooperação portuguesa onde me encontro hospedado a forma de receber pão pela manhã. Depois de algumas tentativas de
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entendimento entreguei-lhe 25 cêntimos para o pão, mas pouco convicto de a tarefa de que ficou incumbido fosse cumprida.

15 DE JANEIRO – Quinta-feira Apesar de não ter aulas, o meu dia começou pelas 7 horas da manhã. Levantei-me bem cedinho até para confirmar se as minhas dúvidas sobre se teria pão ou não ficavam desfeitas. Tal como eu previa não havia guarda nem pão. Os problemas de comunicação são um dos maiores handicaps ao bom entendimento entre nós e os timorenses. Sempre respondem que sim. O que é certo é que se verifica que afinal não compreenderam nada do que se lhe disse ou se lhe perguntou. Tal como eu previa foi muito fácil trazer pão para casa. Ainda bem porque o pão, mesmo que não abençoado, é indispensável à minha alimentação diária. Hoje não tive aulas. Tinha-me sido dito ontem que assim seria. Os alunos deslocaram-se à escola técnica de Hera a fim de proceder à escolha dos seus representantes ao senado da universidade. Pacífico que assim fosse pois é um dever num país democrático os estudantes participarem activamente no governo dos órgãos dirigentes da instituição onde estudam. O que não pode haver é exageros. Inicialmente estavam destinados dois dias para cumprir este dever cívico. O primeiro dia seria dedicado à campanha eleitoral e o segundo à votação. Com alguma persistência e alguma habilidade à mistura foi possível cumprir tudo num só dia. À noite dirigi-me para o Hotel Turismo a fim de participar na reunião do Rotary Club de Díli. Em vão. As reuniões foram interrompidas até ao dia 28 porque muitos dos companheiros se encontram fora de Timor. Foi pena porque levava um pedido do Governador do meu Distrito para seleccionar um profissional para ir estagiar a Portugal Fica para uma próxima oportunidade.

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16 DE JANEIRO – Sexta-feira Bem cedo parti para a universidade para iniciar um novo dia em Díli. Depois de passar pela sala dos professores, com uma tentativa falhada de imprimir uma tabela de secções de condutores necessária para a aula que iria dar de seguida, lá me dirigi para a sala. Ao contrário do que é costume já os meus alunos se encontravam sentados na antecâmara do corredor que dá acesso à sala de aulas. Com uma capacidade muito fraca para vencer a inércia, foi preciso uma chamada de atenção para que todos, ordeiramente, se dirigissem para a sala. Claro está que o tema da falta de responsabilidade foi o primeiro que abordei nas primeiras palavras que lhes dirigi. Como sempre tentei colocar-lhes um problema bem real para assim os animar a trabalhar. Tratava-se do projecto de uma rede de distribuição de energia eléctrica a várias casas pertencentes a alguns deles. É mais uma alternativa de falarmos sobre as naturalidades de cada um deles. Penso que eles gostam e sentem que o docente, embora tenha como finalidade principal ensinar, também pode ser um amigo que se interessa pela vida de cada um dos seus alunos. Depois de grande expectativa pus em prática o plano de, pela primeira vez desde há muitos anos, ir para a cozinha e fazer o meu jantar. A ideia já vinha germinando desde que chegara. De passagem por um vendedor de rua, comprei batatas e xuxus que preparei para o jantar. Não digo que tivesse sido um sucesso até porque não convém pois muitas vezes dá jeito não saber fazer, seja o que for, mas que foi um bom jantar lá isso foi. Até penso repetir.

17 DE JANEIRO – Sábado Mesmo não sendo dia de trabalho, às sete da manhã saltei fora da cama. Depois de cumprir as várias etapas da higiene pessoal, saí para comprar o

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pão que não dispenso na ementa diária. É um hábito alimentar que me acompanha desde os tempos de juventude. Os planos que tinha traçado para este dia foram completamente alterados. Deles fazia parte a caminhada em passo rápido até muito perto da praia da areia branca. A dificuldade das comunicações via internet que experimentei na tarde de ontem na sala que a FUP nos tem destinada, muito contribuiu para a decisão de abandonar essa caminhada. É que tenho vários exames de Portugal para receber e enquanto não os tiver em minha posse o stress não me abandonará. Em consequência dirigi-me à missão portuguesa onde, devido a conhecimentos antigos, que advêm da minha primeira vinda a Timor integrado neste projecto, entrei e fui directo à sala onde o acesso à internet é permitido. Como cumprir horários não é apanágio de um timorense que se preze, depressa constatei que o horário afixado na porta era pura ficção. Rezava que esta deveria estar aberta entre as 9 e as 12 horas. Eram cerca de 10H30m quando o funcionário, meu conhecido desde Novembro de 2001, chegou com a calma própria de quem tem todo o tempo do mundo para cumprir a tarefa que lhe está confiada, ou seja, a de abrir a porta. Meus companheiros (as) de espera eram já muitos. Todos professores portugueses a leccionar em Timor, no ensino secundário ou na formação de professores timorenses. Uns vieram de Ailéu, outros do Suai, outros ainda de terras bem distantes de Díli. Normalmente deslocam-se aqui a fim de se abastecerem de bens alimentares ou para receberem o correio quer a tradicional carta quer o actual prático e rápido email. Ou ainda para ler as últimas notícias de Portugal e do mundo através da internet. Face à alteração de planos passei o dia por casa, descansando, escrevendo ou vendo televisão.

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18 DE JANEIRO – Domingo A minha condição de católico praticante “fez-me” levantar bem cedo para me deslocar à Igreja de Motael a fim de assistir à missa dominical que começa às 8 horas da manhã. O modo como a missa se desenrola, a uma cadência lenta mas segura, faz-nos recordar os tempos de miúdo em que a sua extensão temporal nos fastidiava muito. Hoje isso já não acontece. A lógica da necessidade de passar o tempo mentaliza-nos de que tanto faz passá-lo de uma maneira como da outra. O que é preciso é ocupá-lo. Assim a duração da missa não traz qualquer sentimento de fastídio. Antes pelo contrário, retempera as forças de que necessitamos para vencer todas as dificuldades que o desenrolar da vida nos vão pondo à nossa passagem pelo tempo. A concentração e a ordem com que as pessoas a ela assistem são dignas de realce. Então o momento da comunhão é o mais significativo. Os dois sacristães encarregados de conduzir a cerimónia colocam-se na ala central dando indicação aos fiéis que chegou o momento de a sua fila avançar. A um ritmo constante todos se vão encaminhando para receber a comunhão, regressando pelas alas exteriores. É digno de se ver, sem dúvida. A missa termina sempre com a caminhada do Senhor Padre e dos seus ajudantes, descendo a igreja pela ala central e encaminhando-se para a sacristia. Terminada a missa e depois de um retemperado pequeno-almoço, comecei a caminhada de descontracção e consumo de energias excedentárias, que o exercício faz falta ao corpo. Com um ritmo rápido como convém, aí vou pela marginal acima a caminho da praia da areia branca. O objectivo da minha caminhada fica um pouco antes, talvez um quilómetro. Sucessivamente a passo firme, contemplo o mar calmo onde é possível ver alguns barcos de pesca e o barco que serve de hotel, desde o ano de 2000, logo após o referendo. Uma pequena paragem bem junto à água, permite ver ao longe a igreja de Motael e o farol. Virando para o outro lado podemos ver o monumento do Cristo Rei.
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Continuando atravesso uma ribeira com alguma água estagnada e com vestígios de muito lixo doméstico, lançado pelos moradores que se aglomeram ao longo do seu trajecto. Mais adiante fica o cemitério de Santa Ana, datado de 1963, podendo ver-se à esquerda um pequeno monumento e à direita a gruta de Santa Ana. Continuando passo pelo restaurante Sagres Beach e por outros que se encontram, de um e outro lado da estrada. Finalmente chego ao meu destino, depois de passar pelo cruzamento que indica a Praia da Areia branca, que se pode ver ao longe, bem junto aos pés do Cristo Rei, e Baucau. Esta placa, como muitas outras coisas aqui existentes, são do tempo da administração portuguesa. O regresso é feito com uma passada mais lenta porque o cansaço já aperta e a idade não perdoa. Depois do almoço, a tarde foi destinada ao descanso. E assim se passou mais um dia na vida de um docente universitário em Timor.

19 DE JANEIRO – Segunda-feira Durante a manhã tudo se passou dentro da normalidade, com as várias tarefas a sucederem-se no tempo ao ritmo do costume: levantar, ir ao pão, tomar o pequeno-almoço e ir para as aulas. Para quem nunca experimentou leccionar num curso dado em português a alunos que pouco falam e compreendem a nossa língua, não imagina a dificuldade de que essa simples e nobre tarefa de ensinar, se reveste. Ao professor põem-se-lhe constantemente problemas de como ensinar. A escolha da estratégia correcta é tarefa hercúlea. Aquela que no momento pode parecer a mais adequada deixa de o ser quando as circunstâncias se alteram. Ao professor exige-se uma constante disponibilidade para alterar o modo como transmite os conteúdos programáticos da disciplina que tem a cargo. E mesmo destes é necessário extrair em cada instante aqueles que parecem mais adequados ao interesse dos alunos e deixar outros que, embora importantes, não o são
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para estes alunos. Estou em crer que muitas das dificuldades de aprendizagem que eles mostram são consequência do desconhecimento da língua portuguesa. No entanto não se pense que os alunos timorenses são pouco dotados. Não é o caso. Têm é hábitos de trabalho que não se coadunam com o ritmo com que tudo hoje em dia se processa. É importante insistir nas teclas da responsabilização e da necessidade de trabalhar. Talvez fruto da dificuldade de comunicação entre docentes e alunos, há por vezes alguns atritos que se torna necessário ultrapassar para bem de uns e de outros. A vida de um professor em Timor não é só leccionar. Paralelamente desenvolvo uma actividade de carácter social que considero muito importante especialmente para mim: ajuda-me a passar o tempo e dá-me a satisfação de poder ajudar quem precisa, neste caso algumas crianças de Timor. Por incumbência das senhoras do Rotary Clube de Vila Real, ao qual pertenço, fui entregar um rádio, que previamente comprei numa loja de aparelhos de som, à Irmã Eliene para que as suas crianças possam dar asas à alegria que irradiam enquanto cantam e dançam. Foi uma tarde cheia de muito significado para mim. Dar a mão ao próximo é o lema deste ano do movimento rotário. Foi o que eu fiz. Por isso sinto-me feliz. Apresentei aos meninos presentes o filme que tinha feito em Vila Real, na festa de Natal da Escola dos Quinchosos. Foi muito lindo ver os meninos de Vila Real cantar para os meninos de Timor. Entreguei também o donativo que reuni em Vila Real, entre os amigos que disponibilizaram algum do seu dinheiro para permitir que crianças necessitadas sorriam.

20 DE JANEIRO – Terça-feira Aquele que poderia ser um dia como os outros, acabou por ser um dia com alguma turbulência. Como todos os dias acontece tive aulas das oito às 11 horas. Tudo correu muito bem, até acima das minhas expectativas pois o
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desempenho dos alunos foi muito bom, o que me satisfez particularmente. O tema que estou a tratar, redes de distribuição de energia eléctrica em baixa tensão., com exemplos bem concretos do dia a dia timorense, foi facilmente apreendido por eles. A areia no andamento da carruagem foi introduzida por alguma inquietação dos alunos em relação ao funcionamento de uma das disciplinas. Procedi como era aconselhado, ou seja, transmitilhes a ideia de que tudo se resolve desde que as pessoas estejam disponíveis para o diálogo. Em consequência deste problema os professores de electrotecnia presentes em Timor, reunimo-nos pela tarde para trocar experiências, para falarmos dos problemas inerentes à leccionação e para, em conjunto, tentarmos arranjar as estratégias mais adequadas à prossecução dos objectivos que todos temos em vista, honrar o nome das universidades portugueses através de uma postura o mais exemplar possível. Foi uma reunião muito interessante porque trocámos algumas ideias e falámos de alguns factos menos agradáveis que por vezes acontecem e que, embora marginais ao ensino, podem sobre ele ter alguma influência na medida em que têm docentes como intervenientes. Como coresponsável que sou pela licenciatura em Engenharia Electrotécnica, comprometi-me a introduzir algumas alterações no curriculum das disciplinas da área. Espero assim contribuir para facilitar a leccionação dos docentes que delas forem responsáveis. Tudo o que possa ser feito para que as pessoas se sintam bem em terras tão longínquas, deve ser feito. O resto do dia correu dentro da normalidade que é possível para quem está tão longe dos que nos são mais queridos.

21 DE JANEIRO – Quarta-feira Na sequência da reunião de ontem meti mãos à obra e, depois de cumprir os rituais normais, ir ao pão, tomar o pequeno almoço e caminhar, sempre a pé ligeiro, para a universidade e ensinar durante três horas, “arrumei” os
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programas das várias disciplinas da área da electrotecnia, de modo a darlhes uma sequência correcta no sentido de lógica e harmoniosa. Os assuntos têm que deslizar pelas várias disciplinas de modo a que no final tenhamos um produto que sirva os interesses dos alunos e os prepare para um futuro que, em muitos casos, será difícil. Estou certo de que essa melhoria se vai notar e, especialmente por parte dos docentes, terão os conteúdos programáticos mais claros. Espero que todos fiquemos a ganhar; os alunos porque têm uma sequência de assuntos mais natural e mais lógica; os docentes porque lhes são apresentados com mais clareza os temas que têm que tratar e eu porque cumpri a obrigação a que me comprometi de tudo fazer para que o curso se desenrole com normalidade e o melhor possível. Tive oportunidade de conversar com o Engº Inácio, Decano do curso de Electrotecnia da UNTL, na companhia do representante da FUP, Dr. Ângelo Ferreira a fim de conseguirmos sensibilizar colegas da indústria a colaborar na leccionação do nosso curso. É muito importante que haja docentes que tenham a experiência do mundo real do trabalho para transmitirem aos alunos as suas experiências e servirem-lhes de exemplo e de incentivo a estudarem ainda mais para um dia conseguirem ser como eles. No regresso a casa ainda tive oportunidade de cumprimentar o senhor Reitor, o Professor Benjamim Corte Real, que, com a sua natural afabilidade e simpatia se congratulou por me ver uma vez mais em Timor a colaborar com a sua universidade.

22 DE JANEIRO – Quinta-feira As saudades começam a apertar. É natural que assim aconteça. Já são duas semanas sem ver os que nos são mais queridos. Há que arranjar forças para ultrapassar estes momentos de grande nostalgia. É por isso que tento estar sempre ocupado. A ida à internet à missão portuguesa para ver o correio e ler o jornal, faz parte de todos os meus dias aqui em Díli. No seguimento da
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reunião que tive com os docentes de electrotecnia e a que me referi na terça-feira, encontrámo-nos hoje de novo para lhes transmitir as alterações que introduzi nos curricula, depois de ter em conta as suas sugestões. Durante a aula da manhã tive que ceder um pouco do tempo para que dois docentes da UNTL tivessem uma reunião com os meus alunos, a fim de tentar resolver o problema que os aflige e que respeita ao funcionamento de um das disciplinas que lhes estão a ser ministradas neste trimestre. Espero que tudo termine em bem, embora ficasse apreensivo pelo aparente nervosismo dos alunos quando regressei à aula. No que respeita à disciplina que estou a leccionar, Instalações Eléctricas I, para já, seguida por Instalações Eléctricas II, tem corrido acima das minhas expectativas. Devo confessar que os alunos me estão a surpreender positivamente. Já os conheço quase há três anos e já sinto por eles alguma familiaridade que, confesso, não é muito normal na minha já longa experiência de vinte e nove anos de docência. Hoje comecei a tratar da minha ida à Nova Zelândia no regresso a Portugal, via Sidney. Estou com alguma expectativa em conhecer a Nova Zelândia. A vida é feita de objectivos e para mim são estas visitas no regresso a casa que me dão forças para vir aqui colaborar. Se não fosse a possibilidade que tenho tido e que vou continuar a aproveitar de conhecer novos mundos, decerto não viria aqui tantas vezes.

23 DE JANEIRO – Sexta-feira O aproximar do fim-de-semana desperta sempre um mistura de sentimentos. Alívio por um lado e expectativa de descanso por outro. Depois de uma semana de trabalho é sempre bom descansar ao sexto e ao sétimo dia. As aulas decorreram com normalidade apenas aligeiradas por uns momentos de descontracção que permitiram aproximar-me ainda mais dos alunos. Falei-lhes das minhas deambulações pelo mundo, mostrei-lhes
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excertos de um filme sobre Moçambique e o Parque Kruger e algumas fotos de Vila Real. O relacionamento que tenho com eles já se pode considerar de amigos. É claro que a autoridade natural do docente dentro da sala de aula, sustentada no cumprimento absoluto dos seus deveres e no respeito pelos alunos, nunca deve ser posta em causa. É o que acontece comigo. Desde sempre tento cumprir a máxima que o meu pai me transmitiu desde muito pequeno: sê sempre um bom funcionário e cumpre sempre as tuas obrigações que, em consequência, serás sempre respeitado. Sem dúvida que a sabedoria que se adquire ao longo de uma vida de muito trabalho e muito sacrifício, é de muita utilidade para quem tem a sorte de ter alguém que lhe dê tais conselhos. Pela tarde integrei-me no funeral da mãe do Presidente Xanana Gusmão. A cerimónia fúnebre decorreu na catedral e estiveram presentes os representantes diplomáticos acreditados em Díli, muitos membros do governo, representantes de instituições públicas e privadas, os familiares e muita gente do povo. O Presidente Xanana, na sua simplicidade genuína, orientava a organização do cortejo dando indicações para a colocação das flores nos carros que acompanhavam o caixão e para alguns pormenores relacionados com a colocação do caixão no carro que o havia de levar ao cemitério.

24 DE JANEIRO – Sábado Durante a manhã nada de importante se passou. Bem cedo saí de casa e fui à procura da RNTL – Rádio Nacional de Timor Leste. Depois de deambular por várias ruas e depois de perguntar a várias pessoas lá consegui chegar a um edifício em frente ao Centro de Estudos Judiciários. Dirigi-me à recepção e fiquei a saber que chegara ao local que pretendia. Pela tarde ali me desloquei de novo a fim de assistir à gravação do programa de rádio do MAC – Movimento de Adolescentes e Crianças. Às três da tarde em ponto estava
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a entrar para os estúdios onde, numa sala de pequenas dimensões, antecedendo o estúdio de gravação, já se encontravam os microfones devidamente colocados e o técnico que iria fazer a gravação do programa e posterior mistura e composição, o Senhor Hélio, timorense bem simpático e com um sorriso aberto próprio de quem se está a preparar para desempenhar uma tarefa com gosto. Sem dúvida que esta minha presença constituiu uma oportunidade óptima para reforçar a admiração que nutro por pessoas que conduzem adolescentes e crianças a desempenhar com tanto empenho e, diria mesmo, arte, face aos meios disponíveis que são escassos, tarefas como esta de levar a bom termo a gravação de um programa de rádio. Parabéns à Irmâ Eliene e a todas as pessoas que, por todo o mundo, desempenham tarefas tão nobres. Assisti à gravação de dois programas que foram da autoria da Estefânia e da Paula. O tema foi, como é inevitável, os direitos das crianças e a amizade que deve haver entre os familiares e em geral entre todos os elementos da sociedade. O entusiasmo com que todos entravam em “cena” na respectiva vez, aliado ao “profissionalismo” demonstrado, leva-me a acreditar que todos “sentem” bem fundo o conteúdo das frases que, umas a seguir às outras, vão debitando em frente aos microfones. Oxalá que quem os ouvir, o faça com a atenção que eles merecem. Apoiar instituições que conduzem tão seguramente ao objectivo da formação, da educação e do amor próprio de cada um, deve ser motivo de orgulho para quem o faça. Estou plenamente convicto de que assim é. Vim da rádio ciente de que a opção que muitos daqueles que responderam ao apelo que lhes lancei para apoiar este grupo de adolescentes e crianças, podem sentir-se orgulhosos porque estão a contribuir para que muitos deles tenham acesso a uma vida melhor num futuro incerto e, certamente difícil, que os espera. No regresso passei em frente ao quartel onde se encontra o nosso Batalhão. O movimento que presenciei leva-me a crer que havia preparativos para a apresentação de boas vindas ao agrupamento Hotel que vem de Vila Real.
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Para a semana lá me dirigirei ao Comandante, Tenente Coronel Xavier de Sousa para lhe apresentar cumprimentos e para com ele combinar a entrega do equipamento que transportou e que foi entregue pelo Rotary Clube de Vila Real.

25 DE JANEIRO – Domingo Para não fugir à regra o dia começou às sete da manhã. Feitas as rotinas diárias, dirigi-me para a igreja de Motael para assistir à missa. No final dei uma volta pelas ruas envolventes e encaminhei-me para casa a fim de tomar o pequeno-almoço. Como é costume preparei-me para o habitual passeio dominical. Saí em direcção a Becora, mas seguindo a marginal. Parei várias vezes para apreciar a paisagem que se alcança na direcção do mar. Lá está a Ilha de Ataúro, tão perto, mas quando para ela nos dirigimos de barco ou dela regressamos, parecendo uma distância enorme. Observei os pescadores a retirar as suas redes do mar e alguns deles pescando à linha sendo o carreto uma garrafa de água vazia. O improviso atinge, por vezes, proporções inimagináveis. Sendo um dia de descanso, é propício à observação de imagens extraordinariamente bucólicas como sejam as cabras e respectivos filhos a deambular pela rua, acompanhadas pelos búfalos, vacas, galinhas, porcos e outros. Estas são imagens que nunca se varrerão da minha memória tal é a raridade e o bucólico que elas representam. Chegado à ribeira, que neste momento não tem pinga de água, virei à direita encaminhando-me, sempre a seu lado, passando por debaixo de grandes gondões, de tronco enorme e de envergadura de deixar qualquer pessoa boquiaberta de admiração, fui avançando não sem que, de vez em quando, tivesse que limpar o rosto tal a quantidade de água que por mim corria. Neste trajecto pode ver-se a Escola Duque de Caxias, reabilitada pelos militares brasileiros e, por isso, com este nome alusivo a uma importante
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personalidade brasileira. Com o andamento normal, rápido quase sempre, fui vencendo a distância que me separava da casa, onde pretendia chegar por volta do meio-dia. Passei pelo cemitério de Santa Cruz e depois pelo dedicado aos cidadãos indonésios que, em tempos, foi motivo de forte reclamação por parte da primeira Ministra Sukarno Putri, seguindo pela Rua das Madres, com passagem pelo Seminário Menor de Balide e pelo Colégio de S. José, chegando à igreja da paróquia de Balide. Como pretendia localizar a casa dos Jesuítas, para em breve visitar o Padre João Felgueiras, fiz uma inflexão no meu trajecto e virei em direcção a Dare, e depois à esquerda para Becora. Depressa reconheci a casa que pretendia encontrar. Feito o reconhecimento tomei o trajecto normal que me trouxe a casa. O resto do dia foi normal, passado em casa a escrever, este e outros textos que tenho em andamento.

26 DE JANEIRO – Segunda-feira Pela manhã tive oportunidade de cumprimentar a delegação da FUP, liderada pelo Professor Meira Soares. Encontrámo-nos casualmente na sala dos professores. Vinham acompanhados do Reitor da UNTL, Professor Benjamim Corte Real e do Engº Inácio, decano da faculdade de Engenharia. Espero, tal como todos os restantes cooperantes, que a sua vinda cá sirva para fortalecer o projecto e para criar melhores condições de funcionamento, apesar de as actuais já serem bastante boas. Após o almoço, hoje no restaurante City Garden, onde antigamente era o D. Aleixo, fui para casa a fim de descansar. Liguei a televisão e, para meu contentamento, estava a transmitir o jogo entre o Vitória de Guimarães e o Benfica, já com a segunda parte a decorrer. O Benfica ganhou, mas tudo terminou com uma grande tristeza, devido à morte do jogador Feher. Não é o primeiro caso que acontece. Aliás já aconteceu por várias vezes. Não é

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fácil compreender como estas coisas acontecem a gente jovem e com uma preparação física tão consistente como é a de um jogador de futebol.

27 DE JANEIRO – Terça-feira A manhã foi igual aos outros dias, pelo menos até às onze horas. Tive as aulas do costume, que correram bem. O esforço exigido para que haja êxito, ou seja, para que os alunos compreendam os conceitos que lhe transmito, é muito grande. Além das falhas na compreensão da língua portuguesa ainda tem como handicap um ensino pré universitário muito permissivo e deficiente. Com esforço, no entanto, lá vou conseguindo levar a água ao moinho. Às onze saí da universidade e encaminhei-me para China Rate/Taibesse a fim de combinar com o Padre João Felgueiras a entrega do material escolar aos alunos da sua Escola Nova de Santo Aleixo, a erguer em espaço contíguo à casa onde estão sedeados os Jesuítas. O trajecto passa pelo antigo Mercado Municipal, agora completamente recuperado, pela Igreja de Balide, atravessa a ribeira e passado pouco tempo estava a falar com o Padre Felgueiras. Recebeu-me com a simpatia que lhe é peculiar, tendo-me desde logo reiterado o pedido de desculpas por não se ter deslocado a Vila Real a fim de nos falar na sua experiência em Timor, já longa de trinta e dois anos. Transmiti-lhe as saudações do Rotary Clube de Vila Real e informei-o do dinheiro que lhe vou entregar para ajudar à construção da sua escola. A ligação entre esta e o jardim de sua casa, é feita por uma porta de metal que, informou-me ele com um sorriso largo, ia ser por mim inaugurada pois seria eu a primeira pessoa a utilizá-la. Mostrou-me o terreno com cerca de 2000 m2 e transmitiu-me as alterações de planos que teve que fazer. Como o início da construção da escola está atrasado, começou por recuperar a casa de habitação que lá se encontra, a fim de poder começar a utilizá-la
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para, nos quartos que serão salas, começar com as aulas, nomeadamente de língua portuguesa, pois as solicitações para tal têm sido muitas. O dinheiro que, em nome do meu clube lhe entregarei, servirá para acelerar esta recuperação. Ao fim do dia tive uma reunião com a equipa da FUP que aqui se encontra. Estiveram presentes todos os docentes que neste segundo trimestre aqui estão a leccionar. Trocámos algumas impressões e foram-lhes transmitidas algumas preocupações para reflexão, para assim podermos melhorar a prestação docente. O espírito de que nos encontramos imbuídos, augura uma boa prestação de todos. Tive oportunidade de alertar para a necessidade de as universidades estarem dentro do projecto. É preciso que dêem garantias de que os seus docentes sejam recompensados, não monetariamente, mas com algumas facilidades, por exemplo, nos horários ou valorizando a sua participação neste projecto. Após a reunião e no regresso a casa, foi-me confidenciado por um colega alguma apreensão por situações de violência vividas na comemoração do seu aniversário, na praia da Areia Branca, protagonizadas por alguns timorenses, sobre malaios (brancos). Estes factos alertam-nos para a necessidade de reforçar as cautelas e moderar as atitudes. É cada vez mais necessário respeitar a cultura e as tradições deste povo. Festa na praia, com música e bebidas, pode constituir uma provocação a costumes menos exuberantes.

28 DE JANEIRO – Quarta-feira Tudo normal. Apareceu na aula a delegação da FUP, acompanhada pelo responsável da RDP Internacional em Timor, o jornalista António Veladas. Foi um momento muito interessante que aproveitei para transmitir aos ilustres visitantes, o progresso que os meus alunos têm tido desde que com eles iniciei esta caminhada em direcção à obtenção de um grau superior, por
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que todos anseiam. É muito gratificante para um docente constatar o progresso que os seus alunos vão tendo, à medida que os conhecimentos lhes vão sendo transmitidos. Para eles foi motivo de orgulho o facto de eu os ter apresentado um após outro, pelo nome e pela terra de onde são naturais. Durante a visita, muito breve, foi-me solicitado pelo António Veladas, a minha colaboração no projecto que recentemente abraçou, de publicar semanalmente um jornal de língua portuguesa a que pôs o título de Semanário. Aceitei de imediato. Pediu-me para falar sobre os temas que estava a versar na aula, ou seja, a energia eléctrica. Como é de calcular esse é um campo onde me sinto muito bem. Vou fazer tudo para corresponder à confiança que em mim depositou e espero contribuir para o despertar de mentalidades para a importância do tema. Após o almoço fui visitar o Comandante do agrupamento HOTEL. Confirmouse o que eu pensava. Embora já tivesse chegado há quinze dias, só ontem chegaram os últimos. O material escolar que trazem, entregue pelo Rotary Clube, ainda não chegou. Contactar-me á por telefone logo que chegue.

29 DE JANEIRO – Quinta-feira Dando seguimento ao pedido feito pelo António Veladas, escrevi aquele que será o primeiro texto que publicarei no Semanário de Timor, jornal de língua portuguesa. É muito positivo que haja um jornal em língua portuguesa num país onde o português é língua oficial a par do tetum. Pode ser um bom instrumento de aprendizagem para muitos timorenses que pouco ou nada falam ou compreendem português. Por vezes interrogo-me se não haverá timorenses, em número significativo e numa faixa etária entre os 15 e os 35 anos, que fazem alguma obstrução à aprendizagem do português. Pode ser apenas por preguiça, mas que se sente essa areia na engrenagem, lá isso sente.
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O meu primeiro artigo sairá para a próxima semana pois nesta já não era possível inclui-lo. Espero contribuir para o esclarecimento de algumas pessoas para o tema da energia. Esse é o meu propósito. Se o conseguirei ou não, mais tarde se verá. Ao fim da tarde tive uma reunião com a delegação da FUP para tratar de problemas existentes entre os alunos do 2º Ano e uma das docentes. Tudo farei para contribuir para que tudo se resolva e as duas partes saiam com a dignidade que lhes é devida. Após a reunião fui para o Hotel Turismo a fim de assistir à reunião do Rotary Clube de Díli. A reunião decorreu nos moldes habituais, embora bem diferentes dos das nossas reuniões em Vila Real. Entreguei ao Presidente do clube a carta do Governador do meu Distrito, companheiro Diamantino Gomes, acompanhada por um resumo em inglês pois é esta a língua oficial nestas reuniões. Pode parecer estranho, mas assim é. Durante a reunião foi apresentado um projecto, já implementado, de entrega de uma ambulância a Timor, incluindo formação técnica de alguns técnicos de saúde que a irão utilizar, ao serviço das respectivas populações. No final da reunião tive oportunidade de trocar impressões com um companheiro australiano que, por coincidência, tinha estado na ilha de Jaco com um colega docente. Foi muito interessante constatar a alegria com que a mim se dirigiu e trocámos algumas ideias do dia a dia timorense. Isto é uma das razões pela qual muito me agrada pertencer a este movimento. As pessoas que se conhecem, a troca de conhecimentos que se pode fazer, é um incentivo para continuar a levar à prática as recomendações do nosso fundador, Paul Harris.

30 DE JANEIRO – Sexta-feira Hoje a manhã foi diferente do habitual. Durante a aula fui visitado pelo Professor Meira Soares e pelo Dr. Ângelo Ferreira. Vinham acompanhados
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pelo repórter da RTP, Pedro Valador. Filmaram durante algum tempo a aula, com esta a decorrer com a normalidade com que decorre todos os dias. Foram-me solicitados comentários sobre a minha experiência de ensino, aqui em Timor. Faltaria à verdade se não dissesse que tem sido gratificante para mim esta experiência, tão longe de quem me é mais querido, minha família e os meus amigos. A evolução que os meus alunos mostram, em termos de conhecimentos adquiridos e de postura perante os problemas do dia a dia, são um incentivo para continuar com esta tarefa. Aproveitei para realçar as virtualidades do projecto da FUP – Fundação das Universidades Portuguesas que, espero eu, será um marco na implantação e no reforço da língua portuguesa em Timor, bem como um impulso no reforço das relações entre Portugal e Timor. Espero também que a minha intervenção constitua, com muitas outras, uma possibilidade de alguns portugueses se tranquilizarem pois o dinheiro que Portugal está a gastar em Timor está a ser bem utilizado. Após o almoço continuámos a reunião de ontem agora com a presença da colega envolvida. A sua abertura para a resolução do problema, o modo como escutou as recomendações que lhe foram feitas, auguram uma resolução rápida para o problema. Espero que os alunos cumpram também a sua parte. Só com empenho das duas partes é que o problema se pode resolver. À medida que o tempo passa, melhor conheço a realidade timorense. Por exemplo fiquei a saber, através dos meus alunos, que Timor não é homogéneo no que respeita aos processos de resolução dos problemas que, com maior ou menor escala, aparecem. Em Maliana, Los Palos e Baucau, dizia-me um aluno, os problemas não se resolvem com a cabeça, resolvem – se pela violência. Isto faz-me reflectir sobre a nossa estadia aqui. Será que estamos em segurança? E se este espírito de violência, intrínseco a muitos timorenses, vem ao de cima? Como actuar numa situação destas? Será que

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estamos preparados? Enfim são muitas questões, com respostas incertas, que se podem fazer. A contrapor a estas preocupações, fiquei a saber que Los Palos quer dizer “jardim do barco” em língua local. A jardim está associada a flor, que não pressupõe violência. Então porque é que as pessoas o hão-de ser? A leitura do site da TVI, deixou-me extraordinariamente emocionado. As palavras da mãe do jogador húngaro morto há dias em Portugal, tão simples e de um conteúdo tão profundo, trouxeram à minha mente o papel que as mães representam na vida de todos nós. Dirigiu-se ao filho em conversa natural como se ele a ouvisse. Repassou todas as recordações que ele lhe trouxe à memória, desde o seu nascimento até à sua morte. Foi muito bonito para mim.

31 DE JANEIRO - Sábado Bem cedinho saí de casa para fazer exercício físico. A idade a isso aconselha embora todo o cuidado seja pouco, tal é a quantidade de casos de complicações surgidas na sequência de exercícios físicos feitos sem o acompanhamento médico devido. No que me respeita tento fazer tudo com moderação e com muito auto controlo. O trajecto seguido é o mesmo de sempre: ir até muito perto da praia da Areia Branca e regressar. Hoje dediquei alguns minutos à gruta de Santa Ana em Bidau, situada no lado direito da estrada quando se caminha no sentido do Cristo Rei. Detive-me por alguns minutos e subi ao cimo podendo observar com mais detalhe a imagem e a placa descerrada aquando da inauguração deste pequeno, mas muito interessante monumento A simplicidade da sua construção segue o que se passa com muitos outros monumentos que existem neste jovem país. Da lápide respiguei o seguinte: Viva Mãe de Deus. Viva sem fim; São José, Santa Ana, São Joaquim.
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Na minha ida à missão portuguesa, a fim de ler o correio electrónico, mandar a minha correspondência e ler os jornais, aproveitei e passei pelo Instituto Camões, situados no 2º Andar do edifício ACAIT – Associação Comercial Agrícola e Industrial de Timor. Como não havia internet, sobroume algum tempo até ao almoço que aproveitei para ver alguns livros antigos sobre Timor. Desfolhei um onde se podem ver algumas dezenas de postais antigos, desde o início do século XX até ao pós guerra. No texto introdutório pude confirmar a informação que já tinha: durante a invasão japonesa, em Díli, só ficaram de pé 10 edifícios. Tudo o resto foi arrasado. O mesmo se passou em Ailéu, Maubisse, Ermera e outras cidades espalhadas por todo o território de Timor. O contacto com este livro deu-me uma ideia que vou tentar pôr em prática já na próxima semana, fotografar alguns dos edifícios ou ruas que são retractados nos postais. Parece-me interessante, fazer o confronto do Díli de então com o Díli de agora.

1 DE FEVEREIRO – Domingo A missa na igreja de Motael, às 8 horas é o meu primeiro acto em cada Domingo que passa. Pelo caminho fui surpreendido pela voz de alguém que andava a fazer exercícios matinais, nada mais nada menos que dois militares do agrupamento HOTEL que me disseram que já podia entregar o material escolar enviado pelo Rotary Clube de Vila Real. O resto do dia foi o normal. Ida à internet para pôr a escrita em dia e ler as notícias dos jornais portugueses. Aproveitei a tarde para descansar pois o calor intenso acompanhado por uma humidade muito elevada, exige muito esforço a quem trabalha nestas condições. È preciso recarregar baterias para enfrentar a próxima semana que, tal como todas as outras, são aproveitadas por mim para cumprir o serviço docente que me está atribuído e ainda preocupar-me com o andamento do curso, do qual sou co-responsável.

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2 DE FEVEREIRO – Segunda-feira As aulas de hoje destinei-as à preparação do exame de amanhã. Penso que os alunos estão bem preparados. Vamos ver se os resultados estarão de acordo com aquilo que é o meu desejo. Telefonei ao Padre João Felgueiras para combinar com ele a entrega do material escolar à sua Escola. Na próxima Sexta Feira a partir das 11H20 m lá estarei, assim espero, a fazer a entrega e ver a reacção dos alunos a esta oferta. Lá estarão as senhoras professoras e eu irei acompanhado de alguns colegas que manifestaram interesse em acompanhar-me e aproveitar a oportunidade de conversar um pouco com o Padre Felgueiras. É uma oportunidade de ouvir alguém que conhece Timor como poucos e cuja vida, nos últimos trinta e dois anos, está intimamente ligada à trajectória que Timor tem tido desde os tempos de colónia portuguesa até hoje, o mais jovem país do mundo. Vou manhã falar com o Comandante Xavier de Sousa para acertar os últimos pormenores desta tarefa de que fui incumbido pelo meu clube.

3 DE FEVEREIRO – Terça-feira Hoje os meus alunos fizeram o exame de Instalações Eléctricas I. O José Vaz não compareceu por se encontrar doente. Não é a primeira vez que algum dos meus alunos não comparece nas aulas por estar doente. É muito frequente isso acontecer. Sem dúvida que há ainda muito a fazer na prevenção da doença neste jovem país. Pareceu-me que todos enfrentaram o exame com alguma confiança. Vamos ver os resultados. Como já tinha mandado para Vila Real a crónica da energia e o texto sobre Timor, a minha ida à internet foi feita com mais descontracção do que nalguns dias. A obrigatoriedade que assumi com o jornal, aliada à minha vontade de cumprir sempre os meus compromissos, não me deixa alternativa. É necessário ter imaginação e empenho para, dia após dia, ir
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escrevendo textos que, assim o espero, sirvam para que alguns leitores tenham alguns momentos de descontracção e de cultura. Logo após o almoço lá fui combinar com os amigos militares o dia de sexta-feira. Fui recebido com muita simpatia pelo Capitão Almeida que delegou no Sargento Ajudante M Costa a tarefa de me acompanhar à saída e de me transportar o equipamento escolar num jipe. Continuei com a tarefa de marcar transporte para Camberra e hotel para três noites. Ainda não foi hoje que aconteceu. Espero que o seja o mais depressa possível porque o dia aproxima-se.

4 DE FEVEREIRO – Quarta-feira Iniciei as aulas de Instalações Eléctricas II. Para já todos vão frequentar esta disciplina. Embora tenham possibilidade de escolher entre as opções de Sistema de Energia e Sistemas de Telecomunicações, não vai ser possível funcionarem as duas por falta de docentes de telecomunicações. Vamos ver como tudo vai decorrer. Às onze saí da universidade e apanhei um taxi na direcção da casa das Irmãs Dominicanas que aqui se encontram, a Irmã Eliene e a Irmã Francisca. Já estavam à minha espera a Irmã Eliene e a Dulce, professora de português em Timor, colocada aqui no âmbito da cooperação portuguesa. O dia amanheceu com muita chuva, não tendo parado de cair durante toda a manhã. Por isso foi necessário apanharmos um taxi pois íamos à Escola do Paiol, do 1º Ciclo a funcionar desde 1982 e assim chamada por estar construída no local onde, em tempos, era o paiol da pólvora do exército português. Trata-se de uma escola construída pelos indonésios, com cerca de 570 alunos e com 12 turmas a funcionar por turnos durante o dia. Tem quinze professores sendo o seu Director o professor Salvador Vila Nova. A razão da visita era conhecer os miúdos a quem vamos pagar o ensino que custa seis dólares por ano a cada um. Possivelmente vão ser os alunos do
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4º Ano da Escola dos Quinchosos que vão ficar com essa responsabilidade. Pelo menos para cerca de 20 já têm dinheiro que juntaram em colecta que fizeram antes do Natal. Como choveu sem cessar, não foi possível fazer uma foto com eles no exterior da escola pois, como pertencem a várias turmas, só no exterior o podíamos fazer. Terminada a visita fomos almoçar juntando-se a nós uma amiga da Irmã Eliene também brasileira, da Baía, e que está em Timor acompanhando o marido que é funcionário das nações unidas para os refugiados. Foi um almoço simples, mas muito bem confeccionado pela funcionária timorense que está ao serviço das Irmãs. De tarde regressei a casa e tudo decorreu dentro da normalidade sem nada que merecesse realce. Recebi um email do meu amigo chileno Valderrama que me deixou muito contente. Dizia-me ele que tinha sido recebido em Vila Real muito bem, como um amigo. Parabéns ao José Boaventura que se encarregou da recepção.

5 DE FEVEREIRO – Quinta-feira Pela tarde dirigi-me a casa do Alô Pereira, mais propriamente, ao seu estúdio de gravação de CDs. Depois de perguntar a algumas pessoas lá consegui chegar ao local. Passado pouco tempo passou um táxi de onde fui chamado por alguns miúdos. Era a Irmã Eliene e alguns dos miúdos do MAC. A deslocação destinava-se à gravação de um CD. Lá estava o Natalino, a Mónica, a Estefânia, a Hermínia, a Jaque, a Suzete, e outros cujo nome não me recordo. O senhor Alo Pereira já os esperava, embora estivesse a ultimar um trabalho que nos obrigou a atrasar a gravação. Por algum tempo gerou-se o pânico entre a Irmã e os cantantes. O órgão, gentilmente emprestado pelo contingente militar brasileiro, tinha ficado na mala do táxi que os tinha trazido desde o MAC. Desfez-se o acordo com a Alô, os dólares regressaram à mão da Irmã Eliene e o momento tão
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esperado por todos, de gravar um disco, desmoronou-se como um castelo de cartas. Por sugestão minha, escolhemos três miúdos, o Natalino, a Mónica e a Estefânia e metemo-nos num táxi à procura do órgão. Descemos a longa rua que parte perpendicularmente à ribeira em direcção ao centro. Passámos pelo City Café, Missão portuguesa, universidade, hotel Timor, e fomos em direcção ao aeroporto. As probabilidades de encontrar o táxi onde aquele bem tão precioso, aumentaram quando todos concordaram que o táxi era de cor branca. A partir desse momento toda a nossa atenção estava concentrada nesses táxis. Já depois do heliporto, surge a sorte grande, ou seja, o táxi com o órgão fora reconhecido pelos miúdos e circulava em sentido contrário. O senhor Atai, assim se chamava o taxista que nos levava, inverteu a marcha na primeira oportunidade. Devido ao muito transito, foi muito difícil passar para a outra faixa. Entretanto estavam todos concentrados no movimento do táxi alvo. Por sorte nossa parou um pouco adiante num bakso, local onde servem comida indonésia. Aí chegados depressa os três cantores saltaram do táxi e se dirigiram ao condutor do táxi branco que, com um largo sorriso, lhes disse que ainda não tinha dado conta do sucedido. Recuperado o “tesouro perdido” telefonei à Irmã Eliene a dar a boa nova. Tudo se alterou. Regressámos ao estúdio, os dólares passaram de novo para o Alô Pereira e deu-se início à gravação, agora com alguns minutos, que pareceram dias, de atraso. Assisti à gravação da primeira canção, cantada pela Hermínia e pelo Natalino. As suas vozes suaves e doces, ecoaram pelo estúdio de dimensões reduzidas, sem meios sofisticados, mas com um empenho muito grande por parte dos dois técnicos, Alô Pereira e outro. Nestes momentos é que damos valor àquilo que temos em excesso. Com meios tão reduzidos como se podem fazer coisas com tanto valor! A canção era um hino a Timor e intitulava-se “Minha querida Timor Lorosae”.

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Tudo terminou em beleza. Subi mais um degrau na consideração que estes miúdos têm por mim. Não posso decepcioná-los. Tudo farei para que acreditem em mim. Abandonei os estúdios de gravação logo após esta primeira canção. Fui descansar para casa e adiantar os textos que tenho que mandar para Portugal.

6 DE FEVEREIRO – Sexta-feira Este dia era por mim esperado com muita expectativa pois estava marcada, há algum tempo, a tarefa de entregar o material escolar à Escola Nova de Santo Aleixo, Amigos de Jesus, fundada pelo Padre João Felgueiras, constituído por seis volumes e enviado pelo Rotary Clube de Vila Real. Terminada a aula, já com a máquina a tiracolo, tomei um taxi e passados cinco minutos estava à entrada do aquartelamento das tropas portuguesas. Na minha companhia estavam uma colega e um colega que tinham manifestado interesse em acompanhar-me. Feitas as formalidades à entrada, lá me encaminhei, acompanhado do militar de nome Agudo, até ao edifício do comando. Como civil que sou, compreendo muito bem as regras que as instituições militares têm, principalmente no que à segurança respeita. Assim, e depois de vir o chefe de viatura, Sargento-ajudante M. Costa, natural de Chaves, mas a viver em Vila Real, de enorme e espontânea simpatia, fomos em direcção a Taibesse. Aí já se encontrava o Padre João Felgueiras acompanhado de algumas das senhoras professoras e com os alunos nas respectivas salas, pois as aulas só terminam às 14H00. De imediato os seis volumes do equipamento foram descarregados do jipe militar e foram colocados numa das salas. Seguiu-se uma pequena cerimónia, que foi grande no significado que teve paras as instituições envolvidas: Escola, Rotary Clube de Vila Real e Agrupamento militar português HOTEL. Foi colocado nos ombros de cada um de nós uma
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salenda, entregue a pessoas que os timorenses consideram importantes, ou
seja, de dignidade reconhecida. O Rotary Clube de Vila Real e todos os seus membros e respectivas esposas, estão de parabéns. Levaram a cabo uma tarefa que muito vai ajudar à criação de condições para que muitas crianças timorenses tenham acesso ao ensino. O Agrupamento HOTEL, mostrou que os militares não servem só para fazer a guerra. Também são capazes de actuar em tempo de paz. A eles, na pessoa do seu Comandante, Tenente-coronel Xavier de Sousa, endosso os meus agradecimentos pessoais e os do meu clube, pois estou certo de que esse é o sentimento do nosso Presidente, Luís Pizarro. O Padre João Felgueiras fez questão de solenizar o momento e leu um texto escrito do qual vou transcrever algumas passagens. Começou por dizer, “vejo na vossa presença uma expressão de grande amizade. É mesmo essa a grande oferta, o grande presente que nos fazeis”. Mais adiante expressou o desejo de que “esta amizade entre nós perdure através dos anos, e nos ligue como amigos. Criar amizade entre as pessoas, foi o plano de Deus”. Referiu que esse é o objectivo da Comunidade Amigos de Jesus, por si criada. Terminou a sua intervenção com um voto de que “a nossa amizade vos tornará membros efectivos desta Comunidade Amigos de Jesus, agora e para sempre”. No que a mim respeita, sem dúvida que essa amizade por um homem da envergadura moral do Padre Felgueiras, pela sua obra, por tudo quanto tem feito pelos timorenses mais frágeis, as crianças, tem vindo a fortalecer-se. De seguida fomos visitar o espaço onde vai ser construída a escola nova. Aí fiz entrega do dinheiro que obtivemos, graças à generosidade dos membros do nosso clube, no jantar de reis. O nosso clube contraiu mais responsabilidades pois passou a fazer parte, por desejo do Padre Felgueiras, do grupo da Comunidade dos Amigos de Jesus. Eu por mim aceito esta responsabilidade e estou certo de que o mesmo se passa com todos quantos ao clube estão ligados.
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7 DE FEVEREIRO – Sábado A manhã foi normal. Saída bem cedo para fazer algum exercício físico e ida à missão portuguesa a fim de “recolher” o correio electrónico. Com muitas vezes acontece, e aqui no fim do mundo ainda com mais frequência, não me foi possível “trazer” o correio. Assim sendo entrei no Instituto Camões e aproveitei para requisitar o livro Postais Antigos e Outras Memórias de Timor, da autoria de Luís Loureiro. Já anteriormente falara deste livro. Tem uma introdução muito interessante onde relata os costumes dos habitantes de Díli no início do século XX, referindo em especial a modo como decorria o dia a dia dos habitantes de Lahane. Vai ser uma óptima ferramenta para algumas ideias que tenho em mente e que pretendo levar a cabo muito em breve. Após o almoço fui ao quartel das nossas tropas, em Caicoli, por solicitação de uma professora portuguesa de que já falei anteriormente, Dulce e que vinha acompanhada da dona Arcília, senhora timorense. O objectivo era pedir às nossas tropas ajuda para compor o acesso a uma escola onde a Dona Ercília trabalha. Quando chove todo o espaço envolvente, incluindo o peatonal, fica com lama, implicando que os miúdos e quem visite a escola fiquem com o calçado sujo, arrastando lama para o interior da escola. Com alguma sorte, ainda antes de fazer as formalidades que permitem a entrada de pessoas estranhas à instituição, avistei o Senhor Comandante Tenentecoronel Xavier de Sousa que, de imediato, me chamou. Feitas as apresentações expliquei ao que ia tendo ele desde logo solicitado a presença das senhoras que me acompanhavam. Com a amabilidade que o caracteriza, pelo menos assim o diz a minha experiência, chamou o Capitão Almeida a quem pediu que tomasse nota das solicitações que lhe estavam a ser feitas e providenciasse no sentido de, o mais depressa possível, fossem feitas as diligências necessárias à resolução dos problemas. Ao já referenciado juntámos o da escola do Paiol, muito prejudicada pelas terras que se

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arrastam ao longo da encosta adjacente à escola pois esta está mesmo no sopé do monte que lhe está contíguo. Com mais propriedade posso hoje reforçar o que disse ontem: os militares também sabem estar em tempo de paz. Estes e outros trabalhos têm sido desenvolvidos pelos nossos militares aqui em Timor. Muitas escolas têm bons acessos e condições mínimas de funcionamento por acção directa destes homens. É necessário dignificar o seu trabalho. Não podemos pensar neles só na guerra. Na paz são, também, muito úteis. Para completar o “ramalhete” tudo correu bem. O Capitão Almeida é um lamecense de gema e, como tal, o empurrãozinho a dar foi mais fácil. Tudo se conjuga para que os trabalhos que referi sejam feitos muito depressa.

8 DE FEVEREIRO - Domingo Domingo é dia de prestar contas a Deus. Comecei por assistir à missa e regressar a casa pois queria assistir ao programa Comunidades onde ia dar uma reportagem sobre o projecto FUP em Timor. Às onze horas já estava em frente ao televisor pronto a disparar as duas máquinas de filmar, com uma característica comum, ambas sony, mas separadas no tempo e nas tecnologias utilizadas. Uma analógica e outra digital. Começado o programa, e durante três minutos, em silêncio, ouvi e registei em filme a reportagem feita pelo correspondente da RTP em Timor. Os meios de comunicação audiovisual sem dúvida que constituem uma prova de que o mundo é global, ou seja, é como se fosse uma só comunidade, um só país, uma só cidade, enfim, uma aldeia. Passado alguns instantes, recebi indicações de que tinha sido visto por familiares ou amigos, na Europa e no Brasil. Ao almoço, correspondendo a um convite feito por telefone, fui almoçar a casa de um Juíz guineense, Luís Goia de seu nome, onde passei uns momentos muito agradáveis. Deu para falarmos sobre muitos problemas, da
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Guiné e outros, e permitiu fazer mais uma amizade aqui tão longe da terra onde nasci e onde, tão necessário é ter alguém com quem conversar. Terminado o almoço regressei a casa. Pelo caminho passei no ACAIT onde comprei o jornal Semanário que, pela primeira vez, traz um artigo feito por mim, sobre a energia eléctrica. Fiquei muito satisfeito porque saiu muito bem e pareceu-me que o enquadramento com que estava no jornal era o mais adequado. Oxalá eu possa contribuir para que Timor construa um futuro com paz e com progresso para que os anseios naturais de qualquer ser humano, de viver melhor, possam ser atingidos, se não por todos, pelo menos pela maior parte.

9 DE FEVEREIRO – Segunda-feira Duas partes distintas neste dia: de manhã as aulas e de tarde visita ao Centro Juvenil Padre António Vieira a fim de me encontrar com o Padre João de Deus Pires, para ver a possibilidade de entregar algum dinheiro à sua instituição. Trata-se do Orfanato de Santa Teresinha, sedeado em Quelicai, na estrada Díli – Baucau, mas já muito perto desta. Nasceu em 1979 e, desde então, tem acolhido muitas crianças que têm em comum o facto de não ter pais. Como qualquer instituição deste tipo, tem tido momentos difíceis pois como é sabido estas instituições vivem de donativos de particulares ou de apoios estatais. Foi o que com esta sucedeu. Já foi apoiada pela UNICEF, pelo governo indonésio e por alguns particulares. Em conversa com o Padre João decidi pagar materiais de construção que vão ser aplicados num quarto de banho que servirá para melhorar as condições de todos quantos ali vivem. É a minha última tarefa no que respeita à entrega de donativos a instituições timorenses. Neste caso particular tratase de dinheiro que foi conseguido na Escola Secundária de Mogadouro, em venda de Natal levada a cabo por alguns docentes daquele estabelecimento de ensino.
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A satisfação com que vou fazer esta entrega, é acrescida pelo facto de o Padre João ser um transmontano bem do interior, mais propriamente de Morais, concelho de Macedo de Cavaleiros. Sendo eu de Remondes depressa começámos a conversar sobre coisas que são familiares a um e a outro. Parte da sua família vive em Brunhoso, terra à qual estou ligado por laços matrimoniais e mesmo familiares. Foi um momento muito agradável e de são convívio. Já se encontra em Timor desde 1958, tendo visitado a nossa terra há cerca de dois anos. Espero que, apesar de pequena, esta contribuição sirva para minorar o dia a dia de muitas crianças que nada fizeram para estar na situação em que estão.

10 DE FEVEREIRO – Terça-feira Hoje foi o dia de conversar com o Engº Inácio, Decano do curso de Engenharia Electrotécnica ministrado na UNTL. Foi uma conversa muito agradável em especial pela sua simpatia. Na companhia do Dr. Ângelo, representante da FUP em Timor, dirigimo-nos para a sala onde ele já se encontrava. O objectivo da reunião era o de criar condições para haver alguma colaboração de docentes da UNTL no de electrotecnia ministrado pela FUP. Apesar da boa vontade e do empenho por si demonstrado terminei a reunião com a convicção de que tal colaboração será muito difícil de se concretizar.

11 DE FEVEREIRO – Quarta-feira Os compromissos académicos foram cumpridos durante a manhã. As aulas decorreram com normalidade. Os alunos reagiram como de costume, ou seja, bastante positivamente. Os temas que estou a tratar podem ser facilmente apreendidos desde que se use uma estratégia de transmissão de

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conhecimentos adequada. Estou convicto de que o caminho seguido está a ser o mais correcto. Ao fim da tarde, acedendo a um convite feito pela delegação da Assembleia da Republica, liderada pelo Dr Mota Amaral, dirigi-me, acompanhado de alguns colegas, para o Hotel Timor. Quando cheguei já aí se encontravam os nossos deputados e muitos portugueses que aproveitaram para cavaquear com concidadãos que aqui se encontram a cooperar nas mais variadas áreas. Entre os presentes encontravam-se o Padre João Felgueiras, o responsável pela nossa cooperação, o adido para a segurança, o Comandante do nosso agrupamento militar, enfim, um sem número de portugueses que dão parte do seu tempo à causa timorense. Tive oportunidade de conversar com algumas destas pessoas, nomeadamente com o Padre Felgueiras com quem combinei uma visita a sua casa com alguns colegas para conversarmos um pouco sobre a sua experiência em Timor. O senhor Comandante do agrupamento HOTEL, informou-me de que as obras de desassoreamento das escolas que lhe havia solicitado há alguns dias, estão em andamento, o que me deixou muito satisfeito. Esta informação foi-me, posteriormente, corroborada pelo capitão encarregado da ligação do agrupamento com a sociedade civil. Depois de algumas bebidas consumidas, com a moderação exigida pela sociedade em que vivemos, e de algumas conversas, mais ou menos, banais, terminou o convívio e regressei de novo a casa onde, com a consciência tranquila do dever cumprido, dormi o sono dos justos. O dia seguinte é um dia de trabalho. É preciso enfrentá-lo com determinação.

12 DE FEVEREIRO – Quinta-feira Nos meus planos para este dia estava a participação na reunião do Rotary Clube de Díli, que teve lugar, como habitualmente, no Hotel Turismo, por
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volta das 19H00. A manhã ocupei-a com as aulas e com a ida à internet. Pus o correio em dia e as leituras dos jornais, com as últimas notícias, ainda bem fresquinhas. Às 18H45m saí de casa em direcção ao Hotel. Passado pouco tempo cheguei e depressa me apercebi da presença de um timorense que ainda não tinha visto nas reuniões anteriores. Como fala bem português estabeleci conversa com ele e sentei-me a seu lado para participar na reunião. É funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Timor e já esteve por duas vezes em Portugal, tendo visitado grande parte dos nossos monumentos, desde Guimarães até Lisboa. Falou-me da sua prisão em cadeia indonésia, onde cumpriu pena de seis anos, tendo saído em liberdade em 1989. Esteve na montanha durante algum tempo e serve hoje o governo do país que o viu nascer. Tem dez filhos e cinco sobrinhos cujos pais foram mortos pelos invasores indonésios. A solidariedade entre membros da mesma família não é palavra vã. Antes pelo contrário. È prática muito comum. Muitos e muitas timorenses, sem pais, estão a viver com outros familiares que os acolhem como se de filhos se tratasse. Há quinze dias entreguei uma carta do meu Governador para que o Rotary Clube de Díli seleccionasse um profissional para estagiar em Portugal. Falei com o Presidente e, como eu já esperava, não tinha feito quaisquer diligências nesse sentido. Solicitei-lhe permissão para falar com o companheiro timorense para dar andamento à ideia. Obtida essa permissão desde logo combinámos actuar. Assim, ele vai pôr-se em campo para não perder esta óptima oportunidade como ele me confidenciou. Ainda bem que assim é.

13 DE FEVEREIRO – Sexta-feira Apesar de ser sexta-feira treze, nada de anormal aconteceu neste dia. As aulas decorreram com normalidade. Os alunos continuam mostrando que
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vale a pena procurar sempre a melhor estratégia para lhes transmitir os conhecimentos. É o que tento fazer sempre. Isso implica mais trabalho, mas aumenta o grau de satisfação no final quando vemos os progressos que os alunos têm. Nos momentos de descontracção, essenciais para o bom andamento das aulas, fiquei a saber que sábado vai haver futebol. Defrontam-se as equipas de Ciências Agrárias e Electrotecnia. Da turma do 3º ano fazem parte cinco dos futebolistas de Electrotecnia. Qual treinador coloquei no quadro os respectivos nomes e as posições que cada um ia ocupar no terreno de jogo. Prometi que passaria pelo campo, mas já perto do fim do jogo pois sábado é necessário descansar um pouco. O trabalho desenvolvido durante a semana assim o exige. De tarde visitei a internet para retirar o correio da caixa que, invariavelmente, se enche todos os dias de correio que pode considerar-se “lixo”. É impressionante o que hoje se passa na sociedade em que vivemos. Desde vendas ilegais de medicamentos, passando por diplomas universitários, até à praga dos produtos associados ao viagra, tudo entra na caixa do correio. Não compreendo como é possível assim acontecer. Pode “fechar-se” a caixa, mas há sempre lixo que passa. Enfim cabe aos investigadores da informática descobrir métodos eficazes de impedir que este “lixo” circule e/ou encontrar os infractores de modo a terem o castigo que as leis lhes destinam. Já outras vezes escrevi sobre o serviço público de televisão. Quem está fora do seu país sabe bem o que representa ter acesso todos os dias a notícias da sua terra. É pena que as televisões sofram do mal do sensacionalismo. Porque será que, quase sempre, no flash imediatamente antes do telejornal, sempre se anunciam desgraças, quer sejam acidentes rodoviários, ferroviários ou aéreos, casos de pedofilia, assassínios ou outros? Será só pela preocupação de informar ou será para ter mais audiências?

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Vem isto a propósito da notícia sobre casos de abusos sexuais a menores num lar de Vila Real, cidade onde desenvolvo a minha actividade de docente universitário e onde vivo. Apesar de serem notícias de todos os dias, deixam-me, como a muitos outros, extremamente preocupado. Como pode a sociedade, feita por todos nós, cometer atrocidades destas sobre seres indefesos? Não nos esqueçamos que nessas instituições estão pessoas a quem tudo faltou na vida. São seres muito frágeis que estão à mercê, muitas vezes, de pessoas sem formação adequada, quer técnica quer moral, para trabalhar nesses locais. Oxalá as autoridades tomem as medidas mais acertadas para resolver este e outros problemas. Não se infira das minhas palavras que sou contra o acto de informar. Mas será que informar é o que as nossas televisões fazem? Tenho muitas dúvidas. Também sou de opinião que todos os problemas de que a sociedade enferma devem ser passados à opinião pública, mas no momento certo, com o realismo que elas exigem.

14 DE FEVEREIRO – Sábado Dia muito especial, pois no calendário diz “Dia dos Namorados”. Há quem diga, e eu comungo dessa opinião, que deve namorar-se durante toda a vida. Se namorar quer significar cumplicidade entre duas pessoas, dedicação mútua, troca de amor, apoio nos bons e nos maus momentos, etc, então digam-me lá se não concordam com a intemporalidade do namoro. Mesmo quando se está muito longe da pessoa que amamos este dia é um dia especial. Ainda mais especial do que quando se está perto. É nestes momentos que a saudade, sentimento tão próprio dos portugueses, mais aperta e mais nos faz reflectir na nossa vida. Nestes momentos passamos toda a nossa vida em revista, especialmente os bons momentos que, apesar de serem do passado, estão sempre presentes no dia a dia. É o nascimento

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dos filhos, os êxitos dos familiares, o casamento dos filhos, enfim, um sem número de pequenos acontecimentos que nos dão forças para vencer. Como ontem escrevi, promessas são promessas, lá compareci no futebol. Estive pouco tempo, mas deu para ficar a saber que Ciências Agrárias estavam a ganhar a Electrotecnia por 1-0, que seria o resultado final, segundo informações posteriores. Espero que todos tenham aproveitado estes momentos de descontracção para relaxar do trabalho da semana e prepararem-se para a semana seguinte. Após o almoço fiquei por casa pois tenho deveres de escrita que não posso descuidar. O texto para o Semanário, a Crónica da Energia e a Correspondência de Timor que, mesmo sendo feitos com gosto, exigem trabalho e tempo. Pela tarde lá enviei tudo pelo correio electrónico pois os leitores exigem que por eles se tenha a maior das considerações. Pelas notícias da noite confirmei aquilo que alguns analistas políticos andam a dizer há muito tempo, o Dr Santana Lopes vive com o desejo de se candidatar à Presidência da República.

15 DE FEVEREIRO – Domingo Foi um dia sem nada que mereça relevo. Comecei por assistir à missa e fiz o meu passeio habitual pela cidade de Díli. Assim passei a manhã. De tarde descansei. È sempre bom aproveitar o domingo para relaxar com o objectivo de recuperar as forças suficientes para enfrentar a semana seguinte.

16 DE FEVEREIRO – Segunda-feira Saí bem cedo, como habitualmente, para a universidade. Hoje de diferente apenas o facto de levar comigo a máquina fotográfica pois ficara de me encontrar com o Padre João de Deus a fim de comprar alguns produtos para o orfanato que dirige em Quelicai, para os lados de Baucau. Como os
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procedimentos não foram aqueles que, em minha opinião, são os que garantem que os donativos chegam a quem se destinam, alterei os planos e passei para o dia de amanhã a compra e entrega de outros produtos, agora já devidamente documentados com a ajuda da máquina fotográfica e com a minha presença. É necessário que tudo o que as pessoas de boa vontade entregam a instituições que actuam no terreno tenham a garantia de que chegou ao seu destino. Foi o que fiz com a concordância do meu ilustre interlocutor. O tema de garantir que as dádivas cheguem ao seu destino assume, hoje em dia, uma importância enorme pois há cada vez mais pessoas necessitadas, nas várias partes do mundo, e, felizmente, também há cada vez mais pessoas e instituições privadas que querem apoiar. É do interesse de todos, de quem dá e de quem recebe, estabelecer-se uma relação de confiança mútua. Só assim o dador tem incentivo para dar mais e o receptor tem o benefício dessa dádiva. Há, infelizmente, muitas pessoas que se escudam no facto de se saber que há muitas dádivas que não chegam a quem se destina, para não colaborar. A essas pessoas eu digo que o que é necessário é criar mecanismos que aumentem as garantias de que o circuito começa no dador e termina em quem necessita.

17 DE FEVEREIRO – Terça-feira Dando seguimento a um pedido de alguns colegas, marquei um encontro com o Padre João Felgueiras para hoje. Por telefone informou-me, na semana passada, que nos poderíamos encontrar hoje às 15H45m. Assim foi. À hora marcada lá estávamos eu e mais quatro colegas. O Padre Felgueiras já nos aguardava e de pronto nos dirigimos para o seu local de trabalho onde nos sentámos e nos preparámos para o ouvir. Durante uma hora e trinta minutos ouvimo-lo com grande atenção e com curiosidade pois aguardávamos as suas palavras como crianças que se preparam para ouvir
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as histórias de que mais gostam. Fez-nos um relato completo que começou na sua chegada a Soibada, há cerca de 33 anos até hoje. Historiou-nos a chegada dos primeiros missionários a Timor, no século XVI, seguiu-se a chegada dos jesuítas há mais de cem anos e a sua própria chegada em 1971, um pouco antes do 25 de Abril. Em Soibada e pouco anos depois em Díli, o Padre Felgueiras, quis ir mais além das suas obrigações inerentes à condição de padre e de missionário. Interrogou-se durante algum tempo sobre o que poderia fazer para ser útil à comunidade timorense. Uma das áreas que depressa lhe chamou à atenção foi o estado de quase escravidão em que as mulheres viviam. Constatou que o papel que à mulher estava reservado era pouco consentâneo com a dignidade do ser humano. Foi aí que começou a sua acção, através da catequização de pessoas que posteriormente iriam ensinar a catequese, mas sem perder de vista os preceitos da igualdade e da dignidade. Falou-nos sobre as mágoas que sente pelos mortos, assassinados, muitas vezes por razões menores, desde o ano de 1975 até há pouco tempo atrás. Os tempos difíceis, com muita violência e intolerância, vividos logo após 1975, marcaram-no profundamente, perdurando na sua memória muitas imagens de terror que esses acontecimentos envolveram. As suas visitas às várias prisões, a dar conforto moral aos presos, muitos deles que com ele tinham convivido, a rezar a missa que servia de conforto para as dificuldades que a vida numa prisão sempre envolve. Aí ouvia com atenção os relatos de maus tratos a que alguns eram sujeitos, dando, em troca uma palavra amiga que aliviava o sofrimento de quem estava preso. A uma questão que lhe pusemos sobre qual era, em sua opinião, a razão ou razões para que os timorenses, que no tempo da administração portuguesa, eram, em pequeno número, seguidores da religião católica e após a invasão indonésia, quase em bloco, se viraram para ela, o padre Felgueiras deu uma resposta que corresponde à minha opinião sobre isso. Diz ele que qualquer ser humano nos momentos de dificuldade, se “agarra” a tudo o que lhe dá
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segurança, atenção, protecção, apoio, etc. Concordo totalmente com esta ideia. Com a invasão indonésia as pessoas viram os seus valores ameaçados. A cultura timorense nada tem que ver com a cultura indonésia. Os valores porque se regem os timorenses são diferentes dos indonésios. O timorense, desde sempre, tem duas palavras a que dá um significado muito profundo: maromak e lulik. A primeira quer dizer ente supremo, Deus e a segunda quer dizer cerimónia, o que é sagrado, intocável. Foi isto que eles viram na igreja e nos seus representantes, bispos e padres. Acresce a isto um facto curioso que desconhecia. A indonésia obrigava a pôr no bilhete de identidade a religião que cada um professava. Como atitude de rejeição do invasor e demonstração de unidade todos ou quase, mandaram colocar a religião católica no cartão que os identificava perante os amigos e os invasores. Este facto teve o efeito contrário ao esperado pelos indonésios que, por certo, não esperavam esta unanimidade para eles bem difícil de digerir. Para lá deste caso em que lhe saiu o tiro pela culatra, houve outras situações dignas de registo, referidas na conversa. Assim, dizia o senhor padre, as autoridades indonésias destacadas para Timor, tudo faziam para cativar os timorenses. Alguns deles, autores de verdadeiras carnificinas, enviavam aos senhores padres, dezenas de cálices e outros utensílios usados nas missas. Também mandavam fazer obras nas igrejas, mesmo sem haver necessidade, construíam monumentos e estátuas alusivas à religião católica e não só, para “passar” para o seu lado as pessoas, mas o resultado era precisamente o contrário, mais se afastavam deles. Foi com este espírito que construíram a catedral, que seria inaugurada por Suarto, no local ocupado pela empresa de construção civil Moniz da Maia, ao tempo, em 1975, preparada para iniciar a construção de estradas que iriam rasgar Timor de lés a lés. O monumento ao Cristo Rei, inicialmente muito desejado pelos timorenses, foi apadrinhado pelas autoridades locais representantes da indonésia que lhe
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impuseram uma marca que fica ligada para toda a vida a este monumento. A sua altura é de 27 m, que simboliza aquela que a Indonésia queria que fosse a sua 27ª província. Também a avenida que sai do aeroporto foi baptizada de Avenida Suarto e o monumento, de cor branca, redondo, guardado por anjos lançando água por um tubo, para uma estátua situada ao centro, onde iria ser colocada uma senhora simbolizando a sua esposa, se destinava a lembrar aos timorenses a sua condição de indonésios. Uma das iniciativas que constituiu a sua actividade foi a concessão de bolsas de estudo a rapazes e raparigas que assim puderem continuar os seus estudos no ensino superior indonésio. Muitos dos timorenses a ele devem a sua formação universitária. O contacto, através das entrevistas que fazia a quem o procurava para pedir ajuda para prosseguir os estudos, permitiu-lhe ter um conhecimento profundo das famílias timorenses. Em cada bolseiro tem um amigo e um divulgador da sua acção. Fala com orgulho dos encontros que tem com eles e da troca de correspondência que o põe a par de todas as dificuldades e também dos seus anseios e das suas ilusões para o futuro. E sobre a implantação da língua portuguesa em Timor? O que pensa o Padre João Felgueiras? É sua opinião de que há forças organizadas em Timor que dificultam essa implantação. Também a lei do menor esforço que impera na juventude. Sabe tetum e alguns wasa e o esforço necessário à aprendizagem do português, serve de dissuasor. Essencialmente atribui a este último factor a dificuldade de introdução do português.

18 DE FEVEREIRO – Quarta-feira Nada de relevante aconteceu neste dia, pelo menos na parte profissional, já que fiquei a saber que em breve terei um novo elemento na família, ou seja, terei um neto. Quis Deus que o primeiro fosse do sexo masculino. Se a
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vontade terrena tivesse alguma influência sobre o destino, possivelmente seria menina. Cá o esperamos com todo o amor. As aulas correram normalmente. Os mesmos alunos a chegarem atrasados, os mesmos conselhos apelando à responsabilidade sobre os actos que cada um pratica, etc. Assim se vão passando os dias aqui em Timor, bem longe de Vila Real. Recebi um telefonema da Irmâ Eliene para combinar a sessão de filme e de fotografias no MAC. Marcámos para o domingo, dia 22 pelas quatro horas da tarde.

19 DE FEVEREIRO – Quinta-feira Ainda não recebi o telefonema do companheiro rotário Caetano Guterres sobre a bolsa que o Governador rotário pretende oferecer a alguém de Timor que vá estagiar para Portugal. O tempo está a passar e estou em crer que não vai ser possível concretizar este projecto. A maior dificuldade está em que o candidato deverá ter menos de 35 anos e falar bem português. Aqui está o problema. Nesta faixa etária não há muitos timorenses a falar português. Esta é uma realidade que tem que ser encarada com muita determinação pelas autoridades de um país que adoptou a língua portuguesa como língua oficial, a par do tetum. Não sei como vai ser o futuro de uma língua que, na faixa etária entre os 15 e os 40 anos, pouca gente compreende quanto mais falar. Está nas mãos das autoridades encontrar mecanismos que facilitem a aprendizagem desses timorenses. Como novidade registo que esta é a última quinta-feira desta minha missão a Timor.

20 DE FEVEREIRO – Sexta-feira Chegou a última sexta-feira. Tudo correu dentro do esperado. Na sequência de uma mensagem que recebi de Portugal, telefonei à Irmâ Eliene a
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combinar uma ida à Escola do Paiol para fotografar os miúdos que vão ser apadrinhados pelos alunos da Escola dos Quinchosos. No seguimento desta conversa, e devido à sua dificuldade em distribuir os afilhados pelos padrinhos, vou ajudar nessa tarefa. As notícias da nossa televisão sobre a justiça portuguesa mais uma vez me deram razões para não acreditar nela. O tribunal que solta um preso que faz a mala, é esperado pela família, ansiosa por tê-lo consigo, sai da cadeia e dez segundos depois é de novo preso por ordem de um Juiz, deixa qualquer mortal completamente estupefacto. Deus nos livre de cair nas mãos de uma justiça assim. Concordo totalmente com o advogado, ainda por cima acusador desse senhor, que vem dizer que tem vergonha de pertencer a um país com esta justiça. É claro que nem todos procederão assim. Mas que, para um leigo, é muita confusão, lá isso é.

21 DE FEVEREIRO - Sábado De manhã encontrei-me com a Irmã Eliene para pôr em ordem a lista de padrinhos e afilhados. Foi uma tarefa muito complicada pois dela constam cerca de 110 afilhados e 35 a 40 padrinhos. À satisfação da Irmã corresponde uma satisfação muito especial da minha parte. Considero muito gratificante o trabalho que tenho desenvolvido de dinamização da procura de apoio para estes miúdos que, estou convicto, tudo merecem. Tudo o que se possa fazer por crianças e adolescentes cuja vida é cheia de sacrifícios e de privações será recompensado por Deus na hora de prestar contas. Diziame a Irmã que muitos deles só comem uma vez por dia e dormem no chão ou sobre estreitas esteiras que a única coisa que poderão fazer é evitar que estejam em contacto directo com o solo. Conforto é que não dão de certeza. Qualquer timorense é portador de um certo orgulho que os obriga, por exemplo, a esconder a realidade que é o seu dia a dia. Por exemplo é muito difícil obter autorização para entrar no seu quarto, sem as mínimas
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condições quase sempre. A Irmã visitou alguns, pois tinha a incumbência de fazer um levantamento das necessidades de algumas famílias para fazer a entrega de colchões oferecidos pelo exército brasileiro. Teve muitas dificuldades pois a autorização para tirar fotos que documentassem e provassem as necessidades, era muito difícil de obter. Da parte da tarde estive em casa a descansar e a pôr em ordem os relatórios das disciplinas que estou a leccionar. Com algum método, tenho tudo muito adiantado o que me permitirá cumprir a obrigação de deixar o relatório feito quando o trimestre terminar. À noite fui, tal como os portugueses que aqui se encontram, ao quartel do agrupamento militar português em Caicoli, a convite do Comandante Xavier de Sousa. Fomos muito bem recebidos pelos nossos militares. Também aí se encontravam algumas personalidades timorenses, como o Presidente Xanana Gusmão. É uma personalidade muito interessante, muito amável e muito bem disposta. Tem sempre um sorriso no contacto que tem com os outros. Aproveitei para tirar uma foto com ele e com outros colegas. Por graça ele diz que por cada foto leva 10 dólares, mas aos professores portugueses só leva 5. Claro que acabou por não nos cobrar nada. Foi um prazer muito grande ter conversado com ele e ser fotografado a seu lado. O convívio foi muito bom e proporcionou-me conhecer melhor alguns colegas e encontrar vários militares oriundos da minha região, Trás-os-Montes. Desde o chefe da cozinha, natural do Pinhão, passando por dois Majores, um de Vila Real e outro de Vila Flor, continuando por outros de Chaves e de Lagoaça, tudo serviu para conviver. Dizia eu por graça que nós, transmontanos, estamos em todo o lado. No entanto por vezes creio que isso significa que temos que abandonar as nossas terras para procurar desenvolver as nossas actividades, por falta de oportunidades para o fazer lá. Conheci algumas das docentes que aqui se encontram a ensinar português, interessando-me mais em conhecer as minhas conterrâneas. Entre elas
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encontrei uma que me transportou até aos meus tempos de estudante em Bragança. Era filha de um antigo companheiro de estudo. Muito triste fiquei quando me disse que tinha falecido há alguns anos vitima de cancro. É sempre triste quando recebemos notícias destas. Terminado o convívio regressei a casa para dormir pois no dia seguinte era preciso levantar cedo para cumprir a obrigação de qualquer católico, ir à missa ao Domingo.

22 DE FEVEREIRO – Domingo De manhã tudo normal. Fui almoçar ao Hotel Timor, respondendo ao apelo que me era feito pela ementa dominical, cozido à portuguesa. Longe da terra onde vivemos, tudo o que nos permita matar saudades é bom. Apesar de não ter sido um primor, serviu para isso mesmo, matar saudades. De tarde fui ao MAC a fim de fazer as fotos aos afilhados para levar aos padrinhos, em Portugal. Às 4 horas da tarde, acompanhado de um colega, lá apareci. A azáfama já era grande. Os miúdos tinham preparado uma festa para me receber. E que festa. Apesar de eu já saber muito bem do que estes miúdos são capazes de fazer, fiquei, tal como o meu colega, siderado pelo espectáculo por eles apresentado. Com uma qualidade muito grande e com artistas de 5, 6, até 13 anos, compenetradíssimos do papel que lhes estava reservado na peça, actuando como verdadeiros profissionais. Não há palavras para descrever o que eles são capazes de fazer. Só assistindo. Compareceram também o Luís, Juiz guineense, e a Dulce, professora de português. Todos fomos unânimes em considerar o espectáculo de superior qualidade. As danças e as canções, assim como as coreografias, foram da autoria dos(as) mais crescidos. Os mais jovens saíram-se muito bem dos papéis que lhes reservaram. Tirei muitas fotos e filmei os momentos mais marcantes do espectáculo. Fui obsequiado com duas salendas, que me foram colocadas pela Beth e pelo
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Natalino, em representação dos colegas. São estes momentos tão lindos, consequência de sentimentos genuínos e espontâneos, que me dão alento para continuar com estas actividades de índole social, feitas com sacrifício do meu tempo de lazer e nunca com prejuízo do meu trabalho. Tenho a certeza que os amigos que me confiaram as suas dádivas, ficarão muito orgulhosos do trabalho que estes miúdos podem fazer. Podem estar descansados que o vosso dinheiro dá frutos pois as árvores onde ele é colocado são sãs e muito boas, apesar da falta de nutrientes para se desenvolverem. Tal como aconteceu das outras visitas que lhes fiz, tive que ter alguns momentos de descontracção. A insistência foi tanta que todos tivemos que dançar. Também me foi solicitado que desse umas palavras sobre a visita o que fiz com muito gosto. Apenas levo uma mágoa que é a de que ficaram 10 miúdos sem padrinho. Vamos fazer um esforço suplementar para ver se para o ano isso já não acontece.

23 DE FEVEREIRO – Segunda-feira No seguimento da entrega do material escolar à Escola Amigos de Jesus do Padre João Felgueiras, fui entregar um CD ao Agrupamento Hotel em Caicoli, com as fotos alusivas ao acto. Feita a entrega fui convidado para jantar com os nossos militares nessa noite. Foi um jantar em família pois muitos dos militares são transmontanos como eu. O chefe da cozinha é do Pinhão; o responsável pelas obras, Major Ferreira é de Vila Real; o Sargento Ajudante, Manuel, das relações públicas é de Chaves; o 2º Comandante Major Queijo, de Vila Flor; o responsável pelas relações públicas, Capitão Almeida, de Lamego, etc. No bar, antes do jantar, lá encontrei o Senhor Beça, português do tempo em que Timor era colónia de Portugal. Regressou a Timor após a independência e por ali passa os seus dias, muitos deles junto dos nossos militares. Após o
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jantar e depois de tomar um café no bar, regressei a casa para descansar e dormir.

24 DE FEVEREIRO – Terça-feira Apesar de ter ido despedir-me dos miúdos do MAC, nas suas instalações, fui surpreendido pela vinda de muitos deles a casa para se despedir de mim. Vinham acompanhados pela Irmã Eliene e passaram grande parte do dia comigo. Aproveitei para lhes mostrar as fotos que tinham feito dias antes no MAC e fiz mais algumas para trazer para os respectivos padrinhos. Foi uma tarde muito bem passada e cheia de significado. Para mim foi uma demonstração inequívoca da amizade que estes miúdos nutrem por mim. Já lá vão quase 3 anos de troca de experiências e de encontros entre nós. Para os receber comprei vários pacotes de bolachas que depressa “voaram” pois contava que fossem poucos e apareceram mais de 70. Ao fim da tarde, depois de os miúdos se terem ido embora, aproveitei ir renovar o visto pois estava a caducar a validade do que me concedia legalidade de estadia. Pela tarde recebi um telefonema da irmã Eliene transmitindo-me a tristeza de algumas das suas crianças por não lhes ter entregue as prendas que os padrinhos lhes mandaram. Combinei com ela encontrar-me com elas amanhã pela manhã.

25 DE FEVEREIRO – Quarta-feira Antes de sair em direcção ao aeroporto, desloquei-me, como havia prometido, ao MAC para fazer a entrega das lembranças que ontem não entreguei. Ali chegado cumpri o prometido. Aproveitei e fiz as últimas fotos que entregarei em Vila Real aos respectivos padrinhos.

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A partida está a chegar. Antes fui levantar o visto, papelinho mágico indispensável para poder sair daqui. A ansiedade é muito grande pois sempre foram dois meses de ausência de casa. As saudades já apertam. A esposa e os filhos esperam por este dia, possivelmente com mais ansiedade que eu. Duas horas antes do horário de partida do avião, parti consciente de que cumpri o meu dever que se pode resumir numa palavra, cooperação. Regresso a Portugal com vontade de aqui voltar. Ainda posso fazer muito mais por estes alunos que já considero meus amigos.

26 DE FEVEREIRO – Quinta-feira Com escala em Darwin, cheguei a Sidney, com destino a Camberra. No aeroporto tomei o comboio para o terminal de autocarros onde tomei um para Camberra. Por momentos, pensei estar em Portugal. A algazarra em português, feita por meia dúzia de trabalhadores portugueses que seguiam para o mesmo destino, é prova de que os portugueses andam por todo o lado. Esta viagem foi muito atribulada. O excesso de zelo no cumprimento dos horários, aliado a alguma falta de compreensão da língua inglesa, pela minha parte, criou-me um sério problema. A paragem, que eu pensava ser de dez minutos, teve apenas dois. Quando procurei o autocarro, só encontrei o rasto. Havia-se posto a andar, como se diz em bom português. Ao longe, com o mesmo problema, avistei uma cidadã das Filipinas, em desespero, procurando boleia para Camberra. No que me diz respeito, não me preocupei muito, apesar de ter deixado ir, além da mala, as máquinas de filmar e fotografar. A sorte esteve do meu lado e beneficiou a colega de infortúnio. Quando solicitava na caixa do pequeno mercado a vinda de um táxi, alguém, providencialmente, se ofereceu para nos transportar até ao destino. Depois de cerca de uma hora de uma tranquila viagem, chegámos
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ao terminal rodoviário de Camberra, situado à direita de quem entra na cidade. Lá estava o motorista a quem me dirigi com alguma agressividade própria de quem ficou plantado a meio de uma viagem, num país distante, pensando que a razão lhe assistia. À minha interpelação sobre o que tinha acontecido, recebi como resposta que “a paragem era de dois minutos”. Ao que eu respondi perguntando “para que servem dois minutos numa paragem a meio de uma viagem?”. A conversa terminou com “dois minutos e mais nada”. Em ocasiões como esta é bem melhor a nossa descontracção do que a rigidez destes australianos. Pela primeira vez, não marquei hotel com antecedência, o que me trouxe alguns problemas. Como havia festas nesse fim-de-semana em Camberra, tive que distribuir a minha estadia por três hotéis diferentes.

27 DE FEVEREIRO – Sexta-feira Bem cedo saí do hotel para visitar a cidade, capital administrativa da Austrália. Sendo uma cidade nova, as suas ruas são muito largas e muito extensas. Visitei o Old Parliament, dos tempos em que a Austrália ainda era uma colónia inglesa. Em frente pude ver um acampamento de aborígenes que lutavam pelo reconhecimento dos seus direitos. Estes cidadãos podem ver-se por todas as cidades australianas, vagueando pelas ruas, sentados nos bancos e, muitas vezes, deitados na relva dos jardins, quase sempre ébrios, com garrafas de vinho na mão. São cidadãos muito pacatos que não se metem com ninguém. Continuei a visita passando pelo novo Parlamento, de arquitectura moderna, destacando uma grande parte do telhado que é, simplesmente, um relvado. Daqui segui para o Memorial, recordando a 1º e a 2ª Guerra Mundial. Estendendo-se por largas dezenas de metros, de e outro lado de uma longa avenida, lá se encontram referências à Coreia, aos Boers Sul-africanos e
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muitos outros países que tiveram acção preponderante no desenrolar desses dois trágicos acontecimentos que marcaram o século XX. Ao cimo desta avenida encontra-se o Museu de Camberra que também visitei. Considero-o o melhor museu temático sobre as duas guerras mundiais que visitei até hoje. O realismo com que são tratados os vários episódios dessas duas guerras fazem-nos reflectir sobre tais acontecimentos. A guerra entre as tropas japonesas e as tropas australianas que teve como palco Timor pode ver-se quer em imagens filmadas quer em fotos. Com grande realismo podem ver-se imagens da actuação do submarino HMAS. São imagens que nunca esquecerei.

28 DE FEVEREIRO – Sábado Este dia dediquei-o a visitar o Camberra Show, responsável pelos problemas que tive para arranjar hotel. Foi muito interessante e lá pude ver muitos exemplares de animais que contribuem para a riqueza do grande país que é a Austrália. Por lá almocei e pude divertir-me com as habilidades com que alguns destes animais deliciaram todos os visitantes.

29 DE FEVEREIRO – Domingo Regressei a Sidney, directamente para o aeroporto, em trânsito para Portugal.

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ANO DE 2004 JUNHO - JULHO

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4 DE JUNHO – Sexta-feira Dia da viagem para voltar a Timor para cumprir a 5ª deslocação a essa longínqua terra, nos antípodas de Portugal. A viagem a partir do Porto decorreu com normalidade ainda que com o cansaço próprio de viagens aéreas de longo curso. Nada de anormal se registou a não ser o atraso da partida de Frankfurt para Hong Kong. Este atraso acabou por não ter quaisquer consequências pois a partido de Hong Kong para Banguecoque era mais tarde do eu pensa e como tal não houve problemas em apanhar o voo para Denpasar. Foi a primeira que fiz o trajecto pela Indonésia. As formalidades alfandegárias são bem mais ligeiras do que era de esperar em especial no caso particular dos portugueses. Isso mesmo me confidenciava o colega que entretanto encontrei. O seu trajecto havia sido diferente pois veio por Londres. O trajecto de Hong Kong para Díli foi comum ainda que só nos encontrássemos em Denpasar.

5 DE JUNHO – Sábado Cheguei a Denpasar. O transporte para o hotel foi feito num jipe de um particular a quem, certamente, o serviço foi encomendado. Com a simpatia que já tinha constatado da primeira vez que visitei Bali em Dezembro de 2001 em viagem feita a partir de Díli, fomos para o hotel conversando com o guia que depois das saudações normais, demonstrou uma afabilidade muito grande quando lhe falamos da nossa condição de portugueses. Feitas as formalidades de entrada no hotel dirigi-me para o meu quarto em edifício separado muito típico em hotéis de Bali. Para chegar ao quarto fui
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acompanhado de um empregado que me transportou as malas. No trajecto tive oportunidade de passar pela piscina onde, sem qualquer surpresa, apenas ocidentais se encontravam aí.

6 DE JUNHO – Domingo No regresso ao aeroporto, depois de tomar um bom pequeno almoço, ao contrário do nosso guia que na saudação que nos fez nos interpelou sobre esse primeiro acto de comer, tendo-nos dito que ele não tinha tomado o pequeno almoço. Se não estivéssemos num país onde a fome é uma realidade talvez essa informação nos tivesse parecido descabida. Na conversa durante o trajecto falando como é inevitável sobre política, depressa, para surpresa minha, ouvi a opinião do nosso acompanhante dizendo que a vida está mal ao contrário do que acontecia no tempo do ditador Suarto. Dizia ele que hoje em dia há muita instabilidade e muita insegurança ao contrário do que então acontecia. Porque será que as ditaduras tiveram sempre do lado delas o exercício mais consequente da segurança dos bens e das pessoas? Depois de cerca de duas horas de viagem cheguei ao aeroporto Nicolau Lobato, agora pela costa norte. A cena repetiu-se. Alguém estava à nossa espera, à saída do aeroporto. As

demarches alfandegárias foram feita pelos polícias timorenses e era vigiada
por polícias portugueses que aqui estão a cooperar com Timor. Fui encaminhado para o Hotel Vila Verde tendo toda a programação que tinha feito no que respeita à minha estadia ido por água a baixo. Não fiquei aborrecido pois esta é uma situação que me permite maior independência, mais privacidade e me dispensa de fazer algumas tarefas de índole caseira para as quais a minha vocação e preparação é muito baixa. Pelo fim da tarde fui fazer algumas das compras indispensáveis à minha estadia, isto

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depois de ter dormido algum tempo para recuperar as horas infindáveis que tive que passar no avião.

7 DE JUNHO – Segunda-feira Pela manhã saí do hotel onde fiquei hospedado e dirigi-me para a universidade. Tive a minha primeira aula com os alunos do terceiro ano que bem conheço pois já é a quinta vez que lhes vou dar aulas. Depois dos cumprimentos habituais e da troca de algumas palavras amigas entre nós fiz a apresentação do programa que lhes vou transmitir. Ao almoço dirigi-me ao restaurante onde habitualmente almoço quando me encontro em Díli. Um dia após a chegada deu para ver que se mudanças houve em Díli elas não são visíveis, coisa que não é de estranhar sendo Timor um dos países mais pobres do mundo. De tarde tive pela primeira vez aulas com os alunos do segundo ano. Foi a primeira vez que estive perante eles. Devo confessar que fiquei com muitas esperanças no sucesso da assimilação dos conteúdos programáticos que lhes vou transmitir durante este trimestre. Oxalá que estas minhas expectativas positivas se tornem realidade. Era sinal de que teria havido êxito na relação professor-aluno que vamos manter durante algumas semanas. Depois da aula, já bem tarde, dirigi-me ao supermercado onde comprei aqueles bens essenciais necessários à alimentação de qualquer ser humano.

8 DE JUNHO – Terça-feira Mais um dia sem grandes motivos que justifiquem qualquer referência num texto como este a não ser que fui ao quartel apresentar cumprimentos aos nossos militares que em breve vão regressar a Portugal depois de alguns meses de missão de cooperação em Timor.

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Como estava a decorrer uma reunião com um secretário de estado do governo de Timor apenas cumprimentei e troquei breves palavras com o segundo comandante que me convidou a almoçar no dia seguinte, convite que de imediato aceitei por várias razões entre algumas óbvias decorrentes do facto de me encontrar longe da minha terra e tudo o que substitua essa falta é bem vindo. Fui surpreendido ao fim da tarde pelo anúncio da morte do Professor Sousa Franco. Não somos nada e podemos, sem que nada o faça prever, deixarmos o mundo dos vivos para ingressarmos num outro onde, assim o espero e acredito, aqueles que neste mundo cumpriram os preceitos de moral, amizade e solidariedade sejam recompensados. Esta notícia tive-a momentos antes de me dirigir para uma reunião com o nosso adido para a defesa. Esta teve como objectivo transmitir-nos algumas ideias e normas de segurança indispensáveis à criação de condições que permitam que exerçamos a nossa actividade sem percalços e em segurança. A maior parte das linhas mestras de uma boa conduta para ter uma segurança efectiva já todos as conhecemos: máximo cuidado, não frequentar locais muito isolados, principalmente à noite, evitar frequentar locais de diversão nocturna onde tenham acontecido desacatos de origem racista, etc.

9 DE JUNHO – Quarta-feira Correspondendo a um convite da parte do Comandante do agrupamento português Tenente Coronel Xavier de Sousa, fui almoçar a Caicoli. Lá encontrei os vários militares que já conhecia desde Vila Real ou da apresentação aos portugueses de Timor feita em Fevereiro último. Tive a honra de ocupar um lugar na mesa do Comandante, ao seu lado, com a assessora para o ministro da justiça, do outro.

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Durante o almoço tivemos oportunidade de ouvir as palavras serenas, tranquilizadoras, ainda que muito sérias sobre aquilo que pode ser a vida em Díli depois do regresso a Portugal dos nossos militares. É prudente pensar nos mais variados cenários para aquilo que pode vir a acontecer. Se por um lado há indicadores que permitem tranquilizar quem fica, por outro há indícios que podem deixar-nos preocupados. A falta de preparação da polícia timorense perante cenários de desordem pública é quase uma realidade. Já se viu isso no último levantamento popular em Dezembro de 2002. Creio residir aqui o maior foco de preocupação da parte de quem cá está. Que o povo tem motivos para estar insatisfeito lá isso tem. Não há trabalho e o que há tem em troca ordenados extremamente baixos. O dia a dia é feito muito próximo do limiar da pobreza. Conjugando estes factos com a maneira de ser do timorense, raiando os extremos da simpatia, da bondade, da disponibilidade para servir, com uma agressividade muito forte, estão reunidas as condições para que toda a gente esteja sempre em alerta para não ser surpreendido. No dia de ontem os nossos militares entregaram as instalações de Bécora ao governo de Timor. Ainda a operação de retirada de alguns equipamentos estava a decorrer e já havia gente no seu interior a retirar tudo o que lhe dava jeito em casa e outros para vender possivelmente, pois tanto quanto se houve em surdina, receptadores não faltam. Neste caso, mais uma vez, a acção da polícia foi de uma ineficácia a toda a prova. Não fora a pronta entrada em acção de alguns dos nossos militares indo a casa das pessoas recuperar os equipamentos e trazê-los de volta e mais uma vez a polícia era ultrapassada.

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10 DE JUNHO – Quinta-feira Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Nestes últimos três anos faço parte destes últimos. Como habitualmente fomos convidados pelo nosso embaixador para uma recepção nos jardins da sua residência. Tratase de um acontecimento social muito significativo e muito esperado por todos os portugueses que aqui se encontram. Entrados no jardim dirigimo-nos para os habituais cumprimentos ao senhor embaixador e a outros elementos da cooperação portuguesa. Conhecendo já o senhor embaixador há cerca de dois anos, conversámos uns momentos que me permitiram confirmar a consideração que por mim tem sempre demonstrado. Muito obrigado por isso. Os jardins enchem-se de portugueses. Lá estavam o Tinoco com família em Vila Real; o Padre João de Deus, de Morais, mas a viver em Quelicai há quarenta e oito anos; o senhor Reitor da UNTL com quem conversei durante algum tempo e a quem manifestei vontade de o ter em Vila Real no rotary Clube aquando de uma das suas deslocações a Lisboa; o senhor Bessa, vizinho do remondês João Gonçalves, homens que já aqui estavam muito antes do 25 de Abril; as professoras de português sempre disponíveis para uns dedos de conversa com a afabilidade que se lhe reconhece; o representante da cooperação portuguesa, Engº Carlos Macedo, sempre cordial e bem disposto; e muitos outros que tornariam este texto muito longo, mas dos quais guardo boas recordações. Antes de me dirigir à recepção do senhor embaixador apanhei um valente susto. No regresso a casa, pela tarde, já depois de concluir a segunda aula do dia, para fugir ao sol encostei-me demais à parede que acompanha a rua que percorro todos os dias. Esta está protegida por arame farpado invadindo uma parte do passeio. Fiz um grande rasgão na cabeça que provocou a perda de abundante sangue. A solidariedade dos miúdos que entretanto passavam foi notória. Eram de opinião que me devia dirigir ao hospital, colidindo com a opinião que eu tinha que era de não ir. Eles diziam que eu
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podia morrer se não fosse. Eu pensava que poderia morrer se fosse. Enfim, opiniões. Valeu-me a pronta intervenção de uma das colegas que, como é apanágio das senhoras, estava prevenida com uma bolsa de primeiros socorros.

11 DE JUNHO – Sexta-feira O dia começou com a normalidade de outros dias. Pena foi que., quando me dirigi à missão portuguesa para ver o correio electrónico, depressa recebi a notícia que não esperava, tinha morrido o nosso antigo reitor e colega professor Torres Pereira. Como é de calcular foi um choque muito grande para mim. Não que eu não estivesse consciente do seu estado de saúde débil desde que há cerca de 2 meses deu entrada no hospital de Vila Real. De imediato enviei um email para lista geral da universidade prestando-lhe a minha última homenagem. A sua contribuição para a minha carreira académica foi de importância decisiva. As suas palavras de incentivo, as suas provas de confiança na minha pessoa e no meu trabalho deram-me forças para ir vencendo as várias etapas que constituem a carreira académica universitária em qualquer universidade portuguesa. Daqui, bem longe da terra que me viu crescer, envio uma palavra de esperança para os seus familiares e amigos. Por mim peço a Deus que descanse em paz.

12 DE JUNHO – Sábado Um pouco mais tarde do que acontece nos dias de trabalho que constituem a semana, saí de casa para o habitual passeio de Sábado. Quando cheguei à Embaixada fui surpreendido por uma música de muitos decibéis. Era a comemoração que a RDP Timor, juntamente com outras instituições portuguesas, promoveu tendo como tema a abertura do campeonato da Europa de futebol, o também aqui popular EURO 2004. Por lá passaram
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alguns governantes timorenses, nomeadamente o Dr Ramos Horta e o Primeiro-ministro Mari Alkatiri que demonstraram não ter a pontaria muito afinada pois não conseguiram introduzir a bola nas aberturas, servindo de baliza, feitas sobre um painel vertical. Detive-me alguns instantes tendo aproveitado para fazer algumas fotos e trocar algumas impressões com um dos organizadores. Enquanto me encontrava assistindo ao desfilar das músicas e das intervenções em forma de entrevista e pequenos concursos, tive o prazer de conversar com um docente português do ensino secundário que, por iniciativa sua, me interpelou para me falar do seu interesse pelos artigos sobre energia eléctrica que venho publicando, desde há uns tempos a esta parte, no jornal de língua portuguesa titulado de Semanário. Dizia-me ele que compra o jornal muitas vezes de propósito para que os seus alunos leiam os meus textos pois considera serem um bom veículo da língua portuguesa e uma boa contribuição para a sua difusão e cimentação num país que a adoptou como língua oficial. Para completar e ainda me deixar mais feliz, disse-me que no teste que deu aos seus alunos colocou um dos meus textos por constituir uma peça bem escrita e bem demonstrativa da riqueza da nossa língua. Sem dúvida que quando se diz que “o trabalho, a dedicação, a solidariedade, o bem fazer, etc “ compensam o que hoje me aconteceu é disso um prova perfeita. O dia correu em normalidade, apenas alterada pelo resultado de Portugal com a Grécia. Aqui muita gente se deslocou para o Hotel Timor onde assistiu, a partir da uma da manhã, ao jogo em directo. Eu por mim fiquei pelo meu quarto na expectativa de ver o jogo mais comodamente. A frustração que tive quando constatei que a RCTI não transmitia o jogo sem ser a pagar foi muito grande. Como o hotel não pagou não vi o jogo.

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13 DE JUNHO – Domingo Hoje é Domingo. Comecei por cumprir as minhas obrigações de católico praticante. Após isso fui dar um passeio que acabou por ser bastante curto. Aproveitei para comprar mais alguns mantimentos para a alimentação diária, tendo ido almoçar ao City Café. Durante o almoço tive uma surpresa muito agradável: a Mónica, uma das meninas do MAC, chamou-me e cumprimentou-me. A sua alegria em ver-me foi a melhor prenda que poderia ter. Também a Irmã Eliene e a Professora Dulce estavam no restaurante. A irmã ofereceu-me um CD que combinámos eu pôr à venda na sala dos professores. O resto do dia foi normal. Passado em casa a escrever pois tenho compromissos a que não posso falhar. Tive conhecimento do primeiro assalto a uma instituição bancária em toda a história de Timor. Aconteceu na Caixa Geral de Depósitos. Porque será que as más acções não têm fronteiras?

14 DE JUNHO – Segunda-feira Foi um dia diferente de outros porque, depois de algumas hesitações, comprei um electrodoméstico que se mostrou um desastre. Pensava eu que aquecer leite era o mesmo que aquecer água. Rotunda mentira. A experiência mostrou-se um fracasso. No entanto há que não desanimar. É nestes momentos que tomamos consciência da nossa pequenês. Que falta fazem as senhoras!!!.

15 DE JUNHO – Terça-feira Depois das aulas fui ao MAC. Lá estava a Irmã Eliene e um número cada vez maior de miúdos. O caminho para lá, apesar de não ser muito longo, não é fácil de calcorrear principalmente em dias de calor como são os de Timor. Pouco antes de passar a ribeira para vencer os últimos metros comecei a
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constatar que estava em casa. Muitas saudações de alguns dos miúdos que se dirigiam para o MAC onde já se encontravam os seus colegas “lideres” para os acompanhar. À chegada fui brindado com a canção de boas vindas com que normalmente eles recebem os amigos que os visitam. Nestes momentos damos graças a Deus por nos dar disponibilidade e vontade para ajudar crianças como estas, com tantas necessidades e com tanto amor e carinho para dar. É muito gratificante. Por eles agradeço do fundo do coração a todos os meus familiares e amigos que, com a sua generosidade, minoram as dificuldades destes miúdos e proporcionam-lhes as condições necessárias à sua ida regularmente à escola. Esta primeira visita serviu para trocar informações com a Irmão no sentido de organizar a entrega das cartas e das prendas que trouxe para alguns dos afilhados. Também falámos sobre o futuro do MAC. Em breve terei uma reunião com quem irá ficar no lugar da Irmã Eliene, aquando do seu regresso ao Brasil. A organização que a Irmã Eliene idealizou para o MAC, assente essencialmente na responsabilidade e no trabalho dos mais jovens que estão preparados para assumir o pesado fardo de dar formação a vários níveis aos mais jovens. Quando se tem o privilégio de, como eu, observar in loco o modo como se desenrolam as actividades no dia a dia em Timor decerto deixaria de pensar que as pessoas com responsabilidades religiosas são ríspidas, com ideias muito rígidas e que, muitas vezes, não sabem dar valor a quem dirigem, são autoritárias, etc. Puro engano. O modo como os miúdos se entendem e organizam, demonstra que têm toda a liberdade para o fazerem. Muito bonito.

16 DE JUNHO – Quarta-feira O dia de hoje foi um pouco diferente pois não houve energia eléctrica, desde ontem à noite até às 15H20m. Costuma dizer-se que quem é pobre é pobre em tudo. Imaginem o que seria se em Portugal falhasse a luz por um
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período tão longo. Cairia o Carmo e a Trindade. Pois aqui tudo é aceite com resignação. As pessoas não reclamam ou pelo menos não exteriorizam o seu descontentamento. Uma falha tão longa pode acarretar prejuízos muito grandes nos produtos alimentares e outros. Mas tudo é aceite com a normalidade de quem pouco ou nada tem. A sorte é que no hotel não sentimos esse problema pois tem gerador eléctrico como acontece com muitas outras instituições públicas ou privadas. Na madrugada deste dia, à noite em Portugal, tive uma surpresa muito agradável, ao ligar a televisão, cerca da 4 da manhã pois estava a começar o jogo de futebol entre Portugal e a Rússia. Como devem imaginar foi muito bom para mim. A surpresa resulta do facto de a televisão que deu este jogo não ter dado o primeiro. Portugal ganhou e deixou-me muito satisfeito. Sobre este acontecimento no nosso país devo dizer eu, a tantas milhas de distância, asseguro que a organização do europeu foi uma aposta ganha por Portugal. Basta ver as televisões estrangeiras para concordar com esta opinião. Muito se tem falado sobre o nosso país, desde as praias, às pousadas passando pelo turismo rural o turismo termal, os monumentos, etc. A DW, a BBC World, a RCTI da Indonésia e muitas outras têm percorrido Portugal de lés a lés divulgando a nossa gastronomia, a nossa hospitalidade, os nossos monumentos e muito mais que nós temos e que muito nos orgulha. Só é pena que a nossa RTPi não transmita os jogos da nossa selecção. Muitos que estamos tão longe não compreendemos porque isso acontece.

17 DE JUNHO – Quinta-feira A exemplo do que acontece todos os trimestres, os docentes do projecto FUP foram convidados do Senhor Reitor para um convívio que mais não é do que uma apresentação de todos nós aos colegas do UNTL e destes a nós próprios. È sempre agradável participar nestes convívios pois o Senhor
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Reitor é um grande amigo de Portugal não seja ele descendente do Régulo de Ainaro, D. Aleixo Corte Real. Mais uma vez aproveitou para agradecer às universidades portugueses o quanto têm ajudado os timorenses na área do ensino universitário, pois ele considera que os cursos ministrados são uma referência a nível de Timor. É sempre bom ouvir palavras destas quando se faz um sacrifício muito grande para se estar deslocado durante cerca de dois meses e ausente dos que nos são mais queridos.

18 DE JUNHO – Sexta-feira Foi muito interessante o dia de aulas, especialmente a parte da tarde onde conversei bastante com os meus alunos que iam, na companhia de um docente, passar o fim de semana a Jaco. Dos oito que iam apenas um já tinha estado naquelas paragens, talvez pelo facto de ter nascido perto de Tutuala. O fim do dia foi muito calmo pois quase todos os colegas foram passar o fim-de-semana à linda e despoluída ilha de Jaco, bem perto de Tutuala. Como já a visitei uma vez, não fui. Fiquei por aqui por Díli.

19 DE JUNHO – Sábado Hoje é Sábado. Uma boa oportunidade para descansar. Aqui em Timor o cansaço apodera-se muito facilmente de nós. O facto de os alunos não compreenderem muito bem a língua portuguesas obriga o docente a um maior esforço para se fazer compreender. Também o clima com muito calor, contribui para que duas aulas em Timor cansem muito mais do que 4 ou 5 em Portugal. Como é dia de descanso, resolvi, pela primeira vez, fazer o meu passeio pelo trajecto habitual, mas de bicicleta. Sem dúvida que os 8 ou 9 kilómetros são vencidos com bastante menos esforço e mais rapidamente. Parei nas bancas
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das conchas do mar, mas como não havia nenhuma que fosse novidade para mim, não comprei. Foi um passeio muito agradável embora deixasse algumas mossas pois já há muitos anos que eu não me deslocava de bicicleta. Depois de almoço, o dia foi normal. Passei-o no quarto do hotel a escrever os vários textos com que me comprometo. Como sejam o texto para o Semanário, para A Voz de Trás-os-Montes e ainda os textos sobre a história do movimento rotário.

20 DE JUNHO - Domingo Dia do Senhor. Bem cedo, pois a missa em português é em Motael às 8 horas da manhã, saí da cama para me preparar para a missa e para o resto do dia. Hoje foi um dia muito especial para mim. Fui ao MAC entregar as cartas e as prendas que os padrinhos em Portugal mandaram aos seus afilhados. Como combinado, lá estavam a Joana, a Suzete, a Odete, a Vinígia, o Natalino, a Ludugarda, a Jaqueline e tantos outros cujo nome já conheço muito bem. Depois de a Irmã lhes explicar que alguns padrinhos não mandaram prendas porque não têm contactos frequentes comigo, comecei a entregar as cartas, as T Shirts e o dinheiro. Em cada caso tirei uma foto que entregarei aos padrinhos quando chegar a Portugal. O interesse que os miúdos põem nestes actos tão simples, mas de significado tão profundo, deixam-me com muito mais alento para continuar com este projecto que, cada vez mais, é o projecto que mais contribui para o meu bem estar espiritual. Além do mais, dá-me forças para passar o tempo em alegria e paz, longe da família, mas sempre com ela no meu pensamento. Quando se lida com crianças é necessário ter muito cuidado para não ferir os seus pensamentos. É por isso que coloco um cuidado muito grande quando se trata de lhes entregar coisas.
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21 DE JUNHO – Segunda-feira Tudo correu com normalidade. Apenas as obrigações decorrentes do facto de prestar colaboração a alguns jornais, é que alteraram a monotonia própria dos dias sem novidades. Leccionei pela manhã e pela tarde como é costume. Fui ver o correio à missão portuguesa onde encontrei uma professora de Bragança que já havia conhecido em Fevereiro. Aliás, como estão em tempos de concursos e no final do ano lectivo é normal encontrarem-se muitas das professoras e muitos dos professores do secundário que aqui se encontra na pesada tarefa de ajudar a preservar a língua portuguesa e de a tornar útil no dia a dia dos timorenses pois apesar de ser língua oficial, tenho muitas reservas sobre o seu futuro.

22 DE JUNHO – Terça-feira Hoje na aula da manhã fiquei com muitas dúvidas sobre o futuro de Timor, no que respeita às duas línguas oficiais. Sobre o português já falei várias vezes, mas esta é a primeira que falo sobre o tétum. Na disciplina de Projecto estou a transmitir aos alunos, num total de quatro, os conhecimentos suficientes e necessários para elaborar um projecto de uma instalação eléctrica seja de que tipo for. Como em Timor não há regulamentação, sirvo-me do Regulamento português, explicando-lhes que o que é necessário é saber interpretar o regulamento pois de uma maneira geral têm uma estrutura comum. Para dar mais força a esta ideia pedi a um dos alunos que me trouxesse o regulamento indonésio. Assim aconteceu. Com a sua ajuda depressa concluímos aquilo que para mim era óbvio, os regulamentos têm muitas partes iguais e depois têm algumas adaptações conforme o país onde são aplicados. No entanto onde eu queria chegar não era aqui. Servi-me deste pretexto para lhes dizer aquilo que constatei na aula. Disse -lhes que, atendendo a que o português e o tétum são as línguas oficiais, a memória descritiva dos projectos teria que ser feita numa delas.
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Para meu espanto todos me disseram que se tinham dificuldade em português o mesmo se passava com o tétum, ou seja, o que eles efectivamente sabiam era o Wasa, língua indonésia. Por aqui podemos imaginar quão difíceis vão ser os caminhos desta duas línguas em Timor. Ao contrário do que pensava, nas suas conversas normais, os alunos e, certamente, as pessoas em geral, falam wasa e não tétum que, aliás, é uma língua muito pobre. Recorre muitas vezes a palavras portuguesas para se complementar.

23 DE JUNHO – Quarta-feira Em dias como o de hoje as saudades da casa aumentam. Quem não gostaria de estar junto dos seus no dia de São João? Este ano ainda não pode ser. A minha disponibilidade para cooperar com Timor continua bem viva e por isso cá estou de novo este trimestre. Vamos ver quanto mais tempo durará. Hoje foi noticiado que, pela primeira vez, a recém formada polícia timorense foi posta à prova em dois acontecimentos de confrontação violenta entre grupos rivais de artes marciais, para os lados de Ermera. Não sei como a polícia se saiu desta primeira provação. O que preocupa é o grau de violência que estes grupos põem nos seus confrontos. Nestes dois confrontos morreram quatro pessoas e vinte e três ficaram feridas, o que comprova que são confrontos com um grau de violência a que não estamos habituados. É claro que esta refrega foi entre timorenses e bem longe de Díli o que tranquiliza quem aqui vive. E se estes grupos resolvem confrontar-se em Díli? Como reagirá a polícia? Será que consegue manter a ordem? Vamos continuar a dar o benefício da dúvida no que respeita à calma com que ainda se vive em Díli. No que me diz respeito vou continuar a ter o máximo de cuidado, para não dar trunfos aos que fazem da violência o seu modo de vida. Vou fazer uma avaliação muito rigorosa durante o período em que vou estar aqui, até ao dia 27 de Julho. Se a minha análise me permitir concluir
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que continua a haver segurança que me permita desenvolver a minha actividade de docência, sem pôr em causa a minha segurança, continuarei nesta labuta para contribuir para o desenvolvimento deste jovem país e para a preservação da língua portuguesa como língua efectiva do dia a dia dos timorenses.

24 DE JUNHO – Quinta-feira É meu hábito, pela tarde, no sossego do meu quarto, enquanto vou cumprindo as várias metas de trabalho que trago quando venho para Timor, estar atento às notícias e a alguns programas da RTTL – Rádio Televisão de Timor Leste. Hoje fui surpreendido por um programa que me deixou muito satisfeito e com o meu orgulho de português mais forte. O exemplo de alguns timorenses durante a ocupação de Timor pelos japoneses durante a segunda guerra mundial deixa qualquer português, não digo envergonhado, mas ciente de que o sentimento de nacionalidade pode e deve ser aqui muito profundo. O exemplo dado pelo Régulo de Ainaro, Dom Aleixo Corte Real que, com o padre Norberto e Dom Boaventura, resistiram até à morte ao desafio de traição à pátria portuguesa lançado pelas tropas japoneses que os prenderam em Ainaro. Com eles morreram vários elementos da família de Dom Aleixo. É muito gratificante e até surpreendente assistir ao cantar do hino nacional português em evocação a esses momentos de grande violência e que se traduziram na morte de muito timorenses e da destruição da quase totalidade das casas de Díli, Maliana, Ainaro, etc. è de elementar justiça relembrar também o Régulo de Maubisse Fonseca Benevides que também foi assassinado por não trair o seu sentimento de português. Enfim, tantos e tantos timorenses que morreram na sequência de uma invasão japonesa sem qualquer sentido e com um grande sentimento de culpa, hoje bem demonstrado pelo modo como prestam colaboração ao povo timorense, quase que a redimirem-se do mal que lhes causaram.
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Hoje é dia de jogo de Portugal. Cá bem longe estou ansioso pela hora do pontapé de saída. Oxalá que os nossos jogadores saibam honrar as camisolas que vestem. Honrem todos aqueles que aqui bem longe sentem, como ninguém, o amor à nossa pátria.

25 DE JUNHO – Sexta-feira A sexta-feira é o dia da semana que faz a ligação entre os dias de trabalho e o fim de semana. Pode dizer-se que é um dia especial pois já cheira a fim de semana. Pode parecer mentira, mas é verdade que o sábado e o domingo são os dias que, apesar de permitirem descansar depois de uma semana de trabalho, são dias que custam muito a passar. Como não há a ocupação laboral, é necessário arranjar maneiras de passar o tempo. É por isso que normalmente me dedico a dar longos passeios. Espraia-se o espírito e recuperam-se forças para iniciar a próxima semana. Mas isso é só a partir de amanhã. Hoje ainda é sexta-feira e, como tal, tudo decorreu dentro da normalidade de quem tem que leccionar duas disciplinas, uma pela manhã e outra pela tarde. Pela manhã apenas tive dois dos quatro alunos que compõem a turma. Um deles aproveitou para se deslocar a Los Palos a fim de se recensear, pois em Timor está a decorrer o Sensus 2004. Para um país tão jovem como Timor é imprescindível saber quantos são os cidadãos que aqui vivem, onde vivem e como vivem. Todos os dias, na televisão, as pessoas são chamadas à atenção para as vantagens que o sensus tem na definição de políticas, quer de carácter social quer noutra área qualquer, para criar melhores condições de modo a que o nível de vida das pessoas melhore. As notícias que chegam da possível ida do nosso Primeiro Ministro para Bruxelas faz-me pensar e concluir que, de facto, os políticos portugueses têm em comum a falta de capacidade para cumprir as suas obrigações até

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ao fim. É pena pois os portugueses merecíamos ter melhores políticos do que aqueles que temos.

26 DE JUNHO – Sábado Por vezes é muito difícil quebrar a rotina. No entanto vou tentando criar condições para que este tempo em que estou afastado da família passe da melhor maneira sem perder de vista que, em primeiro lugar, é necessário dar cumprimento à obrigação inerente à função de professor. Sendo hoje sábado exige-se um pouco mais de imaginação para que não se repitam as palavras e as ideias que, dia após dia, vou vertendo para estes textos. Pela manhã fui ao Instituto Camões onde aproveitei para enviar correio electrónico. As minhas obrigações de professor não se confinam a Timor. Em Vila Real na universidade onde lecciono, tenho os meus alunos ansiosos pela chegada dos resultados dos exames respeitantes às disciplinas de que sou responsável. Em simultâneo dei uma vista de olhos pelos vários livros que se encontram nas prateleiras à espera que alguém os folheie. Quase todos são de história de Portugal, incluindo, como é lógico, as antigas colónias hoje denominados países de língua oficial portuguesas (PALOP). Tendo eu um gosto muito grande por tudo o que é passado histórico, é fácil compreender que faça visitas sucessivas àquele espaço no segundo andar da nossa embaixada. A história de Timor, desde os tempos de ocupação portuguesa até hoje, está muito bem documentada. Tenho vibrado muito, a exemplo do que acontece com os demais portugueses que aqui se encontram no desempenho das mais variadas tarefas, com a onda de patriotismo que se criou em redor do EURO 2004 e, principalmente, da prestação da equipa portuguesa. Nós os portugueses somos capazes de tudo. Quantos acreditavam na nossa selecção nos meses anteriores ao início do campeonato? Muito poucos, estou certo. Mas ainda

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bem que tudo mudou. Vamos lá ver se mantemos este espírito patriótico para lá de EURO. Hoje houve um momento na televisão que me chamou a atenção. Dizia o nosso treinador, brasileiro de nascimento, que os portugueses são muito reservados parecendo que têm vergonha de exteriorizar os momentos de felicidade que vivem, ao contrário dos brasileiros muito expansivos nesses momentos chegando por vezes a ser contagiantes. Talvez ele tenha razão. Mas Deus assim nos criou e não vai ser fácil mudar.

27 DE JUNHO – Domingo Mais um domingo que passou. Pela manhã, servindo-me da bicicleta de um colega, saí do hotel para o habitual passeio matutino dominical. Em ritmo próprio de quem poucas vezes se desloca neste meio de locomoção, acrescentado as dificuldades inerentes à condução pela esquerda, lá fui vencendo os vários quilómetros que separam o hotel da Praia Branca. Pelo caminho o cenário é sempre o mesmo. As bancas das conchas, o vendedor ambulante, os animais a atravessar a estrada ou a comer pachorrentamente e com a descontracção de quem considera esse espaço como seu. Há também os habituais desportistas que se arrastam pela estrada com ar de quem é muito infeliz, parecendo que estão carregando um fardo muito pesado. Enfim, as mesmas vistas do mar, do vendedor de cocos, do peixe colocado nas bancas sempre com o sistema de abanico para enxotar as moscas que, teimosamente, sobre eles tentam “aterrar”. Lá está o velho cemitério, a placa indicadora da ida para a Praia Branca e para Baucau. Tudo rigorosamente o mesmo, semana após semana. Não se pense, no entanto, que o que acabo de dizer é pura monotonia. Nada disso. Por exemplo, hoje, resolvi ir, pela primeira vez, ao Cristo Rei. Chegado à praia situada bem debaixo do morro onde o Cristo foi feito, chamada de Cristo Rei, encontrei dois colegas, deixando a bicicleta à sua
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guarda. De seguida dirigi-me com muita vontade e com o passo apressado que caracteriza os meus passeios, para as escadas que conduzem lá acima ao monumento. Pelo caminho lá está a via sacra que de patamar em patamar nos conduz a um largo ao fundo do qual se encontra um altar. Presumo que será aqui que são rezadas as missas nos dias solenes ou nos dias de romaria ao local. Mais três ou quatro lanços de escadas e a paisagem começa a ser deslumbrante. Chegado ao cimo, junto aos pés do Cristo Rei, foi necessário sentar-me durante algum tempo. Não foi para recuperar do deslumbramento da paisagem, mas sim para recuperar do enorme esforço que fiz para lá chegar. É de louvar quem teve a iniciativa de aqui instalar este monumento. Não há palavras, com força suficiente, para transmitir a beleza que dali se observa. Pode acompanhar-se a estrada sempre bem junto à borda do mar, desde o Cristo Rei até Díli. A água límpida e transparente que se vê lá do alto, mesmo na vertical, assim como quando olhamos para a ponta do sapato, não deixa ninguém indiferente. È uma vista simplesmente fantástica. Terminada a visita regressei cá abaixo, tarefa bem mais fácil que a subida. A descer até os “calhaus” rodam, dizem na minha terra e com todo o propósito. Montado de novo na bicicleta regressei ao hotel onde o resto do dia foi passado da maneira habitual, vendo televisão e escrevendo.

28 DE JUNHO – Segunda-feira Sem futebol e sem novidades, assim se passou este dia. Tudo normal. As aulas decorreram sem problemas e os alunos vão dando saltinhos de pardal na caminhada para a aprendizagem das leis da electricidade que tão importantes são para o bom uso da energia eléctrica. Cá longe vou acompanhando o problema da construção da barragem no Rio Sabor. Se algumas dúvidas houvesse sobre a importância que o tema da energia tem no momento actual, aqui está um bom exemplo para as desfazer. Sem
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dúvida que é um problema que hoje em dia temos que resolver. A preservação do ambiente é uma preocupação que qualquer pessoa tem. Mas não podemos pugnar por uma vida com qualidade se não tivermos disponível a energia eléctrica suficiente ao bom funcionamento de qualquer equipamento criador de um ambiente de calor ou de frio conforme estejamos no Inverno ou no Verão. Se queremos bem estar não podemos ser deliberadamente contra a instalação de centrais hidroeléctricas que, como qualquer outro meio de produção de energia eléctrica, causa problemas ao ambiente. Assim sendo é necessário termos uma atitude pragmática que consiste em conviver com as duas, ou seja, preservar o ambiente e produzir energia eléctrica. Temos visto que os naturais da região transmontana são favoráveis à construção da barragem pois, além de produzir energia eléctrica pode potenciar o turismo numa região com belezas naturais evidentes, mas com falta de infra-estruturas de lazer. A regularização do caudal do Rio Douro é um objectivo que não pode ser conseguido se não forem construídas barragens nos seus afluentes. Tenho visto, em Invernos rigorosos, a água passar em turbilhão, com um andamento muito apressado e sem controlo, por sobre o tabuleiro da ponte de Remondes. Quando toda essa água chega ao Douro não há qualquer hipótese de a amansar de modo a não causar inundações que, quase sempre, causam a morte de pessoas e prejuízos os materiais importantes. A construção desta barragem vai trazer prejuízos para o meio ambiente?. Vamos então pesar as vantagens que traz para a região que são, sem dúvidas de qualquer espécie, muito superiores.

29 DE JUNHO – Terça-feira Confirmou-se a ida do nosso Primeiro Ministro para a Comissão europeia. Sem dúvida que é uma honra para Portugal que a Comissão Europeia seja presidida por um português. Estou certo de que neste ponto estamos todos
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de acordo. Já as consequências a nível da política interna me parecem que podem ser um desastre para Portugal. Vamos assistir ao derrimir de opiniões que andarão durante algum tempo ao redor da ideia de haver ou não eleições antecipadas. É claro que, como se sabe, em política tudo muda de um momento para o outro. Quem está no poder vai bater-se para aí continuar e quem está na oposição vai fazer tudo para que haja eleições antecipadas. Escusado será dizer que as opiniões seriam as mesmas mas com os protagonistas trocados caso quem está no governo estivesse na oposição e quem estivesse na oposição estivesse no governo. Vou esperar para ver como este tema vai evoluir. Em Timor tudo o que se passa a nível de manifestação cultural, junta todos os portugueses que aqui se encontram. Acontece assim invariavelmente. Hoje não foi excepção. O CNEFP – Centro Nacional de Emprego e Formação Profissional na dependência do nosso Ministério do Emprego e Solidariedade Social vem desenvolvendo um conjunto de actividades na área da formação profissional que muito devem orgulhar os portugueses. Num país em que a mão de obra é, quase sempre, não especializada, todas as acções que tenham como objectivo a formação profissional dos seus trabalhadores tem um alcance social muito grande. O que se passou hoje ao fim do dia no anfiteatro da UNTL – Universidade Nacional de Timor Leste é um óptimo exemplo de como um país pequeno como Portugal tem a capacidade e o engenho para pôr ao serviço dos que lhe são queridos, todas as capacidades e o empenho dos seus profissionais. A cerimónia a que assisti encheu-me de orgulho e satisfação pessoal. Constou na apresentação de um livro de apoio à aprendizagem de trabalhadores timorenses no âmbito da sua formação profissional, com o título “A Língua Portuguesa e as Profissões”, sendo a autora a Professora Otília Oliveira. Já conhecia o trabalho desenvolvido por esta cooperante portuguesa, a desenvolver a sua actividade há já alguns anos. Exemplos como o dela muito contribuem para tornar Portugal um país grande. Só a sua abnegação, o seu empenho, a sua dedicação e o seu amor
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ao próximo, podem justificar o trabalho que vem desenvolvendo aqui. No seu percurso já esteve na Guiné Bissau onde a bondade e a disponibilidade das suas gentes e a sua permanente necessidade de procurar terras mais longínquas e mais apelativas, a conduziram até esta terra do sol nascente, do sândalo e do pico mais alto daquele que foi o império português, o Pico do Ramelau. Com pessoas como a Professora Otília, a palavra cooperação assume toda a sua plenitude, a sua força, o seu significado profundo. Cooperar é disponibilizar ao próximo todas as nossas capacidades. Pô-las ao serviço de quem mais precisa, quer ao nível do saber quer ao nível das necessidades básicas. Pelo mundo há muitos milhões de pessoas que vegetam, não vivem. Em Timor possivelmente também haverá casos desses. Tudo o que fizermos para alterar essa situação é bom. Portugal, já o disse mais vezes, tem tido um comportamento que considero exemplar no que respeita à cooperação Timo. O CNEFP é um bom exemplo do que acabo de dizer. A apresentação do livro foi feita pelo Reitor da UNTL, Professor Doutor Benjamim Corte Real, linguista de profissão e conhecedor profundo da língua portuguesa. Na sua apresentação realçou o valor intrínseco do livro, enquanto peça escrita e o muito valor que tem para a formação dos timorenses trabalhadores. Aborda várias profissões, apresentando conversações temáticas sobre cada uma delas. A cerimónia teve momentos de declamação de poesia e várias canções entoadas pelo grupo de formandos, em número superior a trinta, que acompanharam toda a cerimónia tendo sido intervenientes activos na fase seguinte à intervenção da autora.

30 DE JUNHO – Quarta-feira Como é natural todos estamos ansiosos porque chegue o momento do jogo entre Portugal e Holanda. Em jeito de brincadeira eu e os meus alunos
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fizemos, no início do campeonato, um prognóstico sobre quem ganharia o Europeu Foram todos saindo. Neste momento muitos já estão fora de jogo pois só cinco é que apostámos em Portugal. A encarregada de negócios de Portugal convidou a comunidade portuguesa para assistirmos ao jogo nos jardins da nossa embaixada. Prometi a mim mesmo que só irei lá para assistir ao jogo da final. A minha fé na capacidade da equipa portuguesa é muito grande, pelo que espero que hoje ganhemos para depois ir assistir à final. Por hoje vou ficar, como tenho feito nos jogos anteriores, pelo sossego do meu quarto onde assisto ao jogo, com mais liberdade, podendo fazer zapping quando me apetecer.

1 DE JULHO – Quinta-feira O dia começou com uma grande alegria, a vitória de Portugal sobre a Holanda. Aqui em Díli o jogo é às 4 da manhã do dia seguinte ao de Portugal, pelo eu quando me dirigi à Liliana Shop para cumprir o ritual de todos os dias, ir pelo pão, lá estava o senhor timorense, homem para os seus sessenta anos, falando perfeitamente português, a cumprimentar-me efusivamente e a dar-me os parabéns pela vitória de Portugal Esta saudação tem-se repetido sempre que Portugal tem ganho. Nas aulas os meus alunos também se manifestaram muito entusiasmados com o jogo dos portugueses, mesmo aqueles que não apostaram na nossa selecção. O entusiasmo que se apodera de muitos timorenses quando Portugal ganha, deixa-nos muito contentes pois é demonstrativo da empatia que têm por tudo quanto seja português. Penso mesmo que Portugal é um país que está no coração de muitos dos que aqui vivem. Dos portugueses que aqui estamos nem é necessário falar. Para quem está longe da pátria todos os motivos para se juntar com os seus concidadãos são importantes. O papel da televisão é decisivo na criação deste sentimento de unidade que se apodera de todos nós.
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2 DE JULHO – Sexta-feira Leccionar em Timor é um desafio à capacidade de, a qualquer momento, o docente adaptar-se ao andamento da aprendizagem dos alunos. Quando cheguei, tinha a incumbência de leccionar um programa que estava previamente destinado à disciplina que me foi entregue. Por dificuldades de cumprimento dos programas das disciplinas anteriores devidas por um lado ao andamento muito lento da aprendizagem, mas por outro à falta de capacidade por parte de alguns docentes de decidir quais as partes dos programas das disciplinas que mais interesse têm para o futuro dos alunos. Se a aprendizagem fosse feita a um ritmo normal, estes problemas não se punham. Em consequência tive que alterar os conteúdos programáticos que me estavam destinados. Assim sendo só hoje comecei a dar os assuntos com que deveria ter começado o semestre. A dificuldade de recrutamento de docentes em algumas áreas, nomeadamente a da electrotecnia, obriga ao recurso a docentes que, embora completamente capacitados, não têm a experiência suficiente para tirar todo o proveito possível da sua actividade de docência. Aliás todo este tema de recrutamento de docentes tem que ver também com a parte financeira. O nosso país que, como se sabe, não é rico, disponibiliza verbas que obrigam quem gere o programa a optar muitas vezes pelas soluções que não são as mais apropriadas. Apesar de tudo sou de opinião que com muita força de vontade e alguma arte todos os participantes neste programa de cooperação têm contribuído para que este represente uma contribuição importante para a formação de quadros médios – superiores de um país que muita necessidade deles tem.

3 DE JULHO – Sábado Um Sábado diferente de outros. De manhã a habitual ida à Internet para pôr o correio em dia e dar uma vista de olhos pelas edições online dos jornais portugueses. A parte da tarde foi plena de cultura e de acontecimentos
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marcantes para mim. Comecei por assistir nas instalações do Ex CNRT, agora Instituto de Formação Contínua, a uma peça de teatro declamado, em que os actores foram os alunos do 1º ano de Electrotecnia e de Economia. Tratou-se de u momento cheio de significado cultural, intitulado Fragmentos extraídos da autobiografia de Xanana Gusmão, Timor Leste Um Povo Uma

Pátria. A vida de Xanana e o que ele significa para o povo timorense é
conhecido de todos. Não é pois de espantar que a assistência tivesse seguido com grande concentração a actuação dos jovens actores que desfilavam pelo palco com uma cadência bem ritmada, e com uma coreografia bem original. Foi uma iniciativa da FUP e do Centro Cultural Português que deram as mãos e, mais uma vez, contribuíram para a aprendizagem e treino da língua portuguesa por parte dos alunos do projecto da FUP e inseriu-se nas actividades extracurriculares integradas nas aulas de língua portuguesa destes alunos. Sem dúvida que é com iniciativas destas que se dão passos seguros no sentido de cimentar a utilização da língua portuguesa no dia a dia dos timorenses. No final do teatro dirigi-me para o Jardim de Infância Agrupamento HOTEL construído de raiz pelos nossos militares. Pelo caminho ainda houve tempo para entrar na casa das Madres de Balide onde se encontra a Irmã Guilhermina e onde se dá abrigo a muitas crianças timorenses na sua maior parte órfãos e, essencialmente, do sexo feminino. Conhecer instituições que têm como objectivo principal retirar da miséria as crianças que não pediram para nascer, e dar-lhes uma vida com a dignidade que qualquer ser humano merece, funciona como um tónico que dá forças para nos dedicarmos ainda com mais convicção a causas que permitem minorar os problemas com que milhares de crianças vivem diariamente. Nos poucos minutos que aí estive tive oportunidade de ver imagens da Santa Bachita que os timorenses veneram com muita convicção. A minha ida ao jardim-de-infância foi para mim um momento que me deixou muito emocionado. Só após alguns dias de ter chegado a Timor pala quinta vez, é que soube que a escola que os nossos militares
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construíram foi aquela para quem eu, a pedido da dona Ercília e da Professora Dulce, solicitou os bom ofícios do Comandante do Agrupamento HOTEL que havia conhecido em Vila Real nos contactos que então estabelecemos entre o Rotary Club e o Quartel militar. A Dona Ercília, em agradecimento à minha atitude de ajuda na resolução dos problemas de lama no Inverno e de pó no resto do ano do espaço defronte da sua escola, fez uma pequena cerimónia com os alunos presentes num total de cerca de 45, com idades compreendidas entre os 2 e os 4 anos. Foi muito lindo e tocou-me profundamente. Anteriormente a escola funcionava debaixo da varanda da Dona Ercília e agora é uma escola, ainda que pequena, digna de se ver. É formada por uma sala equipada com os equipamentos necessários ao funcionamento normal de uma escola, mas com comodidades a que em países como Timor não estamos habituados a ver. Só por ter contribuído para a execução desta obra já valeu a pena pertencer a um clube rotário. Se não tivesse entrado para este movimento de solidariedade que é o movimento rotário certamente não teria contribuído para esta obra e para muitas outras às quais tenho dedicado muito do meu tempo. A cerimónia teve como momento mais significativo, do meu ponto de vista, a colocação da salenda ao meu pescoço por cinco das crianças todas elas de palmo e meio. Pode imaginar-se a sua dificuldade em levar a cabo tal tarefa. De seguida um aluno de uma escola que funciona perto leu um pequeno texto de agradecimento que passo a transcrever: Nós, as crianças desta comunidade, agradecemos ao Senhor Professor Manuel pela ajuda que nos deu através do pedido ao nosso Comandante do Batalhão de Exercito Português, para ajudar a construir a nossa escola. E agora a nossa escola já está erguida. Nós as crianças e os nossos pais, não temos nada a oferecer ao senhor Professor, a não ser um pano tradicional como um símbolo de amizade entre nós as crianças e o senhor Professor. Depois de lerem este pequeno discurso estou certo de que ficam a compreender o orgulho com que fiquei quando abandonei a escola e a tranquilidade de consciência que
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transmite o dever cumprido. A Dona Ercília mostrou-me com muita satisfação e vaidade, porque não dizê-lo, o diploma que o Agrupamento HOTEL lhe entregou assinado pelo senhor Ministro da Educação de Timor, Dr Armindo Maia, por D. Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas Portuguesas e pelo Comandante do Agrupamento HOTEL, Tenente Coronel Xavier de Sousa. Mostrou-me também as fotografias que os nossos militares fizeram retratando todas as fases da construção, assim como as fotografias e respectivas moradas de todos os que trabalharam para que a escola fosse uma realidade. O discurso que fez no acto da inauguração, muito simples, mas muito rigoroso, aludia ao dia 5 de Fevereiro, dia em que eu, ela e a Professora Dulce fomos fazer o pedido ao Comandante. O regresso ao hotel, com o meu ego muito mais forte do que antes, culminou este dia que nunca mais esquecerei.

4 DE JULHO – Domingo Este fim-de-semana foi preenchido a cem por cento com iniciativas de carácter social. Já há vários dias que a Drª Otília, do Centro de Emprego e Formação Profissional me convidara para fazer uma visita à escola que está a construir para os lados de Baucau e à qual ela, com muito carinho, chama “a minha escola”. Hoje concretizou-se essa visita. Bem cedo, logo após a ida à missa, partimos, na companhia de uma sua amigo vietnamita e outra amiga portuguesa, em direcção a Uai Lacama, assim se chama a terra onde fica a escola. A beleza da estrada, sempre junto ao mar e com curvas apertadas, já eu conhecia de idas anteriores para aquelas bandas. O trajecto foi feito sem paragens, com a promessa de no regresso termos oportunidade de fazer fotos nos locais de maior beleza. Chegado a Uai Lacama, fomos procurar a Professora Neide que depressa apareceu pois mora junto à estrada onde tem também um “posto” de venda gasolina e outros produtos. Pessoa afável e simpática dirigiu-se connosco para a
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escola, implantada em terreno cedido pela diocese e feita com dinheiros angariados em Portugal pela Doutora Otília. O tamanho do terreno permite, haja dinheiro, fazer espaços de lazer para lá dos espaços destinados à escola. As três salas que a compõem, duas para um lado do L e outra para o outro, ligadas por uma pequena, mas funcional sala de professoras que serve também de biblioteca. Já com duas das três salas mobiladas, com a terceira em vias de o ser, estão criadas as condições para ser feita a sua inauguração oficial no próximo dia dezassete. Para chegar a esta fase muitas canseiras e muitas dores de cabeça passou a sua promotora. A cultura dos povos é muito diferente conforme o continente em que nos encontremos. Por exemplo o conceito de fazer bem varia muito. Não tem nada a ver aquilo que para nós é uma parede bem pintada ou o que ela é para um timorense. Por isso é preciso uma paciência muito grande e uma força moral ainda maior para levar uma obra destas até ao fim. Mas parece que isso está prestes a acontecer. Em frente à escola, do outro lado da estrada, em Beloki, podem ver-se as paredes daquela que foi uma escola de grandes tradições em Timor tendo nela estudado o Bispo D. Ximenes Belo. Para ultimar os detalhes da festa da inauguração, dirigimo-nos a Baucau, com o objectivo imediato de falar com o senhor Bispo. Como estava doente não nos recebeu, mas deixámos recado. A sua residência, com uma localização sobre o mar, dá força, no bom sentido, aos privilégios em que vivem, quase sem excepção, as autoridades eclesiásticas. Dali saídos, fomos almoçar à Pousada de Baucau. Lindo lugar, onde se podem passar momentos relaxantes que bem podem ajudar a esquecer os momentos menos bons que a vida nos reserva. Fomos almoçar ao Restaurante Monte Perdido, por certo assim chamado em homenagem ao monte que fica perto de Baucau, no sentido de Viqueque. O local é magnífico e o ambiente acolhedor. Terminado o almoço, feitas as fotografias habituais fomos para o centro onde se pode admirar o mercado, edifício do tempo de administração portuguesa em forma de U, encimado pelo escudo português com as suas
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cinco quinas. Que pena não ser cuidado! A continuar assim não, os visitantes de Baucau, no futuro, não vão ter o prazer de dele desfrutar. Após o almoço regressámos a Díli com paragem em Manatuto para subir ao monumento a Santo António. As vistas deste ponto são lindas a valer. Os arrozais, Manatuto com a maior parte das suas casas ainda destruídas, a planície terminada pela serra e o mar são uma enchente para os olhos de qualquer um. O monumento data de 1992 e foi inaugurado pelo bispo D. Ximenes Belo. O regresso a Timor fez-se com o andamento próprio de Timor, muito devagar. Para um percurso de cerca de oitenta quilómetros gastam-se, seguramente, três horas. Por aqui se percebe a razão pela qual em Timor as distâncias são em horas e não em quilómetros. À noite todos os portugueses estávamos convidados para assistir, a partir da meia noite, em casa do embaixador, à final do Europeu. Foi o que fiz e muitos outros portugueses fizeram. À meia noite lá nos dirigimos de táxi para passando pela avenida do farol e chegando ao local combinado à hora certa.

5 DE JULHO – Segunda-feira A encarregada de negócios de Portugal em Timor recebeu-nos com muita simpatia e com uma festa que foi mais um pretexto para conviver. Dia sem acontecimentos dignos de nota. Apenas que era necessário puxar por todo o fair play necessário para digerir uma derrota com a Grécia, que não estava na previsão de qualquer português. Assim teve que ser. O totobola que fiz com os meus alunos não teve vencedores. Nenhum de nós apostou na Grécia. Ainda bem. Assim nenhum se ficou a rir. O tema do futebol e das tendências de apoio de cada um dos timorenses tem algumas

nuances que são difíceis de compreender. Não sei se pela irreverência
própria dos jovens, à qual os timorenses não são excepção, se pela tendência da geração que cresceu durante a ocupação indonésia, fui brindado com vivas à Grécia quando, ainda meio a dormir, passava em
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frente ao antigo liceu Sousa Machado em direcção à universidade. Às vais respondi com um sorriso. Não me era permitida outra atitude. Nos momentos maus é que temos que mostrar que somos mais fortes que os outros. Esta atitude contrastava com a tristeza dos meus alunos quando entrei na sala, tanto de manhã como de tarde. O fenómeno do jogo merece um estudo bem mais profundo do que estamos habituados a fazer. O timorense, como asiático que é, tem entranhado o vício do jogo. Houve pessoas que perderam carros, motas e dinheiro. A descontracção com que aceitam o resultado das suas apostas, muitas vezes com consequências desastrosas para a sua vida, deixa-nos estupefactos. Tudo se pode explicar pelas diferentes culturas dos diferentes povos.

6 DE JULHO – Terça-feira Dia normal, o que quer dizer que não houve nada digno de realce, a não ser o que se passou na aula do 3º ano, de manhã. Um dos alunos chegou com um problema na mão direita, apresentando um inchaço bem visível e queixando-se de que tinha algumas dores e que pretendia autorização para ir ao hospital. Entrados na sala, outro aluno prontificou-se a fazer um tratamento convicto de que o problema desapareceria. Puxou de um pequeno caderno que tinha na pasta e desfolhou algumas folhas detendo-se numa delas com uma atenção muito grande. De imediato pensei que se preparava para fazer uma reza para acabar com as dores do colega. Não foi isso que aconteceu. Segurando na mão do colega fez deslizar os seus dedos sobre a zona dorida e, depois de várias fricções, com movimentos suaves mas convictos, terminou a sua intervenção. À pergunta natural se as dores estavam a passar, a resposta afirmativa do doente não deixava dúvidas. Soube depois que já desde os vinte anos, tem agora vinte e sete, que se dedica a esta actividade. Perguntando-lhe o que tinha no livrinho, respondeu-me que se tratava de um livro de Jesus Cristo e que nele tinha
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anotado todas as possíveis intervenções, conforme o problema que fosse necessário tratar. A naturalidade com que respondeu à minha questão mostra bem a convicção com que faz o bem a quem dele necessita. Conhecer os alunos para lá das aulas é muito importante para a actividade docente. Conhecer os seus problemas, os seus anseios, as suas convicções, as suas dificuldades, enfim, conhecer com alguma profundidade o modo como vivem, ajuda o docente na tarefa de ensinar. Dos quatro alunos do terceiro ano já todos se recensearam e responderam ao sensus 2004 a decorrer em Timor. As autoridades querem saber quantos são, como vivem e onde vivem todos os cidadãos timorenses. Um deles teve que deslocar-se a Los Palos e os outros ficaram por Díli. A televisão tem feito uma campanha muito interessante sobre a necessidade de as pessoas se recensearem e responderem aos sensos.

7 DE JULHO – Quarta-feira Exercer a actividade de docência em Timor exige um grande esforço a qualquer um. O calor, que aperta todos os dias, é um inimigo muito difícil de vencer pois a sua acção faz com que seja muito mais difícil desenvolver esta e qualquer outra actividade. O facto de se estar longe da terra e da família cria em todos nós um stress muito grande que alguns, por vezes, não são capazes de aguentar. Algumas atitudes tomadas por alguns colegas são disso um bom exemplo. Vir para Timor pode ser muito bom, mas também pode ser muito mau. Aqui não há cinema ou teatro para onde uma pessoa vá descarregar esse stress. Não há quaisquer condições para ultrapassar os problemas que dia a dia se apoderam de cada um. Por isso há sempre alguns colegas que descarregam sobre quem com eles priva todos os seus problemas que, muitas vezes, vão acumulando dia após dia. Para quem esteja sereno, bem com a sua vida, calmo e sem problemas que o aflijam, esta terra pode ser o paraíso. A selecção das pessoas, tanto civis como
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militares, que vêm para missões de cooperação para países como Timor devia ser muito rigorosa no exame emocional de cada concorrente. Talvez assim se conseguissem melhores resultados com a cooperação.

8 DE JULHO – Quinta-feira O trimestre está a avançar e é necessário proceder à avaliação intermédia dos alunos. Foi o que aconteceu hoje com a disciplina de Electrotecnia II, do 2º ano de Electrotecnia. Tudo correu dentro da normalidade. Vamos esperar pelos resultados e concluir se os alunos apreenderam os conteúdos programáticos que, com muito esforço, lhes tenho transmitido ao longo das últimas semanas. Tudo o resto foi rotineiro. Almocei, como tenho feito nos últimos dias, no restaurante Metro acompanhado de um colega da Universidade do Minho, da área da formação pedagógica dos professores timorenses. Os almoços têm sido momentos importantes na troca de opiniões com este colega. Muito tenho aprendido com ele e espero que ele também tenha aprendido alguma coisa comigo. A troca de opiniões é, por vezes, muito rica em informações. Só assim podemos estar a par dos vários acontecimentos que vão ocorrendo. Como neste trimestre há muitos colegas de Vila Real, ligados à UTAD, quer na condição de docentes quer na condição de ex-alunos, combinámos um almoço para a próxima terça feira. Vai ser, assim espero, um bom momento de descontracção e manifestação de camaradagem entre colegas unidos pelo “amor” que têm à cidade de Vila Real.

9 DE JULHO – Sexta-feira Embora já fosse esperado, depois das notícias de ontem, foi com alguma mágoa que tomei conhecimento da morte de Henrique Mendes. Era sem dúvida um profissional competente, um homem afável e um cavalheiro,
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como alguns dos seus amigos o apelidaram neste dia em que deixa o mundo dos vivos. Paz à sua alma. Oferecido pelo colega a que ontem me referi, recebi um pequeno livro com textos de vários dos docentes timorenses que tiveram a sua fase de formação, ao nível do estágio, durante este trimestre. Apesar de simples na forma, revelou-se, como eu esperava, um manancial de conhecimentos que muito contribuirão para aumentar o conhecimento que tenho de Timor, ao fim de vários meses de estadia. Conhecer e dar a conhecer Timor Leste, assim se chama o livro. Trata-se de um bom exemplo do que pode e deve ser feito ao nível da cooperação de Portugal com Timor. Não nos esqueçamos de que a preservação da cultura timorense e um melhor conhecimento da realidade timorense por parte dos nossos cooperantes, pode ser uma boa ajuda ao êxito dessa cooperação. No prefácio, da autoria do Lino Moreira, dinamizador e orientador desta publicação, pode ler-se que “é importante que cada vez mais se valorizem nas aulas os textos sobre a realidade timorense”. Estou totalmente de acordo. É muito diferente serem autores estrangeiros a falar sobre a realidade de um povo ou um país, ou serem os próprios a falarem. Quem melhor do que os timorenses conhece os costumes, as receitas culinárias, os pontos de interesse turístico, etc. Desfolhando o livro pode ver-se a descrição do ilhéu de Jaco, ponto mais oriental de Timor com muita riqueza natural, ao nível da fauna e da flora. Aliás pode afirmar-se que não há estrangeiro que visite Timor que não faça uma visita a Jaco. O papel da RTP internacional é muito importante no dia a dia de qualquer português que esteja, por períodos mais ou menos longos, fora de Portugal. Hoje, pela manhã, assisti a um programa do Professor Hermano Saraiva sobre a vida e obra de Trindade Coelho. Como é sabido este licenciado em direito, por profissão, mas escritor por paixão, nasceu em Mogadouro, bem no centro da vila, ao lado do Convento de São Francisco, numa casa que fica ao fundo da praça central quando caminhamos no sentido do castelo. A sua casa confina mesmo com as duas ruas paralelas que dão acesso à zona do
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castelo. Homens como Trindade Coelho não há muitos, infelizmente. A sua capacidade de trabalho aliado ao seu amor por tudo o que fazia em prol da justiça, no âmbito da sua actividade de Magistrado do Ministério Público, são dignas de realce e de admiração. O seu desapego aos lugares do poder levaram-no a não aceitar o lugar de deputado pois, dizia ele, que justiça e política não eram compatíveis. Seguindo o seu caminho escreveu mesmo um livro onde criticava, com veemência, os partidos políticos e os seus membros. Dizia ele que, comum a todos, havia uma coisa muito má que era a corrupção. No seguimento da publicação deste livro foi convidado a abandonar a carreira, que muitos consideravam promissora, de magistrado público. Rejeitou mesmo a ida para Juiz. Caso aceitasse seria o mais jovem Juiz português até então. Poucos hoje como então, são capazes de tomar atitudes como as que ele tomou, com prejuízo evidente para a sua vida à qual poria termo passado muito pouco tempo de abandonar a sua profissão

10 DE JULHO – Sábado Para fugir à regra, hoje foi um dia diferente dos outros sábados. Pela manhã fui ao Instituto Camões onde naveguei pela Internet, sem ser incomodado pois durante toda a manhã não houve concorrentes e assim pude dedicar toda a manhã a ver as notícias dos jornais portugueses e ver o correio electrónico. A noite, passeia com muita ansiedade pois deveria ser avô, durante o dia em Portugal, durante a noite em Timor. Parece que o rebento se está atrasar pelo que durante todo o dia tenho ansiado por uma mensagem de telemóvel anunciando a sua chegada. A tarde passei-a todo no quarto do hotel pondo a escrita em dia. Assumir compromissos tem custos. É necessário cumprir com o que nos comprometemos. É isso o tento fazer sempre.

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11 DE JULHO – Domingo O Domingo tinha que começar pela missa em Motael. De diferente teve o facto de o senhor padre não ser o habitual. Por esta altura do ano vem um senhor padre timorense, bastante jovem, que se encontra em Roma a leccionar na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana de Roma. Se alguma dúvida houvesse sobre sua a categoria intelectual, é professor catedrático daquela faculdade. Representa sempre uma lufada de cultura, pois já é a terceira vez que assisto a missas ditas por ele. Após a missa fui dar uma volta de bicicleta. Segui pela marginal em direcção à praia dos coqueiros, em direcção contrária à da praia da areia branca. É um passeio diferente e também muito bonito. Passa-se pelo monumento ao Engº Canto de Resende, português deportado pelos japoneses para a ilha de Calabor, em frente à marginal, ao lado esquerdo de Ataúro. Seguem-se alguns restaurantes típicos, a embaixada brasileira, a casa do nosso embaixador e a futura embaixada dos Estrados Unidos. Sobre a praia podem ver-se os vestígios dos bares improvisados que funcionam todas as noites, onde se pode comer vários petiscos timorenses. A marginal termina sendo necessário virar à esquerda na direcção da estrada que conduz ao aeroporto. De interessante, ainda que estranho, é o facto de Timor, um país jovem e dos mais pobres do mundo, ter, para além da universidade pública, cerca de catorze ou quinze universidades privadas. Tudo isto vem a propósito de ter passado em frente de uma delas, o IOB – Institute Of Business. É um fenómeno que não é fácil de compreender, mas provavelmente terá alguma explicação que me falha. De seguida fui até à rotunda que dá acesso ao aeroporto. O objectivo era visitar o monumento que os indonésios ergueram nesta rotunda e que constituía uma homenagem à esposa do presidente Suarto. Hoje foi alterado tendo-lhe sido retirados os símbolos que o identificavam com ela, nomeadamente uma imagem feminina colocada bem lá no alto para onde jorravam água alguns anjos colocados em volta da base do monumento. O resto da dia foi normal apenas perturbado pela falta de
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notícias sobre o novo elemento da minha família que se negou a nascer adiando por alguns dias a vinda a este mundo que é o nosso.

12 DE JULHO – Segunda-feira Mais uma semana que começou. A rotina diária regressa. Pela manhã a aula de Projecto e pela tarde a de Electrotecnia II. Entre elas a ida à Internet e depois o almoço. Terminado este, regresso ao hotel para o descanso diário. As aulas decorreram como de costume. A paciência é uma virtude que aqui em Timor faz muito jeito. A dificuldade que os alunos têm na compreensão da língua portuguesa e na expressão torna a nossa vida muito complicada. Exige muito mais esforço do que em Portugal. No entanto não deixa de ser muito aliciante o desafio que se nos põe, todos os dias, na procura de estratégias de transmissão de conhecimentos consentâneas com a matéria prima que temos em presença, os alunos.

13 DE JULHO – Terça-feira Não havendo nada de especial a registar, vou reflectir um pouco sobre os meios de transporte em Díli. As populares microletes percorrem as ruas de Díli sempre metendo e descarregando passageiros com uma cadência muito acelerada. O cobrador funciona também como angariador de clientes. Antes, durante e após as várias paragens faz gala de uma grande capacidade de malabarismo para desempenhar as suas tarefas com eficiência. Este meio de transporte, guiado por motoristas com muita habilidade percorrem as ruas de Díli dando-lhe um ar pitoresco que tem a ver com as garridas cores e as alusões à religião e aos seus agentes, que ostentam, na maior parte dos casos na parte da frente.

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Neste dia fiz uma visita ao Senhor Caetano com vista a concretizar a ideia de trazermos um professor timorense, do ensino básico, a estagiário em Portugal, com bolsa do Distrito rotário 1970.

14 DE JULHO – Quarta-feira O dia de hoje foi um dia diferente pois foi um dia de confraternização entre os docentes que, de algum modo, estejam ligados à cidade de Vila Real. Fomos todos jantar ao restaurante timorense de nome Maubere. Trata-se de um restaurante com instalações bastante boas, muito arejadas e bastante limpas. Como é costume pois o frio aqui não aparece, tem apenas a cobertura sendo desprovido de paredes laterais. O serviço foi bastante bom, tendo o jantar constado de camarões grelhados de entrada seguidos de uma caldeirada de peixe. Tudo estava muito bom. Lá estávamos os docentes da UTAD e alguns docentes que ali estudaram e fizeram o seu curso. Estes momentos de camaradagem são muito importantes para quem está longe de casa. Permitem que nos conheçamos melhor e, por vezes, constituem até verdadeiras surpresas, agradáveis normalmente. O regresso ao hotel foi feito em cima de uma carrinha gentilmente cedida pelo dono do restaurante. Foi um jantar que ficará, estou certo, sempre na retina de todos os que nele participaram.

15 DE JULHO – Quinta-feira Além da correcção dos testes de recurso de SEE II e de Máquinas Eléctricas, dos meus alunos de Vila Real, resolvi escrever um texto para o Semanário falando sobre o curso de Engenharia Electrotécnica e da importância que pode ter no futuro de Timor. Pareceu-me importante aproveitar a oportunidade que representa o facto de ser cronista permanente, já lá vão 24 textos, sem interrupção, para realçar o papel que as universidades
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portuguesas têm tido no desenvolvimento do curso. Não fossem as nossas universidades cederem os seus docentes e não seria possível tê-los em funcionamento. Reflecti um pouco sobre as políticas energéticas que me parecem mais adequadas para o futuro de Timor e qual o papel que os primeiros licenciados em electrotecnia podem representar para a sua definição. Não basta definir políticas é preciso que sejam sustentadas e sustentáveis. Também é muito importante quem as vai executar. É aqui que os nossos alunos entram. Os primeiros vão ser formadas antes de Natal. Espera-os um país dos mais pobres do mundo e onde tudo está por fazer. Faço votos parta que os ensinamentos que os vários docentes que tiveram, sejam aplicados no exercício da sua profissão.

16 DE JULHO – Sexta-feira Após a visita que, na terça-feira, fiz ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, voltei hoje a encontrar-me com o Senhor Caetano. Trata-se de um timorense que viveu intensamente a turbulência por que passou Timor desde os longínquos tempo0s de 2005 até hoje. Esteve preso e vive em Díli. Trabalha no Ministério onde apoia o Ministro Ramos Horta. É membro do Rotary Club de Díli e conhece as dificuldades e as provações por que passou o povo timorense. >Tenho0 tido oportunidade de com ele conversar sobre rotary e sobre Timor e no seu povo. Neste dia fiz uma curta visita ao MAC para rever a criançada e preparar a despedida que, em breve, vai acontecer.

17 DE JULHO – Sábado A correspondência de Timor, textos que escrevo para a Voz de Trás-osMontes, ocupa uma parte dos sábados. Foi o que hoje aconteceu. No texto desta semana escrevi sobre a importância que tem a cooperação portuguesa
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no desenvolvimento de Timor. Falei sobre um livro lançado pelo CNEFP português, chamado “A Língua Portuguesa e as Profissões” destinado aos trabalhadores timorenses que se encontram a fazer formação profissional. Este pode ser um instrumento importante para que o português seja falado por todos os timorenses já que é uma das línguas oficiais, a par do tetum, desde jovem país. A autora pertence ao Centro de Emprego e tem desenvolvido uma actividade muito positiva na formação profissional aqui em Timor. Já aqui se encontra há cerca de três anos. Este livro é o fruto de uma dedicação, sem desfalecimentos, à cooperação com Timor. Oxalá os timorenses saibam aproveitar este e outros contributos da nossa cooperação. O resto do dia aproveitei-o para rever fotografias da família e das anteriores vindas a Timor. È necessário ocupar o tempo que aqui anda pachorrentamente, a passo de caracol.

18 DE JULHO – Domingo Ao contrário do que tem sido habitual, hoje fui à missa à Igreja de Balide. Houve duas razões para que alterasse este meu hábito. Uma delas foi a possibilidade de me levantar um pouco mais tarde. A outra foi a esperança de encontrar o Padre João Felgueiras, pois tinha a informação que ele celebra a missa dominical nesta igreja, às nove horas. À hora adequada dirigi-me para Balide, um pouco mais longe do que a de Motael. Passa-se pela Rádio de Timor Leste, pelas instalações de Caicoli onde os nossos militares estiveram aquartelados e finalmente chega-se à rotunda que fica junto ao estádio de Díli e junto ao ponto de encontro das microletes que saem para fora da cidade. Virando à direita falta vencer cerca de uma centena e meia de metros e damos com a linda igreja, centrada no interior de um jardim, acedendo às escadas principais através de uma ala com monumentos evocativos de anteriores párocos, com a particularidade de um deles ter sido oferecido pelo último governador Abílio Soares. Simples
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casualidade, direi que acabou de ser julgado em Jacarta e condenado a três anos de prisão a cumprir em Cipinang, onde esteve o Presidente Xanana Gusmão. Esta condenação provavelmente será para mostrar que a justiça funcionou. É, estou certo, apenas uma condenação de fachada para esconder outros que serão os verdadeiros culpados das atrocidades que foram praticadas em Timor. Na missa encontrei vários meninos e meninas a quem estamos a pagar os estudos. É indescritível a alegria que se apodera de mim quando sou saudado por eles com sorrisos largos, naturais, verdadeiros. Só por isso já vale a pena o trabalho que tenho tido para dar conta do recado nesta empreitada de bem fazer que abracei desde que entrei para a vida de rotário. Aqui a missa termina com os senhores padres a descer a igreja, acompanhados pelos jovens ajudantes da missa, entrando na sacristia. O ritual que se segue é a entrada de muitos dos assistentes à missa na sacristia para pedir a bênção aos senhores padres. Este hábito já há muitos anos está afastado do domingo dos portugueses. Entrei e cumprimentei, com um apertado abraço, o senhor padre. A alegria em me ver foi muito grande. Vejo nestes gestos uma amizade que considero sincera e que, como já escrevi noutras ocasiões, tem vindo a crescer. É de realçar a lucidez e a jovialidade que manifesta. Fiquei a saber que este ano não irá a Portugal o que me deixou triste e contente. Triste porque assim não poderá ir a Vila Real falar-nos sobre a sua vida em Timor. Contente porque a deslocação, a fazer-se, sê-lo-ia por razões de falta de saúde.

19 DE JULHO – Segunda-feira Um dia que podia considerar-se normal não fossem os problemas que surgiram ao fim do dia. Um grupo de ex combatentes da FRETILIN, liderados por um antigo comandante, conhecido por L-7, manifestou-se junto ao palácio do governo, exigindo que este se demitisse. Estas reivindicações já vêm desde há algum tempo a esta parte, quando estes
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mesmos ex-guerrilheiros foram recebidos pelo comandante das forças armadas. Trata-se de antigos combatentes que foram excluídos das forças armadas regulares e que exigem condições de vida, a que pensam ter direito pelos muitos anos que combateram, concretamente o ex guerrilheiro L-7 durante cerca de 24 anos. A reinserção de ex combatentes na sociedade civil é um problema que qualquer país que tenha passado por um guerra como Timor, tem. Veja-se o que se passou em Angola, em Moçambique, na Guiné e em tantos outros. São problemas muito difíceis de resolver e que podem criar muitos problemas ao normal funcionamento das instituições democraticamente instituídas. Este tipo de acontecimentos traz sempre alguma apreensão a quem se encontra tão longe de casa como é o meu caso e o de muitos colegas que aqui estamos em cooperação na área do ensino superior. Pode dizer-se, no entanto, que nestes momentos difíceis somos objecto de solidariedade pronta tanto das autoridades que aqui representam o nosso país, como das autoridades locais. Destaco a atitude do Senhor Reitor da UNTL que se deslocou, propositadamente à sala que nós ocupamos para avisar que iria haver uma manifestação contra o governo e que era mais seguro não nos deslocarmos à sala onde habitualmente vamos “recolher” o correio electrónico. Foi o que fizemos. Ficámos em cavaqueira no hotel onde estive esperando o tempo passar e desejando que nada de mal acontecesse.

20 DE JULHO – Terça-feira Depois dos acontecimentos da noite de ontem, a expectativa pelo que se poderia passar hoje era grande. Chegado à universidade depressa vi que a movimentação de pessoas estranhas era notória. Na sala fui informado que a movimentação da noite anterior ia continuar. Os manifestantes investiram para a entrada do palácio onde os esperava a polícia que usou de todos os meios para impedir que perturbassem o normal funcionamento das
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instituições eleitas, governo e parlamento. Utilizou gases lacrimogéneos e balas de borracha para os dissuadir de levarem em frente os seus intentos. Foram presos alguns dos manifestantes e os restantes dispersaram. É claro que estes acontecimentos criaram um nervosismo justificável em muitos alunos e docentes. Algumas das aulas não funcionaram e outras decorreram com a anormalidade própria de casos como este. De manhã dirigi-me ao jornal Semanário para que me fossem entregues os exemplares que saíram no período em que não estive em Timor. Fui, com o seu director, o jornalista António Veladas, à redacção onde os recolhi. Pelo caminho foi fácil ver que as pessoas do povo pressentem, com muita facilidade, as consequências negativas que daí podem vir. Os estabelecimentos comerciais estavam quase todos com as portas cerradas. Parecia uma cidade em pânico, mas com todas as pessoas recolhidas em suas casas. Ao fim de algum tempo o regresso à normalidade aconteceu e pela tarde já foi possível fazer uma visita de estudo às instalações da central eléctrica da EDTL, localizada em Comoro. Sem dúvida que foi um visita muito proveitosa e que serviu para que os alunos sentissem o trabalhar dos geradores, os equipamentos vitais à produção, ao transporte e à distribuição da energia que aqui se consome no dia a dia. A visita havia sido programada para ser feita nas aulas de Máquinas Eléctricas e de Electrotecnia II. Em boa hora isso aconteceu. O Engenheiro Hélio Ximenes recebeu-nos com uma simpatia que é de realçar e disponibilizou o seu tempo para explicar pormenorizadamente aos alunos quer o funcionamento dos vários equipamentos quer as questões de índole mais geral no que se refere às condições de exploração da central. Entre os vários equipamentos que foram vistos e “sentidos” pelos alunos estão os isoladores de cerâmica, os transformadores, os disjuntores, os postes, os motores, etc. Com a abertura das instituições como a EDTL, públicas ou privadas, às instituições de ensino superior ficam a ganhar umas e outras. As primeiras, porque dão a conhecer o seu funcionamento, as suas dificuldades, o alcance social dos seus serviços. As segundas, porque os
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alunos têm contacto com a realidade que vão encontrar quando um dia ingressarem no mercado de trabalho. Foi manifesto o interesse de todos os alunos na visita. Tiraram apontamentos e colocaram questões resultantes dos conhecimentos teóricos que já têm, ministrados nas disciplinas referidas e noutras que já frequentaram. Também aproveitei a oportunidade para tomar conhecimento de alguns dados que me interessam para fundamentar melhor os conteúdos programáticos que transmito aos meus alunos. Entre eles está a potência da central de 17 MW que alimenta a cidade de Díli e o corredor que se estende até Maubara, passando por Liquiçá, assim como o que se estende até Metinaro, passando por Hera. A linha de transporte é trifásica de 20 kV. Este nível de tensão é mais de distribuição do que de transporte, se falarmos com rigor. A explicação do Engenheiro Hélio foi bastante longa. Em nome de todos os alunos de Electrotecnia do curso FUP – UNTL, de todos os docentes e dos representantes da FUP em Timor, na minha qualidade de coordenador do curso, agradeço à EDTL, na pessoa do seu responsável Eng.º Carvalho Rodrigues as facilidades que nos concedeu para que a visita se fizesse. Estes agradecimentos estendem-se também ao Eng.º Hélio, que tão bem nos atendeu e tão bem explicou aos nossos alunos todos os pontos importantes de uma instalação deste tipo. Estou certo que os nossos alunos saíram de lá muito mais conhecedores do tema da energia eléctrica. Esse era o nosso objectivo que considero ter sido plenamente atingido.

21 DE JULHO – Quarta-feira Foi dia de confraternização entre todos os docentes que aqui se encontram no programa de cooperação das universidades portuguesas e da UNTL – Universi9dade Nacional de Timor Leste. Foi uma boa oportunidade para conviver e degustar algumas iguarias confeccionadas por alguns colegas. Tudo correu dentro da normalidade e sem exageros.
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22 DE JULHO – Quinta-feira Hoje, durante a aula, num momento de descontração, fiz, com os meus alunos, uma reflexão sobre o momento político timorense. Todos se expressaram e, com maior ou menor clareza, assumiram as suas tendências políticas que, como é óbvio e as circunstâncias exigem, não as vou divulgar.

23 DE JULHO – Sexta-feira Hoje é o último dia de aulas. No final despedi-me dos alunos chamando-lhes à atenção para aquilo que deve ser a sua postura perante o futuro que os espera. Formulei desejos de que o futuro lhes sorria.

24 DE JULHO – Sábado Um Sábado um pouco diferente do normal. Pela manhã saí do hotel em direcção ao Instituto Camões para “ver” o correio electrónico e dar uma vista de olhos pelos jornais “on line”. Esta é a única hipótese que temos de ler a imprensa nacional. Devo dizer que é uma das grandes faltas a quem está longe. A notícia em “papel” é muito mais marcante do que a online. Sentir o papel na mão é uma sensação diferente que aqui tão longe não é possível ter. Como não estava o responsável pela Internet não pude consultá-la. Como a Dona Jacinta também faltou ao trabalho fiquei sem possibilidades de actualizar o correio e as notícias. Em alternativa, e a exemplo do que tenho feito muitas outras vezes, procurei na biblioteca do instituto alguns livros que falassem da história de Timor, especialmente sobre o período da 2ª guerra mundial, aquando da invasão dos japoneses. A procura foi muito produtiva pois encontrei um livro intitulado “ Timor entre Invasores, 1941 – 1945”. Trata-se de um trabalho final de mestrado de, ……, orientado pelo dr Medeiros Ferreira, antigo Ministro português dos Negócios Estrangeiros. Havia já muito tempo que procurava alguma menção
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ao Padre Alberto Gonçalves, padre Jesuíta, natural da minha aldeia, Remondes, em Trás-os-Montes. Finalmente isso hoje aconteceu. Nesse livro refere-se o seu trajecto e a sua acção em Timor durante cerca de quarenta anos que aqui esteve. Quando veio para Timor trouxe consigo dois irmãos. Um deles regressou a Portugal passado algum tempo, mas o outro por aqui continuou, constituiu aqui família e aqui passou quase toda a sua vida. Assentou arraiais perto de Maubara, onde viveu sempre, dedicando-se à produção de café do qual, com muita amizade e consideração, levava aos meus pais alguns pacotes. Era, sem dúvida, um bom café com um aroma inconfundível. Recordo com muita saudade o tempo em que era jovem, quando ajudava a minha mãe a moer os grãos de café que ele nos oferecia. Bons tempos esses. Este conterrâneo de que estou a falar foi um dos fundadores da ACAIT – Associação Comercial Agrícola e Industrial de Timor. Visitando o edifício que foi e creio que ainda é a sede desta associação, pode ver-se uma placa onde estão gravados os nomes dos seus fundadores, o senhor João do Nascimento Gonçalves incluído. Tive também oportunidade de ver como aconteceu o massacre de Aileu. Ao contrário do que pensava, foram os naturais de Timor, de um e de outro lado, que massacraram os portugueses que ali se encontravam. Claro está que foram instigados pelos invasores japoneses a fazê-lo. Após terminar a segunda guerra mundial, os japoneses, a exemplo do que ainda hoje acontece, indemnizaram os portugueses a quem tinham destruído casas, plantações e outros bens. Ouvi muitas vezes a minha dizer que este meu conterrâneo visitou a nossa terra poucos anos após essa data, mostrando alguns sinais exteriores de riqueza, resultante das indemnizações que lhe couberam. O Padre Alberto Gonçalves regressou, nos meados dos anos cinquenta, à sua terra natal onde foi pároco até à sua morte. Do Instituto Camões segui para casa da Irmã Eliene a fim de combinar com ela um encontro com alguns dos meninos e meninas do MAC, pois ainda não
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fiz entrega de todas as encomendas que me entregaram em Portugal. Como quero ser um “carteiro” eficiente vou Terça-feira, fazer a última entrega. Como a Irmã Eliene regressa ao Brasil no final do ano, conversei com a pessoa que a irá substituir. É a Drª Maria Jardim, de origem sul-africana, casada com um colega madeirense. Foi muito bom conversarmos pois alinhavámos algumas ideias para continuarmos com esta colaboração entre o Rotary Club de Vila Real e o MAC. Estou certo de que vamos continuar a ajudar muitas crianças que, de outro modo, não poderiam estudar.

25 DE JULHO – Domingo Fui à missa a Balide, pois queria despedir-me do Padre João Felgueiras. Fi-lo no final da missa, convicto de que regressaria de novo a esta terra. A missa em Balide, rezada pelos Padres Felgueiras José Martins, tem uma particularidade muito interessante que é a de a homilia e outras partes da missa, serem feitas em Tétum e Português. Para quem como eu que poucas palavras sei em Tétum, é muito bom. Permite-me uma assistência mais efectiva. De tarde fiz o meu último passeio de bicicleta à praia da Areia Branca, com subida ao Cristo Rei para desfrutar das fantásticas vistas sobre o mar e sobre Díli.

26 DE JULHO – Segunda-feira Termino aqui este meu diário. Com ele pretendo deixar o meu testemunho sobre esta terra e estas gentes que terão, para sempre, um espaço no meu coração

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JUNHO/JULHO - 2002 CORRESPONDÊNCIA DE TIMOR

INÍCIO DA MINHA COOPERAÇÃO COM TIMOR Acedendo a um convite que me foi feito pela FUP – Fundação das Universidades Portugueses, encontro-me em Timor para leccionar uma disciplina do Curso em Engenharia Electrotécnica que começou a ser ministrado na Universidade Nacional de Timor Lestei. Cheguei Sábado pelas oito horas locais, depois de uma viagem de vinte e duas horas de avião, e, as minhas primeiras impressões sobre Timor e as suas gentes são francamente positivas. Sem dúvida que as estruturas básicas estão bastante degradadas não só pela falta de manutenção e melhoramentos desde Abril de 1975, mas também pelos estragos feitos durante os últimos meses de guerra civil que ocorreu antes da realização do referendo que, inequivocamente, demonstrou que os timorenses queriam ser um país independente e não uma província indonésia. Há, no entanto, uma constatação que facilmente salta à vista; a amabilidade com que os cooperantes são recebidos por todos. Sem dúvida que é gratificante para quem vem de tão longe ser recebido assim. O primeiro acto oficial em que estive envolvido foi a inauguração dos cursos de Engenharias (foto dos primeiros alunos). Estiveram presentes o Senhor Ministro da Educação e Desportos, o Senhor Embaixador de Portugal, o Chefe da missão portuguesa e o Senhor Reitor. A cerimónia foi feita ao ar livre no espaço fronteiro à Universidade. Foi uma cerimónia simples que começou, a exemplo de outras cerimónias oficiais, por uma oração de agradecimento a Deus por ter tornado realidade o significado daquele acto. Intervieram as personalidades referidas, sendo de realçar a informação dada pelo nosso Embaixador de

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que foi a Câmara de Lisboa que financiou a recuperação das instalações da Universidade. O Senhor Ministro referiu a alegria de ver iniciarem-se as actividades escolares no Ensino Superior tendo contribuído para tal as Universidades portuguesas, estando nelas incluída a nossa UTAD. Realçou, em comum com o Senhor Reitor, a presença dos docentes portugueses a quem saudou e agradeceu o empenhamento, que já demonstraram ao estarem aqui presentes, que espera se materialize no bom aproveitamento dos estudantes que agora vão iniciar esta nova e decisiva etapa da sua vida. Aos alunos incentivou-os a empenharem-se nos estudos de modo a que o esforço feito pelo Governo de Timor e pelas Universidades portuguesas não seja em vão.

Fazendo o paralelo do que está a ser a cooperação de Portugal no âmbito do ensino superior com o que se passou com Moçambique, a minha opinião é de que aqui sim Portugal está com uma política de cooperação correcta e eficaz. Além do esforço que as nossas Universidades estão a fazer, sabendo todos nós quão apertados são os seus orçamentos, também o Governo português tem sido bastante eficaz nessa política. Há bem poucos dias
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saíram daqui cerca de trezentos e quarenta estudantes timorenses que irão fazer os seus estudos nas universidades portuguesas. Em Moçambique, durante um período bastante largo, que acabou com o desmoronamento da União Soviética, a maior parte dos Engenheiros moçambicanos fizeram os seus cursos aí ou em países da sua esfera de influência política. É muito importante que os cidadãos dos novos países de língua portuguesa não percam os laços que os unem a nós. Sem dúvida que, no futuro, constituirão um pólo de divulgação da nossa língua e da nossa cultura. No caso de Timor ainda há muito a fazer pois há muitos timorenses para quem a língua portuguesa não é muito familiar. Com a iniciativa que agora se inicia muito se espera. O curso de Língua Portuguesa destinado, em especial, a professores do ensino básico pode constituir o início de uma nova etapa no fim da qual se espera que, pela acção dos novos licenciados, a língua portuguesa passe a ser mais um elo de ligação entre portugueses e timorenses.

TIMOR – 12º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE SANTA CRUZ Quis o destino que me encontrasse em Díli no dia 12 de Novembro, dia das comemorações do 10º Aniversário do massacre de Díli, ocorrido, como bem se lembram, no dia 12 de Novembro de 1991. Levantei-me bem cedo e segui, caminhando, em direcção à residência do Bispo D. Ximenes Belo. Não foi difícil escolher o trajecto tal era a avalanche de pessoas que para lá se dirigiam. Aí chegado, as primeiras imagens que me vieram à mente foram as que as televisões de todo o mundo passaram aquando dos acontecimentos sangrentos que aconteceram antes do referendo que conduziu à independência de Timor Loro Sae. É sem dúvida fácil constatar a importância que o Bispo D. Ximenes Belo tem para o povo timorense. Estando este país numa zona onde a influência muçulmana é por demais evidente, mais valor temos que dar às opções
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religiosas tomadas pela grande maioria das pessoas que aqui residem. Cerca de 95% dos timorenses professam a religião católica. Sem dúvida que a acção dos representantes da Igreja católica, Bispos, Sacerdotes e todos os leigos que com eles colaboram, muito contribuíram para que isso assim fosse.

Pelas imagens televisivas que chegavam a Portugal, tenho presente a ansiedade com que as pessoas esperavam pelas palavras de confiança que estes lhes transmitiam. A exemplo do que acontece todos os Domingos, a missa decorreu nos jardins da residência episcopal. O espaço é grande e tranquilo. Após a missa, o povo dirigiu-se para o cemitério de Santa Cruz, onde se encontraram com aqueles que fizeram o trajecto a partir da Igreja de Motael. Seguiu-se uma cerimónia que teve como objectivo comemorar o 12º aniversário da morte de vários timorenses que ali se deslocaram nesse dia a homenagear os seus familiares já falecidos. Estiveram presentes as várias personalidades timorenses que intervieram lembrando esse dia e o seu significado para o povo de Timor. De entre as várias intervenções destacaram-se as de Xanana Gusmão que, a partir de um cartaz colocado à entrada de cemitério teve palavras de esperança para todos os presentes, saudou os familiares das vítimas e exortou, em especial os mais jovens, a
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manterem-se unidos em torno dos ideais que presidiram à criação deste ainda jovem País. Incentivou-os a praticarem a tolerância e a reconciliação para com todos aqueles que não trilham os seus ideais. O Senhor Ministro da Educação, Armindo Maia, dirigiu-se em especial aos jovens, considerando-os como o futuro de Timor. Na ausência do Chefe da missão da Onu, Sérgio Vieira de Melo, interveio o seu representante que historiou a evolução do caso de Timor, referindo as várias resoluções aprovadas pelas Nações Unidas até esse dia, sem qualquer consequência positiva para Timor. Considerou os acontecimentos do dia 12 de Novembro de 1991 como um marco importante e definitivo na alteração da posição da comunidade internacional para o que aqui se passava. Foi a partir daqui que o rumo de Timor se alterou no sentido de dar origem a um novo País, que hoje caminha com as dificuldades inerentes a um jovem com pouco tempo de vida, mas já com passos dados com firmeza que lhe auguram um futuro risonho. Sem dúvida que os timorenses merecem que assim seja. A solidariedade dos países amigos, com Portugal à cabeça, é indispensável para criar as condições necessárias para que todos tenham uma vida com dignidade ainda que com as dificuldades que fazem parte da vida de qualquer país e, consequentemente, de todos os seus cidadãos. Timor vai consegui-lo assim todos os timorenses o queiram e os países amigos lhe sejam solidários. Portugal tem cumprido de um modo exemplar. Ainda hoje o Ministro Mari Alkatiri realçou os acordos que fez em Lisboa para por em funcionamento a rádio e a televisão de Timor. Dois meios de comunicação indispensáveis ao desenvolvimento de qualquer país.

VISITA A BAUCAU Díli estende-se por uma extensa planície encurralada pela montanha e pelo mar. Partindo do centro temos duas alternativas: caminhar em direcção a Becora ou em direcção a Comoro, onde se encontra situado o aeroporto,
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cujas infra-estruturas foram completamente destruídas após o referendo. Em direcção a Becora podemos constatar o grande número de escolas que Díli tem à disposição dos seus alunos. Nem todas estas escolas são públicas. Encontram-se algumas de propriedade privada nomeadamente de instituições religiosas. Se continuarmos o passeio acompanhando a montanha passamos por ruas com frondosas árvores que nos permitem um contacto muito íntimo com a natureza. No trajecto temos oportunidade de parar no monumento aos soldados portugueses da Brigada Montada mortos durante a ocupação dos japoneses, na parte final da 2ª Guerra Mundial. Trata-se de um monumento com um significado tão grande quanto a sua simplicidade. Sim, porque em Timor tudo é muito simples e sóbrio. O próximo ponto de paragem é o complexo religioso da Paróquia de Balide.

Metida no meio de um grande e lindo jardim, encontramos a Igreja em forma de cruz, muito sóbria e espaçosa. Contíguo, encontramos o Centro Paroquial onde se desenvolvem as actividades paralelas que fazem parte da vida de qualquer instituição católica. Em frente à entrada principal da Igreja podemos observar como a Administração indonésia no território de Timor
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tudo fazia para conquistar a confiança dos timorenses; trata-se de um pequeno monumento evocativo da 50º aniversário do Pároco de Balide, oferecido pelo então Administrador Abílio Osório. Nem mesmo com estas acções de persuasão, os indonésios conseguiram essa confiança. Antes de chegarmos a Balide virando à esquerda, alguns metros adiante, encontramos o antigo Palácio do Governador. Neste momento está sem ocupação pois necessita de uma completa recuperação; apenas as paredes se encontram de pé. No entanto facilmente se imagina a beleza que tinha no tempo em que teve utilização plena. De seguida encontramos o Estádio Municipal de Díli, construído ainda no tempo da Administração portuguesa. O futebol é bastante popular aqui em Timor. Recentemente foi criada a Federação de Futebol de Timor. A outros níveis a cooperação de Portugal continua activa. Há alguns dias, com a visita do Ministro da Juventude e Desportos, Engº José Lelo, foi inaugurado o Centro Cultural Padre António Vieira e assinados dois protocolos na área da formação desportiva.. No que respeita ao futebol há vários clubes que apenas necessitam de ter existência jurídica pois na realidade estão em actividade. Só em Díli há cerca de trinta e cinco, segundo informações do Senhor Ávila, funcionário do Hotel Dom Aleixo, onde estive hospedado durante o primeiro mês de estadia em Díli. Não sendo uma área prioritária para o Governo Transitório, vai decorrer algum tempo até que o futebol e outros desportos ocupem o lugar que lhes pertence por direito. Depois desta volta estamos de novo no ponto de partida. Vamos agora caminhar em sentido contrário, ou seja, em direcção a Comoro. Passamos pelo actual heliporto, outrora funcionando como um pequeno aeroporto. De passagem encontramos as embaixadas da Austrália e da Indonésia. É por esta saída que me desloquei à terceira cidade de Timor, Maliana de que mais tarde lhes falarei. Hoje convido-os a sair pela primeira vez de Díli. Vamos visitar a cidade Baucau (foto do mercado), a cerca de duas horas de distância. A distância aqui mede-se em horas de duração da viagem pois, salvo raras excepções, as velocidades conseguidas
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são muito baixas pelo que é mais seguro falar em horas do que kilómetros. A estrada segue, durante grande parte do trajecto, junto ao mar parecendo por vezes que nele vamos mergulhar. Logo à saída encontramos, salpicando os montes, eucaliptos autóctones que, pelo branco dos seus troncos, lhes conferem grande beleza. A primeira localidade é Metinaro. Segue-se Manatuto que, como todas as localidades timorenses, se encontra bastante danificada. O monumento a Santo António, bem no alto de um pequeno monte à saída para Baucau, é um ponto de paragem obrigatória. Ali se chega por uma estreita e íngreme estrada de terra batida, numa extensão de cerca de duzentos metros. Não é propriamente o monumento que justifica esta paragem, mas sim a beleza de tudo o que dali podemos, com a vista, alcançar. Seguindo viagem entramos numa zona com grandes extensões de palmeiras que se estendem por alguns kilómetros ao longo de quase todo o trajecto. Seguindo viagem encontramos Laleia que tem como cartaz principal o facto de ser a terra de onde é natural o Comandante Xanana Gusmão. Só por isso já se justifica uma breve paragem. A próxima cidade é Baucau que, como acima referi, é o destino do nosso passeio. A sua importância é agora maior pois é a segunda Diocese de Díli, presidida pelo Bispo D. Basílio. Tem características que a distinguem de Díli como seja o facto de não ser uma cidade assente numa planície. As ruas são inclinadas e de traçado bastante irregular, especialmente na zona baixa da cidade. O antigo mercado, pela sua arquitectura, é um ponto onde se deve parar. Vamos fazer uma pequena incursão, de cerca de quarenta e cinco minutos, caminhando em direcção a Viqueque. Detenhamos um pouco em Venilale, antigamente designado o Reino de Venilale, onde vale a pena visitar a casa de Santa Maria Mozarello e respectiva igreja, assim como uma Escola, de cores bem visíveis à distância, que foi completamente recuperada pela fábrica de relógios Swatch. Alguns minutos adiante podem ver-se os terraços de produção de arroz, fazendo lembrar as típicas paisagens do Vietnam. Daqui já se pode observar a imponência do monte “O Mundo
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Perdido”, assim chamado por ser um local de abrigo de portugueses e timorenses aquando da invasão da ilha pelos japoneses. Devido à existência permanente de nevoeiro foi-lhes possível sobreviver à sua investida. Por hoje terminamos a nossa conversa e na próxima quinta-feira cá estarei de novo.

VISITA A MAUBISSE Sair em passeio para fora de Díli implica ter de decidir entre alternativas com um denominador comum: a beleza da paisagem timorense e a sua diversidade. Seja qual for o trajecto escolhido teremos sempre à disposição uma paisagem de um verde carregado e uma floresta constituída por lindas e frondosas árvores. Podemos admirar a madre cacau assim chamada por proteger os cafezeiros das intempéries do tempo. Das palmeiras, da teka e dos eucaliptos autóctones já lhes falei em conversa anterior. O nosso passeio de hoje vai ser a Maubisse, de passagem por Ailéu. Logo no início da viagem é necessário prepararmo-nos para subir a serra que circunda Díli, por uma estrada que faz lembrar a travessia do Marão pela estrada antiga. O panorama que se avista do ponto mais alto é sem dúvida deslumbrante. Pode observar-se Díli em toda a extensão e ainda o grau de destruição de que a cidade foi alvo por parte dos indonésios quando, depois de derrotados no referendo, abandonaram Timor. Depois de ultrapassar a montanha desce-se e entra-se numa zona pouco acidentada. Pelo caminho podem verse os melhoramentos que a Brigada de Engenheiros do Bangladesh(!) tem feito na estrada de modo a evitar desmoronamentos de terras. Antes de chegar a Maubisse passamos por Ailéu onde paramos para, à saída, visitarmos um monumento muito interessante e de grande significado histórico. Presta homenagem aos “massacrados de Ailéu em 1942”. De seguida seguimos para Maubisse onde desde logo se avista a Pousada. Trata-se um edifício de rés-do-chão situado no cume de um pequeno monte.
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Serviu de instalação para o posto administrativo no tempo em que Portugal administrou os destinos de Timor. Dos seus jardins avista-se para qualquer lado um monte verde e salpicado de casas harmoniosamente distribuídas. É sem dúvida um ponto de visita obrigatória. Para quem queira descansar das agruras da vida é um lugar a recomendar pois o ar puro e o silêncio de que se desfruta ajudam a relaxar, permitindo esquecer os momentos menos bons que a vida nos reserva. À pousada chega-se por uma estrada de terra batida e de difícil acesso para um veículo que não seja de todo o terreno. No desvio para esta estrada encontra-se o monumento ao Régulo Benavides morto pelos japoneses durante a 2ª Guerra Mundial. Na lápide que o homenageia pode ler-se: por Portugal contra o invasor. São palavras de um patriotismo exagerado, no dizer de alguns, mas que traduzem a oposição que os timorenses fizeram à invasão japonesa, sem dúvida, de consequências muito trágicas para os timorenses. Muitos foram mortos e Díli ficou quase despovoada. Talvez por isso o governo japonês está muito empenhado em cooperar na reconstrução de Timor.

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Em Maubisse visitei o aquartelamento português. Em conversa com militares ali colocados logo ressaltou que alguns deles, quando vêm cumprir a missão de ajudar na reconstrução em Timor, não estão bem informados sobre as condições que os espera. É necessário, já o disse noutras ocasiões, ter não só um pouco de aventureiro mas também possuir capacidade anímica e moral elevada para desenvolver, seja que actividade for, em terras onde não há cinemas, cafés, restaurantes, telefones, correios, ginásios, etc. É nestas condições que os militares e os professores desenvolvem a sua actividade. Por essas e por muitas outras razões tenho uma grande admiração pelo(a)s jovens, especialmente os professores, que de Portugal vieram para terras tão distantes das respectivas famílias, privando-se de tudo o que teriam se não abraçassem estas causas. O seu trabalho é reconhecido pelo Ministro da Educação através da mensagem que enviou a cada um deles por ocasião do Natal. Com a oferta do livro “Rostos de Esperança” da autoria de José Revez e legendado por José Jorge Letria, uma homenagem a Timor através de fotografias de crianças timorenses, veio a seguinte mensagem: “neste Natal, com novas perplexidades e angústias mas, simultaneamente, com renovada esperança na vitória dos valores universais do humanismo e da solidariedade entre os povos, é-nos muito grato saudar o grupo de professores portugueses que em terras de Timor-Leste se empenham na nobre e exaltante acção de difusãp da língua portuguesa e reforço dos laços afectivos entre os dois povos irmãos. Separados pela distância que os nossos corações unem, importa nesta quadra expressar-vos o grande orgulho que sentimos pelo exemplo de dedicação, profissionalismo e espírito de missão que estais a dar ao mundo. Numa quadra caracterizada pela partilha de sentimentos como a fraternidade e a amizade, queremos, em nome da comunidade nacional, endereçar-vos um forte abraço de estima e reconhecimento, incentivando-vos a prosseguirem, com renovado empenho, na construção dos alicerces duma união duradoura entre o povo português e

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o povo de Timor-Leste, através da utilização comum da língua e dos valores da lusofonia”. Em Maubisse os professores vivem paredes meias com os nossos militares. As vantagens são evidentes; têm segurança garantida e refeições fornecidas pelo aquartelamento. Trata-se sem dúvida de uma vivência em comunidade muito interessante. O esforço que Portugal está a fazer é de facto muito grande. Timor não deixará de o reconhecer. A aprovação recente pela Assembleia Constituinte da Língua Portuguesa como língua oficial, é uma demonstração clara e inequívoca desse reconhecimento. As instalações da Embaixada de Portugal, gentilmente cedidas pelo Governo de Transição são outra prova. Trata-se de instalações na zona mais nobre de Díli, no Jardim Infante D. Henrique, do lado oposto ao da antiga Intendência e junto à antiga fazenda, ao Palácio do Governo, onde hoje funciona a UNTAET e à ACAIT – Associação Comercial e Agrícola de Timor, onde funciona a Missão Portuguesa, embaixada incluída.

FALANDO DE DÍLI Díli é uma cidade situada entre duas fronteiras naturais; por um lado a montanha, que é necessário vencer por estradas com muitas curvas e desenhadas por entre uma vegetação bastante densa, fazendo lembrar as curvas da antiga estrada do Marão, que tão familiar nos é a nós transmontanos; pelo outro o mar. Iniciemos o nosso passeio partindo do edifício onde se encontra a Missão portuguesa, no Largo Infante D. Henrique. Logo em frente encontra-se o mar onde o navio Timor acostava nas suas longas e rotineiras viagens entre Portugal e a então colónia portuguesa de Timor. Como não fiz tropa não tive a possibilidade de um dia fazer essa viagem que se prolongava por dois longos meses, com paragens em Luanda, Lourenço Marques, agora Maputo e Beira. O navio Timor e as suas viagens, adquiriram uma importância tal que, à época, destronaram o
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dia, o mês e até o ano, na contagem do tempo de estada dos militares portugueses de então, no cumprimento da sua comissão militar. Como o Timor demorava cerca de dois meses a percorrer o trajecto Portugal-Timor, que se repetia no regresso, a comissão militar tinha a duração de seis barcos, o equivalente a dois longos anos. A estadia do Timor em Díli representava uma revolução completa na cidade. Nesses dias a ACAIP, o Palácio do Governo, contíguo, iluminavam-se, assim como a marginal e as ruas circundantes, beneficiando da energia produzida pelos geradores do barco. Em frente ao local de acostagem encontra-se a sede da ACAIP – Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Timor, fundada em 1952. É-me muito grato ler a placa comemorativa da sua inauguração, que se pode ver quando se sobem as escadas que dão acesso ao primeiro andar. Da lista dos fundadores consta um meu conterrâneo, João do Nascimento Gonçalves, que aqui esteve durante muitos anos desenvolvendo a sua actividade agrícola, na localidade de Maubara, dedicada à produção de café (foto). Seguindo a marginal, para um lado encontramos, depois de percorrer algumas centenas de metros, a igreja de Motael, nome muito popular pois está muito ligada a tudo quanto aconteceu durante a ocupação dos indonésios e, por um facto muito positivo e que nos deixa muito satisfeitos, que é o de a missa ser dita em português. Se caminharmos em sentido contrário encontramos adiante a casa do Bispo D. Ximenes Belo onde, todos os Domingos, muita gente se junta para dar cumprimento às suas obrigações de católico. Mais adiante, visível desde muito longe, encontra-se o monumento ao Cristo Rei, feito pelo governo indonésio possivelmente com o objectivo de acalmar os timorenses que, em grande maioria, professam a religião católica. Em Timor todos os edifícios, públicos ou privados, ligados a interesses indonésios, foram destruídos. Esta acção destruidora deve-se, por um lado aos militares indonésios e às milícias e por outro àqueles cidadãos
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indonésios que nunca conseguiram identificar-se com o povo timorense e a sua cultura tendo, em consequência, regressado às suas terras de origem, a Ilha de Java na maior parte dos casos. Quando passei pela primeira vez junto ao Hotel Makota, onde apenas as paredes se mantêm de pé, pois todo o seu interior foi destruído, vieram-me à memória as terríveis imagens de violência extrema, que ali ocorreram, perante a passividade das autoridades indonésias, e que nos chegaram através das cadeias de televisão. Podia falar de outros locais onde homens praticaram actos de extrema violência que nos obrigam a reflectir. Os homens muitas vezes têm comportamentos que não se podem admitir. É necessário que todos contribuamos para que não voltem a acontecer, em Timor ou em qualquer outra parte do mundo.

O povo timorense, simpático e hospitaleiro, merece que lhe sejam dadas condições que lhe permitam caminhar para o futuro com a dignidade devida a qualquer ser humano. Aqueles que, de algum modo, contribuem para isso,

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ou seja, que convivem com realidades como as de Timor, passam a dar muito mais valor às comodidades de que dispõem quando confrontados com situações de grande precariedade. Basta falar com timorenses ligados à igreja ou a outras instituições de carácter humanitário para se concluir que aquilo que nós consideramos falta de condições, não são nada quando comparadas com a realidade da vida de um povo como o de Timor. Como já referi, no edifício da ACAIP, em frente à antiga manutenção militar, funciona a Missão portuguesa, o Instituto Camões, a Embaixada e os Adidos de Portugal em Timor. Os docentes da FUP, onde eu me incluo, também partilham estas instalações. É aqui que preparamos a nossa actividade docente e daqui partimos para ministrar as aulas na Universidade, localizada muito perto. Todos os dias cumprimos o mesmo ritual. Se me permitem vou aproveitar esta conversa que tenho com os leitores para falar da actividade paralela, que sempre desempenho com muito prazer, que me é devida pelo facto de ter o privilégio e a honra de pertencer ao Rotary Clube de Vila Real. A exemplo do que tenho feito quando me desloco no âmbito da minha actividade profissional, uma das primeiras acções que desenvolvi quando aqui cheguei foi saber se haveria algum Clube Rotary em Díli. Até à data todas as indicações que tenho conduzem a que não haja. No entanto já tive a oportunidade de ver uma carrinha com o símbolo da Rotary International Foundation. Este facto deixou-me muito satisfeito porque significa que os Clubes Rotários de todo o mundo estão a contribuir para que o futuro do povo de Timor seja melhor. Na última quinta feira esteve de visita ao Rotary Clube de Vila Real o nosso Governador. Sei que tudo correu muito bem. Está de parabéns o nosso Clube. Aproveito para, daqui bem longe, saudar todos os companheiros, na pessoa do nosso Presidente, companheiro Manuel Sanfins. Aproveito também para lembrar a todos os leitores que, a exemplo do que tem ocorrido nos últimos anos, o Rotary Clube de Vila Real, através das esposas dos seus membros, está na FERVIR, que decorre até ao dia 9, sensibilizando os visitantes da feira a
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serem solidários para com aqueles que necessitam de ajuda lembrando a todos o lema do rotário: dar de si antes de pensar em si. Os fundos recolhidos destinam-se à APAV – Associação de Apoio à Vítima, à APPC – Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral e à Liga dos Amigos do Hospital, todas elas instituições que desenvolvem a sua actividade em Vila Real. Estou confiante em que os leitores não ficarão indiferentes.

REGRESSO A TIMOR Cá me encontro de novo em Timor a dar a minha contribuição ao país mais jovem do Mundo. Mesmo sendo uma viagem longa, com paragens em Londres, Singapura e Darwin, a expectativa de ver a evolução que houve desde fins de Dezembro até hoje, ameniza todos os incómodos que essas paragens constituem. Como primeiras impressões vê-se que alguma coisa aconteceu durante estes seis meses. As ruas e avenidas de Díli foram melhoradas. Em todas elas foi colocada uma camada de alcatrão que reduziu consideravelmente o número de buracos e fez com que a circulação automóvel se faça com mais segurança. O Hotel Makota(foto), destruído no período de guerra civil após o referendo, foi recuperado e aí está de novo pronto a receber quem visitar Timor. A restauração foi alargada com o aparecimento de novos restaurantes permitindo assim uma maior e mais seleccionada escolha. Os efectivos das Nações Unidas diminuíram num número apreciável e restituíram à situação de desempregados alguns milhares de timorenses. As consequências de carácter social que esta situação implica, facilmente se podem avaliar. São de um alcance dramático em países com o nível de pobreza como Timor. Muitas famílias que durante os últimos 2 anos tiveram um nível de vida ainda que baixo no conceito ocidental, elevado no contexto da região e ainda mais no contexto timorense, vêem-se privadas do garante da sua sobrevivência. As autoridades timorenses sabem que este e outros problemas necessitam de
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resolução rápida e, estou certo, têm competência para procurar soluções que amenizem o seu impacto. Estes são apenas alguns dos problemas com que inevitavelmente serão confrontados durante o tempo que demorarão a percorrer o caminho que os levará à condição de um país que saiba dignificar os seus cidadãos. Foi para mim muito gratificante rever os alunos do Curso de Engenharia Electrotécnica com que iniciei a minha experiência de colaboração docente com Timor. O domínio que neste momento já têm da língua portuguesa permite que o diálogo nas aulas já seja possível sem a presença de intérprete. Este facto é resultante da conjugação do esforço que os alunos fizeram nos últimos meses para se tornarem autónomos ao nível da língua e da actuação dos professores de português muito bem “comandados” pela Adida para a Educação, Drª Maria José. Portugal deve orgulhar-se daquilo que tem feito para que Timor se consolide como país livre e justo que, certamente, os seus governantes pretendem que venha a ser no futuro.

Estar longe não é estar ausente. As novas tecnologias permitem que o longe se torne perto. Para que isso aconteça é decisiva a contribuição da televisão. A circunstância de me encontrar tão longe de casa obriga-me, enquanto cidadão responsável, a dizer algumas palavras sobre um tema
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que constitui uma preocupação de todos os portugueses, quer se encontrem dentro quer fora do país. O serviço público de televisão. A RTP Internacional constitui para os portugueses que estão fora, um elo de ligação muito forte com a cultura e o desenrolar do dia a dia no nosso país. Tudo o que seja feito para a preservar e até alargar, em termos de programação, a sua intervenção, nunca é demais. Espero que os nossos governantes saibam encontrar soluções que tenham em conta a nossa cultura, a nossa identidade, a nossa história, os nossos costumes, etc. Se assim for estou certo de que terão o reconhecimento de todos os que, dentro ou fora de Portugal, a consideram indispensável ao desenrolar das suas vidas. Acresce a isto o facto de servir de veículo de propagação da nossa língua nos países de língua oficial portuguesa. Em Timor, onde os representantes dos governantes indonésios tudo fizeram para a erradicar, ainda mais importante se torna. Termino esperando que a nossa selecção no próximo jogo com a Coreia tenha um comportamento positivo para dar alegrias a todos nós que muito vibramos com os seus feitos.

VISITA À COSTA LESTE O passar do tempo faz aumentar as saudades. Para amenizar as suas consequências não há nada melhor que estar ocupado em permanência. É isso que eu faço. O dia começa sempre pelas oito horas da manhã e desenrola-se ininterruptamente: são as aulas, os elementos de estudo para os alunos, as crónicas da energia, os muitos e variados trabalhos que me impus fazer enquanto estou por cá, etc. O que resta á aproveitado para conhecer melhor Timor e as suas gentes. Fiz, no fim-de-semana, uma deslocação ao extremo nordeste, concretamente à Ilha de Jaco. Trata-se de uma pequena ilha não habitada mas com praias de grande qualidade, com a água límpida e as areias muito finas, onde se podem encontrar conchas que são autenticas obras primas da natureza quer pela sua raridade quer
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pela sua beleza. O acesso à ilha é feito por barco demorando cerca de 10 minutos para percorrer a distância entre a praia, a 8 quilómetros de Tutuala, e a ilha. É um lugar que recomendo vivamente a quem tiver o privilégio de aqui se deslocar, quer a gozar férias quer em missão de cooperação com Timor. Os amantes do mergulho têm aqui em Timor locais magníficos para fazerem aquilo que muito, certamente, gostam: mergulhar em águas puras e com uma variedade grande de peixes, espécies raras algumas delas, exóticos e coloridos quase todos. Desde Díli a Tutuala são cerca de cinco horas de distância. A estrada até Baucau é bastante boa. O mesmo acontece na grande parte do trajecto até Los Palos. A estrada acompanha o mar durante grande parte do trajecto e está em qualidade aceitável. A vegetação é linda e variada. Cabras e búfalos, uns e outros indispensáveis à vida dos timorenses, podem observar-se em grande quantidade. Neste trimestre há uma contribuição extra e muito importante na ocupação do tempo: o futebol. Apesar da desgraça que foi a nossa participação no mundial, tem sido uma ajuda suplementar para que o tempo voe. Assisti, com vários colegas cooperantes, primeiro no Restaurante D. Aleixo e depois no recuperado Hotel Makota, agora Hotel Timor, aos jogos de Portugal. Tudo começou com uma desilusão, passou por um momento de euforia e terminou com uma grande fracasso. Refiro-me aos três jogos de Portugal: derrota com os Estados Unidos, vitória com a Polónia e derrota com a Coreia. Como em cada um de nós há um treinador, direi que não compreendo como é que uma equipa com a categoria e as aspirações da nossa, começa o jogo remetendo-se à defesa. Assim não se podem ganhar jogos. Assim não se dão alegrias aos portugueses que tanto orgulho têm na sua selecção. Antes do jogo com a Polónia comparecemos à recepção oferecida pelo nosso Embaixador nos jardins da embaixada. Foi um momento muito agradável. Grande parte dos cooperantes portugueses estiveram presentes
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o que permitiu trocar impressões com muitos deles, rever alguns que já não via há algum tempo e conhecer outros que entretanto vão chegando. Como convidados especiais estava o Presidente da República de Timor, Xanana Gusmão e outras individualidades timorenses. O nosso embaixador usou da palavra para lembrar a todos o significado que o dia 10 de Junho tem na história de Portugal. Interveio também Xanana Gusmão para realçar o orgulho que representou para ele associar-se às comemorações deste dia e agradecer a Portugal tudo o que tem feito para que Timor construa com segurança o seu futuro. Como bom desportista que é, fez votos para que, no jogo a que todos a seguir íamos assistir, a nossa equipa nos desse uma grande alegria para assim culminarem em beleza as comemorações do dia de Portugal. Terminada a recepção, de imediato todos desapareceram. Inevitavelmente todos se dirigiram para os locais onde habitualmente se encontram os cooperantes e que já referi acima. Em qualquer destes locais se vibrou com as peripécias do jogo. Os nossos jogadores portaram-se muito bem. Embora não fazendo um grande jogo, souberam aproveitar as oportunidades que tiveram e brindaram-se com uma vitória expressiva. Não podíamos terminar melhor o dia 10 de Junho.

GERTIL: O SEU PAPEL NA RECONSTRUÇÃO DE TIMOR Decorre a terceira semana de permanência em Timor. Afastada a nossa selecção, o interesse pelo mundial diminuiu. Continua, no entanto, a ser parte importante na ocupação do tempo. A circunstância de a nossa selecção estar ausente permite ver os jogos com a isenção necessária e suficiente para desfrutar da beleza que o futebol encerra. A participação em actividades de carácter cultural e técnico são uma boa oportunidade para se tomar conhecimento da realidade de Timor. Dando sequência a esta ideia, assisti a duas palestras apresentadas pelo GERTIL – Grupo de Estudos para a Reconstrução de Timor Leste, em que foram apresentadas algumas das
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ideias que este grupo pensou para Timor. A primeira, aliás muito interessante, versou o tema “Do trabalho ao salário”. Embora seja um tema sem sentido para nós, para países como Timor, onde nem sempre a trabalho está associado salário, é uma realidade. É premente criar condições para que esta situação se altere para que a trabalho esteja sempre associado um salário. Em Timor cerca de 75% das pessoas vivem em condições de extrema pobreza. Dessas, cerca de 80%, sobrevivem com cerca de meio dólar por dia. Há então que procurar soluções que aproveitem o saber e as ferramentas existentes para que, muito rapidamente e sem grandes investimentos, se possa dar a quem trabalha o justo salário. É necessário quebrar o ciclo vicioso da pobreza – baixo rendimento, baixa poupança, baixa produtividade, baixo investimento. Aumentar a produtividade pode constituir uma boa solução para quebrar este ciclo e passar para o ciclo de desenvolvimento. Como Timor está a nascer como país independente, aquilo que são grandes desvantagens podem transformar-se em vantagens importantes. Parte do zero. Com pequenas medidas de gestão, sem recorrer à formação profissional, podem ser criadas condições que melhorem a produtividade e consequentemente o rendimento das pessoas que implicará um incremento na sua qualidade de vida. A associação entre vários artesãos é uma hipótese que pode ajudar a consegui-lo. Pode tirar-se partido daquilo que foram os erros cometidos por outros nas mesmas condições. Como ilustração o GERTIL apresentou o desenho de uma cadeira e uma mesa para salas de aula. Seguindo uma estratégia muito interessante e original, para mim a mais adequada, a cadeia e a mesa foram o resultado de contactos com os carpinteiros de Baucau, durante cerca de um mês. Foi tido em conta o saber, as ferramentas utilizadas e o ritmo de trabalho de cada um. Além disso, este estudo teve outra vertente muito importante: alertar para o facto de ser necessário preservar a floresta, altamente debilitada, e sugerir formas de trabalho em associação.
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No seguimento desta, realizou-se outra sobre “Os recursos naturais de Timor”. No que aos produtos agrícolas diz respeito, existem aqui óptimas condições para fazer culturas biológicas pois o uso fertilizantes e/ou herbicidas é praticamente nulo. Esta circunstância pode aumentar significativamente o rendimento dos timorenses e, em consequência, o do estado, que assim terá mais recursos para investir em infra-estruturas que tão necessárias são. Torna-se necessário tomar medidas no sentido de melhorar as sementes utilizadas para que a qualidade dos produtos aumente. Mais uma vez Portugal está a prestar uma ajuda preciosa. A quinta Portugal, em Ailéu, está a desenvolver um trabalho experimental, digno de realce. Várias espécies agrícolas e florestais estão a ser estudadas no sentido de melhorar a qualidade dos produtos e dar indicações sobre os métodos mais apropriados para o conseguir.

Os recursos energéticos foram também objecto de análise. Sendo uma área que me é muito querida, fiz uma pequena intervenção onde dei a minha opinião sobre aquilo que poderá ser o futuro energético de Timor. A solução actual, recurso aos geradores alimentados a gasóleo, é uma má solução por dois motivos: polui o ambiente e desequilibra a balança de pagamentos do país. É um facto que as alternativas não são muitas: a hidroelectricidade poderia ser uma delas. Tem, no entanto, dois inconvenientes – 1º o
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assoreamento das barragens que é extremamente rápido, devido à constituição do solo; 2º a orografia do terreno que dificultaria muito o traçado das linhas de transmissão de energia. Outra pode ser a energia solar. Há radiação solar suficiente. O consumidor não é muito exigente em termos de consumo, ou seja, a potência a instalar em cada habitação seria de valor muito baixo. Poderia ser instalado um painel solar com a respectiva bateria de acumulação de energia, em cada uma. Quanto à energia eólica seria necessário primeiro um estudo de medição da velocidade do vento. Locais com condições parece que há. No entanto esbarra-se aqui com o problema da dificuldade no estabelecimento do traçado das linhas. Esta dificuldade “empurra-nos” para soluções que contemplem abastecimento à muito pequena escala ou então individual. Há que agir depressa e procurar a/as solução (ões) mais adequadas. Os governantes certamente que o farão.

ACTIVIDADE CULTURAL EM DÍLI A actividade cultural em Díli é muito intensa e variada. Nos últimos dias decorreram duas conferências organizadas, uma pela Universidade de Díli “Os Descobrimentos portugueses e a história de Timor” proferida pelo Professor José Matoso, historiador português bem conhecido. Uma das ideias que retive foi aquela de que os “descobrimentos não são sinónimo de colonialismo”. Mais uma vez aqui se constata que as ideias e os actos muitas vezes são aproveitados para fins que não têm nada a ver com os fins que quem os idealizou e levou à prática tinha em vista. Sem dúvida que quando se associa o colonialismo aos descobrimentos se está a cometer grande injustiça a quem, certamente, nunca teve o colonialismo como meta. No entanto muitos se aproveitaram das facilidades concedidas pelo conhecimento de novas terras, novas gentes e, muito importante, novas matérias primas.
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Novo evento cultural aconteceu 24 e 25 no Centro Juvenil Padre António Vieira, inaugurado em Dezembro pelo então Ministro José Lelo. O tema principal era “Ao timorense meu amigo – Ruy Cinatti e Timor”. Assisti ao primeiro mas ao segundo apenas assisti à parte final. As aulas e o teste de avaliação da disciplina de que me responsabilizei não me permitiram assistir a toda a conferência, com muita pena minha. No entanto, pelo relato feito por quem esteve presente, pelos textos que foram distribuídos e pelo período de tempo em que estive presente, é-me possível transmitir aos leitores alguns dos episódios relatados por pessoas que, de algum modo, a ele estiveram ligadas.

Rui Cinatti foi “uma personalidade fascinante e autor obra de vulto no panorama da cultura portuguesa contemporânea”, palavras que um dos oradores da conferência, o Padre Peter Stilwell escreveu na sua tese de doutoramento que intitulou “A condição Humana de Rui Cinatti”. Relatou alguns episódios da vida de Cinatti e realçou a sua personalidade, temperamental mas de grande generosidade, que lhe permitiu ganhar a consideração e a amizade de muitos timorenses. Na sua intervenção ficou128

me na retina o seguinte: a forma arredondada das casas, encimadas por telhado de colo, parte da tradição e cultura dos timorenses, foram substituídas, indiscriminadamente, por casas com telhado em chapa de zinco. Esta atitude é reveladora do desprezo a que os governantes indonésios votaram Timor e as suas gentes. Cinatti dizia que se tinha apaixonado por Timor, “Timor prendeu-me com cadeias de ferro”. Sem dúvida que o seu legado é a prova real de que foi uma paixão por si assumida em todas as suas consequências. Outro dos oradores foi Jacinto Tinoco(foto), filho do antigo Administrador Tinoco, que falou sobre as relações entre o seu pai e Rui Cinatti. Recordou as longas conversas que mantiveram, fruto de uma sólida amizade que desenvolveram entre si durante os vários anos de convivência. Muitas dessas conversas tinham por tema a censura, – Rui Cinatti convictamente contra e o Administrador Tinoco, em situação difícil devido à sua condição de funcionário do estado, sempre desculpando e minimizando os seus efeitos. Um dia, ao serão, o Jacinto escutou, de ouvido encostado à porta, uma conversa entre o pai e Cinatti em que este dizia em tom solene – desculpas a censura mas por causa dela não podes ler o Crime do Padre Amaro, do Eça de Queiroz, autor de que tu tanto gostas. No dia seguinte o Jacinto foi à biblioteca do liceu procurar o livro. Tendo-o encontrado, levou-o consigo. Descoberto o “roubo” seguiu-se a sentença natural – a expulsão do Liceu. Um dado muito interessante que lhes posso dar é que parte da família do Jacinto Tinoco vive na nossa cidade de Vila Real. Tive oportunidade de conhecê-lo na minha primeira vinda, tendo-me oferecido um exemplar do Boletim editado pela Associação Cultural de que faz parte. Nesta minha segunda vinda já tive oportunidade de com ele trocar algumas impressões numa das conferências de que falei na semana passada. Estas breves referências a ele e a seu pai, são uma pequena homenagem que eu lhe presto, pois, com a sua atenuação exemplar, dignifica também a terra dos seus antepassados.
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ENCONTRO COM O REITOR DA UNTL Do programa da estadia dos docentes da FUP em Timor, neste quarto trimestre, fez parte uma reunião com o Reitor da UNTL – Universidade Nacional de Timor Lorosae, Professor Doutor Benjamim Corte Real, com os decanos de departamento e com o representante da FUP, Dr. Ângelo Ferreira. Tratou-se de uma reunião informal onde, além de ser uma boa oportunidade para conhecer o representante máximo da UNTL, os docentes tiveram também a oportunidade de relatar as suas experiências de leccionação em Timor. As dificuldades apresentadas pelos alunos e realçadas pelos docentes são muito parecidas com as que os alunos das nossas universidades têm. Acresce, contudo, o facto de se tratar de alunos para quem a língua mãe é outra que não a portuguesa. Sem dúvida que este facto constitui o maior handicap para estes alunos.

As aulas de português que, em paralelo tem havido, são, sem qualquer dúvida, importantes ainda que não suficientes para colmatar essa falha. Talvez uma maior adequabilidade, do programa de língua portuguesa que
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lhes é ensinado, às circunstâncias de se tratar de alunos para quem esta é uma língua nova, seja suficiente para ultrapassar este problema. A edição de um manual de língua portuguesa adaptado à realidade timorense, feito por alguém que conheça a realidade cultural de Timor, pode constituir uma boa solução. O Senhor Reitor interveio várias vezes, quase sempre no sentido de procurar as soluções mais adequadas para que os problemas se vão esbatendo e os alunos possam sair bem formados quer técnica quer culturalmente para assim poderem ajudar a sua terra a caminhar no sentido do progresso sem descurar o aspecto cultural e humano. No final seguiu-se um jantar convívio que serviu para todos nós saborearmos alguns dos pratos da cozinha timorense. Sem dúvida que esta iniciativa constituiu uma oportunidade única para cimentar o bom relacionamento que, inequivocamente, existe entre a UNTL, na pessoa do seu Reitor e Decanos de Departamento, e a FUP. A este encontro sucedeu um outro evento onde a cultura foi rainha. Refiro-me à festa que decorreu no dia 1 de Julho, intitulada “Festa dos Sentidos: palavra, música & dança”, organizada pelo curso de Formação de Professores de Português, sob a responsabilidade da Drº Maia Elisa, professora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, com o apoio do Instituto Camões, da UNTL e da FUP. Sem dúvida que as vedetas da festa foram os alunos que, juntamente com alguns docentes, declamaram poemas de autores bem conhecidos entre os quais destacaria Fernando Sylvan, Jorge Lautem, João Pedro Mésseder, Álvaro Magalhães, Vinicius de Morais, Manuel Rui e Sofia de Mello Breiner Andresen. Sem dúvida que cantando e declamando também se aprende a falar português. Foi muito interessante ver como é que os timorenses se empenham para aprenderem a língua que querem que seja também sua. No Domingo, dia 30, participei com alguns colegas portugueses numa festa popular que decorreu na magnífica praia de Liquiçá. Assistimos à exibição de grupos de danças tradicionais. Em algumas delas era fácil reconhecer a influência do nosso folclore, nomeadamente o algarvio. As danças tiveram
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como palco a terra e como tecto as folhas de uma enorme árvore que pendiam dos seus longos ramos. De entre as várias danças destaco a “Dança de emancipação das mulheres” de Baucau. Não podendo manifestarse por palavras contra a opressão que os maridos sobre elas exerciam, faziam-no utilizando a dança e o batuque. Foi muito lindo de se ver. A festa terminou com um almoço típico: água de coco, arroz em canas de bambu, cabrito no espeto, etc. Esta festa teve lugar de destaque, cerca de dez minutos, nas notícias da televisão local. Pergunto-me se não deveria ter começado por falar na motivação principal da minha ida a esta festa. Não tem que ver com lazer mas tem que ver, isso sim, com acontecimentos tristes, mesmo dramáticos, que vi e muitos de vós também viram, na televisão. Tratou-se do massacre da igreja de Liquiçá. No seu interior, onde se tinham refugiado, fugindo da actuação de pessoas de maus instintos, foram assassinados dezenas de homens, mulheres e crianças timorenses que tinham em comum o amor à sua terra, aos seus costumes, à sua cultura, à sua religião. Li há dias no Diário de Notícias um relato sobre o julgamento de pessoas ligadas a este acontecimento. O Procurador concluiu que houve a participação de pelo menos doze soldados e dois polícias. Já que não é possível trazer à vida os que então morreram, ao menos que se faça justiça e se punam os responsáveis.

VISITA AO PADRE JOÃO FELGUEIRAS O encontro com o Padre Jesuíta João Felgueiras, natural das Caldas das Taipas, Guimarães, estava marcado para as 16 horas na nova residência dos Jesuítas em Díli. A expectativa era grande pois constituía a oportunidade de me encontrar com uma pessoa que já conhecia dos meios de comunicação social portugueses, intimamente ligado à evolução de Timor desde 1974. Aqui chegou em 1971 e hoje, com os seus 81 anos, mostra uma boa forma física e uma capacidade intelectual dignas de realce. Feitas as apresentações
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de circunstância, o Padre Felgueiras relatou-nos alguns acontecimentos trágicos, acontecidos após as eleições, como seja o assassínio de dois sacerdotes jesuítas, um de origem alemã e outro de origem indonésia. Personalidade culta, de um jesuíta não é de esperar outra coisa, apresentando um grande vigor físico e uma pujança intelectual digna de registo, correspondeu à imagem que dele tinha, depois de ter ouvido alguns dos seus pensamentos expressos na televisão e rádio em Portugal O convite teve como objectivo participarmos num encontro com mais de 20 senhoras timorenses que ensinavam nas escolas primárias em Díli e em outros pontos de Timor.

O Padre Felgueiras interveio explicando qual a importância que a nossa presença na reunião poderia ter no sentido de cimentar as relações entre uns e outros de modo a rentabilizar a nossa presença em Timor. A sua intervenção, simples mas de grande alcance, permitiu-nos imaginar o quanto pessoas como ele, são responsáveis pela dignificação de povos que, como o de Timor, tanto têm sofrido, não só fisicamente mas também culturalmente. Retive uma afirmação sua que considero de um alcance
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muito grande: “a cultura triplica o valor humano de qualquer pessoa”. Ora o que aconteceu durante a invasão indonésia foi, entre outras coisas, a aculturação dos timorenses quer não lhes dando condições de acederem à cultura quer proibindo-os de exteriorizar os seus sentimentos e os seus hábitos culturais. Dando consequência ao espírito evangelizador e à capacidade que os Jesuítas têm para espalhar cultura, o Padre Felgueiras pôs em marcha, em 1988-89 uma iniciativa que, pelas suas palavras, ultrapassa hoje as expectativas de então. Trata-se de um FACSI – Fundo de Ajuda Caritativa Social da Companhia de Jesus – COMUNIDADE AMIGOS DE JESUS. Estes projectos são uma forma de o Superior Geral da Companhia de Jesus atender e ajudar alguns trabalhos especiais, quase sempre orientados por Jesuítas. O que ele orienta tem tido como objectivo principal a formação de jovens timorenses. Desde a sua fundação já beneficiaram deste fundo cerca de 3000 jovens o que, num universo como o de Timor, assume um significado muito grande. Neste momento há jovens licenciados, oriundos de todas as partes de Timor, que beneficiaram de bolsas que cobriam, muitas vezes, a totalidade das despesas nas instituições de Ensino Superior ou Politécnico. Do ponto de vista histórico é interessante recordar que, um século atrás, os Jesuítas tiveram um projecto de desenvolvimento para as missões de Timor, sedeado em Soibada, interior de Timor Leste. A obra do Padre Felgueiras tem ainda em funcionamento uma escola do ensino básico, frequentada por cerca de 450 alunos com 35 professoras. A constatação, depois destes cerca de 10 anos de acção, é de que o ambiente de familiaridade criado entre a obra e os seus beneficiários ultrapassa muito aquilo que era à partida um sonho. Criou-se uma sincera e salutar amizade entre centenas de jovens e crianças. Foi muito gratificante participar neste encontro com as voluntárias da Comunidade Amigos de Jesus do Padre Felgueiras. Deu-se a feliz coincidência de, durante o nosso encontro, se fazer a despedida da
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professora Liliana, natural de Barcelos, que terminava um curso de Formação às professoras da Comunidade. Não foi para mim qualquer surpresa o grau de profunda amizade que transpareceu no momento em que se fez a despedida. Acontece com muita frequência, fruto, em minha opinião, da grande afinidade que o povo timorense tem com o povo português. Não creio que entre professores de outras nacionalidades e os timorenses isso aconteça. Como homenagem ao Padre Felgueiras e à amizade entre a Liliana e as senhoras professoras da Comunidade, apresento um excerto de um poema escrito e lido pela professora Maria Luísa Corte-Real. Reza assim: professora diz-me porque deixaste a tua terra natal, deixaste a tua escola, diz-me professora porquê; professora diz-me porque deixaste os teus queridos pais para vires para Timor, diz-me professora porquê; eu sei professora eu sei porquê. Vieste com uma nobre missão ao serviço de um país irmão. Já sei professora, já sei porquê; porque um dever te chama porque o teu coração palpita por uns irmãos que sofreram a guerra, por um Timor que por ti grita”. Assim termino.

O PADRE ALBERTO RICARDO No âmbito da disciplina de Cultura e Línguas Timorenses, do Curso de Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas, ministrado na Universidade de Díli em parceria com o Instituto Camões, assisti a uma conferência do Padre Alberto Ricardo, antigo pároco de Motael (foto) e actual Reitor do Seminário Maior de Fatumeta – Díli. Em boa hora resolvi deslocar-me ao antigo Liceu Francisco Machado, pois esta conferência constituiu um dos momentos mais importantes da minha estadia, permitindo-me incrementar os meus conhecimentos sobre a grandeza e a importância que a língua tetum, a par da língua portuguesa, teve na união de um povo em torno da sua história. O Padre Alberto Ricardo foi um grande resistente aos intentos dos indonésios que passavam por introduzir a língua indonésia nos hábitos
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religiosos dos timorenses. Sempre se opôs a esta pretensão lutando sempre para que a missa fosse rezada em tetum e não em língua indonésia. Em 1989 era pároco de Motael e todos os comandantes militares indonésios o conheciam bem – faziam-lhe frequentes visitas para comprovar se de facto a língua utilizada na missa era a indonésia ou a tetum. É claro que esta posição contrária aos interesses indonésios lhe trouxe alguns dissabores. Considerou que o tetum é a língua materna do povo timorense pelo que tudo o que seja feito para a expandir e divulgar deve ser apoiado. O tetum já vem de há longos anos. Já em 1885 a 1889 um missionário português fez um catecismo e um dicionário em tetum. Muito interessante é a opinião do orador de que tanto a língua tetum como o povo timorense têm uma origem da qual pouco se sabe. Apenas se sabe que já em 1970 o Bispo D. José Rebelo, com a ajuda de seminaristas timorenses em Fátima, tentaram traduzir a bíblia de português para tetum. Foi então que se rezaram as primeiras missas em tetum. No entanto, com a revolução em Portugal, todo o cenário que se começava a construir no sentido de dar a esta língua o relevo que ela merecia, foi posto em causa.

Em 1975 passou-se a uma nova realidade política, com a invasão de Timor pela Indonésia, seguida da imposição do wasa como língua oficial. A partir
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daqui o tetum passou a estar em risco de desaparecer. Ciente do seu dever, a igreja decidiu fazer frente ao invasor e a todas as consequências que essa sua posição acarretou. Tudo fez para desenvolver o tetum, havendo mesmo um grupo de sacerdotes timorenses que dedicaram parte do seu tempo a fazer um missal para rezar a missa, acção aprovada pelo Vaticano. Viria a ser a igreja a ter um papel decisivo na resistência e posterior incremento desta língua que hoje, a par do português, é língua oficial de Timor. Na segunda visita a Díli, na década de 80, o Núncio Apostólico de Jacarta, participou, com alguns padres timorenses, incluindo o Padre Alberto Ricardo, numa missa em Díli. Minutos antes de dar início à cerimónia, virou-se para o Padre Ricardo e disse-lhe: Padre Ricardo, em Timor a missa tem que ser rezada em tetum quer as autoridades indonésias gostem quer não gostem. Assim aconteceu. perante a estupefacção dos indonésios presentes e o regozijo dos timorenses. A partir deste dia o tetum passou a ser considerado como língua oficial da igreja timorense. Aquando da visita do Papa, muitos portugueses criticaram a sua atitude de não beijar o solo timorense, considerando-se assim como uma atitude de reconhecimento da soberania de Timor Leste pela Indonésia. Isso não acontece com os timorenses. A “contrapartida” que dele receberam teve, para eles, um valor e um significado muito superior. Na preparação da visita papal os representantes oficiais indonésios querem que a missa seja rezada em wasa, língua oficial indonésia. Os timorenses querem que seja rezada em tetum. Um mês antes da visita, a Irmã Domingas, de Ermera, deslocouse a Roma, a pedido do Papa, onde lhe deu aulas de tetum. A expectativa era grande aquando da primeira missa que rezou em Timor Leste, em Tacitolo, perto de Díli. Para alegria dos timorenses o Papa iniciou a missa em

tetum perfeito. Foi o delírio de todos os timorenses presentes. Foi uma
espécie de declaração deste como língua oficial da liturgia católica em Timor. Durante os 24 anos de resistência depressa suplantou a língua

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indonésia, ensinada à força. O resultado desta política está à vista. De um modo geral os timorenses não morrem de amores pelos indonésios. No dizer do Padre Ricardo, a língua é a rampa de lançamento para desenvolver entre as pessoas outros laços de amizade. “É preciso convencer as pessoas de que o tetum é a sua língua, Timor Leste é dos timorenses e a independência também. Que identifica o verdadeiro timorense. Em boa hora o governo decidiu que as línguas oficiais são o português e o tetum. É imperioso aperfeiçoar estas duas línguas”. No final falou o Professor Doutor Benjamim Corte ReaL, Reitor da Universidade de Díli. Considerou o orador como um prestigiado estudioso e um homem com uma visão de futuro sobre Timor. Curiosa foi a afirmação de que, em sua opinião, se tratou de uma “aula de estratégia militar em que a igreja desempenhou o papel do General, comandando os timorenses na defesa do tetum, na identidade de Timor e na resistência ao invasor”

DE NOVO EM FATUMACA A exemplo do que aconteceu na primeira vez que aqui estive, desloquei-me a Fatumaca, a uma das casas dos salesianos em Timor. Trata-se de uma instituição que, por certo, todos conhecem, desenvolvendo a sua actividade nos vários cantos do mundo. Para lá chegar passa-se por Baucau e, alguns quilómetros depois, na estrada para Viqueque, em desvio para a direita, chega-se a Fatumaca. Local aprazível, com grande actividade, onde funciona uma escola técnica, muito bem apetrechada, um seminário e uma casa de noviciado. Na estrada que dá acesso às instalações pode ver-se, à direita, a gruta com Nossa Senhora e à esquerda, o monumento oferecido pelos antigos salesianos de Portugal(foto). Além de matar saudades, levava como incumbência uma proposta para a entrada da escola numa rede de escolas técnicas de língua portuguesa.

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Oxalá se concretize esta pretensão, encomendada pelo meu amigo Eng. Castro Vide, relações internacionais do INEGI, Porto. Na impossibilidade de deslocação do Decano de Electrotecnia, Eng. Inácio, fui acompanhado por três jovens colegas da UNTL, os Eng.ºs Constâncio, Gabriel e Adalfredo. Foi uma viagem muito agradável e, acima de tudo, muito importante para mim pois permitiu-me conhecer algumas peripécias que aconteceram desde o dia 12 de Novembro de 1999, relatadas por alguns dos principais protagonistas, os meus colegas de viagem. Ao Engº Constâncio já lhe conhecia a sua veia de homem extremamente empenhado na causa de Timor. A admiração e estima que por ele nutria incrementaram-se significativamente. Foi ele que, sete dias após o 12 de Novembro, massacre de Santa Cruz, organizou, a 19, a primeira manifestação de timorenses a estudar nas universidades indonésias. Não foi fácil, pois partilhava a residência universitária com vários estudantes indonésios. Para evitar que estes soubessem o que se passava, comunicavam em Tetum e aumentavam o volume do seu transístor. Reuniram cerca de 70 estudantes naquele que foi o primeiro abanão na política de Suharto para Timor Leste. Conseguiu escapar à polícia indonésia, o mesmo não acontecendo com os restantes, que foram condenados por períodos que foram de 15 dias a 10 anos. A esta manifestação seguiram-se outras das quais sempre escapava, pois tinha um feeling no momento certo que lhe dizia para fugir. Invariavelmente, passados alguns instantes, a polícia aparecia. Dizia ele que era o São Gabriel Arcanjo que o protegia e o levava debaixo das suas asas. Nunca foi preso, estando no entanto, sempre na linha da frente. A vida destes três colegas e companheiros de viagem começou no longínquo ano de 1975, logo após a invasão de Timor pela Indonésia. A exemplo do que aconteceu com muita gente, alguns relativamente jovens, como é o seu caso, fugiram para as montanhas para esclarecer, politicamente, s pessoas. O local de paragem variava muito. Durante cerca de quatro anos, até 1979, aí se mantiveram. Abandonaram a montanha na
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convicção de que as pessoas a partir daí estavam preparadas para resistir, em todos os aspectos, à investida dos indonésios. Pelo presente parece-me que a sua tarefa foi coroada de êxito. Típico de regimes de ditadura é o facto de serem banidos dos cargos públicos, ou ser vedado o acesso a eles, a pessoas com determinados apelidos. Qualquer timorense de apelido Belo, Gusmão ou Lobato era eliminado em qualquer concurso de instituições do estado. É claro que, astuto como é, e na ausência de bilhete de identidade, o povo timorense depressa se encarregou de eliminar esses apelidos.

Em Fatumaca tive o prazer de rever o Diácono Baltazar, natural de Genísio, Miranda do Douro, a passar férias em Portugal. Está em Timor há cerca de trinta e um anos. Tive também oportunidade de cumprimentar o Irmão Carlo Gambina, italiano de Torino, bem como o Irmão Marçal Lopes. No regresso a Díli passámos pela terra natal do Bispo Ximenes Belo, Bukoli, onde ainda se pode ver a estrutura de um antigo colégio onde ensinou seu pai. Era também natural desta terra Vicente Reis Sáhe, professor de Xanana Gusmão e que, certamente, teve influência na sua formação, vincadamente democrata e humanista. Em jeito de ilustração relato um pequeno mas significativo episódio, bem demonstrativo da grandeza que caracteriza o
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Presidente Xanana. Na companhia de um colega cruzámo-nos com ele quando saía da casa onde se vai instalar a sede da Associação dos Antigos resistentes. Ao entrar para a viatura esboçou um sorriso franco e familiar parecendo que éramos amigos de longa data.

VISITA A AINARO E AO RAMELAU Foi aquilo a que se chama um fim-de-semana bem passado. Sábado pela manhã saímos de Díli, tendo como destino final o Monte Ramelau. Aileu foi a primeira paragem. O monumento aos mártires do massacre perpetrado pelos militares japoneses aquando da invasão de Timor na 2ª Guerra Mundial, constituiu o primeiro momento de descontracção. Trata-se de um monumento recentemente restaurado pelas tropas portuguesas a prestar serviço em Timor. É formado por várias campas dedicadas a militares e civis portugueses que então aí se encontravam. Seguindo em direcção ao destino traçado surgiu, uma hora depois, Maubisse, onde é obrigatória uma paragem na praça principal para visitar o monumento de homenagem ao Régulo Fonseca Benevides também sacrificado pelo amor a Portugal, claramente traduzido pela placa aí colocada aí colocada e onde se pode ler: por Portugal contra o invasor. Uma subida à Pousada tem que fazer parte de qualquer roteiro turístico que englobe esta cidade. Trata-se de uma estrutura hoteleira instalada num antigo posto administrativo do tempo da administração portuguesa. De lá pode ver-se, a toda a volta, a encosta serpenteada por casas típicas timorenses metidas entre as árvores de várias espécies. É sem dúvida um local onde se pode descansar e onde se sente uma paz interior dificilmente traduzível por palavras. Como é costume, e pela segunda vez, inscrevi o meu nome no livro posto à disposição dos visitantes. Foi aberto pelo representante das Nações Unidas, Sérgio Vieira de Melo, e nele muitas pessoas famosas, como o jornalista australiano Max Stall, deixaram a sua mensagem que, maioritariamente, destacam a beleza e
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a sua privilegiada localização. A curiosidade natural levou-me a desfolhar o livro. Ocupando uma folha inteira e, possivelmente impulsionado pela raiva que lhe ia no seu interior, alguém escreveu: ao meu pai barbaramente assassinado neste local no ano de 1975. A viagem seguiu em direcção a Ainaro. A exemplo do que acontece com quase todas as localidades timorenses, fica numa planície com montes em volta. Sem dúvida que é das localidades de que mais gostei. As razões não serão devido à sua beleza natural ou ao facto de ser bem arejada e com as ruas bem desenhadas e enquadradas. Foi aqui que nasceu o Régulo Aleixo Corte Real, sem dúvida uma das pessoas mais importantes e carismáticas de Timor. Foi executado pelos japoneses, com vários elementos da sua família e com outros cidadãos portugueses, entre os quais dois padres católicos. A não abdicação do estatuto de cidadão português e a recusa de submissão ao exército japonês foram os pecados que justificaram a sua execução. Portugal prestou-lhe uma justa e merecida homenagem erigindo um monumento em sua memória, instalado na zona central da cidade

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Ainaro é uma cidade em crescimento, beneficiando da existência do Pré Seminário São Luís Gonzaga, onde os candidatos a padres começam a sua preparação. Muito interessante é a capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima (foto), construída em 1951, aquando da visita a Timor, da sua imagem. A paisagem desde Maubisse até Ainaro é deslumbrante. Lembra muito as paisagens da Suiça ou Áustria. A estrada, a exemplo de quase todas as outras de Timor, é bastante sinuosa e tem que ser percorrida com a máxima atenção. A beleza compensa o esforço e os abanões a que se está sujeito. Antes de chegar a Maubisse, vindo de Ainaro, é necessário virar à esquerda, seguindo por uma estrada por onde só de jipe se pode circular. Os cerca de 18 km até à pousada de Hato Builico, demoram uma hora e trinta minutos o que dá uma média de 2,5 km por hora. A estrada desenvolve-se toda em altitudes entre 1850 m e 2100 m. Passa por várias aldeias onde a actividade agrícola é muito favorecida pelas qualidades naturais do solo e pela abundante água que corre pelos vários ribeiros existentes. A subida ao pico do Ramelau deve ser feita à noite, com consequente dormida lá no alto, ou então muito cedo. A ideia é assistir ao nascer do sol, a cerca de 2880 m. O local de estacionamento do jipe está a cerca de 650m do pico. Antes de começar a subida parece uma tarefa muito fácil. Ao fim de uma hora de caminhada muitos daqueles que, como eu, não dedicam parte do seu tempo ao exercício físico, depressa chegam à conclusão que a tarefa da subida afinal é muito difícil e complicada. A mim só me restou a opção de desistir e fazer, num futuro próximo e depois de uns tempos de treino, uma nova tentativa. Mesmo assim pude desfrutar de uma panorâmica simplesmente deslumbrante que a vista alcança. O meu insucesso foi compensado pelas novas tecnologias que me “puseram” no alto mesmo sem lá chegar.

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JUNHO/JULHO – 2003 CORRESPONDÊNCIA DE TIMOR

REUNIÃO NO ROTARY CLUB DE DÍLI Como é que os nossos antepassados conseguiram chegar a terras tão longínquas como Timor? Faz todo o sentido pôr esta questão e render homenagem a mais este feito dos portugueses. Com os meios de transporte de que hoje dispomos são cerca de 22 a 23 horas de permanência no interior do avião. Se juntarmos o tempo passado no aeroporto podemos contar que de 27 a 28 horas não nos livramos. A tudo isto acresce a diferença de fusos horários e a viagem percorre duas noites. Saindo Sexta ao princípio da tarde chegar-se-á a Díli, na hipótese mais rápida, no Domingo pelas 9 ou 10 horas da manhã. Como a minha viagem foi feita por Sidney teve o acréscimo de mais 8 horas no interior do avião. Chegado a Díli, depois dos procedimentos alfandegários normais, com a novidade do pagamento de um visto, passei, sem grandes demoras, os vários passos legais e depressa me encontrei no hall fronteiro à porta de saída. Dili não mudou muito desde há um ano para cá. As diferenças situam-se, essencialmente, nos edifícios que foram destruídos em Dezembro passado. De resto está tudo na mesma. Nota-se um ambiente muito calmo, indiciador de que se pode desenvolver a actividade da docência com calma e com confiança de que tudo correrá bem. Neste primeiro contacto, para lá destas primeiras impressões, vou dedicar a minha atenção à minha qualidade de elemento do Rotary Clube de Vila Real. Mandam os preceitos rotários que qualquer membro de um clube pode (deve?) comparecer às reuniões de outro clube em qualquer país do mundo onde se encontre. Sabedor, desde há algum tempo, da formação do clube de Díli, depressa tentei saber onde eram feitas as reuniões semanais. Depois
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de consultar o hotel Timor dirigi-me, por indicação de alguém deste, ao hotel Turismo, junto à marginal e logo depois da casa do Bispo D. Ximenes Belo, quando caminhamos do centro de Dili em direcção ao Cristo Rei.

Pelas 18H30m cheguei ao hotel onde, desde logo, notei a presença de um companheiro brasileiro que, depois de com ele entabular conversa, soube ser do Rotary Clube de Ipanema, Rio de Janeiro, Osvaldo Raimundo de seu nome. Como a língua preponderante era o inglês facilmente me familiarizei com ele e com o companheiro Câncio, um dos três timorenses do clube. A reunião foi muito interessante e decorreu, apesar de se tratar de um clube jovem, de acordo com as normas próprias do movimento rotário. É muito gratificante constatar que pertencer a este movimento ajuda a transpor muitas barreiras. O espírito de solidariedade torna-se muito importante, diria que, muitas vezes, decisivo, para nos ajudar a vencer a saudade de todos os que nos são queridos. Ocupei um lugar entre os dois companheiros de língua portuguesa, o brasileiro e o timorense, muito perto da companheira que presidiu à reunião, a vice-presidente em substituição do presidente, ausente em Sidney, na Convenção Rotária Mundial. Após a apresentação rotária foi-me oferecida uma flâmula do Rotary Clube de Díli que, no meu regresso, entregarei ao presidente do meu clube. O companheiro Osvaldo
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Raimundo, com o calor humano que caracteriza qualquer cidadão do país irmão, entregou-me, como homenagem ao nosso encontro e ao Clube de Vila Real, um poema que a seguir transcrevo: Timor, Timor, quando voltarei Se nem sei se irei ou se voltarei.... Longe de tudo, perto de ti, cá estou Timor. Vivendo tua vida, de novo, teu povo, os gemidos, heróicos gemidos, de teus mortos da resistência e o canto lindo, lindo canto de teus filhos cantantes e amigos. Timor, Timor quanto tempo demorei para conhecer-te e o mundo estava inerte e omisso diante da tua dor e do teu chorar distante. Agora cantas ó Timor, enquanto ouvindo o teu canto, curto uma saudade imensa do meu Brasil e a tristeza antecipada, já agora, por te deixar mais uma vez, chorando por ti Timor, Timor, Timor, por te deixar Timor! A transcrição deste poema é, também, uma homenagem, bem merecida, que eu presto ao Rotary Clube de Ipanema, na pessoa do Óscar. Termino com satisfação acrescida pelo facto de ter recebido a visita de alguns companheiros de Portugal, entre os quais o companheiro Manuel Cardona e esposa. A minha presença no aeroporto foi, para eles, motivo de grande alegria. O movimento rotário permite estes encontros em terras tão distantes mas que muito dizem a todos nós portugueses.

O ROTARY CLUB DE JARNAC EM VILA REAL Fui surpreendido, já em Timor, pela realização de um cerimónia realizada no passado dia 30 de Maio no Rotary Clube de Vila Real, aquando da visita do Clube de Jarnac, França, Clube gémeo do de Vila Real. Como nessa ocasião fui alvo de uma homenagem gostava de, com a permissão de quem me lê, a ela dedicar alguns parágrafos desta minha escrita semanal e feita de tão longe.
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Logo após a minha entrada no movimento rotário, já lá vão 3 anos, tive a sorte de ser incumbido da tarefa de fazer a ligação com o Clube de Jarnac no sentido de levar a cabo a realização de um projecto, muito interessante e ambicioso, que consistia na implementação de infra-estruturas para práticas desportivas num bairro de Maputo, na paróquia do Bom Pastor, em terreno cedido pelos Salesianos. Os primeiros contactos a partir de Jarnac foram feitos por um companheiro, Bruno Martin, que desde logo vi tratar-se de uma pessoa muito dinâmica, determinada, persistente e de trato extremamente correcto e afável. Como devem imaginar a minha tarefa ficou desde logo facilitada. A pedido do Bruno Martin fiz os primeiros contactos em Maputo com a Veronique, cooperante francesa de uma organização não governamental, no sentido de o clube de Maputo ser nosso parceiro local. Por impossibilidade deste, escolhemos o Clube da Matola, que logo agarrou a ideia com toda a determinação.

A sua aprovação pela Rotary Foundation, há cerca de um mês, deixou-nos a todos muito satisfeitos, por podermos dar consequência aos objectivos do movimento rotário, ser solidário e ajudar quem precisa. Com este projecto, que o companheiro Bruno Martin gostaria que estivesse pronto antes da época das chuvas em Moçambique, muitos jovens passam a ter condições

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mínimas para praticar desporto e assim ocuparem os seus tempos livres da melhor maneira. Para nós, Rotary Clube de Vila Real, este projecto é ainda mais gratificante porque a pessoa de contacto em Maputo é o Padre José Duro, natural do concelho de Vila Real. A sua implementação só é possível graças ao empenho de outros clubes portugueses (Algés, Póvoa de Varzim, Vila da Feira, Guimarães, Figueira da Foz) e de França (Angouleme, Jonzac, Nord-Blayais L’Isle Jourdain). Por cumprir, na opinião do meu companheiro e, porque não, amigo, Bruno Martin, os meus deveres de rotário, fui feito Membre d’Honeur do seu clube, Rotary Clube de Jarnac. Esta distinção dá-me mais força para me empenhar ainda mais naquilo que tenho feito. Tudo farei para honrá-la. Daqui para o futuro, tudo o que fizer, sê-lo-á, também, em nome deste que passará também a ser o meu clube. Espero que todos os companheiros de Jarnac se tenham sentido em Vila Real como em sua casa. Tive muita pena não estar presente. A presença da minha esposa foi, certamente, uma demonstração do meu respeito e da minha gratidão por este acto. Em seu nome e em meu próprio, agradeço a todos esta homenagem, sobre a qual falo porque a considero também como homenagem ao Rotary Clube de Vil Real, que tem vindo a dar passos firmes no sentido de, por um lado, honrar o seu passado e por outro, tornar-se cada vez mais útil aos mais desfavorecidos, através das acções que tem levado a cabo ano após ano. Daqui de longe dou os meus parabéns a todos quantos fazem parte deste clube, na pessoa do seu Presidente, Fernando Martins. O crescente dinamismo que tem caracterizado a actuação do clube nos últimos anos, demonstra que tem havido uma correcta filosofia de admissão de novos membros e, ao mesmo tempo, um melhor aproveitamento das capacidades de cada um.

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RAÍZES DE TIMOR – EVENTO CULTURAL EM DÍLI No dia 25 de Junho, a RDP – Rádio Difusão Portuguesa, secção de Díli, organizou, em conjunto com a INDE – Intercooperaçao e Desenvolvimento, um evento cultural que denominou de “Raízes de Timor”. A RDP tem desempenhado um papel muito importante no consolidar da cooperação que Portugal tem tido com Timor. Se há quem duvide da importância do estatuto de serviço publico que lhe é atribuído, que venha a Timor e acompanhe tudo o que nesta linda e longínqua terra tem feito. Tenho tido o privilégio de acompanhar os seus passos, firmes e convictos, desde Novembro de 2001, ainda que com grandes intervalos pelo meio, e posso testemunhar quão importante é para quem está longe da sua casa e dos que lhe são mais queridos, existir um elo de ligação como a RDP tem sido aqui. Aproveitando a estadia de muitos professores portugueses tem, desde há algum tempo, um programa diário, das 10H00 às 12H00, de Segunda a Sexta Feira, com o sugestivo e forte título de “Conversas em Português”, da autoria das Professoras Ana Olívia e Selma Silva. Todos os dias estas cooperantes portuguesas dão parte do seu tempo à causa da divulgação da língua, da música e dos costumes portugueses. Exemplos destes devem ser divulgados e reconhecer-lhe, dando-lhe consequência, o papel importantíssimo que têm na ajuda aos timorenses para aprender, relembrar ou melhorar a língua que, a par do Tetum, é a língua oficial deste jovem e sofrido país. Não esqueço que uma das várias pessoas que foram entrevistadas durante o evento, Ângela Carrascalão, considerou mesmo que “a língua portuguesa deve ser o veículo que conduzirá os timorenses ao progresso”. António Veladas, conhecedor do Timor profundo e sentido, responsável pela delegação da RDP em Díli e a quem se deve tudo o que esta aqui tem feito, confidenciava-me, com grande alegria, convicção e esperança, que é necessário que “a língua timorense e a língua portuguesa caminhem lado a lado, de mãos dadas”. Assim darão mais força ao povo de Timor para atingir o progresso e o bem-estar.
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Também é de realçar o papel que as ONG – Organizações Não Governamentais Portuguesas, têm tido no implementar da política de cooperação, em meu entender exemplar, que o Estado português tem delineado para Timor, país que hoje está tão perto de nós ao contrário do que acontecia em tempos longínquos. A atestar isto está a observação que há dias uma cidadã australiana, ligada à Caritas, me fez quando, passando pelo City Café, lhe disse que era ali que muitos portugueses se encontram para conversar e matar saudades de Portugal. Secamente disse-me que agora se vêem muitos, ao contrário de outros tempos. Mais vale tarde que nunca. Hoje a cooperação que Portugal está a desenvolver deve orgulhar qualquer português. Dando consequência aos objectivos que tem em vista, a INDE tem desenvolvido vários trabalhos em Timor sendo este, divulgação do folclore timorense, um deles.

As actuações dos grupos folclóricos começaram bem cedo, pelas oito horas, no hall exterior da sede de Díli da RDP. Vieram de várias localidades timorenses, Bobonaro, Los Palos, Liquiçá e Maubara. Das várias canções e danças a que assisti, durante cerca de quatro horas, juntamente com muitas outras pessoas, com o mesmo entusiasmo desde o início até ao fim, vou destacar algumas ainda que esta escolha seja uma tarefa difícil.
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O grupo de Los Palos cantou e dançou duas canções de um significado profundo para um povo que dá os primeiros passos no sentido da consolidação da independência, do caminho do progresso e da criação de condições de vida digna de todos os seus cidadãos. Uma intitulava-se “canção da independência” e transmitia a mensagem de que “Timor já é um país independente e vamos todos trabalhar para que o seja para sempre”. A outra, “canção da bandeira”, dizia que “a bandeira de Timor já está içada. Vamos todos respeitá-la e vamos olhar para ela com honra e admiração”. Da actuação do grupo de Liquiçá merecem destaque duas canções: boas vindas ao Governador e tarabando. A primeira, talvez aquela que mais fundo me tocou, relata a visita do Governador português de Timor ao Suco (freguesia) e a maneira calorosa como era recebido. As prendas mais variadas eram-lhe oferecidas. A mama, massa que se faz na boca mastigando folhas de betel, um pedaço de areca e um pouco de cal, tinha presença assegurada. A outra canção, tarabando, é um chamamento à conservação do meio ambiente. Fala da proibição de colher frutos fora de tempo e da necessidade de tratar bem todas as árvores e plantas. A cultura e o folclore de Timor são tão ricos que continuaríamos desfilando canções e danças em páginas sucessivas de palavras, mais ou menos rebuscadas, sem esgotarmos o rol. Vou terminar por hoje referindo uma outra dança do grupo de Los Palos que muito nos diz, a nós, rotários portugueses. Trata-se de uma canção sobre a construção das casas tradicionais de Los Palos. Nela se apela à unidade, pois cantando se junta gente e em conjunto se fazem mais e melhores casas. Um fio azul ao qual todos se agarram, simboliza a união de todos na prossecução do objectivo que é a construção da casa. Para os meus leitores direi que o movimento rotário português, no dia 7 de Junho, inaugurou duas destas casas tradicionais completamente recuperadas com dinheiro angariado em Portugal.
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PRIMEIRA VISITA AO MAC – MOVIMENTO DE ADOLESCENTES E CRIANÇAS

Plante sementes de amor é o lema do movimento rotário para este ano. Tão
importante como plantar sementes é criar condições para que aquelas que já nasceram germinem com vigor suficiente para enfrentar as dificuldades que a vida lhes colocará no dia a dia. Vem isto a propósito do trabalho que as Irmãs Elliene e Francisca, brasileiras de nascimento, tem desenvolvido em Timor desde há dois anos e meio para cá. Ambas pertencem à Congregação das Irmãs Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário de Monteils. São trabalhos em áreas distintas: formação profissional de técnicos timorenses e ocupação dos tempos livres das crianças. Aquando do nosso encontro no Rotary Clube de Díli, o companheiro de Ipanema Osvaldo teve a feliz ideia de me sugerir que me inteirasse do trabalho que elas estão a desenvolver. Foi o que fiz. Numa primeira visita de imediato vislumbrei o alcance enorme, do ponto de vista social, do trabalho que as Irmãs desenvolvem. Visitei as instalações onde a Irmã Francisca pretende pôr em prática as suas ideias: ministrar em simultâneo 4 cursos de formação profissional, com a duração de cinco meses cada um. As áreas cobertas são a panificação, a costura, a computação e a electricidade. Dar mais dignidade à vida de algumas famílias é o principal objectivo destes cursos. Que imaginação é necessário ter para, num espaço tão pequeno, implementar ideias de alcance social tão grande. O trabalho desenvolvido pela Irmã Elliene tem como principal objectivo ocupar os tempos livres das crianças e dar-lhes voz para poderem fazer ouvir os seus anseios e as suas mágoas, entre outras o não reconhecimento dos seus direitos. MAC – Grupo Crianças Unidas, Movimento de Adolescentes e Crianças, assim se chama o movimento por ela liderado. Em segunda visita que fiz ao MAC, fui acompanhado da minha amiga Bia, vila-realense tal como eu, que me confessou ter ficado deslumbrada e positivamente surpreendida com a alegria e o entusiasmo com que fomos recebidos por todas as crianças. Depois de uma canção de boas vindas, a
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Irmã Elliene deu a palavra às crianças que, com um ritmo bem célere, nos comunicaram o constante atropelo e o não reconhecimento dos seus direitos. Sem excepção, todas elas exteriorizaram a mágoa que sentem por isso. A começar pelos pais e a acabar nos professores timorenses, todos contribuem para que elas não tenham o tratamento que lhes é devido.

A Clarisse que “quer um Timor melhor, que todos os timorenses sejam unidos e dêem as mãos”; o Natalino que diz que os professores “batem para educar e pergunta se nós concordamos com este tipo de educação”; a Suzete que falou do problema que por vezes invade as famílias quando os pais são de partidos políticos diferentes, situação que se passa em sua casa”; a Paula que pede “para que o governo olhe para as crianças que trabalham na rua, na venda de produtor vários, que ponha as escolas gratuitas para todos”; a Jaquelina que se diz “muito contente com a conquista da independência mas muito triste pela situação de fome que se está a viver, pelas crianças que não vão à escola porque precisam de trabalhar”; a Solange e a Hermínia que falaram do “programa de rádio que todos fazem para a Rádio Timor Leste onde cantam, dançam, fazem entrevistas, etc.”; a Augusta que diz que “as crianças lutam pelos seus
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direitos e que os adultos não as respeitam”; a Mónica que fala na “carta dos seus direitos e que os professores timorenses os castigam por no programa de rádio chamarem à atenção da violência que é exercida sobre eles”; o Maximino que agradeceu, em nome de todos, a nossa presença, frisando que “quer aprender connosco e, (porque não?) ensinar-nos tudo o que ele sabe” da vida difícil e madrasta que muitas crianças têm em muitas partes do mundo. A Estefânia, a Júlia, o Avelino e tantos outros que, diariamente, comparecem voluntariamente, com a alegria de quem vai para um local onde os seus direitos lhe são reconhecidos, podem fazer ouvir a sua voz e onde eles são o pólo de todas as atenções da Irmã Elliene e da Cármen, professora portuguesa a trabalhar para o Instituto Camões que, do tempo que rouba aos seus tempos livres, dá apoio na tarefa de ocupar e ensinar a língua portuguesa a todas estas crianças. Tudo isto que lhes estou a contar deve-se à minha condição de membro do Rotary Clube de Vila Real. É nisto que entronca a grandeza destes movimentos. Fazer bem sem olhar a quem, é lema do movimento rotário que tem um alcance universal. Nesse espírito vamos procurar boas vontades no sentido de arranjar padrinhos para estas crianças. As responsabilidades são as inerentes ao papel de padrinho nomeadamente assegurar a frequência da escola. A contrapartida é enorme: o amor de crianças que muito têm para dar.

VISITA À ESCOLA AMIGOS DE JESUS A Escola de Santo Inácio, Amigos de Jesus, não dirá muito aqueles que me lêem. No entanto se lhes disser que se trata da escola do Padre João Felgueiras a situação, por certo, se altera. Quem não conhece este padre jesuíta que, apesar dos seus oitenta e tal anos de idade, mantém uma lucidez de espírito e uma fluência no pensamento que provoca inveja a muitos? E a sua obra em Timor? Desde há 32 anos, começando em Soibada,
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luta pela dignificação dos timorenses, dando-lhes oportunidades de se apetrecharem cultural e tecnicamente, através da criação de bolsas que já permitiram que, sem exagero, alguns milhares de rapazes e raparigas estudassem, para assim poderem ter melhores condições de vida na companhia dos seus familiares. Com muito gosto visitei esta escola, cuja existência conhecia desde o ano passado. Trata-se de instalações provisórias que, tão depressa quanto o Padre Felgueiras consiga reunir os meios financeiros necessários, passará a funcionar em terreno contíguo à casa dos jesuítas, já adquirido para o efeito e com projecto de arquitectura aprovado. A minha visita, na companhia da colega Fátima, bem conhecedora das iniciativas do Padre Joao Felgueiras, provocou, naturalmente, o alvoroço de toda a pequenada. Comentava a minha colega que “os miúdos são iguais em todo o lado”: a mesmo vivacidade, o mesmo entusiasmo, o mesmo olhar penetrante e denunciador das privacidades que muitos passam, mas também da esperança num futuro melhor. A escola actual é composta por 6 salas, construídas em madeira, abertas lateralmente, com todos os inconvenientes que isso implica a começar pela falta de privacidade de alunos e professoras. Em cada turma há entre 30 e 40 alunos que vêm, diariamente, dos vários bairros de Díli. O terreno é cedido gratuitamente por um cidadão a viver na Austrália. Num país onde o ensino não é ainda gratuito, muitas destas crianças não teriam a oportunidade de aprender a ler e a escrever se não existissem escolas como esta. Além da tarefa de ensinar, aqui aprendem os seus direitos que, como já mais de uma vez escrevi, são constantemente atropelados. Tem 20 Professoras, 12 a trabalhar exclusivamente aqui, num regime denominado de voluntariado, e 9 são professoras do estado. A directora é a Professora Maria de Fátima Corte Real, professora do Ensino Oficial. Este é um requisito a que as escolas particulares têm que obedecer para poderem funcionar: a Directora tem que ser professora do Ensino Oficial.
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Está estabelecido um funcionamento por turnos, um entre as 7H30m e as 10H30m, para o 1º e 2º Ciclo, outro entre as 7H30m e as 12H30m, para o 6º Ano e, finalmente, um terceiro entre as 10H30m e as 15H00m

As Senhoras Professoras contavam-nos, com a satisfação do dever cumprido bem estampada no rosto, que os seus alunos, nas provas finais já realizadas, obtiveram muito boas classificações destacando-se o Português e a Religião e Moral. Aliás o Português foi a disciplina onde os resultados foram melhores ao nível das várias escolas de Díli. A escola de Santo Inácio representa a capacidade empreendedora das instituições religiosas que, a par de outras, substituem o estado, mais vezes que o desejável, naquilo que é uma obrigação deste, consequência do direito que todos os cidadãos têm a levar uma vida com dignidade. Aquando da visita tive oportunidade de ver as várias salas de aula onde decorriam algumas actividades, próprias de um final de ano lectivo e, portanto, já desenvolvidas com a descompressão natural de quem cumpriu o seu dever. Assim, não espanta que numa das salas os alunos estivessem cantando uma canção que, por me parecer

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interessante, a seguir transcrevo: A escola tem mais encanto; Na hora da despedida; E por lhe queremos tanto; Nunca mais será esquecida Só restam dela saudades; E as doces recordações; E esta tão grande amizade; Cá dentro dos corações Assim termino esta conversa convosco. Desde aqui bem longe de Portugal, onde o Padre Felgueiras se encontra a recuperar forças, lhe envio uma saudação muito especial pois, conhecendo tudo o que tem feito por Timor e pela preservação da língua portuguesa nestas paragens, nunca é demais felicitá-lo embora saiba que tudo o que ele faz por Timor o faz com alegria e prazer.

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JANEIRO/FEVEREIRO – 2006 CORRESPONDÊNCIA DE TIMOR

CORRESPONDÊNCIA DE TIMOR Mais uma vez me encontro em Timor a falar com os leitores de A Voz de Trás-os-Montes. Depois de uma viagem atribulada que começou com um atraso de um dia, na partida do Porto, devido a avaria no avião e culminou com o atraso das malas, aqui me encontro de novo num espírito de missão. Pode parecer excessivo, nos tempos em que o egoísmo faz parte do dia a dia de muitos, chamar missão a esta minha colaboração. No entanto devo dizer que assim é. Timor e os timorenses precisam muito da cooperação de todos, muito em especial dos portugueses. Não nos esqueçamos que a nossa presença nestas terras do sol nascente vem de há algumas centenas de anos. É certo que deixámos algumas marcas da nossa presença, mas é legítimo questionar-nos se teríamos feito tudo o que era nossa obrigação. Sendo Timor uma nação que tem tanto de jovem como de pobre, é com muito agrado que leio nos jornais locais e ouço na televisão o regozijo das autoridades timorenses no acordo que estabeleceram com a Austrália no que ao petróleo diz respeito. Oxalá Deus ilumine a consciência dos actuais e futuros governantes para que sejam todo os timorenses a beneficiar dessa riqueza natural com que Ele próprio os brindou. Experiências noutros países não são muito encorajadoras no que a essas expectativas respeita. Infelizmente há muitos exemplos, maus no meu ponto de vista, que aconselham muita prudência. Faço votos que em Timor sejam todos a tirar proveito dessa riqueza de modo a que a qualidade de vida dos timorenses melhore significativamente para podermos ver as pessoas a viverem com a dignidade a que qualquer ser humano tem direito. Acabado de chegar já deu para notar alguma diferença. O edifício na esquina da praceta João Soares, bem junto à universidade, foi objecto de
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uma intervenção e está agora ocupado pelo Museu da Resistência. Logo que o visite reservar-lhe-ei algumas palavras num próximo texto.

A FUP - Fundação das Universidades Portuguesas, em parceria com a UNTL – Universidade Nacional de Timor Leste, arrancou este ano lectivo com o curso de Direito. A exemplo do que se passa com os outros cursos já no terreno, este é leccionado por docentes vindos de Portugal e decorre no âmbito da cooperação portuguesa. O seu arranque deu-se no dia 16 pela manhã, pelo que não tive oportunidade de assistir à sessão solene de abertura. Tive muito pena porque teria sido uma óptima oportunidade para conviver com algumas das personalidades timorenses mais conhecidas, incluindo ministros, secretários de estado, o Presidente Xanana Gusmão e muitos outros ilustres timorenses incluindo o Professor Benjamim Corte Real, actual Reitor e pessoa com quem tenho um relacionamento bastante cordial. Devo dizer que se tratou de um acontecimento muito badalado aqui em Timor. Se lhes disser que entre os alunos se encontram várias personalidades do meio político e social de Timor, como um ministro, o presidente da Assembleia Nacional e muitos outros, facilmente compreendem que este acto tivesse despertado tanta atenção. O que

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moverá tais pessoas a “correr” para um curso superior de direito? Estou certo de que muitas delas pensam apenas na sua valorização pessoal e na possibilidade de ter novas oportunidades a outros níveis, que agora não têm. A ser assim aplaudo a sua decisão pela coragem e determinação demonstrada pois não é fácil, com a vida mais ou menos estável, tomar decisões destas. Uma informação da qual já tinha conhecimento e que confirmei quando cheguei foi a de que 200 estudantes timorenses foram estudar medicina para Cuba, onde permanecerão sete anos, pelo menos. Oxalá tudo corra bem e de acordo com as expectativas que eles e as respectivas famílias têm. Oxalá nunca se arrependam desta decisão, que me parece de risco elevado. Na próxima semana prometo regressar ao vosso convívio.

RTP INTERNACIONAL Um dos hobies temporários que tenho enquanto estou em Timor é ver a RTP internacional. Os programas que transmite são, em grande parte, programas da RTP 2, o que dá, desde logo, alguma garantia de que têm algum conteúdo. Há, no entanto, alguns programas que são exclusivos para os portugueses espalhados pelo mundo. É interessante ver o que os nossos antepassados, do século XX e dos finais do século XIX, representaram no contexto do desenvolvimento de alguns países. Vem isto a propósito do Hawai, onde eu não imaginaria o quão importante foi a emigração de portugueses, predominantemente madeirenses e açorianos, nos finais do século XIX, para trabalhar nas plantações da cana do açúcar. Tudo começou quando, o então rei, quis implementar a plantação da cana do açúcar e não tinha trabalhadores especializados para o fazer. Sabedor de que na Madeira já se dominava a técnica da produção do açúcar de cana, resolveu mandar lá um seu enviado para observar como os madeirenses já conseguiam produzir açúcar de cana em qualidade e quantidade. Não foi
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difícil convencer uns tantos a mudarem-se, muitas vezes com a família, para terras havaianas. Por norma iam com contractos de três anos, com viagem e estadia pagas. Aí se encontravam com japoneses, filipinos e outros. De realçar que os portugueses tinham um estatuto mais elevado que todos os outros, pois eram considerados especialistas e eram pagos e tratados como tal. As escolas funcionavam com miúdos de origens várias, mas eram dadas em inglês o que fazia com que em casa eles fossem os professores dos pais, de modo a minorar o grande inconveniente de não falarem todos a mesma língua. Como consequência da presença de tantos portugueses há hoje muitos pratos portugueses que são muito populares no Hawai, assim como os enchidos como a morcela e a linguiça, sem esquecer o pão doce. O facto de muitos destes emigrantes serem católicos fez com que se construíssem igrejas nas localidades onde existiam as plantações o que fez com que passassem a comemorar-se as festas do Espírito Santo. Também na música há muitas influências da nossa presença. A música tradicional hawaiana tem como acompanhamento a braguinha e o cavaquinho, ainda que adaptados à sonoridade e melodia da canção do Hawai que parece ser muito parecida com a nossa. Muitos dos descendentes destes emigrantes vivem hoje no Hawai, perfeitamente integrados na vida do país que acolheu os seus antepassados. Não é por falta de assunto que lhes estou a falar de Timor sobre o Hawai. Apenas lhes quis mostrar como é importante a presença da nossa televisão nas casas dos portugueses espalhados pelo mundo. Aqui em Timor a tarefa de manter viva a língua portuguesa é de todos os dias. A nossa cooperação, com a ajuda do Instituto Camões e da RTP, desenvolve acções que me parecem apropriadas à obtenção desse objectivo. Na RTTL – Rádio e Televisão de Timor-leste passa um programa muito interessante chamado “Conversas em português”. Exemplifica conversas em português retratando situações do dia a dia dos timorenses. Há também o Jornal da Noite, notícias de Timor em língua portuguesa, embora com duração muito curta.
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Parece-me, no entanto, que é um bom ponto de partida para notícias cada vez mais alargadas, com o passar do tempo. A cooperação com países do terceiro mundo como é Timor, é muito baseada em problemas económicos. Se custar dinheiro ao erário público, vingará aquela que menos custar. Vem isto a propósito do que se está a passar com a saúde. Neste momento há algumas centenas de médicos cubanos a exercer a sua actividade em Timor. À parte a competência que seguramente terão, há o problema da língua que, embora parecida, não é a mesma. Em entrevista, em português, ao Jornal Diário, dizia o Vice-Ministro da Saúde(foto) que a cada médico cubano Timor paga 100 dólares. Se for de um outro país terão que pagar-lhe entre dois mil e quatro mil dólares. Resulta evidente para onde “cai” a decisão.

A influência cubana estende-se também ao ensino. Parece que virão algumas centenas de professores cubanos a alfabetizar os timorenses. Sendo o português uma língua oficial, a par do tétum, a tarefa desses professores parece-me difícil pois vão ensinar uma língua que não é a deles. No entanto, as autoridades timorenses estão muito confiantes no êxito
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desta iniciativa pois o Presidente do Parlamento disse, ao Jornal da Noite, que aprovou a proposta pois conhece bem o método cubano de alfabetização e está optimista de que esses professores porão todos os timorenses a falar português em três anos. Ainda que me seja difícil concordar, cá estarei, se Deus quiser, daqui a três anos para ver os resultados. Até para a semana, a partir do país do sol nascente.

O PALÁCIO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA Em quase todas as conversas que tenho com quem me lê, o tema da cooperação está presente. Eu próprio me encontro aqui em Timor no âmbito de um programa de cooperação, neste caso, das universidades portuguesas com a Universidade pública de Timor, da qual já tive oportunidade de falar em conversas anteriores. Para lá da cooperação institucional do governo português, há várias instituições portuguesas que se têm distinguido no apoio a este jovem país. A Câmara Municipal de Lisboa é uma dessas instituições. O resultado da cooperação que, desde 2001 tem tido com Timor, é bem visível quando nos deslocamos pela plana e muito extensa cidade de Díli. A primeira grande intervenção que levou a cabo foi a recuperação do antigo Liceu Francisco Sousa Machado, onde hoje funcionam as Ciências da Educação da UNTL – Universidade nacional de Timor-leste. É um edifício emblemático de Díli, situado bem no centro da cidade e na sua zona nobre. A presença de calceteiros de calçada à portuguesa para ensinar timorenses nessa importante e difícil arte de embelezar espaços públicos, é uma consequência do empenho que os vários presidentes têm posto na ajuda a Timor. Neste momento está em curso aquela que será a intervenção com mais significado político. Trata-se da recuperação do antigo Palácio do Governador, onde residia até ao 25 de Abril o Governador de Timor, autoridade máxima da então
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província portuguesa de Timor. Em relação ao edifício original há algumas alterações nomeadamente no seu interior. A parte que então era uma residência, hoje vai ser um amplo salão para recepções. Tive oportunidade

de o visitar hoje, pois englobei-o na rota do meu passeio de Sábado. Saí bem cedo do hotel onde me encontro instalado, em direcção à montanha, a caminho de Ailéu. Passei pelo antigo matadouro, pelas instalações da UNOTIL – United Nations Office in Timor Leste, pela igreja de Balide seguindo em direcção Lahane, zona muito privilegiada pelo clima, onde antigamente vivia a nata da sociedade timorense e onde estava instalado o hospital de Díli, hoje apenas maternidade. Chegado ao palácio solicitei uma visita às instalações, prontamente concedida e guiada pelo Eng.º Luís Carvalho, responsável pela obra e pelo Arquitecto João Guimarães autor do projecto. Em relação ao primitivo edifício, a intervenção da Câmara de Lisboa vai materializar-se na construção de uma habitação contígua para residência oficial do Presidente da república de Timor-leste, ficando o antigo edifício para as recepções oficiais. Não tenho quaisquer dúvidas em afirmar que se trata de mais um resultado da cooperação portuguesa, que muito

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nos deve honrar. Devo acrescentar que o branco, cor original das paredes do edifício, foi substituído pelo rosa, bem lisboeta e bem portuguesa. A exemplo do que tem acontecido em estadias anteriores, o Reitor da UNTL, Professor Benjamim Corte Real, organizou um jantar de confraternização entre todos os que colaboram com a sua universidade. Lá estivemos todos os docentes da FUP – Fundação das Universidades Portuguesas, os docentes do Instituto Camões e uma representação da Universidade do Minho que aqui se encontrava no âmbito de outro projecto de cooperação. O contingente português era o maior, logo seguido pelo brasileiro, o cubano, o neozelandês e o japonês. É muito interessante constatar a orientação de cada país no que respeita à cooperação. Assim, o Japão está neste momento muito ligado aos cursos de engenharias a funcionar em Hera em instalações destruídas pelos indonésios e reconstruídas por eles. Cuba concentra as suas energias na área da saúde e do ensino. O Brasil tem a sua maior concentração, tal como nós, no ensino da língua portuguesa. A acção de todas estas comunidades tem sido relevante no objectivo de libertar os governantes timorenses para outras tarefas da governação. No exercício diário da medicina feito pelos médicos cubanos, tenho tido referências muito elogiosas em relação ao seu trabalho. A primeira página do jornal em língua portuguesa “Semanário” é disso um exemplo bem elucidativo, ao dizer que “os médicos cubanos trouxeram aos timorenses cuidados de saúde e carinho”. Uma boa contribuição para que o seu trabalho seja reconhecido

TRÊS MISSIONÁRIOS COM OBRA FEITA Já por mais de uma vez realcei o papel que os portugueses desempenharam pelas várias paragens dos quatro cantos do mundo. Hoje vou falar sobre três deles cujo denominador comum é o facto de serem missionários.
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O padre João de Deus Pires (foto) é transmontano, da freguesia de Morais, concelho de Macedo de Cavaleiros. Estudou no Seminário de Mogofores, seguindo depois o trajecto normal de qualquer rapaz que decida ser padre salesiano. É neto de Maria Joaquina Cordeiro e de José Joaquim Pires e está há cerca de quarenta e sete em Timor-Leste, para onde veio passados poucos anos de ser ordenado padre. Tem desenvolvido a sua actividade no apoio aos mais desfavorecidos, especialmente as crianças órfãs da diocese de Baucau, onde tem em actividade o Orfanato de Santa Teresinha, na

localidade de Quelicai e outro em Baguia. Estou particularmente à vontade e feliz por estar a falar-vos sobre este transmontano, por duas razões: a primeira porque o nosso clube, Rotary Club de Vila Real, apoiou o Orfanato de Quelicai com a entrega de um gerador eléctrico e de géneros alimentícios há dois anos; a segunda razão prende-se com os laços familiares que nos unem. O Padre José Martins, é salesiano e está em Timor-Leste desde o longínquo ano de 1975 e tem feito todo o seu percurso por estas terras, lado a lado com o Padre João Felgueiras, bem conhecido de todos vós, pois já várias vezes escrevi sobre ele. Os Padres João de Deus e José Martins foram
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condecorados pelo Presidente da República Portuguesa com as insígnias da Comenda da Ordem de Mérito, em cerimónia realizada na nossa Embaixada em Díli, no passado dia 10 de Fevereiro e presidida pelo nosso Embaixador João Ramos Pinto. Estas condecorações tinham sido atribuídas no passado dia 10 de Junho e foram justificadas pelos serviços que os dois religiosos prestaram "como cidadãos portugueses, a Portugal e ao povo de TimorLeste, no exercício de funções ao serviço da Igreja, do ensino e da assistência social". O terceiro missionário de que vos vou falar é o Padre José Afonso Moreira. Foi ordenado sacerdote a 23 de Dezembro de 1950, em Braga, era Missionário Espiritano e foi assassinado em Angola, no Bailundo, na terra que considerava sua e junto das pessoas a quem dedicou mais de quarenta anos da sua vida. Falo no Padre Moreira porque era natural de Vila Real, era irmão do Dr Armando Moreira, antigo presidente da Câmara e Governador Civil e tio do meu colega e amigo Professor Nuno Moreira. Além disso, apesar de não o conhecer pessoalmente, tive oportunidade de conhecer a sua obra, numa reunião de aniversário do Lions Club de Vila Real, onde foi apresentado um projecto seu, muito interessante e muito útil para as famílias do Bailundo. Tratava-se da angariação de fundos para a compra de enxadas para serem entregues a essas famílias, para melhor poderem tratar das suas pequenas hortas. Ideias tão simples com um alcance social tão grande. Nos países em guerra o dia a dia de muitas pessoas faz-se com pequenos passos como este. O Padre Toni Neves, porta-voz da congregação espiritana lamentou a sua e afirmou que “ o Padre Afonso Moreira era uma referência para todos os que viviam no Bailundo”. A zona onde o Padre Moreira desenvolvia a sua actividade pastoral foi palco dos grandes combates durante a guerra civil angolana que culminaram com a tomada do Andulo e do Bailundo. Nas palavras do director da Rádio Eclesia “era um padre muito amado pelas populações rurais”. Era o pastor de uma comunidade católica de cerca de 58 000 pessoas que muito o
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orgulhava. Após ter terminado a guerra nessa zona, aquando da visita do Embaixador português, já tinha esquecido todas as dificuldades porque tinha passado e apenas pediu canetas, lápis e outro material escolar para os seus alunos. Para os professores pediu um livro de leitura. Com este texto presto a minha homenagem a estes três portugueses cujo trabalho desenvolvido muito nos orgulha a todos nós. À família do Padre Moreira, em especial ao Dr. Armando Moreira e ao Professor Nuno, apresento os meus sentidos pêsames. Que Deus o tenha em descanso.

HOMENAGEM AO PROFESSOR AGOSTINHO DA SILVA No dia do centenário do nascimento do Professor Agostinho da Silva teve lugar no Auditório do antigo Liceu Francisco Sousa Machado, uma sessão comemorativa organizada pelo Professor José Carlos Oliveira e pelo Dr. António Borges, ambos docentes da FUP – Fundação das Universidades Portuguesas e pela Drª Isabel Gaspar, do Instituto Camões, e que foi apoiada por estas instituições e pela UNTL - Universidade Nacional de Timor Leste. Foram oradores o Padre Apolinário Guterres, a Drª Flávia Ba, Directora do Instituto Camões, em Timor e o Dr. António Borges. O primeiro falou sobre o período em que privou com o professor no Vale do Jamor onde, então, prestava apoio aos refugiados timorenses que ali se encontrava, resultado da guerra civil que se instalou em Timor após o 25 de Abril, seguida da invasão levada a cabo pela Indonésia. A Drª Flávia Ba, fez um resumo do curriculum do Professor Agostinho da Silva que nasceu a 16 de Fevereiro de 1906 e faleceu a 3 de Abril de 1994. O Dr. António Borges falou sobre a missão de Portugal nas mensagens de Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Em 1929 doutorou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras do Porto, com a tese “O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas”, após o
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qual partiu para Paris, como bolseiro, para estudar na Sorbonne e no Collége de France. Tratando-se de uma pessoa amante da liberdade em toda a sua extensão, foi afastado de ensino público e obrigado a emigrar para o Brasil, em 1944, tendo estado também no Uruguai e na Argentina. Em 1947 regressa ao Brasil para leccionar na Faculdade Fluminense de Filosofia. Posteriormente vai para docente da Universidade de Paraíba, ajudando a fundar a Universidade de Santa Catarina, onde criou o Centro de estudos Afro-Orientais. Em 1962 colaborou activamente na fundação da Universidade de Brasília e na criação do Centro de Estudos Portugueses. Timor e Macau cruzaram-se com ele no ano de 1963, após uma visita como bolseiro da UNESCO ao Japão.

No contacto directo que com ele manteve o Padre Apolinário, o professor revelou-se uma pessoa simples, conversadora, transparente e amigo. Apresentava o seu pensamento com uma visão ampla e projectada para o futuro. Era um poço de sabedoria no dizer do Padre Barros, de Same. Escrevia regularmente cartas para Timor onde partilhava as suas ideias e os seus pensamentos. O Padre Apolinário formou, em Lisboa, um Centro de
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Cultura timorense, para apoiar e dar oportunidade aos timorenses para conviveram e manterem vivas as suas tradições. O professor Agostinho da Silva solicitou a entrada para o centro, tornando-se seu membro efectivo. Dizia ele que assim já tinha um local onde podia falar e ouvir falar sobre Timor. Como idealista que era, o optimismo fazia parte do seu dia a dia. Já então falava de Timor como se fosse uma nação livre e independente. Na sua opinião Timor seria um ponto de convergência onde se encontrariam os falantes da língua portuguesa e castelhana. No dizer do Padre Apolinário, olhando para a realidade timorense de hoje, o professor tinha razão sobre aquilo que ele achava que seria o futuro de Timor. Faleceu sem concretizar um desejo de sempre: regressar um dia a Timor, ir viver para Tutuala e por lá morrer. Acabou por falecer em Lisboa e não na terra que ele tinha eleito como a sua última morada. O Padre Apolinário oficiou o seu funeral para o cemitério do alto de São João. Dele disse Gilberto Gil, cantor e actual Ministro da Cultura do Brasil, que “sonhava pelo pensamento e pensava pelo sonho”. Era uma personalidade muito controversa pelas suas opiniões e, por isso, amado por muitos, mas criticado por outros. Uma sua antiga aluna, no documentário que sobre ele apresentou a RTP internacional, dizia que nas aulas do professor, eram tratados todos os temas, sem excepção e, muitas vezes, ficavam para trás os temas da disciplina em questão. Com este texto presto a minha homenagem ao professor Agostinho da Silva, que apenas recordo das “Conversas Vadias” que ele protagonizou na Televisão e que tinham como singularidade o facto de não serem objecto de qualquer programação prévia, ou seja, eram feitas de improviso e com temas aleatórios. Para terminar aqui fica um poema seu: Eu não quero ter poder; Mas apenas liberdade; De falar aos do poder; Do que entenda ser verdade.

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VISITA DO DR. JORGE SAMPAIO A TIMOR O texto de hoje vai ser dedicado à visita do nosso Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio. Coincidência ou não, no seu segundo dia em Timor, realizou-se o iudicium académico, uma cerimónia de preparação para a graduação dos alunos, ou seja, para a concessão do grau de licenciado. O Professor Doutor Benjamim Corte Real, Reitor da UNTL – Universidade Nacional de Timor Losae, realçou o papel de Jorge Sampaio no processo que conduziu à independência de Timor e aproveitando a sua presença destacou o papel da nossa cooperação na área do ensino superior consubstanciada na graduação de mais de cem alunos dos cursos ministrados pela FUP – Fundação das Universidades Portuguesas. O Dr. Jorge Sampaio agradeceu à UNTL o convite que lhe foi dirigido para estar presente numa cerimónia com grande significado para Timor pois é a primeira que se realizou desde que Timor se tornou independente. Mostrouse muito sensibilizado pelas palavras que lhe dirigiu o Reitor e mostrou satisfação pelo apoio que a FUP e o Instituto Camões têm prestado na divulgação do português. A recente constituição da Faculdade de Direito da UNTL que arrancou com o curso de Direito ministrado pela FUP no âmbito da cooperação portuguesa, é mais um exemplo do empenho que Portugal tem posto no apoio a Timor. A criação deste curso deu-lhe um prazer a dobrar pelo facto de ser jurista e pelo papel que a aplicação da justiça tem na evolução de qualquer país. Manifestou o seu apreço a todos os portugueses que, com o seu trabalho, têm assegurado o ensino da língua portuguesa Ele que sempre lutou pela instalação da democracia pluralista em Portugal, chamou a atenção de todos para as dificuldades acrescidas na consolidação dos organismos democráticos. Fez um voto de confiança na instalação da democracia em Timor e referiu o papel da comunidade internacional que sempre reconheceu aos timorenses o direito à independência. Disse que Portugal não tem qualquer interesse material nem imperialista em relação a
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Timor. Os timorenses devem decidir livremente o seu destino. É nisso que Portugal se empenha. Aconselhou os responsáveis políticos timorenses a evitar os escolhos provocados pelos conflitos e pela instabilidade consequência, quase sempre, da existência de governos não transparentes.

Enfatizou algumas ideias que podem servir de orientação para a definição das políticas correctas que conduzam à criação de condições que permitam uma vida condigna a todos. É preciso não esquecer que assim como a riqueza gera mais riqueza também a pobreza gera mais pobreza. Também o conceito de desenvolvimento deve estar presente no momento da tomada de decisões que não se resume ao crescimento económico, embora este seja fundamental, mas com instrução e respeito pelas normas da democracia e dos direitos humanos. Aproximam-se tempos de grandes exigências, mas com sabedoria e sentido de responsabilidade as autoridades timorenses saberão ultrapassá-los. A cerimónia terminou com a imposição das insígnias do Grau de Comendador da Ordem de Mérito ao Professor Benjamin Corte Real pela defesa e empenho que tem posto na implantação da língua portuguesa em Timor.
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Da parte da tarde seguiu-se a visita à Escola Portuguesa, após uma passagem pelo cemitério de Santa Cruz onde o Presidente Sampaio depôs uma coroa de flores em homenagem aos mortos de 12 de Novembro de 1999. A Escola portuguesa tem quatro anos de existência, tem vinte e quatro professores portugueses e é frequentada por cerca de quatrocentos alunos, a maioria dos quais é timorense. Tem dado uma grande contribuição para a introdução e consolidação da língua portuguesa em Timor sendo, alas, um dos 3 pilares da cooperação portuguesa. O seu êxito deve-se à dedicação do seu corpo docente e da Subdirectora, a professora Ana Maria Ferreira. Jorge Sampaio considerou-a mesmo um estabelecimento exemplar e felicitou a comunidade educativa que ali exerce a sua actividade docente pela qualidade do trabalho desenvolvido e o esforço que têm posto na implantação da língua portuguesa. Na ocasião o Dr. José Revez, responsável pela cooperação portuguesa em Timor e responsável da Escola Portuguesa, foi agraciado com Grau de Comendador da Ordem de Mérito, premiando o modo como tem desempenhado as tarefas inerentes ao lugar que ocupa. No final da visita houve uma reunião informal com os vários docentes a leccionar em Timor, tendo o Presidente Sampaio aproveitado o momento para realçar publicamente o trabalho que todos têm desenvolvido em Timor em prol da consolidação da língua portuguesa. A visita terminou com uma recepção no Hotel Timor.

DOUTORAMENTO HONORIS CAUSA DE XANANA GUSMÃO A atribuição de doutoramento honoris causa ao Presidente de Timor Leste, Kay Rala Xanana Gusmão foi, pode dizer-se, um acontecimento de âmbito nacional. A presença das autoridades civis, militares e eclesiásticas é disso prova inequívoca. Foi a primeira vez que uma cerimónia destas se realizou neste jovem país, pelo que a importância de que se revestiu foi ainda maior.
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Foi uma cerimónia simples, mas de grande significado para a UNTL – Universidade Nacional de Timor Leste. Apenas estiveram presentes, para lá do laureado, os reitores das duas universidades, a de Takushoku, que concedeu o grau e a UNTL. O Professor Benjamin Corte Real agradeceu a presença de todos num “momento importante para todos os timorenses em geral e para o mundo académico em particular”. O reitor da universidade de Takushoku justificou a atribuição deste elevado grau académico a Xanana Gusmão porque “com a sua liderança destacada conseguiu levar Timor à independência e contribuiu muito para a estabilização da Ásia e para a paz mundial. É imensamente respeitado e estimado em muitos países e contribuiu bastante para o estabelecimento de relações diplomáticas entre o Japão e Timor Leste e promoveu as relações amistosas entre os dois países”. A universidade de Takushoku, já centenária, tem tido sempre como preocupação “formar pessoas capazes de se dedicarem à causa da paz e prosperidade das sociedades internacionais” pelo que o seu reitor referiu “a grande honra em conferir o título de doutor honoris causa a personalidade tão ilustre, homenageando as suas actividades altamente meritórias” estando certo de que com este título “ se tornarão cada vez mais fortes os laços de amizade entre o Japão e Timor”. O Presidente Xanana deu à sua dissertação de doutoramento o título “ Timor-Leste, um jovem estado – o peso do passado e os desafios do futuro”. Começou por realçar que “a construção física de qualquer país depende essencialmente de três factores: um plano concreto e claro de desenvolvimento; recursos humanos habilitados e muito dinheiro”. Quem conhece Timor facilmente conclui da dificuldade imensa que os seus governantes têm tido e continuarão a ter no futuro. Pelo menos os dois últimos factores Timor ainda não tem. O primeiro pode ser que sim. Na opinião de Xanana “a edificação dos pilares da Nação já pressupõe o compromisso político sobre valores democráticos e a participação consciente da sociedade e do povo”. Disse também que “há que perceber o sentimento
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e a reacção da colectividade ou parte dela, há que estudar o pensamento e as atitudes da sociedade ou parte dela, inseridos num contexto temporal capaz, que permita fundamentos lógicos de análise”. Para transmitir as suas ideias, leu a sua dissertação em português e em tétum o que demonstra a importância que dá à língua portuguesa como língua oficial de Timor, e dividiu-a em três partes: a história, a liderança e o poder, a sociedade e o futuro.

Da longa dissertação permito-me destacar alguns pontos que considero os mais importantes. O primeiro é o de que “o estado de Timor é um estado de direito democrático e tem que ser baseado na vontade popular e respeitar a dignidade humana”. A determinada altura referiu-se à confusão que muitos fazem entre ditadura e comunismo que muitas vezes não têm nada em comum. Deu como exemplo o ex-Presidente da Indonésia Suharto que tinha tanto de ditador como de anticomunista. Advertiu para a tentação que muitos têm de “considerarem o partido como algo de sacrossanto que não se pode ofender”. Em Timor, de certo modo, isso passou-se quando esteve sob o domínio indonésio e era, então, considerada a sua 27ª província.

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Alguns que recebiam benesses do partido do poder, veneravam-no e impunham os seus próprios interesses em prejuízo dos interesses do povo. No final da sua intervenção referiu-se ao facto de “a democracia ser um processo mais lento ou menos lento, dependendo isso do esforço de todos”. Oxalá, acrescento eu, que os timorenses saibam canalizar muito do seu saber e do seu trabalho para que Timor se torne um exemplo de um jovem país que atingiu a democracia pelo seu próprio pé. A cerimónia, muito diferente das cerimónias do mesmo tipo a que estamos habituados a ver em Portugal, terminou com a actuação de um grupo musical local que cantou poemas de Xanana, dos quais destacaria o seguinte: Pudesse eu Sentir nos dedos O beijo da espuma e ouvir risos De crianças. Concluída a cerimónia seguiram-se as felicitações ao novo doutor, por todos os presentes. A simplicidade, a simpatia e a boa disposição do Presidente Xanana ficaram aqui bem patentes. Sem dúvida que é um presidente muito querido pelo seu povo.

5º ANIVERSÁRIO DO MAC – CRIANÇAS UNIDAS No passado dia 27 de Fevereiro o MAC – Crianças Unidas completou cinco anos de vida. A Irmã Eliene Damasceno, Dominicana brasileira, lançou as sementes do que hoje é um movimento com provas dadas no acompanhamento de adolescentes e crianças, com predominância originárias de Taibessi, Balide e Bécora. O trabalho desenvolvido por este movimento tem sido muito importante na ocupação dos tempos livres de algumas centenas de adolescentes que, de outro modo, estariam à mercê de muitas solicitações que, muitas vezes, os levam a desviarem-se daqueles que são considerados comportamentos normais. A fundadora do movimento, por razões que têm a ver com as regras de funcionamento da instituição a que pertence, teve que regressar ao Brasil o
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que trouxe, como consequência, a necessidade de fazer alguns ajustes na sua organização e funcionamento. Neste momento asseguram o regular funcionamento algumas pessoas de boa vontade entre as quais destacaria a Professora portuguesa Dulce Barão.

Correspondendo ao convite que me foi formulado, lá compareci nas actuais instalações, na companhia de um colega, também docente da FUP – Fundação das Universidades Portuguesas. A azáfama dos intervenientes da festa já era grande e pressupunha que iríamos assistir a uma festa com a qualidade das que já assistíramos anteriormente. Entre os presentes estavam vários elementos da cooperação do Brasil destacando-se o responsável por essa cooperação, acompanhado da esposa e de outras pessoas que, de um ou de outro modo, colaboram nas actividades do MAC, destacando-se, entre todos, o António Osório, Procurador em Baucau e esposa. A festa teve como apresentadores o Natalino e a Estefânia que, mesmo sem serem profissionais, tudo fizeram para que tudo decorresse como o previsto. O Natalino começou por saudar todos os presentes fazendo, de seguida, um historial do que foi o movimento desde o seu nascimento até
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hoje. Realçou o facto de tudo ter começado só com a Irmã Eliene, alargando-se o número de colaboradores à medida que o trabalho desenvolvido ia dando frutos. As actividades desenvolvidas têm sido as mais variadas destacando-se a dança a psicologia, a rádio, a capoeira, a ginástica, as artes plásticas, o desenho, a pintura e outras. Em nome dos colaboradores falou o António Osório que destacou o papel que o MAC tem desempenhado no acompanhamento de todos os jovens que a ele pertencem. A mim foi-me pedido que falasse em nome dos padrinhos de Portugal e do Rotary Club de Vila Real, que muito os têm ajudado. Destaquei o modo como a Irmã Eliene incutiu nos jovens o espírito de responsabilidade e liderança. Sem dúvida que bastava assistir a esta festa para ver como todos são responsáveis e cientes de que o se desempenho e postura são indispensáveis à credibilização do seu movimento. Em nome dos pais falou a Senhora Filomena, mãe da Suzete que agradeceu a todos os que têm ajudado o MAC, mas destacou a importância que a Irmã Eliene teve na educação e formação de todos os jovens que o frequentaram desde a sua fundação até agora. O Hino nacional de Timor foi a canção que abriu a festa. Seguiram-se outras das quais destacaria duas: a primeira que serviu para homenagear a Irmã Eliene e a segunda para homenagear a Joana que faleceu no passado dia 27 de Dezembro, afogada numa vala a cerca de cem metros de sua casa. Foram dois momentos de grande significado para todos os presentes em especial para a Irmã Eliene e para a mãe da Joana. As duas homenagens tiveram em comum a emoção que se instalou nos presentes, em especial nos que interpretavam as canções. Com um retrato da Irmã Eliene bem agarrado ao coração e à vista de todos cantaram uma canção brasileira das muitas que ela lhes ensinou. No caso da Joana, a canção “Amigos para sempre”, serviu para todos mostrarem que, ainda que ausente fisicamente, a Joana está presente no pensamento de todos. Para mim constituiu um momento de profunda tristeza pois conhecia a Joana
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desde a primeira visita que fiz ao MAC, em Junho de 2002 e era uma das minhas afilhadas. Terminada a intervenção do grupo de danças e cantares seguiu-se um pequeno lanche para todos os presentes. O MAC tem sido um movimento que muito tem feito pela dignificação dos jovens de Díli. Tem desenvolvido actividades que vão desde actuações de dança e música até à gravação de dois DVDs de música. Durante algum tempo tiveram também um programa na Rádio Nacional de Timor Leste onde os direitos das crianças eram o assunto principal. Trata-se de um movimento que deve ser ajudado, mesmo pelas autoridades nacionais timorenses, pois a sua acção muito ajuda as instituições públicas a apoiar os jovens no seu desenvolvimento. A presença do Presidente Xanana na parte final da festa pode considerar-se como o reconhecimento da importância do movimento. Todos os que contribuem com o seu esforço diário para que tudo corra bem, agradecem a sua presença. Termino transcrevendo as palavras que o Presidente deixou no livro de honra: “Muito satisfeito por vir hoje ao Centro do MAC e muito impressionado com as actividades desenvolvidas aqui pelas crianças e pelos pais e Conselheiros que têm participado num regime voluntário e generoso. Dou os parabéns pelo 5º Aniversário do MAC – Crianças Unidas e faço votos de muito boas realizações no futuro. Não me esquecerei de explorar as vias que se apresentarem para dar um apoio mais concreto a esta magnífica iniciativa”.

APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE PAULO BRAGA No dia 2 de Março, às 18H00,no auditório da Fundação Oriente, foi apresentado o livro de José Paulo de Oliveira Braga sobre os anos que passou em Timor, nos já longínquos anos de 1930 a 1932. O meu interesse na publicação deste texto é acrescido pelo facto de o autor ter nascido em
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Vila Real, no dia 29 de Junho de 1905. Frequentou o Liceu Camilo Castelo Branco tendo prosseguido os estudos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Ainda muito novo, em 1931, foi deportado, por razões políticas, pois defendia ideais socialistas, para a então província ultramarina de Timor, onde permaneceu até 1933. Durante a sua estadia forçada em Timor, para conseguir proventos para a sua subsistência, exerceu a profissão de professor do ensino particular. Tratando-se de uma pessoa com cultura acima da média, podendo considerar-se um erudito, facilmente se compreende que a realidade timorense lhe não passasse despercebida. Teve sempre uma atenção especial ao modo de vida e aos costumes dos timorenses pelo que, após o seu regresso a Portugal, entre 1935 e 1937, publicou vários textos a que chamou “Cadernos Coloniais” onde versou vários temas alusivos a Timor destacando-se os aspectos económicos, os políticos e os sociais. Em consequência do seu ideal socialista todos estes textos tiveram que ver com o desenvolvimento de Timor, com o bem estar dos timorenses, pugnando por uma distribuição da riqueza mais justa e equitativa, e pela chamada de atenção para a observância dos direitos políticos de cada um. Nos seus escritos esteve sempre presente a crítica às instituições oficiais e à política administrativa que então vigorava em Timor. O título do livro, da responsabilidade do editor, é bem demonstrativo daquilo que ele pensa sobre Timor. Nada melhor que “País de Sonho e Encantamento” para traduzir o que pensam muitos dos que aqui chegam, em passeio ou em trabalho. Quem aqui vem dificilmente deixará de regressar tal é o chamamento e a atracção que estas paisagens exercem sobre todos. O livro é dividido em cinco capítulos, cada um correspondendo a um Caderno. No primeiro fala sobre “a terra, a gente e os costumes”. Na introdução que fez a este Caderno fala sobre “a mais distante e desconhecida colónia de Portugal”. Os aspectos da vida indígena de então, o
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contraste entre a vida calma e descontraída que aqui se tem quando comparada com a vida ruidosa e conturbada de Portugal. A descrição que faz sobre os bazares (mercados), umas vezes instalados em edifícios, alguns monumentais como é o caso do de Baucau, outras vezes à volta dos gondoeiros(foto), enormes árvores com uma copa com um diâmetro de muitos metros, é bem demonstrativa da importância que tinham no desenrolar da vida dos timorenses. Ainda hoje isso acontece. Basta passar pela marginal de Díli, em frente à antiga intendência em direcção à areia branca, para constatar que ainda hoje se transaccionas as mais diversas mercadorias à sombra dessa árvores.

No Capítulo segundo faz uma síntese da vida timorense. No Capítulo terceiro, a que chamou “nos antípodas” fala sobre as mulheres timorenses, a sua vida, o casamento e o divórcio, as lutas de galos e as árvores que povoam o território. No Capítulo quarto fala da “ilha dos homens nus”, conhecida por Atauro e, também, ilha das cabras.

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O Capítulo quinto dedica-o à descrição da vida e paisagem de Timor, em particular sobre Ermera, terra onde se produz o melhor café de Timor. Terra entre montanhas de onde se avista o pico do Ramelau. Para quem se interessa por Timor tem aqui um bom meio de conhecer mais sobre este jovem país e sobre as suas gentes. O editor desta obra é o Dr. Rui Fonseca que tem dedicado muitos dos seus anos a Timor onde tem desenvolvido uma actividade de cooperação digna de realce. Conheci-o na minha primeira vinda a Timor, em Novembro de 2001. Foi ele que me deu as primeiras informações sobre estas terras, sempre tão longe de Portugal. Talvez por isso quase sempre esquecidas pelo poder instituído em Portugal. A sua atenção permanente e atenta a tudo o que nestas terras se passa, fez com que o Dr. Rui Fonseca tenha editado até hoje vários livros sobre a vida e a história de Timor. O facto de ter estado aqui como militar português nos tempos de administração portuguesa dá-lhe uma visão privilegiada sobre tudo o que aqui se passa. A ele o meu muito obrigado pela oferta que me fez de um exemplar deste livro.

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AGRADECIMENTOS

Com este livro pretendo homenagear o povo de Timor. Desde Novembro de 2001 tenho dedicado parte da minha vida a leccionar em Timor. Tenho-o feito com muito empenho e com a convicção de que é minha obrigação, enquanto cidadão responsável, contribuir para que Timor e os timorenses caminhem com segurança em direcção ao futuro, tanto deles próprios como do seu país. Espero que o meu testemunho e o olhar atento com que sempre vi Timor e os timorenses, contribua para despertar noutros o interesse por esta terra e estas gentes. Agradeço ao CRUP – FUP – Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas - Fundação das Universidades Portuguesas a oportunidade que me deu para leccionar e coordenar o curso de Electrotecnia. O meu agradecimento vai também para todos os que têm contribuído para o sucesso deste projecto, em que tenho estado inserido, assim como para todas as pessoas e instituições que permitiram que este livro fosse publicado.

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