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Transfusão de sangue em Testemunhas de Jeová: Análise da colisão de direitos

fundamentais e prevalência do bem jurídico maior.

Cloves Bezerra de Souza – Bacharel em Direito

pela FADIMA/CESMAC. Especialista em Direito

Processual pela FADIMA/CESMAC. Advogado

com atuação nas áreas Cível, Penal, Trabalhista e

Previdenciária.

SUMÁRIO: INTRODUÇÃO. 1.PONTOS A SEREM ANALISADOS.2.COLISÃO DE

DIREITOS FUNTAMENTAIS E PREVALÊNCIA DO BEM JURÍDICO MAIOR.3.A

VISÃO DOS TRIBUNAIS.4.SITUAÇÃO DOS INCAPAZES. CONSIDERAÇÕES

FINAIS.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho analisará a situação de recusa à transfusão sanguínea pelos seguidores das

Testemunhas de Jeová. Procurar-se-á, no primeiro ponto, contextualizar a questão do ponto de

vista médico profissional quando em eminente risco de vida o paciente - somente nestes casos

- efetuar qualquer procedimento independentemente do consentimento do paciente e, depois,

as decisões que demonstram que é preciso repensar a aplicação da teoria a respeito da colisão

de direitos fundamentais e a prevalência do bem jurídico maior. Além disso, com o advento

do art. 15 do Código Civil, a autonomia do paciente deve ser privilegiada, principalmente

quando o procedimento recomendado gerar riscos para a vida ou a saúde. Expor a visão de

alguns Tribunais através de decisões recentes acerca da matéria. Examinar o direito à


liberdade religiosa na Constituição Federal de 1988. Por fim, verificar-se-á a situação dos

incapazes na questão em apreço, e os limites normativos ao exercício do direito à liberdade

religiosa, observando o procedimento médico a ser tomado diante da recusa de transfusão

sanguínea por um seguidor da religião Testemunha de Jeová.

É de conhecimento geral a existência de pessoas ligadas à determinada instituição religiosa,

que se recusam terminantemente a receber transfusão sangüínea, mesmo quando tal

resistência possa vir a provocar risco de vida, tal resistência é lamentável.

Na sustentação do que colocam como dogma religioso, defendem seu ponto de vista no

direito de privacidade e liberdade, inclusive de religião, consagrado pela CF (art. 5º, VI e X).

Desta forma, porque maiores e capazes entendem aptos a decidir sobre o melhor tratamento,

ainda que essencial, recusando-o quando contrário à sua ideologia religiosa.

1.PONTOS A SEREM ANALISADOS.

Do ponto de vista do médico profissional, não temos dúvida em afirmar que cabe a ele,

somente a ele, quando em eminente risco de vida o paciente - somente nestes casos -, efetuar

qualquer procedimento independentemente do consentimento do paciente ou seu

representante legal. Esta é a regra do art. 46 do Código de Ética Médica.

Ocorrendo ao paciente eminente risco de vida, deve ser ministrada transfusão de sangue, pois

em havendo conflito de direitos fundamentais, vida x liberdade religiosa, o direito à vida

deverá – enquanto direito primário do qual decorre a dignidade da pessoa humana -

prevalecer, sendo a transfusão realizada sem o consentimento do paciente.

OEstado defende o paciente, protegendo sua dignidade como ser humano. Reputando como

legítimo o direito do paciente de escolher seu tratamento médico e ciente da existência de

tratamento que poderiam evitar o uso de hemocomponentes, nossos Tribunais entendem que o
direito à vida não se exaure somente na mera existência biológica, sendo certo que a regra

constitucional da dignidade da pessoa humana deve ser ajustada ao aludido preceito

fundamental para encontrar-se convivência que pacifique os interesses das partes. Resguardar

o direito à vida implica, também em preservar os valores morais, espirituais e psicológicos

que se lhe agregam. É conveniente deixar claro que as Testemunhas de Jeová não se recusam

a submeter a todo e qualquer tratamento clínico, desde que não envolva a aludida transfusão.

Notável a sensibilidade dos Tribunais Pátrios ao respeitarem a posição dos pacientes

Testemunhas de Jeová. Ao consagrarem a dignidade da pessoa humana como o fundamento

de suas decisões, os direitos fundamentais envolvidos (vida, liberdade religiosa e acesso à

saúde) permanecem intactos.

2.COLISÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS E PREVALÊNCIA DO BEM JURÍDICO

MAIOR.

Essas decisões demonstram que é preciso repensar a aplicação da teoria a respeito da colisão

de direitos fundamentais e a prevalência do bem jurídico maior.

O direito de escolher tratamento médico isento de sangue, motivado por questões religiosas, é

uma projeção da dignidade da pessoa humana, qualquer que seja a instituição hospitalar onde

o paciente se encontra internado, pública ou privada. Consoante entendimento assente de

nossos Tribunais esclarecem que os pacientes Testemunhas de Jeová não buscam abdicar de

seu direito de viver. Procuram, sim, tratamento médico que estejam em harmonia com sua

consciência.

Além disso, com o advento do art. 15 do Código Civil, a autonomia do paciente deve ser

privilegiada, principalmente quando o procedimento recomendado gerar riscos para a vida ou


a saúde. A terapia transfusional não é um procedimento isento de riscos, portanto, deveria ser

ministrada somente com o consentimento do paciente.

Destituir o paciente de sua autonomia, nos casos em comento, significa reduzi-los à condição

de mero objeto do Estado ou de terceiros.

Desta forma, os acórdãos colacionados adiante, lançaram um novo paradigma na história do

Direito. Diante de uma sociedade pluralista, o Poder Judiciário não pode ficar alheio à

realidade do reconhecimento dos plenos direitos fundamentais dos cidadãos. Declará-los é o

mesmo que postar-se na camada mais elevada em que se encontra atualmente o Direito.

Fechar os olhos a isso equivaleria a reter o Direito sob diversas camadas do passado, o que é

inadmissível.

Percebe-se, na referida situação a oportunidade de se conhecer um conflito de natureza ética

com repercussões sociais, religiosas, deontológicas, civis e penais, onde o Brasil ainda

engatinha nas soluções, gerando oportunidades de contribuição para todos os operadores do

Direito.

O que se vê é que, na situação de iminente perigo de morte, predomina a transfusão

compulsória, em virtude da segurança jurídica oferecida pela norma permissiva (CP art. 146,

parágrafo 3º do Código Penal). Entretanto, permanece o problema do dano moral, que embora

provocado por ato lícito (não levando ao dever de indenizar) traz consigo desconforto ético ao

profissional que pratica o tratamento compulsório com consciência da agressão à dignidade

humana.

É, há momentos que um dos valores deve prevalecer sobre o outro, e, cada caso é diferente do

outro. Há Testemunhas de Jeová que aceitam as transfusões e outras que não aceitam, mas o

mais importante é que as mesmas possam expressar sua vontade livre, sem constrangimentos,
quer dos profissionais de saúde, quer da comunidade religiosa. Desta forma o sigilo médico é

fundamental. A sanção religiosa, através da exclusão do convívio social ocorreu muitas vezes

e é preciso que a comunidade de religiosos se conscientize que isso deve ser uma questão de

foro íntimo do único titular do direito competente para entender as conseqüências de sua

escolha e capaz e que a sanção moral ofende direito protegido pelo Estado (Honra).

Assim, temos envolvidos os interesses do paciente, da comunidade religiosa, dos profissionais

de saúde e do Estado (interesse de menores, incapazes e dos dependentes do paciente).

Justifica-se o tratamento compulsório quando há interesse do Estado, nas outras situações a

regra é prevalecer o interesse do paciente, entretanto isto depende da espécie de vínculo entre

o paciente e o médico. Se há um contrato onde o profissional se comprometeu a respeitar a

objeção de consciência, deverá cumpri-lo sob pena de inadimplemento e suas conseqüências.

Se o vínculo é extracontratual (nas emergências), o profissional tem o dever de utilizar os

meios lícitos, disponíveis e autorizados para afastar o perigo iminente e nessa situação lhe

faculta (mas não se obriga) utilizar-se da transfusão se ela for útil, lembrando sempre que os

profissionais de saúde também podem ter objeção de consciência e não suportar a dor moral

de ver um paciente morrer quando uma simples transfusão poderia salvá-lo.

3.A VISÃO DOS TRIBUNAIS

Neste ponto, objetiva-se expor a visão de alguns Tribunais acerca da matéria. Desde logo,

informa-se que não há muitas decisões jurisprudenciais que abordam especificamente a

questão e, então, trazemos à baila apenas duas visões, mas que melhor representam o

entendimento global da questão.

Nesse sentido leciona Kfouri Neto


“A vida humana é um bem coletivo, que interessa mais à sociedade que ao indivíduo,
egoisticamente, e a lei vigente exerce opção axiológica pela vida e pela saúde, inadmitindo a
exposição desses valores primordiais na expressão literal do texto, a perigo direto e iminente [...] Uma
vez comprovado efetivo perigo para a vítima, não cometeria delito nenhum o médico que,
mesmo contrariando a vontade expressa dos por ela responsáveis, à mesma tivesse ministrado
transfusão de sangue”. KFOURI NETO, Responsabilidade Civil Médico. 2003. p.175. (grifos
nossos).

Em precioso acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, o Des. Sérgio

Gischkow Pereira aborda a matéria de forma a resumir seus pontos de maior relevância e

profere, com propriedade, o seu posicionamento acerca do tema. Cumpre trazermos à colação

parte do seu voto, pois demonstra o que deve ser considerado por uma decisão justa:

“CAUTELAR. TRANSFUSAO DE SANGUE. TESTEMUNHAS DE JEOVA. Não cabe ao poder


judiciário, no sistema jurídico brasileiro, autorizar ou ordenar tratamento médico-cirúrgicos e/ou
hospitalares, salvo casos excepcionalíssimos e salvo quando envolvidos os interesses de menores. Se
iminente o perigo de vida, é direito e dever do medico empregar todos os tratamentos, inclusive
cirúrgicos, para salvar o paciente, mesmo contra a vontade deste, de seus familiares e de quem
quer que seja, ainda que a oposição seja ditada por motivos religiosos. Importa ao medico e ao
hospital demonstrar que utilizaram a ciência e a técnica apoiadas em séria literatura médica, mesmo
que haja divergências quanto ao melhor tratamento. O judiciário não serve para diminuir os riscos da
profissão médica ou da atividade hospitalar. Se transfusão de sangue for tida como imprescindível,
conforme sólida literatura médico-cientifica (não importando naturais divergências), deve ser
concretizada, se para salvar a vida do paciente, mesmo contra a vontade das Testemunhas de Jeová,
mas desde que haja urgência e perigo iminente de vida (art-146, §3°, I, do Código Penal). [...] O
direito à vida antecede o direito à liberdade, aqui incluída a liberdade de religião; é falácia argumentar
com os que morrem pela liberdade, pois aí se trata de contexto fático totalmente diverso. Não consta
que morto possa ser livre ou lutar por sua liberdade. Há princípios gerais de ética e de direito, que,
aliás, norteiam a Carta das Nações Unidas, que precisam se sobrepor às especificidades culturais e
religiosas; sob pena de se homologarem as maiores brutalidades; entre eles estão os princípios que
resguardam os direitos fundamentais relacionados com a vida e a dignidade humanas. Religiões
devem preservar a vida e não exterminá-la. [...] Abrir mão de direitos fundamentais, em nome de
tradições, culturas, religiões, costumes, é, queiram ou não, preparar caminho para a relativização
daqueles direitos e para que venham a ser desrespeitados por outras fundamentações, inclusive
políticas. [...] É o voto”. TJRGS. Apelação Cível. 595000373. 6ª.C.C. Rel. Des. Sérgio Gischkow
Pereira. Julgada em 28.03.1995. Disponível em www.tjrs.gov.br (grifos nossos).

Colacionamos ainda, decisão recente, na íntegra, da lavra do eminente Desembargador

Cláudio Balbino Maciel do Egrégio Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a qual ratifica

integralmente o teor do estudo em apreço.

“DIÁRIO DA JUSTIÇA ELETRÔNICO-RS Disponibilização: Segunda-feira, 26 de Outubro 2009 /


Edição Nº 4.20458
HÍDRICA. NECESSITA DE TRATAMENTO NEFROLÓGICO CONTÍNUO E COM
IMUNOSSUPRESSÃO A PARA EVITAR RECIDIVAS DA SÍNDROME NEFRÓTICA. DEVERÁ
REALIZAR BIÓPSIA RENAL PARA IDENTIFICAR A CAUSA DE SÍNDROME NEFRÓTICA.
ENTRETANTO, NÃO REALIZARÁ O PROCEDIMENTO POR RISCO ELEVADO DE MORTE
PELO NÍVEL DE HEMOGLOBINA. SOLICITO PARECER TÉCNICO, ÉTICO E LEGAL SOBRE
A PACIENTE HELINY CASTILHO ALHO TESTEMUNHA DE JEOVÁ COM INDICAÇÃO DE
TRANSFUSÃO SANGUÍNEA. OS FAMILIARES E A PACIENTE NEGAM O PROCEDIMENTO,
APESAR DOS RISCOS DE MORTE SÚBITA. NO MOMENTO, ENCONTRA-SE COM RISCO
EMINENTE DE ÓBITO PELO QUADRO DE ANEMIA SEVERA (HEMOGLOBINA DE 6 G/DL).
COMO SE PODE PERCEBER, A MAGISTRADA, FRENTE A IMINENTE MORTE DA
PACIENTE, DEFERIU A REALIZAÇÃO DA TRANSFUSÃO SANGUÍNEA A FIM DE
PRESERVAR-LHE A VIDA. CONTUDO, A RECORRENTE INSURGE-SE POR ENTENDER
QUE A MEDIDA VIOLA SEUS DIREITOS FUNDAMENTAIS E ESSENCIALMENTE SUA
DIGNIDADE. O TEMA DEMANDA CAUTELA NA APRECIAÇÃO. NÃO SE TRATA DE
SINGELAMENTE PONDERAR QUAL DIREITO FUNDAMENTAL DEVE SER PRESERVADO E
QUAL DEVE SOFRER LIMITAÇÃO.
A LIBERDADE DE CRENÇA EXPRESSADA PELA PACIENTE, ORA AGRAVANTE, REVESTE
SUA VIDA DE SENTIDO, SENTIDO ESTE NÃO COMPREENDIDO, NA SUA VERDADEIRA
DIMENSÃO, POR QUEM NÃO VIVE E NÃO COMUNGA DE TAIS VALORES. A DIGNIDADE
QUE EMANA DA SUA ESCOLHA RELIGIOSA TEM TAMANHA IMPORTÂNCIA PARA ELA
QUE, ENTRE CORRER O RISCO DE PERDER A VIDA, MAS PERMANECER ÍNTEGRA EM
RELAÇÃO AOS SEUS VALORES/IDEAIS RELIGIOSOS, E RECEBER UMA TRANSFUSÃO DE
SANGUE, TENDO VIOLADOS SEUS VALORES E SUA DIGNIDADE DE PESSOA HUMANA,
ESTA ESCOLHEU MANTER-SE ÍNTEGRA EM SUA CRENÇA.
O PRESENTE RECURSO É A REPRESENTAÇÃO CLARA DA IRRESIGNAÇÃO DA
AGRAVANTE FRENTE AO QUE CONSIDERA DESRESPEITO ÀS SUAS CONVICÇÕES, POIS
NÃO ACEITA SER SUBMETIDA A TRATAMENTO COM O QUAL NÃO CONCORDA.
A POSTULANTE NÃO QUER MORRER, NÃO ESTÁ ESCOLHENDO MORRER, COMO
AFIRMA EM SUAS RAZÕES RECURSAIS, APENAS NEGA-SE A RECEBER TRATAMENTO
QUE VIOLA SUAS CRENÇAS E ACEITA EM FACE DISSO CORRER RISCO DE MORTE OU
TER SUA MELHORA POSTERGADA.
A CONSTITUIÇÃO FEDERAL PROTEGE O DIREITO À VIDA, A DIGNIDADE DA PESSOA
HUMANA E A LIBERDADE DE CRENÇA NA MESMA PROPORÇÃO. O DIREITO À VIDA,
DIFERENTEMENTE DO QUE SE POSSA ACREDITAR, NÃO É VALOR SUPER-
PREPONDERANTE, É CONDIÇÃO PARA O EXERCÍCIO DOS DEMAIS DIREITOS, MAS ISSO
NÃO O TORNA BLINDADO QUANDO CONFLITANTE COM OS DEMAIS VALORES FUNDA-
MENTAIS POSTOS NA CARTA MAGNA.
O CASO EM ANÁLISE JÁ SOFREU APRECIAÇÃO PELA DOUTRINA E JURISPRUDÊNCIA
ESTRANGEIRAS, PREVALECENDO O ENTENDIMENTO DE QUE SENDO O PACIENTE
MAIOR, CAPAZ E ESTANDO NO GOZO DE SUAS FACULDADES MENTAIS PODE
RECUSAR E OPTAR POR REALIZAR TRATAMENTO MÉDICO, MESMO CIENTE DO RISCO
QUE IMPÕE A SUA VIDA.
A JURISPRUDÊNCIA PÁTRIA É ESCASSA A RESPEITO DO ASSUNTO, PORÉM EM SE
TRATANDO DE MENOR, É UNÍSSONA NO SENTIDO DE QUE CABE AO PODER
JUDICIÁRIO SUBSTITUIR A VONTADE DOS PAIS E AUTORIZAR O TRATAMENTO
MÉDICO ATÉ QUE O PACIENTE TENHA CAPACIDADE DE DECIDIR POR SI. NO PRESENTE
RECURSO TRATA-SE DE PACIENTE MAIOR, LÚCIDA, CAPAZ, QUE DESDE O PRIMEIRO
MOMENTO EM QUE PROCUROU AJUDA MÉDICA EXCEPCIONOU SUA CONCORDÂNCIA
AOS TRATAMENTOS QUE VIOLASSEM SUAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS. NÃO SE
VISLUMBRAM, PORTANTO, RAZÕES PELAS QUAIS A VONTADE DA AGRAVANTE DEVA
SER SUBSTITUÍDA PELO PODER JUDICIÁRIO, UMA VEZ QUE, SENDO ELA CAPAZ, PODE
OPTAR PELO TRATAMENTO QUE LHE CONVIER E QUE LHE APROUVER PARA MANTER-
SE, ANTES DE TUDO, COM A AUTODETERMINAÇÃO DERIVADA DO PRINCÍPIO DA
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA PRESERVADA.
NÃO VEJO COMO POSSA A RECORRENTE SER SUBMETIDA A TRATAMENTO MÉDICO
COM O QUAL NÃO CONCORDA E QUE PARA SER PROCEDIDO NECESSITA DO USO DE
FORÇA POLICIAL; TRATAMENTO ESTE QUE NÃO OBSTANTE POSSA PRESERVAR-LHE A
VIDA, RETIRA DELA TODA A DIGNIDADE PROVENIENTE DA CRENÇA RELIGIOSA,
PODENDO TORNAR A EXISTÊNCIA RESTANTE SEM SENTIDO, DESNECESSÁRIA, VAZIA.
DESSE MODO, CONSTATA-SE QUE O PEDIDO DA POSTULANTE É PARA QUE O PODER
JUDICIÁRIO PROTEJA ESSENCIALMENTE SEU DIREITO DE ESCOLHA, DIREITO
CALCADO NA PRESERVAÇÃO DE SUA DIGNIDADE, PARA QUE SOMENTE SEJA
SUBMETIDA A TRATAMENTO MÉDICO COMPATÍVELCOM SUAS CRENÇAS RELIGIOSAS.
A QUESTÃO ESTÁ, EM ÚLTIMA ANÁLISE, EM SABER QUAIS OS LIMITES DA
INTERVENÇÃO DE UM ESTADO DEMOCRÁTICO E PLURALISTA NA ÓRBITA
INDIVIDUAL, MESMO EM SITUAÇÕES EXTREMAS.
O ESTADO BRASILEIRO É CONFORMADO PELOS VALORES DO PLURALISMO, SENDO
DIREITO DE SEUS CIDADÃOS VIVEREM DE ACORDO COM DISTINTOS VALORES E
CRENÇAS. A LIBERDADE DE PENSAMENTO, DE CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA SÃO,
AINDA, DIREITOS FUNDAMENTAIS EXPRESSAMENTE PREVISTOS NA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL (ART. 5°, IV E V).
POR OUTRO LADO, SÃO INVIOLÁVEIS A INTIMIDADE E A VIDA PRIVADA DOS
CIDADÃOS (ART. 5°, X, DA CF). TAMBÉM A CONSTITUIÇÃO FEDERAL, NO CAPUT DO
ART. 5°, GARANTE A INVIOLABILIDADE DO DIREITO À VIDA.
OS PRINCÍPIOS SÃO NORMAS CONSTITUCIONAIS QUE, AO CONTRÁRIO DAS OUTRAS
NORMAS (AS REGRAS), NÃO SÃO EXCLUDENTES ENTRE SI.
QUANDO SE TRATA DE PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS, A SUA EXEGESE IMPÕE AO
INTÉRPRETE O TRABALHO DE PONDERAÇÃO ENTRE ELES A PARTIR DO CASO
CONCRETO TANTO O DIREITO À VIDA, POR UM LADO, COMO O DIREITO À LIBERDADE
DE PENSAMENTO E DE CRENÇA, POR OUTRO, QUANTO, AINDA, A INTIMIDADE E A
PRIVACIDADE DA PESSOA HUMANA, SÃO PRINCÍPIOS E VALORES QUE NÃO SE
EXCLUEM UNS AOS OUTROS, MAS QUE DEVEM SER PONDERADOS E HARMONIZADOS
ANTE O CASO CONCRETO PARA SABER QUAIS, AFINAL, TÊM PREPONDERÂNCIA.
A MELHOR BALIZA PARA O TRABALHO DE PONDERAÇÃO DOS PRINCÍPIOS EM
QUESTÃO É, SEM DÚVIDA, O VALOR DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, SENDO ELE
UM DOS FUNDAMENTOS DO ESTADO DEMOCRÁTICO E DA REPÚBLICA BRASILEIRA
(ART. 1°, III, DA CF).
TODOS OS VALORES CONSTITUCIONAIS, INCLUSIVE O DIREITO FUNDAMENTAL À
LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA, DEVEM SER RESPEITADOS,
RESGUARDADO O DIREITO FUNDAMENTAL DE TODOS E DE CADA UM DE VIVER DE
ACORDO COM SEUS PRÓPRIOS E ESPECÍFICOS VALORES, AINDA QUE EXÓTICOS OU
NÃO COMPARTILHADOS PELA MAIORIA DA SOCIEDADE.
EVIDENTEMENTE, SE OS VALORES OU A CRENÇA DE ALGUÉM FOSSEM, POR SUA
EXTERIORIZAÇÃO, NOCIVOS A TERCEIROS OU AO CORPO SOCIAL, NÃO HAVERIA
MAIOR DIFICULDADE NA SOLUÇÃO DO PROBLEMA. MAS QUANDO A CRENÇA DE
ALGUÉM NÃO COLOCA SOB RISCO DIREITOS DE TERCEIROS, A QUESTÃO É SABER-SE
SE, TAMBÉM NESSE CASO, O ESTADO PODE INTERVIR NA ÓRBITA INDIVIDUAL PARA
SALVAR A PESSOA DELA PRÓPRIA.
NO ÂMBITO INDIVIDUAL, NA SEARA DE SUA LIBERDADE DE CRENÇA E CONSCIÊNCIA,
PARA A APELANTE O VALOR MAIOR, NA ELEIÇÃO DO QUE FAZER, PARECE SER A
VIDA, MAS A VIDA CONFORMADA PELOS VALORES DE SEU CREDO, DE SUA
CONSCIÊNCIA RELIGIOSA, SEM OS QUAIS ELA NÃO PARECE FAZER SENTIDO, TANTO
ASSIM QUE ESTÁ, CONSCIENTE E LUCIDAMENTE, CORRENDO RISCO DE MORTE AO
NÃO ADMITIR SUBMETER-SE A UM TRATAMENTO QUE POSSIVELMENTE
MELHORARIA SEUS PROGNÓSTICOS CLÍNICOS, MAS QUE SIGNIFICARIA UMA ENORME
VIOLÊNCIA DO NÚCLEO DE VALORES QUE JUSTIFICA SUA EXISTÊNCIA.
NÃO HÁ VALORES ABSOLUTOS NA CONSTITUIÇÃO. MESMO O DIREITO À VIDA PODE
SER RELATIVIZADO ANTE OUTROS DIREITOS. POR EXEMPLO, UMA PESSOA ESTÁ
LEGITIMADA, EM TESE, A MATAR EM LEGÍTIMA DEFESA PARA DEFENDER-SE DE UMA
TENTATIVA DE ESTUPRO E UMA MULHER - CREIO - ESTARIA LEGITIMADA JURÍDICA E
ETICAMENTE A COLOCAR SUA VIDA SOB INTENSO RISCO PARA DEFENDER-SE DA
MESMA TENTATIVA DE ESTUPRO. ISSO SIGNIFICA QUE ELA PODE, LICITAMENTE,
VALORIZAR MAIS A SUA LIBERDADE SEXUAL DO QUE A SUA PRÓPRIA VIDA. DIR-SE-
IA DE TAL MULHER SER UMA PESSOA VIRTUOSA.
A APELANTE, QUE POSSUI VALORES RELIGIOSOS E MORAIS TÃO ENRAIZADOS A
PONTO DE MANTER-SE, MESMO SOB RISCO DE VIDA, SEM DESCUMPRIR OS SEUS
VALORES MAIS ESSENCIAIS, OS CONTIDOS NAS REGRAS DE SUA CRENÇA, TAMBÉM
ESTARÁ LEGITI-MADA, PELO MESMO MOTIVO, A ARRISCAR A EXISTÊNCIA FÍSICA POR
UM VALOR DE CONSCIÊNCIA, POR UM VALOR PARA ELA TRANSCENDENTE E
ETICAMENTE NECESSÁRIO.
AS PIORES EXPERIÊNCIAS TOTALITÁRIAS FORAM JUSTIFICADAS POR VALORES DE
ESTADO QUE ARROMBARAM A TRANCA DAS LIBERDADES DE CONSCIÊNCIA, DE
CRENÇA, DE PENSAMENTO, DE ESCOLHA DO CIDADÃO A RESPEITO DO SEU PRÓPRIO
DESTINO, DA ELEIÇÃO DO SIGNIFICADO DE SUA VIDA, SEMPRE SOB ALGUMA
JUSTIFICATIVA PARA SALVÁ-LOS DE SI MESMOS ANTE UM VALOR MAIOR QUE OS
SEUS.
POR TAIS MOTIVOS, NÃO ME PARECE POSSA O ESTADO AUTORIZAR DETERMINADA E
ESPECÍFICA A INTERVENÇÃO MÉDICA EM UMA PACIENTE QUE EXPRESSAMENTE NÃO
ACEITE, POR MOTIVO DE FÉ RELIGIOSA, O SANGUE TRANSFUNDIDO, SALVO SE SE
TRATASSE DE UMA CRIANÇA, INCAPAZ DE EXPRESSAR VONTADE PRÓPRIA COM UM
NÍVEL DE CONSCIÊNCIA JURIDICAMENTE ACEITÁVEL, OU SE, POR OUTRO QUALQUER
MOTIVO, ESTIVESSE A PESSOA DESPROVIDA DA CAPACIDADE DE DISCERNIR E DE
DECIDIR LUCIDAMENTE A RESPEITO DE SEU DESTINO. MAS AQUI SE TRATA DE
PESSOA MAIOR DE IDADE, LÚCIDA E CONSCIENTE, CUJA VONTADE MANIFESTA E
INDISCUTÍVEL NÃO SE APRESENTA SOB QUALQUER ASPECTO VICIADA.
NÃO SE TRATA DE COMPARAR A SITUAÇÃO PRESENTE COM A HIPÓTESE DE
TENTATIVA DE SUICÍDIO, SITUAÇÃO EM QUE O MÉDICO DEVE PRESTAR SOCORRO
PARA EVITAR A MORTE DA PACIENTE.
A APELANTE, COMO JÁ FOI DITO, TEM DESEJO DE CONTINUAR VIVENDO, MAS NÃO
MEDIANTE O SACRIFÍCIO DE SUAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS, OU SEJA,TEM DESEJO
DE CONTINUAR VIVENDO COM A SUA CONFORMAÇÃO DE PERSONALIDADE, COM OS
SEUS VALORES, COM O SEU PRÓPRIO SIGNIFICADO ANTE A TRANSCENDÊNCIA, COM
OS SEUS PRÓPRIOS CÓDIGOS, NÃO VIOLADOS, PERANTE DEUS, O QUE, PARA ELA,
PARECE FAZER PARTE DO NÚCLEO ESSENCIAL DE SUA PESSOA E DE SUA EXISTÊNCIA,
VIDA QUE NÃO PODE SER COMPREENDIDA SOMENTE NA SUA ACEPÇÃO BIOLÓGICA,
MAS TAMBÉM, POR CERTO, NA ACEPÇÃO MORAL.
SE QUALQUER MULHER PODE ESCOLHER, LIVRE E CONSCIENTEMENTE, MORRER
REAGINDO À VIOLAÇÃO DE SEU CORPO POR ATO NÃO DESEJADO DE TERCEIRO, POR
EXEMPLO, PARECE-ME QUE A APELANTE PODE FAZER A MESMA ESCOLHAANTE O
QUE ELA CONSIDERA, POSSIVELMENTE, VIOLÊNCIA TÃO GRANDE A SEUS VALORES E
PRINCÍPIOS QUANTO MOSTRA-SE VIOLENTA A PRIMEIRA HIPÓTESE.
A ACEITAÇÃO CONSCIENTE DA IDÉIA E DA PERSPECTIVA DA MORTE COMO
ALTERNATIVA À VIOLAÇÃO DE UM VALOR EXTREMO QUE, PARA PESSOA
DETERMINADA, REPRESENTA O NÚCLEO ESSENCIAL DE SUA EXISTÊNCIA, É ALGO
QUE NÃO SE PODE, JURÍDICA E FILOSOFICAMENTE, DESPREZAR.
POR ISSO, TENHO QUE O PODER JUDICIÁRIO NÃO PODE AUTORIZAR PREVIAMENTE
QUE O HOSPITAL OU O MÉDICO ADOTEM, CONTRA A VONTADE MANIFESTA DA
PACIENTE, A TRANSFUSÃO DE SANGUE, DESDE QUE A PACIENTE LUCIDAMENTE
PERMANEÇA COM A CONVICÇÃO E MANIFESTE, PRESENTEMENTE, MUNICIADA DAS
INFORMAÇÕES ADEQUADAS E NECESSÁRIAS, ESPECIALMENTE QUANTO AO GRAU DE
RISCO DECORRENTE DE SUA OPÇÃO, QUE NÃO ACEITA TAL TIPO DE INTERVENÇÃO
PORQUE A MESMA CONTRARIA SUA CRENÇA RELIGIOSA. POR TODO O EXPOSTO,
VISLUMBRO A OCORRÊNCIA DE DANO IRREPARÁVEL, RAZÃO PELA QUAL DEFIRO O
EFEITO SUSPENSIVO PLEITEADO. PORTO ALEGRE, 20 DE OUTUBRO DE 2009. DES.
CLÁUDIO BALDINO MACIEL, RELATOR

No caso em apreço verifica-se que o paciente é maior e não há nada nos autos a indicar que

não esteja em pleno uso de suas faculdades mentais. Assim, detendo o paciente a capacidade

civil e estando consciente das implicações e da gravidade da situação, a recusa em submeter-


se à transfusão sanguínea em face de suas crenças religiosas é um direito que lhe assiste, ainda

que haja risco de morte.

Isso porque a liberdade de crença abrange não apenas a liberdade de cultos, alcançando

também a possibilidade do indivíduo adepto à determinada religião orientar-se segundo as

posições por ela estabelecidas.

4.SITUAÇÃO DOS INCAPAZES

Vale ressalvar, entretanto, que quando a situação envolve menores de idade ou outros

pacientes tidos como incapazes, a exemplo de uma pessoa em estado de inconsciência ou de

uma pessoa detentora de alguma perturbação mental, a questão ganha evidentemente outra

conotação. Desse modo, levando em consideração a situação específica, onde o paciente é

detentor de capacidade civil e está no perfeito uso de suas faculdades mentais, entendo que

sua recusa em submeter-se a tratamento que fere suas convicções religiosas deve ser

respeitada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O respeito à autonomia do paciente deve estender-se aos seus valores religiosos. Tais valores

não podem ser desconsiderados ou minimizados por outrem, sobretudo pelos profissionais de

saúde, a despeito dos melhores e mais sinceros interesses destes profissionais. Certamente, os

profissionais de saúde estarão agindo dentro dos limites da ética médica ao respeitar as

crenças religiosas de seus pacientes, provendo-lhes tratamento médico compatível com tais

crenças. Os valores religiosos podem ser uma força positiva para o conforto e recuperação do

paciente se ele estiver seguro de que seus valores serão respeitados.

Entretanto, num Estado de Direito Democrático e Social, a liberdade é requisito da

democracia. A autonomia individual deve ser respeitada e, com ela, o direito de consciência e

de crença. As manifestações religiosas não se limitam ao exercício da religião em templos.


Entende-se que pressupõe a prática religiosa, com respeito aos seus dogmas, em todas as

circunstâncias da vida.

Dessa forma, admite-se a recusa às transfusões sanguíneas por motivos de foro íntimo:

convicções pessoais, religiosas ou não. O próprio Código Civil coíbe a intervenção médica ou

cirúrgica, com risco de vida, sem o prévio consentimento do paciente.

Todavia, nosso ordenamento não tolera a liberdade religiosa como direito absoluto. Seria

inadmissível: teríamos que conviver com as maiores brutalidades, pois justificativas das mais

diversas nunca faltam para as violações dos direitos humanos.

Por esse motivo, é razoável que se preserve a vida, acima de qualquer outro direito, quando

mais se aproximar da dignidade humana. Não há dúvidas que a transfusão de sangue deve ser

feita pelo médico caso o paciente encontre-se em iminente risco de vida ou inconsciente.

Diante da aparente colisão de direitos fundamentais no caso concreto, faz-se necessária a

ponderação dos valores envolvidos, com aplicação dos princípios específicos de

Hermenêutica Constitucional, optando-se, finalmente, pelo direito que melhor assegure a

dignidade da pessoa humana.

REFERÊNCIAS

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