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O oligopólio da fé - Análise da estrutura de mercado da concorrência religiosa

O oligopólio da fé - Análise da estrutura de mercado da concorrência religiosa

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Publicado porGuilherme Cassolato
Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Econômicas do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas, sob a orientação do Prof. Mestre Antonio Carlos de Azevedo Lobão
Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Econômicas do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas, sob a orientação do Prof. Mestre Antonio Carlos de Azevedo Lobão

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Published by: Guilherme Cassolato on Apr 08, 2011
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06/03/2013

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A percepção acerca do comportamento da sociedade e do mundo, seja ela,

orientada pela sua ótica filosófica, econômica, política, religiosa ou antropológica,

no tangente às particularidades que se evidenciam para cada um nós, em meio

ao emaranhado de relações sob e sobre as quais a história da humanidade é

escrita, deve ser sempre o suficiente para despertar o aspecto investigativo que

reside em todo ser humano. Parte deste espírito de descobrimento, organizado ou

intuitivo, o processo pelo qual a sociedade se constrói, destrói e reconstrói

novamente. Dele somos servidos desde a primeira tentativa de compreensão do

ambiente no qual nos inserimos, às inspirações para as maiores descobertas de

todos os tempos.

Imersos num pequeno arbusto da incomensurável árvore de idéias tão

somente resultante desta propriedade que, pelo que se sabe, nenhuma espécie

melhor do que a nossa desenvolveu, atentamo-nos, à luz da formação humana,

social e econômica, a um fenômeno de dimensões infinitesimais, mas que ainda

assim permite-se incorporar a todos nós, inevitavelmente, de uma forma ou de

outra. Como que centrados microscopicamente numa única folha do arvoredo

sem fim, deparamo-nos com o fenômeno sociológico e, ao mesmo tempo,

econômico, protagonizado pela instituição da religião; através do qual se

reconhece a noção conflituosa do campo que a compreende e sua respectiva

convergência para um padrão comportamental secular, caracterizado pela

metáfora do mercado.

Em outros termos, propusemo-nos a compreender o fenômeno da

concorrência religiosa, que, uma vez reconhecido, conduz-nos à problemática

centrada nos aspectos estruturais que definem o presente mercado de bens

simbólicos associados à religião. Ou seja, se de fato pode-se tratar o campo

religioso em termos de concorrência e mercado; do ponto de vista econômico, sob

qual estrutura de normas, valores e padrões comportamentais esta dinâmica se

define? Assim, na ausência de maiores pretensões, empenhamo-nos no objetivo

de analisar a estrutura de mercado da concorrência religiosa.

2

Norteados por este propósito, apropriar-nos-emos de parte dos arsenais

teóricos das ciências econômicas e sociais para testar formalmente a hipótese

que se apóia na autenticidade do tratamento das relações sociais do campo

religioso em termos de mercado e, mais do que isso, se define pela possibilidade

efetiva de atribuição do comportamento das instituições religiosas às

características gerais dos segmentos oligopólicos seculares. Dedicar-nos-emos,

portanto, aos esforços de legitimação da hipótese de que a concorrência religiosa

não só existe, como também, tem sua estrutura de mercado imersa em

características típicas de um oligopólio qualquer.

Entendemos que a presente proposta de análise científica encaixa-se

positivamente no conjunto de esforços que se somam na busca por explicações

satisfatórias dos sucessivos processos de transformação da sociedade. À medida

que a sociedade se transforma, redefine-se a estrutura social que compreende o

conjunto de normas, valores e padrões comportamentais regentes das próprias

interações entre os indivíduos, grupos e classes que se sucederam nesta mesma

sociedade.

O processo ao longo do qual a sociedade vem se transformando

intensamente nos últimos séculos teve suas origens na percepção aparentemente

racional das vantagens sociais de especialização do trabalho, que destituiria o ser

humano da auto-suficiência imediata, tornando-o satisfeito por vias indiretas,

através da dinâmica do mercado. Analogamente à natureza, que fora tratada por

terra e mercantilizada como que de controle exclusivo daqueles que a cercam e

bradam pela sua propriedade, as horas de vida humana transformaram-se em

mercadoria, chamadas de trabalho e negociadas de acordo com a lógica da livre

ação dos mercados de ofertantes e demandantes.

Esta transformação tão bem tratada por moinho satânico1

instituiria as

bases pelas quais a sociedade naturalizaria a lógica do mercado para tudo que se

pudesse agregar utilidade; transformando-nos em incontroláveis negociantes de

bens e serviços que se estenderiam dos mais primordiais para subsistência

humana à nossa própria personalidade. A legitimação deste novo regime pela

sociedade asseguraria o estabelecimento de uma nova estrutura social, capaz de

1

Karl Polanyi. A grande transformação – as origens da nossa época. 5ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000,

349 p.

3

normalizar as relações de troca para quaisquer necessidades de cujas

suficiências houvesse alguém desprovido.

Neste contexto, a religião, não mais própria do homem e já

institucionalizada e disposta na forma de capital religioso (ou qualificação

religiosa) sob o domínio de um corpo seleto de especialistas, adaptar-se-ia

facilmente à nova dinâmica social; transformando-se também numa mercadoria

para o consumo. No mercado de bens simbólicos que se associam à religião,

legitimado e aceito pela sociedade, a disposição de sua estrutura, traduzida pelo

conjunto definido de normas e valores eticamente incorporados, definiria os

padrões comportamentais das relações sócio-econômicas ocorridas nesta esfera.

Em outras palavras, o reconhecimento da estrutura do mercado religioso

permite-nos compreender a lógica social, econômica e cultural que orienta suas

relações. Na prática, oferece-nos um meio de compreensão crítica do processo

de mercantilização da religião, de acirramento da concorrência religiosa e do

conjunto de interações deste campo com os segmentos mais seculares da

sociedade.

A partir desta análise busca-se sentido para as recentes mudanças nas

formas de interação das instituições religiosas com a sociedade. Atualmente, no

Brasil, estas interações conformam um cenário no qual se faz presente a atuação

das igrejas e seitas através da grande mídia, até mesmo como controladoras de

emissoras de rádio e televisão2

; também na política, tendo seus interesses

representados em praticamente todas as instâncias de governo, o que inclui no

presente momento o Congresso Nacional e a vice-presidência da República3

.

Presenciamos o nascer dos padres e pastores midiáticos que, à medida

que tocam seus trabalhos de evangelização, são responsáveis pelo comércio de

livros, CDs e afins, que movimentam milhões a cada ano. No Brasil, estima-se

que pelo menos meio bilhão de reais anuais seja girado somente em produtos

evangélicos; grupo ao qual se atribui também as grandezas de 1 milhão de

empregos gerados e cerca de 10 000 novos pontos de pregação abertos a cada

2

As Redes Record de rádio e televisão (terceira maior do país) e Mulher de televisão, por exemplo, são
grupos de emissoras de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus; ao mesmo tempo, a Igreja
Católica Apostólica Romana do Brasil desenvolve suas três emissoras de TV: Rede Vida, Canção Nova e
Século XXI.

3

José de Alencar, vice-presidente da República durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
filiou-se em 2005 ao Partido Municipalista Renovador (PMR), criado pela Igreja Universal do Reino de
Deus, na figura de seu fundador, o bispo Edir Macedo.

4

ano4

. Na sociedade americana, estes números se multiplicam exponencialmente

em venda de livros5

, quantidade de emissoras de rádio e televisão

exclusivamente cristãs, e nas bilheterias de cinema e produtos associados a

filmes e seriados desta natureza6
.

Diante desta realidade, procuramos compreender os aspectos estruturais

que definem a dinâmica de concorrência no mercado religioso, bem como sua

origem e similaridade com os segmentos econômicos mais seculares.

Entendemos que as características estruturais deste mercado, vistas pela ótica

das ciências econômicas em associação às teorias sociológicas da religião, têm

muito a nos oferecer em discernimento deste fenômeno singular, ainda que

intimamente relacionado a fatores que o precedem. Uma vez sociologicamente

compreendido, apropriamo-nos das teorias econômicas para analisar este

fenômeno acerca das especificidades que permitem caracteriza-lo quanto a sua

estrutura de mercado, distinguindo-o dentro dos conceitos de monopólio,

concorrência perfeita e seus intermediários, capazes de definir as relações de

poder e competição que se envolvem.

Com base nesta orientação, trabalharemos nas próximas páginas a teoria

do oligopólio, cujo objeto se associa hipoteticamente à problemática deste estudo,

procurando resgatar historicamente alguns dos elementos observáveis ao longo

do processo pelo qual esta estrutura de mercado tornou-se predominante na

economia mundial, distinguindo-se por suas especificidades de outras formas de

organização. Entenderemos a tipologia do oligopólio e algumas de suas

características genéricas mais relevantes, tais como as barreiras econômicas ao

acirramento da dinâmica de concorrência e os instrumentos estratégicos de

competição que lhe são típicos. Neste contexto, procuraremos compreender os

aspectos teóricos característicos da dinâmica que se subentende ao conceito de

mercado oligopolizado, procurando, dentro do possível, exemplifica-lo em termos

práticos.

Num outro pólo abordaremos o objeto ao qual se pretende relacionar as

teorias microeconômicas adotadas, formando um conceito sobre o campo

4

Luciana Farnesi. Um mercado movido pela fé. Revista Exame, 16 Fev. 2005, p. 60-61.

5

A venda de livros religiosos nos EUA representa cerca de 11% de uma indústria cujo faturamento se
aproxima de US$ 14 bilhões, de acordo com Sérgio Dávila. Direita religiosa mostra rosto e lucra nos EUA de
Bush. Folha de São Paulo, Califórnia, 27 Mar 2005, caderno A, p. 15.

6

Sérgio Dávila, op. cit.

5

religioso, a partir da compreensão dos agentes que o protagonizam.

Procuraremos desenvolver as principais características que permitem definir as

instituições religiosas e os serviços que elas prestam, num contexto de

convergência destes elementos para os aspectos de organização que permitem

associa-las ao conceito de firmas atuantes. À luz do pensamento sociológico,

desenvolveremos a noção clássica de campo religioso que pressupõe a natureza

de conflito das relações dadas nesta esfera social, passando pelo processo

através do qual se formariam as bases para a constituição de um mercado de

bens simbólicos associados à religião.

A noção de concorrência religiosa adentra sociologicamente nestas bases

para explicarmos o conjunto de transformações sociais que propulsaram o

processo de mercantilização da religião, definindo uma situação de pluralidade do

campo religioso, cuja interação se traduziria pela dinâmica da concorrência de

mercado e se arrastaria, intensificando-se nestes padrões, até os dias de hoje.

Neste contexto, trabalharemos o panorama atual do campo religioso brasileiro,

quanto à posição dos agentes que o compõem, suas respectivas taxas de

participação na sociedade e alguns dos aspectos qualitativos que permitem

distingui-los entre si, no tangente às parcelas da população que detêm.

Finalmente, desenvolveremos os elementos que permitem relacionar em

definitivo as teorias microeconômicas dos mercados estruturados em oligopólio à

dinâmica de concorrência do campo religioso. Analisaremos os principais

aspectos do mercado brasileiro de bens simbólicos associados à religião, quanto

ao grau de concentração do setor e a recente evolução do cenário concorrencial,

destacando o surgimento de novas competidoras e as barreiras que

eventualmente se fazem presentes. Dentro disso, procuraremos entender os

elementos estratégicos mais importantes pelos quais a dinâmica de competição

toma forma; demonstrando a importância de práticas que envolvem a

diferenciação dos serviços religiosos e a segmentação dos fiéis, a adoção dos

instrumentais de marketing e o papel das chamadas ações ecumênicas neste

processo.

Para tornar tudo isso possível, recorremos a uma revisão bibliográfica

mínima de títulos que se estenderam das teorias microeconômicas mais clássicas

no tratamento dos oligopólios a alguns dos principais pensadores da sociologia da

religião, notadamente, os que centraram a análise ao seu inter-relacionamento

6

com a esfera econômica. Neste grupo destacam-se célebres como Max Weber

(1967), Pierre Bourdieu (1974) e Peter Berger (1985); subsidiando os estudos que

se confrontariam com as idéias econômicas de Paolo Sylos-Labini (1986), Joe

Staten Bain (1956; 1963) e tantos outros. Somados a isso, contamos com

dezenas de textos oriundos das mais diversas fontes, dentre as quais se

destacam notícias, matérias e artigos de jornais e revistas da grande e pequena

imprensa; dissertações e um conjunto de dados e informações relevantes,

organizados por institutos de pesquisa como o Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística (IBGE) e o Centro de Políticas Sociais (CPS) do Instituto Brasileiro de

Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV). Além terem contribuído

grandemente os resultados de entrevistas com representantes de instituições

religiosas ou relacionadas, e as muitas discussões informais com professores e

amigos propiciadas no ambiente acadêmico e pessoal.

O presente assunto que muitas vezes tem sua abordagem polemizada em

decorrência da natureza dos valores que são postos à prova em cada discussão,

centrou-se tão somente em sua proposta acadêmica mais simples, que relaciona

dois conceitos muito próprios através de um estudo imparcial e, portanto,

tecnicamente desprovido de preconceitos que pudessem eventualmente distorcer

tendencialmente seus resultados. Assim, limita-se às fronteiras do método

científico sem invadir o campo das opiniões pessoais.

Desta forma, ao presente trabalho não atribuímos nem tampouco o menor

resquício de pretensão de reduzir o campo da religião tão somente ao aspecto

econômico e de mercado pelo qual o abordamos. Pelo contrário, reconhecemos

seus vieses independentes em absoluto deste padrão de abordagem e o absurdo

que nos parece submeter a grandeza da religião exclusivamente à dinâmica de

concorrência entre os grupos que a compõem. Neste sentido, em hipótese

alguma este trabalho contempla a idéia de que os indivíduos direta e

indiretamente envolvidos nas relações sociais ligadas ao fenômeno religioso o

fazem por motivações de caráter estritamente econômico. A fé e crença das

pessoas são plenamente reconhecidas e respeitadas, independendo, portanto, da

dinâmica de mercado à qual acreditamos que o campo religioso esteja

inevitavelmente submetido; dada a sucessão de transformações sociais que nos

antecedem e permanecem.

7

Ainda que especificado este foco e não obstante ao conjunto de referências

sob as quais este estudo foi desenvolvido, reconhecemos suas limitações e

deficiências no tangente à profundidade de análise de cada elemento presente.

Admitimos, neste sentido, a superficialidade com a qual alguns dos pontos de

menor relevância foram tratados, ainda que extremamente férteis para uma

análise mais apurada. Contudo, o presente estudo traz consigo, dentro destes

limitantes, um empenho maximizado, orientado a uma análise modesta da

estrutura de mercado da concorrência religiosa, pautadas sobre os princípios de

moralidade e ética de uma iniciação científica séria e dedicada.

8

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