PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS Centro de Economia e Administração Faculdade de Ciências Econômicas

ANÁLISE DA ESTRUTURA DE MERCADO DA CONCORRÊNCIA RELIGIOSA: O OLIGOPÓLIO DA FÉ

Marcos Guilherme Cassolato de Oliveira

Campinas, São Paulo 2005

i PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS Centro de Economia e Administração Faculdade de Ciências Econômicas

ANÁLISE DA ESTRUTURA DE MERCADO DA CONCORRÊNCIA RELIGIOSA: O OLIGOPÓLIO DA FÉ

Marcos Guilherme Cassolato de Oliveira

Monografia apresentada à Faculdade de Ciências Econômicas do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas, sob a orientação do Prof. Mestre Antonio Carlos de Azevedo Lobão

Campinas, São Paulo 2005

ii Autorização do aluno

Autorizo a disponibilidade desta monografia na Biblioteca da PUC Campinas para consultas públicas e referências bibliográficas, mas reproduções, total ou parcial, somente poderão ser feitas mediante autorização expressa do autor, conforme o que dispõe a legislação vigente sobre direitos autorais.

Nome legível do aluno

Assinatura do aluno

_________________________________________________________________

Local e data

Campinas, 16 de dezembro de 2005.

iii DEDICATÓRIA

À minha querida Li e nossos familiares, pelo amor e compreensão sem os quais nada disso seria possível

iv AGRADECIMENTOS

O presente trabalho acadêmico é o resultado de um longo período de estudos na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, que teve indispensável contribuição de professores, colegas e várias outras pessoas. Com as desculpas por alguma eventual omissão, apresento, em seguida, meus agradecimentos sinceros a todas essas pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este estudo fosse concluído:

Ao Prof. Dr. Cândido Ferreira da Silva Filho, na condição de Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas, pelo apoio institucional e atenção. Ao Prof. Dr. Josmar Cappa, coordenador da atividade de monografia da Faculdade de Ciências Econômicas do Centro de Economia e Administração da PUC Campinas, pelo apoio institucional e atenção. Ao Prof. Mestre Antonio Carlos de Azevedo Lobão, orientador e incentivador dos meus trabalhos de graduação na Faculdade de Ciências Econômicas da PUC Campinas, pelo apoio, atenção e amizade. Ao Prof. Dr. Márcio Roberto Pereira Tangerino, co-orientador e incentivador dos meus trabalhos de graduação na Faculdade de Ciências Econômicas da PUC Campinas, pelo apoio, atenção e amizade. À Profa. Mestre Ivana Pereira Goulart, pela atenção e apoio pedagógico na área de marketing e orientação acerca dos métodos e técnicas para realização de entrevistas acadêmicas. Ao Prof. Dr. Carlos Alberto da Cunha Almendra, pela atenção e orientação acerca dos métodos e técnicas para realização de entrevistas acadêmicas.

v Ao Prof. Dimas Alcides Gonçalves, incentivador dos meus trabalhos de graduação, pelo apoio, atenção e amizade. Ao Prof. Mestre Arnaldo Lemos Filho, pela atenção e apoio bibliográfico. Aos Profs. Dr. Lineu Carlos Maffezoli e Dra. Nelly Maria Sansigolo de Figueiredo, pelas aulas indispensáveis para elaboração deste trabalho. Ao Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC Campinas, Sua Eminência Reverendíssima, Dom Bruno Gamberini, pela atenção, incentivo, e concessão de entrevista acadêmica. Ao Pastor Presbiteriano Abimael Etz Rodrigues, pela atenção, incentivo e concessão de entrevista acadêmica. Ao Prof. Mestre Antônio Miguel Kater Filho, idealizador e 2º vice-presidente do Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC), pela atenção e concessão de entrevista acadêmica. Finalmente, a todos os familiares, amigos e colegas sem os quais este estudo não seria possível, pela atenção, incentivo e compreensão, sempre presentes nas inesgotáveis e proveitosas conversas.

vi SUMÁRIO

Lista dos Anexos ........................................................................................... Lista dos Apêndices ...................................................................................... Relação das siglas usadas no texto .............................................................. RESUMO ....................................................................................................... INTRODUÇÃO .............................................................................................. CAPÍTULO 1 – Oligopólio: estrutura de mercado .................................... 1.1 – Retrospectiva: concentração de capital e a consolidação da etapa monopolista do capitalismo .............................................. 1.2 – O oligopólio segundo seus pressupostos ................................... 1.3 – Configurações da estrutura oligopolista ..................................... 1.3.1 – Oligopólio puro ou concentrado .................................... 1.3.2 – Oligopólio diferenciado ................................................. 1.3.3 – Oligopólio misto ............................................................ 1.4 – Barreiras à entrada ..................................................................... 1.4.1 – Economias de larga escala como barreiras à entrada .. 1.4.2 – Vantagens de custo absoluto das empresas estabelecidas como barreiras à entrada ....................... 1.4.3 – Vantagens por diferenciação de produtos das empresas estabelecidas como barreiras à entrada ...... 1.5 – Estratégias de mercado em oligopólio ....................................... 1.5.1 – Bases de competição extra-preço ................................ 1.5.2 – Alianças estratégicas .................................................... 1.6 – Exemplo de mercado oligopolizado: a indústria de bebidas no Brasil .......................................................................................... CAPÍTULO 2 – O campo religioso .............................................................. 2.1 – O que são as igrejas e o que elas “vendem” ..............................

viii ix x xii 1 8 8 12 16 18 19 20 21 22 23 25 26 28 30 33 35 35

vii 2.2 – Noção de campo religioso .......................................................... 2.3 – A concorrência religiosa ............................................................. 2.4 – Panorama do campo religioso brasileiro – aspectos qualitativos das denominações cristãs e suas respectivas taxas de participação na sociedade .......................................................... CAPÍTULO 3 – Aspectos concorrenciais da religião no Brasil ............... 3.1 – Grau de concentração do setor religioso e a recente evolução do cenário concorrencial ............................................................ 3.2 – O surgimento de novas competidoras e as barreiras envolvidas 3.3 – Estratégias de competição ......................................................... 3.3.1 – Serviços diferenciados .................................................. 3.3.2 – A importância do marketing .......................................... 3.3.3 – Práticas ecumênicas ..................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA .................................................................. ANEXOS ....................................................................................................... APÊNDICES ................................................................................................. 41 44

49 58 58 62 67 69 78 89 93 103 109 111 129

viii LISTA DOS ANEXOS

ANEXO I – ANEXO II – ANEXO III –

Base de competição dos setores oligopólicos segundo o grau de diferenciação dos produtos ...................................... Exemplo de cartão do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ de instituição religiosa .............................. Sub-classes CNAE para enquadramento fiscal das instituições religiosas ............................................................

111 112 113 114 120 122 123 124

ANEXO IV – Classificação de religião adotada pelo IBGE para o Censo Demográfico de 2000 ............................................................ ANEXO V – População residente, por sexo, segundo a religião – Brasil – 2000 ...................................................................................

ANEXO VI – Distribuição percentual da população segundo a religião – Brasil – 1872-2000 ................................................................ ANEXO VII – Média de anos de estudo por religião – Brasil – 1991-2000 ANEXO VIII – Evolução do percentual de urbanização e de pessoas sem religião – 1890-2000 ............................................................. ANEXO IX – Quantidade de paróquias, presbíteros, diáconos, irmãos e irmãs católicos das circunscrições eclesiásticas da Regional Sul 1 da CNBB ....................................................... ANEXO X – Exemplos de panfleto distribuído pela Igreja Universal do Reino de Deus com intuito de atrair fiéis ..............................

125 127

ANEXO XI – Screenshot de enquête da Igreja Universal do Reino de Deus para classificação dos fiéis segundo o motivo de filiação ...................................................................................

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ix LISTA DE APÊNDICES

APÊNDICE A –

Gráfico da Curva de Lorenz e Coeficiente de Gini aplicado às denominações religiosas, segundo a distribuição de fiéis – Brasil – 2000 ................................. Gráfico do Índice Herfindahl-Hirschman (IHH) de concentração industrial do campo religioso, segundo a participação no total de fiéis – Brasil – 1960-2000 e Gráfico da redução percentual do Índice de HerfindahlHirschman (IHH) – Brasil – 1970-2000 ............................ Gráfico da evolução das participações católicas, evangélicas e sem-religião no total da população – Brasil – 1950-2000 .......................................................... Análise gráfica das vantagens estratégicas de segmentação dos fiéis pelas denominações religiosas ...

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APÊNDICE B –

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APÊNDICE C –

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APÊNDICE D –

x RELAÇÃO DAS SIGLAS USADAS NO TEXTO

ANEEL CADE CBA CERIS CMI CNAE CNBB CNPJ CONCLA CONIC CPS FGV GM IBGE IBMC IBRE ICAR ICOS ICR IEAB IECLB IHH

Agência Nacional de Energia Elétrica Conselho Administrativo de Defesa Econômica Companhia Brasileira de Alumínio Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais Conselho Mundial de Igrejas Classificação Nacional de Atividades Econômicas Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas Comissão Nacional de Classificações Conselho Nacional das Igrejas Cristãs Centro de Políticas Sociais Fundação Getúlio Vargas General Motors Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto Brasileiro de Marketing Católico Instituto Brasileiro de Economia Igreja Católica Apostólica Romana Igreja Católica Ortodoxa Siriana do Brasil Igreja Cristã Reformada Igreja Episcopal Anglicana do Brasil Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil Índice Herfindahl-Hirschman

(continua)

xi

(continuação)

IM IPU IURD OPEP PMR PUC RCC USP

Igreja Metodista Igreja Presbiteriana Unida Igreja Universal do Reino de Deus Organização dos Países Exportadores de Petróleo Partido Municipalista Renovador Pontifícia Universidade Católica Renovação Carismática Católica Universidade de São Paulo

xii RESUMO

CASSOLATO OLIVEIRA, M. Guilherme. Análise da estrutura de mercado da concorrência religiosa: o oligopólio da fé. Campinas, 2005. Monografia, Graduação em Ciências Econômicas, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, 2005.

O presente estudo propõe-se a compreender, à luz das teorias microeconômicas e da sociologia da religião, o fenômeno da concorrência religiosa, que, uma vez reconhecido, conduz-nos à problemática centrada nos aspectos estruturais que definem o presente mercado de bens simbólicos associados à religião. Assim, na ausência de maiores pretensões, empenha-se no objetivo de analisar a estrutura de mercado da concorrência religiosa, orientado, sobretudo, pelos esforços de legitimação das hipóteses de que ela não só existe, como também, tem sua estrutura de mercado imersa em características típicas de um oligopólio secular. Referenciado pela associação de uma análise conjuntural do campo religioso brasileiro à uma revisão bibliográfica que compreende algumas das principais obras relacionadas à teoria do oligopólio e ao fenômeno sociológico da mercantilização da religião, demonstra cientificamente o conjunto de elementos que permitem caracterizar a estrutura do mercado religioso como uma dinâmica de competição tipicamente oligopólica; passando necessariamente pela avaliação do grau de concentração industrial e dos instrumentos de competição empregados, que se estendem da segmentação dos fiéis por prestação de serviços diferenciados ao uso calculista e deliberado das técnicas de marketing.

Termos de indexação: mercado, estrutura de mercado, competição, oligopólio, concorrência, religião, mercado religioso, sociologia da religião.

1 INTRODUÇÃO

A percepção acerca do comportamento da sociedade e do mundo, seja ela, orientada pela sua ótica filosófica, econômica, política, religiosa ou antropológica, no tangente às particularidades que se evidenciam para cada um nós, em meio ao emaranhado de relações sob e sobre as quais a história da humanidade é escrita, deve ser sempre o suficiente para despertar o aspecto investigativo que reside em todo ser humano. Parte deste espírito de descobrimento, organizado ou intuitivo, o processo pelo qual a sociedade se constrói, destrói e reconstrói novamente. Dele somos servidos desde a primeira tentativa de compreensão do ambiente no qual nos inserimos, às inspirações para as maiores descobertas de todos os tempos. Imersos num pequeno arbusto da incomensurável árvore de idéias tão somente resultante desta propriedade que, pelo que se sabe, nenhuma espécie melhor do que a nossa desenvolveu, atentamo-nos, à luz da formação humana, social e econômica, a um fenômeno de dimensões infinitesimais, mas que ainda assim permite-se incorporar a todos nós, inevitavelmente, de uma forma ou de outra. Como que centrados microscopicamente numa única folha do arvoredo sem fim, deparamo-nos com o fenômeno sociológico e, ao mesmo tempo, econômico, protagonizado pela instituição da religião; através do qual se reconhece a noção conflituosa do campo que a compreende e sua respectiva convergência para um padrão comportamental secular, caracterizado pela metáfora do mercado. Em outros termos, propusemo-nos a compreender o fenômeno da concorrência religiosa, que, uma vez reconhecido, conduz-nos à problemática centrada nos aspectos estruturais que definem o presente mercado de bens simbólicos associados à religião. Ou seja, se de fato pode-se tratar o campo religioso em termos de concorrência e mercado; do ponto de vista econômico, sob qual estrutura de normas, valores e padrões comportamentais esta dinâmica se define? Assim, na ausência de maiores pretensões, empenhamo-nos no objetivo de analisar a estrutura de mercado da concorrência religiosa.

2 Norteados por este propósito, apropriar-nos-emos de parte dos arsenais teóricos das ciências econômicas e sociais para testar formalmente a hipótese que se apóia na autenticidade do tratamento das relações sociais do campo religioso em termos de mercado e, mais do que isso, se define pela possibilidade efetiva de atribuição do comportamento das instituições religiosas às

características gerais dos segmentos oligopólicos seculares. Dedicar-nos-emos, portanto, aos esforços de legitimação da hipótese de que a concorrência religiosa não só existe, como também, tem sua estrutura de mercado imersa em características típicas de um oligopólio qualquer. Entendemos que a presente proposta de análise científica encaixa-se positivamente no conjunto de esforços que se somam na busca por explicações satisfatórias dos sucessivos processos de transformação da sociedade. À medida que a sociedade se transforma, redefine-se a estrutura social que compreende o conjunto de normas, valores e padrões comportamentais regentes das próprias interações entre os indivíduos, grupos e classes que se sucederam nesta mesma sociedade. O processo ao longo do qual a sociedade vem se transformando intensamente nos últimos séculos teve suas origens na percepção aparentemente racional das vantagens sociais de especialização do trabalho, que destituiria o ser humano da auto-suficiência imediata, tornando-o satisfeito por vias indiretas, através da dinâmica do mercado. Analogamente à natureza, que fora tratada por terra e mercantilizada como que de controle exclusivo daqueles que a cercam e bradam pela sua propriedade, as horas de vida humana transformaram-se em mercadoria, chamadas de trabalho e negociadas de acordo com a lógica da livre ação dos mercados de ofertantes e demandantes. Esta transformação tão bem tratada por moinho satânico1 instituiria as bases pelas quais a sociedade naturalizaria a lógica do mercado para tudo que se pudesse agregar utilidade; transformando-nos em incontroláveis negociantes de bens e serviços que se estenderiam dos mais primordiais para subsistência humana à nossa própria personalidade. A legitimação deste novo regime pela sociedade asseguraria o estabelecimento de uma nova estrutura social, capaz de

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Karl Polanyi. A grande transformação – as origens da nossa época. 5ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000, 349 p.

3 normalizar as relações de troca para quaisquer necessidades de cujas suficiências houvesse alguém desprovido. Neste contexto, a religião, não mais própria do homem e já

institucionalizada e disposta na forma de capital religioso (ou qualificação religiosa) sob o domínio de um corpo seleto de especialistas, adaptar-se-ia facilmente à nova dinâmica social; transformando-se também numa mercadoria para o consumo. No mercado de bens simbólicos que se associam à religião, legitimado e aceito pela sociedade, a disposição de sua estrutura, traduzida pelo conjunto definido de normas e valores eticamente incorporados, definiria os padrões comportamentais das relações sócio-econômicas ocorridas nesta esfera. Em outras palavras, o reconhecimento da estrutura do mercado religioso permite-nos compreender a lógica social, econômica e cultural que orienta suas relações. Na prática, oferece-nos um meio de compreensão crítica do processo de mercantilização da religião, de acirramento da concorrência religiosa e do conjunto de interações deste campo com os segmentos mais seculares da sociedade. A partir desta análise busca-se sentido para as recentes mudanças nas formas de interação das instituições religiosas com a sociedade. Atualmente, no Brasil, estas interações conformam um cenário no qual se faz presente a atuação das igrejas e seitas através da grande mídia, até mesmo como controladoras de emissoras de rádio e televisão2; também na política, tendo seus interesses representados em praticamente todas as instâncias de governo, o que inclui no presente momento o Congresso Nacional e a vice-presidência da República3. Presenciamos o nascer dos padres e pastores midiáticos que, à medida que tocam seus trabalhos de evangelização, são responsáveis pelo comércio de livros, CDs e afins, que movimentam milhões a cada ano. No Brasil, estima-se que pelo menos meio bilhão de reais anuais seja girado somente em produtos evangélicos; grupo ao qual se atribui também as grandezas de 1 milhão de empregos gerados e cerca de 10 000 novos pontos de pregação abertos a cada
As Redes Record de rádio e televisão (terceira maior do país) e Mulher de televisão, por exemplo, são grupos de emissoras de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus; ao mesmo tempo, a Igreja Católica Apostólica Romana do Brasil desenvolve suas três emissoras de TV: Rede Vida, Canção Nova e Século XXI. 3 José de Alencar, vice-presidente da República durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, filiou-se em 2005 ao Partido Municipalista Renovador (PMR), criado pela Igreja Universal do Reino de Deus, na figura de seu fundador, o bispo Edir Macedo.
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4 ano4. Na sociedade americana, estes números se multiplicam exponencialmente em venda de livros5, quantidade de emissoras de rádio e televisão exclusivamente cristãs, e nas bilheterias de cinema e produtos associados a filmes e seriados desta natureza6. Diante desta realidade, procuramos compreender os aspectos estruturais que definem a dinâmica de concorrência no mercado religioso, bem como sua origem e similaridade com os segmentos econômicos mais seculares. Entendemos que as características estruturais deste mercado, vistas pela ótica das ciências econômicas em associação às teorias sociológicas da religião, têm muito a nos oferecer em discernimento deste fenômeno singular, ainda que intimamente relacionado a fatores que o precedem. Uma vez sociologicamente compreendido, apropriamo-nos das teorias econômicas para analisar este fenômeno acerca das especificidades que permitem caracteriza-lo quanto a sua estrutura de mercado, distinguindo-o dentro dos conceitos de monopólio, concorrência perfeita e seus intermediários, capazes de definir as relações de poder e competição que se envolvem. Com base nesta orientação, trabalharemos nas próximas páginas a teoria do oligopólio, cujo objeto se associa hipoteticamente à problemática deste estudo, procurando resgatar historicamente alguns dos elementos observáveis ao longo do processo pelo qual esta estrutura de mercado tornou-se predominante na economia mundial, distinguindo-se por suas especificidades de outras formas de organização. Entenderemos a tipologia do oligopólio e algumas de suas características genéricas mais relevantes, tais como as barreiras econômicas ao acirramento da dinâmica de concorrência e os instrumentos estratégicos de competição que lhe são típicos. Neste contexto, procuraremos compreender os aspectos teóricos característicos da dinâmica que se subentende ao conceito de mercado oligopolizado, procurando, dentro do possível, exemplifica-lo em termos práticos. Num outro pólo abordaremos o objeto ao qual se pretende relacionar as teorias microeconômicas adotadas, formando um conceito sobre o campo
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Luciana Farnesi. Um mercado movido pela fé. Revista Exame, 16 Fev. 2005, p. 60-61. A venda de livros religiosos nos EUA representa cerca de 11% de uma indústria cujo faturamento se aproxima de US$ 14 bilhões, de acordo com Sérgio Dávila. Direita religiosa mostra rosto e lucra nos EUA de Bush. Folha de São Paulo, Califórnia, 27 Mar 2005, caderno A, p. 15. 6 Sérgio Dávila, op. cit.

5 religioso, a partir da compreensão dos agentes que o protagonizam. Procuraremos desenvolver as principais características que permitem definir as instituições religiosas e os serviços que elas prestam, num contexto de convergência destes elementos para os aspectos de organização que permitem associa-las ao conceito de firmas atuantes. À luz do pensamento sociológico, desenvolveremos a noção clássica de campo religioso que pressupõe a natureza de conflito das relações dadas nesta esfera social, passando pelo processo através do qual se formariam as bases para a constituição de um mercado de bens simbólicos associados à religião. A noção de concorrência religiosa adentra sociologicamente nestas bases para explicarmos o conjunto de transformações sociais que propulsaram o processo de mercantilização da religião, definindo uma situação de pluralidade do campo religioso, cuja interação se traduziria pela dinâmica da concorrência de mercado e se arrastaria, intensificando-se nestes padrões, até os dias de hoje. Neste contexto, trabalharemos o panorama atual do campo religioso brasileiro, quanto à posição dos agentes que o compõem, suas respectivas taxas de participação na sociedade e alguns dos aspectos qualitativos que permitem distingui-los entre si, no tangente às parcelas da população que detêm. Finalmente, desenvolveremos os elementos que permitem relacionar em definitivo as teorias microeconômicas dos mercados estruturados em oligopólio à dinâmica de concorrência do campo religioso. Analisaremos os principais aspectos do mercado brasileiro de bens simbólicos associados à religião, quanto ao grau de concentração do setor e a recente evolução do cenário concorrencial, destacando o surgimento de novas competidoras e as barreiras que eventualmente se fazem presentes. Dentro disso, procuraremos entender os elementos estratégicos mais importantes pelos quais a dinâmica de competição toma forma; demonstrando a importância de práticas que envolvem a diferenciação dos serviços religiosos e a segmentação dos fiéis, a adoção dos instrumentais de marketing e o papel das chamadas ações ecumênicas neste processo. Para tornar tudo isso possível, recorremos a uma revisão bibliográfica mínima de títulos que se estenderam das teorias microeconômicas mais clássicas no tratamento dos oligopólios a alguns dos principais pensadores da sociologia da religião, notadamente, os que centraram a análise ao seu inter-relacionamento

6 com a esfera econômica. Neste grupo destacam-se célebres como Max Weber (1967), Pierre Bourdieu (1974) e Peter Berger (1985); subsidiando os estudos que se confrontariam com as idéias econômicas de Paolo Sylos-Labini (1986), Joe Staten Bain (1956; 1963) e tantos outros. Somados a isso, contamos com dezenas de textos oriundos das mais diversas fontes, dentre as quais se destacam notícias, matérias e artigos de jornais e revistas da grande e pequena imprensa; dissertações e um conjunto de dados e informações relevantes, organizados por institutos de pesquisa como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Centro de Políticas Sociais (CPS) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV). Além terem contribuído grandemente os resultados de entrevistas com representantes de instituições religiosas ou relacionadas, e as muitas discussões informais com professores e amigos propiciadas no ambiente acadêmico e pessoal. O presente assunto que muitas vezes tem sua abordagem polemizada em decorrência da natureza dos valores que são postos à prova em cada discussão, centrou-se tão somente em sua proposta acadêmica mais simples, que relaciona dois conceitos muito próprios através de um estudo imparcial e, portanto, tecnicamente desprovido de preconceitos que pudessem eventualmente distorcer tendencialmente seus resultados. Assim, limita-se às fronteiras do método científico sem invadir o campo das opiniões pessoais. Desta forma, ao presente trabalho não atribuímos nem tampouco o menor resquício de pretensão de reduzir o campo da religião tão somente ao aspecto econômico e de mercado pelo qual o abordamos. Pelo contrário, reconhecemos seus vieses independentes em absoluto deste padrão de abordagem e o absurdo que nos parece submeter a grandeza da religião exclusivamente à dinâmica de concorrência entre os grupos que a compõem. Neste sentido, em hipótese alguma este trabalho contempla a idéia de que os indivíduos direta e indiretamente envolvidos nas relações sociais ligadas ao fenômeno religioso o fazem por motivações de caráter estritamente econômico. A fé e crença das pessoas são plenamente reconhecidas e respeitadas, independendo, portanto, da dinâmica de mercado à qual acreditamos que o campo religioso esteja inevitavelmente submetido; dada a sucessão de transformações sociais que nos antecedem e permanecem.

7 Ainda que especificado este foco e não obstante ao conjunto de referências sob as quais este estudo foi desenvolvido, reconhecemos suas limitações e deficiências no tangente à profundidade de análise de cada elemento presente. Admitimos, neste sentido, a superficialidade com a qual alguns dos pontos de menor relevância foram tratados, ainda que extremamente férteis para uma análise mais apurada. Contudo, o presente estudo traz consigo, dentro destes limitantes, um empenho maximizado, orientado a uma análise modesta da estrutura de mercado da concorrência religiosa, pautadas sobre os princípios de moralidade e ética de uma iniciação científica séria e dedicada.

8 CAPÍTULO 1 – OLIGOPÓLIO: ESTRUTURA DE MERCADO

1.1

Retrospectiva: concentração de capital e a consolidação da etapa

monopolista do capitalismo

Para o entendimento da consolidação do oligopólio enquanto estrutura de mercado predominante na economia moderna e cuja teoria é instrumento desta monografia de conclusão de curso, recorremos a uma retrospectiva dos fatos ao longo da história econômica que explicaram o surgimento do capitalismo propriamente dito, bem como as substanciais modificações em sua estrutura. Devido a suas características marcantes, usa-se conceituar a primeira etapa do sistema capitalista como concorrencial, que teve como lócus a GrãBretanha da 1ª Revolução Industrial. Nesta fase o processo de desdobramento do capital de sua forma acumulativa primitiva para a forma industrial foi marcado pelo aparecimento de muitas pequenas unidades fabris conduzidas por “homens práticos”; em geral, seus próprios proprietários, operando em condições de competição mais ou menos perfeitas, nas quais os preços eram determinados pelas forças de oferta e procura (dos tempos de Adam Smith e David Ricardo). A associação de um padrão tecnológico relativamente simples, de fácil aprendizado, transmissão e absorção7, ao baixo volume de capital inicial requerido para se instalar um novo empreendimento e, fundamentalmente, às condições manufatureiras, mercantis e de distribuição8 pré-existentes na Inglaterra, criou condições para que neste país o processo de expansão capitalista tivesse sua gênese. Com a facilidade para que novas empresas se instalassem no mercado e a facilidade de mobilidade dos fatores de produção, em particular, do capital, a

Anotações de aula de Desenvolvimento sócio-econômico, ministrada pelo professor Lineu Carlos Mafezolli. 8 E. J. Hobsbawm (1978) apontou em Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo como fator de vantagem da Grã-Bretanha no campo dos transportes e das comunicações o fato de que nenhuma parte do país achava-se a mais de 112 Km do mar e menos ainda de algum curso de água navegável.

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9 etapa concorrencial do capitalismo foi também caracterizada pela “tendência a igualdade da taxa de lucro entre os vários capitais investidos na economia”9. O professor Alonso em sua tese de doutoramento (OLIVEIRA, 1978) afirmou sobre o capitalismo concorrencial, que esta fase “conforma uma estrutura econômica cuja reprodução é regulada por mecanismos puramente econômicos” e, portanto, sua expansão podia dispensar apoios externos, que, na fase da acumulação primitiva, foram oferecidos pelo estado absolutista. O que garantia novos investimentos às empresas eram os seus próprios lucros. No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, “nas principais economias centrais, começa a se desenvolver a emergência da etapa monopolista do capitalismo”10. Durante esta fase de re-configuração do sistema pôde-se observar a intensificação do processo de concentração do capital, “centrado, ao mesmo tempo, numa aceleração do ritmo de incorporação do progresso técnico e numa nova tecnologia [...], baseada na aplicação direta da ciência e da investigação científica”11. Este processo de concentração, durante a 2ª Revolução Industrial, “vai promovendo a monopolização dos principais mercados industriais por empresas cada vez maiores”12, minimizando a importância da concorrência via preços como forma de ocupar uma maior fatia do mercado, e transformando a concorrência numa “rivalidade oligopolista"13. Como explicação das razões da intensificação do processo de

concentração capitalista, várias óticas podem ser assumidas, tal como a da revolução dos transportes, com o advento das ferrovias. Esta inovação elevou a capacidade das empresas de atenderem regiões mais distantes, as quais procuraram expandir suas plantas de modo a poderem produzir mais, com menores custos, extraindo ganhos de escala que lhes colocassem em posição de vantagem frente às concorrentes, incorporando fatias de mercado.

Anotações de aula de Desenvolvimento sócio-econômico, ministrada pelo professor Lineu Carlos Mafezolli.. 10 Material de apoio às aulas de Desenvolvimento sócio-econômico, ministradas pelo professor Lineu Carlos Mafezoli, 2º semestre de 2004. 11 Idem. 12 Idem. 13 Márcio Andreolli, A estrutura oligopolista de mercado: a indústria de cerveja como oligopólio diferenciado. São Paulo: PUC/SP, 1999. O emprego do termo “rivalidade”, em especial quando associado ao oligopólio, será explicado no próximo tópico (1.2).

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10 Bain (1963 apud ANDREOLLI, 1999, p. 20) apontou a expansão da ferrovia como responsável pela unificação dos mercados, que, associada aos avanços tecnológicos, teria promovido o processo de concentração na economia americana. Para Hilferding (apud ANDREOLLI, 1999, p. 17), no entanto, o que leva à passagem da fase concorrencial para a monopolista é genericamente a busca incessante do maior lucro possível. O capitalista aumenta seu lucro expandindo sua área de atuação, vendendo em outros mercados, que oferecessem margens de lucro superiores à média; ou devido ao seu mercado estar oferecendo margens de lucro inferiores à média. Para o autor, neste momento de migração para outros mercados, o capitalista se defronta com outras empresas já instaladas e, por conta disso, com necessidade de capital substancialmente maior, explicando, nos ramos mais dinâmicos da economia, a substituição das pequenas empresas, características do capitalismo concorrencial pelas grandes. A ampliação da escala de produção pode conduzir à incorporação de capitais já estabelecidos em um mercado, por outras empresas. Esta incorporação é uma tendência paralela à natureza de acumulação e concentração típica do capitalismo e caracteriza um fenômeno importante do sistema: a centralização de capital; definida por Marx como a “expropriação de capitalista por capitalistas, transformação de muitos capitalistas menores em poucos capitalistas maiores”14. Pode ser entendido como derivado do processo de concentração, com centralização de capital, o fenômeno conhecido como verticalização ou integração vertical, com a formação de grupos econômicos nos quais várias empresas de diversos setores – industriais ou não – são de propriedade de um mesmo capital. Estes grupos são comumente formados a partir do momento que uma empresa identifica uma dependência sua em relação a uma fornecedora, de insumos básicos como o algodão para a indústria têxtil, por exemplo; ou em relação um intermediário do intervalo da cadeia produtiva que a une aos seus clientes, tais como os fornecedores de crédito ao consumidor. Esta empresa pode resolver, portanto, produzir para si mesma aquilo que lhe gera dependência, incorporando a empresa fornecedora, e constituir com isso um grupo vertical.
14

Karl Marx, “A lei geral da acumulação capitalista”. O Capital. Livro I. 2ª ed., Coleção Os economistas. São Paulo, Ed. Nova Cultural. 1985 (1867), vol. I, Cap. XXIII: p. 196.

11 A título de exemplo, pode ser apontada a iniciativa realizada pelo Grupo Votorantim, do empresário Antônio Ermírio de Moraes, que construiu usinas produtoras de energia elétrica para atenderem a fabricação de alumínio de sua companhia, a CBA – Companhia Brasileira de Alumínio15. Chandler (1962 apud ANDREOLLI, 1999, p. 19) apontou em seus estudos que o processo de concentração da economia americana seria decorrente de dois fatores, dentre eles a incapacidade da rede atacadista de propiciar crédito ao consumidor e assistência técnica aos bens duráveis, e, no que diz respeito aos bens perecíveis, incapacidade de armazenamento. Com isso o caminho lógico para o crescimento da empresa seria através das fusões e da contribuição das Sociedades Anônimas (ANDREOLLI, 1999). Teve, portanto, além do crédito voltado à produção, papel fundamental no processo de centralização econômica, que marcou a etapa moderna do capitalismo oligopolista, as grandes corporações de capital aberto, Sociedades Anônimas (S/A’s), “dirigidas por executivos e não mais por seus proprietários; empresas virtualmente ‘socializadas’ e atuando em mercados oligopolísticos, de competição imperfeita, de preços e salários ‘administrados’, a salvo praticamente das incertezas da oferta e da procura”16. Todo este “crescimento das forças produtivas, do progresso tecnológico e da produção por uma maior escala”, sejam eles decorrentes da acumulação com concentração inerente ao próprio modo de produção capitalista ou da centralização, “resultam num enorme incremento do capital”, como afirma Andreolli (1999). Para o autor este crescimento acentuado de capital implica não somente a sua dificuldade de transferência, uma vez imobilizado, mas principalmente a exigência de maiores montantes de capital disponível nas mãos de um indivíduo para aplicação em determinados setores. Em decorrência desta exigência de maiores montantes de capital, fruto da etapa monopolista, ou, a partir de agora, melhor diríamos, etapa oligopolista do capitalismo, vieram novas barreiras à mobilidade, as quais, para Hilferding (apud

15

Atualmente a CBA é apontada como proprietária de pelo menos quinze usinas geradoras de energia elétrica – duas delas ainda em construção –, responsáveis em conjunto por aproximadamente 2,1469% do potencial energético brasileiro, de acordo com dados do Banco de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL. Disponível em <http://www.aneel.gov.br>. Acessado em 19 Abr. 2005. 16 Material de apoio às aulas de Desenvolvimento sócio-econômico, ministradas pelo professor Lineu Carlos Mafezoli, 2º semestre de 2004.

12 ANDREOLLI, 1999, p. 18), substituíam as “velhas e antigas barreiras jurídicas”, na forma de novas “barreiras econômicas, que limitavam a liberdade do capital”17. Em resumo, fatores econômicos, intrinsecamente associados ao sistema capitalista, sustentaram a superação da etapa concorrencial, em direção ao capitalismo oligopolista. A acumulação, a concentração em relação ao número de trabalhadores e, fundamentalmente a centralização de capitais conformaram um cenário novo às economias mundiais, no qual um número restrito de grandes corporações, geridas por executivos, que disputam e ao mesmo tempo protegem seus mercados, sobre os quais têm poder, visando, sobretudo, ganhos aos seus acionistas.

1.2

O oligopólio segundo seus pressupostos

O objetivo central deste tópico do capítulo primeiro desta dissertação consiste na definição do conceito de oligopólio à medida que este é comparado ao conceito de concorrência perfeita, evidenciando as distinções entre essas duas estruturas de mercado. O entendimento destes conceitos é de fundamental importância não só para este estudo, mas, de modo geral, para todo o estudo da realidade econômica, como pôde ser observado no tópico anterior que demonstrou o processo histórico de superação da estrutura concorrencial no capitalismo. A palavra oligopólio é fruto da união do prefixo grego olígos – elemento presente na composição de várias palavras com significação de pouco18 – com a palavra pólio, derivada de poléo, cujo significado é negociar; exercer poder ou influência19. Portanto, etimologicamente oligopólio significa “poder de negociação de poucos”. A origem etimológica da palavra denuncia sua distinção econômicoconceitual mais importante: oligopólio é um tipo de estrutura de mercado, no sentido de padrão de organização, caracterizado principalmente pelo número limitado de empresas ofertantes presentes em um determinado setor da
Estas barreiras serão tratadas no item 1.4, de acordo com os estudos de Bain. Oligo também pode significar pequeno ou deficiente, de acordo com o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (NOVO BRASIL, 1987), verbete “oligo”. 19 Dicionário Priberam, disponível em <http://www.priberam.pt>. Consultar verbete “monopólio”.
18 17

13 economia, bem como pela participação deste mercado detida por cada um dos ofertantes. O oligopólio pode também ser entendido com uma “tendência que reflete a concentração da propriedade em poucas empresas de grande porte, pela fusão entre elas, incorporação ou mesmo eliminação (por compra, dupping e outras práticas restritivas) das pequenas empresas”, como definiu Sandroni (2001)20. Naturalmente, este número limitado de ofertantes que concentra

significativos montantes de capital nas mãos de poucas empresas, o que lhes permite conquistar um poder de mercado diferenciado em relação ao existente em situação de concorrência entre muitos ofertantes (concorrência perfeita ou, simplesmente, concorrência), exige dos dirigentes das empresas oligopolistas atenção redobrada às decisões tomadas por suas rivais. O emprego do termo rival é, em geral, mais apropriado para definir a relação existente entre as empresas oligopolistas de um setor, como sugere Ferguson (2003, p. 369) ao afirmar que “no oligopólio, tecnicamente, falta a concorrência, porém muitas vezes há intensa rivalidade ou concorrência no sentido popular”. O mesmo Ferguson (2003, p. 369) afirma “existir oligopólio quando mais de um vendedor estiver no mercado, porém quando o número não [grifo nosso] for tão grande a ponto de se poder negligenciar a contribuição de cada um”, encerrando, portanto, a definição clássica de oligopólio; trata-se de uma estrutura de mercado caracterizada pela de existência de poucos ofertantes – pelo menos dois – de modo que as decisões tomadas individualmente por cada firma não só podem mas, em geral, de fato afetam o comportamento do setor como um todo. Doravante conceituado, retornamos então à abordagem do oligopólio do ponto de vista do problema econômico envolvido, o qual transcende o viés quantitativo da definição do conceito21, diferenciando qualitativamente esta estrutura de mercado das demais contempladas pela teoria microeconômica. De acordo com Ferguson (2003, p. 370), “quando existem poucos vendedores, cada um deve estar consciente das ações de seus rivais e de suas reações às mudanças em sua política”; por esta mesma razão, Pindyck e
Paulo Sandroni, Novíssimo dicionário de economia. 7ª ed. São Paulo: Best Seller, 2001. Ver verbete Oligopólio. 21 O número de participantes num mercado é o ponto de partida para definir sua estrutura. Ferguson apontou como “conveniente” a classificação dos mercados segundo essa diferença. Ver FERGUSON, 2003. p. 269.
20

14 Rubinfeld (2002, p. 427) associaram complexidade à administração da empresa oligopolista uma vez que “as decisões relativas ao preço, nível de produção, propaganda e investimentos envolvem importantes considerações estratégicas”. Completam, “pelo fato de haver poucas empresas concorrendo, cada uma deve cautelosamente considerar como suas ações afetarão as rivais, bem como as possíveis reações que suas concorrentes terão” (PINDYCK; RUBINFELD, 2002, p. 427). Pindyck e Rubinfeld (2002, p. 427) exemplificam esta discussão, ensaiando a situação hipotética da Ford – uma empresa oligopolista no mercado automobilístico norte-americano – considerar a possibilidade de conceder um desconto de 10% sobre as vendas, no intuito de estimular sua demanda. Por outro lado, a Chrysler e a GM, “sensibilizadas” pela iniciativa unilateral da rival, poderiam resolver oferecer o mesmo desconto e reduzir a massa de lucro total do setor; ou iniciar uma guerra de preços com conseqüentes reduções drásticas nos lucros das companhias, ao concederem descontos de, digamos, 15%, no mínimo. Por conta desta complexidade administrativa, os rivais podem tentar adivinhar os planos de cada participante; podem tacitamente concordar em competir através da propaganda, diferenciação de produtos, reputação, serviços aos clientes, etc; ou formar expressamente um acordo e cooperar, reconhecendo seu o potencial de monopólio (FERGUSON, 2003, p. 370). Segundo Ferguson (2003, p. 370), “há tantos resultados diferentes quanto há oligopólios”, o que inviabilizaria o exame de cada um deles. Ao evidenciarmos a restrição do número de empresas participantes, que são de grande porte e concentram um significativo montante de capital, e, por conta disso, a existência de um inter-relacionamento entre as ações dos competidores, chegamos, portanto, ao terceiro pressuposto básico para caracterização de uma estrutura de mercado oligopolizada: a existência de barreiras à entrada. É predominante numa estrutura oligopolizada a existência de barreiras ao ingresso de novos rivais. Em geral essas barreiras são naturalmente constituídas, na forma de exigências mercadológicas quanto à escala de produção, padrão tecnológico, exclusividades no fornecimento de insumos e manipulação das fontes de matérias-primas, concentração de capital inicial necessário, entre outros exemplos que serão abordados no item 1.4 deste mesmo capítulo.

15 Em associação a estas características apresentamos a observação presente na análise do oligopólio de Labini (1986), a qual atribui à preocupação motriz da empresa oligopólica a manutenção de sua participação no mercado e, fundamentalmente, sua ampliação. É evidente que, enquanto entidades capitalistas, não só objetivam, mas inclusive dependem da obtenção de lucros, contudo a preocupação preponderante seria, de acordo com Labini (1986), focada na parcela do mercado que detêm. Outra característica importante para a definição do oligopólio é a base de competição, a qual, em geral, é menos presente na forma de concorrência de preços do que na forma de diferenciação de produtos, como atesta Ferguson (2003, p. 402) ao afirmar que, “em termos práticos, a concorrrência-preço ativa é raramente observada nos mercados oligopolísticos [e...] a concorrência extrapreço envolve a diferenciação do produto”. Para Dorfman (1972 apud ANDREOLLI, 1999, p. 16) também, “os oligopólios se enfrentam recorrendo a publicidade, variação de produtos, espionagem industrial, mas não via preço”. Com a diferenciação, as empresas do mercado oligopólico visam assegurar aos seus produtos um caráter de exclusividade, retirando-os da concorrência. Assim, as empresas podem conseguir, de acordo com Andreolli (1999), “vantagens com relação aos seus concorrentes como, por exemplo, a fidelidade dos consumidores a uma determinada marca em comparação a outra”. Para o autor, “os meios mais importantes e mais utilizados para acentuar a diferenciação de um produto a outro são: reputação, embalagem, formato, qualidade, cor, sabor e investimento publicitário, principalmente através da propaganda” (ANDREOLLI, 1999). No item 1.5, estas bases de diferenciação serão abordadas na forma de instrumentos estratégicos de competição. Finalmente, ao tratarmos do oligopólio, pressupomos (i) um mercado caracterizado por um número pequeno de grandes ofertantes, os quais concentram um elevado montante de capital e detêm parcelas significativas deste mercado, sobre o qual têm poder de imposição de preços22. Por conta disso (ii) estão inter-relacionados, no sentido de que as ações de uma empresa individualmente afeta as demais, assim como as possíveis reações das demais também a afetarão. Estas poucas grandes empresas (iii) agem principalmente em
22

Adam Smith já afirmava em A riqueza das nações que “quando o número de empresários é ou tornou-se reduzido, fica fácil, para eles, estabelecerem um acordo de controle de preços”, apud Labini (1986).

16 defesa de suas parcelas do mercado e contam com a imposição natural de (iv) barreiras à entrada de novos competidores. Competidores que, uma vez integrantes de um mercado oligopolizado, disputam espaço fundamentalmente por meio políticas extra-preço, com destaque à (v) diferenciação de produtos, propaganda e serviços aos clientes. O conjunto dessas pressuposições evidencia a diferença da estrutura de mercado oligopolista da abstração teórica da concorrência propriamente dita (concorrência perfeita), na qual há um (i) elevado número de vendedores e compradores, de modo que estes são tão pequenos em relação ao mercado, a ponto de não possuírem influência no preço daquilo que compram e vendem. Mesmo que vendedores ou compradores individualmente deixem ou ingressem no mercado, este não sofreria influência. Na concorrência, (ii) o produto é homogêneo e, portanto, as alternativas de consumo são perfeitamente substituíveis; (iii) há livre entrada e saída de empresas23; (iv) as informações detidas por todas as unidades econômicas são plenamente simétricas; e, (v) não existem restrições de oferta e de demanda dos produtos, já que o mercado seria naturalmente equilibrado (Lei de Say).

1.3

Configurações da estrutura oligopolista

Este tópico visa caracterizar os tipos de oligopólio segundo as clássicas configurações possíveis nesta estrutura de mercado propostas fundamentalmente por Labini (1986); contudo, para seu entendimento, julga-se importante uma explanação preliminar da origem desta discussão, ainda com a crítica de Piero Sraffa (apud LABINI, 1986) à teoria marshalliana. Os economistas neoclássicos usavam classificar as formas de mercado por meio da observação do número de empresas operando em um setor produtivo. À medida que o número de empresas fosse relativamente pequeno ou relativamente grande, o mercado poderia ser classificado como monopólico ou em concorrência, respectivamente. Segundo esse princípio, quando a produção de um determinado setor estivesse dividida entre grande número de empresas as conclusões

23

Inexistência de barreiras.

17 específicas da teoria de concorrência poderiam ser aplicadas, mesmo no caso de poderem ser observadas imperfeições na relação de troca de mercadorias. Essas trocas seriam consideradas atritos que simplesmente retardariam ou modificariam ligeiramente os efeitos das forças da concorrência, os quais, em tese, prevaleceriam. Para Sraffa (apud LABINI, 1986) essa opinião parecia ser

“fundamentalmente inaceitável”, já que essas imperfeições à condição essencial da concorrência jamais poderiam ser qualificadas como “atritos” simplesmente; elas representariam “forças ativas que produzem efeito permanentemente cumulativos”, ao ponto de serem “objeto de uma análise baseada em condições estáticas”. Portanto aquilo que assumia caráter insignificante para os economistas neoclássicos na qualificação de uma estrutura de mercado era, para Sraffa (apud LABINI, 1986), fator culminante neste processo de determinação da estrutura de mercado. Concluiu, então, que o número de empresas em um dado ramo não prova que há ou não concorrência. A partir desta crítica de Sraffa (apud LABINI, 1986), economistas puderam questionar a noção comum segundo a qual as grandes empresas, pelo fato de serem grandes, possuem poder de monopólio. O fizeram aplicando a observação de Sraffa (apud LABINI, 1986):

Se é verdade que o grande número de empresas em dado setor de atividade não constitui em si prova e evidência de que naquela atividade prevaleça a concorrência, é também verdade o contrário: um número limitado de empresas não significa que essas empresas tenham poder monopolístico. (LABINI, 1986)

A estrutura de mercado não é determinada, portanto, simplesmente pelo grau de concentração numa empresa. É fato que em geral essa concentração acrescenta poder de mercado às empresas, já que se reconhece que a produção de cada uma das empresas influencia nos preços, mesmo que sensivelmente, pois exclui a concorrência pura (LABINI, 1986); contudo, via de regra, não se pode relacionar irrestritamente o poder de mercado com o grau de concentração deste mercado.

18 Labini (1986) considerou, a título de exemplificação desta observação, a situação existente na produção de produtos manufaturados de consumo e nas atividades comerciais, nas quais predominam a existência de muitas pequenas empresas, aparentemente em concorrência entre si, mas na realidade dotadas de poderes de mercado bem definidos24. Neste caso, os produtos são diferenciados entre os vários produtores e cada ofertante é monopolista do seu próprio produto. A amplitude do “mercado em geral”25 só pode então ser medida a partir do grau de substitutibilidade, ou mais exatamente, do grau de “elasticidade indireta” da demanda. Diante destas considerações, Labini (1986) procurou analisar o oligopólio considerando-o, em relação à teoria da concorrência imperfeita, “uma posterior aproximação com a realidade”, e re-classificou esta estrutura de mercado em subestruturas: oligopólio puro ou concentrado, oligopólio diferenciado e oligopólio misto. Também foi proposta por Leftwich (1974 apud ANDREOLLI, 1999), em O sistema e preços e alocação de recursos, uma classificação dos tipos de oligopólio, segundo o grau de organização corrente entre os participantes do mercado. O oligopólio conivente e organizado, que corresponde aos cartéis; o oligopólio conivente e não organizado, caracterizado pelos acordos informais ou tácitos; e, por último, o oligopólio não conivente e não organizado, no qual as empresas agem independentemente umas das outras. Nesta obra trabalharemos com as configurações de oligopólio propostas por Labini.

1.3.1 Oligopólio puro ou concentrado

Oligopólio concentrado, também chamado de oligopólio puro, foi a classificação atribuída por Labini (1986) às estruturas de mercado oligopolistas nas quais existem um elevado grau de concentração técnica e econômica, o que significa que um número restrito de empresas detém uma parcela significativa do
24

A análise destas formas de mercado foi aprofundada por teóricos da concorrência imperfeita e/ou monopolística, tais como o próprio Piero Sraffa e Joan Violet Robinson (apud LABINI, 1986). 25 Para Labini (1986), na competição entre produtos não homogêneos o conceito de indústria perde seu significado e para o conceito de mercado deve-se distinguir o mercado “particular” dos produtos de cada empresa do mercado “geral”, no qual competem todos os produtos relativamente diferenciados, substitutos mais próximos uns dos outros.

19 mercado. J. Galbraith (1948, p. 107 apud LABINI, 1986) afirma que o “oligopólio é a maneira mais apropriada para se analisar os mercados industriais dos Estados Unidos”, baseando-se nas conclusões de vários estudos empíricos da estrutura da indústria americana26. Andreolli (1999) atribui a esse alto grau de concentração a ocorrência de economias técnicas de escala, do elevado montante de capital inicial mínimo, do controle de tecnologia ou dos insumos e do privilégio dessas unidades produtivas em relação às condições de financiamento e crédito. Além do elevado grau de concentração técnica e econômica (i), são também características do oligopólio concentrado segundo Andreolli (ii) a existência de barreiras criadas pela técnica em relação aos rivais27; (iii) homogeneidade de produtos, em que a diferenciação, quando existe, se dá ao nível da qualidade ou de especificações dos produtos; (iv) liderança de preço de uma empresa; (v) técnicas importantes de produção, que permitem a coexistência de empresas de vários tamanhos numa indústria, gerando, por conseqüência, diferentes níveis de custos de produção. Os principais setores onde podem ser observadas situações características de oligopólio concentrado são as indústrias produtoras de insumos básicos como, por exemplo, ferro, aço, matérias-primas químicas farmacêuticas, eletricidade, petróleo, cimento, papel e celulose (ANDREOLLI, 1999, p. 27).

1.3.2 Oligopólio diferenciado

Para caracterizar as situações de estruturas de mercado nas quais tem relevância certa diferenciação de produtos, Labini empregou o termo “oligopólio diferenciado” ou “oligopólio imperfeito”, expressão esta última por ele considerada mais apropriada (LABINI, 1986, p. 35). Para Andreolli (1999) o oligopólio diferenciado é predominante dentre as indústrias produtoras de bens de consumo não duráveis e suas particularidades consistem, basicamente, em (i) elevados custos de comercialização, vendas e propaganda, explicado pela alta diferenciação de produtos; (ii) concorrência entre

26

J. Galbraith, Monopoly and the concentration of economic power. In: Survey of Contemporary Economics. Coordenado por H. S. Ellis. Philadelphia: Blakiston, 1948, p. 107. (apud LABINI, 1986). 27 Andreolli (1999) não se refere às barreiras ligadas ao produto final, mas ligadas à técnica de produção.

20 as empresas via publicidade, principalmente, lançando novos produtos; (iii) pouca diversidade de técnicas utilizadas pelas empresas; (iv) inexistência de liderança de preços; (v) minimização dos custos de distribuição, de comercialização e de transporte; (vi) existência de barreiras à entrada de novas firmas, tanto internas (ligadas ao produto, tal como marca) quanto externas (gastos e investimentos necessários para instalação de fábricas com capacidade de produção igual ou superior à capacidade de produção das fábricas já existentes)28. O capital requerido das firmas ingressantes nos mercados em oligopólio diferenciado exige destas firmas a superação das dificuldades de obtenção de recursos, melhores condições de financiamentos. Terão de captar clientes em número suficiente para ressarcir o capital investido, ao passo que enfrenta a reputação de mercado conquistada pelas empresas já instaladas dos clientes que, no decorrer do tempo, criaram “lealdade” aos produtos que consomem. São também barreiras à entrada destas empresas no setor caracterizado por esta subestrutura os gastos com publicidade e tecnologia29. Andreolli (1999, p. 28) também fez questão de destacar como barreira à entrada, no oligopólio diferenciado, relacionada com a extensão do mercado, a imposição de dimensões amplas de mercado, impostas pelas empresas situadas, exigindo que as novas rivais contem com um volume de vendas relativamente grandes desde o início. Podem predominantemente ser qualificados como oligopolistas

diferenciados os setores produtores de cigarros, de produtos farmacêuticos, perfumes, conservas, licores e bebidas30.

1.3.3 Oligopólio misto

Típico de indústrias produtoras de bens de consumo duráveis, tais como automóveis, pneus, eletroeletrônicos e eletrodomésticos em geral, o oligopólio misto consiste na forma intermediária entre os dois primeiros conceitos. Apresenta as características de concentração de capital e de diferenciação de produtos.

28 29

Márcio Andreolli, op.cit. Idem, ibidem. 30 Idem, ibidem.

21

1.4

Barreiras à entrada

À medida que os mercados vão se concentrando em um número limitado de grandes empresas oligopólicas, as características individuais de uma firma têm forte participação na determinação das características do setor como um todo. Se num mercado oligopolizado houver uma firma estabelecida que possua uma determinada capacidade produtiva instalada, de modo que determine seu raio de atuação, empresas que almejem ingressar neste mercado devem incluir em sua análise de viabilidade do empreendimento um pré-requisito no que tange ao tamanho da planta, condizente com o da empresa já estabelecida. Nos oligopólios, as empresas contam com poder de mercado e, portanto, discriminam preços de acordo com suas estruturas de custo. Conseqüentemente, capitais entrantes em potencial somente se sentirão atraídos a ingressarem de fato no mercado se, ao preço praticado pelas estabelecidas, tiverem expectativas de lucros compensatórios do investimento. Implicações como estas são tratadas como barreiras à entrada de novas empresas competidoras em um mercado. Caracterizam uma condição estrutural que, em geral, são medidas e analisadas constantemente por firmas estabelecidas, que visam pelo menos a manutenção, por meio da proteção, de suas condições de lucratividade, e por firmas entrantes, que apuram suas possibilidades de extrair retornos. Para Bain (1963, p. 262), estas “condições de entrada como características estruturais de uma indústria se referem às vantagens que gozam os vendedores já estabelecidos na indústria sobre os vendedores potenciais que desejam entrar nela”31. As barreiras à entrada estruturalmente constituídas (econômicas) se associam às barreiras legais ou jurídicas e podem também ser entendidas como o resultado de ações deliberadas dos grandes oligopólios, no sentido de protegerem seus mercados da contestabilidade por capitais entrantes em potencial. A teoria dos mercados contestáveis de Baumol (1947) assume que um

31

“Las condiciones de entrada como característica estructural de una industria se refieren a las ventajas que gozam los vendedores ya estabelecidos en la industria sobre los vendedores potenciales que deseen entrar en ella” (BAIN, 1963. p. 262).

22 mercado é considerado contestável quando, dentre outros fatores, inexistem as barreiras à entrada e à saída (ausência de custos irreversíveis) de capitais. Neste caso, uma firma pode entrar no mercado contestando a estrutura de custos das empresas já estabelecidas e competindo com elas, extraindo lucros até que uma reação do mercado a convença a deixar a competição32. Com base nos estudos de Bain (1956), seguiremos classificando e definindo estas barreiras à entrada que fazem parte da caracterização da estrutura de mercado oligopolística, dividindo-as em três tipos: barreiras constituídas por economias de escala, barreiras constituídas pelo custo absoluto e barreiras constituídas por diferenciação de produtos.

1.4.1 Economias de larga escala como barreiras à entrada

Empresas que operam com grandes escalas de produção naturalmente apresentam custos médios reduzidos, já que a parcela fixa dos custos e despesas totais é rateada entre uma quantidade maior de produtos fabricados e, portanto, pode-se dizer que quanto maior a escala de produção; menores os custos unitários. Baseando-se nesta observação, Bain (1956) apontou como uma barreira à entrada de novas empresas competidoras a escala mínima de produção que lhes são requeridas para que operem com custos médios similares aos apresentados pelas empresas estabelecidas no mercado. Caso uma empresa entrante não seja capaz de operar em grande escala, ela encontrará desvantagens quanto aos seus custos, que podem, inclusive ser superiores aos preços praticados. Presume-se que empresas com capacidade de investimento publicitário que resulte em significativos incrementos na quantidade vendida, tal como informe comercial em rede de televisão aberta durante o horário considerado nobre, tendam a pagar menos por unidade acrescida nas vendas do que empresas que anunciem num jornal de distribuição regional restrita, às quartasfeiras, por exemplo33. Neste caso específico, a empresa com poder de opção pela
32

Baumol (1947) acreditava que, no intuito de prevenirem-se da contestação, as empresas estabelecidas tenderiam à máxima eficiência. Assim, manter-se-iam num nível de custos que lhes permitissem transacionar a preços baixos, de modo que os rivais em potencial não se sentiriam motivados a ingressar no mercado. 33 O exemplo do anúncio de jornal distribuído em quarta-feira deve à presunção de que, em geral, às quartasfeiras vendem-se menos jornais do que aos domingos.

23 publicidade de TV, obteria ganhos de escala superiores aos da rival menos poderosa. Podem ser apontadas como principais economias de escala as obtidas de acordo com o nível de produção, pesquisa, marketing e serviços. Andreolli (1999) associa também às barreiras à entrada por economias de escala o acesso aos canais de distribuição, para os quais geralmente são privilegiados os fabricantes de produtos com maior aceitação junto aos consumidores.

1.4.2 Vantagens de custo absoluto das empresas estabelecidas como barreiras à entrada

As barreiras à entrada constituídas pela vantagem de custo absoluto das empresas estabelecidas em relação às entrantes consistem no pressuposto de Bain (1956) de que “os custos unitários de produção das firmas potencialmente entrantes são geralmente, e mais ou menos a quaisquer escalas comuns de operações, superiores aos das firmas estabelecidas”34. Em terminologia da teoria de preços, significa afirmar que a curva de custo médio a longo prazo em função da quantidade produzida encontrar-se-ia em um nível mais elevado para a empresa entrante do que para a empresa já estabelecida. Para Bain (1956), essa vantagem da empresa estabelecida existiria no caso de a empresa entrante apropriar-se de técnicas de produção inferiores às utilizadas, ou sujeitar-se ao pagamento de preços mais elevados dos fatores de produção, tais como trabalho, materiais, plantas e capital monetário. Bain (1956) categorizou as principais fontes de vantagens por custo absoluto em quatro tipos: (1) As empresas estabelecidas podem apresentar um controle superior das técnicas de produção, o que lhes permitiria inclusive, caso as empresas entrantes sejam coniventes, cobrar taxas de royalty pela utilização das técnicas que detêm. O controle dessas técnicas pode ser exercido através de patentes, procedimentos secretos, ou ambos. (2) Pode haver imperfeições de mercado que assegurem às empresas estabelecidas o fornecimento de fatores produtivos a
34

“[...] unit costs of production of potential entrant firms are generally and more or less at any common scale of operations, higher than those of established firms” (BAIN, 1956. p. 144).

24 preços mais baixos do que àqueles que seriam oferecidos às empresas entrantes. (3) As reservas de fatores estratégicos, especialmente fontes de recursos naturais, utilizados como insumos e matérias-primas da produção, podem ser de propriedade ou controladas pelas empresas estabelecidas, de modo que estas disporiam da prerrogativa de fornecer a preços muito altos ou mesmo negar o acesso às empresas entrantes, obrigando-as a adquirir de outros fornecedores a preços elevados ou com qualidade inferior. (4) Finalmente, o quarto tipo de vantagem por custo absoluto indicado por Bain (1956) refere-se ao crédito para fornecimento de recursos financeiros com finalidade de investimentos. O mercado de fundos para investimento poderia impor condições de custo mais elevado para tomar recursos emprestados às empresas novas do que às já estabelecidas. Com dificuldades de obtenção de grandes capitais para investimentos, as empresas entrantes em potencial encontrar-se-iam em situação de desvantagem em relação às empresas já estabelecidas, mais aptas a viabilizarem suas expansões, uma vez que, ao contrário das primeiras, disporiam de estrutura instalada suficiente para avalizar o empréstimo. Em derivação do quarto tipo de vantagem por custo absoluto proposto por Bain (1956), a exigência de grande volume de capital para investimento é lembrada, de modo geral, como uma barreira à entrada de novas empresas rivais; contudo, Andreolli (1999) observa que o requisito de um volume de capital expressivamente grande apenas pode ser considerado como barreira, caso consideremos que “os prováveis ingressantes sejam indivíduos de patrimônio relativamente pequeno perto do montante necessário para montar uma indústria”. No entanto a realidade nos mostra que, para o caso das grandes indústrias, esta barreira não teria peso importante, já que estas “poderiam ingressar em qualquer setor de atividade industrial” com o capital que dispõem. Andreolli (1999) prossegue sua observação destacando que “não é o volume de capital em si que se torna uma barreira. Mais importante e significativo é o fato de que em diversas indústrias, além da massa de capital necessária, o

25 retorno de capital relativamente baixo e o longo prazo de maturação do investimento afasta os grandes investidores”.

1.4.3 Vantagens

por

diferenciação

de

produtos

das

empresas

estabelecidas como barreiras à entrada

“Compradores podem ter uma preferência, temporária ou permanente, por alguns ou por todos os produtos estabelecidos [no mercado] quando comparados aos produtos recém-chegados, e isso pode essencialmente levantar barreiras à entrada”35. Esta é a afirmação de Bain (1956) que sustenta a indicação da diferenciação de produtos enquanto barreira à entrada. Para Andreolli (1999), “a diferenciação de produtos é a forma de barreira à entrada que reflete, entre outras coisas, a lealdade dos consumidores aos produtos das empresas estabelecidas há mais tempo”. Em geral, os

consumidores tendem a ser leais a uma marca já conhecida. Por lealdade, hábito ou mesmo pela inércia de consumo “preferem um ou alguns de uma variedade de produtos substitutos muito similares” (CHARBERLIN, 1933 apud BAIN, 1956, p. 114). A dificuldade envolvida na transposição desta lealdade e conseqüente afirmação da nova marca no mercado é a verdadeira barreira à entrada às novas empresas competidoras. Para Bain (1956), a diferenciação entre produtos pode se dar através do desenho ou da qualidade física de cada um, pela embalagem, pela marca mais ou menos difundida no mercado, pelos serviços auxiliares prestados aos clientes e por esforços promocionais de venda voltados às especificidades dos

consumidores. Atualmente, podem ser apontadas inúmeras tentativas das empresas de diferenciarem seus produtos dos de suas rivais, que se estendem desde a diferença física propriamente dita aos sistemas de financiamentos oferecidos para aquisição do produto. Bain (1956) afirma que, em conseqüência da diferenciação dos produtos pelas empresas estabelecidas, estas asseguram para si próprias a prerrogativa de elevarem ligeiramente seus preços em relação às rivais, no equivalente ao excedente que os consumidores se dispõem a perder para não terem que optar
35

“Buyers may have a preference, transitory or permanent, for some or all established products as compared to new-entrant products, and this may in essence erect some barrier to entry” (BAIN, 1956. p. 114).

26 por uma marca desconhecida. Mesmo com a perda de uma pequena parcela dos consumidores de seus produtos, às empresas são compensatórias as elevações de preços. Não obstante, é prática comum, embora não absoluta, a diferenciação entre produtos de uma mesma empresa, formando linhas de um mesmo produto, com níveis de preços diversos, visando atender várias classes de consumidores. A fidelidade dos clientes pelos produtos das empresas estabelecidas implica esforços de superação desta barreira pela empresa entrante em potencial, sujeitando-se à prática de preços mais baixos; com incorporação de tecnologia superior evidente; e, sobretudo, com muito investimento publicitário e promocional de vendas para demonstrar a superioridade (física ou abstrata) de seu (ou seus, eventualmente) produto em relação àqueles que os clientes estão habituados a consumir. A diferenciação de produtos é, certamente, o mecanismo de autodefesa mais importante da estrutura oligopolista. Permite às empresas estabelecidas vantagens de manutenção do preço praticado, concentrando os esforços de disputa das participações de mercado nas diferenças de qualidade, embalagem, durabilidade, desenho, reputação, distribuição, serviços aos clientes e,

fundamentalmente, associado a essas, no emprego da propaganda para fortalecer sua marca. A escala de produção em geral reduzida da empresa entrante, quando comparada às das já estabelecidas, em associação aos esforços de superação da barreira de diferenciação de produtos, pode resultar em dupla desvantagem à nova empresa. A combinação de custos médios mais elevados, decorrentes da baixa escala, com preços reduzidos, com intuito de superar as preferências dos consumidores, compacta a margem de lucro da empresa entrante, a qual, muitas vezes, é obrigada a operar com prejuízos por tempo indeterminado, até que seu produto conquiste adesão e, consequentemente, afirme sua participação no mercado.

1.5

Estratégias de mercado em oligopólio

Como pôde ser observado no segundo item deste capítulo, compõe o escopo de pressuposições da estrutura oligopolista de mercado um modelo de

27 competição pouco (ou nada) centrado na disputa de preços. Mesmo nos modelos mais pragmáticos de abordagem do oligopólio, tal como o de Cournot36 – excetuando-se o de Edgeworth (FERGUSON, 2003) – o preço era tratado como estável, “sendo a concorrência para vendas no mercado estabelecida em bases outras que não a concorrência-preço ativa”, como afirmou Ferguson (2003, p. 402). Ferguson (2003) fez questão de lembrar que no oligopólio “as guerras de preços ocasionalmente acontecem”, porém isso não seria indicação de concorrência-preço, propriamente dita. Segundo o autor, uma guerra de preços indicaria que “os canais de comunicação (provavelmente implícitos) entre as firmas no mercado estão temporariamente obstruídos”, e, portanto, é temporária até que se re-estabeleçam as vias prioritárias de competição. De acordo com Ferguson (2003) os mecanismos de concorrência extrapreço são os mais diversos, contudo, dentre eles, destacam-se no oligopólio os meios que envolvem a diferenciação do produto mais ou menos homogêneo, cuja importância enquanto meio de imposição de barreiras à entrada de novas rivais foi tratada anteriormente. Os graus de diferenciação dos produtos das indústrias, em geral, podem ser classificados por faixa de intensidade, as quais se associam às técnicas de concorrência extra-preço comumente utilizadas, que incluem a propaganda, a qualidade do produto, o desenho, os serviços complementares prestados aos clientes, etc. Estrategicamente, as empresas compõem um mix destas técnicas, que neste tópico procuraremos exemplificar. Este item, de modo geral, visa analisar modestamente os instrumentos estratégicos adotados pelas empresas oligopolistas diante do mercado, com o fim de atenderem aos seus objetivos de expansão de suas participações (“atrair fregueses”37) e obtenção de lucro. Sendo assim, além dos meios de concorrência extra-preço, estão presentes também nesta discussão as estratégias de redução da concorrência, alianças na forma de cartéis e lideranças colusivas, que aumentam a rigidez da indústria e, de acordo com as teorias clássicas, roubam o excedente dos consumidores.
36

Sobre o modelo de Cournot podem ser consultados PINDYCK & RUBINFELD (2002) e FERGUSON (2003). O assunto não foi abordado nesta pesquisa devido à inviabilidade de tratamento das variáveis preço e quantidade para o objeto deste estudo: a concorrência entre as religiões. 37 Expressão utilizado por Ferguson (2003, p. 402).

28

1.5.1 Bases de competição extra-preço

Ferguson (2003) evidencia dentre as técnicas de competição extra-preço, que visam romper a barreira da diferenciação de produtos e conquistar para a firma participação no mercado, a propaganda, os diferenciais de qualidade e as diferenças de desenho. A propaganda, para o autor, é talvez a técnica mais importante e tem sido o mais “aceito e aceitável” método de “atrair fregueses”, dentre os homens de negócios, nos Estados Unidos e nos países europeus. O autor aponta a propaganda como uma “prática estabelecida e presumivelmente válida porque, de outra forma, os empresários não continuariam gastando bilhões de dólares anualmente nesse tipo de concorrência extra-preço” (FERGUSON, 2003), mesmo diante da “obscuridade” da discussão dos prós e contras dos gastos com a propaganda. A criação de diferenciais de qualidade entre os produtos é também uma forma importante de concorrência extra-preço. Em geral, a empresa oligopolista procura segmentar, de acordo com o potencial de consumo, os mercados em submercados, para os quais desenvolve produtos com diferentes qualidades e, conseqüentemente, possam atender ao poder de compra de cada classe. A segmentação do mercado em sub-mercados permite ao oligopólio discriminar preços diversos, em função da qualidade dos produtos ofertados, de acordo com o ponto da curva de demanda que se encontram os consumidores, protegendo-se da exclusão das fatias de mercado sem correspondência com o preço único praticado. Ferguson (2003) cita a indústria de automóvel como exemplo da concorrência extra-preço por criação de diferenciais de qualidade. No Brasil, igualmente, o exemplo pode ser utilizado; a General Motors (marca Chevrolet, no Brasil) produz veículos com diferenciais de qualidade de acordo com o públicoalvo ao qual se destina. A empresa fabrica os modelos Corsa e Celta (populares); Astra (médio); e Vectra ou Ômega (executivos). Contudo, bem como a GM, as outras empresas rivais também adotam a estratégia. A Volkswagem, de capital alemão, oferece ao mercado os modelos Gol e Fox (populares); Pólo e Golf (médios); e Passat (executivo). A italiana Fiat,

29 por sua vez, possui os modelos Uno e Palio (populares); Brava e Stilo (médios); e Marea (executivo). À medida que todas as empresas tendem a adotar a estratégia de diversificar suas linhas de produção com produtos de diferentes qualidades e preços, os modelos de uma companhia passam a disputar mercado com os modelos das demais companhias. Assim os modelos Gol, Corsa e Palio disputam entre si a liderança na categoria popular; tanto quanto os modelos Ômega, Passat e Marea. Dessa forma, “no mercado amplo existe não só a concorrência para criar novas classes de qualidade e obter a superioridade competitiva de ser o primeiro no mercado, como também a concorrência dentro das classes” (FERGUSON, 2003, p. 403). É importante lembrar que os diferenciais de qualidade não implicam necessariamente um avanço tecnológico que promova aumento do bem-estar do consumidor; podem limitar-se a diferenças estéticas, por exemplo, que não apresentem a rigor variações de qualidade de uso. Isso nos leva a um terceiro tipo de concorrência extra-preço: as diferenças de desenho. Regularmente as fabricantes buscam dar novos designs aos seus produtos. As gerações do modelo Gol, da Volkswagem, apresentaram evoluções efetivas na qualidade das peças e do motor, no entanto o que distingue uma geração de outra é, fundamentalmente o design. Outro exemplo pode ser encontrado na indústria de eletroeletrônicos, com destaque ao aparelho de telefonia celular; boa parte dos modelos de uma mesma fabricante possui basicamente as mesmas funcionalidades, sem diferencial de qualidade, entretanto são vários os desenhos, que podem custar R$ 300,00 ou R$ 1.500,00. Ferguson (2003) cita como exemplo o mercado dos clubes de golfe. Os produtores “mudam os modelos” anualmente para manter a assiduidade dos freqüentadores. Campos de golfe, mais do que automóveis ou celulares, limitam a concorrência praticamente somente ao desenho, como afirmou Ferguson (2003, p. 403). É certo que propaganda, diferenciais de qualidade e desenho são apenas três das inúmeras formas de concorrência extra-preço. A estas se associam ainda a reputação, os serviços prestados aos clientes e, entre outras, os canais de distribuição. Baseando-se nos estudos de Bain (1956), Andreolli (1999, p. 37) procurou classificar algumas indústrias segundo o grau de diferenciação de produtos e

30 associá-las à base de competição – ou mix de técnicas de concorrência extrapreço – predominante. O quadro conclusivo do estudo de Andreolli, disponível no Anexo I desta monografia, indica que indústrias com elevado grau de diferenciação de produtos, tais como de bebidas, cigarros e automobilística, baseiam suas estratégias de competição principalmente na propaganda. A indústria de automóvel agrega ainda ao mix as diferenciações de desenho e a reputação de mercado. A propaganda é também a base de competição predominante na indústria com moderada diferenciação de produto. Pneus, calçados e refino de petróleo associam ainda os diferenciais de desenho, distribuição e serviços aos clientes, respectivamente. Já o terceiro grupo, com pouca diferenciação de produto montam seus mixes estratégicos preferindo os serviços aos clientes (indústria de aço) e a propaganda e o desenho (indústria esferográfica). No pólo oposto, encontram-se as empresas com diferenciação de produtos pouco significativa, tais como as ofertantes de cobre, cimento, papel e celulose e matérias-primas em geral, que não possuem base de competição por diferenciação de produtos. Andreolli (1999) conclui neste estudo que “a diferenciação de produtos é, notadamente, mais importante nas indústrias de bens de consumo do que nas de bens de capital”. E, portanto, instrumentos como a propaganda são mais utilizados pelos setores que atendem o mercado consumidor final (massa assalariada, por exemplo) do que pelos setores que atendem empresas.

1.5.2 Alianças estratégicas

As alianças entre empresas oligopolistas rivais são ações de mercado estratégicas para as empresas que visam limitar a atuação das forças competitivas. A forma mais objetiva das alianças é o cartel. Trata-se do acordo explícito (formal) entre produtores para firmarem entre si preços e níveis de produção a serem praticados no mercado. Muito embora os cartéis eventualmente tomem a forma de coalizão aberta, geralmente são compostos em reuniões secretas, pois as empresas encontram-se sob a fiscalização constante das autoridades que zelam pelo exercício da livre concorrência, a qual supostamente,

31 traria eficiência aos mercados e, por conseguinte, qualidade de vida dos seus integrantes. No Brasil, o órgão federal responsável pelo acompanhamento dessas condições de mercado é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). É uma agência judicante transformada em autarquia vinculada ao Ministério da Justiça que, entre outras atribuições, “zela pela livre concorrência, difunde a cultura da concorrência por meio de esclarecimentos ao público sobre as formas de infração à ordem econômica e decide questões relativas às mesmas infrações. As atribuições da agência estendem-se a todo território nacional”38. “Os cartéis de conspiração aberta e secreta oferecem os melhores exemplos de cartéis”. Contudo, de acordo com Ferguson (2003, p. 393), associações comerciais e órgãos de classe, latu sensu, “realizam muitas funções normalmente associadas a um cartel”. Os cartéis são freqüentemente acusados de promoverem acordos que viabilizem a prática de preços superiores àqueles resultantes da competição entre os participantes, de modo a maximizarem seus lucros. Podem também acordarem cláusulas de quotas de mercado que correspondam aos interesses de todos os integrantes do cartel, dada as estruturas de custo e capacidade produtiva de cada um. Um famoso exemplo de cartel é a OPEP. Uma organização dos maiores países em produção de petróleo, inicialmente fundada por Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuweit e Venezuela e, posteriormente, integrada por Argélia, Equador, Gabão, Indonésia, Líbano, Nigéria, Qatar e a União dos Emirados Árabes, que surgiu com o objetivo de estabelecer uma política comum em relação ao petróleo e que há vários anos vem “obtendo sucesso na elevação dos preços mundiais do petróleo bem acima dos níveis competitivos”, como afirmaram Pindyck e Rubinfeld (2002, p. 450). Segundo Pindyck e Rubinfeld (2002) há duas condições principais para que um cartel tenha sucesso. A primeira é que os membros respeitem as cláusulas negociadas, formando uma organização estável, o que pode se apresentar uma tarefa mais difícil do que se imagina. Embora a coalizão seja coletivamente racional, membros do acordo podem se sentir tentados a quebrar o pacto, pois se
38

Conselho Administrativo de Defesa Econômica. O que o é CADE. Disponível em <http://www.cade.gov.br/apresentacao/cade.asp>. Acessado em 03 Mai. 2005.

32 apropriar da vantagem relativa com preços inferiores aos praticados por todos os outros membros, mesmo que por um tempo limitado, pode ser individualmente mais racional. Inicialmente a OPEP, por exemplo, habituou-se a praticar preços acordados por todos os membros, no entanto, a partir de 1976, um sistema dual de preços foi introduzido devido à decisão da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes de manutenção de preços mais baixos do que os demais praticados pelos membros do cartel39. A segunda condição apontada por Pindyck e Rubinfeld (2002) é a existência de condições de exercício de poder de monopólio; ou seja, a elasticidade da demanda é um fator importante para determinação das forças de imposição de preços por um cartel. A existência de um cartel não está condicionada à participação de todas as empresas atuantes em um mercado. Basta que as integrantes do acordo, conjuntamente, possuam poder de mercado suficiente para impor suas cláusulas às demais através do próprio mercado. Os cartéis podem ser constituídos também por um grupo seleto de integrantes que objetivem “aniquilar” um concorrente comum dentro da indústria. Além desta conivência organizada entre as empresas oligopólicas na determinação das variáveis de mercado – preço e quantidade, por exemplo –, são também uma espécie de aliança as lideranças não organizadas, nas quais tacitamente algumas empresas decidem seguir as diretrizes escolhidas por uma empresa líder. Em geral este tipo de acordo não organizado, principalmente no que se refere à determinação do preço, pode se dar pelo (i) domínio do mercado por uma empresa líder, ou seja, quando uma firma detém pelo menos metade do total das indústrias e as outras não são grandes o bastante para contrapor sua liderança; (ii) quando, simplesmente, as empresas reconhecem o interesse comum tendo um comportamento cooperativo, ou seja, sobrepõem os interesses coletivos aos individuais (liderança colusiva); e, finalmente, (iii) quando uma empresa assume a liderança por desempenhar bem o papel de “barômetro” das condições de mercado, medindo suas pressões (liderança barométrica).

Paulo Sandroni, Novíssimo dicionário de economia. 7ª ed. São Paulo: Best Seller, 2001. Ver verbete OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

39

33

1.6

Exemplo de mercado oligopolizado: a indústria de bebidas no Brasil

Márcio Andreolli (1999), para obtenção do título de Mestre em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, apresentou em dissertação de 1999, A estrutura oligopolista de mercado: a indústria de cerveja como oligopólio diferenciado, como o próprio título sugere, um estudo que procurou classificar a indústria de cerveja brasileira como um oligopólio diferenciado; ou seja, composta por poucas grandes empresas atuantes num mesmo mercado, centradas na diferenciação de produtos enquanto característica marcante. Andreolli (1999) concluiu que a compatibilidade era justificável, em sua maior parte, pelos aspectos diferenciáveis do produto, pela dificuldade envolvida na entrada de novas firmas competidoras no setor, pela quantidade de empresas atuantes no mercado e, “fundamentalmente”, pela “identificação de um processo de concorrência priorizando o investimento publicitário” (ANDREOLLI, 1999, p. 93). Dentre os aspectos diferenciáveis do produto, apontou que todos que tangem à qualidade, formato e sabor “têm sua parcela de importância”. O aspecto qualidade é tratado pelas cervejarias com investimentos em profissionais e em laboratórios que sustentem um alto nível de qualidade para o produto. Nos quesitos formato e tipo de embalagem, as empresas constantemente procuram desenvolver novas embalagens. Bem como estudam novas fórmulas de fabricação e as fórmulas de suas concorrentes no intuito de providenciarem aprimoramentos no sabor (gosto). Em associação aos aspectos diferenciáveis do produto, as empresas recorrem ao “que há de melhor em termos de marketing” para conquistar a simpatia do consumidor e defender sua reputação de mercado. Juntos “constituem elementos de grande importância para a performance mercadológica e financeira da indústria de cerveja”. Andreolli (1999) indicou como barreira à entrada de novas firmas competidoras na indústria de bebidas a (i) necessidade de grandes investimentos em vendas, ou seja, a alta escala de produção exige da empresa entrante investimentos em pontos de venda e distribuição e mão-de-obra qualificada; (ii) altos investimentos na compra de equipamentos e na aplicação de tecnologia,

34 que requer cuidados especiais dada a irreversibilidade e inadaptabilidade para outras atividades, configurando não só barreira de capital, mas também uma barreira à saída; e (iii) investimentos elevados em publicidade, especialmente para TV, rádio e jornal, de modo a romper a barreira de diferenciação de produtos que atribui a preferência dos consumidores aos produtos já estabelecidos. Poucas empresas dominam o mercado. No ano da pesquisa, Antarctica, Brahma, Kaiser e Skol destacavam-se no mercado. Logo em seguida, a indústria concentrou-se ainda mais com a formação da AmBev. A reputação destas empresas estabelecidas gera grande dificuldade de conquista de espaço no mercado pela empresa entrante. Ações ou reações isoladas de qualquer das maiores empresas presentes na indústria interferem no comportamento do mercado, no entanto, Andreolli (1999) afirmou que dentre as empresas líderes até então, “acordos” ou “parcerias” preveniam grandes impactos no mercado e procuravam manter o sucesso dos produtos de cada empresa. O instrumento de concorrência predominante na indústria analisada por Andreolli (1999, p. 96) é o investimento publicitário, o qual permitiria modificar a posição de demanda de um produto no mercado, “através das informações levadas ao consumidor por um veículo de comunicação, sobre a marca, a qualidade, a beleza, o formato e o sabor de um produto”. “Através da divulgação eficiente da propaganda, as cervejarias pretendem alcançar seus objetivos de manter e ampliar suas vendas e conseqüentemente obter o maior lucro possível” (ANDREOLLI, 1999, p. 95). O conjunto destas características foi suficiente para Andreolli (1999) configurar a indústria de cerveja no Brasil como um oligopólio diferenciado, cujas características foram tratadas no item 1.3.2 desta monografia.

35 CAPÍTULO 2 – O CAMPO RELIGIOSO

2.1

O que são as igrejas e o que elas “vendem”

Ao longo deste segundo capítulo procuraremos definir o objeto de estudo chave deste trabalho e apontar algumas de suas características comportamentais mais importantes para o contexto em que se insere. Em específico neste primeiro tópico, trabalharemos as instituições religiosas enquanto indivíduos que compõem um setor de atividade e, portanto, analisaremos, em termos de mercado, suas características mais genéricas. Em outras palavras, desenvolveremos o conceito de instituição religiosa pela ótica da troca, na qual estas prestam um serviço à sociedade a qual, de alguma forma, lhes retribui; transação esta que objetiva, sobretudo, a máxima satisfação das partes envolvidas. As observações reunidas a partir de agora se fazem válidas para todas as instituições religiosas, independentemente de suas participações; contudo, centrar-nos-emos com saliência na figura específica de uma delas: a igreja. Reconhecemos algumas das particularidades que distinguem a igreja, por definição, de outros conceitos de instituição religiosa, tal como a seita. Enquanto as primeiras teoricamente são pluriclassistas (não discriminam seus adeptos de acordo com perfis), defendem a salvação universal e aceitam o mundo; as outras se definem antagonicamente por serem, em geral, monoclassistas, pela prédica de uma salvação exclusiva para os iniciados na religião e pela recusa do mundo, ou seja, pela crença na proximidade do fim dos dias. Ainda considerada que suas observadas importâncias essas para particularidades algumas e, principalmente, ex-post às

conclusões

considerações finais desta pesquisa, em termos de abrangência da aplicabilidade, trabalharemos com uma simplificação num primeiro momento. O termo igreja será usado em referência a todas as instituições representantes da religião cristã, notadamente, pela predominância deste tipo específico de instituição religiosa na sociedade brasileira – lócus desta análise – e pela possibilidade de associação das principais idéias a seguir também às demais instituições representantes de

36 outras religiões como as mesquitas islâmicas, as sinagogas judaicas, ou mesmo o conjunto que reúne os chamados “sem religião”. De acordo com enciclopédia eletrônica Wikipédia, o termo religião nasceu com a língua latina, podendo ter três interpretações diferentes: (i) “re-legio" (reler), um significado atribuído por Cícero40 para descrever a repetição de escrituras; (ii) "re-ligio" (re-ligar), o que poderia significar a tentativa humana de "religar-se" às suas origens, ao seu criador ou ao seu passado; e (iii) "re-ligio" (reatar), no sentido de "prender", não de "conectar", significando uma restrição de possibilidades. “Independente da origem, o termo é adotado para designar qualquer conjunto de crenças e valores que compõem a fé de determinada pessoa ou conjunto de pessoas. Cada religião inspira certas normas e motiva certas práticas”41. Embora consideremos também passível de associação, dispensaremos neste estudo a extensão do conceito de religião às organizações isentas da idéia de divindade, tais como grupos simpatizantes de determinadas ideologias sociais ou econômicas. No intuito de manter uma similaridade42 mínima entre agentes analisados, trabalharemos com a noção restrita de religião ao institucionalismo dos serviços ou cultos a uma divindade qualquer, “expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino“43. Neste contexto a igreja é uma instituição de natureza religiosa, portanto centrada nos serviços ou cultos a uma divindade – neste caso, um Deus onisciente, onipresente e onipotente, criador do universo – e pautada em uma doutrina, num sistema dogmático e moral que envolve tudo que é sagrado, devoção e fé. Etimologicamente, o termo igreja tem origem na palavra grega ekklesia, cujo emprego era dado para designar uma assembléia ou congregação de pessoas. No versículo 39 do 19º capítulo do livro de Atos dos Apóstolos, da Bíblia Sagrada do cristianismo, ekklesia é utilizada no sentido de “assembléia legal” (ou

40

Filósofo, orador, escritor, advogado e político romano (106 a.C.- 43 a.C.), juntamente com Demóstenes é considerado o melhor expoente da oratória clássica. 41 Enciclopédia eletrônica Wikipédia – A enciclopédia livre, verbete “religião”, disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%A3o> 42 Esta similaridade traduzir-se-á, em termos econômicos, no grau de substitutibilidade dos serviços prestados pelas instituições religiosas. 43 Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, disponível em <http://www2.uol.com.br/michaelis/>, verbete “religião”.

37 câmara municipal)44. A partir desta origem, o conceito de igreja evoluiu do ponto de vista religioso para seu significado mais aceito, pelo qual ela representa para o cristianismo o conjunto de todas as pessoas que crêem em Jesus como o Filho de Deus, o Messias. Em Colossenses, no 18º versículo do primeiro capítulo, Jesus Cristo é tido como “a Cabeça do corpo, que é a Igreja”45 e, portanto, para a fé cristã, a igreja pode ser definida como a totalidade dos seguidores dos princípios de Jesus Cristo. Esta idéia pôde ser unanimemente observada numa etapa de entrevistas com representantes de três instituições religiosas, contemplada por esta pesquisa. De acordo com Sua Eminência Reverendíssima, o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Dom Bruno Gamberini, o elemento básico para existência e funcionamento de uma igreja é o próprio povo. Em suas próprias palavras, “sem povo não existe igreja”. Em extensão ao conceito de totalidade, a palavra igreja também é empregada para designar denominações específicas do cristianismo,

segmentando-as de acordo com suas particularidades. Desta forma, pode-se pensar em várias igrejas dentro de uma igreja; ou, em termos práticos, a Igreja cristã é composta por diversas denominações: Igreja Luterana, Igreja

Presbiteriana, Igreja Metodista, etc. Neste trabalho, empregaremos o termo “igreja” para referenciar toda instituição religiosa cristã; o termo “denominação religiosa”, por sua vez, será empregado no intuito de evidenciar as particularidades entre as igrejas (ex: Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Batista e Igreja Assembléia de Deus enquanto denominações religiosas do cristianismo). As igrejas – assembléias de pessoas que crêem em Jesus Cristo como Filho de Deus – compartilham de um objetivo comum principal que gira em torno da evangelização. A percepção própria de cada denominação cristã acerca dos 27 livros do Novo Testamento da Bíblia Sagrada do cristianismo (o Evangelho) é dirigida aos leigos, de modo a prover-lhes conhecimento da vida e obra de Jesus Cristo. Este objetivo foi apontado pelos representantes da Igreja Católica

Apostólica Romana de Campinas e da Igreja Presbiteriana Unida de Jundiaí e

44

BÍBLIA, Português. Bíblia Sagrada. Tradução: Ivo Storniolo & Euclides Martins Balancin. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. 45 Idem.

38 está presente formalmente na missão da Igreja Católica de Campinas afixada na sala de espera para audiências com o arcebispo, na Cúria Metropolitana:

“Diante dos desafios do novo milênio, atentos à realidade urbana de nossa igreja e na vivência da mística trinitária, eucarística e pascal, evangelizar [grifo nosso]: na força do Espírito, anunciando Jesus Cristo e o projeto do Pai, à luz da opção preferencial pelos pobres e excluídos, com o testemunho profético de uma igreja de comunhão e missão, misericordiosa e solidária com os que sofrem, acolhedora e aberta ao diálogo, para construção de um mundo de justiça e liberdade, de irmão e irmã, sinal do Reino definitivo”46.

No entanto, a evangelização para os religiosos pode também ser entendida como um meio para a realização de um objetivo ainda maior: a construção do próprio Reino dos Céus. De acordo com um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, vice-responsável pelo trabalho da Catedral da Fé em Jundiaí, foi apontado como objetivo de sua denominação, em entrevista concedida, o “salvamento de almas para o Reino dos Céus”. Podemos perceber, desta forma, que, ainda que apontada inicialmente como um objetivo das igrejas, a evangelização se estende facilmente, em última análise, à posição de meio de realização do real objetivo de todas as igrejas: a construção do Reino dos Céus; constituído de boas ações e respectivos resultados em vida, ou então, pela salvação e vida eterna após a morte no paraíso. Esta idéia pode ser observada na própria missão da Igreja Católica Apostólica Romana de Campinas, que incluiu a construção de um mundo coerente com o “Reino definitivo”. Neste contexto de construção de um mundo melhor, as igrejas são procuradas por seus fiéis demandantes de bem-estar espiritual, paz, saúde, prosperidade ou realização financeira, inclusão social, oportunidade de

participação numa uma boa ação, dentre outras carências. Com base em suas crenças e fé, as instituições religiosas prestam seus serviços no sentido de suprir essas necessidades, ofertando conhecimento acerca da “Divina Verdade” ou
46

Missão da Igreja Católica Apostólica Romana de Campinas, publicada na 6º PPO – 2002 / 2005 e afixada na sala de espera para audiências com o Arcebispo, na Cúria Metropolitana.

39 habilidades milagrosas (ou sobrenaturais) de solução. Segundo Kater Filho47, do Instituto Brasileiro de Marketing Católico – IBMC, “o produto que a igreja vende – que na verdade é um serviço – é a salvação”48. Pierre Bourdieu enriquece o conceito do produto afirmando que:

“os leigos não esperam da religião apenas justificações de existir capazes de livra-los da angústia existencial da contingência e da solidão, da miséria biológica, da doença, do sofrimento ou da morte. Contam com ela para que lhes forneça justificações de existir em uma posição determinada, em suma, de existir como de fato existem, ou seja, com todas as propriedades que lhes são socialmente inerentes”49.

A relação de troca se completa à medida que as igrejas ofertam a salvação – em vida ou após a morte – dos males vivenciados pela sociedade, com prédica do evangelho ou milagres e, por outro lado, recebem a fidelidade de sua demanda e, com isso, a garantia de construção de um “Verdadeiro Reino dos Céus”; ou, em outros termos, a legitimidade do monopólio na prestação de serviços religiosos para um determinado grupo de leigos (BOURDIEU, 1974). A manutenção dessa dinâmica depende de um caráter organizacional que as igrejas assumem. Uma estrutura hierarquizada procurar assegurar o bom funcionamento das denominações religiosas. A Igreja Universal do Reino de Deus segue parâmetros hierárquicos, tanto para os membros quanto para as próprias sedes da denominação, como declarou o pastor de Jundiaí em entrevista concedida. Assim, uma unidade está diretamente submetida às diretrizes de outra superior; à matriz, por exemplo. Segundo Sua Eminência Reverendíssima, o Arcebispo Metropolitano de Campinas, essa estrutura é uma exigência para o “funcionamento humano da igreja”.

47

O Mestre Antonio Miguel Kater Filho é idealizador e 2º vice-presidente do Instituto Brasileiro de Marketing Católico – IBMC, consultor em marketing, escritor e professor universitário com mestrado pela USP. 48 Entrevista concedida aos 27 de setembro de 2005, das 17h às 18h, na sede do IBMC, na Av. João Erbolato, 50 – sala 20 – Castelo – Campinas (SP). 49 Pierre Bourdieu. A economia das trocas simbólicas. Cap. 2 – Gênese e estrutura do campo religioso.. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 48.

40 A Igreja Presbiteriana Unida, por exemplo, segundo o Pastor Abimael Etz Rodrigues50 de Jundiaí, dispõe de um conjunto de instrumentos de estrutura organizacional que se inicia pela manutenção de uma hierarquia de apoio – que embora não contemple em sua totalidade o exercício de autoridade strictu sensu, socializa um suporte de natureza intelectual e, excepcionalmente, financeiro. Essa organização se inicia pela subordinação do Presbitério – conjunto de igrejas de uma determinada região – à Assembléia Geral. Ao Presbitério subordinam-se as igrejas presbiterianas e, a estas, a Assembléia interna da própria igreja, que aprova um estatuto civil e religioso e elege sua administração na figura de um Conselho de Presbíteros. Ao Conselho subordinam-se os diáconos, zeladores pelos aspectos físicos da igreja (manutenção predial, por exemplo). A organização hierárquica assume, portanto, aspecto fundamental no funcionamento das igrejas, analogamente à dependência do nosso corpo de sua estrutura óssea, para viabilizar sua sustentação e locomoção51. A estruturação formal viabiliza a busca pela otimização dos processos desempenhados pelas igrejas no cumprimento de seus objetivos de atendimento às necessidades religiosas da população. Com base nestas definições básicas das instituições religiosas,

observamos uma característica implícita típica de uma firma, que oferta um serviço em troca de uma compensação; neste caso, um serviço de salvação pela satisfação de salvar pessoas e de cumprir a doutrina na construção do Reino dos Céus. Esta dinâmica procura ser otimizada com base no suporte de uma organização estrutural, em geral, hierarquizada. Legalmente, pelo Novo Código Civil de 2002, notadamente a partir da Lei 10.406/2002 que instituiu prazo de 1 ano após sua vigência para adaptação, nos padrões impostos pelo novo Código, de todas as associações, sociedades e fundações – dentre as quais se incluem as instituições religiosas – constituídas na forma de leis anteriores, as atividades religiosas institucionalizadas são minimamente regulamentadas pelo instrumento principal da sua organização: o Estatuto Social (GARCIA, 2003). Este documento, aprovado em assembléia, deve
50

Abimael Etz Rodrigues é pastor da Igreja Presbiteriana já há 45 anos, formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1959. Concedeu entrevista para este trabalho aos 29 de agosto de 2005. 51 A analogia da necessidade da estrutura óssea para o corpo humano com a organização estrutural da igreja para o funcionamento de suas atividades foi utilizada por Sua Eminência Reverendíssima, o Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Bruno Gamberini, em entrevista concedida aos 25 de agosto de 2005, na Cúria Metropolitana de Campinas.

41 incorporar as especificidades de cada denominação, podendo ter caráter centralizado na sede nacional ou específico de cada unidade. Contém elementos que discorrem sobre seguintes assuntos: denominação; fins; sede; governo; membros e ministros, quanto à admissão e desligamento, direitos, deveres e suspensões; atribuições e competências das administrações nacional, regional, distrital, e de cada igreja local; demonstrações contábeis, patrimônio e recursos econômico-financeiros; e aspectos gerais dos conselhos fiscais52. Do ponto de vista fiscal, as instituições religiosas são registradas como empresas sem fins lucrativos. A Comissão Nacional de Classificação – CONCLA, ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, estabeleceu classes fiscais para o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) das igrejas. As classes pertencem ao grupo “Outras atividades associativas” (código 919) da divisão “Atividades associativas” (código 91), na seção “Outros serviços coletivos, sociais e pessoais” (código O). “Atividades de organizações religiosas” é a nomenclatura de classe mais comum (código 9191-0)53, no entanto, há possibilidade de maior especificação por subclasses, descritas na tabela do Anexo III. A CNAE atribui à classe “Atividades de organizações religiosas” as seguintes atividades: (i) atividades de organizações religiosas ou filosóficas; (ii) atividades de igrejas, mosteiros, conventos ou organizações similares; e (iii) a catequese, a celebração ou organização de cultos. Distingue-as, observando a não compreensão das seguintes atividades na classe: (i) educativas (80), de atenção à saúde (85.1) ou de cunho social (85.3) realizadas por estas organizações; (ii) a edição e impressão de jornais, revistas, etc., por estas organizações (22.1); e (iii) as atividades de astrólogos, videntes e similares (93092/99).

2.2

Noção de campo religioso

52

Estatuto Social da Igreja de Deus no Brasil. Goiânia: Igreja de Deus no Brasil – IDB. Disponível em <http://www.idbcampinas.com.br/estatutosocial.htm>. Acesso em 20 Set 2005. 53 Disponível em <www.cnae.ibge.gov.br>.

42 O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em A economia das trocas simbólicas54, analisou, a partir da fusão de alguns fundamentos clássicos da sociologia da religião – notadamente os de Durkheim, Marx e Weber –, a gênese e a estrutura do campo religioso, no qual, o surgimento de denominações religiosas propriamente ditas implica uma relação de conflito no campo que as comporta, diante dos leigos. Bourdieu observou um relacionamento entre o nascimento e o

desenvolvimento das cidades e, em particular, os progressos da divisão do trabalho e a aparição da separação do trabalho intelectual do trabalho material, às tendências de constituição de um campo religioso relativamente autônomo e ao desenvolvimento de uma necessidade de “moralização” e de “sistematização” das crenças e práticas religiosas. Para ele, “a aparição e o desenvolvimento das grandes religiões estão associadas à aparição e ao desenvolvimento da cidade”. Em citação a Weber, Bourdieu ressalta o fato de que a urbanização, com as transformações que provoca (tecnológicas, econômicas e sociais), “contribui para a ‘racionalização’ e para a ‘moralização’ da religião”, cujo peso aumentaria ao passo que o campo ampliasse sua autonomia, mas “apenas na medida em que a religião favorece o desenvolvimento de um corpo de especialistas incumbidos da gestão dos bens da salvação”. O desenvolvimento do sentimento de “pecado” e o desejo de “redenção” são alguns dos traços que se desenvolveram paralelamente à urbanização e substituíram a religião camponesa, centrada, basicamente, na subordinação ao mundo natural, na “idolatria da natureza” e na “não racionalização” dos fenômenos, intrinsecamente associada à sazonalidade do trabalho agrícola. Como conseqüência, dentre outros, “uma transferência da noção de pureza da ordem mágica para a ordem moral” – ou seja, a transformação do erro em pecado –; e a própria legitimidade da existência de um grupo de especialistas nestes assuntos. Com a morfose da religião, imediatamente correlata ao processo de urbanização, e a “monopolização da gestão dos bens de salvação por um corpo de especialistas religiosos, socialmente reconhecidos como detentores exclusivos da competência específica necessária à produção ou à reprodução de um ‘corpus’ deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e portanto raros)”, a

54

São Paulo, Editora Perspectiva, 1974.

43 constituição de um campo religioso foi acompanhada da “desapropriação objetiva daqueles que dele são excluídos e que se transformam por esta razão em leigos (ou profanos, no duplo sentido do termo55), destituídos do capital religioso (enquanto trabalho simbólico acumulado) e reconhecendo a legitimidade desta desapropriação pelo simples fato de que a desconhecem enquanto tal”. Em outros termos, Bourdieu explica o surgimento do campo religioso a partir da separação entre o corpo técnico, dotado de capital religioso – “qualificação” religiosa para Weber –, além de hierárquica e racionalmente estruturado, e os leigos, tecnicamente “destituídos” do saber religioso. O que não significa, para o autor, em primeira análise, uma necessária “pauperização” religiosa, mas um processo de concentração e acumulação nas mãos de um grupo particular, de um capital religioso até então distribuído igualmente entre todos os membros da sociedade. Este capital tradicional, que passa da condição de dominante para a condição de dominado, pela sua simples desvalorização diante da nova forma de capital, tende a deteriorar-se; implicando finalmente a “pauperização” religiosa da sociedade pela “separação entre o saber sagrado e a ignorância profana que o segredo exprime e reforça”. Bourdieu reforça o argumento com a análise da transformação dos resquícios de capital tradicional (original), uma vez “pauperizada” a população do saber religioso, depois de desapropriada, em magia (prática profana), diante do novo capital religioso dominante. Os aspectos formais, estruturados e racionais da religião dominante suprimiram facilmente as práticas profanas à condição de submissão, dado o seu estágio de desenvolvimento relativamente superior quando confrontada com as culturas tradicionais. Para tanto, em cada espaço geográfico conquistado, a “nova religião” pôde inclusive apropriar-se de características tradicionalmente estabelecidas, como alguns elementos tribais; uma vez reconhecida sua capacidade de elevada adaptação, sustentada por uma estrutura racionalmente organizada e administrada por um grupo de sacerdotes, responsáveis com exclusividade pelos novos padrões sociais de moral e ética. Este caráter dinâmico da religião, que acompanha o processo de urbanização, permite, sobretudo sob uma organização hierarquizada, que se

55

Em referência aos sentidos de “ignorantes da religião” e “estranhos ao sagrado e ao corpo de administradores do sagrado”. Pierre Bourdieu. A economia das trocas simbólicas. Cap. 2 – Gênese e estrutura do campo religioso.. São Paulo: Perspectiva, 1974.

44 assegure da contestação da legitimidade do monopólio eclesiástico dos instrumentos de salvação sobre os leigos; e, por outro lado, abre espaço para o surgimento de ideologias religiosas capazes de fazer com que o “campo religioso recubra o campo das relações de concorrência que se estabelecem no próprio interior da Igreja” na luta entre a ortodoxia e a heresia, potencializada quando da solidariedade de parte do clero com interesses anti-clericais de uma fração dos leigos. Em resumo, a noção de campo religioso está associada à relação de conflito entre os capitais religiosos que surgem e se estabelecem na sociedade, tendo como origem principalmente identificada a partir da desapropriação do saber religioso coletivo, com superposição de um capital organizado e estruturado, próprio de um corpo de especialistas. E “as relações de transação que se estabelecem, com base em interesses diferentes, entre os especialistas e os leigos, e as relações de concorrência que opõem os diferentes especialistas no interior do campo religioso, constituem o princípio da dinâmica do campo religioso e também das transformações da ideologia religiosa”. (BOURDIEU, 1974, p. 50) Externamente, mesmo em condições de monopólio eclesiástico absoluto dos instrumentos de salvação sobre os leigos, o campo religioso foi submetido à relação de concorrência com os opositores dos padrões dominantes; ora com o foco nas críticas sobre o sistema de indulgências que fora estabelecido pela Igreja Medieval, ora pelo pela simples prédica das possibilidades de salvação alternativas. Os feiticeiros na forma de “empresários independentes” prestavam clandestinamente seus serviços de cura notadamente às classes inferiores (em particular, os camponeses) e, defensivamente, impunham “à Igreja a ‘ritualização’ da prática religiosa e a canonização das crenças populares”. Os profetas e as seitas, conjugados com as críticas intelectualistas de certas categorias de leigos, por outro lado, também concorriam perifericamente com a Igreja, a qual, diante da ameaça, tendia a acelerar o ritmo de produção de escritos canônicos. (BOURDIEU, 1974, p. 67-68)

2.3

A concorrência religiosa

45 Centrado originalmente na esfera econômica, o mundo vivenciou, de modo quase geral, a partir da era que marca oficialmente o início do capitalismo e da sociedade industrial, um processo de secularização; ou seja, uma transferência dos padrões ético-religiosos de regimento para uma tendência à racionalização (padrões leigos, do ponto de vista da religião), neste caso, das atividades econômicas. Neste sentido, Peter Berger, em O dossel sagrado56, procurou apontar a natureza correlata entre o processo de secularização (introduzido por Weber) e a conformação de uma “pluralidade” do campo religioso, que se traduziria numa relação de concorrência aberta entre as denominações religiosas e, consequentemente, na superação do conceito de “campo religioso” pelo de “mercado religioso”, propriamente. Com base na teoria sociológica da religião de Berger57, que incorpora elementos weberianos e durkheiminianos e, mais implicitamente, faz uso da lógica dialética marxista, e em parte dos escritos de Lemuel Guerra58, procuramos apresentar o processo pelo qual a natureza estritamente conflitiva do campo religioso passou a ser analisada pela ótica do mercado, da concorrência. Nas proximidades do processo de industrialização, estratos altamente secularizados foram surgindo e, com isso, a religião foi sendo isolada do núcleo econômico da sociedade, tornando conseqüente, assim, uma “crise de credibilidade” das instituições religiosas. Em outras palavras, a secularização, que se centrou na área econômica e, mais tarde, expandiu-se para outros pólos da sociedade, consubstanciou uma ameaça à legitimação do monopólio dos instrumentos de ordem da sociedade pela Igreja; ou, nos termos de Berger, “acarretou um amplo colapso da plausibilidade das definições religiosas tradicionais da realidade”. (BERGER, 1985, p. 139) As raízes deste processo, segundo Berger, estão nos “processos de racionalização desencadeados pela modernização (isto é, pelo estabelecimento de uma ordem sócio-econômica capitalista e industrial)” na sociedade, de tal modo que passou a fazer sentido o apontamento de um “território livre” da religião, localizado no centro da sociedade. Território esse que “tem uma posição
56

Peter Berger. O dossel sagrado – elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985. 194 p. 57 Idem. 58 Lemuel Dourado Guerra Sobrinho. Mercado religioso no Brasil: competição, demanda e a dinâmica da esfera da religião. João Pessoa: Idéia, 2003. 198 p.

46 tão central na economia capitalista industrial, que qualquer tentativa para ‘reconquistá-lo’ em nome do tradicionalismo político-religioso ameaça a continuação do funcionamento desta economia”59. Desta forma, justifica-se, portanto, inclusive, a permanência de um corpo técnico e científico na sociedade, dotado de características que pressupõem um alto grau de racionalização e isento de ameaças de uma possível “tentativa de reconquista” do segmento econômico da sociedade pela ética religiosa tradicional, sob o risco de desmantelamento da nova ordem, que vinha garantindo o progresso. Neste momento a religião “polarizou” sua presença mais ativa nos extremos mais públicos e mais privados da ordem institucional; respectivamente, o Estado e as famílias, e mesmo diante da “ampla secularização da vida cotidiana no trabalho e nas relações que o circundam, ainda se encontram símbolos religiosos ligados a [estas] instituições”. Berger exemplificou afirmando que “na medida em que se admite que ‘a religião pára no portão da fábrica’, deve-se admitir também que não se começa uma guerra ou um casamento sem os símbolos religiosos tradicionais”60. Contudo, Berger escreveu em explicação do processo de secularização, a partir do momento que atinge também o Estado:

Como o Estado moderno ocupa-se cada vez mais com os requisitos políticos e legais do gigantesco mecanismo de produção industrial, ele deve dirigir sua própria estrutura e ideologia para esse fim. A nível de estrutura, isso significa acima de tudo o estabelecimento de burocracias altamente racionais; a nível de ideologia, significa a manutenção de legitimações que sejam adequadas para essas burocracias. Assim,

inevitavelmente, desenvolvem-se afinidades, tanto em estrutura quanto em “espírito”, entre as esferas econômica e política61.

Com isso, a secularização passou então da esfera econômica para a esfera política e conformou um movimento – tipicamente associável de alguma forma a todas as economias industrializadas (independentemente do regime
59

Peter Berger. O dossel sagrado – elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985. p. 143. 60 Idem, p. 141. 61 Idem, p. 144.

47 econômico adotado) – de “divórcio” entre o Estado e a instituição da Igreja, em nome da manutenção dos interesses propriamente econômicos, de racionalização da produção e da vida social, de modo geral. Na sua relação para com a família, no entanto, a religião, segundo Berger, mantém um potencial de “realidade” considerável e, portanto, sua relevância “em termos de motivos e auto-interpretações das pessoas nessa esfera da atividade social cotidiana”. Para tanto, fez-se necessárias adaptações às novas realidades, de modo a assegurar a legitimação da religião inclusive diante das classes familiares mais secularizadas (sócio-economicamente melhor dispostas), como a aceitação da “individualização”. Neste contexto, Berger define a “religião privatizada” (não mais intimamente associada ao Estado) como uma questão de “escolha” ou “preferência” do indivíduo ou do núcleo familiar e menciona a suspensão da capacidade de desempenhar a sua tarefa clássica de “construção de um mundo comum, no âmbito do qual toda a vida social recebe um significado último que obriga a todos. Ao contrário, essa religiosidade limita-se a domínios específicos da vida social que podem ser efetivamente segregados dos setores secularizados da sociedade moderna”
62

. Completa exemplificando essa realidade com a

ilustração de “um homem de negócios ou um político que podem aderir fielmente às normas da vida familiar legitimadas pela religião, ao mesmo tempo em que conduzem suas atividades na esfera pública sem qualquer referência a valores religiosos de qualquer tipo”. O processo de secularização, desta forma, pode ser entendido como beneficiário e, ao mesmo tempo, condutor da situação de pluralidade religiosa, e, portanto, do fim dos monopólios das tradições religiosas sobre a ordem social. Assim sendo, os ex-monopólios63 religiosos deixam de contar com a submissão de suas populações. E, uma vez que a submissão passa a ser voluntária, é também incerta e, portanto, insegura. Para Peter Berger:

62 63

Idem, p. 145. Peter Berger discute a existência de monopólios de tradições religiosas em várias partes do mundo ocidental e oriental, que, cedo ou tarde, em maior ou menor intensidade, foram submetidos à perda de legitimação do poder de determinação da ordem social como um todo com o advento da secularização associada à industrialização.

48
Resulta daí que a tradição religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada no mercado. Ela tem que ser “vendida” para uma clientela que não está mais obrigada a “comprar”. A situação pluralista é, acima de tudo, uma situação de mercado. Nela as instituições religiosas tornam-se agências de mercado e as tradições religiosas tornamse comodidades de consumo64. E, de qualquer forma, grande parte da atividade religiosa nessa situação vem a ser dominada pela lógica da economia de mercado.

A situação de pluralidade religiosa define, portanto, uma condição a qual as denominações religiosas diversas põem seus serviços religiosos no mercado para que sejam “escolhidos” pelos indivíduos, com base em suas “preferências”, com intuito, notadamente, de legitimação de suas condições de existência, pelos princípios religiosos da salvação, da cura, etc. É conseqüência (Marx) e, ao mesmo tempo, causa (Weber), do processo de secularização da sociedade que se iniciou na esfera estritamente econômica e estendeu-se para a relação de intimidade entre o Estado e o clero. Mais do que isso, representa a conformação de uma condição de concorrência entre as denominações religiosas que se assemelham, pela adesão dos fiéis, carentes, dentre outras coisas, de normas para a vida familiar legitimadas pela religião. Nestas condições são válidas ao campo religioso as regras de competição do mercado secularizado, caracterizando um “mercado religioso”, de bens simbólicos. Essa idéia é reforçada por Rodney Stark e George Finke que compartilham da proposição de uma análise mercadológica do fenômeno religioso, definindo as instituições que o compõem como “fornecedoras de produtos para consumo religioso, atuando sob regras especificas de concorrência pela preferência dos indivíduos”. (apud GUERRA, 2003) O resultado da colocação das diferentes ideologias religiosas, que formam muitas vezes doutrinas divergentes, sob uma dinâmica de “livre mercado da

Campos (1997, p. 213) manifesta sua insatisfação quanto à expressão “comodidades de consumo”, empregada pelo tradutor de The sacred canopy (O dossel sagrado), de Peter Berger, para língua portuguesa (1985). Segundo ele a sentença original “[...] the religious institutions become marketing agencies and the religious traditions become consumer commodities […]” fora melhor traduzida em sua versão espanhola: “[…] las instituciones religiosas se convierten en agencias comerciales y las tradiciones religiosas en mercanderias para el consumidor […]”.

64

49 religião” – constituído a partir da destituição deste capital da sociedade comum e do suprimento desta demanda social não mais imposto pela autoridade65 – é a potencialização das diferenças e a transformação inevitável dos agentes religiosos em concorrentes.

2.4

Panorama do campo religioso brasileiro – aspectos qualitativos das

denominações cristãs e suas respectivas taxas de participação na sociedade

Na

trajetória

de

séculos

de

mudanças,

ao

ritmo

das

próprias

transformações da sociedade como um todo, o campo religioso se desenvolveu. Desapropriou e, em seguida, pauperizou a população comum do saber religioso; constitui-se tecnicamente e fortaleceu-se na legitimação do monopólio sobre a orientação da ética social. Adiante, tendo sua legitimação contestada quanto à capacidade de acompanhamento do ritmo secular de desenvolvimento econômico, o campo religioso foi isolado da esfera da economia e, posteriormente, do próprio Estado. Reservado apenas na sua influência social sobre as famílias, viu-se privatizado, e, consequentemente, obrigado a ofertar suas tradições no mercado; agora não mais em caráter monopólico, mas de pluralidade. As denominações religiosas ganharam o mundo por seus missionários; conquistaram preferências e segmentaram os fiéis livres para optarem, pelas leis do mercado, sobre as tradições religiosas que melhor atendiam suas necessidades. No Brasil, o Estado laico anunciado com a Proclamação da República no final do século XIX tornou coerente no país o princípio do livre mercado religioso. Ainda que muito distante da possibilidade de fazer sombra ao predomínio absoluto da Igreja Católica Apostólica Romana, imigraram representantes do cristianismo protestante e de inúmeras outras tendências religiosas, instalando-se

65

Ivone Lima Ferreira Botelho, diretora acadêmica do seminário evangélico Faculdade Latino-Americana de Teologia Integral, lembra que, na “Idade Média, por exemplo, o fiel não tinha alternativa senão adaptar-se à religião. [...] Hoje o que vale é a flexibilidade, tudo é relativo, Você escolhe a igreja que quiser”. Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24.

50 por todo o território nacional. Hoje, religiões oriundas das mais diversas partes do globo possuem adeptos no país. De acordo com o estudo Retratos das Religiões no Brasil66, realizado com base nos microdados do Censo Demográfico de 2000 (IBGE), pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) vinculado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV) no Rio de Janeiro, as 10 denominações religiosas mais representativas na população nacional num grupo de 140 eram, no período analisado: a Católica Apostólica Romana (73,55%), o grupo dos chamados Sem religião (7,35%), a Igreja Evangélica Assembléia de Deus (4,89%), Igreja Evangélica Batista (1,73%), Igreja Congregacional Cristã do Brasil (1,46%), Espírita Kardecista (1,32%), Igreja Universal do Reino de Deus (1,24%), Outras Evangélicas Pentecostais (0,89%), Igreja Evangelho Quadrangular (0,77%) e Igreja Evangélica Adventista do Sétimo Dia (0,67%). Dentre as cinco classificações menos representativas apareceram a Neoxamânica, Declaração Múltipla de Católico/Candomblé, Outras Islamismo, Outras de Missão Episcopal Anglicana, Outras de Origem Pentecostal Universal do Reino de Deus; todas com população inferior a 100 adeptos. No ranking agregado das religiões, o estudo apresentou liderança católica com 73,89% na soma das 8 denominações que constituem o grupo67, mantendonos na posição de maior nação católica do mundo (cerca de 126 milhões de adeptos), sucedida pelo conjunto das denominações evangélicas (16,22% da população nacional)68, dos Sem religião (7,35%), Outras religiões (1,99%) e Espiritualistas (1,35%). No país, o estado do Piauí apareceu como o mais católico (90,03% da população total). Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Maranhão sucederam a lista das 5 maiores participações católicas na população total, com,

respectivamente, 86,70%, 84,94%, 83,77% e 82,60%. Os 5 estados menos católicos são: Rio de Janeiro (56,19%), Rondônia (57,61%), Espírito Santo (63,23%), Distrito Federal (66,62%) e Roraima (66,78%).

66 67

Disponível em <http://www.fgv.br/cps/religioes/inicio.htm>. Acesso em: 21 Abr. 2005. Católica Apostólica Romana; Católica Carismática, Católica Pentecostal; Católica Armênia; Católica Ucraniana; Católica Apostólica Brasileira; Católica Ortodoxa; Ortodoxa Cristã; Outras Ortodoxas Cristãs; e Outras Católicas. 68 Dentre o conjunto dos evangélicos estão presentes os subconjuntos das protestantes tradicionais ou de origem de missão (4,09%) e as protestantes pentecostais ou de origem pentecostal (12,1%).

51 No ranking dos estados mais evangélicos, Rondônia lidera a lista com 27,19% da população. Espírito Santo (24,96%), Roraima (22,49%), Rio de Janeiro (21,98%) e Amazonas (21,07%) sucedem a lista. Já o estado menos evangélico pelo Censo de 2000 era o Piauí (6,01%). Sergipe, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte parecem em seguida com percentuais na faixa de 7% a 9% da população estadual do total. No grupo dos Sem religião a participação predominante era do estado do Rio de Janeiro, com 15,76% da população integrando esta classificação. Rondônia, com 12,70%; Bahia, 11,39%; Alagoas, 9,80%; e Acre, 9,70%. Dentre os estados que apresentaram menor taxa de participação desta classificação, Santa Catarina liderou o ranking, com apenas 1,97% da população estadual. Piauí, Ceará, Paraná, e Tocantins sucederam a lista com taxas variando entre 3,05% e 4,55%. Dentre os 10 municípios mais católicos do país, 9 pertencem ao Rio Grande do Sul, sendo que 4 deles com participação de 100% da população nesta classificação (Nova Roma do Sul, Nova Alvorada, União da Serra e Vespasiano Correia). Apesar disto, 5 dentre os 10 municípios mais evangélicos do Brasil no ano 2000 também pertenciam ao estado do Rio Grande do Sul, incluindo o líder do ranking, o município de Quinze de Novembro, com 80,37% da população se declarando evangélica. Nova Ibitá, na Bahia, foi o único município com mais da metade da população declarada Sem religião (59,85%). No estado de Goiás, os municípios de Palmelo e Professor Jamil foram os que apresentaram maior participação de espiritualistas na população, com 42,10% e 24,98%, respectivamente. O estudo do CPS do IBRE/FGV também analisou as taxas das religiões de acordo com a situação do setor para as classificações religiosas Católica, Evangélica, Sem religião e Outras declaradas em Quartéis, Aglomerados subnormais69, Penitenciárias, Asilos e Aldeias indígenas. Dentre a população do grupo Quartel, apenas as taxas de participação das religiões Católica e Outras se apresentaram acima das taxas nacionais. Ao passo que nos aglomerados subnormais a predominância em variação da distribuição nacional foi da religião

O termo aglomerado subnormal é geralmente empregado para designar assentamentos informais, como por exemplo, favela, mocambo, alagado, barranco de rio, etc.

69

52 evangélica, onde 20,61% da população deste setor se declararam evangélicos, contra 15,41% no total nacional. Muito acima da média brasileira de declaração no grupo Sem religião estiveram as populações dos aglomerados subnormais (13,14% do total), penitenciárias (16,28%), asilos (19,13%) e aldeias indígenas (25,68%); contra uma taxa de 7,35% da população nacional. O grupo Outras religiões, cuja participação nacional neste nível de agregação das classificações religiosas era de 3,34% da população, teve participação abaixo desta taxa registrada pelo país apenas nos aglomerados subnormais (2,78%) e muito superior nas penitenciárias (19,23% dos internos) e asilos (14,22%). Quanto ao tamanho da cidade, o estudo pôde afirmar que os evangélicos estão mais presentes em regiões metropolitanas (capital e periferia) e outros grandes centros urbanos. Ao contrário da religião católica, mais presente em centros urbanos de médio e pequeno porte e zonas rurais. Nas periferias das regiões metropolitanas brasileiras 20,72% desta população se declarou evangélica e 10,15% como Sem religião, contra 15,41% e 7,35% de participação destas classificações na população total do país. A análise da classificação etária das populações das religiões, agregadas em quatro grupos – Católicos, Evangélicos, Sem religião e Outros –, apontou coeficiente de variação na distribuição dos fiéis, acerca das quatorze faixas de idade propostas pelo IBGE, substancialmente menor para o conjunto de Outras religiões; em média 22,85% é o grau de relacionamento do desvio padrão para com a média de adeptos por faixa etária nesta classificação, a qual inclui mórmons, Testemunhas de Jeová, espíritas, judeus, muçulmanos, budistas, tradições indígenas e esotéricas, etc. Este coeficiente de variação médio oculta, no entanto, as grandes diferenças de perfis etários das denominações que compuseram o grupo de agregação. Enquanto que os espiritualistas e seguidores de religiões orientais possuem uma distribuição mais diversificada, os mórmons se concentram mais em algumas faixas (54,24% dos fiéis possuem entre 10 e 34 anos de idade). Entre católicos e evangélicos o coeficiente de variação na distribuição etária dos fiéis diferem muito pouco, tanto na população total quanto entre as mulheres. Na comparação entre as distribuições da população masculina, essas

53 agregações ampliam um pouco a diferença existente entre elas. No total de homens e mulheres, as denominações católicas apresentaram diversificação etária muito pouco superior a de evangélicos (coeficiente de variação de 35,14%, contra 38,02% dos evangélicos). Dentre os homens, os evangélicos se concentram pouco mais em algumas faixas do que os católicos; em geral, sua taxa da população masculina com idade inferior a 15 anos é superior à média nacional. Incluindo homens e mulheres, quando comparados com as taxas nacionais, os evangélicos são mais representados por pessoas com idade de 5 a 14 anos e de 25 a 44 (51,63% do total distribuído nas 6 faixas que incluem essas idades). Já os católicos superam as taxas nacionais na população com idade igual ou superior a 50 anos; ¼ de todos os seus fiéis se encontram nesta faixa, contra apenas 15% dos evangélicos. No grupo dos Sem religião, o menos diversificado em termos de distribuição etária, 75% dos fiéis têm menos de 35 anos de idade, com maior concentração entre as crianças com menos de 5 anos e jovens e adultos de 15 a 34 anos. Quando cruzados os dados de idade com tempo de estudo, a pesquisa do CPS demonstrou que, dentre a população brasileira do ano 2000 com pelo menos 12 anos de estudo, os católicos mantinham a mesma participação em torno de 74%. Já os evangélicos perdiam representatividade significantemente, contando com apenas 10,3% dos brasileiros com esse nível de escolaridade, contra 16,2% de participação na população total (independente do tempo de estudo). Os espiritualistas, ao contrário, que representavam 1,35% da população nacional em 2000, dentre as pessoas com pelo menos 12 anos de estudo, eram 6,4% do total. As religiões orientais, afro-brasileiras e outras religiões também eram mais representadas na faixa da população com pelo menos 12 anos de estudo, saltando de 1,21% do total (independente desta variável) para 2,8% da população nacional na análise controlada pelos anos de estudo. Excetuando-se católicos (73,96%), evangélicos (10,27%) e sem religião (6,54%), as demais religiões representavam 9,23% da população com 12 ou mais anos de estudo no ano 2000.

54 Uma publicação do IBGE baseada no Censo de 200070 demonstrou que espiritismo, umbanda e candomblé são as religiões com os maiores graus de escolaridade do Brasil. De acordo com o estudo, os católicos apostólicos romanos tinham em média 5,78 anos de estudo e o total de evangélicos 5,83, sendo que, dentre estes, os evangélicos de missão tinham 6,94; os pentecostais, 5,34; e as demais evangélicas, 6,41. Os espíritas apresentaram em média 9,58 anos de estudo, primeiro lugar no ranking, sucedidos pela classificação umbanda e candomblé, com média de 7,19 anos de estudo. A média total do país era de 5,86 anos de estudo por pessoa, pelos resultados do Censo Demográfico de 2000. Em termos de ocupação profissional o estudo Retratos das Religiões no Brasil demonstrou participação católica abaixo da média apenas entre os brasileiros desempregados no ano 2000; os inativos, os empregados com carteira de trabalho assinada, empregados sem carteira e pessoas que trabalhavam por conta-própria eram católicos em torno de 74% (mesma participação de católicos no total da população nacional). Os católicos superavam a média entre os brasileiros classificados como empregadores (76,4%) e “próprio consumo” (87,4%). Os evangélicos eram mais representados nos grupos dos

desempregados e dos inativos, mantendo-se abaixo da média para os demais grupos de ocupação profissional. Os Sem religião superavam a média nas classificações “desempregado” ou “empregado em carteira”. Para as demais religiões, a pesquisa apontou destaque proeminente para a classificação “empregador”. Em média, 6,48% dos empregadores brasileiros não eram em 2000 nem católicos, nem evangélicos e nem sem religião; no total geral da população nacional (independente da ocupação) as outras religiões

representavam neste ano apenas 3,34%. A pesquisa também mostrou que em geral, evangélicos, adeptos de religiosidades afro-brasileiras e sem religião possuíam no ano 2000 renda domiciliar per capita pouco inferior a dos católicos; enquanto que espiritualistas e orientais tinham renda bem superior, de maneira coerente com os diferencias de escolaridade já citados. O exercício de comparação do rendimento de pessoas de diferentes religiões, mas iguais atributos socioeconômicos, revelou que “a renda

70

Última etapa de divulgação do Censo 2000 traz os resultados definitivos, com informações sobre os 5.507 municípios brasileiros. Censo Demográfico 2000. IBGE. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/20122002censo.shtm>. Acesso em 2 Nov. 2005.

55 familiar per capita de evangélicos e sem religião são 6,9% e 6%, respectivamente, inferiores aos dos católicos. Similarmente os diferenciais da renda do trabalho principal são 2,6% e 1% menores”71. Para o IBGE, nos resultados do Censo Demográfico de 2000, os espíritas foram os adeptos que apresentaram os melhores indicadores entre as religiões mais numerosas, tanto em termos de escolaridade (98,1% são pessoas de 15 anos ou mais de idade alfabetizadas), como em termos de rendimento: “8,4% deles ganhavam mais de 20 salários mínimos, enquanto para o total da população, apenas 2,7% tinham esse rendimento. Entre aqueles que ganhavam até 1 salário mínimo, os espíritas tinham a menor proporção (7,9%) e os católicos apostólicos romanos e os evangélicos, as maiores (26,3% e 23,5%, respectivamente)”72. O rendimento mediano mensal dos espíritas, segundo o IBGE73, era quase três vezes mais do que o dos evangélicos pentecostais (R$ 700,00 contra R$ 260,00), enquanto que os católicos e os sem religião tinham o mesmo rendimento (R$ 300,00). Na comparação entre algumas características de católicos e evangélicos das metrópoles brasileiras, o estudo do CPS nos permitiu observar que, no período analisado, os católicos eram, em geral, mais sindicalizados e pertenciam mais a órgãos de classe profissional; percebiam mais a incorporação regular de novos equipamentos no trabalho; eram mais bem pagos74; estavam mais satisfeitos quanto à ocupação assumida; atribuíam mais importância do trabalho como perspectiva de ascensão social75; no entanto, participavam menos de associações comunitárias. 17,26% dos evangélicos em média participavam de pelo menos uma reunião por ano de associações comunitárias; apesar disso, os

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Marcelo Neri. A ética pentecostal e o declínio católico. Conjuntura econômica. Maio de 2005. Disponível em <http://www.fgv.br/cps/religioes/Apresenta%E7%E3o/CPS.FGV-A%20%E9tica%20pentecostalConjuntura%20Economica-maio%202005.pdf>. Acesso em 21 Abr. 2005. 72 Notas sobre o Censo Demográfico de 2000. IBGE. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/27062003censo.shtm>. Acesso em 02 Nov. 2005. 73 Idem. 74 Apesar disso, católicos e evangélicos num nível de agregação das religiões em 7 grupos, possuíam os dois menores percentuais de fiéis classificados em situação de mais bem pagos da ocupação. Contrariamente, os judeus lideravam a participação de adeptos classificados como bem pagos (55% deles), além de também serem os mais sindicalizados. 75 81,55% dos judeus atribuíam importância do trabalho como perspectiva de ascensão social, superando os espíritas kardecistas, segundo lugar da pesquisa, em praticamente 25 pontos percentuais. A participação de católicos e evangélicos que responderam positivamente era de 53,84% e 50,43%, respectivamente.

56 católicos estavam mais presentes em associações de bairro/moradores, ao passo que os evangélicos em associações de cunho religioso. No que diz respeito à posição na família, os filhos são os que mais superam a média no grupo dos sem religião, que é composto mais por homens do que por mulheres (60%). Ao contrário dos evangélicos, dentre os quais a população do sexo feminino é mais presente (56%). Quanto ao setor de atividade de trabalho, 84,51% dos trabalhadores agrícolas do Brasil eram católicos no ano 2000, enquanto que o grupo dos evangélicos apresentava distribuição mais diversificada e com menor participação justamente deste setor. Sem religião era a classificação de 11,22% dos trabalhadores da construção civil, superando a média de 7,35% da população nacional declarada nesta opção de religiosidade. Os católicos também apresentaram participação muito acima da média dentre o percentual de brasileiros cuja situação conjugal era de casamento civil e religioso ou apenas de casamento religioso. Os evangélicos, contrariamente, tinham participação elevada do percentual de brasileiros casados apenas no civil. Dentre os sem religião, observou-se destaque à participação acima da média de pessoas com união consensual e pessoas solteiras. As demais religiões tinham participação maior de desquitados e divorciados. A análise da participação religiosa com base na cor ou raça dos brasileiros apresentou pouca divergência da distribuição do total da população para as classificações “banca” e “parda”. Os negros são pouco menos católicos e mais sem religião; assim como os amarelos são menos católicos e evangélicos e mais sem religião ou adeptos de outras religiões, particularmente, orientais. A população de raça indígena foi a que se apresentou mais diversificada em relação à média nacional; são bem menos católicos (apenas 59,48%) e bem mais evangélicos (20%), sem religião (14,38%) e outras religiões (6,14%), incluindo, obviamente, as próprias tradições indígenas. Finalmente, observamos o tratamento da questão da imigração

interestadual pela pesquisa do CPS do IBRE/FGV. O maior destaque foi da população de evangélicos, com participação acima da média dentre os brasileiros que haviam imigrado de outras Unidades Federativas. Enquanto que o total de evangélicos na população nacional representava 15,41% da população em 2000, todas as classificações de brasileiros que migraram de estados (há menos de 1

57 ano no momento da pesquisa, de 1 a 5 anos, de 6 a 10 anos ou há mais de 10 anos) tinham percentuais da população neste grupo de religião superior a 18,4%, chegando a 19,2% dos haviam imigrado a menos de 1 ano.

58 CAPÍTULO 3 – ASPECTOS CONCORRENCIAIS DA RELIGIÃO NO BRASIL

3.1

Grau de concentração do setor religioso e a recente evolução do

cenário concorrencial

Para o real propósito deste estudo, mais do que uma noção do panorama do campo religioso brasileiro, se faz necessária uma análise da concorrência religiosa em termos de concentração do mercado e tendências de acirramento da competitividade. Para tanto, recorremos à aplicação do método de mensuração do grau de concentração industrial de Herfindahl-Hirschman, popularmente conhecido como Índice HH ou, simplesmente, IHH, controlado pela variável quantidade de fiéis por denominação religiosa; analisado em termos históricos com base nas publicações de tendências demográficas do IBGE. Além deste, a concentração industrial e a desigualdade entre os agentes do campo religioso brasileiro também foram analisadas pela aplicação do método de Gini (Coeficiente de Gini). A relação de concentração (C) e o IHH – este último representado pela soma dos quadrados das participações de mercado (market shares) das empresas atuantes em uma determinada indústria e podendo variam entre 0 e 10000 pontos - foram aplicados ao caso das denominações religiosas, tendo sido as participações destas no mercado calculadas com base no total de fiéis que possuíam de acordo com o Censo Demográfico de 2000. A primeira análise foi aplicada para o total da população brasileira no conjunto das denominações religiosas desagregado em 138 classificações; sendo 135 religiosidades propriamente ditas, mais 3 classificações (SEM RELIGIÃO, SEM DECLARAÇÃO e NÃO DETERMINADA / MAL DEFINIDA). Tomando como base a classificação adotada pelo IBGE no Censo de 2000 (vide tabela no Anexo IV), apenas 5 denominações religiosas foram excluídas do estudo76; dada a nula representatividade delas nos números publicados. Estiveram presentes também as classificações de declaração de múltipla religiosidade.
76

Outras DE ORIGEM PENTECOSTAL CADEIA DA PRECE, Outras IGREJA DE JESUS CRISTO DOS SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS, Budismo Theravada, Discipulos Oshoo e A Barquinha.

59 A relação de concentração (C) com corte nas sete primeiras denominações mais representativas foi de 91,54%. O grupo selecionado, cuja população total envolvida era próxima de 155,5 milhões de brasileiros no ano da pesquisa, foi composto pelas seguintes declarações religiosas: Católica Apostólica Romana (73,55% da população nacional), Sem religião (7,55%), Igreja Evangélica Assembléia de Deus (4,89%), Igreja Evangélica Batista (1,73%), Igreja Congregacional Cristã do Brasil (1,46%), Espírita Kardecista (1,32%) e Igreja Universal do Reino de Deus (1,24%). O Índice Herfindahl-Hirschman (IHH) para o conjunto das 138

classificações foi de 0,550 (ou 5500 pontos). O aspecto qualitativo deste resultado pode ser obtido pela sua correspondência com faixas de uma escala de concentração. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América, por exemplo, considera resultados inferiores a 1000 pontos como sendo próprios de mercados competitivos; aqueles cuja pontuação oscila entre 1000 (inclusive) e 1800 pontos (exclusive) como nível moderado de competição; e IHH igual ou superior a 1800 pontos como próprio de mercados altamente concentrados77. Na análise aplicada com exclusividade sobre a população de idade igual ou superior a 60 anos, apesar da relação de concentração cortada para as sete primeiras classificações mais representativas ter se apresentado praticamente a mesma (91,50%), o IHH permitiu concluir uma concentração das denominações religiosas ainda superior em relação àquela válida para toda população (independente da variável idade), apontando 5986 pontos. Fechando-se o estudo para a população com idade igual ou superior a 60 anos, as classificações Sem religião e Igreja Evangélica Assembléia de Deus trocam de lugar no ranking das sete principais em participação de mercado; assim como o fazem as classificações Espírita Kardecista e Igreja Evangélica Batista. O Coeficiente de Gini – “medida de concentração, mais frequentemente aplicada à renda, à propriedade fundiária e à oligopolização da indústria”78 – foi calculado também no intuito de evidenciar o grau de concentração e desigualdade entre os agentes atuantes no campo religioso. Com base nos dados do Censo

THE HERFINDAHL-HIRSCHMAN INDEX. United States Department of Justice. Disponível em <http://www.usdoj.gov/atr/public/testimony/hhi.htm>. Acesso em 28 Nov. 2005. 78 Paulo Sandroni, Novíssimo dicionário de economia. 7ª ed. São Paulo: Best Seller, 2001. Ver verbete Coeficiente de Gini.

77

60 Demográfico de 2000, para um conjunto de 97 classificações de religiosidade79, o coeficiente com resultado apresentado de 0,957 (ou 95,7%) pôde ser evidenciado graficamente no Apêndice A. É representado pela proporção da área compreendida entre a Curva de Lorenz e a linha da perfeita distribuição (45º), relativa ao triângulo formado pela própria linha da perfeita distribuição (hipotenusa) e os eixos crescente de acumulação percentual da quantidade de denominações religiosas (horizontal) e respectivas fatias de mercado (vertical). Neste sentido, quanto mais próximo de zero for o coeficiente, mais iguais serão os agentes; quanto mais próximo de 1 (100%), mais desiguais serão os agentes. O Índice Herfindahl-Hirschman (IHH) calculado para um nível de agregação de 138 classificações de religiosidade adotadas pelo IBGE, cujo resultado para o ano 2000 foi de 5500 pontos, foi também analisado em termos históricos, de acordo com as tendências demográficas. Porém, neste caso, a não conformidade nas terminologias empregadas pelo instituto de pesquisa ao longo dos anos analisados, requereu a agregação das classificações de religiosidade em apenas 6 grupos: Católicos apostólicos romanos, Evangélicos, Espíritas, Outras religiões e Sem declaração – este último sem impactos significativos sobre os cálculos. Esta agregação altera para o ano 2000 o IHH, subindo de 5500 (com 138 classificações de religiosidade) para 5711 (com 6 classificações de religiosidade). Na liderança do ranking se manteve, evidentemente, a Igreja Católica Apostólica Romana, concentrando sozinha 73,57% da população brasileira; sucedida pelo conjunto dos evangélicos (15,41%), os sem-religião (7,35%), outras religiões (1,79%), espíritas (1,64%) e, finalmente, os sem-declaração (0,23%). Aplicado aos períodos que compõem o relatório de Tendências demográficas do IBGE, o método Herfindahl-Hirschman demonstrou uma queda substancial no grau de concentração do campo religioso brasileiro desde a década de 1960, quando o IHH era de 8690 pontos; passando para 8452 em 1970, 7962 em 1980, 6992 em 1991 e 5711 em 2000. Durante os anos 1960 a redução do índice foi de 2,73%, registrada em 1970; já na década seguinte a variação duplica, tendo reduzido o índice em mais 5,8%; e duplica novamente nos
79

A limitação do número de classificações de religiosidade a um total de 97 deve-se a exclusão de todas as agregações do tipo “outras religiosidades”, adotadas pelo IBGE para cada grupo de denominações. Pelo método de cálculo do Coeficiente de Gini, a não exclusão dessas classificações implicaria na distorção do índice, reduzindo artificialmente o grau de concentração e desigualdade entre os agentes do campo religioso, podendo ser aceita somente no caso de a agregação significar algum impacto real para o mercado; ou seja, se a agregação representasse uma coalizão de interesses sobre o campo.

61 anos 1980, com variação de 12,19% medida em 1991. Desde então até o último Censo, a taxa de variação do IHH medida anteriormente é multiplicada por 1,5, reduzindo o índice nos anos 1990 em 18,32%, suavizando desta forma, neste último período, a tendência abrupta de redução geométrica da taxa de concentração80. Em termos de relação de concentração (coeficiente C), este

comportamento também pôde ser observado, contudo, de modo mais suave. O corte na participação dos três principais grupos religiosos na década de 1960 (Católicos apostólicos romanos, Evangélicos e Espíritas) atribuía 98,49% da população declarada associada a uma dessas três classificações. Em 1970, esta participação decresce para 98,21%. Em 1980, os espíritas tiveram sua participação aumentada levemente de 1,27% para 1,29%, mas ainda assim foram superados no ranking das 6 agregações pelo grupo dos Sem religião e o corte dos três maiores passaria a representar 97,22% da população brasileira. Com esta mesma composição de liderança, a participação de católicos, evangélicos e sem-religião se reduziria para 96,68% e 96,34%, respectivamente, nos resultados apresentados pelos censos de 1991 e 2000. No período todo, de 1960 a 2000, a queda acumulada em pontos do IHH foi de 2979 (34,28%) e de 2,18 a variação em pontos percentuais na participação dos três maiores grupos religiosos do país, sofrendo uma mudança na composição somente nos anos 1970. Esta observação nos permite antecipar a conclusão de que, ao longo dos últimos 40 anos que antecederam o Censo Demográfico de 2000, a grande desconcentração do campo religioso brasileiro, de trajetória sempre crescente mesmo que levemente suavizada a partir dos anos 1990), se deu principalmente dentre os principais grupos (católicos, evangélicos e sem-religião). Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV, afirmou em maio de 2005 que “se fôssemos traçar um retrato atual, ou filmar a história recente das religiões brasileiras, os personagens principais seriam os católicos, os sem-religião e os evangélicos, com especial destaque às seitas pentecostais”81.
80

Tanto a linha de tendência do IHH quanto a sua taxa de redução a cada década no período 1960-2000 estão representadas graficamente no Apêndice B. 81 Marcelo Neri. A ética pentecostal e o declínio católico. Conjuntura econômica. Maio de 2005. Disponível em <http://www.fgv.br/cps/religioes/Apresenta%E7%E3o/CPS.FGV-A%20%E9tica%20pentecostalConjuntura%20Economica-maio%202005.pdf>. Acesso em 21 Abr. 2005.

62 É certo o fato de que a desconcentração do campo religioso no Brasil e, consequentemente, a ampliação da sua condição de pluralidade religiosa e o acirramento da concorrência ao nível das igrejas e destas para com propostas alternativas de religiosidade, incluindo as céticas e secularizadas, se deu à custa da perda de participação da Igreja Católica na população brasileira. De 1960 a 1980 o catolicismo apostólico romano teve seu market share reduzido em 4,17 pontos percentuais (p.p.); nos 20 anos seguintes, esta perda seria agregada de mais 15,38 p.p., totalizando no período de 1960 a 2000 uma redução de 19,54 p.p. A fatia de mercado religioso de 93,12%, que lhe era atribuída em 1960, passaria a 91,77% em 1970, 88,95% em 1980, 82,97% em 1991 e 73,57% em 2000. Em média, registrou-se uma variação negativa anual de praticamente meio ponto percentual durante os 40 anos analisados, por conta principalmente do movimento de “descatólicalização” associados ao crescimento populacional proporcionalmente superior na esfera das denominações rivais. Por outro lado, o conjunto das denominações evangélicas saltou de pouco menos de 4% da população brasileira em 1960 para 15,41% em 2000 – crescimento de 11,44 p.p., sendo 8,8 a partir da década de 1980. Paralelamente, as declarações de sem-religião que se limitavam a 0,5% da população em 1960, chegaram em 2000 a 7,35%, multiplicando por 14,7 a percentagem dessa fatia da população. Em 40 anos, enquanto a taxa de católicos caía cerca de 20 p.p., evangélicos e sem-religião protagonizavam o surgimento de um panorama mais diversificado e competitivo do campo religioso brasileiro, com aumentos de 11,4 p.p. e 6,9 p.p., respectivamente (vide Apêndice C com gráfico de evolução destes grupos).

3.2

O surgimento de novas competidoras e as barreiras envolvidas

Grandes alterações se deram, portanto, no campo religioso brasileiro no sentido de expansão do seu grau de pluralidade, desde o começo do século XX, intensificado a partir dos anos 1950 quando os evangélicos representavam ainda apenas 3% da população. O movimento do neopentecostalismo82, por exemplo,
82

“Naquele país [EUA], atribui-se o termo ‘neopentecostalismo’ a pessoas com mentalidade pentecostal, mas que se consideram adeptas de uma ‘renovação espiritual’ dentro dos próprios quadros denominacionais a que

63 cuja força foi ganha no mundo religioso norte-americano nos anos 1970, invadiu também a América Latina nesta época, provocando o surgimento de novas igrejas, seitas e denominações. Em acompanhamento, registraram-se inúmeras cisões nas principais denominações protestantes brasileiras, entre elas, Metodista, Batista, Presbiteriana, Congregacional e outras. (CAMPOS, 1997, p. 50) De simplesmente evangélicos, passaram a “evangélicos de origem de missão” e “evangélicos de origem pentecostal”. No sub-campo religioso pentecostal, a segmentação em várias denominações permitiu, inclusive, a criação de várias propostas de tipologias, das mais objetivas às mais extensas e abstratas83. Ao “pentecostalismo clássico” são relacionadas a Igreja Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil; Paul Freston (1993 apud CAMPOS, 1997, p. 51) – que separa o surgimento dos neopentecostais em “ondas” associadas ao ciclo de início, expansão e reversão dos movimentos religiosos no decorrer do tempo –, fala em uma “segunda onda” que incluiria as Igrejas “O Brasil para Cristo”, “Deus é Amor” e “Evangelho Quadrangular”84. A “terceira onda” ou “pentecostalismo autônomo” ou, simplesmente, “neopentecostalismo” (MENDONÇA, 1994 e MARIANO, 1995 apud CAMPOS, 1997, p. 51) inclui as denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Sara Nossa Terra, Igreja Renascer em Cristo e Igreja Nacional Palavra da Fé. (CAMPOS, 1997, p. 51) Para o Professor Mário Sérgio Cortella, do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o crescimento das denominações evangélicas é explicado por três motivos: a urbanização do Brasil (“nas cidades há garantia de anonimato e liberdade de culto, menor controle social”), a democratização do país (“antes, para abrir uma

pertencem. De uma maneira geral, esse ‘neopentecostalismo’ enfatiza o exorcismo, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através de líderes carismáticos, e uma parte dele aceita a ‘teologia da prosperidade’”. Leonildo Silveira Campos. Teatro, templo e mercado – Organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997. 83 Apesar das tipologias propostas, devido à dificuldade de distinção entre as características assumidas pelas denominações da segunda e terceira onda que dividiriam o sub-campo pentecostal no Brasil, adotaremos a terminologia mais simples, empregando pentecostais em referência às denominações mais clássicas, e neopentecostais para as demais. 84 Este grupo de denominações pentecostais também é tratado por pentecostais “de cura divina”. (MENDONÇA, 1989 apud CAMPOS, 1997, p. 51)

64 igreja cristã não-tradicional, era preciso ter autorização policial”) e a globalização (“agora aceita-se muito mais a pluralidade”)85. Atualmente, segundo a Revista Exame86, cerca de 10.000 novos pontos de pregação evangélicos são abertos a cada ano em várias regiões do país. Dentro disso, o fato que nos chama atenção neste segundo tópico do terceiro capítulo é a questão da susceptibilidade destes projetos de novas denominações religiosas às barreiras à entrada presentes no mercado. Se por um lado, não se fazem mais presentes os impedimentos legais para o surgimento de denominações alternativas ao monopólio católico típico de séculos passados; por outro, em tempos atuais, a criação de denominações inteiramente novas, as cisões decorrentes das divergências em termos ideológicos ou meramente organizacionais e administrativos87, ou mesmo a simples expansão da abrangência territorial de uma determinada denominação estabelecida pela abertura de um novo ponto de pregação, passam pela análise dos requisitos mínimos necessários para a realização do projeto. Segundo o Mestre Antonio Miguel Kater Filho88, “os pontos de venda do produto [salvação] são milhares, dependendo da magnitude”. Para ele, não somente os templos, mas “cada batizado em uma igreja é um portador da salvação. É alguém que chega, sentado, ao lado de uma pessoa num avião, num ônibus ou num ponto de ônibus, dentro de um prostíbulo, num botequim. Eu posso chegar para uma pessoa num buraco e falar de salvação e traze-lo a salvação”. Apesar disso, as igrejas, no seu sentido de congregação e para que possam realizar os rituais que eventualmente integrem a sua cultura teológica, carecem de uma estrutura física e, portanto, de recursos passíveis de transformação em capital fixo imobilizado. Em geral, o ativo fixo mínimo das igrejas inclui, senão o próprio edifício, que pode eventualmente ser alugado, pelo menos os móveis (bancos, mesas, cadeiras, etc.), equipamentos de áudio e instrumentos musicais. De acordo com a

85

Ricardo Westin. Evangélicos eram 3% do País em 1950. Hoje são 15%. Folha de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 86 Luciana Farnesi. Um mercado movido pela fé. Revista Exame, 16 Fev. 2005, p. 60-61. 87 A respeito das cisões em denominações religiosas, Campos (1997, p. 50) afirmou que ocorrem em sua maioria “mais por questões administrativas e organizacionais do que teológicas”. 88 Em entrevista concedida aos 27 de setembro de 2005, das 17h às 18h, na sede do Instituto Brasileiro de Marketing Católico – IBMC, na Av. João Erbolato, 50 – sala 20 – Castelo – Campinas (SP).

65 Revista Exame89, “cada um dos 150.000 templos [evangélicos] espalhados pelo Brasil tem uma banda musical, ou, como os evangélicos preferem chamar, um grupo de louvor”. Tanto que, segundo a mesma matéria, metade das vendas da fábrica Weril90 de trombones, flautas, trompetes e outros instrumentos sopro, são destinadas ao público evangélico. A aquisição destes bens requer uma soma de capital mínimo, oriunda, geralmente, de doações dos próprios fiéis e líderes que se prontificam a iniciar o novo trabalho. Essa noção subjetiva de requisito mínimo de capital pode se transformar em barreira ao surgimento de uma nova denominação à medida se compara com o conjunto das denominações já estabelecidas, no que tange aos seus objetivos de oferecer condições estruturais coerentes com aquelas que o mercado já oferece. Nesse sentido, passa a ser relevante a questão do número mínimo de fiéis – em termos econômicos, diríamos escala mínima eficiente – para manutenção da estrutura física ao menor custo por fiel possível. A determinação arbitrária em fase de projeto, ou a percepção ao longo do processo prático de atuação, do volume em número de fiéis almejado pela denominação religiosa, sejam quais forem seus interesses e motivações, se associa aos meios reais dos quais ela fará uso para atingir esse objetivo. Ou seja, é provável que as igrejas escolham os veículos que as levem ao mercado alvo em função da escala almejada. Um número muito alto de fiéis implica a necessidade de se produzir mais material gráfico, talvez o controle de estações rádio ou até mesmo de televisão. E, é claro, a propriedade destes meios acumulados expande a quantidade mínima de fiéis necessários para sua manutenção ao menor custo unitário possível. A escala de prestação de serviços religiosos (quantidade de fiéis) deve, obviamente, caber na realidade do mercado; caso contrário, significa para a nova igreja a necessidade de predisposição à superação das denominações já estabelecidas, atraindo para si parte dos fiéis destas. Em resumo, ou um grupo mais concentrado se prontifica a bancar a estrutura física da igreja ou a escala necessária de fiéis deve ser compatível com o mercado. É possível também pensarmos no conceito de barreira quanto aos empenhos necessários, por parte da nova igreja, no sentido de superar as
89 90

Luciana Farnesi. Um mercado movido pela fé. Revista Exame, 16 Fev. 2005, p. 60-61. De acordo com o próprio site da empresa (www.weril.com.br), presente em mais de 40 países além do Brasil, é uma das cinco maiores empresas de instrumentos musicais de sopro do mundo, e líder do segmento de instrumentos de sopro no país.

66 denominações já estabelecidas na formação de contratos e parcerias com empresas e órgãos públicos e privados diversos para a realização de atividades almejadas. Como, por exemplo, negociações de aquisição ou concessão de um terreno para a construção do templo; possivelmente mais facilitado às igrejas já existentes. Todos estes possíveis inibidores ao surgimento de novas denominações estão, entretanto, muito condicionados ao tamanho do empreendimento que se planeja. Contudo, um outro fator muito relevante para o caso das igrejas enquanto barreira ao estabelecimento, tanto de novas denominações, quanto de novos pontos de denominações já existentes, são os esforços necessários de serem empenhados pela igreja entrante no campo religioso, no sentido de quebrar a reputação das igrejas já estabelecidas. Em geral, é possível afirmar que a população, em sua maioria pelo menos, já tem sua opção religiosa determinada. Por isso, uma igreja que pretenda se estabelecer em determinada região está fortemente exposta a um estímulo de bloqueio pela exigência de se conseguir convencer parte daquela população da sua superioridade como instituição prestadora de serviços religiosos. Esses esforços de demonstrar a diferenciação dos seus serviços em relação àqueles que já estão sendo prestados e, naturalmente, a superioridade ou, em muitos casos, até mesmo a inofensividade deles, passam pela questão da imagem e da publicidade necessária, contra o preconceito e discriminação que podem estar presentes nas comunidades onde as igrejas entrantes focam seu

estabelecimento. Tomemos como exemplo a relação entre católicos e espíritas kardecistas. As divergências quanto a alguns pontos específicos de cada doutrina, associadas à crença na verdade absoluta das prédicas de cada religião, inspiram, em algum momento, a inviabilidade na declaração de múltipla religiosidade. Neste momento, ambas defendem suas doutrinas perante os leigos, potencializando com isso a competição. Os resultados da preocupação acerca da perda eminente no total de adeptos de cada uma podem ser, apesar das críticas mútuas, a adoção de certo grau de tolerância quanto às divergências sobre o assunto da reencarnação. Embora as religiões não tenham propriamente rompido com a sua doutrina, o discurso pode incorporar elementos de diferenciação em função do nível de acirramento da competição; ora mais ortodoxos e críticos, ora mais tolerantes.

67 Essa diferenciação, atribuída no exemplo ao grau de tolerância para com as divergências doutrinárias, dada por antecipação se consubstancia em barreira à entrada de nova doutrina. A tolerância de católicos, por exemplo, quanto a elementos da doutrina espírita incorporados por alguns de seu corpo de leigos, mesmo que isso contradiga a sua própria doutrina, seria somada às duras críticas pelos sacerdotes ao espiritismo enquanto religião, rompendo com as razões que motivariam a substituição de uma religião pela outra. Afinal, apesar desses elementos contraditórios não serem aceitos pela doutrina, a crença neles não transforma o leigo em pecador e, portanto, não haveria motivação à migração para uma outra religião. O exemplo anterior toma forma ainda mais realista quando aplicado à relação entre católicos e pentecostais. Por mais que um conjunto relevante de sacerdotes católicos se manifestasse (e parte dele ainda se manifesta) contrário à incorporação de alguns elementos associados ao pentecostalismo que, a partir da década de 1960 seria tratado por “movimento de renovação carismática” na Igreja Católica, percebeu-se o emprego (deliberado ou não) da “diferenciação de produtos” aos serviços religiosos91. Essa pluralidade interna de uma própria igreja ampliaria a partir dos anos 1970 a demanda por esforços de quebra da reputação católica por parte das denominações neopentecostais incipientes.

3.3

Estratégias de competição

O acirramento da concorrência religiosa, decorrente do surgimento de novas denominações competidoras, viabilizado primeiramente pela consolidação da perspectiva de privatização da religião na sociedade – isolamento das relações econômicas e dissociação do Estado como bases para a situação pluralística – e intensificado pela sucessão urbanização, democratização e globalização, submeteu o campo religioso à lógica mundana capitalista; pela qual o caráter individualista assume posição de protagonista do sistema, focado no

91

Para o Professor Antônio Miguel Kater Filho, do IBMC, a Renovação Católica Carismática (RCC) foi um “despertar” de parte da Igreja Católica às práticas adotadas pelos pentecostais, de comunicação através do “Espírito Santo” e, apesar de reconhecer a existência de opiniões contrárias, ele atribui ao movimento o mérito de ter realizado para a Igreja Católica um “trabalho fantástico”.

68 desenvolvimento de aptidões próprias contra o aspecto selvagem da dinâmica de concorrência. Neste sentido, os agentes envolvidos no mercado de bens simbólicos associados à fé como prestadores de serviços religiosos – e nesta classificação cabem as igrejas, seitas, centros, terreiros, e quaisquer outras terminologias empregadas em referência a instituições burocratizadas detentoras e ofertantes de capital religioso; inclusive, os pregadores dos movimentos céticos ou de nãoreligião – viram-se expostos à face dura do sistema de mercado. Uma vez inseridas na dinâmica de livre concorrência, as denominações religiosas, na luta pela sobrevivência, são obrigadas a lançar mão de verdadeiras estratégias de competição. Este aspecto secular da lógica conflituosa do campo religioso, uma vez reconhecido no sistema, expande-se analogamente à dinâmica econômica da concorrência capitalista; envolve, portanto, indiscriminadamente todos os agentes atuantes, atingindo inevitavelmente cada instituição. Estas, em nome da própria sobrevivência no mercado, adaptam-se às regras do jogo e agregam obrigatoriamente empenhos estratégicos orientados à defesa de seus interesses, traduzidos, fundamentalmente, nas tentativas de aumentar o número de praticantes e, naturalmente, de preservar a instituição. Em citação à Igreja Católica, Mariano (1999 apud CORREIA, 2003) ajuda-nos a observar a maneira como se dá a percepção desta realidade:

João Paulo II, quando esteve no Brasil em 1991, atento à diminuição de seu rebanho e ao crescimento dos concorrentes, cobrou dos cerca de 300 bispos reunidos em Natal durante o congresso Eucarístico Nacional uma ação mais eficaz contra a ignorância religiosa e a carência de doutrina que deixam o povo vulnerável à sedução das seitas (MARIANO, 1999, p. 13 apud CORREIA, 2003, p. 36).

Assim, hoje, no campo religioso, visto pela sua ótica de mercado, podem ser observadas iniciativas, com maior ou menor intensidade de planejamento deliberado, no sentido de criar condições de proteção contra o surgimento de novas competidoras; levantando barreiras à entrada, que se estendem do capital

69 mínimo relacionado à escala (quantidade de fiéis) ao fortalecimento da reputação pela diversificação dos serviços em função dos perfis atendidos. Paralelamente, empenhos são dedicados à disputa pela adesão dos fiéis entre as próprias inúmeras opções de religiosidade já estabelecidas, e, desta forma, o mercado religioso segue, cada vez mais, podendo ser caracterizado por um conjunto de medidas estratégicas de competição: inovações e as barreiras à entrada versus a contestabilidade (interna e externa ao mercado) da legitimação da prestação dos serviços religiosos por opções já estabelecidas, por parte de outros capitais religiosos ainda incipientes (ou mesmo dentre os bem constituídos); geralmente através de mais inovações. Analisaremos, portanto, neste tópico que encerra o terceiro capítulo de nossa dissertação, algumas destas estratégias de competição adotadas pelas denominações religiosas, observadas a partir de uma bibliografia mínima (livros, notícias de jornais e revistas e entrevistas realizadas com representantes de instituições religiosas), subdividindo-o em três itens de grande relevância. Trataremos da questão da diferenciação dos serviços religiosos prestados, da importância do marketing e da utilização dos meios de comunicação em massa e, finalmente, das práticas ecumênicas enquanto mecanismos fortalecedores do poder de mercado das instituições religiosas.

3.3.1 Serviços diferenciados

A compreensão do relacionamento entre as bases para a constituição de um mercado religioso e os fenômenos seculares de urbanização, democratização e, posteriormente, de globalização permite-nos subentender que as alterações dadas no campo religioso ocorreram não somente pela simples diversificação das doutrinas religiosas estrategicamente comandadas por lideranças ofertantes, mas, principalmente, pelas alterações no perfil dos consumidores de bens simbólicos ligados à religião; portanto, da demanda. Em outras palavras, as transformações sociais atingiram todas as esferas da sociedade, da economia à religião, e constituíram uma classe de leigos mais carente de alternativas para a explicação da realidade social e instrumentos de salvação; ou seja, exigência de maior diversificação nos serviços religiosos, até então prestados por legitimados monopólios da fé.

70 Para Weber (1967), em A ética protestante e o espírito do capitalismo, o asceticismo secular do protestantismo, que explicaria a percepção de uma “ética protestante” em contraposição aos princípios católicos hegemônicos e

monopólicos do campo religioso ocidental até a Reforma Calvinista, oferecia maior correspondência ao “espírito capitalista” em desenvolvimento e, portanto, teria influenciado positivamente no surgimento do capitalismo. A partir da valorização de uma “ética do trabalho” pelo protestantismo – isto é, a valorização do próprio trabalho, mais que seus resultados – e da libertação psicológica da “aquisição de bens das inibições da ética tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro, com o que [o protestantismo ascético] não apenas a legalizou, como também a considerou (no sentido aqui exposto) como diretamente desejada por Deus”92, os países de tradições protestantes teriam se desenvolvido mais do que os católicos. Contrariamente a estes princípios, pela tradição católica, “uma pessoa só deveria obter riqueza suficiente para viver bem” (FUKUYAMA, 2005), culpando a acumulação de capital e inibindo a lógica da divisão do trabalho, caracterizando, com isso, uma ética “que jogava para outra vida a conquista da felicidade” (NERI, 2005). O argumento de Weber em relação à importância do Puritanismo para o capitalismo, tanto quanto Sombart (1951 apud CORREIA 2003, p. 10) o faria em relação ao Judaísmo, bem nos serve para demonstrar a maneira como o surgimento de doutrinas alternativas ou serviços religiosos diferenciados sempre encontraram espaço na sociedade ao longo da história; notadamente em momentos nos quais que ela passou por grandes transformações, como o surgimento do capitalismo. Naturalmente, durante a fase incipiente da industrialização ou do crescimento das tendências reformistas do campo religioso, aqueles que almejavam obter sucesso nos negócios capitalistas encontrar-se-iam mais bem respaldados pelas doutrinas protestantes (ou mesmo judaica) do que pela católica. Para o cristianismo, portanto, a Reforma Protestante representou, em termos de mercado religioso, a quebra do monopólio católico através da inovação nos serviços prestados; diversificando, desta forma, o campo religioso ocidental

92

Max Weber. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1967, p. 122.

71 em duas grandes qualidades de religiosidade cristã tão bem distinguidas por Weber: catolicismo e protestantismo. Assim, podemos de alguma forma associar o surgimento de novas denominações às propostas alternativas de prestação de serviços religiosos e, consequentemente, ao aumento da heterogeneidade dos produtos ofertados no mercado de bens simbólicos associados à religião; ou ainda, em outras palavras, à maior diversificação dos serviços prestados. Concluímos desta forma que, à medida que se permite associar a existência de uma demanda potencial por tipos específicos de serviços religiosos aos interesses de oferta, capitais religiosos inteiramente novos podem ser introduzidos ao mercado. Com o surgimento da oferta especializada, o campo religioso torna-se mais segmentado e os serviços, em termos gerais, mais diversificados. Essa diversificação, neste caso analisada como instrumento estratégico de competição, se objetiva na prática pelas variações de linguagem e elementos incorporados aos discursos e ritos. Atualmente, sob condições de intensificação do cenário concorrencial entre as diversas denominações presentes no campo religioso, especialmente a partir do surgimento das igrejas evangélicas pentecostais no começo do século XX e, principalmente, neopentecostais, a partir dos anos 1970, a prestação de serviços diferenciados – como já sugerido – avança o aspecto de coesão com as transformações sociais; consubstanciando-se, mais do isso, em instrumento fundamental da disputa pela legitimação dos serviços religiosos no mercado. A diversidade cultural da sociedade, o agravamento dos problemas correlatos à urbanização, a liberdade de expressão e a maior propensão em se aceitar a pluralidade reforçam os aspectos de estímulo à segmentação dos fiéis em grupos de identidades e perfis próprios, que, uma vez identificados, têm para si pregações e ritos adaptados. Recentemente, em publicação do diário O Estado de São Paulo, sob o título “Evangélicos criam igrejas sob medida”93, o movimento de segmentação dos fiéis em grupos para os quais serviços diferenciados são prestados foi apontado como uma tendência que tem ajudado a manutenção do elevado ritmo de crescimento das igrejas evangélicas. De acordo com a matéria94, o sociólogo Dr.

93

Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 94 Idem.

72 Ricardo Mariano95 associa a segmentação do mercado religioso à aplicação da lógica mundana capitalista à espiritualidade da religião, fazendo “muito sentido na situação atual do País, de grande concorrência entre os grupos religiosos”. Para ele, “é uma questão de sobrevivência no mercado”96. A diferenciação dos serviços com intuito de segmentação dos fiéis e especialização da oferta de bens simbólicos associados à religião resulta no agrupamento dos mais diversos perfis, incluindo “grupos [específicos] de ricos, surfistas, gays e até pessoas que querem aprender a falar com Deus em inglês”97. Voltada especialmente ao público formado por empresários, a Comissão Cristã de Homens de Negócios, por exemplo, declara como missão “apresentar Jesus Cristo como Senhor Salvador a homens de negócios e profissionais liberais e treina-los para que cumpram a Grande Comissão dada por Jesus”98. A Igreja Sara Nossa Terra, apelidada de “igreja dos ricos”, sediada em Brasília e especializada nos fiéis da classe A, salienta a importância de se abordar problemas com filhos de famílias nobres, “que costumam não dar muito valor ao que possuem e se envolvem com briga, bebida e drogas”99. Segundo o bispo da igreja, “é mais fácil transmitir a mensagem de Deus quando os fiéis são homogêneos”100. Analogamente, igrejas como a Acalanto e a Igreja Para Todos, voltam-se com especificidade ao público gay, em defesa de que o “homossexualismo não é pecado”101; com direito à utilização do arco-íris como símbolo, presente na decoração do templo ou estampado sobre a Bíblia, além de celebrações matrimoniais com “assinatura em livro de relacionamentos estáveis homossexuais, devidamente registrada em cartório”102. Dentre estes exemplos, inúmeras outras denominações se somam na prática de especialização da prestação dos serviços religiosos e ajudam a segmentar o campo religioso em grupos específicos de fiéis. O Pastor Robson
Ricardo Mariano. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999. 96 Ricardo Mariano citado por Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 97 Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 98 Idem. 99 Bispo Rodovalho, fundador da Igreja Sara Nossa Terra, citado por Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 100 Idem. 101 Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 102 Idem.
95

73 Pereira, por exemplo, reuniu seus conhecimentos como ex-professor de inglês e adaptou os cultos da Igreja Cristã Evangélica do Brasil de modo a compatibilizar os ensinamentos bíblicos com o aprendizado de um segundo idioma. Os estudantes que se dirigem regularmente à igreja para aprender a falar com Deus em inglês têm sido os responsáveis pela maneira “surpreendente como o movimento [da igreja] tem aumentado a cada mês”103. O Pastor Rina, por sua vez, no comando da Igreja Bola de Neve, expande a denominação com a abertura de novos templos, usando calça jeans e tênis nas pregações diante de um púlpito em forma de prancha de surfe, voltadas a centenas de jovens, dentre os quais, muitos de chinelo, gel e tatuagens à mostra104. Estas especificidades que se fazem presentes para parcelas da classe leiga da sociedade, e se intensificam à medida que as transformações sociais tendem à maior liberdade de expressão cultural, podem, naturalmente, se auto excluírem do campo religioso tradicional. Por exemplo, a sociedade brasileira até poucas décadas recobria-se de preconceitos à respeito da dissolução de casamentos por separações, desquites ou divórcios. Neste contexto, as pessoas separadas de seus cônjuges, principalmente as mulheres, podiam ser vítimas de discriminação até mesmo dentro das congregações religiosas que freqüentavam. Desta forma, o surgimento de denominações mais tolerantes com esta questão – considerando-se insignificantes todas as demais implicações à entrada no campo religioso – asseguraria o oferecimento de melhor assistência a esse perfil específico da sociedade e, com isso, essas novas igrejas tomariam para si esta fatia do mercado de religião. Atualmente, o exemplo acima se faz ainda mais presente devido a maior heterogeneidade social. Nas igrejas cujos discursos voltam-se à classe pobre, por exemplo, os muito ricos podem sentir-se desprovidos da salvação ou das explicações legitimantes da sua condição social; o mesmo vale para o caso dos homossexuais e das incontáveis tribos jovens que se formam a cada geração. Assim, o surgimento de novas denominações especializadas com adaptações do discurso para um público específico encontra espaço no campo religioso e ameaça as fatias de mercado das denominações já estabelecidas. Observamos
103

Pastor Robson Pereira, da Igreja Cristã Evangélica do Brasil, citado por Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 104 Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24.

74 ao longo da pesquisa, no entanto, que estas últimas, no intuito de protegerem-se da contestabilidade de suas condições de atender o campo como um todo por capitais religiosos ainda incipientes (entrantes), tendem a internalizar a diferenciação de produtos, assegurando para si a escala de fiéis já atendida. Até mesmo as denominações especializadas em segmentos específicos de leigos, para poderem crescer, não resistem à especialização e se submetem, num segundo momento, à internalização da diferenciação de produtos, como o Professor Antônio Flávio Pierucci da Universidade de São Paulo procurou explicar em matéria do jornal O Estado de São Paulo:

Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) Antônio Flávio Pierucci, especialista em Sociologia da Religião, “não há a possibilidade sociológica de um grupo se manter especializado por muito tempo”. Esta seria apenas uma estratégia para se viabilizar e depois conquistar novos fiéis. “Ninguém quer ser minoria para sempre”105.

Apesar da orientação principal de se instalar geralmente em regiões que se encontram sob condições sócio-economicamente agravadas – o que poderia ser entendida como uma forma geral de especialização –, comprovada em entrevista concedida por um pastor de Jundiaí (SP) ao afirmar que sua denominação procura abrir novos templos sempre em locais “onde tem muitas pessoas sofrendo (prostituição, roubo, etc.)”, a Igreja Universal do Reino de Deus se apresentou como um exemplo típico de diferenciação internalizada dos serviços religiosos prestados. Ao longo da semana tipos específicos de reuniões são celebrados e voltam-se claramente a parcelas particulares da membresia. As descrições abaixo foram extraídas de um dos sites oficiais da Igreja Universal do Reino de Deus e explicam algumas das principais reuniões realizadas106.

Segunda-feira, Nação dos 318 – Conhecida também como o maior congresso empresarial do Brasil, a nação dos 318 tem por

Professor Antônio Flávio Pierucci (USP) citado por Ricardo Westin. Evangélicos criam igrejas sob medida. O Estado de São Paulo, São Paulo, 26 Jun. 2005, Caderno A, p. 24. 106 As reuniões in: Templo Maior – Igreja Universal do Reino de Deus. Disponível em <http://www.catedralmundial.com.br/reuniao.php>. Acesso em 03 Dez. 2005.

105

75
objetivo mostrar à pessoa a importância de ter uma vida próspera. A cada reunião, o congressista ministra palestras sempre enfocando o aspecto financeiro e empresarial aliado a fé em deus. Quem já participa da nação dos 318 tem conquistado o sucesso financeiro e a realização profissional.

Terça-feira, Sessão de Descarrego – A sessão do descarrego é um tratamento espiritual para aquelas pessoas que sofrem com problemas causados por encostos. As atuações mais comuns acontecem na área familiar, como separações, vícios, e traições; na área espiritual, visões, depressão, desejo de morrer, medo e nervosismo; na saúde, doenças que os médicos não

diagnosticam; na área financeira, dívidas

Quinta-feira, Reunião das Mulheres de Deus – A Reunião das Mulheres de Deus tem a finalidade de orientar a base espiritual da família que tem a mulher como responsável da edificação. Nesta reunião 70 esposas de pastores e bispos atendem antes e após a reunião. Estas consagram um bálsamo por uma semana para consagrar todas as mulheres nesta concentração. A reunião acontece todas as quintas-feiras às 15 horas.

Quinta-feira, Reunião de Oração pela Família – A reunião de oração pela família é uma reunião onde as pessoas clamam a Deus para que suas famílias sejam abençoadas e que hajam (sic) transformações em suas vidas.

Sábado, Terapia do Amor – Tratar das feridas na área sentimental. Esse é o objetivo da terapia do amor, uma reunião para quem sofre as dores do amor, que deseja encontrar a outra metade, restaurar o casamento, vencer a ansiedade e curar as desilusões, decepções e mágoas. O palestrante aborda esses assuntos e explica a luz da bíblia (sic) como é possível ser feliz e amado, ter uma família que viva em harmonia e deixar sempre acesa a chama do amor.

76
Domingo, Concentração de Fé e Milagres – Nesta reunião,

acontecem momentos de louvor e adoração a Deus, clamor pela cura e libertação, oração para os casais e a benção da prosperidade. Uma reunião completa, que já se tornou a maior concentração de fé que acontece aos domingos no Rio de Janeiro.

Campos (1997) apropriou-se das categorias de classificação de produtos criadas por Levitt (1988 apud CAMPOS, 1997, p. 224), segundo o qual os produtos podem ser genéricos (benefício principal esperado pelo consumidor; “Bênçãos de Deus”, no caso da religião), específicos ou esperados

(desdobramento dos produtos genéricos em “curas”, “prosperidade”, “sucesso”, etc.) e ampliados (formas de agregação de vantagens aos produtos genéricos; cuidados com a estética e suspensão de vícios, por exemplo, associados à cura do corpo e emprego melhor associado à prosperidade), para explicar a estratégia de diferenciação de produtos adotada pela Igreja Universal. O autor permite explicar como, no caso particular desta denominação, a criação de serviços específicos, agrupados em “famílias de produtos” – identificadas inclusive com logotipos próprios –, atende a um objetivo estratégico desenvolvido a partir de um grupo de idéias centradas ao redor da expressão “Cristo salva, cura e faz prosperar os que aceitam a Igreja Universal do Reino de Deus”107. Esta segmentação estratégica dos fiéis de uma denominação pela prestação de serviços religioso diferenciados, que permite, por um lado, precaverse da contestabilidade de sua legitimidade enquanto instituição provedora de religiosidade por novos capitais religiosos ou mesmo por rearticulação das próprias rivais estabelecidas; por outro, se muito previamente planejada como no caso da IURD, demanda o emprego de instrumentos capazes de fundir de fato as características desenhadas dos produtos às necessidades interiores dos fiéis. Neste sentido, o templo é apontado não somente como o local onde se celebram ritos isolados, mas, mais do que isso, como o “lócus do ‘acabamento’ dado ao produto, isto é, de sua adaptação [pelos pregadores] e distribuição aos

Leonildo Silveira Campos. Teatro, templo e mercado – Organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 224.

107

77 ‘consumidores’ devidamente segmentados”, para o “despertar da fé”. (CAMPOS, 1997, p. 224-225) Na Igreja Católica também, de alguma forma, a diversificação dos serviços religiosos prestados pode ser observada. Independente do aspecto estratégico que possa ou não ter assumido quando da sua criação, o Movimento de Renovação Carismática (RCC) surgiu e se desenvolveu mais fortemente justamente ao passo que a sociedade acolheu mais intensamente as denominações pentecostais e neopentecostais, a partir da segunda metade do século passado. Com a incorporação de elementos menos tradicionais, como os cânticos populares comandados por bandas compostas de instrumentos nada eruditos (guitarras, baterias, etc.), os grupos de oração e as práticas de cura e fala em línguas, a Igreja Católica no Brasil conseguiu segmentar os fiéis de acordo com a preferência por missas mais tradicionais ou mais carismáticas. Imaginando-se, por exemplo, que nós pudéssemos relacionar o

crescimento de denominações evangélicas mais carismáticas às regiões nas quais os problemas sócio-econômicos se agravam, tais como nas zonas periféricas dos grandes centros urbanos, a adaptação das missas católicas nestas áreas seria, antes de tudo, visto o campo religioso pela sua ótica de mercado, uma questão de sobrevivência. A proliferação do movimento de RCC nas instâncias católicas poderia significar uma motivação à reaproximação de um fiel inativo em substituição à sua adesão por uma nova doutrina evangélica pentecostal108. Esta é uma idéia que muitos têm tentado comprovar. Para Marques (2001, p. 4) é inegável o fato de que a RCC “tem minimizado o esvaziamento da Igreja Católica”. Acredita-se que a segmentação dos serviços religiosos, internalizada pelo catolicismo romano no Brasil, de modo a assemelhar em algumas paróquias os discursos e práticas aos dos pentecostais, tem atendido seus objetivos estratégicos. Segundo a revista Veja:

ao contrário do catolicismo tradicional, em que se reza pela vida eterna, aqui o que se pede, entre transes e apelos ao Espírito Santo, é qualidade de vida na terra mesmo. Ao mesmo tempo em que pregam a necessidade do perdão e do testemunho, os
108

No Apêndice D procuramos desenvolver graficamente as vantagens estratégicas de diferenciação dos serviços no que tange à possibilidade de se assegurar a escala de fiéis, tomando o caso da religião católica como exemplo.

78
padres da Renovação falam em “prosperidade” e “bem-estar”.

(OYAMA apud MARQUES, 2001, p. 4)

Lemos Filho (1996) procura demonstrar em seu estudo, por meio de uma análise do catolicismo na cidade de Itapita (SP), a existência de vários catolicismos brasileiros conflitantes entre si, apesar da aparente homogeneidade ideológica; decorrentes da passagem do monopólio absoluto da religião católica para uma situação de concorrência com outros grupos religiosos ou mesmo entre os diversos grupos internos da própria igreja. Para efeito de análise, o autor construiu uma classificação a partir de depoimentos no intuito de evidenciar as divergentes atuações da igreja católica da cidade, quanto aos princípios básicos, a ênfase pastoral, as relações da igreja com a sociedade e com os fiéis propriamente e a relação dos padres entre si, observados em cada uma das quatro paróquias. A coexistência de características específicas de cada paróquia quanto aos indicadores citados assegurou, no caso de Itapira, uma maior identificação de cada grupo social da cidade com as estas particularidades. Desta forma, os setores mais conservadores da sociedade local mantiveram-se associados à paróquia que reservou maior grau de tradicionalismo; enquanto que os grupos ligados às classes subalternas se identificavam mais com a paróquia que incorporou maiores alterações popularizantes nos discursos e ritos, nos moldes propostos pela Teologia da Libertação (LEMOS FILHO, 1996, p. 128-133). Embora, houvesse forte relação de conflito entre as quatro paróquias de Itapira, enquanto a estrutura organizacional fosse capaz de sustentar a unidade denominacional, estaria assegurada a fatia de mercado da Igreja Católica e, neste contexto, comprovada a eficácia estratégica da internalização da diferenciação de serviços religioso por uma denominação.

3.3.2 A importância do marketing

Em geral, o emprego do termo marketing é constantemente associado às relações econômicas de natureza capitalista, isto é, nas relações de troca centradas no objetivo de gerar excedentes às partes envolvidas. Desta forma, com o relacionamento imediato pela maioria das pessoas deste termo a conceitos

79 como “venda” e “propaganda”, implicam-se dificuldades de se considerar a importância da aplicação de seus instrumentais às atividades desempenhadas pelas igrejas. No entanto, para Kater Filho109, a área de “vendas nem está relacionada a marketing”; são estas, na verdade, áreas distintas, apesar da função estratégica do emprego dos recursos de marketing para facilitar as vendas das empresas; mas, ainda assim, cada qual com suas características particulares, não se subordinando uma a outra. A atividade de propaganda, por sua vez, não pode ser considerada suficiente para explicar o conceito de marketing; como uma de suas áreas ela trata tão somente da visibilidade do trabalho de marketing110. Mais do que isso, a área de marketing esta associada ao estudo e à facilitação dos processos de troca, diante do aspecto humano que os envolve. Neste sentido, Philip Kotler define marketing como “a atividade humana dirigida para a satisfação das necessidades e desejos, através dos processos de troca” e, portanto, associa-se ao conjunto de conhecimentos e ferramentas que tem por tarefa coordenar, planejar e controlar os processos de concretização desses objetivos. (KOTLER, 1980 apud CAMPOS, 1997, p. 207) A compreensão das relações de trocas, nas quais são centradas as análises da área de marketing, uma vez pautadas na suposição de um envolvimento mínimo do fator racionalidade, permite-nos afirmar que os agentes orientados ao mercado, via de regra, não empreendem relações aleatórias de oferecimento de seus produtos e serviços a qualquer pessoa. Como vimos anteriormente, mais do que isso, os agentes de mercado desenvolvem suas estratégias planejando-as cuidadosamente; adaptando, possivelmente, suas orientações aos interesses assimétricos dos consumidores, inclusive

segmentando-os, quando necessário. Este é o espírito do marketing e “o resultado é a elaboração de uma teoria e técnicas, que incluem a mentalidade racional e calculista, para interferir nos processos de troca e explica-los”, ressalvando-se, contudo, o envolvimento do aspecto humano que sujeita a relação de troca também às possibilidades de ausência da racionalidade econômica. (CAMPOS, 1997, p. 209)
109

Idealizador e 2º vice-presidente do Instituto Brasileiro de Marketing Católico – IBMC, consultor em marketing, escritor e professor universitário com mestrado pela USP, em entrevista concedida aos 27 de setembro de 2005, das 17h às 18h, na sede do IBMC, na Av. João Erbolato, 50 – sala 20 – Castelo – Campinas (SP). 110 Idem.

80 Essa pressuposição da área de marketing acerca da possibilidade de se pesquisar, descobrir, alterar e atender as necessidades e preferências das pessoas, quanto ao consumo de produtos e serviços diversos, vai de encontro com os objetivos das instituições religiosas, quando entendidos os benefícios ofertados por estas como necessidades humanas ainda fortemente presentes, mesmo após grandes transformações seculares da sociedade. Assim, a partir de uma primeira análise, estritamente conceitual, que parte da premissa que o marketing se define pelo empenho, através de instrumentais próprios, orientado à satisfação das necessidades das pessoas e que 70% destas necessidades são consideradas de natureza espiritual, percebemos a intimidade existente entre a religião e o marketing (KATER FILHO, 2005, entrevista concedida). Philip Kotler (1988 apud CAMPOS, 1997, p. 211) foi um dos pioneiros da ligação entre as práticas de marketing à religião. A partir das idéias principais cunhadas em seu livro Marketing para organizações não lucrativas (1988 apud CAMPOS, 1997), e desdobradas por ele e outros companheiros com especificidade ao caso das organizações religiosas, principalmente as igrejas e sinagogas norte-americanas, no texto Marketing for congregations - choosing to serve people more effectively (SHAWCHUCK et al, 1992 apud CAMPOS, 1997), Kotler propôs a adoção de técnicas formais de marketing às denominações religiosas. Compreendeu-as como organizações sem fins lucrativos que reúnem pessoas, materiais e instalações, e que procuram atingir alguns propósitos em relação à sociedade e, portanto, necessitam da formalidade das técnicas mercadológicas para melhor entender e atender seus consumidores. Como objeto de estudo, Kotler e Shawchuck (et al, 1992 apud CAMPOS, 1997) tomaram a religião institucionalizada dos Estados Unidos, sob o pressuposto de crise em algumas denominações, correlata à perda de “membresia” e a queda na demanda por serviços tradicionalmente prestados por elas. Discutiram como primeiro problema as resistências comumente observadas ao emprego das técnicas de marketing às instituições religiosas, as quais se estendem do argumento de desperdício do “dinheiro de Deus” à caracterização “dessacralizada” desta mentalidade que liga religião à venda e a conceitos como “produto”, “troca”, “mercado”, “demanda”, “clico de vida de produtos”, e outros. George Barna (Marketing the church, 1994 apud CAMPOS, 1997, p. 212) também apontou o “espírito de aversão e de objeções” (ao marketing) de alguns

81 religiosos como um empecilho à utilização de suas técnicas como importantes instrumentos das estratégias de crescimento das igrejas. Segundo o autor, o principal problema que afeta as igrejas protestantes dos Estados Unidos é o “fato de não adotar um apoio de marketing – num meio que se tornou apoiado por ele”. Para Barna (1994 apud CAMPOS, 1997, p. 212), por conta dessa má-vontade com relação ao marketing, o pastor protestante – o que igualmente valeria para os sacerdotes católicos, segundo Kater Filho111 – passa pelo seminário teológico sem perceber que “ao assumir a direção de uma igreja, esta sendo chamado para dirigir um negócio [...] e o negócio ao qual a igreja se dedica é o ministério”. Peter Berger (1985) já ligava a tendência à racionalização das estruturas e procedimentos das instituições religiosas, resultantes da pluralidade, às necessidades de as denominações apresentarem resultados concretos de suas atuações no campo religioso. Contrariamente à situação de monopólio, que implicava a não cobrança de resultados das organizações religiosas, a concorrência, dada numa dinâmica de mercado religioso, transforma o marketing num conjunto indispensável de instrumentos de competição. Kater Filho (2005) compartilha do argumento entendendo que “a concorrência é a grande arma do marketing; sem concorrência não existe marketing”. Diante desta “imposição de mercado” que se traduz de uma mentalidade calculista e pragmática das relações de competição entre as denominações religiosas, alguns líderes foram levados a buscar, “no universo do marketing, princípios, técnicas e estratégias, que os ajudassem a melhorar a performance de suas organizações, no ranking do mercado religioso” (CAMPOS, 1997, p. 213). Campos (1997, p. 213) ressalva, no entanto, que esta descoberta se deu “tanto por meio de uma opção consciente e calculista de uma assessoria como também através de processos [meramente] intuitivos” e cita a Igreja Renascer em Cristo como exemplo de estratégia calculista no uso do marketing. Segundo ele, o fundador desta denominação, Estevan Hernandes Filhos, havia sido gerente de marketing de grandes empresas, além de palestrante e autor de textos sobre o “marketing na igreja”; as gravações de suas palestras em fitas de vídeo percorriam igrejas para subsidiar pastores e lideranças interessadas em estratégias de crescimento de suas denominações. O autor também citou a Igreja

111

Em entrevista citada.

82 Universal do Reino de Deus e a Igreja Pentecostal “Deus é amor” como denominações que possivelmente chegaram “a técnicas mais ou menos elaboradas de marketing, através de uma prática baseada muito mais na intuição de uma liderança obcecada pelo crescimento a qualquer preço e do ‘ensaio e erro’ do que em uma teoria, calculadamente implantada”. O administrador e publicitário Mestre Antônio Miguel Kater Filho, idealizador e fundador (1998) do Instituto Brasileiro de Marketing Católico – IBMC, sediado em Campinas (SP) e hoje oficialmente presidido por Sua Eminência Reverendíssima, o Arcebispo de Florianópolis Dom Murilo Sebastião Krieger, defende uma associação irrestrita (calculista) das estratégias de marketing adotas pelas empresas às atividades desempenhas das pelas igrejas. Afirma que, na verdade, “não há diferença nenhuma” entre as estratégias de marketing pensadas para as empresas e aquelas orientadas para as igrejas, desde que definido claramente o conceito de marketing como meio de se “ir ao encontro das necessidades das pessoas” (KATER FILHO, 2005, em entrevista concedida). Afirmou ainda em um trabalho próprio, reforçando o aspecto estratégico do marketing na competição entre as igrejas, que:

o marketing, adequadamente aplicado à Igreja Católica, resolverá satisfatoriamente o problema da evasão dos católicos e a falta de motivação entre seus fiéis, levando-os a um renovado interesse e amor pela Igreja. (KATER FILHO, 1996 apud MARQUES, 2001)

Autor de uma dissertação pela Universidade de São Paulo (USP), Marketing aplicado à Igreja Católica (1994), cujo intuito foi a elaboração de instrumentais de marketing formal voltados à manutenção e ao crescimento do quadro de fiéis católicos, diante da recente evasão experimentada por esta instituição religiosa, notadamente a favor dos evangélicos112, Kater Filho procurou justificar suas idéias em matéria da revista Veja:

Atualmente a Igreja Católica se recolhe dentro do casulo, como uma tartaruga. Leva vida vegetativa, porém protegida pelo seu

KATER FILHO, Antônio Miguel. Marketing Aplicado a Igreja Católica. São Paulo: USP, 1994. Resumo disponível em <http://www6.ufrgs.br/infotec/teses92-96/html/usp94.htm>. Acesso em 07 Set 2005.

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casco. Vive sob a lógica do comerciante que fecha o restaurante na hora do almoço. O padre abre a igreja às 7 horas da manhã, celebra a missa para umas doze velhinhas. Aí fecha a igreja e só abre às 7 noite da noite, quando essas mesmas doze velhinhas voltam para rezar o terço. Aí fecha outra vez.113

O IBMC, na figura central do professor e consultor Kater Filho, apesar de não ser um órgão da CNBB, com base nestas colocações, tem contado com a simpatia de vários bispos influentes no país. Segundo seu idealizador, "aos poucos, cresce entre os bispos a consciência de que o marketing não é uma arma diabólica do capitalismo. Nos dias de hoje, é uma ferramenta indispensável para a reaproximação com os fiéis"114 Um dos bispos com os quais o instituto tem contado com o entusiasmo é o cardeal-arcebispo de São Paulo, Sua Eminência Reverendíssima, Dom Cláudio Hummes. Segundo Kater Filho, “ele [o cardeal] aposta no marketing como alternativa para fazer com que o sacramento chegue ao coração do público”115. Tarefa esta que o IBMC tem procurado cumprir através de cursos e consultorias ministrados às dioceses católicas, publicação de uma revista especializada chamada Marketing Católico e a realização anual um encontro de marketing, que reúne membros da Igreja Católica e publicitários simpatizantes. Philip Kotler (1980) definiu o composto básico dos instrumentos de marketing a partir do planejamento estratégico dado em quatro instâncias fundamentais, conhecidas como os famosos quatro Ps ou marketing mix: produto, preço, praça (ou ponto de venda) e promoção. Questionado sobre a aplicabilidade deste conceito às denominações religiosas, Kater Filho simplificou, associando, de maneira objetiva, o produto – que na verdade é um serviço – à salvação; o preço a um custo fantástico igual a zero116; a praça aos infinitos pontos nos quais

Citado pelo site Católica Net, disponível em <http://www.catolicanet.com.br/interatividade/enquetes/enquetes.asp?cod=4>. Acesso em 07 Set 2005. 114 Antonio Miguel Kater Filho, citado por Marcelo Marthe e Ricardo Valladares. Os católicos contra-atacam. Mater Ecclesiae. Disponível em <http://www.mrp.com.br/mater/contra-ataque.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 115 Luiza Villaméa. Nas mãos do Espírito Santo. Isto é – Especial João Paulo II, 13 Abr 2005. Disponível em <http://www.terra.com.br/istoe/1852/especial_joao_paulo/1852_nas_maos_do_espirito_santo.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 116 Neste trabalho nos abstivemos de qualquer análise à respeito do preço dos produtos religiosos por pressupormos sua irrelevância nos processos decisórios de compra e venda de bens simbólicos no mercado religioso. Apesar das possibilidades teóricas de associação deste componente ao dízimo ou a outros

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84 a salvação pode ser oferecida, independente dos templos; e, finalmente, a promoção ao “P” no qual as instituições vão de fato trabalhar, no sentido de compor estratégias de publicidade, propaganda e “promoção de vendas”, tal como a “venda pessoal”; incluindo, neste último componente da aliteração, também as estratégias de escolha dos canais de comunicação. (KATER FILHO, 2005) Em termos mais objetivos, o componente do mix de marketing que corresponde à análise do produto contempla o estudo e as decisões estratégicas em torno da escolha dos serviços que as denominações religiosas pretendem prestar, bem como a compatibilização de suas respectivas características aos interesses particulares de cada grupo de fiéis. Segue, portanto, diretrizes muito em torno dos assuntos analisados no primeiro tópico do capítulo anterior e no item 3.3.2, respectivamente, sobre a definição do produto da religião e as abordagens estratégicas da diferenciação e segmentação do share de mercado; passando ainda, necessariamente, no caso do marketing, pela questão da qualidade dos serviços que se prestam, traduzida no caso da religião, dentre outras coisas relativas aos interesses dos consumidores, para o grau de capacitação teológica incorporada aos discursos religiosos. Pudemos compreender que, mais que a salvação propriamente dita, o produto da religião se compõe de todas as suas formas de desdobramentos em serviços demandados, independendo do nível de objetividade prática. Desta forma, a estratégia de marketing das igrejas voltada aos serviços que presta está relacionada, antes de tudo, aos pontos enfatizados por cada denominação religiosa (paz espiritual, saúde, tranqüilidade financeira, respostas sobre a condição social, conteúdo teológico, etc.) através dos elementos que incorpora aos discursos e ritos e que vão ajudar a compor, de fato, a doutrina e os dogmas da religião. Ao marketing estratégico de produtos das igrejas podemos também relacionar os serviços prestados aos fiéis paralelamente àqueles estritamente religiosos. Estes serviços são observados, em geral, nas mais diversas áreas de apoio à comunidade, desde a promoção gratuita das atividades profissionais desempenhadas por alguns fiéis junto à congregação, às parcerias firmadas com

elementos mais subjetivos como o tempo do fiel, compreendemos que a escolha da religiosidade menos se determina pelo fator preço do que pelos demais componentes aqui tratados em termos de composto de marketing.

85 segmentos seculares da sociedade como, por exemplo, bancos. Os grupos religiosos Renascer, Assembléia de Deus, Adventista do Sétimo Dia e Congregação Batista Brasileira, por exemplo, mantêm, em parceria com o banco Bradesco, cartões de crédito – inclusive de bandeira Visa – destinados com exclusividade a seus públicos evangélicos117. A determinação da praça ou ponto de oferta dos serviços religiosos também é um importante componente estratégico do composto de marketing. Embora a salvação ultrapasse a questão espacial pelo ponto de vista das igrejas e do professor Kater Filho, é no templo que os ritos são celebrados e a prestação dos serviços religiosos é legitimada, em especial, sob condições de elevada racionalização (ou marketing calculista) no prévio planejamento destes serviços (CAMPOS, 1997, p. 224-225). Neste sentido de indispensabilidade da figura da sede, o marketing estratégico pode incluir a análise em termos logísticos da disposição geográfica das igrejas, de modo a melhor atender as necessidades dos fiéis. Os componentes produto e praça oferecem, portanto, férteis ambientes para exploração estratégica do composto de marketing das igrejas. Contudo, é somente na área da promoção que estas ganham maior visibilidade, e, neste sentido, a presença dos canais de comunicação tem se tornado cada vez mais indispensável para o mercado religioso. Kater Filho, em entrevista à revista Veja, lembrou que "o primeiro veículo de comunicação de massa da História foi o sino [...] três badaladas rápidas significavam que o padre estava chamando para a missa, badaladas lentas avisavam as mortes "118. Hoje, mais do que os próprios meios embutidos nas instituições tradicionais, as igrejas tornaram-se dependentes da mídia para acompanhar o ritmo de desenvolvimento da sociedade, como afirma Campos (1997):

[...] as pessoas deixaram de orientar suas ações pelos programas embutidos nas instituições tradicionais e se tornaram

dependentes da mídia, como fonte de modelos para regular seu comportamento. Por isso, é impossível visualizarmos o drama social, as relações humanas ao redor do sagrado e as trocas dos
117 118

Luciana Farnesi. Um mercado movido pela fé. Revista Exame, 16 Fev. 2005, p. 60-61. Citado por Daniel Liidtke. Católicos versus evangélicos: ao vencedor, as ovelhas. Canal da Imprensa. Disponível em <http://www.canaldaimprensa.com.br/debate/vint2/debate1.htm>. Acesso em 07 Set 2005.

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bens simbólicos, sem uma análise do papel desempenhado pela propaganda e publicidade na montagem de um sistema religioso orientado pelo marketing.119

Leonildo Silveira Campos (apud MARQUES, 2001, p. 3) acrescenta que a “propaganda é a espinha dorsal do sucesso das igrejas como a Universal do Reino de Deus”. Desta forma, num primeiro momento, a mídia impressa, figurada pelos livros, jornais e revistas, e, a seguir, a mídia eletrônica (rádio, televisão, internet) associaram-se aos veículos tradicionais de se oferecer visibilidade do trabalho desempenhado, consubstanciando, cada vez mais, em instrumentos de grande importância para as igrejas sob as atuais condições de acirramento da concorrência religiosa. No que tange à mídia impressa, pode dizer que, em termos absolutos, católicos e evangélicos praticamente equiparam-se; tendo sido potencializados estes últimos por edições de revistas como a Eclésia e jornais como a Folha Universal120. No mercado de livros, 91 milhões de reais foi o faturamento das editoras católicas em 2002, contra 87 milhões das editoras evangélicas121. No campo da mídia eletrônica, na principal disputa do mercado religioso brasileiro, católicos versus evangélicos, destacando os pentecostais e

neopentecostais, a Igreja Católica admite a dianteira evangélica. Somados os empreendimentos destas últimas (pentecostais e tradicionais) o Brasil já é o “segundo produtor mundial de programas evangélicos na televisão” (ORO, 1991 apud MARQUES, 2001, p. 3). Os evangélicos já contam com 30 gravadoras musicais, enquanto que os católicos com apenas 4; no rádio são 470 as emissoras evangélicas e 200 as católicas122. E na televisão as estatísticas são ainda mais conturbadas pela posse da Rede Record de televisão pela Igreja Universal do Reino de Deus123. Por isso mesmo, em ocasião da 35ª Assembléia
Leonildo Silveira Campos. Teatro, templo e mercado – Organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 239. 120 Daniel Liidtke. Católicos versus evangélicos: ao vencedor, as ovelhas. Canal da Imprensa. Disponível em <http://www.canaldaimprensa.com.br/debate/vint2/debate1.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 121 Marcelo Marthe e Ricardo Valladares. Os católicos contra-atacam. Mater Ecclesiae. Disponível em <http://www.mrp.com.br/mater/contra-ataque.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 122 Daniel Liidtke. Católicos versus evangélicos: ao vencedor, as ovelhas. Canal da Imprensa. Disponível em <http://www.canaldaimprensa.com.br/debate/vint2/debate1.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 123 Nos Estados Unidos, registra-se cerca de 250 emissoras de TV exclusivamente cristãs e 1600 estações de rádio nas mesmas condições. Sérgio Dávila. Direita religiosa mostra rosto e lucra nos EUA de Bush. Folha de São Paulo, Califórnia, 27 Mar 2005, caderno A, p. 15.
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87 Geral da Comissão Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, realizada em 1997 sob o tema "Igreja e Comunidade Rumo ao Novo Milênio", os católicos se intensificaram nos empenhos voltados à reversão do domínio evangélico na televisão, trabalhando para modernizar as programações de suas emissoras: Rede Vida, TV Canção Nova e TV Século XXI124. Dom Fernando Antônio Figueiredo, superior do Padre Marcelo Rossi e grande apoiador do marketing católico entende que a igreja não pode negligenciar os meios de comunicação como a TV e a imprensa escrita para divulgar a mensagem de Deus; segundo ele, estes meios fazem parte de uma das estratégias escolhidas pela igreja católica para “aumentar seu rebanho”125 No cinema, a promoção dos propósitos da igreja também ganha espaço, entretanto, neste caso, a liderança absoluta é da Igreja Católica. Mundialmente, dentre muitos outros, o filme A paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson126, teve gigantesca repercussão. No Brasil as iniciativas neste campo, apesar de ainda menos desenvolvidas do que as experiências norte-americanas, também se fizeram presentes em produções respeitadas quanto ao volume de recursos empreendidos. É o caso de Maria, Mãe do Filho de Deus, produção católica no cinema brasileiro cujo objetivo orientado à atração de “ovelhas para o rebanho católico” foi apontado pelo padre midiático Marcelo Rossi127. Outro veículo de transmissão do Evangelho de Jesus Cristo pelas igrejas cuja utilização tem crescido nos últimos anos é justamente a promoção de padres e pastores; no caso da Igreja Católica, tratados por “padres midiáticos”, em geral associados à RCC. Talvez neste segmento o maior nome seja o do padre Marcelo Rossi, que, com mais de 6 milhões de discos vendidos, seis livros editados, e acirrada disputa de sua participação em programas de rádio e televisão para entrevistas e programas de auditório128, “começou a chamar a atenção por volta

Idem. Citado por Daniel Liidtke, op. cit. 126 Ator e produtor de cinema conhecido também pelo seu fervor católico-tradicionalista; rejeita muitas das diretrizes expedidas pelo Concílio Vaticano II, nos anos 60, por considerá-las excessivamente liberalizantes. Seu filme, A Paixão de Cristo, rendeu cerca de 370 milhões de dólares, uma das maiores bilheterias domésticas de todos os tempos, de acordo com o jornal Folha de São Paulo. Sérgio Dávila. Direita religiosa mostra rosto e lucra nos EUA de Bush. Folha de São Paulo, Califórnia, 27 Mar 2005, caderno A, p. 15. 127 Marcelo Marthe e Ricardo Valladares. Os católicos contra-atacam. Mater Ecclesiae. Disponível em <http://www.mrp.com.br/mater/contra-ataque.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 128 Sílvia Regina Alves Fernandes. "Ver para crer" as novas investidas do catolicismo no Brasil através do Padre Marcelo Rossi. In: CESNUR 2000 – INTERNATION CONFERENCE, 29-31 Aug 2000, Riga, Latvia: CESNUR – Center for Studies on New Religions, 2000.
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88 de 1998, celebrando missas que tinham sessões de aeróbica, muita dança e cantoria”129. Padre Rossi esteve entre os primeiros a participar dos cursos ministrados pelo consultor de marketing Antonio Miguel Kater Filho, através do IBMC, que considera que:

o padre Marcelo Rossi é um excelente produto. Seus pontos fortes são a simplicidade e o grande apelo emocional. Além disso, as mulheres se sentem atraídas pelo jeito de garotão dele. Com um produto desse, o lucro é sempre certo130

André Ricardo Souza (2005 apud FERNANDES, 2005) permite-nos argumentar sobre impacto estratégico da atuação dos padres midiáticos, a partir dos resultados de sua enquête realizada no Santuário Bizantino, templo onde são celebradas as missas do padre Marcelo Rossi. Segundo o autor, “76% dos entrevistados eram católicos tradicionais e foram atraídos para as missas do Santuário graças à mídia eletrônica; 16% passaram a freqüentar a missa depois do sucesso do padre e 8% freqüentavam outra religião e passaram a ir às missas católicas”131, dentre os quais 6% eram evangélicos. O conjunto de todos estes elementos citados e tantos outros cuja menção se inviabilizaria neste trabalho, dada a infinidade de possibilidades, compõe o mix de marketing das denominações religiosas e determinam a importância deste viés de abordagem às estratégias de competição no mercado de bens simbólicos ligados à religião. Dentro disso, o IBMC promove cursos às dioceses católicas para ensinar aos padres técnicas de oratória, noções de como se portar diante das câmeras se necessário, entre outras dezenas de sugestões. Segundo Kater Filho (2005, em entrevista concedida), atualmente, todos os segmentos seculares da sociedade valorizam o consumidor e, por isso mesmo, a igreja num contexto de mercado religioso também deve fazê-lo. Portanto, assuntos como a disponibilidade de estacionamento, a qualidade dos assentos, o sistema de som,

Marcelo Marthe e Ricardo Valladares. Os católicos contra-atacam. Mater Ecclesiae. Disponível em <http://www.mrp.com.br/mater/contra-ataque.htm>. Acesso em 07 Set 2005. 130 Antonio Miguel Kater Filho em comentário à revista Veja, citado pelo site Católica Net, disponível em <http://www.catolicanet.com.br/interatividade/enquetes/enquetes.asp?cod=4>. Acesso em 07 Set 2005. 131 Sílvia Regina Alves Fernandes, Padres cantores e o catolicismo – as interfaces do espetáculo e da fé. CERIS, 2005. Disponível em <http://www.ceris.org.br/textos/_busca.asp?codDoc=152>. Acesso em 25 Out 2005.

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89 o horário das missas e cultos e até a instalação de sistemas de ar condicionado devem ser discutidos pelas igrejas em termos de marketing. Kater Filho entende que os pastores evangélicos pentecostais têm ganhado fatias do mercado católico por conta da habilidade de comunicação do proselitismo evangélico associados a técnicas mais amplas de marketing. Enquanto um padre católico leva de oito a doze anos para se formar e só então assumir o comando de uma paróquia, os pastores (neo)pentecostais, apesar da insuficiência de conteúdo teológico da maioria dos casos, de seis meses a um ano são técnicos em comunicação e recebem uma igreja. “Ele tem menos conteúdo dogmático, menos conteúdo teológico, e tem mais capacidade de falar”; Para Kater Filho os pastores pentecostais são, por estas características, verdadeiros “vendedores” (KATER FILHO, 2005, em entrevista concedida).

3.3.3 Práticas ecumênicas

Certamente, é paradoxal a atribuição do termo ecumenismo às estratégias de competição adotadas pelas igrejas no mercado religioso; afinal, por definição, o ecumenismo, geralmente mais associado com exclusividade às igrejas cristãs, pressupõe a unidade de todos os povos contidos na mensagem do Evangelho de Jesus Cristo numa única fé e, portanto, a superação das divisões do cristianismo em várias denominações, muito à frente, sobretudo, da autoridade eclesial. Nomeado a partir do termo grego oikoumene, cujo significado é “mundo habitado” ou "aquilo que pertence a este mundo", o movimento ecumênico entende que é da natureza da igreja de Cristo a unidade dos povos na profissão de um Evangelho comum. O Pastor Abimael Etz Rodrigues, da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, atestou este ponto de vista afirmando em entrevista concedida que a “natureza da igreja é ecumênica”. O Conselho Mundial de Igrejas – CMI, que existe desde 1948, pode, provavelmente, ser apontado como o maior nome ao nível internacional na prédica dos princípios do ecumenismo. Em 1991, reuniu mais de 300 igrejas cristãs de todo mundo numa assembléia realizada em Camberra, Austrália. Apesar disso, até hoje a Igreja Católica Apostólica Romana não é filiada ao

90 organismo; apenas algumas denominações católicas mais ortodoxas132. No Brasil, talvez o maior representante do pensamento ecumênico seja o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs – CONIC, fundado em 1982 na forma de uma fraternidade de igrejas confessas desta natureza ecumênica do cristianismo. Atualmente, apenas sete denominações são oficialmente filiadas ao CONIC: Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR, Igreja Católica Ortodoxa Siriana do Brasil – ICOS, Igreja Cristã Reformada – ICR, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, Igreja Metodista – IM e Igreja Presbiteriana Unida – IPU133. A própria Igreja Católica opta pelo ecumenismo em seu discurso oficial, atestado por documentos recentes da instituição que “preconizam o diálogo com outras religiões e expressam a não reivindicação do monopólio religioso católico” (ORO apud MARQUES, 2001). Na própria Campanha da Fraternidade de 1989, a Igreja Católica recorda seu compromisso de promover uma comunicação ecumênica:

Outra realidade no campo da comunicação na Igreja é o exercício do Ecumenismo e do Diálogo Religioso. Pela comunicação é possível eliminar o que divide. O Ecumenismo requer diálogo com os cristãos, ‘abertura crescente para o diálogo com as religiões não-cristãs e com pessoas, movimentos e grupos de não-crentes. E até com grupos fechados ao Transcendente, em vista do conhecimento mútuo, enriquecimento recíproco e ação conjunta em favor das grandes causas da humanidade. (CNBB, 1989 apud MARQUES, 2001)

Não se pode contestar, portanto, os empenhos de reaproximação entre cristãos de igrejas diferentes que se fazem presentes – mesmo que numa escala não muito grande –, em plena situação de acirramento da concorrência entre as denominações religiosas. Talvez justamente devido a esta contradição que o padre argentino Enrique Cambón, especialista em ecumenismo, entenda o movimento ecumênico como “uma exigência evangélica e uma urgência histórica”
World Concil of Churches. Member churches, associate member churches and national council bodies. Disponível em <http://www.wcc-coe.org/wcc/who/mch-e.html >. Acesso em 06 Dez 2005. 133 Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. Igrejas-Membros. Disponível em < http://www.conic.org.br/>. Acesso em 06 Dez 2005.
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91 (CAMBÓN, 1994 apud MARQUES, 2001). Entretanto, à medida que a concorrência entre os grupos religiosos se intensifica, é possível pensarmos no distanciamento da possibilidade real de as denominações abdicarem das particularidades de suas doutrinas e dogmas em função de uma unidade. Ou seja, a concorrência religiosa, ainda que admitida a existência de pensamento ecumênico puro, amplia as diferenças – no sentido aqui empregado de rivalidade – entre as igrejas, inviabilizando como isso, cada vez mais, a adoção absoluta de elementos unificantes (credo único). O pastor luterano e professor da Universidade Metodista de São Paulo Dr. Milton Schwantes afirmou durante um seminário de orientação da estratégia da Campanha da Fraternidade 2005 para religiosos e professores de colégios católicos, em São Paulo, que a grande dificuldade para se realizar práticas efetivamente ecumênicas é que “às vezes a igreja não promove o ecumenismo [aqui expresso no sentido literal]; cada uma quer as ovelhas para o seu aprisco”134. Neste contexto, as práticas que comumente são tratadas por ecumênicas limitam-se, na verdade, ao diálogo inter-religiões ou ao que poderíamos chamar de ecumenismo limitado à cúpula das denominações religiosas. Isto porque as igrejas eventualmente celebram suas crenças ecumenicamente sem, no entanto, abrirem mão de suas identidades próprias. Nestas condições, o ecumenismo, apesar da impropriedade do termo, refere-se a ações não necessariamente excludentes da concorrência religiosa. Este item trata, portanto, de algumas possibilidades de diálogo interreligiões no tocante ao compartilhamento de ações limitadas, basicamente, ao nível de cúpulas; ou seja, a coalizão de denominações religiosas voltadas para um objetivo comum sem, no entanto, perderem suas particularidades e, consequentemente, a divisão que as distingue umas das outras. Estas ações conjuntas são possíveis muitas vezes, em primeiro lugar, pela coincidência de objetivos e, segundo, pelas possibilidades de as denominações auferirem vantagens na realização da ação em parceria, superiores às que o fariam individualmente. Estas vantagens podem, por exemplo, ser traduzidas em termos

Milton Schwantes. Solidariedade e paz à luz da teologia. In: SEMINÁRIO DE ORIENTAÇÃO DA ESTRATÉGIA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2005 – ECUMÊNICA, 20 Nov 2004. São Paulo: CONIC, 2004.

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92 de custo e estarem inseridas num elaborado de diretrizes estratégicas, inclusive de competição. A Campanha da Fraternidade, cuja bandeira é geralmente comandada somente pela Igreja Católica, tem sido um dos maiores exemplos de empreendimento ecumênico de cúpula. Em 2000 e 2005 foi declarada participação ecumênica na promoção da campanha, ficando, neste último ano, toda a coordenação à critério do CONIC. Com a promoção conjunta, as denominações envolvidas visam cumprir objetivos comuns de evangelização e, possivelmente, de atração de fiéis para os princípios que consideram corretos e verdadeiros e, ao mesmo tempo, gozam da vantagem de pulverização dos investimentos necessários. O professor Kater Filho (2005, em entrevista concedida) citou também como exemplo de ação conjunta inter-denominações religiosas a existência da Sociedade Bíblica do Brasil; uma entidade resultado de um acordo entre denominações evangélicas para a fabricação e adoção de uma Bíblia única. A edição gráfica em grande quantidade permitiu naturalmente, a redução do custo por unidade impressa e, desta forma, a produção da Bíblia mais barata do Brasil, recomendada aos fiéis pelas igrejas fraternas do acordo. No tangente ao aspecto estratégico na competição religiosa, as práticas ecumênicas de cúpula assumem forma de instrumento ainda mais coerente com a relação pluralística concorrencial ao passo que se compreende a inviabilidade de extensão de sua abrangência a todas as denominações, bem com a ocorrência de recusas aos convites de participação por igrejas não simpatizantes dos propósitos. A preocupação por católicos e protestantes tradicionais com o avanço das denominações neopentecostais, por exemplo, podem incentivar estes grupos à intensificação do diálogo sobre as mudanças ocorridas do campo religioso que as teriam feito perder fiéis. Em alguns casos, a coalizão de um grupo seleto de denominações pode resultar, inclusive, em celebrações religiosas conjuntas (cultos e missas ecumênicas), mais comuns por ocasiões comemorativas.

93 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Empenhamo-nos no sentido de analisar alguns aspectos do fenômeno social secular de transformação dos serviços religiosos em mercadoria comercializável, a partir da destituição do capital religioso da sociedade comum e, posteriormente, da dissociação da igreja de suas instituições legitimantes enquanto monopólio religioso sobre ética social como um todo e, portanto, da constituição de um verdadeiro mercado de religião; dentro do qual se faz justificado o emprego da terminologia econômica, como concorrência, oferta e demanda; orientados pela hipótese de caracterização da disposição estrutural desta dinâmica de maneira coerente com as teorias microeconômicas do oligopólio, em superação ao senso comum que eventualmente metaforiza o processo pelas definições da concorrência pura, strictu sensu. Ainda que reconhecidas as limitações técnicas que nos foram impostas para a análise do objeto em sua totalidade, pudemos comprovar a autenticidade dos empenhos de tratamento do campo religioso pela sua ótica de mercado e, consequentemente, de concorrência religiosa; servindo-nos como base sólida de sustentação para o propósito maior de caracterização desta dinâmica definições econômicas da uma estrutura industrial oligopólica pelas secular.

Confirmando, desta forma, a aplicabilidade dos conceitos de oligopólio diferenciado ao mercado de bens simbólicos ligados à religião. Reconhecemos a noção de conflito compreendida nas transformações do campo religioso, desde a destituição social, na sua esfera mais coletiva, de todo seu trabalho simbólico acumulado – que define o conceito de capital religioso (ou qualificação religiosa) –; sucedida pela efetiva pauperização da sociedade, através da substituição definitiva dos padrões religiosos tradicionais de organização da vida humana por uma constituição classista de separação do corpo social em leigos de um lado – destituídos do saber e, por conseguinte, não mais autônomos do ponto de vista religioso, ainda que dependente deste conhecimento até os dias de hoje –; e, por outro lado, técnicos institucionalmente organizados, dotado das qualificações necessárias para legitimar em monopólio todo o comportamento social. Assim, observamos a formação de uma religião

94 institucionalizada cuja dominância dos princípios atingia todas as esferas da sociedade, orientando a vida econômica, política e social. Todavia, uma vez perdida a correspondência entre a capacidade de organização dos monopólios religiosos em todo mundo sobre as atividades econômicas e os interesses seculares que sobre elas são exercidos, devido ao crescimento da demanda por maior emprego das explicações racionalizantes das relações ocorridas neste viés da sociedade, correlata ao processo de intensificação da industrialização e, principalmente, dos princípios de livre mercado, o poder de legitimação da religião não mais pôde ser exercido sobre as atividades econômicas, mantendo-se concentrado nas esferas mais públicas e privadas da sociedade; respectivamente, sobre o Estado e as famílias. Esta situação seria mantida até que fosse reconhecida a intimidade imprescindível entre os interesses econômicos e políticos que implicaria a racionalização dos governos e, consequentemente, a sua dissociação dos princípios religiosos. Desta forma, a religião monopolizada que por milhares de anos esteve diretamente associada ao poder em todas as esferas sociais – com destaque ao mundo ocidental, embora não se limitando a –, não mais seria imposta à sociedade e, portanto, passou a considerar a incerteza acerca da garantia de sua legitimação única sobre as famílias, sobre as quais sua influência assumia teologicamente maior importância e relevância; ou seja, o risco eminente de ter que administrar as “heresias” não mais isoladas e apoiadas pela autoridade legal, mas na forma de competição pela preferência dos fiéis. Assim, ao ritmo do surgimento de ideologias alternativas de legitimação da vida social (centradas na esfera familiar) – o que define a situação de pluralidade religiosa –, o campo da religião foi se transformando em direção à dinâmica de concorrência entre capitais religiosos divergentes em doutrinas e práticas e, cada vez mais, permitindo a substituição de sua nomenclatura pelo conceito de mercado religioso. Tendo incorporado elementos seculares à sua dinâmica de conflito, o campo religioso moldado pelo padrão de mercado compôs-se de agentes institucionalizados cujas preocupações incluíram inevitavelmente o aspecto selvagem da concorrência. Situação esta que se intensificaria com o tripé urbanização, democratização e globalização; o qual, pelo oferecimento à sociedade de garantias de anonimato e menor controle social que

potencializariam a liberdade de culto nas cidades, sob condições de ausência da

95 imposição legal da religião e maior aceitação da pluralidade e heterogeneidade cultural, ajudaria a desmontar a estrutura religiosa monopolista de legitimação da vida social. Portanto, o campo religioso seria marcado pela sua trajetória de acirramento da concorrência e, consequentemente, pela caracterização dos agentes envolvidos na prestação dos seus serviços como firmas organizadas na disposição de um produto de consumo para o mercado, independente do aspecto sagrado que prioritariamente as orientassem em suas ações e objetivos. No mundo ocidental, primeiro pela separação do cristianismo em duas grandes correntes religiosas hegemônicas e, posteriormente, pelas infindáveis cisões, imigrações e inaugurações de capitais religiosos, o desmonte do monopólio católico trazido da Idade Média melhor observar-se-ia na atual coexistência de incontáveis denominações de cunho religioso. Se distintas em doutrina, dogmas e ritos incorporados, similares, no entanto, quanto à posição de ofertantes de “bênçãos de Deus”, salvação, paz, amor, bem-estar espiritual, entre outras tantas traduções possíveis para nebulosa simbólica da religião. Assim, em primeira análise, como que num verdadeiro mercado, inúmeras agências prestadoras de serviços religiosos colocaram-se à disposição da sociedade para a livre escolha pelos leigos, daquelas que julgassem melhor atender-lhes; em troca, seriam recompensadas pela oportunidade de orientação teológica destes leigos, de maneira correspondente aos seus propósitos de evangelização (idéia extensível em outros termos também às instituições religiosas não cristãs) e, consequentemente, de construção dos princípios coerentes àquilo que consideram divino e sagrado – aqui possivelmente entendidos por termos mais objetivos como o “Reino dos Céus”, a sintonia com a natureza, etc. Embora orientadas em torno de um propósito religioso comum, as adversidades administrativas e organizacionais, muitas vezes superiores às teológicas, ainda que transparentadas por elas, na forma de divergências acerca dos elementos que compõem o produto geral do mercado religioso – subjetivo em determinação, contudo objetivo quanto às doutrinas e práticas incorporadas –, inviabilizaram a conduta de unidade entre as denominações religiosas. Em outras palavras, cada denominação religiosa como dona da sua própria Verdade, se orientadas ao objetivo de anunciar esta verdade ao maior número de pessoas possíveis, “libertando-os da ignorância”, o intuito de manutenção no campo

96 transcende a capacidade econômica de explicação e consubstancia-se, mais do que isso, pelo viés espiritual, numa questão de bem-estar da humanidade. Uma vez inseridas na dinâmica de mercado, no entanto, esta luta pela sobrevivência assume forma ainda mais intensificada em racionalização, impreterivelmente. As instituições não mais limitar-se-iam à simples organização da estrutura corporativa, em geral, hierarquizada, conduzindo-se cada vez mais à justificada adoção de verdadeiras práticas estratégicas de competição, absolutamente reconhecíveis pela dinâmica secular de concorrência, dada a forma conflituosa na qual se inserem. Analisando o mercado religioso brasileiro, pudemos concluir alguns dos aspectos sob os quais tem ocorrido o processo de desconcentração do número de fiéis por denominação religiosa – isto é, o acirramento da concorrência religiosa, viabilizada pela instituição oficial de um Estado laico, com a Proclamação da República –, bem como do conjunto de estratégias competitivas das quais as igrejas se apropriam na disputa pela sobrevivência. Apesar das evidências empíricas que poderiam subsidiar a falácia de uma tendência à consolidação gradual de condições de concorrência plenamente simétrica entre as denominações religiosas presentes no mercado, a situação pluralística no Brasil demonstrou-se intensificada na manutenção de uma concorrência imperfeita tipicamente oligopolista. A análise dos dados levou-nos a concluir que, atualmente, embora nas últimas décadas tenha havido um substancial crescimento das denominações evangélicas, sendo as mais tradicionais num primeiro momento, seguida pelas pentecostais e, mais recentemente, pelas neopentecostais notadamente, a percepção da dinâmica concorrencial pelas igrejas e afins tem sido responsável pela resistência de uma distribuição altamente concentrada dos fiéis. Apesar da coexistência de centenas de denominações religiosas genealogicamente derivadas das mais diversas religiões do mundo, a quase totalidade da população brasileira se mantém declarada em cerca de apenas seis ou sete classificações; confirmando a natureza imperfeita da dinâmica de competição que tem se feito presente no mercado religioso brasileiro. Acreditamos, portanto, que a resistência da concentração do mercado religioso, ainda que reconhecida a forte quebra do monopólio absoluto da Igreja Católica, está diretamente relacionada com a adoção de estratégias competitivas

97 resultantes da viabilidade de acompanhamento do funcionamento do mercado; que se associa justamente ao número limitado de denominações dominantes, cujas ações individualmente realizadas exercem influência no campo como um todo e, por conta disso, são consideradas no comportamento de cada uma das prestadoras de serviços religiosos. Em outros termos, entendemos que as denominações religiosas, ora pelo emprego calculista de estratégias de competição, ora, simplesmente, pela percepção intuitiva da dinâmica de concorrência imperfeita sob as quais defendem seus interesses, organizam-se de modo a proteger suas fatias de mercado – representada pelo percentual de fiéis sobre a população total –; buscando precaverem-se da contestabilidade da legitimação da prestação de seus serviços religiosos sobre a parcela de leigos que detêm, por capitais religiosos incipientes, ou mesmo pelas denominações já bem estabelecidas no mercado. Este aspecto de imperfeição da concorrência religiosa – ou seja, de desigualdade de forças competitivas entres os agentes atuantes – que permite o emprego de estratégias de mercado, focadas no market share das denominações e respectivos empenhos de proteção contra a contestabilidade das legitimações sobre a orientação religiosa na vida das famílias, permite a observação de barreiras à mobilidade dos capitais religiosos; a serem consideradas nas investidas de entrada no mercado. O impacto destes estímulos de bloqueio à atuação de novos capitais no mercado se demonstrou em parte intimamente associado à escala almejada pelas denominações (quantidade de fiéis), no tangente às barreiras por larga escala ou custos absolutos envolvidos. Contudo, com relação aos empenhos de superação das reputações dos capitais já estabelecidos, demonstraram-se influentes enquanto barreiras à entrada, independentemente da escala de atendimento religioso. A ausência de pretensões quanto a elevada escala de atendimento religioso pode eximir as denominações religiosas incipientes de algumas ameaças ao seu estabelecimento definitivo no campo, pelo menos no que tange à capacidade de absorção da escala pelo mercado e aos investimentos mínimos necessários. No entanto, àqueles capitais cujas metas compreendem uma elevada escala de atendimento, mantêm-se válidos fortemente os estímulos de bloqueio à entrada. A construção por uma denominação religiosa de uma estrutura coerente com as presentemente dispostas no mercado, em geral,

98 associada ao domínio dos grandes canais de comunicação e de outros empreendimentos beneficiadores da atividade principal – tradução material do objetivo implícito de tomada abrupta de uma parcela muito significativa da população para a condição de adeptos –; se, por um lado, permitiria considerar estímulos de incentivo pela possibilidade de redução dos custos fixos unitários de manutenção das atividades, dado pelo rateio dos custos totais em uma base mais extensa de fiéis; por outro, implica a aceitação da capacidade de absorção pelo mercado desta escala considerada. Em termos econômicos, pudemos concluir, portanto, que no mercado religioso fazem-se presentes para os grandes capitais as barreiras à entrada por economias de larga escala; isto é, incapacidade de absorção pelo mercado da escala mínima eficiente (que garante o custo médio mínimo). Como, em geral, a população, pelo menos em sua maioria, já possui opção religiosa determinada, a entrada de capitais capazes de atender uma escala elevada de fiéis deve, necessariamente, pressupor (i) a capacidade de financiamento dos custos de manutenção das atividades por uma parcela mais reduzida dos adeptos da denominação, naturalmente, mais propensa à concentração do investimento em suas mãos; ou (ii) a predisposição à superação das denominações já estabelecidas, atraindo para si parte dos fiéis destas. Em resumo, ou um grupo mais concentrado se prontifica a bancar a estrutura física da igreja ou a escala necessária de fiéis deve ser compatível com o mercado. A partir da percepção desta possível predisposição à superação das denominações já estabelecidas, pelos capitais religiosos entrantes, é que se evidencia o exercício da barreira à entrada por diferenciação de produtos; aplicável independentemente da escala de atendimento. Como citado, a declaração da maioria absoluta da população em alguma classificação de religiosidade implica às novas denominações a predisposição de superação das já estabelecidas, através do convencimento de sua superioridade ou, até mesmo, de sua inofensividade para alguns casos mais críticos. Desta forma, a maior barreira à entrada de novos capitais religiosos no mercado demonstrou-se associada à quebra das reputações estabelecidas pelo convencimento da população da superioridade dos serviços diferenciados entrantes na legitimação da sociedade, frente ao preconceito e discriminação do novo.

99 Compreendidas por antecipação, as barreiras à entrada de novos capitais religiosos tornam-se instrumentos fundamentais para as denominações já estabelecidas, que buscam eleva-las através de suas estratégias competitivas, protegendo-se, desta forma, da contestabilidade de sua legitimação na prestação de serviços religiosos, por capitais religiosos auto-considerados mais aptos para o atendimento da população. Os meios estratégicos dos quais as denominações religiosas de fato se apropriam na dinâmica de concorrência oligopolista do mercado de bens simbólicos associados à religião centram-se, notadamente nos empenhos de diferenciação dos serviços, especialização e segmentação dos fiéis em classes, propaganda e marketing, e, eventualmente, alianças estratégicas. A dificuldade de análise destes instrumentos estratégicos de competição em termos de preço, para o caso da concorrência religiosa, não impede o tratamento do fenômeno pela ótica das teorias microeconômicas; pelo contrário, demonstra-se coerente com a realidade apresentada pelos segmentos

econômicos oligopolizados, que pautam o conjunto de estratégias competitivas nos instrumentos extra-preço. Somamos a isso a compreensão do fato de que quaisquer elementos teoricamente associáveis aos preços dos bens simbólicos ligados à religião, tais como o dízimo ou o tempo dedicado pelo fiel à atividade, são irrelevantes para o processo de mercantilização da religião; conformando-se, para fins de análise, tão somente em instrumento democraticamente incorporado e necessário para manutenção das atividades. Dentre os instrumentos estratégicos de competição extra-preço

empregados pelo mercado religioso destacou-se a diferenciação de serviços. Ao nível do mercado, instituições religiosas incipientes apropriam-se da vantagem de especialização dos serviços religiosos prestados num segmento particular da sociedade. É o caso das denominações religiosas que adaptam seus discursos, ritos e práticas a grupos específicos, tais como os constituídos por fiéis homossexuais, jovens, roqueiros, surfistas, entre outras diversas especificidades de segmentação, como, por exemplo, quanto à classe sócio-econômica. A especialização, em geral, facilita, portanto, o rompimento de barreiras à entrada, ao passo que viabiliza o atendimento de uma parcela específica da população possivelmente não tão bem atendida pelas instituições religiosas mais ecléticas, atribuindo às denominações especialistas o benefício da legitimação do monopólio sobre a prestação de serviços religiosos ao segmento particular que se

100 destinam. Em outros termos, cada instituição torna-se monopolista do seu próprio produto. Ao nível da denominação, por outro lado, a segmentação dos fiéis se demonstrou um importante instrumento estratégico na dinâmica de competição oligopolista. Nos intuitos de protegerem-se da contestabilidade pelas instituições especializadas e de expandirem suas fatias de mercado pela maior

disponibilidade de serviços diferenciados, as denominações religiosas mais organizadas internalizam a prática de segmentação dos fiéis em classes de necessidades específicas, para as quais voltam seus serviços, adaptados para cada caso. Neste sentido, tendo em vista que as decisões das denominações oligopólicas possuem efeito sobre o mercado como um todo, a proliferação do movimento de Renovação Carismática nas instâncias católicas, por exemplo, poderia ter significado, dentre outras coisas, uma motivação à reaproximação de um fiel inativo em substituição à sua adesão em uma doutrina evangélica pentecostal. De acordo com esta lógica, pudemos observar denominações dentro das quais eram mantidas, dependendo das condições sócio-econômico-culturais do público ao qual se destinavam em cada ponto de pregação, celebrações mais tradicionais ou mais carismáticas; analogamente, outras segmentam seus fiéis em função dos produto específicos no quais traduzem o produto genérico da religião: saúde, realização financeira, reconhecimento, entre outros. Nesta busca pelo melhor atendimento dos fiéis as denominações submetem-se, mais do que isso, inclusive à incorporação de instrumentos seculares de marketing estratégico, de acordo com os quais procuram avaliar o melhor composto de serviços; analisando o público-consumidor e moldando estratégias relacionadas ao produto, propriamente dito, à disposição geográfica dos pontos de pregação e, principalmente, à promoção dos serviços prestados. Nesta última apresentaram-se sob forte relevância a propaganda e os meios de comunicação impressos e eletrônicos, notadamente, os voltados para a grande massa (rádio, televisão, internet). O acirramento da concorrência tem levado algumas denominações até mesmo à substituição deliberada dos meios intuitivos de atendimento otimizado à demanda, pelos métodos calculistas que se somam, a partir da colaboração de consultores das técnicas marketing. Além destes, cujo número de combinações estratégicas possíveis já se demonstrou à frente da capacidade de exemplificação deste estudo, outras

101 estratégias de competição têm se somado às práticas paralelas das

denominações religiosas na luta pela sobrevivência no mercado de bens simbólicos, tal como as alianças estrategicamente constituídas; capazes de convergir paradoxalmente os princípios ecumênicos ao fortalecimento da competição religiosa. A reconhecida inviabilidade de fusão definitiva dos princípios comuns de cada denominação, num contexto de unidade coerente com o pensamento ecumênico – em geral associado às igrejas cristãs –, transforma o discurso inter-religioso em alianças momentâneas, nas quais não se abstêm da identidade própria em benefício do coletivo. Estas alianças ecumênicas, centradas somente ao nível da cúpula das igrejas e não a suas bases, podem eventualmente oferecer vantagens estratégicas em termos de custo nos projetos levados em conjunto (e.g., Campanha da Fraternidade e Sociedade Bíblica do Brasil), além de benefícios relacionados ao objetivo de atração de fiéis para os princípios que as participantes do acordo consideram mais próprios.

Paralelamente, a não participação de algumas igrejas e seitas nestes encontros tende a fortalecer as diferenças que potencializam a competição. Assim, ao ritmo das próprias transformações da sociedade, o campo religioso toma forma de mercado e vai constituindo uma estrutura competitiva imperfeita e assimétrica, marcada pelo domínio de poucas denominações sobre uma parcela muito significativa da população. Por conta disso, suas ações tomadas individualmente são reconhecidas pelo mercado e estrategicamente consideradas pelas principais rivais, de maneira intuitiva ou calculista; orientandose pelo foco primordial da participação em fiéis que detêm no total da população. Nesta disputa, em nome do bem-estar da humanidade, alcançado através da aceitação generalizada dos princípios que cada denominação considera correto e sagrado, as estratégias seculares de mercado são os meios impostos pela sociedade. As religiões buscam, a cada dia, maior adaptação às necessidade de uma sociedade heterogênea, pluralista; criando serviços religiosos diferenciados para as necessidades específicas, fazendo uso da propaganda, do rádio, da televisão, do cinema, da mídia em geral. Tudo isso à medida que procuram “proteger a sociedade” do surgimento de novas doutrinas concorrentes, elevando barreiras, menos legais – como as já extintas em praticamente todo mundo –, do que propriamente econômicas.

102 Esta configuração do mercado de bens simbólicos ligados à religião, típica de um oligopólio diferenciado secular, é resultado da exigência de mais do que compreensão das instituições religiosas acerca dos problemas sociais; muito além, resulta da incorporação dos novos padrões competitivos que regem a sociedade contemporânea como único meio de combate às tendências dessacralizadas que substituem a fé na legitimação da vida social e ajudam a fazer dos homens indivíduos solitários, problemáticos e infelizes na dinâmica artificial do mercado. Assim, padres, pastores e afins se obrigam a agregar à posição de orientadores religiosos a de executivos no comando de um verdadeiro oligopólio da fé.

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<http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2005/papa/0075.shtml> . Acesso em 20 set. 2005. SHAULL, Richard. A Reforma Protestante e a Teologia da Libertação. São Paulo: Pendão Real, 1993, 149 p. SUNG, Jung Mo. Teologia e economia – repensando a teologia da libertação e utopias. Petrópolis: Vozes, 1994, 271 p. ISBN 85-3261168-0.

111 ANEXO I – Base de competição dos setores oligopólicos segundo o grau de diferenciação dos produtos

1 – INDÚSTRIA COM GRANDE DIFERENCIAÇÃO DE PRODUTO INDÚSTRIA Bebidas Cigarros Automobilística BASE DE DIFERENCIAÇÃO Propaganda Propaganda Propaganda, desenho, reputação

2 – INDÚSTRIA COM MODERADA DIFERENCIAÇÃO DE PRODUTO INDÚSTRIA Pneu Calçados Refino de petróleo BASE DE DIFERENCIAÇÃO Propaganda, desenho Propaganda, distribuição Propaganda, serviços aos cliente

3 – INDÚSTRIA COM POUCA DIFERENCIAÇÃO DE PRODUTO INDÚSTRIA Aço Esferográfica BASE DE DIFERENCIAÇÃO Serviços aos clientes Propaganda, desenho

4

INDÚSTRIA

COM

DIFERENCIAÇÃO

DE

PRODUTO

POUCO

SIGNIFICATIVA (INDÚSTRIA SEM BASE DE DIFERENCIAÇÃO) Cobre, cimento, papel e celulose, matérias-primas em geral

Fonte: ANDREOLLI, 1999, p. 37

112 ANEXO II – Exemplo de cartão do Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) de instituição religiosa

Fonte: SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL

113 ANEXO III – Sub-classes CNAE para enquadramento fiscal das instituições religiosas

CÓDIGO 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 9191-0/00 ARQUIDIOCESE

DESCRIÇÃO CNAE

CASA DE BENÇÃO CASA DE ORAÇÃO CASA MAÇÔNICA CENTRO DE UMBANDA CENTRO ESPÍRITA CONGREGAÇÃO RELIGIOSA CONVENTO CULTO RELIGIOSO; CELEBRAÇÃO E ORGANIZAÇÃO EXÉRCITO DA SALVAÇÃO; ASSOCIAÇÃO DO IGREJA INSTITUIÇÃO RELIGIOSA IRMANDADE RELIGIOSA MESQUITA MISSÃO RELIGIOSA MOSTEIRO ORGANIZAÇÃO FILOSÓFICA ORGANIZAÇÃO RELIGIOSA SINAGOGA TEMPLO TEMPLO RELIGIOSO TENDA ESPÍRITA TERREIRO DE CANDOMBLÉ TERREIRO DE MACUMBA TERREIRO DE UMBANDA

Fonte: CONCLA – Comissão Nacional de Classificação

114 ANEXO IV – Classificação de religião adotada pelo IBGE para o Censo Demográfico de 2000

000

SEM RELIGIÃO

11 CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA 110 Católica Apostólica Romana 111 Católica Carismática, Católica Pentecostal 112 Católica Armenia; Católica Ucraniana 12 CATÓLICA APOSTÓLICA BRASILEIRA 120 Católica Apostólica Brasileira 13 CATÓLICA ORTODOXA 130 Católica Ortodoxa 14 ORTODOXA CRISTÃ 140 Ortodoxa Cristão 149 Outras 19 OUTRAS CATÓLICAS 199 Outras Católicas 21 EVANGÉLICA DE MISSÃO LUTERANA 210 Igrejas Luteranas 219 Outras 22 EVANGÉLICA DE MISSÃO PRESBITERIANA 220 Igreja Evangélica Presbiteriana 221 Igreja Presbiteriana Independente 222 Igreja Presbiteriana do Brasil 223 Igreja Presbiteriana Unida 224 Presbiteriana Fundamentalista 225 Presbiteriana Renovada 229 Outras 23 EVANGÉLICA DE MISSÃO METODISTA 230 Igreja Evangélica Metodista 231 Evangélica Metodista Wesleyana 232 Evangélica Metodista Ortodoxa 239 Outras

(continua)

115 (continuação) 24 EVANGÉLICA DE MISSÃO BATISTA 240 Igreja Evangélica Batista 241 Convenção Batista Brasileira 242 Convenção Batista Nacional 243 Batista Pentecostal 244 Batista Bíblica 245 Batista Renovada 249 Outras 25 EVANGÉLICA DE MISSÃO CONGREGACIONAL 250 Igreja Evangélica Congregacional 251 Igreja Congregacional Independente 259 Outras 26 EVANGÉLICA DE MISSÃO ADVENTISTA 260 Igreja Evangélica Adventista do Sétimo Dia 261 Igreja Evangélica Adventista Movimento de Reforma 262 Igreja Evangélica Adventista da Promessa 269 Outras 27 EVANGÉLICA DE MISSÃO EPISCOPAL ANGLICANA 270 Igreja Evangélica Episcopal Anglicana 279 Outras 28 EVANGÉLICA DE MISSÃO MENONITA 280 Igreja Evangélica Menonita 289 Outras 30 EXÉRCITO DA SALVAÇÃO 300 Exército da Salvação

31 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL ASSEMBLÉIA DE DEUS 310 Igreja Evangélica Assembléia de Deus 311 Igreja Assembléia de Deus Madureira 312 Igreja Assembléia de Deus Todos os Santos 319 Outras 32 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL CONGREGACIONAL CRISTÃ DO BRASIL 320 Igreja Congregacional Cristã do Brasil 329 Outras

(continua)

116 (continuação) 33 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL O BRASIL PARA CRISTO 330 Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo 339 Outras 34 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL EVANGELHO QUADRANGULAR 340 Igreja Evangelho Quadrangular 349 Outras 35 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL UNIVERSAL DO REINO DE DEUS 350 Igreja Universal do Reino de Deus 359 Outras ‘ 36 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL CASA DA BÊNÇÃO 360 Igreja Evangélica Casa da Bênção 369 Outras 37 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL CASA DE ORAÇÃO 370 Igreja Evangélica Casa de Oração 379 Outras 38 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL DEUS É AMOR 380 Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Amor 389 Outras 39 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL MARANATA 390 Igreja Evangélica Pentecostal Maranata 399 Outras 40 EVANGÉLICA RENOVADA Sem Vínculo Institucional 400 Evangélica Renovada,Restaurada,Reformada Sem Vínculo Institucional 401 Pentecostal Renovada,Restaurada e Reformada Sem Vínculo Institucional 409 Outras 41 EVANGÉLICA PENTECOSTAL Sem Vínculo Institucional 410 Evangélica Pentecostal Sem Vínculo Institucional 419 Outras 42 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL COMUNIDADE CRISTÃ 420 Igreja Evangélica Comunidade Cristã 429 Outras (continua)

117 (continuação) 43 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL NOVA VIDA 430 Igreja de Origem Pentecostal Nova Vida 439 Outras 44 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL COMUNIDADE EVANGÉLICA 440 Igreja Evangélica Comunidade Evangélica 449 Outras 45 OUTRAS IGREJAS EVANGÉLICAS DE ORIGEM PENTECOSTAL 450 Outras Igrejas Evangélicas Pentecostais 46 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL AVIVAMENTO BÍBLICO 460 Igreja Pentecostal Avivamento Bíblico 469 Outras 47 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL CADEIA DA PRECE 470 Igreja Evangélica Cadeia da Prece 479 Outras 48 EVANGÉLICA DE ORIGEM PENTECOSTAL IGREJA DO NAZARENO 480 Igreja do Nazareno 489 Outras 49 EVANGÉLICA NÃO DETERMINADA 490 Evangélica Não Determinada 491 Evangélica Sem Vínculo Institucional 492 Declaração Múltipla de Religião Evangélica 499 Outros Evangélicos 51 IGREJA DE JESUS CRISTO DOS SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS 510 Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias / Mormons 519 Outras 52 EVANGELICOS TESTEMUNHA DE JEOVÁ 520 Testemunha de Jeová 529 Outras 53 LBV / RELIGIÃO DE DEUS 530 Legião da Boa Vontade / Religião de Deus 59 ESPIRITUALISTA 590 Espiritualista 599 Outras

(continua)

118 (continuação) 61 ESPÍRITA 610 Espírita, Kardecista 619 Outras 62 UMBANDA 620 Umbanda 629 Outras 63 CANDOMBLÉ 630 Candomblé 639 Outras 64 OUTRAS DECLARAÇÕES DE RELIGIOSIDADE AFRO BRASILEIRA 640 Religiosidades Afro Brasileiras 641 Declaração Múltipla de Religiosidade Afro com Outras Religiosidades 649 Outras 71 JUDAÍSMO 710 Judaísmo 719 Outras 74 HINDUÍSMO 740 Hinduísmo 741 Ioga 749 Outras 75 BUDISMO 750 Budismo 751 Nitiren 752 Budismo Theravada 753 Zen Budismo 754 Budismo Tibetano 755 Soka Gakkai 759 Outras 76 NOVAS RELIGIÕES ORIENTAIS 760 Igreja Messiânica Mundial 761 Seicho No-Ie 762 Perfect Liberty 763 Hare Krishna 764 Discipulos Oshoo 765 Tenrykyo 766 Mahicari

(continua)

119 (continuação) 79 OUTRAS RELIGIÕES ORIENTAIS 790 Religiões Orientais 791 Bahai 792 Shintoismo 793 Taoismo 799 Outras 81 ISLAMISMO 810 Islamismo 819 Outras 82 TRADIÇÕES ESOTÉRICAS 820 Esotérica 821 Racionalismo Cristão 829 Outras 83 TRADIÇÕES INDÍGENAS 830 Tradições Indígenas 831 Santo Daime 832 União do Vegetal 833 A Barquinha 834 Neoxamânica 839 Outras 85 RELIGIOSIDADE CRISTÃ SEM VÍNCULO INSTITUCIONAL 850 Religiosidade Cristã Sem Vínculo Institucional 89 NÃO DETERMINADA 890 Religiosidade Não Determinada /Mal Definida 891 Declaração Múltipla de Religiosidade Católica / Outras Religiosidades 892 Declaração Múltipla de Religiosidade Evangélica / Outras Religiosidades 893 Declaração Múltipla de Religiosidade Católica/ Espírita 894 Declaração Múltipla de Religiosidade Católica/Umbanda 895 Declaração Múltipla de Religiosidade Católica/Candomblé 896 Declaração Múltipla de Religiosidade Católica/Kardecista 990 SEM DECLARAÇAO

Fonte: IBGE

120 ANEXO V – População residente, por sexo, segundo a religião – Brasil – 2000

RELIGIÃO Católica apostólica romana Católica apostólica brasileira Católica ortodoxa Evangélicas Evangélicas de missão Igreja evangélica luterana Igreja evangélica presbiteriana Igreja evangélica metodista Igreja evangélica batista Igreja evangélica congregacional Igreja evangélica adventista Outras igrejas evangélicas de missão Evangélicas de origem pentecostal Igreja assembléia de Deus Igreja congregacional cristã do Brasil Igreja Brasil para Cristo Igreja evangelho quadrangular Igreja universal do reino de Deus Igreja casa da benção Igreja Deus é amor Igreja maranata Igreja nova vida Sem vínculo institucional Evangélicos Evangélicos de origem pentecostal

TOTAL 124 980 132 500 582 38 060 26 184 941 6 939 765 1 062 145 981 064 340 963 3 162 691 148 836 1 209 842 34 224 17 617 307 8 418 140 2 489 113 175 618 1 318 805 2 101 887 128 676 774 830 277 342 92 315 1 046 487 710 227 336 259

HOMENS 61 901 888 250 201 19 495 11 444 063 3 062 194 523 994 427 458 146 236 1 344 946 64 937 538 981 15 642 7 677 125 3 804 658 1 130 329 76 132 545 016 800 227 51 557 331 707 117 789 35 352 454 087 309 380 144 707

MULHERES 63 078 244 250 380 18 565 14 740 878 3 877 571 538 152 553 606 194 727 1 817 745 83 899 670 860 18 582 9 940 182 4 613 482 1 358 785 99 485 773 789 1 301 660 77 119 443 123 159 553 56 964 592 400 400 847 191 552

(continua)

121 (continuação)

RELIGIÃO Outros evangélicos Outras cristãs Cristãs Outras religiosidades cristãs Igreja de Jesus Cristo dos santos dos últimos dias Testemunhas de Jeová Espírita Espiritualista Umbanda Candomblé Judaísmo Hinduísmo Islamismo Budismo Outras religiões orientais Novas religiões orientais Igreja messiânica mundial Outras novas religiões orientais Tradições esotéricas Tradições indígenas Outras religiosidades Sem religião Não determinadas Sem declaração TOTAL

TOTAL 581 383 235 532 230 325 5 208 199 645 1 104 886 2 262 401 25 889 397 431 127 582 86 825 2 905 27 239 214 873 7 832 151 080 109 310 41 770 58 445 17 088 15 484 12 492 403 357 648 383 953 169 872 856

HOMENS 250 657 103 483 101 090 2 394 92 197 450 583 928 967 10 901 172 393 57 200 43 597 1 521 16 232 96 722 3 764 58 784 41 478 17 306 27 637 9 175 7 393 7 540 682 159 191 206 245 83 602 317

MULHERES 330 725 132 049 129 235 2 814 107 448 654 303 1 333 434 14 987 225 038 70 382 43 228 1 383 11 007 118 152 4 068 92 295 67 831 24 464 30 808 7 913 8 091 4 951 721 198 458 177 708 86 270 539

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000.

122 ANEXO VI – Distribuição percentual da população segundo a religião –

Brasil – 1872-2000

ANO

CATÓLICOS EVANGÉLICOS

ESPÍRITAS

OUTRAS

SEM RELIGIÃO

1872 1890 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000

99,7 98,9 95,0 93,5 93,1 91,8 89,0 83,3 73,6

1,0 2,6 3,4 4,0 5,2 6,6 9,0 15,4

1,1 1,6 1,4 1,3 1,3 1,6 1,4

0,3 0,0 0,8 0,8 0,8 1,0 1,0 1,2 2,1

0,1 0,5 0,8 0,6 0,8 1,9 5,1 7,5

Fonte: Censo Demográfico (1872, 1890, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000) apud CORREIA, 2003

123 ANEXO VII – Média de anos de estudo por religião – Brasil – 1991-2000

RELIGIÃO Católica apostólica romana Total de evangélicos Evangélica de missão Evangélica pentecostal Outras evangélicas Testemunha de Jeová Espírita Umbanda e Candomblé Outras religiosidades Sem religião TOTAL Fonte: IBGE, Censo Demográfico 1991-2000

1991 4,63 4,68 5,79 4,00 5,28 5,36 8,34 6,25 6,41 5,06 4,72

2000 5,78 5,83 6,94 5,34 6,41 6,49 9,58 7,19 7,01 5,65 5,86

124 ANEXO VIII – Evolução do percentual de urbanização e de pessoas sem religião – 1890-2000

ANO

PORCENTAGEM PORCENTAGEM DE DE PESSOAS URBANIZAÇÃO SEM RELIGIÃO -135 31,2% 36,2% 44,7% 55,9% 67,6% 75,6% 81,3% 0,1% 0,5% 0,8% 0,6% 0,8% 1,9% 5,1% 7,5%

1890 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000

Fonte: Censo Demográfico (1872, 1890, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000) apud CORREIA, 2003

135

Dado não localizado pelo autor.

125 ANEXO IX – Quantidade de paróquias, presbíteros, diáconos, irmãos e irmãs católicos das circunscrições eclesiásticas da Regional Sul 1 da CNBB

CIRCUNSCRIÇÕES ECLESIÁSTICAS

ÁREA Km² 2355,6 1303,0 9620,6 9165,2 8771,5 5892,1 10348,6 4492,5 2133,2 1463,4 1943,4 4587,6 6795,9 317,1 8144,1 14150,7 5175,6 13086,8 2256,9 4915,2 8654,5 5123,0 11958,6 2519,5 -

POPULAÇÃO total 341655 165989 454829 279699 307597 443578 435581 784856 1625893 1464925 196973 261387 535900 1095874 361669 377977 433766 354225 860144 937443 269815 254277 623743 1188971 -

136

PAROQUIAS total 22 15 30 25 19 37 42 44 72 60 10 27 28 31 23 19 36 28 47 53 31 23 57 42 6

137

PRESBITEROS DP total 32 94 42 37 28 65 51 70 162 101 15 32 49 41 24 35 47 22 82 81 41 41 72 65 5 hab/presb 10676,7 1765,8 10829,3 7559,4 10985,6 6824,3 8540,8 11212,2 10036,4 14504,2 13131,5 8168,3 10936,7 26728,6 15069,5 10799,3 9229,1 16101,1 10489,6 11573,4 6580,9 6201,9 8663,1 18291,9 -

138

IRMÃOS

IRMÃS

hab/km² 145,0 127,4 47,3 30,5 35,1 75,3 42,1 174,7 762,2 1001,0 101,4 57,0 78,9 3455,9 44,4 26,7 83,8 27,1 381,1 190,7 31,2 49,6 52,2 471,9 -

hab/par 15529,8 11065,9 15161,0 11188,0 16189,3 11988,6 10371,0 17837,6 22581,8 24415,4 19697,3 9681,0 19139,3 35350,8 15724,7 19893,5 12049,1 12650,9 18300,9 17687,6 8703,7 11055,5 10942,9 28308,8 -

AMPARO APARECIDA ARAÇATUBA ASSIS BARRETOS BAURU BOTUCATU BRAGANÇA PAULISTA CAMPINAS CAMPO LIMPO CARAGUATATUBA CATANDUVA FRANCA GUARULHOS ITAPETININGA ITAPEVA JABOTICABAL JALES JUNDIAÍ LIMEIRA LINS LORENA MARÍLIA MOGI DAS CRUZES N.SA. DO LÍBANO EM SÃO PAULO N.SA. DO PARAÍSO EM SÃO PAULO

1 2 1 0 0 0 5 1 2 4 4 0 1 1 17 1 1 0 66 0 1 18 1 1 0

1 51 2 0 8 14 6 2 40 12 4 1 6 18 0 18 3 0 8 2 8 15 22 3 0

133 179 45 52 53 82 112 84 386 320 54 25 48 81 36 26 81 21 199 136 59 52 164 76 0

-

-

-

5

-

7

-

4

0

0

(continua)
136 137

IBGE, Estimativa da população Incluídas as Quase-Paróquias 138 Diáconos Permanentes

126 (continuação)
CIRCUNSCRIÇÕES ECLESIÁSTICAS Km² OSASCO OURINHOS PIRACICABA PRESIDENTE PRUDENTE REGISTRO RIBERÃO PRETO RIO PRETO SANTO AMARO SANTO ANDRÉ SANTOS SÃO CARLOS SÃO JOÃO DA BOA VISTA SÃO JOSÉ DOS CAMPOS SÃO MIGUEL PAULISTA SÃO PAULO SOROCABA TAUBATÉ REGIONAL 2495,5 7104,3 4663,2 15512,3 13291,1 8782,4 14634,0 328,9 825,3 2402,5 13056,5 7085,1 3270,5 200,2 580,1 4236,1 4533,7 248176,3 total 2072703 292602 805654 500664 254021 879371 788815 1455399 2343280 1362722 932114 577869 731003 2013634 5402918 815389 531816 35816740 hab/km² 830,6 41,2 172,8 32,3 19,1 100,1 53,9 4425,1 2839,3 567,2 71,4 81,6 223,5 10058,1 9313,8 192,5 117,3 144,3 total 44 29 50 34 14 52 73 68 87 39 71 46 34 72 277 36 34 1892 hab/par 47106,9 10089,7 16113,1 14725,4 18144,4 16911,0 10805,7 21402,9 26934,3 34941,6 13128,4 12562,4 21500,1 27967,1 19505,1 22649,7 15641,6 18930,6 total 88 38 90 43 28 89 96 115 124 76 120 99 68 99 914 71 92 3591 hab/presb 23553,4 7700,1 8951,7 11643,3 9072,2 9880,6 8216,8 12655,6 18897,4 17930,6 7767,6 5837,1 10750,0 20339,7 5911,3 11484,4 5780,6 9974,0 0 0 16 0 0 15 0 0 6 2 1 3 33 0 0 26 23 257 29 2 15 4 2 25 3 9 33 3 11 16 0 27 318 5 64 810 269 59 134 48 12 106 43 226 141 135 127 143 250 267 1986 133 304 6887 ÁREA POPULAÇÃO
139

PAROQUIAS

140

PRESBITEROS

DP

141

IRMÃOS

IRMÃS

Fonte: CERIS – Departamento de Estatística e Pesquisas Sociológicas

139 140

IBGE, Estimativa da população Incluídas as Quase-Paróquias 141 Diáconos Permanentes

127 ANEXO X – Exemplos de panfleto distribuído pela Igreja Universal do Reino de Deus com intuito de atrair fiéis

Fonte: CAMPOS, 1997, p.145

Fonte: do próprio autor

128 ANEXO XI – Screenshot de enquête da Igreja Universal do Reino de Deus para classificação dos fiéis segundo o motivo de filiação

Fonte: Site oficial da Igreja Universal do Reino de Deus (http://www.iurd.org.br/)

129 APÊNCIDE A – Gráfico da Curva de Lorenz e Coeficiente de Gini aplicado às denominações religiosas, segundo a distribuição de fiéis – Brasil – 2000

Fonte: RETRATOS, 2005.

Baseado

em

97

classificações

de

religiosidade,

adotadas

pelo

Censo

Demográfico 2000. Exclui agregações do tipo “outras denominações”.

130 APÊNCIDE B – Gráfico do Índice Herfindahl-Hirschman (IHH) de

concentração industrial do campo religioso, segundo a participação no total de fiéis – Brasil – 1960-2000 e Gráfico da redução percentual do Índice de Herfindahl-Hirschman (IHH) – Brasil – 1970-2000

Fonte: IBGE, Tendências Demográficas.

131 APÊNCIDE C – Gráfico da evolução das participações católicas,

evangélicas e sem-religião no total da população – Brasil – 1940-2000

Fonte: Censo Demográfico (1872, 1890, 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000) apud CORREIA, 2003

132 APÊNCIDE D – Análise gráfica das vantagens estratégicas de

segmentação dos fiéis pelas denominações religiosas

O diagrama acima procura ilustrar graficamente a vantagem estratégica de uma denominação religiosa diferenciar internamente os serviços que presta, segmentando seus fiéis de acordo com as especificidades que determinam cada perfil. Este apêndice reporta-se, portanto, à discussão realizada no item 3.3.1, no qual abordamos as estratégias de competição por serviços diferenciados. Imaginemos a situação hipotética de uma denominação qualquer, como, por exemplo, a Igreja Católica, na qual o conjunto total dos fiéis pudesse ser segmentado em dois grandes grupos142: um com perfil mais tradicional e outro com perfil mais carismático, cujos graus de satisfação são representados no gráfico, respectivamente, pelas curvas S t e S c .

Evidentemente, a segmentação dos fiéis em dois grupos atende caráter meramente hipotético, servindo exclusivamente para fins de análise teórica. Na prática, reconhecemos a existência de n perfis passíveis de uma construção tipológica e, portanto, a maior complexidade em se tratar a estratégia de segmentação nos termos aqui propostos, ainda que viável.

142

133 No diagrama, o eixo horizontal representa o grau de tradicionalismo ou carisma que se associa com o composto de serviços secundários derivados do produto principal da religião. Em termos práticos, consideremos, por exemplo, na extremidade esquerda deste eixo, a presença de elementos muito tradicionais, tais como – mantendo-se a Igreja Católica como exemplo – “missa em latim” e “padre de costas para a congregação”. Analogamente, na extremidade direita do eixo horizontal, podemos considerar elementos ditos mais carismáticos, tais como “falar em língua desconhecidas” e “rituais de cura”. Desta forma, consideremos o eixo horizontal como um conjunto gradiente de composições eclesiásticas finitas, que variam do tradicional extremo ao carismático extremo, sem que, no entanto, a identidade da denominação religiosa seja prejudicada a qualquer dos níveis possíveis. Isto é, sejam os serviços religiosos prestados pela Igreja Católica considerados mais carismáticos ou mais tradicionais, a igreja mantém sua identidade católica. Assim, as curvas S t e S c correspondem, portanto, ao percentual de satisfação dos fiéis de cada um dos dois perfis aqui teoricamente analisados (mais tradicionais ou mais carismáticos, respectivamente), indicado no eixo vertical ( S ), em função do grau de tradicionalismo ou carisma da composição de serviços eclesiais adotada pela denominação. Consideraremos ainda que, à esquerda da origem, a denominação é dita tradicional; assim como à direita, é considerada carismática. Desta forma, o elemento θ corresponde ao grau de tolerância máximo de cada um dos grupos à adoção de serviços religiosos cujo gênero (tradicional ou carismático) difere da opção prioritária. Ou seja, θ c é o grau de tradicionalismo máximo tolerado pelo grupo de perfil carismático; à esquerda deste ponto, não existe possibilidade de satisfação deste grupo de fiéis. A mesma lógica se aplica ao grupo mais tradicional. O ponto A , traduzido num composto particular de elementos eclesiais – neste caso mais carismáticos do que tradicionais –, expressa as condições de satisfação de cada grupo de fiéis, assumindo-se que a denominação limita a prestação de seus serviços somente aos elementos correspondentes a este ponto; ou seja, é especializada num produto cujos elementos de composição possuem grau de carisma igual a A . Neste ponto, evidentemente, o grupo de fiéis

134 predominantemente demandantes de serviços mais carismáticos se encontra mais satisfeito do que os fiéis mais tradicionais ( S cA > S tA ). Alternativamente, os pontos B e B' sugerem a condição de segmentação dos fiéis de acordo com os perfis (mais tradicionais e mais carismáticos), prestando-lhes serviços diferenciados e, portanto, especializados nos segmentos aos quais se destinam. Na prática, esta situação pode ser representada, por exemplo, pela manutenção de dois templos pela mesma denominação; um no qual os elementos eclesiais mais tradicionais são predominantes ( B ), e outro, mais carismático ( B' ). Segmenta-se, portanto, os fiéis de acordo com os perfis, prestando-lhes serviços diferenciados e, consequentemente, oferecendo-lhes maior grau de satisfação. Finalmente, se pensarmos no número de fiéis como função do grau de satisfação que se oferece ao nível determinado de qualificação dos serviços prestados, a diferenciação dos serviços ao nível da denominação, e conseqüente segmentação dos fiéis de acordo com os perfis correspondentes, permite que as instituições religiosas protejam ou mesmo aumentem suas fatias de mercado. Neste contexto, são válidos os esforços de tolerância entre tendências antagônicas, como a Teologia da Libertação e a Tradição Família Propriedade para a Igreja Católica; tanto quanto as estratégias mais calculistas, pela prestação de atendimento religioso com foco em demandas específicas, a saber, solução de problemas de saúde, financeiros, no amor, com os filhos, etc.

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