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Américas - Uma introdução histórica

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Luiz Koshiba
© Luiz' Koshiba
Denize Manzi Frayze Pereira

Mestre e doutor em História pela USP Professor de História da UNESP

D.enise Manzi Frayze Pereira
Copyrighs desta edição: SARAIVA S.A. Livreiros Editores, São Paulo, 2001Av. Marquês de São viccnte, 1697 - Barra Funda 01139-904 - São Paulo - SP Fone: (O"" 11) 3613-3000 Fax: (Oxx 11) 3611-3308 - Fax vendas: (OKXI1) 3611-3268 www.editorasaraiva.com.br Todos os direitos reservados.

Licenciada e bacharel em História pela USP Professora da Escola N. S. das Graças

Dados Internacionais
(Câmara

de Catalogação na Publícaçãe (CIP)
do Livro, SP, Brasil)

Brasileira

Koshiba. Luiz, 1945Américas: uma introdução

histórica

I Luiz Koshiba.

Denise Manzi Frayse Pereira. Bibliografia ISBN 85·7056-243-8 1. América 92-2479 História

São Paulo: Atual. 1992

J. Pereira. Denise Manzi Frayze.

11. Título. CDD-970.01

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Índices para catálogo sistemático:
1. América: História 970.0 I

E IC.L
Uma introdução histórica
; (, 2~ Edição

AMÉRICAS

Uma introdução histórica
Editora; Bárbara Ferreira Arena Editor de campo; Wilson Roberto Gambeta Coordenadora Assistente Chefe de preparação Preparação Revisares: Alice Editorial: Editorial: Sandra Camila Lucia Abrano Jorge Noé Ribeiro Teobaldo e Vieíra

de texto e revisão: de texto: Silvana

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Vera Lúcia Pereira Coordenadora Assistentes

Chefe de Arte: Zildo Braz de arte: Thaís de B. F. Motta Ghion (diagramação), Ortega Cabello Antonio Ricardo Yorio e de arte: Lu Bevilacqua Gerente Coordenadora de Produção:

Á&}I.,t,,;[ó 2.<.:t.;~"._1 O~ reimpressão
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Q. Filho
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A AMÉRICA
na América Espanhola
A missão religiosa. Em meados do século XV os portugueses J1a"viam realizado importantes descobrimentos marítimos na costa ocidental da África. E, como era costume entre os cristãos, desde a Idade Média, a Coroa portuguesa solicitou e obteve, em 1455, do papa Nicolau V, uma bula que assegurava o domínio do cabo Bojador à Guiné, incluindo as ilhas adjacentes. Alguns anos depois (1492), Colombo chegou à América. Os reis católicos procederam do mesmo modo que os portugueses, obtendo do papa Alexandre VI, em 1493, cinco bulas que Ihes concediam direitos sobre as terras descobertas e por descobrir. Os portugueses reagiram, alegando que as ilhas descobertas por Colombo situavam-se no domínio deles, conforme a bula de 1455. Para resolver a contenda, autoridades portuguesas e espanholas negociaram um acordo que resultou, finalmente, no Tratado de Tordesilhas (1494). Foi estabelecido um limite entre os dois domínios

ESPANHOLA

o Trabalho

através de um meridiano situado 370 milhas náuticas a oeste das ilhas de Cabo Verde. O papa resolvia, assim, mais um conflito entre soberanos cristãos. Mas a mediação do papa em conflitos territoriais semelhantes nunca havia envolvido um território do tamanho da América. E isso trouxe novos problemas, já que outros soberanos não consideravam válidas as bulas papais. Estas afinal vedavam a eles o acesso às riquezas do Novo Mundo. Ficou famosa a declaração de Francisco 1, rei da França, que disse: "O sol brilha para mim como para os demais. Gostaria de saber qual a cláusula do testamento de Adão que me exclui da partilha do mundo". A América não era uma terra inabitada. Os povos que aqui se haviam instalado há milênios não foram consultados. Com que direito a Coroa espanhola declarava-se senhora destas terras? Os espanhóis estavam divididos nessa questão. Teólogos e juristas começaram a discutir sobre a natureza do poder papal. Para uns, o papa não tinha poderes para conceder ao rei terras habitadas, mesmo pelos pagãos, pois a ele competia pronunciar-se apenas sobre questões espi-

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rituais ou religiosas. Para outros, a soberania do pontífice incluía também assuntos não religiosos, ou seculares.já que herdara esse poder diretamente de Cristo, e como seu representante na Terra podia transferir tal soberania ao rei da Espanha. Apesar das discórdias, num ponto, porém, todos estavam de acordo. O rei da Espanha ou qualquer outro em seu lugar só justificaria a posse das terras americanas se tivesse como objetivo supremo a cristianização dos povos. Um exemplo, entre tantos, encontramos nas seguintes palavras de Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada de Cabral, ao dirigir-se a D. Manuel, rei de Portugal, acerca da terra que seria futuramente o Brasil: "O melhor fruto que dela se pode tirar me parece salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar". Mesmo porque, acrescenta ele, se Deus "por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa". O Estado e a Igreja. Esse espírito missioriário que se observa em Caminha era

a Igreja e os conquistadores: a força dos interesses materiais sobre a resistência dos povos americanos:

o Estado,

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uma herança da profunda religiosidade do homem medieval, ainda muito viva no início dos tempos modernos. Porém, desde a Baixa Idade Média (séculos XI-XV) uma gigantesca transformação estava em curso na Europa, devido ao desenvolvimento extraordinário do comércio. Quando Colombo chegou à América, o comércio era uma das principais atividades econômicas da Europa - se não a mais importante. Por toda parte os comerciantes (ou burguesia) exerciam febrilmente sua atividade. A Igreja, entretanto, com toda sua tradição, não tinha muita simpatia pelos comerciantes, cujo objetivo era o lucro e o acúmulo de riqueza. Para a Igreja, a burguesia era dominada pelo pecaminoso espírito da cobiça. O choque entre a fé e a cobiça vivido pelos cristãos tornou-se explícito, e particularmente agudo, na América. Aqui, a realidade dos povos que desconheciam o cristianismo estimulava a cobiça dos espanhóis. Estes não pensavam noutra coisa que não o enriquecimento rápido, mesmo à custa do emprego da violência. A Igreja, com o apoio do Estado, via na América apenas a missão cristianizadora dos pagãos. Salvar a alma dos povos americanos parecia ser, para ambos, a principal missão a ser cumprida. E nisso, pelo menos em teoria, todos estavam de acordo. Desde o principio, porém, a América suscitou problemas práticos que não encontrariam solução nas motivações exclusivamente religiosas. Antes de mais nada, o rei da Espanha precisava garantir a posse da terra, o que implicava a obtenção de novos recursos para cobrir os gastos necessários. O rei imaginou que a própria exploração das terras americanas seria suficiente para tanto. Contudo, as feitorias estatais fundadas por Colombo não deram o resultado esperado. Essas feitorias de comércio deveriam receber o ouro amealhado nas Antilhas, o qual, no entanto, esgotou-se rapidamente. A extração das jazidas exigia conhecimento técnico e investimentos.

Por essa razão, os reis católicos abriram as portas da América para a iniciativa privada, autorizando a realização de trocas com os nativos e a exploração da terra em busca de jazidas de ouro. Assim, o Estado desistiu dos empreendimentos diretos, sob suas ordens, para fixar seus interesses no controle administrativo, a fim de garantir a arrecadação de impostos. Uma vez tomado esse caminho, o Estado viu-se obrigado a fazer concessões à iniciativa privada, estimulando a transferência para a América de um número cada vez maior de interessados. Os colonizadores e as formas de trabalho. Os espanhóis que aqui desembarcaram tinham por objetivo o rápido enriquecimento. Portanto, estavam motivados essencialmente pela cobiça de bens materiais. Tal disposição harmonizava-se em parte com a política fiscal do Estado, embora se chocasse com seu espírito missionário. Sendo a religião o fundamento da legitimidade do Estado, este não poderia cortar seus vínculos com a Igreja. Os próprios conquistadores eram profundamente cristãos, mas entendiam a religião e seu papel na América de maneira diferente da que defendia a Igreja. Para esta, a evangelização dos nativos deveria ser colocada acima de tudo. Os conquistadores não discordavam, porém argumentavam que a obra missionária só seria realizável mediante o apoio material. Em suma, a pergunta essencial era a seguinte: dever-se-ia primeiro explorar os nativos para cristianizá-los ou cristianizá-los sem explorá-los? Na prática, para os conquistadores, a questão econômica vinha em primeiro lugar. Por isso, os choques entre os colonos e a Igreja tornaram-se inevitáveis.
À questão escravista. O conflito apareceu com toda a intensidade e clareza quando a questão escravista foi colocada. Para fazer frente às despesas, Colornbo despachou alguns nativos para serem vendidos como escravos na Espanha. No início, os reis católicos concordaram, esperando que com a venda pudessem levan-

tar fundos para financiar a exploração do Novo Mundo - então entregue ao comando do descobridor. Porém, já em 1500, em razão de pareceres de juristas e teólogos espanhóis, os reis católicos suspenderam o tráfico nascente e declararam livres os povos americanos. Deixaram claro que eram contrários a qualquer dano às pessoas e aos bens dos nativos. Essa decisão, entretanto, teve também uma razão política. Desde 1495, quando foi concedida a permissão oficial para a iniciativa privada atuar na América, o acesso à mão-de-obra dos nativos não fora objeto de regulamentação. Contudo, deixar o caminho livre para a escravização significava colocar entre o rei e a América a figura do conquistador. Dispondo livremente da mão-de-obra escrava, os conquistadores tornar-se-iam excessivamente poderosos e independentes da Espanha. Restringir a escravidão declarando livres os nativos equivalia, portanto, a sujeitar à autoridade real os que atuavam por conta própria na América. A "guerra justa". A proibição total da escravidão, entretanto, deixaria os conquistadores sem meios para manter as conquistas e assegurar a posse da terra. Por esse motivo, a proibição dizia respeito aos nativos que já haviam sido submetidos ao domínio espanhol, e não aos que resistiam de armas em punho à dominação. Nascia, desse modo, a idéia da "guerra justa", praticada contra as populações hostis, cujos cativos era legalmente permitido escravizar. Como era previsível, tais regulamentações foram insuficientes para impedir abusos. Para evitar que, sob falsa alegação de "guerra justa", os nativos. fossem escravizados, o rei estabeleceu em 1513 um critério para definir o que se devia entender por "guerra justa". Um jurista espanhol chamado Palácios Rúbios redigiu um documento conhecido como Requerimiento, no qual expunha a criação do mundo e do homem segundo o cristianismo, declarando ainda que a

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América pertencia ao papa eao rei da Espanha. Por fim, exortava os nativos a adotarem a fé cristã e a reconhecerem o rei espanhol como seu senhor. Em casos de recusa, o Requerimiento ameaçava os nativos e seus familiares com uma guerra impiedosa e a escravidão. Pois bem, o documento deveria ser lido e traduzido para os nativos, e dependendo de sua reação decidia-se ou não pela "guerra justa" contra eles. Pode-se imaginar quais foram os resultados práticos dessa medida. O frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, que ficou famoso como "defensor dos índios", considerou os termos do Requerimiento "injustos e absurdos, e nulos de direito" . Uma vez tornada evidente a farsa do Requerimiento, a escravidão acabou sendo totalmente proibida em 1530, por ordem do rei Carlos l. (Carlos V, no Sacro Império.) A forte reação dos conquistadores, entretanto, obrigou o. rei a rever sua decisão em 1534. Mas esse recuo foi temporário. Depois de muitas controvérsias a questão foi finalmente resolvida em termos legais em 1542, quando foram promulgadas as Novas Leis, proibindo a escravidão desta vez, em caráter definitivo. Nas regiões em que o domínio espanhol se havia consolidado - México, Peru e Antilhas -, as Novas Leis foram aplicadas com relativa efiçiência. Contudo, nas regiões fronteiriças onde os con.quistadores ainda estavam em avanço Chile e Venezuela, por exemplo -, li escravidão continuou a ser praticada. As Novas Leis representaram, de certo modo, uma vitória da Igreja sobre os conquistadores - ainda que uma vitória apenas parcial. Repartimiento e encomienda. Paralelamente à escravidão, desenvolveram-se outras formas de trabalho, sendo as mais importantes o repartimiento, a encomienda e a mita. Para remunerar ou aumentar a renda dos funcionários reais enviados à América, adotou-se freqüentemente a prática do repartimiento de nativos entre eles. 34

Cada qual, de acordo com sua distinção, recebia um certo número de servidores. Alguns podiam receber até 200 homens, e houve casos em que esse número chegou a 800. A encomienda era um tipo especial de repartimiento, em que também se "repartia" um certo número de nativos entre os particulares, mediante autorização oficial. Nesse caso, porém, o encomendem (titular da encomienda) comprometia-se a instruir os nativos na fé cristã - obrigação que não se impunha ao beneficiário do repartimiento. A encomienda de trabalho. A encomienda foi consagrada em 1512, com as leis de Burgos, promulgadas pelo rei após a convocação de uma junta de juristas e teólogos. As leis de Burgos permitiam aos particulares beneficiarem-se do trabalho nativo, mas proibiam maus tratos e estabeleciam obrigações que, em resumo, consistiam na educação dos" encomendados" dentro da fé cristã. Teoricamente, os encomenderos eram protetores da população submetida; na prática, porém, transformaram-se em senhores de escravos disfarçados. Assim, a aniquilação dos nativos em decorrência de trabalhos excessivos e maus tratos continuou ocorrendo da mesma forma que na escravidão. Por essa razão, a encomienda de trabalho sofreu violentos ataques da Igreja, representada pelos dominicanos - entre os quais sobressaiu Las Casas. A encomienda de tributos. A abolição da encomienda era, entretanto, problemática. Carlos I, rei da Espanha, ordenou a Fernão Cortez que não mais procedesse à repartição dos nativos. Este mostrou ao rei que a ordem não poderia ser cumprida, pois, do contrário, não haveria meios para manter a tropa de 4 mil homens que garantia a posse das terras conquistadas aos astecas. Em 1532 encontrou-se uma solução. Em vez de repartir os nativos obrigandoos a trabalhar para o encomendem, concedia-se a este uma dada circunscrição ad-

ministrativa, da qual receberia vitalíciamente os tributos até então pagos ao rei. Abolia-se, desse modo, a encomienda de trabalhos forçados, substituída pela encomienda de tributos. Essa solução, entretanto, só funcionou nas regiões mais densamente povoadas, como entre os astecas e os incas. Em outras regiões, como Venezuela, Equador, Chile, Argentina e Paraguai, permaneceu a encomienda de trabalhos forçados. A mita. Em 1545 foram descobertas as minas de prata de Potosí (na atual Bolívia), as mais ricas e famosas da América. Para sua exploração utilizou-se o repartimiento de nativos entre os donos das minas. Porém, a força de trabalho assim obtida foi-se tornando insuficiente para realizar as escavações, cada vez mais difíceis e árduas. Os proprietários mineiros pediram às autoridades o envio de mais 4500 trabalhadores extras. Em 1574, atendendo ao pedido, o vice-rei do Peru, Francisco de Toledo, instituiu a mita. A mita, como já vimos, era uma instituição pré-incaica, posteriormente adotada pelos próprios incas, que obrigava as aldeias dominadas a enviarem, em regime rotativo, um certo número de trabalhadores para servirem aos kurakas das aldeias dominantes - e, mais tarde, ao Estado inca. Na versão espanhola, a mita consistiu na transformação de cerca de 16 províncias circunvizinhas de Potosí, com o total de 80 mil habitantes, em províncias mitayas, isto é, sujeitas à mita. Visto que as condições de trabalho nas minas eram particularmente duras no gélido planalto andino, Francisco de Toledo estabeleceu que os mitayos deveriam trabalhar uma semana e descansar duas. Para tanto, foram instituídos três turnos de trabalho, cada qual com 4 500 trabalhadores. A cada ano enviava-se a Potosí um total de 13500 mitayos, que substituíam os anteriores. Os que serviam por um ano só poderiam ser reconvocados decorridos sete. Os mitayos deslocavam-se com suas Iamílias para Potosí, e os proprietários das

minas comprometiam-se a pagar-lhes, além do salário, todas as despesas. Essas obrigações, no entanto, foram sistematicamente descumpridas. Tratados como escravos e forçados a trabalhar além do estipulado em lei, os mitayos morriam esgotados. Sessenta anos depois de sua instituição, o regime da mita havia dizimado cerca de 70 mil trabalhadores. Um ano após a descoberta de Potosí (1545), foram encontradas no norte do México as minas de prata de Zacateca. Também aí adotou-se um regime semelhante de trabalho, o qual ficou conhecido, nessa região de tradição asteca, como cuatequi/. As leis e a realidade. Não havia qualquer correspondência entre as formas legais de trabalho e sua aplicação na realidade. Crrepartimiento, a encomienda, a mita e o cuatequil eram regimes de trabalho forçado (ou compulsório), diferentes da escravidão apenas por serem mais brandos. Enquanto o Estado e a Igreja defendiam o trabalho compulsório combinado com a "educação" dos nativos, a fim de integrá-Ias na ordem espanhola como cris-

A denúncia dos abusos da Igreja: a justificativa do uso da violência para a salvação dos pagãos.

tãos e súditos, os particulares viam no trabalho compulsório apenas um meio de enriquecimento, de obtenção de lucro e de acumulação de riqueza. A empresa colonial espanhola privilegiou o indígena nos diferentes regimes de trabalho forçado. A escravidão, como forma extrema de trabalho compulsório, foi implantada com o braço negro africano nas Antilhas e em alguns pontos da América Central e da América do Sul. O trabalho compulsório em suas variadas modalidades é um fenômeno tipicamente pré-capitalista, o lucro pelo lucro é tipicamente capitalista. Na América, as formas pré-capitalistas de organização do trabalho combinaram-se com a produção para o mercado, visando o lucro. Assim, pela primeira vez, a exploração .do homem pelo homem revelava-se em sua mais completa nudez. Karl Marx, filósofo alemão do século passado, referiuse a esse fenômeno corno 'a combinação dos "horrores bárbafos da escravatura, da servidão, etc. à crueldade civilizada do trabalho em excesso" . Essa falta de correspondência entre lei e realidade, ou entre a intenção oficial declarada e os fatos, é explicada pela situação histórica peculiar em que a América foi incorporada ao domínio europeu. O Estado e a iniciativa particular não tinham condições de, isoladamente, conquistar, reorganizar e defender as terras americanas. Somente a associação de ambos poderia levar a cabo a gigantesca tarefa histórica. Embora a iniciativa particular tenha realizado o essencial da conquista, a organização dos domínios conquistados não seria possível sem o apoio do Estado. Dessa maneira, apesar do seu anseio de autonomia, os conquistadores dependiam do rei, e não teriam a menor chance de sobrevivência na América caso suas relações com a Espanha fossem totalmente cortadas. Os povos americanos, por sua vez, espontaneamente, não adotariam o cristianismo, não se sujeitariam às autoridades reais, nem trabalhariam para os espanhóis. Assim, o Estado e a Igreja não se opu36

nham ao uso da força, desde que empregada com o nobre objetivo de salvar a alma dos "pagãos" da América. O que escandalizava as autoridades políticas e eclesiásticas era a violência praticada Com a finalidade de saciar a cobiça de bens
materiais.

Ao colocar os objetivos materiais acima de tudo, os conquistadores punham em evidência a crescente importância da burguesia, que iria estabelecer na Europa a supremacia dos interesses econômicos sobre a política e a religião.

volvimento da economia mineira (15451610), a política indigenista passou para segundo plano - e com ela o espírito missionário que a acompanhava. Em primeiro lugar vinha agora a política colonial, que teve como eixo principal a restrição da liberdade de comércio dos colonos através do "exclusivo" ou monopólio metropolitano, que reservava à Espanha o direito de exclusividade no comércio com seus dominios americanos.

o

Sistema de Exploração e Dominação Colonial

Estrutura do sistema colonial espanhol. Entre 1519 e 1556, os conquistadores alcançaram o ponto mais importante de seu trabalho, ao estabelecerem brutalmente a dominação espanhola sobre o México (astecas) e o Peru (incas). Nessas duas regiões, as principais minas de prata foram descobertas no curto período de 1545 e 1565. Com isso, passava-se da conquista à organização da economia e, portanto, à efetiva estruturação do sistema colonial espanhol. Ocorre, nesse processo, uma redefinição global da política do rei que transforma a Espanha em metrópole e seus domínios americanos em colônias. Embora o espírito missionário não tenha sido abandonado pelo Estado, a economia mineira criou uma nova realidade. Na fase da conquista, o objetivo declarado do Estado espanhol era a cristianização dos "gentios". Agora, sua atenção voltava-se para a política fiscal. Controlar a produção e a comercialização da prata, evitar a sonegação dos tributos e o contrabando e arrecadar o máximo de impostos tornaram-se novas prioridades da máquina administrativa do Estado. No período da conquista, o problema crucial era restringir a violência contra os nativos e, conseqüentemente, a autonomia e o poder dos conquistadores. No período seguinte, com a formação e o desen-

o sistema colonial mercantilista. A política indigenista tinha por base a religião, e através dela o Estado unira-se à Igreja para manter os conquistadores sob sua autoridade. A política colonial tinha por base o comércio, e através dela o Estado uniu seu interesse fiscal ao interesse pelo lucro da burguesia mercantil metropolitana. Esse entrelaçamento entre política e economia ganhou corpo e consistência no mercantilismo, conjunto de práticas econômicas que caracterizou o Estado moderno absolutista.

Chama-se política econômica a um conjunto de medidas estabelecidas pelo Estado tendo em vista o enriquecimento do país. A idéia de riqueza, porém, não é a mesma para todos os povos em todos os tempos. Para nós, por exemplo, um país rico é um país industrializado. Na época moderna, o conceito de riqueza estava associado ao acúmulo de metais preciosos, razão por que ficou conhecido como metalismo (concepção tipicamente mercantilista). A política econômica também muda com o passar do tempo, de acordo com a idéia de riqueza e a finalidade do enriquecimento. No período moderno, o enriquecimento de um país tinha como finalidade a centralização do Estado. O rnercantilismo, que era a prática econômica do Estado absolutista, tinha por objetivo atrair o máximo de metais preciosos para fortalecer o próprio Estado. Oéxclusivo metropolitano. Um dos mecanismos criados pelo mercantilismo foi o

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exclusivo metropolitano, que consistia na obrigação dos colonos de realizarem o comércio somente com a metrópole tanto na venda de seus produtos como na compra de mercadorias européias. Como o preço da venda e o da compra eram' determinados pelos comerciantes da .metrópole, estes encontravam-se em situação vantajosa, pois podiam adquirir os produtos coloniais a preços abaixo do mercado e vender os seus aos colonos a preços acima do mercado. Com isso, uma imensa quantidade de riqueza era transferida da colônia para a metrópole. Segundo os cálculos do historiador francês Pierre Chaunu, entre 1503 e 1660, a América espanhola produziu cerca de 25 mil toneladas de prata, das quais permaneceram na colônia cerca de 7 a 8 mil. É possível que o Estado tenha transferido para seus cofres quase o equivalente ao metal retido na colônia, isto é, aproximadamente 5 mil toneladas. Portanto, pouco mais da metade dó total havia passado para as mãos da burguesia mercantil metropolitana.

ser feitos através do envio de frotas e galeões e apenas duas vezes por ano. Os particulares só podiam comerciar com a colônia desde que se integrassem com seus navios às frotas oficiais. Saindo obrigatoriamente de Sevilha, o comércio limitava-se, na América, aos três terminais: Cartagena (Colômbia); Porto Belo (Panamá) e Vera Cruz (México). A formação da aristocracia colonial. Os espanhóis vieram à América com o objetivo de enriquecer rapidamente servindose do trabalho ameríndio. Na prática, porém, alcançar esse objetivo não era tão fácil. A desorganização das sociedades ameríndias, devido à violência da conquista e à falta de interesse dos conquistadores pela agricultura, trouxe o primeiro problema: a falta de alimentos. Nas primeiras décadas do século XVI, à medida que aumentava o número de espanhóis, a crise de abastecimento foi-se agudizando. A constante elevação do preço dos gêneros alimentícios acabou por tornar a agricultura e a pecuária um bom negócio. Com a possibilidade de obter-se altos lucros, ampliou-se gradualmente a área de cultivo e criação, embora não na proporção adequada, pois a descoberta e a exploração de metais preciosos continuaram sendo a prioridade absoluta dos espanhóis. Entre 1545 e 1610, com a descoberta das ricas minas de prata de Potosí (Alto Peru) e Zacatecas (México), a economia agropecuária recebeu um poderoso estímulo para o crescimento. Cerca de 150 mil pessoas viviam em Potosi, no altiplano aridino, a mais de 4 mil metros de altitude, onde a agricultura era impraticável. O abastecimento desse enorme mercado, que dispunha da prata como meio de pagamento, atraiu para a região os produtos agrícolas do Chile, e da região platina (atuais Argentina e Paraguai) chegava o gado para ser vendido. A partir da última década do século XVI, com o declínio da mineração - devido em grande parte à morte em massa dos ameríndios -, os ricos mineradores e comerciantes passaram a adquirir terras.

Uma grande propriedade onde os escravos preparavam o índigo para a exportação.

o sistema de porto uruco, Desde 1503, com a criação da Casa de Contratação, sediada em Sevilha, o Estado controlava as relações comerciais com a América. Contudo, a autoridade suprema sobre os domínios espanhóis na América foi o Conselho Real e Supremo das Índias, ou simplesmente Conselho das Índias, que existia informalmente desde 1511 e foi oficializado em 1524. Sevilha, já por essa época um poderoso centro mercantil, além de sediar a Casa de Contratação era o único porto através do qual era permitido comerciar com a América. Essa condição favorável da cidade estimulou a criação, em 1543, de uma poderosa associação de comerciantes sevilhanos - o .Consulado do Comércio - que monopolizou, na prática, o comércio com a América. Como o principal produto colonial era a prata, a preocupação com o controle levou o Estado a regulamentar com rigidez os contatos comerciais entre a metrópole e a colônia. Esses contatos só poderiam
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A fim de impedir a formação de grandes propriedades - e, portanto, de proprietários poderosos e independentes -, a Coroa espanhola pretendia criar em seus domínios americanos um sistema de pequenas e médias propriedades. Porém, tal como aconteceu no caso do trabalho escravo, as determinações legais foram ignoradas, e as terras acabaram por concentrar-se em poucas mãos. As terras de início concedidas gratuitamente pelo rei, como recompensa aos particulares por serviços prestados, eram freqüentemente vendidas pelos seus titulares aos ricos investidores, apesar da disposição legal que vedava esse tipo de comércio. Servindo-se de testas-de-ferro (parentes e dependentes), os ricos concentravam disfarçadamente enormes quantidades de terras. Nos últimos anos do século XVI, devido às dificuldades financeiras que enfrentava, a Coroa viu-se forçada a eliminar as concessões de terras - chamadas merced de tierras - e passou a vendê-Ias. Com isso, favoreceu a especulação imobiliária e a concentração fundiária, contra

a qual a Coroa já não dispunha de qualquer meio de controle. As terras ilegalmente ocupadas foram legalizadas através do que se chamou de composición de fierras, que consistia no pagamento de uma soma à Coroa. Desse processo de concentração de terras formaram-se as estâncias de gado e as haciendas (fazendas), sendo estas últimas as formas típicas da grande propriedade rural nos séculos XVII e XVIII. Em contraste com a economia mineira do século XVI, a economia rural dos séculos seguintes tendeu à auto-suficiência, voltada que estava para uma economia de subsistência. Os grandes proprietários exploravam diretamente uma parte de seus domínios, sob a direção dos capatazes, arrendavam outras e deixavam a maior parte improdutiva. Com a consolidação das haciendas no século XVII, firmava-se na América espanhola uma aristocracia rural equivalente aos senhores de engenho no Brasil. Criollos e chapetones. Desde o fim do século XVI começou-se a fazer distinção
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entre espanhóis europeus e espanhóis americanos. Com li formação da aristocracia rural, a diferença foi-se acentuando, e os espanhóis nascidos na América passaram a ser conhecidos como criollos (crioulos). Essa denominação teve a princípio um sentido pejorativo, pois designava o escravo negro nascido na América, com o qual eram equiparados os descendentes dos conquistadores. Aos espanhóis da Espanha ou peninsulares, os criollos atribuíram, por sua vez, nomes igualmente depreciativos: gachupin, no México, e chapetôn, na América do Sul. Essa rivalidade, porém, tinha raízes econômicas. O declínio da mineração e a ruralização da economia provocaram uma nítida divisão entre a produção e o comércio, representados, respectivamente, por criollos e chapetones.

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Como a elite dominante da colônia, os criol/os desfrutavam de grande prestígio social e procuravam apresentar-se como nobres. Apesar, contudo, de suas aspirações aristocráticas e senhoriais, eram obrigados a atuar como empresários, já que produziam para o mercado objetivando o lucro. Nesse sentido, o regime colonial do "exclusivo" funcionava contra seus interesses, pois boa parte do lucro auferido acabava se transferindo para os comerciantes, ou seja, para a burguesia colonialista. A oposição entre criollos e chapetones constituiu, portanto, a corporificação do conflito entre interesses coloniais e metropolitanos.

~..:::::.:.-:-···"-···.·.:::.::OCEANO .... : Centralização administrativa. Aos conquistadores que, com o risco da própria vida, faziam avançar c domínio espanhol na América, a Coroa conferia o título de adelantado, com grandes poderes sobre os territórios e a população dominada. Nas cidades que foram brotando no rastro das conquistas, formaram-se os ayuntamientos, que seriam mais tarde convertidos em cabildos (câmaras municipais). Os membros dos cabildos eram selecionados dentre os criollos mais ricos de cada localidade, cujos interesses os cabildos representavam. Gozando de grande autonomia, os cabildos tornaram-se praticamente as principais autoridades em vigor na colônia. Com o passar do tempo, porém, seus poderes foram-se restringindo devido à centralização administrativa da Coroa.
Vice-reis e audiências. O controle do Estado metropolitano foi gradualmente implantado através de duas instituições: o vicereino e a audiência.

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Em 1535 foi criado o vice-reino de Nova Espanha, com capital no México e euja autoridade abrangia as Américas do Norte e Central, as Antilhas e a VenezueIa. Em 1543 instituiu-se o vice-reino do Peru, com capital em Lima e autoridade sobre o atual Panamá e toda a América do Sul, exceto Venezuela. Dois outros více-reinos surgiram muito mais tarde, no século XVIII. Em 1717 foi criado o vice-reino de Nova Granada, com capital em Bogotá, o qual, todavia, foi dissolvido em seguida para ser recriado, em caráter definitivo, em 1739. Seu domínio estendia-se sobre a região que hoje compreende Colômbia, Equador e Panamá. Finalmente, em 1776, fundouse o vice-reino do Prata, com capital em Buenos Aires e que controlava a Bacia do Prata e a atual Bolívia. Os vice-reis, escolhidos entre a alta nobreza espanhola, eram propostos pelo Conselho das Índias e nomeados pelo rei. Como representantes diretos deste último, acumulavam as mais amplas atribuições: controlavam as minas e a administração, tinham o comando militar, zelavam pela cristianização dos ameríndios e presidiam as audiências. As audiências, criadas em 1511 e instaladas em todos os centros importantes da colônia, eram órgãos com ampla competência administrativa e judiciária. Cadá audiência era constituída de um presidente e um número variável de ouvidores (os juízes). Como tribunais, subordinavam-se diretamente ao Conselho das Índias, perante o qual se podia apelar de suas sentenças. Ao lado do vice-rei, as audiências eram a instituição de maior poder na América, podendo inclusive substituir os vice-reis em caso de morte. Fundamentalmente, zelavam pelos interesses da Coroa, evitando que fossem sobrepujados pelos interesses locais.

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retenções

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o trabalho na América espanhola O A missão religiosa: a divisão das terras descobertas e a posse justificada pelo

objetivo de cristianização dos povos (Igreja e Estado) O As formas de trabalho

40

• • • • • •

Os choques entre a fé (Igreja) e o lucro (Estado e colonos espanhóis) Os conquistadores e a arnbigüidade.da posição do Estado O conflito de interesses entre Estado, Igreja e conquistadores A legitimação da guerra justa: Requerimiento A escravização através da encomienda, do repartimiento, da mita e do cuatequil A enorme distância entre as leis e a realidade da América espanhola de exploração e dominação co-

O

O

O

o sistema
lonial

O descoberta

O O período da conquista:

dos metais e importância da política indigenista Estruturação da política colonial: exploração das minas e estabelecimento do exclusivo metropolitano. Perda da importância da política indigenista O sistema colonial mercantilista: o rnercantilismo e a importância do exclusivo metropolitano: o sistema de porto único e o Conselho das Índias A formação da aristocracia colonial: as grandes propriedades, o poder dos criollos e o conflito de interesses entre criollos (produção) e chapetones (comércio) A centralização administrativa nas colônias: cabildos, vice-reinos e audiências

exercícios
I. Como ocorre a legitimação da posse das terras americanas? 2. Explique a ambigüidade da posição do Estado em relação à exploração das colônias e à escravização de seus habitantes. 3. O que significava "guerra justa" para a América espanhola? 4. Compare o repartimiento, a encomienda e a mita destacando suas semelhanças e diferenças. 5. Como os diferentes interesses da Igreja, do Estado e dos conquistadores desnudam a violência da incorporação da América? 6. Explique as mudanças do papel da América para a colonização espanhola desde a política indigenista até a implantação do exclusivo metropolitano. 7. Destaque a importância do sistema de porto único para a politica mercantilista espanhola. 8. Mostre a inviabilidade da existência de pequenas e médias propriedades na América espanhola. 9. Por que a oposição entre criollos e chapetones não é só um conflito de nacionalidades? 10. Caracterize a necessidade da centralização administrativa imposta nas colônias.

t1.:;::~d atividades

suplementares
gentes bárbaras; e da mui alta e mui poderosa Senhora Rainha Dona Joana, sua mui cara e mui amado filha.

I. Leia atentamente os textos a seguir e responda às questões propostas:
TEXTO 1

Requerimiento Notificação e requerimento que se há de fazer aos moradores das Ilhas e Terra Firme do Mar Oceano que ainda não estão submetidos ao Rei Nosso Senhor. Da parte do mui alto e mui poderoso e mui católico defensor da Igreja, sempre vencedor e nunca vencido o grande Rei D. Fernando, o quinto das Espanhas, das Duas Sicilias, de Jerusalém e das Ilhas e Terra Firme do Mar Oceano, domador das, 42

Eu, .seu criado e mensageiro e capitão vos notifico e faço saber como melhor posso, que Deus Nosso Senhor uno e eterno criou o céu e a terra, um homem e uma mulher, de quem vós, e todos os homens do mundo foram e são descendentes; mas pela multidão da geração que destes sucedeu desde cinco mil e mais anos, que o mundo foi criado foi necessário que uns homens fossem para uma parte e outros para outra e se dividissem em muitos reinos e províncias porque em uma só não podiam se sustentar nem conservar. De todas essas gentes Deus Nosso Senhor deu cargo a um que foi chamado São Pedra para que

de todos os homens fossem Senhor e superior a quem todos obedecessem, e fosse cabeça de toda a linguagem humana onde quer que os homens tivessem e estivessem, e qualquer lei ou crença teria todo o mundo por seu reino e jurisdição. E como o mandou que pusesse sua cadeira em Roma, como o lugar mais aparelhado para reger O mundo; mas também permitiu-lhe que pudesse por sua cadeira em qualquer outra parte do mundo, e julgar e governar a todas ·as gentes, cristãos, mouros, judeus, gentios. e de qualquer outra seita ou crença que fossem. A este chamaram Papa, que quer dizer, admirável maior poderoso guardador porque é padre e guardador de todos os homens. A este São Pedra obedeceram e tornaram por Senhor Rei, superior do Universo os que naquele tempo viviam e assim também consideraram a todos os outros papas que depois ao Pontificado foram eleitos; assim se tem feito e continuado até agora e se continuará até que o mundo se acabe. Um dos pontifices passados que sucedeu aquela cadeira, fez, doação destas Ilhas e Terra Firme do Mar Oceano aos ditos Reis e de seus sucessores que são Reis Nossos Senhores contém em certas escrituras que podeis ver quiserdes assim que Suas Altezas são Reis e Senhores destas Ilhas e Terra Firme par virtude da dita doações e como tais Reis e Senhores algumas Ilhas e Terras quase todas a quem isto tem sido notificado, tem recebido, a suas Altezas as tem obedecido e servido, como súditos e com boa vontade e sem nenhuma resistência, e todos eles, de livre e agradável vontade sem premio nem contradições alguma, tornarem-se Cristãos e o são e Suas Altezas os receberão alegre e benignamente, e assim os mandou tratar como aos outros súditos e vassalos e vôis sais obrigados fazer isso mesmo. Como melhor posso vos rogo e requeiro, que entendais bem isto que vos digo, e torneis para entender e deliberar sobre isso, o tempo que for justo, e reconheçais à Igreja como senhora e superiora, do universo mundo, ao Sumo Pontifice chamado Papa, em seu nome e ao Rei e à Rainha Nossos Senhores em seu lugar como Superiores e Senhores e Reis destas Ilhas e Terra Firme por virtude da dita doação; e consistais e deis lugar que estes Padres Religiosos vos prediquem o sobredito. Se assim o fizerdes aquilo o que sais obrigados, Suas Altezas e eu em seu nome, vos receberão com todo Amor e caridade, e vos deixarão vossas mulheres e filhos e fazendas livres, sem servidão para que dela façais livremente tudo que quiserdes e não vos obrigarão, a vós converteis em cristãos, salvo se vós informados da verdade quiserdes à nossa Santa Fé Católica como fizeram quase todos os vizinhos das outras !lhas: e sua Alteza vos dará muitos privilégios e isenções e vos fará muitos mercês. Se não o fizerdes, e não O fazendo no prazo marcado, .certifico-os de que com a ajuda dé Deus eu entrarei poderosamente contra vós, e vos farei guerra por todas as partes e maneiras que puder, e vos subjugarei ao poder e obediência da Igreja e de Suas Altezas, e tomarei vossas pessoas e de vos-

sas mulheres e filhos farei escravos e como tais venderei e disporei deles como sua Alteza mandar, e tomarei vossos bens, e vos farei todos os males e danos que puder, como a vassalos que não obedecem nem querem receber seu Senhor e resistem e contradizem. E digo que as mortes e danos são vossa culpa, e não de Sua Alteza, nem minha nem desses Cavaleiros que comigo estão. E de como digo e requeiro peço ao presente escrivão que me dê por testemunho assinado e aos presentes rogo que dele sejam testemunhas. (Traduzido de José Antonio Saco, História de Ia Esclavitud de Ias indios em el Nuevo Mundo.i a) Demonstre a Icgitimação da posse das terras pelos reis espanhóis. b) Como o Requcrimiento legitima a "guerra justa "?
TEXTO 2

(. .. ) É temerária, injusta e cruel a guerra que

aos infiéis, ou seja, àqueles que nunca souberam nada acerca da fé ou da Igreja, nem de nenhum modo ofenderam esta mesma Igreja, Ihes é declarada, com o único objetivo de que submetidos ao império dos cristãos se preparem para receber a fé ou a religião cristã, ou também para retirar os impedimentos para a catequese. (... ) É contra o direito natural esta guerra que Ihes causam inúmeros e irreparáveis danos, como mortes, selvagerias, estragos, roubos, servidão e outras calamidades semelhantes, a pessoas que vivem em suas terras e reinos, separadas do império dos cristãos e sem ter, de sua parte, nenhuma culpa. Roubar alguém, ou um homem aumentar sua própria comodidade perturbando a de seu semelhante são procedimentos que (... ) vão mais contra a natureza, do que a pobreza, a dor, a morte e demais calamidades que possam sobrevir-lhe, seja em seu corpo, seja em coisas externas, porque ofende o princípio da união das sociedades humanas. É ainda mais contra a natureza, ou a inclinação natural causar a morte, despojar de todos os bens, condenar à servidão pessoas livres, obrigando-as a sofrer os outros males já mencionados. (... ) Esta guerra se faz pois, verdadeira e, sem dúvida, contra o direito natural. É também contrária ao direito divino, que proíbe matar nossos semelhantes, principalmente os inocentes; despojá-Ias de seus bens, tais como seus servos e servas, bois, burros. ou qualquer outra coisa que Ihes pertença; caluniá-Ias, oprimi-tos, dar falso testemunho contra sua vida, tomar O que Ihes pertence com violência, e outras proibições semelhantes, inclusive os entristecer. (.. .) (Frei Bartolomeu de Las Casas. Dei unico modo de atraer a todos Ias pueblos a Ia verdadera retigiôn, apud Coletânea de Documentos para a História da América. CENP, 1978.)

a) Mostre a ilegitimidade da "guerra justa" segundo o autor. b) Qual é o tratamento defendido por Las Casas em relação aos índios?

TEXTO 3 . (... ) Pensando nas causas que podem haver para que no Novo Mundo se encomendassem os índios aos espanhóis, de onde nasceu a palavra "encomendero", a mim se apresentam três. A primeira que, havendo os particulares descoberto e conquistado a suas expensas grande parte do Novo Mundo (...l, se pôs em prática este meio pedido pelos conquistadores que, em vez de retribuição, o Rei lhes concedesse cobrar perpetuamente tributos anuais dos povos indígenas que fossem postos sob a sua tutela e patrocfnio ... Foi, portanto, como estipêndio de milícia e prêmio de vitória que foram dados os fndios aos espanhóis. Outra causa houve (. ..), pois, como depois de ganho o Novo Mundo ficasse tão distante do Rei; não podia de modo algum mantê10 em seu poder se os mesmos que o tinham descoberto e conquistado não o guardassem, refreando a liberdade dos bárbaros, defendendo as fronteiras de incursões inimigas e acostumando os índios às nossas leis. (.. .) A terceira causa e a mais importante (... ) foi que os infiéis (:.) fossem defendidos pelo patrocínio e cuidado dos cristãos e à sua sombra fossem instituídos e se acostumassem à disciplina e costumes cristãos (.. .) Segue-se que tratemos do serviço pessoal dos índios, no qual se compreende toda a utilidade que pode obter o "encomendera" do trabalho do índio (... ) Supomos primeiramente (. ..) que os índios não estão sujeitos à escravidão, mas são completamente livres e donos de si (. ..) e por consegüinte é uma iniqüidade privá-tos do fruto natural do seu trabalho e suores (... l, qualquer trabalho que faça, em qualquer coisa que o ocupe o "encomendero ", digno é o trabalhador do seu sa-

lário (... ). Mas porque às vezes a lei manda dar ao "encomendero" certo número de fndios para este ou aquele trabalho (... l, perguntam muitos se esta prática é injusta, pois parece introduzir o serviço forçado que acabamos de condenar. Mas não é, de si, injusta quando se toma em lugar de tributo, pois se Ihes leva em conta e se Ihes deduz da quantidade de prata ou de roupa ou de qualquer outra espécie que se lhe havia de pagar [como salário], considera-se como preço do seu trabalho. (... ) Não tratamos agora da imposição que é ..necessária para seu beneficio e interesse, como quando se Ihes manda edificar a aldeia ou suas casas ou construir igrejas ou cultivar os campos e as demais coisas de utilidade pública e particular, porque então é coisa clara (... ) e quando o magistrado intima estes trabalhos, ninguém duvide de que cumpre com o seu dever. Aqui nas Índias, parte dos homens são europeus e parte são lndios, e havendo muitas coisas que os espanhóis não as querem fazer aqui (.. .) se, pois, os indígenas não se prestarem espontaneamente a estes trabalhos, será lícito obrigá-tos, com violência e medo, a que os façam? (... ) Há alguns defensores dos Indios que afirmam seriamente ser injúria grave obrigâ-los (... ), opinião que é puro disparate (. ..). (Apud Gustavo de Freitas, 900 Textos e Documentos de História.) a) Segundo o documento, quais são os três motivos para a existência das encomiendas? b) Compare os três textos e identifique os interesses envolvidos e seus respectivos argumentos.

Com a criação das capitanias hereditárias (1534) começa efetivamente o povoamento do Brasil pelos portugueses. Os titulares das capitanias (donatários) foram investidos de amplos poderes políticos, administrativos, jurídicos e militares para organizarem seus domínios. Como autoridade suprema em suas capitanias, subordinavam-se diretamente ao rei. Portanto, entre os donatários e o rei não havia nenhuma outra autoridade intermediária.

A princípio, essas vantagens visavam atrair para a América os membros da pequena nobreza. Além disso, tais vantagens eram concedidas em troca da obrigação do donatário em promover o povoamento a suas próprias custas. Assim, através do sistema de capitanias, o rei de Portugal pretendia fazer frente à crescente ameaça francesa, transferindo os custos da ocupação e da defesa da terra aos particulares, reservando-se todavia o direito de arrecadar impostos. Os jesuítas e os povoadores. Ao contrário dos espanhóis, contudo, só no final do século XVII os portugueses descobriram grandes quantidades de ouro no Brasil (Minas Gerais). Por essa razão, o modelo colonial brasileiro ganhou características diferentes, na medida em que teve como base a economia agro-industrial açucareira. O êxito dessa economia, porém, significou a longo prazo a derrota dos objetivos defendidos pela Igreja e pelo Estado. De fato, o rei D. João III havia deixado claro que a finalidade última do povoamento do Brasil era a cristianização dos "gentios" (índios). Conforme declarou explicitamente, "a principal cousa que me moveo a mandar povoar as ditas terras do Brasil foi para jente dela se convertese a nossa santa fee catholica". Essa intenção não ficou inteiramente no papel. A iniciativa particular fracassou na imensa tarefa de povoar o Brasil e, em 1548, criou-se o governo-geral. No ano seguinte, Tomé de Souza desembarcou no Brasil com os primeiros jesuítas, chefiados por Manuel da Nóbrega. E, como aconteceu na América espanhola, a obra evangelizadora dos jesuítas chocou-se rapidamente com os interesses particulares já estabelecidos no Brasil. Apesar das inúmeras leis que restringiam a escravidão dos gentios, promulgadas em apoio aos jesuítas mas também com o intuito de manter os colonizadores sob a autoridade do rei, a implantação da economia açucareira fez-se graças ao trabalho escravo indígena.

2. Temas para redação: • O trabalho compulsório e o exclusivo metropolitano como eixos do sistema colonial mercantilista. • As origens e o enriquecimento dos criollos no seio do colonialismo mercantilista.

A AMÉRICA PORTUGUESA o
Brasil Colonial
França, Holanda e Inglaterra - não reconheciam o tratado de Tordesilhas (1494), os portugueses foram forçados a ocupar o Brasil, a fim de garantir sua posse. A expedição de Martim Afonso de Souza, em 1530, marca simbolicamente a mudança de rumo da política portuguesa em relação ao Brasil.

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As capitanias hereditárias. A exemplo do que fizeram os espanhóis em seus domínios, de 1500 a 1530 os portugueses instalaram no litoral brasileiro feitor ias voltadas para a extração do pau-brasil, Porém, como· as novas potências 44

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If~*fl pertencentes Terras Ir~.~,-~I real Capitania

à Espanha

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Capitania hereditária

o tráfico negreiro e o escravismo colonial. Enquanto a economia açucareira esteve dependente do trabalho indígena, os grandes proprietários mantiveram-se prisioneiros da .opinião ou ideologia dominante que punha a religião e a salvação da alma acima dos interesses econômicos pelo lucro. O rompimento com o jugo espiritual que tolhia a liberdade econômica ocorreu quando a escravidão indígena foi substituída pela africana -,. que ganhou corpo a partir do fim do governo de Mem de Sá, por volta de 1570. A vitória dos interesses econômicos sobre a religião deveu-se ao lucrativo tráfico negreiro. Através dele firmou-se, efetivamente, o sistema colonial mercantilista português e o escravismo colonial. Os lucros gerados pelo comércio de escravos africanos beneficiavam diretamente aos comerciantes portugueses e à Coroa. Entre 1580 e 15<)0 existiam perto de 10 mil escravos negros em Pernambuco e 4 mil na Bahia. Entre 1500 e 1600, o número total de escravos africanos não ultrapassava a casa dos 50 mil. No século seguinte (1601-1700), essa cifra elevouse para 560 mil, saltando para 1 891 400 cem anos depois e caindo para 1 450400 no período compreendido entre 1811 e 1870, o que perfaz um total aproximado de três milhões e meio de africanos trazidos ao longo do período considerado. É fácil perceber a importância do tráfico como eixo estruturador do sistema colonial mercantilista português: o Estado português formula uma política colonial em substituição à política indigenista, enquanto no mesmo processo o escravismo torna-se colonial, isto é, torna-se parte do sistema. Além disso, o tráfico atuou como um elemento unificador e organizador da produção, dando-lhe o contorno definitivo de plantatíon. Dada a importância central e estratégica do tráfico, pois dele dependia o abastecimento de escravos para as plantações de cana e o fabrico do açúcar, aqueles que o controlassem controlariam também a produção açucareira no Brasil. E, visto que os traficantes eram membros da

burguesia mercantil metropolitana, seguese que ap/antation encontrava-se subordinada aos interesses dos comerciantes, isto é, ao capital mercantil português. Na p/antation, o objetivo da produção colonial é abastecer o mercado externo. Isso significava produção em larga escala. Para garantir a rentabilidade da empresa colonial, a Metrópole precisa investir grande quantidade de capital. A montagem da estrutura econômica colonial está em perfeita harmonia com seus fins mercantilistas. A produção é realizada em grandes propriedades e, porque está direcionada para o mercado externo, tende a ser altamente especializada, isto é, baseada na monocultura de um produto lucrativo, com assimilação direta pelo mercado europeu. Ora, nessa estrutura só uma mão-de-obra numerosa e submissa, ou seja, só o trabalho compulsório tem lugar. Como esse tipo de trabalho faz do homem uma coisa, ele se torna instru-· mento vivo da produção. O grande proprietário prefere investir na compra de escravos (mercadorias) em vez de adquirir novas técnicas. Essa atitude determina o baixo nível técnico da plantation. Todos os elementos apresentados - grande propriedade, trabalho escravo, monocultura, produção em larga escala, baixo nível técnico - só têm sentido quando integrantes do sistema de colonização mercantilista da Europa moderna. O escravismo colonial, tal como se estruturou no Brasil, tornou-se a forma clássica de organização do trabalho escravo na América, sendo posteriormente implantado nas Antilhas pelos espanhóis, franceses, holandeses e ingleses, e também nas colônias do sul dos atuais Estados Unidos. A exploração colonial. A unidade básica de produção na economia açucareira era o engenho e, embora o senhor de engenho desfrutasse de grande prestígio na colônia, sua situação econômica era de dependência: do traficante, para a obtenção de escravos, e dos comerciantes da metrópole, para vender sua produção e adquirir produtos manufaturados e outras mercadorias (inclusive de luxo).

Mercado de escravos, gravura de Rugendas. O tráfico negreiro como elementochave para a

existência e
funcionamento ela plantation.

Assim, sem liberdade de comércio devido ao "exclusivo metropolitano", o lucro do senhor se transferia para o Estado (impostos e taxas) e para a burguesia mercantil metropolitana. O sistema colonial mercantilista implantado no Brasil caracterizava-se, portanto, por uma dupla dominação: (a) pelo capital mercantil; (b) pelo Estado metropolitano que controlava a administração. Esse controle, ao mesmo tempo econômico e político, transparecia concretamente no fato de que o comércio e os altos cargos administrativos eram exercidos pelos reinóis (assim chamados no Brasil os portugueses de Portugal). Nas primeiras décadas do século XVII a produção açucareira esteve nitidamente separada do comércio, dando origem à oposição entre brasileiros e portugueses, semelhante ao conf1ito entre crio/los e chapetones na América espanhola. Agricultura e mineração. Uma visão de conjunto da colonização ibérica (portuguesa e espanhola) mostra que, enquanto a agricultura precedeu a mineração nos domínios de Portugal, o inverso ocorreu na América espanhola. Durante a fase mineradora (de 1545 a 1610) a economia da América espanhola, presidida pelos centros dinâmicos representados por Potosí e Zacatecas, estimulou a formação de um mercado interno que articulou economicamente um amplo

A garantia dos lucros para a Metrópole portuguesa
através do pagamento do quinto na exploração do ouro nas Minas Gerais.

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território. Num segundo momento, a ruralização que se seguiu ao declínio da mineração descentralizou a economia com suas unidades isoladas (haciendas). No Brasil, as primeiras descobertas auríferas de vulto ocorreram em Mínas Geraís em 1684. Ao longo do período da mineração, cujo declínio iniciou-se em 1750, houve uma integração da economia

colonial, uma tendência para a urbanização e uma significativa interiorização das atividades econômicas. O desenvolvimento econômico que caminhou em sentido inverso no Brasil e na América espanhola explica, em parte, tanto a preservação da unidade territorial como sua fragmentação depois da emancipação colonial, no século XIX.

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retenções

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• a implantação da economia açucareira com o trabalho escravo indígena O O lucrativo tráfico negreiro e a consolidação do sistema colonial mercantilista • a estrutura colonial funcionando para o mercado externo através do "exclusivo metropolitano" • características da plantation

tes, para não castigar inocentes, e se hão de ouvir os delatados e, convencidos, castigar-se-ão com açoutes moderados ou com os meterem em uma corrente de ferro por algum tempo ou tronco. Castigar com ímpeto, com ânimo vingativo, por mão própria e com instrumentos terríveis e chegar talvez aos pobres com fogo ou lacre ardente, ou marcá-Ias na cara, não seria para se sofrer entre bárbaros, muito menos entre cristãos católicos. O certo é que, se o senhor se houver com os escravos como pai, dando-lhes o necessário para o sustento e vestido, e algum descanso no trabalho, se poderá também de.pois haver como senhor, e não estranharão, sendo convencidos das culpas que cometeram, de receberem com misericórdia o justo e merecido castigo. (João Antonio Andreoni, Cultura e Opulência no Brasil.) a) Por que o escravo é fundamental no engenho? b) Qual a posição do autor em relação à escravidão? TEXTO 2 O que nos parece porém indiscutível é que os indígenas foram também utilizados em determinados momentos, e sobretudo na fase inicial; nem se podia colocar problema nenhum de maior ou melhor "aptidão" ao trabalho .escravo, que disso é que se tratava. O que talvez tenha importado é a rarefação demogrâfica dos aborigines, e as dificuldades de seu apresamento, transporte, etc. Mas na "preferência" pelo africano revela-se, cremos, ·mais uma vez, a en· grenagem do sistema mercantiiista de colonização;

esta se processa, repitamo-Ia tantas vezes quantas necessário, num sistema de relações tendentes a promover a acumulação primitiva na metrópole; ora, o tráfico negreiro. isto é, o abastecimento das colônias com escravos, abria um novo e importante setor do comércio colonial, enquanto o apresamento dos indígenas era um negócio interno da colônia. Assim, os ganhos comerciais resultantes da preação dos aborígines mantinham-se na colônia, com os colonos empenhados nesse "gênero de vida "; a acumulação gerada no comércio de africanos, entretanto, fluía para a metrópole, realizavam-na os mercado . res metropolitanos, engajados no abastecimento dessa "mercadoria ". Esse talvez seja o segredo da melhor "adaptação" do negro à lavoura ... escravista. Paradoxalmente, é a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial, e
não
O

o

Brasil colonial

contrário.

o A necessidade da posse da terra contra
a ameaça externa e o estabelecimento das capitanias hereditárias O O choque de interesses entre a Igreja (jesuítas), o Estado e os colonos portugueses quanto ao tratamento dos índios

(Fernando A. Novais. Portugal e Brasil na Crise do A ntigo Sistema Colonial - 1777-1808.) a) Por que
O

escravo indigena foi substituído pelo

escravo negro?

b) Explique a relação intrínseca entre o tráfico negreiro e os objetivos do sistema colonial mercantilista.

exercícios

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.....-.

2. Temas para redação: • O sistema colonial rnercantilista português no Brasil. • O significado da plantation na colonização mercantilista.

1. De que maneira o regime das capitanias hereditárias indica a mudança da atitude portuguesa em relação ao Brasil? 2. Mostre os conf'litos entre os interesses da Igreja e do Estado na América portuguesa. 3. Explique o significado do tráfico negreiro para

a consolidação do sistema colonial português no Brasil. 4. Por que a plantation harmoniza-se com os objetivos mercantilistas metropolitanos? 5. Caracterize a estrutura colonial mercamilista no Brasil.

AS COLONIZAÇÕES TARDIAS
Franceses e Ingleses na América
França: os obstáculos internos à expansão. No século XVI, Portugal e Espanha eram as duas únicas potências coloniais da Europa. Pelo tratado de Tordesilhas (1494) haviam dividido e monopolizado a América. Porém, ao longo do mesmo século, outras potências marítimas e comerciais se constituíram, e a França foi a primeira delas a contestar esse monopólio, passando da palavra aos atos. Os primeiros ensaios do expansionismo francês ocorreram no reinado de Francisco I (1515-1547), que pretendia fazer do Canadá uma Nova França. Entre 1523 e 24, envia à América do Norte o explorador florentino Verazzano, e dez anos mais tarde, em 1534, o francês Jacques Cartier, que explora o território canadense ao longo do rio São Lourenço. Em 1555, os huguenotes (calvinistas franceses) perseguidos na França tentam fundar no Rio de Janeiro, sob comando de Gaspar de Coligny, um núcleo de povoamento chamado França Antártica, mas são repelidos por Mem de Sá.

: atividades

suplementares
se há de fazer a repartição com reparo e escolha, e não às cegas. Os que vêm para o Brasil são ardas, minas, congos, de São Tomé, de Angola, de Cabo Verde e alguns de Moçambique, que vêm nas naus da Índia. Os ardas e os minas são robustos. Os de Cabo Verde e de São Tomé são mais fracos. Os de Angola, criados em Luanda, são mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes .já nomeadas. Entre os congos, há também alguns bastantemente industriosos e bons não somente para o serviço da cana, mas para as oficinas e para o meneio da casa. (. ..) Não castigar os excessos que eles cometem seria culpa não leve, porém estes se hão de averiguar an-

I. Leia atentamente os textos a seguir e responda às questões propostas: TEXTO 1 Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda. nem ter engenho corrente. E do modo com que se há com eles, depende tê-Ias bons ou maus para o serviço. Por isso, é necessário comprar cada ano algumas peças e reparti-Ias pelos partidos, roças, serrarias e barcas. E porque comumente são de nações diversas, e uns mais boçais que outros e de forças muito diferentes, 48

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