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Sobre a retórica e os sofistas

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Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog CRÔNICAS DE ESCOLA: http://edu74.wordpress.com
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SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS

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Eduardo Amaral

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A retórica é a arte de convencer os outros pelo discurso, convencer de que sou eu quem carrega a melhor opinião, de que minha opinião é a mais justa. Não por acaso, é na Grécia Antiga que a retórica conhece seu primeiro desenvolvimento, em meio à democracia que nascia. Basta a referência às Assembleias e aos tribunais para verificarmos como a palavra passa a ocupar um lugar central na vida em sociedade, tal como os gregos a praticaram. Contexto histórico — A democracia grega criou uma nova forma de relação entre os homens, em que pouco importava a classe social do cidadão, se era membro da aristocracia guerreira, que antes detinha todo o poder de mando sobre a pólis, ou se era um simples artesão, comerciante ou agricultor: eles são todos iguais, igualmente cidadãos, e todos os cidadãos têm o mesmo direito de tomar a palavra na Assembleia onde discutem os destinos da cidade. É importante lembrarmos entretanto que apenas eram considerados “cidadãos”, com direito a voz e voto, os homens adultos nascidos na cidade (pólis) – que em Atenas, o berço da democracia, correspondia a um décimo da população. Os outros 90% estavam excluídos dos direitos de cidadania: obviamente os escravos, os metecos (estrangeiros, nascidos em outra cidade), as mulheres e as crianças. Seja como for, é neste chão democrático que a “arte da palavra” que se desenvolve. Todos podem expressar suas opiniões sobre o mundo e sobre os rumos da cidade. A questão é conseguir, a partir do próprio discurso, convencer os demais cidadãos da sua justeza, de sua verdade. Ser convincente. Mas se cada um tem uma opinião diferente, cada um argumenta como pode, em favor de sua própria opinião e contra as opiniões alheias. E o mesmo ocorre nos tribunais, quando uma parte acusa e outra se defende, em um combate de discursos que querem convencer os jurados sobre uma ou outra versão dos fatos. É neste contexto que devemos entender o surgimento dos sofistas: eram mestres da retórica, da arte do

discurso, de como compor um discurso conveniente às circunstâncias e convincente para o público. E isto, ensinavam a quem quisesse e, sobretudo, pudesse pagá-los. Quando a palavra toma lugar central no modo pelo qual a sociedade se organiza, a retórica torna-se um instrumento importante para quem pretenda êxito nos debates da Assembleia, influenciar nas decisões a serem tomadas, conquistar a adesão do público à sua opinião. Os sofistas silenciados — Contudo e antes de mais nada, é necessário mencionarmos aqui a má fama que envolve os sofistas. A visão que a tradição da história da Filosofia nos legou dos sofistas é a imagem de um charlatão, manipulador, de alguém que usa da ignorância alheia em prol de si mesmo, fazendo prevalecer uma aparente verdade em detrimento da própria verdade. Sofisma tornou-se sinônimo de burla, de enganação: “argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa”; e sofista, “aquele que utiliza a habilidade retórica no intuito de defender argumentos especiosos ou logicamente inconsistentes” (Dicionário Houaiss). Tal imagem negativa se deve em grande parte ao combate às ideias dos sofistas feita por Platão e, depois dele, Aristóteles. É deles aquele julgamento que prevaleceu na história da Filosofia. Além disso, os textos produzidos pelos sofistas se perderam e a maior parte das referências que dispomos sobre o que eles pensaram e produziram nos chegou sempre por vias indiretas, na obra de seus acusadores. Digamos então que no tribunal da história, venceram os filósofos e foram vencidos os sofistas, condenados assim ao silêncio. São bastante recentes, desde um renovado interesse pela retórica clássica no século XIX, as tentativas de recuperar o ideário sofístico, depurando-o das críticas que lhe foram feitas. O que parece hoje incontestável é que, como nenhuma outra obra elaborada no período clássico, é nos sofistas que encontraremos a formação de um ideário deliberadamente compromissado com uma visão-de-mundo a um só tempo humanística e democrática, enraizada no contexto histórico que o engendrou.

* Registro das aulas no primeiro semestre de 2010 para as turmas de 2º e 3º anos do ensino médio e publicado no blog CRÔNICAS DE ESCOLA: http://edu74.wordpress.com

SOBRE A RETÓRICA E OS SOFISTAS

Os sábios sofistas — Mais do que apenas ensinar retórica, eram considerados “sábios” — e por isso eram chamados de sofistas. A palavra grega para designá-los, sophistés, deriva etimologicamente de sophos (sábio) e sophia (sabedoria); é que a sabedoria que os sofistas detinham era distinta daquela do sophos. Expliquemo-nos melhor. Sophos se refere primeiramente àquele que detém um saber prático, um “saber-fazer”; a “sabedoria”, neste caso, se refere antes ao domínio de uma técnica. Neste sentido, o artesão é sábio (sophos) por saber-fazer com destreza a sua arte, seja ela qual for. Assim, por exemplo, um tecelão é sábio e sua sabedoria é fazer tecido: sabe com destreza trançar os fios, amarrá-los, ou mesmo operar o tear. O sofista é sábio também pelo domínio de uma arte, ele sabefazer discursos. Contudo,sophistés é também “especialista no saber, possuidor de muitos saberes”. É que, na arte de compor discursos, os sofistas acumulavam toda a sabedoria da época e eram capazes de discorrer sobre todas as artes e técnicas com a mesma eloquência. Dito de outro modo e voltando ao nosso exemplo: diferentemente do tecelão que sabefazer tecido, o sofista sabe falar de tecidos, sobre o processo de sua fabricação, sua história desde a origem da técnica de traçar os fios de algodão, dos diferentes usos e costumes das vestimentas em diferentes culturas — tudo isso ele fala com mais eloquência do que o mais hábil dos tecelões, que não saberá falar com a mesma desenvoltura sobre aquilo que ele mesmo faz. O mesmo vale para as outras técnicas, inclusive aquelas consideradas e mais estimadas na vida pública, na política. A arte da guerra, a estratégia militar, as variadas legislações das diferentes cidades, a engenharia e arquitetura — sobre todos os assuntos, os sofistas buscavam conhecer, detendo deste modo um vasto saber. Mais do que ensinar retórica, pela retórica ensinavam também sobre os assuntos de interesse comum. Os sofistas eram cultos, eruditos, versados em vários assuntos, de “cultura geral”, da arte e da literatura, dos mitos e histórias, das técnicas, das leis e tudo o mais. Eram, ao seu tempo, enciclopedistas e — sobretudo — educadores. Este o maior projeto da sofística: tornar acessível a todos os cidadãos a sabedoria que os homens acumularam ao longo de sua história.

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Relativismo como visão-de-mundo

A retórica, já dissemos, é a arte de produzir o convencimento através do discurso; tratase de saber como convencer os outros de que sua opinião é a mais justa e verdadeira. É por isto que, para os sofistas, a verdade é sempre “relativa”, ou seja, ela sempre dependerá do êxito no exercício de convencimento; uma vez que os outros se convençam de que a verdade é isto e não aquilo, isto é verdadeiro e aquilo é falso. O quadrinho abaixo nos apresenta uma situação assim. Em um primeiro momento, há uma multidão que segue o um que fala: estão convencidos de que ele é portador de uma verdade. Contudo, o outro que fala consegue com seu discurso “engolir” o discurso do primeiro, e assim vai conquistando adeptos ao seu discurso, à sua opinião – vale dizer, à sua verdade – até que aquele seja vencido no debate.

(C) QUINO

Para os sofistas, não há verdade fora do discurso. Não há uma “verdade do mundo”, a não ser por aquilo que é dito sobre o mundo, o que julgaremos ser verdadeiro ou falso. O discurso é verdadeiro, se conforme minha percepção dos fatos, ou ele é falso, se contraria meu modo de ver o mundo. A palavra humana é a única portadora da verdade – e não há

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verdade que exista para além dos discurso, e por isso ela é “relativa” à compreensão da multidão sobre a adequação do discurso a sua própria percepção do mundo. Assim, não existe apenas uma, mas várias verdades contraditórias e concorrentes entre si, tal como são contraditórios os discursos de dois opositores concorrentes numa assembleia. Não há critério suficiente para estabelecer de modo indiscutível entre os dois quem é o verdadeiro portador da verdade, pois tampouco existe essa verdade para além dos discursos. Antes, tudo é discutível: o que existe é o conflito, a disputa entre discursos para saber qual deles irá convencer mais ouvintes e convencê-los melhor. Por isto se diz que a verdade é uma “convenção”, porque somos convencidos dela. Como chegam os homens a serem convencidos de que algo que é dito é verdadeiro? Essa é a questão central da retórica, compreender que a partir do discurso, se ele é corretamente composto, os homens são levados a acreditar nisto ou naquilo. Portanto, a retórica apoia-se não em uma “verdade absoluta”, mas apenas na crença, naquilo que é considerado verdadeiro, aquilo que parece ser verdadeiro, aquilo em que os homens creem. Em que creem os homens? Em primeiro lugar, cremos que aquilo que percebemos, pelo simples fato de assim o percebermos, é verdadeiro: nossas sensações, o que captamos ou podemos captar do mundo pela nossa sensibilidade. Por isso, de um modo geral, consideram os sofistas que o discurso, se quer convencer, não pode contrariar a percepção comum dos homens. Afinal, julgamos algo – algo que é enunciado, que é dito por alguém – por verdadeiro quando isto que é dito parece estar de acordo com aquilo nós mesmos percebemos, ou aquilo que qualquer um pode perceber. Para os sofistas, é justo afirmar que o ser é ser percebido. Por outro lado, nem por isso as percepções são verdadeiramente verdadeiras, pois cada um pode perceber as coisas de um modo diferente. É que a opinião baseia-se naquilo que percebemos – na nossa percepção, portanto. É como percebemos algo, um fato, uma coisa qualquer, o mundo. É porque percebemos de um determinado modo que temos a opinião que temos. É mais justo dizer então que a opinião que temos é um ponto de vista sobre um fato, uma coisa, o “mundo”.

Então, o homem, cada homem particular, como dizia Protágoras, é “a medida de todas as coisas”, que ele crê serem verdadeiras ou falsas. A verdade não se fixa: está em permanente transformação, a depender de das circunstâncias e de quem fala, se convence ou não. A verdade torna-se mundana, do tamanho dos homens, com a qual os homens fazem sua própria história, tão contraditória quanto cheia de equívocos, mas a história dos homens, a qual só eles podem ser responsabilizados.

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Acerca de Protágoras

Feita uma brevíssima exposição sobre os sofistas, examinemos um caso exemplar, daquele que foi talvez um dos mais afamados representantes da sofística, Protágoras de Abdera. Contudo, não vamos nos deter aqui a aspectos da biografia do personagem, mas apenas interpretar um pequeno fragmento seu, também conhecidíssimo da tradição, do “homem-medida”, como uma síntese possível de uma certa visão-de-mundo defendida pelos sofistas. Então, tenha em mente o que já discutimos sobre os sofistas, retome a leitura dos dois textos anteriores para prosseguir. O fragmento ao qual nos referimos é o seguinte: O homem é a medida de todas as coisas; das coisas que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não são. Protágoras de Abdera “Homem” aqui se refere ao “homem particular”, o “indivíduo”. Cada um de nós, tomado isoladamente, é senhor daquilo que julga ser verdadeiro ou falso. Cada um de nós, portanto, é “a medida de todas as coisas”: cada um percebe o mundo como quer ou como pode, segundo suas convicções e suas crenças, bem como sua formação – e cada um possui assim uma verdade, absolutamente pessoal, particular. É neste sentido que poderemos afirmar que cada um possui uma “verdade”, que nem sempre corresponde a “verdade” do outro. Cada um é que define “o que uma coisa é”: determina então para si mesmo o que considera ser “verdadeiro”, e assim para todas as coisas que existem, das coisas que “são enquanto são” (e vale dizer, elas são assim para mim, se assim as percebo). O mesmo vale também para as coisas que “não são”, isto é, as coisas

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que julgo serem falsas ou as coisas que jamais tenha visto, ou nem isso: trata-se também das coisas que não possuem existência para mim pelo simples fato de que sequer ouvi falar delas. Essas coisas “não são” enquanto eu não estabelecer algum contato com elas, seja através da percepção, seja por “ouvir falar”. Até então, não poderei formar qualquer juízo sobre elas, nem para dizer que sejam verdadeiras, nem falsas. Cada um possui uma verdade? Sim, é isso. Esta “verdade”, então, corresponde à opinião que cada um forma sobre as coisas do mundo. Verdade e opinião aqui se equivalem. Se cada um tem sua opinião sobre o mundo, muito bem!, cada um é cada um. Cada um possui uma “verdade”, absolutamente pessoal. Mas como estabelecer entre nós algum acordo sobre as coisas? Um acordo é necessário, caso contrário não seria possível sequer a convivência: viveríamos cada um em seu próprio mundo particular, sem janelas nem portas para os outros, sem nenhuma comunicação possível. É através do discurso que nossas opiniões, nossas percepções, aquilo que julgamos ou mesmo sentimos – enfim, “nossas verdades” podem ser comunicadas para os outros, a fim de partilhar de um mundo comum a nós. Ora, uma verdade que valha apenas para mim tem pouco efeito sobre o todo; mas se uma verdade vale a uma multidão, pelo contrário, ela determina a lei, se a lei é definida em assembleia, tal como ocorria na democracia grega. Retomando nossa discussão anterior, podemos avaliar a importância que os sofistas davam à educação: com efeito, trata-se de partilhar um mundo que nos seja comum, para que seja possível também um acordo. Daí a importância do discurso e da retórica, que para os sofistas ocupa um lugar central. O discurso que diz a “verdade” — isto é, o discurso que convence mais gente sobre sua verdade e passa a ser a opinião comum — é um discurso forte e tem poder de mover os homens, orientá-los em sua conduta, sobre o que fazer ou deixar de fazer. O discurso que apenas para mim é verdadeiro é um discurso fraco. Se ele é “forte”, isto é, se o discurso é capaz de alcançar os homens para que eles acreditem no que é dito, então é estabelecido entre os homens um acordo, uma “convenção”, porque são convencidos da existência e da verdade acerca do discurso. Caso contrário, pouco valerá ter um discurso ao qual ninguém dá crédito.

O homem é o “ser-que-fala” e o seu mundo é o discurso — Com efeito, cada qual reconstrói o mundo para si mesmo pelo seu discurso a fim de comunicá-lo aos outros homens. O mundo é o discurso humano, tudo aquilo que podemos expressar, e por isso é que não há verdade para fora do discurso. O que é indizível não participa do mundo, não ganha existência para o conjunto dos homens; a única existência que o homem pode conceber e partilhar entre os outros homens se dá através da fala. O indizível não é partilhável; e o que não é dito, então, não se torna comum aos homens, porque tampouco se comunica. Sabe aquilo do qual você nunca ouviu falar? Não? Pois é: porque um discurso que não pode ser ouvido, quando ninguém nem terá conhecimento dele e, portanto, por não ser partilhado, tampouco poderá ser julgado pelos outros em sua verdade, o que no caso equivale a não existir. As coisas que “não são, enquanto não são”, como dizia Protágoras. Ao definirmos o homem como “ser-que-fala” levamos em conta o que diferencia os homens de qualquer outro ser da natureza, isto é, a capacidade humana de produzir um discurso. Isto não nos distancia da definição do homem como ser racional: é que na língua grega, a palavra lógos a um só tempo quer dizer discurso e razão. Para os sofistas, seria adequado dizer que encontramos a razão das coisas no discurso.

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À guisa de conclusão: O homem em relação à natureza

Nas últimas aulas chegamos a definir o homem como o único caso na natureza de um “ser-quefala”, isto é, é o único animal capaz de “produzir um discurso” – e, segundo penso, tal definição tem vantagens em relação àquela que aprendemos na escola e herdamos da tradição da filosofia ocidental, que define o homem como “ser racional”, dotado de razão. Não se trata, todavia, de negar que o homem seja o único ser racional, mas de ampliar o escopo da definição. Ocorre que a expressão “ser racional” talvez não seja uma ideia tão simples para ser facilmente apreendida. Afinal de contas, quando perguntamos o que é a razão, não encontraremos uma resposta inequívoca, tampouco indiscutível. Com efeito, as ideias de razão, racionalidade ou raciocínio, elas também foram produzidas ao longo da história; trocando em miúdos, a ideia de razão de um grego da antiguidade é diferente daquela que temos hoje e que foi elaborada

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a partir da modernidade. Por outro lado, se a expressão “razão” tem um sentido profundo para o filósofo, ela é de uso raso e ao rés do chão para qualquer outro que a fale. — Mas estas são outras discussões, das quais não nos ocuparemos agora. Seja como for, discutíamos Protágoras e os sofistas — e portanto, a nossa referência é à Grécia Antiga. Apenas para explicitar, voltemos ao ponto. Na língua grega, discurso se diz lógos, a mesma palavra da qual deriva a palavra lógica. É que lógos quer dizer, a um mesmo tempo, três coisas que em português dizemos por palavras diferentes. Lógos é ‘palavra, discurso, argumento’ e, porque é pelo discurso que enunciamos aquilo que pensamos, lógos é também ‘consideração, avaliação, reflexão e juízo (discernimento)’, ou seja, a nossa capacidade de pensar racionalmente. Lógos também pode ser traduzido por razão — e assim, em nada perdemos para a definição que aprendemos na escola. Mas para um grego, estas duas coisas são inseparáveis: o discurso para ser produzido depende da razão tanto quanto a razão só se desenvolve no discurso. Há um discurso que não depende da razão: o mito, um discurso que tem mais a ver com fabulação ou imaginação. O mito (em grego, mythos) não tem nada a ver com lógos: este é discurso racional, argumentação, explicitação de razões; aquele é “narração”, mais ou menos fabulosa ou imaginada. Contudo, em nada a lembrança desta modalidade de discurso afasta-nos da definição do homem enquanto “ser-que-fala”; antes, a confirma. Com efeito, o homem é o ser-que-fala, capaz de discurso: pelo discurso, o homem cria o seu mundo, e tanto faz se este discurso corresponde ou não a um “outro mundo externo ao discurso”. O mundo criado pelo discurso pode ser uma ficção – e não haveremos uma única espécie a não ser a dos homens que seja capaz dessa fabulação, que só é possível pelo discurso. Só ao homem é dada a capacidade de mentir – inventar pelo discurso um “outro mundo”, semelhante a este (caso contrário, ele não seria capaz de convencer ninguém de que a mentira fosse verdadeira), mas cuja ordem é modificada, ampliada, reduzida ou omitida. Mas ainda há um terceiro sentido para a palavra lógos, assim como para a palavra razão: ‘medida, cálculo, relação, ordem’ e, por extensão, ‘fundamento, razão-de-ser de algo’. Não se trata apenas das capacidades de pensar e de falar. Existe razão nas coisas, quando apresentamos o porque e as causas

delas serem o que são. Expliquemo-nos melhor. Na palavra biologia, por exemplo, este “-logia” deriva-se da mesma palavra grega que discutíamos, lógos. Vocês dirão que biologia é ‘a ciência que estuda dos seres vivos’. Mas o nome, para sermos fiéis à etimologia, dá outro sentido, mais preciso: trata-se do discurso (‘-logia’) sobre os seres vivos (biós). Ora, não se trata apenas de ‘estudar’, verificar e investigar os seres vivos, mas sim de produzir um discurso sobre o que foi verificado e investigado. É no discurso da biologia que encontramos o lógos dos seres vivos; é na produção deste discurso que determinamos a razão das coisas serem o que são, ou, voltando a Protágoras, são os homens que, ao falar, dão a medida do que os seres vivos são. É assim, pelo discurso, que os homens produzem o seu próprio mundo, aquilo que reconhecem como “verdade”. Daí aquela ideia: o mundo humano é mediado pelo discurso. Tudo o que cada um vivencia, sente, pensa, só ganha existência para além de si mesmo, ou seja, para o mundo dos homens quando transformados em discurso. Por isso, o homem é o ser-que-fala. Imaginemos então o que seria dos homens se fossem impedidos de falar, se não pudessem mais produzir discursos, se não mais pudessem compartilhar suas experiências, sentimentos e pensamentos. Se o homem é por definição o ser-que-fala, então é negada a sua condição humana se ele é calado. A liberdade de expressão – liberdade de falar, enfim – é o direito humano mais fundamental, sem o qual o homem vira bicho, sem poder participar do mundo dos homens e partilhar com os outros aquilo que ele vivencia, sente e pensa. O reino da natureza e o reino dos homens — A natureza não fala; os animais, tampouco; entre estes, até há algum tipo de comunicação, mas que não se faz através da produção de discurso, coisa que é apenas dos homens. Sem a fala, o homem se reduz à mesma condição dos outros animais do reino da natureza.

Indicações bibliográficas Giovanni REALE. Sofistas, Sócrates e Socráticos Menores (História da Filosofia Grega e Romana, vol. II). São Paulo: Edições Loyola, 9ª ed., 2009.

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