Violência nas escolas – Uma reflexão faz-se necessária

Não é de hoje que vemos nos noticiários reportagens sobre violência entre jovens e adolescentes dentro e fora da escola, seja em simples brigas nos pátios dos colégios, seja em brigas com hora e local previamente determinados. Não raras vezes vemos ainda muitos jovens e adolescentes a enfrentar professores, desrespeitando-os como se estes nada fossem, pelos motivos mais banais. Quando tais fatos acontecem muitos invocam uma providência do Estado, alegando que a educação está sucateada, os jovens não tem lazer, cultura ou esporte ao seu alcance. Outros ainda dizem que a escola não educa. Concordo, temos realmente culpados a apontar e sem dúvida nenhuma o Estado é um deles, pois há realmente pontos que necessitam ser revistos para que a educação funcione melhor e alcance seu objetivo precípuo que é o de crescimento do indivíduo e seu desenvolvimento como um todo, mas é inegável também que existem outros envolvidos neste processo e desta forma faz-se necessária uma profunda reflexão. Cabe primeiramente então um esclarecimento: A função da escola não é educar no sentido de ensinar bons modos, isto é condição de aprendizado essencialmente familiar. À escola cabe transmitir o conhecimento, ser responsável pela educação formal, ser a instituição que agrega cultura e não bons modos. À escola cabe sim, reavivar a importância destes bons modos, mas não ensiná-los. A primeira instituição social da qual fazemos parte é a família. A ela cabe prover a manutenção e o sustento de suas crianças, o ensinamento de bons modos, valores, ética, respeito, exercício da cidadania e ainda fornecer-lhes acesso a educação formal encaminhando-os para a escola. Ora, se o primeiro contato é com a família, cabe a ela mostrar o que é certo e errado, repreender na hora certa, estabelecer regras de convivência tanto em casa como fora dela, pois as crianças são indivíduos e sendo assim necessitarão aprender a conviver em sociedade. Desta forma regras e limites são necessários. Aquela velha estória de que “meu direito termina quando começa o do outro” é real e muito atual, apesar de algumas pessoas insistirem que esta máxima está caindo em desuso. Na educação percebemos hoje em dia que nossos jovens estão sendo criados cada vez mais sem limites e regras claramente estabelecidas.

Quando conversamos com estes jovens ou ainda nas desavenças existentes entre eles e os professores ou funcionários da escola, percebemos que eles não entendem que não é certo prevalecer nossa vontade pelo poder, seja ele de qual tipo for. Estes jovens precisam entender que não podemos porque temos, ou podemos, pois somos mais fortes e para isto faz-se necessária a intervenção dos pais. Sabemos que na vida em sociedade os indivíduos exercem o tempo todo algum tipo de poder para alcançarem o que querem. A estes poderes que são exercidos no nosso dia-a-dia, chamamos de micropoderes, e na escola isto não é diferente, o que tem diferido é a forma e a intensidade que tais micropoderes são exercidos. Numa metrópole como São Paulo, por exemplo, vemos dois tipos de poder sendo exercido dentro das instituições escolares: Nas particulares o discurso é sempre o mesmo: Meu pai paga, eu faço o que eu quero. Nas públicas: Nós somos adolescentes, por isso nós podemos fazer o que queremos, pois nada acontecerá. Quando ouvimos esta fala dos alunos, resta-nos claro o respaldo que os pais dão a estes atos. É necessário que os adultos entendam que existem direitos, mas também existem deveres e que um não pode existir sem o outro. Quando mostramos a uma pessoa que ela tem direitos não podemos jamais esquecer de ressaltar também que ela tem deveres, pois é só desta forma que se desenvolve o senso de responsabilidade por todas as nossas ações. Pagamos sim a escola e nem por isso podemos mandar em seus funcionários, sejam eles professores, diretores, faxineiros ou qualquer outro funcionário, pois se este fosse o correto (pagar para poder mandar), deveríamos mandar também nos funcionários do supermercado, por exemplo, não acham? Se em contra partida pensarmos que mandamos pois temos a “força” por sermos adolescentes e não estarmos sujeitos a nada além de medidas sócioeducativas, em pouco tempo voltaremos ao tempo da Roma antiga necessitando assim de arenas para os gladiadores. Devemos urgentemente ensinar a nossos jovens que não são necessárias medidas punitivas para que tenhamos respeito tanto pelas pessoas, animais ou qualquer tipo de ser vivente, quanto pelo patrimônio público e privado. É necessária a retomada dos valores, com nossos jovens e adolescentes, mostrando-lhes que muito mais do que valorizar o “ter” devemos valorizar o “ser”. Não devemos ser consumistas como somos, pois consumo desenfreado nos leva a paixões e quando agimos com paixão deixamos de lado a razão. Devemos ensinar aos que não sabem e avivar naqueles que já tem conhecimento que o respeito é necessário para o convívio em sociedade, respeito não só às pessoas, mas também aos animais, à natureza, pois dela dependemos para viver em equilíbrio.

Não há como entendermos que somente políticas públicas direcionadas às faixas mais jovens da população, propiciando-lhes esporte ou diversão, resolverão tudo e diminuirão os índices de violência cada dia maiores. O esporte, por exemplo, é muito necessário aos jovens dada à disciplina que é imposta a quem o pratica, mas isto por si só não seria nada sem acompanhamento dos pais. Vale lembrar que o jovem sem limites de hoje é o adulto sem limites de amanhã que faz o que quer por achar que tem direitos. Assim sendo, é inegável que para que os índices de violência diminuam os pais precisam ensinar aos filhos o que é realmente respeito, pois se alguns pais continuarem a agir da forma que vem agindo, permitindo sempre e repreendendo jamais, chegaremos a um ponto que ainda que a Polícia Militar venha a triplicar o número de integrantes de sua corporação não conseguirá atender a todos os chamados. É necessária uma imediata mudança de postura, deixando de jogar a culpa dos níveis de violência somente sobre a escola ou outras instituições tais como governo e polícia e entendermos que uma ação imediata dos pais tem muito maior alcance do que esperarmos soluções externas, que além de burocráticas podem ser mais demoradas. Façamos então uma profunda reflexão e mudemos de postura, enquanto ainda há tempo! _____________________________________________________________________ Autora: Yara R. Gonçalves Dias Consultora em Segurança especialista em escolas e condomínios. Graduada em Direito e Pedagogia, cursando último semestre do MBA em Gestão Estratégica de Segurança Empresarial. Artigo publicado no jornal Diário da Manhã, Goiânia – GO - 27/10/2009 e-mail: yara@eagleseg.com.br http://www.eagleseg.com.br/

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