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O VISCONDE

PARTIDO AO MEIO
ÍTALO CALVINO

2
***
Este livro foi escaneado por Paulo Ribeiro Cardoso e revisado
por Ana Paula Lima Cardoso. Tendo seu uso restrito a pessoas
com deficiência Visual, conforme prevê legislação própria.

***

ÍTALO CALVINO

O VISCONDE PARTIDO AO MEIO

Tradução de:
WILMA FREITAS RONALD DE CARVALHO

Titulo original: IL VISCONTE DIMEZZATO by The Estate of


Italo Calvino

Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil


adquiridos pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S/A


Rua Bambina n 25 – CEP 22.251 – Botafogo – t. 86-7822
Endereço Telegráfico: NEOFRONT – Telex: 34695 ENFS BR
Rio de Janeiro RJ

Revisão Tipográfica
Henrique Tarnapolsky
Grecina Vereza
Renato Rosário Carvalho

3
CPI – Brasil Catalogação na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de livros, RJ

Calvino, Ítalo, 1925.


C168v O visconde partido ao meio / Italo Calvino;
tradução de Wilma Freitas Ronald de Carvalho. – Rio de
Janeiro : Nova Fronteira.
(Os nossos antepassado; v.1)
Tradução de: II visconte dimezzato.
1. Romance italiano I. Carvalho, Wilma Freitas Ronald de. II
Título, III. Série.

CDD – 853 SU328 CDU


– 850-3

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I

Estávamos em guerra contra os turcos. O visconde


Medardo di Terralba, meu tio, cavalgava através da
planície da Boemia rumo ao acampamento dos
cristãos. Um escudeiro, chamado Curzio,
acompanhava-o.

As cegonhas voavam baixo, em branca revoada, em


meio ao ar opaco e parado.

– Por que há tantas cegonhas? – perguntou


Medardo a Curzio -, para onde voam?

Meu tio, recém-chegado, acabara de se alistar, para


agradar a certos duques da vizinhança, envolvidos na
guerra. Havia conseguido um cavalo e um escudeiro
no último castelo nas mãos dos cristãos, e estava indo
se apresentar ao quartel imperial.

– Voam rumo aos campos de batalha – disse o


escudeiro, de modo sombrio. – Vão nos acompanhar
por todo o caminho.

O visconde Medardo tinha ouvido dizer que,


naqueles países, o vôo das cegonhas é sinal de sorte; e
queria se mostrar contente ao vê-las. Contudo, mesmo
involuntariamente, sentia-se inquieto.

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– Curzio, afinal o que atrai as pernaltas para os
campos de batalha? – perguntou.
– Agora elas também comem carne humana
respondeu o escudeiro -, desde que a carestia atingiu
os campos e a seca acabou com os rios. As cegonhas,
os flamingos e os grous substituíram os corvos e
abutres nos locais onde existem cadáveres.

Meu tio ainda vivia a primeira juventude: a fase em


que os sentimentos estão todos confusos, quando
ainda não se distingue o bem e o mal, em que cada
nova experiência, mesmo macabra e desumana, é
intensa e impregnada de amor à vida.

– E os corvos? E os abutres? – indagou. – E as


outras aves de rapina? Para onde foram? – Estava
pálido, mas seus olhos cintilavam.

O escudeiro era um soldado bem moreno,


bigodudo, que nunca levantava o olhar.

– Na sua voracidade de comer as vítimas da peste,


esta também os atacou – e apontou com a lança para
umas moitas negras, que a um olhar mais aguçado
revelavam-se ser não de ramos, mas de penas e patas
de aves de rapina ressequidas.

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– Veja bem, não se sabe quem morreu primeiro, se
o pássaro ou o homem, nem quem se atirou sobre o
outro para dilacerá-lo – disse Curzio.

Para fugirem da peste que exterminava as


populações, famílias inteiras haviam se dirigido para
os campos, onde foram surpreendidas pela agonia.
Espalhados pela árida planície, em pilhas de
esqueletos, viam-se corpos de homem e de mulher,
nus, desfigurados pelos bubões e, coisa a princípio
inexplicável, cheios de penas: como se naqueles
macilentos braços e costelas tivessem crescido negras
penas e asas. Eram os cadáveres de abutres misturados
aos restos humanos.

A região já começava a apresentar sinais de


batalhas travada.– O avanço tornara-se mais lento
porque os dois cavalos tropeçavam em refugos e
penas.

– O que está acontecendo com nossos cavalos? –


perguntou Medardo ao escudeiro.

– Meu senhor – respondeu ele -, nada desagrada


mais aos cavalos do que o cheiro das próprias tripas.

A faixa de planície por onde agora passavam


estava, realmente, coberta de carniças de cavalos,

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algumas com os cascos virados para o céu, outras de
bruços, com o focinho enfiado no solo.

– Curzio, por que há tantos cavalos mortos neste


ponto? – indagou Medardo.

– Quando o cavalo sente que sua barriga foi


dilacerada – explicou-lhe Curzio -, procura prender as
próprias vísceras. Alguns encostam a barriga no chão,
outros viram-se de costas para que não, fiquem
dependuradas. Contudo, a morte não demora a
atingilos da mesma forma.

– Então, quer dizer que são sobretudo os cavalos


que morrem nesta guerra?

– As cimitarras turcas parecem ser feitas


exatamente para abrir, de um só golpe, os seus
ventres. Mais adiante verá os corpos dos homens.
Primeiro caem os cavalos e, depois, os cavaleiros.
Mas, veja, o campo está lá adiante.

Às margens do horizonte erguiam-se os pináculos


das tendas mais altas, os estandartes do exército
imperial e a fumaça.

Avançando a galope, viram que as vítimas da


última batalha haviam sido, quase todas, removidas e
enterradas. Restavam apenas alguns membros
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perdidos, especialmente dedos, caídos sobre os
restolhos.

– De quando em quando há um dedo que nos indica


o caminho – disse meu tio Medardo. – O que quer
dizer isto?

– Que Deus lhes perdoe: os vivos mexem nos dedos


dos mortos para lhes tirar os anéis.

– Quem é aquele? – perguntou um sentinela, cujo


sobretudo estava recoberto de mofo e musgo como a
cortiça de uma árvore exposta à tramontana.

– Viva a sagrada coroa imperial! – gritou Curzio.

– E que morra o sultão! – replicou o sentinela. –


Mas, peço-lhes, quando chegarem ao quartel-general
perguntem quando irão se resolver a me mandar o
substituto porque já estou até criando raízes!

Os cavalos corriam, agora, para escapar da nuvem


de moscas que circundava o campo, zumbindo sobre
as montanhas de excrementos.

– As fezes de ontem de muitos valorosos soldados


ainda estão na terra e eles já estão no céu – observou
Curzio, persignando-se.

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À entrada do acampamento, passaram ao longo de
uma fileira de baldaquinos, sob os quais as mulheres
roliças e de cabelos cacheados, com longas vestes de
brocado e os seios à mostra, os acolheram com risos e
gritinhos.

– São as tendas das cortesãs – disse Curzio.


Nenhum outro exército as têm assim tão lindas. Meu
tio já cavalgava com o rosto virado para trás, olhando-
as.

– Senhor, cuidado – acrescentou o escudeiro -, são


tão imundas e empestadas que nem mesmo os turcos,
durante um saque, haveriam de querê-las como presas.
Já não estão apenas carregadas de piolhos púbicos,
percevejos e carrapatos, mas os escorpiões e os
lagartos verdes fazem ninhos em cima delas.

Passaram diante das baterias de campo. À noite, os


artilheiros cozinhavam seu rancho de água e nabo
sobre o bronze das espingardas e dos canhões em
brasas após o grande tiroteio do dia.

Chegavam alguns carros cheios de terra, e os


artilheiros passavam-na pelo crivo.

– Já estamos ficando sem pólvora – explicou


Curzio -, mas ela se entranhou tanto na terra onde se

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travaram as batalhas que, desejando-se, pode-se
recuperar alguma carga.

Depois vinham as cocheiras onde, em meio às


moscas, os veterinários, sempre azafamados,
remendavam a pele dos quadrúpedes com suturas,
ataduras e emplastros de alcatrão fervendo: todos
relinchavam e escoiceavam, até os médicos.

A seguir, via-se o acampamento cia infantaria


ocupando uma grande extensão. Era o pôr-do-sol e,
diante de cada tenda, os soldados estavam sentados
com os pés descalços imersos em tinas de água
morna. Acostumados como estavam a inesperados
alarmes que aconteciam noite e dia, mesmo na hora
do pedilúvio mantinham o elmo na cabeça e a lança
entre as mãos. Nas tendas mais altas e enfeitadas
como quiosques, os oficiais, punham talco nas axilas e
abanavam-se com leques de renda.

– Não o fazem por efeminação – disse Curzio ao


contrário; querem demonstrar que se encontram
totalmente à vontade nas dificuldades da vida militar.

O visconde di Terralba foi logo conduzido a


presença do imperador. No seu pavilhão repleto de
tapeçarias e troféus, o soberano estudava nos mapas
os planos de futuras batalhas. As mesas estavam
entulhadas de mapas desenrolados, e o imperador os
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crivava de alfinetes, tirando-os de uma almofadinha
que um dos marechais segurava para ele. Os mapas já
estavam tão cheios de alfinetes que não se entendia
mais nada e, para que se pudesse ler alguma coisa
neles, era preciso retirá-los e depois recolocá-los em
seus lugares. Neste tira e põe, para ficar com as mãos
livres, tanto o imperador como os marechais
mantinham os alfinetes entre os lábios e só podiam se
comunicar através de grunhidos.

Diante do jovem que se inclinava à sua frente, o


soberano soltou um grunhido de interrogação e retirou
prontamente os alfinetes da boca.

– Um cavaleiro recém-chegado da Itália, majestade


– apresentaram-no -, o visconde di Terralba, membro
de uma das mais nobres famílias da República de
Gênova.

– Que seja logo nomeado tenente.

Meu tio bateu as esporas, colocando-se em posição


de sentido, enquanto o imperador fazia um amplo
gesto real e todos os mapas enrolavam-se sozinhos e
caíam no chão.

Naquela noite, embora exausto, Medardo deitou-se


tarde. Caminhava para a frente e para trás, próximo à
sua tenda, e escutava os chamados dos sentinelas, o
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relinchar dos cavalos e as palavras entrecortadas de
soldados que falavam durante o sono. Olhava para o
céu, para as estrelas da Boémia, pensava na sua nova
patente, na batalha do dia seguinte, na pátria
longínqua e no ruído dos juncos nos regatos. Não
tinha no coração nem nostalgia, nem dúvida, nem
apreensão. Para ele as coisas ainda estavam inteiras e
incontestes, e ele também se sentia assim. Se pudesse
ter previsto a terrível sorte que o esperava, talvez a
tivesse julgado como fato natural e consumado, apesar
de toda a sua dor. Olhava em direção à linha do
horizonte noturno, onde sabia que se localizava o
acampamento inimigo e, com os braços cruzados
sobre o peito, apertava os ombros com as mãos,
satisfeito por ter certeza, ao mesmo tempo, de
realidades distantes e diversas, e da própria presença
entre elas. Sentia o sangue daquela guerra cruel,
espalhado por mil riachos sobre a terra, chegar até ele;
e deixava que o roçasse, sem experimentar nem ódio,
nem piedade.

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II

A batalha começou às dez horas da manhã em


ponto. Do alto da sela, o lugar-tenente Medardo
contemplava a longa formação das tropas cristãs,
prontas para o ataque, e alongava o rosto ao vento da
Boêmia, que espalhava o cheiro de cascabulho como
se passasse por uma eira empoeirada.

– Não, não se vire para trás, senhor – exclamou


Curzio que, com a patente de sargento, encontrava-se
a seu lado. E, para justificar a frase peremptória,
acrescentou, baixinho: – Dizem que– dá azar antes do
combate.

Na realidade, não desejava que o visconde


esmorecesse ao perceber que o exército cristão
consistia quase que somente naquela fileira em
formação e que as forças de apoio eram apenas alguns
pelotões de infantes que mal se agüentavam sobre as
pernas.

Contudo, meu tio olhava para longe, para a nuvem


que se aproximava no horizonte, e pensava: “Pronto,
aquela nuvem são os turcos, os verdadeiros turcos, e
estes, ao meu lado, que cospem tabaco, são os
veteranos da cristandade; esta corneta que agora soa é
o ataque, o primeiro ataque da minha vida, e este
estrondo e estremecimento, o bólido que se enfia na
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terra visto com desprezo pelos veteranos e pelos
cavalos, é uma bala de canhão, a primeira bala
inimiga que eu encontro. E espero que não chegue o
dia em que tenha de dizer: “E esta é a última.”

Com a espada desembainhada, pôs-se a galopar


pela planície, com os olhos fixos no estandarte
imperial que aparecia e desaparecia em meio à
fumaça, enquanto os canhonaços amigos rolavam no
céu acima de sua cabeça e os inimigos já abriam
brechas na frente cristã e provocavam inesperados
cogumelos de terra. Pensava:

“Verei os turcos! Verei os turcos!”

Nada agrada mais aos homens do que ter inimigos,


e depois verificar se são exatamente como os
imaginara.

Eu os vi, os turcos. Surgiram exatamente dois por


ali, com os cavalos arreados para a guerra, o
pequenino escudo de couro redondo, as roupas
listradas de negro e açafrão. E também o turbante, o
rosto cor de ocre e o bigode como o daquele homem
que, em Terralba, era chamado de “Miché, o turco”.
Um dos turcos morreu, e o outro matou uma pessoa.
Contudo, surgiam sabe-se lá quantos mais e lutavam
com arma branca. Ver dois turcos era como ter visto
todos. Também eram militares, e todo aquele aparato
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era fornecido pelo exército. Tinham rostos pequenos,
mas eram cabeçudos como os camponeses. Se a
questão era vêlos, Medardo já os tinha visto; podia
retornar para junto de nós, em Terralba, a tempo de
presenciar a passagem das codornizes. Mas, ao invés
disto, resolveu permanecer na guerra. Assim, corria,
desviando-se dos golpes das cimitarras, até que
encontrou um turco baixo, a pé, e o matou. Vendo que
era assim que se fazia, foi procurar um outro turco
alto, a cavalo, e se enganou. Porque os piores eram os
pequenos. Eles se enfiavam debaixo dos cavalos, com
aquelas cimitarras, e os esquartejavam.

O cavalo de Medardo parou com as pernas


afastadas.

O que está fazendo? – perguntou o visconde.


Curzio aproximou-se, apontando para baixo:

– Olhe ali.

Estava com todas as tripas espalhadas pelo chão.

O pobre animal olhou para cima, para o dono, em


seguida abaixou a cabeça como se quisesse pastar os
intestinos, mas era apenas uma exibição de heroísmo:
desmaiou e depois morreu. Medardo di Terralba ficou
sem montaria.

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– Tome o meu cavalo, tenente – disse Curzio,
porém não conseguiu fazê-lo parar porque caiu da
sela, ferido por uma flecha turca, e o cavalo fugiu.

– Curzio! – gritou o visconde e aproximou-se do


escudeiro, que gemia no chão.

– Não se preocupe comigo, senhor – falou o


escudeiro. – Esperemos, apenas, que no hospital ainda
haja um pouco de caldo ralo. Cada ferido tem direito a
uma tigela.

Meu tio Medardo atirou-se à peleja. Os destinos da


batalha eram incertos. Naquela confusão, tinha-se a
impressão que os cristãos seriam os vencedores. De
fato, haviam desfeito a formação turca e circundado
determinadas posições. Meu tio, com outros
destemidos, tinha se lançado até sob as baterias
inimigas, e os turcos as deslocavam para manter os
cristãos sob o fogo. Dois artilheiros turcos giravam
um canhão sobre rodas. Lentos como eram, barbudos,
encapotados até os pés, pareciam dois astrônomos.
Meu tio disse.

– Agora chego lá e dou um jeito neles. –


Entusiasmado e inexperiente como era, não sabia que
só se deve aproximar dos canhões pelo flanco ou pela
parte da culatra. Ele saltou diante da boca de fogo, a
espada desembainhada, e pensava que meteria medo
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naqueles dois astrônomos. Mas, ao contrário, eles
desferiram contra ele uma bala em pleno peito.
Medardo di Terralba voou pelos ares.

À noite, no momento da trégua, dois carros


passaram recolhendo os corpos dos cristãos no campo
de batalha. Um era para os feridos e o outro para os
mortos. A primeira triagem era feita ali mesmo no
campo.

– Este é meu, aquele é seu.

Aqueles que tinham alguma coisa para ser salva,


eram colocados no carro dos feridos; os que não
passavam de pedaços esfacelados, eram postos no
carro dos mortos, para receberem uma sepultura
abençoada; aquilo que não era mais nada, nem mesmo
um cadáver, era deixado ali para servir de comida às
cegonhas. Naquela altura, tendo em vista as perdas
constantes, ficou estabelecido que deveria haver
feridos em profusão. Os restos de Medardo foram
considerados como os de um ferido e colocados no
respectivo carro.

A segunda triagem era feita no hospital. Após as


batalhas, o hospital militar ambulante oferecia uma
visão ainda mais atroz do que a dos próprios
combates. No chão havia uma longa fila de macas
ocupadas por aqueles desventurados, e os médicos
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enfureciam-se ao seu redor, arrancando um das mãos
do outro pinças, serras, agulhas, membros amputados
e rolos de barbante. Morto por morto, faziam de tudo
para ressuscitar cada um deles. Serra dali, costura
daqui, enfaixa as feridas, virando as veias ao contrário
como se fossem luvas e recolocando-as em seus
devidos lugares, mais cheias de barbante do que de
sangue, porém remendadas e fechadas. Quando um
paciente morria, tudo aquilo que havia de bom servia
para reconstituir os membros de um outro, e assim por
diante. A coisa mais atrapalhada eram os intestinos:
uma vez desenrolados, não se sabia mais como
arrumá-los novamente.

Quando puxaram o lençol, o corpo do visconde


apareceu horrendamente mutilado. Não lhe faltavam
apenas um braço e uma perna, mas tudo aquilo que
havia de tórax e de abdômen entre aquele braço e
aquela perna tinha voado pelos ares, estilhaçado por
aquele tiro certeiro. Da cabeça restavam um olho, uma
orelha, uma bochecha, meio nariz, meia boca, meio
queixo e meia testa: da outra metade da cabeça só
restava algo disforme. Resumindo, só se salvara uma
metade, a parte direita que, apesar de tudo, estava
perfeitamente conservada, sem nem um arranhão
sequer, com exceção daquela enorme fissura que a
tinha separado da parte esquerda, que se fragmentara
em mil pedaços.

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Os médicos estavam satisfeitos: – Hum, que caso
interessante! Se não morresse naquele meio tempo,
podiam tentar salvá-lo também. E puseram-se ao seu
redor, enquanto os pobres soldados com uma simples
flecha no braço morriam de septicemia. Costuraram,
enxertaram, empastaram: sabe-se lá o que fizeram. O
fato é que, no dia seguinte, meu tio abriu o único olho,
a meia boca, dilatou a narina e respirou. A forte fibra
dos Terralba havia resistido. Agora estava vivo e
partido ao meio.

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III

Quando meu tio retornou a Terralba, eu tinha sete


ou oito anos. Foi ao anoitecer; era outubro; o céu
estava nublado. Durante o dia havíamos feito a
vindima e através das fileiras de vinhas vimos, no mar
cinzento, as velas de um navio que se aproximava e
portava o pavilhão imperial. Naquela ocasião, a cada
navio que se avistava, comentava-se: – É o Mestre
Medardo que está voltando – não porque estivéssemos
ansiosos por sua volta, mas sim para termos alguma
coisa por que esperar. Daquela vez não nos
enganáramos: a certeza nos veio à noite, quando um
jovem chamado Fiorfiero, esmagando a uva em cima
da dorna, gritou: – Oh, lá embaixo. – Já estava quase
escuro e avistamos no fim do vale uma fileira de
tochas acesas rumando para a vereda; e depois,
quando passou pela ponte, distinguimos a liteira que
estava sendo carregada. Não havia dúvidas: era o
visconde que voltava da guerra.

A novidade se espalhou por toda a extensão do


vale; o pátio do castelo ficou repleto de gente:
famílias, criados, vindimadores, Aiolfo, meu avô, que
há muito não descia mais, nem mesmo para o pátio.
Cansado dos reveses da vida, havia renunciado às
prerrogativas do título em favor de seu único filho
homem, antes que ele partisse para a guerra. Agora a
sua paixão pelos pássaros, que criava dentro do
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castelo num grande viveiro, tornava-se cada dia mais
exclusiva: o velho havia levado para o viveiro até
mesmo sua cama, e se trancafiara por lá, de onde não
saía nem de dia, nem de noite. Entregavam-lhe as
refeições, junto com a comida dos pássaros, através
das grades do viveiro, e Aiolfo dividia tudo com
aquelas criaturas. Pássava horas acariciando o dorso
dos faisões, das rolas, enquanto aguardava que o filho
voltasse da guerra.

Nunca tinha visto tanta gente reunida no pátio do


nosso castelo: já havia passado o tempo, do qual eu
apenas ouvira os relatos, das festas e das contendas
entre vizinhos. E pela primeira vez reparei como
estavam os muros e as torres em ruínas e quão
lamacento o pátio, local onde costumávamos dar
capim às cabras e encher a gamela dos porcos.
Enquanto aguardavam, todos discutiam como o
visconde Medardo estaria; há muito tempo
recebêramos a notícia de que os turcos o haviam
ferido gravemente, mas ninguém sabia ainda ao certo
se estava mutilado, enfermo ou apenas deformado por
cicatrizes: e agora, o fato de termos visto a liteira
fazia-nos esperar pelo pior.

E eis que a liteira foi colocada no chão e, em meio


à sombra negra, viu-se o brilho de uma pupila. A
velha e imensa babá Sebastiana tentou aproximar-se,
mas daquela sombra ergueu-se uma mão com um seco
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gesto de recusa. Em seguida, viu-se o corpo na liteira
agitar-se num esforço anguloso e convulso e, diante
de nossos olhos, Medardo di Terralba pôs-se de pé,
apoiando-se numa muleta. Um manto negro com
capuz descia-lhe da cabeça aos pés; a parte direita
estava atirada para trás, descobrindo metade do rosto e
da pessoa apoiada na muleta, enquanto que, do lado
esquerdo, parecia que tudo estava escondido e envolto
nas dobras e pregas daquela roupagem ampla.

Olhava para nós, que a sua volta formávamos um


círculo, e ninguém pronunciava uma palavra; mas
talvez, com aquele olhar fixo, não estivesse nos
olhando, e sim querendo que nos afastássemos dele.

Uma lufada de vento veio do mar, e um galho


estalou na parte superior de uma figueira como um
lamento. O manto de meu tio ondulou; o vento
inflava-o, retesava-o como se fosse uma vela, e poder-
se-ia dizer que atravessava o seu corpo, ou melhor,
que este corpo não existia realmente, e que o manto
estava vazio como o de um fantasma. Depois, olhando
melhor, vimos que lhe aderia como a uma haste de
bandeira, e essa haste consistia no ombro, no braço,
no quadril, na perna, em tudo aquilo que dele se
apoiava na muleta: e o resto não existia.

As cabras observavam o visconde com seu olhar


parado e inexpressivo, viradas, cada uma, numa
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posição diversa mas todas juntas umas das outras,
com os dorsos dispostos num estranho desenho
formado por ângulos retos. Os porcos, mais sensíveis
e agitados, reclamaram, e fugiram batendo uns de
encontro aos outros com as barrigas e, então, nem
mesmo nós conseguimos mais esconder que
estávamos apavorados.

– Meu filho! – gritou a babá Sebastiana, e levantou


os braços. – Pobrezinho, infeliz!

Meu tio, contrariado por ter nos dado tal impressão,


adiantou a ponta da muleta sobre o terreno e, com um
movimento ritmado, dirigiu-se para a entrada do
castelo. Contudo, sobre os degraus do portal
encontravam-se os portadores da liteira sentados com
as pernas cruzadas, uns sujeitos estranhos, meio nus,
com brincos de ouro e o crânio raspado sobre o qual
cresciam cristas ou tufos de cabelos. Ergueram-se e
um deles, que usava trança e parecia ser o chefe,
disse:

– Senhor, estamos esperando o pagamento.

– Quanto? – perguntou Medardo e dava a


impressão de rir.

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– Vós sabeis qual o preço cobrado para o transporte
de um homem numa liteira – disse o homem da
trança.

Meu tio tirou uma bolsa da cintura e atirou-a, a


tilintar, aos pés do carregador.

Este limitou-se a avaliar seu peso e exclamou:

– Senhor, mas isto é muito menos que a quantia


combinada.

Medardo, enquanto o vento erguia as pregas de seu


manto, disse:

– A metade. – Passou pelo carregador e, dando


saltos com seu único pé, subiu os degraus, entrou pela
imensa porta escancarada que dava para o interior do
castelo, empurrou com golpes de muleta a pesada
porta dupla que fechou com um estrondo, e ainda
bateu o postigo, que tinha ficado aberto,
desaparecendo de nossas vistas.

Continuamos a escutar, vindo lá de dentro, o


barulho alternado do pé e da muleta, que se
movimentavam pelos corredores na direção da ala do
castelo onde se localizavam seus aposentos
particulares, e também ali ouvimos o bater e o
trancafiar de portas.
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Parado atrás das grades do viveiro, esperava-o o
pai. Medardo nem se dera ao trabalho de por ali passar
a fim de cumprimentá-lo: tinha se fechado em seus
aposentos, sozinho. Não quis aparecer nem mesmo
para a babá Sebastiana, que ficou por muito tempo
batendo à sua porta e chorando por ele.

A velha Sebastiana era uma mulher imensa, que se


vestia de negro e usava um véu, com um rosto rosado
sem uma única ruga, à exceção daquela que quase lhe
escondia os olhos; havia amamentado todos os jovens
da família Terralba e dormido com todos os mais
velhos; e também fechara os olhos de todos os mortos.
Agora ia e voltava pelo pórtico, passando de um
recluso ao outro, e não sabia o que fazer para ajudá-
los.

No dia seguinte, como Medardo continuava a não


dar sinal de vida, voltamos à vindima; contudo, não
havia alegria, e nos vinhedos não se falava de outra
coisa senão da sua sorte, não porque fosse muito
querido, mas porque o assunto era atraente e
misterioso. Somente a babá Sebastiana permanecia no
castelo, atenta a cada ruído.

Mas o velho Aiolfo, quase prevendo que o filho


voltaria muito triste e esquivo, havia muito ensinado a
um de seus animais mais queridos, uma lavandeira, a
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voar até a ala do castelo onde se localizavam os
aposentos de Medardo, então vazios, e a entrar pela
janelinha de seu quarto. Naquela manhã, o velho abriu
a portinhola do viveiro para a lavandeira, acompanhou
seu vôo até a janela do filho, em seguida tornou a
jogar comida para as pegas e as toutinegras, imitando
os seus piados.

Dali a pouco, escutou o barulho de algo atirado


contra os toldos. Inclinou-se para o lado de fora e,
sobre a cornija do castelo, viu a sua lavandeira morta.
O velho colocou-a na palma da mão e viu que uma asa
estava despedaçada, como se tivessem tentado
arrancá-la, uma patinha estava decepada, como se
apertada entre dois dedos, e um olho estava extirpado.
O velho apertou a lavandeira de encontro ao peito e
começou a chorar.

Naquele mesmo dia deitou-se na cama, e os


parentes, do lado de fora do viveiro, viram que estava
muito mal. Contudo, ninguém pôde entrar para tratar
dele porque tinha se trancafiado lá dentro e escondido
a chave. Os pássaros voavam ao redor de seu leito. A
partir do instante em que se deitara, todos tinham
começado a voar e não queriam pousar, nem parar de
bater as asas.

Na manhã seguinte, a babá, aproximando-se do


viveiro, constatou que o visconde Aiolfo estava morto.
27
Os pássaros estavam pousados sobre sua cama, como
sobre um tronco a flutuar no meio do mar.

28
IV

Após a morte de seu pai, Medardo começou. a sair


do castelo. Mais uma vez foi a babá Sebastiana a
primeira a se dar conta disto, certa manhã, ao
encontrar as portas escancaradas e os aposentos
desertos. Uma turma de criados foi mandada para os
campos a fim de seguirem as pistas do visconde. Os
criados corriam e passaram sob uma pereira que
tinham visto, à noite, carregada de frutas temporãs
ainda verdes.

– Olhem, lá em Cima – disse um dos criados.


Viram as pêras que pendiam sob o céu da madrugada
e, ao vê-las, ficaram aterrorizados. Porque as frutas
não estavam inteiras, eram muitas metades de peras
cortadas no sentido do comprimento, cada uma ainda
presa no seu galho. Porém, de cada pêra só havia a
metade da direita (ou da esquerda, segundo o lugar de
onde eram vistas, mas as metades pertenciam todas ao
mesmo lado) e a outra metade tinha sumido, cortada
ou talvez mordida.

– O visconde passou por aqui! – disseram os


criados. Claro, após ter passado tantos dias
enclausurado e em jejum, naquela noite sentira fome e
subira na primeira árvore que encontrara para comer
seus frutos.

29
Andando, os criados encontraram sobre uma pedra
a metade de uma rã, ainda viva e pulando, graças à
conhecida resistência dessa espécie.

– Estamos na trilha certa! – e prosseguiram.


Perderam-se, pois não tinham visto entre as folhas um
meio melão, e tiveram que voltar atrás até encontrá-lo.

Assim, dos campos passaram para o bosque e viram


um cogumelo cortado ao meio, um chapéu-de-cobra,
depois um outro, um vermelho venenoso e, à medida
que caminhavam pelo bosque, continuaram
encontrando, de vez em quando, estes cogumelos que
surgiam da terra com meio caule e só abriam a metade
da cúpula. Pareciam divididos por um corte nítido e,
da outra metade, não se encontrava nem um
fragmento. Eram cogumelos de todas as espécies:
esclerodermos vulgares, amanitas, agáricos; e os
venenosos eram praticamente da mesma quantidade
dos comestíveis.

Seguindo estas pistas esparsas, os criados chegaram


ao prado chamado “das Monjas”, onde havia um
laguinho no meio do mato. Amanhecia, e, à beira do
laguinho, a figura exígua de Medardo, envolta no
manto negro, refletia-se na água onde flutuavam
cogumelos brancos, amarelos ou esverdeados. Eram
as metades dos cogumelos que ele tinha colhido e
agora se espalhavam sobre aquela superfície
30
transparente. Sobre a água os cogumelos pareciam
inteiros, e o visconde os olhava. Os criados
esconderam-se na outra margem do laguinho e não
ousaram dizer nada, observando também os
cogumelos flutuantes, até que perceberam que ali só
havia cogumelos bons para serem comidos. E os
venenosos? Se não os tinha atirado no lago, o que
fizera deles, afinal? Os criados saíram em disparada
por entre o bosque. Não tinham ido muito longe
quando depararam, num atalho, com um menino
carregando uma cesta: dentro estavam todos aqueles
meios cogumelos venenosos.

Aquele menino era eu. À noite, brincava sozinho


em volta do prado das Monjas, metendo medo em
mim mesmo a surgir de repente de trás das árvores,
quando encontrei meu tio pulando sobre um pé só, em
meio ao prado iluminado pelo luar, com um cestinho
enfiado no braço.

– Olá, tio! – gritei. Era aquela a primeira vez que


conseguia cumprimentá-lo.

Ele pareceu muito contente em me ver.

– Estou procurando cogumelos – explicou-me.

– E conseguiu achar algum?

31
– Veja – disse meu tio. Sentamo-nos às margens
daquele laguinho. Ele fazia a seleção dos cogumelos;
alguns eram atirados dentro d’água, outros deixados
no cestinho.

– Tome – disse -, entregando-me o cestinho com os


cogumelos por ele selecionados. – Coma-os fritos.

Gostaria de ter lhe perguntado por que, no seu


cesto, só havia a metade de cada cogumelo; porém,
compreendi que a pergunta teria sido pouco delicada e
afastei-me correndo, após ter lhe agradecido. Estava
indo embora para prepará-los fritos quando encontrei
a turma de criados, e fiquei sabendo que os cogumelos
eram venenosos.

A babá Sebastiana, ao tomar conhecimento daquela


história, disse:

– Foi a metade ruim de Medardo que regressou.


Hoje, veremos como se comportará com relação ao
julgamento.

Naquele dia, devia ter lugar o julgamento de uma


quadrilha de bandidos, detida pelos guardas do castelo
no dia anterior. Os bandidos eram pessoas de nosso
território e, portanto, cabia ao visconde julgá-los.
Instaurou-se o tribunal, e Medardo sentou-se todo
torto na sua cadeira, roendo uma unha. Chegaram os
32
bandidos acorrentados: o chefe da quadrilha era
aquele rapaz chamado Fiorfiero, que tinha sido o
primeiro a avistar a liteira, enquanto pisoteava as
uvas. Entrou a parte lesada. Era um séquito de
cavaleiros toscanos que, a caminho de Potenza, ao
atravessar nossos bosques, foi atacado e assaltado por
Fiorfiero e sua quadrilha. Este defendeu-se alegando
que aqueles cavaleiros tinham ido caçar ilegalmente
em nossas terras; ele os havia detido e desarmado,
julgando, justamente, que se tratasse de caça ilegal, já
que os guardas não cuidavam de nada. Devemos
esclarecer que naquela época os assaltos de quadrilhas
eram uma atividade muito comum, para a qual a lei
era clemente. Além disso, nosso território era
favorável ao banditismo; assim sendo, até mesmo
alguns membros de nossa família, sobretudo nos
tempos tumultuados, uniam-se às quadrilhas dos
bandidos. Da caça ilegal nem falo, era o delito mais
leve que se podia imaginar.

Contudo, as apreensões da babá Sebastiana tinham


fundamento. Medardo condenou Fiorfiero e toda a sua
quadrilha à forca, por crime de rapina. Porém, como
os assaltados eram, por sua vez, os reis da caça ilegal,
condenou-os também a morrerem na forca. E para
punir os guardas que haviam chegado tarde demais e
não souberam evitar nem as más ações dos caçadores,
nem as dos bandidos, a condenação também foi à
morte por enforcamento.
33
Eram, ao todo, cerca de vinte pessoas. Esta cruel
sentença provocou consternação e sofrimento em
todos nós, não tanto pelos cavaleiros toscanos, que
ninguém tinha visto antes, mas sim pelos bandidos e
guardas que eram pessoas queridas. Mestre
Pietrochiodo, albardeiro e carpinteiro, ficou
encarregado de construir a forca. Ele era um
trabalhador sério e inteligente, que se dedicava
totalmente a qualquer obra sua. Com muita tristeza,
pois dois dos condenados eram parentes dele,
construiu uma forca ramificada como uma árvore,
cujas cordas subiam todas juntas, manobradas por
apenas um guincho; era um instrumento tão grande e
engenhoso que se podia enforcar, de uma só vez, um
número muito maior de pessoas do que as
condenadas, tanto assim que o visconde se aproveitou
do fato e mandou dependurar dez gatos alternados a
cada dois condenados. Os cadáveres mirrados e as
carniças dos gatos balançaram durante três dias, e a
princípio ninguém tinha coragem de olhá-los.
Contudo, logo percebemos que aquela visão era
imponente e inclusive o nosso julgamento dividia-se
em sentimentos diversos, tanto que chegamos até a
sentir desagrado quando resolvemos retirar os mortos
e desmontar o descomunal aparato.

Aqueles eram tempos felizes para mim, sempre


perambulando pelos bosques, acompanhando o doutor
34
Trelawney, em busca de carapaças de animais
marinhos que haviam se transformado em pedras. O
doutor Trelawney era inglês. Tinha chegado ao nosso
litoral após um naufrágio, em cima de um tonel de
vinho bordeaux. Havia sido médico de bordo durante
toda a vida e feito viagens longas e perigosas, entre as
quais aquelas com o famoso capitão Cook, porém
nunca tinha visto nada do mundo porque estava
sempre nas cobertas jogando vinte-e-um. Tendo
naufragado em nossas águas, encantara-se logo com o
vinho tipo cancarone, o mais rascante e espesso de
nossa região, e não sabia mais viver sem ele, tanto
assim que sempre levava a tiracolo uma garrafa cheia.
Tinha ficado em Terralba e tornara-se nosso médico,
contudo não se preocupava com os doentes, mas sim
com, as descobertas científicas que fazia e o
mantinham sempre para lá e para cá – e eu com ele -,
em campos e bosques, noite e dia. Primeiro uma
doença dos grilos, moléstia imperceptível que
somente um grilo em mil tinha e, ademais, sem lhe
causar qualquer dano; e o doutor Trelawney queria
procurá-los todos e descobrir a cura adequada. Em
seguida, procurava os sinais do tempo em que nossas
terras estavam cobertas pelo mar; então, andávamos
carregando pedras e silícios que o doutor afirmava
terem sido, anteriormente, peixes. Finalmente, sua
última e grande paixão: os fogos-fátuos. Queria
descobrir um modo de pegá-los e conservá-los, e com
este objetivo passávamos as noites vagueando por
35
nosso cemitério, aguardando que, entre as sepulturas
de terra e de mato, se acendesse algum daqueles vagos
clarões e, então, procurávamos atraí-los para nós,
fazê-los correr atrás de nós e capturá-los, sem que se
apagassem, dentro de recipientes que, de vez em
quando, testávamos: sacos, frascos, garrafões sem
palha, braseiros, escorredores de massa. O doutor
Trelawney tinha ido morar em um casebre próximo ao
cemitério, que anteriormente fora habitado pelo
coveiro, naqueles tempos de tumulto, de guerras e de
epidemias em que convinha manter um homem que só
executasse aquele tipo de trabalho. Lá, o doutor havia
instalado seu laboratório, com ampolas de todos os
formatos para engarrafar os fogos, e redes como as de
pesca para agarrá-los; os alambiques e cadinhos onde
pesquisava como nasciam aquelas pálidas e
minúsculas chamas das terras dos cemitérios e dos
miasmas dos cadáveres. Porém, não era um homem
que ficasse durante muito tempo absorvido nos seus
estudos: largava tudo logo, saía, e íamos juntos em
busca de novos fenômenos da natureza.

Eu era livre como o ar, pois não tinha pais e não


pertencia nem à categoria dos criados, nem à dos
patrões. Fazia parte da família dos Terralba apenas
através de um reconhecimento tardio, contudo não
tinha esse sobrenome e ninguém se dedicava à minha
educação. -A minha pobre mãe era filha do visconde
Aiolfo e irmã mais velha de Medardo, mas tinha
36
manchado a honra da família fugindo com um caçador
ilegal que veio a ser, depois, o meu pai. Tinha nascido
na cabana do caçador, nos terrenos sob o bosque; e
pouco depois, meu pai foi assassinado numa rixa, e a
pelagra acabou com minha mãe, que tinha ficado
sozinha naquela cabana miserável. Fui então acolhido
no castelo porque meu avô Aiolfo ficou penalizado, e
cresci sob os cuidados da grande babá Sebastiana.
Lembro-me que quando Medardo era ainda um
adolescente e eu uma criança, às vezes me deixava
participar de seus folguedos como se tivéssemos a
mesma situação social; depois a distância entre nós
acentuou-se e eu fiquei relegado ao nível dos criados.
Agora, encontrava no doutor Trelawney um
companheiro como jamais tivera em minha vida.

O doutor estava com sessenta anos, porem era do


meu tamanho; tinha um rosto todo encarquilhado
como uma castanha seca, sob o tricórnio e a peruca; as
pernas, que as polainas cobriam até a metade das
coxas, pareciam mais longas, tão desproporcionais
quanto as dos grilos, até mesmo devido aos largos
passos que dava; e envergava uma casaca cor de
rolinha com as guarnições vermelhas, sobre a qual
levava, a tiracolo, a garrafa de vinho cancarone.

A sua paixão pelos fogos-fátuos impelia-nos a fazer


longas caminhadas noturnas para alcançarmos os
cemitérios das aldeias vizinhas, onde era possível ver,
37
às vezes, chamas mais bonitas com relação à
coloração e ao tamanho do que as do nosso campo-
santo abandonado. Mas, ai de nós se esta nossa
manobra fosse descoberta pelos camponeses: certa
vez, tomando-nos por ladrões sacrílegos, fomos
perseguidos por vários quilômetros por um grupo de
homens armados com foices e forcados.

Estávamos num local íngreme e cheio de torrentes:


eu e o doutor Trelawney pulávamos as pedras
apressadamente mas sentíamos os camponeses
enfurecidos aproximando-se cada vez mais. Num
ponto chamado Salto da Carranca, uma pontezinha
feita de troncos atravessava um abismo
profundissimo. Ao invés de passarmos pela
pontezinha, eu e o doutor nos escondemos sob um
ressalto de rocha exatamente na beira do precipício,
bem a tempo, pois os camponeses já se encontravam
nos nossos calcanhares. Não nos viram e gritaram:

– Onde estão aqueles bastardos? – e passaram em


fila, correndo pela ponte. Ouvimos um ruído seco e
repentino. E, berrando, eles foram tragados pela
torrente que deslizava, apavorados com o que podia
ter-nos acontecido, sentimos o medo transformar-se
em alívio por termos escapado ao perigo. Depois
ficamos novamente apavorados diante do horrendo
fim que tiveram os nossos perseguidores. Ousamos
apenas nos debruçar e olhar para baixo, na escuridão,
38
onde os camponeses tinham sumido. Erguendo os
olhos, vimos o que restava da pontezinha: os troncos
ainda estavam bem presos, porém partidos ao meio,
como se tivessem sido serrados; nem podíamos
explicar de outro modo como aquele pedaço grosso de
madeira tinha cedido com uma ruptura tão perfeita.

– Isso foi obra de alguém que conheço – disse o


doutor Trelawney, e eu também já havia
compreendido.

Realmente, ouviu-se um rápido barulho de cascos


e, à beira do barranco, apareceu um cavalo montado
por um cavaleiro meio envolto num manto negro. Era
o visconde Medardo, que com seu gélido sorriso
triangular contemplava o trágico resultado da cilada,
talvez imprevisto até para ele mesmo: sem dúvida, sua
intenção era matar-nos e, ao contrário, acabou
salvando nossas vidas. Tremendo, vimos quando se
afastava, montado no cavalo negro que saltava pelas
pedras como se fosse filhote de cabra.

Naquele tempo, meu tio andava sempre a cavalo: o


albardeiro Pietrochiodo fizera uma sela especial, na
qual ele era amarrado com correias a um dos estribos,
enquanto que o outro era preso com um contrapeso.
Ao lado da sela estavam enganchadas uma espada e
uma muleta. E assim o visconde cavalgava usando um
chapéu de abas largas e cheio de plumas cuja metade
39
sumia sob um lado do manto sempre esvoaçante.
Onde quer que se escutasse o barulho dos cascos de
seu cavalo, todos desapareciam de vista, pior do que
acontecia quando passava Calateo, o leproso, e
levavam as crianças e os animais, e temiam até pelas
plantas, pois a maldade do visconde não poupava
ninguém e podia desencadear-se, de um momento ao
outro, por meio de ações as mais imprevistas e
incompreensíveis.

Nunca tinha estado doente e, portanto, jamais tivera


necessidade dos tratamentos do doutor Trelawney;
contudo, num caso desses, não sei como o doutor teria
se arranjado, ele que fazia de tudo para evitar o meu
tio e nem mesmo desejava ouvir a sua voz. Quando se
comentava sobre o visconde e sua crueldade, o doutor
Trelawney sacudia a cabeça e franzia os lábios
murmurando:

– Oh, oh, oh!... Zzt, zzt, zzt!.... – como também


acontecia quando alguém dizia algo inconveniente. E,
com o intuito de mudar de assunto, começava a relatar
algumas das viagens do capitão Cook. Certa vez tentei
lhe perguntar como, segundo ele, meu tio podia viver
assim mutilado, porém o inglês nada mais soube me
dizer além de seus “Oh, oh, oh!.... Zzt, zzt, zzt!!..’ Ao
que parecia, sob o ponto de vista da medicina, o caso
de meu tio não despertava qualquer tipo de interesse
no doutor; porém, eu começava a achar que talvez ele
40
tivesse se tornado médico somente por imposição
familiar ou por conveniência, e que pouco se
importava realmente com tal ciência. Talvez a sua,
carreira como médico de bordo fosse apenas devida à
sua habilidade no jogo de vinte-e-um, razão pela qual
os mais famosos navegadores, a começar pelo capitão
Cook, disputavam entre si o direito de tê-lo como
parceiro de partida.

Uma noite, o doutor Trelawney pescava com a rede


os fogos-fátuos no nosso cemitério, quando se viu
diante de Medardo di Terralba, que deixava seu cavalo
se alimentar sobre os túmulos. O doutor estava muito
confuso e atemorizado, porém o visconde aproximou-
se dele e perguntou, com a pronúncia defeituosíssima
de sua boca partida ao meio:

– Doutor, o senhor está caçando borboletas


noturnas?

– Oh, Milord – respondeu o doutor com um fio de


voz -, ob, oh, não procuro exatamente borboletas,
Milord.. Fogos-fátuos, entende? Fogos-fátuos...

– Compreendo, os fogos-fátuos. Muitas vezes


também me perguntei qual seria a sua origem.

41
– Há muito tempo, modestamente, isto é objeto de
meus estudos, Milord... – observou Trelawney, um
pouco encorajado por aquele tom benevolente.

Medardo contorceu num sorriso o seu meio rosto


anguloso, cuja pele era esticada como a de um morto.

– Como um estudioso, o senhor merece todo e


qualquer auxílio – disse-lhe. – É uma lástima que este
cemitério, abandonado como está, não seja um bom
campo para os fogos-fátuos. Contudo, prometo-lhe
que amanhã mesmo tratarei de ajudá-lo naquilo que
me for possível.

O dia seguinte era aquele estabelecido para a


administração da justiça, e o visconde condenou à
morte uma dezena de camponeses porque, segundo
seus cálculos, não tinham entregue toda a parte da
colheita que deviam ao castelo. Os mortos foram
sepultados na terra das covas rasas, e o cemitério
lançou todas as noites uma grande quantidade de
fogos-fátuos. O doutor Trelawney estava muito
assustado com aquela ajuda, embora a julgasse muito
útil para os seus estudos.

Nestas trágicas conjunturas, mestre Pietrochiodo já


havia há muito aperfeiçoado a sua arte na construção
das forcas. Agora, eram verdadeiras obras-primas de
carpintaria e de mecânica; e isto não apenas com
42
relação às forcas, mas também aos cavaletes, aos
guinchos e aos outros instrumentos de tortura com os
quais o visconde Medardo arrancava as confissões aos
acusados. Eu ia com muita freqüência à oficina de
mestre Pietrochiodo, porque era muito bonito vê-lo
trabalhar com tamanha habilidade e paixão. Porém,
uma aflição torturava sempre o coração do albardeiro.
Aquilo que ele construía servia de patibulo para
inocentes.

– O que posso fazer – pensava – para que me


mandem construir algo criativo, mas que tenha uma
finalidade diversa? E quais podem ser os novos
mecanismos que eu construiria com mais prazer?

Porém, não encontrando respostas para estas


perguntas, procurava afastá-las da mente, dedicando-
se a fazer as criações mais belas e engenhosas que lhe
era possível.

– Procure não se lembrar para que servirão dizia


para mim também. – Olhe-os apenas como
mecanismos. Está vendo como são bonitos?

Eu olhava aquelas arquiteturas de traves, aquele


sobe e desce das cordas, aquelas ligações de guinchos
e roldanas e esforçava-me para não visualizar ali os
corpos inertes, porém, quanto mais me esforçava,
mais era obrigado a pensar, e dizia para Pietrochiodo:
43
– Como posso?

– E como posso eu, rapaz – replicava ele como


posso eu, então?

Contudo, aquela época, malgrado as torturas e os


medos, tinha a sua parte de alegria. A hora mais linda
era quando o sol já estava alto e o mar dourado; as
galinhas cacarejavam depois de terem posto os ovos, e
através dos caminhos estreitos ouvia-se o som do
berrante do leproso. Este passava todas as manhãs
recolhendo as esmolas para seus companheiros de
desventura. Chamava-se Galateo e trazia dependurado
ao pescoço um berrante, cujo som avisava, a distância,
a sua aproximação. As mulheres escutavam o berrante
e colocavam no canto do murinho ovos, ou
abobrinhas, ou tomates, e, às vezes, um coelhinho sem
a pele; e depois corriam para se esconder, levando
consigo as crianças, uma vez que ninguém deve ficar
nas ruas quando o leproso passa; a lepra é transmitida
a distância e até mesmo vê-la representa um perigo.
Galateo, precedido pelos sons agudos do berrante,
vinha bem devagarinho pelos caminhos desertos, com
um comprido bastão na mão, e a roupa toda
esfarrapada que esbarrava no chão. Tinha longos
cabelos louros estupendos a um rosto redondo e
branco, já um pouco maltratado pela lepra. Recolhia
os donativos, colocava-os na cesta de vime que
44
carregava nas costas e gritava alguns agradecimentos
na direção das casas dos camponeses escondidos, com
sua voz melosa e sempre acrescentando alguma alusão
engraçada ou malévola.

Naquela época, nas regiões próximas ao mar, a


lepra era um mal difuso e, perto de nós, havia uma
aldeiazinha, Pratofungo, onde só viviam leprosos, aos
quais éramos obrigados a fazer donativos, recolhidos
justamente por Galateo. Quando alguém que morava
perto do mar ou no campo era atacado pela lepra,
abandonava parentes e amigos e dirigia-se para
Pratofungo, onde devia passar o resto da vida à espera
de que a moléstia o devorasse. Falava-se de grandes
festas com que se acolhiam os recém-chegados: de
longe ouvia-se, até a noite, sons e cantos vindos das
casas dos leprosos.

Falava-se muitas coisas a respeito de Pratofungo, se


bem que nenhuma das pessoas sadias tivesse estado lá
algum dia; mas todos eram unânimes em afirmar que
em tal aldeia a vida era uma perpétua pândega. A
aldeia, antes de se tornar asilo dos leprosos, tinha sido
um antro de prostitutas para onde se dirigiam
marinheiros de todas as raças e credos; e parecia que
as mulheres ainda conservavam os costumes
libidinosos daquela época. Os leprosos não
cultivavam a terra, à exceção de uma videira de uva
fragola cujo vinho mantinha-os, o ano inteiro, num
45
estado de leve embriaguez. A grande ocupação dos
leprosos era tocar estranhos instrumentos inventados
por eles, harpas em cujas cordas estavam
dependurados muitos sininhos, e cantar em falsete, a
pintar ovos de todas as cores.como se fosse uma
Páscoa perpétua. Assim, consumindo-se ao som de
músicas muito doces, com guirlandas de jasmim ao
redor dos rostos desfigurados, esqueciam a
comunidade humana da qual a moléstia os tinha
separado.

Nenhum de nossos médicos jamais tinha querido


tratar dos leprosos, porém, quando Trelawney
estabeleceu-se entre nós, esperávamos que ele
quisesse dedicar a sua ciência ao saneamento daquela
praga em nossas regiões. Até eu compartilhava esta
esperança no meu mundo infantil: há muito tempo
sentia uma vontade louca de ir até Pratofungo para
assistir às festas dos leprosos; e se o doutor se
propusesse a experimentar seus remédios naqueles
infelizes, talvez me levasse, algumas vezes, até a
aldeia. Contudo, nada disto aconteceu: tão logo
escutava o berrante de Galateo, o doutor Trelawney
saía às carreiras e ninguém parecia ter mais pavor do
contágio do que ele. Algumas vezes tentei interrogá-lo
a respeito da natureza daquela moléstia, porém deu-
me respostas evasivas e confusas, como se apenas a
palavra “lepra” fosse suficiente para deixá-lo pouco à
vontade.
46
No fundo, não sei por que nós teimávamos em
considerá-lo um médico: para os animais, sobretudo
os menores, para as pedras, para os fenômenos
naturais era todo atenção, mas os seres humanos e
suas enfermidades enchiam-no de repugnância e
pavor. Tinha horror a sangue, tocava os doentes
apenas com a ponta dos dedos e, diante dos casos
graves, tampava o nariz com um lenço de seda
embebido em vinagre. Pudico como uma moça,
enrubescia ao ver um corpo desnudo; caso se tratasse
de uma mulher, mantinha os olhos baixos e
gaguejava; mulheres, em suas longas viagens pelos
oceanos, parecia nunca as ter conhecido. Felizmente,
na nossa região, naquela época, os partos eram casos
para as parteiras e não para os médicos, pois, caso
contrário, sabe-se lá como teria fugido à obrigação.

Meu tio passou a provocar incêndios. No meio da


noite, de repente, um feneiro de camponeses
miseráveis queimava, ou uma árvore que se
transformaria em madeira, ou um bosque inteiro.
Então, ficávamos até amanhecer passando baldes de
água de mão em mão para apagar as chamas. As
vítimas eram sempre infelizes que haviam se
desentendido com o visconde, devido a alguma de
suas ordens cada vez mais severas e injustas, ou
devido aos impostos que ele havia dobrado. Não se
satisfazendo em incendiar os bens, começou a atear
47
fogo nos povoados: ao que parecia, aproximava-se à
noite, lançava tochas acesas sobre os telhados e depois
fugia a cavalo; ninguém conseguiu jamais surpreendê-
lo em ação. Uma vez morreram duas velhas; de outra
feita um rapaz ficou com o crânio quase sem pele. O
ódio contra ele crescia entre os camponeses. Seus
mais obstinados inimigos eram as famílias de
huguenotes que moravam nos casarios de Col
Gerbido; lá os homens montavam guarda, revezando-
se durante toda a noite, a fim de evitar os incêndios.

Sem nenhuma razão plausível, uma noite foi até as


casas de Pratofungo, cujos tetos eram de palha, e
atirou contra eles breu e fogo. Os leprosos não sofrem
dor quando queimados e, se fossem surpreendidos
pelas chamas durante o sono, certamente não teriam
acordado mais. Porém, afastando-se a galope, o
visconde percebeu que da aldeia vinha o som de um
violino: os habitantes de Pratofungo velavam,
absortos nas suas brincadeiras. Queimaram-se todos,
porém não se sentiram mal e divertiram-se como de
costume. Conseguiram apagar logo o incêndio; até as
suas casas, talvez por estarem também contaminadas
pela lepra, pouco sofreram a ação das chamas.

A maldade de Medardo voltou-se também contra


sua propriedade: o castelo. O fogo iniciou-se na ala
onde viviam os criados e ardia em meio aos gritos
altíssimos de quem ali ficara aprisionado, enquanto o
48
visconde foi visto cavalgando em direção aos campos.
Era um atentado que ele planejara levar a cabo contra
a vida de sua babá e mãe postiça Sebastiana. Com a
obstinação autoritária que as mulheres tendem a
manter sobre aqueles que viram pequeninos,
Sebastiana nunca deixava de repreender o visconde a
cada novo crime, embora todos estivessem
convencidos de que sua natureza estava voltada para
uma crueldade irreparável e insana. Sebastiana foi
retirada gravemente ferida entre as paredes
carbonizadas e forçada a ficar de cama durante vários
dias até se recuperar das queimaduras.

Uma noite, a porta do quarto onde ela repousava


abriu-se e o visconde surgiu ao lado de sua cama.

– Que manchas são estas no seu rosto, babá? –


perguntou Medardo, apontando para as queimaduras.

– Uma marca de seus pecados, filho – disse a velha,


tranqüila.

– Sua pele está retorcida e cheia de pintas; o que


tem, babá?

– Um mal que não é nada, filho, comparado àquele


que o espera no inferno, caso não se regenere.

49
– Tem que ficar boa logo: não gostaria que se
comentasse por aí sobre este mal que a acometeu...

– Não tenho mais que arranjar marido, por isso não


preciso me preocupar com meu corpo. Basta-me ter a
consciência tranqüila. Como seria bom se você
pudesse dizer o mesmo.

– Ainda assim, o seu marido a espera, para levá-la


com ele, não sabia?

– Não zombe da velhice, filho, você que teve a


juventude mutilada.

– Não estou brincando, não, Escute, babá: o seu


noivo está tocando embaixo da sua janela...
Sebastiana aguçou o ouvido e escutou, do lado de fora
do castelo, o som do berrante do leproso.

No dia seguinte, Medardo mandou chamar o doutor


Trelawney.

– Apareceram umas manchas muito suspeitas,


ninguém sabe dizer como, no rosto de uma velha
criada nossa – disse ele ao médico. – Estamos todos
apavorados que se trate de lepra. Doutor, confiamos
na luz de sua sabedoria.

Trelawney curvou-se, balbuciando:


50
– Meu dever, Milord... sempre às suas ordens,
Milord...

Virou-se, saiu, disparou castelo afora, levou


consigo um barrilzinho de vinho cancarone e
desapareceu nos bosques. Durante uma semana
ninguém o viu. Quando retornou, a babá Sebastiana
tinha sido mandada para a aldeia dos leprosos.

Havia deixado o castelo, certa noite ao pôr-do-sol,


vestida de negro e com um véu na cabeça, levando
uma trouxa dependurada no braço com todas as suas
coisas. Sabia que a sua sorte estava marcada: devia
seguir o caminho de Pratofungo. Deixou o quarto
onde fora mantida até então e não encontrou ninguém
nos corredores, nem nas escadas. Desceu, atravessou a
corte, foi para o campo: tudo estava deserto, todos à
sua passagem se retiravam e se escondiam. Ouviu um
berrante modular uma chamada em apenas duas notas;
mais à frente, no caminho, estava Galateo que erguia,
na direção do céu., o seu instrumento. A babá dirigiu-
se para onde ele estava a passos lentos; o caminho
rumava para o poente; Galateo andou à sua frente por
muito tempo, de vez em quando parava como se
contemplasse os zangões zumbindo em meio às
folhas, levantava o berrante e soava um acorde triste;
a babá olhava os jardins e as ribeiras que estava
abandonando, pressentia, por trás das cercas, a
51
presença das pessoas que se afastavam dela, e
retomava a caminhada. Sozinha, seguindo Galateo a
distância, chegou a Pratofungo. Os portões da aldeia
fecharam-se atrás dela enquanto as harpas e os
violinos começavam a soar.

O doutor Trelawney tinha me causado uma grande


desilusão. Não ter erguido um dedo para que a velha
Sebastiana não fosse condenada ao leprosário mesmo
sabendo que as suas marcas não eram de lepra – era
um sinal de vilania e, pela primeira vez, senti aversão
pelo doutor. Além disto, ao fugir para os bosques não
me levara com ele, mesmo sabendo o quanto lhe teria
sido útil como caçador de esquilos e colhedor de
framboesas. Agora acompanhá-lo na procura de
fogos-fátuos não me agradava tanto quanto antes e,
muitas vezes, perambulava sozinho em busca de
novas companhias.

As pessoas que mais me atraíam agora eram os


huguenotes que moravam em Col Gerbido. Era gente
que tinha fugido da França onde o rei mandava cortar
em pedacinhos todo aquele que professava a religião
deles. Tinham perdido, durante a travessia das
montanhas, seus livros e objetos sacros, e agora já não
tinham mais nem a Bíblia para ler, nem missa para
celebrar, nem hinos para cantar, nem orações para
rezar. Desconfiados, como todos aqueles que sofreram
perseguições e que vivem entre pessoas de fé
52
diferente, eles não quiseram mais receber nenhum
livro religioso, nem escutar conselhos sobre o modo
como celebrar seus cultos. Se alguém ia procurá-los
dizendo ser um irmão huguenote, eles temiam que
fosse um emissário do papa, disfarçado, e guardavam
silêncio. Assim, tinham começado a cultivar as duras
terras de Col Gerbido e, mulheres e homens,
trabalhavam desde o amanhecer até depois do pôr-do-
sol, na esperança de que fossem iluminados pela
graça. Sem saberem o que era pecado, e para que não
cometessem enganos, multiplicavam as proibições e
limitavam-se a olhar um para o outro com olhar
severo, observando se algum pequenino gesto não
revelava uma intenção culpável. Recordando-se
confusamente das discussões religiosas, abstinham-se
de pronunciar a palavra Deus e qualquer outra
expressão religiosa, por medo de o fazerem de modo
sacrílego. Assim, não seguiam nenhuma norma de
culto e, provavelmente, não ousavam nem mesmo
formular pensamentos sobre questões de fé, embora
mantivessem uma gravidade absorta como se
estivessem sempre pensando nisso. Em compensação,
as normas de sua agricultura exaustiva tinham
alcançado, com o passar do tempo, um valor idêntico
ao dos mandamentos, e o mesmo acontecia com
relação aos seus hábitos de parcimônia e às virtudes
caseiras das mulheres.

53
Eram uma grande família cheia de netos e noras,
todos altos e nodosos. Trabalhavam a terra sempre
enfatiotados como se fossem-a uma festa, com roupas
negras e abotoadas; os homens com seus chapéus de
abas largas abaixadas e as mulheres com toucas
brancas. Os homens usavam barbas compridas,
andavam sempre com a espingarda a tiracolo, porém
comentava-se que nenhum deles jamais dera um só
tiro, a não ser caçando pássaros, isto porque era contra
os mandamentos.

Dos planaltos calcários onde cresciam com grande


dificuldade algumas videiras insignificantes e pés de
trigo mal desenvolvidos, elevava-se a voz do velho
Ezequiel, que berrava sem cessar, com os punhos
erguidos no ar, trêmulo e com sua barba de bode,
revirando os olhos sob o chapéu em forma de funil:
Peste e carestia! Peste e carestia! – enquanto gritava
com os parentes que, inclinados, trabalhavam: –
Vamos com esta enxada, Giona! Arranque o mato,
Susanna! Tobia, espalhe o esterco! E dava mil ordens
e fazia mil recriminações com a aversão de quem se
dirige a um bando de ineptos e aproveitadores. E
depois de ter dito aos berros as mil coisas que deviam
fazer para que o campo não ficasse abandonado,
punha-se a trabalhar também, afastando aqueles que
se achavam ao seu redor sem parar de berrar: – Peste e
carestia!

54
Sua mulher, ao contrário, nunca gritava e parecia,
diversamente dos outros, segura de uma religião sua,
secreta, obstinada nos mínimos detalhes, mas sobre a
qual nada revelava a ninguém. Bastava fixar em
qualquer pessoa aqueles seus olhos que eram só
pupilas, e falar, contraindo os lábios: – Irmã Raquel,
você acredita nisso? Irmão Aarão, você acredita
nisso? – para que os raros sorrisos desaparecessem
das bocas dos parentes e os rostos voltassem a ter uma
expressão grave e atenta.

Certa noite, cheguei a Col Gerbido no momento em


que os huguenotes estavam rezando. Não diziam uma
palavra sequer, nem mantinham as mãos postas, nem
se ajoelhavam; ficavam eretos, formando uma fila no
vinhedo, os homens de um lado, as mulheres do outro
e no fundo o velho Ezequiel com a barba batendo-lhe
sobre o peito. Olhavam para a frente, com as mãos
fechadas que pendiam dos longos braços nodosos;
contudo, embora parecessem absortos, não perdiam a
noção daquilo que os circundava. Tobia esticou uma
das mãos e tirou uma lagarta de uma videira, Raquel
com apenas um golpe esmagou um caracol, e o
próprio Ezequiel tirou inesperadamente o chapéu da
cabeça para espantar os pássaros que tinham pousado
sobre os pés de trigo.

Em seguida, entoaram um salmo. Não se


lembravam das palavras, mas apenas da melodia, e
55
assim mesmo não muito bem, de modo que, com
freqüência, alguém desafinava ou talvez todos
desafinassem sempre, porém não desistiam nunca e,
terminada uma estrofe, começavam outra, sempre sem
pronunciar as palavras.

Senti um puxão no braço e deparei com o pequeno


Esaú que me fazia um sinal para ficar calado e
acompanhá-lo. Esaú tinha a minha idade; era o último
filho do velho Ezequiel; dos seus só tinha a expressão
do rosto que era dura e tensa, porém com um toque de
malícia marota. Afastamo-nos do vinhedo, de quatro,
enquanto ele me dizia:

– Vão ficar assim durante meia hora; que


amolação! Venha ver a minha choupana.

A choupana de Esaú era secreta. Escondia-se ali


para que os seus parentes não o encontrassem e não o
mandassem pastorear as cabras ou tirar os caracóis
das hortaliças. Passava ali dias inteiros no ócio,
enquanto seu pai o procurava, berrando pelos campos.

Esaú tinha um estoque de tabaco e, presos a uma


parede, havia dois compridos cachimbos de cerâmica.
Encheu um deles e queria que eu fumasse.

Ensinou-me a acendê-lo e soltava grandes rolos de


fumaça com uma avidez tal como eu jamais vira num
56
jovem. Aquela era a primeira vez que eu fumava;
sentime logo mal e desisti. Para me reanimar, Esaú
pegou uma garrafa de aguardente e serviu-me um
copo, o que me fez tossir e revolveu meus intestinos.
Ele a bebia como se fosse água.

– Eu custo muito a me embriagar – disse ele.


– Onde arranjou todas estas coisas que tem na
choupana? -, perguntei-lhe.

Esaú fez um movimento rápido com os dedos:


– São roubadas.

Tinha se tornado o chefe de uma turma de jovens


católicos que saqueavam os campos ao redor; não se
limitavam a arrancar todas as frutas das árvores, mas
também entravam nas casas. e nos galinheiros. E
praguejavam mais alto e com mais freqüência do que,
até mesmo, mestre Pietrochiodo: conheciam todas as
blasfêmias católicas e huguenotes e as trocavam entre
si.

– Mas cometo também muitos outros pecados –


explicou-me. – Levanto falso testemunho, me esqueço
de regar as vagens, não respeito pai e mãe, volto tarde
para casa. Agora quero cometer todos os pecados que
existem; mesmo aqueles que dizem não ser eu ainda
bastante adulto para entendê-los.

57
– Todos os pecados? – indaguei. – Até matar? Ele
encolheu os ombros. – Matar, por enquanto, não me
convém e não me adianta.

– Dizem que meu tio mata e manda matar por gosto


– disse-lhe, para ter alguma coisa minha para
contrapor a Esaú.

Esaú cuspiu.

– Um gosto idiota – disse.

Então trovejou e começou a chover lá fora.

– Vão procurá-lo – disse a Esaú. Comigo ninguém


se preocupava nunca, porém eu via como os outros
garotos eram sempre procurados pelos pais, sobretudo
quando o tempo ficava feio, e aquilo parecia-me uma
coisa importante.

– Esperemos por aqui mesmo até parar de chover –


disse Esaú. – Enquanto isto, vamos jogar dados.
Pegou uns dados e uma pilha de dinheiro. Dinheiro eu
não tinha, assim sendo joguei apitos, facas e
estilingue, e perdi tudo.

– Não fique desanimado – disse finalmente Esaú. –


Saiba: eu trapaceio.

58
Lá fora, trovões, relâmpagos e chuva a cântaros. A
choupana de Esaú foi se alagando. Ele colocou a salvo
o tabaco e outras coisas, e disse:

– Vai chover assim a noite inteira; convém


corrermos para casa para nos abrigarmos melhor.
Chegamos ao casebre do velho Ezequiel ensopados e
enlameados. Os huguenotes estavam sentados ao
redor da mesa, à luz de uma lamparina, e procuravam
se recordar de algum episódio da Bíblia, tendo o
cuidado de contá-lo como coisa que lhes parecesse ter
lido uma vez, de significado e verdade incertos.

– Peste e carestia! – gritou Ezequiel, batendo com o


punho sobre a mesa. A lamparina se apagou quando
seu filho Esaú e eu aparecemos no vão da porta.

Eu comecei a bater o queixo. Esaú encolheu os


ombros. Lá fora tinha-se a impressão que todos os
trovões e raios se descarregavam sobre Col Gerbido.
Enquanto reacendiam a lamparina, o velho, com os
punhos erguidos, enumerava os pecados de seu filho
como os mais nefandos que um ser humano jamais
tivesse cometido, mas só conhecia uma pequenina
parte deles. A mãe concordava, muda, e todos os
outros filhos, genros, noras e netos escutavam, o
queixo enfiado no peito e o rosto escondido entre as
mãos. Esaú mordiscava uma maçã como se aquele
sermão nada tivesse a ver com ele.
59
Eu, entre aqueles trovões e a voz de Ezequiel,
tremia como uma vara verde.

A repreensão foi interrompida pelo retorno dos


homens de guarda, com sacos fazendo às vezes de
capuz, todos encharcados de chuva. Os huguenotes
montavam guarda, em turnos, durante toda a noite,
armados de espingardas, foices e forcados para o feno,
a fim de evitar as incursões predatórias do visconde,
já então um inimigo declarado.

– Pai! Ezequiel! – disseram os huguenotes. Está


uma noite de cão. Certamente o manco não aparecerá.
Podemos ir para casa, pai?

– Não há sinais do estropiado por aí? – indagou


Ezequiel.

– Não, pai, a não ser o fedor de queimado que os


raios deixam. Esta não é noite para o caolho.

– Fiquem em casa, então, e mudem de roupa.

Que a tempestade traga paz ao descadeirado e a


nós.
O manco, o estropiado, o caolho, o descadeirado
eram alguns dos apelidos com que os huguenotes se
referiam a meu tio; nunca os ouvi chamá-lo por seu
60
verdadeiro nome. Eles revelavam nessas conversas
uma espécie de familiaridade com o visconde, como
se já o conhecessem há muito tempo, quase como se
ele fosse um velho inimigo. Trocavam entre si
pequenas frases acompanhadas de piscadelas de olhos
e risadinhas. – Eh, eh, eh, o estropiado... Isso mesmo,
o meio surdo... – como se todas as tenebrosas loucuras
de Medardo fossem, para eles, claras e previsíveis.

Estavam conversando assim quando, em meio à


tempestade, escutaram alguém bater à porta.

– Quem bate com um tempo destes? – perguntou


Ezequiel.

– Rápido, abram a porta.

Abriram e na soleira estava o visconde, de pé sobre


a única perna, envolto no manto negro gotejante, com
o chapéu de plumas ensopado.

– Amarrei meu cavalo no seu estábulo – disse. –


Acolham-me a mim também, eu lhes imploro. A noite
está horrível para o viajante.

Todos fitaram Ezequiel. Eu tinha me escondido


debaixo da mesa, para que meu tio não descobrisse
que freqüentava aquela casa inimiga.

61
– Sente-se diante da lareira – disse Ezequiel. – O
hóspede, nesta casa, é sempre bem-vindo.

Junto à soleira havia uma porção de lençóis


daqueles que se estendem sob as árvores para recolher
as azeitonas; Medardo acomodou-se ali e adormeceu.

Na escuridão, os huguenotes juntaram-se em torno


de Ezequiel.

– Pai, agora temos o manco em nossas mãos! –


murmuraram. – Devemos deixá-lo escapar? Devemos
permitir que cometa outros delitos contra os
inocentes? Ezequiel, não chegou a hora de o
descadeirado pagar pelo que já fez?

O velho levantou os punhos contra o teto.

– Peste e carestia! – gritou, caso se possa dizer que


grita quem fala sem quase emitir sons mas com toda a
sua força. – Na nossa casa, hóspede algum jamais foi
maltratado. Eu mesmo ficarei de guarda a fim de
proteger o sono dele.

E com a espingarda a tiracolo, postou-se ao lado do


visconde deitado. O olho de Medardo se abriu.
– O que faz aqui, mestre Ezequiel?

62
– Protejo o seu sono, hóspede. Muitos são aqueles
que o odeiam.

– Sei disto – retrucou o visconde -, não durmo no


castelo porque temo que os criados me assassinem
enquanto estou adormecido.

– Também aqui na minha casa não o amamos,


mestre Medardo. Porém, esta noite, será respeitado.

O visconde ficou um pouco em silêncio, em


seguida falou:

– Ezequiel, quero me converter à sua religião.

O velho não disse nada.

– Estou rodeado de gente desleal – continuou


Medardo. – Gostaria de me livrar de todos eles e
chamar os huguenotes para morarem no castelo. O
senhor, mestre Ezequiel, seria o meu ministro.
Declararia Terralba território huguenote e daria início
à guerra contra os príncipes católicos. O senhor e seus
parentes seriam os chefes. Está de acordo, Ezequiel?
Pode me converter?

O velho estava rígido, imóvel, com a alça do fuzil


atravessada em seu peito.

63
– Já me esqueci de muitas coisas da nossa religião –
disse -, para que ouse converter alguém. Permanecerei
nas minhas terras com a minha consciência. O senhor,
nas suas com a sua.

O visconde apoiou-se sobre o cotovelo.

– Sabe, Ezequiel, que ainda não comuniquei à


Inquisição a presença de hereges em meu território? E
que as suas cabeças mandadas de presente ao nosso
bispo me fariam cair logo nas boas graças da Cúria?

– Nossas cabeças ainda estão presas em nossos


pescoços, senhor – retrucou o velho -, porém há algo
que é ainda mais difícil de arrancar de nós.

Medardo pôs-se de pé e abriu a porta.

– Dormirei mais à vontade sob aquele carvalho lá


embaixo do que na casa de inimigos. – E saiu debaixo
de chuva.

O velho chamou os outros:

– Meus filhos, estava escrito que quem apareceria


primeiro para nos visitar seria o manco. Agora, já se
foi; o caminho da nossa casa está desimpedido; não
vos desespereis, filhos: talvez um dia passará um
viajante melhor.
64
Todos os huguenotes barbudos e as mulheres com
as toucas inclinaram a cabeça.

– E se também não aparecer ninguém – acrescentou


a mulher de Ezequiel -, ficaremos no nosso lugar.

Naquele momento um fulgor rasgou o ceu e o


trovão fez estremecer as telhas e as pedras das
paredes. Tobias gritou:

– O raio caiu sobre o carvalho! Agora está pegando


fogo!

Todos correram para o lado de fora carregando


lanternas e viram a enorme árvore carbonizada pela
metade, da copa à raiz; a outra metade estava intacta.
Ao longe, sob a chuva, escutaram o barulho dos
cascos de um cavalo e, sob a claridade de um
relâmpago, viram a figura de um cavaleiro delgado,
coberto por um manto.

– O senhor nos salvou, pai – disseram os


huguenotes. – Obrigado, Ezequiel.

O céu começava a clarear; a alvorada chegara. Esaú


chamou-me a um lado.

65
– Diga-me se não são uns idiotas – disse baixinho
para mim -, olhe o que fiz nesse meio tempo.

– Mostrou-me um punhado de objetos brilhantes.

– Tirei todas as tachas de ouro que havia na sela,


enquanto o cavalo estava amarrado no estábulo. Diga–
me se não foram uns idiotas por não pensarem nisto.

Este modo de agir de Esaú não me agradava, e o de


seus parentes deixava-me intimidado. E então preferi
ficar sozinho e ir até a marina para juntar moluscos e
pescar caranguejos. Enquanto estava sobre uma ponta
de recife tentando desencovar um caranguejinho, vi,
na água calma abaixo de mim, o reflexo de uma
lâmina sobre a minha cabeça e, com o pavor, caí no
mar.

– Segure aqui – disse o meu tio, porque era ele


quem tinha se aproximado pelas minhas costas. E
queria que agarrasse a sua espada, pelo lado da
lâmina.

– Não, me arranjarei sozinho – respondi, e trepei


sobre um esporão que um braço de água separava do
resto dos recifes.

– Gosta de caranguejos? – perguntou Medardo. –


Pois eu gosto dos polvos – e mostrou-me a sua presa.
66
Eram enormes polvos marrons e brancos. Estavam
cortados em dois com um golpe de espada, contudo
continuavam a movimentar os tentáculos.

– Assim, se todas as coisas inteiras pudessem ser


partidas ao meio – disse meu tio, agachado sobre o
recife, acariciando aquelas metades convulsas de
polvo -, todos teriam possibilidade de sair de sua
unidade obtusa e ignorante. Eu era inteiro e todas as
coisas eram, para mim, naturais e confusas, estúpidas
como o ar; acreditava ver tudo, porém era apenas
aparência. Se algum dia se transformar na metade de
si mesmo, e faço votos que isto lhe aconteça, rapaz,
compreenderá coisas que estão além da inteligência
comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade
de si e do mundo, porém a metade que sobrar será mil
vezes mais profunda e preciosa. E você também
desejará que tudo seja partido ao meio e estropiado à
sua semelhança, porque só existe beleza, sabedoria e
justiça naquilo que é feito aos pedaços.

– Hum, hum – dizia eu -, que monte de caranguejos


há aqui! – e fingia estar interessado apenas na minha
caça, para manter-me distante da espada de meu tio.
Não voltei para a beira da praia até que se tivesse
distanciado com seus polvos. No entanto, o eco de
suas palavras continuava a perturbar-me e não
encontrava resposta para esta sua fúria divisória. Para
qualquer lado que me voltasse, Trelawney,
67
Pietrochíodo, os huguenotes, os leprosos, todos
estavam sob o jugo do homem partido ao meio, era ele
o patrão a quem serviam e do qual não conseguiam se
libertar.

Amarrado à sela de seu cavalo saltador, Medardo di


Terralba subia e descia bem cedinho através dos
penhascos, e debruçava-se sobre o vale perscrutando
com olho de ave de rapina. Assim, viu a pastorinha
Pâmela em meio a um Prado junto com suas cabras.

O visconde pensou: “Entre os meus profundos


sentimentos, não possuo nada que corresponda àquilo
que os inteiros denominam amor. E se para eles um
sentimento tão tolo assim tem tamanha importância, o
que para mim poderá corresponder a isso será, sem
dúvida alguma, magnífico e terrível.”

E resolveu apaixonar-se por Pâmela que,


gorduchinha e descalça, tendo sobre o corpo um
vestidinho simples cor-de-rosa, estava deitada sobre a
relva, cochilando, falando com as cabras e cheirando
as flores.

Contudo, os pensamentos que ele tinha friamente


formulado não nos devem enganar. Ao ver Pâmela,
Medardo tinha sentido um movimento confuso no
sangue, algo que há muito tempo não experimentava,

68
e tinha chegado àquele raciocínio com uma espécie de
pressa amedrontada.

Ao meio-dia, ao voltar para casa, Pâmela viu que


todas as margaridas dos prados tinham apenas a
metade das pétalas e a outra metade da corola tinha
si~ do despetalada.

– Meu Deus do céu! – exclamou. – De todas as


moças do vale, tinha que acontecer logo comigo!
– Havia compreendido que o visconde se
apaixonara por ela. Colheu todas as meias-margaridas,
levou-as para casa e colocou-as entre as páginas do
missal.

Na parte da tarde foi ao prado das Monjas para


pastorear os patos e levá-los ao laguinho. O prado
estava salpicado de florezinhas brancas, mas estas
também estavam seccionadas como as margaridas,
como se parte das pétalas tivesse sido cortada com
uma tesourada.

– Pobre de mim! – lamentou-se. – Sou eu mesma


quem ele quer! – E colheu as flores partidas ao meio,
formando um ramo para pôr na moldura do espelho da
cômoda.

69
Depois não pensou mais naquilo, prendeu a trança
em volta da cabeça, tirou o vestido e tomou banho no
lago junto com seus patos.

À noite, voltando para casa pelo prado, viu que


estava repleto de dentes-de-leão, também chamados
“amor-dos-homens”. E Pâmela reparou que tinham
perdido as pluminhas de um lado só, como se alguém
tivesse se deitado no chão e soprado sobre uma parte,
ou com meia boca apenas. Pâmela colheu algumas
daquelas meias esferas brancas, soprou-as, e suas
macias pluminhas voaram para longe.

– Pobre de mim – disse -, ele me quer mesmo.


Como acabará isto?

O casebre de Pâmela era tão pequeno que depois de


ter levado as cabras para o andar de cima e deixado os
patos na parte de baixo, não cabia mais nada. Era
circundado por abelhas, porque também havia
colméias. E debaixo da terra havia uma porção de
formigueiros, bastava pousar a mão em qualquer lugar
para erguê-la negra e repleta de formigas. Desse jeito,
a mãe de Pâmela dormia no palheiro, o pai num tonel
vazio e Pâmela numa rede armada entre uma figueira
e uma oliveira.

Pâmela parou na soleirada porta. Ali estava uma


borboleta morta. Uma asa e metade do corpo tinham
70
sido esmagados com uma pedra. Pâmela soltou um
grito e chamou o pai e a mãe.

– Quem esteve aqui? – perguntou Pâmela.

– O nosso visconde passou por aqui, ainda há


pouco – responderam-lhe os dois. – Disse que estava
perseguindo uma borboleta que o tinha mordido.

– E desde quando borboleta morde alguém?


perguntou Pâmela.

– Ora, nós também lhe fizemos esta pergunta.


– A verdade é – disse Pâmela -, que o visconde
apaixonou-se por mim e devemos estar preparados
para o pior.

– Ha, ha, não fantasie, não exagere – responderam


os velhos, como sempre costumam responder os
velhos, quando não são os jovens que lhes respondem
assim.

No dia seguinte, quando chegou à pedra onde


costumava se sentar para pastorear as cabras, Pâmela
soltou um berro. Restos horrendos encontravam-se
sobre a pedra: uma metade de um morcego e a metade
de uma água-viva, uma destilando sangue negro e a
outra uma matéria viscosa, uma com a asa aberta e a
outra esparramando franjas gelatinosas. A pastorinha
71
entendeu que era uma mensagem. Queria dizer:
“Encontro esta noite à beira-mar!” Pâmela tomou
coragem e foi.

Sentou-se à beira do mar sobre as pedras, escutando


o rumor da onda branca. Em seguida ouviu um tropel
e Medardo surgiu a galope pela beira. Parou, soltou-se
e desceu da sela.

– Pâmela, eu resolvi me apaixonar por você disse


ele.

– E é por isso – protestou – que despedaça todas as


criaturas da natureza?

– Pâmela – suspirou o visconde -, não temos


nenhuma outra linguagem para nos falarmos a não ser
esta. Todo o encontro de dois seres no mundo é uma
dilaceração. Vem comigo, tenho conhecimento deste
mal e estará mais segura comigo do que com qualquer
outro; porque eu pratico o mal como todos o fazem;
contudo, diversamente dos outros, tenho a mão firme.

– E estraçalharia também, a mim como as


margaridas ou as águas-vivas?

– Não sei o que farei com você. Sem dúvida o fato


de a possuir haverá de me possibilitar coisas que nem
sequer imagino. Eu a levarei para o castelo e a
72
manterei lá, ninguém mais a verá, e teremos dias e
meses para entender o que deveremos fazer e inventar
sempre novas maneiras de estarmos juntos.

Pâmela estava deitada sobre o cascalho, e Medardo


tinha, se ajoelhado a seu lado. Falando, gesticulava,
contornando-a com a mão, mas sem a tocar.

– Pois muito bem; antes de mais nada devo saber o


que faria comigo. E bem que me poderia dar uma
amostra agora para que eu decida se devo ou não ir
para o castelo.

O visconde aproximou lentamente a sua mão


pequena e adunca da face de Pâmela. A mão tremia e
não se sabia se estava estendida para fazer uma carícia
ou um arranhão. Porém nem tinha chegado a tocála
quando encolheu a mão de repente e ergueu-se.

– É no castelo que a quero – disse, montando com


dificuldade. – Vou preparar a torre onde viverá. Deixo
que pense mais um dia sobre o assunto e depois
deverá ter tomado a sua decisão. – E assim falando
meteu as esporas no cavalo e disparou pela praia
afora.

No dia seguinte, Pâmela subiu como de hábito na


amoreira para colher seus frutos e, em meio à copa,
escutou gemidos e um frenético bater de asas. Por
73
pouco não despencou da árvore de tanto susto. Num
ramo alto havia um galo amarrado pelas asas, e
lagartas enormes, azuis e peludas, o estavam
devorando: um ninho de processionárias, insetos
nocivos que vivem nos pinheiros, tinha sido colocado
exatamente sobre a sua cabeça.

Era, sem dúvida, outra mensagem horrível do


visconde. E Pâmela interpretou-a: “Amanhã, ao
amanhecer, nos veremos no bosque.”

Com a desculpa de encher um saco com pinhas,


Pâmela foi até o bosque, e Medardo surgiu de repente,
por detrás de um tronco, apoiado na sua muleta.

– Então – perguntou a Pâmela -, resolveu ir para o


castelo?

Pâmela estava deitada sobre as ramas dos pinheiros.

– Decidi não ir – disse, virando-se só um pouco. –


Se me quer, venha me encontrar aqui no bosque.

– Irá para o castelo. A torre onde irá viver já está


preparada e ali será dona de tudo.

– O senhor quer me manter prisioneira ali e depois,


quem sabe?, deixar que um incêndio me consuma ou

74
os ratos me roam. Não, não. Já lhe disse: serei sua se o
quiser, mas aqui sobre as ramas dos pinheiros.

O visconde tinha se agachado junto à cabeça dela.


Tinha uma rama de pinheiro na mão: aproximou-a de
seu pescoço e passou-a ao redor. Pâmela percebeu que
tinha ficado toda arrepiada, mas não se mexeu. Via o
rosto do visconde inclinado sobre ela, aquele perfil
que continuava sendo um perfil mesmo quando visto
de frente, e aquela meia fieira de dentes descobertos
por um sorriso anguloso. Medardo apertou a rama no
punho e espatifou-a. Pôs-se de pé.

– É fechada no castelo que quero tê-la, é fechada no


castelo!

Pâmela percebeu que podia se arriscar, e mexia os


pés descalços no ar, dizendo:

– Aqui, no bosque, não digo que não; trancafiada,


nem morta.

– Saberei muito bem levá-la comigo! – disse


Medardo, colocando a mão sobre o dorso do cavalo
que tinha se aproximado como se casualmente
passasse por ali. Subiu no estribo e esporeou,
retirando-se a galope por entre as veredas da floresta.

75
Naquela noite, Pâmela dormiu na sua rede
pendurada entre a oliveira e a figueira e, pela manhã,
que horror! encontrou no colo uma carniça pequena e
sanguinolenta. Era a metade de um esquilo, cortado ao
meio como de hábito, mas com a cauda fulva intacta.

– Meu Deus, pobre de mim! – disse aos pais. – Este


visconde não me deixa viver.

O pai e a mãe passaram de mão em mão a carniça


do esquilo.

– No entanto – disse o pai -, deixou a cauda inteira.


Talvez seja um bom sinal...

– Talvez ele esteja ficando bom... – disse a mãe.

– Sempre corta tudo em duas metades – disse o pai


-, mas aquilo que o esquilo tem de mais bonito, a
cauda, ele respeita...

– Esta mensagem talvez signifique – observou a


mãe – que tudo aquilo que você tem de bom e de belo
ele respeitará...

Pâmela pôs as mãos na cabeça.

76
– Que coisa escuto de vocês, meu pai e minha mãe!
Há algo de estranho por aqui: o visconde conversou
com vocês...

– Conversar não conversou – disse o pai mas nos


mandou dizer que quer vir aqui e que vai dar um jeito
na nossa pobreza.

– Pai, se vier falar com você, descubra as colméias


e deixe que as abelhas o ataquem.

– Minha filha, talvez mestre Medardo esteja


ficando melhor... – disse a velha.

– Mãe, se aparecer para falar com você, amarre-o


no formigueiro e deixe-o lá.

Naquela noite, o palheiro onde dormia a mãe pegou


fogo e o tonel onde dormia o pai espatifou-se. De
manhã, os dois velhinhos contemplavam os restos do
desastre quando apareceu o visconde.

– Sinto muito tê-los assustado esta noite – disse


porém não sabia como abordar o assunto. O fato é que
gosto de sua filha Pâmela, e quero levá-la comigo
para o castelo. Portanto, peço-lhes, formalmente, que
me dêem a sua mão. A vida dela mudará, e também a
de vocês.

77
– Imagine se não ficaríamos contentes, senhor! –
disse o velhinho. – Porém, se soubesse que gênio tem
a minha filha! Veja só, disse para atiçarmos as abelhas
das colmeias em cima do senhor..

– Imagine só, senhor... – disse a mãe -, imagine que


ela mandou que o amarrássemos no formigueiro...

A sorte é que Pâmela voltou mais cedo para casa


naquele dia. Encontrou o pai e a mãe amarrados e
amordaçados, um numa colmeia, a outra sobre o
formigueiro. E a sorte foi que as abelhas conheciam o
velho e as formigas tinham mais o que fazer do que
morder a velha. Assim, pôde salvar os dois.

– Viram como o visconde ficou bom? – perguntou


Pâmela.

Mas os dois velhinhos engendravam alguma coisa.


E no dia seguinte, amarraram Pâmela e trancafiaram-
na em casa com os animais; e dirigiram-se ao castelo
para dizer ao visconde que se queria a sua filha podia
mandar buscá-la, que eles estavam dispostos a
entregá-la a ele.

Porém, Pâmela sabia conversar com seus animais.


Os patos soltaram-na dos nós com bicadas e as cabras,
com chifradas, arrombaram a porta. Pâmela fugiu,
levou consigo a cabra e a pata preferida, e foi viver no
78
bosque. Ficou numa gruta que somente ela e um
menino conheciam, e este levava-lhe, comida e
notícias.

Aquele menino era eu. A vida era bela com Pâmela


no bosque. Levava-lhe frutas, queijo e peixes fritos, e
ela, em troca, dava-me algumas xícaras de leite de
cabra e alguns ovos da pata. Quando ela tomava
banho nos lagos e nos córregos, eu montava guarda
para que ninguém a visse.

Às vezes o meu tio passava pelo bosque, contudo


mantinha-se ao largo, se bem que manifestasse a sua
presença de forma triste, como de costume. Às vezes
uma avalanche de pedras caía bem junto a Pâmela e
seus animais; outras vezes, um tronco de pinheiro no
qual ela se encostava cedia, solapado na base por
golpes de machado; e ainda outras vezes, descobria-se
uma fonte poluída por restos de animais mortos.

Meu tio tinha começado a caçar, com uma balestra


que conseguia manobrar com um só braço. No
entanto, tinha se tornado ainda mais taciturno e
engenhoso, como se novas penas corroessem aquele
rebotalho de seu corpo.

Um dia, o doutor Trelawney andava comigo pelos


campos quando o visconde veio a galope em nossa
direção e investiu o cavalo de encontro a ele, fazendo-
79
o cair. O cavalo parou com a pata sobre o peito do
inglês, e meu tio. disse:

– Quero que me explique uma coisa, doutor. Sinto


como se a perna que não tenho estivesse cansada de
tanto andar. O que pode ser isto?

Trelawney atrapalhou-se e balbuciou algo, como de


hábito, e o visconde afastou-se a galope. Porém a
pergunta deve ter impressionado o doutor, que
começou a refletir sobre a questão, com as mãos na
cabeça. Jamais o vira tão interessado numa questão
que envolvesse a medicina humana.

80
VII

Ao redor de Pratofungo cresciam moitas de hortelã,


pimenta e rosmaninho, e não se sabia se eram
silvestres ou se faziam parte de uma horta de ervas
aromáticas. Eu perambulava por ali com o peito cheio
do ar adocicado, procurando o caminho para ver a
velha Sebastiana.

Desde que Sebastiana havia desaparecido pelo


caminho que levava à aldeia dos leprosos, lembrava-
me com muito mais freqüência da minha condição de
órfão. Sentia-me desesperado por não saber nada
sobre ela; pedia notícias a Galateo, gritando de cima
da copa de uma árvore quando o via passar; mas
Galateo era inimigo das crianças que, às vezes, lhe
atiravam lagartixas vivas lá das copas das árvores, e
dava-me respostas escarnecedoras e incompreensíveis,
com a sua voz melosa e estridente. E, agora, a
curiosidade de entrar em Pratofungo juntava-se à
vontade de reencontrar a babá, e perambulava
inquieto em meio às moitas recendentes.

E eis que de um monte de tomilho ergueu-se uma


figura usando roupa clara, com um chapéu de palha,
que se pôs a caminhar na direção da aldeia. Era um
velho leproso. Queria pedir-lhe notícias da babá e,
aproximando-me apenas o suficiente para me fazer
ouvir, disse, sem gritar: – Hei, senhor leproso!
81
Contudo, naquele momento, talvez desperta por
minhas palavras, bem pertinho de mim, outra pessoa
ergueu parte do corpo e espreguiçou-se. Tinha o rosto
todo enrugado como uma casca seca, uma barba rala,
branca e lanosa. Tirou do bolso um apito e soprou-o
na minha direção, como se zombasse de mim. Dei-me
conta, então, que naquela tarde ensolarada vários
leprosos estavam deitados entre as moitas. Agora
levantavam-se bem devagarinho, metidos em seus
camisolões de cor clara e andavam, contra a luz, rumo
a Pratofungo, carregando nas mãos instrumentos
musicais ou apetrechos de jardinagem, fazendo
barulho com eles. Eu tinha recuado para afastar-me
daquele homem barbudo, porém quase acabei caindo
em cima de uma leprosa sem nariz que estava se
penteando em meio às folhas de um loureiro. Por mais
que pulasse pelas moitas, sempre deparava com outros
leprosos, e percebi que meus passos só podiam me
levar em direção a Pratofungo, cujos tetos de palha
enfeitados com bandeirinhas coloridas já estavam
agora muito próximos, aos pés daquele declive.

Os leprosos só se voltavam na minha direção de


vez em quando, com piscadelas de olhos e acordes de
gaita, porém tinha a impressão de que exatamente eu
era o centro daquela caminhada, e que estavam me
levando a Pratofungo como um animal capturado. Na
aldeia, as paredes das casas eram pintadas de lilás e
82
numa janela uma mulher meio maltrapilha, com
manchas roxas no rosto e no peito, segurando uma
lira, gritou: – Os jardineiros voltaram! – e tocou a lira.
Outras mulheres apareceram nas janelas e nos
mirantes agitando chocalhos e cantando: – Sejam
bemvindos, jardineiros!

Eu tomava cuidado para me manter no meio


daquela viela sem tocar em ninguém; porém, vi-me
como que numa encruzilhada, com leprosos à minha
volta, homens e mulheres sentados nas soleiras de
suas casas, com os camisolões rasgados e desbotados,
através dos quais viam-se os tumores e as partes
íntimas, e com flores de pilriteiro e anemonas entre os
cabelos.

Os leprosos davam um pequeno concerto que diria


ser em minha homenagem. Alguns inclinavam os
violinos na minha direção com movimentos
exagerados dos arcos, outros, assim que olhava para
eles, faziam um barulho parecido com o das rãs,
outros mostravam-me estranhos fantoches que subiam
e desciam por um fio. O concerto era feito exatamente
de todos esses pequenos gestos e sons disparatados,
porém havia uma espécie de estribilho que era
repetido de quando em quando: – O pintinho sem
mancha,foi procurar amoras e se manchou.

83
– Estou procurando a minha babá – disse bem alto a
velha Sebastiana. – Sabem onde está? Caíram na
gargalhada, com aquele seu ar esperto e maligno.

– Sebastiana! – gritei. – Sebastiana! Onde está


você?

– Aqui, menino – disse um leproso. – Fique


sossegado. – E apontou para uma porta.

A porta abriu-se e por ela saiu uma mulher


esverdeada, talvez sarracena, seminua e tatuada, tendo
sobre o corpo uma porção de rabiolas de pipa, que
iniciou uma dança libidinosa. Não compreendi muito
bem o que aconteceu depois. Homens e mulheres
atiraram-se uns por cima dos outros e começaram
aquilo que, mais tarde, vim a saber que se tratava de
uma orgia.

Encolhi-me todo, tentando me esconder, quando


repentinamente a grande e velha Sebastiana destacou-
se daquele círculo.

– Seus imundos – disse. – Tenham ao menos um


pouco de respeito por uma alma inocente. Segurou-me
por uma das mãos e levou-me dali enquanto eles
cantavam: O pintinho sem mancha foi procurar
amoras e se manchou.

84
Sebastiana usava um vestido feito com um tecido
roxo-claro, de feitio quase monacal, e algumas
manchas já alteravam suas maçãs do rosto sem rugas.
Sentia-me feliz por ter reencontrado a babá, mas
desesperado por ela ter segurado a minha mão e, sem
dúvida, me contaminado com a lepra. E disse-lhe isto.

– Não tenha medo – retrucou Sebastiana -, meu pai


era um pirata e meu avô um eremita. Conheço as
propriedades de todas as ervas contra as moléstias,
sejam nossas ou mouras. Eles esfregam o orégano e a
malva pelo corpo; eu, ao contrário, bem quietinha,
preparo para mim tisanas de borragem e mastruço, por
isso a lepra nunca me atacará.

– Mas, e essas manchas que vejo no seu rosto,


babá? – perguntei, bastante aliviado mas não
totalmente persuadido.

– É colofónio. Para que pensem que eu também


estou leprosa. Vem comigo e lhe darei para beber uma
das minhas tisanas, bem quente, porque para se andar
por aqui, toda prudência é pouca.

Tinha me levado para a sua casa, um casebre um


pouco afastado, limpo, com a roupa dependurada; e
conversamos.

85
– E Medardo? E Medardo? – indagava ela, e cada
vez que eu falava me tirava a palavra da boca.

– Ah, que patife! Ah, que malandrinho,


Apaixonado! Oh, pobre moça! E por aqui, não
imagina! Se soubesse quantas coisas desperdiçam!
Coisas que deixamos de comer para dar a Galateo, e
sabe o que fazem com elas por aqui? Aquele tal de
Galateo não presta pra nada, sabe? Um sujeito mau, e
não é só isso! As coisas que fazem à noite! E de dia,
então! E estas mulheres, desavergonhadas como
ninguém! Se ao menos soubessem arrumar as coisas,
mas nem isto! Bagunceiras e maltrapilhas! Ah!, disse-
lhes isto bem na cara... E elas, sabe o que me
responderam?

Muito contente por ter feito esta visita à babá, fui,


no dia seguinte, pescar enguias.

Lancei a linha num laguinho da torrente, enquanto


esperava, adormeci. Não sei quanto tempo dormi; um
barulho despertou-me. Abri os olhos e vi uma mão
erguida sobre a minha cabeça e, sobre aquela mão,
uma aranha peluda e vermelha. Virei-me e ali estava
meu tio com seu manto negro.

Assustado, pus-me de pé com um pulo, porém


naquele instante a aranha mordeu a mão de meu tio e

86
desapareceu mais do que depressa. Meu tio levou a
mão aos lábios, chupou de leve o ferimento e disse:

– Você estava dormindo e vi uma aranha venenosa


descendo daquele galho direto para o seu pescoço.
Coloquei minha mão na sua frente e veja o que
aconteceu: fui mordido.

Não acreditei numa só palavra; por três vezes já


tinha atentado contra a minha vida com métodos
parecidos. Mas, realmente, aquela aranha tinha
mordido a mão dele e esta começava a inchar.

– Você é meu sobrinho – disse Medardo.

– Sou – concordei um pouco surpreso porque era a


primeira vez que demonstrava me reconhecer.
– Reconheci-o logo – disse ele. E acrescentou:

– Ah, aranha! Essa é a única mão que tenho e você


a quer envenenar! Mas, não há dúvida, é melhor eu ter
sido mordido na mão do que este menino no pescoço.

Que eu soubesse, nunca o meu tio havia falado


assim. A dúvida de que estivesse falando a verdade e
que, de repente, tivesse ficado bom passou-me pela
cabeça, mas logo afastei isso do pensamento:
fingimentos e ardis eram habituais nele. Sem dúvida,
parecia estar muito diferente, com uma expressão que
87
não era mais tensa e cruel, mas sim lânguida e aflita,
talvez devido ao medo e à dor da mordida. Contudo, o
que me dava aquela impressão eram também suas
roupas empoeiradas e um pouco diferentes das que
costumava usar: o seu manto negro estava um pouco
rasgado, e a gola cheia de folhas secas e cascas de
castanhas grudadas; a roupa também não era de
veludo negro, como de costume, mas de fustão
surrado e desbotado, e a perna não estava enfiada na
bota de couro de cano alto, mas numa meia de lã
listada de azul e branco.

Para demonstrar que não estava interessado nele,


fui ver se uma enguia não teria abocanhado a minha
isca. Não havia nenhuma enguia, porém deparei com
um anel de ouro e diamante enfiado no anzol. Puxei a
linha para fora d’água e sobre a pedra vi o brasão dos
Terralba.

O visconde seguia-me com os olhos e disse:


– Não se surpreenda. Passando por aqui, vi uma
enguia debatendo-se no anzol, fiquei com tanta pena
que a soltei; depois, pensando no mal que meu gesto
faria ao pescador, desejei compensá-lo com o meu
anel, última coisa de valor que me resta.

Fiquei boquiaberto. Medardo prosseguiu:

88
– Ainda não sabia que o pescador era você. A seguir
encontrei-o adormecido no meio da relva e o prazer de
vê-lo transformou-se logo em preocupação por causa
daquela aranha que descia sobre você. O resto, já
sabe. – E assim falando olhou, com tristeza, a mão
inchada e roxa.

Podia ser que tudo não passasse de uma sucessão


de cruéis enganos; mas eu pensava como seria bonita
uma inesperada mudança de seus sentimentos e
quanta alegria também proporcionaria a Sebastiana, a
Pâmela, a todas as pessoas que sofriam por sua
crueldade.

– Tio – disse a Medardo -, espere-me aqui. Vou


correndo procurar a babá Sebastiana que conhece
todas as ervas e pedirei a ela que me dê uma que cure
picada de aranha.

– A babá Sebastiana... – murmurou o visconde,


deitado com a mão sobre o peito. – Como está ela,
afinal?

Não confiava nele a ponto de revelar que


Sebastiana não tinha sido contaminada pela lepra, e
limitei-me a dizer: – Ah, mais ou menos. Já estou
indo. E afastei-me correndo, desejando acima de tudo
perguntar a Sebastiana o que pensava a respeito destes
estranhos fenômenos.
89
Encontrei a babá em seu casebre. Estava ofegante
devido à corrida e à pressa, por isso fiz-lhe um relato
um tanto confuso; contudo, a velha mostrou-se mais
interessada na picada do que nos atos de bondade de
Medardo.

– Uma aranha vermelha, foi o que disse? Sim, sim,


conheço a erva adequada... Certa vez, um lenhador
com o braço inchado... Ficou bom, foi o que falou?
Ora, o que quer que eu lhe diga? Sempre foi um rapaz
assim, você também tem que saber como lidar com
ele... Mas onde enfiei a erva? Basta fazer um
emplastro. Desde pequeno sempre foi um patife, o
Medardo... Pronto eis aqui a erva, eu a tinha posto
dentro de um saquinho... Porém, é sempre assim:
quando se machucava vinha chorar na barra da saia da
babá... A picada é profunda?

-A mão esquerda está inchada assim respondi-lhe.

– Ah, ah, menino... – A babá riu. – A esquerda... E


onde Mestre Medardo tem a mão esquerda? Deixou-a
lá na Boémia com aqueles turcos, que o diabo os
carregue, deixou lá toda a metade esquerda do seu
corpo...

90
– É, é isso mesmo – concordei com ela -, mas ainda
assim... ele estava lá, eu estava aqui, ele estava com a
mão virada assim... Como é possível?

– Agora já não diferencia a esquerda da direita? –


observou a babá. – E aprendeu isto quando tinha cinco
anos... Não conseguia entender mais nada. Sem
dúvida, Sebastiana tinha razão, eu, no entanto,
lembrava de tudo ao contrário.

– Leve esta erva para ele, direitinho – disse a babá,


e eu saí correndo.

Cheguei ofegante ao rio, mas meu tio não se


encontrava mais lá. Olhei por todos os cantos da
redondeza: tinha desaparecido com a mão inchada e
envenenada.

Caía a noite e eu perambulava em meio às oliveiras.


E eis que o vejo, envolvido no manto negro, de pé
próximo à margem, apoiado num tronco. Estava de
costas para mim e olhava na direção do mar. Senti-me
dominar pelo pavor novamente; com dificuldade e
com um fio de voz, consegui dizer:

– Tio, aqui está a erva para a picada...

O meio rosto virou-se logo, contraído por uma


careta horrível.
91
– Que erva? Que picada? – berrou.

– A erva para curar... – disse.

Mas aquela expressão doce de antes havia


desaparecido, tinha sido um momento passageiro;
agora, talvez, ela reaparecia em um sorriso amplo,
porém via-se perfeitamente bem que era fingimento.

– Está bem... muito bem... coloque-a no buraco


daquele tronco... irei apanhá-la mais tarde... disse.

Obedeci e meti a mão no buraco. Era um ninho de


marimbondos. Voaram todos na minha direção.
Comecei a correr, seguido pelo enxame, e atirei-me
dentro d’água. Nadei por debaixo d’água e consegui
dispersá-los. Erguendo a cabeça, escutei a risada
tétrica do visconde, que se afastava.

Mais uma vez tinha conseguido nos enganar.


Contudo, havia muitas coisas que eu não entendia e
fui procurar o doutor Trelawney para trocarmos idéias
a respeito. O inglês estava na sua casinha de coveiro,
à luz de uma lamparina, debruçado sobre um livro de
anatomia humana, coisa rara.

92
– Doutor – perguntei-lhe -, já aconteceu alguma vez
de um homem picado por uma aranha vermelha ter
saído incólume?

– Aranha vermelha? Foi o que disse? – o doutor deu


um pulo. – Quem mais a aranha vermelha picou?

– O meu tio, o visconde – respondi-lhe -, e já tinha


levado para ele a erva da babá quando ele, que agora
parecia bom, voltou a ser mau e recusou o meu
auxílio.

– Ainda há pouco tratei do visconde, cuja mão


havia sido picada por uma aranha vermelha – disse
Trelawney.

– E diga-me, doutor: ele lhe pareceu bom ou mau?

Então o doutor contou-me como tudo tinha


acontecido.

Depois de eu ter deixado o visconde deitado sobre a


relva com a mão inchada, o doutor Trelawney passara
por lá. Deu-se conta da presença do visconde e,
dominado, como sempre, pelo medo, tentou se
esconder atrás das árvores. Porém Medardo tinha
ouvido passos; levantou-se e gritou– – Quem está aí?
O inglês pensa: “Se descobre que sou eu quem se
esconde, sabe-se lá o que vai aprontar contra mim!” –
93
e foge para não ser reconhecido. Contudo, tropeça e
cai no laguinho da torrente. Embora tivesse passado a
vida em navios, o doutor Trelawney não sabe nadar,
debate-se no meio do laguinho e grita por socorro.
Então o visconde disse: – Espere-me!

E vai até a margem, entra n’água, segurando-se,


com a mão doendo, à raiz de uma árvore que aflora na
superfície, e estica o pé até que o doutor possa agarrá-
lo. Comprido e fino como é, faz as vezes de uma
corda para que o doutor possa alcançar a margem.

O doutor se salva e balbucia: – Oh, oh, Milord...


muito obrigado, realmente, Milord... como posso... E
espirra bem no rosto do visconde, pois pegara um
resfriado.

– Saúde! – diz Medardo -. Mas cubra-se, por favor.


– E coloca-lhe nos ombros o seu manto.

O doutor tenta se desvencilhar, mais confuso do


que nunca. E o visconde lhe diz:

– Pode ficar com ele, é todo seu.

Então, Trelawney percebe a mão inchada de


Medardo.

– Qual foi o bicho que o picou?


94
– Uma aranha vermelha.

– Deixe-me tratar disso, Milord.

E leva-o ate a casinha de coveiro, onde trata da sua


mão com remédios e a enfaixa. Enquanto isto, o
visconde conversa com ele cheio de humanidade e de
cortesia. Despedem-se com a promessa de que em
breve iriam se rever e reforçar os laços de amizade.

– Doutor! – exclamei, após ter escutado o seu


relato. – O visconde de quem o senhor tratou, voltou
logo depois a ficar dominado por sua loucura cruel e
mandou que eu colocasse a mão num vespeiro.

– Não aquele de quem tratei – disse o médico, e


piscou o olho.

– O que quer dizer com isto?

– Vai saber logo. Agora não conte nada para


ninguém. E deixe-me estudar, pois tempos difíceis se
aproximam.

O doutor Trelawney me deixou de lado:


aprofundou-se naquela sua incomum leitura do tratado
de anatomia humana. Devia ter em mente algum
plano, e durante todos os dias que se seguiram,
manteve-se reticente e absorto.
95
Contudo, começavam a chegar notícias de vários
lugares sobre a dupla natureza de Medardo. Crianças
perdidas no bosque eram alcançadas pelo meio
homem de muleta e, apavoradas, eram levadas por sua
mão até em casa e dele recebiam figos e filhos; pobre
viúvas eram ajudadas por ele ao transportarem molhos
de lenha; cães mordidos por víboras eram tratados,
presentes misteriosos eram encontrados pelos pobres
nos peitoris das janelas e nas soleiras das portas,
árvores frutíferas arrancadas pelo vento eram
endireitadas e escoradas antes que os proprietários
saíssem de suas casas.

Porém, ao mesmo tempo, as aparições do visconde


meio envolto no manto negro marcavam
acontecimentos tétricos: crianças raptadas eram mais
tarde encontradas presas em grutas obstruídas por
pedras; avalanches de troncos e pedras despencavam
sobre as velhinhas; abóboras que tinham acabado de
amadurecer eram espatifadas em mil pedaços por puro
espírito de destruição.

A palestra do visconde já há muito atingia apenas


as andorinhas; e de um modo que não as matava, mas
somente as feria e estropiava. Contudo, agora
começavam a aparecer no céu andorinhas com as
patinhas enfaixadas e presas a talas, ou com as asas
coladas ou emplastadas; havia todo um bando de
96
andorinhas cuidadas desse modo que voavam juntas e
com prudência, como se fossem convalescentes de um
hospital de passarinhos, e, coisa inacreditável,
comentava-se que o próprio Medardo era o médico
delas.

Certa vez, um temporal surpreendeu Pâmela com


sua cabra e sua pata num local longínquo e agreste.
Sabia que ali por perto havia uma gruta, embora
pequena, somente uma minúscula cavidade na rocha,
e para lá se dirigiu. Viu que saía, lá de dentro, uma
bota rota e remendada, e observou um meio corpo
encolhido e envolto no manto negro. Já se preparava
para fugir, porém o visconde já a tinha visto e, saindo
sob a chuva ruidosa, disse-lhe:

– Venha, minha jovem, abrigue-se aqui.

– Não, não me abrigarei aí – disse Pâmela porque


só cabe uma pessoa, e o senhor quer me ver
esmagada.

– Não tenha medo – retrucou o visconde.


Permanecerei do lado de fora e você poderá ficar à
vontade, junto com sua cabra e sua pata.

– A cabra e a pata vão acabar se molhando.

97
– Verá como também podemos abrigá-las. Pâmela,
que tinha ouvido os comentários sobre os estranhos
acessos de bondade do visconde, falou:

– Vejamos, então. – Encolheu-se dentro da gruta,


colocando-se bem juntinho dos dois animais.

O visconde, todo empertigado diante da entrada,


mantinha o manto como se fora um toldo, para que
nem mesmo a pata e a cabra se molhassem.

Pâmela olhou a mão dele que segurava o manto,


ficou por um momento pensativa, começou a olhar as
próprias mãos, comparou uma à outra, e depois
explodiu numa gargalhada.

– Estou contente ao vê-la alegre, garota – disse o


visconde -, mas, se me permite perguntar-lhe, por que
está rindo?

– Rio porque entendi aquilo que está deixando


todos os meus companheiros malucos.

– E o que é?

– Que o senhor é um pouco bom e um pouco mau.


Agora tudo é natural.

– E por quê?
98
– Porque me dei conta de que o senhor é a outra
metade. O visconde que vive no castelo, aquele mau,
é uma metade. E o senhor é a outra metade, que todos
pensavam. que se tivesse perdido na guerra e agora
voltou. É uma metade boa.

– É muita gentileza. Obrigado.

Oh, é assim mesmo, não estou querendo elogiá-lo.

Eis, portanto, a história de Medardo, como Pâmela


descobriu naquela noite. Não era verdade que a bala
do canhão tivesse estilhaçado parte de seu corpo: ele
tinha sido separado em duas metades; uma foi
encontrada pelas pessoas do exército que recolhiam os
corpos; a outra ficou sob uma pilha de restos mortais
de cristãos e turcos e não foi localizada. No meio da
noite, passaram pelo campo dois eremitas, não se sabe
muito bem se fiéis à religião verdadeira ou
necromantes, os quais, como acontece a determinadas
pessoas nas guerras, tinham se limitado a viver nas
terras desertas entre os dois campos e talvez,
comentava-se agora, tentassem servir ao mesmo
tempo à Trindade cristã e ao Alá de Maomé. Aqueles
eremitas,, na sua estranha piedade, ao encontrarem o
corpo de Medardo partido ao meio, levaram-no para
sua caverna, e ali, com bálsamos e ungüentos por eles
preparados, o medicaram e salvaram. Tão logo
99
recobrou as forças, o ferido se despediu de seus
salvadores e, partindo com sua muleta, percorreu
durante meses e anos os países cristãos para retornar
ao seu castelo, maravilhando todas as pessoas ao
longo do caminho com seus atos de bondade.

Após ter relatado a própria história para Pâmelaa, o


meio-visconde bom pediu à pastorinha que lhe
contasse a sua. Pâmela explicou como o Medardo mau
a insidiava, como tinha fugido de casa e agora
perambulava pelos bosques.

O Medardo bom comoveu-se com a história de


Pâmela e partilhou sua piedade entre a virtude
perseguida da pastorinha, a tristeza sem consolo do
Medardo mau e a solidão dos pobres pais de Pâmela.

– Ora, aqueles dois! – exclamou Pâmela. Meus pais


são dois velhos malandros. Não deve sentir pena
deles.

– Ah, Pâmela, pense neles, como devem estar


tristes agora na sua casa velha, sem ninguém que
cuide deles e que trabalhe no campo e no estábulo.

– Queria que o estábulo lhes caísse sobre a cabeça?


– exclamou Pâmela. – Começo a ver que o senhor é
um pouco bondoso demais e, em vez de ficar zangado
com sua outra metade por todas as coisas ruins que
100
apronta, quase dá a impressão de também sentir pena
dela.

– E como poderia deixar de sentir? Sei o que


representa ser a metade de um homem, não posso
deixar de sentir pena dele.

– Mas o senhor é diferente; também é um pouco


maluco, porém é bom.

Então o bom Medardo disse:

– Ah, Pâmela, esta é a virtude de um ser partido ao


meio: entender o sofrimento de cada pessoa e coisa do
mundo diante da própria imperfeição. Eu estava
inteiro e não entendia, movimentava-me surdo e
incomunicável entre os sofrimentos e as feridas
disseminados por todos os lados. Pâmela, não sou
apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você
também o é, assim como todo mundo. Portanto,
possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não
conhecia: aquela com todas as mutilações e todas as
carências do mundo. Se vier comigo, Pâmela,
aprenderá a tolerar os males de cada um e a curar os
seus ao curar os dos outros.

– Isto é muito bonito – disse Pâmela -, porém


encontro-me numa situação dificílima, com aquele

101
outro seu pedaço que se apaixonou por mim e não se
sabe o que pretende fazer comigo.

Meu tio soltou o manto porque o temporal tinha


parado.

– Também estou apaixonado por você, Pâmela.


Pâmela saiu da gruta.

– Que alegria! O arco-íris está no céu e encontrei


um novo apaixonado. Dividido este também, porém
uma boa alma.

Caminhavam sob ramos ainda gotejantes por


caminhos totalmente enlameados. A meia boca do
visconde arqueava-se num doce e completo sorriso.

– Muito bem, o que faremos? – perguntou Pâmela.

– Acho que deveríamos ir à casa de seus pais,


pobrezinhos, para ajudá-los um pouco em suas tarefas.
– Vai você, se está com vontade – disse Pâmela.

– Eu estou com vontade de ir, sim, querida retrucou


o visconde.

– E eu fico aqui – replicou Pâmela, e parou ao lado


da cabra e da pata.

102
– O único meio de nos amarmos é praticando,
juntos, boas ações.

– Que lástima! Pensava que houvesse outras


maneiras.

– Adeus, querida. Vou lhe trazer um pedaço de torta


de maçã. – E afastou-se pelo caminho, apoiando-se
sobre a muleta.

– O que me diz disto, cabra? O que lhe parece,


patinha? – perguntou Pâmela, sozinha com seus
animais. – Será que só me aparecem tipos como esse?

103
VIII

A partir do momento em que todos ficaram sabendo


que a outra metade do visconde havia reaparecido, tão
cheia de bondade quanto a primeira de maldade, a
vida em Terralba modificou-se muito.

Pela manhã, eu acompanhava o doutor Trelawney


em suas visitas aos doentes; porque o doutor, pouco a
pouco, tinha recomeçado a praticar a medicina e a se
dar conta dos muitos males que acometiam a nossa
gente, a quem já faltava fibra, como conseqüência da
longa carestia dos tempos passados; males com os
quais nunca se preocupara antes.

Andávamos pelas veredas dos campos e víamos os


sinais indicadores da presença prévia do meu tio. Isto
é, meu tio bom, que todas as manhãs visitava não
apenas os enfermos, mas também os pobres, os
velhos, qualquer pessoa que tivesse necessidade de
auxílio.

No pomar de Bacciccia, a romãzeira tinha as frutas


maduras envoltas, uma a uma, em um pedaço de pano.
Ficamos sabendo que Baccicia estava com dor de
dente. Meu tio havia enfaixado as romãs para que não
se abrissem e se esbagoassem agora que a
enfermidade impedia que o proprietário saísse para
colhê-las e também. como um aviso para que o doutor
104
Trelawney fosse visitar o doente e levasse consigo o
boticão.

O pároco Cecco tinha um girassol no terraço, mal


desenvolvido e que nunca florescia. Naquela manhã,
encontramos três galinhas amarradas ali, na grade;
elas comiam vorazmente e deixavam seu estrume
branco no vaso de girassol. Entendemos que o pároco
devia estar com diarréia. Meu tio havia amarrado as
galinhas para que adubassem o girassol, mas também
para alertar o doutor Trelawney sobre aquele caso
urgente.

Na escada da velha Giromina vimos uma fileira de


caracóis que subia na direção da porta: caracóis dos
grandões, daqueles que se comem cozidos. Era um
presente que meu tio tinha trazido do bosque para
Giromina, mas também um sinal de que sua doença
cardíaca do coração tinha piorado e o doutor não
devia fazer barulho ao entrar, para não assustá-la.

Todos esses sinais de comunicação eram usados


pelo bom Medardo a fim de não alarmar os enfermos
e também para que Trelawney soubesse do que se
tratava, antes mesmo de entrar, e assim vencer a sua
relutância em entrar em casa alheia e aproximar-se de
doentes sem saber do que sofriam.

De repente, o alarme corria pelo vale:


105
– O Infeliz! O Infeliz está chegando!

Era a metade malvada de meu tio que tinha sido


vista cavalgando pelos arredores. Então todos corriam
para se esconder e, antes de qualquer outro, o doutor
Trelawney, comigo em seus calcanhares.

Passávamos diante da casa de Giromina e, na


escada, havia uma fileira de caracóis esmagados,
cheios de gosma e pedaços de cascas.

– Já passou por aqui! Pernas pra que te quero! No


terraço do pároco Cecco as galinhas estavam
amarradas no gradil onde tinham sido colocados os
tomates para secar, e bicavam toda aquela dádiva
divina.

– Pernas!

No pomar de Bacciccia, as romãs estavam todas


espatifadas no chão e dos ramos pendiam os pedaços
dos panos vazios.

– Pernas!

Assim, vivíamos à mercê da caridade e do terror. O


Bom (com era chamada a metade esquerda de meu
tio, em oposição à infeliz, que era a outra) já era
considerado como um santo. Os aleijados, os
106
pobrezinhos, as mulheres traídas, todos aqueles que
padeciam de algum mal corriam para junto dele. Ele
poderia ter se aproveitado disto e se transformado no
visconde. Porém, continuava a bancar o vagabundo,
andando meio envolto em seu manto negro
esfarrapado, apoiado na muleta, com a meia branca e
azul cheia de remendos, fazendo o bem tanto àqueles
que pediam como àqueles que o repeliam com maus
modos. E não havia uma ovelha que quebrasse a perna
num barranco, um bêbado que puxasse um facão na
taverna, uma esposa adúltera que corresse à noite para
perto do amante, que não vissem aparecer diante de si,
como que caído do céu, negro, magro e com seu doce
sorriso, para socorrer, dar bons conselhos, evitar
violências e pecados.

Pâmela continuava no bosque. Tinha feito um


balanço entre dois pinheiros, depois um outro mais
forte para a cabra e outro mais leve para a pata, e
passava as horas balançando-se junto com seus
animais. Contudo, numa determinada hora, surgindo
entre os pinheiros, chegava o Bom, com uma trouxa
amarrada às costas. Era roupa para lavar e remendar
que recolhia dos mendigos, dos órfãos e dos doentes
sozinhos no mundo, e entregava a Pâmela para levar,
dando-lhe a oportunidade para também praticar o
bem. Pâmela, que se sentia entediada por estar sempre
no bosque, lavava as roupas no regato, e ele a ajudava.
Em seguida, ela colocava tudo para secar nas cordas
107
do balanço, e o Bom, sentado sobre uma pedra, lia
para ela Jerusalém libertada.

Pâmela não se interessava pela leitura e ficava


deitada, de bruços, sobre a relva, tirando piolhos (pois
vivendo no bosque tinha apanhado uma boa
quantidade de parasitas), coçando-se com uma planta
chamada ferrãozinho, atirando seixos para cima com
os pés descalços e olhando para as próprias pernas que
estavam avermelhadas e bastante roliças. O Bom, sem
erguer os olhos do livro, continuava a declamar uma
oitava após a outra, com o objetivo de enobrecer os
hábitos daquela moça rude.

Mas ela, que não acompanhava a seqüência e se


aborrecia, bem quietinha incitou a cabra a lamber a
metade do rosto do Bom e a pata a pousar sobre o
livro. 0 Bom deu um pulo para trás e ergueu o livro,
que se fechou; mas, exatamente naquele momento, o
infeliz surgiu por entre as árvores a galope, brandindo
uma enorme foice contra o Bom. A lâmina da foice
acertou o livro e cortou-o, ao comprido, em duas
metades. A parte do dorso ficou na mão do Bom e o
resto espalhou-se pelos ares em mil páginas pela
metade. O Infeliz desapareceu a galope; tinha
procurado, sem dúvida alguma, abater a meia cabeça
do Bom, mas os dois animais tinham surgido ali no
momento certo. As páginas de Tasso, com as margens
brancas e os versos partidos ao meio, voaram ao sabor
108
do vento e pousaram sobre os galhos dos pinheiros,
sobre a relva e sobre a água dos rios, à beira de um
barranco, Pâmela olhava aquele branco esvoaçar e
dizia:

– Que beleza!

Algumas meias folhas chegaram até o caminho por


onde passávamos, o doutor Trelawney e eu. O doutor
apanhou uma delas no ar, virou-a e revirou-a, tentou
decifrá-la, entender aqueles versos sem pé nem cabeça
e sacudiu a cabeça:

– Mas não se entende... Zzt... Zzt...

A fama do Bom tinha chegado até os huguenotes. O


velho Ezequiel era visto com freqüência parado sobre
o plano mais alto da vinha, olhando na direção da
vereda pedregosa que subia do vale.

– Pai – observou um de seus filhos -, vejo-o olhar


para o vale como se esperasse a chegada de alguém.

– Esperar é próprio do homem – retrucou Ezequiel.


– O homem justo, esperar com fé; o injusto, com
medo.

– Pai, o senhor está esperando o manco-da-outra-


perna?
109
– Já ouviu falar sobre ele?

– No vale só se fala no maneta-canhoto. Acha que


virá até aqui em cima, perto de nós?

– Se a nossa terra é de gente que vive para o bem, e


ele vive para o bem, não há razão para que não
venha.

– A vereda é íngreme demais para quem tem que


subir de muleta.

– Já houve um Desalmado que encontrou um


cavalo para chegar até aqui.

Ao ouvirem Ezequiel falar, os outros huguenotes


reuniram-se à sua volta, surgindo por entre as filas de
videiras. E quando ele fez alusão ao visconde,
estremeceram em silêncio.

– Ezequiel, nosso pai – disseram -, quando o Astuto


apareceu naquela noite e o raio incendiou metade do
carvalho, o senhor disse que talvez, um dia,
receberíamos a visita de um viajante melhor.

Ezequiel concordou, inclinando a barba até o peito.

110
– Pai, essa pessoa de quem se fala agora é um coxo
igual e oposto ao outro, tanto de corpo como de alma:
tão piedoso quanto o outro era cruel. Será este o
visitante anunciado por suas palavras?

– Pode ser viajante de qualquer estrada – disse


Ezequiel -, portanto pode ser ele também.

– Então todos esperamos que seja – exclamaram os


huguenotes.

A mulher de Ezequiel aproximava-se com o olhar


fixo à sua frente, empurrando um carrinho de ramos
secos de videira.

– Esperamos sempre tudo de bom – disse mas


mesmo que só apareça por esses nossos montes,
mancando, algum pobre mutilado de guerra, bom ou
mau, devemos continuar a agir segundo a justiça e a
cultivar nossos campos.

– Isto é evidente – responderam os huguenotes em


uníssono -, será que falamos alguma coisa que
significa o contrário?

– Muito bem, se todos estamos de acordo – disse a


mulher -, podemos voltar às enxadas e aos forcados.

111
– Peste e carestia! – explodiu Ezequiel. Quem lhes
disse para parar de lavrar a terra?

Os huguenotes espalharam-se pela filas de videiras


para apanhar os instrumentos abandonados nos sulcos.
Porém naquele momento, Esaú, que aproveitando da
distração do pai tinha trepado na figueira para comer
as frutas temporãs, gritou:

– Lá embaixo! Quem está chegando montado


naquele burro?

Realmente, um burro vinha subindo a vereda com


um meio homem amarrado à sela. Era o Bom, que
tinha comprado aquele velho animal sem pêlos
quando estava prestes a ser afogado no rio, pois sua
saúde era tão precária que nem mesmo para o açougue
servia.

– Ora, eu peso a metade de um homem – disse para


si mesmo -, e o velho burro poderá ainda me agüentar.
E tendo, eu também, a minha montaria, poderei ir
mais longe para praticar o bem.

Assim, como primeira viagem, estava indo ao


encontro dos huguenotes.

Estes receberam-no enfileirados e imóveis,


cantando um salmo. A seguir, o velho aproximou-se
112
dele e cumprimentou-o como a um irmão. O Bom,
tendo desmontado, respondeu cerimoniosamente
àquelas saudações, beijou a mão da mulher de
Ezequiel, que ficou rígida e carrancuda, interessou-se
pela saúde de todos, estendeu a mão para acariciar a
cabeça hirsuta de Esaú que recuou, preocupou-se com
os problemas de cada um, pediu para que lhe
contassem a história das perseguições sofridas,
comovendo-se e recriminando. Naturalmente,
conversaram, sem insistência, a respeito da
controvérsia religiosa, como uma seqüela de
desgraças imputáveis à maldade humana generalizada.
Medardo abordou de leve o fato de que as
perseguições partiam do lado da igreja à qual ele
pertencia, e os huguenotes, por sua vez, não se
envolveram em afirmação de fé, até mesmo por medo
de dizerem coisas que, teologicamente, estariam
erradas. Assim acabaram em vagas conversas sobre
caridade, desaprovando qualquer violência e qualquer
excesso. Todos pareciam de acordo, mas o conjunto
foi um pouco frio.

A seguir, o Bom visitou os campos, lamentou suas


colheitas tão exíguas e ficou contente porque, pelos
menos, o ano tinha sido bom para o centeio.

– Por quanto vendem? – perguntou-lhes.

– Três escudos a libra – respondeu Ezequiel.


113
– Três escudos a libra? Mas os pobres de Terralba
morrem de fome, meus amigos, e não podem comprar
sequer um punhado de centeio. Talvez não saibam que
o granizo destruiu as colheitas de centeio lá no vale, e
somente vocês podem salvar muitas famílias da fome.
– Sabemos disto – disse Ezequiel -, e é exatamente
por isto que podemos vender por um preço razoável.

– Mas, pensem na caridade que estariam praticando


com relação àqueles pobres coitados, se baixassem o
preço do centeio... Reflitam sobre o bem que podem
fazer..

O velho Ezequiel parou diante do Bom com os


braços cruzados, no que foi imitado pelos huguenotes.

– Praticar a caridade, irmão – disse -, não significa


que se deva ter prejuízo.

O Bom andava pelos campos e via velhos


huguenotes esqueléticos cavando a terra sob o sol.

– Está com um aspecto ruim – disse a um velho


cuja barba era tão comprida que tocava o chão talvez
não esteja se sentindo bem, não é?

114
– Como pode se sentir bem uma pessoa que, aos
setenta anos, cava durante dez horas com uma sopa de
nabo na barriga?

– É meu primo Adamo – disse Ezequiel -, um


trabalhador excepcional.

– Velho, do jeito que está, devia repousar e


alimentar-se! – comentava o Bom, porém Ezequiel
afastou-o bruscamente dali.

– Todos nós aqui ganhamos nosso pão com muito


sacrifício, irmão – disse num tom que não admitia
réplica.

Antes, ao desmontar do burro, o Bom quis amarrá-


lo pessoalmente, e pediu um saco de aveia para que o
animal se recuperasse um pouco da subida. Ezequiel e
sua mulher entreolharam-se, porque, segundo eles,
para um burro como aquele era suficiente um punhado
de chicória silvestre; porém isso aconteceu no
momento mais caloroso da acolhida ao hóspede, e
mandaram alguém ir buscar a aveia. Mas agora o
velho Ezequiel não conseguia admitir que aquela
carcaça de burro comesse a pouca aveia que tinham e,
cuidando para que seu hóspede não o ouvisse, chamou
Esaú e disse-lhe:

115
– Esaú, aproxime-se devagarinho do burro, tire a
aveia e coloque qualquer outra coisa no lugar.

– Um chá para asma?

– Sabugos de milho, cascas de grão-de-bico, o que


bem entender.

Esaú, tirou o saco de aveia do burro e levou um


coice que o fez mancar por algum tempo. Para se
vingar, escondeu a aveia que tinha sobrado para
vendê-la por sua conta e disse que o burro já a tinha
comido todinha.

Era o pôr-do-sol. O Bom estava com os huguenotes


em.meio ao campo e não sabiam mais o que
conversar.

– Meu hóspede, ainda temos uma hora de trabalho à


nossa frente – disse a mulher de Ezequiel.

– Pois então não os importunarei mais.

– Boa sorte, hóspede.

E o bom Medardo voltou a montar no seu burro.

116
– Um pobre mutilado de guerra – disse a mulher
depois que ele se afastou. – Quantos há assim nesta
região! Pobrezinhos!

– Pobrezinhos, realmente! – concordaram todos os


outros.

– Peste e carestia! – gritava o velho Ezequiel,


andando pelo campo, os punhos erguidos diante dos
trabalhos malfeitos e dos danos causados pela seca,

– Peste e carestia!

117
IX

Muitas vezes, pela manhã, eu ia até a oficina de


Pietrochiodo para ver as máquinas que o engenhoso
mestre estava construindo. O carpinteiro vivia
angustiado e cada vez mais cheio de remorsos, depois
que o Bom passara a visitá-lo à noite e a recriminar a
má finalidade de suas invenções, incitando-o a
construir mecanismos que fossem. colocados a serviço
da bondade e não da sede de sevícias.

– Mas, então, qual a máquina que devo construir,


mestre Medardo? – indagava Pietrochiodo.

– Já lhe explico: poderia, por exemplo... – E o Bom


começava a descrever-lhe a máquina que ele teria
encomendado se fosse ele o visconde, traçando
desenhos confusos para ajudá-lo na explicação.

Primeiramente Pietrochiodo teve a impressão de


que aquela máquina devia ser um órgão, um
monumental órgão cujas teclas tocassem músicas
dulcíssimas. Já se dispunha a procurar a madeira
adequada à confecção dos tubos, quando, após uma
outra conversa com o Bom, ficou com as idéias mais
confusas, porque parecia que ele pretendia fazer
passar pelos tubos não o ar, mas farinha. Em suma,
devia ser um órgão mas também um moinho, que
moesse para os pobres e, também, possivelmente, um
118
forno para fazer pães. Diariamente o Bom
aperfeiçoava a sua idéia e enchia, com desenhos e
mais desenhos, folhas e folhas de papel. No entanto,
Pietrochiodo não conseguia acompanhar a sua linha
de pensamento. Isto porque este órgão-moinho-forno
também devia puxar a água dos poços poupando os
burros daquela canseira; devia deslocar-se sobre rodas
para atender às diversas aldeias, como também, nos
dias de festas, erguer-se no ar e capturar com redes
colocadas ao seu redor, as borboletas.

E o carpinteiro ficava na dúvida se a construção de


máquinas boas não estaria além das possibilidades
humanas, enquanto as únicas que poderiam realmente
funcionar com praticidade e exatidão seriam os
patíbulos e os instrumentos de tortura. Na verdade, tão
logo o infeliz expunha a Pietrochiodo a idéia de um
novo mecanismo, o mestre logo descobria um modo
de construí-lo, punha mãos à obra, e cada detalhe
parecia-lhe insubstituível e perfeito, e o instrumento
terminado uma obra-prima de técnica e
engenhosidade.

O mestre angustiava-se:

– Será que tenho a maldade na alma pelo fato de só


conseguir realizar máquinas cruéis? – Porém, apesar
disto, continuava a inventar, com zelo e habilidade,
outros instrumentos de tortura.
119
Um dia vi-o trabalhar em volta de um estranho
patíbulo, onde a forca branca emoldurava uma parede
de madeira negra e a corda, também branca, passava
através de dois furos na parede, exatamente no ponto
do laço corrediço.

– Que máquina é esta, mestre? – perguntei-lhe.

– Uma forca para enforcamento de perfil retrucou.

– E para quem a construiu?

– Para um mesmo homem que condena e é


condenado. Com metade da cabeça condena-se a si
mesmo à pena capital, e com a outra metade entra no
nó corrediço e exala o último suspiro. Gostaria que se
confundisse entre as duas.

Compreendi que o Infeliz, sentindo crescer a


popularidade de sua metade boa, tinha resolvido
suprimi-la o mais rápido possível.

Realmente, convocou seus guardas e disse-lhes:

– Um vesgo vagabundo infesta, de há muito, o


nosso território, disseminando a discórdia. Capturem,
até amanhã, o agitador e acabem com ele.

120
– Assim será feito, meu senhor – responderam os
guardas e retiraram-se.

Zarolho como ele só, o Infeliz não se deu conta de


que, ao lhe responderem, tinham piscado o olho entre
si.

É preciso dizer que uma conspiração palaciana


tinha sido urdida naqueles dias, na qual também os
guardas tomavam parte. O objetivo era aprisionar e
suprimir o atual meio visconde e entregar o castelo e o
título à outra metade. Este, porém, de nada suspeitava.
E à noite, no palheiro onde morava, acordou rodeado
pelos guardas.

– Não tenha medo – disse o chefe dos guardas o


visconde mandou que o trucidássemos, porém nós,
cansados da sua cruel tirania, resolvemos acabar com
ele e colocar o senhor em seu lugar.

– Mas o que estou ouvindo? E já o fizeram? Digo, o


visconde, já o trucidaram?

– Não, mas o faremos ao raiar o dia, com toda a


certeza.

– Ah, graças aos céus! Não, não se manchem com


mais sangue, pois muito já foi vertido. Qual o bem
que poderia emanar de um poder que nasce do crime?
121
– Não faz mal: nós o trancafiamos na torre e
poderemos ficar tranqüilos.

– Não levantem as mãos contra ele, nem contra


ninguém, eu vos suplico! Também sofro com a
prepotência do visconde; mas, ainda assim, não nos
resta outro recurso senão lhe dar o bom exemplo,
mostrando-nos gentis e virtuosos.

– Então, é o senhor que terá de ser trucidado.

– Não. Já lhes disse que não devem trucidar


ninguém.

– Como faremos então? Se não eliminamos o


visconde, devemos obedecer-lhe.

– Peguem esta ampola. Contém algumas gotas, as


últimas que me restam, do ungüento com que os
eremitas boêmios me curaram, e até agora tem sido
para mim muito útil quando, a cada mudança de
tempo, sinto dor nesta enorme cicatriz. Levem-na ao
visconde e digam-lhe apenas: é o presente de alguém
que sabe o que representa ter as veias terminando num
tampão.

Os guardas dirigiram-se para onde estava o


visconde, levando a ampola, e ele condenou-os ao
122
patíbulo. Com o objetivo de salvar os guardas, os
outros conspiradores resolveram se insurgir.
Desajeitados, os cabeças da revolta foram descobertos
e tudo foi sufocado com sangue. O Bom levou flores
aos túmulos e consolou viúvas e órfãos.

Quem nunca se deixou comover pela bondade do


Bom foi a velha Sebastiana. Em suas andanças para
praticar o bem, o Bom passava freqüentemente pelo
casebre da babá e fazia-lhe uma visita, sempre
atencioso e gentil. E ela invariavelmente lhe passava
um sermão. Talvez devido ao seu indistinto amor
materno, talvez porque a velhice começava a embotar
seus pensamentos, a babá não fazia muito caso da
separação de Medardo em duas metades: ralhava com
uma metade pelas más ações da outra, dava conselhos
a uma que somente a outra podia seguir, e assim por
diante.

– E por que cortou a cabeça do galo da vovó Bigin,


pobrezinha, que só tinha aquele animal? Grande deste
jeito, está sempre pregando peças...

– Mas por que me diz isto, babá? Sabe que não fui
eu...

– Oh, que graça! Então, vejamos: quem foi?


– Eu. Mas...

123
– Ah! Está vendo!

– Porém não eu que estou aqui...

– Ora, se estou velha, acha que também estou


caduca? Quando escuto alguém contar alguma
traquinagem, entendo logo que foi uma das suas. E
digo para mim mesma: aposto que aí tem a mão de
Medardo...

– Contudo, sempre se engana ... !

– Engano-me... Vocês, jovens, dizem aos velhos


que nos enganamos... E vocês? Você deu a sua muleta
de presente ao velho Isidoro...

– Sim, fui eu mesmo que dei...

– E ainda se vangloria? Serviu-lhe para espancar a


mulher, pobre coitada...

– Ele tinha me dito que não podia caminhar por


causa da gota ...

– Fingia ... E você, tratou logo de presenteá-lo com


a muleta ... Agora, quebrou-a nas costas da mulher e
você anda por aí apoiado num galho bifurcado... Você
não tem cabeça, sempre foi assim! E quando
embriagou o touro do Bernardo com aguardente?...
124
– Aquilo não fui...

– Ora, sei, não foi você? Todos dizem: é o


visconde, é sempre ele!

As freqüentes visitas do Bom a Pratofungo deviam-


se, além do seu apego filial à babá, ao fato de ele,
naquele tempo, dedicar-se a socorrer os pobres
leprosos. Imunizado contra o contágio (para sempre,
parece, devido aos tratamentos misteriosos dos
eremitas), andava pela aldeia procurando saber
detalhadamente das necessidades de cada um, não
lhes dando trégua até ter ajudado de todas as maneiras
a cada um. Muitas vezes, no lombo do burro, ficava
num constante ir e vir entre Pratofungo e a choupana
do doutor Trelawney, pedindo-lhe conselhos e
remédios. Não que o doutor agora tivesse coragem de
se aproximar dos leprosos, contudo, parecia que
começava, por intermédio do Bom Medardo, a se
interessar por eles.

No entanto, o objetivo de meu tio ia mais além: sua


proposta era curar não apenas os corpos dos leprosos,
mas também as suas almas. E estava sempre no meio
deles dando-lhes lições de moral, metendo o nariz nos
seus negócios, escandalizando-se e fazendo sermões.
Os leprosos não o suportavam. Os tempos de alegria e
licenciosidade haviam terminado em Pratofungo. Com
aquela figura delgada, toda empertigada sobre uma
125
perna só, vestida de negro, cerimoniosa e autoritária,
ninguém podia fazer aquilo que tinha vontade sem ser
recriminado em público, suscitando maldades e
despeitos. Até a música, de tanto o ouvirem recriminá-
la como fútil, lasciva e não inspirada em bons
sentimentos, transformou-se num aborrecimento para
eles, e seus instrumentos ficavam cobertos de poeira.
As mulheres leprosas, sem aquela válvula de escape
que era a baderna, viram-se, de repente, sozinhas
diante da doença e passavam as noites chorando e
desesperando-se.

– Das duas metades é pior a boa do que a má –


começava-se a comentar em Pratofungo.

Contudo, não eram apenas os leprosos que


começavam a perder a admiração pelo Bom.

– Ainda bem que a bala do canhão dividiu-o apenas


em dois – diziam todos -, se o tivesse repartido em
três pedaços, sabe Deus quanta coisa mais iríamos ver.

Os huguenotes agora faziam turnos de guarda para


se protegerem dele também. Agora tinham perdido
todo o respeito para com eles. O Bom aparecia a toda
hora para verificar quantos sacos havia nos seus
celeiros, fazia-lhes sermões sobre os preços altos
demais e depois andava por todos os lados tecendo

126
comentários a respeito disso e arruinando seu
comércio.

Assim passavam os dias em Terralba. Nossos


sentimentos ficavam dúbios e indefinidos, de vez que
nos sentíamos como que perdidos entre maldades e
virtudes igualmente desumanas.

Não há noite de lua na qual, nos espíritos maus, as


idéias perversas não se enrosquem como ninhadas de
serpentes e que, nos espíritos caridosos, não brotem
lírios de renúncia e dedicação. Assim, entre os
despenhadeiros de Terralba as duas metades de
Medardo vagavam atormentadas por impulsos
opostos.

Ambas, tomada a própria decisão, deslocavam-se


de manhã dispostas a pô-la em prática.

A mãe de Pâmela, tendo ido apanhar água, caiu


numa armadilha e se precipitou no poço. Dependurada
a uma corda, berrava: – Socorro! – quando viu, na
boca do poço, contra o céu, o perfil do Infeliz, que lhe
disse:

– Só queria lhe falar. Veja o que pensei: na


companhia de sua filha, Pâmela, vê-se muitas vezes
um vagabundo partido ao meio. A senhora deve
obrigá-lo a casar com ela; já a comprometeu e se é um
127
cavalheiro tem que reparar o erro. Pensei assim; não
me peça mais explicações.

O pai de Pâmela levava para o lagar um saco de


azeitonas da sua oliveira, porém o saco tinha um furo,
e uma fileira de azeitonas deixava um rastro pelo
caminho. Sentindo o saco mais leve, o pai tirou-o dos
ombros e percebeu que estava praticamente vazio.
Porém viu que, atrás, vinha o Bom; recolhia as
azeitonas, uma a uma, e colocava-as dentro do manto.

– Seguia-o a fim de conversar com o senhor. Por


isso tive a felicidade de salvar suas azeitonas. Eis o
que sinto: Há muito tempo acho que a infelicidade dos
outros, que tenho a intenção de remediar, talvez seja
alimentada exatamente pela minha presença. Vou
partir de Terralba. Contudo, só o farei se a minha
partida devolver a paz a duas pessoas: à sua filha, que
dorme numa choça quando lhe caberia um nobre
destino, e ao meu infeliz lado direito que não deve
continuar sozinho. Pâmela e o visconde devem se
casar.

Pâmela estava adestrando um esquilo quando


encontrou sua mãe que fingia estar à procura de
pinhas.

128
– Pâmela – disse a mãe -, é chegado o momento
daquele vagabundo, chamado o Bom, se casar com
você.

– De onde tirou essa idéia? – indagou Pâmela.


– Ele a comprometeu, que se case. É tão gentil que
se você lhe falar nestes termos não recusará.

– Mas como meteu na cabeça esta história?

– Quieta. Se soubesse quem me disse isto, não me


faria mais tantas perguntas. Foi o próprio Infeliz; foi o
nosso ilustríssimo visconde quem me disse isto!

– Ora bolas! – exclamou Pâmela, deixando cair o


esquilo que estava em seu colo. – Sabe-se lá que
maldade tem em mente.

Pouco depois estava aprendendo a assoviar com


uma folha de relva entre as mãos quando encontrou o
pai que fingia estar à cata de lenha.

– Pâmela – disse o pai -, chegou o momento de


você dizer o sim ao visconde Infeliz, com a única
condição de que se case com você na igreja.

– Isto é uma idéia sua ou foi alguém que lhe meteu


na cabeça?

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– Não gostaria de se tornar viscondessa?

– Responda à minha pergunta.

– Pois bem: imagine que quem o disse foi a melhor


alma que existe: o vagabundo a quem chamam de o
Bom.

– Ah, ele não tinha mais nada em que pensar. Verá o


que farei com ele!

O Infeliz, andando com o cavalo magro pelos


matagais, refletia sobre seu estratagema: se Pâmela se
casasse com o Bom, perante a lei seria a mulher de
Medardo de Terralba, portanto, sua mulher. Calcado
fortemente neste direito, o Infeliz poderia, com a
maior facilidade, tirá-la do rival, tão condescendente e
nem um pouco combativo.

Porém, encontra-se com Pâmela que lhe diz:

– Visconde, resolvi que se o senhor estiver de


acordo, nós nos casaremos.

– Você e quem? – perguntou o visconde.

– Eu e o senhor. Irei para o castelo e serei


viscondessa.

130
O Infeliz não esperava por esta, e pensou: “Então
de nada adianta montar a farsa de fazê-la casar com a
minha outra metade: caso-me com ela e pronto!”

Assim sendo, falou:


– Estou de acordo.

E Pâmela:

– Combine tudo com meu pai.

Dali a pouco, Pâmela encontrou-se com o Bom


montado no seu burro.

– Medardo – disse ela -, compreendi que estou


realmente apaixonada por você, e se quer me ver feliz
deve pedir a minha mão em casamento.

O pobre coitado, que para o bem dela tinha feito


aquela enorme renúncia, ficou de boca aberta. “Mas
se está feliz por se casar comigo, não posso fazer com
que se case com o outro”, pensou e disse:

– Querida, vou correndo providenciar tudo para a


cerimônia.

– Combine com a minha mãe, não esqueça disse


ela.

131
Terralba inteira ficou em sobressalto ao saber que
Pâmela ia se casar. Havia quem dissesse que se casava
com um, e quem afirmasse que se casava com o outro.
Ao que tudo indicava, parecia que os pais dela faziam
de propósito a fim de criar confusões. É verdade que
no castelo estavam polindo e enfeitando tudo como se
ali fosse se realizar uma grande festa. E o visconde
mandara fazer uma roupa de veludo negro com um
grande pufe na manga e um outro nas calças. Porém o
vagabundo também tinha mandado escovar o pobre
burro e remendar sua roupa nos cotovelos e joelhos.
De qualquer modo, poliram todos os candelabros da
igreja.

Pâmela disse que não sairia do bosque a não ser na


hora do cortejo nupcial. Eu Fiquei encarregado do
enxoval. Ela fez um vestido branco com o véu e a
cauda longuíssimos e preparou uma coroa e um cinto
com espigas de lavanda. Mas, como lhe sobrou um
pouco do véu, preparou um vestido de noiva para a
cabra e um outro também para a pata. Correu assim
pelo bosque, seguida pelos animais, até o véu ficar
todo estraçalhado entre os ramos e a cauda ter
recolhido todas as ramas de pinheiro e as cascas de
castanhas murchas caídas pelo caminho.

Porém, na noite anterior ao casamento, estava


pensativa e um pouco amedrontada. Sentada no cume
de uma colinazinha sem árvores, com a cauda do
132
vestido enrolada ao redor dos pés, a coroazinha de
lavanda toda torta, o queixo apoiado sobre uma das
mãos, olhava para o bosque ao seu redor, suspirando.

Eu estava sempre ao lado dela, pois devia lhe servir


de pajem, junto com Esaú que, no entanto, nunca
estava por perto.

– Com quem se casará, Pâmela? – perguntei-lhe.

– Não sei – respondeu ela -, não sei mesmo o que


acontecerá. As coisas sairão bem? Sairão mal? Do
bosque erguia-se às vezes um grito gutural, às vezes
um suspiro. Eram os dois pretendentes divididos que,
dominados pela excitação da véspera, vagavam pelas
elevações e precipícios do bosque envoltos nos
mantos negros, um sobre seu cavalo magro, o outro
sobre o burro pelado, e uivavam e suspiravam
tomados por suas quimeras ansiosas. E o cavalo
saltava através de penhascos e barrancos, o burro
subia por inclinações e descia encostas, sem que
jamais os dois cavaleiros se encontrassem.

Até que, ao amanhecer, o cavalo a todo galope não


se equilibrou ao descer um barranco; e o Infeliz não
conseguiu chegar a tempo para a cerimônia de
casamento. O burro, ao contrário, andava devagar e
cauteloso, e o Bom chegou pontualmente à igreja, no

133
mesmo instante em que ali surgia a noiva com a cauda
carregada por mim e por Esaú, que se arrastava.

A multidão, ao ver chegar como noivo apenas o


Bom apoiado sobre sua muleta, ficou um pouco
decepcionada. Contudo, o casamento foi celebrado, os
noivos disseram o sim e trocaram alianças, e o padre
disse: – Medardo di Terralba e Pâmela Marcolfi, eu
vos uno pelos sagrados laços do matrimônio.

Naquele instante, no fundo da nave, apoiando-se


sobre a muleta, surgiu o visconde, com sua roupa
nova de veludo com os pufes encharcados de água e
todo esfarrapado. E disse:

– Medardo di Terralba sou eu e Pâmela é minha


mulher.

O Bom precipitou-se em direção a ele.

– Não, o Medardo que se casou com Pâmela sou eu.

O Infeliz atirou longe a muleta e sacou da espada.


Nada mais restava ao Bom fazer se não o mesmo.

– Em guarda!

O Infeliz atirou-se freneticamente contra o Bom,


que se defendeu, mas todos os dois rolaram pelo chão.
134
Concordaram que era impossível combater
equilibrando-se apenas sobre uma perna. Era preciso
adiar o duelo para que pudéssemos prepará-los
melhor.

– E eu, sabem o que vou fazer? – disse pâmela. –


Voltarei para o bosque.

E saiu correndo da igreja, sem os pajens para


ajudarem-na com a cauda. Na ponte encontrou a cabra
e a pata que a esperavam e puseram-se a seu lado.

O duelo foi marcado para a madrugada do dia


seguinte, no prado das Monjas. Mestre Pietrochiodo
inventou uma espécie de perna de compasso que,
presa à cintura dos partidos ao meio, permitia que
ficassem eretos e se deslocassem, como também se
inclinassem para a frente e para trás, enfiando a ponta
do compasso no solo para ficarem firmes. O leproso
Galateo, considerado um cavalheiro antes de adoecer,
serviu como juiz de armas; os padrinhos do Infeliz
foram o pai de Pâmela e o chefe da guarda; os
padrinhos do Bom foram dois huguenotes. O doutor
Trelawney cuidava da parte médica e apareceu com
um fardo de ataduras e um garrafão de bálsamo, como
se tivesse que tratar dos feridos de uma batalha.
Melhor para mim, que devendo ajudá-lo a levar todas
aquelas coisas, poderia assistir ao duelo.

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Amanheceu o dia; os dois magros duelistas
encontravam-se a postos com as espadas em riste. O
leproso soprou o chifre: era o sinal; o céu vibrou
como se fora uma membrana esticada; as ratazanas
enfiaram as unhas na sujeira de suas tocas; as pegas,
com as cabeças enfiadas sob as asas, arrancaram uma
pena da própria axila, machucando-se; a boca da
minhoca comeu a própria cauda, e a víbora picou-se
com seus dentes; a vespa partiu o ferrão em uma
pedra, e todas as coisas voltavam-se contra si mesmas;
a geada nas poças gelava, os liquens transformavam-
se em pedras e as pedras em liquens; a folha seca
virava terra, a seiva espessa e dura matava
impiedosamente as árvores. Assim, o homem investia
contra si mesmo, trazendo em ambas as mãos uma
espada.

Mais uma vez, Pietrochiodo tinha feito um trabalho


de mestre: os compassos desenhavam círculos sobre o
prado, e os duelistas lançavam-se em assaltos
impetuosos e rígidos, em paradas e golpes simulados.
Porém, não se tocavam. A cada ataque, a ponta da
espada parecia dirigir-se certeira contra o manto
esvoaçante do adversário, cada um parecia obstinado
a atingir a parte onde não havia nada, ou seja, a parte
onde deveria estar ele próprio. Claro, se em vez de
meios duelistas fossem duelistas inteiros, teriam se
ferido sabe-se lá quantas vezes. O Infeliz batia-se com
uma ferocidade odiosa, mas, assim mesmo, não
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conseguia nunca conduzir seus ataques para o ponto
onde realmente se encontrava o inimigo; o Bom tinha
a correta mestria dos canhotos, porém não fazia mais
do que perfurar’o manto do visconde.

A certa altura viram-se empunhadura contra


empunhadura: as pontas do compasso tinham se
enfiado no solo como se fossem escavadeira. O Infeliz
soltou-se de repente e já estava perdendo o equilíbrio
e rolando pelo chão, quando conseguiu desfechar uma
estocada terrível, não contra o adversário, mas quase:
uma estocada paralela à linha que interrompia o corpo
do Bom e tão próximo a ela que não se soube, de
imediato, se estava mais para lá ou mais para cá.
Contudo, vimos logo o corpo sob o manto empapar-se
de sangue, desde a cabeça até a junção da perna e,
então, acabaram-se as nossas dúvidas. O Bom
prostrou-se, mas, ao cair, num último movimento
amplo quase piedoso, desceu a espada pertíssimo do
rival, da cabeça ao abdômen, entre o vazio e o ponto
onde começava o corpo do Infeliz. O Infeliz agora
também sangrava por toda a enorme e antiga fenda: os
golpes de um e de outro tinham cortado, novamente,
as veias, e reaberto a ferida que os tinha dividido nas
suas duas partes. Agora jaziam de costas, e os
sangues, que já tinham sido um só, voltavam a
misturar-se pelo prado.

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Concentrado nesta horrenda visão, não tinha olhado
para o doutor Trelawney, quando me dei conta de que
ele estava pulando de alegria com suas pernas de
grilo, batendo palmas e gritando:

– Está salvo! Está salvo! Deixem comigo! Passada


meia hora, levamos de volta para o castelo, deitado
numa maca, um único ferido. O Infeliz e o Bom
enfaixados juntos, de modo bem apertado.

O doutor tivera o cuidado de encaixar todas as


vísceras e as artérias de uma parte e da outra. Depois
amarrara-os com um quilômetro de ataduras, tão
juntinhos que mais pareciam um antigo morto
embalsamado do que um ferido.

Meu tio foi velado dias e noites entre a vida e a


morte. Uma certa manhã, olhando aquele rosto, que
uma linha vermelha atravessava da testa ao queixo,
prolongando-se depois pelo pescoço abaixo, a babá
Sebastiana exclamou:

– Pronto! Mexeu-se!

De fato, um leve estremecimento das feições


percorreu o rosto de meu tio, e o doutor chorou de
alegria ao ver que se transmitia de uma bochecha à
outra.

138
No final, Medardo entreabriu os olhos, os lábios. A
princípio a sua expressão estava retorcida: tinha um
olho franzido e o outro afrouxado, a testa de um lado
enrugada, do outro serena; a boca sorria de um ângulo
e do outro rangia os dentes. Depois, aos poucos,
voltou a ficar simétrico.

O doutor Trelawney disse:

– Agora está bom.

E Pâmela exclamou:

– Finalmente terei um marido com todos os seus


atributos.

Assim meu tio Medardo voltou a ser um homem


inteiro, nem mau nem bom, uma mistura de maldade e
bondade, ou seja, aparentemente igual àquele que era
antes de ser partido ao meio. Contudo, adquiriu a
experiência de uma e de outra metade recolocadas
juntas, por isto devia ser muito sábio. Teve uma vida
feliz, muitos filhos, e seu governo foi justo. Até
mesmo a nossa vida mudou para melhor. Talvez
esperássemos que, com o visconde novamente inteiro,
surgisse uma época de felicidade maravilhosa; mas é
claro que não basta um visconde completo para que
todo o mundo se torne completo.

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Enquanto isto, Pietrochiodo não construiu mais
forcas e sim moinhos; e Trelawney abandonou os
fogos-fátuos em favor dos sarampos e erisipelas. Eu,
por minha vez, em meio a tantas manifestações de
integridade, sentia-me cada vez mais triste e carente.
Às vezes alguém se julga incompleto e é apenas
jovem.

Tinha chegado ao limiar da adolescência e ainda me


escondia entre as raízes das grandes árvores do
bosque para contar histórias para mim mesmo. Uma
rama de pinheiro podia representar para mim um
cavaleiro, ou uma dama, ou um bufão; fazia-a
movimentar-se diante de meus olhos e exaltava-me
em relatos intermináveis. Depois, envergonhava-me
destas fantasias e fugia.

E chegou o dia em que até o doutor Trelawney me


abandonou. Certa manhã entrou no nosso golfo uma
frota de navios embandeirados exibindo bandeiras
inglesas, e ali ancorou. Toda Terralba dirigiu-se para a
margem a fim de vê-la, exceto eu, que de nada sabia.
Nos parapeitos das amuradas e na mastreação viam-se
marinheiros que exibiam ananases e cágados e
desenrolavam laudas onde estavam escritas algumas
máximas latinas e inglesas. No convés, em meio aos
oficiais de tricórnios e perucas, o capitão Cook olhava
com a luneta para a costa e, assim que notou a

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presença do doutor Trelawney, deu ordem que lhe
transmitissem, com as bandeiras, esta mensagem:

“Venha logo a bordo, doutor, temos que continuar


aquela partida de vinte-e-um!”

O doutor cumprimentou todo o pessoal de Terralba


e nos deixou. Os marinheiros entoaram um hino: “Oh,
Austrália!”, e o doutor foi içado para bordo
escarranchado num tonel cheio de vinho cancarone.
Depois os navios levantaram âncoras.

Eu não tinha visto nada. Estava escondido no


bosque, contando histórias para mim mesmo. Vim a
saber de tudo tarde demais e desatei a correr na
direção da costa, gritando:

– Doutor! Doutor Trelawney! Leve-me consigo!


Não pode me deixar aqui!

Mas os navios já desapareciam no horizonte e eu


fiquei aqui, neste nosso mundo cheio de
responsabilidade e de fogos-fátuos.

junho-setembro de 1951

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