Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas

Maria da Glória Gohn

Resumo

O trabalho apresenta um estudo sobre a educação não-formal e seu papel no processo educativo mais geral. Considera-se a educação não-formal como uma área de conhecimento ainda em construção. Estuda-se a possiThe paper presents a study about the bilidade deste processo em conselhos non-formal education and its role in de escolas e o aprendizado que resulthe wide educative ta da participação da soprocess. It considers ciedade civil nestes conthe non-formal selhos. O trabalho se diMaria da Glória Gohn education as an area vide em duas partes: a Pós-Doutorado em Sociologia, of knowledge still in primeira tem caráter teóNew School of University, New York construction. It studies Professora Titular da rico e discute a categoria the possibility of this UNINOVE e da UNICAMP educação não-formal em Pesquisadora I do CNPq educational process in si, seu campo e atributos. mgohn@uol.com.br the councils of schools Por meio da análise comand the learning that parativa, busca-se diferesults from the civil renciá-la da educação society participation in these councils. formal e da educação informal. A seThe paper has two parts: the first has a gunda investiga a categoria da edutheoretical character and discusses the cação não - formal em conselhos esnon-formal category, distinguishing it colares, e em movimentos sociais que from the formal and informal education atuam na área da educação. categories. The second one Palavras-chave: Educação não-forinvestigates the non-formal category in mal. Educação formal. Educação inthe councils of the schools and in the formal. Conselhos participativos. Parsocial movements acting in the ticipação da sociedade civil. Conseeducational area. lhos de escolas.

Abstract Non-formal education, civil society participation and councils structures in the schools

Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006

Consideramos que é necessário distinguir e demarcar as diferenças entre estes conceitos. Palabras clave: Educación noformal.na família.. carregada de valores e culturas próprias. en los consejos de las escuelas y en los movimientos sociales del area educacional. La educación no-formal es un campo de conecimiento todavía en construcción. principalmente em espaços e ações coletivos cotidianas. pol. Participative councils. A educação não-formal designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos. por meio da aprendizagem de habilidades e/ ou desenvolvimento de potencialidades. El trabajo fue ordenado en dos partes: la primera tiene un carácter teórico y discute la categoría educación no-formal. O termo não-formal também é usado por alguns investigadores como sinônimo de informal. Educ.. extremamente simples. Resumen Educación no-formal. a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários. a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor. Rio de Janeiro. a educação desenvolvida na mídia e pela mídia. que são. voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos. Educación formal. v.28 Maria da Glória Gohn Keywords: Non-formal education. jan. La segunda investiga la categoría no-formal. y hace un análisis de las aprendizajes que estas experiencias generan hacia los consejeros. Educación informal. Formal education. Vamos tentar demarcar melhor essas diferenças por meio uma série de questões.14. de pertencimento e sentimentos herdados: e a educação não-formal é aquela que se aprende “no mundo da vida”. via os processos de compartilhamento de experiências. Council school. a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização . mas nem por isso simplificadoras da realidade. El trabajo investiga la posibilidad del proceso de educación no-formal en los consejos de las escuelas. p. públ. Civil society participation. clube./mar. n. Quando tratamos da educação nãoformal. amigos etc. A princípio podemos demarcar seus campos de desenvolvimento: a educação formal é aquela desenvolvida nas escolas. participación de la sociedad civil y estructuras de consejos en las escuelas El objectivo de este trabajo es realizar un estudio sobre la educación no-formal y sus roles en el proceso de educación más general. a comparação com a educação formal é quase que automática. a saber: “Quem é o educador em cada campo Ensaio: aval. Informal education. a capacitação dos indivíduos para o trabalho. bairro. 27-38.50. com conteúdos previamente demarcados. em especial a eletrônica etc. Sociedad civile. 2006 . haciendo distinción de la educación formal y de la educación informal. aparentemente. Consejos de las escuelas. Consejos participativos.

Na não-formal. são instituições regulamentadas por lei. certificadoras. gerando um processo educativo. no ato de participar. 2006 . em locais informais. o local onde se nasceu. normatizados por leis. atitudes.14. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 29 de educação que estamos tratando? Em cada campo.formal capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo. motricidade etc. idade. colegas de escola. desde o nascimento Trata-se do processo de socialização dos indivíduos. os vizinhos. de aprender e de transmitir ou trocar saberes. “Como se educa? Em que situação. Há na educação não-formal uma intencionalidade na ação. o condomínio. desenvolve hábitos. n./mar. Educ. eles se constróem no processo interativo. etc. pol. onde as relações sociais se desenvolvem segundo gostos. os agentes educadores são os pais. “Onde se educa? Qual é o espaço físico territorial onde transcorrem os atos e os processos educativos?” Na educação formal estes espaços são os do território das escolas. públ. organizadas segundo diretrizes nacionais. desenvolver a criatividade. A casa onde se mora. Na educação informal. aquele com quem interagimos ou nos integramos. localidade. desenvolver habilidades e competências várias. segundo diretrizes de dados grupos. jan. religião. A educação não. entre outros objetivos destacam-se os relativos ao ensino e aprendizagem de conteúdos historicamente sistematizados. o clube que se freqüenta. Seus objetivos não são dados a priori. os espaços educativos localizam-se em territórios que acompanham as trajetórias de vida dos grupos e indivíduos. usualmente a participação dos indivíduos é optativa. etnia etc.50. o grande educador é o “outro”. em qual contexto?” A educação formal pressupõe ambientes normatizados. modos de pensar e de se expressar no uso da linguagem. sexo. fora das escolas.. A educação informal socializa os indivíduos. preferências. a igreja paroquial. ou pertencimentos herdados. comportamentos. no mundo. “Qual a finalidade ou objetivos de cada um dos campos de educação assinaladas?” Na educação formal. p. a família em geral. Já a educação informal tem seus espaços educativos demarcados por referências de nacionalidade. a igreja ou o local de culto a que se vincula sua crença religiosa. locais onde há processos interativos intencionais ( a questão da intencionalidade é um elemento importante de diferenciação). 27-38. o bairro. os amigos. com regras e padrões comportamentais definidos previamente. mas ela também poderá ocorrer por forças de certas circunstâncias da vivência histórica de cada um. quem educa é o agente do processo de construção do saber?” Na educação formal sabemos que são os professores. Sua finalidade é abrir janelas de conhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais. A não -formal ocorre em ambientes e situações interativos construídos coletivamente. v. a rua.Um modo de educar surge como resultado do processo voltado para os interesses e as necessidades Ensaio: aval.Educação não formal. segundo valores e crenças de grupos que se freqüenta ou que pertence por herança. os meios de comunicação de massa. etc. percepção. Na educação não-formal. dentre os quais destacam-se o de formar o indivíduo como um cidadão ativo. Rio de Janeiro. A informal opera em ambientes espontâneos.

regulamentos e leis. • A construção e reconstrução de concepção (ões) de mundo e sobre o mundo./mar. organizada por séries/ idade/conteúdos. uma série de processos tais como: • consciência e organização de como agir em grupos coletivos. sobretudo que haja uma aprendizagem efetiva (que. simplificadamente. pol. reli- Ensaio: aval. os conhecimentos não são sistematizados e são repassados a partir das práticas e experiência anteriores. v. Ela atua no campo das emoções e sentimentos. infelizmente nem sempre ocorre). de rejeição dos preconceitos que lhes são dirigidos. sistematização seqüencial das atividades. É um processo permanente e não organizado. A transmissão de informação e formação política e sociocultural é uma meta na educação não formal. individualismo etc. atua sobre aspectos subjetivos do grupo.14. • contribuição para um sentimento de identidade com uma dada comunidade. trabalha e forma a cultura política de um grupo. étnicas. senso este que orienta suas formas de pensar e agir espontaneamente. criando o que alguns analistas denominam. o capital social de um grupo. pessoal especializado. A educação não. públ.30 Maria da Glória Gohn que dele participa. A educação informal não é organizada. usualmente é o passado orientando o presente. organização de vários tipos (inclusive a curricular). 2006 . Ela prepara os cidadãos. Fundamenta-se no critério da solidarieda- de e identificação de interesses comuns e é parte do processo de construção da cidadania coletiva e pública do grupo.. A educação não -formal tem outros atributos: ela não é. divide-se por idade/ classe de conhecimento. dentro de suas diferenças (raciais. n. “Quais são os resultados esperados em cada campo assinalado?” Na educação formal espera-se.formal poderá desenvolver. local específico. quando presentes num dado grupo social.. Rio de Janeiro. Ela tem caráter metódico e . usualmente. Na educação informal os resultados não são esperados. A construção de relações sociais baseadas em princípios de igualdade e justiça social. em oposição à barbárie. como a auto-estima). “Quais são os principais atributos de cada uma das modalidades educativas que estamos diferenciando?” A educação formal requer tempo. ela pode colaborar para o desenvolvimento da auto-estima e do empowerment do grupo. • forma o indivíduo para a vida e suas adversidades (e não apenas capacitao para entrar no mercado de trabalho). p. fortalece o exercício da cidadania. • quando presente em programas com crianças ou jovens adolescentes a educação não-formal resgata o sentimento de valorização de si próprio (o que a mídia e os manuais de auto-ajuda denominam. o desejo de lutarem para ser reconhecidos como iguais (enquanto seres humanos). além da certificação e titulação que capacitam os indivíduos a seguir para graus mais avançados. 27-38. disciplinamento. Educ. ao egoísmo. jan. eles simplesmente acontecem a partir do desenvolvimento do senso comum nos indivíduos.50. educa o ser humano para a civilidade. Desenvolve laços de pertencimento. ou seja dá condições aos indivíduos para desenvolverem sentimentos de auto-valorização. órgãos superiores etc. como resultados. Ajuda na construção da identidade coletiva do grupo (este é um dos grandes destaques da educação não-formal na atualidade).

• Mapeamento das formas de educação não formal na auto aprendizagem dos cidadãos (principalmente jovens). participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 31 giosas. culturais. Algumas características da educação não-formal: metas. planificada previamente segundo conteúdos prescritos nas leis. • Construção de metodologias que pos- sibilitem o acompanhamento do trabalho de egressos que participaram de programas de educação não formal. para aprender música.Educação não formal. • Construção da identidade coletiva de um grupo. lacunas e metodologias A seguir listamos algumas características que a educação não formal pode atingir em termos de metas. Na educação não-formal. As metodologias de desenvolvimento do processo ensino/aprendizagem são compostas por um leque grande de modalidades. • os indivíduos adquirem conhecimento de sua própria prática. os indivíduos aprendem a ler e interpretar o mundo que os cerca. Aprende-se a conviver com demais. os conteúdos emergem a partir dos temas que se colocam como necessidades. os Ensaio: aval. O método nasce a partir de problematização da vida cotidiana. De toda forma. • Sistematização das metodologias utilizadas no trabalho cotidiano.14.50. A educação informal tem como método básico a vivência e a reprodução do conhecido. as metodologias operadas no processo de aprendizagem parte da cultura dos indivíduos e dos grupos. na educação formal as metodologias são. Metodologias A questão da metodologia merece um destaque porque é um dos pontos mais fracos na educação não-formal e a comparação com as outras modalidades educativas que utilizamos no item anterior não resolve muito. reconhecimento dos indivíduos e do papel do outro. • Construção de instrumentos metodológicos de avaliação e análise do trabalho realizado. p. • Definição mais clara de funções e objetivos da educação não formal. Educ. 2006 . trabalha o “estranhamento”.). pol. etc. tocar um instrumento etc. O que falta na educação não-formal: • Formação específica a educadores a partir da definição de seu papel e as atividades a realizar. v. Aprendizado gerado por atos de vontade do receptor tais como a aprendizagem via Internet. em processos planejados de ações coletivas grupais: • O aprendizado da diferenças. • Balizamento de regras éticas relativas às condutas aceitáveis socialmente. obstáculos ou ações empreendedoras a serem realizadas. temas e problemas e não vamos adentrar neste debate porque não é nossa área de conhecimento. carências./mar.. usualmente.. Socializa-se o respeito mútuo. a reprodução da experiência segundo os modos e as formas como foram apreendidas e codificadas. 27-38. n. Rio de Janeiro. públ. • Criação de metodologias e indicadores para estudo e análise de trabalhos da Educação não formal em campos não sistematizados. desafios. jan. • Construção de metodologias que possibilitem o acompanhamento do trabalho que vem sendo realizado. • Adaptação do grupo a diferentes culturas.

políticos. b) Educação para justiça social. percursos. escolar. homens e mulheres. c) Educação para direitos (humanos. no século XX. há caminhos. os valores defendidos e os que são rejeitados. e as motivam. Rio de Janeiro. d) Educação para liberdade./mar. é de suma importância atentar para o papel dos agentes mediadores no processo: os educadores. Mas como há intencionalidades nos processos e espaços da educação não-formal. conhecimentos acumulados etc. Eles são fundamentais na marcação de referenciais no ato de aprendizagem. Educ. Visa à formação integral dos indivíduos. propostas. via a forma e espaços onde se desenvolvem suas práticas. 27-38. Ela não se subordina às estruturas burocráticas. apenas inseri-los no mercado de trabalho. sociais. cidadão do mundo. Em hipótese alguma ela substitui ou compete com a Educação Formal. ideologias. p. os mediadores. o movimento da realidade segundo o desenrolar dos acontecimentos. facilitadores. das orientações e representações que conferem sentido e significado às ações humanas. Resumidamente podemos enumerar os objetivos da educação não-formal como sendo: a) Educação para cidadania. conflitos. Para finalizar a primeira parte deste texto destacamos que também diferenciamos a educação não. em suma. metas. Eles se confrontarão com os outros participantes do processo educativo. mas ela tem também a possibilidade de desenvolver alguns objetivos que lhes são específicos. públ. f) Educação para democracia. ações solidárias etc. É dinâmica.). Penetra-se portanto no campo do simbólico. objetivos estratégicos que podem se alterar constantemente. São construídos no processo. v. A educação não. articulando escola e comunidade educativa localizada no território de entorno da escola. e) Educação para igualdade. Ensaio: aval.formal tem alguns de seus objetivos próximos da educação formal. a favor das diferenças culturais etc. culturais. codificadas.formal como aquela voltada para o ser humano como um todo. Supõe a existência da motivação das pessoas que participam. porque a maioria daquelas propostas ao se dirigirem para os excluídos objetivam. Qualquer que seja o caminho metodológico construído ou reconstruído.32 Maria da Glória Gohn conteúdos não são dados a priori. assessores.. O método passa pela sistematização dos modos de agir e de pensar o mundo que circunda as pessoas.50. que precisam ser desenvolvidas. eles carregam visões de mundo. pol. Há metodologias. são as marcas que singularizam a educação não-formal. etc. jan.14. a mudança. monitores. estabelecerão diálogos.formal de outras propostas de educação. por exemplo. via programações específicas. apoios ou qualquer outra denominação que se dê para os indivíduos que trabalham com grupos organizados ou não. a visão de mundo que estão construindo. Qual o projeto político-cultural do grupo. 2006 . na maior parte das vezes. em suma. contra as discriminações. ainda que com alto grau de provisoriedade pois o dinamismo. Neste sentido tem um caráter humanista. Ambiente não formal e mensagens veiculadas “falam ou fazem chamamentos” às pessoas e aos coletivos. referências. apresentadas como educação social. como a formação de um cidadão pleno. projetos societários. n. a exemplo de um conselho ou a participação em uma luta social. Entendemos a educação não . Poderá ajudar na complementação dessa última. Eles se destacam no conjunto e por meio deles podemos conhecer o projeto socioeducativo do grupo.

Em todas elas a educação não-formal está presente. Nos conselhos se entrecruzam necessidades advindas da prática da educação formal/escolar. Além disso. embora Ensaio: aval. O caráter educativo que essa participação adquire. estão presentes para referendar demandas corporativas. tais como os conselhos. os fóruns. revelando a importância da participação dos cidadãos (ãs) em ações coletivas na sociedade civil. esse poder continua nas mãos da diretora ou gestora. muitas vezes. usualmente. são inúmeras as novas práticas sociais expressas em novos formatos institucionais da participação. v. não participando de fato e servindo de “modelo passivo” para outros setores da comunidade educativa que compõem um colegiado. articulando-a aos processos de aprendizagem não-formal que os métodos de gestão participativa desenvolvem. de fato.14. exercitam um pacto do silêncio.. nem avaliam a relevância de participar ou de estarem presentes nas reuniões. Usualmente. Por que eles se comportam assim? Porque. jan. Muitos funcionários das escolas são membros dos conselhos e dos colegiados escolares mas. eles participam para ´compor`. quando ela ocorre em movimentos sociais comunitários. com a educação não-formal. A comunidade externa e os pais não dispõem de tempo e. organizados em função de causas públicas. Educ. Por que isso ocorre? Porque. Rio de Janeiro. o poder no interior das escolas.Educação não formal. na maioria dos casos. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 33 g) Educação contra discriminação. especialmente na esfera pública não estatal. prepara os indivíduos para atuarem como representantes da sociedade civil organizada. 27-38. 2006 . extra-escolar. que o monopoliza. A educação não-formal em ação: conselhos e colegiados na escola: espaços de educação não-formal Observa-se que inúmeras inovações no campo democrático advêm das práticas geradas pela sociedade civil que alteram a relação estado-sociedade ao longo do tempo e constróem novas formas políticas de agir. Ao analisarmos as possibilidades de participação da comunidade educativa em uma escola./mar. p. pol. Só exercem uma participação ativa nos colegiados aqueles pais com experiência participativa anterior.50. E os colegiados escolares são uma dessas instâncias. a exemplo dos distintos e diferenciados colegiados e conselhos. as assembléias populares e as parcerias. não podemos deixar de tecer algumas considerações sobre as estruturas de participação que já existem no interior das escolas. esses pais não estão preparados para entender as questões do cotidiano das reuniões. não a divulga com antecedência etc. Observa-se que o processo brasileiro de descentralização da educação não descentralizou. como as orçamentárias. para dar número e quorum necessários aos colegiados. Como elo mais fraco do poder. principalmente no que se refere a participação dos pais e outros membros da comunidade educativa nas suas reuniões. n. contribuindo com esse comportamento para não construir nada e nada mudar. De fato. ou para fortalecer diretorias centralizadoras. e para a manifestação das diferenças culturais. públ. h) Educação pelo exercício da cultura. faz a pauta das reuniões dos conselhos e colegiados escolares. usualmente. como processo de aprendizagem de saberes aos e entre seus participantes.

Essa luta nunca teve grande visibilidade como um ator independente. por intermédio dos Conselhos. Os fóruns são frutos das redes tecidas nos anos 70/80 que possibilitaram aos grupos organizados olhar para além da dimensão do local. Falta de vagas. visões de mundo etc. cujo papel é exercer o controle. até por serem previstos em lei. n. no período da Constituinte. seus valores. pelo Fórum Nacional de Luta pela Escola Pública. mas que na realidade defendem o interesse de grupos e corporações. e uma conquista para o exercício da cidadania. interessados e gestores públicos. Rio de Janeiro. eles devem ter como lastro de suas ações os princípios da igualdade e da universalidade. São aprendizagens que estão gerando saberes.50. como a luta pela educação desenvolvida. Movimentos sociais na área da educação Cumpre mencionar. Os colegiados devem construir ou desenvolver essa sensibilidade por meio de um conjunto de valores que venham a ser refletidos em suas práticas. pois suas demandas foram. essa cidadania tem que ser qualificada e construída na prática. ou por articulações mais amplas. um novo tecido social denso e diversificado. Processos difíceis. Os projetos políticos dos representantes dos diferentes segmentos e grupos. pela resistência ou pela reiteração obstinada do velho. Educ. Não se deve perder de vista que. públ. tensionados mas educativos para todos. a vigilância em razão de uma falsa participação ordeira e voltada para a responsabilização da comunidade ( pais. As novas práticas de interação escola/representantes da sociedade civil organizada devem ser examinadas à luz dos processos da educação nãoformal caracterizados na primeira parte deste texto. freqüentemente. incorporadas pelos sindicatos dos professores e demais profissionais da educação. interferem na dinâmica desses processos participativos. Para terem como meta projetos emancipatórios. mães e outros mais ) nas ações em que o Estado se omite (SILVA. tencionam as velhas formas de fazer política e criam novas possibilidades concretas para o futuro. no campo dos movimentos sociais enquanto uma área de aprendizagem da educação não-formal. ou a manutenção do poder tradicional. v. como no caso da saúde. jan. temos uma inclusão excludente: aumento do número de alunos nas escolas e estruturas descentralizadas que não ampliam de fato a intervenção da comunidade na escola. 2003). têm abrangência nacional e são fontes de referência e comparação para os próprios participantes. pol. Sem isso. progressões continuadas Ensaio: aval. a luta pela educação. filas para matrículas. resultados de exames nacionais. alteraram o cotidiano das escolas e deram as bases para a mobilização de novas lutas e movimentos pela educação./mar. Temos setores que pretensamente estão representando o interesse público. assim. 2006 . a observatórios e grupos semi-institucionalizados do orçamento participativo. tendo a possibilidade de exercer maior controle sobre o Estado. a sociedade civil exercita o direito de participar da gestão de diferentes políticas públicas. p. que não quer ceder à pressão das novas forças.. em termos de opções democráticas. As novas práticas constituem. As assembléias e plenárias têm ganha- do formatos variados que vão de encontros regulares e periódicos entre especialistas. As reformas neoliberais realizadas nas escolas públicas de ensino fundamental e médio. pelo que trazem de novo. na década de 90. 27-38.34 Maria da Glória Gohn os colegiados sejam um espaço legítimo e de direito.14.

a saber: • Lutas pelo acesso. no bairro ou na região.50. portanto. Com isso. jan. etnia. n. a violência entre os jovens e o universo das drogas levou-as à busca de parcerias. foram pautas da agenda do movimento na área da educação. alguns dos principais eixos das demandas pela educação nos movimentos sociais envolvendo as escolas. articuladoras de ações que retomem o sentido da civilidade humana. As lutas pela educação envolvem a luta por direitos e são parte da construção da cidadania. atribuindo-lhes caráter emancipatório. denúncias de fraudes no uso dos novos fundos de apoio à educação (especialmente o FUNDEF). moral. Tendo em vista que um dos principais sujeitos da sociedade civil organizada são os movimentos sociais. qualidade de vida. Ensaio: aval. Educ. direitos humanos. 27-38. p. centros de desenvolvimento da educação não-formal. baseado nas necessidades e experiência acumulada historicamente dos seres humanos e não nas necessidades do mercado. aos problemas econômicos e às políticas públicas. entre outras. desenvolvendo essas práticas na escola pública. a seguir. 2006 . típico da educação não-formal. tais como os distintos conselhos tratados acima. pol./mar. agentes de construção de territórios civilizatórios. religiões. Registre-se ainda que a crise econômica e o desemprego obrigaram centenas de famílias das camadas médias a procurar vagas nas escolas públicas. são processuais e ocorrem. Rio de Janeiro. essa influência não advém apenas de uma tendência da escola em direção ao bairro: no interior da escola também existem novos espaços de participação. com outros organismos e associações organizadas. meio ambiente. A cada luta corresponde um momento do processo de aprendizagem. Fora da ótica da universalidade dos direitos caímos nas políticas focalizadas. Além de aumentar a demanda.14. públ. as escolas passaram a ser. A ótica dos direitos como ponto de partida poderá nos fazer entender as mudanças sociais em curso. pois a falta de verbas e a busca de solução para novos problemas como a segurança. Esses movimentos são fontes e agências de produção de saberes. é importante registrar que os movimentos pela educação têm caráter histórico. antes mais fechada à participação dos pais. Assim. deslocamento de alunos de uma mesma família para diferentes escolas. as escolas passaram a desempenhar o papel de centros comunitários. v. essas famílias estavam acostumadas a acompanhar mais o cotidiano das escolas de seus filhos. direitos culturais etc. A ótica dos direitos possibilita-nos a construção de uma agenda de investigação que gera sinergias e não compaixão.Educação não formal. paz. além de espaços de formação e aprendizagem da educação formal. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 35 (passagem de ano sem exames). dentro e fora de escolas e em outros espaços institucionais. especialmente em tempos neoliberais que destróem ou massificam as culturas locais. que resultam em políticas emancipadoras e não compensatórias. meras justificativas para políticas que promovem uma modernização conservadora. nacionalidade. regionais ou nacionais.. Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero. Listamos. O tema dos direitos é fundamental porque ele dá universalidade às questões sociais. portadores de necessidades especiais. em muitos bairros. É a partir dos direitos que fazemos o resgate da cultura de um povo e de uma nação. Partir da ótica dos direitos de um povo ou agrupamento social é adotar um princípio ético. No entanto. atrasos nos repasses de verbas para merendas escolares.

trajetória das experiências. em seu sentido mais amplo. em programas sociais compensatórios. Como democratizar esses espaços? Como ressignificá-los para que as obras e serviços realizados numa escola. informal e não-formal. contestam-se concepções relativas às formas que buscam. mensalidades. dedicamos a primeira parte do texto a qualificação e diferenciação de um conceito que tem centralidade no tema que estamos discutido. aborda a educação como promotora de mecanismos de inclusão social.legislações. envolvendo organização.50. integrar indivíduos atomizados e desterritorializados. Educ. 2006 . pol. tolerância e respeito ao outro. que altere as mentalidades. mas também uma urgência e uma demanda da sociedade atual. precisa desenvolver uma cultura participativa nova. que resgatam alguns ideais já esquecidos pela humanidade./mar. n. v. e sim como direito da população? Como resgatar o direito à educa- Conclusões e desafios Articular a educação. com projetos de emancipação dos cidadãos que objetivem mudanças substantivas e não instrumentais.. os valores. que construam novos valores. refeitórios. não sejam vistos como dádivas de uma diretora. colegiados etc. • Luta dos professores e outros profissionais da educação por condições salariais e de trabalho. p.36 Maria da Glória Gohn • Aumento de vagas. aqui entendidos como a participação de coletivos de pessoas diferentes com metas iguais. por exemplo. • Escola com projetos pedagógicos que respeitem as culturas locais. ou de algum político ou administrador público. corre-se o risco de se ter espaços mais autoritários do que já eram quando centralizados. embora esses itens também sejam importantes. Entende-se por inclusão as formas que promovem o acesso aos direitos de cidadania. Isto tudo está no campo da educação não-formal. se não houver sentido nas formas de participação na área da educação. • Por políticas públicas. moradia. por isso. condições. • Realização de experiências alternativas.. Isso implica a criação de coletivos que desenvolvam saberes não apenas normativos . acompanhamento. simplesmente. experiências ou reformas educacionais. Por isso trabalhamos com um conceito amplo de educação que envolve campos diferenciados. da educação formal. • Escola pública com qualidade. 27-38. formatos de aplicação de verbas etc. jan. etc. construção de cultura política. dado o papel dos fundos públicos no campo de disputa política em torno das verbas públicas. É preciso desenvolver saberes que orientem as práticas sociais. como o de civilidade. A gestão compartilhada em suas diferentes formas de conselhos. públ. • Lutas dos estudantes por vagas. redefinição do conceito de participação . com os processos de formação dos indivíduos como cidadãos. a forma de conceber a gestão pública em nome dos direitos da maioria e não de grupos lobbistas. • Valor das mensalidades das escolas particulares. contra discriminações. Acreditamos que propostas se fazem com idéias e fundamentos. Rio de Janeiro. uma utopia. Reiteramos neste texto a perspectiva que Ensaio: aval. • Luta no processo de implantação de novos modelos. qual seja: a importância da educação não-formal.14. Entretanto. ou articular a escola com a comunidade educativa de um território é um sonho. • Gestão democrática da escola.

v. Não é mais possível permanecer no conformismo diante de espaços dominados por antigos métodos clientelistas. formulados no gabinete de algum burocrata. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 37 ção enquanto política educacional ao nível das instâncias locais. 2006 . qualifiquem seu sentido e significado. arraigadas. no exercício das tarefas de que a conjuntura de uma dada escola. Não dá para contar apenas com heroísmos de alguns gestores públicos bem intencionados ou de poucas lideranças da sociedade civil. é retomar as utopias e priorizar a mobilização e a participação da comunidade educativa na construção de novas agendas. É preciso criatividade e ousadia porque as novidades só ganham força quando passam a ter hegemonia em certos coletivos organizados mais amplos. jan. Não basta um programa.formal é um campo valioso na construção daquelas agendas. Isso não se faz apenas em aulas e cursos de formação tradicionais. Para isso propomos a articulação dos processos de participação da sociedade civil organizada com as escolas. Ensaio: aval. participativos. Rio de Janeiro. sem esquecer que elas são parte de um todo que extrapola as fronteiras nacionais? Como gerar novas políticas na gestão dos fundos públicos? São desafios e tarefas gigantescas. e sim a partir da prática da gestão compartilhada escola/comunidade educativa. 27-38. A educação não . o mercado. e para o papel que a escola pode ter como campo de formação de um novo modelo civilizatório. ativos. o status político e social. e transforme culturas políticas arcaicas. é preciso voltar os olhos para a organização da sociedade civil. o poder em suma. mas exige uma preparação contínua. pois construir sentido e significados novos na gestão da escola é uma prática que tem que se pautar por um outro olhar em relação ao papel da escola num dado território. a articulação da educação formal com a não-formal para dar vida e viabilizar mudanças significativas na educação e na sociedade como um todo. Educ.14. Essas agendas devem contemplar projetos emancipatórios que tenham como prioridade a mudança social. Participar dos conselhos e colegiados das escolas é uma urgência e uma necessidade imperiosa. p. É preciso reconhecer a existência e a importância da educação não-formal no processo de construção de uma sociedade sem injustiças. em suma. Por isso. um aprendizado permanente. democrática. numa determinada comunidade territorial. ou mais um conselho. públ. uma atividade de ação e reflexão. e para dar sentido e significado às próprias lutas no campo da educação visando à transformação da realidade social. para os processos de educação não-formal que nela se desenvolvem.Educação não formal. um plano. pensem alternativas para um novo modelo econômico não excludente que contemple valores de uma sociedade em que o ser humano é centro das atenções e não o lucro. em culturas políticas transformadoras e emancipatórias. Construir cidadãos éticos./mar. pol. necessite. Propomos.50. pela ordem tradicional. Concluímos este texto com uma proposta de caráter sociopolítico: a de transformar as escolas em centro de referências civilizatórias nos bairros onde se localizam. com responsabilidade diante do outro e preocupados com o universal e não com particularismos... Precisamos de uma nova educação que forme o cidadão para atuar nos dias de hoje. n.

Rio de Janeiro: Paz e Terra. B. São Paulo: Cortez. ed. Porto Alegre. 10. Movimentos sociais e educação. n. FREIRE. pol. PUTNAM. Movimentos e lutas sociais na História do Brasil. S. São Paulo: Loyola.38 Maria da Glória Gohn Referências BAUMAN.14. S. Community. 4. 2003. ______. P Pedagogia do oprimido. Conselhos gestores e participação sociopolítica. p. n. 2003. SANTOS. 2003.). 2002. Educação. 2001. Educação não-formal e cultura política. 1995. uma relação armadilhada: interculturalidade e relações de po. v. R. . R. ed. New York: Simon & Schuster. Porto: Afrontamento. Cambridge: Polity. Teoria dos movimentos sociais. B. Pátio: revista pedagógica. Z. 1999. A.. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. O protagonismo da sociedade civil: movimentos sociais. Bowling alone.família. SILVA. HONNETH. públ. ano 3. São Paulo: Cortez. ed. jan. 27-38. SENNET. São Paulo: Cortez. GOHN. 2004. São Paulo: Cortez. ______. (Org. p. 2003. 2005. escola e comunidade: na busca de um compromisso. 2005. 34. ed. São Paulo: Loyola. Luta por reconhecimento:a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Cortez.50. Recebido em: 27/07/2005 Aceito para publicação em: 13/02/2006 Ensaio: aval. D. 1980. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 2. Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. P Escola . G. ______. SANTOS. der. Rio de Janeiro: Record. Educ. Rio de Janeiro. 2000. ______. 8-12. São Paulo: Ed. C. 5./mar. 1999. COLL. ONGs e redes solidárias. 2000. ______. 3. 2006 . M.