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Educacao nao-formal[1]. Maria da Gloria Gohn

Educacao nao-formal[1]. Maria da Gloria Gohn

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Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas

Maria da Glória Gohn

Resumo

O trabalho apresenta um estudo sobre a educação não-formal e seu papel no processo educativo mais geral. Considera-se a educação não-formal como uma área de conhecimento ainda em construção. Estuda-se a possiThe paper presents a study about the bilidade deste processo em conselhos non-formal education and its role in de escolas e o aprendizado que resulthe wide educative ta da participação da soprocess. It considers ciedade civil nestes conthe non-formal selhos. O trabalho se diMaria da Glória Gohn education as an area vide em duas partes: a Pós-Doutorado em Sociologia, of knowledge still in primeira tem caráter teóNew School of University, New York construction. It studies Professora Titular da rico e discute a categoria the possibility of this UNINOVE e da UNICAMP educação não-formal em Pesquisadora I do CNPq educational process in si, seu campo e atributos. mgohn@uol.com.br the councils of schools Por meio da análise comand the learning that parativa, busca-se diferesults from the civil renciá-la da educação society participation in these councils. formal e da educação informal. A seThe paper has two parts: the first has a gunda investiga a categoria da edutheoretical character and discusses the cação não - formal em conselhos esnon-formal category, distinguishing it colares, e em movimentos sociais que from the formal and informal education atuam na área da educação. categories. The second one Palavras-chave: Educação não-forinvestigates the non-formal category in mal. Educação formal. Educação inthe councils of the schools and in the formal. Conselhos participativos. Parsocial movements acting in the ticipação da sociedade civil. Conseeducational area. lhos de escolas.

Abstract Non-formal education, civil society participation and councils structures in the schools

Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006

a capacitação dos indivíduos para o trabalho. voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos. El trabajo investiga la posibilidad del proceso de educación no-formal en los consejos de las escuelas. 2006 . bairro. extremamente simples.. a saber: “Quem é o educador em cada campo Ensaio: aval. por meio da aprendizagem de habilidades e/ ou desenvolvimento de potencialidades. Educación informal. 27-38. Consejos participativos. Palabras clave: Educación noformal. A educação não-formal designa um processo com várias dimensões tais como: a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos. El trabajo fue ordenado en dos partes: la primera tiene un carácter teórico y discute la categoría educación no-formal. La educación no-formal es un campo de conecimiento todavía en construcción. a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários./mar. Participative councils. com conteúdos previamente demarcados. de pertencimento e sentimentos herdados: e a educação não-formal é aquela que se aprende “no mundo da vida”. a informal como aquela que os indivíduos aprendem durante seu processo de socialização . aparentemente.28 Maria da Glória Gohn Keywords: Non-formal education. participación de la sociedad civil y estructuras de consejos en las escuelas El objectivo de este trabajo es realizar un estudio sobre la educación no-formal y sus roles en el proceso de educación más general. Quando tratamos da educação nãoformal. mas nem por isso simplificadoras da realidade.. principalmente em espaços e ações coletivos cotidianas. em especial a eletrônica etc.na família. a comparação com a educação formal é quase que automática. via os processos de compartilhamento de experiências. Educación formal. Consideramos que é necessário distinguir e demarcar as diferenças entre estes conceitos. Formal education. Educ. en los consejos de las escuelas y en los movimientos sociales del area educacional. Consejos de las escuelas. carregada de valores e culturas próprias. Resumen Educación no-formal. n. pol. a educação desenvolvida na mídia e pela mídia. a aprendizagem de conteúdos que possibilitem aos indivíduos fazerem uma leitura do mundo do ponto de vista de compreensão do que se passa ao seu redor. jan. haciendo distinción de la educación formal y de la educación informal. Council school.14. Sociedad civile. A princípio podemos demarcar seus campos de desenvolvimento: a educação formal é aquela desenvolvida nas escolas. p. Civil society participation. públ. clube. amigos etc. Vamos tentar demarcar melhor essas diferenças por meio uma série de questões. Informal education. que são. Rio de Janeiro. y hace un análisis de las aprendizajes que estas experiencias generan hacia los consejeros. v.50. La segunda investiga la categoría no-formal. O termo não-formal também é usado por alguns investigadores como sinônimo de informal.

A informal opera em ambientes espontâneos. os agentes educadores são os pais. atitudes. o bairro. jan. sexo. a rua. etc. etnia etc. preferências. com regras e padrões comportamentais definidos previamente. “Onde se educa? Qual é o espaço físico territorial onde transcorrem os atos e os processos educativos?” Na educação formal estes espaços são os do território das escolas. percepção. aquele com quem interagimos ou nos integramos.formal capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo. fora das escolas.50. no ato de participar. dentre os quais destacam-se o de formar o indivíduo como um cidadão ativo. Na educação informal. modos de pensar e de se expressar no uso da linguagem. quem educa é o agente do processo de construção do saber?” Na educação formal sabemos que são os professores. o clube que se freqüenta. mas ela também poderá ocorrer por forças de certas circunstâncias da vivência histórica de cada um. certificadoras. o condomínio. localidade. a igreja ou o local de culto a que se vincula sua crença religiosa. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 29 de educação que estamos tratando? Em cada campo.. desenvolve hábitos. segundo valores e crenças de grupos que se freqüenta ou que pertence por herança. os vizinhos. o grande educador é o “outro”. são instituições regulamentadas por lei. desenvolver habilidades e competências várias. A educação informal socializa os indivíduos. em qual contexto?” A educação formal pressupõe ambientes normatizados. Na não-formal. idade. Há na educação não-formal uma intencionalidade na ação. organizadas segundo diretrizes nacionais. A educação não. o local onde se nasceu. Rio de Janeiro. 2006 . onde as relações sociais se desenvolvem segundo gostos. religião. Seus objetivos não são dados a priori. v.Educação não formal. ou pertencimentos herdados. públ. em locais informais.Um modo de educar surge como resultado do processo voltado para os interesses e as necessidades Ensaio: aval. desenvolver a criatividade. no mundo. eles se constróem no processo interativo. pol. desde o nascimento Trata-se do processo de socialização dos indivíduos. a família em geral. os espaços educativos localizam-se em territórios que acompanham as trajetórias de vida dos grupos e indivíduos. os meios de comunicação de massa. usualmente a participação dos indivíduos é optativa. normatizados por leis. os amigos. Já a educação informal tem seus espaços educativos demarcados por referências de nacionalidade. locais onde há processos interativos intencionais ( a questão da intencionalidade é um elemento importante de diferenciação). gerando um processo educativo. Na educação não-formal. p. de aprender e de transmitir ou trocar saberes. Educ.14. A não -formal ocorre em ambientes e situações interativos construídos coletivamente. Sua finalidade é abrir janelas de conhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais. entre outros objetivos destacam-se os relativos ao ensino e aprendizagem de conteúdos historicamente sistematizados. “Como se educa? Em que situação. comportamentos. etc. n. A casa onde se mora. “Qual a finalidade ou objetivos de cada um dos campos de educação assinaladas?” Na educação formal./mar. 27-38. a igreja paroquial. motricidade etc. colegas de escola. segundo diretrizes de dados grupos.

como resultados. como a auto-estima). A transmissão de informação e formação política e sociocultural é uma meta na educação não formal.50. individualismo etc. A construção de relações sociais baseadas em princípios de igualdade e justiça social. “Quais são os resultados esperados em cada campo assinalado?” Na educação formal espera-se.14. A educação informal não é organizada. Ela prepara os cidadãos.30 Maria da Glória Gohn que dele participa. • A construção e reconstrução de concepção (ões) de mundo e sobre o mundo. 27-38. 2006 . ao egoísmo. Ajuda na construção da identidade coletiva do grupo (este é um dos grandes destaques da educação não-formal na atualidade). sobretudo que haja uma aprendizagem efetiva (que. organização de vários tipos (inclusive a curricular). organizada por séries/ idade/conteúdos. infelizmente nem sempre ocorre). eles simplesmente acontecem a partir do desenvolvimento do senso comum nos indivíduos. A educação não. de rejeição dos preconceitos que lhes são dirigidos. É um processo permanente e não organizado. disciplinamento. Rio de Janeiro. • forma o indivíduo para a vida e suas adversidades (e não apenas capacitao para entrar no mercado de trabalho). quando presentes num dado grupo social. Ela atua no campo das emoções e sentimentos. em oposição à barbárie. divide-se por idade/ classe de conhecimento.. p. fortalece o exercício da cidadania. • quando presente em programas com crianças ou jovens adolescentes a educação não-formal resgata o sentimento de valorização de si próprio (o que a mídia e os manuais de auto-ajuda denominam. sistematização seqüencial das atividades. jan. além da certificação e titulação que capacitam os indivíduos a seguir para graus mais avançados. pol. regulamentos e leis. dentro de suas diferenças (raciais. local específico. usualmente é o passado orientando o presente. Na educação informal os resultados não são esperados. trabalha e forma a cultura política de um grupo. o desejo de lutarem para ser reconhecidos como iguais (enquanto seres humanos). públ. Fundamenta-se no critério da solidarieda- de e identificação de interesses comuns e é parte do processo de construção da cidadania coletiva e pública do grupo. v. simplificadamente./mar. A educação não -formal tem outros atributos: ela não é. ou seja dá condições aos indivíduos para desenvolverem sentimentos de auto-valorização.. Desenvolve laços de pertencimento. uma série de processos tais como: • consciência e organização de como agir em grupos coletivos. étnicas. os conhecimentos não são sistematizados e são repassados a partir das práticas e experiência anteriores. pessoal especializado. órgãos superiores etc. ela pode colaborar para o desenvolvimento da auto-estima e do empowerment do grupo. usualmente. • contribuição para um sentimento de identidade com uma dada comunidade. atua sobre aspectos subjetivos do grupo. reli- Ensaio: aval. criando o que alguns analistas denominam. o capital social de um grupo. educa o ser humano para a civilidade. “Quais são os principais atributos de cada uma das modalidades educativas que estamos diferenciando?” A educação formal requer tempo.formal poderá desenvolver. senso este que orienta suas formas de pensar e agir espontaneamente. n. Ela tem caráter metódico e . Educ.

• Construção de metodologias que pos- sibilitem o acompanhamento do trabalho de egressos que participaram de programas de educação não formal. em processos planejados de ações coletivas grupais: • O aprendizado da diferenças. Educ. reconhecimento dos indivíduos e do papel do outro. Rio de Janeiro. Algumas características da educação não-formal: metas. culturais. os Ensaio: aval. Aprendizado gerado por atos de vontade do receptor tais como a aprendizagem via Internet. • os indivíduos adquirem conhecimento de sua própria prática. p. De toda forma. v. • Construção da identidade coletiva de um grupo.). as metodologias operadas no processo de aprendizagem parte da cultura dos indivíduos e dos grupos. O método nasce a partir de problematização da vida cotidiana. tocar um instrumento etc. para aprender música. desafios.Educação não formal. • Sistematização das metodologias utilizadas no trabalho cotidiano. a reprodução da experiência segundo os modos e as formas como foram apreendidas e codificadas. na educação formal as metodologias são. públ. jan. usualmente../mar. os indivíduos aprendem a ler e interpretar o mundo que os cerca. O que falta na educação não-formal: • Formação específica a educadores a partir da definição de seu papel e as atividades a realizar. carências. Metodologias A questão da metodologia merece um destaque porque é um dos pontos mais fracos na educação não-formal e a comparação com as outras modalidades educativas que utilizamos no item anterior não resolve muito. Aprende-se a conviver com demais. • Criação de metodologias e indicadores para estudo e análise de trabalhos da Educação não formal em campos não sistematizados. planificada previamente segundo conteúdos prescritos nas leis. temas e problemas e não vamos adentrar neste debate porque não é nossa área de conhecimento..14. trabalha o “estranhamento”. lacunas e metodologias A seguir listamos algumas características que a educação não formal pode atingir em termos de metas. pol. n. • Construção de metodologias que possibilitem o acompanhamento do trabalho que vem sendo realizado. • Definição mais clara de funções e objetivos da educação não formal. obstáculos ou ações empreendedoras a serem realizadas. 27-38.50. Na educação não-formal. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 31 giosas. • Balizamento de regras éticas relativas às condutas aceitáveis socialmente. os conteúdos emergem a partir dos temas que se colocam como necessidades. As metodologias de desenvolvimento do processo ensino/aprendizagem são compostas por um leque grande de modalidades. Socializa-se o respeito mútuo. • Mapeamento das formas de educação não formal na auto aprendizagem dos cidadãos (principalmente jovens). • Construção de instrumentos metodológicos de avaliação e análise do trabalho realizado. etc. • Adaptação do grupo a diferentes culturas. A educação informal tem como método básico a vivência e a reprodução do conhecido. 2006 .

Qualquer que seja o caminho metodológico construído ou reconstruído. Em hipótese alguma ela substitui ou compete com a Educação Formal.). O método passa pela sistematização dos modos de agir e de pensar o mundo que circunda as pessoas. no século XX. apoios ou qualquer outra denominação que se dê para os indivíduos que trabalham com grupos organizados ou não. são as marcas que singularizam a educação não-formal. ainda que com alto grau de provisoriedade pois o dinamismo. referências.formal tem alguns de seus objetivos próximos da educação formal. p. apresentadas como educação social. na maior parte das vezes. estabelecerão diálogos. via a forma e espaços onde se desenvolvem suas práticas. Supõe a existência da motivação das pessoas que participam. por exemplo. os mediadores.formal como aquela voltada para o ser humano como um todo. Neste sentido tem um caráter humanista. em suma. públ. jan. há caminhos. a favor das diferenças culturais etc. 27-38.50. São construídos no processo. Visa à formação integral dos indivíduos.32 Maria da Glória Gohn conteúdos não são dados a priori. em suma. e) Educação para igualdade. ideologias. n. b) Educação para justiça social. a visão de mundo que estão construindo. os valores defendidos e os que são rejeitados. Eles se destacam no conjunto e por meio deles podemos conhecer o projeto socioeducativo do grupo. metas. conhecimentos acumulados etc. Rio de Janeiro. das orientações e representações que conferem sentido e significado às ações humanas. homens e mulheres./mar. Poderá ajudar na complementação dessa última. etc. via programações específicas. Há metodologias. Penetra-se portanto no campo do simbólico. eles carregam visões de mundo. contra as discriminações. apenas inseri-los no mercado de trabalho. políticos. percursos. c) Educação para direitos (humanos. Qual o projeto político-cultural do grupo. Resumidamente podemos enumerar os objetivos da educação não-formal como sendo: a) Educação para cidadania. culturais. f) Educação para democracia. Ela não se subordina às estruturas burocráticas. Mas como há intencionalidades nos processos e espaços da educação não-formal. conflitos. 2006 . que precisam ser desenvolvidas. mas ela tem também a possibilidade de desenvolver alguns objetivos que lhes são específicos. monitores. Eles se confrontarão com os outros participantes do processo educativo. Para finalizar a primeira parte deste texto destacamos que também diferenciamos a educação não. é de suma importância atentar para o papel dos agentes mediadores no processo: os educadores. a mudança.14. a exemplo de um conselho ou a participação em uma luta social. assessores. v. propostas. o movimento da realidade segundo o desenrolar dos acontecimentos. Ensaio: aval. cidadão do mundo. articulando escola e comunidade educativa localizada no território de entorno da escola.formal de outras propostas de educação. e as motivam. porque a maioria daquelas propostas ao se dirigirem para os excluídos objetivam. Educ. ações solidárias etc. Eles são fundamentais na marcação de referenciais no ato de aprendizagem. codificadas.. objetivos estratégicos que podem se alterar constantemente. É dinâmica. projetos societários. escolar. A educação não. Ambiente não formal e mensagens veiculadas “falam ou fazem chamamentos” às pessoas e aos coletivos. como a formação de um cidadão pleno. Entendemos a educação não . facilitadores. d) Educação para liberdade. sociais. pol.

h) Educação pelo exercício da cultura. principalmente no que se refere a participação dos pais e outros membros da comunidade educativa nas suas reuniões. Por que isso ocorre? Porque. embora Ensaio: aval. tais como os conselhos. pol. exercitam um pacto do silêncio. usualmente. Em todas elas a educação não-formal está presente. estão presentes para referendar demandas corporativas. as assembléias populares e as parcerias. não podemos deixar de tecer algumas considerações sobre as estruturas de participação que já existem no interior das escolas.14. prepara os indivíduos para atuarem como representantes da sociedade civil organizada. não a divulga com antecedência etc. como processo de aprendizagem de saberes aos e entre seus participantes./mar.Educação não formal. Só exercem uma participação ativa nos colegiados aqueles pais com experiência participativa anterior. quando ela ocorre em movimentos sociais comunitários. Rio de Janeiro. extra-escolar. organizados em função de causas públicas. Muitos funcionários das escolas são membros dos conselhos e dos colegiados escolares mas. Além disso. revelando a importância da participação dos cidadãos (ãs) em ações coletivas na sociedade civil. especialmente na esfera pública não estatal. Usualmente. de fato. articulando-a aos processos de aprendizagem não-formal que os métodos de gestão participativa desenvolvem. como as orçamentárias. a exemplo dos distintos e diferenciados colegiados e conselhos. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 33 g) Educação contra discriminação. contribuindo com esse comportamento para não construir nada e nada mudar. para dar número e quorum necessários aos colegiados. v. 2006 . não participando de fato e servindo de “modelo passivo” para outros setores da comunidade educativa que compõem um colegiado. que o monopoliza. com a educação não-formal. Educ. jan. são inúmeras as novas práticas sociais expressas em novos formatos institucionais da participação. ou para fortalecer diretorias centralizadoras. Como elo mais fraco do poder. muitas vezes. n. na maioria dos casos. públ.50. Nos conselhos se entrecruzam necessidades advindas da prática da educação formal/escolar. Ao analisarmos as possibilidades de participação da comunidade educativa em uma escola. O caráter educativo que essa participação adquire. o poder no interior das escolas. usualmente. esses pais não estão preparados para entender as questões do cotidiano das reuniões. e para a manifestação das diferenças culturais. Observa-se que o processo brasileiro de descentralização da educação não descentralizou. eles participam para ´compor`. p. A comunidade externa e os pais não dispõem de tempo e. nem avaliam a relevância de participar ou de estarem presentes nas reuniões. Por que eles se comportam assim? Porque. 27-38. esse poder continua nas mãos da diretora ou gestora. A educação não-formal em ação: conselhos e colegiados na escola: espaços de educação não-formal Observa-se que inúmeras inovações no campo democrático advêm das práticas geradas pela sociedade civil que alteram a relação estado-sociedade ao longo do tempo e constróem novas formas políticas de agir. De fato. os fóruns. faz a pauta das reuniões dos conselhos e colegiados escolares. E os colegiados escolares são uma dessas instâncias..

têm abrangência nacional e são fontes de referência e comparação para os próprios participantes. a luta pela educação. tensionados mas educativos para todos. a sociedade civil exercita o direito de participar da gestão de diferentes políticas públicas. v. Rio de Janeiro. seus valores. jan. eles devem ter como lastro de suas ações os princípios da igualdade e da universalidade. 2006 . cujo papel é exercer o controle. Falta de vagas. 2003). n. no campo dos movimentos sociais enquanto uma área de aprendizagem da educação não-formal. mas que na realidade defendem o interesse de grupos e corporações. As assembléias e plenárias têm ganha- do formatos variados que vão de encontros regulares e periódicos entre especialistas. As novas práticas constituem. p. resultados de exames nacionais. temos uma inclusão excludente: aumento do número de alunos nas escolas e estruturas descentralizadas que não ampliam de fato a intervenção da comunidade na escola. como a luta pela educação desenvolvida./mar. a vigilância em razão de uma falsa participação ordeira e voltada para a responsabilização da comunidade ( pais. mães e outros mais ) nas ações em que o Estado se omite (SILVA. progressões continuadas Ensaio: aval. interferem na dinâmica desses processos participativos. Não se deve perder de vista que.14. Movimentos sociais na área da educação Cumpre mencionar. incorporadas pelos sindicatos dos professores e demais profissionais da educação. As novas práticas de interação escola/representantes da sociedade civil organizada devem ser examinadas à luz dos processos da educação nãoformal caracterizados na primeira parte deste texto. filas para matrículas. no período da Constituinte. pelo Fórum Nacional de Luta pela Escola Pública. alteraram o cotidiano das escolas e deram as bases para a mobilização de novas lutas e movimentos pela educação. freqüentemente. em termos de opções democráticas. Sem isso.34 Maria da Glória Gohn os colegiados sejam um espaço legítimo e de direito. As reformas neoliberais realizadas nas escolas públicas de ensino fundamental e médio.50. Educ. visões de mundo etc. São aprendizagens que estão gerando saberes. Os projetos políticos dos representantes dos diferentes segmentos e grupos. como no caso da saúde. até por serem previstos em lei. 27-38. pela resistência ou pela reiteração obstinada do velho. tencionam as velhas formas de fazer política e criam novas possibilidades concretas para o futuro. na década de 90. pol. Os fóruns são frutos das redes tecidas nos anos 70/80 que possibilitaram aos grupos organizados olhar para além da dimensão do local. Temos setores que pretensamente estão representando o interesse público. e uma conquista para o exercício da cidadania. interessados e gestores públicos. por intermédio dos Conselhos. pelo que trazem de novo. Para terem como meta projetos emancipatórios. a observatórios e grupos semi-institucionalizados do orçamento participativo. pois suas demandas foram. Essa luta nunca teve grande visibilidade como um ator independente. Processos difíceis. que não quer ceder à pressão das novas forças. ou a manutenção do poder tradicional.. um novo tecido social denso e diversificado. públ. assim. essa cidadania tem que ser qualificada e construída na prática. Os colegiados devem construir ou desenvolver essa sensibilidade por meio de um conjunto de valores que venham a ser refletidos em suas práticas. tendo a possibilidade de exercer maior controle sobre o Estado. ou por articulações mais amplas.

centros de desenvolvimento da educação não-formal.. além de espaços de formação e aprendizagem da educação formal. em muitos bairros. meio ambiente. Ensaio: aval. atrasos nos repasses de verbas para merendas escolares. Com isso. nacionalidade. Além de aumentar a demanda. denúncias de fraudes no uso dos novos fundos de apoio à educação (especialmente o FUNDEF). A ótica dos direitos possibilita-nos a construção de uma agenda de investigação que gera sinergias e não compaixão. a seguir. desenvolvendo essas práticas na escola pública. religiões. Educ. v. dentro e fora de escolas e em outros espaços institucionais. entre outras. no bairro ou na região. essas famílias estavam acostumadas a acompanhar mais o cotidiano das escolas de seus filhos. portadores de necessidades especiais./mar. Listamos. Tendo em vista que um dos principais sujeitos da sociedade civil organizada são os movimentos sociais. direitos humanos. Registre-se ainda que a crise econômica e o desemprego obrigaram centenas de famílias das camadas médias a procurar vagas nas escolas públicas. moral. No entanto. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 35 (passagem de ano sem exames). a violência entre os jovens e o universo das drogas levou-as à busca de parcerias. foram pautas da agenda do movimento na área da educação. alguns dos principais eixos das demandas pela educação nos movimentos sociais envolvendo as escolas. jan. É a partir dos direitos que fazemos o resgate da cultura de um povo e de uma nação. A cada luta corresponde um momento do processo de aprendizagem. atribuindo-lhes caráter emancipatório. Assim. a saber: • Lutas pelo acesso. O tema dos direitos é fundamental porque ele dá universalidade às questões sociais. típico da educação não-formal. pois a falta de verbas e a busca de solução para novos problemas como a segurança. paz.Educação não formal. aos problemas econômicos e às políticas públicas. baseado nas necessidades e experiência acumulada historicamente dos seres humanos e não nas necessidades do mercado. etnia. com outros organismos e associações organizadas. Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero. portanto. as escolas passaram a ser. meras justificativas para políticas que promovem uma modernização conservadora. públ. 27-38. p. especialmente em tempos neoliberais que destróem ou massificam as culturas locais. agentes de construção de territórios civilizatórios. é importante registrar que os movimentos pela educação têm caráter histórico. pol. qualidade de vida. 2006 . que resultam em políticas emancipadoras e não compensatórias.14. articuladoras de ações que retomem o sentido da civilidade humana. essa influência não advém apenas de uma tendência da escola em direção ao bairro: no interior da escola também existem novos espaços de participação. As lutas pela educação envolvem a luta por direitos e são parte da construção da cidadania. Partir da ótica dos direitos de um povo ou agrupamento social é adotar um princípio ético. direitos culturais etc. deslocamento de alunos de uma mesma família para diferentes escolas. regionais ou nacionais. Esses movimentos são fontes e agências de produção de saberes.50. Rio de Janeiro. antes mais fechada à participação dos pais. as escolas passaram a desempenhar o papel de centros comunitários. Fora da ótica da universalidade dos direitos caímos nas políticas focalizadas. A ótica dos direitos como ponto de partida poderá nos fazer entender as mudanças sociais em curso. tais como os distintos conselhos tratados acima. n. são processuais e ocorrem.

. com projetos de emancipação dos cidadãos que objetivem mudanças substantivas e não instrumentais. • Luta no processo de implantação de novos modelos. v. • Gestão democrática da escola. A gestão compartilhada em suas diferentes formas de conselhos. como o de civilidade. experiências ou reformas educacionais. Rio de Janeiro.50. • Lutas dos estudantes por vagas. que construam novos valores.14. redefinição do conceito de participação . contestam-se concepções relativas às formas que buscam. Entende-se por inclusão as formas que promovem o acesso aos direitos de cidadania. É preciso desenvolver saberes que orientem as práticas sociais. contra discriminações. construção de cultura política. refeitórios. integrar indivíduos atomizados e desterritorializados. trajetória das experiências. dado o papel dos fundos públicos no campo de disputa política em torno das verbas públicas. acompanhamento. por exemplo. Reiteramos neste texto a perspectiva que Ensaio: aval. jan. • Escola com projetos pedagógicos que respeitem as culturas locais. mas também uma urgência e uma demanda da sociedade atual. em seu sentido mais amplo. qual seja: a importância da educação não-formal.36 Maria da Glória Gohn • Aumento de vagas. que altere as mentalidades.. por isso. • Valor das mensalidades das escolas particulares. embora esses itens também sejam importantes. aqui entendidos como a participação de coletivos de pessoas diferentes com metas iguais. • Por políticas públicas. dedicamos a primeira parte do texto a qualificação e diferenciação de um conceito que tem centralidade no tema que estamos discutido. Isso implica a criação de coletivos que desenvolvam saberes não apenas normativos . p. etc. envolvendo organização. Isto tudo está no campo da educação não-formal. pol. informal e não-formal. • Escola pública com qualidade. se não houver sentido nas formas de participação na área da educação. moradia. Como democratizar esses espaços? Como ressignificá-los para que as obras e serviços realizados numa escola. ou de algum político ou administrador público. ou articular a escola com a comunidade educativa de um território é um sonho. colegiados etc. precisa desenvolver uma cultura participativa nova. mensalidades. em programas sociais compensatórios. n. formatos de aplicação de verbas etc. públ. da educação formal./mar. que resgatam alguns ideais já esquecidos pela humanidade. tolerância e respeito ao outro. uma utopia. aborda a educação como promotora de mecanismos de inclusão social. corre-se o risco de se ter espaços mais autoritários do que já eram quando centralizados.legislações. • Realização de experiências alternativas. os valores. 27-38. • Luta dos professores e outros profissionais da educação por condições salariais e de trabalho. simplesmente. 2006 . Educ. Acreditamos que propostas se fazem com idéias e fundamentos. não sejam vistos como dádivas de uma diretora. com os processos de formação dos indivíduos como cidadãos. condições. e sim como direito da população? Como resgatar o direito à educa- Conclusões e desafios Articular a educação. Entretanto. Por isso trabalhamos com um conceito amplo de educação que envolve campos diferenciados. a forma de conceber a gestão pública em nome dos direitos da maioria e não de grupos lobbistas.

p. com responsabilidade diante do outro e preocupados com o universal e não com particularismos. arraigadas. e para dar sentido e significado às próprias lutas no campo da educação visando à transformação da realidade social. no exercício das tarefas de que a conjuntura de uma dada escola. pensem alternativas para um novo modelo econômico não excludente que contemple valores de uma sociedade em que o ser humano é centro das atenções e não o lucro. Não basta um programa. ou mais um conselho. formulados no gabinete de algum burocrata. 2006 . o poder em suma. o status político e social. Por isso. participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas 37 ção enquanto política educacional ao nível das instâncias locais. v. necessite. o mercado. numa determinada comunidade territorial. É preciso reconhecer a existência e a importância da educação não-formal no processo de construção de uma sociedade sem injustiças. é retomar as utopias e priorizar a mobilização e a participação da comunidade educativa na construção de novas agendas. Isso não se faz apenas em aulas e cursos de formação tradicionais.Educação não formal. para os processos de educação não-formal que nela se desenvolvem. mas exige uma preparação contínua. um aprendizado permanente. Educ. Essas agendas devem contemplar projetos emancipatórios que tenham como prioridade a mudança social. Concluímos este texto com uma proposta de caráter sociopolítico: a de transformar as escolas em centro de referências civilizatórias nos bairros onde se localizam. Participar dos conselhos e colegiados das escolas é uma urgência e uma necessidade imperiosa. participativos./mar. n. Construir cidadãos éticos. ativos. democrática. Rio de Janeiro. públ. e sim a partir da prática da gestão compartilhada escola/comunidade educativa. Precisamos de uma nova educação que forme o cidadão para atuar nos dias de hoje.formal é um campo valioso na construção daquelas agendas.14. em suma. pela ordem tradicional. Para isso propomos a articulação dos processos de participação da sociedade civil organizada com as escolas. sem esquecer que elas são parte de um todo que extrapola as fronteiras nacionais? Como gerar novas políticas na gestão dos fundos públicos? São desafios e tarefas gigantescas. Propomos. pol. A educação não . jan. em culturas políticas transformadoras e emancipatórias.. Não é mais possível permanecer no conformismo diante de espaços dominados por antigos métodos clientelistas. a articulação da educação formal com a não-formal para dar vida e viabilizar mudanças significativas na educação e na sociedade como um todo. é preciso voltar os olhos para a organização da sociedade civil.50.. e para o papel que a escola pode ter como campo de formação de um novo modelo civilizatório. Não dá para contar apenas com heroísmos de alguns gestores públicos bem intencionados ou de poucas lideranças da sociedade civil. uma atividade de ação e reflexão. Ensaio: aval. um plano. qualifiquem seu sentido e significado. pois construir sentido e significados novos na gestão da escola é uma prática que tem que se pautar por um outro olhar em relação ao papel da escola num dado território. 27-38. e transforme culturas políticas arcaicas. É preciso criatividade e ousadia porque as novidades só ganham força quando passam a ter hegemonia em certos coletivos organizados mais amplos.

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