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Trabalho de conclusão de Disciplina (TCD)

Metafísica I

Faculdades Claretianas

Curso: Licenciatura em Filosofia - 3º Ano

Prof. Ricardo Matheus Benedicto

Título: As provas da existência de Deus em Descartes

Aluno: Nelson Luís Ramos - RA - 1046524

Pólo São Paulo


23/03/11
Descartes e as “provas da existência de Deus”

Descartes aceitava que o mundo tivesse sido criado por Deus; aceitava que, se Deus existisse, Ele seria a garantia
e suporte de todas as outras verdades.
Mas como saber se Deus existe ou não? Como provar a Sua existência se apenas podia ter a certeza do “Cogito”?
Nas suas obras apresentou três provas da existência de Deus.

1ª Prova a priori pela simples idéia de ser perfeito. “Dado que no nosso conceito de Deus esta contida a
existência, é corretamente que se conclui que Deus existe.
Considerando, portanto, entre as diversas idéias que uma é a do ente sumamente inteligente, potente e perfeito, a
qual é, de longe, a principal de todas, reconhecemos nela a existência, não apenas como possível e contingente,
como acontece nas idéias de todas as outras coisas que percepcionamos distintamente, mas como totalmente
necessária e eterna. E, da mesma forma que, percebemos que na idéia de triângulo esta necessariamente contida
que os seus três ângulos iguais são iguais a dois ângulos retos, assim, pela simples percepção e que a existência
necessária e eterna esta contida na idéia do ser sumamente perfeito, devemos concluir sem ambigüidade que o
ente sumamente perfeito existe” (Princípios da Filosofia, parte I p.61, 62).
A prova é magistralmente simples. Ela consiste em mostrar que, porque existe em nós a simples idéia de um ser
perfeito e infinito, daí resulta que esse ser necessariamente tem que existir.

2ª Prova a posteriori pela causalidade das idéias. Descartes conclui que Deus existe pelo fato de a Sua idéia
existir em nós. Uma das passagens onde ele exprime melhor essa idéia é esta: “Assim, dado que temos em nós a
idéia de Deus ou do ser supremo, com razão podemos examinar a causa por que a temos; e encontraremos nela
tanta imensidade que por isso nos certificamos absolutamente de que ela só pode ter sido posta em nós por um ser
que exista efetivamente a plenitude d e todas as perfeições, ou seja, por um Deus realmente existente. Com efeito,
pela luz natural é evidente não só que do nada, nada se faz, mas também que não se produz o que é mais perfeito,
como causa eficiente e total; e, ainda, que não pode haver em nós a idéia ou imagem de alguma coisa da qual não
exista algures, seja em nós, algum arquétipo que contenha a coisa e todas as suas perfeições. E porque de modo
nenhum em nós a aquelas supremas perfeições cuja idéia possuímos, disso concluímos corretamente que elas
existem, ou certamente existiram alguma vez, em algum ser diferente de nós, a saber, em Deus; do que se segue
com total evidência que elas existem”. (Princípios da Filosofia, parte I, p.64). A prova consiste agora em mostrar
que, possuímos a idéia de Deus como ser perfeitíssimo, somos levados a concluir que esse ser efetivamente existe
como causa da nossa idéia da sua perfeição. De fato, como poderíamos ter a idéia de perfeição, se somos seres
imperfeitos? Como poderia o menos perfeito ser causa do mais perfeito?
Desse modo conclui, já que nenhum homem possui tais perfeições, deve existir algum ser perfeito que é a causa
dessa nossa idéia de perfeição. Esse ser é Deus.

3ª Prova a posteriori baseada na contingência do espírito. “Se tivesse poder para me conservar a mim mesmo,
tanto poder teria para me dar as perfeições que me faltam; pois elas são apenas atributos da substância, e eu sou
substância. Mas não tenho poder para dar a mim mesmo estas perfeições; se o tivesse, já as possuiria. Por
conseguinte, não tenho poder para me conservar a mim mesmo. Assim não posso existir, a não ser que seja
conservado enquanto existo, seja por mim próprio, se tivesse poder para tal, seja por outro que o possui. Ora, eu
existo, e, contudo não possuo poderes para me conservar a mim próprio, como já foi provado. Logo, sou
conservado por outro. Além disso, aquele pelo qual sou conservado possui formal e eminentemente tudo aquilo
que em mim existe. Mas em mim existe a percepção de muitas perfeições que me faltam, ao mesmo tempo que
tenho a percepção da idéia de Deus. Logo, também nele, que me conserva, existe percepção das mesmas
perfeições. Assim, ele próprio não pode ter percepção de algumas perfeições que lhe faltem, ou que não possua
formal ou eminentemente, Como, porém, tem o poder para me conservar como foi dito, muito mais poder terá
para as dar a si mesmo, se lhe faltassem. Tem pois percepção de todas aquelas que me faltam e que concebo
poderem só existir em Deus, como foi provado. Portanto, possui-as formal e eminentemente, e assim é Deus”
(Oeuvres, VII, p.166-169). Descartes demonstra agora a existência de Deus a partir do fato de que não podemos
conservar a nós próprios. Se não podemos garantir a nossa existência, mas apesar disso existimos, é porque
alguém nos pode garantir essa existência.
Sobre as provas da existência de Deus de Descartes

- Na primeira prova, chamada de prova a priori, Descartes procura mostrar que, porque existe em nós a idéia de
um ser perfeito e infinito, daí resulta obrigatoriamente esse ser perfeito tem que existir uma vez que a existência
seria ela mesma uma característica constituinte desse ser perfeito, ou, em outras palavras, que a existência seria
parte integrante a priori do ser perfeito. Daí que, que Descartes, se eu tenho em mim a idéia de ser perfeito e se a
existência é característica constituinte do ser perfeito, característica sem a qual o ser não seria perfeito, então ser
perfeito existe de fato e obrigatoriamente e o ser perfeito é Deus, portanto Deus existe.

- Na segunda prova, chamada de prova a posteriori, Descartes conclui que Deus existe pelo fato de a sua idéia
existir em nós, e diz que porque possuímos a idéia de Deus como ser perfeito seremos levados a concluir que esse
ser realmente existe, afinal, diz ele, não poderíamos ter em nós a idéia de perfeição sendo nós seres imperfeitos
que somos. Ele não aceita a possibilidade de que o menos perfeito (nós) possa ser causa do mais perfeito (a idéia
de Deus). Descartes conclui então que deve existir um ser perfeito que é a causa dessa nossa idéia de perfeição. E
esse ser perfeito só pode ser Deus.

- Na terceira prova, chamada também de prova a priori, é onde Descartes tenta demonstrar a existência de Deus a
partir do fato de que não podemos nos conservar, ou manter a vida e a existência de nós mesmos. Diz ele que se
nós não podemos garantir a nossa própria existência, e, no entanto existimos (pelo menos como cogito), é certo
que alguém nos terá garantido essa existência e esse alguém só pode ser Deus.

Parece haver uma forte ironia nas provas da existência de Deus de Descartes, bem como em sua frase “O bom
senso é o que há de mais bem distribuído no mundo, pois cada um pensa estar bem provido dele.” Nessa frase
fica claro que ele esta afirmando a prepotência humana de se achar suficientemente provido de bom senso quando
logicamente não esta, e para comprovar isso basta que olhemos ao nosso redor.
Pela época em que viveu, pela conjuntura e até mesmo pela sua própria criação, houve um impedimento de negar
Deus, Descartes encontrou essas explicações claramente falsas para ele, mas, ao mesmo tempo providas de
raciocínio facilmente aceitável pelas instituições religiosas e, principalmente, pelo senso comum; Deve portanto,
ter articulado essas “provas” com o fim de salvaguardar sua integridade física e não correr o risco que correu seu
contemporâneo Galileu Galilei cuja trajetória Descartes acompanhou e cujo desfecho sabe-se que influenciou
grandemente seu comportamento e não tem por que não acreditar que deve ter influenciado também seu
pensamento; ou ao menos a forma de expô-lo.
Deus é perfeição, somos seres imperfeitos e temos a idéia de um Ser perfeito. De onde viria esta idéia, como
sequer poderíamos imaginar a perfeição, o infinito, a eternidade, se somos imperfeitos, finitos e mortais? A idéia
de Deus nos seres humanos é a marca do Criador na criatura; trazemos essa idéia inata, esse foi o maior
argumento de Descartes.
Descartes dá origem e elege a razão como fonte soberana do conhecimento humano. Procurou construir um
sistema filosófico capaz de superar a filosofia escolástica, partindo em primeiro lugar de um aprofunda
desconfiança por tudo aquilo que tinha aprendido na escola jesuítica em que estudou. Para ele, a filosofia
escolástica não merecia confiança, pois se contradizia em as opiniões e especulações. Adotou, portanto, a dúvida
sistemática como princípio de seu método de busca da verdade. Porém não atentou, para o mundo dos
fenômenos externos, mas para a sua própria interioridade, donde descobriu uma razão pensante, espiritual e a
própria presença de um Deus racional. Depois dessa certeza de sua subjetividade, passou a olhar o mundo externo
para interpretá-lo dentro de uma ordem matemática, seguindo seus caminhos dois filósofos se destacaram
Spinoza e Leibniz, que criaram grandes sistemas racionalistas metafísicos.
Essa razão moderna, porém tão confiante em si mesma, foi ao mesmo tempo exaltada e criticada no século
XVIII, durante o Iluminismo (tendência filosófica nascida no século XVIII, com ideário de emancipação humana,
valorização da razão, espírito crítico em relação às tradições, propostas de laicização da sociedade e idéias
liberais na política e na economia).
Bibliografia:

Incontri, Dora, Bigheto, Alessandro Cesar; Filosofia - Construindo o pensar - vol. Único - São Paulo - Editora:
Escala Educacional, 2008.
História da Filosofia - organização e texto final: Abrão, Bernadete Siqueira - São Paulo - Editora Nova Cultural -
2004.