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OTIMIZAÇÃO DE RECUPERAÇÃO EM LAVRA POR CÂMARAS E PILARES

UTILIZANDO PROGRAMAÇÃO NÃO-LINEAR

Rodrigo Figueiredo1 & Adilson Curi2

Resumo - Ainda hoje o dimensionamento dos arranjos de câmaras e pilares em minas subterrâneas é feito
principalmente através da teoria da área tributária e de fórmulas empíricas de resistência.
O procedimento consiste em se definir, por tentativas e erros, um arranjo no qual a estabilidade dos pilares seja
garantida por um fator de segurança (FS) previamente arbitrado. Para um dado arranjo, calculam-se as tensões médias
nos pilares (pela teoria da área tributária) e a resistência dos mesmos, por alguma fórmula empírica existente. Verifica-
se se o FS é satisfeito. A recuperação decorrente do arranjo geométrico proposto é então determinada.
Neste trabalho propomos uma metodologia de dimensionamento alternativa: um problema padrão de
programação matemática é formulado, no qual o objetivo é maximizar a recuperação e as restrições são de que os
pilares tenham uma adequada margem de segurança e as dimensões dos vãos satisfaçam os requisitos de estabilidade e
também tecnológicos (gabarito para operação de equipamentos, ventilação, etc.).
Como tanto a recuperação quanto a resistência dos pilares são funções, via de regra, não-lineares dos parâmetros
geométricos do arranjo, tem-se em questão um problema particularmente intrincado de programação não-linear.
São também apresentados exemplos de solução, para alguns arranjos usuais e fórmulas de resistência
consagradas.

Palavras-Chave - câmaras e pilares, programação matemática não-linear, teoria da área tributária.

INTRODUÇÃO
A lavra subterrânea pelo método de câmaras e pilares aplica-se geralmente a corpos tabulares subhorizontais
(ainda que algumas variantes do método possam admitir mergulhos de até no máximo 30o - [1]; [2]). As operações de
produção são conduzidas em aberturas denominadas câmaras, as quais se prestam a múltiplos propósitos, a saber: fonte
de minério, acesso de pessoal, vias de transporte, circulação de ar, etc.. Entre tais aberturas são abandonados os
chamados pilares, que são remanescentes de minério deixados in loco, com as finalidades de servirem de suporte para a
coluna de rochas sobrejacentes, e de limitar os vãos dos tetos das câmaras vizinhas. Tal abandono de minério tem
implicações óbvias sobre a recuperação final do jazimento.
A maioria das aplicações existentes para tal método diz respeito à lavra de carvão e de outras rochas
sedimentares. No Brasil pode-se citar, além do carvão no sul do país, a extração de potássio em Taquarí-Vassouras
(SE), pela CVRD, e a de manganês pela Urucum Mineração SA em Mato Grosso do Sul.
É um método de lavra no qual as equipes de produção estão continuamente expostas sob os vãos das câmaras
requerendo, portanto, que haja um rígido controle das condições geomecânicas do maciço e um efetivo planejamento
das dimensões seguras tanto de pilares quanto de vão dos tetos. Isso impõe, por outro lado, restrições à máxima
recuperação possível do jazimento, a qual oscila, na maioria dos casos, entre 40 e 60% sem recuperação posterior dos
pilares, podendo chegar até 80 % [2] quando a mesma é empreendida (note-se, todavia, que tais operações de
recuperação posterior vêm sendo cada vez mais restringidas em todo o mundo por questões legais de segurança e
ambientais – a subsidência dos terrenos sobrejacentes é uma conseqüência comum nesses casos, com danos a
edificações na superfície e alterações no ciclo hidrológico local).
Em função disso, tais operações de lavra ficarão cada vez mais restritas a pequenas profundidades, a menos que
se disponham a dimensionar, de forma otimizada, o respectivo arranjo de câmaras e pilares, para assim auferirem o
máximo de aproveitamento da jazida.
Neste trabalho será apresentada uma metodologia para dimensionamento ótimo de tais arranjos, empregando
técnicas de programação matemática não-linear, com vistas a se maximizar a recuperação de minério do jazimento
satisfazendo, todavia, a restrições várias, de natureza geomecânica e/ou tecnológica.

DIMENSIONAMENTO CONVENCIONAL x ÓTIMO


O dimensionamento de uma arranjo geométrico de câmaras e pilares é geralmente conduzido de forma que,
primeiramente, são estabelecidas as dimensões dos vãos das câmaras compatíveis com as condições operacionais: área
mínima para ventilação adequada das frentes, gabarito apropriado ao tráfego dos equipamentos de carga e transporte,
etc.. Caso os vãos assim estabelecidos sejam auto-sustentáveis passa-se ao dimensionamento dos pilares. Do contrário,
ou as dimensões são revistas alterando-se as condições operacionais ou é prevista a utilização de algum tipo de suporte

1
Profo Adjunto, Depto. de Engenharia de Minas / UFOP; fone: 0xx-31-35591590/1595; fax: 0xx-31-35591606; e-mail: rpfigueiredo@yahoo.com.br.
2
Profo Adjunto, Depto. de Engenharia de Minas / UFOP; fone: 0xx-31-35591590/1595; fax: 0xx-31-35591606; e-mail: curi@demin.ufop.br.
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para o teto, conforme o que seja mais conveniente do ponto de vista econômico. O estabelecimento dos vãos máximos,
sejam auto-sustentáveis ou suportados, pode ser feito de variadas maneiras. Uma possibilidade particularmente simples
para maciços sedimentares, nos quais se aplica a lavra por câmaras e pilares, é empregar a teoria das vigas elásticas [3].
As dimensões dos pilares, a seu turno, são calculadas de maneira a satisfazer, com uma adequada margem de
segurança, a sua principal função geomecânica na estrutura da mina: a de ser um suporte para a coluna de rocha
sobrejacente. Para tanto, há que se estabelecer previamente o seguinte:
(i) uma maneira de se calcular a carga total ou a tensão média (= carga / área) atuante no pilar;
(ii) expressões que forneçam a resistência do pilar em função de suas dimensões, forma e características
geomecânicas do material de que é constituído e, finalmente,
(iii) um valor de Fator de Segurança (FS = resistência / tensão média) - o qual vem a ser um critério de projeto -
que se considere adequado para garantir que os pilares não sejam levados à situação de colapso e comprometam a
estrutura global da mina.
Ainda hoje, no que diz respeito ao item (i) supracitado, utiliza-se na prática de mineração, principalmente, a
clássica teoria da área tributária ([1]; [3]; [4]; etc.). No que tange a (ii), são empregadas basicamente fórmulas empíricas
de resistência ([2]; [4]) e, para (iii), adotam-se alguns valores consagrados pela prática, obtidos através de retroanálises
de casos históricos [4].
É importante ressaltar, entretanto, o fato de que, ao final de um processo de dimensionamento do arranjo de
lavra, qualquer que seja a metodologia e critérios utilizados para isso, a recuperação resultante será uma mera
conseqüência, não sendo a sua otimização o objetivo precípuo visado.
Apresentar-se-á aqui uma proposta alternativa de abordagem do problema. Nesta, formula-se o mesmo como
sendo um problema padrão de Programação Matemática [5], no qual o objetivo é maximizar a recuperação buscando,
todavia, satisfazer às restrições impostas à mesma por questões operacionais/tecnológicas e geomecânicas. Uma tal
formulação, garantirá que a recuperação alcançada seja sempre a máxima possível diante das restrições existentes, o que
é um dos objetivos básicos da engenharia de minas.
Como será mostrado na seqüência, a recuperação, bem como todas as restrições envolvidas no problema, são, via
de regra, funções não-lineares das dimensões das câmaras e pilares, caracterizando, assim, um problema de
Programação Não-Linear [6].

FORMULAÇÃO DO PROBLEMA DE DIMENSIONAMENTO VIA PROGRAMAÇÃO NÃO-LINEAR


O Problema Padrão de Programação Matemática
Bazaraa et al. [6] formula o Problema Padrão de Programação Matemática (programa) como:
Otimize (maximize ou minimize): f (x~ ) ;
Sujeito a: g i (x~ ) ≤ 0 , i = 1, ...., m; h i (x~ ) = 0 , i = 1, ...., p;
x~ ≤ x~ ≤ x~ e x~ ∈ R n ,
l u

onde x~ = {x 1 , x 2 ,...., x n } é o vetor de n-dimensões das variáveis de projeto. Aí: f (x~ ) é a função-objetivo (a
t

ser otimizada); g i (x~ ) ≤ 0 são as m retrições de igualdade; h i (x~ ) = 0 são as p restrições de desigualdade; x~l ≤ x~ ≤ x~u
são as restrições de domínio e x~ ∈ R n são as restrições de tipo das variáveis (reais, inteiras, etc.). Sendo a função-
objetivo e/ou as restrições funções não-lineares das variáveis de projeto, diz-se que o programa é não-linear.
No caso do problema em questão, a recuperação, em função das dimensões das câmaras e pilares, é a função-
objetivo a ser maximizada, a qual, via de regra, é não-linear. As restrições, por sua vez, são funções (também
usualmente não-lineares) envolvendo as mesmas dimensões. São estabelecidas a partir de condições geomecânicas de
segurança (resistência dos pilares e vãos das câmaras adequados) e prescrições tecnológicas ou operacionais (como dito
anteriormente: gabarito apropriado para tráfego dos equipamentos de carga e transporte e área mínima das câmaras para
uma ventilação adequada).

Funções de Recuperação (Objetivo)


Cada tipo de arranjo de lavra específico tem a sua própria função-objetivo de recuperação. Como
exemplificação, será determinada uma tal função para um caso dos mais simples existentes. Para outros arranjos, o
procedimento a ser seguido é análogo e o resultado final será simplesmente citado sem se apresentar a derivação.
Seja um arranjo uniforme de pilares, de seção transversal quadrada em planta, estendendo-se por toda a área do
jazimento (Fig.1 (a)). A recuperação (R) é definida como sendo a razão entre o volume lavrado e o volume total, a
saber: R = Vl / V t , onde Vl e Vt são respectivamente os volumes lavrado e total.
Considerando que a espessura seja integralmente lavrada pode-se escrever:
R = Al h / At h = Al / At = ( At − A p ) / At = 1 − A p / At , na qual Al e At são respectivamente as áreas lavrada e total e
Ap é a área, em planta, da seção transversal de todos os pilares. Sendo os pilares iguais e uniformemente distribuídos
pode-se escrever as áreas de pilares e total como sendo o somatório de todas as áreas das subunidades que se repetem no
arranjo (Fig.1(a)).

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Lo

Wo Wo

Wo+ Wp
Wo+ Wp

Wp Wp

Wp Wo Lp

W o+ W p Lo+ Lp

(a) (b)

Wp b Wo b Wpb

Wp b

Wo b
Wob+ Wpb

Wp b

Wo
Wo+ Wp

Wp

1 Wob+ Wpb

(c) (d)

Figura 1 - (a) Arranjo uniforme de pilares de seção transversal quadrada em planta; (b) idem para pilares retangulares;
(c) idem para pilares longos (rib pillars); (d) arranjo com pilares barreira delimitando painéis quadrados,
com pilares internos de seção transversal quadrada.

Assim, imaginando que há um número n dessas subunidades ter-se-á que A p = n (W p ) 2 e At = n (W o + W p ) 2 ,


nas quais Wo e Wp são, respectivamente, as larguras das câmaras e dos pilares (Fig.1). Daí vem finalmente que:
R = 1 − (W p ) 2 /(W o + W p ) 2 . (1)
Repare-se que a recuperação é, portanto, uma função não-linear das variáveis Wo e Wp. Assim, R(Wo, Wp) < 1 é uma
função não-linear das dimensões do arranjo, que se gostaria de maximizar.
Padrões geométricos análogos estão ilustrados nas Fig.1 (b) e (c), para pilares de seção transversal retangular em
planta e longos (rib pillars), respectivamente. Por argumentos semelhantes, chega-se às seguintes funções de
recuperação a maximizar em cada caso:
- caso (b), R = 1 − W p L p /(W o + W p )(L o + L p ) , onde os significados dos símbolos Lo e Lp estão representados
na própria figura e
- caso (c), R = 1 − W p /(W o + W p ) , considerando-se uma subunidade de comprimento unitário como na figura.
Já no caso da Fig.1(d) tem-se um arranjo mais complexo (e realista), no qual há pilares barreira delimitando
painéis de lavra. Internamente aos painéis, tem-se pilares de seção transversal quadrada em planta. Arranjos como esse
são projetados com vistas a se eliminar a possibilidade de que o colapso dos pilares em um dos painéis possa se
propagar descontroladamente para os painéis vizinhos. Claramente, para que isso suceda os pilares barreira deverão ser
dimensionados de forma a conter o colapso no interior do painel que delimitam, isto é, serão virtualmente indestrutíveis.
Por outro lado, isso permite muitas vezes relaxar as exigências de segurança no que diz respeito aos pilares do painel,
os quais poderão ter dimensões mais reduzidas, possibilitando um aumento da recuperação.
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As funções de recuperação em casos como esse dependerão tanto das dimensões dos pilares (Wp) e das câmaras
do painel (Wo), quanto das próprias dimensões deste (Wob) e também daquelas dos pilares barreira (Wpb). Para
determiná-las pode-se dividir o problema em duas partes: primeiramente, encontra-se uma pseudo-recuperação (R1)
considerando-se apenas a existência dos pilares barreira e imaginando que internamente aos painéis todo o minério foi
recuperado. Nesse caso tal pseudo-recuperação será função somente das dimensões dos painéis e dos pilares barreira,
isto é, R1 = f(Wob, Wpb). Considera-se nos cálculos a subunidade hachurada na Fig.1(d). Posteriormente, determina-se a
recuperação no interior dos painéis, R2 = f(Wo, Wp), de uma maneira análoga àquela utilizada na Eq. (1). A recuperação
total resultante é o efeito acumulado de R1 e R2, isto é: R(Wob, Wpb, Wo, Wp) = R1R2.. Sendo R1 = (W ob ) 2 /(W ob + W pb ) 2
e R2 a mesma expressão já determinada anteriormente (Eq. (1)) virá que:
( )
R (W ob ,W pb ,W o ,W p ) = ((W ob ) 2 /(W ob + W pb ) 2 ) 1 − (W p ) 2 /(W o + W p ) 2 . (2)
Outras expressões poderiam ser aqui desenvolvidas para variantes desses arranjos. Por exemplo, poder-se-ia ter
painéis retangulares, com pilares interiores também retangulares. Todavia, como os desenvolvimentos são análogos e se
baseiam em argumentos similares aos supra-referidos, não estenderemos mais além essa exposição. Fique claro, no
entanto, que tais funções de recuperação, que tem como variáveis as dimensões do arranjo de lavra são justamente as
funções-objetivo dos problemas de Programação Não-linear a serem formulados, as quais se deseja maximizar.
Cabe ainda aqui uma nota sobre a suposição de que a espessura de minério é integralmente lavrada. Isso pode
não ser sempre o caso e terá repercussões importantes tanto nas fórmulas de recuperação propriamente ditas como
também na resistência dos pilares. Não há qualquer dificuldade em se introduzir a variável espessura no problema, mas
aqui deixamos de fazê-lo em benefício da simplicidade e da clareza da exposição.

Teoria da Área Tributaria e Equações de Resistência dos Pilares


A teoria da área tributária (TAT) é a mais simplista e conservadora dentre as hipóteses existentes para se
determinar o carregamento dos pilares. Baseia-se exclusivamente em considerações de equilíbrio estático na direção
vertical [1]. A tensão média em um pilar, para arranjos uniformes de pilares, é dada por [1]: σ p = ( At / A p )σV .
Variando-se o arranjo uniforme (Figs. 1(a); 1(b) e 1(c)) irá variar apenas a razão At / Ap respectiva. Repare-se que a
tensão média no pilar, sendo uma função da razão entre a área total do jazimento e a área abandonada em pilares, é uma
função da própria recuperação, como segue: σ p = σV /(1 − R ) [1]. Verifique-se que o aumento da recuperação (R→1)
tende a levar as tensões nos pilares a níveis cada vez mais altos, tendendo, no limite, ao infinito. Certamente, isso
provocaria o seu colapso, independentemente de quão elevada for a sua resistência.. Portanto, torna-se claro desde já,
que sempre deve haver um compromisso entre a recuperação e a segurança.
Para o caso de arranjos envolvendo painéis delimitados por pilares barreira, a situação é um pouco mais
complexa que a acima discutida. Isso ocorre, porque não há uma distribuição equânime das cargas entre os pilares
barreira e de painel. Assim, alguma hipótese adicional de repartição da carga total entre tais pilares há que ser admitida.
Não há uma única possibilidade e nem tampouco uma que, sendo expedita, seja também estritamente correta do ponto
de vista da geomecânica. Pode-se adotar, por exemplo, uma hipótese de repartição que, de acordo com a teoria da
plasticidade clássica [7], implica atribuir limites superiores de carga aos pilares barreira e de painel. Tais hipóteses não
serão todavia discutidas aqui, por limitação de espaço e extrapolação de escopo.
O segundo requisito para a formulação do problema de otimização utilizando a TAT é se dispor de expressões
que forneçam a resistência dos pilares (σR) em função de suas dimensões. De posse das mesmas e assumindo uma
margem de segurança atribuída por um Fator de Segurança (FSp), que como já foi dito é um critério de projeto, pode-se
formular a restrição referente à função geomecânica principal (suporte das rochas sobrejacentes) dos pilares, a saber:
σR(Wp,Lp) ≥ FSpσp(Wp, Lp ,Wo, Lo).
As fórmulas de resistência de pilares são de natureza empírica, tendo sido obtidas de retroanálises de casos reais
de pilares estáveis ou não ([1]; [4]; [8]). A maioria delas vale para pilares prismáticos de base quadrada e tem uma das
( )
duas formas funcionais, (a) ou (b), seguintes ([1]; [4]; [8]): (a) σ R = C a + bW p / H ; (b) σ R = C (W p ) α / H β ,
onde σ R é a resistência de um pilar prismático de base quadrada; C é a resistência de um cubo de volume
unitário da rocha constituinte do pilar; Wp é a largura do pilar (lado da base do prisma); H é a altura do pilar prismático;
a e b são coeficientes empíricos cuja soma deve ser 1 (um) e α e β são expoentes empíricos.
Nas expressões acima, o fator (Wp / H), que define a esbeltez do pilar, é quase sempre determinante da sua
resistência. Pilares esbeltos (pequeno Wp / H) são pouco resistentes e vice-versa.
Com relação à resistência de pilares retangulares ou longos, não se têm, ainda hoje, expressões consagradas pela
prática. As existentes resultam de adaptações propostas em (a) e (b) supracitadas. Só recentemente, Mark & Chase [9]
propuseram uma expressão que tem tido uma relativa aceitação. A utilização de tais expressões no problema de
otimização seria extremamente interessante por permitir uma boa apreciação das suas conseqüências, mas não será aqui
possível, por limitação de espaço.
Um outro fator importante na estabilidade dos pilares, principalmente daqueles pouco esbeltos e, portanto, de
alta resistência (como, em geral, é o caso dos pilares barreira) é a possibilidade de ruptura das suas fundações [1].
Grosso modo isso significa que o pilar, sendo indestrutível, poderá puncionar as rochas encaixantes (piso e/ou teto). A
análise deste mecanismo de colapso é similar àquela das capacidades de carga (qb) de fundações rasas em estruturas

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civis [1]. Também não se irá considerá-lo aqui, devido à impossibilidade de discuti-lo na profundidade que seria
recomendável.

Restrições sobre os vãos das câmaras


Sobre os vãos das câmaras incidem restrições de dois tipos: geomecânicas e operacionais. As operacionais são
dependentes, entre outros fatores, do gabarito requerido para o tráfego dos equipamentos de carga e transporte e da área
necessária para circulação de ar para ventilação. Já as restrições geomecânicas dizem respeito ao máximo vão estável
dos tetos. Este pode eventualmente ser mantido, ou ampliado, graças a estruturas artificiais de suporte (tirantes, etc.) .
A determinação do vão máximo, a exemplo de outras restrições geomecânicas, depende do modelo de cálculo
adotado. Aqui admitiremos que o teto das câmaras é formado por estratos rochosos, ditos imediatos, que funcionam
como vigas bi-engastadas. Utilizar-se-á para dimensionamento das mesmas a teoria clássica das vigas elásticas [3]. Em
tal teoria as restrições sobre os vãos são escritas como segue:
- condição de estabilidade à flexão dos estratos: max(W o , L o ) ≤ (2σ t t ) / γ ;

- condição de estabilidade à flambagem dos estratos: max(W o , Lo ) ≤ (π Et ) / 60σ H ,


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onde t é a espessura dos estratos; σt é a resistência à tração dos mesmos; σH é a tensão horizontal atuante no maciço
rochoso; γ é o peso específico e E o módulo de elasticidade (Young) dos estratos.
Com relação às restrições operacionais acima mencionadas (vão mínimo) pode-se expressá-las como segue:
- vão mínimo para tráfego de equipamentos: min(Wo, Lo) ≥ Lmin ;
- área mínima para suprimento adequado de ar: min(WoH, LoH) ≥ Amin = LminH (considerando-se a espessura
integralmente lavrada).
Repare-se que se a espessura não fosse totalmente lavrada, poder-se-ia ter restrições geomecânicas distintas para
os casos em que o teto das câmaras fosse formado pelos estratos sobrejacentes ou pelo minério, já que os mesmos
possuem características mecânicas diferentes. Mais além, a restrição de área mínima para ventilação seria não-linear.

Formulação do problema padrão para a maximização da recuperação na lavra por câmaras e pilares
Considerando o que acima foi exposto pode-se finalmente colocar o problema na forma padrão em Programação
Matemática. Apresentaremos um caso geral, sem particularizar o tipo de arranjo, as expressões de resistência dos pilares
e/ou dos vãos máximos das câmaras, etc.. Para cada problema haverá formas específicas das restrições e da função-
objetivo, que podem ser simplesmente substituídas na formulação geral, a saber:
Maximize: R(Wo, Lo, Wp, Lp, Wob, Wpb, H);
Sujeito a:
(i) - σR(Wp,Lp,H) ≥ FSpσp(Wp, Lp ,Wo, Lo) (restrição de resistência dos pilares de painel);
(ii) - σRb(Wpb,Lpb,H) ≥ FSpbσpb(Wpb, Lpb, Wob, Lob) (restrição de resistência dos pilares barreira);
(iii) - qb(Wp ,Lp) ≥ FSfσp(Wp,Lp,Wo,Lo) (restrição à ruptura das fundações dos pilares de painel);
(iv) - qbb(Wpb ,Lpb) ≥ FSfbσpb(Wpb,Lpb,Wob,Lob) (restrição à ruptura das fundações dos pilares barreira);
(v) - max(Wo,Lo) ≤ Lmax1 (restrição de flexão ao vão máximo das câmaras);
(vi) - max(Wo,Lo) ≤ Lmax2 (restrição de flambagem ao vão máximo das câmaras);
(vii) - min(Wo, Lo) ≥ Lmin (restrição operacional ao vão mínimo das câmaras);
(viii) - min(WoH, LoH) ≥ Amin (restrição operacional à área mínima das câmaras).

EXEMPLO DE APLICAÇÃO DO PROBLEMA DE PROGRAMAÇÃO NÃO-LINEAR NA MAXIMIZAÇÃO


DA RECUPERAÇÃO EM LAVRA POR CÂMARAS E PILARES
O problema de programação não-linear, descrito na forma padrão acima, foi codificado para resolução
computacional com o software comercial LINGO 7.0, disponível no Departamento de Engenharia de Minas da UFOP.
Tal software utiliza as condições de Kuhn-Tucker [5] para transformar o problema de programação matemática na
otimização sem restrições de uma certa função-objetivo auxiliar não-linear. Por meio de um algoritmo iterativo de
linearizações locais sucessivas de tal função e empregando, seqüencialmente, o bem conhecido algoritmo Simplex [5]
para cada uma das linearizações, o problema padrão é solucionado com grande eficiência.
Os exemplos a serem apresentados (ilustrativos) referem-se a uma camada lavrada por um arranjo uniforme de
pilares quadrados (Fig. 1(a)). Utilizaram-se duas fórmulas de resistência para efeitos comparativos, a saber: a de Obert
& Duvall, do tipo funcional (a), com a = 0.778 e b = 0.222 e a de Merwe [8], do tipo (b), com α = 0.81 e β = 0.76. Para
ambas considerou-se C = 7.18 MPa (valor típico de uma carvão [4]) e um FS = 1.6 [4]. Mais além, admitiu-se para os
vãos das câmaras apenas as restrições impostas pela resistência à flexão do estrato constituindo o teto. A resistência à
tração considerada foi de C /10 = 0.718 MPa. A espessura (t) estimada para o mesmo é de 1 m. A profundidade da lavra
(z) é de 80 m e o peso específico médio das rochas sobrejacentes (γ) é de 25 kN/m3. Com isso, a tensão vertical in situ,
pela hipótese litostática usual ( σV = γz , [1];[3]), é de 2 MPa. A espessura da camada, de 2.5 m, será totalmente
lavrada.
A operação dos equipamentos de lavra irá restringir o vão mínimo das câmaras a 4 m e a seção mínima requerida
para uma ventilação adequada é de 15 m2.

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Os resultados comparados para as duas fórmulas de resistência, em termos de dimensões dos pilares, dos vãos e
da recuperação máxima atingida, são apresentados na Tabela 1 abaixo.
Na mesma tabela constam ainda os resultados para diferentes espessuras do estrato imediato que constitui os
tetos das câmaras. Isso permite avaliar indiretamente o impacto da instalação de tirantes, que tem o efeito, neste caso,
de solidarizar um certo conjunto de estratos imediatamente sobrepostos à camada lavrada (efeito de atrito, [3]). Com
isso, a espessura “efetiva” a ser considerada, fica definida pela do conjunto de estratos solidarizados, ou seja, passa a ser
igual ao comprimento dos tirantes instalados (Fig. (2)).
Pode ser percebido, que para ambas as fórmulas de resistência obtém-se valores de recuperação bastante bons, se
comparados aos praticados neste tipo de operação ([1];[2];[4]). Mais além, a fórmula de Merwe indica a possibilidade
de recuperações maiores que as dadas pela fórmula de Obert & Duvall. As dimensões dos vãos e pilares são também
bastante condizentes com o que se verifica na prática de mineração. A utilização de tirantes (aumentando a espessura
"efetiva" e conseqüentemente a resistência à flexão do estrato imediato) produz um pequeno acréscimo na recuperação
(de 2 a 3%). O alcance do mesmo é, porém, bastante limitado. Para comprimentos além 1.8 m a recuperação não é mais
sensivelmente alterada: o aumento da resistência à flexão, decorrente do aumento da espessura "efetiva", não mais irá
compensar, em termos de recuperação, as maiores cargas que atuariam sobre os pilares, para vãos crescentes.

Tabela 1
Merwe Obert & Duvall
t = 1.0 m t = 1.5 m t = 1.8 m t = 1.0 m t = 1.5 m t = 1.8 m
Wo (m) 7.6 9.3 10.2 7.6 9.3 10.2
Wp (m) 6.2 7.0 7.4 8.7 10.0 10.6
R(%) 80 82 82 71 73 74

Figura 2 - Solidarização de estratos imediatos obtendo-se uma espessura "efetiva" aumentada (efeito de atrito).

CONCLUSÕES
Como ficou evidenciado pelo exemplo ilustrativo acima, a metodologia apresentada, que utiliza técnicas de
programação não-linear, permite dimensionar de maneira otimizada o arranjo de câmaras e pilares, garantindo sempre a
máxima recuperação possível em cada situação específica. Além disso, possibilita incorporar a influência de quaisquer
tipos de restrições, sejam geomecânicas e/ou operacionais/tecnológicas, de uma forma matematicamente consistente e
simples. Propicia ainda: a realização de estudos paramétricos expeditos, nos quais a influência de determinadas
variáveis pode ser avaliada precisamente; incorporar considerações de custos; etc.. Sendo assim, acredita-se que tal
abordagem deva substituir os processos tradicionais, por tentativas e erros, no projeto dos arranjos de lavras do tipo em
questão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Brady, B. e E. Brown (1985) – Rock Mechanics for Underground Mining – London: George Allen & Unwin;
[2] Hartman, H. L. (1987) – Introdutory Mining Engineering – New York: John Wiley & Sons;
[3] Goodman, R. E. (1989) – Introduction to Rock Mechanics – 2nd ed., New York: Wiley;
[4] Salamon, M. e K. Oravecz (1976) - Rock Mechanics in Coal Mining - Johannesburg: Chamber of Mines of South
Africa (PRD Series no 198);
[5] Arora, J. S. (1988) – Introduction to Optimum Design – New York: McGraw-Hill, Inc.;
[6] Bazaraa, M.; H. Sherali e C. Shetty (1993) – Nonlinear Programming: Theory and Algorithms – New York: Wiley;
[7] Lippmann, H. (1971) – Plasticity in rock mechanics – Int. J. Mech. Sci., 13, 291-297;
[8] Merwe, N. (1999) – New strength formula for coal pillars in South Africa – Proc. 2nd Int. Workshop on Coal Pillar
Mechanics and Design, NIOSH Publication no 99-114 (www.cdc.gov/niosh), Pittsburgh, pp. 163-171;
[9] Mark, C. e F. E. Chase (1997) – Analysis of retreat mining pillar stability – Proc. New Technologies for Ground
Control in Retreat Mining, NIOSH Publication no 97-133 (www.cdc.gov/niosh), Pittsburgh, pp. 17-34.

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