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Governo Federal Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República Ministro Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiro – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidente Marcio Pochmann Diretor de Desenvolvimento Institucional Fernando Ferreira Diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais Mário Lisboa Theodoro Diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia José Celso Pereira Cardoso Júnior Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas João Sicsú Diretora de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais Liana Maria da Frota Carleial Diretor de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura Marcio Wohlers de Almeida Diretor de Estudos e Políticas Sociais Jorge Abrahão de Castro Chefe de Gabinete Pérsio Marco Antonio Davison Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação Daniel Castro URL: http://www.ipea.gov.br Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria

Socicom – Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação

Presidente José Marques de Melo Vice-Presidente Ana Silvia Lopes Davi Médola Diretora Administrativa Anita Simis Diretora Relações Internacionais Margarida Maria Krohling Kunsch Diretor de Relações Nacionais Elias Gonçalves Machado Site: www.socicom.org.br Socicom Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2050, 3º. Andar – Bela Vista, SP CEP 01318-002 E-mail: Socicom@hotmail.com

© Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea 2010

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil / organizadores: Daniel Castro, José Marques de Melo, Cosette Castro. - Brasília : Ipea, 2010. 3 v. : gráfs., tabs. Inclui bibliografia. Conteúdo: v.1. Colaborações para o debate sobre telecomunicações e comunicação. – v. 2. Memória das associações científicas e acadêmicas da comunicação no Brasil.– v. 3. Tendências na comunicação. ISBN 1. Comunicação. 2. Telecomunicações. 3. Brasil. I. Castro, Daniel. II. Melo, José Marques de. III. Castro, Cosette. IV. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. V. Título: Colaborações para o debate sobre telecomunicações e comunicação. VI. Título: Memória das associações científicas e acadêmicas de comunicações no Brasil. VII. Título: Tendências na comunicação. CDD 384.0981

PANORAMA DA COMUNICAÇÃO E DAS TELECOMUNICAÇÕES NO BRASIL

VOLUME 1
COLABORAÇÕES PARA O DEBATE SOBRE TELECOMUNICAÇÕES E COMUNICAÇÃO

Organização Daniel Castro José Marques de Melo Cosette Castro

Coordenação José Marques de Melo Anita Simis Daniel Castro Cosette Castro João Cláudio Garcia

SUMÁRIO VOLUME 1 COLABORAÇÕES PARA O DEBATE SOBRE TELECOMUNICAÇÕES E COMUNICAÇÃO Apresentação Marcio Pochmann - Presidente do Ipea, José Marques de Melo - Presidente da Socicom e Cezar Alvarez - Secretário-executivo do Ministério das Comunicações .......................11 Suco de Pitomba Daniel Castro................................................................................................13 Indústrias criativas e de conteúdo: O dilema brasileiro para a integração do massivo ao popular José Marques de Melo..................................................................................16 Comunicação Digital - diálogos possíveis para a inclusão social Cosette Castro..............................................................................................25 1ª. Parte - Tendências Econômicas Capítulo 1 A hora e a vez dos países-baleias Marcio Pochmann.........................................................................................43 2ª. Parte - Tendências nas Telecomunicações Capítulo 1 Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia? Marcio Wohlers ...........................................................................................53 Capítulo 2 Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa, João Maria de Oliveira e Luis Cláudio Kubota.........................................................................................................61 Capítulo 3 Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações Fernanda De Negri e Leonardo Costa Ribeiro ...............................................85

Capítulo 4 Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações Paulo Meyer Nascimento...............................................................................93 Capítulo 5 Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações Luis Claudio Kubota, Edson Domingues e Daniele Nogueira Milani...............107 Capítulo 6 Compras governamentais: análise de aspectos da demanda pública por equipamentos de telecomunicações Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa e João Maria de Oliveira......................117 Capítulo 7 Balança comercial de equipamentos de telecomunicações Lucas Ferraz Vasconcelos.............................................................................129 3ª. Parte - Panorama da Comunicação Capítulo 1 Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional de inclusão André Barbosa Filho ..................................................................................141 Capítulo 2 Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos Anita Simis ................................................................................................153 Capítulo 3 Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-2008) Gilberto Maringoni ....................................................................................159 Capítulo 4 Comunicação institucional do poder público Antonio Lassance ......................................................................................167 Capítulo 5 Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics Marina Nery...............................................................................................183 Capítulo 6 Novos desafios ao direito autoral no jornalismo João Cláudio Garcia ..................................................................................189

APRESENTAÇÃO

O texto de Apresentação da obra Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil foi escrito a seis mãos, uma consequência do mundo complexo que estamos vivenciando, onde as análises não podem mais se restringir a apenas um campo do saber. A obra é uma iniciativa inédita no Brasil, pois um mesmo projeto apresenta diferentes dimensões que se complementam e ajudam a pensar futuras políticas públicas para os campos da Comunicação e das Telecomunicações no país e, particularmente, colaboram para subsidiar o governo federal, em suas políticas para reduzir a inclusão social e digital. O primeiro volume desta obra é dividido em duas partes: a primeira apresenta o estudo das tendências nas telecomunicações, e reúne artigos escritos exclusivamente para este livro, além de cinco textos publicados originalmente no Boletim Radar – Tecnologia, Produção e Comércio Exterior nº 10, uma edição especial de telecomunicações lançada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em outubro de 2010. A segunda parte traz artigos que colaboram para o pensamento na área de comunicação e oferecerem um panorama das indústrias criativas e de conteúdos. A escolha por unir os estudos sobre telecomunicações e comunicação e sua relação com a economia se justifica. Além das fronteiras entre os dois campos estarem se diluindo rapidamente, o setor de tecnologias da informação e da comunicação (TICs) é um dos mais dinâmicos em termos de inovações em âmbito mundial. E cada vez mais, os pesquisadores incluem a comunicação, a cultura e a educação como partes do processo de inovação. No âmbito tecnológico, os investimentos em P&D pelos grandes players são extremamente significativos: sete das 20 maiores empresas inversoras em P&D no mundo pertencem ao setor. No outro lado da cadeia produtiva, na área de conteúdos e serviços digitais, não poderia ser diferente. Os estudos internacionais mostram que as indústrias criativas e de conteúdos digitais rendem bilhões de dólares anualmente e tendem a aumentar esses valores nos próximos anos. Essa é uma das razões pelas quais o Programa Nacional de Banda Larga conta em seu plano de ação com a área de conteúdos e serviços digitais, que passou a funcionar no segundo semestre de 2010. O segundo volume desta obra é dedicado a resgatar, como o próprio título diz, a Memória das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação no Brasil, como resultado de parceria realizada entre o Ipea e a Federação Brasileira das Sociedades Científicas de Comunicação (Socicom). A comunidade brasileira no âmbito das ciências da comunicação avançou significativamente desde que Luiz Beltrão, o fundador do campo de conhecimento da comunicação, criou há meio
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século o primeiro instituto de pesquisa acadêmica sobre os fenômenos sociais da informação coletiva. Todavia, a ausência de uma interlocução com o Estado ensejou o desenvolvimento de estudos nem sempre afinados com as demandas da sociedade. Padecendo do “complexo do colonizado”, a vanguarda da comunidade de pesquisadores em comunicação comportou-se mimeticamente, reproduzindo muitas vezes modelos teóricos forâneos, carentes de sintonia com o ethos brasileiro. Uma das metas da constituição da Socicom foi justamente superar essa dependência paradigmática, o que adquiriu consistência por meio do convênio celebrado com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e que conta com o apoio do Programa Nacional de Banda Larga. Com este projeto, o Ipea legitimou a relação comunicação-desenvolvimento ensejando a criação de um Observatório das Políticas Públicas nesse campo. Além disso, planeja realizar séries históricas destinadas a pensar sistemas democráticos de difusão coletiva, além de propor indicadores na área de comunicação. A obra Panorama Brasileiro da Comunicação e das Telecomunicações representa um passo decisivo nessa direção. E, em seu terceiro volume, apresenta o resultado (parcial) de quatro pesquisas realizadas por pesquisadores brasileiros da área da comunicação sobre o Estado da Arte nesse campo do conhecimento. Neste volume é possível conhecer o número de faculdades e cursos de pós-graduação em comunicação no país, analisando áreas de concentração e/crescimento. Um segundo ponto da pesquisa sobre o Panorama da Comunicação analisa as profissões existentes hoje e as novas habilidades necessárias para que o país possa investir em uma indústria de conteúdos e serviços digitais. A terceira parte do estudo analisa as indústrias criativas e de conteúdos e os movimentos das empresas em direção ao modelo digital. Finalmente, a pesquisa realiza estudo comparativo na área de comunicação com outros países, possibilitando a análise de nossas fragilidades e potencialidades. Brasília, dezembro de 2010. Marcio Pochmann, presidente do Ipea José Marques de Melo, presidente da Socicom Cezar Alvarez, secretário-executivo do Ministério das Comunicações

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SUCO DE PITOMBA

Brasileiro, nordestino, maranhense e ludovicense que sou, tive uma criação semelhante à de boa parte da população brasileira estudada pelo Ipea: os pobres – financeiramente, óbvio. E, na minha infância, foi comum conviver com quintais e plantas frutíferas, coisa que está praticamente extinta nas grandes cidades brasileiras, mesmo nos condomínios das elites nacionais e estrangeiras que vivem aqui. E nessa convivência com quintais e plantas destaco uma delas que talvez grande parte dos brasileiros não conheça: a pitomba. Esse fruto – em geral tem um a dois caroços revestidos por uma camada fina e suculenta, adocicada e um pouco ácida – é encontrado nativamente desde a região Amazônica até a Mata Atlântica. Sua árvore chega a ter 12 metros de altura e é fácil ser usada por moleques, como eu à época, para altos papos e centro de “reuniões” sobre a próxima brincadeira, etc. Além de constar no cardápio dos seres humanos, a fruta é consumida por muitos outros animais. Mas o que tem a pitomba a ver com a comunicação/comunicações, ou com o debate sobre comunicação/comunicações? Óbvio que nada! Aparentemente. Ela pode ser usada como metáfora para entender que o debate atual sobre comunicação (comunicações) assemelha-se a um suco de pitomba. Apesar de ser possível se extrair dessa fruta – ou de qualquer outra – líquido que possa se transformar em suco, no caso da pitomba não há registro de que isso seja feito. Mas é o que se tenta há anos fazer no caso da comunicação/ comunicações: tentar vender a ideia de que é possível se extrair do meio (Estado, governos, veículos, empresas, leis, etc.) algo que não se caracterize numa coisa estranha, mesmo que seja possível. O “suco” do debate sobre comunicação/ comunicações seria algo não palatável e por isso tão cheio de medos e desafios. E, nesse caso, é melhor não extrair nada e não beber esse “suco”. Será? Não é preciso consultar a literatura ou pesquisar em bibliotecas para se registrar que nunca na história deste país, como diz nosso presidente Lula, se debateu tanto a comunicação/comunicações. E isso não é um fenômeno do Brasil. A eleição de Obama (EUA) colocou na sala de estar – hipotecada, claro – americana o debate sobre o poder do quarto poder e sua participação política, empresarial e social. Aqui no Brasil, nos últimos anos, têm ocorrido seminários quase que diários para se debater os rumos da comunicação de massa. Com um agravante: os veículos dedicam quase nada de espaço para esse debate, a não ser quando organizados pela própria empresa detentora do veículo organizador. Ufa! Outra coisa que chega a ser desnecessária é o registro sobre a situação surreal que vive o setor de comunicação/comunicações. Apesar das novas tecnologias,
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como a internet, que em tese favoreceriam a expansão de grupos e empresas do setor – o que de fato ocorreu –, o que se tem visto é uma troca de guarda. Grandes conglomerados têm se transformado e pedido água. Tradução: quebrado ou se hipotecado. Mas alguns ainda tentam esconder do público que a vaca já está no brejo. Isso é visto nos veículos impressos, por exemplo. Não é preciso pesquisa para saber que a garotada – os maduros de amanhã – não lê jornais impressos. Então, quem os lerá? Por outro lado – isso é o que explica a situação surreal –, os pequenos veículos, na rede, claro, crescem a cada dia em visitação e procura. Não há essa pesquisa, óbvio, mas deve-se estimar que boa parte da população mundial já possua um registro na rede. E muitos, para desespero de alguns, não só têm esse registro, como alimentam redes incríveis de comunicação/comunicações. Agora, apesar de muitos debates, pouco ou nada se coloca no papel pelos órgãos de Estado que deveriam fazê-lo. E esse era o caso do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 46 anos, sua produção deixou passar ao largo essa temática, como se o setor não fosse estratégico. Não se sabe se não estudou porque não quis estudar, ou se não estudou porque não era conveniente estudar. Sei lá! Não querendo transformar o debate em suco de pitomba, o Ipea se deu conta de que, para ter essa produção de conhecimento – e que esta, sim, fosse palatável –, era necessário reconhecer, primeiro, as redes de pesquisa já existentes. No caso, procurar parcerias com a Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom). Essa busca foi exitosa, pois encontrou na diretoria da Socicom a demanda por parcerias com o Estado. Juntou a fome com a vontade de comer. Outro fator importante foi reconhecer que deveria haver um planejamento estratégico para produção de conhecimento nessa área. Esse planejamento passaria pela oferta de recursos em formação de quadros pelo próprio Ipea, o que se solucionou pela Chamada Pública 63/2010, a qual selecionou doutores e mestres, em todo o Brasil, para consolidar um primeiro painel de pesquisa – que tem seus primeiros resultados nesta obra. Por fim, também era necessário aglutinar o debate, colocando como meta a aproximação entre os pesquisadores em comunicação – da Socicom – e os técnicos de planejamento e pesquisa do Ipea. O que teve guarida na Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea. Registro que essa aproximação ainda é embrionária, mas observo que ela se dará em breve – acredito – por meio da formação de um núcleo dentro dessa diretoria para estudar o assunto, até porque o Ipea já tem liderança na área de estudos de telecomunicações. E digo isso como proposta. A distância entre
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comunicação e telecomunicação ainda existe só nos manuais, pois no dia-a-dia não há debate sobre uma que não use temas da outra. Mas esse debate, no Ipea, está apenas começando. Acredito que essa associação já deu frutos e tem tudo para decolar. O que não tenho certeza é se conseguirá fazê-lo na mesma rapidez das transformações que nossa geração presencia. Temo que os grupos de pesquisa – tanto do Ipea como da Socicom – devam se debruçar menos pelo histórico e mais pela antecipação de novas ondas, pois esse setor precisa, sim, ser mapeado, e não podemos assistir passivos às suas mudanças. E essa parceria deve continuar, em nome da sociedade brasileira. Daniel Castro Organizador Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação do Ipea

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INDÚSTRIAS CRIATIVAS E DE CONTEÚDO: O DILEMA BRASILEIRO PARA A INTEGRAÇÃO DO MASSIVO AO POPULAR
José Marques de Melo1

Introdução A sociedade midiática caracteriza-se pela prevalência das indústrias criativas e de conteúdo no conjunto das atividades de produção e circulação dos bens simbólicos que configuram e dão sentido à sua identidade cultural. O principal indicador do desenvolvimento da indústria midiática é sem dúvida o fluxo dos investimentos em publicidade. Quanto maior for a capacidade dos anunciantes para comprar espaço nos jornais, rádio, televisão ou internet, mais recursos terão os empresários do ramo para manter seus veículos, gerar empregos para jornalistas e outros profissionais e naturalmente melhorar os produtos que difundem. Nesse âmbito, a América Latina demonstrou tendência regressiva na primeira década do século XXI. Apesar das recentes aplicações feitas no setor, perfilou como o continente que menos investia em publicidade. A crise do sistema financeiro provocou a redução do bolo publicitário, retirando-nos da retaguarda mundial em 2009. A liderança permanece com a América do Norte (35.4%), seguida da Europa Ocidental (24.1%), da Ásia/Pacífico (23.4%) e da América Latina (6.9%).Na retaguarda encontram-se a Europa do Leste (6.2%) e África/Oriente Médio (4.1%). Segundo o anuário Mídia Dados 2010, baseado no Advertising Expenditure Forecast (Zenith Optimedia, 2009), como decorrência “da expansão da economia na maioria dos países do continente e da valorização das moedas locais diante do dólar”, no período 2007/2009 houve uma um crescimento de 15% nos investimentos publicitários da região. O Brasil, o México e a Colômbia demonstram sinais de vitalidade. São os únicos países desta região sociocultural incluídos no seleto clube dos maiores anunciantes mundiais. A situação brasileira é conjunturalmente confortável. Aplicando US$ 11.5 milhões/ano, figura em 7º. lugar no volume de investimentos publicitários (depois dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, China, Reino Unido e França) e 0 3º. lugar no investimento publicitário em televisão, precedido apenas pelos Estados Unidos e Japão. Os grandes anunciantes são as corporações empresariais que atuam no mercado financeiro, varejista, automobilístico ou telefônico, bem como as poderosas empresas estatais. A top list dos investidores publicitários é composta
1Professor Emérito da Universidade de São Paulo, ocupando hoje o cargo de Diretor-Titular da Cátedra UNESCO de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Fundador e atual Presidente do Comselho Curador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM

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por 15 empresas que aplicam verba unitária superior a US$ 200 milhões/ano. A distribuição do bolo publicitário é feita de modo paradoxal segundo os diferentes meios existentes no território brasileiro. Enquanto a indústria audiovisual (televisão, radio) concentra dois terços dos recursos, a mídia impressa (jornal, revista) absorve um quinto, restando quantia inexpressiva para os veículos emergentes (internet, outdoor) e migalhas para os bolsões marginais (folkmídia). Polarização O desafio da interação entre os dois sub-sistemas confere singularidade à geografia comunicacional brasileira. A natureza continental e a topografia acidentada do espaço brasileiro inibiram durante vários séculos a interiorização dos fluxos comunicacionais. Foi inevitável a constituição de culturas regionais, unificadas pelo mesmo código lingüístico, mas diferenciadas pelos usos e costumes locais. O maior contingente da nossa sociedade era constituído por escravos negros, miseráveis e analfabetos. Sua libertação somente ocorreu no final do século XIX. Abandonados à própria sorte, os remanescentes da escravidão agravaram o êxodo rural, engrossando as comunidades marginais que deram origem às favelas hoje espalhadas pelos cinturões metropolitanos. Nesses guetos, eles se comunicam de forma rudimentar. Valendo-se de expressões folkcomunicaconais, enraizadas nas tradições étnicas, vão se adaptando às cidades. E defrontam-se empaticamente com as expressões culturais geradas pelos fluxos massivos (cinema, disco, radio, televisão). Esses dois Brasis confrontam-se e interagem continuamente. As manifestações folkcomunicacionais decodificam e reinterpretam as expressões da indústria cultural e esta procura retroalimentar-se nas fontes inesgotáveis da cultura popular. O fosso entre as duas correntes reduziu-se muito lentamente, durante o século XX, traduzindo a vacilação das nossas elites no sentido de eliminar as desigualdades sociais. A integração ou ao menos o diálogo entre esses dois sistemas constitui o maior desafio das vanguardas nacionais. Raízes históricas Quando, a partir do século XVI, o território brasileiro começou a ser disputado pelos colonizadores europeus (portugueses, franceses e holandeses), o instrumento de comunicação vigente em todo o litoral era o tupi-guarani. Essa “língua franca” predominou até o século XVIII, tendo sido codificada, para fins pedagógicos, pelos missionários jesuítas. Durante o ciclo do ouro, os governantes portugueses interiorizam o
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povoamento, intensificando o fluxo populacional, através da importação de mãode-obra. Colonos brancos procedentes da Península Ibérica ou recrutados nas colônias asiáticas, bem como escravos negros oriundos da África se misturam com os mestiços resultantes do caldeamento entre lusos e nativos. Para neutralizar os ruídos causados pelo confronto lingüístico entre os nativos aculturados e os novos adventícios, os colonizadores lusitanos determinam tardiamente a obrigatoriedade da língua portuguesa nas relações sociais. Esse processo desencadeia tensões, acarretando a transformação do idioma do império, que incorpora palavras ou expressões dos dialetos africanos ou das línguas americanas. O resultado é a constituição de um código de comunicação oral, empregado pelos contingentes subalternos, que se distancia do código escrito, preservado pelas elites. Assim sendo, o processo de comunicação das classes trabalhadoras preservou laços estreitos com a oralidade, cultivada no interior da Colônia, enquanto as classes ociosas permaneceram sintonizadas com o beletrismo típico da Corte Imperial. Encontra-se nessa dissonância retórica a raiz da bipolarização dos fluxos comunicacionais, configurando o sistema midiático vigente no Brasil contemporâneo. Arquipélago cultural O diagnóstico exibe maior complexidade quando constatamos que o espaço geográfico brasileiro, por sua natureza continental e sua geografia descontínua e acidentada, inibiu durante vários séculos a interiorização dos fluxos comunicacionais. Estes privilegiavam a via marítima, principalmente em direção à Corte Portuguesa, mantendo incomunicadas as comunidades nacionais. Foi inevitável a germinação de padrões culturais diferenciados, de região para região, amalgamados tão somente pelo código lingüístico imposto pelo colonizador, mas diferenciados pelos usos e costumes locais. Esse “arquipélago cultural” permaneceu praticamente imutável até o século XX, quando foram otimizadas as comunicações por via fluvial ou construídas as rodovias e as ferrovias e desenvolvidas as aerovias, removendo as barreiras que obstaculizavam a circulação de mercadorias ou de bens simbólicos. Por outro lado, é indispensável mencionar o obscurantismo cultural praticado pela Coroa Portuguesa durante todo o período colonial. Foi preservada até as vésperas da independência nacional, no início do século XIX, a ausência de escolas, universidade, imprensa, bibliotecas, correio e outros aparatos culturais, .

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Políticas públicas Durante dois séculos, o comportamento do Estado Brasileiro manteve-se opaco em relação às políticas públicas de comunicação. Não obstante existissem diretrizes para regular o sistema nacional de comunicação massiva, primeiro a imprensa e depois a mídia eletrônica, elas nunca foram articuladas num corpo doutrinário autônomo. Na verdade, estavam embutidas (ou escondidas) na legislação ordinária. Em termos constitucionais, a única política transparente durante o Império ou a República foi a do controle da informação. A tendência dominante pautouse muito mais pelo espírito repressivo do que pelo incentivo à comunicação democrática. Longos períodos autoritários marcaram a nossa organização política, deixando marcas profundas no ethos brasileiro. De tal forma que a nossa postura diplomática foi de hesitação, dubiedade ou dissimulação, justamente quando a comunicação se impôs como tema relevante da agenda internacional, na segunda metade do século XX. O Brasil oscilou entre a simpatia pela retórica libertária dos países do Terceiro Mundo e a adesão ao rolo compressor capitaneado pela potência hegemônica, cuja estratégia era simplesmente desqualificar as decisões terceiromundistas chanceladas pela UNESCO. A Constituição Cidadã de 1988 representa o fim dessa tradição de tapar o sol com a peneira. Pela primeira vez, os nossos legisladores enfrentam com determinação os desafios da sociedade midiática, dedicando-lhe um capítulo exclusivo da nossa carta magna. Sob o titulo genérico “Da Comunicação Social”, os artigos 220-224 assimilam em grande parte as aspirações democráticas da nossa sociedade civil. Mas passados 20 anos, somos obrigados a constatar que poucos avanços foram contabilizados. Se logramos garantias constitucionais para comunicar democraticamente, faltam-nos ainda instrumentos legais capazes de implementar os princípios que as fundamentam. Temos evidentemente uma grande conquista que merece reconhecimento. Trata-se do respeito à liberdade de expressão pública. Nunca vivemos, em toda a nossa trajetória republicana, conjuntura mais rica em termos de liberdade de imprensa. Tradição do impasse Neste momento em que o País demonstra pujança democrática e altivez
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cultural, torna-se inadiável a formulação de políticas públicas de comunicação consentâneas com as demandas do Século XXI. Temos a expectativa de pavimentar a nossa passagem para a Sociedade do Conhecimento, extirpando a exclusão comunicacional a que estão condenados vastos contingentes da nossa população que passaram pela escola, mas não se converteram em leitores de jornais, revistas ou livros. Sedentos de leitura e famintos de cultura, esses bolsões marginais da sociedade de consumo protagonizam papéis de segunda ou terceira classe, sem exercer plenamente a cidadania. O advento da sociedade digital recoloca na ordem do dia aquela observação perspicaz feita, no apagar das luzes do século XIX, pelo intelectual paraense José Veríssimo: o Brasil cultiva a “tradição do impasse”. A nação tem consciência dos seus problemas fundamentais, vislumbrando os caminhos para solucioná-los, porém as elites que controlam o poder hesitam em dar-lhes tratamento adequado, optando por medidas paliativas que agravam a situação. Nada melhor que o resgate dessa metáfora para entender o que ocorre na complexa estrutura comunicacional brasileira, onde dois sistemas coexistem paradoxalmente, neste início do século XI, interagindo no plano das trocas simbólicas, sem integrar-se na esfera das providências estratégicas. Esses dois Brasis se confrontam, interagem, complementam. As manifestações folkcomunicanais do Brasil tradicional recodificam e reinterpretam as expressões massivas do Brasil moderno. O fosso entre os dois fluxos se foi reduzindo lentamente, no correr do século XX, traduzindo a pouca apetência das elites brasileiras no sentido de eliminar as desigualdades sociais. A chegada dos imigrantes estrangeiros no início do século passado acelerou, por exemplo, a expansão da imprensa, cuja leitura era demandada pelas comunidades letradas oriundas da Europa. Mais recentemente, o incremento das oportunidades educacionais para os trabalhadores urbanos acarretou o crescimento das tiragens dos jornais e das revistas. A elevação do nível cultural das classes médias influiu na melhoria dos conteúdos da televisão, como foi o caso das telenovelas. Mas enquanto perdurar o impasse institucional, sem alterar-se o quadro da exclusão social e da indigência educacional, os dois sistemas comunicacionaios permanecerão ativos, correspondendo às demandas culturais de audiências estanques ou segregadas

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Fontes recentes para guiar novos itinerários Brasil – Sociedade Becker, Bertha & Egler, Cláudio 1993 – Brasil, uma nova potência regional, São Paulo, - Bertrand Benjamin, Roberto 2003 – A África está em nós, 2 vols., Recife, Grafset Bosi, Alfredo 2002 – Cultura Brasileira, temas e situações, São Paulo, Ática Câmara Cascudo, Luis da 2004 – Civilização e Cultura, São Paulo, Global Conniff, Michael & McCann, Frank 1991 – Modern Brazil, Univ. of Nebraska Press, Fausto, Boris 1995 – História do Brasil, São Paulo, EDUSP Ortiz, Renato 1994 – A moderna tradição brasileira, São Paulo, Brasiliense Page, Joseph 1996 – Brasil, el gigante vecino, Buenos Aires, Emecê Pekic, Vojislav 1996 – Brasil, el gigante del sur, Madrid, Anaya, 1991 Ribeiro, Darcy 2006 – O povo brasileiro, São Paulo, Companhia de Bolso Schwartz & Sosnowski
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COMUNICAÇÃO DIGITAL - DIÁLOGOS POSSÍVEIS PARA A INCLUSÃO SOCIAL1

Cosette Castro2

Introdução Este artigo forma parte das reflexões apresentadas durante o XIV Colóquio Internacional da Escola do Pensamento Latino-Americano em Comunicação (CELACOM) realizado em 2010. Nele, procuramos estabelecer as conexões necessárias para pensar (desde os estudos de Comunicação) o mundo de forma transdisciplinar e complexa (no sentido dado por Edgar Morin), onde a produção de conhecimento e a circulação das informações não estão mais restritas aos espaços formais e oficiais, como a escola, o Estado ou os meios de comunicação. Elas se multiplicam na vida cotidiana através das redes sociais, sendo distribuídas através de diferentes plataformas tecnológicas e repercutem nas pesquisas realizadas no meio acadêmico e no mundo do trabalho. Desde o ponto de vista dos países periféricos, como a América Latina e Caribe, nos interessa estudar as plataformas tecnológicas3 abertas e gratuitas, como a televisão digital terrestre4, a televisão digital acessada gratuitamente através dos celulares, assim como a convergência de mídias, como espaço de inclusão social e digital. A presente reflexão sobre o uso de plataformas gratuitas para populações de baixa renda está diretamente relacionada às mudanças que vêm ocorrendo nas sociedades ocidentais e seus paradoxos. Elas envolvem as transformações econômicas, sociais, culturais, comportamentais e educativas pelas quais estamos
1. Este artigo foi escrito a partir do texto New Formats to Digital Television – use of interactivity and interoperability, escrito em parceria com André Barbosa Filho e das reflexões apresentadas no XIV Colóquio da Escola Latino-Americana de Comunicação (Celacom), em maio de 2010. 2 Doutora em Comunicação pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), Espanha. Atualmente realiza estudos de pós-doutorado na Cátedra da Unesco em Comunicação para o Desenvolvimento /UMESP. É professora do PPGCOM da Universidade Católica de Brasília (UCB), professora associada do PPGTVD da UNESP e do PPGCOM da UnB. Prêmio Luis Beltrão/Intercom de Pesquisa Inovadora-2008. Autora de três livros: Mídias Digitais, com André Barbosa Filho e Takashi Tome, Ed. Paulinas (2005); Por Que os Reality Shows Conquistam as Audiências?, Ed. Paulus (2006) e Comunicação Digital, Ed. Paulinas, (2008). Coordena o GP de Conteúdos Digitais e Convergência Tecnológica da INTERCOM. 3 Existem plataformas tangíveis e plataformas intangíveis. As plataformas tangíveis são os equipamentos onde se concretiza um conteúdo digital. Exemplos de plataformas são tangíveis: a TV digital, rádio e cinema digital, videogames em rede, celulares ou computadores mediados por internet. A plataforma intangível – que é o caso da internet, onde circulam e se multiplicam os conteúdos digitais sem os limites da matéria e da noção de linearidade. 4 Não estudamos a TV digital por assinatura por se tratar de um modelo pago de televisão, o que restringe o número de pessoas que vêem TV por essa modalidade. Nos países latino-americanos e caribenhos questões geográficas e a falta de conteúdos nacionais possibilitaram que as televisões por assinatura se desenvolvesse em países como Argentina (problemas geográficos) ou Equador (falta de conteúdos nacionais), para citar dois exemplos. Tampouco o uso de IPTV é uma alternativa – desde o ponto de vista da inclusão social – para os países da Região por pelo menos três motivos: se trata de um modelo pago; não é broadcast e o índice de computadores com internet ainda é muito baixo na região.

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passando desde o final do século XX. No campo econômico, a globalização da economia foi ampliada a partir do acesso e uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Um exemplo desses paradoxos é, de um lado, a crescente concentração de empresas5 e, de outro lado, a ampliação do mercado dos países emergentes6, que oferecem novas possibilidades de negócios para a o uso da televisão digital terrestre aberta. Esse é o caso do modelo de televisão nipobrasileiro utilizado em oito países da Região – Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Paraguai, Peru, Equador e Venezuela - cujos middlewares e softwares são disponibilizados em código aberto.
Quadro 1 – Mapa de América Latina e Caribe

As mudanças sociais também apresentam paradoxos. De um lado, há uma crescente inclusão social em países como Argentina, Brasil, Colômbia e Chile convivendo lado a lado com índices preocupantes de exclusão digital nesses países ou mesmo em Estados vizinhos, como Bolívia, Paraguai, Nicarágua ou Honduras.
5 Em todos os setores, inclusive entre empresas de comunicação e entretenimento. Sobre o tema ver os estudos realizados pelos teóricos da Economia Política da Comunicação. 6 Países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China - são um bom exemplo das novas relações que se estabelecem entre os países centrais e periféricos.

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As transformações digitais incluem também os comportamentos e os afetos, com novas sociabilidades virtuais, com a ampliação de um lado das redes sociais e as possibilidades de interatividade e participação. O lado negativo é a visibilidade ampliada de perversidades, como a pedofilia e o narcotráfico. No mundo trabalho, conviemos com tecnologias que nos permitem estar virtualmente em vários locais ao mesmo tempo, mas por outro lado, países e empresas ampliaram a flexibilização e fragilidade dos contratos de trabalhos. Além disso, o uso das plataformas tecnológicas como novas mídias digitais7 – deu espaço para o surgimento de novas funções, sem que tenham ido alteradas as legislações aprovadas em tempos analógicos, que não subsidiam ou defendem os cidadãos no mundo digital. Junto a isso, convivemos com as mudanças na área da educação, agora pensadas para toda a vida. A educação é apresentada de forma presencial, semi-presencial ou a distância, enquanto a mentalidade da maior parte dos professores e pesquisadores da América Latina e Caribe ainda se encontra profundamente enraizada no mundo analógico, com dificuldade de aceitar as mudanças digitais interativas que estão acontecendo. Levando em conta que estamos frente a um mundo complexo (nos termos de Morin) e que apenas uma teoria não da conta de explicar as transformações que estamos passando necessitamos de vários olhares8 para tentar compreender as possibilidades interativas e de convergência9 de mídias que as plataformas tecnológicas apresentam. No campo da cultura, vale a pena observar as contribuições de Clifford Geertz10 e Ulf Hannerz11 , onde cultura é vista como uma rede de significados interconectada por cada indivíduo e pelo coletivo que se movimenta por fluxos. Ou seja, a cultura é observada como um elemento que não é estático ou eterno, mas que precisa ser constantemente vivida e é modificada pelas pessoas. Arjun Appadurai12 aponta a relação entre globalização e cultura. Para ele, a globalização não está promovendo uma homogeneização cultural, mas envolve o uso de uma variedade de instrumentos que são absorvidos na economia e culturas locais sem serem repatriados, pois são resignificados no âmbito local. Featherstone destaca que a mundialização da cultura não se resume à generalização, porque ela também é capaz de diversificar. Para o autor, é possível pensar em cultura global
7 Celulares, computadores com internet e mesmo os videojogos em rede, além da televisão, do rádio e do cinema digital. 8 Como pode ser observado a seguir os pesquisadores citados também representam a mundialização da cultura em seu aspecto mais positivo: a circulação de conceitos, culturas e informações que somam a possibilitam o diálogo entre os pesquisadores de diferentes lugares, línguas e origens. 9 Possibilidade de desenvolver produtos, formatos, programas e conteúdos digitais para diferentes plataformas tecnológicas ao mesmo tempo, mas respeitando as características de cada plataforma 10 Antropólogo estadunidense já falecido, cuja obra é reconhecida mundialmente. 11 Professor de Antropologia da Universidade de Oslo, Noruega. 12 Professor inglês de origem indiana.

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tomando-se os processos de integração e desintegração cultural transsociais em que se baseiam os “fluxos de mercadorias, pessoas, informações, conhecimento e imagens que dão origem aos processos de comunicação e adquirem certa autonomia em nível global”. O sociólogo brasileiro Renato Ortiz destacou no final do século XX que a formação de uma cultura mundializada não implica o aniquilamento de outras manifestações culturais. O autor fala da criação da cultura glocal – termo japonês que surgiu nos anos 90 do século XX na área de negócios – para tratar da mistura entre a cultura local e a global; aonde a cultura local se apropria e dá novos sentidos a cultura global. Hannerz (1997) acredita que hoje existe uma cultura global, mas trata-se de uma cultura que está assinalada por um organismo de diversidade e não por um repetição de uniformidade. São as culturas locais e suas relações, trocas e contatos cada vez mais acentuados que ajudam a formar a cultura global. Para o autor sueco, devemos pensar o mundo como globalizado , onde os sujeitos e objetos encontram-se em constante fluxos, onde são constantemente elaborados novos significados e estabelecidas constituições culturais híbridas13 à medida que as fronteiras tornam-se cada vez mais permeáveis. É bem verdade que existem discursos no campo da política, da economia e mesmo da tecnologia que tentam homogeneizar as culturas através dos discursos que seus representantes oferecem, pelos meios analógicos e também através das diferentes plataformas tecnológicas, entre elas a televisão e os computadores mediados por internet. Mas isso não significa que esses discursos convençam as pessoas, tornando-se necessariamente hegemônicos. Tampouco significa que as pessoas passam a esquecer da sua própria cultura; o que ocorrem são os processos de mestiçagem de que nos fala desde os anos 80 do século XX o pesquisador espanhol que adotou a Colômbia, Jesus Martín-Barbero. É cada vez mais difícil é falar em culturas puras, pois elas são atravessadas por outras culturas, pelas correntes migratórias, pelo fim das fronteiras, pelos fluxos intensos e contínuos de informação e imagens que nos chegam através das mídias, assim como pelo intercambio de conhecimento e idéias que transitam na esfera pública e privada diariamente. São essas mestiçagens que vão caracterizar os novos formatos, conteúdos14 e programas pensados para a televisão digital interativa (TVDi) e para a convergência de mídias. Como bem recordou o pesquisador Otavio Ianni (2002), independente da perspectiva teórica, das opções ideológicas ou do fato que examinam aspectos, problemas e situações, compreendendo o “local”, o “provincial”, o “tribal”, o “regional” ou o “nacional”, todos contribuem para instituir a “sociedade global”
13 Sobre as culturas híbridas, vale a pena conhecer a obra do pesquisador argentino que vive no México, Néstor García Canclini. 14 Conteúdos digitais – todo o áudio, a imagem, o texto ou dados oferecidos às audiências pelas diferentes plataformas tecnológicas.

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como novo emblema das ciências sociais, compreendendo-se a sociedade global em suas implicações políticas, econômicas, culturais, demográficas, lingüísticas, religiosas, étnicas, de gênero e outras esferas da realidade. Tanto os conceitos como as categorias de pensamento são desafiados a olhar o mundo de forma mais ampla e complexa, apoiados nas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) e atravessados por elas e pelas conseqüências de sua utilização e impacto na vida social. Antes da Interatividade, a Criatividade Uma das características mais marcantes dos seres humanos é a habilidade criativa, onde é possível aprender e antever conseqüências de atos imaginados. Isto nos permite fazer “modelos” de mundo. Conseguimos “rodar” um programa simulador em nossa mente e imaginar histórias, estéticas, misturar culturas, assim como desenvolver conteúdos e formatos (analógicos ou digitais). Criar, nesse sentido, é ter habilidade de simular – simular situações e imaginar mundos15. Há 50 anos, a criatividade estava restrita ao mundo da arte e da comunicação, mas só gerava dinheiro na indústria do cinema16 dominada até então pelos Estados Unidos. A chegada das tecnologias de informação e comunicação muda esse panorama, (re) valorizando a criatividade, a inovação tecnológica, a prestação de serviços e abrindo novos mercados, como é o caso do cinema indiano e do cinema de animação produzido pelos chineses. Ou seja, enquanto a sociedade industrial valorizava o trabalho manual, a sociedade da informação e do conhecimento valoriza as habilidades mentais, a criatividade, a inovação e os serviços. No campo da comunicação, esses serviços podem ser oferecidos a partir de conteúdos para televisão, rádio e cinema digital, celulares, videojogos em rede e computadores mediados por internet, assim como para a convergência de mídias17. Pensando nisso, em 1998 o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair investiu nas indústrias criativas e na inovação tecnológica – lançadas pouco depois para os demais países da União Européia18, como fatores de desenvolvimento da Grã-Bretanha e demais países da Região para o século XXI. Só que o modelo
15 Não existe apenas uma definição de criatividade e ela pode ser abordada desde diferentes aspectos, como o ponto de vista cognitivo, neuro-científico, computacional ou humano. 16 Já que a indústria televisiva, mesmo gerando importantes recursos, nunca alcançou o status de produto “artístico” no mesmo nível alcançado pela sétima arte. Além disso, durante muitos anos os conteúdos e programas televisivos sofreram com a discriminação de pesquisadores e intelectuais das Ciências Sociais, da Filosofia, da Economia Política, da Educação e mesmo da Comunicação em diferentes países que os consideravam produtos de segunda categoria. Essa desvalorização da televisão e do gosto popular ainda encontra importantes redutos no mundo acadêmico. Acreditamos que mais do que censurar ou criticar, é necessário ampliar a oferta de conteúdos televisivos diversificados. 17 Uma mídia, segundo Eliseo Verón (2001), é a articulação de uma plataforma, de um suporte, mais uma prática social. 18 Sobre o tema, ver o Plano Dott, de 2000.

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europeu de indústrias criativas – onde as empresas de radiodifusão trabalham em conjunto com as empresas de telefonia móvel e a maior parte dos serviços são pagos – é diferente do modelo latino-americano e caribenho, onde a oferta é gratuita. Mesmo o exemplar serviço público da BBC com seus vários canais de televisão é diferente da oferta de televisão pública dos países latino-americanos e caribenhos. A diferença vai além da qualidade ou quantidade dos conteúdos – que não será debatida neste texto - mas na própria noção de público, pois nos países da Região a televisão pública sinônimo de televisão gratuita. As pessoas não pagam (e em sua maioria nem teriam orçamento para isso) para assistir televisão aberta. Ou seja, qualquer projeto de conteúdos digitais interativos para televisão aberta e para o uso da TVD através de celulares deve contemplar a inclusão social e digital. Além disso, existe uma diferença importante quanto ao tratamento da propriedade intelectual, fortemente defendida nos países centrais. Como se fosse pouco, as indústrias criativas pensadas pelos britânicos, vão muito além da Comunicação e do Design: incluem artesanato e museus, entre outros temas. Não é por acaso que defendemos a emergente indústria de conteúdos digitais interativos na Região, com ênfase na televisão digital interativa terrestre e na convergência de mídias, ressaltando a necessidade de que seja disponibilizada de forma gratuita para a população. A indústria de conteúdos pensada a partir do modelo de televisão japonês-brasileiro19 já foi adotado em oito países da Região (além de Filipinas, e recentemente Moçambique, Angola e Botswana), tem como características: 1. Vem sendo desenvolvida através de plataformas gratuitas; 2. Tem como meta a inclusão social e digital, assim como o desenvolvimento sustentável; 3. Oferece middlewares e softwares em código aberto para ampliar a circulação de informações e de conhecimento; 4. No caso da televisão, recebe incentivo estatal para o desenvolvimento de conteúdos para televisão digital (TVD) aberta e gratuita, assim como para conteúdos voltados para a convergência de mídias; 5. Muitos conteúdos são desenvolvidos de forma compartilhada e coletiva, ampliado o conhecimento sobre novos formatos interativos e gratuitos; 6. As redes sociais têm participação importante na formação de novos atores sociais que também produzam conteúdos.
19 Além dos países citados, Uruguai e Colômbia adotaram o modelo europeu e o México e República Dominicana adotaram o padrão ATSC, consórcio formado por EUA, Canadá e Coréia. Existem outros dois modelos usados na Região: Colômbia e Uruguai adotaram o consórcio europeu, mas ainda não começaram as transmissões digitais, e o México utiliza o consorcio ATSC, sem interatividade.

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Antes da Interatividade, a Criatividade A passagem da televisão analógica aberta para o modelo digital marca o surgimento de uma televisão híbrida20, diferente do que já se viu até então. Essa diferença - representada pela digitalização, pela não linearidade, pela possibilidade de usar recursos interativos e pela gratuidade - é o que define o valor agregado da nova televisão em relação aos demais modelos. Em seus primeiros anos, é possível afirmar que a televisão digital é uma mistura da televisão analógica, de cinema e de computadores com recursos de internet e tende a seguir assim - meio computador na televisão e meio TV analógica - até encontrar sua própria identidade. Algo similar ao que ocorreu quando as primeiras televisões analógicas chegaram ao mercado21: eram caras, as pessoas desconfiavam da qualidade de seus programas e a linguagem era uma mistura da estética radiofônica com a cinematográfica. Demorou um bom tempo – pelo menos 20 anos - até as empresas de televisão, públicas e privadas, encontrarem uma linguagem e estéticas própria. No caso do computador mediado por internet, Murray (2007:236) recorda que “a capacidade de armazenamento e organização complexa do computador pode ser usada como apoio para um universo narrativo bastante denso e exigente”. Desse modo, a integração da televisão com o computador – utilizando os recursos do computador na TV que a maioria da população possui em casa com ajuda de uma caixa de retorno (set top box) - possibilita que nos desloquemos pelo mundo narrativo, mudando de uma perspectiva para outra por nossa própria iniciativa. Considerado o maior país da América Latina, o Brasil é um bom exemplo do uso da televisão analógica. O país possui o quarto maior canal de televisão do mundo ( Rede Globo), um parque televisivo analógico com 80 milhões de aparelhos e outros 15 milhões digitais22 e seus conteúdos ficcionais, particularmente as telenovelas, são exportadas para diferentes países. No Brasil a televisão analógica chegou em 1950 e demorou pelo menos 10 anos para ser oferecida a preços populares. Além disso, demorou pelo menos 20 anos para apresentar o padrão de qualidade que a diferencia tanto na oferta de produtos ficcionais quanto de realidade. A exemplo do que acontece no Brasil, que vive em uma sociedade audiovisual, a televisão analógica na América Latina e Caribe representa muitas vezes a única fonte de informação para seus habitantes e isso deverá se repetir com a chegada da TV digital terrestre, com a diferença que a utilização de recursos interativos gratuitos pode colaborar para a inclusão social.
20 O pesquisador Carlos Scolari, argentino que trabalha na Espanha, criou o conceito de hipertelevisão para tratar das mudanças que a TV está passando, mas sua perspectiva é – pelo menos até o momento - a do modelo europeu; não a proposta aberta, gratuita e oferecida em software livre do projeto nipo-brasileiro. 21 No caso latino-americano e caribenho, a TV chega nos anos 50 do século XX. Em 2010, a televisão comemora 60 anos de existência na Região. 22 Atualmente a população brasileira é de 172 milhões de habitantes. Isso significa que 98% dos lares urbanos e 96% dos lares rurais possuem pelo menos um aparelho de TV.

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A televisão digital se apropria de algumas características do modelo analógico, como as rotinas de captação, produção e edição e também copia as linguagens, narrativas e estéticas utilizadas na TV analógica. Por outro lado, se apropria do uso da 3ª. dimensão desenvolvida no cinema e da interatividade usada nos computadores, através da oferta de recursos interativos via controle remoto onde as audiências podem participar desde casa ou na rua dos programas, formatos e conteúdos digitais ofertados pelos canais digitais abertos. Como se fosse pouco, as audiências que utilizam o middleware Ginga e possuem canal de retorno ainda podem acessar o correio eletrônico ou internet enquanto assistem a programação desde o controle remoto. Muitos pesquisadores, principalmente aqueles que residem nos países centrais, não acreditam no desenvolvimento da TV digital broadcasting e apostam na TV digital usada através dos computadores (IPTV). Embora o uso dos computadores seja amplo nos países europeus, assim como nos Estados Unidos e Canadá, um informe da União Internacional das Telecomunicações publicado em maio de 2010, aponta que apenas 26% da população mundial tem acesso a internet e antes de 2015 não há possibilidade desse número alcançar 50%. Ou seja, até o processo ser universalizado, é preciso buscar alternativas mais baratas para a inclusão social e uma delas passa pela tecnologia desenvolvida pelo Brasil para uso de recursos interativos a partir de TV digital terrestre com caixa de retorno, assim como o uso de celulares com oferta de conteúdos digitais e serviços gratuitos à população. Se os dados da UIT não fossem suficientes, bastaria apontar as diferenças fundamentais entre a TV broadcasting e o uso da TV no computador. A televisão digital broadcasting é gratuita, a qualidade das imagens é excelente e os conteúdos de áudio, vídeo, texto e dados circulam com facilidade. Diferente do computador, que é pensado para o uso individual, a assistência da televisão é coletiva e socializada. Além disso, existe uma diferença importante entre as distâncias dos conteúdos que serão assistidos em um computador de mesa e na sala de televisão. Tecnologicamente, as aplicações para televisão são baseadas em vídeo enquanto as aplicações dos computadores são baseados em texto, o que torna mais difícil desenvolver conteúdos de televisão no computador. Isso sem contar na facilidade da TV de estar simultaneamente na cada de milhões de pessoas ao mesmo tempo, sem risco de sobrecarga de rede. No caso da televisão, existem ainda vários dispositivos de exibição de forma gratuita. Os programas e formatos digitais podem ser assistidos através de um aparelho de TV fixo, em geral com tela grande, disponível em (um ou mais ambientes de uma casa) e locais públicos, ou a partir de plataformas móveis. Essas plataformas estão disponíveis através de televisores digitais pequenos (portáteis) e dos celulares com tecnologia para assistir televisão digital aberta e gratuita.
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A TV, o cinema e o rádio digital, os celulares, os videojogos em rede, os computadores mediados por internet ou a convergência entre as mídias são novas mídias que exigem novos conteúdos e formatos de programação. No caso específico da televisão, são necessários novos tipos de roteiros (storyboards)23 voltados para diferentes níveis interativos para os programas de ficção e realidade que podem ser assistidas nos subcanais digitais das empresas de televisão digital com multiprogramação. No padrão japonês-brasileiro de TVD, a multiprogramação em alta definição permite a existência de quatro subcanais digitais. Com isso, uma empresa de comunicação que tem a concessão de um canal analógico passa a ter direito a quadro subcanais digitais, como é o caso das empresas de televisão privadas cujos países já adotaram o modelo digital. As empresas que se definiram pelo uso da programação em definição standard24 podem usar até oito canais, com é o caso da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)25, instituição pública federal concessionária da TV Brasil, passará a utilizar em 2011 e terá de desenvolver conteúdos e serviços digitais para alimentar o interesse das audiências desses oito26 canais durante 24 horas. Isso significa um aumento importante no mercado de produção de conteúdos e serviços televisivos, já que a EBC informou que não pretende ser desenvolvedora de conteúdos digitais interativos. O mesmo se repete em países como a Argentina, que pretende desenvolver canal com conteúdo infantil, para além dos jornalísticos e de ficção. A TV digital interativa requer uma nova noção de grade de horários, pois a interatividade permite a ampliação do horário original de um conteúdo digital. Isto é, se um documentário for desenvolvido com três níveis de interatividade, as audiências que tiverem canal de retorno na TVD aberta poderão, a partir do controle remoto, acessar esses três níveis interativos, que podem ser, por exemplo: acessar a obra do diretor do documentário, acessar a trilha sonora e ter acesso a outras informações sobre o tema, com sugestões de filmes e livros. Além disso, as audiências poderão enviar sua opinião sobre o documentário ou sugerir outras pautas para a produção do programa. Como dissemos, a grade de programação precisa ser flexibilizada, pois muda a duração de um programa com vários níveis de interatividade, assim como modifica as possibilidades de oferta publicitária que no mundo analógico eram
23 Com três colunas: espaço para o vídeo, o áudio e o texto. Também poderá ser oferecido em quatro colunas: dividido em espaço para o vídeo, áudio, texto e níveis interativos. 24 O uso de maior número de canais corresponde a redução da qualidade de imagem da TV digital e também a redução do uso das possibilidades interativas com as audiências. 25 A EBC foi criada em final de 2008 e herdou os funcionários, canais e equipamentos da antiga televisão pública federal conhecida como Radiobrás. 26 Os conteúdos e serviços digitais serão desenvolvidos para dois canais educativos, um canal de notícias 24 horas, um canal da cultura, um canal da TV Brasil com programação diversa, um canal da saúde, um canal da ciência e tecnologia e um canal da comunidade.

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exibidas no “momento do comercial”. Mais recentemente, essa oferta publicitária aparece também dentro da programação e dos diferentes formatos digitais, onde podem ser comercializadas roupas, bijuterias ou jóias, carros, alimentos ou móveis, etc., utilizados pelos principais personagens de uma série ou novela ou pelos famosos. Isso permite que as audiências busquem as ofertas publicitárias mais próximas a sua residência ou comprem diretamente desde o correio eletrônico via televisão. Ou seja, abre novos modelos de negócios para os radiodifusores, sejam eles de canais públicos ou privados. Nesse sentido, temos usado o conceito de módulos para tratar da TV digital interativa. Esses módulos ganharam nova dimensão a partir das experiências realizadas no laboratório Telemídia, localizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) sobre o uso dos recursos de interatividade e de multiprogramação. Em 2009 um grupo de investigadores em Informática e Comunicação27, sob a responsabilidade do pesquisador brasileiro Luis Fernando Gomes28 desenvolveu um projeto para produção de conteúdos digitais com uso de interatividade nos quatro subcanais de alta definição onde uma empresa de televisão pode oferecer distintos níveis interativos – em uma escala que vai da interatividade zero até a interatividade total – de um mesmo conteúdo ou formato digital em cada um dos quatro canais. De acordo com um dos autores do projeto, Alan Angelucci (2009), o programa experimental sobre turismo no Rio de Janeiro (Brasil) de 15 minutos caracteriza-se por ter um formato não-linear interativo; explora as principais características de interatividade e sincronismo intermídia possibilitada pelo Ginga-NCL; utiliza contextos para estruturar a aplicação e nós de alternativa, possibilitando que as audiências criem suas próprias linhas narrativas da história. Nessa visita turística ao Rio de Janeiro as audiências que possuem a TV digital com o middleware Ginga e por conseqüência canal de retorno, têm varias possibilidades de escolha: 1. Subcanal 1 - Podem escolher assistir uma história sem interatividade; 2. Subcanal 2 - Podem assistir uma história com apenas um recurso interativo (exemplo: conhecer a praia de Copacabana); 3. Subcanal 3 - Podem decidir “passear” pela praia de Copacabana e pelo Jardim Botânico; 4. Subcanal 4 - Podem “passear” por vários locais da cidade, cujos roteiros foram pré-estabelecidos pelo campo da produção e podem entrar em
27 Entre eles o jovem mestre Alan Angelucci, que traduziu este livro para o inglês. 28 Considerado um dos pais do middleware Ginga, tecnologia brasileira que permite o uso da interatividade, da interoperabilidade, da portabilidade e da mobilidade na televisão digital. it Esse middleware utiliza a linguagem declarativa (NCL), mais simples, e a linguagem procedural (Java), mais elaborada, para permitir o uso da interatividade na televisão, a partir de um canal de retorno, que garante a velocidade das imagens – algo que os computadores não permitem, e a qualidade dos conteúdos de áudio, vídeo, textos e dados.

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internet para obter mais informações sobre esses locais turísticos. Mas a televisão digital permite muito mais opções. Pode ser usada para acessar mails, ver diferentes ângulos na tela, sugerir pautas, entrevistados, avaliar programas, usar serviços públicos de saúde, educação a distância (EAD), agendar consultas médicas, checar processos e imposto de renda, realizar tele-medicina, ver saldos bancários, etc. Também é possível entrar em páginas web desde o próprio aparelho de TV usando o controle remoto como teclado (similar ao que fazemos quando mandamos mensagens de texto - SMS - nos celulares). Outro recurso que vem sendo desenvolvido no modelo japonês-brasileiro de televisão digital é a possibilidade de uso de alguns recursos interativos, como respostas em determinados programas de perguntas, diretamente para o celular sem ônus para as audiências. A proposta, segundo Luis Fernando Gomes, é permitir uma assistência coletiva de televisão digital com opção de uso de canal de retorno individualizado. Em termos de narrativas existem diferenças fundamentais na passagem da televisão analógica para a digital, como pode ser observado a seguir:
Quadro 2 – Diferenças entre a televisão analógica e a TVD

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Em um mundo de hipertelas Os franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2007) dizem que na era contemporânea vivemos uma inflação de telas - celulares, TV analógica ou digital, rádio digital, cinema, telões de festas, videogames, computadores, tablets, livros digitais, (como o Kindle ou o Ipad) - que tomam contam de nosso olhar durante o dia e a noite. Observando este mundo do olhar e das visualidades, é possível desenvolver conteúdos ficcionais ou jornalísticos para TV digital interativa e usar nos aparelhos de celulares desde que o conteúdo seja pensado para dispositivos móveis. Isso representa um tamanho similar de tela, a possibilidade de ser usado em qualquer lugar (em um parque, ônibus, metrô ou escola) e um nível similar de definição de imagem voltada para esse tipo específico de tela. Além disso, a temporalidade, ou seja, o tempo de duração do programa precisa seguir a característica da plataforma tecnológica: no caso de conteúdos específicos pensados para pequenas telas, os formatos são mais curtos, entre com duração entre 1 e 3 minutos, levando em consideração que essas pequenas plataformas podem ser levadas e assistidas em qualquer lugar, através de narrativas breves. Mas se a proposta de conteúdos é pensada para diferentes meios de comunicação digitais, com diferentes características, como ser fixo ou móvel, ou as diversas dimensões de telas (celulares, televisores portáteis ou televisores de 72 polegadas) é preciso levar em consideração que exigem diferentes espacialidades, temporalidades e mobilidades. Esses aparatos requerem outros tipos de linguagem, conteúdos e formatos audiovisuais, assim como uma outra relação com seus públicos e uso de diferenciados níveis de interatividade. Em termos de interatividade, é preciso levar em consideração que nem todas as pessoas se interessam em participar da programação; preferem simplesmente apreciar o programa e o formato selecionado. No caso da TV digital (TVD), os novos formatos audiovisuais já estão sendo desenvolvidos pensando as possibilidades interativas do público com a TVD que, no modelo nipo-brasileiro, é uma vantagem extra gratuita para as audiências. Pela primeira vez na história, as audiências – e não apenas o restrito grupo29 que possui computadores com internet em casa - poderá se relacionar de perto com o campo da produção, isto é, com aqueles que produzem e dirigem diariamente os diferentes programas de televisão. Além disso, através da televisão digital terrestre com interatividade têm a oportunidade de usar correio eletrônico, de usar internet, de produzir conteúdos audiovisuais digitais e disponibilizar no espaço virtual, algo que até então, estava restrito ao campo da produção. Através do canal de retorno acoplado interna ou externamente ao aparelho de TV, é possível utilizar diferentes níveis de interatividade, como já comentamos em
29 No Brasil, segundo dados do Conselho Gestor de internet (CGI) em 2009, apenas 27% da população tinha acesso a internet com banda larga em casa.

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artigos anteriores (Barbosa Filho e Castro, 2007, 2008, 2009, Castro e Fernandes, 2009). Entre os recursos interativos está a possibilidade de avaliar um programa enquanto está ocorrendo enviando mensagens à produção a partir do controle remoto; sugerir pautas ou entrevistados; baixar informações extras sobre o programa e seus participantes, etc. Além disso, é possível utilizar recursos interativos pensando a multiprogramação, onde cada um dos sub canais de uma mesma empresa de comunicação poderá apresentar diferentes (ou nenhum) níveis de interatividade com os públicos30. Também é possível encontrar interações mais simples, como as informações previamente disponíveis sobre jogadores e a situação de uma equipe durante uma partida do campeonato brasileiro, que já há alguns anos é disponibilizada aos assinantes dos canais de televisão por assinatura. Considerações Finais Talvez a diferença mais importante da passagem do sistema analógico para o digital em termos de televisão é que é possível mudar a origem da produção dos conteúdos audiovisuais, até então restrita a grandes grupos de comunicação, como Organizações Globo, SBT, Grupo Abril, Record, entre outros, no caso brasileiro. A produção de conteúdos audiovisuais digitais poderá ser feita por profissionais de Comunicação, por produtores independentes ou mesmo por profissionais de diferentes áreas, como Design, Educação ou Informática em conjunto, por exemplo. Eu acredito que aí resida o caráter revolucionário e profundamente democrático das mídias digitais, pois as audiências e movimentos sociais têm a possibilidade de sair da produção de comunicação de caráter alternativo e contrahegemônico para oferecer – de maneira mais equilibrada - outros pontos de vista sobre a realidade e o mundo em tempo real (ou gravado) através de diferentes plataformas tecnológicas conectadas ao mundo virtual. É neste sentido que pode se tornar realidade o diálogo entre as diferentes ciências e a comunicação digital para construir a inclusão social no Brasil e nos países da Região, estimulando a emergente indústria de conteúdos digitais interativos. Trata-se de um processo em construção, que exige reflexão, abertura para novas teorias, formação profissional, capacitação atualização dos currículos universitários e dos professores, novos modelos de negocio, investimentos, assim como fomento a estudos transdisciplinares em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I). Temas que exigem um longo debate, mas já começaram a ser discutidos dentro do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) e na academia e também no mercado.
30 Projeto deste tipo vem sendo desenvolvido desde metade de 2009 no laboratório do professor Luis Fernando Gomes, localizado na PUC/RJ.

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Referências Bibliográficas e Sites ANGELUCI, Alan e CASTRO, Cosette. A Práxis na Televisão Digital: o despertar do hipertelejornalista. Artigo apresentado no XXX Congresso da Intercom, Curitiba – PR – Brasil. Disponível em http://www.intercom.org. br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-1593-1.pdf. Acesso em 10 de janeiro de 2010. ANGELUCI, Alan, SOARES, Luis Fernando e AZEVEDO, Roberto. O uso da linguagem declarativa do Ginga-NCL na construção de conteúdos audiovisuais interativos: a experiência do “Roteiros do Dia”. Artigo apresentado no 1º Simpósio Internacional de Televisão Digital (SIMTVD) – 18 a 20 de novembro de 2009, Bauru/SP- Brasil. Disponível http://www2.faac.unesp. br/pesquisa/lecotec/eventos/simtvd/anais/ANGELUCI;%20SOARES;%20 AZEVEDO%20-%20O%20uso%20da%20linguagem%20declarativa%20 do%20ginga-ncl%20na%20constru%e7%e3o%20de%20conte%fados%20 %20(91-120).pdf. Acesso em 15 de março de 2010. APPADURAI, Arjun. “Disjunção e diferença na economia cultural global”. In: FEATHERSTONE, Mike. (Org.). Cultura global: nacionalismo, globalização e modernidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1990. BARBOSA Fº, André, CASTRO, Cosette e TOME, Takashi. Mídias Digitais, Convergência Tecnológica e Inclusão Social. São Paulo: Paulinas, 2005. BARBOSA FILHO, André, CASTRO, Cosette (2008). Comunicação Digital- educação, tecnologia e novos comportamentos. São Paulo: Ed. Paulinas, 2008. CASTRO, Cosette, FEITOSA, Deyse y VALENTE, Vania. Interoperabilidade e Interatividade da TV Digital na Construção da Sociedade da Colaboração. Artigo apresentado no Congresso da Intercom 2009. Disponível em http://www. intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-2594-1.pdf . Acesso em 20 de janeiro de 2010, (2009c). FREITAS, Cristiane e CASTRO, Cosette. Narrativas Audiovisuais para Múltiplas Plataformas. Artigo apresentado no XXX Congresso da Intercom, Curitiba-PR, Brasil, 2009. Disponível em http://www.intercom.org.br/papers/ nacionais/2009/resumos/R4-2914-1.pdf. Acesso em 05 janeiro de 2010. (2009e). FEATHERSTONE, Mike. (Org.). Cultura global: nacionalismo, globalização e modernidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1990. _____. O desmanche da cultura: globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo: Studio Nobel, 1995.
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1ª. PARTE TENDÊNCIAS ECONÔMICAS

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CAPÍTULO 1 A hora e a vez dos países-baleias
Marcio Pochmann 1

Conjunturas prévias O aparecimento de novos elementos reestruturadores do capitalismo na passagem do século 20 para o 21 transforma profundamente a evolução do sistema econômico mundial. As mais recentes alterações na Divisão Internacional do Trabalho geram oportunidades inéditas às economias periféricas de superação da condição de subdesenvolvimento, especialmente nos países que comportam grandes escalas de produção e consumo em ampla dimensão geográfica e populacional, como Brasil, Índia e China. Em vez da anterior identificação a respeito da rápida expansão econômica em países de menor dimensão territorial e populacional, denominados de tigres asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong), assiste-se à emergência mundial dos países-baleias. Ainda que apresentem renda por habitante baixa ou intermediária em posição mundial, os países-baleias rapidamente se reposicionam no mundo frente à transição acelerada da antiga condição de sociedades agrárias para crescentemente urbano-industrial. A elevação do nível de emprego urbano da mão-de-obra e a retirada recente de parcelas significativas da população da situação de pobreza e miséria indicam a importância da escala do mercado interno de consumo relacionado ao forte ritmo de crescimento econômico. Com isso, os países-baleias não somente passam a ocupar maior espaço na composição do Produto Interno Bruto global e comércio internacional, como respondem crescentemente pela maior sustentação da dinâmica econômica mundial. Esse aspecto, em especial, segue tratado em duas partes distintas, porém articuladas entre si. A primeira destaca a recente ascensão dos países-baleias na Divisão Internacional do Trabalho, enquanto a segunda parte trata da atualidade das trajetórias nacionais desiguais em termos da expansão econômica e da repartição dos seus frutos para o conjunto de sua população. Emergência dos países-baleias na Divisão Internacional do Trabalho A passagem do século 20 para o 21 trouxe consigo dois grandes eixos reestruturadores da Divisão Internacional do Trabalho. Por um lado, o movimento global de
1. Professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

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A hora e a vez dos países-baleias

reorganização do capital acompanhado de sinais crescentes da decadência relativa dos Estados Unidos impôs o deslocamento do antigo centro dinâmico capitalista unipolar para a multipolarização geoeconômica mundial (Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Índia, China e Brasil). Como a crise internacional de 2008 segue ainda sem resolução definitiva nos países ricos e intercalada por avanço concomitante da revolução tecnológica e do segundo ciclo de industrialização tardia na Ásia, a dinâmica econômica mundial prevalece extremamente desigual e, por que não dizer, combinada. Economias desenvolvidas submetidas ao quadro de semiestagnação, enquanto emerge ascensão das relações econômicas e comerciais Sul-Sul. O comportamento econômico entre nações tende a se agravar ainda mais quando se consideram as medidas adotadas mais recentemente nos países centrais, fazendo crer que a crise internacional reproduz traços similares aos verificados anteriormente na armadilha japonesa dos anos 1990, quando predominou o baixo dinamismo no consumo das famílias e a postergação dos investimentos produtivos. O resultado aponta para o risco permanente da deflação dos preços e da desvalorização cambial competitiva em busca de maior ampliação dos mercados externos por parte dos países ricos. Por força disso, os países não desenvolvidos tendem a assumir crescente responsabilidade pela dinâmica econômica mundial, indicando, pela primeira vez desde a Depressão de 1929, que a recuperação da produção global segue estimulada fundamentalmente pelas regiões periféricas, especialmente nos países de grandes escalas produtivas, como China, Índia e Brasil. Ademais, percebe-se também o predomínio na convergência de vantagens competitivas da expansão industrial a se concentrar em alguns países considerados até então pobres, quando não no setor da agroindústria. Por outro lado, nota-se que a adoção de distintos modelos de ajustes nos países a partir da crise global indica, em geral, evolução diferenciada na trajetória futura dos países-baleias. Dependendo das ações nacionais em torno da aceitação ou não da valorização de suas moedas e do aprofundamento da heterogeneidade estrutural das economias periféricas, pode prevalecer decréscimo nas vantagens comparativas construídas no setor de manufatura e serviços de maior valor agregado do que nos segmentos primário-exportadores. Neste caso, observase que mesmo persistindo a expansão econômica nacional, o diferencial de produtividade doméstica em relação às nações ricas não diminui necessariamente, o que pode gerar, por consequência, o risco crescente do aprisionamento das estruturas de produção e de exportações primarizadas, com baixa intensidade ocupacional e de remuneração mais elevada. Nos países da União Europeia, percebe-se, por exemplo, que a reprodução de tradicionais programas de ajuste fiscal produz maior pressão na elevação das exportações frente ao desânimo do consumo doméstico. A redução no gasto
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público impõe, por consequência, prejuízos aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que favorece a redução de custos no setor privado voltado às exportações, geralmente de bens e serviços de maior valor agregado. Nos Estados Unidos, principalmente, não tem havido medidas substanciais de ajuste fiscal, embora a pressão por elevação das exportações de bens e serviços de maior valor agregado seja crescente. Como o consumo interno permanece contido, não obstante as baixas taxas de juros e elevada liquidez em dólares, cabe ao governo a defesa das medidas de desvalorização do dólar para tornar mais competitivos os produtos estadunidenses. Frente a isso, a reação dos países-baleias não tem sido convergente, necessariamente. Pela perspectiva chinesa, por exemplo, percebe-se a crescente correlação na expansão produtiva e das exportações de manufatura com a elevação das importações de produtos primários, o que permitiu multiplicar por quase 5 vezes sua presença no comércio externo entre 2000 e 2009. A redução dos preços de bens industriais chineses tem permitindo ocupar novos espaços comerciais adicionais, com forte ênfase na desvalorização de sua moeda e pressão inflacionária doméstica. No caso brasileiro, nota-se que a valorização de sua moeda nacional estanca a alta dos preços internos, mas impõe o aprofundamento da heterogeneidade de sua estrutura produtiva, com decréscimo relativo na vantagem comparativa da manufatura e serviços de maior valor agregado em relação ao setor primárioexportador. Como resultado, constata-se que em relação à China, o Brasil conseguiu multiplicar as exportações por quase três vezes entre 2005 e 2009 com base na expansão relativa da presença de produtos primários (minério de ferro, soja, madeira, entre outros), que passou de 65% para 79,2% do total da pauta do comércio externo. A Índia, por sua vez, segue o esforço contínuo pelo caminho exportador – especialmente nos serviços –, frente à persistência do déficit na balança comercial de bens. Em 2009, por exemplo, a Índia respondeu por 2,8% das exportações mundiais de serviços, contra 1,1% em 2000. No mesmo período de tempo, a região latino-americana e caribenha reduziu sua participação relativa nas exportações mundiais de serviços de 3,2% (2000) para 2,8% (2009). Resumidamente, a emergência dos países-baleia altera a Divisão Internacional do Trabalho neste início do século 21, com redução do peso relativo dos países do centro do capitalismo mundial. Apesar disso, a trajetória dos países-baleia segue desigual e combinada, com distintos impactos internos em termos de combinação dos desempenhos econômicos e sociais, conforme tratado a seguir. Distintas trajetórias socioeconômicas Uma das principais novidades surgidas no contexto de evolução da crise global de 2008 encontra-se justamente associada à recuperação econômica mundial
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atual, cada vez mais determinada pela dinâmica dos países não desenvolvidos. O fato de nações como a China, Brasil e Índia responderem por mais da metade do crescimento econômico após o quadro recessivo mundial de 2008 e 2009 acontece pela primeira vez desde a Grande Depressão de 1929. Em contrapartida, o conjunto das nações desenvolvidas parece, cada vez mais, prisioneiro do ciclo vicioso originado pela nova reprodução da armadilha japonesa, constituída desde 1991 por força do tipo de crise que se abateu naquele país. Ou seja, a combinação da anorexia do consumo familiar com a retenção e adiamento dos investimentos das empresas, acrescido do desajuste fiscal e de medidas ortodoxas de contenção do gasto social. O resultado disso reflete-se na deterioração da confiança nacional potencializada pelo risco da deflação em meio à onda das desvalorizações cambiais competitivas e, infelizmente, o ressurgimento da marcha protecionista. Na sequência do desemprego em alta, ocorre a elevação nas taxas de pobreza e de suicídios entre os países desenvolvidos. Não parece haver dúvidas de que o abandono atual pelos países ricos da convergência das políticas anticíclicas adotadas na crise de 2008 aponta para um período relativamente longo de convivência com o baixo dinamismo econômico e piora na distribuição de renda. Ademais, a prevalência de enormes assimetrias de poder entre a força e os interesses das grandes corporações transnacionais e o apequenamento das ações dos Estados nacionais, aliado ao contínuo esvaziamento das instituições multilaterais, tende a tornar mais distante a coordenação urgente e necessária da governança mundial. Tal como na Grande Depressão de 1873 a 1896, que acompanhada pelo circuito da industrialização retardatária ocorrido na Alemanha e nos Estados Unidos permitiu surgir – meio século depois – o deslocamento do centro dinâmico mundial assentado na hegemonia inglesa, percebe-se hoje, guardada a devida proporção, o aparecimento de novas polaridades geoeconômicas no desenvolvimento global. A China, Brasil e Índia são crescentemente apontados como nações portadoras de futuro e de grande potencial necessário para assumir maior centralidade na dinâmica do desenvolvimento mundial. Por conta disso, torna-se interessante procurar compreender como o comportamento do crescimento econômico e do padrão de distribuição de renda, especialmente na China e Brasil, que rapidamente assumem referência de como o novo mundo poderá se mover, com maior ou menor expansão e ampliada ou contida desigualdade na repartição da renda. Ainda que se trate de países muito diferentes, Brasil e China apresentam tendências recentes distintas em relação ao crescimento econômico e à repartição da renda nacional entre seus habitantes.

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Gráfico 1: Evolução do Índice de Gini no Brasil e China (1995=100)
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1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Brasil

China

Fonte: China Statistical Yearbook e IBGE (elaboração própria); estimativa para 2010

No Brasil, por exemplo, observa-se que para cada 1 ponto percentual de expansão da economia, a China consegue crescer 2,5 pontos percentuais a mais. Entre 1995 e 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi multiplicado por 1,6 vezes, enquanto o PIB chinês foi multiplicado por 3,9 vezes. O modelo veloz de crescimento econômico da China praticamente não se alterou entre os anos de 1995 a 2003 e de 2004 a 2010 (crescimento médio anual de 10%), ao contrário do Brasil, que registrou expansão média anual de 2,1% de 1995 a 2003 e de 4,5% de 2004 a 2010. Por outro lado, percebe-se divergência importante em relação ao padrão de desigualdade na repartição de renda entre os brasileiros e chineses. Entre 1995 e 2010, o índice de Gini aumentou 21% na China, enquanto no Brasil caiu 14%. Ou seja, para cada 1 ponto percentual de queda no índice de Gini brasileiro, a China eleva em 1,4 ponto percentual o grau de desigualdade na renda. Interessante notar ainda que de 1995 a 2001, o comportamento no índice de Gini se manteve relativamente inalterado, apesar das oscilações anuais, de 2,6% para mais na China e de 0,83% para menos no Brasil. Todavia, constata-se que a partir daí houve uma grande diferenciação na trajetória da repartição da renda na China e no Brasil. Com o crescimento econômico maior no Brasil, o comportamento do índice de Gini tornou-se mais decrescente (-12,2%), ao passo que a China, que manteve inalterada a trajetória de alta expansão do PIB, passou a registrar ampliado aumento no grau de desigualdade na repartição pessoal da renda (+17,9%). Em síntese, nota-se que desde 2004 o PIB brasileiro tem crescido, como média anual, quase a metade do ritmo de aumento do Produto Interno Bruto chinês, ao contrário do período anterior (1995 e 2003), quando a expansão
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econômica brasileira representava somente 25% do crescimento do PIB chinês. Com a maior expansão das atividades da economia brasileira no período recente houve concomitantemente o aprofundamento da queda no grau de desigualdade da renda pessoal, diferentemente da situação chinesa, com forte piora na repartição do conjunto dos rendimentos dos seus habitantes. Essas diferenças tornam-se importantes e devem ser ressaltadas, especialmente quando se avaliam as novas trajetórias mundiais possíveis a partir da sequência da crise nos países desenvolvidos iniciada em 2008. Não obstante o menor ritmo de crescimento econômico, o Brasil revela melhor trajetória de repartição da renda em relação ao desempenho chinês recente. Considerações finais Para os próximos anos, a literatura especializada deverá dedicar-se cada vez mais a tratar e entender a emergência da expansão econômica, política, social, militar e cultural de países de grande dimensão territorial e populacional. A hora dos países-baleias chegou, mesmo com as condições históricas herdadas do subdesenvolvimento (enorme heterogeneidade estrutural e baixa renda por habitante). Tudo isso torna ainda mais relevante a situação de países como Brasil, China e Índia, em especial por seus esforços nacionais de participarem dos novos pólos de desenvolvimento mundial, o que altera profundamente a Divisão Internacional do Trabalho. Dessa forma, a antiga hegemonia unipolar exercida pelos Estados Unidos tende a conceder lugar à nova dinâmica mundial estimulada fortemente pelas relações Sul-Sul, responsável atualmente por quase a metade de todo o comercio mundial. Não obstante o fortalecimento dos países-baleia, observa-se trajetória distinta em relação à combinação do crescimento econômico e de sua repartição no interior da população. O Brasil apesar de crescer bem menos que a China consegue reduzir suas brutais desigualdades, ao contrário da realidade chinesa de ampliação recente da concentração pessoal da renda Referências Bibliográficas ACIOLY, L. & LEÃO, R. (2010) A nova configuração do sistema político econômico global. Brasília: Ipea. ANGUIANO, E. (2010) Evolución reciente de las relaciones económicas entre La República popular China y América Latina y Caribe. Caracas: SELA.
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2ª. PARTE TENDÊNCIAS NAS TELECOMUNICAÇÕES

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CAPÍTULO 1 Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?
Marcio Wohlers1

Diante do alto poder de mercado dos chamados “gigantes da internet”, como o Google, Yahoo, e-Bay e outros, e em face do alto tamanho dos arquivos transacionados pela rede, o consenso praticamente absoluto quanto à neutralidade de redes (NN) passou a ser a questionado em vários países. O pressuposto de que todos os pacotes de bytes (datagramas) não sofreriam qualquer espécie de discriminação – de natureza pessoal, política, ideológica e econômica – tornou-se objeto de amplo debate. O comércio eletrônico de serviços cujos arquivos são de grande volume, como os de cinema 3D, encabeça a pauta de discussões. Seguem-no os sites de jogos on-line, que mantêm centenas de usuários permanentemente conectados, e as aplicações peer-to-peer (P2P), como o sistema de compartilhamento BitTorrent – todos exigem grande quantidade de banda passante. De fato, o protocolo BitTorrent continua sendo o mais utilizado no mundo para tráfego P2P, sendo que na América do Norte 53,3% do tráfego de entrada (upstream) ao longo de um dia médio são feitos por P2P. Notórios defensores da internet livre e aberta, amplamente desregulamentada, sem interferência de nenhuma entidade pública, passam agora a exigir que o governo ou os órgãos reguladores imponham normas e regulamentem o funcionamento da rede mundial, garantindo, particularmente, a neutralidade de redes. É simples entender essa mudança de postura. Ora, diante da necessidade de viabilizar o tráfego para qualquer tipo de usuário, incluindo todos os envolvidos (provedores e usuários de informação) em transações eletrônicas e face à relativa escassez de largura de banda, os operadores de rede e fornecedores de conectividade à internet efetuam o gerenciamento do tráfego e acabam reduzindo a qualidade do serviço QoS (Quality of Service – sigla em inglês). Este fato acontece geralmente na última milha, ou seja, na conexão entre o usuário final e o servidor de tráfego que distribui os dados para esse usuário. Em outras palavras, as operadoras das plataformas de rede e de conectividade, ao efetuarem o “gerenciamento de tráfego”, priorizam a transferência de determinados arquivos em detrimento de uma conexão mais rápida em outros
1 Doutor em economia pela Universidade de Campinas (Unicamp), onde é professor licenciado com especialização na área da economia e inovação das telecomunicações. Foi assessor especial do Ministério das Comunicações (2003-2005) e pesquisador da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal - Nações Unidas), no Programa Sociedade da Informação (Santiago do Chile), entre 2005 e 2007, e desenvolveu pesquisas na área do impacto regulatório da convergência tecnológica nas telecomunicações. Integra o Comitê Científico da European Communications Policy Research (EuroCPR), rede europeia de pesquisadores e reguladores de telecomunicações.

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Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

pontos da rede e da qualidade de transmissões de dados mais complexas, como a VoIP (voz sobre IP), que chegam ser encerradas abruptamente, ou por decisão da operadora da plataforma, ou por alguma instabilidade da própria internet. Definitivamente, falta transparência nos procedimentos adotados pelas operadoras e nas responsabilidades sobre o desempenho da rede. Usuários e consumidores interconectados à internet estão às escuras. A questão da neutralidade de redes também conduz a um debate sobre a evolução da concorrência e da inovação no âmbito da internet, que podem ser vistos como os dois lados da mesma moeda. De um, a garantia (ou não) da neutralidade de rede é uma interferência nas formas de concorrência e inovação na rede. De outro, maiores níveis e incentivos à inovação e o reforço do ambiente competitivo também influenciam a neutralidade de redes. Aspectos da inovação na internet A fusão das telecomunicações com internet, a partir da década de XX, produziu mudanças radicais entre o mundo das “velhas telecomunicações” e o das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação). Devido à ampliação da convergência tecnológica e econômica no âmbito das TICs e à tendência da oferta generalizada de conexões de banda larga, está ocorrendo uma movimentação das fronteiras das empresas, dos mercados e de setores das próprias TICs. Uma das maneiras mais apropriadas para representar essas alterações é por intermédio de um modelo de camadas, proposto por Martim Fransman (2004 e 2007). O modelo de Fransman é composto por quatro camadas, sendo que a camada de cima está sempre apoiada funcionalmente na de baixo. Na camada 1, inferior, estão representados os produtores dos chamados elementos de rede, ou seja, a produção de hardware e software que são utilizados para implementar as redes de telecomunicações. Nesta camada situa-se a produção de roteadores, computadores, chips, software básicos e aplicados etc. A camada dois, por sua vez, apresenta as diferentes redes de telecomunicações formadas pelos diferentes tipos de HW e SW sejam por fios, cabos e fibras óticas, ou por sistemas sem fio, como a segunda, terceira e quarta gerações de transmissão de dados para telefonia celular ou outras transmissões de dados. Nesta camada, enfim, estão presentes os operadores das redes de telecomunicações e das redes de televisão aberta ou fechada. Em seguida, há um elemento de conectividade, entre as camadas 2 e 3, onde operam os protocolos TCP-IP que propiciam a conexão ao mundo da internet. Por sua vez, na camada 3 situam-se os denominados Internet Content Applications Providers (ICAP), os quais providenciam middleware, navegadores, aplicativos e milhares de ofertas dos mais variados tipos de conteúdo de ordem
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pessoal, comercial e governamental. Finalmente, na camada 4 está representado o consumo das informações, sendo que, na era da web 2.0, o consumidor é, também, um produtor de informações nas redes sociais, nos blogs, nos videoblogs e em outros meios de operação do consumidor/produtor de informações. O modelo de inovação visto pela estrutura de camadas de Fransman requer que, na prática, cada uma dessas camadas seja lida de forma diferente. A ideia é que dentro de cada camada existam produtores e usuários de inovações que estejam em permanente contato para que a inovação seja customizada de acordo com as exigências do usuário. Essa mesma ideia vale para as interações (contato permanente) entre os agentes de cada uma das camadas, ou seja, agentes da camada 1 interagem com os da camada 2, os da camada 2 com os da 3, e os da 3 com os da 4. E ainda há que se considerar os demais pares de interação produtorusuário de inovação: (1-3), (1-4), (2-4) e, finalmente, (3-1). A neutralidade de rede (conectividade sem discriminação) nesse modelo está situada entre as camadas 2 e 3, onde operam os protocolos TCP-IP. O provedor da conectividade necessariamente deve estar apoiado em uma rede de telecomunicações, a qual, como vimos acima, deveria ser igualmente neutra nos aspectos tecnológicos, econômicos e também político-ideológicos de transmissão de informações. Ou seja, neutralidade equivale à inexistência de qualquer filtro em relação à fluidez da informação. Aspectos da concorrência na internet O comércio na internet apresenta fatores que tornam a concorrência muito acirrada, sobretudo no setor de eletrônicos. Dois fatores, a desintermediação e a diminuição dos custos de transação, merecem destaque. A desintermediação decorre da eliminação dos agentes intermediários que aumentam a margem global de custos entre produtores e consumidores finais. À medida que a rede torna possível a transação direta entre produtores e consumidores, o grau de concorrência entre os produtores aumenta. Esse fenômeno atinge fortemente o segmento de varejo, mas seu impacto depende do tipo de setor e de produtos e serviços envolvidos. Produtos mais padronizados, como aparelhos eletroeletrônicos, livros, CDs, computadores e periféricos, têm um potencial de desintermediação relativamente alto. Outros produtos não tão padronizados, portanto, mais personalizados, como vestuário fino, relógios, jóias etc., usualmente requerem um contato mais direto e pessoal entre o vendedor e o consumidor. Nesses casos, o potencial de desintermediação é menor. Os custos de transação, por sua vez, englobam os custos de toda a efetivação do negócio. Custo de uma seleção adequada das partes da transação (vendedor e comprador), custo de elaboração do contrato e ainda custos diversos, incluindo
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ainda os riscos de não cumprimento dos termos acordados. Na internet, os custos de transação tendem a cair devido à maior transparência e acesso às informações sobre as partes, entre outros motivos. Além desses fatores positivos, ainda existem outras características da internet que se referem ao aumento da escala e escopo na produção e distribuição das informações e o forte papel das externalidades de redes. Essas características fazem ampliar intensamente o mercado virtual, abrindo espaço para novos usuários e agentes provedores de informação. Ou seja, contribuem para a ampliação da concorrência na internet. No entanto, é também necessário ressaltar os fatores que podem dificultar a concorrência: o efeito lock-in, ou seja, o aprisionamento e custos de mudança impostos ao consumidor diante de uma possível troca de padrão (como o referente ao navegador da Microsoft, por exemplo) e ainda a falta de aprendizagem, seja das empresas, seja dos consumidores, para o aproveitamento das crescentes oportunidades do mundo digital. No entanto, com o desenvolvimento da rede, começaram a emergir usuários com grande poder de mercado, diminuindo a concorrência na rede. Como veremos mais adiante, esses grandes usuários estão influindo fortemente no problema da neutralidade de redes. Experiências internacionais e brasileira A maior parte das discussões sobre neutralidade de rede (NN) remete diretamente ao papel central dos organismos reguladores das telecomunicações, os quais devem ter capacidade técnica, normativa-legislativa, sancionadora (punição), de modo a garantir o principio da NN. Em várias partes do mundo, a discussão sobre essa nova função dos reguladores já está acontecendo. Nos Estados Unidos, a discussão sobre a neutralidade tem ampla abrangência. Envolve especialistas, imprensa geral e especializada e, particularmente, o órgão regulador central norte-americano, o FCC (Federal Communications Commission). Um dos primeiros e mais importante fato regulatório referente à NN refere-se à empresa Comcast, que utiliza cabos coaxiais para distribuir TV por assinatura e também para prover o acesso aos serviços por meio de banda larga. Em meados da presente década, essa operadora passou a filtrar (impedir) aplicações que exigem grande quantidade de dados, como o aplicativo P2P BitTorrent. O caso foi parar nas mãos do órgão regulador FCC, que considerou ilegal o procedimento da Comcast e determinou seu imediato cancelamento. A Comcast recorreu da sentença e ganhou. Criou-se então um vácuo regulatório que permanece até hoje. Recentemente, a grande empresa de telecomunicações Verizon, por meio de sua unidade de telefonia celular, celebrou um acordo com o Google segundo
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o qual todo o conteúdo desse gigante da internet teria privilégios em termos de quantidade de banda passante. Por sua vez, a Verizon teria acesso privilegiado ao conteúdo veiculado pelo Google, no que se refere à velocidade de download de filmes, videoblogs, como o YouTube e outros aplicativos. Somente os assinantes da Verizon móvel desfrutariam dessa regalia. Na prática, é uma quebra da NN, uma vez que não há mais isonomia para todos os usuários. Vale ressaltar que a FCC lançou, em 2009, o NPRM (Notice of Proposed Rulemaking in the Matter of Preserving the Open Internet), a fim de coletar opiniões de todos interessados, mas por enquanto não há notícia de um novo marco legal. Da mesma forma, a União Europeia recentemente também lançou uma consulta pública contendo várias perguntas sobre o tema. Elaborada pela Comissão Europeia (Information Society and Media Directorate-General) com o propósito de ampliar o debate sobre a internet livre e a neutralidade de rede, a lista de 14 macroperguntas, abrangeu vários temas: a internet aberta e o princípio end-to-end; o gerenciamento e a discriminação do tráfego; estrutura de mercado; qualidade de serviço (QoS) e os consumidores; e, ainda, dimensões políticas, culturais e sociais. A consulta quer medir a extensão e a gravidade dos problemas, saber como essas questões afetam os cidadãos, de que maneira poderia se dar algum controle e quais seriam as possíveis soluções para alguns impasses diante da evolução tecnológica recente. No Chile, por meio da Lei 20.453, promulgada em 18 de agosto de 2010, foi institucionalizado o princípio da neutralidade na rede para os consumidores e usuários da internet. Um dos artigos da lei é claro e contundente: os operadores de internet são obrigados a “não bloquearem, interferirem, discriminarem, impedirem nem restringirem arbitrariamente o direito de qualquer usuário da internet a utilizar, enviar, receber ou oferecer qualquer conteúdo, aplicação ou serviço legal”. No entanto, as empresas operadoras de redes de telecomunicações podem gerenciar seu tráfego e suas redes sempre que não afetem a livre concorrência e haja transparência nessa medida. No Brasil, existem discussões esparsas sobre o tema em fóruns empresarias e em artigos na imprensa especializada. A Anatel, em seu Plano de Melhoria Regulatória PGR, colocou a questão da NN como uma medida a ser discutida no médio prazo. Discussão dos resultados O debate entre intelectuais especializados no tema, em particular os norteamericanos, é muito intenso. O professor Timothy Wu2, especializado em
3. WU, Tim, entrevista ao documentário Net At Risk, disponível em: http://www.pbs.org/moyers/moyersonamerica/net/watch.html , acessado em 20/10/2010

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telecomunicações, é um dos intelectuais norte-americanos que lideram a defesa da NN, abordando o tema de modo transversal. Para ele, as operadoras querem cobrar duas vezes: uma para os grandes provedores de informação, como Google e Yahoo, e outra para os consumidores que necessitam de mais velocidade. Entretanto, estes já pagam a taxa usual para ter acesso à internet. Isso pode resultar em discriminação. Na opinião de Wu , a internet tem que funcionar como as estradas, os portos ou a rede de energia elétrica. Todos devem poder ingressar no sistema nas mesmas condições (pagando, direta ou indiretamente, apenas uma taxa de adesão), sem discriminação de tamanho, de tipo de negócio etc. Quem faz um contraponto direto a Wu é Robert Frieden. Ele concorda que a internet nasceu livre e assim deve permanecer. Não obstante, ressalva que o custo da internet não era percebido. Somente agora, diante do problema da neutralidade de rede, a sociedade se deu conta de que não apenas há um custo, mas que é muito alto. No Brasil, os defensores da NN em geral se referem a questões de ordem política e ideológica. Para Carlos Afonso, diretor de Planejamento da Rede de Informações para o Terceiro Setor, por exemplo, “um elemento central para a neutralidade da rede é não haver censura nem interferência no tráfego de conteúdo, seja este qual for”. Afonso também atribui a NN a uma questão regulatória: “Não se pode penalizar ninguém por ‘usar demais’ sua conexão. Se um fornecedor de conteúdo tem grande sucesso e contratou uma banda de determinada capacidade com uma operadora, é responsabilidade da operadora garantir essa banda, só isso. Não interessa à operadora se a banda contratada vai ser efetivamente utilizada ou não. Se for, a operadora que se prepare para isso e honre o contrato”. Generalizando, o que está em questão é a democracia na internet, cuja governança, desde o princípio, foi instituída para tratar todo “cidadão” conectado de forma isonômica e igualitária. Essa democracia deveria ser garantida pelos reguladores devidamente dotados de poderes para essa nova tarefa. Ocorre que a quantidade de tráfego na rede é abissal e implica uma necessidade urgente de modernização (instalação de fibras ópticas em várias partes da rede) para atender igualmente aos usuários, ou seja, para manter o princípio da neutralidade de rede (NN). Mas a quem cabe a responsabilidade do financiamento desse custo (investimento)? Aos fornecedores de informação? Aos proprietários de rede e conectividade? Aos usuários? Cada um deles tem sua própria perspectiva e benefício, ou, no caso das empresas, seu modelo de negócio voltado a ampliar as respectivas taxas de lucro. Mas quem financiaria a melhoria da rede que traz benefício a todos? Ou seja, o problema não é de regulação, é de economia. Uma vez solucionado o problema econômico, a democracia volta a ser soberana. Ou seja, estamos diante de ambos os problemas, sendo que o econômico precede o democrático. Uma solução pertinente para o problema econômico foi proposta há
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alguns anos pelos autores franceses Jean-Charles Rochet e Jean Tirole Jean3 . Economistas de renome internacional, os autores utilizam o enfoque denominado two sided markets (mercado de dois lados). Alguns exemplos de mercados desse tipo são clássicos, como as plataformas para o uso de cartões de crédito. As plataformas interligam lojistas, de um lado, e consumidores, de outro. Outros exemplos podem ser destacados, como o das redes telefônicas (plataformas), que interconectam quem faz a ligação com quem recebe. O mesmo caso é exemplificado por plataformas “físicas” de jornais, que interligam os dois lados do mercado, o anunciante e o comprador. Enfim, no mercado de dois lados, uma determinada plataforma tecnológica viabiliza o contato entre provedores e usuários interessados em efetuar transações. Na internet, teríamos o usuário final da web, eventualmente comprador de um serviço ou produto, e o provedor de informação (conteúdo) que também é um usuário final da web, ambos interligados pela plataforma que opera os protocolos TCP-IP. Ambos pagam um custo fixo para aderirem à rede, como se pertencessem a um “clube” que cobra uma taxa fixa de adesão e também uma taxa variável proporcional ao seu uso. Voltando ao exemplo acima citado (rede telefônica convencional), o usuário paga para ter o direito de acesso (taxa fixa para ser “membro” da comunidade telefônica, tendo direito a um número telefônico), sendo que a operadora de telefonia também tem um custo fixo, pois mantêm um cabo telefônico dedicado a esse usuário. Ambos pagam a respectiva taxa variável, proporcional aos minutos efetivamente utilizados durante uma ligação. No caso das operadoras, o custo de viabilizar a conversação é o da manutenção de um canal de comunicação para a ligação. Os autores afirmam que é suficiente mudar as taxas variáveis em cada transação (mantendo constante a somatória dessas taxas variáveis) para que a plataforma, em si, não apenas pague todos seus custos (os fixos e os variáveis, por transação), mas também obtenha um lucro extraordinário. A internet, igualmente ressaltada acima, também opera como um mercado de dois lados. Os mesmos princípios do mercado de dois lados são aplicados, mas sob premissas diferentes. Essas premissas incluem a informação assimétrica entre ambos os lados do mercado e a não internalização de todos os benefícios gerados pelas externalidades de redes – o princípio que valoriza as redes maiores em detrimento das menores4 . Vale ressaltar que esses preços são de natureza diferente daqueles cobrados atualmente pelos provedores de internet. A demonstração dos professores conduz à conclusão de que, mesmo na
4. ROCHET, Jean-Charles e TIROLE, Jean. “Two-Sided Markets: An Overview”. IDEI Working Papers, 2004. Disponível em <https://noppa.tkk.fi/noppa/kurssi/s-38.4043/luennot/S-38_4043_pre-exam_article. pdf>. Acesso em 1º de setembro de 2010. 5. Um exemplo simples refere-se a empresas aéreas. Mantidas as tarifas constantes, uma companhia maior que oferece mais origens e destinos apresenta maior valor superior ao usuário do que uma operadora menor, que oferece um número menor de origem e destinos..

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ausência de custos fixos e nenhuma soma monetária envolvida entre usuários e provedores de informação, basta conservar constante a somatória dos custos variáveis (a) para gerar resultados úteis às partes envolvidas (usuários, provedores e proprietários de rede e de conectividade). Para tanto, basta mudar a composição dos custos variáveis ap e au, sendo a = ap + au. Ao alterar simplesmente a composição dos custos variáveis (ap e au), onde um menor custo variável de um lado implica uma diminuição do outro e vice-versa, a formulação de Charles Rochet e Jean Tirole Jean (pág. 22) conclui que é possível remunerar todos os custos da plataforma e ainda gerar um lucro extraordinário a ser devidamente aplicado para financiar a melhoria das redes (substituindo as redes antigas por fibra óptica, por exemplo). Em resumo, é possível visualizar dois cenários: um é o tendencial (CT), onde é proposto tão somente o empowerment dos reguladores para garantir efetivamente a manutenção da NN. No entanto, pode-se inferir que tal posição conduziria a uma lenta, mas crescente fragmentação da NN. Outro cenário é o de renovação (CR), mais otimista, onde haveria uma nova repactuação do comportamento entre os principais atores, a partir de uma nova forma mais eficiente de operação econômica da internet: mudança das respectivas taxas variáveis entre provedores e usuários de informação, adequando-o ao modelo de mercado de dois lados, como o apresentado por Rochet e Tirole. Uma vez encaminhado de forma adequada um novo sistema de preços na rede, proposto no cenário de renovação CR, o passo seguinte é apresentar e introduzir as novas formas de precificação para a respectiva vigilância dos órgãos regulatórios. Vale ressaltar que adaptar ao mundo real a conceituação teórica proposta por Tirole e Rochet envolve uma nova concepção de funcionamento comercial da rede e, portanto, de mudança de comportamento, como já observado, dos agentes envolvidos. A questão básica é segregar da rentabilidade das operadoras de rede e de conectividade o lucro extraordinário advindo da mudança de taxas variáveis e utilizá-lo exclusivamente para financiar a modernização da rede. Feito isso, haverá banda para todos os usuários e a rede seguirá seu curso, livre e aberta, como quando nasceu.

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CAPÍTULO 2 Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação
Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa1 João Maria de Oliveira2 Luis Cláudio Kubota3

Introdução A infraestrutura de telecomunicações suporta todos os setores de uma economia. Há estudos em que se comprova ser esta infraestrutura fundamental para o desenvolvimento de novos bens e serviços para a “sociedade do conhecimento”. As rápidas mudanças tecnológicas e a proliferação de uma gama de novos serviços têm atuado como catalisadores principais das mudanças econômicas e das relações globais. As transformações por que passam alguns países, a partir da adequada regulação destas redes e de seus serviços, combinadas com a convergência decorrente da inovação tecnológica, permitem encaminhar preocupações sociais, em áreas como meio ambiente, saúde e educação. No Brasil, que há 12 anos deixou o antigo sistema monopolista estatal das telecomunicações para entrar num regime competitivo operado por empresas privadas, os preços dos serviços de telecomunicações ainda continuam muito elevados, especialmente quando comparados a outros países. A perspectiva transformadora ainda parece distante. Os preços praticados constituem em grande obstáculo à universalização do acesso à internet em banda larga e aos consequentes benefícios das inovações tecnológicas extensivas a toda a sociedade brasileira. De acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT), o preço relativo4 do serviço no Brasil chega a ser de cinco a dez vezes mais alto que nas economias avançadas e está entre os mais altos do mundo. Em termos de densidade, o desempenho do Brasil apresenta crescimento contínuo durante os últimos anos, apesar de este indicador ser ainda de três a sete vezes mais baixo que o observado em economias avançadas. Além disso, o acesso em banda larga é notadamente concentrado no Brasil: enquanto as classes de maior renda e os residentes em áreas mais densamente povoadas têm a internet em alta velocidade como parte de sua vida quotidiana, tanto as famílias que moram afastadas dos grandes centros urbanos, quanto as que estão na parte de baixo da pirâmide de distribuição de renda continuam lutando para serem incluídos digitalmente.
1Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea 2 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea 3 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea 4 O preço relativo é definido pela UIT como a razão entre o valor de uma cesta de serviços de telecomunicações e a renda per capita do país.

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A evolução das estruturas de comunicação e o impulso que se espera ter do atual processo de convergência de redes, serviços e terminais devem levar também a nova definição de políticas publicas. Em particular, a convergência exigirá uma revisão de certo número de elementos da atual estrutura de regulação econômica dos mercados de comunicações, a fim de assegurar que os potenciais benefícios dessas tecnologias sejam difundidos rapidamente na economia e na sociedade, de forma geral. Recentemente, tem se intensificado o debate a respeito da necessidade de alterações no modelo econômico vigente. Uma razão é o reconhecimento cada vez maior da importância de promover políticas para a inclusão digital, pois diversos estudos já comprovaram os seus efeitos positivos, tanto sociais, quanto econômicos. Além disso, os impactos da inclusão digital podem se amplificar em diversos outros setores. Não obstante ser necessário atacar também outras importantes variáveis, tais como o analfabetismo digital e a baixa densidade de computadores pessoais por domicílio, a disponibilidade de infraestrutura de telecomunicações é um fator-chave para a promoção do acesso em banda larga. Dois exemplos das mudanças propostas pelo governo são emblemáticos. Primeiro, foi o lançamento do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), por meio do Decreto nº 7175/2010, que, dentre outras medidas, determinou a reativação da Telebrás para “prestar apoio e suporte a políticas públicas de conexão à internet em banda larga para universidades, centros de pesquisa, escolas, hospitais, postos de atendimento, telecentros comunitários e outros pontos de interesse público”. Segundo, foi a edição da Medida Provisória (MP) nº 495/2010, que incluiu a “promoção do desenvolvimento nacional” como um dos princípios das licitações, oferecendo uma margem de preferência de até 25% para os produtos com tecnologia desenvolvida no país. Assim, não só o governo federal pretende envidar esforços e recursos públicos para estender o uso da banda larga no país, como também tem a intenção de promover uma política industrial que favoreça o setor. O presente artigo tem o objetivo geral de trazer à discussão o fenômeno da convergência ante a realidade do mercado brasileiro de serviços de informação e comunicação. Especial ênfase é dada às questões relacionadas ao acesso à internet em banda larga, por ser esta a plataforma que viabiliza todo o processo de convergência já iniciado nas economias mais avançadas e que provocará profundas mudanças nos segmentos envolvidos. Inicialmente o texto apresenta uma breve avaliação dos diferentes tipos e níveis de convergência ora em curso no mundo. Em seguida, expõe algumas razões para a necessidade e a conveniência de se conceder incentivos governamentais para a implantação de redes de banda larga: quais os impactos das tecnologias da informação e comunicação (TICs) na produtividade e no crescimento econômico; e quais são as potenciais falhas de mercado às quais o setor de telecomunicações está sujeito. O texto ainda aduz
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uma avaliação do conjunto de instrumentos de política pública disponíveis para uso específico para banda larga e discute os mecanismos regulatórios para superar as dificuldades na implantação de infraestrutura de telecomunicações. Após uma avaliação sucinta do mercado brasileiro de serviços de informação e comunicação, também apresenta detalhamento da atividade de acesso à internet em banda larga, considerando as variáveis de densidade, preço, mercado e regulação. Por fim, o artigo traça algumas considerações a respeito da aplicação desses conceitos e das avaliações, considerando a necessária inclusão digital e o fenômeno da convergência sobre a realidade do país. Convergência e mercado das comunicações O processo de digitalização de meios e conteúdos permitiu uma serie de inovações tecnológicas e converteu-se em fator importante na condução da mudança no mercado das comunicações. Ao mesmo tempo em que reduziu custos permitindo acesso a maiores faixas da sociedade, aumentou a capacidade das redes para suportar novos serviços e aplicações. Neste cenário de evolução e inovação tecnológicas, há que se ampliar a visão além da atividade de telecomunicações dentro. A partir de desenvolvimentos históricos diferentes, o audiovisual, as telecomunicações e a informática atualmente têm as suas delimitações tradicionais cada vez menos nítidas. Inicialmente, a evolução das tecnologias de telecomunicações juntamente com a informática tratou de aproximar essas duas atividades. O caminho para a convergência foi inicialmente liderado pela crescente digitalização dos conteúdos, a utilização de redes IP, difusão do acesso em banda larga de alta velocidade e a disponibilidade de comunicação multimídia em dispositivos de computação. Mais recentemente, com avanço da digitalização dos conteúdos, o setor audiovisual e grande parte das indústrias criativas, segundo conceituação de Jaguaribe (2006), foram arrastados para esse processo evolutivo denominado de convergência. A convergência tecnológica compreende diferentes aspectos e níveis fundamentais: i) a convergência de rede – impulsionada pela mudança para redes de banda larga baseadas em IP, aí incluída a “convergência de três telas” (TV, celular e computador); ii) a convergência de serviços – decorrente da convergência de redes e do aparecimento de equipamentos inovadores que permitem o acesso a aplicações e serviços novos e tradicionais que se integram gerando valor agregado; iii) a convergência da indústria/mercado – que reúne no mesmo campo indústrias como as de tecnologia da informação, telecomunicações e audiovisuais, as quais anteriormente operavam em mercados distintos; iv) a convergência regulatória, legislativa e institucional – que decorre na necessidade de regulação e monitoramento da convergência ocorridas nos níveis já tratados e da necessária regulamentação que trate conteúdos e/ou serviços de forma independente das redes sobre as quais eles são fornecidos (regulação tecnologicamente neutra).
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O advento da internet contribuiu fortemente para a evolução tecnológica do armazenamento, do tratamento e da transmissão de conteúdo no formato digital, possibilitando a rápida evolução de produtos e serviços. Neste cenário instante em que geração e transmissão de informações puderam ser realizadas entre meios de comunicação e equipamentos de uma e outra atividades, não é mais possível tratá-los isolada ou mesmo separadamente. Não há mais critérios técnicos e econômicos que impeçam uma operadora de telecomunicações, incluindo banda larga, de gerar conteúdo e transmiti-lo em sua rede. Também não há obstáculos técnicos e econômicos para que uma geradora de conteúdo televisivo, incluindo conteúdo multimídia na internet, possa fornecer serviços de comunicações, como por exemplo, telefone fixo. Esta é a realidade da convergência funcional dos diferentes serviços existentes ou até mesmo da geração de novos serviços que se utiliza da integração física e tecnológica dos meios e equipamentos. É evidente que esses eventos geraram novas oportunidades e demandas econômicas, que possibilitam sinergias entre organizações e a criação de novas organizações concentradas nesse novo ambiente de negócios. Exemplos desses movimentos são: a exploração de TV digital, o VOD – Video On Demand (vídeo sob demanda), livros sob demanda, música on-line, serviços financeiros nas redes telefônicas, etc. Essa convergência corporativa está se produzindo, em alguns casos, de maneira evolutiva e, em outros, por meio de rupturas. Em alguns países, isso ocorre à margem do espaço regulatório, enquanto em outros um novo marco regulatório beneficia o cidadão e lhe confere o beneficio da inclusão digital, controlando a avidez natural das organizações econômicas. Em todos os casos, as atividades envolvidas no processo têm expressiva participação no contexto econômico desses países. Esses diversos níveis e aspectos, inerentes ao processo da convergência como um todo, amplificam o grau de complexidade das atividades de regulação em relação às atividades envolvidas. Isso ocorre em função de envolver pelo menos três distintos regimes regulatórios, com bases conceituais e trajetórias históricas diversas. As legislações de propriedade intelectual e direito autoral perpassam os segmentos audiovisual e de tecnologias da informação, mas também estão presentes nos serviços de telecomunicações. O regime da regulação direta, normalmente associada às telecomunicações, também começa a valer para os segmentos audiovisual e de tecnologias da informação, na medida em que eles passem a operar em nichos de mercados antes ocupados somente por prestadoras de telecomunicações. Finalmente, aplicam-se também a todo esse grupo de atividades as normas de proteção à concorrência, previstas na lei antitruste. Portanto, neste contexto de convergência, é necessária a articulação de políticas regulatórias entre, no mínimo, três diferentes entidades: o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e
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o Conselho Administrativo de Desenvolvimento Econômico (Cade). Produtividade, crescimento econômico e falhas de mercado Pelo aspecto social, a atual dinâmica de difusão da banda larga levou à existência de uma segregação digital, gerada pela distância do conhecimento das ferramentas, infraestrutura disponível ou capacidade econômica entre uma grande parcela da população que não pode sequer experimentar o serviço e a outra parte que tem, de fato, a opção de usufruir dele. Além dessas questões relativas à equidade, existem pelo menos dois outros fatores que podem justificar os incentivos governamentais para a expansão da banda larga. O primeiro trata da produtividade e o crescimento econômico que surge a partir da banda larga. O segundo relaciona-se com as falhas de mercado. Estes dois assuntos serão adiante explorados com maior grau de detalhe.
O impacto da banda larga na produtividade e no crescimento econômico

Alguns autores afirmam que as TICs estão no centro das principais transformações sociais e econômicas, pelas quais o mundo tem passado nos últimos 25 anos. A globalização, por exemplo, considerada uma tendência fundamental da economia do século XXI, tornou-se possível apenas por causa das TICs, que proporcionam integração mais próxima e ampla para mercados de produtos, serviços, trabalho e finanças. Além disso, essas tecnologias são responsáveis por remodelar processos internos de organizações e reduzir custos de transação. Algumas razões suportam essas capacidades: preços declinantes, desempenho crescente e melhoria na usabilidade. Esses fatores permitem que as empresas rearranjem a sua demanda por insumos, trabalhadores e capital. Por seus extensos e profundos efeitos na economia, as TICs são classificadas como tecnologias de uso geral. Esse tipo de tecnologia possui algumas características em comum: seu uso é amplo e irrestrito; seu preço e desempenho melhoram ao longo do tempo; e, mais importante, facilita a introdução de produtos, processos e modelos de negócios inovadores. Uma vez que tais indústrias, baseadas no desenvolvimento de novas tecnologias, aumentam o nível de produtividade e inovação, elas devem ser apoiadas por políticas públicas, tais como aumento do financiamento à pesquisa, adoção de aplicativos e serviços eletrônicos por parte dos governos, estímulo à educação para gerar trabalhadores mais qualificados e incentivos à implantação de infraestrutura para banda larga. Outros benefícios das TICs podem ser observados nas Metas de Desenvolvimento do Milênio, especialmente naquelas relacionadas a saúde, educação e promoção da igualdade de gênero. Os efeitos econômicos causados por TICs também incluem aumento de riqueza e a facilitação da mobilidade
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social e progresso econômico, resultantes dos ganhos de produtividade ligados ao desenvolvimento e implantação das TICs. Além disso, as TICs permitem diversos outros desdobramentos: a criação de comércio por meio de menores custos, melhor informação e leque expandido de produtos; aumento das oportunidades de emprego, por meio de investimento direto e mudanças estruturais; flexibilização das condições de trabalho, com alteração de horários, localização e práticas laborais alternativas, contribuindo para reduzir o congestionamento de tráfego de veículos e poluição urbana; e, finalmente, a criação de novos modelos de negócios. Apesar de os efeitos na produtividade serem difíceis de serem mensurados, por causa de dificuldades metodológicas e da falta de dados estatísticos adequados, existem evidências que indicam uma correlação positiva entre a adoção das TICs e o crescimento econômico. Um estudo do Banco Mundial já amplamente discutido, preparado por Qiang (2009), argumenta que os investimentos no setor de telecomunicações têm efeitos positivos no curto e no longo prazos. A geração de empregos e o aumento na demanda agregada são consequências imediatas dos pacotes de estímulo econômico lançados por vários países desenvolvidos. Para o longo prazo, o estudo aponta que diversas análises empíricas mostraram uma conexão importante entre infraestrutura de telefonia e crescimento econômico. A influência das redes de telecomunicações sobre o crescimento econômico é maior em países em desenvolvimento e também é mais intensa na adoção da banda larga do que no uso da telefonia ou internet. Finalmente, o estudo do Banco Mundial sugere que os recursos públicos devem ser usados para proporcionar investimentos tempestivos em infraestrutura para banda larga, que podem trazer externalidades de rede e efeitos de transbordamentos, que melhoram a produtividade de toda a econômica. Um estudo do Ipea conduzido por Macedo e Carvalho (2010) revelou que os efeitos da penetração da banda larga sobre o crescimento econômico pode ser até mais alto que os já mencionados. Numa abordagem neoclássica, a produtividade total dos fatores em mercadorias com o uso de TICs tende a ser mais intensa, embora a aplicação dessas tecnologias reforce o uso de capital e eleve a produtividade do trabalho.
Falhas de mercado

A infraestrutura de telecomunicações é geralmente retratada como uma típica indústria de rede, que tem basicamente três características: infraestrutura baseada em rede, o que gera externalidades de rede; instalações essenciais, formada por recursos que não podem ser duplicados; e economias de escala e escopo, com elevados custos fixos e baixos custos marginais. Não obstante ter havido o aparecimento de competição entre plataformas e tecnologias e, portanto, ter enfraquecido a segunda característica, existem elementos que não podem ser duplicados, como o espectro de radiofrequência, e outros que, embora passíveis
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de replicação, a sua reprodução é impedida ou dificultada por diversos fatores legais, técnicos e econômicos, como é o caso de construção de torres e dutos. Por suas peculiaridades, a indústria de telecomunicações está sujeita a diversas falhas de mercado. Entre as mais relevantes, pode-se citar a existência de poder de mercado, a presença de externalidades, o dilema dos investimentos interdependentes e a ocorrência de informação assimétrica. Com respeito ao poder de mercado, as operadoras dominantes têm diversas vantagens quando comparadas a novos competidores: controle da infraestrutura existente, integração vertical, subsídios cruzados e inércia do consumidor. Consequentemente, elas adotam comportamentos estratégicos para aumentar o seu lucro, por meio de práticas como negação de acesso à infraestrutura de redes a seus competidores, provimento de serviços aos competidores em bases discriminatórias, colocação de preços predatórios em serviços onde existe competição usando subsídios cruzados e administração de custos para fidelização de seus usuários. Atinentes à segunda falha são as externalidades de produção, consumidor e rede. As primeiras aparecem nas questões relacionadas à produtividade; redistribuição da renda, riqueza e poder; segurança nacional; e ambiente. As externalidades do consumidor resultam do menor congestionamento de tráfego devido ao trabalho a distância, ou teletrabalho. Finalmente, as externalidades de rede surgem quando a utilidade de um único consumidor da rede depende do número total de seus membros. Em outras palavras, quanto maior o número de consumidores na rede, maior a utilidade percebida por cada um deles. Logo, encoraja-se uma intervenção governamental quando esses efeitos não podem ser internalizados pelas próprias forças de mercado. A terceira falha pode ser descrita como o dilema dos investimentos interdependentes, uma situação relacionada à falta de coordenação entre o lançamento da infraestrutura e a provisão dos serviços. Se a infraestrutura e os serviços são prestados por diferentes entidades, cada uma tem uma forte e mútua dependência com a decisão da outra. Por conseguinte, os investimentos nessa situação podem ser paralisados ou retardados. Por fim, a ocorrência de informações assimétricas, a quarta falha de mercado, acontece durante a introdução de novos produtos e serviços de telecomunicações. Até que o consumidor tenha experimentado o novo item, ele não saberá qual a sua utilidade real. Esta atitude leva a uma situação em que a eficiência dinâmica da economia fica abaixo da ótima possível.

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Políticas públicas para implantação de infraestrutura de telecomunicações Proposto inicialmente por Navas-Sabater, Dymond and Juntunen (2002), o modelo do Banco Mundial para análise das políticas aplicáveis às telecomunicações define dois tipos de lacunas entre o nível ideal de acesso aos serviços de telecomunicações e a situação observada. O primeiro é chamado de lacuna de eficiência de mercado (market efficency gap) e corresponde à diferença entre o nível atual de densidade do serviço e aquele que poderia ser alcançado em um mercado competitivo, sob um regime regulatório estável e eficiente. A lacuna de acesso (access gap) é representada por situações em que alguns grupos da população não conseguem ter acesso aos serviços, devido aos altos preços ou baixo nível de renda. Portanto, para tornar os serviços de telecomunicações disponíveis aos grupos situados dentro da lacuna de acesso, deve ser considerado o uso de subsídios públicos. A Figura 1 retrata esquematicamente as explicações anteriores.
Figura 1 – Modelo de lacunas de eficiência de mercado e acesso

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Existe um amplo leque de alternativas para políticas públicas que os governos devem considerar para melhorar a densidade do acesso em banda larga, que podem ser classificadas em três grupos de instrumentos. O primeiro referese diretamente ao domínio da regulação. O segundo conjunto inclui variadas possibilidades para reduzir o custo do investimento privado, complementando-o ou substituindo-o em áreas pouco atrativas, ou para ajudar na coordenação de
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Áreas de alto custo Áreas de baixo custo

Acesso universal Fronteira de acessibilidade Gap de acesso

Alcance e acesso atual da rede

Gap de mercado Acesso universal

Domicílios de alta renda D

omicílios de baixa renda

Fonte: Banco Mundial (adaptado)

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múltiplos investidores. O terceiro grupo envolve medidas direcionadas para o crescimento no nível geral da procura por acesso em banda larga, seja estimulando a demanda de consumidores e empresas, seja expandindo a demanda de natureza pública. Podem-se citar múltiplas iniciativas adotadas por governos locais e centrais ao redor do mundo e que podem ser enquadradas na classificação acima. Algumas delas são: estímulo à competição no mercado de telecomunicações, em particular no nível do acesso local; agregação da demanda pública por serviços de banda larga; redefinição das obrigações de universalização para incluir serviços de banda larga; suporte financeiro aos municípios; suporte financeiro aos usuários finais; propriedade da infraestrutura de banda larga pelo governo; parcerias público-privadas; estímulos à demanda; coordenação das obras civis necessárias à implantação de conexões em banda larga; adoção de obrigações de compartilhamento em relação aos dutos de fibra ótica recém-construídos; programas de mapeamento territorial; promoção de padrões tecnológicos específicos; simplificação de processos administrativos; políticas de gerenciamento e racionalização de uso do espectro de frequências; e políticas industriais. Há algumas vantagens na adoção destas políticas. Por exemplo, em certas áreas geográficas, existe pouco incentivo financeiro para as empresas investirem no provimento de acesso em banda larga para consumidores residenciais, pois os custos são altos em relação às receitas. Além disso, se o governo construir e detiver a infraestrutura, ele poderá ceder a sua capacidade excedente da sua rede para todos os novos entrantes em bases não discriminatórias. Outra vantagem é a possibilidade de antecipar a implantação da infraestrutura de banda larga, o que permitiria que empregos e outras oportunidades econômicas fossem alavancados o mais cedo possível. Por fim, as políticas asseguram que o governo aja pelo interesse público, tomando decisões sobre o potencial do serviço de banda larga, mesmo que ainda não exista demanda efetiva. Também as desvantagens devem ser mencionadas. Como o desenvolvimento da infraestrutura da banda larga ainda está em estágio inicial, não fica claro em quais áreas geográficas o serviço não seria viável comercialmente. Ademais, existe uma falta de coordenação entre as atividades regulatórias e os formuladores de políticas públicas, bem como entre diferentes níveis de governo. Outro problema é que as redes governamentais podem resultar na recriação de monopólios locais, com implicações negativas sobre a inovação na indústria e eficiência. Finalmente, o investimento em infraestrutura de redes é mais difícil de ser justificado, exceto em circunstâncias excepcionais. A regulação é necessária para lidar com problemas relacionados à implantação de infraestrutura de telecomunicações, mas é necessária uma abordagem abrangente para tratar o tema. O modelo de Fiani (1999) para análise do contexto
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regulatório é constituído por seis elementos fundamentais: 1) a firma regulada (monopolista ou detentora de poder de mercado significativo); 2) a estrutura institucional (representada por todas as entidades governamentais envolvidas na regulação); 3) os fornecedores (englobando toda a indústria de equipamentos); 4) os usuários (residenciais e comerciais); 5) os competidores (efetivos e potenciais); e 6) o mercado estrangeiro (exportador de bens). Várias questões emergem a partir do relacionamento entre os elementos desse complexo arranjo regulatório e podem ser sintetizadas da seguinte forma: variações no ambiente político; possível captura da agência regulatória; natureza pública ou privada da propriedade da firma regulada; existência de grupos de pressão em disputa por poder político, buscando influenciar a decisão do agente regulador; absorção de objetivos de política industrial; redução de barreiras regulatórias para facilitar a entrada de firmas especializadas, que provêm serviços inovadores ou com foco em nichos de mercado; contrapartidas entre universalização, que requer preços mais altos, e competitividade internacional das empresas baseadas em TICs; impacto das políticas na balança comercial, uma vez que a modernização das redes geralmente requer importação de equipamentos; e, finalmente, paradoxo entre preço justo, obrigações de universalização e competição. Portanto, as atividades regulatórias têm um escopo incrivelmente amplo e complexo no tocante às telecomunicações. Um extenso trabalho conduzido por The Berkman Center for Internet & Society (2010) analisou a experiência de vários países e concluiu que as políticas de livre acesso contribuíram mais para o desenvolvimento do acesso em banda larga do que a competição por infraestrutura. Além disso, outras lições relevantes a partir de práticas exitosas também devem ser observadas. Primeiro, as políticas de livre acesso e a desagregação de redes em particular tiveram um papel importante para facilitar a entrada de novos competidores. Esse novo grau de competição levou a mais investimentos, taxas de transmissão mais elevadas, progresso técnico, menores preços e/ou inovação em serviços. Segundo, um regulador que, de fato, implemente políticas de livre acesso é mais importante que a sua própria adoção formal, uma vez que as operadoras dominantes sempre resistem a esse tipo de política. Terceiro, os provedores de banda larga devem ter sua função de provimento de infraestrutura regulada de forma separada à de acesso. Quarto, as políticas de livre acesso devem ser aplicáveis também à próxima geração de redes, particularmente à fibra ótica. Quinto, a tendência de acesso ubíquo levou os reguladores a aceitar a integração vertical entre provedores de acessos fixos e móveis de banda larga. Sexto, a separação funcional causou efeitos rápidos sobre a competição, densidade, preços e velocidades, sendo crescentemente adotada pelos países analisados para garantir o livre acesso na nova geração de redes. Sétimo, as duas formas de competição, baseada em plataforma ou em acesso, são complementares. Finalmente, os custos esperados para a transição para a próxima geração de redes estão forçando empresas e países a buscar o compartilhamento
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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

de custos, riscos e instalações, em vez de construir infraestrutura duplicada. Duas abordagens podem ser consideradas a respeito da relação entre o investimento em infraestrutura de telecomunicações e as atividades de regulação: o impacto da regulação de preços sobre o investimento e os efeitos da regulação de acesso sobre o investimento. Com relação à primeira abordagem, o arcabouço teórico oferece algumas opções aos reguladores: taxa de retorno, preço-teto, divisão dos lucros e participação nas receitas. O método da taxa de retorno estimula a implantação de nova infraestrutura, uma vez que o risco é diluído, enquanto o esquema de preço-teto promove incentivos à eficiência, entendida como redução de custos. As outras duas formas são usadas menos frequentemente. Quanto à regulação do acesso, o tema é controverso. A teoria da escada de investimentos afirma que os elementos de rede devem ser obrigatoriamente compartilhados com os entrantes. De acordo com ela, novos competidores poderão participar do mercado utilizando a capacidade dos operadores dominantes, até que reúnam as condições para construir suas próprias redes. No entanto, outras teorias alegam que a desagregação de redes obrigatória pode desencorajar o investimento das firmas, tanto das dominantes, quanto das entrantes. Panorama dos serviços de informação e comunicação no Brasil A fim de ilustrar o referencial teórico referido anteriormente, serão apresentados alguns indicadores econômicos do grupo de atividades de informação e comunicação. Em seguida, será exposto um estudo de caso a respeito da situação da banda larga no Brasil, no qual serão abordados temas como: a posição do país no cenário internacional; a distribuição do serviço de banda larga, segundo classes sociais e regiões geográficas; a estrutura do mercado e as principais empresas participantes; os preços cobrados pelos serviços, de acordo com as regiões geográficas; e a evolução dos serviços de comunicação móvel no Brasil, que podem se colocar como um substituto importante para algumas aplicações dos serviços de acesso em banda larga.
Mercado de serviços de informação e comunicação

A participação do grupo de atividades denominado “serviços de informação e comunicação”, definido pela composição das atividades inseridas no processo da convergência, é bastante relevante em relação ao conjunto dos serviços nãofinanceiros no Brasil. A parcela da receita líquida operacional oriunda desses serviços situa-se em patamar superior a um terço do total. A Figura 2 apresenta os dados da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) 2008 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a distribuição da receita operacional líquida, por grupos de atividade.
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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação Figura 2 – Participação da receita operacional líquida, por grupos de atividade – 2008
Serviços de informação e comunicação

14% 35% 21%

30%

Transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio Serviços profissionais, administrativos e complementares Serviços prestados às famílias e outras atividades

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Além de seu destaque em relação às demais atividades de serviços, as atividades de informação e comunicação revelam suas grandes dimensões também em valores absolutos. Conforme o Suplemento Especial da PAS 2007, o conjunto dessas atividades teve receita operacional líquida que somou mais de R$ 150 bilhões em 2007. A Figura 3 mostra a separação da receita operacional líquida, de acordo com os seus principais serviços.
Figura 3 – Receita operacional líquida (em bilhões de R$), por serviço prestado – 2007
Serviços de telefonia móvel Serviços de telefonia fixa Outros serviços de telecomunicações por fio Serviços ligados à internet Outros serviços de telecomunicações sem fio Outros serviços telecomunicações Serviços de telecomunicações Televisão aberta Televisão por assinatura Produção e pós-produção de filmes, vídeos e programas Rádio Distribuição, comerc., licencenciamento e exibição Outras atividades relacionadas a serviços audiovisuais Serviços audiovisuais Software sob encomenda Serviços de consultoria em TI Serviços de processamento de dados Software não customizável Software customizável Gestão de serviços de TI Outros serviços relacionados à TI Serviços de TI Total TICs

44,9 36,4 7,9 5,4 1,7 3,2

99,5
10,7 7,0 0,8 1,2 1,1 0,2

21,0
8,4 5,6 3,9 3,0 2,7 2,2 4,1

30,0 150,4

Telecom

Audiovisual

TI

Total

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores. 72

Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

Dentre os serviços apresentados, os que mais tiveram incremento entre os anos 2006 e 2007 foram o software customizável, a televisão por assinatura e os serviços de telefonia móvel, com crescimento de 23%, 22% e 20%, respectivamente. Destes, os dois últimos já estão diretamente envolvidos com os processos de convergência já observáveis. Embora em escala mais limitada, o primeiro também já apresenta alguns reflexos desses processos, pois produz elementos que suportam os modelos de negócios das operadoras de telecomunicações e empresas de audiovisual. As telecomunicações ainda são o maior de todos os serviços, representando cerca de 60% do total da receita líquida operacional. Comparando os dados da PAS 2008 com os de anos anteriores, percebe-se que essa atividade vem mantendo estável a sua participação ao longo tempo. A Figura 4 traz informações sobre a participação de cada uma das atividades desse grupo.
Figura 4 – Participação da receita operacional líquida, por atividade – 2008

8% 10%

Telecomunicações Tecnologia da Informação

22%

60%

Serviços audiovisuais Edição, agências de notícias e outros serviços

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Um aspecto importante a ser considerado é o impacto que essa convergência terá sobre a mão-de-obra nestes setores, bem como sobre suas respectivas qualificações. Em termos de estoque de pessoal ocupado, o setor de tecnologia da informação, que produz conteúdo e aplicações, é o mais expressivo. Trata-se de uma atividade que deverá ser muito demandada nesse processo de convergência, uma vez que haverá grande necessidade de aplicações novas por serem desenvolvidas e também a adaptação de aplicações existentes ao novo ambiente. Por outro lado, o setor de telecomunicações é o que tem a maior produtividade do trabalho5 , pois é o que também exige o maior investimento de capital. Ele deverá ser o mais afetado, na medida em que sua atividade será a mais impactada pela convergência tecnológica.
5 A produtividade do trabalho é definida como o valor adicionado dividido pelo pessoal ocupado.

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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

A Figura 5 expõe os dados detalhados da análise anterior.
Figura 5 – Pessoal ocupado (em milhares) e produtividade do trabalho (em milhares de R$), por atividade – 2008
367,7 374,5
Telecomunicações Tecnologia da Informação

136,8

104,3

117,5 68,6

94,8

70,2

Serviços audiovisuais Edição, agências de notícias e outros serviços

Pessoal ocupado

Produtividade

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Outra questão a ser impactada pela convergência de mercado é o numero de empresas. A Figura 6 mostra que o número de empresas classificadas como sendo de tecnologias de informação é muito maior que aquelas classificadas nas demais atividades. Não se espera uma mudança significativa nesse grupo. Já nas atividades de telecomunicações pode haver o aumento do número de empresas, em função de mudanças no ambiente regulatório que estimulem a competitividade e o acesso a essas tecnologias. Também há de se considerar que a convergência poderá aumentar a indústria de serviços audiovisuais e de notícias, nas dimensões de concepção, gestão e difusão de recursos e conteúdos.
Avaliação da situação da banda larga no Brasil Posição internacional

Alguns dados internacionais podem ser úteis para ilustrar a fraca posição do Brasil no tocante à difusão da banda larga, em relação à de outros países. Usando a densidade6 do serviço de acesso fixo em banda larga como uma primeira abordagem, percebe-se que o Brasil está muito distante da condição vista nas economias avançadas. De acordo com dados da UIT, esse índice no Brasil ficou em 7,5 acessos por 100 habitantes em 2009, enquanto países como Coreia, França e Estados Unidos ostentam patamares de densidade de 33,8, 31,1 e 27,1, respectivamente, no mesmo ano. Em relação a nossos vizinhos da América Latina, a situação parece bem menos discrepante. A Figura 7 compara a trajetória de nove países selecionados da América Latina através dos anos. Percebe-se que, em todos os países, os níveis de penetração do serviço ainda estão bastante aquém dos verificados nas economias avançadas. Mesmo assim, o Brasil está apenas na
6 A densidade é normalmente representada pelo número total de terminais para cada grupo de 100 habitantes.

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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

quarta posição na região, empatado com o Uruguai e atrás de Chile, México e Argentina. Nessa amostra, o Brasil fica à frente apenas de Colômbia, Bolívia, Peru e Paraguai. Embora o Brasil tenha apresentado crescimento constante do número de usuários de banda larga desde 1999, esses dados relevam que o Brasil precisa melhorar muito as suas políticas para o serviço se pretender alcançar pelo menos a liderança regional.
Figura 7 – Densidade de acessos fixos em banda larga, para países selecionados da América Latina
10 8 6 4 2 0 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Ano Chile México Argentina Brasil Uruguai Colômbia Bolívia Peru Paraguai 2005 2006 2007 2008 2009

(terminais por 100 hab.)

Densidade

Fonte: União Internacional de Telecomunicações (UIT). Preparado pelos autores.

A Figura 8 apresenta uma análise com 12 países selecionados, confrontando densidade, preço relativo e número de acessos fixos em banda larga para o ano de 2009. Há uma clara diferença entre o grupo das economias avançadas e o dos países em desenvolvimento. O primeiro é bastante homogêneo, tanto no quesito de densidade, que varia entre 24 e 32, quanto na dimensão de preço relativo, que oscila entre 0,5 e 1,4. A quantidade de acessos em banda larga varia, mas todos os países desse grupo têm grandes mercados. Já o grupo dos países em desenvolvimento tem densidades que se alternam entre 0,4 e 8,5, e preços relativos que se situam num intervalo de 2 a 9. O tamanho do mercado flutua ainda mais que no grupo dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil se destaca com um número considerável de usuários: está atrás de China, Estados Unidos e Japão, mas seu mercado atual em termos absolutos é equivalente ao da Coreia e do Reino Unido. Em termos de densidade, os indicadores brasileiros são entre três e sete vezes menores que os do grupo dos países desenvolvidos. Já em termos de preços, o acesso da banda larga no Brasil custa entre cinco e dez vezes mais caro que nas economias avançadas.

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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação Figura 8 – Densidade, preço relativo e número de acessos fixos em banda larga, para países selecionados – 2009
35 30
(terminais por 100 hab.)

UK

KOR

25 20 15 10 5 0 0 1
US

JAP

Densidade

MEX

URU

BRA

ARG

CHL

CHN COL

IND

2

3

4

5

6

7

8

9

(preço m ensal por renda per capita )

Preço relativo

Fonte: União Internacional de Telecomunicações (UIT). Preparado pelos autores.

Densidade

O Brasil é um país com dimensões continentais e uma população de quase 190 milhões de pessoas, marcado por fortes desigualdades no âmbito social e regional. Essas características também se refletem na distribuição dos serviços de banda larga. A Tabela 1 apresenta o percentual de domicílios com acesso fixo em banda larga, por nível de renda domiciliar mensal e região geográfica. Alguns dados da tabela merecem ser destacados. Primeiro, a capacidade de usufruir o serviço está positivamente correlacionada com a renda domiciliar, sendo severamente afetada por ela. Segundo, as três regiões com maior PIB per capita têm densidade similar, em torno de 25%. Finalmente, as regiões Norte e Nordeste, que possuem densidades demográficas mais baixas e, portanto, custos mais elevados para implantação de infraestrutura de telecomunicações, têm índices de acesso à banda larga piores em todas as classes de renda.
Tabela 1 – Percentual de domicílios com acesso fixo em banda larga fixa, por nível de renda domiciliar mensal e região geográfica – 2008

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores. 76

Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

Conclusões similares podem ser extraídas da análise da Tabela 2, que expõe a penetração do acesso em banda larga em áreas urbanas e rurais. Novamente, as áreas mais lucrativas (centros urbanos nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste) têm melhores índices de densidade do que as áreas rurais, de maneira geral, ou as áreas urbanas em regiões mais pobres. Uma vez mais, as áreas rurais do Norte e Nordeste estão em situação muito pior que as outras três regiões brasileiras.
Tabela 2 – Percentual de domicílios com acesso fixo em banda larga fixa, por áreas urbana e rural – 2008

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Outro exemplo de falha de mercado refere-se à difusão do próprio serviço e pode ser observado na Figura 9. Em estudo anterior do Ipea (2010), verificou-se que, ao final do terceiro trimestre de 2009, as operadoras ofereciam acesso em banda larga em menos da metade dos municípios brasileiros.
Figura 9 – Número e percentual de domicílios, por disponibilidade de acesso em banda larga – 2009

2972 53%

2593 47%

Disponível

Não disponível

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores. 77

Estrutura de mercado

A Anatel contabiliza que existem mais de 1.600 provedores de internet registrados regularmente no Brasil. Outras fontes indicam que existe uma quantidade, no mínimo, equivalente a essa no mercado informal. Apesar desses fatos, a Figura 10 retrata que apenas cinco operadoras controlam mais de 90% do mercado total de acessos fixos de banda larga. Oi, Telefonica e CTBC são também concessionárias de telefonia fixa, enquanto Net e GVT – a primeira controlada pelo grupo Telmex e a segunda originalmente com capital israelense, agora controlada pelo grupo francês Vivendi – são as principais competidoras. Oi, Telefonica, GVT e CTBC baseiam-se na tecnologia de acesso DSL7 , transmitindo dados por meio de cabos de par metálico. Por outro lado, Net utiliza a tecnologia de cabo coaxial, já que é originalmente uma prestadora de TV a cabo. Quando se considera a participação de mercado de cada empresa em relação a esse serviço, parece haver certo grau de competição entre as três principais empresas.
2% 6% 7% 36% 24% Oi Net Telefonica GVT CTBC Outras 25%

Figura 10 – Participação de mercado dos provedores de banda larga fixa – março de 2010 Fonte: Teleco. Preparado pelos autores.

Apesar disso, Oi, Telefonica e CTBC operam em regiões distintas. Juntas, eles dominam 61,8% do mercado. A competição baseada em serviços (livre acesso ou desagregação de redes) ainda não foi implementada no Brasil, e a competição por plataformas está restrita a algumas poucas cidades. De acordo com dados da Anatel, em março de 2010 os operadores de TV por MMDS8 ofereciam serviços em 207 cidades, e os prestadores de TV a cabo em apenas 149. A GVT informa que está presente em 91 cidades em todo o território brasileiro. Quando comparado ao total de 5.565 municípios em que está definida a organização política do país, esses números apontam para um nível insuficiente de competição nesse mercado. Em nível local, as estatísticas mostram uma intensa concentração, medida pela participação de mercado do principal provedor da respectiva área, formalmente
7 Digital Subscriber Line 8 Multichannel Mutipoint Distribution System

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descrita como a relação de concentração de uma firma (CR1). Em síntese, em quase 80% dos municípios brasileiros, o principal provedor tem participação de mercado acima de 90%. Em mais de 90% dos municípios, essa participação supera 70%, e praticamente em todos os municípios a participação do principal provedor fica acima de 50%. Esses dados, apresentados por região geográfica, estão expostos na Tabela 3.
Tabela 3 – Percentual de municípios com CR1 acima do limiar indicado – setembro de 2009

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores.

Preços

A Tabela 4 traz os preços médios mensais para acesso fixo em banda larga nas capitais de estado, por região geográfica. Os dados foram coletados dos portais de internet dos três principais provedores de banda larga no Brasil. A tabela também expõe ponderações dos preços quanto às taxas de transmissão oferecidas pelos provedores e à renda per capita da região. O resultado confirma que os preços são mais baixos nas regiões mais ricas e mais densamente povoadas. Uma razão para isso é a existência de maior grau de competição nessas regiões.

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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação Tabela 4 – Preço mensal médio nas capitais de estado, por região geográfica – junho de 2010

Fonte: Extraído dos portais de internet dos três principais provedores de banda larga. Preparado pelos autores.

Comunicações móveis

O uso da telefonia móvel passou indubitavelmente por um acréscimo significativo no Brasil durante os últimos anos. Na Tabela 5, dois indicadores demonstram a magnitude desse crescimento. No período de uma década, os acessos móveis foram multiplicados por 12, e a densidade subiu quase 10 vezes. Ao final de 2008, a densidade da telefonia móvel já se aproximava do nível de 80 acessos por 100 habitantes. Apesar disso, o acesso ao serviço não se tornou tão difundido quanto se poderia inferir dessas estatísticas. De fato, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2008 do IBGE destacou que, naquele ano, apenas 86,4 milhões de pessoas tinham um telefone móvel pessoal. Isso corresponde a uma densidade efetiva de 46,0, o que está bem distante das avaliações feitas pela Anatel. Várias razões explicam essa enorme diferença. Primeiro, os operadores tendem a superestimar o número efetivo de telefones prépagos na sua rede e, portanto, um número desconhecido de linhas móveis não está realmente em uso. Segundo, os acessos móveis são empregados em um grande conjunto de aplicações: ramais corporativos, rastreamento de veículos, terminais para cartões de crédito, etc. Essas linhas também são contadas como acessos, mas não estão de fato expandindo a base de assinantes. Terceiro, executivos de alto escalão e outros usuários de tráfego intenso também tendem a ter duas linhas: uma para uso em serviço e outra para uso pessoal. Por fim, taxas elevadas para terminação de chamadas levaram a uma situação em que os operadores tendem a promover o tráfego interno à sua rede, geralmente oferecendo descontos expressivos ou grandes pacotes de minutos grátis para chamadas internas. Em
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contrapartida, o tráfego para outros operadores é tarifado pesadamente. Os usuários, por sua vez, se adaptaram a esse cenário, fazendo assinatura de linhas de mais de um provedor. Isso também explica por que os aparelhos móveis com dois e até mesmo três chips tiveram uma aceitação tão grande em todo o país. Logo, fica claro que uma grande parcela da população ainda não consegue usufruir dos serviços de telefonia móvel no Brasil, pois os seus preços ainda estão entre os mais altos do mundo.
Tabela 5 – Número de terminais móveis e densidade da telefonia móvel no Brasil

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores.

Com respeito à banda larga móvel, parece que o quadro anteriormente mencionado não mudará no curto prazo. As bandas de frequências para a terceira geração de serviços móveis (3G) foram leiloadas no fim de 2007. O processo de
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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

licitação resultou num excelente negócio para o governo, que arrecadou cerca de R$ 5 bilhões. No entanto, no nível do consumidor, esse tipo de investimento tende a aumentar os custos do serviço e direcionar a banda larga móvel para as classes de renda mais alta. Para reduzir esses efeitos, o modelo de licitação exigiu que os provedores de 3G cumpram com obrigações de cobertura. Em resumo, a Anatel impôs o seguinte: i) em 5 anos, todas as cidades com mais de 100.000 habitantes e metade das cidades com mais de 30.000 habitantes precisam ter cobertura; ii) em 8 anos, 60% das cidades com menos de 30.000 habitantes devem receber o serviço. Em relação a essas exigências, uma cidade será considerada atendida se os serviços de banda larga móvel estiverem disponíveis em mais de 80% da respectiva área urbana. Seguindo essas condições, apenas dois terços da população do país terão o serviço de banda larga móvel disponível no ano de 2016. Durante o ano de 2008, começou a implantação dos serviços de 3G. No fim de 2009, a Anatel informou que já havia mais de 8,7 milhões de linhas que contemplavam tecnologias de transmissão de dados, com a maior parcela alocada para o W-CDMA9 . Apesar de a difusão inicial do serviço ter sido mais rápida que o imaginado por reguladores e operadoras, o crescimento futuro dependerá não somente dos preços dos equipamentos 3G, que ainda estão muito altos, mas também do preço e qualidade dos planos de serviços. A competição nesse mercado ainda é limitada, devido a dois fatores: ainda resta uma licença de 3G para ser licitada, e a tecnologia WiMax10 ainda não foi aprovada pela Anatel para uso em terminais móveis. Considerações finais São dois os desafios trazidos pela convergência e que devem enfrentados pelas ações do governo. A primeira questão refere-se ao hiato digital. Na sociedade brasileira, marcada por fortes desníveis sociais, econômicos e culturais, a inclusão digital deve ser colocada como estratégia para diminuir essas desigualdades. Assim, a interferência do governo é fundamental para sinalizar aos agentes de mercado que não restrinjam seu atendimento às classes de maior renda e aproveitem as economias de escala para democratização das oportunidades geradas pela convergência. Dessa forma, as políticas públicas têm a missão de asseverar a justiça social e a possibilidade de utilização da tecnologia em todos os rincões do país, sendo necessária a definição de objetivos claros de fomento ao setor, voltados sobretudo à população de renda mais baixa. Vale a pena comparar o caso brasileiro com as soluções encontradas em países do Sudeste Asiático, onde os mercados de serviços de telecomunicações são muito
9 A tecnologia Wideband Code Division Multiple Access (W-CDMA) foi escolhida por todos os provedores de 3G no Brasil. 10 Worldwide Interoperability for Microwave Access

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competitivos e o processo de convergência já está em franco desenvolvimento. Mesmo com preços baixos – variando entre US$ 2 e US$ 5 por mês – e margens muito estreitas, o modelo de negócios se tornou viável. Entre outros fatores, isso foi conseguido pela combinação de ausência de risco de crédito, qualidade limitada dos serviços e alta taxa de utilização da rede. Devido ao sucesso desses modelos, essa é opção dos asiáticos em relação às políticas de universalização do serviço de acesso à internet em banda larga: encontrar novas formas de aumentar a competição no setor. O segundo desafio está relacionado à regulação de segmentos econômicos tão distintos como a prestação de serviços de telecomunicações, a criação de conteúdos audiovisuais e a produção de aplicativos de tecnologias da informação. Embora esses segmentos estejam gradualmente convergindo e se transformando para formar uma única indústria no futuro, as suas distintas origens geraram diferentes arcabouços regulatórios. Portanto, neste novo ambiente, o papel do Estado deve ir além da tradicional regulação econômica e tecnológica. É essencial articular as variantes regulatórias hoje existentes para assegurar diversidade, concorrência e atratividade ao novo arranjo mercadológico que se instalará. Assim, duas questões se interpõem. Primeiro, como garantir diversidade e concorrência e, ao mesmo tempo, garantir acesso aos serviços convergentes em todos os níveis da sociedade e em todas as regiões do país? E, segundo, quais são os mecanismos para tratar a possível transnacionalização de parte de nossa indústria geradora de conteúdo, considerando que esse processo ocorreu nos setores de telecomunicações e de informática? Em uma sociedade multicultural como a nossa, e agora multimídia, a defesa do pluralismo e da diversificação tanto de fontes de informação quanto de conteúdo parece ser o caminho para evitar a homogeneidade cultural. As políticas públicas de regulação econômica dos mercados de comunicações devem assegurar que os potenciais benefícios dessas tecnologias convergentes possam se difundir rapidamente na economia, bem como fomentar a heterogeneidade cultural típica da diversidade deste país. Para tanto, a convergência, alterando os limites e as características dos serviços, exigirá que os novos mercados sejam regulados de forma diferente dos existentes. Referências Bibliográficas Fiani, R. (1999). ‘Uma abordagem abrangente da regulação de monopólios: exercício preliminar aplicado a Telecomunicações’. Planejamento e políticas públicas, 19, 189-218. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2010). Análise e recomendações para as políticas públicas de massificação de acesso à internet em banda larga.
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Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação

Comunicado do Ipea nº 46. Brasília: o mesmo. Jaguaribe, A. (2010). Indústrias criativas. Disponível em http://portalliteral. terra.com.br, acessado em 03/11/2010. Macedo, H. & Carvalho, A. (2010). Serviço de acesso à internet em banda larga e seu possível impacto econômico: análise através de sistema de equações simultâneas de oferta e demanda. Texto para discussão nº 1495. Brasília: Ipea. Navas-Sabater, J.; Dymond, A. & Juntunen, N. (2002). Telecommunications and Information Services for the Poor. Washington, DC: World Bank. Qiang, C. (2009). Broadband infrastructure investment in stimulus packages: relevance for developing countries. Washington: World Bank. The Berkman Center for internet & Society (2010). Next generation connectivity: a review of broadband transitions and policy around the world. Cambridge: Harvard University.

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CAPÍTULO 3 Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações1
Fernanda De Negri2 Leonardo Costa Ribeiro 3

Introdução O setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) é um dos setores mais intensivos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e um dos maiores responsáveis pelos investimentos mundiais em P&D. Na economia norte-americana, por exemplo, cerca de 35% dos investimentos privados em P&D são feitos por empresas dos setores de TICs (tabela 1). Recentemente, um estudo realizado pela Comissão Europeia (Lindmark et al., 2008) mostrou que grande parte da distância existente entre Estados Unidos e Europa em termos de investimentos privados em P&D se deve ao setor de TICs4. O setor privado norte-americano investe 1,88% do produto interno bruto (PIB) em P&D, contra 1,19% do setor privado europeu. No setor de TICs, estes investimentos são de 0,65% do PIB nos EUA e 0,31% na Europa (tabela 1).
Tabela 1 – Investimentos privados em P&D como proporção do PIB: Europa, Estados Unidos e Brasil (%)

Fonte: Lindmark et al. (2008) e, para o Brasil, Ministério da Ciência e Tecnologia (indicadores disponíveis em: <http://www.mct.gov.br>) e Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PINTEC/IBGE) de 2005.

Não por acaso, o sétimo programa marco de P&D europeu5, que é o principal instrumento da Comunidade Europeia para o financiamento à pesquisa na Europa, entre 2007 e 2013, deu ênfase significativa para o setor de TICs. Este
1 O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações. 2 Diretora-adjunta da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Produção e Infraestrutura (Diset) do Ipea. 3 Analista do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) 4 Incluindo-se equipamentos, componentes e serviços de informática; equipamentos e serviços de telecomunicações; equipamentos de multimídia; e instrumentos de medição e controle 5. Ver: <http://cordis.europa.eu/fp7/home_es.html>.

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programa alocou €9 bilhões dos pouco mais de €50 bilhões previstos no plano para investimentos em pesquisas na área de TICs; é o maior montante previsto para um único setor do programa6. No caso brasileiro, as diferenças – em termos de recursos alocados em P&D – em relação aos EUA e à Europa são ainda mais marcantes. O setor privado brasileiro investe, segundo dados de 2008 do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), cerca de 0,5% do PIB em P&D, entre os quais apenas 20%, ou 0,1% do PIB, são realizados pelos setores de TICs. Entre os setores de TICs na Europa, os mais intensivos em P&D são o de equipamentos de comunicação e o de software e serviços de informática. Juntos, estes dois setores investiram quase €16 bilhões dos €31 bilhões investidos pelos setores de TICs na Europa em 2004 (Lindmark et al., 2008). Serviços de telecomunicações representam menos de 10% deste total, o que reflete a tendência, observada nos últimos anos, de redução da pesquisa por parte das operadoras de serviços e sua concentração nos fornecedores de equipamentos. Por sua vez, as empresas brasileiras nos setores de TICs investiram, em 2005, pouco mais de R$ 2 bilhões em P&D. Os setores que mais investiram foram os de software e serviços de informática (pouco mais de R$ 650 milhões), e o setor de serviços de telecomunicações (R$ 620 milhões). As empresas fabricantes de equipamentos de comunicação ficaram na terceira posição, com investimentos de pouco mais de R$ 550 milhões em P&D. Patentes das líderes mundiais em equipamentos de telecomunicações: tendências recentes7 Dado que o setor de equipamentos de telecomunicações é um dos destaques nas TICs, em termos de investimentos em P&D, cabe perguntar quais tipos de inovação vêm sendo desenvolvidos pelas principais empresas deste setor ao redor do mundo. Outra questão importante tem relação com o tipo de competências científicas que estão sendo demandadas para realizar estas inovações. Para isso, analisam-se, neste trabalho, as patentes registradas no United States Patent and Trademark Office (USPTO) pelas principais empresas mundiais fabricantes de equipamentos de telecomunicações , nos anos de 1990, 1998 e 2006. Embora existam questionamentos sobre a qualidade das patentes como indicador tecnológico, elas ainda constituem um dos poucos indicadores comparáveis mundialmente, e o único indicador que possibilita a análise feita neste artigo. As patentes foram, na tabela 2, agrupadas segundo a classificação de
6. Ainda assim, vale ressaltar os números apontados pelo terceiro artigo deste boletim, que mostram que os investimentos em P&D das maiores empresas do setor de TICs superam em muito esses valores. 7. Resultados preliminares.

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subdomínios tecnológicos proposta pelo Observatoire des Sciences et Techniques (OST). A primeira análise que se pode fazer diz respeito às variações nos principais domínios tecnológicos das patentes do setor nos últimos anos. O domínio tecnológico de telecomunicações – que contém patentes de equipamentos de rede, sistemas de comunicação e transmissão, antenas, radiodifusão etc. – é o mais expressivo, representando cerca de 24% das patentes registradas pelas empresas do setor. Entretanto, o mais interessante é verificar que outros domínios tecnológicos são também importantes nestas patentes, e que alguns têm ganhado espaço nos últimos anos. Componentes elétricos, ótica e semicondutores têm perdido espaço nas patentes destas empresas nos últimos anos, sugerindo que estes segmentos, ao contrário do que ocorria em outros períodos, não são os que estão impulsionando a fronteira tecnológica do setor. Por sua vez, cresce a importância da informática – que inclui computadores, memórias, periféricos etc. – nas patentes destas empresas, especialmente entre 1990 e 1998, o que evidencia a crescente convergência entre informática e telecomunicações e a também crescente integração entre empresas de ambos os setores.
Tabela 2 – Participação percentual dos principais domínios tecnológicos nas patentes das empresas do setor de fabricação de equipamentos de comunicação registradas no USPTO (1990, 1998, 2006)

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores.

Além da análise de subdomínios tecnológicos, a partir da observação das patentes depositadas no USPTO, é possível estudar as citações a artigos científicos existentes em cada patente. Estes artigos foram classificados em áreas científicas, a partir da classificação do Institute for Scientific Information (ISI). Identificando-se a área científica do artigo citado e o subdomínio tecnológico da patente, foram construídas matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas do setor de telecomunicações8 . Este exercício foi feito tanto para operadores (quadro
8. A metodologia utilizada baseou-se no trabalho de Albuquerque et al. (2009) e Ribeiro et al. (2009).

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1) quanto para fornecedores de equipamentos (quadro 2) e as matrizes podem ser observadas a seguir. No eixo OST, estão os subdomínios tecnológicos das patentes; no eixo ISI, as áreas científicas citadas9 e no eixo N, o número de vezes em que uma determinada área científica é citada pelas patentes de determinados domínios tecnológicos. Uma matriz mais completa significa maior interação entre produção tecnológica e produção científica.
Quadro 1 – Matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas líderes mundiais em serviços de telecomunicações: 1990 e 2006.

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores. Quadro 2 – Matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas líderes mundiais no setor de fabricação de equipamentos de comunicação (1990 e 2006)

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores.

O primeiro movimento importante que pode ser observado a partir dessas
9. A legenda para os domínios tecnológicos OST e áreas científicas ISI encontra-se no anexo

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matrizes é a redução da interação entre ciência e tecnologia no caso das empresas operadoras (quadro 1) em paralelo a uma maior diversificação desta interação no caso dos fornecedores de equipamentos (quadro 2). Embora o número absoluto de interações tenha crescido em ambos os casos, para as operadoras a diversidade de domínios tecnológicos e de áreas científicas se reduz drasticamente, evidenciando esta menor interação entre ciência e tecnologia. Por um lado, isso reflete o fato, já conhecido, de que as inovações tecnológicas no setor de telecomunicações passaram a ser realizadas muito mais pelos fornecedores de equipamentos que pelas operadoras. Por outro lado, o que também se pode observar a partir destes dados é que este movimento ocorre ao mesmo tempo que a pesquisa científica vai se tornando cada vez mais importante para as inovações dos fornecedores e cada vez menos relevante para as inovações desenvolvidas pelas empresas operadoras. Vale ressaltar que, no conjunto da economia, o movimento que pode ser observado é justamente o de ampliação da interação entre ciência e tecnologia. No caso dos fornecedores, paralelamente a um maior espalhamento das interações entre domínios tecnológicos e áreas científicas, refletido em poucos espaços vazios na matriz, também ocorre uma concentração dos picos de interação. Em 1990, as principais interações observadas na matriz eram, em primeiro lugar, entre o domínio tecnológico de telecomunicações e a área científica de engenharia eletrônica. A seguir vinham os semicondutores com física, e semicondutores com engenharia eletrônica; e, em quarto lugar, informática com engenharia eletrônica. Em 2006, o principal pico de interação se deu entre informática e engenharia eletrônica. A interação entre telecomunicações e engenharia eletrônica caiu para o segundo lugar, enquanto informática com outras engenharias e informática com ciência dos materiais passam a ser importantes picos de interação. Esses números, além de reforçarem o crescimento do domínio tecnológico de informática e a redução da importância dos semicondutores, mostram a emergência de outras áreas científicas. A área de outras engenharias (na qual está classificada a engenharia mecatrônica) e a ciência dos materiais, por exemplo, passaram a ser mais relevantes na produção de inovações no setor de telecomunicações. A engenharia eletrônica continua a ser a área científica mais relevante para o desenvolvimento tecnológico do setor, com praticamente 30% de todas as citações nas patentes das empresas de telecomunicações. A área de química inorgânica e engenharia química, assim como a área de outras engenharias (mecânica, mecatrônica), mantém sua importância ao longo dos últimos anos (cada uma destas duas áreas com cerca de 14% das citações feitas nas patentes). A física, por sua vez, perde relevância, enquanto ganha importância a ciência dos materiais como uma área emergente nas patentes das empresas de telecomunicações. Isto
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sugere, provavelmente, uma ampliação das pesquisas para a utilização de materiais diferenciados e/ou novos materiais (com maior condutividade, por exemplo) para a fabricação de equipamentos eletrônicos e de comunicação10 . Considerações finais Mais que chegar a conclusões definitivas, este trabalho pretendeu levantar questões que contribuam para que se possa avaliar as oportunidades e, especialmente, os grandes desafios para o setor de telecomunicações no Brasil. O setor de TICs é um dos mais dinâmicos em termos de inovações tecnológicas em âmbito mundial. Os investimentos em P&D pelos grandes players são extremamente significativos: sete das 20 maiores empresas inversoras em P&D no mundo pertencem ao setor. No Brasil, apesar de ser um dos mais inovadores em comparação com o conjunto da indústria brasileira, o setor de TICs investiu, em 2005, o equivalente a 0,1% do PIB (seção 1). Isto é muito pouco em comparação com países mais competitivos neste setor, embora seja maior que Portugal (0,05% do PIB) e Espanha (0,08%)11 , países conhecidos do Brasil no setor de telecomunicações. Além disso, no Brasil, ao contrário do que se observa nos países desenvolvidos, o segmento de serviços de telecomunicações continua sendo um dos que mais investem em P&D no conjunto das TICs. Enquanto isso, a tendência mundial tem sido, há vários anos, de ampliação dos investimentos em P&D dos fornecedores de equipamentos de comunicação, além, é claro, de crescimento da importância de setores de software e serviços de informática. Entretanto, o que explica esta diferença de posicionamento brasileiro pode não ser, necessariamente, a pujança tecnológica do país em serviços de telecomunicações, mas a baixa capacidade inovativa dos demais segmentos de TICs, relativamente aos países desenvolvidos. Se o Brasil pretende ser mais competitivo em telecomunicações e em TICs, de modo geral, é crucial ampliar significativamente os esforços tecnológicos do país nesta área. Para isso, é preciso contar, também, com a produção científica e com uma maior interação entre ciência e tecnologia. O que as matrizes de C&T mostram é que a produção científica tem se tornado cada vez mais fundamental para ampliar a inovação e o desenvolvimento tecnológico de um país ou setor de atividade. Apesar disso, no caso brasileiro, ainda é muito pequeno o número de empresas que utilizam os cientistas e a academia brasileira para dar suporte aos seus processos inovativos. Da mesma forma, ainda é muito pequeno o número de pesquisadores das universidades brasileiras envolvidos em parcerias com o setor privado.
10. A legenda para os domínios tecnológicos OST e áreas científicas ISI encontra-se no anexo 11. Lindmark et al., 2008.

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Existem outros desafios tão importantes quanto a interação entre ciência e tecnologia para que o Brasil possa construir e sustentar vantagens competitivas nas tecnologias de informação e comunicação. O certo é que, assim como a ampliação dos investimentos em inovação é condição necessária para o crescimento das TICs no Brasil, o próprio desenvolvimento destas tecnologias também é condição fundamental para a competitividade da economia brasileira como um todo. Referências Bibliográficas ALBUQUERQUE, E. et al. Atividades de patenteamento em São Paulo e no Brasil. In: FAPESP. Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo. cap. 5, 2009. LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D investment by the European ICT business sector. Joint Research Center (JRC), Reference Report, 2008. RIBEIRO, L. C. et al. Matrices of science and technology interactions and patterns of structured growth: implications for development. Scientometrics. 2009. Disponível em: <http://www.springerlink.com/ content/2174610530365460/fulltext.pdf>.

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Anexo

Áreas científicas – ISI
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27

Domínios tecnológicos – OST
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30

Mathematics Materials Science Electronic Engineering Nuclear Sciences Mechanical, Civil and Other Engineering Inorganic Chemistry and Engineering Analytical Chemistry Physical Chemistry Organic Chemistry Applied Physics Solid State Physics Geosciences Other Physics Ecology Food Science and Agriculture Biotechnology Microbiology General Biology Pharmacology and Pharmacy Public Health Pathology Neuroscience Reproduction Medicine and Geriatrics General Medicine Internal Medicine Research Medicine Immunology

Electrical components Audiovisual Telecommunications Information technology Semiconductors Optics Analysis, measurement and control Medical engineering Organic fine chemicals Macromolecular chemistry Pharmaceuticals and cosmetics Biotechnology Agricultural and food products Technical procedures Surface technology and coating Material processing Materials and metallurgy Thermal techniques Basic chemical processing Environment and pollution Machine tools Engines, pumps and turbines Mechanical components Handling and printing Agricultural and food machinery Transport Nuclear engineering Space technology and weapons Consumer goods and equipment Civil engineering and building

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CAPÍTULO 4 Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?1
Paulo A. Meyer M. Nascimento2

Introdução Este trabalho é um ensaio inicial de um estudo em andamento sobre capacitações científicas brasileiras. Espera-se que os dados apresentados e analisados, centrados em telecomunicações, contribuam com o debate em voga sobre as perspectivas brasileiras no setor, tema que permeia a discussão de todos os ensaios publicados nesta edição do Radar. As próximas seções buscarão indicar o caminho para se chegar a respostas a cinco perguntas relacionadas às capacitações científicas nacionais no setor de telecomunicações: a) Como estamos em relação a outros países? b) Com quem mais interagimos? c) O mundo nos escuta quando falamos em telecomunicações? d) O mundo nos escuta quando falamos do que mais quer ele ouvir sobre telecomunicações? e) Como estão distribuídas nossas competências internamente? Para perseguir esta finalidade, partiu-se da base de artigos indexados em periódicos internacionais que se encontra disponível no portal ISI/Web of Science, acessível às instituições que subscrevem o portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tendo sido limitada a busca para o período que compreende os anos de 2000 a 20103 . Cada uma das cinco seções que seguem traz como título uma das indagações elencadas no parágrafo anterior, e explora dados que ajudam a responder à sua respectiva pergunta-problema. A seção final traz algumas conclusões e suas possíveis implicações. Como estamos em relação a outros países? Para o período de 1º de janeiro de 2000 a 22 de setembro de 2010, o portal ISI/ Web of Science relata a existência de 383 artigos completos publicados sobre
1. O autor agradece o empenho de Leonardo Aguirre, Ligier Modesto Braga, Calebe Figueiredo, Gustavo Alvarenga e Thiago Araújo, fundamentais na organização de alguns dados e, principalmente, na elaboração do mapa 1. Agradecimentos também aos colegas do Ipea que contribuíram com sugestões e comentários. Erros e omissões remanescentes são de inteira responsabilidade do autor. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações. 2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea. 3. Contagem relativa a 2010 restrita aos artigos já indexados no portal ISI/Web of Science até 22/09/2010.

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telecomunicações em que ao menos um dos seus autores informa o Brasil como o país de sua atuação profissional. Este nível de produção revela uma contribuição ainda incipiente do Brasil para a produção científica global na área, conforme se pode depreender do gráfico 1. No gráfico 1, o desempenho pátrio aparece como o menor em um comparativo com outros 13 países. A produção brasileira entre 2000 e 2010 foi comparada à de Rússia, Índia e China (países que, junto com o Brasil, formam o acrônimo BRIC – gráfico 1a); à dos cinco países com maior investimento privado em pesquisa e desenvolvimento no setor de tecnologias da informação e da comunicação – TIC4 (Finlândia, Taiwan, Coreia do Sul, Suécia e Japão – gráfico 1b); e à dos cinco países com maior número de coautorias, depois dos Estados Unidos5, em artigos publicados com participação de brasileiros (França, Inglaterra, Canadá, Alemanha e Itália – gráfico 1c).
Gráfico 1 – Número de artigos sobre telecomunicações publicados entre 2000 e 2010 – Brasil e países ou blocos econômicos selecionados

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.v Obs.: Para fins de comparação, a produção brasileira não foi computada nos blocos que o Brasil integra (Mercosul e Aladi).
4. Segundo a Comissão Europeia, a partir de dados de 2004 e de 2007 relativos ao BERD (sigla em inglês para dispêndios empresariais em pesquisa e desenvolvimento) de firmas atuantes na área de TIC – ver Lindmark et al. (2008) e Turlea et al. (2010). 5. Os Estados Unidos, grande player em qualquer setor, foram deixados de fora dessa comparação pela dificuldade de se prospectar a sua produção total em telecomunicações valendo-se do portal ISI/Web of Science. A busca disponível fornece respostas até o limite de 100 mil observações. Como o filtro para produção específica em telecomunicações somente pode ser aplicado após a obtenção, para um dado ano, da produção total do país pesquisado, as respostas que retornavam para os Estados Unidos eram sempre subdimensionadas. Este mesmo problema sucedeu-se para a China, embora apenas para os anos de 2008 e de 2009. O leitor deve atentar para o fato de que os chineses podem já ter ultrapassado os sul-coreanos na produção científica em telecomunicações nos anos 2000, embora os números do gráfico 1 ainda não captem este movimento.

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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

A produção brasileira somente aparece com maior destaque quando comparada à proveniente de países integrantes de blocos econômicos formados por países latino-americanos ou por países africanos. Para esta comparação, o gráfico 1d exibe o desempenho brasileiro frente ao de blocos econômicos regionais da América Latina, África, Eurásia e do Sudeste Asiático – todos formados por outros países em desenvolvimento6. Apesar de muito atrás dos líderes, o Brasil é um dos que, no período, mais aumentaram a sua participação na produção científica em telecomunicações. Entre os países comparados, apenas a China teve crescimento mais ostensivo. O gráfico 2 mostra que a produção brasileira no triênio 2007-2009 (ou seja, final da última década) foi 384% superior ao do triênio 2001-2003 (início da década).
Gráfico 2 – Evolução da produção científica em telecomunicações nos anos 2000 – Brasil e países selecionados.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

Essa evolução brasileira indica que o país encontra-se em um processo de catching up em relação àqueles mais próximos da fronteira científica na área. Ainda assim, como a produção brasileira em telecomunicações continua sendo muito pequena em comparação com a dos países líderes, o país permanece longe de efetivamente aproximar-se destes. Para se ter uma ideia, mesmo que as taxas
6. Foram considerados no gráfico 1d os artigos publicados por pesquisadores de instituições sediadas nos demais países membros do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e da Associação Latinoamericana de Integração (Aladi), ou associados a eles, bem como das instituições sediadas nos países membros das ou associados às Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Também se buscou incluir a produção dos países membros da ou associados à Comunidade Caribenha (Caricom). No entanto, como o número de artigos publicados por pesquisadores de instituições sediadas em seus 20 países membros efetivos ou associados foi de apenas cinco no período de análise (2000-2010), este bloco econômico foi excluído da análise.

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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

de crescimento mostradas no gráfico 2 fossem mantidas exatamente iguais para as próximas décadas7, a produção total do Brasil desde 2000 somente ultrapassaria, ao final de 2019, a de Rússia, Finlândia e Suécia. Índia, Alemanha e Japão apenas ficariam para trás na década seguinte, quando o país se aproximaria de França, Inglaterra e Itália, países a serem ultrapassados ao longo da década de 2030. Taiwan, Canadá e Coreia do Sul chegariam a 2040 com produção científica em telecomunicações ainda em patamares entre três e seis vezes superiores aos do Brasil, enquanto a China já estaria a publicar cerca de 30 vezes mais artigos científicos na área que o Brasil, no acumulado desde 2000. A figura 1 retrata esta perspectiva.Inglaterra, Canadá, Alemanha e Itália – gráfico 1c).
Figura 1 – Posição do Brasil nas próximas décadas frente a países selecionados, mantidas as taxas do gráfico 2.

Elaboração do autor. Obs.: Números entre parênteses indicam intervalo estimado da quantidade acumulada de artigos publicados entre 2000 e 2040.

7. A manutenção nos próximos 30 anos da mesma tendência verificada nos últimos dez é improvável, uma vez que a trajetória dos países é dinâmica e sensível a uma série de fatores intervenientes, previsíveis ou não. De todo modo, o exercício ilustrado na figura 1 dá uma ideia das dificuldades de o Brasil alcançar uma posição de liderança em termos de capacitações científicas no setor, dado o quadro institucional sob o qual os artigos científicos sobre telecomunicações foram produzidos na última década.

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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

Com quem mais interagimos? Tendo em vista a condição do Brasil de país seguidor, identificar os países com os quais os pesquisadores brasileiros mais interagem torna-se importante não apenas por destacar por onde passam as conexões da parcela da academia que se debruça sobre o tema, mas também porque esta informação fornece indícios acerca de transferência de tecnologia envolvendo o Brasil no setor de telecomunicações. Assim, cabe perguntar: a) Os pesquisadores brasileiros interagem fortemente com os de outros países? b) Com que países mais interagem? c) Os campeões de popularidade entre os autores brasileiros fazem pesquisa em países líderes, seguidores ou colaboramos majoritariamente com quem anda atrás de nós mesmos em termos de capacitações científico-tecnológicas em telecomunicações? A coautoria com pesquisadores vinculados a instituições estrangeiras em 37,4% dos 383 artigos publicados entre 2000 e 2010 sugere que a resposta à primeira pergunta seja positiva. Afinal, este percentual assemelha-se ao de pesquisadores chineses (37,2%) e ao de pesquisadores canadenses (39,3%) no próprio setor de telecomunicações no mesmo período – junto com o Brasil, China e Canadá são os países cuja produção científica em telecomunicações mais tem crescido desde 2000 (gráfico 2). Ademais, a coautoria de brasileiros com estrangeiros é mais frequente na área de telecomunicações que no universo total de artigos publicados por brasileiros – destes, apenas 28,9% foram escritos em coautoria com estrangeiros. Por sua vez, a resposta ao segundo questionamento passa pela tabela 1, a qual apresenta o número de coautorias de brasileiros com pesquisadores vinculados a instituições sediadas em outros países. São, ao todo, 32 países com cujos pesquisadores os brasileiros estabeleceram parcerias em publicações no período analisado. No topo da lista, Estados Unidos e França. Em um segundo patamar, Inglaterra e Canadá aparecem com menos da metade do número de parcerias estabelecidas com pesquisadores da França, a segunda colocada. Bem abaixo, situa-se a Alemanha, com sete coautorias, e a Itália, com quatro. Um conjunto de seis países (China, Suécia, Espanha, Portugal, Suíça e Hungria) surge com apenas três. Daí por diante, Finlândia, Cuba e Argélia, com duas coautorias cada, antecedem uma lista de 17 países com os quais foram estabelecidas parcerias científicas unicamente com um pesquisador e em um artigo isolado.

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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área? Tabela 1 – Países cujos pesquisadores publicaram artigos sobre telecomunicações em coautoria com brasileiros entre 2000 e 2010.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor. Obs.: 1. Foram, ao todo, 171 coautores estrangeiros com quem os brasileiros escreveram 143 artigos. Obs.: 2. Os 17 países com os quais houve apenas uma vez coautoria de seus residentes com pesquisadores de instituições brasileiras foram: Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Trindade e Tobago, México, Gana, Líbia, Irlanda, Noruega, Dinamarca, Rússia, Polônia, Israel, Índia, Taiwan e Japão.

Examinar mais detidamente o desempenho dos países onde está a maioria dos parceiros de pesquisa dos brasileiros pode indicar a resposta ao terceiro item colocado no início desta seção. Os dados apresentados na figura 2 contribuem para isto. Nela estão informados, para o Brasil e para cada um dos seus parceiros em mais de três ocasiões, o contingente de artigos publicados e seus respectivos impactos revelados na área de telecomunicações nos triênios 2001-2003, 20042006 e 2007-2009.
Figura 2 – Brasil e seus principais parceiros acadêmicos no setor de telecomunicações – artigos publicados nos triênios 2001-2003, 2004-2006 e 2007-2009 e seus respectivos H-index.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor. Obs.: O eixo vertical remete ao número de artigos publicados. O tamanho das circunferências é proporcional ao H-index da produção, no respectivo triênio, dos países que representam. 98

Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

A quantidade de artigos publicados por cada país é informado pelo eixo vertical da figura 2, ao passo que o indicador de impacto utilizado, representado pelo tamanho das circunferências da figura 2, é o H-index8 . Trata-se de um fator calculado a partir da lista de publicações enumeradas pela ferramenta de busca do portal ISI/Web of Science. Estas publicações são ranqueadas em ordem decrescente de acordo com o número de citações recebidas por cada uma, e a partir disto o índice é calculado. O valor de h é igual ao número de artigos (N) presentes na lista que tenham sido citados N ou mais vezes no período observado. Assim, por exemplo, o H-index de valor oito atribuído ao Brasil no triênio 20072009 equivale a dizer que oito dos artigos sobre telecomunicações publicados por brasileiros nestes três anos foram citados oito ou mais vezes por artigos posteriores. A redução do H-index de um triênio para outro é natural: como este índice baseia-se no número de citações, artigos mais recentes tendem a ser menos citados nos primeiros anos seguintes à sua publicação que os que já estão disponíveis há mais tempo. Visto que os H-index informados na figura 2 referem-se aos artigos publicados em cada um dos três períodos, seu valor para um dado país no triênio t+1 é quase sempre menor que no triênio t. Dessa forma, comparações entre países devem ser feitas com base em: i) eventuais mudanças de posição entre eles ao longo do tempo; e ii) alargamento ou redução da distância entre seus H-index de um triênio para outro, assim mesmo tendo em mente que a distância entre os mais e os menos influentes tende a aumentar à medida que o tempo passa e os artigos são mais citados. Entre os parceiros preferenciais9 mostrados na figura 2, o Canadá foi o que maior impacto apresentou em todos os três períodos – e, nos últimos dois, sua produção foi líder também em quantidade de artigos. Em termos de H-index, Alemanha, Itália e Inglaterra vinham invertendo posições entre si nos dois primeiros triênios, mas, até a data de levantamento dos dados para este estudo10 , a Itália foi o único destes três países cujos artigos publicados no último triênio da década aproximaram-se dos canadenses na medida de impacto apresentada. Por seu turno, a Inglaterra destacou-se mais pela quantidade, sempre superior às de Itália e Alemanha e, no triênio inicial, à do próprio Canadá. A Alemanha perdeu terreno tanto em quantidade quanto em qualidade, encerrando o ciclo atrás da França em ambos os aspectos. Esta publicava artigos de menor impacto no início da década, mas no último triênio seu H-index, além de superar o da Alemanha, já havia alcançado o da Inglaterra. Os dados da figura 2 sugerem que parcerias com pesquisadores canadenses e
8. O H-index foi desenvolvido por J.E. Hirsch, que o divulgou pela primeira vez em Hirsch (2005). 9. O H-index não foi calculado para a produção estadunidense pelas razões expostas na terceira nota de rodapé. 10. A saber, 22 de setembro de 2010

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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

italianos deveriam ser mais incentivadas, aproveitando-se as conexões já existentes com estes países para intensificar-se a produção com pesquisadores mais próximos da fronteira científica do setor. De todo modo, França, Inglaterra e Alemanha estão também mais próximas da fronteira de conhecimento na área que o Brasil. Vale destacar, ademais, que, embora apenas três chineses tenham trabalhado em coautoria com brasileiros em artigos sobre telecomunicações entre 2000 e 2010 (tabela 1), a intensificação de parcerias com pesquisadores de instituições chinesas seria desejável nesta área. Pelo menos três dados apresentados neste estudo justificam esta posição: i) a China está entre os países que mais produzem artigos sobre telecomunicações (gráfico 1); ii) é o país cuja produção na área mais cresce entre os países confrontados no gráfico 2; iii) seu H-index na área foi de 18 no triênio 2007-2009, igualando-a à Itália e deixando-a atrás apenas do Canadá, em termos de impacto das publicações, entre os países plotados na figura 2. Os números apresentados, portanto, sugerem que as respostas às indagações que abrem esta seção sejam afirmativas: a base científica brasileira, além de dispor de um bom número de conexões com o exterior, as estabelece com um conjunto de países mais influentes que o Brasil na área. Apesar disso, ressalte-se que alguns dos mais influentes deste conjunto têm ainda um grau de interlocução apenas intermediário ou mesmo incipiente com os pesquisadores brasileiros. E quanto à nossa própria produção? O que se pode destacar sobre seu grau de influência no mundo científico? O mundo nos escuta quando falamos de telecomunicações? A figura 2 mostra que os artigos publicados por brasileiros na área de telecomunicações na última década têm quantidade e qualidade menor que os artigos publicados por residentes dos países de seus principais parceiros. A escala da produção nacional chegou a ser, no primeiro triênio da década de 2000, de 11 a 16 vezes menor que a de seus parceiros preferenciais plotados na figura 2. Nos dois triênios seguintes, graças ao maior crescimento relativo da produção brasileira (gráfico 2), o contingente de artigos brasileiros publicados oscilou entre patamares de quatro a dez vezes inferiores aos verificados para tais parceiros. O H-index dos artigos brasileiros evoluiu de dez, no triênio 2001-2003, para 12, no triênio seguinte, ficando em oito no triênio final da década. Esse desempenho é, por um lado, substancialmente menor que o de Canadá, Itália, Inglaterra, França e Alemanha. Por outro lado, os artigos brasileiros mais recentes na área vêm se tornando relativamente mais influentes. O H-index brasileiro para 2004-2006 foi maior que o observado para 2001-2003, embora o esperado fosse o contrário, pelo fato de o H-index tender a ser menor quanto mais recente o artigo. O H-index de valor oito verificado para o último triênio
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Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações: o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

deixou o Brasil qualitativamente menos distante dos demais países ilustrados na figura 2 que os índices alcançados nos triênios anteriores. A escala e a influência brasileira no meio científico têm, portanto, crescido, no que tange a telecomunicações. Este crescimento, todavia, ainda é marginal. Além disso, cabe investigar o impacto dos artigos brasileiros sobre os temas de maior atração de investimentos e sobre as tecnologias de fronteira do setor de telecomunicações. O mundo nos escuta quando falamos do que mais quer ele ouvir sobre telecomunicações? Szapiro (2009) aponta três temas como os de maior atração de investimentos no campo das telecomunicações: banda larga, mobilidade e redes de nova geração. A produção brasileira tem sido de maior impacto nestes temas que no setor como um todo?
Tabela 2 – Quantidade e H-index para artigos sobre telecomunicações publicados no período 2000-2010 abordando os tópicos relacionados a banda larga, mobilidade e redes de nova geração.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

A tabela 2 traz, inclusive, o desempenho estadunidense nesses tópicos. Isto foi possível porque, ao se restringir a busca inicial aos tópicos de interesse, a produção total dos Estados Unidos não superou o máximo suportado pelo sistema de buscas do portal. O H-index dos Estados Unidos, no caso em tela, alcançou 56, bem acima dos 21 que a Inglaterra exibe na segunda posição. O valor de quatro para o Brasil sinaliza que o país está ficando para trás na produção de conhecimento nos temas de maior potencial de atração de investimentos. Esta tendência mostra-se ainda mais acentuada quando são buscados artigos sobre as tecnologias apontadas como mais promissoras no setor no curto prazo. Silva Mello (2010), citando Gartner (2010), identifica as dez tecnologias que deverão ter maior difusão no mercado de TIC até o final de 2011.
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A tabela 3 mostra, por país, o número de artigos (e seus H-index) encontrados sobre elas no Portal ISI/Web of Science para o período de 2000 a 2010. O desempenho brasileiro mostra-se ainda mais frágil que o verificado na tabela 2 para os vetores de investimento apontados por Szapiro: somente cinco artigos foram identificados sobre as tecnologias a que se referem Silva Mello e Gartner11.
Tabela 3 – Quantidade e H-index para artigos sobre telecomunicações publicados no período 2000-2010 abordando os tópicos relacionados às dez tecnologias principais no curto prazo (2010-2011) Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

Onde estão distribuídas nossas competências internamente? Cumpre observar por onde está distribuída a massa crítica em telecomunicações no território brasileiro. O mapa 1 ilustra isto. Os estados líderes na produção científica em telecomunicações estão no Sudeste: São Paulo (192 artigos), Rio de Janeiro (103) e Minas Gerais (64). Receberam essa alcunha por apresentarem produção bem acima dos demais. Um segundo grupo, denominado seguidores ou emergentes, abrange os três estados da região Sul, mais Pernambuco, Ceará e Paraíba, com produções que variaram de 13 (Santa Catarina) a 34 (Paraná) artigos. A produção em telecomunicações, entre 2000 e 2010, mostrou-se ainda incipiente no Amazonas, Pará, Maranhão, Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Bahia e Goiás – estados nos quais o número de artigos indexados não ultrapassou a marca de sete. Pesquisadores de instituições do Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Piauí e Mato Grosso do Sul não publicaram, no período analisado, artigos sobre telecomunicações que tenham sido indexados nos periódicos internacionais constantes da base ISI/Web of Science. Os três estados líderes do mapa 1 são também os de maior produto
11. Os termos utilizados na busca no portal, definidos a partir de Silva Mello (2010), foram: bluetooth, mobile web, low energy, mobile widget, platformindependent mobile AD tool, app store, enhanced location awareness, mobile broadband, touchscreen, machine to machine, device-independent security, e suas variações e siglas.

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interno bruto (PIB). Em pesquisa sobre telecomunicações, a liderança dos três é devida principalmente às capacitações já consolidadas em seis instituições neles localizadas12 . É possível que a localização na região Sudeste do centro decisório das maiores companhias do setor atuantes no mercado brasileiro também contribua para este resultado. Some-se a isto o peso das fundações de amparo à pesquisa destes estados na disponibilidade de recursos13 e decerto suas receitas de sucesso estarão formuladas.
Mapa 1 – Estados brasileiros segundo seus níveis de produção científica em telecomunicações entre 2000 e 2010

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração de Ligier Modesto Braga. Obs.: A classificação dos estados está de acordo com o número de artigos atribuídos a pesquisadores vinculados a instituições sediadas em seus territórios.

Os estados da região Sul, no mapa 1 entre os emergentes em pesquisa
12. Pesquisadores vinculados à Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de São Paulo (USP) ou ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) participam de quase 65% dos artigos atribuídos aos três estados líderes. 13. Juntas, as fundações de amparo à pesquisa de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (FAPESP, FAPERJ e FAPEMIG) apareceram em 20,2% das vezes em que houve informação sobre fontes de financiamento nos artigos aqui considerados. Depois do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estas três fundações somadas foram a principal fonte de financiamento dos artigos com participação de brasileiros em que seus autores declararam ter acessado algum recurso externo para a sua elaboração. Juntas superaram, inclusive, a Capes. De todo modo, vale destacar que em apenas 72 dos 383 artigos brasileiros analisados houve declaração de alguma fonte de financiamento externa.

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no setor, também são estados com PIB elevado para os padrões brasileiros 14. Ademais, têm tradição em pesquisa15 . Ceará, Pernambuco e Paraíba, por sua vez, são estados mais pobres, suas fundações de amparo à pesquisa não estão entre as de maior orçamento e somente duas de suas instituições de pesquisa (a Universidade Federal de Pernambuco e a Universidade Federal do Ceará) figuraram entre as 20 instituições brasileiras em número de artigos publicados em todas as áreas desde 2007. Um exame mais detalhado da trajetória em pesquisa destes três estados nordestinos poderia lançar luz, no futuro, sobre as causas que concorreram para seu sucesso na área de telecomunicações. Apesar de não ser possível atribuir esse sucesso ao fator citado a seguir tão somente com os dados aqui utilizados, vale destacar que, em muitos momentos da década de 2000, as taxas de crescimento dos gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) dos estados seguidores foram maiores que a taxa nacional. No biênio 2003-2004, em relação ao biênio anterior, tais taxas foram de 30% a 60% maiores na Paraíba, Santa Catarina, Paraná e Ceará que as taxas nacionais. Em 20072008, em relação a 2005-2006, Paraíba, Santa Catarina e Ceará continuaram com desempenho semelhante16 , aos quais se equiparou Pernambuco. O mapa 1 mostra, ainda, a distribuição, por estado, dos 33 artigos identificados em temas relacionados a banda larga, mobilidade e redes de nova geração – os vetores de crescimento dos investimentos, segundo Szapiro (2009). Os cinco artigos publicados sobre as dez tecnologias de destaque segundo previsão de Gartner (2010) para 2010-2011 envolveram instituições de seis estados: Amazonas, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná – indicados no mapa com pontos de exclamação. Considerações finais Os dados apresentados sugerem que o Brasil encontra-se em processo de catching up com os países de ponta na produção científica em temas diretamente associados ao setor de telecomunicações. Os pesquisadores brasileiros da área têm demonstrado capacidade de interlocução com seus pares de outros países em proporção maior que a base científica nacional em geral, e têm estabelecido parcerias com instituições localizadas em alguns dos países mais produtivos em pesquisas relacionadas ao setor.
14. Em 2007, o PIB do Rio Grande do Sul foi o quarto do país, enquanto o do Paraná foi o quinto, e o de Santa Catarina, o sétimo (fonte: IBGE). 15. Dos artigos com participação de pesquisadores brasileiros publicados em todas as áreas desde 2007, indexados no Portal ISI/Web of Science até 22 de setembro de 2010, perto de um quarto deles tiveram entre os autores ao menos um pesquisador vinculado a alguma instituição sediada na região Sul do Brasil. Cinco delas despontaram entre as 20 mais produtivas do país no período. 16. Em um desses estados, o incremento nos gastos de P&D entre 2007 e 2008 chegou a ser quase 160% maior que a taxa nacional. Todas essas taxas foram calculadas com dados disponíveis no site do Ministério da Ciência e Tecnologia <www.mct.gov.br>, acessado em 24 de setembro de 2010.

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Ainda assim, o país prossegue longe do nível de produção científica dos líderes. Tanto que, mesmo com a tendência recente bastante favorável, um salto ainda mais significativo seria necessário para o Brasil efetivamente se aproximar do papel já desempenhado ou a ser assumido por países como EUA, China e Coreia do Sul. Esta diferença é ainda maior quando é investigada a produção nos temas mais próximos da fronteira tecnológica em telecomunicações. Esse conjunto de resultados sugere à primeira vista que, para vir a exercer um papel de liderança no setor de telecomunicações, o Brasil necessitaria de avanços ainda mais significativos que os que já vem apresentando em termos de capacitações científicas. É possível que a emergência de uma grande empresa nacional competitiva internacionalmente viesse a gerar transbordamentos positivos sobre a base científica – transbordamentos estes hoje limitados, tendo em vista o atual ecossistema brasileiro de telecomunicações, no qual a indústria nacional mostra-se pouco inovativa e essencialmente reativa às tendências globais, como identifica o ensaio das próximas páginas17. De qualquer forma, dado o cenário corrente, um eventual champion brasileiro teria que inicialmente importar algumas competências científicas, sobretudo as mais próximas da fronteira tecnológica do setor, sem o domínio das quais dificilmente geraria inovações competitivas. Não obstante essas restrições, cabe destacar três fatos positivos: i) a crescente produtividade da base científica já instalada no país; ii) sua distribuição por diferentes regiões, inclusive por aquelas menos tradicionais em P&D; e iii) sua boa interlocução com a base de outros países. Isto indica que, com investimentos corretos e bem canalizados às tecnologias de fronteira, aliados ao estreitamento de parcerias estratégicas com países avançados no tema, o Brasil poderá, em cerca de três décadas, desenvolver as competências necessárias para tornar-se um respeitável player global em telecomunicações. Referências Bibliográficas GARTNER. 10 mobile technologies to watch in 2010 and 2011, Gartner Inc., Apr. 2010. Disponível em: <http://www.gartner.com>. HIRSCH, J. E. An index to quantify an individual’s scientific research output. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS), vol. 102, n. 46, p. 16569-16572, Nov. 2005. KUBOTA, L. C.; DOMINGUES, E.; MILANI, D. A importância da escala no mercado de equipamentos de telecomunicações. Radar n. 10, Brasília: Ipea, out. 2010.
17. Ver Kubota, Domingues e Milani (2010).

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LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D Investment by the European ICT business sector. Joint Research Center (JRC), Reference Report, Luxemburgo: Comissão Européia, 2008. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA (MCT). Indicadores nacionais de ciência e tecnologia. Disponível em: <http://www.mct.gov.br>. Acesso em: 24 de set. 2010. PORTAL ISI/WEB OF SCIENCE. Disponível em: <http:// apps.isiknowledge.com/WOS_GeneralSearch_input.do?highlighted_ tab=WOS&product=WOS&last_prod=WOS&SID=1Aio587Hf4jj8jFc68d&se arch_mode=GeneralSearch>. Acesso em: 22 de set. de 2010. SILVA MELLO, L. Política industrial para o setor de equipamentos de telecomunicações no Brasil. In: Desafios e oportunidades para o setor de telecomunicações no Brasil, Ipea, Brasília, 15 set. 2010. SZAPIRO, M. Sistema produtivo de eletrônica: subsistema de equipamentos de telecomunicações. Rio de Janeiro: Projeto Perspectivas de Investimento no Brasil, 2009. TURLEA, G. et al. The 2010 report on R&D in ICT in the European Union. Joint Research Center (JRC), Reference Report, Luxemburgo: Comissão Europeia, 2010.

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CAPÍTULO 5 Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações1
Luis Claudio Kubota2 Edson Domingues3 Daniele Nogueira Milani4

Introdução O setor de tecnologias da informação e comunicação (TICs) é um dos mais dinâmicos em termos de inovações tecnológicas em âmbito mundial. Em alguns de seus segmentos, como o de aparelhos de telefonia, incluem-se ícones de consumo, como o iPhone. Estima-se que o mercado de equipamentos de telecomunicações cresça de 133 bilhões de euros em 2009 para 150 bilhões de euros em 2013, segundo estimativas da firma de pesquisa de mercado Idate (COLCHESTER, 2010). O investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizado pelos grandes atores internacionais é extremamente significativo. Segundo dados da União Europeia, o setor de TICs é aquele que apresenta os maiores gastos em P&D no conjunto das economias estadunidense, japonesa e europeia, representando 25% dos gastos empresariais em P&D e empregando 32,4% dos pesquisadores, apesar de responder por apenas 4,8% do produto interno bruto – PIB (TURLEA et al., 2010). Oito das 20 maiores empresas inversoras em P&D no mundo atuam no setor, conforme ranking da Booz & Co (JARUZELSKI e DEHOFF, 2009). Os dados da tabela 1 permitem observar as 20 firmas do setor com maiores gastos em P&D. Em destaque estão indicadas as firmas classificadas como fabricantes de equipamentos de telecomunicações.

1. Versão condensada e atualizada do relatório setorial sobre indústria de tecnologia da informação e comunicação Projeto: Determinantes da acumulação de conhecimento para inovação tecnológica nos setores industriais no Brasil. Belo Horizonte: ABDI, 2009. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações. 2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea. 3. Professor do Centro de Planejamento e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG). 4. Pesquisadora do Programa de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) no Ipea.

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Tabela 1 – Vinte firmas de TICs com maiores gastos em P&D (2007)

Fonte: Turlea et al. (2010).

A necessidade de escala norteou a fusão de grandes grupos econômicos, como a Alcatel-Lucent e Nokia Siemens Motorola. Segundo analistas de mercado, a escala é fundamental neste negócio5 . Não obstante o porte destas empresas, seu desempenho financeiro não é muito animador, em parte devido à concorrência baseada em preço dos concorrentes chineses. A Alcatel-Lucent, por exemplo, só obteve lucro em dois dos últimos oito trimestres (COLCHESTER, 2010). A Nokia-Siemens teve prejuízo operacional de € 1,6 bilhão em 2009 (DAS e CHON, 2010). No mercado brasileiro, a indústria de informática – protegida pela Lei
5. “Não podemos visualizar a Alcatel-Lucent dando lucro simplesmente porque ela ainda é formada por vários negócios pequenos sem muita escala”, diz Richard Windsor, analista da Nomura (Colchester, 2010, p. B12). Comentário sobre a aquisição de divisão da Motorola pela Nokia Siemens: “Isso também significa mais escala, e a escala comanda tudo nesse negócio: quando mais escala você tem, mais lucro pode gerar”, escreveu o analista Pierre Ferragu, da Sanford C. Bernstein (Das e Chon, 2010).

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de Informática – e o setor de telefonia – cujas compras de equipamentos eram realizadas pelo sistema Telebrás – sofreram profundas modificações decorrentes da abertura de mercado e da privatização. A década de 1990 caracterizou-se por um forte ingresso de empresas estrangeiras que, em alguns casos, passaram a ter no Brasil plantas voltadas para exportação, especialmente no caso de aparelhos celulares. O setor apresenta características ambíguas no Brasil. Por um lado, tem indicadores de inovação e de esforço tecnológico mais elevado que a média do setor industrial, em função das características já citadas. Por outro lado, o setor apresenta duas fraquezas estruturais, que têm relação entre si. Em primeiro lugar, existe uma forte dependência da importação de componentes eletrônicos, que têm importância crescente no valor agregado dos produtos. Em segundo lugar, as firmas brasileiras em geral não participam da determinação dos novos padrões tecnológicos (como o LTE), que é feita por meio de alianças entre grandes corporações internacionais, em alguns casos com participação governamental. Neste mercado, as economias de rede são cruciais para a competitividade.
Figura 1 – Comparação entre os ecossistemas de telecomunicações europeu e brasileiro

Fonte: Spadinger (2010).

Além dessa baixa participação em órgãos de padronização, a figura 1 capta outras características do mercado brasileiro. Uma delas é a visão de curto prazo, quando se compara com mercados maduros, como o europeu. Outra é a de que o mercado brasileiro é – salvo exceções – “seguidor”, no qual se analisam e se filtram
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desenvolvimentos tecnológicos realizados inicialmente no exterior. A relação entre operadoras e fornecedores no mercado europeu é marcada por uma mistura de cooperação e competição (“coopetition”, em inglês), na qual as partes, ao mesmo tempo que colaboram, competem pelos resultados das inovações. A Verizon, por exemplo, criou o LTE Innovation Center em Massachussets, um laboratório de 2.450 m², no qual os fabricantes de eletrônicos podem testar novos produtos em uma rede 4G totalmente funcional. Alcatel-Lucent e Ericsson Wireless fizeram uma parceria com a Verizon e proporcionam apoio técnico para os fabricantes de aparelhos (THOMSON, 2010). Conforme pode ser observado em outro artigo publicação – Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações –, a produção científica brasileira no setor fica muito aquém do que se verifica em outros países. Este estudo apresenta um levantamento do esforço tecnológico do setor de equipamentos de telefonia e transmissores de rádio e TV (anexo 1), procurando identificar sua cadeia produtiva e seus indicadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Cadeia produtiva Uma matriz de insumo-produto revela as ligações entre os setores econômicos nas compras e vendas de produtos entre os setores, no uso de fatores de produção (capital e trabalho) e nas vendas dos setores para os componentes da demanda final. Para o propósito deste estudo, uma matriz insumo-produto foi construída a partir das informações disponibilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2008) e dos dados obtidos pela equipe. Assim, procedeu-se à abertura setorial da matriz para os setores em foco, quando necessário. Os dados utilizados nesta etapa foram obtidos da Pesquisa Industrial Anual (PIA), do IBGE, de 2005, e se referem à utilização de insumos intermediários e valor bruto da produção. A identificação das cadeias produtivas seguiu a metodologia tradicional (Haguenauer et al., 2001). A delimitação das cadeias produtivas dos setores analisados considerou as transações de maior valor, até o total de 70% do consumo e/ou fornecimento intermediário. Foram desconsiderados, neste cálculo, para cada setor, o autoconsumo (intrassetorial), os serviços e os insumos de uso difundido (tanto compras quanto vendas). A partir da matriz de insumo-produto, foi desenvolvido um modelo de insumo-produto, que gerou os multiplicadores de produção e emprego dos setores analisados, seguindo o padrão da literatura (por exemplo: Miller e Blair , 1985).

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As vendas setoriais foram decompostas em quatro categorias para a demanda final: exportações, consumo das famílias, formação bruta de capital fixo (investimento) e outras demandas (consumo do governo e variação de estoques). A demanda intermediária corresponde ao consumo de todos os setores produtivos da economia.
Tabela 2 – Distribuição da demanda do setor de aparelhos de telefonia e transmissores de TV, por categoria da demanda final e intermediária (2005)

Fonte: IBGE (2008). Elaboração dos autores.

Os dados da tabela 2 indicam que o investimento (R$ 14,7 bilhões) e o consumo das famílias (R$ 8,1 bilhões) são os maiores componentes da demanda final do setor. Os setores de serviços representam 70% das vendas intermediárias. As exportações aparecem como um componente menos significativo da demanda do setor, corroborando os resultados apresentados no artigo Balança comercial de equipamentos de telecomunicações desta edição do Radar. Na figura 2, é possível observar que o setor de material eletrônico básico mostra-se como fornecedor importante de aparelhos de telefonia. Esta ligação é exemplo de importantes elos entre as cadeias produtivas dos setores de TIC.

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Figura 2 – Cadeia produtiva do setor aparelhos de telefonia e transmissores de TV, 2005 (em R$ milhões)

Fonte: IBGE (2008). Elaboração dos autores.

Indicadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação No âmbito do projeto Determinantes da acumulação de conhecimento para inovação tecnológica nos setores industriais no Brasil, desenvolvido em parceria entre o Ipea e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), as firmas foram classificadas em líderes, seguidoras, frágeis e emergentes (anexo 2). A tabela 3 apresenta variáveis selecionadas para o setor de equipamentos de telefonia e transmissores de rádio e TV, de acordo com esta classificação e a origem de capital. Consideram-se apenas firmas com 30 ou mais pessoas ocupadas. É possível constatar que as firmas estrangeiras operam em uma escala muito superior à das congêneres nacionais, mesmo no mercado brasileiro. A remuneração média por pessoa ocupada nas firmas líderes estrangeiras é de R$ 76 mil/ano, contra R$ 28 mil/ano nas líderes nacionais. Mesmo a remuneração média das seguidoras estrangeiras é superior à das líderes nacionais: R$ 36 mil/ano. Com relação à receita média por empresa, as líderes estrangeiras faturam R$ 2 bilhões por firma, contra R$ 20 milhões das líderes nacionais. O faturamento médio das seguidoras estrangeiras é de R$ 518 milhões, contra R$ 21 milhões das seguidoras nacionais. A receita líquida de vendas (RLV) das firmas estrangeiras supera os R$ 23 bilhões, ao passo que a RLV das brasileiras é de R$ 1,1 bilhão. No que diz respeito aos gastos com atividades inovativas, é possível observar que, em relação ao
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Tabela 3 – Variáveis selecionadas das empresas do setor de equipamentos de telefonia e transmissores de TV, conforme origem do capital e categoria – firmas com 30 ou mais pessoas ocupadas (2005)

Fonte: Dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) e Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (PINTEC), do IBGE; da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE); e da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Elaboração dos autores. Obs.: Valores monetários atualizados pelo IPCA até 2009 (inclusive).

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faturamento, os dispêndios das firmas líderes nacionais são até superiores aos das líderes estrangeiras (6,5% contra 3,3% da RLV, respectivamente). Entretanto, em termos absolutos são muito inferiores, e pouco expressivos quando comparados ao que se observa na tabela 1. Os gastos em P&D de algumas firmas estrangeiras são muito superiores ao faturamento das firmas nacionais. Não se observou a ocorrência de firmas emergentes, e os valores das firmas frágeis estrangeiras foram omitidos por motivo de confidencialidade. Esta situação de mercado é fruto – em grande parte – da principal política industrial para o setor: a Lei de Informática. Esta lei incentivou a instalação de firmas estrangeiras no Brasil, prevendo incentivos fiscais em contrapartida a gastos em atividades de P&D no país. Maiores escalas de produção costumam estar associadas a maiores indicadores de produtividade. Os dados indicam que as firmas estrangeiras apresentam maior produtividade do trabalho. O VTI por pessoa ocupada das líderes estrangeiras (R$ 385 mil) é mais de três vezes superior ao das líderes nacionais (R$ 120 mil). O valor do mesmo indicador para as seguidoras estrangeiras (R$ 219 mil) é quase duas vezes superior ao das líderes nacionais. Considerações finais Os resultados apresentados neste artigo são uma pequena parte de um extenso relatório desenvolvido em parceria entre o Ipea e a ABDI. Este relatório contemplou não apenas o setor de aparelhos de telefonia e transmissores de TV, mas também o de máquinas para escritório e equipamentos de informática, material eletrônico básico, rádio, TV, som e vídeo. As firmas estrangeiras atuam com uma escala de operação de outra grandeza, quando comparadas às firmas nacionais, no mercado brasileiro. Embora os gastos das líderes brasileiras em atividades inovativas sejam – em proporção ao faturamento – superiores aos das líderes estrangeiras, em termos absolutos o total despendido pelas firmas brasileiras é muito inferior ao gasto pelas multinacionais. Comparando-se com valores gastos pelas grandes corporações internacionais que atuam no setor de computação e eletrônica, tratase de valores pouco expressivos. Visto que a maior parte das atividades de P&D das multinacionais é concentrada nos países centrais, uma comparação entre dispêndios em P&D não pode desconsiderar os valores gastos pelas corporações estrangeiras no exterior. É preciso ressaltar que os dados da tabela 3 não permitem separar com segurança os equipamentos de rede de telecomunicações dos aparelhos telefônicos e equipamentos transmissores de TV. Desse modo, é razoável supor que uma
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parcela considerável dos valores apresentados refere-se a aparelhos telefônicos, e é possível ter uma ordem de grandeza a partir dos valores apresentados na tabela 2, que discrimina o consumo das famílias do consumo intermediário e do investimento. Por seu turno, os valores referentes a equipamentos de rede de telecomunicações das empresas nacionais eram ainda menos expressivos que os apresentados na tabela 3. É importante frisar também que os dados referem-se unicamente a empresas de manufatura. Alguns dados indicam que se trata de um mercado no qual é difícil se obterem bons resultados financeiros, em parte devido à concorrência dos produtos de baixo custo fornecidos pelas concorrentes chinesas. Esta análise de mercado está sendo aprofundada em outro estudo. Referências Bibliográficas COLCHESTER, M. Alcatel muda mentalidade para tornar-se mais ágil. Valor Econômico, p. B12, 21 set. 2010. DAS, A.; CHON, G. Dúvidas ainda cercam Nokia Siemens. Valor Online, 22 jul. 2010. HAGUENAUER, L. et al. Evolução das cadeias produtivas brasileiras na década de 90. Brasília: Ipea, p. 61, 2001. (Texto para Discussão n. 786). INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Matriz Insumo-Produto 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2008. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Matriz_insumo-produto/MIPN55/2005.zip>. Acesso em: set. de 2008. JARUZELSKI, B.; DEHOFF, K. Profits down, spending stedy: the global innovation 1000. Strategy and Business, n.57, Winter 2009. MILLER, R. E.; BLAIR P. D. Input-output analysis: foundations and extensions. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1985. THOMSON, A. De carros a cafeteiras, Verizon quer tudo conectado sem fio. Valor Econômico, p. B3, 23 set. 2010. SPADINGER, R. Uma breve comparação entre os modelos de inovação europeia e brasileira no mercado de telecomunicações. Ipea, Brasília, fev. 2010. TURLEA, G. et al. The 2010 report on R&D in ICT in the European Union. Luxembourg: European Commission, 2010.

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Anexo 1 Descrição do escopo deste artigo, conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) 1.0 32.2 Fabricação de aparelhos e equipamentos de telefonia e radiotelefonia e de transmissores de televisão e rádio. 32.21-2 Fabricação de equipamentos transmissores de rádio e televisão e de equipamentos para estações telefônicas, para radiotelefonia e radiotelegrafia, inclusive de microondas e repetidoras. 32.22-0 Fabricação de aparelhos telefônicos, sistemas de intercomunicação e semelhantes. Anexo 2 – Categorização das firmas Empresas líderes: i) inovadora de produto novo para o mercado e exportadora com preço-prêmio; ou ii) inovadora de processo novo para o mercado, exportadora e de menor relação entre custo e faturamento (quartil inferior). Empresas seguidoras: i) demais exportadoras não líderes; ou ii) empresas que têm produtividade do trabalho igual ou superior às exportadoras não líderes. Empresas frágeis são as demais firmas, voltadas para o mercado interno. Em geral, não inovam, e operam com maiores custos. Emergentes são empresas não classificadas como líderes ou seguidoras, mas que investem continuamente em P&D, ou inovam produto novo para o mercado mundial, ou possuem laboratórios de P&D (departamentos de P&D com mestres ou doutores ocupados em P&D).

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CAPÍTULO 6 Compras governamentais: análise de aspectos da demanda pública por equipamentos de telecomunicações1

Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa 2 João Maria de Oliveira 3

Introdução Em diferentes situações, o poder das compras governamentais pode ser utilizado para estimular segmentos econômicos estratégicos para a economia. Alguns estudos sobre a sua utilização como instrumento de política industrial sugerem que seus impactos podem ir além do fortalecimento da base empresarial existente. Em certos casos, estes efeitos proporcionam o estímulo à adoção de novas combinações, geração de empreendimentos e criação de cadeias produtivas. No momento atual em que se lança uma política pública visando à massificação do acesso à internet em banda larga, discute-se a oportunidade de se utilizar o poder de compras para incentivar o segmento de equipamentos de telecomunicações. No entanto, uma questão crucial é se esta ferramenta reúne as condições necessárias para ser aplicada de forma eficiente na reestruturação do setor. Em artigo presente nesta publicação, Kubota, Domingues e Milani (2010) afirmam que um dos requisitos mais importantes do setor é a escala de produção. O objetivo deste estudo é, portanto, investigar se o volume das compras públicas realizadas nos últimos anos para o segmento teria sido suficiente para oferecer um patamar de consumo que viabilizasse o desenvolvimento da indústria nacional. Adicionalmente, o trabalho examina quais são as tendências de modificação do cenário vigente, a partir das projeções de investimento da Telebrás, à qual cabe cumprir os objetivos do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). Por fim, o artigo verifica se é possível, e como, estimular a atividade empresarial, interferindo de maneira proativa no ritmo e na direção do desenvolvimento da indústria de telecomunicações no Brasil.

1. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações. 2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea. 3.Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea

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Fomento às atividades econômicas por meio das compras governamentais Diversos estudos mostram que as compras governamentais têm sido extensivamente utilizadas por governos de vários países – com utilização mais intensa por parte das nações desenvolvidas – para a implementação de políticas públicas. Estas são direcionadas, em geral, a pelo menos um dos objetivos a seguir: incentivo à indústria; aumento do investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D), combinado com estímulo à inovação; e melhoria na prestação de serviços públicos. A União Europeia, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (conhecido pela sigla inglesa Nafta), por exemplo, têm legislação e procedimentos específicos para compras públicas. No caso particular dos Estados Unidos, existe ainda uma clara conduta de preferência para bens de produção doméstica nas compras do governo. Embora as compras públicas sejam reconhecidas como um importante instrumento para a execução de políticas, isto não significa que o seu uso seja uniforme. Ocorrem variações, por exemplo, com relação ao nível de centralização das compras, à forma de execução dos leilões, às condições de preferência por pequenas e médias empresas, entre outras. Evidentemente, a origem destas diferenças está vinculada às peculiaridades econômicas e legais de cada país. Com relação à sua finalidade, o poder de compra governamental pode ser usado de duas formas: para adquirir bens prontamente disponíveis no mercado ou para desenvolver novos produtos. Esta segunda forma de contratação tem especial relevância quando as metas da política incluem o aumento do investimento em P&D e a promoção da inovação. Os benefícios podem ser resumidos como a indução de uma demanda por produtos com tecnologias mais avançadas e a redução do risco inerente às atividades de P&D no país. Com isso, aparecem oportunidades para melhorar a qualidade dos serviços públicos e, como consequência, a produtividade da economia. No exterior, o uso das compras públicas para promover a inovação já se tornou comum. O Research Investment Action Plan, da Comissão Europeia, por exemplo, usa este instrumento para alcançar a meta de investimento de 3% do produto interno bruto (PIB) em P&D. Para orientar o papel das compras públicas, Moreira e Vargas (2009) entendem que o governo pode utilizar três opções de trajetórias para induzir a inovação: i) como mercado potencial, gerando requisitos inovadores; ii) como fonte de interação com as empresas, alterando a concepção analítica dos novos produtos; e iii) como agente de mercado, auxiliando a difusão das soluções inovadoras desenvolvidas. Os autores destacam que “a efetiva indução de inovações com as compras governamentais requer não apenas a intencionalidade política, mas também capacitação governamental para a adoção de requisitos de fornecimento efetivos na indução de soluções genuinamente inovadoras”.
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Para o caso específico das políticas de compras públicas voltadas ao setor de telecomunicações, tanto para equipamentos quanto para serviços, Blind e Gauch (2008) recomendam que se dê especial atenção aos padrões tecnológicos. Novas iniciativas de políticas de inovação induzida pela demanda preveem um uso ainda mais intensivo do processo de normalização como forma de acelerar a difusão das novas tecnologias. Alguns exemplos bastante elucidativos do uso das compras para a inovação no setor de telecomunicações e o seu relacionamento com o setor de defesa são observados nos EUA. Primeiro, o papel das agências de pesquisa ligadas à defesa (Defense Advanced Research Projects Agency – Darpa) e à academia de ciências (National Sciences Foundation – NSF) foi fundamental para a criação da rede mundial de computadores. Segundo, o plano de banda larga norte-americano inclui como uma de suas recomendações o provimento de conectividade em redes de acesso em banda larga de ultra-alta velocidade para as instalações do Departamento de Defesa (Department of Defense – DoD), o que atende simultaneamente aos objetivos de criar um mercado pioneiro, aumentar a qualidade do serviço público e ampliar o investimento em P&D. Terceiro, o desenvolvimento da própria indústria de semicondutores nos EUA – historicamente ligada ao setor de telecomunicações – no final dos anos 1960 foi impulsionada pelo setor de defesa do país, em que as compras governamentais foram apontadas como fator essencial para absorção dos altos custos da curva de aprendizado. Relatório apresentado por Nyiri, Osimo, Ozcivelek, Centeno e Cabrera (2007) ratifica a importância das compras governamentais para a inovação. No Canadá, em pesquisa conduzida entre 1945 e 1978, constatou-se que cerca de 25% das inovações foram adquiridas primeiramente pelo setor público, e o setor de telecomunicações aparece entre as áreas mais inovadoras. Embora não haja dados precisos, estima-se que o volume das compras governamentais relacionadas às tecnologias da informação e comunicação (TICs) seja expressivo, tanto no Brasil quanto no exterior. Na União Europeia, por exemplo, acredita-se que, pelo menos, 20% do mercado de tecnologias da informação (TI) correspondam às compras governamentais. No Brasil, avalia-se que esta participação fique entre 10% e 15%. Não obstante o governo federal ser o principal comprador, uma grande parte dos gastos também está distribuída pelas administrações estaduais e municipais. Também no Brasil, o uso das compras públicas parece despontar como um poderoso instrumento à disposição do governo. Isto decorre não somente da publicação recente da Medida Provisória (MP) no 495/2010, que incluiu a “promoção do desenvolvimento nacional” entre um dos princípios das licitações
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– oferecendo uma margem de até 25% para os produtos com tecnologia nacional –, mas também do aumento do investimento público em diversos setores. Para o caso particular das telecomunicações, os investimentos públicos vinham sendo direcionados a programas visando reduzir os índices de exclusão digital. Contudo, para os próximos anos, o PNBL aparece como o principal veículo de investimento público para o setor, por meio das aquisições de equipamentos para construção da rede da Telebrás. É importante ressaltar que as compras no setor de telecomunicações, sejam públicas ou privadas, possuem uma dinâmica particular. Os fabricantes de equipamentos e os operadores de rede de telecomunicações formam alianças, nas quais a evolução tecnológica dos equipamentos é decidida de forma integrada entre os participantes. Este tipo de relacionamento decorre da necessidade de os fabricantes melhorarem a previsibilidade da trajetória futura de sua linha de equipamentos, reduzindo o risco inerente ao desenvolvimento de novos produtos. Por sua vez, os operadores também se beneficiam ao transferir a maior parte do P&D para empresas com conhecimento especializado e que poderão obter futuros ganhos de escala. Embora as políticas brasileiras de incentivo à produção e ao desenvolvimento tecnológico mencionem as compras públicas como elemento de estímulo à inovação, existem evidências de que, na prática, acontece o contrário. Em geral, empresas defasadas em termos mercadológicos, com pouco grau de diferenciação e baixo potencial inovador, acabam sendo as maiores beneficiadas pelas compras governamentais. Compras públicas de equipamentos de telecomunicações no Brasil Para avaliar o porte da demanda pública por equipamentos de telecomunicações no Brasil, este estudo analisou três dimensões. A primeira está relacionada às compras da administração pública; a segunda refere-se às aquisições da Petrobras, que possui uma extensa rede para comunicação corporativa; e a terceira faz previsões do mercado potencial, a partir de estimativas de investimento por parte da Telebrás. Para a dimensão das compras da administração pública, foi utilizada a base de dados do sistema Comprasnet, disponibilizada pela Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Nesta base, encontram-se as compras governamentais registradas entre os anos de 2002 e 2010. Também estão disponíveis informações de alguns governos estaduais e municipais, que fazem suas aquisições utilizando o mesmo sistema. Foram selecionados apenas os materiais relacionados com o setor
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de equipamentos de telecomunicações, pertencentes às oito classes indicadas no anexo. O gráfico 1 traz os valores anuais das compras da administração pública, classificadas por grupos de materiais. Apenas os últimos quatro anos foram apresentados, pois, somente a partir de 2007, todos os órgãos e instituições da administração pública federal passaram a utilizar o sistema para realizar as suas aquisições. Pelo gráfico, verifica-se que a demanda pública por equipamentos de telecomunicações é relativamente pequena, quando comparada aos valores de receita líquida de vendas (RLV) do setor de telecomunicações, indicados por Kubota et al. (2010). Tomando-se como referência o valor médio das aquisições (R$ 29,1 milhões por ano), a ordem de grandeza do gasto realizado pelo governo é pouco expressiva para ser utilizada como justificativa de indução setorial.
Gráfico 1 – Valor corrente das compras governamentais de equipamentos de telecomunicações, entre 2007 e 2010, por grupo de material (em milhões de reais)

Fonte: Comprasnet (SLTI/MPOG).

Uma análise dos tipos de compras realizadas mostra que cerca de metade das aquisições (47,8%) é formada por equipamentos de comunicação, detecção e radiação coerente. Neste grupo estão os diversos tipos de rádios, antenas, equipamentos óticos (transceptores, multiplexadores, acopladores etc.), modems, telefones e outros equipamentos. Mesmo que os dados revelem certa oscilação das compras deste grupo ao longo do tempo, confirma-se a necessidade sistemática por este tipo de material. Outro grupo relevante é o de materiais, componentes, conjuntos e acessórios de fibras óticas, correspondendo a 37,4% das aquisições. Ele inclui os cabos de fibra ótica, conversores e terminadores.
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A situação da década de 2000 não foi particularmente favorável ao uso do poder de compras governamentais no país para fomentar a indústria de telecomunicações. Primeiro, por causa da própria privatização do sistema Telebrás, que transferiu o poder de decisão sobre compras de equipamentos para os operadores privados. Segundo, por conta da falta de instrumentos legais e regulatórios que estimulassem a competição por inovação, no âmbito das licitações de equipamentos e serviços de telecomunicações para o poder público. O gasto relativamente baixo é explicado não apenas pela operação privada das redes de telecomunicações, mas também pela preferência dos gestores públicos pela licitação de serviços de telecomunicações que incluam a colocação e manutenção dos equipamentos necessários. Dessa forma, em razão de uma solução mais eficiente, a administração pública deixa de comprar diretamente os produtos de telecomunicações, o que não significa que não possa mais influenciar a demanda por equipamentos de telecomunicações. Por meio da escolha de requisitos técnicos adequados, ainda é possível direcionar a demanda intermediária (os produtos que serão usados posteriormente nas soluções completas), conforme o tipo e a qualidade dos serviços a serem prestados. Vale destacar, no entanto, a participação dos comandos militares na aquisição de equipamentos de telecomunicações. Dependendo do período e do foco da análise, as Forças Armadas possuem uma participação que varia de 20% a 30% deste orçamento. A razão para isto é que, por questões de segurança, as Forças Armadas optaram por conservar as suas próprias redes de comunicação, ou pelo menos parte delas. Consequentemente, precisam adquirir materiais e equipamentos para manter e expandir as suas operações. Exemplos destas redes militares são o Sistema Brasileiro de Comunicação Militar por Satélite (Siscomis) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Outras redes ainda estão em fase de concepção, como o Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (Sisfron) e o Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB). Dessa forma, cabe observar em um maior grau de detalhamento a demanda das Forças Armadas por materiais relacionados ao setor de telecomunicações. Usando dados de 2009, o detalhamento das compras da Defesa revela que elas estão concentradas em: equipamentos para comunicação móvel, sistemas de radar, monitores de imagem e equipamentos para comunicação por satélite. Em um período mais abrangente (2007 a 2010), ganham importância também as compras de cabos de fibra ótica e de equipamentos para simulação. A importância da Defesa para o desenvolvimento das telecomunicações fica evidente não somente nas duas situações mencionadas na seção anterior (criação da internet e investimento em banda larga para instalações do DoD), mas também pode ser notada em outros dois casos. Primeiro, o impulso à tecnologia de espalhamento espectral (spread spectrum) ocorreu durante os anos
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1940, a partir da necessidade de segurança para as comunicações militares, no tocante aos quesitos de confiabilidade (proteção contra interferências) e de sigilo (inviolabilidade das informações). Hoje, esta tecnologia é usada na maior parte dos aparelhos que necessitam compartilhar banda espectral de forma segura em faixas de frequências não licenciadas (por exemplo: telefones sem fio, roteadores wireless etc.), e também está presente na terceira e quarta gerações da telefonia móvel (3G e LTE, respectivamente). Segundo, o desenvolvimento da tecnologia de satélites e sua posterior aplicação comercial para comunicações somente foi possível a partir de pesados investimento feitos na área de Defesa, no período da Guerra Fria. Portanto, em uma abordagem inicial, talvez seja interessante a aproximação das políticas de compras de equipamentos de telecomunicações do governo, em sentido amplo, com as especificidades do setor de defesa brasileiro. A segunda dimensão da análise utilizou uma base de dados da Petrobras4 , contendo informações sobre aquisições de bens e serviços contratados pela empresa entre 2004 e 2008. Neste período, o volume de compras da Petrobras relacionado a equipamentos de telecomunicações alcançou um total de R$ 43,1 milhões. Em maior nível de detalhe, observa-se que 89,7% daquele valor correspondem a compras que podem ser classificadas no grupo equipamentos de comunicação, detecção e radiação coerente. Novamente, percebe-se que a quantia gasta pela Petrobras em equipamentos de telecomunicações (pouco mais de R$ 10 milhões por ano) é pouco significativa para ser utilizada como forma de estímulo às empresas do setor. A terceira e última dimensão da análise busca avaliar o impacto da futura demanda da Telebrás, reativada recentemente para implementar a parte do PNBL relacionada à infraestrutura de redes. A empresa prevê que, até o final de 2014, estarão em serviço no Brasil 39,8 milhões de acessos domiciliares. De acordo com estimativas efetuadas pelos autores, o investimento necessário para implantar a rede da Telebrás em 26 estados é de cerca de R$ 560 milhões (somente backbone e backhaul), sendo R$ 330 milhões em equipamentos de telecomunicações e outros R$ 230 milhões na infraestrutura propriamente dita. Portanto, as aquisições dos equipamentos de telecomunicações por parte da Telebrás ampliarão de forma bastante significativa a demanda governamental: de uma média anual de R$ 29,1 milhões, conforme o gráfico 1, passará para um patamar quase quatro vezes maior (R$ 112 milhões). No entanto, o próprio perfil dos equipamentos será modificado. Enquanto a demanda atual se caracteriza por equipamentos corporativos, os produtos a serem usados na rede da Telebrás requererão maior índice de confiabilidade e deverão ser de maior capacidade. Este fato altera de forma considerável o nível de
4. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações.

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exigência em relação àqueles atualmente adquiridos. Também há a previsão de se investir, até 2014, cerca de R$ 600 milhões em equipamentos para rede de acesso, conforme estimativas realizadas pelos autores. Estes investimentos poderão ser realizados pela Telebrás, por provedores privados ou mesmo por ambos. Portanto, parte deste valor poderá se incorporar aos investimentos já arrolados, elevando um pouco mais o volume das compras governamentais. Em síntese, a análise dessas três dimensões revela a pequena escala das compras governamentais em relação ao mercado de equipamentos de telecomunicações. Apesar disso, a demanda pública, por meio das aquisições da Telebrás, pode vir a ocupar nichos importantes deste mercado. Em relação a certas tecnologias, ela poderá ser o principal ou até mesmo o único comprador no país. De forma análoga ao setor de saúde, no qual se observa a existência de medicamentos em que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem presença de quase 100%, o poder das compras do governo pode ser exercido de forma efetiva nestas situações. A partir da análise do arcabouço legal e dos resultados apresentados em estudos anteriores, também se verifica a pouca coordenação e a falta de incentivo à inovação das políticas brasileiras. Portanto, estas importantes questões, e não somente o volume das compras públicas, devem ser levadas em consideração no momento da reformulação das políticas para o setor de telecomunicações. Considerações finais Este estudo, por seu caráter exploratório, não tem a intenção de prescrever políticas públicas para o setor de telecomunicações. Em vez disso, o seu objetivo foi discutir estudos de caso e trazer informações para esclarecer alguns pontoschave do setor, a fim de auxiliar a decisão sobre as políticas que devem ser adotadas. Algumas questões relevantes sequer foram mencionadas no trabalho, tais como: a possibilidade de exigir a preferência pela aquisição de produtos nacionais por parte dos operadores privados; a conveniência ou a necessidade de oferecer novos estímulos para as empresas produtoras de equipamentos de telecomunicações; e os impactos atuais e futuros na difusão da banda larga ao se decidir por uma política de desenvolvimento tecnológico para o setor. No entanto, a partir do referencial teórico analisado e dos dados apresentados, já se podem propor algumas recomendações pertinentes à formulação de uma política consistente e eficiente de compras públicas no Brasil: 1. O marco legal das compras governamentais, durante décadas, privilegiou o preço em detrimento do aspecto inovador. Embora a MP no 495/2010, recentemente editada, modifique este marco para propiciar, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de novos mercados e o apoio às firmas mais inovadoras, a
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administração pública brasileira não tem experiência com este instrumento de política pública. Em tese, a nova legislação pode tanto beneficiar um grupo de empresas extremamente competitivas como ser utilizada para sustentar firmas ineficientes, a depender de sua execução. Para usar as compras governamentais de forma efetiva, é necessário que os gestores públicos busquem a adequada capacitação técnica que possibilite a seleção de requisitos genuinamente inovadores; 2. A política de desenvolvimento tecnológico deve prever a elaboração de um mapa contendo a trajetória esperada de novos produtos e tecnologias, definindo prioridades de financiamento, a exemplo do plano de banda larga norte–americano. O governo deve demonstrar seu compromisso por meio de aquisições aderentes ao mapa tecnológico, permitindo assim às empresas do setor uma maior previsibilidade para seus investimentos em P&D; 3. As diferentes esferas (federal, estadual e municipal) e órgãos (administração direta, empresas públicas e de economia mista, fundações, autarquias etc.) de governo devem agir de forma coordenada para maximizar os benefícios da política: incentivo à indústria, aumento do investimento em P&D e melhoria da qualidade do serviço público. Em especial, é preciso avaliar a inclusão das aquisições das Forças Armadas na política, pelo papel preponderante da Defesa no desenvolvimento de novas tecnologias das telecomunicações. Mesmo no contexto brasileiro, as Forças Armadas possuem participação considerável no orçamento da administração pública direta, respondendo por cerca de um quarto das compras públicas de equipamentos de telecomunicações feitas pelo governo federal no último ano; 4. A participação mais ativa de instituições públicas e empresas privadas em organismos internacionais de normalização tende a incrementar a taxa de difusão de novas tecnologias para o mercado consumidor. Esta participação associada à construção do mapa tecnológico, discutido no item 2 destas considerações, permite influenciar e acompanhar as definições de tendências tecnológicas do mercado. Esta estratégia de liderança é adotada por países desenvolvidos, conforme apontado no referencial teórico. Por fim, deve-se considerar que o essencial é utilizar o poder das compras governamentais para o desenvolvimento de tecnologias no país, não sendo determinante a origem do capital das empresas. Assim, para o caso brasileiro, pode ser mais adequado trilhar um caminho alternativo, buscando unir as competências das firmas estrangeiras e nacionais com as demandas produzidas pelo Estado. Estas alianças podem ser interessantes tanto do ponto de vista de custo, por reduzirem os investimentos necessários ao desenvolvimento integral da tecnologia, quanto sob a ótica de tempo, por eliminarem as etapas iniciais da curva de aprendizado, substituindo-as pela absorção do conhecimento já
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produzido no exterior. Futuros desdobramentos devem incluir a avaliação das aquisições de equipamentos de telecomunicações por parte de outras empresas públicas e de economia mista, tais como Eletrobrás, Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, uma vez que estas empresas apresentam grande potencial de compra de equipamentos de redes de comunicação, com requisitos de grande dispersão geográfica, necessidade de elevado grau de confiabilidade e exigência de operação contínua. Referências Bibliográficas BLIND, K.; GAUCH, S. Trends in ICT standards: the relationship between European standardisation bodies and standards consortia. Telecommunications Policy, vol. 32, n. 7, p. 503-513, 2008. BRASIL. Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). Brasília, 2010. EUROPEAN COMMISSION. Public procurement for research and innovation. Expert Group Report. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities, 2005. FEDERAL COMMUNICATIONS COMMISION (FCC). Connecting America: the National Broadband Plan. 2010. KUBOTA, L.; DOMINGUES, E.; MILANI, D. A importância da escala no mercado de equipamentos de telecomunicações. Radar n. 10, Brasília: Ipea, 2010. MOREIRA, M.; VARGAS, E. O papel das compras governamentais na indução de inovações. Contabilidade, Gestão e Governança, vol. 12, n. 2, p. 3543, 2009. NYIRI, L. et al. Public procurement for the promotion of R&D and innovation in ICT. Seville: Istitute for Prospective Technological Studies (IPTS), 2007.

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Anexo Tabela de códigos e descrição de classes de material

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CAPÍTULO 7 Balança comercial de equipamentos de telecomunicações1

Lucas Ferraz Vasconcelos2

Introdução Este trabalho propõe-se a estudar a balança comercial do segmento de equipamentos de telecomunicações, a fim de reunir evidências a respeito do seu potencial de demanda doméstica. Antes de se abordar, porém, especificamente o segmento de equipamentos de telecomunicações, convém voltar a atenção, na seção 2 deste artigo, ao complexo eletrônico, que é composto por mais três segmentos: informática, eletrônica de consumo e componentes. Na terceira seção, são detalhados os dados da balança comercial do segmento de equipamentos de telecomunicações. A seção 4 é dedicada à análise dos dados dos principais equipamentos de rede, mercado sobre o qual o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) terá impacto direto. Procura-se definir os principais setores envolvidos na importação e exportação de tais equipamentos. A quinta seção traz as considerações finais. O complexo eletrônico O complexo eletrônico acelerou intensamente sua situação deficitária (tabela 1) entre 2002 e 2008. A taxa de crescimento das importações foi bastante superior à taxa de crescimento das exportações, gerando aumento do déficit. De fato, enquanto a primeira registrou avanço de 137% entre 2004 e 2008, a segunda elevou-se 60% no mesmo período, fazendo com que o déficit crescesse 169%. Em termos comparativos, o déficit do complexo eletrônico, em módulo, equivale a 65% do saldo comercial brasileiro.

1. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações. 2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea.

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Tabela 1 – Balança comercial do complexo eletrônico (em bilhões de dólares)

Fonte: Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Secex/MDIC) – agregação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), IpeaData e Banco Central do Brasil (BCB)3 .

Outra evidência de que o movimento descrito aponta para uma tendência de agravação do déficit diz respeito à forte recuperação das importações no primeiro semestre de 2010 frente ao mesmo período do ano anterior (59,7%). Ao mesmo tempo, observa-se a estagnação das exportações no mesmo período de análise (2,1%), do que se depreende que o pós-crise afetou de forma desigual empresas nacionais e estrangeiras do complexo eletrônico: enquanto as primeiras sofreram as consequências da queda de demanda em mercados estrangeiros combalidos pela crise e/ou a competição mais agressiva em mercados recuperados, as últimas beneficiaram-se do dinamismo do mercado interno no pós-crise e ampliaram rapidamente as exportações para o mercado brasileiro. Muito embora o maior déficit entre os segmentos que compõem o complexo eletrônico seja referente a componentes (US$ 7,3 bilhões em 2008), a maior taxa de crescimento do déficit comercial entre 2004 e 2008 foi devida ao segmento de equipamentos de telecomunicações (364%), conforme constatado no gráfico 1. Portanto, pode-se concluir que, embora todos os segmentos tenham aumentado sua situação deficitária no período, a contribuição para a elevação do déficit comercial do complexo eletrônico foi devida, em grande parte, ao segmento de componentes, por sua grande representatividade na composição do déficit, e ao segmento de equipamentos eletrônicos, pela expansão do déficit no período.

3. Refere-se ao primeiro semestre.

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Gráfico 1 – Déficit comercial dos segmentos do complexo eletrônico – 2008 (em bilhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES 4.

Equipamentos de telecomunicações Embora a balança comercial do setor apresentasse valores relativamente pequenos entre 2002 e 2006, não ultrapassando US$ 1 bilhão, o segmento de equipamentos de telecomunicações passa a exibir expressivos déficits comerciais em 2007 e 2008, de US$ 2,2 bilhões e US$ 4,5 bilhões, respectivamente, diminuindo para US$ 3 bilhões em 2009 e retomando fortemente sua tendência de crescimento no período pós-crise, com uma elevação de 101% no primeiro semestre de 2010 em relação ao primeiro semestre de 2009 (gráfico 2).
Gráfico 2 – Déficit comercial dos segmentos do complexo eletrônico – 2008 (em bilhões de dólares)
8 7 6 5 4 3 2 1 0 -1 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2009* 2010*

Importações

Exportações

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES 5.
4. Refere-se ao primeiro semestre. 5. Refere-se ao primeiro semestre.

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A dinâmica das importações de equipamentos de telecomunicações está bastante pautada pelos investimentos realizados pelas operadoras no país. Os anos de 2002 e 2003 são marcados por baixos investimentos no segmento de telecomunicações no Brasil. Há duas razões para isto: a intensa crise mundial deflagrada no setor entre 2001 e 2003, bem como a concentração dos investimentos de telecomunicações em 2001, resultado do cumprimento antecipado, por parte das operadoras, das metas de universalização da Anatel, cujo prazo de vigência estendia-se até 2003 (Szapiro , 2005). Esses fatores de estagnação do investimento terminam por conter a importação de equipamentos de telecomunicações. Contudo, a partir de 2004, com a retomada dos investimentos no setor, o crescimento das importações é intensificado, culminando em 2008. Com a crise financeira mundial, deflagrada no último trimestre de 2008, reduzem-se significativamente as importações, por conta do adiamento dos planos de investimento das operadoras. O cenário econômico interno favorável em 2010, frente à demanda estagnada dos países desenvolvidos, pode promover dois movimentos simultâneos: a retomada dos planos de investimentos por parte das operadoras (que tinham sido suspensos no ano anterior) e o acirramento da concorrência (por conta da economia mundial desaquecida) com fabricantes estrangeiros, principalmente chineses, que, de acordo com o Anuário Telecom (2009), têm disputado agressivamente o mercado nacional nos últimos anos. O desempenho exportador do segmento de equipamentos de telecomunicações está muito associado à exportação de telefones celulares e mostra-se bastante instável, de acordo com as estratégias mundiais das grandes fabricantes de celulares instaladas no país. As exportações mantiveram-se estagnadas, por volta de US$ 1,5 bilhão, entre 2002 e 2003. Elevaram-se a um patamar significativo em 2005 e 2006 (US$ 3,2 bilhões e US$ 3,6 bilhões, respectivamente), para, em seguida, caírem, em 2007, para US$ 2,7 bilhões, por conta de mudanças estratégicas de duas das grandes empresas do setor (Motorola e Nokia) instaladas no país (Szapiro , 2009). O advento da crise intensificou a queda das exportações e, diferentemente das importações, as vendas ao mercado externo de equipamentos de telecomunicações não apresentam evidências de recuperação. De fato, o primeiro semestre de 2010 apresentou leve queda das exportações em relação ao mesmo período de 2009. Partes e peças, telefones celulares e fios e cabos compreendem grande parte do valor das importações realizadas em 2008 (54%, 10% e 9%, respectivamente). A grande parcela de insumos na pauta de importações do segmento (US$ 4,1 bilhões em 2008) sugere alto conteúdo estrangeiro nos equipamentos fabricados no país. Por exemplo, segundo o Anuário Telecom (2004), os telefones celulares
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fabricados no Brasil possuem ao menos 80% de conteúdo importado. Por sua vez, conforme mencionado, a exportação de equipamentos de telecomunicações é bastante concentrada nas vendas externas de telefones celulares, sendo responsável por 72% das exportações.
Gráfico 3 – Composição da balança comercial de equipamentos de telecomunicações (em milhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES

A forte presença de produtos ligados ao setor de fabricação de celulares na corrente de comércio do segmento de equipamentos de telecomunicações distorce a análise das importações e exportações de equipamentos de rede, que serão diretamente afetados pelo PNBL. Equipamentos de rede A fim de se obterem dados mais específicos quanto aos equipamentos de rede, foram excluídos da análise aparelhos telefônicos e partes e peças6 . Nota-se a modesta quantia de importações destes equipamentos (US$ 798 milhões em 2007) em relação ao valor total importado pelo segmento de telecomunicações (US$ 4,9 bilhões no mesmo período). Além disso, o valor das exportações é ainda menor, US$ 124 milhões em 2007, relativamente às exportações totais do segmento, de 2,74 bilhões no mesmo ano (tabela 2). Outra característica marcante desse mercado é a grande concentração da balança comercial em alguns produtos. Das importações realizadas em 2007, 63% delas foram referentes a roteadores digitais, aparelhos diversos para transmissão e recepção de voz e dados em rede com fio (exceto hubs e modems) e aparelhos emissores diversos com receptor incorporado, digitais. No que tange às exportações, a concentração é mais acentuada: no mesmo ano de 2007, somente
6. Partes e peças foram excluídas, pois grande parcela destas é destinada à fabricação de aparelhos telefônicos.

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duas categorias de produto, estação rádio base (ERB) de telefonia celular e comutadores, abrangem 69% de todo o montante.
Tabela 2 – Balança comercial de equipamentos de rede (em milhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC. Elaboração do autor.

Para determinar quais setores importam ou exportam equipamentos de rede, utilizaram-se os dados fornecidos pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
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(MDIC), combinados aos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na qual é informado o código da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) associado à empresa. Embora este método traga algum inconveniente, pois nem todas as empresas existentes são cadastradas na Rais, a subestimação dos valores de importação e exportação é bastante pequena, dada a magnitude dos valores envolvidos7 . O método utilizado mostra-se bastante eficaz para a identificação dos setores importadores e exportadores dos equipamentos em questão. Por meio da combinação dessas bases de dados, pode-se determinar quais são os setores importadores de equipamentos de rede com base em seu código Cnae. A tabela 3 demonstra que parcela expressiva das importações é realizada pelo comércio atacadista e por representações comerciais, provavelmente por empresas que, por não possuírem fábrica em território nacional, importam os equipamentos prontos, para venda às operadoras. Quanto às importações realizadas por fabricantes de equipamentos transmissores de comunicação e equipamentos de informática, estas provavelmente devem-se: i) às estratégias de produção global de grandes empresas multinacionais, que podem produzir determinado equipamento em somente uma de suas filiais no mundo e exportá-lo aos outros países em que está presente; e ii) à complementação do pacote de produtos das pequenas empresas nacionais, uma vez que seus clientes (em grande parte as operadoras de telecomunicações) exigem soluções que contemplem todos os equipamentos necessários para a instalação da rede.
Tabela 3 – Setores importadores e exportadores de equipamentos de rede (em milhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC e Rais/MTE. Elaboração do autor.
7. Outro inconveniente diz respeito ao período de análise, visto que, para fins deste trabalho, não foram disponibilizados microdados para além de 2007.

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Pode-se constatar que as exportações são predominantemente realizadas por setores constituintes do próprio segmento de telecomunicações. Há certa dificuldade em distinguir empresas classificadas na Cnae 2631-1 (fabricação de equipamentos transmissores de comunicação) e 2632-9 (fabricação de aparelhos telefônicos e de outros equipamentos de comunicação), pois algumas das maiores fabricantes de equipamentos de rede são também fabricantes de telefones celulares, dadas as características de diversificação das atividades das empresas deste setor8. Considerações finais Observando-se os dados apresentados, identifica-se uma tendência de deterioração acelerada da balança comercial do complexo eletrônico. Os principais segmentos responsáveis por esta tendência foram os de componentes e equipamentos de telecomunicações – este, principalmente devido ao intenso crescimento de suas importações. A fabricação de aparelhos telefônicos e de outros equipamentos de comunicação constitui o principal setor do segmento de equipamentos de telecomunicações. Partes e peças de celulares e outros equipamentos de comunicação respondem pela maior cifra de importação do segmento. Telefones celulares correspondem ao item de maior valor de exportação. Excluindo-se os itens referentes à fabricação de telefones celulares, de partes e peças e de outros bens intermediários, chega-se à demanda por importação de equipamentos de rede e à oferta destes equipamentos para exportação. Tanto a demanda por importações quanto a oferta de exportações destes bens são relativamente pequenas, comparando-se aos demais itens do segmento. Além de modesto, o comércio exterior dos equipamentos de rede selecionado mostra-se crescentemente deficitário, assim como todo o complexo de eletrônica. As características citadas levantam questões relevantes concernentes à escala de produção de equipamentos de rede no Brasil. A implantação do PNBL certamente aumentará a demanda das fabricantes nacionais, mas, segundo se pode constatar pelos dados apresentados, uma estratégia eficaz de fortalecimento da indústria de equipamentos de telecomunicações nacional tem de ter como ponto fundamental de sua estratégia a conquista de mercados externos, a fim de ganhar escala e poder competir em um mercado altamente oligopolizado. Referências Bibliográficas LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D
8. Lindmark et al. (2008, p. 51) expõem dificuldade parecida em seu estudo.

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investment by the European ICT business sector. JRC Reference Reports, Luxemburg, 2008. PLANO EDITORIAL. Anuário TELECOM. 2004. ______. Anuário TELECOM. 2009. SZAPIRO, M. H. S. Reestruturação do setor de telecomunicações na década de noventa: um estudo comparativo dos impactos sobre o sistema de inovação no Brasil e na Espanha. Tese (Doutorado), IE/UFRJ, 2005. ______. Projeto perspectivas do investimento no Brasil: equipamentos de telecomunicações. Rio de Janeiro, 2009. Anexo 1 Descrição do escopo deste artigo, conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) 1.0 32.2 Fabricação de aparelhos e equipamentos de telefonia e radiotelefonia e de transmissores de televisão e rádio. 32.21-2 Fabricação de equipamentos transmissores de rádio e televisão e de equipamentos para estações telefônicas, para radiotelefonia e radiotelegrafia, inclusive de microondas e repetidoras. 32.22-0 Fabricação de aparelhos telefônicos, sistemas de intercomunicação e semelhantes. Anexo 2 – Categorização das firmas Empresas líderes: i) inovadora de produto novo para o mercado e exportadora com preço-prêmio; ou ii) inovadora de processo novo para o mercado, exportadora e de menor relação entre custo e faturamento (quartil inferior). Empresas seguidoras: i) demais exportadoras não líderes; ou ii) empresas que têm produtividade do trabalho igual ou superior às exportadoras não líderes. Empresas frágeis são as demais firmas, voltadas para o mercado interno. Em geral, não inovam, e operam com maiores custos. Emergentes são empresas não classificadas como líderes ou seguidoras, mas que investem continuamente em P&D, ou inovam produto novo para o mercado mundial, ou possuem laboratórios de P&D (departamentos de P&D com mestres ou doutores ocupados em P&D).
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3ª. PARTE PANORAMA DA COMUNICAÇÃO

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CAPÍTULO 1 Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional de inclusão
André Barbosa Filho1

Introdução Quem pensa que o uso da internet no computador vai acabar com o hábito de ver TV, levante a mão. Pois quem imagina que a resposta afirmativa é a correta, está equivocado(a). Enganam-se os que acreditam que, conforme aumenta o uso da internet em diferentes plataformas no Brasil, menos tempo as pessoas dedicariam à TV. Pelo que menos é o que constata a pesquisa ‘Estilos de Vida e Bem-Estar Individual’, feita pela empresa Market Analysis2. Realizado com 483 adultos com mais de 18 anos residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre durante o mês de julho de 2009, o estudo aponta que o percentual de brasileiros que passou 11 horas ou mais por semana navegando na internet saltou de 11% para 17%. Em outros termos, isso significa que, numa semana sem feriados, um em cada seis brasileiros fica metade do dia ou mais tempo acessando a internet, isto, claro, dentro do grupo de pessoas que possuem internet. O aumento na quantidade de horas na rede coincide com a expansão acelerada na venda de computadores e da banda larga no Brasil. O percentual de internautas que dedicam o mesmo tempo para assistir a TV, por sua vez, aumentou de 62% para 70,5% em um ano. Segundo os responsáveis pela pesquisa, esses dados contradizem a ideia defendida por alguns de que, com a expansão da rede, haveria uma profunda mudança muito nos hábitos de consumo de mídia, a ponto de a TV perder espaço para a rede mundial de computadores que, na oferta de conteúdos digitais, avança de modo acentuado para os celulares e para as diversas plataformas de videojogos. Este dado é significante para entender este novo cenário multiplataforma que vivenciamos e nos reporta a outra importante questão: o que será o futuro da televisão aberta e gratuita? Como sobreviverá num ambiente convergente, com tantas ofertas de informação vindas de outros meios, a partir de outros modelos, de outras estruturas de rede? Com entender o fascínio que a TV exerce mesmo entre os ditos ‘nativos digitais’, aqueles que já nasceram em um mundo com tecnologias digitais? A TV linear que temos e realizamos hoje, vai forçosamente

2Disponível em http://www.marketanalysis.com.br/mab/conteudo.php?pg=biblioteca. Acesso em 23 de maio de 2010.

1Doutor em Comunicação pela USP. Atualmente é assessor especial da Casa Civil da Presidência da República.

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mudar, diante da oferta de informações baseadas na hipertextualidade3 , da superposição de dados, vídeos e sons presentes nas criações e produtos digitais. Uma das propostas do ISDB-Tb, o padrão de TV Digital adotado pelo Brasil e, até o momento, por mais oito paises da América do Sul e Central (Argentina, Bolivia, Chile, Peru, Paraguai, Equador, Venezuela e Costa Rica), Filipinas, na Asia, e mais recentemente, Moçambique, Angola, Butzania, na Africa, é o de entender o fenômeno da TV analógica no Brasil e nestes países e buscar as direções para realizar a migração para o digital. A ideia é construir um cenário de implantação da TVD aproveitando o alto interesse do público em geral pela programação da TV analógica e introduzir a oferta de produtos e conteúdos interativos, no aguardo de um novo tempo onde as infra-estruturas e os serviços de banda larga estejam também a disposição de todos. Mas como realizar este salto qualitativo? Como preparar realizadores, produtores, o próprio público para o mundo da interatividade pela TV? O que o ISDB-Tb oferece como ferramenta para atingir estes nobres objetivos? Sem dúvida, algo que os demais padrões não tem: o middleware4 Ginga!. A palavra ginga em Português tem muitos significados5 No caso da televisão digital terrestre, o Ginga é a camada de software intermediário – middleware- que permite o desenvolvimento de aplicações interativas para a TV Digital de forma independente da plataforma de hardware dos fabricantes de terminais de acesso - STB6 Desenvolvido nos laboratórios da PUC/RJ e da Universidade Federal da Paraíba, é um projeto voltado para a inclusão social/digital e ao conhecimento aberto e livre. O Ginga é uma tecnologia que conecta as pessoas a todos os meios para que ele obtenha acesso à informação, educação à distância e serviços sociais apenas usando sua televisão e também os celulares.

3 Hipertexto é o termo que remete a um texto em formato digital, ao qual se agrega outros conjuntos de informação na forma de blocos de textos, palavras, imagens ou sons, cujo acesso se dá através de referências específicas denominadas hiperlinks, ou simplesmente links. Esses links ocorrem na forma de termos destacados no corpo de texto principal, ícones gráficos ou imagens e têm a função de interconectar os diversos conjuntos de informação, oferecendo acesso sob demanda as informações que estendem ou complementam o texto principal. 4 Middleware é um termo geral, normalmente utilizado para um tipo de código de software que atua como um aglutinador, ou mediador, entre dois programas existentes e independentes. Sua função é trazer independência das aplicações com o sistema de transmissão. Permite que vários códigos de aplicações funcionem com diferentes equipamentos de recepção. Através da criação de uma máquina virtual no receptor, os códigos das aplicações são copilados no formato adequado para cada sistema operacional. Resumidamente, de terminais de recepção ou vice-versa. O Middleware se faz necessário para resolver o novo paradigma que foi introduzido com a TV Digital: a combinação da TV tradicional (broadcast) com a interatividade, textos e gráficos. Esta interatividade necessitará de várias características e funcionalidades, encontradas no ambiente WEB: representação gráfica; identificação do usuário; navegação e utilização amigável etc. 5 Ginga o movimento básico da capoeira. É a parte da “dança” da capoeira. É comum esconder na “ginga, nos movimentos”, a malandragem do capoeirista para enganar o adversário. A ginga serve também para descanso, mas não tirando a possibilidade de ataque e contra-ataque. É a dança que se usa antes de atacar o oponente, com objetivo de distraí-lo, e também uma oportunidade para raciocinar a luta e pensar nos golpes.Disponível em http://www.softwarepublico.gov.br/ver-comunidade?community_id=1101545 Acesso em 24 de maio de 2010 6 Set top box (STB) – Caixa de conversão do sinal de analógico-digital para as transmissões dos sistemas de radiodifusão de sons e imagens, podendo ser externas ou internas ao aparelho de TV, munidas apenas de processadores de sinal e/ou de browsers para conexão à internet ou de placa Ginga Full para ações de interatividade.

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Dividido em dois subsistemas principais, o middleware Ginga permite o desenvolvimento de aplicações, dependendo das funcionalidades requeridas no projeto de cada aplicação. O Ginga leva em consideração a importância da televisão, presente em 98% dos lares brasileiros como um meio complementar para inclusão social/digital. Trata-se de uma especificação aberta, de fácil aprendizagem e livre de royalties, permitindo que as audiências, independente do país, produzam conteúdo interativo, o que dará novo impulso às TVs comunitárias, as produtoras independentes e à produção de conteúdo pelas grandes emissoras Em breve ficará mais simples para as audiências entenderem exatamente o que os televisores e os STB disponíveis no mercado serão capazes de fazer com relação à interatividade, uma das principais características do sistema de TV Digital aberta implantado no País. A validação dos dois perfis interativos pelo Fórum SBTVD, durante reunião do Conselho Consultivo realizada em janeiro de 2010, foi o sinal verde para que o Módulo Técnico finalizasse a reorganização das normas já existentes para o Ginga, o middleware criado no Brasil, tornando-as mais claras para a própria indústria. Estas já estão disponíveis desde 15.04.2010, na página eletrônica da Associação Brasileira de Normas Técnicas, (ABNT). Estes dois perfis são baseados no que o mercado convencionou chamar até aqui de ‘Ginga Full’ ou completo, com os módulos Ginga-NCL e Ginga-Java. A diferença é que o Perfil 2, mais avançado, será capaz de executar monomídias7 de videoclipes, ou seja, permite a execução de vídeos. Pense na transmissão de um jogo de futebol. Nos dois perfis será possível interagir com a programação consultando tabelas de classificação, escalações, e outras informações em texto ou fotos. Mas só no Perfil 2, mais avançado, será possível assistir a qualquer momento ao replay do gol, sem que esse vídeo se sobreponha totalmente ao vídeo principal8. A aprovação e publicação das normas pela ABNT são pré-requisitos para a que outras partes do Ginga, além do módulo NCL, sejam reconhecidas pela União Internacional de Telecomunicações -UIT, e a arquitetura do middleware brasileiro, harmonizada tecnicamente com a dos outros três padrões mundiais (o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB) passe a ser adotada como estrutura modelo para “o padrão internacional” definido para UIT. Esta recomendação será capaz de garantir que aplicações criadas para qualquer um deles possam ser reconhecidas por todos os sistemas de TV digital. Esta ação, também dá início também a uma nova etapa do esforço de transformar a TV Digital em uma TV interativa: a de certificação de aparelhos e aplicações em conformidade com o padrão técnico estabelecido. O Fórum SBTVD, responsável por auxiliar a implantação do sistema de TV Digital no país,
7 Monomídias - conjunto de aplicativos que formam um padrão específico voltado ao reconhecimento de dados, vídeos ou áudios por uma plataforma digital 8 Entrevista da Sra. Ana Elisa Faria e Silva, concedida ao site Convergência Digital. Disponível em www.convergenciadigital.com.br Acesso em 24.de maio de 2010, às 12:35

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já trabalha na definição de uma plataforma de testes de conformidade que possa ser usada por todo o ecossistema do Ginga. Alguns produtos Ginga começaram a abastecer as lojas de produtos eletroeletrônicos no primeiro semestre de 2010. As primeiras TVs com interatividade foram anunciadas no mês de maio desse ano, aliadas a disponibilidade de um aparelho celular interativos estando, esses produtos, em conformidade com as normas publicadas. Sabe-se que outros grandes fabricantes de televisores e pequenos fabricantes de conversores já têm produtos praticamente prontos para serem lançados no primeiro semestre de 2010. Acertados os termos da consulta pública sobre as normas dos perfis de interatividade da TV Digital - o Fórum SBTVD ainda se debruça sobre outra componente do sistema: o padrão para uso da internet. Na reunião do Fórum SBTVD, realizada na em 08 de fevereiro de 2010, o governo insistiu na incorporação do IPv6, o padrão de endereçamento na rede mundial, enquanto a indústria mostrou-se preocupada com o legado existente de IPv4. O Ipv4 é o padrão atual, mas já se sabe que ele está chegando perto do limite de capacidade. O IPv4 usa endereços de 32 bits, enquanto o IPv6 de 128 bits. Existe todo um parque de equipamentos acumulado com IPv4. Por outro lado, a substituição do padrão é inevitável, em razão do crescimento exponencial da internet. Assim, há a necessidade de se tomar uma decisão tecnológica de olho no futuro. Mas não é possível deixar a interatividade sem definições na TV Digital até que exista escala para o IPv6. Daí o encaminhamento das negociações para uma solução mista, por sinal, a exemplo do que internacionalmente se discute, de manter-se o IPv4 com espaço para crescimento do IPv6. Assim, a certificação dos produtos é encarada pelos técnicos do Fórum SBTVD como uma das formas de assegurar a produção de conversores e televisores DTV poderosos, do ponto de vista da interatividade, e baratos. Discute-se atualmente no Módulo Técnico o quanto a adoção do protocolo IPV6, em vez do IPV4, pode impactar no preço final do hardware e gerar legado. Outro tema decisivo para a implantação plena da TV digital interativa é o canal de interatividade. A norma brasileira prevê o uso de diferentes tecnologias para estas finalidades. Estas decisões são fundamentais para a consolidação de um padrão que mantenha sua força diante do avanço irreversível dos modelos digitais de acesso à informação, baseados em protocolos IP e que, na maioria esmagadora dos casos, são remunerados. Nos sistemas de comunicação digital, a interatividade plena oferece às audiências a possibilidade de troca de informações entre os receptores e servidores presentes na internet. A comunicação de dados com os receptores é realizada por meio de aplicações interativas que são transmitidas em conjunto com os sinais de vídeo e áudio junto ao radiodifusor. No sentido inverso, a comunicação é provida por meio de deste canal de interatividade, que
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no caso do ISDB-Tb permite a comunicação bidirecional. Vivemos a era da convergência das tecnologias digitais, aonde o recente êxito da implantação do sistema brasileiro de televisão digital vai ao encontro das tecnologias de comunicação sem fio na internet, pavimentando o caminho da aguardada interatividade plena. Um importante desafio se apresenta com a possibilidade do país assumir um papel de liderança na definição de um novo perfil de operação do WiMAX9 abaixo de 1 GHz, denominado WiMAX-700. Ao desempenhar um papel promissor como canal de interatividade do ISDB-Tb, amplia as possibilidades de produção de conteúdos audiovisuais digitais10. Este novo perfil cobre uma faixa ampla do espectro de 400 MHz a 1 GHz como banda primária e, opcionalmente, de 54 MHz a 400 MHz como banda secundária. As principais vantagens do WiMAX-700 são: • Excelente propagação do sinal – até 70 km; • Melhor penetração em edificações, muito melhor que os demais perfis do WiMAX; • Menor desvio Doppler11 gerador de reflexões nas ondas elétricas causando interferência. • Reflete em menor custo de implantação de torres e estruturas de suporte para as áreas remotas ou rurais ou com baixa densidade populacional, isto representa num menor investimento para a implantação do serviço, ou seja, por exemplo, um menor número de estações rádio bases; • Compartilham o espectro dentro do canal de 6 MHz pelo uso de segmentos do sistema ISDB-T; • Utilizam outros canais de TV como canais secundários; • A alocação dos canais é dinâmica, pois uma vez que o serviço primário tenha sido alocado, o sistema permite o uso de outros canais de forma flexível. Em outros termos, o WI-MAX 700 pode ser utilizado a partir da mesma estrutura de transmissão de sinais da TV Digital. Esta tecnologia utiliza parte do espectro que compreende a banda de transmissão de UHF e oferece canal de interatividade de modo distinto das outras tecnologias que permitem o canal de interatividade como as redes de telefonia fixa, as redes de telefonia celular,
9 O WiMAX é um padrão de comunicações sem fio definido pelo IEEE – The Institute of Electrical and Electronics Engineers – que permite a cobertura abrangente para serviços de comunicações em banda larga sem fio. 10 BARBOSA FILHO, André e MELONI, Luis Geraldo P.A TV Digital interativa e na era das comunicações sem fio Trabalho apresentado no GP ‘Conteúdos Digitais e Convergências Tecnológicas’, evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009 11 O Efeito Doppler é uma característica observada nas ondas quando emitidas ou refletidas por um objeto que está em movimento com relação ao observador. Foi-lhe atribuído esse nome em homenagem a Johann Christian Andreas Doppler, que o descreveu teoricamente pela primeira vez em 1842

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os satélites, as redes de fibras óticas, ou seja, independente do uso das redes de telecomunicações. Todo este movimento pró-ativo, em nome do desenvolvimento de tecnologias nos centros de pesquisa e universidades brasileiras, nos remete a urgência das discussões sobre uma equação que tem como fatores, a inovação, o desenvolvimento de uma robusta indústria de tecnologia e internacionalização destes resultados. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea - já detectou o salto qualitativo dado por muitas empresas brasileiras graças à inovação industrial, o que nem sempre foi percebido com clareza pelos analistas e economistas na atualidade. Quantos analistas acostumados a reduzir o Brasil à macroeconomia compreenderam a ascensão das exportações? Quantos perceberam as mudanças que ocorreram no interior das empresas? Nos últimos anos, muitas empresas brasileiras entraram em sintonia com o novo cenário mundial. Em 2007, as economias emergentes responderam por cerca de metade do PIB mundial. Desde que China, Índia, Brasil e Rússia começaram a abrir suas economias, a força de trabalho global dobrou. Em dez anos, cerca de um bilhão de novos consumidores entrarão nos mercados, graças ao crescimento dos países emergentes. A participação dos países em desenvolvimento nas exportações mundiais foi de mais de 40% em 2009, quando era de 20% nos anos 70. Esses países já respondem por mais de metade da energia consumida no planeta e tendem a mudar a qualidade de suas economias com fortes impactos sociais. Empresas chinesas e indianas já são líderes mundiais em vários setores da economia. Em algumas áreas tecnológicas, o Brasil também avançou, mas, no conjunto, apesar do aperfeiçoamento de seus recursos humanos e do visível crescimento de sua produtividade, as empresas brasileiras ainda precisam modernizar-se para tornarem-se competitivas. A integração crescente dos países emergentes à economia global desenha cenários que apontam para um novo reposicionamento das nações não observado desde a Revolução Industrial no século 19. Resta saber se eles conseguirão melhorar efetivamente a vida de seus povos, já que detém mais de 70% das reservas mundiais. O Produto Interno Bruto – PIB -, a soma das riquezas produzidas por um país, dos emergentes representa mais de 43% do PIB mundial, enquanto os PIBs dos EUA e da Europa somados não chegam a 36%. A economia dos emergentes contribuiu em 2007 com cerca de 70% para o crescimento do PIB mundial; os países europeus e os EUA contribuíram com menos de 20%. Se a projeção se confirmar, o volume de capital privado circulando será o terceiro maior dos últimos 30 anos, perdendo apenas para os recordes de 2006 e 2007. A retomada do fôlego da economia nestas regiões acontece quando a
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economia mundial ainda atravessa recessão. O reaquecimento teria começado em meados de 2009, quando a tendência de queda teria sido revertida, e deve prosseguir em 2010, com fluxo de US$ 720 bilhões, e 2011, quando chegará a US$ 798 bilhões. A retomada, afirma o relatório do Instituto of International Finance - IIF12 , ocorre no momento em que “o cenário econômico global é mais propício do que nunca para fluxos em direção a economias emergentes”, em especial de recursos privados, que responderão por dois terços do total. Nesta direção, como já mencionamos acima, a ação de internacionalização do padrão de TV Digital interativa, ISDB-T, é efetivo. Os governos brasileiro e japonês estão trabalhando em conjunto para mostrar os seus benefícios a todos os países da América do Sul,Central e da África enfatizando os benefícios sociais da inclusão digital através da TV digital e a qualidade de imagem, som e robustez do sinal ISDB-T. Também apresentam outros importantes diferenciais deste sistema como a recepção por TV móvel com qualidade e interatividade na TV. Oito países já decidiram pelo mesmo padrão. Outras nações, como se pode observar no quadro abaixo, estão em fase de decisão A proposta brasileiro/japonesa gira em torno de ofertas consistentes de apoio à implantação do padrão ISDB-T. São atividades de desenvolvimento conjunto, transferências de tecnologia, cooperação em recursos humanos, financiamento e investimentos industriais. Com relação ao equipamento e à tecnologia relacionada à televisão digital, o Brasil tem claro o potencial significativo para o desenvolvimento indústrial conjunto, incluindo a produção de receptores e de conversores para o desenvolvimento de aplicações interativas. A respeito da produção de equipamentos transmissores e receptores, o Governo brasileiro tem se comprometido a envidar esforços para estimular a criação de investimentos compartilhados entre companhias brasileiras e dos paises que adotem o ISDB-T. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES) dispõe dos seguintes instrumentos para apoiar a implantação do sistema ISDB-T no estrangeiro: 1. Programa PROTVD13 – Provedor: apoio à exportação aos adotantes do sistema ISDB-T de bens e serviços, por empresas brasileiras produtoras de ‘software’, de equipamentos de recepção e de produção de conteúdo, de infra-estrutura para rede de transmissão e de componentes eletrônicos; 2. BNDES-exim Pós-embarque: financiamento à comercialização ao exterior de bens e serviços produzidos por empresas brasileiras, seja como “buyer credit” (financiamento contratado diretamente com o importador), seja como “supplier credit” (refinanciamento ao exportador, mediante o desconto de títulos de crédito ou a cessão dos direitos creditícios relativos à
12 Institute of international Finance (IFF)– com sede em Genebra, Suiça 13 Programa de Apoio à Implantação do Sistema Brasileiro de TV Digital .

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exportação), com participação de até 100% (em qualquer Incoterm) e prazo de até 12 anos (de acordo com o tipo de bem ou serviço comercializado). O BNDES poderá oferecer financiamento na linha BNDES-Exim Pósembarque para as exportações de bens e serviços brasileiros para o paises parceiros. As garantias do financiamento deverão ser oferecidas por bancos localizados em Moçambique ou submetidas à aprovação pelo Comitê de Financiamento e Garantia das Exportacções (COFIG) do governo brasileiro. 3. Investimento Direto Externo (IDE): beneficia empresas privadas com sede no Brasil que tenham na sua estratégia de crescimento a implantação de unidades no exterior, incluindo ‘joint-ventures’ com produtores locais, para que desenvolvam atividades industriais ou serviços de engenharia. O Brasil poderá oferecer apoio técnico aos paises parceiros no processo de planejamento do espectro radioelétrico com vistas à migração para a televisão digital. Nesse sentido, a Agência Nacional de Telecomunicações do Brasil (ANATEL) poderá fornecer assistência técnica a sua contraparte, incluindo, se for o caso, o acesso aos sistemas desenvolvidos pela Agência brasileira, de forma a possibilitar a execução do referido planejamento. O Brasil propõe aos adotantes, através da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), estudar a possibilidade de fornecer equipamentos, prestar assistência técnica e promover o treinamento de recursos humanos moçambicanos, com vistas à criação de um Centro de Desenvolvimento de Aplicações de Interatividade baseadas no ‘middleware’ Ginga, assim como de um Centro de Produção de Conteúdos Digitais Interativos e Interoperáveis. Os referidos Centros, que seriam criados com inversões de aproximadamente US$ 300 mil, poderão ser objeto de um acordo específico entre a Agência Brasileira de Cooperação e sua contraparte. As áreas de interesse dos dois Centros poderão envolver o desenvolvimento de aplicativos de ‘software’ para produção de conteúdos; a produção de conteúdos audiovisuais digitais para diversas plataformas tecnológicas e para a convergência de meios; e o desenvolvimento de conteúdos e serviços interativos e interoperáveis, com usabilidade, acessibilidade, mobilidade e portabilidade. A cooperação acadêmica com Brasil incluiria a colaboração com universidades brasileiras envolvidas no projeto Ginga e no desenvolvimento de equipamentos para televisão digital, bem como aquelas que participaram no processo de seleção e implantação do sistema ISDB-T no Brasil, tais como Universidade de São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Universidade Federal da Paraíba, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, entre outras. Com respeito à capacitação de recursos humanos, o Brasil oferece aos parceiros, negociações entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – (CAPES), responsável pelo apoio e pela avaliação da pós148

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graduação, e sua contraparte moçambicana, com o objetivo de conceder bolsas de mestrado e doutorado para moçambicanos no Brasil, ademais do intercâmbio de professores e pesquisadores, por intermédio de projetos de pesquisa, com a participação da CAPES e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A CAPES, vinculada ao Ministério da Educação brasileiro, cumpre um importante papel na expansão e na consolidação de estudos de pós-graduação “stricto sensu” (cursos de mestrado e doutorado) em todos os estados brasileiros. Entre os programas estratégicos financiados pela CAPES, há o Programa de Treinamento de Recursos Humanos em Televisão Digital (RH-TVD), lançado em novembro de 2007, com o objetivo de produzir pesquisa científica e tecnológica e o treinamento em televisão digital de recursos humanos em nível de pós-graduação. São áreas prioritárias cobertas pelo referido programa: • Engenharia de software direcionada para a pesquisa e desenvolvimento de “software” básico, “middleware”, sistemas operacionais e “firmwares14”; • Propagação eletromagnética, de microondas, de ondas e antenas; • Informática, engenharia elétrica e eletrônica, nas suas aplicações na plataforma de TVD, cobertura física e envolvida (transmissão e radiodifusão), codificação (condensação e codificação de vídeo digital e processamento de áudio e digital de imagens), cobertura de transporte e interatividade (o processamento dos sinais digitais e os protocolos de transmissão de dados); • Gestão, produção, geração, radiodifusão, interatividade e educação em linha na televisão digital; • Materiais semicondutores e componentes para o desenvolvimento de componentes microeletrônicos – microprocessadores, circuitos digitais de alta velocidade, equipamento para os processos microeletrônicos, especificamente dirigidos para aplicações de TVD; e • Telecomunicações. O Brasil incentivará a cooperação e o intercâmbio de experiências entre o Fórum Brasileiro de TV Digital (Fórum SBTVD) e instituições dos paises adotantes do sistema ISDB-T, mediante a entrega da documentação disponível sobre a implantação da televisão digital no Brasil, incluindo normas do ISDB-T em inglês, espanhol e português. O Fórum Brasileiro de TV Digital poderá fornecer assistência aos governos interessados, assim como aos radiodifusores e demais de suas empresas, com vistas à criação de um fórum nacional similar ao brasileiro.
14 Em eletrônica e computação, Firmware é o conjunto de instruções operacionais programadas diretamente no hardware de um equipamento eletrônico. É armazenado permanentemente num circuito integrado (chip) de memória de hardware

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Ao adotar o ISDB-T como norma de televisão digital, o pais adotante participará do Fórum Internacional do Sistema ISDB-T, criado em Lima em 21 de setembro de 2009, em igualdade de condições com os seus demais países constituintes, no qual as Partes podem trabalhar conjuntamente os temas técnicos, de capacitação de recursos humanos, de transferência tecnológica, de propriedade intelectual e de harmonização das normas internacionais do sistema ISDB-T. Considerações Finais O Sistema Brasileiro de TV Digital, lançado no dia 02/12/2007, representa a evolução do sistema de TV analógica para o digital. Esta evolução amplia possibilidades de lazer dos brasileiros, através da melhora significativa da qualidade de imagem e som; permite a ampliação do acesso gratuito, através da oferta de multiprogramação, e também possibilita o uso interativo da televisão. Além do tempo de implantação da infra-estrutura pelos radiodifusores para a geração do sinal digital em todas as capitais, a qual ocorrerá, segundo previsões da ANATEL, até o final de 2010, será necessário o uso de Set Top Box para permitir a visualização do sinal digital em aparelhos de TV analógicos. Com a oferta no mercado brasileiro de aparelhos receptores de TV digital, prontos para oferecer aplicativos de interatividade através de plataformas de conexão ou canais de retorno tem início um processo longo de substituição do parque instalado de TVs analógicas pelas modernas TVs digitais. O mercado brasileiro produtor de aparelhos de TV vem se mantendo num patamar fantástico, com produção anual de 12 milhões de unidades. Outro dado importante é que o Brasil já conta com cerca de 100 milhões de televisores em funcionamento. Assim, o objetivo de provermos a maioria dos lares brasileiros, independente da classe social, de acessibilidade às transmissões de TV digital é um grande desafio. O acesso das camadas da população com menor poder aquisitivo à TV digital, principalmente visando à oferta e a utilização de serviços televisivos interativos de interesse público (consultas médicas do SUS, declaração de IR, Educação à distância, Bolsa de empregos, T-Governo, etc.) a serem disponibilizadas, através do projeto de integração de plataformas comuns das TVs públicas Federais - EBC, TV Justiça, TV Câmara, TV Senado, TV MEC, TV da Cidadania -, agora com a possibilidade de ser incorporado a um plano mais abrangente de oferta de informação digital somando-se ao Plano Nacional de Banda Larga, inclusive com o compartilhamento de sites e antenas.. Tendo em vista o cumprimento dos objetivos ao longo dos dois próximos anos de exploração comercial nas principais cidades brasileiras, os níveis de preços praticados na venda dos “set top box” deveriam baixar o quanto antes. Com a dimensão do mercado brasileiro, tanto para set top boxes como para TVs digitais
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built-in (que utilizarão os set-top-box embutidos na TV), é de esperar que os preços dos componentes caiam drasticamente, a médio prazo, ainda mais com a mencionada adesão de vários países ao ISDB-Tb. O sistema de TV Digital, adotado em nosso País, impõe o uso de alguns padrões tecnológicos ao ISDB-T japonês original como, por exemplo, o uso do H264 (MPEG4) como ferramenta de compressão de vídeo, mais eficiente do que o MPEG2 utilizado pelos outros sistemas internacionais e que possibilita o uso da multiprogramação ou transmissão simultânea de quatro ou mais programações pelo mesmo canal. As vantagens que a multiprogramação garantem a expansão da produção de conteúdos audiovisuais são fáceis de perceber. Com esta iniciativa de atingir um nível de oferta a preços acessíveis a todos os brasileiros das caixas conversoras do sinal de TV digital, completaremos a tríade composta pela infra-estrutura que está sendo construída com o projeto das plataformas comuns de transmissão de sinal digital das emissoras públicas federais e do projeto de disseminação de conteúdos interativos. Deste modo estaremos a partir da América Latina, atingindo um novo patamar para o uso indiscriminado da TV Digital interativa, de acordo com o nosso objetivo maior qual seja, o de aproveitá-la, o mais breve possível, como ferramenta de inclusão digital e passaporte para a cidadania plena. Referências Bibliográficas BARBOSA FILHO, André e MELONI, Luis Geraldo P.A TV Digital interativa e na era das comunicações sem fio Trabalho apresentado no GP ‘Conteúdos Digitais e Convergências Tecnológicas’, evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009. BARBOSA Fº, André, CASTRO, Cosette e TOME, Takashi. Mídias Digitais, Convergência Tecnológica e Inclusão Social. São Paulo: Paulinas, 2005. BARBOSA FILHO, André, CASTRO, Cosette (2008). Comunicação Digital- educação, tecnologia e novos comportamentos. São Paulo: Ed. Paulinas, 2008. Entrevista da Sra. Ana Elisa Faria e Silva, concedida ao site Convergência Digital. Disponível em www.convergenciadigital.com.br Acesso em 24.de maio de 2010. Disponível em http://www.marketanalysis.com.br/mab/conteudo. php?pg=biblioteca. Acesso em 23 de maio de 2010. Disponível em www.wikipedia.org/wiki/Ginga Acesso em 24 de maio de
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2010. Disponível em HTTP://www.softwarepublico.gov.br/vercomunidade?community_id=1101545 Acesso em 24 de maio de 2010. Disponível em www.ginga.org.br Acesso em 24 de maio de 2010 .

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CAPÍTULO 2 Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos1

Anita Simis2

Em julho de 1990, portanto, há mais de 20 anos, publiquei no Jornal do Brasil um artigo intitulado “De volta ao cinema dos anos 20?”. Vivíamos então o chamado desmanche do Estado, quando o governo extinguiu ou dissolveu diversos órgãos e criou a Secretaria da Cultura. Diversas instituições simplesmente deixavam de existir: o Ministério da Cultura (1985), que significava apenas 0,5% do orçamento da União, a Fundação do Cinema Brasileiro (1987), que além de realizar festivais e conceder prêmios, desenvolvia a pesquisa, a conservação de filmes e a formação profissional, o Concine (1976), que exercia a função de normatizar, controlar e fiscalizar as atividades cinematográficas e de vídeo e produzia dados diversos sobre o desenvolvimento da atividade, a Embrafilme (1969), agência criada durante o regime militar e responsável por diversas atividades entre as quais o financiamento, a distribuição e a exibição dos filmes nacionais. Ironizando o fato, procurei mostrar que haviam escolhido mal o cenário para o enredo de um filme nacional oficial, afinal, desmantelando as instituições voltávamos à estaca dos anos 1920. E acrescentava: “Se o enredo voltasse aos anos 10, certamente os defensores da ausência de uma política cultural teriam argumentos mais sólidos. No entanto, os anos 10 parecem estar a léguas de distância, enquanto os anos 20 em tudo se assemelham à nossa atual situação”. A comparação se justificava ao demonstrar que a argumentação neoliberal fazia sentido para um tempo em que o cinema brasileiro era produzido com base na lei do livre mercado, num estado de nostálgica melancolia mofada. Na toada liberal, alguns artigos enfatizavam inclusive que desenvolvimento da produção cultural rimava com o uso das próprias forças da arte, que para superar a crise dos anos 1980 era necessário valer-se de uma dose de inventividade, saúde e coragem! Esse estado existia no período entre 1908 e 1913, quando o Brasil alcançou uma produção de 963 títulos, quando não havia uma cisão entre produtores e exibidores, funções que na verdade se traduziam na mesma pessoa, e isso sem esquecermos que as distribuidoras norte-americanas só se estabeleceram no Brasil após a Primeira Guerra, cabendo a importação dos filmes igualmente à mesma
1 Comunicação apresentada no Fórum Panorama Brasileiro da Comunicação: Perspectivas do Século XXI, Ipea/Socicom. Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 10 de setembro de 2010. 2 Professora Livre-Docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista – UNESP.

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pessoa do produtor/exibidor. Assim, filmes como Os Estranguladores (1908) e Paz e Amor (1910) não sofreram restrições, sendo o primeiro exibido mais de 800 vezes em dois meses, e o segundo mais de 900! Já nos anos 1920, vários pontos de intersecção podiam ser identificados com os 1990, pois a atuação do governo Collor no campo cultural pretendia voltar aos tempos em que o Estado ainda não havia ensaiado qualquer intervenção que favorecesse o florescimento de uma indústria cinematográfica, deixando os produtores brasileiros livres para encontrar as vias de expressão, mas, sublinhe-se, num mercado agora totalmente organizado em função dos interesses do cinema estrangeiro. Essa aversão ao Estado, como agente capaz de sinalizar uma política, especialmente no âmbito da cultura, com o argumento de que o Estado que empresa espetáculos patrocina artistas ou promove iniciativas na verdade favorece uma “cultura oficial”, foi a tônica repisada na imprensa durante vários anos. Com as devidas ressalvas, mesmo Fernando Henrique Cardoso somava suas teses ao argumento, declarando em 1990: “O pensamento da esquerda, especialmente na América Latina, se baseou muito na ideia de que o fundamental era o desenvolvimento, de que o Estado era a agência central para esse desenvolvimento e de que os instrumentos coletivos de ação primavam sobre os individuais. Hoje, a tese de que o Estado é fundamental para o desenvolvimento não deve ser mais um dogma de esquerda. Já há categorias sociais específicas que cuidam do desenvolvimento, os empresários”. (Folha de S. Paulo, 11/3/1990). Por outro lado, analisando vastos períodos da política cultural e do desenvolvimento da indústria cultural, não podemos deixar de notar que a intervenção do Estado nos períodos fechados foi intensa e muitas vezes tolheu a liberdade e criatividade de expressão. Mas, se desde os primórdios da preocupação do Estado com questão cultural, ainda no século XIX, quando, sob influência europeia, sob a ideologia positivista, o Brasil precisava ser “civilizado”, quando cultura significava civilização e estava imbricada na educação, foram criadas a partir do Estado instituições como bibliotecas, escolas de belas artes, museus, arquivos, hoje, a preocupação já não é com a nação, mas com a sociedade. Já superamos o paradigma da nacionalidade, não se trata mais de construir uma nação, mas de democratizar uma sociedade injusta e desigual, de construirmos um diálogo aberto para o mundo. Evidentemente, não podemos deixar de evidenciar o peso desse legado e perceber o quanto somos ainda credores dos resquícios desse passado, mas já podemos enxergar avanços significativos. Assim, já não se propõe um Estado para intervir, centralizar decisões, principalmente para difundir o nacionalismo e propor uma integração nacional pelo alto. Sem a contundência e eficácia do caráter repressivo, controlador e centralizador dos regimes autoritários, felizmente
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desmoronaram seus mecanismos e, caso se notem vestígios, são prontamente denunciados. Tal como no pós 1945, podemos olhar no espelho retrovisor das políticas que a partir do final do regime militar houve uma intensa atuação no sentido de procurar uma via de organização dos produtores de cultura em busca de sua sobrevivência, de medidas que se ajustassem no sentido de destravar amarras que os ligassem ao Estado, sem, no entanto, prescindir de sua presença justamente no sentido de garantir a competição no mercado, especialmente no âmbito da indústria cultural, onde predomina o produto estrangeiro, produto que, por sua vez, aproveitou para se desvencilhar de toda e qualquer obrigação tributária ou restrição com base regulamentar. Talvez a última crise de 2009 ainda não tenha colocado com a devida ênfase que só o Estado pode favorecer normas consensuais para um regime de livre iniciativa, de livre concorrência e da prevenção ao abuso do poder econômico. Sem essas normas, o que se apresenta é um mercado onde a livre concorrência se impõe entre leões e macacos no terreno deserto, sem qualquer árvore que possa salvar ao menos uma família de macacos. É nesse sentido que entendemos a atual disposição de efetuar o convênio entre Ipea e Socicom. Particularmente em seu subprojeto 2, que trata das Indústrias Criativas, propõem-se bases para uma política que sinalize as vias de desenvolvimento das indústrias da comunicação e da cultura que estão estruturadas a partir das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). A fundação, em conjunto com representantes de 14 entidades que compõem a federação, se propõe a patrocinar e instrumentalizar governo e sociedade com uma pesquisa inédita no âmbito das Indústrias Criativas. Trata-se de iniciar uma análise acerca do desenvolvimento, na primeira década do novo século, e as perspectivas para a próxima década, nos setores de mídia impressa e virtual (jornal, revista e livro), mídia sonora (rádio, disco, telefone e novos suportes), mídia audiovisual (cinema, televisão, videojogos e vídeo), multimídia (internet, outdoor, aparatos móveis e convergência de mídias). Estão previstos, assim, os seguintes indicadores a serem perseguidos nos próximos anos: 1. Mídia impressa e virtual: jornal, revista e livro. 1.1. Jornal: assinantes por ano, número de jornais existentes por ano, volume de vendagem de jornais por ano, investimento publicitário por jornal. 1.2. Revista: assinantes por ano, número de revistas publicadas por ano, volume de vendagem de revistas por ano, investimento publicitário por revista. 1.3. Livro: vendas de livros por ano, número de livros publicados por ano, volume de vendagem de livros por ano.
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2. Mídia sonora: rádio, disco e novos suportes. 2.1. Rádio: número de empresas existentes por ano, número de empresas de rádios digitais existentes por ano, número de emissoras de rádio por estado, investimento publicitário. 2.2. Indústria fonográfica: formatos (disco, CD, VHS, DVD, digital), número de discos/DVD vendidos por ano, número de músicas digitais vendidas por ano, número de empresas gravadoras por ano, número de CDs e DVDs piratas apreendidos por ano, consumo do repertório nacional, internacional e clássico no mercado fonográfico brasileiro 2001-2009. 3. Mídia audiovisual: cinema, televisão, videojogos e vídeo. 3.1. Cinema: número de espectadores de filmes nacionais por ano, número de espectadores de filmes estrangeiros por ano, número de produtoras existentes por ano, longa metragem e curta metragem, número de filmes nacionais produzidos por ano, número de filmes nacionais exibidos por ano, número de filmes estrangeiros exibidos por ano, número de cineclubes por estado, número de salas de cinema por estado, número de assentos nas salas de cinema por estado, total de espectadores por ano, preço médio de ingressos vendidos por cinema, remessa dos lucros dos filmes estrangeiros com dados sobre o remetente, o favorecido no exterior e o valor por ano (Banco Central), número de distribuidoras nacionais e internacionais, número de redes de exibição e exibidores independentes. 3.2. Televisão e TV por assinatura: número de redes de televisão por região, número de aparelhos de televisão por região, número de assinantes por ano, número de espectadores de TV aberta por ano, número de assinantes de TV por assinatura por ano, número de filmes estrangeiros exibidos na TV aberta por ano, número de filmes nacionais exibidos na TV aberta por ano, número de filmes nacionais exibidos na TV por assinatura por ano, número de filmes estrangeiros exibidos na TV por assinatura por ano, horas/semana por categorias/gênero dos programas por região, horas de programação nacional exportadas por ano e por emissora, investimento publicitário e número de redes de televisão, abertas, fechadas e em UHF. 3.3. Vídeo: número de videolocadoras existentes por ano, número de vídeos nacionais lançados por ano, número de vídeos estrangeiros lançados por ano. 3.4. Videojogos: produção de videojogos nacionais, investimentos publicitários em videojogos, espaços midiáticos especializados em programas de videojogos, número de empresas brasileiras que desenvolvem videojogos, resultados econômicos do setor; exportação de videojogos. 4. Multimídia: internet, outdoor, telefonia, aparatos móveis, investimento publicitário por cada um dos veículos.
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4.1. Internet: número de operadoras por ano, número de casas de lan-house por ano, número de computadores conectados (domicílios, escolas, empresas). 4.2. Outdoor: número de outdoors por ano. 4.3. Aparatos móveis, número de Iphones, número de Ipods, número de podcasts, número de smartphones. 4.4. Telefonia: número de empresas produtoras de aparelhos móveis e fixos de telefone, número de celulares móveis e fixos vendidos, produção de conteúdos digitais para celulares, mercado publicitário para celulares e número de usuários de telefone com acesso a banda larga. A realização da pesquisa leva em conta a combinação de métodos qualitativos (análise de dados primários em fontes estatísticas e congêneres, bem como a consulta a fontes bibliográficas e hemerográficas) e quantitativos (elaboração de índices comparativos e projetivos). Essa pesquisa compreenderá uma publicação impressa e um site com a indicação de dados e fontes para a alimentação contínua de um Observatório Nacional das Políticas Públicas de Comunicação. Esse Observatório será um instrumento fundamental para produção de indicadores sequenciais capazes de compreender as tendências na comunicação, e em particular das Indústrias Criativas, e assim orientar a constituição de uma política planejada. Para tanto, será imprescindível a interlocução entre organismos oficiais (ministérios, agências, institutos, principalmente o IBGE, etc.) e privados (Itaú Cultural, Sesc, Senac, Observatórios, etc.). Esse trabalho poderá, assim, fortalecer mecanismos de planejamento sistêmico na área, submetendo o improviso a um controle, mas sem inibir a disposição para uma política original, ou, ao menos, quando já introduzida em outros países, nunca posta em prática no Brasil. Quem sabe assim não voltemos mais aos anos 1920, quando o cineasta ou outros produtores de cultura eram vistos como aventureiros, vagabundos e até vigaristas, constituindo uma sólida indústria criativa que afaste o pessimismo daqueles que pregavam bordões como: “O Brasil não produz filmes, assim como não produz cerejas”.

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CAPÍTULO 3 Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-2008)
Gilberto Maringoni1

Um mundo em convulsão A última década do século XX foi palco das mais profundas transformações no terreno da mídia acontecidas após o advento da segunda Revolução Industrial, nos anos 1870. As empresas e redes de comunicação, anteriormente compreendidas em limites nacionais, têm se integrado a um verdadeiro sistema transnacional, cujos polos irradiadores são os oligopólios midiáticos dos países centrais, em especial os dos Estados Unidos. As empresas que formam essas articulações, muitas vezes, não estão apenas ligadas à área específica da informação. São corporações com interesses no sistema financeiro e nas indústrias imobiliária, armamentista ou energética. Por esse motivo, a lógica do setor aproxima-se à da que ocorre em outras esferas do capitalismo internacional, com os mundos das finanças, do comércio e da indústria, que se realizam cada vez mais em escala global. Em tempo algum da história da humanidade tantas pessoas tiveram tanto acesso à informação e a produtos comunicacionais. As redes de televisão, de telefonia e de internet cobrem praticamente todos os pontos do planeta. A redução das taxas de analfabetismo e a elevação dos padrões de vida em vários países aumentaram de maneira inédita a circulação de meios impressos, cuja sobrevivência é sempre colocada em questão. Nem mesmo a competição com outros produtos tem reduzido suas tiragens em termos absolutos. A indústria de informações jamais teve um alcance tão grande como nos dias que correm. Ao mesmo tempo, nunca a propriedade dos emissores de informação esteve tão concentrada nas mãos de poucos grupos. Os empreendimentos de porte do setor exigem inversões de capital cada vez maiores, dificilmente realizadas por empresas de âmbito local ou nacional.
1 Jornalista, doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2006) e graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela mesma universidade (1986). Tem experiência na área de História, com ênfase em América Latina contemporânea, História da imprensa e História do Brasil Império. Tem estudos focados nos temas: imprensa, escravidão, relações internacionais, endividamento público e modelos de desenvolvimento. É autor de dez livros, entre eles Barão de Mauá, o empreendedor (Aori, 2007), A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Editora Fundação Perseu Abramo, 2004) e A revolução venezuelana (Edunesp, 2009). É professor de jornalismo na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo, e bolsista do Programa Nacional de Pesquisas Econômicas (PNPE) no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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Tal desenvolvimento se deu por meio da formação de grupos que enfeixam a propriedade de várias empresas de ramos diversos, através de sólidos adensamentos verticais. O fenômeno foi facilitado pela convergência de mídias, possibilitada pelo avanço da tecnologia digital. Os interesses comuns vão da área editorial impressa, passando pelas indústrias fonográfica, cinematográfica, de telefonia, de internet, institutos de pesquisa, até a televisão e o rádio. À concentração vertical se soma o domínio horizontal – isto é, por várias regiões – dos principais meios por um mesmo empreendimento. Essa conformação não é nova. Ela vem se desenhando há mais de um século pelo continente. A imprensa e os ciclos históricos continentais O desenvolvimento da atividade de imprensa na América Latina e sua constituição como grande empresa capitalista, nas duas últimas décadas do século XIX, são produtos de pelo menos dois processos históricos simultâneos: uma nova inserção do continente no mercado mundial e os avanços tecnológicos possibilitados pela segunda Revolução Industrial (1870). Até então, a atividade era predominantemente artesanal, caracterizada por prelos manuais, baixas tiragens e ausência de profissionalismo. A partir de 1870, um novo quadro de crescimento econômico, advindo das atividades agroexportadoras, alargou os mercados internos em cada país, possibilitou a ampliação das camadas médias da população, reduziu as taxas de analfabetismo, incrementou o consumo de bens manufaturados e criou condições, entre outras atividades, para o desenvolvimento de meios de comunicação impressos. O progresso técnico do período, para o setor, pode ser sintetizado pela chegada da máquina rotativa, nos anos 1880-1890. Além desta, outras novidades tecnológicas melhoraram a qualidade, facilitaram a reprodução e baratearam o preço unitário final de produtos impressos. Um conjunto de inovações mais ou menos concomitantes mudou a forma de se fazer jornal. Foram elas: o uso do telégrafo para a transmissão rápida de informações, o linotipo a quente para a composição de textos, a clicheria para a utilização de imagens, a zincografia como meio de impressão e a máquina rotativa como forma de reprodução em larga escala. No Brasil, a marca dessa época foi o surgimento do Jornal do Brasil, em 9 de abril de 1891. Na Argentina, os grandes marcos do jornalismo dessa fase são La Prensa (1869) e La Nación (1870). La Prensa tem uma tiragem inicial de 25

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mil exemplares2 e alcança 77 mil em 1900. Seu concorrente, La Nación, surgido três meses depois, em janeiro de 1870, era resultado de uma sociedade de cotas, liderada pelo ex-presidente da República Bartolomé Mitre. A tiragem inicial era modesta, mil exemplares. Logo, o jornal passou a utilizar os serviços de agências de notícias, como Havas (França), Reuters (Inglaterra) e Wolf (Alemanha). Seu serviço de correspondentes internos, na primeira fase, era baseado em serviços de pombos-correio3. O espaço para a convivência entre iniciativas de pequenos grupos e vultosos empreendimentos reduz-se. Os órgãos menores – editados a partir de pequenas cotizações – que não desapareceram tiveram sua importância editorial e política bastante limitada. Há uma tendência à redução do número de títulos disponíveis ao público. Desenvolvimentismo, nacionalismo e comunicações O período histórico que se convencionou arbitrariamente chamar de era do rádio coincide com os anos classificados como os do populismo na política continental. Mais tarde, no segundo pós-Guerra, um neologismo seria criado para classificar a matriz econômica desses tempos: o nacional desenvolvimentismo, ou período de substituição de importações. O desenvolvimento tecnológico e a ampliação do número de emissoras fez com que os países começassem a esboçar dispositivos legais para regular algo inteiramente novo, o ar como espaço público. A suposição básica era a de que o espaço radioelétrico não é ilimitado e pertence à nação. A maioria dos Estados entendeu que o funcionamento das emissoras deveria ser feito sob o regime de concessão pública, renovável ou não, embora a maioria das emissoras tivesse caráter privado. As emissões radiofônicas mostraram uma capacidade ímpar de consolidar a ideia de nação. O caso colombiano desse processo é exemplar. Vejamos as palavras do historiador Reynaldo Pareja: Antes da aparição e da difusão nacional do rádio, o país era um quebracabeças de regiões altamente fechadas em si próprias. A Colômbia podia ser denominada, antes de 1940, mais como um país de países do que como uma nação. Com as ressalvas do caso, a radiodifusão permitiu vivenciarse na Colômbia uma unidade nacional invisível, uma ‘identidade cultural’ compartilhada simultaneamente pelos costeños, os paisas, os pastusos os
2 Ulanovsky, Carlos, Paren lãs rotativas, diários, revistas y periodistas (1920-1969), emecé, Buenos Aires, 2005, pág. 21. 3 Idem, pág. 26. É nesta fase que o investimento em imprensa muda de patamar e de escala. Sai de cena o improviso e colocam-se no mercado empresas de comunicação de porte até então inédito.

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santandereanos e os cachaços4. Gigantes da mídia O traço fundamental da alteração do perfil dos negócios da mídia, delineado a partir dos anos 1930-1940 e concretizado após a II Guerra, é a constituição de grupos empresariais de comunicação. Estes se caracterizam pela propriedade cruzada de vários meios, como revistas, jornais, emissoras de rádio e, posteriormente, de televisão. O exemplo maior desses anos foram os Diários Associados. Suas empresas se constituíram a partir do lançamento de O Jornal (1924), no Rio de Janeiro, pelo empresário brasileiro Assis Chateaubriand (1892-1968). O grupo consolidou-se com a publicação da revista semanal O Cruzeiro, em 1928, com tiragem inicial de 50 mil exemplares. Seu auge aconteceu nos anos 1950, quando alcançou 720 mil exemplares. Os Diários chegaram a compreender, nos anos 1960, 36 estações de rádio, 34 jornais, 18 canais de televisão, uma revista de circulação nacional, além de uma agência de notícias e outras publicações periódicas. A primeira grande cadeia de periódicos mexicanos começou a se formar a partir dos anos 1930, com o lançamento do diário Novedades, das Publicações Herrerías, empresa da família de mesmo nome. O jornal foi transferido, por imposições políticas, a um grupo de empresários ligados a Miguel de Alemán, presidente do país entre 1946 e 1952. As famílias O’Farrill e Alemán fizeram do jornal a ponta de lança de um grande grupo empresarial de comunicações, que incluía 36 publicações. A cadeia midiática mudou de mãos a partir de 1973, passando a se denominar Organización Editorial Mexicana (OEM) e conta com 70 periódicos, 24 emissoras de rádio, um canal de televisão e 43 sítios de internet, chegando a ser, nos anos 1970, o maior grupo de comunicação em língua espanhola em todo o mundo. Televisão, a mão visível do Estado A partir de 1950, tem início outra etapa da constituição dos sistemas de comunicação de massa na América Latina. Trata-se do terceiro grande salto tecnológico, marcado pela chegada da televisão. Privilégio de poucos, nos seus primórdios, em menos de uma década ela já era um fenômeno popular. O surgimento da televisão na América Latina se dá, nos maiores países, preferencialmente pelas mãos do Estado. Isso acontece na Argentina (1951), como parte da expansão dos meios de comunicação durante o governo de Juán Domingo Perón (1946-1955), no Chile (1959), através de universidades
4 P areja, Reynaldo, Historia de la Radio en Colombia, Secom, Bogota, 1984, pág 177, citado por Barbeiro, op. Cit., pág. 234.

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católicas, Venezuela (1952), como parte do esforço de legitimação da ditadura do general Marcos Pérez Jimenez (1948-1958), e na Colômbia (1954), como peça do departamento de propaganda da ditadura do general Gustavo Rojas Pinilla (1953-1962). No México (1950), há uma particularidade. Seu desenvolvimento esteve estritamente vinculado à trajetória do PRI (Partido Revolucionário Institucional), que governou o país por mais de 70 anos, e, por conseguinte, do Estado. Tanto o consórcio Televisa como seu predecessor, Telesistema Mexicano (1955), cresceram à sombra do sistema unipartidário. Houve, durante décadas, uma clara aliança entre governo e os empresários da Televisa. A América Latina dos anos 1950 apresentava escassa industrialização, e seus países seguiam sendo primário-exportadores. À exceção de Argentina e Chile, todos tinham a maioria de suas populações vivendo no meio rural. A televisão foi, em todos eles, uma espécie de passaporte para a modernidade. No entanto, a maioria do empresariado duvidava das possibilidades daquela tela iluminada. O próprio meio publicitário não acreditava em sua eficácia. Houve, além disso, um entrave crônico ao pleno desenvolvimento do novo veículo: a carência de capitais. No início dos anos 1960, uma realidade começa a se impor e uma nova base, além do Estado, aparece para sustentar o empreendimento: o capital externo, em especial o estadunidense. Representantes das redes ABC (American Broadcasting Company), NBC (National Broadcasting Company), CBS (Columbia Broadcasting Company) e Time-Life Broadcast Station percorrem a região, oferecendo parcerias. Os aportes de capital não são a única interferência externa. Ao mesmo tempo, chega boa parte da programação para televisão, cinema e publicidade, além de vasta gama de produtos industriais. Com tais investimentos, as emissoras locais conseguiram se viabilizar, atingir públicos crescentes e se tornar negócios atraentes. Em muitos países, como subproduto da fase de substituição de importações e do nacional-desenvolvimentismo, as legislações impunham restrições à entrada de capital externo no ramo das comunicações. Legislações desse tipo foram aprovadas na Argentina, no Brasil, na Colômbia, no Chile e no México. Embora as legislações nacionais fossem claras ao impedir associações com estrangeiros, a aplicação de tais normas sempre foi flexível. O investimento estadunidense espalhou-se por vários países. Mas, nos últimos anos da década de 1960, a maioria dos capitais externos saiu das emissoras da Argentina, do Brasil, do Peru e da Venezuela. Se de um lado isso reduziu os orçamentos das emissoras, de outro o fato ocorreu quando os empreendimentos já tinham amadurecido e andavam com as próprias pernas. Entre as causas dessa saída de capitais rumo às
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matrizes estava a rentabilidade maior do mercado dos EUA, num tempo em que se implantavam no país a TV a cabo e as transmissões por satélite. Tecnologia digital, o caminho da internacionalização O quarto marco do desenvolvimento das comunicações na América Latina se deu no início dos anos 1990, com avanços no terreno da tecnologia digital e da informática. Esse salto se concretiza em diversas modalidades, como a televisão digital, as transmissões por cabo e via satélite, a telefonia móvel, a internet etc., materializando uma inédita convergência tecnológica. No terreno econômicoempresarial, a mídia também se internacionaliza. Investimentos, desenvolvimento tecnológico e estratégias de crescimento passam a ter escala planetária, formando um mercado cada vez menos competitivo, tendendo à uniformidade de conteúdos e marcado por intensa concentração de capitais, por meio de fusões e aquisições por toda parte. Para conformar tal mudança de padrões, legislações são modificadas em vários países. Em quase todo o continente, o ponto definidor dessa fase se deu a partir das políticas de privatização dos anos 1990. De acordo com o pesquisador Marcos Dantas, as privatizações continentais do setor começaram com a venda da estatal Compañía de Telecomunicaciones de Chile (CTC), em 1987. O especulador australiano Alan Bond arrematou a empresa por US$ 270 milhões. Depois de obter aumentos de preços de tarifas, o empresário elevou em 88% seus lucros em 1998. No ano seguinte, os lucros atingiram US$ 95 milhões. Em 1990, Bond vendeu 47,7% de suas ações na empresa para a Telefónica de España por US$ 390 milhões5. Em novembro de 1991, a Telecom Argentina – atuante no centro-norte – foi entregue a um consórcio formado pela France Télécom, STET (hoje Itália Telecom) e pelo Banco Morgan Stanley. A Entel, que atuava no centro-sul do país, foi adquirida pela Telefónica de España e pelo Citicorp. Em dezembro do mesmo ano, a próspera Telmex mexicana foi privatizada em favor do consórcio France Télécom, Bell South e Grupo Carso, de Carlos Slim. Quase nos mesmos dias, a Compañía Anónima Nacional de Teléfonos de Venezuela (CANTV) foi vendida para o consórcio formado pelas empresas Telefónica de España, AT&T e GTE. A Telefónica também comprou a Telefónica Larga Distancia (TLD) porto-riquenha no mesmo ano, e a Entel peruana em 1994.
5 Ruelas, Ana Luz, México y Estados Unidos en laRevolución Mundia l de las Telecomunicaciones, Institute of Latin American Studies, Austin, Texas, 1995, disponível em http://lanic.utexas.edu/la/mexico/telecom/Libro_TELECOM.pdf

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Em 1998, o sistema controlado pelo sistema Telebrás, no Brasil, é fatiado e vendido aos pedaços – pois não havia investidor capaz de adquiri-lo em sua totalidade – para os conglomerados Telefónica de España, Grupo Jereissati, Grupo Opportunity, alguns fundos de pensão e especuladores e aventureiros internacionais6. A Telebrás era, à época, o maior sistema de comunicações da periferia capitalista. Legalização do capital externo A internacionalização provocada pelas privatizações dos anos 1990, combinada com o alto endividamento em dólar das empresas de comunicação – em uma época de crises cambiais na periferia –, levou vários governos da região a quebrar uma dos pilares das legislações sobre comunicação. Assim, a proibição de investimentos estrangeiros foi suprimida em graus variados na Argentina, no Brasil, no Chile, no México, entre outros. Com crises cambiais sucessivas – especialmente no México (1994), no Brasil (1999) e na Argentina (2001) –, as empresas locais pressionaram governos a alterarem legislações, com o objetivo de receberem investimentos de fora. Na América Latina, a história dos meios de comunicação é a história de como se constituíram as oligarquias locais e regionais, de como se moldaram os Estados nacionais e de como o capitalismo se desenvolveu neste pedaço do mundo. É essencialmente uma história política, de favorecimentos a classes ou setores de classes em detrimento de outras, em sociedades desiguais, nas quais a propriedade e a renda são extremamente concentradas. A sincronização detectada na evolução histórica dos diversos países evidencia que a mídia continental sempre foi um braço do poder político, incentivando, apoiando e disseminando medidas próprias de sua lógica. O futuro, enfim Que rumos podem ser vislumbrados para o desenvolvimento das comunicações na América Latina, em meio a aceleradas mudanças nas composições societárias, nos avanços tecnológicos e nas demandas diversificadas por informação? A profunda reestruturação tecnológica assistida pelo mundo desde o final dos anos 1970 e a própria alteração nos padrões de acumulação ensejaram a constituição de novos tipos de conglomerados de alcance global. O desenvolvimento tecnológico casou-se à perfeição com uma era de desregulamentação dos mercados em escala internacional. A livre circulação de capitais, em velocidades inimagináveis há três
6 Informações de Dantas, Marcos, A lógica do capital-informação, Contraponto 2002, Rio de Janeiro, pág. 229.

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décadas, foi possibilitada não apenas por conta da queda de barreiras legais em cada país. Ela acontece também por força dos avanços na área de automação bancária, de transmissão de dados e de alocação de investimentos em tempo real por empresas que operam em diversos pontos do planeta. Os velhos grupos familiares no continente – Clarín, Edwards, Mesquita, Frias, Marinho, Civita etc. – se defrontam com duas forças contraditórias. De um lado, a ameaça real de serem engolidos por organizações gigantescas, em um ambiente cuja dinâmica não é impulsionada pelos mercados locais, mas pela lógica de investimentos planetários. De outro, a uma pressão política de baixo para cima, que reivindica direito à informação e democratização das informações. Para alguns, a saída tem sido a abertura de seu capital. Para outros, ronda o espectro de uma concorrência assimétrica, caso não se reestruturem. Repetindo: essa situação resulta de um liberalismo radical, sempre defendido por eles mesmos. Os velhos grupos de comunicação continentais percebem agora que a abertura indiscriminada dos mercados nacionais tem prós e contras para seus interesses. Se, de um lado, isso possibilita associações e fusões, com consequente incremento na entrada de capitais para investimentos, de outro coloca a velha mídia literalmente em xeque. Antigos grupos familiares têm sido obrigados a se reestruturar à força, para não sucumbirem diante de empreendimentos muito mais poderosos. Monopolista, antidemocrática e elitista, a velha mídia dificilmente conseguirá galvanizar a opinião pública para sua defesa. Há apenas um único ente com porte e capacidade para realizar um contraponto e buscar garantir que os interesses e os direitos da cidadania possam prevalecer nesse quadro geral. Trata-se do Estado. Demonizado e acusado de ineficiente por quase três décadas consecutivas, este tem condições de impor limites legais à formação de monopólios, outorgar e suspender concessões públicas e de produzir uma comunicação democrática e de qualidade, sem se vincular a interesses comerciais imediatos. A independência do Estado em relação aos agentes privados será tanto maior quanto mais pública e democrática forem suas características.

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CAPÍTULO 4 Comunicação institucional do poder público
Antonio Lassance1

Introdução A comunicação é, ao mesmo tempo, uma das áreas mais importantes e sensíveis para a gestão pública e uma das menos institucionalizadas. A regulamentação é escassa, genérica, pouco associada aos objetivos da República e dominada, em sua publicidade, por “maneirismos” mercadológicos. Possui uma ampla margem de manobra, o bastante para que ela possa ser bem utilizada em prol das políticas, programas e ações que precisam se tornar conhecidas, mas aberta o suficiente para deixar brechas que podem ser distorcidas, ou cujo bom uso depende não só das virtudes dos governantes, mas da virtude dos que comandam a comunicação. Tal situação contraria um dos requisitos do funcionamento do Estado, que é justamente o de ter mecanismos que induzam comportamentos republicanos, diminuindo ao máximo o espaço para opções entre usar ou abusar da comunicação. A discussão aqui apresentada sugere um marco institucional para a comunicação do Poder Executivo, seguindo o princípio essencial de que poder público é poder do público sobre o Estado. Deriva daí o pressuposto de que a comunicação deva ser prestada como uma modalidade a serviço do público. Toma-se como pressuposto que a comunicação realizada por meio de organismos estatais deve ser democrática, e pode sê-lo tanto ou mais que em empresas privadas. Deve ser crítica – o que significa, muitas vezes, nadar contra a corrente de opiniões largamente disseminadas. E deve ser afinada com os direitos dos cidadãos, sem ter que simular uma independência do Estado. Não existe independência em atividades financiadas exclusivamente pelo Estado, que dependam de suas diretrizes e, principalmente, que tenham que obedecer ao regramento legal estabelecido. O que pode e deve existir é autonomia, figura conhecida em âmbito administrativo. Um serviço público de comunicação é a forma concreta e sistemática de institucionalização de um tipo próprio e peculiar de comunicação. Próprio porque, em alguma medida, deve ser realizado diretamente pelo Estado, sem prejuízo de eventualmente valer-se de serviços especializados contratados no mercado e,
1 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia. Foi assessor da Secretaria de Comunicação da Presidência da República e presidente do Conselho de Administração da Radiobras.

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sobretudo, tendo que conectar-se a redes sociais que operam seus próprios canais de transmissão de mensagens. Peculiar porque tem características diferenciadas em relação à comunicação empresarial privada, à autocomunicação de massa ou das organizações civis, e distinta mesmo da do Legislativo e Judiciário. O lugar da comunicação do poder público Pode-se tipificar a comunicação conforme critérios diversos. Tomando-se como critério o emissor, há quatro tipos fundamentais: • Comunicação pessoal: aquela estabelecida por cada pessoa, em espaços públicos ou privados. Tem como meios as conversas pessoais, telefonemas, e-mails, cartas etc; • Comunicação do poder público: é a comunicação dos órgãos da administração pública, sob as mais diferentes formas: desde os comunicados internos, diários oficiais, notícias veiculadas em seus próprios meios de comunicação, publicidade (mesmo que paga e veiculada em meios empresariais privados) e até os pronunciamentos e discursos proferidos pelas autoridades. É uma comunicação ao mesmo tempo do Estado, de seus órgãos e de seus agentes, na medida em que estejam no exercício de funções estatais; • Comunicação empresarial: é a comunicação tradicional dos veículos que têm a informação e o entretenimento como negócio. É orientada a consumidores dispostos a pagar, direta (por exemplo, quando compra jornais e revistas) ou indiretamente (quando consome publicidade no rádio ou na TV aberta). No mesmo campo se insere a comunicação realizada por empresas de outros ramos (automóveis, bebidas, roupas, aparelhos eletrônicos), que buscam vender suas mercadorias e, para tanto, propagandeiam seus atributos ao mercado consumidor. As próprias empresas de comunicação, aliás, fazem uso intenso de publicidade para oferecerem-se como mercadoria para o consumo; • Comunicação das organizações civis: aquela veiculada por partidos, sindicatos, igrejas, associações, ONGs etc. Manuel Castells (2007 e 2009) cunha a expressão autocomunicação de massa para analisar o atual momento de alastramento do uso dos computadores pessoais conectados à internet, abrindo novas possibilidades comunicativas a um número cada vez maior de pessoas. Blogs e redes sociais tornaram-se sua forma preferencial. Mas mesmo essa novidade se enquadra entre os quatros tipos descritos, sendo a web uma plataforma massiva utilizada principalmente para a comunicação de caráter pessoal. É preciso abrir um parêntesis para a crítica ao conceito de “comunicação
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pública”. As visões que se afirmaram em torno deste conceito partem do paradigma liberal, segundo o qual a comunicação, para atender aos requisitos da sociedade, deve afastar-se do Estado, e não se aproximar dele para interferir em suas diretrizes e ações. Tal falácia normalmente ampara a defesa de uma pretensa independência da comunicação social financiada pelo poder público em relação aos governos. Outro problema é a omissão quanto à figura do Estado, da qual o governo é apenas uma de suas organizações. Normalmente, se acaba recaindo em uma simulação que pode resultar em algo mais grave, a dissimulação, ou a tentativa de maquiar a fonte da informação e os interesses que estão por trás daquela mensagem. Neste quadro, o conceito de comunicação pública apresenta-se como deslocado, inconsistente e redundante. Deslocado porque não identifica claramente seu emissor. Ao contrário, esforça-se por escondê-lo, o que desrespeita um princípio essencial da comunicação que é o de deixar clara a fonte dessa informação. Comunicação com credibilidade depende de que o emissor esteja explícito, para que o público saiba quem é ele e que interesses representa. Quem recebe uma mensagem tem o direito de conhecer seu emissor, sem subterfúgios. Para o Estado, esse reconhecimento é central à sua comunicação. Na medida em que o público adquira confiança na mensagem recebida e possa livremente modular sua relevância, pode mais facilmente credenciar sua disseminação. Com uma revolução comunicativa em curso, as informações a serem disseminadas dependem muito da credibilidade que gozam e da adesão que alcançam diante dos filtros estabelecidos pelas pessoas. Se passarem por tais filtros, serão transportadas para dentro de redes sociais por interlocutores que emprestarão sua própria credibilidade à mensagem. O conceito de comunicação pública é inconsistente por ser uma transposição incorreta do conceito de esfera pública para dentro da organização do Estado, o que contradiz a própria noção de esfera pública (HABERMAS, 1984). Habermas, por sinal, enfatiza a importância da opinião formada pelos canais informais (não estatais e não organizados burocrática e empresarialmente) de comunicação política (HABERMAS, 1992). A ideia que se tentou propagar como “modelo” de comunicação para o setor público não tem lastro teórico algum. Está baseada em algo que se referia mais apropriadamente à comunicação feita em público, em espaços públicos. A discussão até ganharia algum sentido se partisse da teoria da participação, que encontra alguma afinidade com a concepção habermasiana de esfera pública, ou se estivesse associada à teoria da democracia deliberativa (THOMPSON, 2002). Mas não foi assim que a ideia foi recepcionada no Brasil.
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Finalmente, trata-se de um conceito redundante, posto que, a rigor, toda comunicação tem alguma dimensão pública. Ainda pior é a expressão “jornalismo público” (conforme alerta KUCINSKI, 2006). Todo emissor se dirige a algum público. Mesmo a comunicação pessoal tem um destinatário, um interlocutor, alguém que se constituiu em receptor daquela mensagem. Na era da autocomunicação de massa, mais ainda, mesmo os sentimentos e os humores mais íntimos tornam-se objeto de “comunicação pública”. Em sua contraparte, a dissimulação sobre as responsabilidades quanto ao que deixou de ser feito, do que foi desfeito ou mal feito – e dos prejuízos causados a todos –, é uma das formas de favorecer a septicemia da credibilidade do poder público, que generaliza convicções pessimistas sobre as virtudes do regime democrático, seus agentes políticos e servidores. É muito comum ver expressões como “governo analisa...”, “governo concede...”, “autoridades do governo...”, o que não permite ao cidadão identificar corretamente o responsável pela ação informada. A ideia de que todos são irresponsáveis anda junto com a percepção equivocada de que ninguém é responsabilizado. A comunicação do poder público, portanto, tem atribuições características e papéis essenciais a serem cumpridos no regime republicano, quais sejam: 1) Comunicar a decisão tomada e esclarecer sua motivação, alcance e possíveis consequências; 2) Zelar para que a mensagem transmitida seja fiel à decisão oficial. Este é o requisito básico da qualidade da informação do poder público: fornecer ao cidadão a fonte oficial da decisão e replicar seu exato teor; 3) Garantir o caráter universal da informação. Significa que ela deve ser clara a todos os públicos e sua disseminação deve ser irrestrita, gratuita e rápida, o mais imediata e diretamente possível, garantida a sua qualidade, valendo-se, para tanto, de meios próprios ou do apoio de outros tipos de comunicação que amplifiquem seu alcance; 4) Esmiuçar o caráter contraditório das decisões. A atenção para este aspecto deve estar no fato de que contradição não significa patrocinar a ambivalência, muito menos a ambiguidade, que são problemas para as políticas públicas (ZAHARIADIS, 1999; SUBIRATS, 2006). Assumir o caráter polêmico das decisões é preparar-se para o momento em que elas serão contraditadas. A comunicação se insere como uma das responsáveis por esmiuçar as dúvidas suscitadas, rebater as críticas levantadas, apresentar os dados que fundamentaram a decisão tomada e oferecer exemplos e comparativos, a partir de situações análogas. A polêmica permite o exercício da pluralidade, mas não no sentido de
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dissimular isenção ou imparcialidade, mas de enfrentar o debate, em vez de escamoteá-lo. É sua obrigação esclarecer a posição do Poder Executivo e exercitála diante do contraditório. É possível verificar, entre os estudiosos da relação entre comunicação, opinião pública e políticas públicas, a percepção de que o raquitismo do uso da comunicação pelo Poder Executivo em alguns países acaba sendo prejudicial ao desvendamento do que está verdadeiramente em jogo por trás das decisões, principalmente em tentativas de alterar o status quo. A falta de comunicação ou sua fragilidade acabam incentivando outro tipo comum de dissimulação: a de que os assuntos públicos são para especialistas, difíceis de serem abertos a qualquer um, ao mesmo tempo em que se apregoa uma desqualificação da informação governamental, tratada normalmente de forma negativa (HOWLETT, 2000). A comunicação do poder público tem um lugar especial e distinto das demais. É exercida de modo próprio, autônomo, sem prescindir da colaboração de outros emissores. Por isso mesmo, embora haja muito a aprender com os casos de excelência das mais variadas mídias, não lhe cabe imitar o jornalismo privado ou o marketing comercial, nem competir com modelos e padrões de comunicação referenciados na concorrência, e não no interesse público. Deve ser dada ênfase ao caráter imediato, gratuito e de qualidade da informação prestada. A urgência, cada vez mais exigida, pode interferir na qualidade da comunicação, ou seja, na fidelidade ao teor das decisões tomadas e no sentido a elas conferido pelo poder público. O caráter gratuito é dificultado pela situação de oligopólio da mídia no Brasil (FONSECA, 2010; LIMA, 2001), haja vista que a disseminação das informações produzidas pelas fontes oficiais é intermediada em larga escala pelos veículos privados. Nessa intermediação, a linha que separa a decisão oficial tomada e as interpretações feitas sobre a mesma é turvada. A cobertura jornalística tradicional é francamente editorializada, o que é uma característica não só da liberdade de imprensa, mas do poder imperial que as linhas editoriais exercem sobre a pauta de cada veículo. Isso acarreta uma dificuldade para o cidadão em identificar claramente o cerne das decisões (seu teor e alcance), as motivações do poder público e os interesses da própria imprensa. No entanto, parte relevante da responsabilidade pela difusão de informações enviesadas pode ter como origem os próprios agentes políticos e servidores, quando usam a imprensa na disputa por destaque pessoal ou na busca por interferir na tomada de decisão. É uma obrigação do poder público abastecer todas as mídias com notícias. Mas é preciso abolir a tradição de se alimentar indevidamente alguns veículos da mídia privada de informações privilegiadas, o que atenta contra os padrões
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republicanos e o princípio da isonomia. Afinal, os que exercem cargos públicos estão impedidos de dar qualquer preferência ou tratamento diferenciado a quem quer que seja, o que inclui os veículos de imprensa privados. Práticas corriqueiras e naturalizadas de se conceder a determinados veículos e jornalistas os troféus, apelidados de “furos”, desrespeita o primado da impessoalidade, diante de uma relação francamente pessoal e comercial (são informações postas à venda no mercado). A existência do “off”, por exemplo, é o reconhecimento cabal de que uma informação dada de maneira particular pode ser injustificável publicamente. A experiência das páginas pessoais de autoridades, como blogs e microblogs, que são públicos, é uma boa forma de garantir um fluxo alternativo de informações e opiniões não institucionais, mantendo a imprensa abastecida, sem a necessidade de subterfúgios. Igualmente no caso dos embargos noticiosos que se prestem à barganha de espaço nos veículos, quando este instrumento deveria se prestar, ampla, e não restritamente, a alimentar a comunidade de jornalistas especializados, para que possam oferecer análises melhor trabalhadas e qualificadas. Assim sendo, uma reformulação da comunicação do poder público deverá implicar um aprendizado que envolva os profissionais da própria comunicação e também os gestores governamentais. Estes últimos precisam ser educados a descumprir uma das regras de ouro do jornalismo tradicional: a de que não se dá a mesma informação para mais de um jornalista, a não ser para fornecer detalhes sobre uma mesma decisão, o que poderia permitir nuances, ao gosto de cada veículo. A orientação básica deveria ser a de buscar, em primeiro lugar, os veículos de comunicação do próprio poder público, para formatar a informação e prepará-la exaustivamente, de forma a evitar justamente a ambivalência e a ambiguidade. Mas nem sempre é possível ao gestor, principalmente aos que participam da alta administração, dispor de tempo suficiente para tal. Nestes casos, as coletivas funcionam como a melhor maneira de expor uma decisão a todos os veículos, simultaneamente, e permitir que a astúcia de cada jornalista faça diferença, publicamente. Nada impede também a concessão de entrevistas ou artigos exclusivos, quando servem à manifestação de opiniões, e não à antecipação de decisões ou a um esclarecimento que ainda não tenha se tornado público. É no mínimo digno de reflexão o costume das exclusivas concedidas por autoridades a veículos que tornarão aquela informação disponível apenas para assinantes. É desfazer todas as praxes que apagam a necessária distinção entre o público e o privado em matéria de comunicação.
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Princípios Os princípios da comunicação do poder público devem derivar dos princípios fundamentais consagrados pelo Art. 1º da Constituição, que define o Estado brasileiro como uma república federativa, Estado democrático de direito e tendo como fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político. Tais princípios se articulam com os objetivos fundamentais da República (Art. 3º) que concernem a: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. São preceitos que devem fundamentar a atenção especial da comunicação do Poder Executivo em torno de determinados temas da agenda pública. A projeção internacional do Brasil, a integração latino-americana; a proteção aos direitos humanos, no que tange à dignidade da pessoa, ao direito à vida, à saúde, educação, segurança, trabalho, previdência, assistência social e a promoção da igualdade; as oportunidades de desenvolvimento humano (econômico, social e cultural), dentre outros, são focos que merecem figurar como pauta prioritária nos esforços da comunicação institucional do poder público. A lista de temas setoriais e ações é imensa. Seria importante que, a partir desses princípios e objetivos propugnados pela Constituição, fossem extraídas linhas de comunicação capazes de condensar blocos temáticos mais amplos. Em termos práticos, evitaria que sua cobertura jornalística se embaraçasse num cipoal de programas e ações e se perdesse no emaranhado de órgãos da administração federal. O ideal seria conformar campos de atenção orientados por macropolíticas, como é o caso da política econômica, da política social e da política de desenvolvimento. O esforço é grande pelo fato de os governos demonstrarem dificuldade em estabelecer essas macropolíticas. O princípio da soberania popular, previsto tanto na forma direta (plebiscito, referendo e iniciativa popular) quanto na representativa, traz a diretriz que é comum à maioria das empresas de comunicação financiadas pelo Estado, em outros países: a de sempre aferir a sintonia entre as decisões tomadas e as expectativas ou aflições dos cidadãos. Por isso, a importância da ação do poder
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público ser sempre testada diante da reação que provoca nas pessoas, seja para demonstrar seu grau de conhecimento (e menos o desconhecimento, como é comum nas reportagens que começam com a técnica de “o povo fala”), seja para estampar suas dúvidas, ponderações ou críticas. A experiência das ouvidorias é decisiva, mas essa sensibilidade seria expandida com a realização periódica de pesquisas de opinião, quantitativas e qualitativas, de modo a ajustar seus padrões de comunicação e mesmo sua programação. O princípio da harmonia e independência entre os Poderes (Art. 2º da Constituição) impõe a necessidade de contextualizar as decisões de acordo com seu processo decisório, incluindo as ações de confirmação ou revisão que podem ser realizadas pelos demais Poderes. Trata-se da explicitação do complexo sistema de pesos (ou “freios”) e contrapesos, presentes em dispositivos como o da sanção ou veto, da emenda e o da ação direta de inconstitucionalidade. Por sua vez, deve-se entender a natureza do Poder Executivo, que seguindo a trilha aberta pela teoria política moderna foi dotado de uma série de ingredientes para que tivesse a devida capacidade para agir. A lista desses requisitos está consubstanciada na formulação clássica das repúblicas federalistas (HAMILTON, MADISON e JAY, 1787-1788), que sempre deixou claro que o Executivo é feito para agir em nome do interesse público. Para tanto, precisa ter unidade (coesão interna ao próprio Executivo), a necessária provisão de apoio (ou seja, uma coalizão no Congresso capaz de garantir que as iniciativas do presidente sejam aprovadas); e ser dotado de prerrogativas substantivas, ou seja, de um conjunto de poderes suficientes e automáticos para agir (op. cit., p. 644). Tudo isso contrabalançado por sua temporalidade (limitação do mandato). Enquanto o parlamento é um poder por natureza plural, o Executivo, conforme os federalistas clássicos, é um poder hierárquico. O Legislativo pode ser lento, para que as decisões sejam tomadas consumindo o tempo requerido por sua pluralidade. O Executivo tem a obrigação de ser rápido e ter uma orientação unívoca (op. cit., p. 645-650). Sua unidade de comando é um requisito básico inclusive para que suas falhas exponham eventuais responsáveis, individualmente. A comunicação do poder público obedece a tais peculiaridades. O princípio federalista se desdobra na importância de mostrar o longo caminho que uma decisão tomada em Brasília percorre até tornar-se realidade em um município, e o quanto esse caminho é afetado por problemas de implementação. Deve-se esclarecer a lógica de muitos programas e o papel complementar que se deve estabelecer na cooperação entre União, estados, municípios e Distrito Federal. Os cuidados a serem tomados na comunicação, por conta da diversidade do País, estão bem definidos no Art. 2º do Decreto nº 6.555 (de 8/09/2008), que dispõe sobre as ações de comunicação do Poder Executivo Federal.
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A comunicação também tem referência explícita no Art. 37 (Da Administração Pública), que manda que seja obedecido, pelos órgãos de todas as esferas, o princípio da publicidade, intimamente associado ao da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência. Embora muitas vezes entendido de forma restrita, o princípio da publicidade vai além da obrigação de proceder à publicidade legal que torna lícitos os atos, desde as leis e decretos quanto as portarias de nomeação e contratação de serviços e os editais de abertura de concursos. A publicidade se refere à necessidade de dar transparência aos atos, estimular os cidadãos à fiscalização e à participação. Obriga a que sejam fornecidas explicações que fundamentem as motivações dos atos praticados pela administração, e que se abra a todos a oportunidade de participar das realizações do poder público. O parágrafo 1º do referido Art. 37 da Constituição diz ainda que “a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”. Isso não exime o poder público de cumprir informar quem são os gestores responsáveis pelas respectivas ações. Mas cabe uma melhor especificação de como as autoridades e os servidores devem ser apresentados ao conhecimento público. Exige-se que os órgãos sejam devidamente dotados de profissionais qualificados (o que não significa dizer exclusivamente jornalistas) para exercerem as funções de porta-vozes, ou mais exatamente, o papel de explicadores das ações em curso: seus desafios, benefícios e problemas enfrentados. O aperfeiçoamento da comunicação do Estado requer a formação dos gestores para que sejam permanentemente capacitados a enfrentar o público em geral e os jornalistas, em particular. Neste sentido, o papel dos profissionais da área de comunicação (jornalistas, publicitários, relações públicas e, cada vez mais, os profissionais de internet) é o de preparar os gestores governamentais para agregarem uma nova competência gerencial: a competência comunicativa. Cabe à comunicação dos poderes públicos regulamentar com maior exatidão o que está previsto para a comunicação social, conforme o Art. 221 da Constituição, ou seja: I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
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Entre 2003 e 2010, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República promoveu uma mudança significativa em seus critérios de publicidade e patrocínio para atender a tal preceito constitucional, além de ter adotado critérios claros de remuneração dos veículos, que inexistiam anteriormente. Um tema candente se refere aos conselhos de comunicação social. O Congresso Nacional (Lei 8.389, de 1991) e, mais recentemente, várias assembléias legislativas estaduais criaram conselhos para a realização de estudos, pareceres, recomendações e outras solicitações, e para subsidiar a discussão sobre a regulação do mercado da comunicação. A EBC (Empresa Brasil de Comunicação, sucedânea da Radiobras) instituiu (Decreto/6689, de 2008) um conselho curador, responsável por estabelecer diretrizes e zelar pelo cumprimento das obrigações dadas pela lei que criou a empresa. Ao contrário do Poder Legislativo, Executivo e Judiciário não dispõem de conselhos de comunicação, que poderiam servir de mecanismos de aconselhamento e definição de diretrizes para a sua própria comunicação, além de servir de fórum de discussão e sugestão de propostas regulatórias no âmbito da comunicação social. O Conselho de Comunicação, no caso do Executivo, deveria ter como tarefa a supervisão das atividades de comunicação deste poder, contribuindo para o paulatino detalhamento de suas normas reguladoras. Progressivamente, proporcionaria a institucionalização da comunicação social do Executivo. Hoje, a comunicação encontra-se precariamente institucionalizada. Os profissionais atuam com alto grau de discricionariedade, o que permite maior flexibilidade, também riscos crescentes. A área da comunicação tem sido regulada de forma enviesada, por meio de sucessivos acórdãos do TCU, destinados sobretudo a orientar e direcionar as práticas operacionais de publicidade e patrocínio. Um eventual Conselho de Comunicação do Executivo Federal deveria ser necessariamente formado pela combinação de profissionais de notório saber e gestores diretamente encarregados da comunicação federal, pois estes têm detalhes do processo de comunicação muitas vezes ausentes da discussão acadêmica, da visão dos parlamentares e do ativismo dos órgãos de controle. A contribuição, tanto do Legislativo quanto do Judiciário, poderia ser incorporada mediante convites para que os mesmos sugerissem nomes a serem apreciados pelo Executivo para sua composição. Uma lista tríplice poderia ser oferecida também pelas conferências de comunicação, que deveriam ter sua periodicidade estabelecida e sua importância igualmente formalizada como uma das atribuições do Conselho (convocar, presidir e sistematizar as sugestões das conferências). O Poder Executivo pode
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induzir o processo de institucionalização da comunicação do poder público também nos estados, municípios e Distrito Federal, seja definindo normas gerais, seja garantindo a participação nas conferências nacionais de comunicação de representantes escolhidos nas conferências estaduais. O modelo das conferências desenvolvido atualmente na maioria dos ministérios segue esse procedimento. A necessidade de se fixar normas gerais para regular a comunicação dos órgãos do poder público de todas as esferas é patente. Registre-se que a comunicação em âmbito federal tem sido positivamente acompanhada com lupa, tanto pela imprensa, quanto pelos órgãos de controle federais, enquanto pouco se percebe que em nível estadual e municipal, não raro, ocorrem graves abusos. Sem contar que o volume de recursos empregados pela comunicação federal está bem abaixo do patamar despendido por muitos estados, municípios e pelo Distrito Federal. O princípio da publicidade é requisito à transparência do poder público. Expandir a regulação da atividade de comunicação federal não só aumentaria o volume de informações disponíveis ao cidadão como forneceria mensagens mais apropriadas a sua diversidade. Em prol de um serviço público de comunicação A comunicação do poder público tem avançado nos últimos anos, em termos da modernização de seus padrões, da incorporação de novas plataformas tecnológicas e da melhoria de sua relação com os cidadãos. Os desafios que se apresentam dizem respeito à institucionalização de sua atividade, partindo de princípios republicanos essenciais e detalhando seu modus operandi a partir de consultas sucessivas, participação popular (conselhos e conferências) e estreita cooperação com os outros poderes e os órgãos de controle. O processo deve resultar na formulação de iniciativas legislativas a serem encaminhadas ao Congresso, além da expedição de decretos e instruções normativas que forneçam tal detalhamento. No que se refere às normas internas ao Poder Executivo, a melhor estratégia é a de tornar alguns casos exemplares de comunicação como passíveis de generalização, transformando-os em regra, e não em exceção. Os exemplos positivos são muitas vezes exaltados, mas nem sempre replicados. Em paralelo, é fundamental organizar a comunicação como serviço público. Isso demandaria, no Poder Executivo, um redesenho da estrutura da Secom, criando uma área exclusivamente dedicada a essa tarefa. Atualmente, as áreas existentes funcionam assoberbadas por funções de atendimento à imprensa, produção de comunicados oficiais do Presidente e seus ministros, produção publicitária, realização de eventos e orientação do cumprimento das normas
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legais por toda a comunicação do Governo. A inexistência de uma área específica para conceber e implementar a institucionalização da comunicação faz com que os esforços empreendidos até o momento ocorram de maneira eventual, e não sistemática. Da mesma forma, deve-se reconstituir a área encarregada diretamente pela comunicação do Poder Executivo Federal. Hoje, tal tarefa se acha “terceirizada”, sob a incumbência de uma diretoria da EBC denominada EBC serviços. Canais como a NBR, muito importantes para o Poder Executivo e que já foram de um padrão exemplar, graças à excelência dos profissionais da antiga Radiobras, hoje encontram-se aquém da qualidade de imagem, som e conteúdo de seus congêneres da Câmara, Senado e Justiça. Ao contrário também de seus similares, o Executivo é o único que não tem um canal de TV aberta e de rádio (a TV e as rádios Nacional não têm esse perfil). A TV internacional do Brasil (ou TV Brasil Internacional) é essencial a um país que tem a perspectiva de se tornar a 7ª economia mundial, entre 2011 e 2012, e a 5ª maior do mundo até 2022. Um ponto central diz respeito à necessidade de estruturar a carreira dos gestores da comunicação federal, no âmbito do Executivo. Os profissionais atualmente trabalham diretamente ligados aos ministros, e não aos ministérios. Num regime onde os dirigentes superiores são escolhidos em função do imperativo da montagem de uma coalizão governante, capaz de garantir maioria congressual, é natural que os órgãos tenham uma cota de cargos de livre nomeação preenchidos pelo critério de confiança. Isso permite reforçar as diretrizes políticas, que são fruto da decisão da alta administração, e não de procedimentos meramente burocráticos. No entanto, a comunicação precisa ter um corpo de servidores próprios, de carreira, capazes de acumular competências que são decisivas para se evitar perder tempo com a inexperiência ou cometer erros primários. A comunicação também não pode ficar refém da situação, muito comum, da alta rotatividade desses profissionais, que perambulam com base nas ofertas de remuneração, ora mais vantajosas no serviço público, ora mais generosas no mercado. O Brasil encontra-se em um momento crucial de sua história, tanto pelo que conseguiu conquistar em sua trajetória recente – e de modo bastante acelerado, quanto pelas oportunidades que se abrem para o futuro. Internamente, várias de suas políticas alcançam seu ponto de maturidade. Começam a apresentar resultados mais robustos e a fornecer histórias de vida cada vez mais exuberantes. A comunicação deveria institucionalizar a responsabilidade de recolher e sistematizar as histórias que dão rosto às transformações do País. Isso faz parte de um processo de aprendizado do povo brasileiro, na medida em que evidencia que a ação do poder público, se bem realizada, gera resultados coletivos que devem
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ser incorporados à sua noção de democracia. Muito do que se faz é traduzido em números, e não em olhares e falas. Estão representadas em coberturas episódicas e muito centradas em seus dirigentes, e não nas pessoas que são a razão de ser das políticas públicas e que devem estar no primeiro plano de uma visão republicana de Estado. Neste sentido, a comunicação governamental, como a de muitos outros tipos, acaba reproduzindo o profundo desconhecimento do povo brasileiro pelos próprios brasileiros. Trazer a comunicação para o cotidiano faz sentido para a afirmação de uma identidade brasileira e para combater preconceitos que, infelizmente, se têm generalizado. Sem contar as formas mais tradicionais e naturalizadas, que desmerecem a mulher, o negro, o deficiente físico, os homossexuais e os migrantes. Dada a sua projeção, o Brasil será cada vez mais demandado a se apresentar ao mundo. Precisará urgentemente produzir conteúdo em várias línguas para estar à altura do papel que já cumpre internacionalmente. A busca por cooperação internacional do Brasil tem se intensificado largamente, a pedido de países da América do Sul e Caribe e do continente africano. Muito do que se faz em matéria de cooperação técnica poderia contar com o suporte da produção audiovisual sobre suas políticas sociais e de desenvolvimento. A comunicação tem ainda sentido estratégico para que o Brasil tenha mecanismos robustos de autodefesa baseada em informação, aptos a esclarecer e defender sua visão de mundo. Inclusive contrapondo-se a possíveis (e previsíveis) investidas contra sua imagem internacional. Isso já tem sido feito pelo trabalho da Secom em âmbito internacional, mas o apoio a essa iniciativa também demandará a produção, em larga escala, de “matéria-prima” sobre a atuação do Poder Executivo. As vantagens para esses desafios é que, como tem ocorrido com tantas outras políticas públicas, os avanços alcançados pela comunicação até o momento chegaram a um ponto de maturação suficiente para que possam ser devidamente institucionalizados. Se o que se tem até o momento tornou-se possível graças ao virtuosismo dos profissionais que estiveram encarregados da comunicação do Poder Executivo, seu legado pode inscrever-se como traço característico do Estado republicano. Seria uma garantia para a cidadania brasileira de que o caminho percorrido, ao ser talhado em suas instituições, seguirá avançando e resistirá ao tempo.

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CAPÍTULO 5 Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics
Marina Nery1

São quatro civilizações distintas que se agruparam em bloco, mas que ainda não se conhecem o suficiente: Brasil, Rússia, Índia e China, que formam o acróstico BRIC. “Não é uma questão de informação, mas de uma diferença enorme de interpretação dessa informação”, afirma Vladimir Davydov, diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, responsável por um dos maiores núcleos de estudos acadêmicos sobre os BRICs no mundo. A ideia dos BRICs foi formulada pelo economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O´Neil, em estudo de 2001, intitulado “Building Better Global Economic BRICs”. Fixou-se como categoria da análise nos meios econômico-financeiros, empresariais, acadêmicos e de comunicação. Em 2006, o conceito deu origem a um agrupamento, propriamente dito, incorporado à política externa de Brasil, Rússia, Índia e China. Se esses países propuseram uma coalizão, mas precisam, digamos, se conhecer melhor, é interessante notar que tipo de recursos de comunicação eles utilizam. Em estudo do Boston Consulting Group (BCG) divulgado em setembro de 2009, a sigla foi ampliada para BRICI e incluiu a Indonésia para contabilizar que, juntos, esses países terão 1,2 bilhão de internautas em 2015. Em 2009, já alcançavam 610 milhões de internautas. O estudo aponta que os hábitos nos BRICI são notadamente diferentes daqueles de países desenvolvidos. “Mensagens instantâneas são muito mais populares, assim como as músicas e os jogos online”, diz o relatório. Ele mostra também que as redes sociais são muito mais utilizadas no Brasil e na Indonésia que na China, Rússia e Índia. “E enquanto uma grande porcentagem de consumidores digitais usa e-mail na Índia, na China mais mensagens instantâneas são utilizadas.” A quantidade de computadores ainda é relativamente pequena nesses países – cerca de 400 milhões –, o que resulta na observação de que os usuários dos BRICI devem se valer mais dos telefones móveis do que dos PCs. “A penetração de computadores ainda é baixa, enquanto os telefones móveis são mais baratos e ferramentas mais convenientes tanto para comunicação como para a busca de entretenimento”, diz o relatório. “Nos BRICI já existem cerca de 1,8 bilhão de assinantes de SIM Cards, mais de quatro vezes a soma dos EUA e do Japão”,
1 Assessora de Comunicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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completa o estudo. Também foi constatado que os internautas dos cinco países são geralmente jovens – mais de 60% têm menos de 35 anos –, o que significa que os hábitos dos consumidores ainda estão sendo formados e que os padrões de comportamento terão grandes implicações no futuro das atividades online. De acordo com o estudo, um aspecto crítico sobre o Brasil é o alto custo da banda larga no país, em média de US$ 27 por mês (aproximadamente R$ 50), e disponível principalmente nos bairros ricos ou de classe média. O relatório indica que o Brasil conta com 12 milhões de conexões em banda larga, mas ainda possui 9 milhões de acessos discados. E apenas um terço daqueles que têm computador contam com acesso à rede. Líder mundial na medição do mundo digital, a ComScore publicou outro dado interessante sobre os dois mercados emergentes de internet da Índia e do Brasil: ambos são dominados pelo site de buscas Google. “É interessante que a dinâmica do uso do Google seja tão similar no Brasil e na Índia, dado que os dois mercados estão em lados opostos do mundo e são culturalmente bastante diferentes um do outro”, diz Alex Banks, diretor-administrativo da ComScore na América Latina. No Brasil, o Google Sites representa 89.5 por cento de todas as buscas conduzidas, enquanto que o Google Orkut tem uma posição dominante em redes sociais (96.0 por cento de tempo gasto), assim como o Google Maps na categoria de mapas (70.9 por cento de tempo gasto) e o YouTube, propriedade do Google, na categoria multimídia (91.6 por cento). Na Índia, o Google Sites representa 88.4 por cento de todas as buscas conduzidas e tem importante fatia do tempo gasto em redes sociais com Orkut (68.2 por cento), mapas com Google Maps (63.9 por cento), multimídia com YouTube (82.8 por cento). Também dominou um pouco menos da metade de todo o tempo gasto na categoria blogs com Blogger (47.6 por cento) e e-mail com Gmail (46.8 por cento). Dos quase 2 bilhões de internautas no mundo, a China ocupa o primeiro lugar em número de usuários. Segundo Li Xiaoyu, conselheiro de imprensa da Embaixada da China no Brasil, nas estatísticas de abril de 2010 “os internautas chineses totalizam 404 milhões; os sites são 3,23 milhões, o número de internautas que usam banda larga chega a 346 milhões, e o número de internautas que usam celular para acessar a internet é de 233 milhões. Mais de 95,6% das vilas e aldeias do país têm bandas largas. A rede 3G cobre quase todo o país. O tempo total diário dos internautas completa um bilhão de horas e vai chegar a 2 bilhões de horas em 2015”. Os números chineses surpreendem em tudo. São mais de 2 mil jornais e 9 mil revistas. O consumo diário de jornais é de 82 milhões. Pelos números do
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chefe-correspondente do Diário do Povo da China no Brasil, descritos no livro Reflexão sobre as políticas nacionais de Comunicação, organizado por Daniel Castro e publicado pelo Ipea em 2010, a tiragem total dos diários chineses ocupa o primeiro lugar no mundo há oito anos sucessivos. Estatísticas oficiais de 2008 apontam 257 rádios e 277 televisões. E mais: o número de assinantes de telefonia móvel na China alcançou 796 milhões no fechamento de maio de 2010, segundo o governo chinês. No mesmo mês, o número de assinantes 3G quase dobrou em relação a 2009. O país mais populoso do mundo ganhou 48,5 milhões de assinantes de celulares entre janeiro e maio de 2010. Para se ter uma ideia, em maio do mesmo ano o Brasil chegou a 183,7 milhões de acessos de telefonia móvel. Mais de 9,4 milhões de novos assinantes aderiram aos serviços de telefonia móvel em maio, o que contribuiu para o total, no ano, de 48,5 milhões de novos usuários, revelou o Ministério da Indústria de Informação da China. Embora a China permaneça como o maior mercado global móvel em termos de assinantes, o mercado da Índia tem crescido rapidamente. A Índia ganhou 16,3 milhões de assinantes móveis em maio, de acordo com a Autoridade Regulatória de Telecomunicações da Índia. O total de assinantes móveis no país chegou a 617,5 milhões naquela data. E, atualmente, com o acesso da internet via telefone, a comunicação mundial está diretamente ligada a esse tipo de conexão. Segundo Natalya Krasnoboka, pesquisadora da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, 78% dos russos usam telefones celulares – em 2005, eram 32%. Na capital, Moscou, 90 por cento da população utilizam celulares. A internet é usada por 35% dos russos. No interior, esse número cai para 12%. A maior parte dos usuários da internet têm entre os 18 e 24 anos de idade e está em Moscou (49%), mas cerca de 54% dos russos nunca usaram a rede. As ligações nas principais cidades – Moscou e São Petersburgo – são mais rápidas e mais baratas que no resto do país. Com relação à função da internet em suas vidas, 41% dos russos a utilizam para fins de informação, 38% para a comunicação, 23% para fins relacionados ao trabalho, 14% para ver notícias e 12% para educação e aprendizado. Apenas 2% utilizam a internet para fazer compras online. Conexões de internet para e-mail são usadas por 79% dos russos, e 76% as utilizam para as redes sociais. Fóruns online são acessados por 49% dos usuários da Rússia. Os chats são utilizados por 43%, enquanto que os blogs são utilizados por 23%. Todos os jornais, rádios e TVs líderes da Rússia têm sites. Os recursos online
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mais utilizados são as informações da agência Regnum, do jornal online Lenta. Ru e da agência de notícias Interfax. Ao mesmo tempo, apenas 23% dos russos consideram mídia online uma fonte confiável de informação. Compare isso com os 70% dos russos que consideram a televisão a fonte mais confiável. Odnoklassniki.ru é a rede social mais popular na Rússia, utilizada por 75% dos russos entre 25 e 35 anos. A segunda rede social mais popular é VKontakte. Seus usuários são mais jovens que os da Odnoklassniki.ru. Por um longo tempo, o LiveJournal foi particularmente popular entre os blogueiros russos. No entanto, o blog continua a ser popular entre os jornalistas russos e políticos, inclusive o atual presidente, Medvedev, conhecido por seu uso intensivo da internet. O líder da oposição russa Garry Kasparov tem uma presença online visível. O canal de TV estatal para as crianças, Bibigon, criou uma rede social online para as crianças. Ele oferece uma gama de jogos online, vídeos, livros, músicas, etc. Crianças também pode criar agendas e álbuns de fotos. Outro recurso é a famosa linha de internet do canal de TV Kanal Internet. Da mesma forma é popular o jogo online do canal Igrovoj Kanal. Ao contrário dos brasileiros e indianos, os usuários de internet da Rússia preferem o site de buscas russo Yandex às ferramentas de pesquisa internacionais, como o Google. Geograficamente, a Rússia está localizada na Europa e também na Ásia. É o maior país do mundo em termos de território e o nono maior em termos de população. O tamanho da população da Rússia continua a declinar, embora não tão rapidamente como em anos anteriores. Um aumento contínuo da imigração para a Rússia a partir de outras ex-repúblicas da União Soviética quase compensa a dinâmica negativa do tamanho da população. O espaço de mídia russa mudou drasticamente desde o período soviético. A mídia impressa foi particularmente afetada, tornando-se muito volátil nos primeiros 15 anos após a independência do país. Muitos veículos desapareceram do dia para a noite e a maioria dos estabelecimentos mudou de dono várias vezes. Segundo a Associação Nacional de Emissoras de Rádio e TV, existem 2.168 empresas de TV e rádio na Rússia. Dessas, 161 têm uma licença combinada (TV e rádio), 799 são empresas de TV e 888 são estações de rádio. Existem cerca de 1.511 operadores de cabo. Há 35.500 jornais registrados na Rússia. Segundo o Instituto de Estatística da Unesco, havia 1,7 jornal diário por 1 milhão de habitantes na Rússia em 2004. A circulação média total de jornais diários por mil habitantes foi de 91,8 em 2004. A participação dos jornais não diários foi de 50,2 por 1 milhão de habitantes. Vários jornais populares sobreviveram à transição pós-soviética e continuam a ser populares hoje. Entre eles, Komsomolskaya Pravda, Izvestia, Trud, e Moskovskiy Komsomolets. Outros estabelecimentos populares incluem o
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semanário Argumenty eu Fakty e os jornais Kommersant e Nezavisimaya Gazeta. Popularidade e números de circulação exatos são difíceis de obter. Supõe-se que Komsomolskaya Pravda tenha a maior circulação da Rússia e da Comunidade dos Estados Independentes. Rossijskaya Gazeta é o boletim diário do governo russo. Sua circulação é de cerca de 432 mil exemplares. O Moscou Times é um jornal diário em inglês publicado na Rússia desde 1992, com circulação de aproximadamente 35 mil exemplares. Outros tipos de mídia em inglês incluem o russo Newsweek e Notícias de Moscou. Novaya Gazeta é o jornal mais conhecido nacionalmente, sendo abertamente crítico às autoridades russas, com circulação de 535 mil exemplares. A estatal de rádio Radio Rossii é o maior canal de rádio difundido no país (1.100 transmissores). A emissora foi lançada em 1990 e transmite 174 programas originais. Seu público potencial diário é superior a 120 milhões de pessoas. Mayak é outra estação de rádio estatal, que transmite programas de informação e música. A Voz da Rússia é uma estação de rádio estatal em inglês que funciona desde 1929. Seu objetivo é informar o mundo sobre a Rússia e sua visão sobre os acontecimentos mundiais. Além disso, a estação tenta criar uma imagem positiva da Rússia no exterior e promover a cultura russa. Ela transmite em 160 países. Existem três principais canais de TV federal na Rússia, que, em conjunto cobrem mais de 90 por cento do território do país. Rossiya (abrange 98,5 por cento do território do país) é um canal estatal. Foi criado em 1991. O canal Pervyj Kanal (cobre 98,8 por cento do território da Rússia) é 51% estatal e 49% de propriedade privada. O terceiro canal – NTV (cobre 84 por cento do território nacional) – era de Vladimir Gusinsky Aleksandrovich, mas é agora propriedade da gigante de energia Gazprom. É transmitido por 700 redes de cabo em toda a Rússia. Vesti é o canal de notícias. Foi criado em 2006 e é o único canal de informação russo com um serviço de notícias 24 horas. Em 2005, a Rússia lançou um canal via satélite em Inglês, Russia Today. O canal é transmitido em mais de 100 países. Existem cerca de 400 agências de notícias da Rússia. As três maiores são ITAR-TASS, RIA Novosti e Interfax. A ITAR-TASS é a agência de notícias estatal, fundada em 1904, que emprega mais de 500 correspondentes na Rússia e no exterior. É a maior agência de notícias russa e uma das quatro maiores agências de notícias do mundo, juntamente com a Reuters, Associated Press e Agence France-Presse. Em uma base diária, a ITAR-TASS oferece entre 350 e 650 itens de notícias. A agência tem o maior arquivo de fotos na Rússia. RIA Novosti é uma outra agência de notícias estatal, fundada em 1941.
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Possui correspondentes em 40 países e transmite em 14 idiomas. Já a Interfax, fundada em 1989, é uma agência de notícias privada. A maior organização de mídia no país é a União de Jornalistas da Rússia. Ela reúne 84 sindicatos regionais, bem como mais de 40 associações, corporações e comunidades. Existem vários sites de projetos educativos para jovens jornalistas. O cenário da mídia russa dos últimos anos caracteriza-se pela contínua expansão do papel do Estado nas atividades de mídia. O Estado está diretamente envolvido na posse de alguns meios de comunicação e indiretamente envolvido em outros, por meio de seus estreitos laços com o mundo dos negócios. Além disso, o Estado controla as atividades de mídia por meio dos órgãos reguladores e da legislação relacionada à mídia. O envolvimento direto do Estado russo no mercado de mídia impressa é menos pronunciado. Mas a internet continua sendo o espaço para as vozes de oposição e crítica. Blogar se tornou uma das principais atividades online para a elite política, intelectual e jornalística. Ao mesmo tempo, a participação nas redes sociais da Rússia é a atividade online mais popular do país. Brasil, Rússia, Índia e China formam um grupo especial por causa do tamanho de suas economias e pelo papel crescente devido ao seu alto potencial tanto econômico como político. Embora tenham culturas bem diferentes, como já vimos aqui, os BRICs possuem traços semelhantes. Eles são donos de um vasto território, com abundância de recursos naturais, suas indústrias são razoalvelmente desenvolvidas e sua população é enorme, o que significa muita mão-de-obra e potencial mercado de consumo. E o melhor: embora tenham diferenciados recursos de comunicação, alguns bem modernos, parecem prometer também uma verdadeira revolução nesta área nos próximos anos.

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CAPÍTULO 6 Novos desafios ao direito autoral no jornalismo
João Cláudio Garcia1

Informação é um ativo de importância crescente, mas valor ainda impreciso. Esse valor, no sentido financeiro, patrimonial, tem sido há décadas ditado pela “mão invisível” do mercado. Quanto mais informação disponível, maior a probabilidade de encontrá-la por um custo menor. As tentativas de se precisar o valor da informação tornaram-se ainda mais frustrantes com a disseminação da internet e seu acesso por meio de equipamentos portáteis, como celulares 3G e tablets. Se o valor da informação pouco oscila e mantém-se baixo diante de sucessivas inovações tecnológicas, se veículos de comunicação ainda obtêm da publicidade parte relevante de seu sustento, a remuneração daqueles que produzem informação também é, por consequência, reduzida. Nas duas últimas décadas, praticamente todos os grandes e médios jornais impressos brasileiros adaptaram-se para oferecer conteúdo na internet. Repórteres alteraram suas rotinas para assumir novas tarefas. Em um dos casos de transição mais radicais no mundo, o britânico The Daily Telegraph decidiu que o impresso não seria mais prioridade e treinou seus funcionários para atuarem como “jornalistas totais”, capazes de escrever, editar vídeos e áudios, operando em uma mesma mesa de trabalho ferramentas voltadas para tais mídias. No Brasil, a maioria dos veículos não optou por transição completa para o mundo digital, apenas adaptou-se a ele. De qualquer forma, o trabalho do jornalista tornou-se mais diversificado e acessível ao público pela internet. Versões de textos para a web, podcasts, comentários em streaming, entrevistas em vídeo e gráficos animados em flash ganharam espaço sítios dos jornais. A rapidez da informação conquistou terreno diante da qualidade. Em um exercício interessante de cálculo da velocidade da informação, Gregory Clark2 lembra que, em 1805, notícias sobre a Batalha de Trafalgar demoraram 17 dias para chegar a Londres, “viajando”, portanto, a uma velocidade de 4,3 quilômetros por hora. As primeiras informações sobre o assassinato do presidente norte-americano Lincoln, em 1865, cruzaram o oceano e aportaram na capital inglesa após 13 dias, o que corresponde a 19,3 km/h. Em 2008,
1 Coordenador de Multimídia na Assessoria de Comunicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ex-editor de Mundo no Correio Braziliense 2 A farewell to alms: a brief economic history of the world, Princeton University Press, 2007.

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apenas sete minutos3 depois do devastador terremoto de Sichuan, na China, os primeiros relatos – já em inglês – sobre os estragos despontavam no Twitter. A informação viajou a impressionantes 61,5 mil km/h. A tecnologia que permite essa comunicação veloz também possibilita que alertas sobre tsunamis sejam disseminados mais rápido que as próprias ondas gigantes e poupem vidas. Oferecer informação mais rapidamente implica que a notícia terá, também, vida útil mais curta. Logo, as empresas de comunicação acostumam-se a oferecer cada vez mais conteúdo, seja por texto, vídeo ou áudio, e o usuário escolhe o que consumir. Na teoria, produção jornalística mais rápida e para mídias diferentes deveria resultar em remuneração maior e direitos autorais fortalecidos. Na prática, essa relação evoluiu de maneira desigual. Embora exista lei que regulamente a questão do direito autoral sobre matérias jornalísticas no Brasil (Lei 9.610/98), na verdade os grandes protagonistas quando se discute o assunto são os contratos de trabalho. Cada obra de “criação do espírito”4 – seja matéria jornalística, fotografia, pintura, escultura, etc. – é formada por prerrogativas morais e pecuniárias5. As morais dizem respeito a direitos como o de reivindicar a paternidade da obra, de assegurar sua integridade, retirá-la de circulação ou de modificá-la. Essas prerrogativas são, segundo a mesma lei, inegociáveis, irrevogáveis e inalienáveis. Já as prerrogativas pecuniárias, que tratam dos direitos de exploração econômica da obra, estas sim podem ser negociadas pelo autor. Do ponto de vista das empresas, a Lei 9.610 dá ampla margem para que os direitos patrimoniais sobre a obra sejam regulados via contrato de trabalho. Diz o artigo 36: o direito de utilização econômica dos escritos publicados pela imprensa, diária ou periódica, com exceção dos assinados ou que apresentem sinal de reserva, pertence ao editor, salvo convenção em contrário. A Associação Brasileira da Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais (Apijor), por sua vez, lembra que o artigo 5º da Constituição Federal concede aos criadores, intérpretes e às respectivas representações sindicais e associativas, em seu inciso 28, o direito de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que participarem. O que a Apijor e as entidades de classe tentam evitar é a assinatura de contratos abusivos e a prática de coação. No entanto, a realidade tem mostrado que, em troca do salário pago em dia e de um bom começo de relação empregatícia,
3 How Fast Information Travels, From 1805 Until Today, Terrence O’Brien, 6 de setembro de 2009, revista eletrônica Switched 4 Termo utilizado para descrever criações humanas, resultados da criatividade. Aparece no artigo 7º da Lei 9.610/98: “são obras intelectuais protegidas as criações do espírito expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro”. 5 A Comunicação e os Direitos Intelectuais, Ângela Kretschmann, in Estudos Jurídicos, revista da Unidade de Ciências Jurídicas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), vol. 37, nº 101, 2004.

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o empregado abre mão de pedir detalhes sobre a exploração econômica das obras. Em geral, a explicação é de que o direito pecuniário já está contemplado na remuneração. Assim, discutir direito patrimonial torna-se algo supérfluo para o novo profissional, afligido pela concorrência. Em redações cada vez mais jovens, o recém-egresso da universidade que consegue obter uma oportunidade sente-se privilegiado diante de um mercado de trabalho competitivo: até 2008, havia no Brasil 568 cursos de graduação presenciais de Jornalismo e Reportagem. Naquele mesmo ano, 27.503 novos profissionais foram inseridos no mercado de trabalho6 , em um País onde os dez jornais diários de maior circulação não somam 2 milhões de leitores a cada edição7. Considerar o direito patrimonial sobre a matéria jornalística tacitamente incluído na remuneração mensal percebida pelo funcionário apenas comprova como tal direito tem sido negligenciado. O piso salarial médio do jornalista na capital de São Paulo passou de R$ 1.130 em 2003/2004 para R$ 1.833 em 2010, intervalo de rápida e dinâmica adaptação das empresas à era da internet. Em Brasília, o piso evoluiu de R$ 1.293 em 2004/2005 para R$ 1.740. Durante esse mesmo período, nota-se que os reajustes salariais dos jornalistas mal conseguiram cobrir os índices de inflação. Amostras dos anos de 2005 e 2006 consolidadas pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por exemplo, revelam que somente em seis unidades federativas do País os aumentos representaram ganho real de ao menos 1% (cálculo com base no INPC)8. Chega-se, portanto, ao debate sobre a adequação do atual sistema de repartição dos direitos patrimoniais diante da nova realidade no mercado de jornalismo. Há de se recordar, ainda, que certamente dentro dos próximos quatro anos, até a Copa do Mundo de 2014 e, pouco mais tarde, por ocasião da Olimpíada de 2016, as maiores empresas do setor de comunicação no Brasil vão empreender novos esforços no sentido de dar início – ou ampliar – a cobertura jornalística em outros idiomas. Durante a Copa do Mundo da África do Sul, o portal de notícias G1 realizou essa experiência. Quanto mais se esforça para derrubar as barreiras de idiomas na comunicação, mais êxito se obtém no respeito ao artigo 5º da Constituição – o qual prevê a liberdade de informação – e mais desafios se impõem ao cumprimento da legislação de direitos autorais. A mesma Lei 9.610/98, alinhada com a Convenção Internacional de Berna (1886), estabelece que não é ofensa aos direitos autorais a “reprodução, na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diáriosou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos”. Tal reprodução, ainda de acordo com a Convenção
6 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, www.inep.gov.br, Sinopses Estatísticas da Educação Superior - Graduação 7 Associação Nacional dos Jornais, www.anj.org.br, Maiores Jornais do Brasil 8 Federação Nacional dos Jornalistas, www.fenaj.org.br, Reajustes e pisos anteriores

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de Berna, não pode se dar na íntegra, mas apenas por trechos. Gerenciar essa complexa trama de transcrições atualmente, com a velocidade de transmissão de dados pela internet em franca ascensão, é muito mais complicado que nos séculos passados, quando o jornalismo era dominado pelos impressos e as publicações raramente ultrapassavam as fronteiras nacionais. Casos de contrafação – cópia não autorizada de uma obra – ou de plágio multiplicam-se. A busca de um equilíbrio entre o respeito ao direito autoral e a garantia da liberdade de informação prevista em democracias como o Brasil intriga também outras nações há tempos. O tema começou a ser discutido em fóruns internacionais por volta da década de 18509. Mesmo depois de formalizada a Convenção de Berna, o debate continuou acalorado. Nos Congressos Internacionais de Imprensa do final do século 19, Gaston Berardi, jornalista belga, tentou sem sucesso convencer seus colegas de que as legislações sobre direito autoral precisariam se dobrar aos novos tempos do jornalismo, reconhecendo que cada vez mais leitores e empresas se preocupavam não com o caráter literário ou ideológico das obras, e sim com seu caráter factual, noticioso e descritivo. As discussões sobre quais textos deveriam ser protegidos, e de que forma se daria essa proteção, se arrastaram por décadas, sem grandes consensos internacionais. Hoje, Estados Unidos e Reino Unido têm leis mais flexíveis no que tange a cessão dos direitos patrimoniais. Nesse labirinto de informações do século 21, diversas nações, inclusive o Brasil, analisam novas propostas de lei sobre o direito autoral, propostas estas que tentam impor barreiras à reprodução ilegal de conteúdo jornalístico na internet. Regras mais atuais são necessárias para que a comunidade internacional possa agir de maneira concertada em relação a ferramentas recentes como os agregadores de conteúdo – sítios que consolidam notícias sobre determinado assunto reproduzindo na íntegra os textos de terceiros. O Google News, talvez o mais famoso desses agregadores, causou indignação entre empresas norte-americanas, que passaram a proibir a reprodução não autorizada de matérias. Em 2009, jornais europeus organizaram um manifesto internacional, chamado de Declaração de Hamburgo, para criticar o serviço prestado pelos agregadores de conteúdo sem aval dos autores. Diante de marcos legais desatualizados, batalhas judiciais entre jornais e jornalistas contra impérios da internet, como os grandes serviços de busca, ou mesmo contra blogueiros que reproduzem conteúdo ilegalmente, se estendem sem prazo de conclusão. A forma como o Brasil agirá para assegurar os direitos dos autores e os interesses das empresas jornalísticas sem impor obstáculos ao direito à informação ainda é uma incógnita.

9 The First International Journalism Organization Debates News Copyright, 1894-1898, Ulf Jonas Bjork, Journalism History, Vol. 22, 1996

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Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – 2010

Editorial Coordenação Cláudio Passos de Oliveira Editoração Shine Comunicação Revisão Assessoria de Comunicação do Ipea e Socicom Capa Shine Comunicação Livraria SBS – Quadra 1 – Bloco J – Ed. BNDES, Térreo – 70076-900 – Brasília – DF F one: (61) 3315-5336 Correio eletrônico: livraria@ipea.gov.br

Governo Federal Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República Ministro Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiro – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidente Marcio Pochmann Diretor de Desenvolvimento Institucional Fernando Ferreira Diretor de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais Mário Lisboa Theodoro Diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia José Celso Pereira Cardoso Júnior Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas João Sicsú Diretora de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais Liana Maria da Frota Carleial Diretor de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura Marcio Wohlers de Almeida Diretor de Estudos e Políticas Sociais Jorge Abrahão de Castro Chefe de Gabinete Pérsio Marco Antonio Davison Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação Daniel Castro URL: http://www.ipea.gov.br Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria

Socicom – Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação

Presidente José Marques de Melo Vice-Presidente Ana Silvia Lopes Davi Médola Diretora Administrativa Anita Simis Diretora Relações Internacionais Margarida Maria Krohling Kunsch Diretor de Relações Nacionais Elias Gonçalves Machado Site: www.socicom.org.br Socicom Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2050, 3º. Andar – Bela Vista, SP CEP 01318-002 E-mail: Socicom@hotmail.com

© Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea 2010

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil / organizadores: Daniel Castro, José Marques de Melo, Cosette Castro. - Brasília : Ipea, 2010. 3 v. : gráfs., tabs. Inclui bibliografia. Conteúdo: v.1. Colaborações para o debate sobre telecomunicações e comunicação. – v. 2.Memória das associações científicas e acadêmicas da comunicação no Brasil.– v. 3. Tendências na comunicação. ISBN 1. Comunicação. 2. Telecomunicações. 3. Brasil. I. Castro, Daniel. II. Melo, José Marques de. III. Castro, Cosette. IV. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. V. Título: Colaborações para o debate sobre telecomunicações e comunicação. VI. Título: Memória das associações científicas e acadêmicas de comunicações no Brasil. VII. Título: Tendências na comunicação. CDD 384.0981

PANORAMA DA COMUNICAÇÃO E DAS TELECOMUNICAÇÕES NO BRASIL

VOLUME 2
MEMÓRIA DAS ASSOCIAÇÕES CIENTÍFICAS E ACADÊMICAS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL

Organização Daniel Castro José Marques de Melo Cosette Castro

Coordenação José Marques de Melo Ana Silvia Médola Margarida Kunsch Daniel Castro Cosette Castro

O papel central da comunidade científica advém-lhe de ser a instância de mediação entre o conhecimento científico e a sociedade no seu todo e na sua tripla identidade sócio-econômica, jurídico-política e ideológico-cultural. É nesta perspectiva exteriorizante que deve ser estudada a estrutura interna da comunidade científica. (Boaventura de Souza Santos)

SUMÁRIO VOLUME 2 MEMÓRIA DAS ASSOCIAÇÕES CIENTÍFICAS E ACADÊMICAS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL Apresentação Ana Silvia Médola.........................................................................................15 Introdução Margarida Kunsch.........................................................................................17 A Emergência do Campo da Comunicação no Brasil Maria Cristina Gobbi ...................................................................................19 Capítulo 1 Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação Ana Silvia Médola........................................................................................29 Capítulo 2 Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação Antonio Hohlfeldt..........................................................................................35 Capítulo 3 Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade José Marques de Melo..................................................................................47 Capítulo 4 A História da Compós – lógicas e desafios José Luiz Braga.............................................................................................53 Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação Itania Maria Mota Gomes, Julio Pinto e Ana Carolina Escosteguy ..................63 Capítulo 5 Breve relato sobre a fundação da Socine, seus objetivos e primeiros anos Fernão Pessoa Ramos....................................................................................81 Pensando a Socine Depoimento de José Gatti.............................................................................90 A História da Forcine Maria Dora Morão.........................................................................................92
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Capítulo 6 A produção de conhecimento no campo do Jornalismo Carlos Eduardo Franciscato, Edson Spenthof, Mirna Tonus e Sérgio Luiz Gadini ....................................................................................................................99 SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo Elias Machado ...........................................................................................117 Fórum Nacional de Professores de Jornalismo- FNPJ Gerson Luiz Martins e Carmen Pereira ........................................................124 Capítulo 7 As origens da Semiótica no Brasil Ana Claudia Mei Alves de Oliveira...............................................................133 ABES, recriação e percurso de uma associação Ana Claudia Mei Alves de Oliveira...............................................................143 Capítulo 8 Economia Política da Comunicação (EPC) Anita Simis e Ruy Sardinha Lopes ...............................................................157 ULEPICC-Brasil: a institucionalização da EPC brasileira Valerio Brittos e Cesar Bolaño......................................................................169 Capítulo 9 Evolução e perspectivas do campo acadêmico da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas Ivone de Lourdes Oliveira ...........................................................................175 A História da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp) Margarida Kunsch.......................................................................................187 Capítulo 10 ABCiber – Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura Eugênio Trivinho..........................................................................................195 Capítulo 11 ALCAR: a história de um “pragmatismo utópico” Marialva Barbosa........................................................................................203 História da mídia no Brasil, percurso de uma década Marialva Barbosa..............................................................................207

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Capítulo 12 Politicom: o marketing político entre a pesquisa acadêmica e o mercado profissional Adolpho Queiroz .......................................................................................225 Capítulo 13 Folkcom - Origens da entidade Betania Maciel............................................................................................243 Folkcomunicação: memória institucional Cristina Schmidt..........................................................................................256

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APRESENTAÇÃO

A constituição da Comunicação como área de conhecimento no Brasil está presente nos textos que compõem este segmento intitulado Estado do Conhecimento. No âmbito do Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil revelou-se fundamental descrever e diagnosticar a produção de conhecimento nos principais segmentos da Comunicação nacionalmente institucionalizados ou publicamente legitimados nesta primeira década do século XXI. A colaboração dos renomados pesquisadores da área que assinam os textos nesta sessão constrói um painel onde é possível perceber a trajetória da institucionalização dos saberes e das práticas comunicativas a partir da inserção dos meios de comunicação na vida social brasileira. A força da Comunicação enquanto campo científico pode ser dimensionada pelas entidades que integram a Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom) e o registro do Estado do Conhecimento realizado nesse volume, mediado pelo olhar de entidades como a Intercom, Compós, ULEPICC-Brasil, Rede Alcar, Abrapcorp, SBPJor, FNPJ, Folkcom, Socine, Forcine, Politicom, ABES, definem as especificidades e as demandas de cada segmento. Os antecedentes, desenvolvimento e os desafios acadêmicos da comunicação são explanados por Antonio Hohlfeldt, Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom, a mais antiga e mais abrangente das associações científicas da área. O autor apresenta um recorte a partir de uma periodização dos enfoques, entre os quais, estudos históricos e jurídicos, pesquisa mercadológica, abordagens comparativas e difusionistas, até a variabilidade dos estudos, passando pela politização e legitimação acadêmica. Tal legitimação é evidenciada na estrutura de pós-graduação da área, contemplada no texto assinado pelos membros da diretoria da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS), Itania Maria Mota Gomes, presidente, Julio Pinto, vice-presidente e Ana Carolina Escosteguy, secretária. Ao sistematizarem os primórdios, as tendências e as perspectivas da pós-graduação em Comunicação, os autores oferecem ao leitor uma minuciosa descrição dos mecanismos e processos que estruturam a produção de conhecimento em centros de pós-graduação, principais responsáveis pelo desenvolvimento de pesquisa científica e tecnológica. Apresentando-se como condição para o fortalecimento do sistema universitário, os autores demonstram como a pós-graduação em Comunicação revela-se fundamental também para o desenvolvimento dos projetos de inovação capazes de atender às demandas da sociedade.
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A descrição da comunidade acadêmica com seus indicadores de titulação e dimensão quantitativa das instituições aqui representadas apresenta, por um lado, os principais focos da pesquisa nas respectivas esferas de atuação das afiliadas da SOCICOM, e, por outro, um panorama das tendências e perspectivas da área no contexto nacional de ciência e tecnologia. Em todos os textos o leitor vai identificar breves históricos de cada sub-área, situando o processo de desenvolvimento cognitivo. Entretanto, em “História da Mídia no Brasil, percurso de uma década”, Marialva Barbosa presidente da Rede ALCAR, demonstra o crescimento expressivo das pesquisas envolvendo especificamente a dimensão histórica dos meios de comunicação e os desafios deste tipo de análise. O trabalho de recuperação e registro dos dados constantes nessa publicação caracteriza os diferentes momentos e trajetórias das investigações, bem como a diversidade de objetos, temas e abordagens. A Economia Política da Comunicação é um segmento de estudos abrigado pela União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC), descrito por Anita Simis, presidente da ULEPICC, Capítulo – Brasil, e Ruy Sardinha Lopes, vicepresidente; as questões relativas ao ensino e à pesquisa em cinema são abordadas por Maria Dora Mourão, presidente da Socine e representante da Forcine. Ivone Lourdes de Oliveira, presidente da Abrapcorp, discute as práticas comunicativas das/nas organizações e o relacionamento com seus públicos; o marketing político situado entre a pesquisa acadêmica e o mercado profissional é apresentado pelo presidente da Politicom, Adolpho Queiroz; a Folkcom, por sua vez, retoma a trajetória dos estudos relativos à interação entre cultura popular e culturas midiática e erudita; a contribuição da semiótica como aporte teórico de análise da significação em discursos e sua contribuição para a compreensão das relações de comunicação estão presentes no texto de Ana Claudia Oliveria. Por fim, pensar o jornalismo e a produção de conhecimento nessa área fundamental na vida social do país, ficou sob a coordenação de Carlos Franciscato, presidente da SBPjor e de representantes do FNPJ, Sérgio Luiz Gardini, presidente, Edson Spenthof e Mirna Tônus, diretores. Com essas contribuições, a presente publicação descreve a comunidade acadêmica da Comunicação, possibilitando uma visão diacrônica do processo de estruturação do conhecimento científico sobre a Comunicação Social no Brasil. Ana Silvia Médola

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INTRODUÇÃO
Memória das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação no Brasil
Margarida M. Krohling Kunsch1

Esta parte da presente obra registra a memória das entidades da área de comunicação no Brasil. Trata-se de um resgate bastante significativo já que são essas associações científicas e acadêmicas as grandes impulsionadoras do crescimento e consolidação do campo das ciências da comunicação no país. A institucionalização desse campo no país se deu a partir do modelo ou formato concebido pelo Ministério de Educação, por meio dos cursos nas escolas ou faculdades de comunicação social, compreendendo as habilitações de jornalismo, publicidade/propaganda, relações públicas, radialismo – rádio e televisão, cinema/comunicação audiovisual e produção editorial/editoração multimídia, entre outras novas que estão surgindo, a partir da implantação das Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Comunicação Social em julho de 2001. A proposta atual do Ministério da Educação - MEC é acabar com as “habilitações”, transformando-as em “cursos” e reduzir o número excessivo das nomenclaturas vigentes para terminologias específicas dos cursos existentes. Assim, por exemplo, a Comunicação Social é a grande área de conhecimento e as respectivas habilitações ora vigentes se converteriam em cursos. Nessa direção, a primeira iniciativa na área da Comunicação Social foi do curso superior do Cinema que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Cinema e Audiovisual, por meio da Resolução n. 10, de 27 de junho de 2006. Mais recentemente as iniciativas em curso são das áreas de Jornalismo e Relações Públicas. O MEC, por meio da Portaria nº 203/2009, de 12 de fevereiro de 2009, instituiu a comissão de especialistas que elaborou as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo, que se encontram em trâmite no Conselho Nacional de Educação. Em 2010, foi criada também a comissão de especialistas para elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Relações Públicas, conforme Portaria no 595/2010, de 24 de maio de 2010, cuja proposta foi entregue ao Ministério de Educação em em 21 de outubro de 2010.Neste contexto registra-se também o papel das entidades que promoveram a regulamentação e a proposição dos códigos de ética e de auto-regulamentação para o exercício profissional nas comunicações.
1. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Corporativa e Relações Públicas (Abrapcorp) e Diretora de Relações Internacionais da Socicom. Professora titular da ECA-USP. Ex-presidente da Alaic e da Intercom. Autora de vários livros sobre Comunicação Organziacional.

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Ao longo dos últimos anos, o curso de Comunicação Social, em suas diferentes habilitações, tem sido um dos mais procurados nos vestibulares das universidades e de outras instituições brasileiras de ensino superior. Isto se explica, em parte, pelo crescimento expressivo que a área tem experimentado, tanto no campo acadêmico quanto no mercado das indústrias das comunicações e da comunicação organizacional/corporativa e pelo acentuado crescimento da oferta do ensino superior em todas as áreas nos últimos anos. No campo acadêmico, sobretudo a partir dos anos 1990, houve um salto quantitativo e qualitativo bastante relevante nos cursos de graduação e pósgraduação. O número de universidades e instituições de ensino superior com o curso de comunicação social cresceu assustadoramente. Os cursos de pósgraduação stricto sensu (mestrado e doutorado) somam hoje 39 reconhecidos pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Também os de especialização (pós-graduação lato sensu) têm aumentado substancialmente a oferta em todas as regiões do país. Todo esse crescimento alia-se também a um avanço da pesquisa, que vem ocorrendo principalmente nas universidades públicas e confessionais, tanto nos cursos de pós-graduação quanto nos de graduação (por meio de projetos de iniciação científica), graças aos programas de apoio das agências nacionais e estaduais de fomento à pesquisa. O reflexo de tudo isso se dá na produção científica disponível, em forma de livros, teses, dissertações, monografias de cursos de especialização, trabalhos de conclusão de curso, projetos experimentais e, ainda, no reconhecimento internacional, que pode ser comprovado por meio de publicações, participação brasileira em congressos mundiais e convites para visitas científicas e estudos de pós-graduação e pós-doutorado. Enfim, esse conjunto de fatores foi decisivo na construção e consolidação da área das ciências da comunicação no país. A criação da Federação Brasileira das Associações Acadêmicas e Científicas de Comunicação (Socicom) em 2008 veio coroar todo esse crescimento vertiginoso e contribuir para uma melhor sistematização das políticas e ações integradas do campo comunicacional no meio acadêmico-científico do país. Antes dos breves textos elaborados por autores que foram fundadores ou que estiveram diretamente envolvidos na fundação da Socicom das entidades de Comunicação a ela filiadas foi incluído um artigo da pesquisadora Maria Cristina Gobbi, que oferece o contexto para compreender o percurso e as fases dos estudos e reflexões sobre Comunicação no Brasil. Durante a edição do livro, a ordem de apresentação respeitou os critérios de data de criação da entidade e a proximidade por área de atividade, particularmente no caso do Cinema e do Jornalismo2.
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2 Até a data desta publicação a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), filiada à Socicom, não havia entregue o seu texto institucional.

A Emergência do Campo da Comunicação no Brasil Maria Cristina Gobbi1

O século XXI tem sido marcado pela convergência e pelo interesse de entendimento do lugar ocupado pela Comunicação. Caminhando entre status de ciência ou como um campo de interseção de vários saberes, o mote da comunicação social tem dividido opiniões. Marialva Barbosa (2000, p. 1-4), por exemplo, afirma que um campo se consolida a partir de dois aspectos “1. A trajetória histórica da constituição do próprio campo e 2. as lutas e embates claros ou sub-reptícios travados ao longo deste percurso”. Mas essa compreensão perpassa os múltiplos saberes. Para alcançar a estabilização, é necessário trabalhar a idéia de ordem, no sentido de cooperação e inter-relação entre os vários conhecimentos. É uma espécie de diálogo, de abandono do ponto de vista particular de cada disciplina “para produzir um saber autônomo que resulte em novos objetos e novos métodos”, desenvolvendo a integração entre as várias produções e seus processos. Barbosa (2000, p. 5), discutindo os dois aspectos descritos, assegura que, no contexto latino-americano, têm-se produzido gerações de pesquisadores em comunicação preocupados com problemas reais. Ou seja, a aparente neutralidade acadêmico-científica fica muito distante da realidade de alguns países quando são tratados temas em que o investigador é o sujeito social e histórico. As pesquisas em nossa região têm passado por diversos períodos que, além de singulares, revelaram particularidades históricas, inseridas quase sempre em movimentos políticos, econômicos e sociais. Essa trajetória tem sido carregada de vieses que assimila o passado e busca reconstruir a própria identidade, em uma luta de possibilidades de recuperação da identidade nacional. Lozano Redón (1996) assegura que uma das maiores dificuldades enfrentadas por pesquisadores da comunicação é constatar se as abordagens de seus estudos podem ser tratadas sob a perspectiva de ciência ou de um conjunto de diferentes ciências. A grande questão caminha no sentido de desvendar se a comunicação tem um objeto próprio ou, como pergunta Redón, trata-se de um fenômeno das
1. Pós-Doutora pelo Programa de Integração da América Latina (PROLAM) da Universidade de São Paulo. Bolsista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Coordenadora da pesquisa sobre o Panorama da Comunicação no Brasil, cuja meta era diagnosticar a produção de conhecimento nos principais segmentos da comunicação nacionalmente institucionalizados. Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital e professora do Programa em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professora da Universidade de Sorocaba (UNISO). Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Pensamento Comunicacional Latino-Americano” do CNPq. Diretora de documentação da INTERCOM. Coordenadora do GT Mídia, Culturas e Tecnologias Digitais na América Latina da mesma Instituição. E-mail: mcgobbi@terra.com.br.

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ciências sociais2. Um campo científico pode ser definido como um conjunto de métodos, estratégias e objetos legítimos de discussão (BOURDIEU, 1983, p. 84). Sendo assim, em cada um desses elementos são diversos os procedimentos capazes de contribuir para sua fragmentação ou sua consolidação. Muitos são os estudos dedicados ao entendimento sobre as fronteiras do campo e sua efetiva consolidação enquanto ciência. Também, nas especialidades das Ciências Sociais que têm tornado possível descrever o desenvolvimento real das pesquisas nesta área. A partir de 1950, as metodologias examinadas apresentavam hipóteses sobre efeitos massivos e direitos da mídia em opiniões a serem medidas. Posteriormente, houve a explosão da teoria cultural, dos estudos quantitativos de recepção, das pesquisas sobre audiência e as investigações sobre mídia e Comunicação, criando uma variedade de subespecialidades humanísticas e científico-sociais. Todos esses trabalhos mostraram que a divisa do campo “são suas fronteiras com outros campos e instituições, e que estão prontas para serem movidas” (JENSEN, 2001, p. 69). Por outro lado Newcomb (2001, p. 73) garante que, identificar trabalhos inovadores e de peso que direcionem ou redirecionem a pesquisa e o conhecimento nos estudos de comunicação, é muito mais difícil que em outras áreas. Para ele, a comunicação não é uma disciplina. Se encarado como um “campo de conhecimento”, é concebido sob dois aspectos. O primeiro, de uso mais comum, “é o senso convencional de uma área de estudo”. O outro é usado para descrever as “tentativas de fazer nosso caminho através de suas principais extensões” (2001, p. 75). Os caminhos são renovados constantemente. O Brasil atravessa um grande momento de revitalização dos estudos comunicacionais. As tecnologias da comunicação, mensagens, seus significados e discussões, bem como toda a busca para delinear uma nova abertura renovaram vitalmente o “terreno intelectual em que muitos de nós trabalhamos”, constituindo-se desta forma em uma nova opção de estudos (NEWCOMB, 2001, p. 75-77). Por outro lado, Miquel de Moragas SPA (1981, p. 12-28) afirma que os estudos de comunicação não proporcionam uma reflexão sobre os problemas epistemológicos da área. Para ele, a pesquisa em comunicação não pode ser tratada de forma separada da evolução das ciências sociais em geral (Sociologia, Psicologia, Economia Política, Antropologia Social etc). Mais que uma ciência,
2.“Podemos afirmar que existem duas correntes neste sentido. A primeira afirma que a comunicação é factível e desejável. Esses pesquisadores estão ancorados em correntes positivistas, oriundas principalmente dos Estados Unidos. Outros, com enfoques mais críticos, fruto de correntes européias, afirmam ser a comunicação um processo tão amplo e complexo que requer uma abordagem interdisciplinar, tratando-se, portanto, de um processo social”. (LOZANO REDÓN, 1996, p. 21). Tradução da autora.

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a Comunicação é um processo que aparece “tanto nos níveis cognoscitivos do indivíduo como em sua ação social”. Em suma, para Moragas, os estudos comunicativos são uma reunião de distintas disciplinas já existentes, chamada por ele de pluridisciplinariedade3. Neste sentido, as várias ciências se acercam do campo comunicativo, cada uma delas dentro de sua própria perspectiva, assegurando desta forma um objeto de estudos comum. Para Moragas SPA (1981), a meta seria conseguir a interdisciplinaridade4 nos estudos da Comunicação. Somente assim seria possível intercambiar métodos, pontos de vista e, como resultado, obter análises conjuntas nas várias dimensões dos processos da comunicação. Porém, Lozano Redón (1996, p. 2425), argumenta que as pesquisas atuais buscam a compreensão da participação dos mass media no contexto social, analisando o processo comunicativo e suas relações com outras organizações e instituições sociais de forma integrada5 e visualizando os meios massivos como “organizações dedicadas à produção e distribuição de significados sociais”. Toda essa confluência de elementos presentes nos estudos dos fenômenos da Comunicação de massa tem propiciado a proliferação de numerosos enfoques. Esse olhar tem permitido a busca pela compreensão dos processos comunicativos, confrontando postulados teóricos e práticos, em técnicas de pesquisa quanti e qualitativas, buscando detectar em estudos quantificáveis tendências comportamentais, atitudes pessoais e o aprofundamento, em casos específicos, nos níveis conotativos e latentes das mensagens, nas investigações qualitativas. Marques de Melo (2001) defende que qualquer campo do conhecimento humano surge como conseqüência das demandas coletivas. Tem sua origem na base da sociedade, desenvolvendo-se no “interior das organizações profissionais, culminando com a sua legitimação cognitiva por parte da academia” (p. 93). Para ele o estoque de saber acumulado provém de duas fontes. Da práxis, que tem como meta o desenvolvimento de modelos produtivos e da teoria, que trata do
3. Cabe aqui trazer à tona a forma como Edgar Morin (s/d) define o conceito de disciplina. Para ele, trata-se de uma categoria que agrupa um conjunto de saberes científicos, mas que organiza o conhecimento científico, instituindo a divisão e a especialização do trabalho, englobando a diversidade dos saberes das ciências. Marialva Barbosa (2000), citando alguns conceitos de Morin, afirma que, apesar de agrupar um conjunto científico, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela linguagem na qual se constitui, pelas técnicas elaboradas no seu interior ou utilizadas por ela e pelas teorias que lhe são próprias. 4.O termo interdisciplinar de acordo com as definições do Dicionário Aurélio (1999) significa “comum a duas ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento”. Alguns pesquisadores empregam o termo no sentido de representar o “concurso de várias disciplinas científicas que se debruçam sobre uma matéria comum e empírica; e de outra parte, o termo refere à constituição de uma disciplina com objeto de estudo singular a partir das contribuições de várias outras disciplinas” (MARTINHO, 2000, p. 4-5). 5. Na verdade, para Lozano Redón, o enfoque crítico busca: estudar a comunicação dentro de um amplo contexto social; questionar o rol de comunicação na desigualdade econômica e no poder político; seus participantes não são neutros, como acontecia no enfoque positivista, mas seus pesquisadores se comprometem com o câmbio social e finalmente, essa corrente questiona a produção comunicativa no reforço da ideologia dominante (1996, p. 24-25).

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saber legitimado pela academia, resultado do ensino e da pesquisa universitária. Assim, ao buscarmos conceituar e entender a emergência do campo acadêmico da comunicação social no contexto dos estudos latino-americanos e brasileiros faz-se necessário navegar por teorias consolidadas nas práticas comunicativas. Desta forma, torna-se possível afirmar que os estudos de Comunicação passaram a pertencer a um campo6 científico, legitimado e reconhecido pelas Ciências Sociais, a partir da segunda metade do século XX. Embora a legitimação do campo tenha se estabelecido a partir da ampliação dos estudos em jornalismo, principalmente depois da década de 1970, sendo o sendo a imprensa o primeiro objeto de estudos, no início do século XX, as pesquisas posteriores passaram a focar o cinema, o rádio e a televisão. Ao se afirmar que o jornalismo estimulou o desenvolvimento do campo, deve-se considerar a contribuição das demais disciplinas. Os estudos sob a égide das relações públicas, da publicidade, do radialismo, da teledifusão e da cinematografia conquistaram seu espaço, ainda em meados dos anos de 1970 (MARQUES DE MELO, 1998, p. 97). Todas essas considerações demonstram que o campo da comunicação social emerge das ciências aplicadas. Bourdieu (1972, p. 174) afirma que a prática é a condição necessária, embora relativamente autônoma, para a constituição desses espaços de reflexão e ação. Sendo produto da relação dialética entre a situação e o hábito7 , entendido como um sistema de disposições duradouras e transferíveis, integrados pelas experiências passadas e formando as novas matrizes das apreciações e ação do novo saber. Assim, a teoria de formação dos campos pode ser encarada como um processo sociocultural e ideológico, gerador de produtos simbólicos, que tem o cerne nas relações sociais, formando desta forma uma rede de práticas comunicativas. “A luta pela autoridade científica é necessariamente uma luta ao mesmo tempo política e científica; sua única singularidade é que contrapõe entre si produtores que tendem a não ter outros clientes que não sejam seus mesmos competidores” (BOURDIEU, 1975, p. 177). Para o pesquisador Jesús Martín-Barbero (1997, p. 3) vivemos, atualmente,
6. Pierre Bourdieu (1988, p. 22) postula que as sociedades modernas se organizam em campos sociais (econômico, político, cultural, artístico etc) e que funcionam com uma forte interdependência. Podemos afirmar que, buscando os elos que permitem consolidar o novo espaço, uma “luta” é travada por todos os agentes que o constituem. Dessa forma, esses “lugares” são estruturados, definidos e consolidados através de regras e objetos que norteiam os seus limites de ação. Cada campo tem seus interesses específicos que são irredutíveis aos objetos e interesses próprios de outros campos. Essas características somente são percebidas por aqueles que estão dotados do hábito correspondente ou mesmo da cultura interiorizada pelo indivíduo, quer seja esta de uma época, de uma classe ou de um grupo, constituindo dessa forma o princípio de sua ação. 7. “El habitus es a la vez un sistema de esquemas de producción de prácticas y un sistema de esquemas de percepción y de apreciación de las prácticas y, en los dos casos, sus operaciones expresan la posición social en la cual se ha construido. En consecuencia, el habitus produce prácticas y representaciones que están disponibles para la clasificación, que están objetivamente diferenciadas; pero que no son inmediatamente percibidas como tales más que por los agentes que poseen el código, los esquemas clasificatorios necesarios para comprender su sentido social” (BOURDIEU, 1988, p. 134).

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a idade da Comunicação. Inserida em um terreno fronteiriço entre a organização e a operação; entre a compreensão dos fenômenos e o domínio dos aparatos comunicacionais, ela
(...) mas que como un nuevo campo de especialización, la comunicación adquirí estatuto científico en cuanto espacio interdisciplinario, desde el que se hacen pensables las relaciones entre fenómenos naturales y artificiales, entre las máquinas, los animales y los hombres. Wiener ve en la comunicación una “nueva lengua del universo”, similar a la mathesis universales de Galileo, de ahí que más que una nueva ciencia lo que propone es una nueva manera de hacer ciencia, más que un sustantivo un adverbio: pensar comunicativamente los fenómenos.

Desde os anos 1980 do século XX há uma completa inversão do sentido das técnicas que, de meros instrumentos, passaram a designar a substância, o motor da sociedade de informação. “Confundida com inovações tecnológicas (informática, satélites, fibra ótica, TICs) a comunicação se converteu em um espaço de ponta da modernização industrial, gerencial, estatal, educativa e na única instância dinâmica da sociedade”. Desta forma, as relações entre comunicação e sociedade, poder e igualdade social passam a receber sua legitimação teórica e política através do chamado discurso da racionalidade tecnológica, inspirando dessa forma o que chamamos, na atualidade, de Sociedade de Informação. Para o pesquisador “não somente a modernização é identificada como o desenvolvimento das tecnologias da informação, também a reformulação da vigência da modernidade e o pensamento da pós-modernidade na comunicação ocupam um lugar estratégico” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 11-15). A pesquisa comunicacional na América Latina se legitimou como espaço científico somente nos últimos 50 anos. Para Marques de Melo (1998) esse saber autêntico, estocado ao longo do tempo, além de permitir o desenvolvimento em vários âmbitos, possibilitou também múltiplas alternativas metodológicas. Para Fuentes Navarro (1998) a multiplicação das publicações acadêmicas; a participação de pesquisadores nos cenários (eventos) internacionais; o crescente contato com outros investigadores em ciências sociais; o desenvolvimento de programas de pós-graduação preocupados com a pesquisa em comunicação; a formação de investigadores mais jovens; assim como a forte presença de professores-pesquisadores nesses programas, mostram indícios claros e precisos de que a configuração do campo se descortina como uma possibilidade real, estabelecendo-se em uma especialidade, cuja institucionalização e profissionalização avançam em termos de legitimação acadêmica, tanto científica como social. Nesta re-configuração do campo da Comunicação há uma relevância cada vez mais reconhecida de seu objeto genérico de estudos, ou seja, a Comunicação na constituição do mundo contemporâneo. Essas condições, juntamente com a utopia das discussões da Comunicação como transformadora
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da sociedade, fizeram com que existisse “internamente” no campo um “núcleo básico”, compartilhado pelos pesquisadores que o constituem. Dessa forma, fez de seu “exterior”, a chave de sua aspiração como diferença legitima no campo intelectual. (FUENTES NAVARRO, 1998, p. 54-55) A Comunicação, enquanto objeto de estudo, despertou o interesse de inúmeras disciplinas científicas. Mas enquanto campo acadêmico, sua identidade tem se caracterizado pelo delineamento de fronteiras estabelecidas em função dos suportes tecnológicos (mídia) que asseguram a difusão dos bens simbólicos e do universo populacional a que se destinam (comunidades / coletividades). Assim, o campo é delimitado por duas variáveis. São elas: a indústria midiática, tratando-se neste caso de organizações manufatureiras ou distribuidoras culturais e as empresas terciárias, dedicadas ao planejamento, produção e avaliação de mensagens, dados e informações a serem difundidos pela mídia ou a ela concernentes. Além disso, é um campo interdisciplinar, uma vez que seus objetos específicos são produtos cujo conteúdo está presente nas demais disciplinas que constituem o universo científico. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 40). No Brasil, a constituição da comunidade brasileira no campo das Ciências da Comunicação, relatado nos estudos de Marques de Melo, apareceu após a criação dos pioneiros cursos superiores de Jornalismo e dos institutos de pesquisa de audiência da mídia, em meados dos anos 50. Mas se consolidou somente na década de 1960, com o surgimento de novos segmentos sociais (cinema, editoração, relações públicas, rádio-teledifusão, lazer, divulgação científica, extensão rural), ocasionando uma mudança nos espaços de geração desses novos conhecimentos. Dessa maneira, os estudos partiram da prática para a teoria, gerada nas emergentes escolas de comunicação, através das pesquisas. Marques de Melo (1998) definiu quatro fases que organizam a história das Ciências da Comunicação na América Latina. A primeira, chamada de desbravamento, entre os anos de 1873 a 1940, compreendeu o período em que a imprensa tornou-se objeto de pesquisa e encerrou-se quando o ensino de Comunicação encontrou no Jornalismo seu foco de estudos. Em outras palavras, as pesquisas partiram do reconhecimento dos objetos peculiares ao campo. A segunda fase, dos pioneiros, entre os anos de 1940-1950, encontrou nos estudos do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, sobre a liberdade de imprensa, seu referencial. Foi o início do empirismo. É possível observar nesta publicação a mudança dos escritos como tratados jurídicos, ou textos históricos, e verifica-se a clareza e a objetividade do trabalho, construindo “uma espécie de manual para o fortalecimento da cidadania”. O fortalecimento, entre os 1947-1963, encontrou na universidade o cenário ideal para seu desenvolvimento. Esse fortalecimento do campo pode ser traduzido pela ampliação da rede institucional dedicada ao ensino da comunicação. Os estudos empíricos baseavam-se nas demandas profissionais
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geradas pela academia. Porém a consolidação ocorreu com o surgimento do Centro Internacional de Estudos Superiores (Ciespal), em Quito, no Equador, em 1960 e com o desenvolvimento da indústria cultural no Brasil, entre os anos de 1964 a 1970. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 98-143). A década de 1970 foi marcada pela crítica ao conhecimento existente. Abalizou este período o grupo dos inovadores, terceira fase, que definiu com maior nitidez a natureza do campo comunicacional latino-americano. E finalmente, a quarta fase, na década de 19808 foi constituída por reavaliações e contribuições de um grupo chamado de renovadores e marcada pelos “avanços empíricos e reflexivos, referenciados nas matrizes esboçadas pelos cientistas que os precederam”. Esse período encerra-se com a realização do I Congresso Latino-Americano de Ciências da Comunicação, em São Paulo, Brasil, no ano de 1992 (MARQUES DE MELO, 2001, p. 99). Com esse panorama, o interesse pelas pesquisas dos fenômenos da comunicação ganhou espaço tanto nas universidades como nas empresas. Ambas buscavam nas evidências empíricas, consolidadas pela cientificidade das escolas, qualificarem profissionais, de forma a orientá-los nos novos caminhos das “engrenagens midiáticas”. Desta forma, o desenvolvimento da pesquisa, marcado até então pela atuação coletiva, deu lugar a uma comunidade científica, composta por jovens pesquisadores, atuando “organicamente, porém de forma sintonizada com as demandas locais e nacionais” (MARQUES DE MELO, 2001, p. 98100). Um dos grandes dilemas da comunidade acadêmica, formada por pesquisadores, analistas de discurso e estudiosos das mediações9 culturais, na atualidade, é buscar as singularidades de sua identidade. Porém, o processo de legitimação e de identidade acadêmica deste campo está diretamente relacionado com a formação de profissionais competentes para a prática científica. Além, é claro, da efetiva participação desses atores sociais nos cenários acadêmicos, buscando equilíbrio entre a teoria e a prática profissional. Essa assimilação de conteúdos tem permitido o aprendizado das metodologias indispensáveis à
8. Marques de Melo afirma que a consolidação de uma Escola de Pensamento Comunicacional na América Latina foi o maior ganho desta época. Suas palavras são referendadas por Jesús Martín-Barbero que garante que “En los años 80 empezamos no sólo a asumir el pensamiento propio en el campo de comunicación – que América Latina tenía desde mucho antes -, sino que empezamos a valorarnos, a valorar nuevos puntos de partida desde los cuales miramos sin despreciar para nada lo que se estaba haciendo en el resto del mundo, pero poniéndolo en nuestra coordenadas históricas, culturales y políticas. El mayor logro de los 80 fue la configuración de lo que ha denominado Marques de Melo la Escuela Latinoamericana de Pensamiento en Comunicación” (2001, p. 99). 9. Manuel Martín Serrano define las mediaciones como sistemas “institucionalizados para redução das dissonâncias, que, cognitivamente, operam como modelos de ordem aplicados a qualquer conjunto de coisas pertencentes a planos heterogêneos da realidade” (1977, p. 49). (Tradução da autora). Para completar, Martín Serrano afirmou (1988, p. 1361) controlar a forma de mediar é aplicar ao conteúdo da realidade o modelo de ordem e o tipo de significações que posteriormente serão utilizados pelo destinatário da informação para compreender o presente, prever o futuro e, portanto, para atuar (Tradução da autora).

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produção e à difusão científica. A compreensão das teorias relativas aos efeitos sociais e culturais da mídia e de seus sistemas de produção tem delineado o perfil profissionalizante dos cursos de comunicação. Os resultados podem ser visualizados através dos estágios, intercâmbios e financiamento das pesquisas. Essa interação entre a práxis e a teoria tem permitido a difusão e a consolidação do campo da comunicação social, não só no Brasil, como também no exterior. Como desafio para as novas gerações está a busca e a consolidação de modelos teórico-metodológicos universais, capazes de darem conta do campo e de seus objetos de estudo, sem, contudo, abandonar a identidade cultural e a autonomia científica. Essas novas matrizes não devem ter a pretensão de criar uma ciência universal, mas de permitir o estudo de uma realidade comunicacional multifacetada e complexa, sem o reducionismo à dimensão meramente instrumental. Barbosa (2000, p. 9) garante que a partir do ano 2000 o mote é o avanço no sentido de sedimentarmos teorias existentes, “através de uma atitude reflexiva, propondo uma análise que visualiza não apenas novos saberes, mas, sobretudo novos olhares. Só assim se constrói um campo de pesquisa maduro e reconhecido como produtor de conhecimento válido”.
Quadro das Instituições que participam da Socicom, Federação criada em 2008 Audiovisual: cinema, vídeo, televisão e rádio FORCINE: Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual, congrega mais de 20 instituições; SOCINE: A Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, fundada em conta com 364 sócios, que representam cerca de 18 universidades brasileiras. Cibercultura ABCiber: Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura: fundada em 2006, congrega pesquisadores(as), Grupos de Pesquisa, instituições e/ou entidades brasileiras que estudam cibercultura. ABRAPcorp: Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e Relações Públicas, fundada 2006, com o objetivo geral de estimular o fomento, a realização e a divulgação de estudos avançados dessas áreas no campo das Ciências da Comunicação. Politicom: Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Maketing Político, fundada 2008, congrega estudiosos de propaganda política. ABJC: Associação Brasileira de Jornalismo Científico, fundada em 1977, congrega pesquisadores em torno de temas ligados a CT&I.

Comunicação Organizacional e Relações Públicas

Comunicação e Marketing Político Divulgação Científica

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Economia Política da Comunicação

Ulepicc: União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, fundada em 2004, congrega pesquisadores e profissionais atuantes na Economia Política da Comunicação, da Informação e da Cultura Rede Folkcom: Rede de Estudos e Pesquisas em Folkcomunicação, fundada em 2003, congrega estudiosos em torno da temática da comunicação popular. Rede Alcar: Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, fundada em 2001, congrega estudiosos da história da mídia. SBPJor: Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, fundada em 2003, congrega aproximadamente 300 associados. FNPJ: Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, fundado em 2004, congrega professores dos cursos de jornalismo de todo o país.

Folkcomunicação

História da Mídia Jornalismo

Semiótica

ABES: Associação Brasileira de Semiótica, fundada em 1972, congrega estudiosos dessa temática. Fonte: Maria Cristina Gobbi.

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CAPÍTULO 1 Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação
Ana Silvia Lopes Davi Médola1

A Socicom, sigla da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação, tem uma existência de apenas dois anos (começou a funcionar em 2008), um período muito curto, mas com registro de ações relevantes para a área da comunicação no Brasil. Entre os mais significativos destaca-se o fato de congregar praticamente todas as associações científicas e acadêmicas da comunicação em torno de objetivos comuns voltados ao crescimento e fortalecimento da área. A força decorrente da participação de suas 14 afiliadas levou a Federação a firmar um convênio inédito com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) para a elaboração do primeiro estudo quantitativo e qualitativo destinado a traçar o Panorama Brasileiro da Comunicação. Um marco que tem o propósito de identificar as tendências da Comunicação no país na primeira década do século XXI a partir do inventário do estado atual do conhecimento, em comparação com os indicadores nacionais e mundiais da economia, da educação, da sociedade e cultura. Nesses dois anos de atividade da Socicom, o projeto que nesta publicação se materializa pretende oferecer informações de qualidade para subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas para a comunicação no país. Outra ação relevante e que deverá permanecer em uma visão diacrônica dos primórdios de uma história ainda em construção da Socicom, é a organização do I Congresso Mundial da Confibercom – Confederação Ibero-americana de Comunicação, da qual a Socicom é instituição fundadora. Tais projetos são os resultados mais evidentes de uma trajetória marcada por ações estratégicas e articuladas que culminaram na constituição da federação, conforme será detalhado mais adiante.

Conjunturas prévias Em uma perspectiva mais ampliada, podemos considerar a fundação da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação como o desdobramento de dois processos históricos simultâneos no campo da comunicação, sendo um no circuito ibero-americano e o outro em âmbito
1 Membro da primeira diretoria da Socicom - Biênio 2008/2010, na função de vice-presidente.

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nacional. Internamente, o expressivo crescimento da área de Comunicação no país nas últimas décadas, evidenciado pela contínua expansão dos cursos de graduação e pós-graduação, contabilizando em 2008, ano de fundação da Socicom, cerca de 200 mil alunos, distribuídos em mais de 700 cursos de graduação e no caso da pós-graduação strictu sensu, 35 programas de mestrado e doutorado credenciados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Concomitantemente, o surgimento e a atuação das associações científicas e acadêmicas desde o começo dos anos 70 do século passado contribuiu para a consolidação das ciências da comunicação como área científica. Neste contexto foram criadas as condições para a fundação de uma federação com o propósito de organizar o debate sobre o desenvolvimento científico e tecnológico da Comunicação, focalizando os problemas comuns, ampliando o conhecimento mútuo e a cooperação entre as diversas entidades da área. Já no contexto internacional, a fundação da Socicom se apresentou com a perspectiva de integrar o Brasil ao movimento de criação da Confederação Ibero-Americana das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Confibercom), entidade fundada para desenvolver ações estratégicas capazes de promover o reconhecimento e a valorização da produção científica iberoamericana perante a comunidade mundial, conforme os termos do “Protocolo de Guadalajara”. Firmado, em 23 de novembro de 2007, por 10 entidades representativas do campo comunicacional ibero-americano, reunidas no México, durante o X Ibercom – Encontro Ibero-americano de Comunicação - o “Protocolo de Guadalajara” respaldou a criação de uma confederação ibero-americana que reunisse as associações nacionais de Comunicação. A fundação da confederação ibero-americana foi formalizada em abril de 2009 com a adesão de 12 entidades, sendo oito nacionais Socicom (Brasil), AMIC (México), Fadecos (Argentina), ABOIC (Bolívia), Invecom (Venezuela), APEIC (Peru), SOPCOM (Portugal), AE-IC (Espanha)) e quatro mega-regionais (ALAIC, Felafacs, Assibercom e Lusocom). A articulação entre esses dois processos nas esferas nacional e internacional, que culminaram com a fundação da Socicom, coube a José Marques de Melo, agente aglutinador nos fóruns de debates e nas iniciativas voltadas a organizar as representações institucionais. A Socicom foi criada, como se pode observar, para fomentar iniciativas de estímulo à cooperação entre instituições congêneres e de áreas conexas, no país e no exterior. Fundação O primeiro passo para a constituição da federação foi a realização do Fórum das Sociedades Científicas de Comunicação (I Socicom), ocorrido entre 31 de agosto
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e 1º de setembro de 2007, no campus da universidade Unisanta, em Santos, durante o congresso anual da Intercom. Na ocasião, as entidades científicas e acadêmicas de Comunicação formaram uma comissão para encaminhar os trabalhos de criação de uma federação, o que ocorreu um ano depois, no dia 2 de setembro de 2008, em Natal, no Rio Grande do Norte. A assembléia de aprovação do estatuto de fundação da Socicom teve a participação das seguintes instituições: 1. Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), representada pelo professor José Marques de Melo; 2. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), representada pela professora Ana Silvia Médola; 3. Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Corporativa e Relações Públicas (Abrapcorp), representada pela sua presidente, professora Margarida Maria Krohling Kunsch; 4. Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), representado pelo professor Gerson Luiz Martins; 5. Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), representada pelo professor Elias Machado Gonçalves; 6. União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e Cultura – Seção Brasileira - ULEPICC-Brasil, representada pelo professor César Bolaño; 7. Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura – (ABCiber), representada pelo presidente, professor Eugenio Rondini Trivinho; 8. Associação Brasileira de Pesquisa em História da Mídia (Rede Alcar), representada pela professora Marialva Barbosa; 9. Associação Brasileira de Pesquisa em Comunicação - Rede de Estudo e Pesquisa em Folkcomunicação (Folkcom) representada pela presidente, professora Betania Maciel; 10. Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), representada pelo professor Adolpho Queiroz. 11. Embora impossibilitados de enviar representantes naquele momento, a Forcine e a Socine, também são consideradas entidades fundadoras da Socicom. A Socicom nasceu, portanto, com grande representatividade e com o objetivo primeiro de criar as condições de diálogo entre as entidades da área, constituindo-se em um espaço para o debate constante sobre o desenvolvimento
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científico, artístico e tecnológico da Comunicação. Em sua estrutura de funcionamento, a federação é constituída por um Conselho Deliberativo e uma Diretoria Executiva. A primeira diretoria da Socicom foi eleita já na assembléia de fundação com a incumbência de regularizar o registro da federação, criando as condições legais para a instalação do Conselho Deliberativo em 01 de dezembro de 2008, que na ocasião aprovou o plano de gestão para o biênio 2009-2010. A primeira diretoria da Socicom (2009-2010) foi composta pelos professores: - José Marques de Melo, presidente; - Ana Silvia Médola, vice-presidente, - Margarida Kunsch, diretora de relações internacionais; - Elias Machado Gonçalves, diretor de relações nacionais; - Anita Simis, diretora administrativa. Participaram da reunião de instalação do Conselho Deliberativo, sede da federação em São Paulo, todos os membros da diretoria da Socicom, além dos seguintes representantes das entidades filiadas: Adolpho Queiroz – Sociedade de Estudos Interdisciplinares em Comunicação, Intercom, Vera Regina Veiga França, da Associação Brasileira de Programas de Pós-Graduação em Comunicação, Compós; Cesar Ricardo Bolaño, da União Latinoamericana de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, Capítulo Brasil, ULEPICC-Brasil; Eugenio Trivinho, da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura, ABCiber, Gizely Coelho Hime, representando Marialva Barbosa da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, Rede Alcar; e Betania Maciel da Rede de Estudo e Pesquisa em Folkcomunicação, Folkcom. Nesta primeira reunião ordinária Cesar Bolaño foi eleito presidente do Conselho Deliberativo e também foi aprovado o plano de metas apresentado pela diretoria da Socicom para o biênio 2009-2010. Em linhas gerais o plano previa a estruturação da entidade, consolidação das vias de diálogo entre os dirigentes das associações filiadas e segmentos da sociedade e divulgação das atividades da federação e do pensamento comunicacional brasileiro. Os primeiros resultados puderam ser observados na realização de dois seminários anuais de integração nacional e na criação do site da federação no sítio www.Socicom.org.br , concentrando todas as informações sobre a instituição. O I Seminário de Integração Nacional ocorreu em março de 2009, na Universidade
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Estadual Paulista – UNESP, em São Paulo, reunindo os dirigentes das associações filiadas com o propósito de estreitar as relações entre as entidades. A intensificação do conhecimento mútuo entre as associações favoreceu a identificação de problemas comuns e a conseqüente busca por soluções. No II Seminário, realizado em 2010, na Universidade de São Paulo – USP, a ênfase dos debates esteve concentrada nas iniciativas para fortalecer e consolidar as Ciências da Comunicação no sistema nacional de ciência e tecnologia. Nesse sentido, um dos pontos de convergência referiu-se à necessidade de constituição de uma base de dados com informações atualizadas sobre a área de Comunicação no país capaz de centralizar os dados de diferentes fontes, de modo a subsidiar a instalação de um Observatório de Políticas Públicas na área da Comunicação. A idéia de produzir uma base de informações sobre o setor da comunicação já estava incorporada. Por atuação do presidente da Socicom, José Marques de Melo, juntamente com o Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação do Ipea, jornalista Daniel Castro, representantes das duas entidades estiveram reunidos em 25 de fevereiro de 2010, na sede do instituto em Brasília para estabelecer um protocolo de cooperação. A receptividade do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Marcio Pochmann, possibilitou a realização do convênio entre IPEA e Socicom para o desenvolvimento do projeto sobre o Panorama da Comunicação no Brasil, projeto materializado na presente publicação. Para um futuro bem próximo, a perspectiva é fomentar a criação do Observatório Nacional de Políticas Públicas de Comunicação e divulgar o Pensamento Comunicacional Brasileiro. A realização do I Congresso Mundial da Confibercom em agosto de 2011, com o tema “Sistemas de comunicação e diversidade cultural” e sob a coordenação da diretora de relações internacionais da Socicom será uma ocasião importante para referendar o papel da comunidade brasileira no circuito ibero-americano de produção científica na área. Reconhecendo a Comunicação um dos setores estratégicos para a inserção do país de forma soberana na Nova Ordem Econômica Mundial, espera-se que as ações da Socicom registradas neste breve período de sua história, possam subsidiar principalmente políticas de comunicação que fortaleçam a democracia no Brasil.

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CAPÍTULO 2 Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação
Antonio Hohlfeldt1

Introdução Pode-se pensar uma periodização da pesquisa brasileira em Comunicação a partir de diferentes paradigmas. José Marques de Melo, por exemplo, propõe uma periodização em torno das pesquisadas realizadas a cada momento. Assim, ele identifica seis diferentes momentos 2 3: a)Estudos históricos e jurídicos – se levarmos em conta que o início da imprensa brasileira se dá a partir de 1808, com a transferência da Família Real portuguesa para a então colônia brasileira, e que não temos nenhuma outra atividade comunicacional, como a classificamos hoje em dia, antes deste momento, podemos marcar, de fato, o século XIX como o início dos estudos sobre Comunicação no país, caracterizado aquele primeiro período por pesquisas com perspectiva histórica ou teor jurídico, o que se vai estender pelo menos até os anos 1930 (com o movimento revolucionário daquele ano). Tivemos, assim, estudos memorialísticos ou que enfocavam personalidades destacadas do nascente jornalismo brasileiro, assim como estudos vinculados a discussões jurídicas, como o exame das legislações que regravam a imprensa nacional. Tais estudos foram desenvolvidos especialmente por instituições como os Institutos Históricos e Geográficos, as Ordens de Advogados do Brasil e as Associações de Imprensa que começaram a se constituir; b) Pesquisa mercadológica – entre os anos 1930 e 1950, a chegada das primeiras empresas multinacionais e, conseqüentemente, a constituição de seus departamentos de publicidade, a que se seguiu o desenvolvimento do rádio, sobretudo quando ele assume uma característica mais comercial, segundo o modelo norte-americano, com programas a serem patrocinados e batizados por produtos industrializados no país, permitiu as primeiras pesquisas de opinião pública e estudos comportamentais, assim como as pioneiras campanhas publicitárias, quer nos jornais e revistas então em circulação, como nas emissoras
1 Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom); pesquisador do CNPq; Professor do PPG-COM da PUCRS; membro do Conselho Consultivo da – Sociedade Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor). Autor, dentre outros, de “Teorias da Comunicação - Conceitos, escolas e tendências” e “Última Hora – Populismo nacionalista nas páginas de um jornal”. 2 MELO, José Marques de – “A pesquisa da comunicação na transição política brasileira” in MELO, José Marques (Org.) – Comunicação e transição democrática, Porto Alegre, Mercado Aberto. 1995, p. 264 e ss. 3 MELO, José Marques – “Panorama brasileiro da pesquisa em comunicação” in BARBOSA, Marialva (Org.) – Vanguarda do pensamento comunicacional brasileiro: As contribuições da Intercom (1977-2007) , São Paulo, INTERCOM. 2007, p. 25 e ss.

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de rádio que começavam a se popularizar; c) Comparativismo e difusionismo – na primeira metade dos anos 1960, sob a influência do Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para América Latina (CIESPAL) – graças aos professores franceses e norte-americanos que desenvolvem seus cursos na Colômbia, surgem estudos comparativistas – sobretudo em jornalismo e radialismo – e projetam-se as primeiras pesquisas difusionistas, que valorizam a possibilidade de modernização das sociedades latino-americanas, inclusive a brasileira, através das mensagens difundidas pelos meios de comunicação de massa, em especial a televisão, que então começava a se popularizar; é o momento em que um professor brasileiro, Luiz Beltrão, tornar-se-á figura pioneira na pesquisa nacional, cujos resultados ampliar-se-ão nas décadas seguintes; d)Deslumbramento e apocalipse – o golpe militar de 1964 faz com que o final da década mude bruscamente de tendência, o que se estenderá até a primeira metade da década de 1970. Sem se perder as linhas de estudo anteriormente mencionadas, a pesquisa crítica ganha notoriedade. Assim, passase, repentinamente, de estudos entusiasmados sobre a comunicação de massa e suas vantagens para, sob a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt, que começam a ser traduzidos no Brasil, para uma crítica ideológica radicalizada dessa mesma indústria cultural, ainda que tal indústria alcance sua legitimação junto à sociedade brasileira, sobretudo depois do surgimento da TV Globo (1962) e das demais redes de televisão que serão então gradualmente implantadas no país; e)Legitimação acadêmica – em que pese a continuidade da ditadura, a reforma universitária de 1968 começa a produzir efeitos, com o surgimento dos primeiros cursos de Mestrado e, logo adiante, de Doutorado, também no campo da Comunicação. A distensão política, ao mesmo tempo, permite a retomada de estudos mais amplos e variados, sobretudo a partir da Universidade de São Paulo (USP); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de Brasília (UnB). Os estudos aí desenvolvidos começam a ter um foco mais específico dirigido à comunicação e a valer-se de bibliografia especializada; f )Politização dos estudos – a partir da década de 1980, com a transição democrática, os programas de Pós-Graduação se multiplicam e as linhas de pesquisa igualmente alcançam enorme variedade. É neste âmbito que surgem as entidades representativas do campo, como a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), fundada em 12 de dezembro de 1977, em São Paulo4 e que existiria articulada e paralelamente à União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC), entidade pioneira que, durante os mais duros
4 LOPES, Maria Immacolata Vassallo de – “Intercom e as ciências da comunicação no Brasil” in BARBOSA, Marialva (Org.) – Vanguarda do pensamento comunicacional brasileiro: As contribuições da Intercom (1977— 2007), op. cit., p. 157.

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anos da ditadura, recebeu e discutiu os principais temas da Comunicação, dando ênfase à chamada Comunicação alternativa ou popular, também identificada como comunicação das classes subalternas. A UCBC, fundada em 19695 , hoje em dia, tem praticamente encerradas as suas atividades, mas outras entidades foram se constituindo gradualmente, como a COMPÓS – que reúne os Programas de Pós-Graduação de Comunicação; ou as entidades mais específicas de cada segmento, desde a Abracorp (2006), de Relações Públicas e Comunicação Organizacional; a Socine (1996), de pesquisadores de cinema e a SBPJOr (2003), agregando os pesquisadores do jornalismo; a ABciber (2006), que reúne os pesquisadores de cibercultura, até a mais recente, a Politicom (2008), associando pesquisadores em torno da comunicação política, etc. Talvez a denominação de politização não seja a melhor, pois que a institucionalização traduziria melhor o processo então experimentado. g)Variabilidade de estudos – a partir dos anos 1990, com a expansão dos Programas de Pós-Graduação e a entrada das novas tecnologias de informação e comunicação no país, multiplicam-se as linhas de pesquisa, as bibliografias referidas e a produção dos pesquisadores, abrindo-se leques importantes inclusive para a formação de equipes interdisciplinares, grupos interinstitucionais e também pesquisas internacionais que se desenvolvem com a participação de pesquisadores brasileiros. Outra periodização proposta é a de Margarida M. Krohling Kunsch6, que se preocupa principalmente com a tendência institucional dos estudos comunicacionais. Assim, ela distingue apenas três períodos, ainda que se deva levar em conta que, provavelmente, atualizada, esta mesma periodização incluiria um novo momento, o que se pode deduzir até mesmo a partir do título de seu artigo, que fala sobre o desafio dos anos 90: a) Formação de pessoal – ao longo dos anos 1950 e 1960, tendo em conta a criação da CAPES e no CNPq, no ano de 1951. Havia, naquele primeiro momento em que os cursos de jornalismo começam a ser constituídos, preocupação com a formação de professorado competente; estímulo à pesquisa científica e treinamento adequado de técnicos profissionais; b) Diversificação de cursos – nos anos 1970, multiplicam-se os cursos de Graduação e começam a se estruturar os cursos de Pós-Graduação (legislação de 1965), o que gera um circuito positivo em que um segmento incide sobre o outro, qualificando-se mutuamente, na medida em que cresce o universo de estudantes e profissionais envolvidos, do mesmo modo que aumenta a audiência
5 MELO, José Marques de – “Prefácio” in MELO, José Marques de (Org.). – Pedagogia da comunicação:Matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, p. 36. 6 KUNSCH, Margarida M. Krohling – “Pesquisa brasileira de comunicação: Os desafios dos anos 90” in Revista Brasileira de Comunicação, São Paulo, INTERCOM, Vol. XVI, nº. 2, Julho-Dezembro de 1993, p. 44 e ss.

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dos meios de comunicação de massa em todo o país, graças à industrialização e à institucionalização das redes de comunicação que o regime militar patrocina, como a implantação dos sistemas DDD e DDI e, mais adiante, os satélites de comunicação. Ao mesmo tempo, desenvolve-se a indústria de bens eletrônicos, como o rádio e a televisão, lado a lado com o automóvel e a casa própria, que exige ainda a chamada linha branca de equipamentos; como ocorrera nas décadas de 1930 em diante, mas com uma intensidade bem maior, o circuito industrialização-publicidade permite um forte crescimento da indústria cultural em todo o país; c) Consolidação e destaque à pesquisa – a partir dos anos 1980, a chamada redemocratização do país permite a emancipação cultural e universitária do controle ideológico e censorial dos administradores políticos. O país se diversifica, as eleições se sucedem e o campo da comunicação é importante espaço do embate democrático. Os cursos de Mestrado surgem nos anos 1970 e os de Doutorado na década de 1980. Crescem as produções e a necessidade de profissionais se multiplica. Os cursos de Pós-Graduação interferem na realidade cotidiana, na medida em que seus pesquisadores voltam-se para o entorno imediato a respeito do qual discutem. No artigo de Kunsch, fala-se no desafio dos anos 1990, que a autora assim resume: desenvolver estudos sobre as novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) que então emergem no país; capacitar para a análise de fenômenos emergentes produzidos pelas mesmas TICs; diminuir o descompasso entre a pesquisa, a realidade social e as necessidades do mercado profissional; buscar reais melhorias para a sociedade brasileira a partir das novas tecnologias; revisar de paradigmas existentes; construir de um campo teórico da Comunicação autônomo; sair do isolamento dos cursos de Pós-Graduação, levando a que as pesquisas neles desenvolvidas se aproximem cada vez mais dos interesses da sociedade do entorno. Pode-se dizer que o “campo profissional e acadêmico da comunicação social no Brasil se encontra hoje num estágio altamente avançado se comparado com países da América Latina e mesmo da Europa. Essa constatação deve servir de estímulo para se buscar uma melhoria de qualidade e os níveis de excelência na formação universitária e um aperfeiçoamento contínuo no mercado profissional”7 . Margarida Kunsch, neste outro texto, mais recente, salienta que “as perspectivas são muitas, se considerarmos um conjunto de fatores, desde o poder e a imprescindibilidade da Comunicação em todos os sentidos da vida humana e
7 KUNSCH, Margarida M., Krohling – “Perspectivas e desafios para as profissões de comunicação no terceiro milênio” in KUNSCH, Margarida M. Krohling (Org.) – Ensino de comunicação: Qualidade na formação acadêmico-profissional, São Paulo, INTERCOM-ECA/USP-ARCO. 2007, p. 88.

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na sociedade até as novas possibilidades advindas com a revolução tecnológica da informação e das comunicações. Outro aspecto relevante a considerar é o crescimento e a pujança das indústrias das comunicações no Brasil, consideradas das mais avançadas do mundo” (ps. 89 e 90). Evolução histórica É possível retornar um pouco ao passado e buscar sinalizar a evolução sofrida tanto pelas tecnologias quanto pelo estudo e o surgimento das diferentes mídias no país, até o momento presente. Foi com a imprensa que começou a experiência brasileira no campo da comunicação, e com a imprensa permaneceria ao longo de quase dois séculos nossa prática comunicacional. Em sentido lato, pode-se considerar que o primeiro documento de caráter jornalístico, produzido em terras brasileiras, foi o relato de Pero Vaz e Caminha ao rei Dom Manuel, a respeito da descoberta de Pedro Álvares Cabral8. Em sentido estrito, o jornalismo, segundo aquele conceito referido por José Marques de Melo, enquanto atividade de comunicação coletiva9 ou, ainda, qualquer atividade humana da qual resulte a transmissão de uma notícia ou informação de atualidade, surgiria apenas após a chegada do rei Dom João VI ao Brasil, com a criação de um arremedo de jornal10, a Gazeta do Rio de Janeiro, dirigido por Frei Tibúrcio José da Rocha, a partir de 10 de setembro de 1808. Era nossa primeira aventura com a imprensa, que coincidiria com outra iniciativa significativa, a de Hipólito José da Costa e seu Correio Braziliense, editado a partir de junho de 1808, mas que só chegaria à colônia brasileira, de fato, para ser lido pela Corte e por outros interessados, provavelmente a partir de outubro daquele mesmo ano. Os primeiros estudos formais sobre Comunicação se iniciaram em torno do Jornalismo impresso, ainda no distante ano de 1859, com Fernandes Pinheiro11 , a que se seguiriam outras pesquisas, já em 188312. Anos mais tarde, outros estudos de Vale Cabral (1881) e Pereira da Costa (1891) se seguiriam, até um dos projetos pioneiros de pesquisa em torno da imprensa que se deveu ao historiador Alfredo de Carvalho quem, em 29 de julho de 1907 propôs – e foi aceito – que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a propósito do centenário da criação da imprensa brasileira, que ocorreria no ano seguinte, desenvolvesse um projeto coletivo de pesquisas em torno desse tema. O Secretário Geral Perpétuo
8 GUIRADO, Maria Cecília – Relatos do descobrimento do Brasil – As primeiras reportagens, Lisboa, Piaget. 2001 9 MELO, José Marques de – Teoria da comunicação: Paradigmas latino-americanos, Petrópolis, Vozes. 1998, p. 72. 10 SODRÉ, Nelson Werneck – História da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro, Graal. 1977, p. 23. 11 MELO, José Marques de – A esfinge midiática, São Paulo, Paulus.2004, p. 61. 12 MELO, José Marques de – Teoria da comunicação: Paradigmas latino-americanos, op. cit., p. 172, e MELO, José Marques de - A esfinge midiática, São Paulo, Paulus.2004, p. 61, onde identifica José Higino Duarte Pereira como o pesquisador referido.

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do IHGB, Max Fleuiss, aceitou de imediato a proposta e assim a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em seu Tomo I, de 1908, dedicado inteiramente ao Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, reunia, pela primeira vez, um conjunto de monografias sobre o assunto13. Um pioneiro foi Rui Barbosa, com o seu famoso discurso, não pronunciado, chamado “A imprensa e o dever da verdade”14 . Novos estudos surgiriam nas décadas seguintes, com Barbosa Lima Sobrinho (1923), B. dos Santos Leitão (1926), J. Canito Mendes de Almeida (1931), Ernani Macedo de Carvalho (1940), Rubens Porto (1941), Vitorino Prata Castelo Branco (1943), Carlos Rizzini (1946), etc. Uma série significativa de estudos teóricos, ainda hoje reeditados, é integrada por Danton Jobim (1957), Luiz Beltrão (1960), Carlos Lacerda (1990) e Barbosa Lima Sobrinho (1997)15. Deve-se lembrar, ainda, a obra de Afonso de Arinos de Melo Franco, Pela liberdade de imprensa16. A partir dos anos 1960, com cerca de meia centena de títulos, José Marques de Melo é, indiscutivelmente, o pesquisador mais produtivo e qualificado de todo o país, discípulo de Luiz Beltrão, seu seguidor e difusor, e também permanente incentivador de todas as gerações que se sucederiam, não apenas no campo do jornalismo quanto no de todas as demais práticas da comunicação social17. Cursos de Comunicação A história dos cursos de Comunicação sempre esteve marcada por uma crise permanente, traduzida na reformulação constante dos currículos a serem cumpridos pelas faculdades. Em uma perspectiva bastante crítica, Eduardo Meditsch mostra que, desde a primeira proposta de criação de um curso de Jornalismo no Brasil, até as atuais escolas de Comunicação, com suas habilitações, a elaboração dos currículos enfrenta o dilema entre orientar os cursos no sentido
13 O material encontra-se guardado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e microfilmado, podendo ser consultado a partir de BERTOLETTI, Esther – Periódicos brasileiros em microforma. Catálogo coletivo. 1981. A INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação homenageia o pioneiro com o nome de REDE ALCAR – relativo a Alfredo de Carvalho – o conjunto de pesquisas que se desenvolve atualmente, em nível nacional, sobre a história da imprensa brasileira, preparando o seu segundo centenário, que ocorre em 2008. 14 BARBOSA, Rui – A imprensa e o dever da verdade, São Paulo, EDUSP/COM-ARTE, 1990. A conferência seria pronunciada no dia 15 de janeiro de 1920, quando de visita do autor ao Abrigo dos Filhos do Povo. Rui Barbosa, doente,não pode comparecer à cerimônia, mas o texto foi lido por João Mangabeira. O autor entregou os originais para que fossem editados em benefício da entidade. Hoje em dia, pode-se ler, ainda, sobre a imprensa, os textos integrados aos volumes 25 (1898), 26 (1899) e 27 (1900), das Obras completas, publicadas pelo Ministério de Educação e Cultura, através da Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro. 15 JOBIM, Danton – Espírito do jornalismo, São Paulo, EDUSP-COMARTE. 1992; LACERDA, Carlos – A missão da imprensa, São Paulo, EDUDSP/COMARTE.1990; LIMA SOBRINHO, Barbosa – O problema da imprensa, São Paulo, EDUSP/COMARTE. 1997. 16 MELO FRANCO, Afonso Arinos de – Pela liberdade de imprensa, Rio de Janeiro, José Olympio. 1957. 17 Ver, a propósito, MELO, José Marques – vestígios da travessia. Da imprensa á internet. 50 anos de jornalismo, São Paulo, Paulus. 2009, em que o autor revisa criticamente sua trajetória de vida e acadêmica.

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profissionalizante, para formar mão-de-obra especializada, ou no sentido teóricocrítico, para formar agentes capazes de uma intervenção transformadora na realidade social18. Para ele, foi a preocupação em diplomar burocratas, e não em atender às necessidades do Jornalismo brasileiro, que levou as autoridades brasileiras a criar o primeiro curso de Jornalismo no país, na década de 1940. Daí a tendência beletrista daqueles primeiros cursos, inclusive de uma frustrada tentativa de Anísio Teixeira, na Universidade do Distrito Federal (na época, o Rio de Janeiro), ainda nos anos 1930, o que só se encerraria, em tese, nos anos 1960. A primeira proposta, realizada no I Congresso Brasileiro de Jornalistas, de 1918, resultou na criação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e defendeu um curso eminentemente prático, montado a partir de um jornal-laboratório19. A proposta repetia, de certo modo, a idéia de Gustavo de Lacerda, idealizador de uma Casa do Jornalista, em 1908, que abrigaria um Clube de Repórteres e também uma Escola de Jornalismo: Lacerda pretendia, com isso, resolver o descompasso entre os jornalistas intelectuais, que vinham das classes médias, com excelente formação cultural, e a dos candidatos populares a jornalista, que não só desconheciam a própria profissão, sem ter oportunidade de nela formar-se nem teórica nem praticamente, quanto evidenciavam baixo nível cultural. Lacerda faleceu sem ver seu sonho concretizado, mas o Congresso dos Jornalistas de 1918 retomaria sua idéia20. O mesmo modelo inspirou a pioneira escola de Cásper Líbero, a partir de 194321, concretizada em 1947. A última tentativa de desenvolver um curso semelhante, na Universidade de Brasília, foi interrompida em 1965, graças ao golpe militar do ano anterior. José Marques de Melo lembra que, depois da experiência da Universidade do Distrito Federal, seguiu-se um decreto de 1943, que instituía formalmente o Curso de Jornalismo, e um outro, de 1946, que estabelecia as normas de funcionamento para esse curso22.
18 MEDISTCH, Eduardo – “A questão curricular: Do impasse à reinvenção” in MELO, José Marques (Org.) – Ensino de comunicação no Brasil: Impasses e desafios, São Paulo, ECA/USP. 1987, mimeo, p.22. 19 MEDITSCH, Eduardo – “A qualidade do ensino na perspectiva do jornalismo: Dos anos 1980 ao inicio do novo século” in KUNSCH, Margarida M. Krohling (Org.) – Ensino de comunicação – Qualidade na formação acadêmico-profissional, São Paulo, INTERCOM/ECA-USP/Associação de Apoio à Arte e Comunicação. 2007, p.127 e ss. 20 MELO, José Marques de – “O campo acadêmico da comunicação: História concisa” in MELO, José Marques de (Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, ps. 19 e 20 21 Político, empresário e editor, proprietário, dentre outros, do jornal A Gazeta, Gazeta desportiva e Rádio Gazeta, Cásper Líbero, pouco antes de falecer, em agosto de 1943, registrou em cartório um testamento em que criava a primeira escola de jornalismo do país (in MELO, José Marques de – “Cásper Libero, pioneiro do ensino de jornalismo no Brasil” in MELO, José Marques de (Org.) – Transformações do Jornalismo brasileiro – ética e técnica, São Paulo, INTERCOM. 194, p.13. 22 MELO, José Marques de – “O ensino do jornalismo” in MELO, José Marques de (Org.) – O Ensino do

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Após a criação da Faculdade Cásper Líbero, em 1947, segue-se o da Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, em 1948; a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) abriu seu Curso de Jornalismo no dia 31 de julho de 1951, sob a égide da Faculdade de Filosofia23, vindo a transformar-se em Faculdade de Comunicação Social em 1999, depois de se independizar, enquanto Escola de Jornalismo, em 1964, e tornar-se Faculdade dos Meios de Comunicação Social, em 1965. A Universidade Católica de Pernambuco cria seu curso de Jornalismo em 1961, coordenado por Luiz Beltrão; a Universidade de Brasília inicia sua Faculdade de Comunicação de Massa, em 1963, e, em 1966, a Universidade de São Paulo cria a Escola de Comunicações e Artes (ECA). Contrariando Luiz Beltrão e José Marques de Melo, contudo, Sérgio Mattos escreve: “O ensino de jornalismo no Nordeste não foi iniciado no ano de 1959; tampouco os primeiros jornalistas profissionais nordestinos a portarem título universitário colaram grau em 1961. Isto porque, historicamente, a Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia aprovou o seu Regimento Interno, em sessão do Conselho Universitário de 28 de abril de 1949 e nele foi inserido o curso de Jornalismo, instalado no ano de 1950 com grande afluência de candidatos. O Ministro da Educação, na época, era o baiano Clemente Mariani que facilitou a instalação do curso durante o reitorado de Edgard Santos. Os primeiros bacharéis em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia colaram grau em 1952, quando 64 dos quase 120 ingressos, concluíram o curso (...) No período de 1953 a 1961, o curso de jornalismo da UFBA ficou sem funcionar, voltando a ser oferecido em 1962. Nesse intervalo surgiu, em Salvador, o Instituto de Jornalismo da Bahia – fundado por Germano Machado, Hermano Gouveia Neto e Antonio Virgílio Sobrinho – que entre 1950 e 1964 ministrou vários cursos práticos de jornalismo de curta duração”24. É a partir de então que os cursos vão sendo organizados, podendo-se distinguir três diferentes momentos quanto à sua evolução: a) de 1946 a 1960 – surgimento das primeiras escolas de Jornalismo com implantação de metodologias européias e norte-americanas; b) de 1961 a 1969 – coincide com o funcionamento do CIESPAL na América Latina, introduz novos parâmetros de ensino do Jornalismo e a mentalidade da
jornalismo – Documentos da IV Semana de Estudos de Jornalismo, São Paulo, ECA/USP. 1972, p. 9. 23 CLEMENTE, Elvo – “O curso de Jornalismo” in DORNELLES, Beatriz (Org.) – PUCRS – 50 anos formando jornalistas, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 14. 24 MATTOS, Sérgio – “Ensino de jornalismo: Sem a integração teoria/prática não haverá solução” in MELO, José Marques de (Org.) – Transformações do jornalismo brasileiro: Ética e técnica, op. cit., p. 29.

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pesquisa científica; c) de 1969 aos nossos dias, após a regulamentação da profissão de Jornalista, que torna a profissão privativa de quem detenha o diploma. É nesta etapa que as antigas escolas e cursos se transformam em Faculdades e quando o Jornalismo é genericamente englobado na Comunicação Social, com raras exceções25. Diferentes currículos O beletrismo marcou o primeiro currículo mínimo oficial, através do parecer do Conselho Federal de Educação, de n. 323/1962, e também o segundo, através do parecer n. 984/1965, ainda que já se pudesse divisar o início da passagem para uma visão técnico-científica, sob a influência norte-americana da reforma universitária que começava a se implantar no país, através do Acordo MEC/ USAID. O terceiro currículo, instituído pelo parecer n. 631/1969, denominado por Eduardo Meditsch como fase positivista, introduz o curso de Comunicação Social e reduz o papel e o significado do Jornalismo, diluído em meio a outras habilitações e sob uma proposta pseudo-abrangente de preparar um profissional múltiplo, o que acabou desagradando a todos, empresários da área e profissionais em geral. Seguiu-se o currículo de 1979, que ele denomina burocrático: elaborado originalmente pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa de Comunicação (ABEPEC), foi distorcido e mereceu severas críticas da União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC). Esse currículo intensificou a tendência à especialização, e só foi rediscutido em 1984. Seguiu-se o currículo desenvolvido a partir do parecer nº. 1203/1977, que propõe aliar a formação teórica ao aspecto prático do ensino e ao fornecimento ao aluno, do instrumental teórico e técnico de intervenção26. Esse currículo teve modificação parcial no ano seguinte e foi substituído por um quinto currículo, graças ao parecer nº. 480/1983, resultado de trabalho de uma comissão de especialistas criada pelo Ministério de Educação. O principal aspecto deste novo currículo é a obrigatoriedade quanto a certos quesitos de infra-estrutura que as Faculdades devem cumprir, visando a melhoria qualitativa da formação profissional. Segundo esse currículo, a função do Jornalismo está caracterizada pela produção de informações, notícias, matérias, escritas ou faladas, contendo ou não comentários, com correção redacional e adequação de linguagem, contando com serviços técnicos como arquivos, pesquisas de dados, distribuição gráfica de textos, fotografias, ilustrações, desenhos, sendo elaboradas para quaisquer veículos
25 A exceção mais polêmica e conhecida é a da Universidade Federal de Santa Catarina, que possui um curso de Graduação em Jornalismo e que, no ano de 2007, acaba de instalar um Mestrado em Jornalismo, em nível de Pós-Graduação. 26 MOURA, Cláudia Peixoto de – O curso de Comunicação Social no Brasil: Do currículo mínimo às novas diretrizes curriculares, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 88.

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de comunicação, com fins de divulgação27. Depois da sanção da chamada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, de 1996, haveria ainda a proposição de um novo currículo para os cursos de Comunicação Social, aí incluído o Jornalismo, em 1998, através da Portaria Ministerial nº. 54, parcialmente modificada no ano seguinte e, finalmente, homologada em 2001, através do parecer nº. 492, do Conselho Nacional de Educação. Periodicamente, empresas jornalísticas e até mesmo autoridades, inclusive do Judiciário, tentam desobrigar do diploma, conforme o Decreto-Lei nº. 972, de 17 de outubro de 1969, aos profissionais de jornalismo. Comenta Meditsch: “As empresas que reclamam o fim dos cursos de Comunicação e, com isso, pretendem alcançar o monopólio não só do fazer, mas também do saber-fazer geralmente investem muito pouco no aperfeiçoamento de seus profissionais, quando não impedem que eles exerçam suas capacidades, negando-lhes as mínimas condições de trabalho para tanto”28. Desde 1990, o Brasil vem enfrentando a chamada guerra do canudo29, quando o então Presidente Fernando Collor de Mello iniciou seu projeto desregulamentador, retirando as legislações de 15 profissões. Mais tarde, recuperado o status profissional, a juíza Carla Abrantkoski Rister, a partir de uma demanda do Ministério Público de São Paulo, voltou a incidir sobre a legislação profissional, desobrigando o diploma. Entre marchas e contramarchas, formalmente, no país, no momento em que se escreve este artigo, a profissão, regulamentada pela lei nº. 6612, que revogava o decreto-lei 972, de 17 de outubro de 1969, e que sempre causava constrangimentos aos profissionais, por ter sido editada durante o período da Junta Militar que governou logo após a morte do General Costa e Silva, está desobrigada de ser cumprida pelos órgãos de comunicação social do país. Derrubada recentemente a chamada lei de imprensa e também decidida, pelo STF, a não-obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, aguarda-se, no momento, a tramitação de emenda constitucional, a ser votada pelo Congresso Nacional, que reinsere tal obrigatoriedade na própria Carta Magna da nação. A título de ilustração, é bom lembrar-se que, no Brasil, a regulamentação da profissão antecedeu a criação dos próprios cursos de Jornalismo 30 A primeira revista especializada, em nível acadêmico, sobre o fenômeno
27 MOURA, Cláudia Peixoto de – O curso de Comunicação Social..., op. cit., p.123. O livro apresenta ainda, em seu Anexo 2, utilíssima “Cronologia do Ensino de Comunicação Social no Brasil” 28 MEDITSCH, Eduardo – “A questão curricular: Do impasse à reinvenção”, op. cit., p. 32. 29 SCHROEDER, Celso – “A guerra do canudo” in DORNELLES, Beatriz (Org.) – PUCRS – 50 anos formando jornalistas, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 95 e ss. 30 AFONSO, Maria Rita Teixeira – “Ensino: Sonhos e pesadelos do curso pioneiro” in MELO, José Marques de (Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, p. 37 e ss.

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comunicacional, nasce no Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, graças a Luiz Beltrão, que alcançara oficializá-lo em 1960 e conseguira sua autonomia no ano seguinte. Tratava-se de “Comunicações & Problemas”, publicada pelo Instituto de Ciências da Informação (Icinform), que também fora criado por aquele pesquisador. Instalado no dia 13 de dezembro de 1963, comemorou assim a formatura da primeira turma do curso de jornalismo daquela universidade, que então tinha apenas três anos de currículo31. É a partir deste conjunto de estudos pioneiros que, mais tarde, surgirá a inspiração de Luiz Beltrão para a formulação da teoria da Folkcomunicação32 , que ele consubstanciará mais tarde, em sua tese de doutoramento33. Quanto às demais áreas de atividades da Comunicação social, podemos começar com a Publicidade e a Propaganda. Publicidade e propaganda Para muitos, a história da Publicidade e da Propaganda também se inicia em 1808, com o jornal Gazeta do Rio de Janeiro34. Esse periódico teria publicado o mais antigo anúncio de que se tem notícia no país, a respeito de aluguel e venda de casas. Ao mesmo tempo, já em sua primeira edição, divulgava publicações que a Imprensa Régia estava preparando para lançamentos imediatos. Por volta de 1860, com o desenvolvimento urbano, começam a surgir os primeiros painéis e placas de rua, bulas de remédios e panfletos de propaganda. Em 1875, os jornais “Mequetrefe” e “O Mosquito” inauguram os reclames ilustrados (p. 133). O aparecimento das revistas ilustradas, a partir de 1900, facilita a expansão do anúncio. A profissionalização do campo da Publicidade se inicia nos anos 1930, quando já havia meia dúzia de agências no Brasil, dentre elas a Eclética (fundada em 1914), a Edanee, a Valentin Harris, a Pedro Didier/Antonio Vaudagnoti e a Pettinatti, todas operando desde antes dos anos 192035. Neusa Demartini Gomes
31 NÓBREGA, Maria Luiza – “INCINFORM – Uma experiência pioneira” in MELO, José Marques de et GOBBI, Maria Cristina (Org.) – Gênese do pensamento comunicacional latino-americano: O protagonismo das instituções pioneras, São Bernardo do Campo, UMESP/UNESCO. 2000, p.157 e ss. 32 CARVALHO, Samantha Viana Castelo Branco Rocha – “Luiz Beltrão: Da criação do INCINFORM à teoria da folkcomunicação” in MELO, José Marques de et GOBBI, Maria Cristina (Org.) – Gênese do pensamento comunicacional latino-americano: O protagonismo das instituções pioneiras, São Bernardo do Campo, UMESP/UNESCO. 2000, p.193 e ss. 33 BELTRÃO, Luiz – Folkcomunicação. Um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2001. 34 CARDOZO, Missila Loures; GOBBO, Sonia Maria et ARAÚJO, William Pereira de – “ESPM: A pioneira escola de propaganda” in MELO, José Marques (Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, op. cit., p. 133. 35 GOMES, Neuse Demartini – “A comunicação publicitária no Brasil: Mercado, ensino e pesquisa” in LOPES, Maria Immacolata Vassallo de; MELO, José Marques de; MOREIRA, Sônia Virgínia et BRAGANÇA, Aníbal (Org.) – Pensamento organizacional brasileiro, São Paulo, INTERCOM.2005, p. 118 e ss.

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afirma que a primeira empresa anunciante regular foi a Bayer, com sua aspirina. Em boa parte, contudo, esses primeiros anúncios vinham prontos dos Estados Unidos. A chegada, em 1926, da General Motors, fabricante de automóveis, trouxe consigo um conjunto de profissionais para o seu departamento de Publicidade, que viriam a formar a Walter Thompson do Brasil, em 1929, à qual a GM entregou sua conta (p. 118). Em 1930 foi a vez da N. W. Ayer & Son instalar-se no país, tendo entre seus clientes a General Electric. Pode-se afirmar que o aprendizado da Publicidade foi prático, do mesmo modo que o de Jornalismo, porque primeiro aprendia-se a fazer e só muito mais tarde começaram a surgir as escolas e os regramentos básicos da atividade36, constituindo o que Neusa Demartini Gomes identifica como modelo americano e modelo europeu, os quais embaralhamos na prática (p. 157).

36 GOMES, Neusa Demartini – “Pensando o ensino de publicidade e propaganda: Contribuições da academia e do mercado para uma melhor sintonia” in KUNSCH< Margarida M. Krohling (Org.) - Ensino de comunicação: Qualidade na formação acadêmico-profissional. São Paulo, INTERCOM-ECA/USP-ARCO. 2007, p. 155 e ss.

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CAPÍTULO 3 Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade
José Marques de Melo1

Introdução Mais antiga sociedade científica em atuação no país no campo da Comunicação, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) surge e progride no quadro de consolidação das ciências da comunicação como área científica, decorrente também da atuação de outras associações científicas e acadêmicas fundadas no apagar das luzes dos anos sessenta e limiar dos anos setenta do século passado. A primeira entidade aglutinadora de estudiosos da comunicação no Brasil foi a Associação dos Amigos do Icinform, sigla do Instituto de Ciências da Informação, criada por Luiz Beltrão, em Brasília, nos idos de 1966-67. Apesar da existência de núcleos ativos em Brasília, Recife, São Paulo e Porto Alegre, o agrupamento dissolveu-se na esteira dos acontecimentos que determinaram a extinção do próprio Icinform2. Logo em seguida, fundou-se em São Paulo (1969) uma associação voltada para o estudo da comunicação eclesial. Trata-se da UCBC, sigla da União Cristã Brasileira de Comunicação Social. Embora persista até os dias de hoje foi perdendo, no correr do tempo, o caráter inicialmente analítico e reflexivo para se tornar um núcleo militante de formação e produção. Na seqüência, surgiu a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Comunicação (ABEPEC), criada em 1972, em São Paulo, cuja plataforma de atuação foi pouco a pouco sendo implodida pela convivência pouco harmoniosa entre professores e donos de escolas. Cinco anos depois de fundada, essa associação perdeu a legitimidade, sendo substituída por duas entidades nacionais: a Intercom (que subsiste até hoje), reunindo pesquisadores desde 1977, e a ABECOM, associação de escolas e faculdades, fundada em 1984, mas desativada paulatinamente. A seguir vieram: COMPÓS, 1992; Socine, 1996; Folkcom, 1998; Forcine, 2000, Rede Alcar, 2001 e SBPJor, 2003. As mais recentes são a Ulepicc- Brasil 2004; FNPJ, 2005; Abrapcorp, 2006; ABciber, 2006; e Compolítica, 2006.
1 Diretor-Titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação, integrou a equipe de docentes fundadores da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom (2005-2008). 14. A última edição da revista Comunicações & Problemas (n. 11/12, 1969, 0. 232) noticia um encontro dessas “sessões regionais” do Icinform, com indicação de ações planejadas para o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

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Motivada pela fragilidade institucional da área de Comunicação, como decorrência da fragmentação do campo de estudos, a Intercom promoveu, durante o XXX Congresso de Ciências da Comunicação, em Santos, São Paulo (agosto/2007), o I Fórum das Sociedades Científicas da Comunicação, com o objetivo de abrir um diálogo entre as referidas entidades. Ao final, foi constituída a Socicom, federação destinada a representar, de modo articulado, os interesses da área frente aos órgãos públicos e privados, contribuindo para a formulação consensual de uma política científica, tecnológica e de inovação. Perfil Constituída por mais de mil associados de todas as regiões do país ou residentes no exterior, a Intercom é uma associação científica, interdisciplinar, sem fins lucrativos, destinada a congregar professores, pesquisadores e profissionais, bem como a prestar serviços à comunidade. A associação foi fundada em São Paulo, a 12 de dezembro de 1977 e reconhecida como instituição de utilidade pública pela Lei Municipal nº 28.135/89. Participa das redes nacionais de sociedades científicas capitaneada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Federação das Sociedades Científicas Nacionais de Comunicação (Socicom). Está integrada às redes internacionais de Ciências da Comunicação como entidade representativa da comunidade acadêmica brasileira: 1. Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC), 2. International Association for Media and Communication Research (IAMCR), 3. International Federation of Mass Communication Associations (IFCA) 4. Federação Lusófona de Ciências da Comunicação (LUSOCOM) Cada sócio da Intercom está nucleado por afinidade temática, num dos Grupos de Pesquisa (GPs) estruturados sob a forma de redes nacionais que estudam fenômenos específicos – Gêneros Jornalísticos, Telenovelas, Culturas urbanas, Conteúdos Digitais, Cibercultura, etc. – ou tratam de áreas do saber comunicacional - Comunicação Audiovisual, Organizacional, Folkcomunicação, Jornalismo, Propaganda , Semiótica, Fotografia, Tecnologias, Teorias da comunicação, entre outras. Suas atividades anuais mobilizam os associados de todo o país. A principal é o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom Brasil), megaevento pluritemático, freqüentado por toda a comunidade científica da área. Mas a associação promove também encontros intra-regionais de estudantes e professores, denominados Congressos Regionais de Ciências da Comunicação,
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conhecidos como Intercom Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Da mesma forma, existem outras atividades periódicas, como por exemplo os Colóquios Bi-Nacionais de Ciências da Comunicação – reuniões de trabalho das equipes: Brasil/França, Brasil/Espanha, Brasil/Portugal, Brasil/Itália, Brasil/ Dinamarca - ou americanos: Brasil/México, Brasil/Canadá, Brasil/Estados Unidos, Brasil/Argentina e Brasil/Chile. Os Seminários Temáticos são eventos realizados em parceria com universidades, empresas e organizações sociais para debater temas da agenda pública. A partir de 2007, ocupou papel de realce na agenda o Café INTERCOM, que corresponde a eventos promovidos em parceria com a FNAC (São Paulo e Curitiba), Biblioteca Nacional (Rio) e outras instituições para o lançamento de livros ou para a realização de palestras. A linha de publicações tem constituído fator-chave para a legitimação acadêmica da entidade. A Intercom Edições vem lançando livros, anais, coletâneas, bibliografias, monografias produzidos pelos associados, organizados em seis coleções accessíveis na “Livraria Virtual”. É editada também a INTERCOM – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação – o mais antigo periódico da área, detentor do conceito elevado no Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia. Circulando há 30 anos, cada semestre, em formatos impresso e digital, essa revista vem sendo financiada continuamente pelos Ministérios da Educação (MEC) e da Ciência e Tecnologia (MCT). Catalisando os interesses de públicos segmentados, a Intercom instituiu várias redes acadêmicas: Portcom, Expocom, Intercom Junior e Intercom Jovem. A Rede de Informação em Ciências da Comunicação nos Países de Língua Portuguesa (Portcom) forma um banco de dados que registra as fontes do saber comunicacional produzido no Brasil, em Portugal e nos países de língua portuguesa da África e Oceania. A Rede de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) possui amplitude inter-regional, incentivando a melhoria de qualidade dos projetos laboratoriais desenvolvidos pelos estudantes de graduação. Por sua vez, a rede Intercom Junior destina-se a aglutinar estudantes dos cursos de graduação engajados ou interessados em projetos de iniciação científica. Enquanto isso, a rede Intercom Jovem pretende atualizar e complementar a formação acadêmica dos egressos dos cursos de graduação, bem como dos jovens docentes que pretendem desenvolver projetos no campo da Comunicação. Cinco Prêmios, outorgados anualmente, despertam interesse coletivo. O Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação é disputado por pesquisadores e instituições. Enquanto o Prêmio Vera Giangrande é cobiçado por Estudantes de Graduação e o Prêmio Ligia Averbuck por Estudantes de Especialização, foram instituídos o Prêmio Francisco Morel, para Mestrandos e o Prêmio Freitas Nobre,
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para Doutorandos. Enquanto associação acadêmica comprometida com os destinos da sociedade a que pertence e na qual atua responsavelmente, a Intercom tem vivido, nos últimos anos, um período de transição institucional. Trata-se de processo balizado, no plano externo, pela débâcle do mundo socialista e a conseqüente ascensão dos Estados Unidos à condição de potência hegemônica. E, no plano interno, pelo fortalecimento da democracia e pela alternância do poder republicano. Esse quadro produziu as condições para a ascensão, pela primeira vez na nossa História, de um partido político enraizado no mundo do trabalho, tendo que pactuar com as elites até agora dominantes a posse do poder constitucional, que lhe fora outorgado pelos cidadãos, através de eleições livres e soberanas. Unidade na diversidade O papel vanguardista da Intercom tem se caracterizado também pelas iniciativas destinadas a romper as muralhas do gueto acadêmico, logrando maior interação com a sociedade. O balanço do último quinquênio indica que a associação rapidamente vem alcançando resultados animadores. Nesse panorama, a dinamização dos Grupos de Pesquisa, realizada pela atual diretoria, vem neutralizando a tendência inercial que caracteriza muitos deles, convertidos em espaços receptores e seletores de papers para exposição e debate durante o congresso anual. Pretende-se converter os GPs em instâncias indutoras de estudos e pesquisas, criando redes integradas que atuem coletivamente, no sentido de produzir conhecimento relevante para a sociedade. Para tanto, avaliou-se criteriosamente a estrutura do congresso anual, criando oportunidades destinadas a atrair a participação dos jovens profissionais que ingressam no mercado de trabalho e sentem necessidade permanente de reciclar seu referencial cognitivo. Por sua vez, a seleção dos trabalhos inscritos vem obedecendo a critérios de relevância social, inovação profissional e interesse público. Boa parte da produção acumulada nas universidades vem sendo direcionada para os Congressos Regionais, com periodicidade anual. As parcerias estabelecidas com as Organizações Globo garantiram a presença de profissionais jovens de todo o país nos seminários temáticos sobre Gestão de indústrias midiáticas e sobre Indústrias do entretenimento, realizados anualmente, no Rio de Janeiro. Com a expectativa de neutralizar a babel terminológica, construindo bússola taxionômica, a associação mobilizou a comunidade nacional para radiografar os usos e costumes vigentes no Brasil, produzindo a “Enciclopédia Intercom de
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Ciências da Comunicação”. A idéia inicial pretendeu resgatar o projeto histórico “Temas Básicos em Comunicação” (1983). Outras iniciativas nos segmentos da epistemologia e lexicologia continuam a desafiar a imaginação da nossa vanguarda acadêmica. Instalada em sede própria, na cidade de São Paulo, a Intercom mantém dois auditórios: o Intercom Brigadeiro e Intercom Pinheiros para a realização de cursos, seminários, colóquios e debates, todos organizados com a finalidade de prestar serviços aos seus associados e à sociedade brasileira. Além disso, mantém uma página web (www.intercom.org.br) onde os interessados poderão acompanhar com mais detalhes as informações disponibilizadas neste texto.

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CAPÍTULO 4 A História da Compós – lógicas e desafios
José Luiz Braga1

Introdução No dia 16 de junho de 2011, a Associação Nacional dos Pós-Graduações em Comunicação (Compós) completa 20 anos. Qual o sentido de escrever a história de uma instituição? A memória, a informação, a compreensão do sucedido, a reafirmação dos movimentos fundadores, a inscrição de um percurso nos contextos em que a ação se organizou, o entendimento das energias e as motivações que convergiram para produzir algo que não existia. Certamente, por tudo isso se escreve a história. Mas também se escreve porque a compreensão do presente é iluminada pela percepção do passado, e para com ela produzir o futuro. Para assegurar que a história não acontece – se faz. Lembrar a história é lembrar que a cada momento podemos continuar fazendo história. Dentre as várias perspectivas viáveis para apreender a história da Compós, parece-nos que entendê-la como apreensão do presente e reflexão sobre o futuro seria o movimento mais motivador. Nessa perspectiva de aproximação, buscamos as lógicas básicas que deram motivação e substância para a fundação ou se constituíram na processualidade de sua história. A explicitação das dinâmicas que caracterizam a Compós deve dar sentido à memória da origem, apreender os encaminhamentos do presente e explicitar os desafios para a continuação. O contexto da criação O contexto acadêmico da área, no início dos anos 90, era favorável a iniciativas de aproximação e intercâmbio. Ocorria então em diversos estados, para além daqueles em que se concentrava a área, o planejamento de novos programas, decorrente do desejo de pesquisadores e universidades de participar do ambiente reflexivo então restrito a poucos programas de Pós-Graduação (PPGs). O programa mais recente dentre os sete existentes, o da UFBA, tinha chegado ao grupo com uma dinâmica voltada para o intercâmbio e para o desenvolvimento e consolidação da área de conhecimento. Os programas estabelecidos também buscavam, em sua maioria, rever processos e construir novos contatos. A Compós foi resultante direta dessa
1. Professor da Unisinos. Foi Presidente da COMPÓS, gestão 1993-95.

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movimentação – e se implantou no momento eficaz para representar e articular os esforços, estimulando sua convergência e ampliação. Nesse contexto, a iniciativa de reunir os representantes dos programas foi dos professores Antonio Fausto Neto e Sérgio Dayrell Porto, na época representantes da área de conhecimento, respectivamente, junto ao CNPq e à CAPES. O Estatuto votado na fundação referenda a sintonia com o momento, na seguinte proposição: “[oferecer] apoio pertinente a cursos de pós-graduação em implantação...” (Art. 4º, alínea “c”) – prefigurando assim os 20 anos subseqüentes. Fundação: Intercâmbio A Compós foi fundada em dois movimentos, o primeiro levando quase naturalmente ao segundo. No dia 20 de março de 1991, em Goiânia, representantes dos sete programas de pós-graduação em Comunicação então existentes decidiram a criação de um Fórum dos Programas de Pesquisa e Pós-Graduação do Campo da Comunicação “como instrumento de integração e interação contínua dos programas de pós-graduação em Comunicação em existência no país” (da Ata de criação do Fórum). Foi criado um grupo de trabalho para encaminhar propostas sobre formas para consolidar o processo de integração. Definiu-se imediatamente uma segunda reunião para os dias 14 a 16 de junho do mesmo ano, em Belo Horizonte, a ser acolhida pela UFMG. Embora a data oficial de fundação seja o dia 16 de junho de 1991, com a criação da nova Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (que depois recebeu a sigla Compós), a referência a essa preparação é relevante, pois evidencia, na frase-chave da motivação acima citada, um aspecto central da dinâmica que a entidade mantém até hoje e lhe garante o perfil de pluralismo. Tratava-se de assegurar o intercâmbio entre ambientes de produção de conhecimento da área, como um fórum dos Programas. O objetivo básico da associação só se realiza como efetiva interação na medida em que o poder decisório se distribui igualmente entre todos os associados, que são os programas e não pessoas isoladas. Este fato não só demarca as motivações de origem, como também as lógicas de seu desenvolvimento. As demais características e qualidades da entidade decorrem, direta ou indiretamente, dessa dinâmica inicial, que se mantém na duração, assegurando pluralismo, participação nacional e presença junto às agências de fomento com representatividade institucional. Um ano depois, em 1992, era realizado no Rio de Janeiro, na UFRJ, o primeiro congresso anual da associação. Foi relevante para sua história, pois aí se definiu o formato para os debates acadêmicos que passariam a caracterizar os Encontros da Compós: um grupo de pares, pesquisadores, submetendo seus trabalhos ao debate dos colegas, assegurando uma processualidade agonística
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fundamental para o avanço do conhecimento. Foi expressa uma recusa de basear a entidade em apresentações “de performance”, que concentrariam a disseminação de conhecimentos na voz de poucos, os ouvintes se limitando a aprender e aplaudir. O processo foi assegurado, desde o início, por uma distribuição de tempo igual para todos os participantes de cada grupo; pela pré-definição de um colega do mesmo grupo para fazer um relato crítico, e pela especificação de um tempo generoso para o debate, maior que o da simples exposição. No primeiro encontro foram também definidos os grupos de trabalho que fariam chamadas de texto para o II Encontro. O segundo congresso, em 1993, na UFBA, em Salvador, funcionou nesse formato que desde então é uma característica central dos encontros. O formato dos debates, fundante para a constituição do valor científico no ambiente então constituído, mantém-se como eixo das lógicas de interação acadêmica da entidade. Os grupos de trabalho (GTs) e a reclivagem Havia então poucos grupos, criados a partir de propostas que agregaram proponentes nos primeiros encontros. O sistema de criação de um grupo, bastante espontâneo, consistia apenas na proposta de tema e ementa, feita diretamente na reunião do Conselho – aprovado, o grupo se reunia no ano seguinte. Embora não se delimitasse o número de participantes, a dimensão do encontro era correlata ao tamanho da área, com seus sete programas, e poucos outros mais nos anos seguintes. A boa produtividade do processo e o interesse despertado entre os pesquisadores fez rapidamente crescer o número dos participantes. Na IV Compós (UnB, Brasília) alguns grupos apresentavam um número de participantes constatado como excessivo, por reduzir o tempo de debate. Alguns grupos novos foram propostos e imediatamente aprovados para reunião desde o ano subseqüente. Em 1996, na V Compós (USP, São Paulo), com a dinâmica mesmo do crescimento, foi proposta a criação, por diversos colegas, de sete novos GTs – o que quase duplicaria a dimensão do evento anual. Decidiu-se, na própria reunião do Conselho durante o evento, que não seria possível criar imediatamente mais que dois dos GTs propostos. Nos debates intensos que decorreram, uma das críticas apresentadas à restrição quantitativa foi que a clivagem da área entre poucos GTs não permitiria abranger a riqueza de sub-áreas e de objetos de interesse do Campo da Comunicação. Foi votada, então, a criação de um grupo-tarefa para estudar uma regulamentação adequada quanto à dimensão; e para propor um encaminhamento
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de revisão da clivagem representada pelos GTs existentes. Juntamente com uma regulamentação cuidadosa do funcionamento dos GTs – até aí se desenvolvendo com base em práticas consuetudinárias – o grupotarefa encaminhou à reunião do Conselho, em novembro do mesmo ano, uma proposta que definia o número de GTs e o número máximo de participantes por GT. Propôs, ainda, uma redefinição coletiva da clivagem então existente, uma reclivagem experimental a ser feita em 1998 que, na medida de sua eficácia, passaria a ser repetida a cada quatro anos. Na impossibilidade de ampliar indefinidamente o Encontro, e para garantir dimensões sustentáveis em operacionalidade, seletividade acadêmica, qualidade dos debates e viabilidade material, a área se dotava de flexibilidade para abrir novas frentes e só manter ângulos estabelecidos quando estes consigam demonstrar ao Conselho sua relevância. No ano de uma reclivagem, todos os grupos cessam sua continuidade. Para serem reconduzidos devem ser repropostos e passar pelo crivo de uma seleção, juntamente com propostas novas. Obteve-se assim a garantia de uma dimensão compatível com a operacionalidade do rigor, ao mesmo tempo evitando uma cristalização que arriscaria estagnar a entidade. O fato de que desde então a reclivagem tenha entrado nos costumes da Compós evidencia a pertinência do processo. Na mesma regulamentação foi especificada a importância de que cada grupo deve interessar diretamente a vários programas de pós-graduação – assegurando assim o valor de intercâmbio que é uma das metas principais da Compós. Por isso mesmo os GTs, como ambiente de debate, ultrapassam as pesquisas individuais ou por tendência, repercutindo em atividades e articulações entre os diferentes PPGs de que participam os pesquisadores. O episódio e os processos estabelecidos de reclivagem periódica ilustram bem uma das dinâmicas da entidade. Algumas atividades desenvolvem procedimentos ad-hoc, na busca coletiva da eficácia. Quando os gestos são adequados a seus propósitos, a tendência é criar uma espécie de direito consuetudinário. Quando surgem tensões ou dilemas, a deliberação conjunta do Conselho formaliza um novo padrão normativo. Pluralismo - o processo decisório Essa mesma dinâmica agonística marca um processo decisório equilibrado entre os dois órgãos permanentes que conduzem as atividades sistemáticas da Compós – a Diretoria e o Conselho – assim constituídos desde a fundação. A palavra final é equilibradamente distribuída entre os Programas, por seus representantes, conforme a obtenção da maioria de votos. Uma característica que tem assegurado a flexibilidade democrática do Conselho é o fato, constatado, de que as maiorias
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se formam em torno das questões específicas em pauta – sem posições aprioristas. Isso parece assegurar decisões ponderadas e com boa pertinência para as questões encaminhadas e para as decisões em geral. Na fundação, o Conselho era composto por dois representantes de cada PPG. Com sete Programas (e, na década de 90, com um crescimento paulatino), dois representantes por PPG ofereciam uma diversidade necessária de reflexões e de posições, para obter boas deliberações. Com o crescimento exponencial do número de Programas, essa estrutura estatutária arriscava gerar um Conselho com dimensão excessiva, em que as deliberações se confundiriam no número de vozes e no surgimento de micro-diferenças. Além disso, o custo para o número crescente de participantes dificultava a operacionalidade do Conselho. Por proposta da diretoria (em junho de 2005) o Conselho deliberou por sua própria redução numérica, para um representante por PPG (modificação do art. 5º do Estatuto), retomando assim uma dimensão de eficácia. Este episódio mostra uma prática deliberativa freqüente: a manutenção de continuidade nos processos essenciais; com flexibilidade, entretanto, para fazer ajustes requeridos pela modificação das condições. A Diretoria A estrutura da Compós se organiza com base nos procedimentos articulados entre a ação deliberativa do Conselho e a ação executiva da Diretoria. Embora conduza as reuniões do Conselho, não tem direito a voto nas deliberações. Como a Diretoria é escolhida pelo Conselho, resulta naturalmente da confiança deste. A Diretoria é condensada e ágil – apenas três participantes (Presidente, VicePresidente, Secretário Geral). Sua articulação tem sido fundamental – as diretorias se evidenciam produtivas na medida mesmo de uma articulação mais que apenas formal entre seus componentes. Este é, também, um indicador de pluralidade: os diversos PPGs têm fornecido nomes para as diretorias. Nas ocasiões em que a apresentação de duas chapas levou a uma distinção entre eleitos e não eleitos, tanto a Diretoria como o Conselho absorveram a decisão sem formação de grupos clivados de modo apriorístico por essa distinção. Ao lado das funções político-operacionais, uma diversidade de ações se realiza, por iniciativa própria da Diretoria, por deliberação do Conselho, ou ainda por proposta de um ou mais PPGs. Para isso, são criados frequentemente grupos com atribuições específicas, articulados pela direção. A produtividade da entidade se amplia, com flexibilidade estrutural. Com base em procedimentos deste tipo foram realizados diversos Seminários Interprogramas, reunião de pequeno ou médio porte, assumida por
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um dos programas associados, para debate de temas de interesse geral da área. Até o momento foram realizados cinco Seminários Interprogramas. Para a divulgação de estudos, a Compós publica desde a criação um livro anual. Inicialmente, este resultava de uma seleção feita pelos próprios GTs, dentre os artigos debatidos no ano. Desde 2008, um tema geral, acolhido em Conselho, gera uma chamada de textos específicos para a publicação. O livro é organizado por uma Comissão Editorial ad-hoc, escolhida anualmente pelo próprio Conselho. No início dos anos 2000, no ambiente da Compós, debates sobre procedimentos de avaliação dos periódicos dos PPGs estimularam o intercâmbio e a busca de padrões de rigor editorial. Mais recentemente, a revista e-Compós, definida desde sua implantação como publicação na rede informatizada, tem se demarcado por sua qualidade, sua procura e sua relevância acadêmica, imediatamente acessível aos pesquisadores. Finalmente, e com particular relevância, a Diretoria representa a Compós perante outras instituições. É o instrumento fundamental para o objetivo estatutário de refletir e agir sobre políticas acadêmicas em que a Diretoria se desempenha com a autoridade de falar em nome de todos os Programas de PósGraduação da área, com a sustentação da base deliberativa que é o Conselho. Políticas acadêmicas para a área Dois ângulos se constituíram no ambiente de interação nucleado na entidade: a busca de políticas internas, entre PPGs, gerando linhas de ação transversal; e junto às agências de fomento. Em cada um dos dois ângulos, uma preocupação dupla – defender a área, reivindicando e obtendo apoio e qualificar a área por uma constante discussão de critérios de rigor, de auto-exigência, como consta, aliás, do Estatuto, desde a fundação. Estas duas ações se apóiam mutuamente. O diálogo com instituições afins estimula a participação da comunidade acadêmica nas políticas da área, com repercussões sobre suas atividades de intercâmbio. A Compós tem sido o ambiente natural para o debate das questões operacionais, normativas e reflexivas de articulação da área de conhecimento com as agências nacionais de fomento. No final dos anos 90, início dos anos 2000, desenvolveu-se uma forte articulação entre a Compós e a representação da área na CAPES. Sendo esta agência responsável pela avaliação dos programas de pósgraduação e pesquisa, a lógica básica da avaliação é a de inscrever nos padrões gerais da CAPES as perspectivas de cada área de conhecimento. O lugar de escolha para as consultas na constituição dos critérios de área é justamente o Conselho da Compós, que representa legítima e diretamente os programas. Mesmo quando as reuniões dos coordenadores e seus representantes não se caracterizam na forma de Reunião do Conselho, o fato de que sejam as mesmas pessoas, na mesma
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função de representação, com suas preocupações em comum, faz repercutir no ambiente deliberativo da entidade posturas e proposições decorrentes, assim como, inversamente, posições debatidas pelo Conselho se desenvolvem em iniciativas dos Programas junto às agências, estimulando sintonias transversais entre os PPGs. A presença articulada dos PPGs, na forma de deliberações democráticas e caracterizadoras das melhores reflexões e dos projetos de qualificação, caracteriza uma potencialidade de efetiva interlocução com as agências. Essa interlocução se manifesta tanto nas reivindicações da área, como na convergência com as agências na busca do aperfeiçoamento acadêmico e da pesquisa. O Encontro Anual – abrangência e especificidade No que se refere à produtividade acadêmica e a intensidade do intercâmbio, o processo nuclear da Compós é, desde o início, o Encontro Anual, congresso que tem reunido cerca de 120 artigos por ano, de pesquisadores da área, para apresentação e debate – 12 GTs com 10 participantes cada. Há previsão de passagem a 14 GTs, na reclivagem de 2010. A inevitável e necessária seletividade em tal processo não apenas assegura a presença dos textos com maior grau de prontidão, no momento da seleção, mas sobretudo funciona como constituição de um padrão crescente de rigor na produção dos estudos; e de aperfeiçoamento continuado das pesquisas, a partir do esquadrinhamento feito pelos pares no momento dos debates. Além disso, o funcionamento dos GTs tem demonstrado outras potencialidades. Embora alguns GTs se caracterizem por um perfil de especialidade em seus estudos, o que marca o processo de modo mais abrangente é a própria diversidade potencial de inscrição de sub-temas e de problematizações variadas dentro do ângulo principal de cada GT. O debate não se faz, assim, apenas entre especialistas que se entendem por meias palavras e que falam em radical sintonia. Em coerência com as características de uma área em construção continuada, a diversidade de ângulos específicos nos debates de um GT propicia a inscrição de cada trabalho em um âmbito no qual a pesquisa do autor individual encontra sempre a oferta de novas perspectivas e desafios. O encontro das variações não deixa espaço para a mera reafirmação de proposições – o desafio do “outro ângulo” é um estímulo para o aprofundamento e a revisão. Uma das grandes potencialidades do ambiente e da processualidade da Compós nestes 20 anos é certamente o intercâmbio da diversidade, sem redução apriorística de estímulos investigativos. O Encontro Anual põe em contato diferentes perspectivas e experiências que vicejam nas linhas de pesquisa e áreas de concentração dos programas.
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Isso permitiu também o encontro das semelhanças, das preocupações em comum, das perspectivas que podem entrar em sintonia. Melhor que isso, talvez: tem viabilizado a construção de semelhanças e a busca de sintonias. De alguns anos para cá, a partir do intercâmbio na Compós, nessa construção da sintonia, e do ambiente ampliado de intercâmbio entre programas de pesquisa no país, pesquisadores, estimulados para um aprofundamento da investigação entre especialistas, sentiram a necessidade de outro ambiente, em que desenvolveriam enfoques mais especializados. Surgem então variadas entidades especificamente constituídas em torno de objetos, temas e investigações focadas, em que as reuniões se fazem com tônica na proximidade maior de especializações. Esse novo ambiente de circulação e estudos compõe, juntamente com a Compós, um espaço relevante para a continuidade do desenvolvimento da área de conhecimento. As entidades especializadas oferecem um ambiente de aprofundamento, de elaboração de conceitos e métodos voltados para o rigor no tratamento de seus objetos específicos. É o lugar da constituição de objetos e tendências específicas. A Compós, como entidade abrangente, assegura o âmbito do trabalho de inscrição das especialidades na área de conhecimento, da realimentação mútua, do teste de segunda instância para as proposições, quando estas devem sair de seu ambiente de pares na mesma especialidade para entrar no tensionamento do “próximo”, das perspectivas em que o atrito é que permite o desenvolvimento. A vocação abrangente da Compós se manifesta, além da busca mesmo de ângulos diversos que constituem o campo da Comunicação (em suas possibilidades de diálogo interagente), também na abertura para perspectivas não diretamente geradas em PPGs. Desde o início, e mantido como abertura saudável, são aceitos textos de pesquisadores não pertencentes a um Programa de Pós-Graduação. Essa flexibilidade mantém uma porosidade com outros ambientes produtivos de conhecimento. No mesmo sentido, embora docentes de PPGs sejam necessariamente doutores, acolhe-se também artigos de mestrandos e doutorandos. Em qualquer dos casos, o critério claro de seleção é o da qualidade do texto e de sua prontidão para o debate. A participação nesse ambiente de abrangência e diversidade gera a percepção de que a diversidade não é “domável” por uma teoria unificadora, por teorias universalizantes excludentes. Daí decorre um estímulo para a diversidade da pesquisa, como espaço de produtividade e de reflexão coletiva sobre o campo, exigindo, entretanto, uma ampliação do diálogo entre posições diversas, para evitar a mera dispersão. A meta da Compós, aqui, não é buscar a explicação unificadora, mas investir em outras e outras perguntas, na manutenção produtiva de um lugar de agonística.
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Os desafios do futuro Os desafios, em sua caracterização geral, continuam inscritos nos objetivos assumidos desde a fundação da Compós. Entretanto, sua forma, sua processualidade e as estratégias requeridas para seu enfrentamento são constantemente renovadas. Tais mudanças decorrem de algumas dinâmicas que se manifestam em diferentes pontos de incidência. O mais evidente é talvez o da avaliação CAPES, que se põe crescentemente como um instrumento de política institucional nacional para o desenvolvimento da pesquisa no país, gerando critérios de qualificação e metas para ombreamento de nível internacional ascendente. O desafio é inicialmente dos programas, em seu perfil singular, mas pelo conjunto, se torna um desafio para a entidade representativa. O CNPq, na ação correlata dos apoios e requisitos qualificadores da pesquisa, faz complementar, em todos os objetivos da Compós, o requisito da articulação de processos entre programas. Outro lugar de ação com incidência direta sobre os processos da entidade é a dinâmica do próprio campo social da comunicação, que se reformula não apenas na proliferação de novas tecnologias, mas também e sobretudo nos processos de interação que acionam essas tecnologias, na invenção social de usos (positivos ou negativos, democratizantes, dispersivos ou concentradores) sempre a exigir novos olhares, outras teorizações, investigação empírica mais sofisticada; e portanto novas problematizações e melhor intercâmbio entre os pesquisadores e entre os programas. Finalmente, a própria área de conhecimento e pesquisa, nos PPGs, pela história mesmo de seus processos (da qual a história da Compós é um componente intrínseco e dinâmico), redesenha de modo constante sua visada, a partir dos atingimentos parciais, o que permite então antever outros ângulos antes não suspeitados, novos desafios dentro dos mesmos objetivos abrangentes. Um desafio, em especial, que se manifesta com clareza na metade da década é o avanço decorrente das entidades especializadas conforme temas, problemas, objetos de investigação e/ou bases teórico-metodológicas. Tal avanço demonstra a maturidade da área, na busca de interlocuções específicas. Correlatamente, devese buscar articulação e intercâmbios de natureza mais complexa que aqueles do momento da fundação. A Compós comporta um ângulo de aprofundamento, nos GTs, pelo encontro de uma diversidade relativa dentro do eixo que caracteriza cada Grupo. No conjunto, pela circulação entre grupos, pela repercussão de idéias e descobertas entre GTs, pela diversidade de ângulos e presença, a Compós assegura o âmbito mais geral da área de conhecimento, na qual todos os PPGs se reconhecem. É relevante, então, desenvolver articulações entre o campo de abrangência e os campos especializados. Sem os âmbitos de especialização não é mais possível constituir subáreas sólidas e bem fundamentadas. Sem o âmbito de abrangência, os enfoques de especificação arriscariam o isolamento e a tautologia.
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A História da Compós – lógicas e desafios

A Compós deve ser mais que o “lugar de encontro” da diversidade; deve buscar interlocuções, transversalidades e fecundação mútua entre subáreas. Esse desafio se duplica na necessidade, hoje fundamental, da busca de diálogo entre posições teóricas, adoções metodológicas, objetos preferenciais. Não para um embate excludente, em que cada posição, se pretendendo universalizante, busque excluir outras posições; nem para a aceitação indiferente de um relativismo fácil, mas para o tensionamento entre as vertentes, exigindo o desenvolvimento rigoroso das mais promissoras de compreensão e conhecimento. Em um primeiro momento, no contexto das origens da Compós, o intercâmbio necessário, dada a então escassez de diálogo institucional e o insuficiente ambiente comum a todos, era quase só o de se pôr em contato, o de gerar aproximação, o de conhecer o que os demais propunham. Que hoje a necessidade tenha se tornado mais complexa, menos previsível quanto aos processos requeridos, parece ser, na verdade, uma demonstração da boa perspectiva inicial, e do fato que esta fez caminho, produziu resultados e pede novos avanços.

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Antecedentes, tendências Comunicação

e

perspectivas

da

Pós-Graduação

em

Itania Maria Mota Gomes, Julio Pinto e Ana Carolina Escosteguy1

Introdução O sistema de Pós-Graduação organiza-se, no Brasil, nos anos 60. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 4.024/61, no art. 69, refere-se à PósGraduação com dois níveis, o dos cursos de pós-graduação, “abertos a matrícula de candidatos que hajam concluído o curso de graduação e obtido o respectivo diploma”, e o dos cursos de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão. Mas a regulamentação dos cursos de pós-graduação só viria com o Parecer nº 977/65, do Conselho Federal de Educação, aprovado em dezembro de 1965, com a Lei nº 5.540/68, a Lei de Reforma Universitária, de 28/11/1968, do Regime Militar, e com o Parecer nº 77/69, que estabelece as normas de funcionamento dos cursos de pós-graduação. Do ponto de vista normativo, o Parecer nº 977/65, do Conselho Federal de Educação, estabelece as bases do que ainda hoje caracteriza o Sistema Nacional de Pós-Graduação no Brasil. Ele ratifica a distinção entre a pós-graduação sensu stricto e as especializações, aperfeiçoamentos e demais, define a natureza da pós-graduação na sua estrita vinculação com a pesquisa científica e tecnológica e constrói as diretrizes para a organização dos cursos pós-graduados. Tomando o sistema estadunidense de estudos pós-graduados como referência, o Parecer nº 977/65 estabelece a pós-graduação em dois níveis, mestrado e doutorado, e justifica os motivos que requerem a sistematização da pós-graduação no Brasil: “1) formar professorado competente que possa atender à expansão quantitativa do nosso ensino superior garantindo, ao mesmo tempo, a elevação dos atuais níveis de qualidade; 2) estimular o desenvolvimento da pesquisa científica por meio da preparação adequada de pesquisadores; 3) assegurar o treinamento eficaz de técnicos e trabalhadores intelectuais do mais alto padrão para fazer face às necessidades do desenvolvimento nacional em todos os setores”2. A visão que se destaca do Parecer nº 977/65 é de que a pós-graduação stricto sensu realiza os fins essenciais da universidade, que abandona uma
1 Itania Maria Mota Gomes (http://lattes.cnpq.br/1249313747086140), Julio Pinto (http://lattes.cnpq. br/6119752221984025) e Ana Carolina Escosteguy (http://lattes.cnpq.br/9828116606137239) são, respectivamente, presidente, vice-presidente e secretária geral da COMPÓS, no biênio 2009/2011. Agradecemos o apoio da secretária –executiva da COMPÓS, Valéria Vilas Bôas, na coleta e organização de dados históricos e estatísticos que utilizamos aqui. 2 Ver Parecer CFE no 977/65, aprovado em 3 dez. 1965 in Revista Brasileira de Educação, nº30, Set /Out / Nov /Dez 2005, p.165.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

concepção essencialmente voltada ao ensino e à formação profissional para dedicar-se também à pesquisa científica e tecnológica. A pós-graduação aparece como condição mesma de consolidação do sistema universitário, visto que só ela poderia transformar a universidade num centro de pesquisa, ciência e cultura. A pós-graduação volta-se para estudos e pesquisas avançadas de modo regular e permanente, para a elaboração de novos conhecimentos e para a atividade de pesquisa científica e tecnológica inovadora. Mestrados e, em especial, doutorados são um grau acadêmico de alta competência científica em determinado ramo do conhecimento e visam objetivos essencialmente científicos. No sistema universitário, a pós-graduação aparecia como “uma superestrutura destinada à pesquisa, cuja meta seria o desenvolvimento da ciência e da cultura em geral, o treinamento de pesquisadores, tecnólogos e profissionais de alto nível” 3. A implantação sistemática dos cursos pós-graduados, a criação do ambiente e dos recursos adequados para o desenvolvimento da pesquisa científica e tecnológica passou a ser objetivo articulado ao espírito de modernização do Regime Militar e visava criar capacidade para formação dos cientistas e tecnólogos nas universidades brasileiras. Em que pesem as características da modernização pretendida pelos militares e as ações de restrição ao livre pensamento e à pesquisa durante a ditadura, o Sistema Nacional de Pós-Graduação consolidou-se: em 1965, quando da aprovação do Parecer nº 977/65, foram reconhecidos 11 cursos de doutorado; dez anos depois, o numero dos doutorados chegava a 149; vinte e três anos depois, em 1998, já existiam 782 programas de doutorado, um número mais de cinco vezes maior do que o de 1975. No período entre 1998 e 2008 ocorreu um crescimento de 68,8 por cento no numero total de doutorados4. Considerando dados de 2009, o Brasil tem 40 cursos de doutorado, 1.054 mestrados e 1.391 programas de pós-graduação (mestrado e doutorado), nas mais diversas áreas do conhecimento.

3 Ver Parecer CFE no 977/65, aprovado em 3 dez. 1965 in Revista Brasileira de Educação, nº30, Set /Out / Nov /Dez 2005, p.164 4 Doutores 2010: estudos da demografia da base técnico-científica brasileira, Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2010, p. 63.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Gráfico 1: Proporção entre mestrados, doutorados e programas de pós-graduação no Brasil
2% 0%

42%

Mestrado Mestrado/doutorado Doutorado

56%

Fonte: GEOCAPES, Programas de Pós-Graduação por Nível, 2009.

Na Sub-Área de Comunicação (Ciências Sociais Aplicadas I) a expansão se deu com outras características. Os primeiros mestrados em Comunicação no Brasil entraram em funcionamento no início da década de 70 e os doutorados são da década de 80 do século XX. Os dados da Avaliação Trienal 2010/CAPES mostram que a Comunicação tem hoje 39 Mestrados e Doutorados, sendo 24 Mestrados e 15 Programas de Mestrado e Doutorado, como mostra o quadro abaixo.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Quadro 1. Mestrados e Doutorados em Comunicação, por ano de criação e conceito na Avaliação da Capes5

Fonte: os autores, a partir de dados da CAPES e da COMPÓS
5 Este artigo foi finalizado em setembro de 2010 e, para fins de atribuição dos conceitos dos cursos strito sensu, toma como referência o Relatório de Divulgação dos Resultados da Avaliação Trienal 2010, publicado pela Capes em 14 de setembro de 2010. Como o calendário de avaliação prevê um prazo de 30 dias para os pedidos de reconsideração sobre a Avaliação Trienal, pode haver alguma alteração nos dados até o final de outubro. Para dados atualizados, após esse período, consultar o site da Capes http://www.capes.gov.br. * O Programa de PósGraduação em Comunicação da Universidade de Marília recebeu conceito 3 na Avaliação Trienal 2007, mas foi descredenciado pela Capes na divulgação da Avaliação Trienal 2010. Como ainda cabem recursos, adotamos o procedimento de manter o Mestrado da Unimar no quadro, com o conceito em aberto.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

No final do século XX, existiam 15 Mestrados e Doutorados, sendo sete Mestrados e oito Programas de Mestrado e Doutorado em Comunicação. Entre 2000 e 2010, 18 Mestrados e seis Programas de Mestrado e Doutorado foram criados. Os dados mostram que, nesse período, a área cresceu 260 por cento em termos de oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu. A área da Comunicação formou 4.991 mestres e 1.719 doutores nos últimos 14 anos6, num total de 6.710 pesquisadores. Se considerarmos que, em 1996, os PPGs em Comunicação formaram 146 mestres e 54 doutores e que, em 2009, esses números foram de 506 mestres e 122 doutores, temos uma evolução de 346,7 por cento na capacidade de formação de mestres e de 225,9 por cento na capacidade de formação de doutores na área. Em média, hoje, 141 doutores e 439 mestres são formados por ano7. Em relação ao corpo docente, em 2009, os PGGS em Comunicação envolviam 537 professores, sendo 429 professores permanentes e 108 colaboradores e visitantes. Na Avaliação Trienal 2007 (dados de 2004, 2005 e 2006), o número total de docentes era de 384 – 304 permanentes e 80 colaboradores e visitantes. Houve um crescimento de 39,8% em relação ao total de docentes. Por categoria, a evolução foi de 70,8 para os permanentes e de 35% em relação aos colaboradores e visitantes. A proporção de número de titulados versus número de docentes, em termos globais8, em dados de 2009, é de 1,17 mestre ou doutor formado por professor. Apesar do crescimento na oferta de cursos de pós-graduação, na quantidade de docentes envolvidos e na quantidade de mestres e doutores titulados, porém, permanecem nossos problemas relativos à internacionalização e às assimetrias regionais. Do ponto de vista das assimetrias regionais, verifica-se um “desequilíbrio dos programas por região do país. Com efeito, dos 39 Programas existentes atualmente no Campo da Comunicação, 21 estão localizados na região Sudeste (53,8%), sendo que, destes, 14 (35,8%) no Estado de São Paulo; oito (20,5%), na região Sul; 5 (12, 8%), na região Nordeste; três (7,6%), na região Centro-Oeste e dois (5, 12%), na região Norte”9. Dos doutorados, apenas dois estão localizados no Nordeste. Não há doutorado em Comunicação na região Norte. Além dos desequilíbrios regionais, intra-regionais e entre estados, há ainda o desequilíbrio em relação à presença da pós-graduação nos municípios brasileiros: dos 39
6 CAPES, Relatório de Avaliação 2007/2009, sub-área Ciências Sociais Aplicada I, p. 47. O documento considera dados a partir de 1996. 7 Consideramos a média de titulação dos anos de 2007 (389 mestres; 165 doutores), 2008 ( 422 mestres; 136 doutores) e 2009 ( 506 mestres; 122 doutores). 8 Para o cálculo, consideramos a totalidade de mestres e doutores titulados, 628, versus todos os 537 docentes, independentemente da categoria. 9 CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas I, 2009, p. 2.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Mestrados e Doutorados, 27, - quase 70% do total - estão nas capitais brasileiras. Apenas quatro cidades não-capitais possuem doutorados em Comunicação. São elas: São Bernardo do Campo e Campinas, no Estado de São Paulo, Niterói, no Rio de Janeiro e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.
Gráfico 2: Distribuição de Mestrados e Doutorados em Comunicação, por Região geográfica
5,12% 7,60% Sudeste 12,80% 53,80% 20,50% Sul Nordeste Centro-Oeste Norte

Fonte: CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas I, 2009.

Do ponto de vista da inserção internacional, é notável o fato de que, embora seus primeiros mestrados e doutorados datem da década de 70 do século XX, apenas um dos programas de pós-graduação em Comunicação conseguiu atingir a nota 6 no sistema de avaliação da pós-graduação. Trata-se do Programa de PósGraduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que ocorreu na Avaliação Trienal 2010. Ainda que as notas 6 e 7 não sejam exclusivamente vinculadas à internacionalização – outros critérios são levados em conta - o entendimento da área e da Capes parece ser esse: no Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas I, 2009, no item “V – Considerações e definições sobre atribuição de notas 6 e 7 – inserção internacional”, p. 27, requer-se dos programas que apresentem desempenho equivalente aos dos centros internacionais de excelência na área, desempenho avaliado a partir de aspectos tais como publicação docente internacional, acordos de cooperação, pós-doutoramentos, entre outros. Nesse aspecto, a internacionalização está na agenda da maior parte dos cursos da área. É no interior do Sistema Nacional de Pós-Graduação que ocorre a atividade
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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

da pesquisa científica e tecnológica brasileira de alto nível10. Se for tomado como marco o Parecer nº 977/65, veremos que a estreita vinculação entre a pesquisa científica e tecnológica e a pós-graduação caracterizam a pós-graduação stricto sensu no Brasil desde seu começo, apresentando-se como diretriz fundamental para a formulação de políticas públicas de ensino e pesquisa, para a legislação, para o sistema de avaliação de cursos de pós-graduação e instituições de ensino superior nos últimos 45 anos. Em Comunicação, os resultados alcançados evidenciam que uma política deliberada e consistente de consolidação da pósgraduação, por parte dos Ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia e das agências de fomento, recebeu decidido engajamento da área, através dos seus programas de pós-graduação. A Comunicação participa e tem liderado os esforços da área de Ciências Sociais Aplicadas I na consolidação do Sistema Nacional de Pós-Graduação. A área tem considerável experiência na institucionalização dos critérios, parâmetros e princípios empregados pelas suas subcomissões na avaliação dos cursos11. Desde 1996, a área realiza reuniões sistemáticas, com periodicidade semestral ou sempre que haja necessidade, entre os coordenadores de programas de pósgraduação, liderados pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, a COMPÓS, fundada em 199112, e os coordenadores de área na CAPES, para definir os princípios, diretrizes, critérios e procedimentos da avaliação. No mesmo sentido, as reuniões do Conselho Geral da COMPÓS, realizadas em três períodos do ano, contam regularmente com a presença dos representantes do Comitê Assessor - Artes, Ciência da Informação e Comunicação/CNPq (CA). Em várias oportunidades, a COMPÓS realizou reuniões conjuntas entre os coordenadores dos programas de pós-graduação, os representantes no CA e diretores e pessoal técnico-administrativo do CNPq. A última dessas reuniões foi realizada em abril de 2010. Nessas reuniões, CNPq e os programas de pósgraduação da comunicação discutem as políticas, diretrizes, procedimentos e critérios de julgamento do CNPq para a Ciência, Tecnologia e Inovação, no que se refere à Comunicação. Nesses seus quase 20 anos de existência, registra-se grande colaboração entre a COMPÓS e órgãos do governo Federal na construção de parâmetros de avaliação de programas, de produção, na colaboração com os representantes
10 CAPES, Plano Nacional de Pós-Graduação 2005-2010. 11 CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas, 2009. 12 Em setembro de 2010, são 37 os programas de pós-graduação em Comunicação filiados à COMPÓS. Apenas não estão filiados à COMPÓS, dado serem recentes, os dois últimos mestrados aprovados pela CAPES, o de Comunicação da Universidade Federal do Paraná, aprovado no final de 2009, e o de Comunicação, Cultura e Amazônia, da Universidade Federal do Pará, aprovado neste ano de 2010. Para uma relação dos PPGs filiados à COMPÓS, com informações sobre seus endereços, sites, áreas de concentração e linhas de pesquisa, ver www. compos.org.br

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

de área, na elaboração e aprovação de tabelas das Áreas de Conhecimento. Essa colaboração está registrada nas atas de reuniões do Conselho Geral da COMPÓS, através dos informes dos representantes de área e das discussões de temas propostas pelo Conselho. As reuniões com o CNPq e a CAPES são fundamentais para a construção coletiva do campo da Comunicação. A vinculação entre a pesquisa científica e tecnológica e a pós-graduação se evidencia através das áreas de concentração, das linhas e grupos de pesquisa dos PPGs e dos Grupos de Trabalho da COMPÓS. Uma análise dos modelos de organização e das áreas de concentração e linhas de pesquisa, tomando por base as informações constantes nos sites dos PPGs em setembro de 2010, evidencia algumas características da pós-graduação em Comunicação no país. O Brasil tem adotado os grupos de pesquisa como um espaço privilegiado para a formação de mestres e doutores, para a realização da pesquisa científica e tecnológica de excelência e para a inovação. Os grupos de pesquisa, vinculados aos projetos de pesquisa docente, às linhas de pesquisa e áreas de concentração dos PPGs reúnem todos os docentes, doutorandos e mestrandos a eles vinculados, além de bolsistas de Iniciação Científica e alunos da graduação em realização de trabalho final de curso relacionado aos objetos de investigação dos grupos, um aspecto que favorece a formação para a pesquisa e a integração entre graduação e pós-graduação. A integração entre pós-graduação e graduação tem aparecido como altamente benéfico para ambos os níveis de formação pós-graduada. Dos PPGs em Comunicação atualmente existentes, apenas um não é vinculado a Cursos de Graduação, o Programa de Pós-Graduação em Multimeios, da Universidade de Campinas. O Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas, 2009, pactuado entre a CAPES e os coordenadores dos programas de pós-graduação em Comunicação, explicitamente valoriza a integração entre a graduação e a pós-graduação como meio de favorecer a formação de jovens pesquisadores e de profissionais mais qualificados. A COMPÓS, em documento enviado a CAPES como subsídio para a elaboração do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011/2020, reforçou o papel da iniciação científica e dos trabalhos de conclusão de curso na formação de pesquisador e recomendou a atribuição de créditos às atividades que resultem em produção científica ou tecnológica e a manutenção da possibilidade de realização dos Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCCs) em modalidades de monografias e trabalhos laboratoriais de pesquisa vinculados à pesquisa científica e tecnológica e à inovação realizada no âmbito dos cursos de pós-graduação. Um diagnóstico da sub-área de Comunicação, a partir da análise das áreas de concentração e das linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação permite traçar algumas tendências. Como se pode observar no Quadro 2, abaixo, as áreas de concentração configuram-se, inicialmente, em áreas bastante abrangentes e
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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

enfatizam as relações entre Comunicação e Cultura, Comunicação e Sociedade, Comunicação e Linguagens, Comunicação e Tecnologia. Por muitos anos, apenas o Programa de Pós-Graduação em Multimeios, da Unicamp, tinha sua área de concentração voltada para as especificidades do cinema e da fotografia. Mais recentemente, começam a surgir PPGs com áreas de concentração mais específicas, como o de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Catarina, o de Comunicação Visual, da Universidade Estadual de Londrina, ou o de Imagem e Som, da Universidade Federal de São Carlos, só para citar alguns. Quanto às linhas de pesquisa, elas se organizam em torno das interfaces da Comunicação com áreas mais definidas como Semiótica, com esferas mais abrangentes como cultura e sociedade, em torno de processos, sobretudo, aqueles vinculados aos meios de Comunicação/mídia, considerando aí a existência de práticas específicas ou então em torno de meios e produtos.
Quadro 2. Áreas de Concentração e Linhas de pesquisa dos Mestrados e Doutorados em Comunicacão IES PUC/SP UFRJ USP CURSO
COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA COMUNICAÇÃO CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

Áreas de Concentração
Signo e Significação nas Mídias Comunicação e Cultura - Teoria e Pesquisa em Comunicação - Estudo dos Meios e da Produção Mediática - Interfaces Sociais da Comunicação

Linhas de Pesquisa
- Cultura e Ambientes Midiáticos - Processos de Criação nas Mídias - Análise das Mídias - Mídia e Mediações Socioculturais - Tecnologias da Comunicação e Estéticas - Comunicação e Cultura - Comunicação Impressa e Audiovisual - Educomunicação - Epistemologia, Teoria e Metodologia da Comunicação - Estética e História da Comunicação - Linguagem e Produção de Sentido em Comunicação - Políticas e Estratégias de Comunicação - Técnicas e Poéticas da Comunicação - Tecnologias da Comunicação e Redes Interativas

UNB

COMUNICAÇÃO

Comunicação e Sociedade

- Jornalismo e Sociedade - Políticas de Comunicação e de Cultura - Teorias e Tecnologias da Comunicação - Imagem e Som - Processos Comunicacionais Midiáticos - Processos de Comunicação Institucional e Mercadológica - Processos da Comunicação Científica e Tecnológica 71

UMESP

C O M U N I C A Ç Ã O Comunicação e Sociedade SOCIAL

Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UNICAMP UFBA

MULTIMEIOS COMUNICAÇÃO E CULTURA CONTEMPORÂNEA COMUNICAÇÃO SOCIAL

--Comunicação e Cultura Contemporânea Práticas e culturas da comunicação

- História, estética e domínios de aplicação do cinema e da fotografia - Análise de Produtos e Linguagens da Cultura Mediática - Cibercultura - Comunicação e Política - Práticas culturais nas mídias, comportamentos e imaginários da sociedade da comunicação - Práticas profissionais e processos sociopolíticos nas mídias e na comunicação das organizações

PUC/RS

UNISINOS

CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

Processos Midiáticos

- Mídias e Processos Audiovisuais - Linguagem e Práticas Jornalísticas - Cultura, Cidadania e Tecnologias da Comunicação - Midiatização e Processos Sociais

UFMG

COMUNICAÇÃO SOCIAL COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO

Comunicação e sociabilidade contemporânea Comunicação e Informação

- Processos comunicativos e práticas sociais - Meios e produtos da comunicação - Informação, Redes Sociais e Tecnologias - Jornalismo e Processos Editoriais - Linguagem e Culturas da Imagem - Mediações e Representações Culturais e Políticas

UFRGS

UFF

COMUNICAÇÃO

Comunicação

- Comunicação e Mediações - Tecnologias da Comunicação e da Informação - Análise da Imagem e do Som

UNIMAR UNIP

COMUNICAÇÃO COMUNICAÇÃO

Mídia e Cultura Comunicação e Cultura Midiática

- Ficção na mídia - Produção e Recepção da Mídia - Configuração de Linguagens e Produtos Audiovisuais na Cultura Midiática - Contribuições da Mídia para a Interação em Grupos Sociais

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UTP

COMUNICAÇÃO E LINGUAGENS COMUNICAÇÃO

Processos Comunicacionais Comunicação

- Estratégias Midiáticas e Práticas Comunicacionais - Estudos de Cinema - Linguagem dos Meios - Mídias e Processos Sociais - Estética e Cultura Midiática

UFPE

U N E S P / COMUNICAÇÃO BAU

Comunicação Midiática

- Processos Midiáticos e Práticas Socioculturais - Produção de Sentido na Comunicação Midiática - Gestão e Políticas da Informação e da Comunicação Midiática

UERJ

COMUNICAÇÃO

Comunicação Social

- Cultura de Massa, Cidade e Representação Social - Tecnologias de Comunicação e Cultura - Cultura de massa e representações sociais - Cultura de massa e práticas sociais - Processos Midiáticos: Tecnologia e Mercado - Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento

PUC-RIO

COMUNICAÇÃO

Comunicação Social

FACASPER

COMUNICAÇÃO

Comunicação na Contemporaneidade

UFSM ESPM

COMUNICAÇÃO COMUNICAÇÃO E PRÁTICAS DE CONSUMO

Comunicação Midiática Comunicação

- Mídia e Identidades Contemporâneas - Mídia e Estratégias Comunicacionais - Impactos socioculturais da comunicação orientada para o mercado - Estratégias de comunicação e produção de mensagens midiáticas voltadas às práticas de consumo

UNISO

COMUNICAÇÃO E CULTURA COMUNICAÇÃO

Comunicação e Cultura Comunicação Contemporânea

- Teorias da comunicação e da cultura - Análise de processos e produtos mediáticos - Análises em Imagem e Som - Mediação, tecnologia e processos sociais. - Linguagem e mediação sociotécnica

UAM

PUC/MG UFJF UFG

COMUNICAÇÃO SOCIAL COMUNICAÇÃO COMUNICAÇÃO

Interações Midiáticas - Midiatização e processos de interação Comunicação e Sociedade Comunicação, cultura e cidadania - Tecnologias da Comunicação - Comunicação e Identidades - Mídia e cidadania - Mídia e cultura 73

Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UFSC UEL UFSCAR UCB

JORNALISMO COMUNICAÇÃO IMAGEM E SOM COMUNICAÇÃO

Jornalismo Comunicação Visual Imagem e Som Processos Comunicacionais

- Processos e produtos jornalísticos - Fundamentos do Jornalismo - Imagem e mídia - Linguagens e poéticas fotográficas - Narrativa Audiovisual - História e Políticas do Audiovisual - Processos Comunicacionais na Cultura Mediática - Processos Comunicacionais nas Organizações

UFPB

COMUNICAÇÃO E CULTURAS MIDIÁTICAS COMUNICAÇÃO CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO COMUNICAÇÃO

Comunicação e Culturas Midiáticas Comunicação e Linguagens Ecossistemas comunicacionais Comunicação, Inovação e Comunidades Comunicação Midiática: Práticas Sociais e de Sentido Meios e Processos Audiovisuais Comunicação e Sociedade

- Mídia e Cotidiano - Culturas Midiáticas Audiovisuais - Fotografia e Audiovisual; - Mídia e Práticas Sócio-Culturais. - Ambientes comunicacionais midiáticos - Processos informacionais científicos - Transformações Comunicacionais e Comunidades - Inovações na Linguagem e na Cultura Midiática - Estudos de Mídia e Práticas Sociais; - Estudos de Mídia e Produção de Sentido. - História, teoria e crítica - Poéticas e Técnicas - Práticas de Cultura Audiovisual - Comunicação, educação e formações socioculturais - Comunicação, política e atores

UFC UFAM USCS

UFRN

ESTUDOS DA MÍDIA MEIOS E PROCESSOS AUDIOVISUAIS COMUNICAÇÃO

USP

UFPR

UFPA

COMUNICAÇÃO, CULTURA E AMAZÔNIA Fonte: sites dos PPGs em Comunicação, em setembro de 2010

Os Grupos de Trabalho (GTs) são o principal mecanismo para viabilizar o trabalho científico da COMPÓS. Através dos GTs busca-se o intercâmbio entre os pesquisadores e os programas de pós-graduação associados, criando-se redes de interesse acadêmico comum que atravessam as diversas instituições participantes. Desse modo, a COMPÓS estimula a ampliação das estruturas de pesquisa no país
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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

e a superação do isolamento dos pesquisadores e grupos de pesquisa. O objetivo dos Grupos de Trabalho da COMPÓS é oferecer um espaço de interlocução científica no qual o debate sobre os resultados das pesquisas de seus participantes resulte em estímulo para o desenvolvimento da reflexão. A instância principal dos procedimentos do GT, em busca da realização qualitativa deste objetivo, é o debate realizado anualmente entre os participantes. Os critérios para criação, funcionamento e avaliação dos GTs partem de premissas sugeridas pela história da Associação, pelas práticas de funcionamento dos Grupos, pelas decisões do Conselho Geral da COMPÓS e pelo processo de discussão permanentemente mantido pela entidade no sentido de assegurar a manutenção de procedimentos que têm demonstrado serem produtivos para o bom atendimento dos objetivos da COMPÓS e alcançar a flexibilidade necessária para responder aos novos problemas teórico-práticos e a uma renovação continuada de métodos de trabalho, de temas abordados e de clivagens de nosso campo de estudo. Podem participar dos GTs os estudiosos e pesquisadores interessados no desenvolvimento da pesquisa em Comunicação, quer pertençam ou não ao quadro docente de um dos programas associados, podendo enviar textos a quaisquer dos GTs, buscando espaço para sua discussão no Encontro Anual da COMPÓS. Os textos selecionados para discussão levam em conta o atendimento de, pelo menos, três critérios: a) qualidade das reflexões apresentadas no texto; b) relevância de sua contribuição para a área; c) pertinência à área temática definida pela ementa do GT. Os Grupos de Trabalho da COMPÓS abrangem uma área temática indicada pela sua denominação e os encontros dos GTs se caracterizam, essencialmente, como reuniões de trabalho científico em que se busca implementar uma reflexão conjunta indispensável para o progresso da pesquisa na área. A dinâmica de funcionamento dos GTs consiste na apresentação e discussão de um conjunto de trabalhos científicos, selecionados pelo coordenador do GT e por ao menos dois pareceristas que não apresentem trabalhos e distribuídos para leitura prévia entre os participantes. Cada texto é relatado por um participante do grupo. Os relatos constituem-se em peças de crítica e de estímulo ao debate. Eles não se caracterizam como simples resenhas dos textos, mas devem assinalar as contribuições a serem aprofundadas, apontar objeções que solicitem respostas, levantar os melhores ângulos de leitura, sugerir desenvolvimentos, repensar aplicabilidades, evidenciar premissas não explicitadas, indicar conseqüências da linha de reflexão adotada, comentar estruturas, debater as construções metodológicas, e tudo o mais que se veja pertinente enquanto trabalho acadêmico sobre o texto relatado. A perspectiva de trabalho coletivo pretende superar, nesta estrutura específica dos GTs, um modelo que enfatizaria a simples apresentação e divulgação de
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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

resultados ou sessões didáticas de proposição/escuta. De modo a garantir o tempo adequado para as discussões, cada GT seleciona um máximo de dez textos para discussão, podendo aprovar um número menor de textos. Não deverão ser agregados textos apenas para fazer número e que não atendam os critérios. Os Grupos de Trabalho da COMPÓS passam por um processo de reclivagem a cada quatro anos. A proposição de novo GT deve atender aos critérios de inovação (um GT deve buscar a construção de espaços de interlocução não redundantes com aqueles já oferecidos pelos grupos existentes no momento da proposta, bem como refletir novos temas emergentes na área); de interlocução (deve ser capaz de refletir e estimular as potencialidades de interlocução entre grupos de pesquisa, linhas de pesquisa e programa de pós-graduação da área de comunicação); de pertinência em relação à COMPÓS (deve apresentar coerência com os processos de trabalhos e com a abrangência de objetivos da Associação); e adequação da estrutura em relação aos objetivos da COMPÓS (deve explicitar a adequação dos objetivos e atividades dos proponentes às condições de funcionamento dos GTs, de maneira a assegurar que o perfil de funcionamento dos GTs de fato ofereça ambiente adequado e estimulante para o desenvolvimento da interlocução e da pesquisa científica. O Quadro 3 apresenta os 15 GTs atualmente em funcionamento na COMPÓS, com seus títulos e ementas. Aprovados na reunião do Conselho Geral da COMPÓS em 11 de junho de 2010, eles funcionarão até o Encontro Anual de 2014, quando todos serão extintos e um novo processo de reclivagem acontecerá.
Quadro 3: Títulos e Ementas dos Grupos de Trabalho da Compós, 2011/2014 Grupos de Trabalho Comunicação e Cibercultura Ementas
O GT Comunicação e Cibercultura tem por objetivo debater trabalhos na intersecção da comunicação e da cibercultura. Por cibercultura compreendemse as relações emergentes entre as tecnologias de comunicação e informação (TICs) e a cultura contemporânea. Busca-se, assim, entender o papel das TICs em interface com os problemas da comunicação sob diversas perspectivas (histórica, sociológica, filosófica, política, estética, imaginária, material, etc.). Aspectos teóricos e metodológicos de experiências e práticas comunicacionais e mediáticas relacionados às esferas das cidadanias econômica, sociopolítica, cultural, intercultural, transnacional, global e socioambiental e de uma cidadania comunicativa. Estudo das articulações entre comunicação, cidadania e cultura nos campos da comunicação mediada e não mediada. Processos comunicacionais no âmbito das culturas populares, dos movimentos sociais, comunitários, populares e sindicais no marco de uma pedagogia da comunicação. Pesquisas sobre apropriações e os usos das tecnologias da comunicação por redes de movimentos comunitários e sociais que envolvam práticas cidadãs relacionadas a dimensões sócio-identitárias como classe social, gênero, etnia, religiosidade.

Comunicação e Cidadania

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Comunicação e Cultura

Comunicação, cultura e história: os meios de comunicação e as culturas em diferentes configurações históricas. Ecologia da comunicação: cenários da cultura da comunicação; ação integradora e efeitos culturais das práticas midiáticas. As questões da imagem e seus desdobramentos: imaginário cultural e cultura da imagem. Articulação entre corpo, texto e imagem, crises e tensões. As representações culturais da visualidade, da oralidade, da audibilidade, da gestualidade e dos territórios simbólicos em sua relação com as diferentes mídias. Cultura, memória e registro. Paradigmas, teorias e autores para uma reflexão acerca da relação entre comunicação e cultura. Teorias da comunicação, da cultura e suas interfaces. O GT busca apontar caminhos na interseção entre os fenômenos comunicacionais e as teorias estéticas, contribuindo para a reflexão e a crítica das manifestações expressivas, tanto em trabalhos teóricos quanto analíticos. Busca compreender questões vinculadas à dimensão estética dos processos comunicacionais e dos produtos da cultura contemporânea (na medida em que impliquem a dimensão ativa da sensibilidade) e ainda aos aspectos teóricometodológicos da apreensão da experiência estética nas práticas internacionais. Abrange estudos sobre comunicação e política desenvolvidos a partir de fenômenos, linguagens, discursos e instituições em perspectiva histórica. Os eixos temáticos desse Grupo de Trabalho privilegiam a comunicação política; mídia e democracia; teorias políticas e o campo da comunicação; regimes políticos e relações com os meios de comunicação; opinião pública; propaganda política; o espaço da política nos meios de comunicação; a política contemporânea e as novas mídias. Estudo relacional dos fenômenos comunicativos e dos processos sociais, buscando identificar uma problemática específica da comunicação em diversos contextos socioculturais e políticos. No âmbito desta preocupação, destacamos como alvo privilegiado de análise: a) os modos de subjetivação em jogo nas práticas comunicativas; b) as sociabilidades e as configurações subjetivas implicadas na produção midiática e os modos e efeitos de apropriação dessa produção; c) a experiência urbana como lugar de emergência de práticas comunicativas e de subjetivação. Os processos de mediação e significação em contextos organizacionais. Os sistemas, processos, estruturas e meios de comunicação das e nas organizações públicas e privadas. A construção de sentidos no contexto organizacional. As relações político-comunicacionais entre indivíduos, organizações e sociedades. As dimensões da imagem, da cultura e da identidade. As organizações inseridas como atores políticos nas redes sociais contemporâneas. As relações entre a comunicação e as transformações nas relações de trabalho. Os movimentos em torno da legitimação de novas idéias e valores. A comunicação estratégica. Os estudos sobre opinião pública, opinião de públicos e formação da imagem pública. Os processos comunicacionais no branding, nas marcas e nas dinâmicas do consumo. Os conflitos e as disputas em torno de discursos e representações organizacionais.

Comunicação e Experiência Estética

Comunicação e Política

Comunicação e Sociabilidade

Comunicação em Contextos Organizacionais

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Cultura das Mídias

Estudo de produtos e de processos culturais em suas relações com as esferas tecnológicas, sociais, econômicas e históricas. Representações e identidades na cultura das mídias e seus múltiplos atravessamentos. A comunicação como prática social; as figurações emergentes na cultura tradicionalmente chamada "de massa". Mídia e questões de enunciação: narrativa e discurso. Gostos, repertórios estéticos e cultura midiática: crítica e valor. Cosmopolitismos, culturas nacionais, culturas locais. Traduções interculturais. Disputas e tensões nos processos de construção de hegemonia e controle social. Cultura pública e políticas culturais. Busca de novas metodologias, a partir de perspectivas teórico-críticas transdicisplinares, em face a contextos comunicacionais liminares. O GT se propõe a estudar a definição do objeto e características da Comunicação e de seu conhecimento científico. Para tanto, podem ser debatidas propostas de correntes teóricas, seus principais idealizadores, respectivas linguagens e metodologias, suas inter-relações com os campos do saber, mantida a centralidade da comunicação, além de relatos e resultados de experimentações empírico-analíticas. Propõe-se também a acolher avaliações epistemológico-teórico-metodológicas de pesquisas empíricas relatadas pela área de conhecimento; análises epistemológicas de pesquisas em andamento; e observações críticas sobre os processos de investigação nos estudos da Comunicação. O GT poderá contribuir, também, para a caracterização de paradigmas em desenvolvimento, eventualmente confrontando-os com as bases originais da comunicação como área científica. De uma perspectiva crítica e analítica, o GT busca aprofundar o estudo do jornalismo como um campo do conhecimento, destacando abordagens relativas à função social, à história, aos conceitos, aos modelos, às teorias e à epistemologia do jornalismo. Da mesma forma, visando problematizar e discutir o jornalismo em seus distintos modos de estruturação, apuração, produção, circulação, recepção e consumo, este GT também se interessa por estudos que abordam as teorias da linguagem, os métodos de pesquisa, as metodologias de ensino, os impactos das tecnologias e as tendências que orientam a práxis jornalística nas sociedades contemporâneas. O GT Estudos de televisão reunirá pesquisas que tenham por objeto a televisão e seus produtos, considerados em sua complexidade e especificidade. Reúne reflexões sobre aspectos econômicos, institucionais e tecnológicos; sobre os contextos de produção, criação, fruição e recepção; sobre as dimensões discursivas, informativas, pedagógicas, políticas, culturais e estéticas dos programas, gêneros e formatos examinados. O GT apresenta-se como fórum acadêmico de fomento, de convergência e de diálogo crítico de trabalhos de diferentes vertentes que tratam de questões teóricas que buscam aprimorar os aparatos metodológicos de análise dos fenômenos televisivos.

Epistemologia da Comunicação

Estudos de Jornalismo

Estudos de Televisão

Investigações e análises teóricas, históricas e estéticas acerca do cinema e da Estudos de cinema, fotografia e audiovisual fotografia, nas suas especificidades, expansões, hibridismos e desdobramentos, considerados como traços fundamentais do audiovisual e para compreensão da cultura e da sociedade contemporâneas. As dinâmicas postas em circulação pelo cinema, pela fotografia e pelo audiovisual no campo da comunicação, bem como sua contribuição às práticas sociais, culturais e artísticas.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Imagem e Imaginários Midiáticos

Análises sobre teorias da imagem e/ou do imaginário. Reflexões sobre imagem e/ou imaginário em seus diversos desdobramentos, seja em peças publicitárias, em imagem empresarial e mercadológica, em fotografia, e em representações no cinema, televisão e vídeo. Diálogos entre o imaginário midiático e outros imaginários da cultura (mítico, tecnológico, artístico, religioso). Considerações sobre imagens híbridas e/ou imaginários contemporâneos, em suas implicações sociais, históricas e construturais. O GT investiga os diversos fenômenos de comunicação como práticas interativas, considerando a linguagem, a partir dos seus usos e determinações, bem como de suas éticas e estéticas correspondentes, como instância privilegiada de análise. Com esse escopo investigativo, pretende: 1) realizar um mapeamento das várias contribuições teóricas e metodológicas que têm permitido ao campo da comunicação avançar na descrição e análise de processos e procedimentos de linguagens nas mídias, contribuindo para a descrição dos modos de funcionamento dos textos nos meios impresso, eletrônico, digital; 2) analisar as transformações da linguagem e a emergência de novas formas técnico-expressivas a partir da convergência dos meios; 3) inventariar os tipos de processos interacionais postos em cena nas distintas produções e objetos midiáticos, bem como seus modos de articulação de sentido; 4) desenvolver uma reflexão sobre os modos de circulação, vinculação e compartilhamento do conhecimento, das relações sociais e dos afetos nas práticas midiáticas. Análise dos processos e estratégias que envolvem a relação da sociedade com os meios de comunicação, tendo como objeto de estudos a instância da recepção e seu trabalho de interpretação, uso e consumo midiáticos. As referências conceituais e empíricas do trabalho deste GT incluem e enfatizam as novas “arquiteturas de processos comunicacionais” que reconfiguram a existência da recepção e os modos de funcionamento de suas práticas. Elegendo a pesquisa interdisciplinar em diferentes dimensões (teóricas, epistemológicas e metodológicas), pretende-se estudar as dinâmicas e operações tecno-sóciosimbólicas que organizam as formas de interação entre produtores e receptores da comunicação midiática, do ponto de vista dos sujeitos. Ao priorizar tais angulações, o GT em proposição enfatiza a importância da recepção como instância produtiva, geradora de novos ‘produtos’, de práticas sócio-simbólicas e de formas de saber derivadas das estratégias desenvolvidas pelos atores, em situação de interação com as mídias.

Práticas interacionais e linguagens na comunicação

Recepção, Usos e Consumo Midiáticos

A análise dos antecedentes históricos e das tendências da pós-graduação em Comunicação evidencia que a área se consolida em consonância com o Sistema Nacional de Pós-Graduação, mas estabelecendo seus próprios rumos. Na sub-área, a pós-graduação se realiza na estrita vinculação com a pesquisa científica e tecnológica e com a inovação, vinculação que constrói as diretrizes para a organização dos cursos pós-graduados e que se apresenta como condição fundamental de fortalecimento do sistema universitário.

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CAPÍTULO 5 Breve relato sobre a fundação da SOCINE
Fernão Pessoa Ramos1

A ata de fundação da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (SOCINE) data de 14 de novembro de 1996. Sua primeira diretoria, eleita pelos presentes, foi composta por Fernão Pessoa Ramos (presidente), Maria Dora Mourão (vice), Afrânio Catani (secretário) e Luiz Felipe Miranda (tesoureiro). O documento que detona a articulação da SOCINE intitula-se Carta de Salvador. Foi escrito e distribuído dois meses antes de sua fundação, durante o tradicional festival de cinema ‘Jornada de Salvador’. Seu primeiro parágrafo especifica: “Nós, professores, pesquisadores, ensaístas e estudantes de cinema, reunidos em Salvador, em 16 de setembro de 1996, constatamos a inexistência de um espaço que possa aglutinar, sistematizar e divulgar nossas experiências relativas ao estudo da imagem em movimento em suas diferentes formas. A partir da constatação deste estado de insuficiência no intercâmbio de nossas atividades de pesquisa, decidimos organizar uma Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema que terá como objetivo primeiro o estudo e a pesquisa da história e da teoria do cinema”. A Carta de Salvador foi articulada aproveitando-se da presença de pesquisadores de todo país na capital baiana, tendo sido assinada por colegas que mais tarde teriam importância, em diferentes momentos, na vida da SOCINE, como (em ordem alfabética): Bernadette Lyra, Dácia Ibiapina da Silva, Fernão Pessoa Ramos, Ivana Bentes, José Gatti, Júlio César Lobo, Linda Rubim, Lúcia Nagib, Umbelino Brasil, entre outros. Os dois documentos refletem uma ebulição concreta, que se delineia de modo mais forte desde 1995, para a formação de uma sociedade de estudos de cinema moderna e dinâmica. O grupo responsável pela criação da SOCINE compõe-se de jovens pesquisadores, em sua maior parte de origem acadêmica. A SOCINE foi, antes de tudo, uma questão de geração. Até sua criação, os estudos de cinema no Brasil eram dominados por pesquisadores e jornalistas voltados basicamente para levantamento de fontes primárias, num recorte metodológico baseado na garimpagem de material de pioneiros, exclusivamente em cinema brasileiro. Este foi o pólo contra o qual a instituição afirmou sua singularidade, se distanciando do grupo que dominava a pesquisa de cinema no Brasil, reunido no Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. A SOCINE responde à ascensão vertiginosa dos Estudos de Cinema na academia durante os anos 90 e à geração que navega de modo afirmativo nesta
1. Professor do Departamento de Cinema do Instituto de Artes da Unicamp. Ex-presidente da SOCINE.

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ascensão. Sem que tenha havido conflitos (mas sim absorção), havia referência, neste jogo de gerações, um pequeno grupo de pesquisadores de cinema que já atuava na academia, ainda ligado ao Centro de Pesquisadores e à visão chamada museológica da pesquisa. A SOCINE, portanto, nasceu apesar do establishment acadêmico da época, com algumas exceções, como a de Maria Dora Mourão (que inclusive emprestou a casa para a reunião fundadora). Mas o que os membros da SOCINE queriam, o que buscavam exatamente? No que as reuniões de pesquisadores de cinema (e houve diversas nos anos 80) deixavam aos participantes com uma profunda sensação de insatisfação? Onde sentia-se que a herança de Paulo Emílio Salles Gomes estava se perdendo, arriscando a ser dominada por uma pesquisa engessada e burocrática? O ponto essencial (que hoje pode parecer banal) foi o de não restringir ao cinema brasileiro, mas incorporar a dimensão internacional da produção cinematográfica, vista então com reservas. Criados dentro da pesquisa acadêmica e sua metodologia, os membros da SOCINE queriam um espaço maior para a teoria e uma visão de estudos de cinema que não estivesse ligada às demandas da crítica jornalística e às necessidades de produção de cineastas. Buscava-se abrir a janela para o mundo e poder explorar as camadas mais profundas do pensamento sobre cinema, sem ter a sensação de ser “bichos” de outro planeta. A questão do cinema experimental e do vídeo (suporte tecnológico de vanguarda na época) também estava no horizonte e respondia às necessidades de diversos colegas. O fato é que a metodologia de pesquisa e a demanda de publicações não era mais a dos pesquisadores críticos de cinema da primeira metade do século XX. Ao abrir a porta para a demanda reprimida, imediatamente impressionou o volume da produção. Desde o primeiro momento a SOCINE deslanchou, firmando rapidamente seu crescimento. Apesar das disputas, naturais em toda sociedade científica, a instituição conseguiu, através dos anos, manter sua unidade, tornando-se legítima representante da pesquisa em cinema no Brasil. Quem, do outro lado do espelho, vê o produto pronto, não pode imaginar as dúvidas, os receios e dificuldades que envolveram sua criação. O modelo inicial para montar a SOCINE foi o da a Society for Cinema Studies, entidade norte-americana da qual alguns de seus integrantes já tinha participado. O primeiro estatuto da SOCINE inspirou-se diretamente do estatuto norte-americano, buscando incorporar seu espírito desburocratizado. Com o passar dos anos foi difícil manter este espírito, mas o objetivo inicial era claro: uma sociedade de pares, pesquisadores, reunindo-se periodicamente para trocar informações e buscar inspiração no contato humano. Este foi o espírito detonador da SOCINE que sua diretoria luta para manter até hoje.
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A SOCINE, é importante frisar, foi, em seu campo, uma entidade pioneira na América Latina, demonstrando a forte estruturação acadêmica da área em relação ao continente. Embora não tenha aberto asas em direção a um processo mais profundo de internacionalização, sempre houve contatos fortes seja com a América Latina (onde a SOCINE serviu de inspiração para a fundação de entidades semelhantes na Argentina, no México e na Colômbia), seja com os Estados Unidos (mantendo um diálogo sempre presente com os estudos culturalistas), ou ainda com a França (em contato próximo com os herdeiros da semiologia). A estrutura de encontros anuais, que ainda não estava evidente nos primeiros momentos da SOCINE, acabou revelando-se a base e o motor desta sociedade. Os encontros deram personalidade ao projeto inicial e permitiram sua expansão de modo homogêneo através do Brasil. Os 10 volumes já publicados dos Estudos de Cinema SOCINE (incluindo o conjunto de textos do I Encontro, publicados nos números 13 e 14 da Revista CINEMAIS)2, refletem a densa produção intelectual dos Encontros, constituindo o resultado palpável do que significou a SOCINE para a afirmação da área de estudos de cinema no Brasil. O primeiro encontro da SOCINE, em 1997, deveria ser realizado na UNICAMP, em São Paulo, pelo fato da presidência da entidade haver centralizado a organização. A diretoria preferiu a ECA/USP, por achar que ainda não havia massa crítica para fazer com que colegas se deslocassem até Campinas, correndo risco de esvaziamento do evento. A participação da Universidade de São Paulo, neste que foi o encontro fundador da SOCINE, reduziu-se a boa vontade, e ao apoio, de seu diretor, Eduardo Peñuela, nos cedendo a melhor sala da Escola, cafezinho e bolachas. O II Encontro da entidade, consolidando definitivamente a SOCINE, foi organizado na ECO/URFJ. Consuelo Lins centralizou a organização do evento, promovendo as articulações e as condições necessárias para uma reunião que nos trouxe crescimento qualitativo. O III Encontro, realizado na capital do país, afirmou definitivamente a SOCINE como sociedade nacional, aberta para pesquisadores de todo o Brasil. A SOCINE crescia então a olhos vistos. As
2. 1) CINEMAIS - nº 13, setembro/outubro 1998; CINEMAIS nº 14, novembro/dezembro 1998; 2) Estudos de Cinema II e III (Annablume, 1999), com organização de Fernão Pessoa Ramos; 3) Estudos de Cinema 2000 (Sulina, 2002), com organização de Fernão Pessoa Ramos, Maria Dora Mourão, Afrânio Catani e José Gatti; 4) Estudos Socine de Cinema Ano III (Sulina 2003), com organização de Maria Rosaria Fabris, João Guilherme Barone e outros; 5) Estudos Socine de Cinema ano IV (Panorama, 2003), com organização de Afrânio Catani, Wilton Garcia e outros; 6) Estudos Socine de Cinema ano V (Panorama, 2004) com organização de Maria Rosaria Fabris, Afrânio Catani e outros; 7) Estudos de Cinema Socine ano VI (Nojosa, 2005) com organização de Maria Rosaria Fabris, Wilton Garcia e Afranio Catani; 8) Estudos de Cinema Socine (Annablume, 2006), com organização de Rubens Machado, Rosana Lima Soares e Luciana Corrêa; 9) Estudos de Cinema Socine (Annablume, 2007) com organização de Rubens Machado, Rosana de Lima Soares e Luciana Correa de Araújo; e 10) Estudos de Cinema Socine ano IX, com organização de Esther Hamburgo, Gustavo Souza, Leandro Mendonça e Tunico Amâncio (Annablume, 2008).

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apresentações de comunicações deixaram de ser em uma única sala, passando a se distribuir por lugares diversos. O III Encontro significou o momento em que a entidade abandonou definitivamente o berço de sua criação e passou a andar com pernas próprias. A organização deste Encontro ficou a cargo de João Lanari, “nosso homem no Itamaraty”, e Denilson Lopes. Ao criar a SOCINE, pensou-se no cinema em suas diversas fronteiras, na sua história e no diálogo com outros campos das humanidades, na análise das diversas expressões estéticas que compõem sua forma narrativa, na densidade da teoria que se articula em torno da cinematografia. O projeto da SOCINE ainda está em aberto e o dinamismo de seu formato atual mostra que o grupo de jovens que se reuniu há 15 anos, buscando espaços mais amplos para expor suas idéias e sua paixão pelo cinema, estava correto em suas ambições. Como foi pressentido no início, o cinema era maior e podia ocupar um espaço social mais amplo. A SOCINE é a expressão deste ensejo. A dinâmica de sua história demonstra que a forma artística que a sustenta respira com fôlego mais amplo que geralmente supõe-se. Pensando a Socine A Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE), é uma associação de interesse científico e cultural, sem fins lucrativos, que congrega pesquisadores da área do cinema e audiovisual. Em 16 de Setembro de1996 é lançada a Carta de Salvador na qual um grupo de professores, pesquisadores, ensaístas e estudantes de cinema constatam “a inexistência de um espaço que possa aglutinar, sistematizar e divulgar nossas experiências relativas ao estudo da imagem em movimento em suas diferentes formas”. Nesse momento decidem “organizar a Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema que terá como objetivo primeiro o estudo e a pesquisa da história e da teoria do cinema”. Alguns anos depois acrescenta-se o conceito de Audiovisual ao nome da sociedade com a finalidade de ampliar o campo de estudos em um movimento em consonância com a convergência determinada pelo digital. Seu surgimento veio refletir o crescimento dessa área de conhecimento no Brasil. Com a instituição da graduação e da pós-graduação em cinema a partir do fim dos anos 60, a pesquisa em cinema se expande e se institucionaliza nas Universidades imprimindo-lhe uma regularidade antes inexistente. A Universidade de Brasília (UNB), é uma das pioneiras na implantação de Cursos de Cinema (1962), seguida pela USP - Universidade de São Paulo (1967) e pela UFF – Universidade Federal Fluminense (1969). Se na época o principal objetivo desses cursos era a formação de diretores de cinema, a
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sedimentação dos cursos de pós-graduação senta as bases para o crescimento dos estudos na área, fazendo com que os cursos de graduação passassem a incluir em suas estruturas curriculares disciplinas de reflexão teórica que, junto com as de realização, imprimiam aos cursos um perfil universitário. A formação teórica não se limitava apenas à capacidade metodológica de interpretação da realidade ou à teoria científica, mas envolvia também o domínio dos saberes derivados da análise dessas práticas contidos nas dimensões que unem teoria à arte, teoria à vida social e cultural. A partir dos anos 90, com o avanço tecnológico e a convergência digital, caíram as barreiras que impediam uma aproximação entre os meios, principalmente entre o cinema e a televisão. Se no passado foram profissões excludentes, hoje constituem um campo vasto de especializações ligadas ao universo do que se convencionou chamar de Audiovisual. A aproximação entre os meios é definitiva, com saudável reflexo nas estruturas de ensino e pesquisa. O final do século XX apontou decisivamente para uma indústria unificada sob o nome abrangente do audiovisual. Os meios de produção já compartilham equipamentos comuns, os mercados cada vez menos distinguem produtos segundo sua origem – fotográfica ou eletrônica – até mesmo porque esses processos são conversíveis, a televisão tende a cumprir o seu papel privilegiado de veículo de uma produção audiovisual elaborada muitas vezes por empresas autônomas que também produzem cinema. Os objetivos da SOCINE são: a) aglutinar, sistematizar e divulgar experiências relativas ao estudo da imagem em movimento, em seus diferentes suportes, e áreas afins; b) organizar encontros, seminários, simpósios e congressos; c) promover o relacionamento de seus integrantes com entidades similares do País e do exterior A entidade já realizou 14 Encontros nas mais diversas regiões brasileiras, sempre acolhidos por universidades notórias pelo ensino e pesquisa nessa área de conhecimento. Como resultado dos Encontros, a SOCINE já promoveu a publicação de dez livros incorporando trabalhos apresentados em suas reuniões e é reconhecida, tanto no Brasil como no exterior, como a mais importante instituição que promove a pesquisa em cinema e audiovisual em nosso país. A partir de 2010 o livro Estudos de Cinema e Audiovisual passa a ser uma publicação digital podendo ser encontrado na página web da associação. Esse reconhecimento pode ser confirmado pelo crescimento exponencial de associados que atinge hoje o numero de 1011 sócios entre os que estão ativos e os inativos (, ainda, pelo fato de que a partir de 2005 os encontros passaram
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a receber pesquisadores de fora do Brasil como, por exemplo, do México, da Inglaterra, de Portugal e da África do Sul. Alem disso, os órgãos financiadores como CAPES, CNPq e FAPESP têm apoiado os Encontros da SOCINE contribuindo financeiramente para a viabilização dos mesmos. O MinC, através da Secretaria do Audiovisual (SAV), também colabora para a realização dos eventos. De acordo com o portal do MEC há hoje, no Brasil, 54 instituições de ensino superior com cursos de graduação (bacharelado, seqüenciais e cursos superiores de tecnologia) de cinema, televisão, vídeo, produção audiovisual, realização audiovisual – tanto em instituições públicas como em privadas. Dos 37 programas de pós-graduação vinculados à área de Comunicação, três deles estão voltados especificamente para a área do cinema e audiovisual: - UFSCar – Universidade Federal de São Carlos – Programa em Imagem e Som - UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas – Programa em Multimeios - USP – Universidade de São Paulo – Programa em Meios e Processos Audiovisuais Em sete desses programas há linhas de pesquisa na área: - UNISINOS- Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Mídias e Processos Audiovisuais - UFF- Universidade Federal Fluminense – Análise da Imagem e do Som - UTP – Universidade Tuiuti do Paraná – Estudos de Cinema - UNIP – Universidade Paulista – Configuração de Linguagens e Produtos Audiovisuais na Cultura Midiática - UAM- Universidade Anhembi Morumbi – Análises em Imagem e Som - UFPB – Universidade Federal da Paraíba – Culturas Midiáticas Audiovisuais - UFC – Universidade Federal do Ceará – Fotografia e Audiovisual É interessante notar que não é somente nos cursos específicos que encontramos a pesquisa em cinema e audiovisual, pesquisa-se e são produzidas dissertações e teses também nos cursos e programas de Comunicação, Ciências Sociais, Filosofia, História, Letras. É fato de que o cinema e audiovisual tem uma relação próxima com essas áreas do conhecimento, principalmente com a Comunicação, por tratar-se de campo cuja especificidade dialoga de maneira transdisciplinar com os outros.
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Nos 14 anos de existência da SOCINE chegou-se a um numero de 1011 associados, tendo hoje 50% deles em plena atividade participando de todos os Encontros, e os outros 50% flutuantes. Desse total, 454 são doutores ou doutorandos, sendo que a grande maioria são professores universitários. Tendências Os Encontros da SOCINE tem se estruturado nos últimos anos em torno de Seminários temáticos, Mesas temáticas, Sessões de Comunicações individuais e Painéis. Essa organização nos permite verificar quais são os focos de interesse de pesquisa a cada ano. Os Seminários temáticos são os que podem nos assinalar os temas do momento já que eles tem duração de quatro anos. Isso não significa que toda a pesquisa na área se concentre nos temas dos seminários, mas nos dá alguns parâmetros importantes dada a constância dos mesmos assuntos por um período determinado. Os temas são: - Cinemas em português: aproximações/relações - Os gêneros no cinema brasileiro e latino-americano: práticas, transformações, remixagens e tendências - Indústria e recepção cinematográfica e audiovisual - Estudos de som - Cinema, transculturalidade, globalização - Cinema no Brasil: dos primeiros tempos à década de 1950 - Cinema como arte e vice-versa - Ciências Sociais e cinema: metodologias e abordagens de uma pesquisa interdisciplinar - Cinema, estética e política: a resistência e os atos de criação - Televisão – formas audiovisuais de ficção e documentário Outro tema bastante recorrente nos últimos 10 anos é o gênero documental. Essa preocupação vem de encontro à importância histórica que o documentário vem retomando traduzida, principalmente, no surgimento de novas tendências e da ampliação de espaços de exibição. Essa transformação tem sido objeto de discussão e é vital ao se pensar o documentário como forma audiovisual fundamental. Como pode ser verificado a gama de assuntos é abrangente e denota a amplitude da área do cinema e audiovisual.

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Mercado de trabalho A área do cinema e audiovisual tem uma relação muito próxima com o mercado de trabalho em vários níveis. Encontramos profissionais no campo da produção cinematográfica e audiovisual independente, seja para a tela grande do cinema, seja para a tela pequena da televisão ou para a tela menor do celular. A televisão propriamente dita também absorve um numero significativo de profissionais. O poder público também tem sido um espaço de atuação, assim como as Universidades têm recrutado um bom número de docentes, não somente para a área específica, mas, também, para a área da comunicação. As relações com a comunidade acadêmica internacional se dão através de convênios de pesquisa, de realização de mestrados, doutorados e pós-doutorados, alem de intercâmbio de docentes e de publicações de mão dupla. A SOCINE tem mantido estreita colaboração com a Society for Cinema and Media Studies, organização internacional sediada nos Estados Unidos, e através desse contato tem promovido o intercâmbio de pesquisadores de diferentes países. É importante citar que a SOCINE foi exemplo para a criação de três novas entidades: - ASAECA – Asociación Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual, Argentina - SEPANCINE – Seminário Permanente de Análisis Cinematográfico, México - AIM – Associação dos investigadores da Imagem em Movimento, Portugal Está claro que não podemos dissociar a pesquisa do ensino na área do Cinema e Audiovisual uma vez que, no Brasil, a pesquisa se dá prioritariamente na Universidade. Nessa perspectiva é importante apontar para o fato de que o interesse pela formação na área está em plena expansão, o que pode ser facilmente detectado nas estatísticas dos exames vestibulares em todas as regiões do país. A demanda por novos cursos é significativa e resultou na ampliação da oferta levando à necessidade de contratar professores que, por sua vez, necessitam cursar a pósgraduação desenvolvendo pesquisa para obter seus títulos que lhes permitirão trilhar a carreira acadêmica. Quanto às carências, nos ressentimos ainda de uma maior valorização da área em virtude de sua importância histórica e estratégica. Já é chavão dizer que o mundo hoje se move em torno do audiovisual, mas não deixa de ser uma verdade
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indiscutível. Nesse sentido há a necessidade de pensar em políticas públicas que incentivem o avanço da pesquisa na área e organizem o ensino e a formação profissional. Outra questão fundamental é a necessidade de dar ao jovem do ensino médio uma formação em linguagem audiovisual (leitura critica e produção), não só para inseri-lo na contemporaneidade, mas, principalmente, para fomentar a capacidade critica e reflexiva sobre as imagens e sons em movimento. Estudos e pesquisas de Cinema e Audiovisual no sistema de pós-graduação Os pesquisadores da área vêm debatendo o lugar dos estudos e pesquisas de cinema e audiovisual no sistema nacional de pós-graduação. Historicamente, o cinema viveu até 1990 uma situação esquizofrênica pois, no nível de graduação, era considerado uma habilitação de Comunicação Social, e no nível de pósgraduação sempre esteve na área de Artes. A partir daquela data os cursos de graduação que assim o desejassem foram autorizados a implantar currículos autônomos, ou seja, currículos específicos que independem do vínculo às Artes ou às Comunicações. Essa esquizofrenia histórica foi reconhecida recentemente pelos próprios órgãos financiadores que, atendendo a um pedido das associações no sentido de dar um melhor atendimento à área de cinema e audiovisual, concentraram na área da Comunicação o encaminhamento para avaliação dos projetos de pesquisa. É fundamental aplicar ao cinema uma flexibilização capaz de legitimar a diversidade de enfoques que a nossa área não apenas abriga como exige, para que se possa dar conta da reflexão sobre as experiências e práticas do cinema, do vídeo, da televisão e de todas as manifestações da área conhecidas hoje como audiovisual, incluindo os novos meios digitais. Uma área que possa precisar a especificidade do olhar investigativo do domínio do Audiovisual, tanto sobre seus “fenômenos” próprios, como sobre os de outras áreas (como no caso do pesquisador de Audiovisual que estuda a formação de platéias e se referencia por conhecimentos de história social -- e ele continua sendo um “estudioso da área do Audiovisual”, ou daquele que se debruça sobre o mercado a partir de noções de economia, etc). Cabe ressaltar que o Cinema construiu, seja no seu exercício, seja na crítica e análise, uma matriz teórica indiscutivelmente peculiar e irredutível (mas dialogante) com outras matrizes, como as da lingüística, da semiótica, etc. E que por isso ela transcende, em muito, as especificidades das chamadas Ciências Socialmente Aplicáveis, se tangencia com as Linguagens e Artes, e está inevitavelmente conectada com a psicologia, a economia, a filosofia, assim como com várias outras áreas.
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Notas sobre a história da SOCINE José Gatti3 A criação da SOCINE está ligada ao crescimento da área de estudos de cinema nas últimas décadas no Brasil. Desde a criação, nos anos 1960, dos primeiros cursos especializados criados por Paulo Emílio Salles Gomes na Universidade de Brasília (UnB) e na Universidade de São Paulo (USP), surgiram diversos programas de pós-graduação na área da Comunicação Social dedicados ao cinema, assim como linhas de pesquisa especializadas em cursos de artes, letras, história, ciências sociais e outros. A área se caracteriza, portanto, por uma intensa interdisciplinaridade. Esse caráter interdisciplinar foi mantido, assim como foi dado espaço para o entendimento do cinema como uma área que vai além dos estudos fílmicos, abrangendo a televisão e as novas tecnologias relacionadas com o campo discursivo do audiovisual. Um nome importante nesse processo: o do saudoso prof. Arlindo Castro, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Quando estudávamos juntos na New York University, nos anos 1980, conhecemos a Society for Cinema and Media Studies (SCMS), a maior entidade do mundo nessa área, que realiza conferências anuais dentro e fora dos Estados Unidos. A participação numa das conferências da SCMS ajudou a pensar na criação de uma entidade congênere no Brasil. Arlindo foi um entusiasta da criação da SOCINE, tendo redigido a primeira versão de seus estatutos. Seu falecimento inesperado impediu que participasse de nossos Encontros, mas é importante lembrar seu nome como um dos criadores da SOCINE. A entidade seria imaginada de forma mais concreta num almoço na UnB, em 1995, durante a realização de um dos encontros da Compós. Eduardo Peñuela Canizal, Lúcia Nagib, Fernão Ramos, Mauro Baptista e eu conversamos sobre a possibilidade de realização de um encontro de pesquisadores da área. Durante a realização da Jornada de Curtas de Salvador, em setembro de 1996, Fernão Ramos e eu demos continuidade à discussão e Fernão tomou a iniciativa de redigir a Carta de Salvador, o primeiro documento que marcou a criação da SOCINE. A Carta subscrita por todos os participantes em ato solene, e levou à convocação de nosso primeiro Encontro de pesquisadores, na ECA/USP, no mês de novembro. Desde então, temos realizado Encontros anuais, em diferentes regiões do país, com o reconhecimento e o apoio de agências de de fomento à pesquisa, como o CNPq, a Capes, a Fapesp e outras instituições dedicadas ao campo do audiovisual no Brasil. Participamos ativamente da criação de entidades irmãs no México (Sepancine) e na Argentina (Asaeca) e nossos pesquisadores
3. Professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Foi secretário, vice-presidente e presidente da SOCINE.

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Notas sobre a história da SOCINE

têm comparecido a seus respectivos congressos. A SOCINE conta, hoje, com reconhecimento internacional e, em número de sócios, já é a segunda maior entidade especializada em estudos de cinema no mundo. Temos contado com a presença de pesquisadores da França, dos Estados Unidos, Portugal, Canadá, África do Sul, Nova Zelândia e outros países. Um de nossos próximos desafios será o de consolidar essa inserção internacional.

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A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine Maria Dora G. Mourão4 Introdução O Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) é uma sociedade civil sem fins lucrativos que congrega e representa de forma permanente as instituições e os profissionais brasileiros dedicados ao ensino de cinema e audiovisual, visando o desenvolvimento e o fortalecimento desta atividade. O processo de criação dessa entidade teve início no 3° Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), ocorrido em Porto Alegre, de 28 de junho a 1° de julho de 2000. Naquele momento, ainda não havia uma representação formal do setor de ensino e formação do setor audiovisual no Brasil. Mas houve a formação de um grupo de trabalho dedicado a questões de formação profissional, pesquisa e preservação, do qual participaram representantes do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, da SOCINE. As escolas de cinema foram representadas pela Professora Maria Dora Genis Mourão, da ECA-USP, à época integrante da diretoria da Federação das Escolas Iberoamericanas de Imagem e Som (FEISAL). No documento final do III CBC foram incluídos algumas deliberações relativas ao ensino e à formação profissional, como é o caso dos itens 52 e 53: 52. Criar um fórum nacional permanente de escolas e centros de formação profissional como instância institucional de interlocução 53. Implementar um projeto de mapeamento da demanda potencial e real dos mercados de trabalho com o objetivo de reorientar o ensino das escolas de cinema e audiovisual. (...) Em dezembro do ano 2000, o Departamento de Cinema, Televisão e Rádio (CTR) da ECA-USP organizou um seminário para discutir os rumos do ensino de cinema no Brasil, tendo como coordenadora a Professora Maria Dora Mourão. O evento foi denominado de Fórum de Ensino de Cinema e contou com representantes de instituições de ensino públicas e privadas com atuação em programas regulares de formação na área audiovisual em diferentes regiões do Brasil. O encontro discutiu a situação do ensino dedicado ao cinema e ao vídeo, sua relação com o ensino de televisão e as novas tecnologias e a necessidade de constituição de uma entidade para representar o setor de ensino e formação junto ao Congresso Brasileiro de Cinema (CBC). Participaram deste encontro as seguintes instituições: Faculdade de Tecnologia e Ciências (Salvador, BA); Fundação Armando Álvares Penteado (São Paulo, SP); Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (RJ); Universidade
4. Professora titular do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP.

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Gama Filho (Rio de Janeiro, RJ); Universidade Federal de São Carlos (S. Carlos, SP), Universidade de São Paulo (São Paulo, SP); Instituto Dragão do Mar de Artes e Indústria Audiovisual (Fortaleza, CE); Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS); Universidade de Brasília (DF); Universidade Federal Fluminense (Niterói, RJ); Universidade Estadual de Campinas (Campinas, SP); Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG); Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, RJ) e Faculdades Integradas Hélio Alonso (Rio de Janeiro, RJ. Todas figuram como as Inistituições de Ensino Superior (IES) fundadoras do Forcine. Na condição de convidados estiveram representados o Congresso Brasileiro de Cinema, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo, a Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema, a Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Universidade Metodista de São Paulo. Ao final daquele seminário, os representantes decidiram pela criação do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) e elegeram a primeira diretoria: Maria Dora Genis Mourão, presidente (ECA-USP); Antonio Amaral Serra, vice-presidente (UFF); João Guilherme Barone Reis e Silva, secretário geral (PUCRS) e Evandro Lemos da Cunha, tesoureiro (UFMG). Para o conselho de representantes foram eleitos: Silas de Paula (Instituto Dragão do Mar); Marcos Mendes (UNB); Jackson Saboya (FACHA); Messias Guimarães Bandeira (FTC) e Adílson Ruiz (UNICAMP). A primeira missão dessa diretoria foi a de organizar juridicamente a entidade, elaborar uma proposta de estatuto e fixar o valor da contribuição financeira de seus associados. Durante os anos de 2001 e 2002 os estatutos da entidade foram discutidos e aprovados entre seus membros e o Forcine tornou-se pessoa jurídica. A diretoria reuniu-se em várias ocasiões, em Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo. Em novembro de 2001 foi realizada a primeira Assembléia Geral, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, RJ, tendo como principal item da pauta, a filiação do Forcine ao CBC e sua participação no IV Congresso Brasileiro de Cinema, realizado no Rio de Janeiro, dias depois da Assembléia. No IV CBC, a presidente do Forcine, Maria Dora Mourão, foi eleita para participar da diretoria do CBC entidade. Os congressos do Forcine O I Congresso do Forcine ocorreu na Escola de Belas Artes da UFMG, em Belo Horizonte, MG, de 15 a 19 de outubro de 2003. Através de grupos de trabalho, painéis e sessões plenárias, foi o início de um processo de discussão sistemática das grandes questões relativas ao ensino e formação audiovisual no Brasil. Questões pedagógicas foram trabalhadas a partir da exibição de filmes produzidos pelas
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escolas afiliadas. Na ocasião, a diretoria fundadora foi eleita para um primeiro mandato após a aprovação dos Estatutos. O Documento Final deste I Congresso declara como de fundamental importância inserir no panorama brasileiro, a discussão sobre a formação profissional para o audiovisual, destacando que “no momento em que se retoma a produção de maneira significativa, em que as novas tecnologias oferecem instrumentos diferenciados para a realização e abrem-se novos espaços de circulação para produtos audiovisuais, é importante refletir sobre o significado e os parâmetros para a formação profissional na área”. Segue o documento: “a maioria dos cursos existentes no Brasil está integrada a Universidades o que, se por um lado é altamente positivo, ao tomarmos como parâmetro um ensino no qual a reflexão e a experimentação têm papéis importantes, por outro, há sérios problemas no que diz respeito ao saber mais especializado, do ponto de vista tecnológico, pois as Universidades públicas, por exemplo, não têm incentivos que lhes permitam acompanhar os rápidos avanços na área”. E vai mais além: “É chegada a hora de debater propostas de políticas de formação que acompanhem as discussões sobre as políticas de incentivo à criação de uma indústria do cinema e audiovisual no Brasil. A produção, assim como a distribuição e exibição, não podem, em hipótese alguma, estar dissociadas da pesquisa (tecnológica, estética, dramatúrgica, de linguagem, de preservação e de mercado), e da formação em todos os níveis (técnico profissionalizante, de alta capacitação profissional e universitário). Discute-se como incentivar o aumento da produção, principalmente a cinematográfica. Tomamos consciência do problema de que não adianta discutir produção, sem ter como distribuir e exibir de maneira adequada, mas não se cuida da formação que é, sem dúvida, uma das sustentações de uma indústria do cinema e do audiovisual. Convicto da importância da definição e implantação de uma política pública, o I Congresso Forcine apresenta os resultados do debate promovido, destacando o papel do ensino e da formação profissional como estratégia para uma política de desenvolvimento do audiovisual.” Para levar a cabo estas resoluções, o Congresso deliberou por “atuar junto ao Ministério da Cultura (MinC), Ministério da Educação (MEC), Ministério das Comunicações (Minicom) e Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com o objetivo de encaminhar o desenvolvimento de ações conjuntas de apoio às instituições que se caracterizam pela integração entre ensino, produção e pesquisa em cinema e audiovisual” (Documento final do I Congresso Forum Brasileiro do Ensino do Cinema e do Audiovisual – Forcine) No II Congresso Forcine, realizado em Salvador, BA, com apoio da FTC, de 20 a 24 de outubro de 2004, o tema central foi “Pedagogia e Sistemas de Produção e Difusão nas Instituições de Ensino de Cinema e Audiovisual”. Foram
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também iniciadas as propostas de novas diretrizes curriculares para os cursos superiores de cinema e audiovisual, considerando as grandes transformações do ambiente profissional por conta das novas tecnologias. Representantes do MEC/ SESU estiveram presentes ao evento, dando início a uma interlocução inédita com as escolas de cinema. No III Congresso, realizado na ECA-USP, em outubro de 2005, ao lado dos avanços na proposta de novas diretrizes curriculares, houve espaço para debater “o lugar dos estudos e pesquisas do cinema e audiovisual no sistema nacional de pós-graduação”, com a participação de representantes da CAPES, SOCINE e COMPÓS. No IV Congresso, realizado em Fortaleza, CE, em dezembro de 2006, com apoio da UFC, o tema central foi “por uma política nacional de ensino e formação para o setor audiovisual”. O documento final foi encaminhado ao MEC e houve também contribuições pontuais incorporadas no Programa Nacional de Cultura a pedido do MinC, que enviou um representante ao encontro. Houve também espaço para discutir as relações das escolas com o mercado. Neste Congresso, o Forcine já havia conquistado a implantação de novas Diretrizes Curriculares para os Cursos Superiores de Cinema e Audiovisual, publicadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em abril. No V Congresso, realizado em Tiradentes, com apoio da UFMG e da Fundação Rodrigo de Melo Franco, o tema central foi “inovação das escolas e relações com as televisões universitárias”. Houve também um painel sobre Perspectivas das Escolas a partir da implantação das novas Diretrizes Curriculares. No VI Congresso, realizado na UFF, em março de 2010, o tema central foi “inserção profissional: novos desafios a formação audiovisual”, com debates importantes sobre as questões relacionadas ao mundo do trabalho. Na Assembléia, houve alterações dos Estatutos e eleições para a Diretoria Executiva, Conselho de Representantes e Conselho Fiscal. Conquistas da Forcine Entre os eixos de ação prioritários do Forcine está o reconhecimento pelos agentes da indústria audiovisual e pelo poder público do papel fundamental das escolas de cinema e audiovisual como geradoras de inovação e qualificação capazes de fortalecer o setor, mas também como produtoras de conteúdo. No I Congresso Forcine, em outubro de 2003, o então titular da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura, Orlando Senna, reconheceu que a produção interna das escolas deveria contar com o Ministério da Cultura, para, por exemplo, auxiliar a superar os problemas
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de recursos na realização dos trabalhos de conclusão dos alunos, como forma do MinC valorizar o que as escolas produzem. Naquele momento iniciou-se um processo conjunto para a criação de uma seleção pública para apoio aos filmes de escolas, culminando no Programa SAV-MinC/ Forcine de Apoio a Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs). O Programa tinha como objetivo apoiar a produção dos TCCs das escolas, através do repasse de recursos financeiros, visando à melhoria das condições técnicas de produção, finalização e difusão de projetos audiovisuais de curtametragem desenvolvidos por alunos em final de curso. A realização da primeira edição do Programa, em 2004, atendeu à recomendação do Documento Final do I Congresso Forcine. A operação do Programa foi feita através de convênio entre o Forcine e a Secretaria do Audiovisual do MinC, com recursos do Fundo Nacional de Cultura, ficando o Forcine responsável pela execução. Na primeira edição do Programa foram contemplados projetos de produção das seguintes escolas: EBAUFMG, Belo Horizonte; UnB, Brasília; UNISUL, Florianópolis; UFF, Niterói e UFSCar, São Carlos. Cada projeto recebeu apoio no valor de 25 mil reais. A segunda edição deste Convênio, iniciada em 2006, possibilitou a finalização de mais seis filmes, destinando 30 mil reais a cada um. Foram selecionados projetos da ECO-UFRJ, Rio de Janeiro; UFSCar, São Carlos; FAAP, São Paulo; UFF, Niterói; UNISUL, Florianópolis e ECA- USP, São Paulo. Atualmente, o Forcine trabalha junto à Secretaria do Audiovisual do MinC para a publicação de um novo edital para os estudantes de ensino superior de cinema e audiovisual. Nesse edital seriam contemplados 24 projetos de documentários, de 24 minutos cada, a serem exibidos em canais universitários e outros espaços. Para cumprir com os seus objetivos estatutários, o Forcine vem trabalhando na organização do setor e na interlocução política com instâncias públicas como MEC-SESU, Min C/SAV, ANCINE, CNPq e CAPES. Junto ao Ministério da Educação a atuação do Forcine foi essencial e decisiva para a proposição e elaboração das novas Diretrizes Curriculares para Cursos Superiores de Cinema e Audiovisual. O Forcine trabalhou ao lado da Secretaria de Ensino Superior (SESU) na formação de um Grupo Especial de Trabalho com representantes de universidades públicas e privadas, realizando seminários e debates que resultaram numa proposta encaminhada e aprovada pelo CNE, através da RESOLUÇÃO Nº 10, de 27 de junho de 2006. Em 2006 a diretoria da entidade repassou os itens constantes do Plano Nacional de Ensino e Formação para o Setor Audiovisual no Brasil, documento aprovado no IV Congresso, realizado em dezembro de 2006 em Fortaleza, prontamente encaminhado ao MEC. No V Congresso CBC, realizado em novembro de 2003 em Fortaleza, foi
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eleito João Guilherme Barone (PUCRS) como representante do Forcine na nova Diretoria. A partir de 27 de novembro de 2003 o Fórum passou a ter assento junto ao Conselho Consultivo da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual do Ministério da Cultura, criado por portaria assinada pelo Ministro da Cultura. O organismo é composto por membros de outras entidades representativas do setor audiovisual e liderado pelo Secretário, com a função de assessorar a SAV. O relacionamento com a SAV tem sido altamente produtivo, não só pela interlocução, mas também pelos convênios e o apoio essencial para a realização dos Congressos. A qualificação das IES associadas vem sendo constantemente reconhecida, eis que há anos o Forcine é convidado a indicar representantes para todas as comissões de seleção de editais de cinema e audiovisual do Ministério da Cultura e para os da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Até 2010 a estrutura administrativa foi composta por uma Diretoria e um Conselho de Representantes, tendo como órgão deliberativo máximo a Assembléia Geral, cujas reuniões ordinárias aconteciam anualmente, durante a realização do Congresso Forcine. A diretoria eleita no V Congresso, em Tiradentes, MG, em novembro de 2007 foi formada por Evandro Lemos da Cunha, presidente (UFMG); Aída Marques, vice-presidente (UFF); João Guilherme Barone Reis e Silva, secretário geral (PUCRS) e Luciana Rodrigues, tesoureira (FAAP) Em 2009 o então presidente do Forum, Evandro Lemos da Cunha, pediu afastamento da função e depois foi destituído em Assembléia Geral, assumindo a presidência a representante da UFF, Aída Marques. Em março de 2010, em Niterói, na Universidade Federal Fluminense, realizou-se o VI Congresso do Forcine. Esse Congresso foi essencial para a retomada da mobilização nacional, com ampla participação das escolas associadas e de novas escolas, em processo de filiação. As propostas da plenária final seguem anexadas. A Assembléia Geral decidiu pela realização do VII Congresso em 2011, na FAAP, SP e votou a mudança estatutária. Representações Internacionais Atualmente, entre as associações internacionais que representam coletivamente as escolas de cinema, a mais importante é o Centre International de Liaison des Ecoles de Cinéma et de Télévision (CILECT), uma associação mundial de escolas de cinema e televisão. Seu objetivo é fornecer meios para a troca das idéias entre as escolas membro, auxiliando na compreensão do ensino de audiovisual. O Centro dedica-se à criação, ao desenvolvimento e à manutenção da cooperação regional e internacional entre as escolas e ao incentivo do ensino de cinema e televisão no mundo. Além disso, ajuda na compreensão do audiovisual como uma chave para
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o desenvolvimento cultural e das comunicações, atuando como ferramenta de instrução, informação, documentação e pesquisa na área. A fundação do CILECT foi em Cannes, em 1955, com a intenção de estimular um diálogo entre escolas de cinema no mundo, raro nestas épocas. Sua sociedade foi iniciada com oito países: Grã Bretanha, Checoslováquia, França, Itália, Polônia, Espanha, União Soviética e os Estados Unidos. Em 2000, CILECT já contava com 108 instituições de 50 países, em cinco continentes, tendo revisto suas atividades e se adaptado às necessidades contemporâneas, explorando as potencialidades das novas tecnologias para instrução, informação e entretenimento. No Brasil são membros CILECT: a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; a Universidade Estadual de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Multimeios, a Universidade Federal Fluminense, Departamento de Cinema e Vídeo e a Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Em agosto de 2002 a maioria das escolas ibero-americanas filiadas ao CILECT decidiu se organizar em um grupo denominado CILECT Ibero-América (CIBA) com o intuito de representarem dentro da entidade internacional, CILECT, a região ibero-americana. Até aquele momento a região era representada pela Federação de Escolas Ibero-americanas de Imagem e Som (FEISAL), inicialmente denominada Federação de Escolas de Imagem e Som da América Latina. A FEISAL deixou de representar a região ibero-americana em CILECT dado seu crescimento em função da incorporação de um número grande de escolas latinoamericanas que não são diretamente filiadas a CILECT. As escolas se organizaram para serem suas próprias representantes a partir de CIBA. As escolas são: Brasil: ECA-USP e UFF / Argentina: UBA, FUC, ENERC / Chile: UNIACC / México: CCC e CUEC / Cuba: EICTV / Portugal: Escola de Cinema de Lisboa / Espanha: ESCAC de Barcelona

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CAPÍTULO 6 A produção de conhecimento no campo do Jornalismo
Carlos Eduardo Franciscato1 Edson Spenthof 2 Mirna Tonus3 Sérgio Luiz Gadini4

Introdução Desde as experiências pioneiras de pesquisa histórica em Jornalismo de Alfredo de Carvalho e Carlos Rizzini até as formulações teóricas de Danton Jobim e Luiz Beltrão em meados do século passado, passando pela sedimentação acadêmica da formação universitária em Jornalismo a partir da década de 1940, os estudos de Jornalismo no Brasil têm alcançado um processo de crescimento científico que demonstra vigor e maturidade das pesquisas nacionais. Como objeto complexo, o Jornalismo tem sido passível de tratamento por diversas áreas de conhecimento, de forma diversificada e complementar. O Jornalismo antes de sua academização localiza suas raízes ainda no século XIX. Propõe, então, uma periodização em três fases: 1) Emancipação (século XIX); 2) Identificação (século XX); e 3) autonomização (século XXI). O primeiro período, de emancipação, está ligado à dissociação gradual dos modelos portugueses de compreender o Jornalismo, reminiscentes da Era Colonial, e a busca de um modelo brasileiro de Jornalismo a partir da Independência do Brasil e nas décadas seguintes do século XIX (MELO, 2009, p. 12-13). O segundo período proposto pelo autor, o da identificação (MELO, 2009, p. 13-19), expande-se por todo o século XX por meio de várias correntes de pensadores. A primeira corrente é a dos fundadores, em que se encontram atores políticos que identificam no Jornalismo uma função vital ao sistema político, em um contexto de industrialização do país e seus efeitos sobre a informação jornalística e a sociedade. Destaca-se o pensamento de Rui Barbosa, Barbosa Lima Sobrinho e Carlos Lacerda. Uma segunda corrente deste período é a dos sistematizadores, em que um olhar acadêmico tenta identificar fronteiras do
1 Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Professor adjunto da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 2 Diretor do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Jornalista. Mestre em História e professor da Universidade Federal de Goiás. (UFG). 3 Diretora do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Doutorado em Multimeios pela Unicamp e professora adjunta da Universidade Federal de Uberlândia (MG). 4 Presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Doutor em Comunicação pela Unisinos/ RS. Professor concursado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR).

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Jornalismo em relação a outras formas de pensamento, como a literatura, seja numa abordagem histórica, sociológica, estética ou filosófica. Neste grupo estão Alceu Amoroso Lima, Danton Jobim e Luiz Beltrão. Uma terceira corrente de pensamento sobre o Jornalismo neste período de Identificação é denominada por Marques de Melo como polemista, na qual jornalistas como Alberto Dines e acadêmicos como Cremilda Medina e Adelmo Genro Filho produzem uma visão crítica sobre a sociedade, o Jornalismo e o governo militar autoritário da segunda metade do século XX. Por último, uma corrente de consolidadores, que aprofundam uma abordagem acadêmica sobre o Jornalismo. A terceira fase na formação de um pensamento sobre o Jornalismo, classificada por Marques de Melo como de autonomização (2009, p. 19-23), engloba uma nova geração de pesquisadores dedicados a constituir uma comunidade acadêmica de estudiosos do Jornalismo. Neste período, que engloba a primeira década do século XIX, surge uma corrente de revigoramento de uma análise crítica do Jornalismo (os problematizadores) e uma corrente mais preocupada em legitimar o Jornalismo como um campo acadêmico capaz de produzir um conhecimento científico (os institucionalizadores). Embora este tipo de periodização indique aparentes divisões, não foi proposta do autor considerar formas de pensar separadas, mas observá-las em um movimento complementar, sem a criação de rupturas substantivas. O último grupo de pesquisadores, por exemplo, têm buscado, por meio da institucionalização, uma sedimentação de diferentes correntes de pesquisa sobre o Jornalismo, seja junto aos programas de pós-graduação brasileiros, seja junto às agências governamentais de fomento à pesquisa. Com a institucionalização, a produção de conhecimento sobre o Jornalismo exige uma constituição formal conforme os procedimentos de pesquisa científica. Um dos desafios contemporâneos é, então, a construção disciplinar do campo, que passa, além da especificidade do objeto, pela solidez e clareza de categorias fundamentais para tratá-lo, por um conjunto teórico harmônico que gere conhecimento articulado e coerente e pela própria definição de eixos metodológicos específicos em relação a outras áreas do conhecimento. O amadurecimento do campo do Jornalismo enfrenta o desafio de avançar encontrando um ponto de equilíbrio entre, por um lado, os diálogos teórico-metodológicos entre disciplinas que chegam ao objeto por meio de um tratamento multidisciplinar e, por outro, o esforço de uma construção disciplinar específica, que lhe dê identidade metodológica para desencadear um diálogo com disciplinas de outros campos científicos. Além desta perspectiva histórica, o percurso de caracterização da produção
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de conhecimento em Jornalismo será apresentado em cinco outros aspectos: 1) Descrição da comunidade acadêmica do Jornalismo (surgimento e a consolidação das escolas de jornalismo, da pesquisa e da pós-graduação em jornalismo ); 2) A identificação das principais áreas de pesquisa em Jornalismo; 3) A publicação de periódicos científicos especializados em Jornalismo; 4) A inserção internacional da pesquisa em Jornalismo; 5) A relação entre a academia, o setor produtivo e a profissão de jornalista. A comunidade acadêmica da área de Jornalismo Ao longo do século XX, representantes de entidades de classe (como os sindicatos estaduais dos jornalistas, a Associação Brasileira de Imprensa e a Federação Nacional dos Jornalistas), têm defendido a criação de cursos para qualificar o acesso à profissão e propiciar aos jornalistas a consequente melhora das condições de vida e trabalho de todos que atuavam na área. O marco desta histórica luta pela formação universitária é o I Congresso Brasileiro de Jornalistas, realizado no Rio de Janeiro em 1918. Os primeiros cursos de graduação em Jornalismo, contudo, só foram de fato criados e passam a funcionar na segunda metade da década de 1940. O primeiro, em 1947, na Faculdade Casper Líbero, na ocasião, ligada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e o segundo curso, junto à Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em 19485. Oportuno considerar que houve uma primeira tentativa de criar um curso universitário em Jornalismo em 1935, na Universidade do Distrito Federal, que valorizava uma formação humanista, por iniciativa de Anísio Teixeira. O Estado Novo, no entanto, acabou com o projeto, fechando a referida universidade. Somente em 13 de maio de 1943, Getúlio Vargas fundou o Curso de Jornalismo na Universidade do Brasil, que passou a funcionar em 1948. Osni Dias (2004) situa a história dos cursos de Jornalismo no Brasil a partir de um dos pioneiros na criação de curso livre profissionalizante na área. A iniciativa coube ao paulista Vitorino Prata Castelo Branco, em 1943, “considerado um precursor dentro da comunidade brasileira de Ciências da Comunicação, ao lado de personagens como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini e Danton Jobim, entre outros”, afirma Dias.
5 O primeiro curso de Jornalismo (1947) passa a se denominar, mais tarde, Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, de São Paulo/SP, e o segundo curso de Jornalismo criado no Brasil (1948) se torna, a partir de 1967, a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MARQUES DE MELO, 1979).

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Com as transformações políticas, sociais e econômicas que ocorriam no País, marcado pela crescente urbanização, os jornais impressos ganham fôlego e modernizam-se pelo uso de imagens (fotográficas ou ilustrações), aumentam tiragens e, assim, contratam mais profissionais para produção editorial. É neste contexto que o I Congresso Brasileiro de Jornalistas discute e aprova a defesa de criação de escola de Jornalismo, baseada nas experiências profissionais de outros países, como a França (que mantinha curso desde 1889) e Estados Unidos, que mantêm cursos desde 1912, na Universidade de Columbia, por iniciativa de Joseph Pulitzer. No início dos anos 1940, Castelo Branco, em São Paulo, fazia palestras e conferências. Em 1942, em visita pela Argentina, participa de “um curso na Sociedad Argentina de Periodismo y Redacción, onde recebe o certificado de conclusão com o resultado sobresaliente”. Na Argentina, Castelo conhece o Círculo de Periodistas de Buenos Aires e a Escola Argentina de Periodismo, da Universidad Nacional de la Plata. “Ali, conhece a estrutura da Escola de Periodismo e seus antecedentes, seu primeiro plano de estudos, o regulamento e a início de seus cursos, em 1935”, como explica Dias (2004), obtendo as bases para criar, em 1943, aquele que é considerado o primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil. O desdobramento dessa demanda pela profissionalização com formação universitária iria se consolidar, aos poucos, também pelo reconhecimento da atividade jornalística. E um desses momentos acontece com a “edição, pelo Presidente Getúlio Vargas, em 3 de novembro de 1938, do Decreto-lei nº 910, que dispôs sobre a criação de escolas de preparação ao jornalismo. Vargas fora jornalista no Rio Grande do Sul antes de ser alçado ao Ministério da Fazenda no Governo Washington Luís e era sensível às questões de interesse da comunidade profissional que integrara. Apesar da censura e de outras restrições que impôs à imprensa sob o Estado Novo (1937-1945), Vargas instituiu uma série de medidas e inovações que favoreceram os jornalistas e a imprensa”. Mais tarde, “o presidente Jânio Quadros editou em 22 de agosto de 1961, três dias antes da sua renúncia, o Decreto n.º 51.218, que regulamentou o Decreto-lei n.º 910 de 1938 que instituía o curso de Jornalismo e estabeleceu a exigência da formação de nível superior para o exercício da atividade profissional de jornalista, mas ressalvando o direito dos jornalistas que exercessem há dois anos a profissão de continuar a fazê-lo, como jornalistas profissionais provisionados”6. No período entre o final da década de 1940, quando surgem os primeiros cursos, até início dos anos 1960, a base das iniciativas profissionalizantes pelo ensino que surgem em outras cidades do País é o curso de Jornalismo da
6 Informações constantes na manifestação do presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azedo, na Comissão Especial que analisou a proposta de Emenda à Constituição Nº 386-A, que “altera dispositivos da Constituição Federal para estabelecer a necessidade de curso superior em Jornalismo para o exercício da profissão de jornalista”, sob relatoria do deputado Hugo Leal (RJ).

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Universidade do Brasil, que serve de referência, mas vale ponderar que são poucos os cursos mantidos e criados nesse período. O currículo mínimo para a graduação em Comunicação Social surge em 1962, quando o Conselho Federal de Educação fixa uma grade básica aos cursos superiores (Lei 5.540/68), deixando às universidades a tarefa de incluir outras disciplinas, de acordo com a avaliação do que poderia contribuir na formação profissional de cada área. Os cursos de Jornalismo passam a conviver, na área de Comunicação Social, com as habilitações de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Editoração (GOBBI, 2004). Até o final da década de 1980, o Brasil tinha o registro de aproximadamente 100 cursos de graduação em Comunicação Social entre as principais habilitações mais procuradas pelos jovens interessados em ingressar na área, por meio da Universidade: Jornalismo, Publicidade/Propaganda, Relações Públicas e, com menor frequência, Cinema, Rádio e TV, ou Editoração. Pelas informações da época, Bahia, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul tinham entre três e cinco cursos, enquanto São Paulo e Rio de Janeiro concentravam um maior número das escolas universitárias. As demais unidades da Federação possuíam um ou dois cursos de Comunicação Social. E, claro, muitos estados não tinham sequer uma escola de formação universitária na área até o início da década de 19907. Regra geral, com algumas exceções, até a virada daquela década (1980/90), o número relativamente baixo de faculdades de Jornalismo no Brasil pode ser compreendido ao comparar-se a média e o crescimento populacional do País no referido período8. Com esse número, e considerando algumas dificuldades técnicas, é fácil imaginar que, além das capitais estaduais, poucas cidades de porte médio do Brasil tinham instituições de ensino superior com cursos de Comunicação Social. A partir da entrada da década de 1990, contudo, o campo jornalístico registra um aumento acelerado de procura por vagas universitárias. Na esteira de uma suposta demanda reprimida – de vagas em cursos de Jornalismo – que as universidades públicas (federais, em geral) não supriam, e aliadas a uma expectativa (e promessa de governo) de liberalização da economia, em um anunciado processo de “desmonte” do Estado do Direito, criam-se condições para que um número
7 Apenas para ilustrar, em 1947, quando o Brasil passou a contar com sua primeira escola de formação universitária em Comunicação Social, a população da época registrava aproximadamente 45 milhões de habitantes. 8 Dados do IBGE indicam que, em 1990, o Brasil tinha uma população estimada em 145 milhões de habitantes. O crescimento foi expressivo, considerando-se que, na virada da década anterior (1980), o País registrava cerca de 120 milhões de habitantes (contribuintes, moradores, nativos ou migrantes, sendo estes provenientes de deslocamentos internos ou externos). Considerando que, em uma década, o número de vagas ofertadas em faculdades de Comunicação cresceu muito lentamente, a taxa média de crescimento populacional foi bem superior e, de forma mais acentuada ainda, no ritmo da urbanização. http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/ populacao.shtm

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crescente de instituições de ensino superior (IES) particulares entre no mercado de ensino superior privado. Elas passaram a ofertar grande quantidade de cursos que, até então, registravam alta procura diante de um limitado número de vagas. A redução das condições de exigência para abertura de cursos universitários criou, assim, um mercado para que um expressivo número de IES passasse a ofertar cursos, entre os quais estava o Jornalismo. Aliado a essa variável – de “incentivo” e diante da promessa governista de uma liberalização das relações econômicas, em um gradual processo de terceirização, privatização ou redução da ação estatal em diversos setores da economia –, considere-se que as universidades públicas registravam um “engessamento” em suas estruturas de gestão, fosse pelo momento de transição política porque passava o País – a partir do final do regime militar, 1964-85 –, fosse pelas opções de governo por rediscutir o papel das universidades federais. A motivação por parte dos emergentes empresários do ensino superior privado brasileiro não se reduziu, entretanto, às facilitações administrativas, observadas a partir do (não) controle dos órgãos responsáveis em nível federal. Existiu, aí, também um incentivo tecnológico, que sinalizava para uma real baixa nos custos de instalação e manutenção de cursos em Jornalismo. Até início dos anos 1990, fazer televisão, por exemplo, era coisa para quem tinha condições financeiras e uma respeitada estrutura de produção. Em tempos de equipamento analógico, tudo era mais caro, também pelo fato de que a maioria de tais equipamentos envolvia importação de peças e mesmo de alguns suprimentos, que hoje seriam básicos. Por consequência, equipar e manter em funcionamento um laboratório de telejornalismo para operar com funções didáticas em uma faculdade de Jornalismo era, de certo modo, um “luxo” de investimento em uma carreira profissional. Guardadas as proporções, as dificuldades também estavam na manutenção de um periódico escolar (laboratorial) impresso, em um estúdio de radiodifusão, entre outros materiais básicos para pensar em produção editorial de mídia em tempos de estrutura analógica. A situação, portanto, criava um universo em que, se por um lado as universidades públicas não conseguiam a liberação de recursos para atualizar seus laboratórios, as poucas faculdades particulares que conseguiam manter esses espaços mais atualizados (não necessariamente “de ponta”) sentiam-se, praticamente, no “direito” de cobrar taxas ou mensalidades a valores bem acima das reais condições que boa parte da população conseguiria bancar. Nesse contexto, não apenas no campo da Comunicação (e do Jornalismo), entrar e manter-se na universidade ainda era, até meados dos anos 1990, uma conquista distante para a grande maioria dos brasileiros que entravam na escola.
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E se, por um lado, a população aumentava a uma taxa acelerada, desde a década de 1940, quando o Brasil contava com 41 milhões de habitantes, por outro, o aumento do número de vagas em universidades públicas não ocorria, deixando as poucas IES particulares em reais condições de ofertar vagas em inúmeros cursos com demanda de mercado a um custo economicamente alto para grande parte da classe média. Se a década de 1990, portanto, marcou a chamada fase de mercantilização do ensino superior, com uma explosiva oferta de vagas, por parte de emergentes IES privadas, a facilitação das condições técnicas, com o barateamento de equipamentos que precisavam ampliar as condições de circulação e consumo, também contribuiu para “deselitizar” o fazer mídia. Era o mesmo início da década de 1990 que registrava a entrada da mídia digital de música, com o CD (compact disk) que logo iria baratear a produção musical e retirar do mercado uma incontável quantidade de discos (“bolachão”) e fitas K7, analógicos. É de conhecimento público que, no Brasil, o lançamento de novidades tecnológicas (produtos), em média, demora mais tempo que o registrado em países de maior poder aquisitivo e distribuição de renda mais equitativa. Cerca de duas décadas depois, em 2010, o Brasil possui números bem diferentes. Com 190 milhões de habitantes, cerca de 85% residindo na área urbana, o País tem hoje cerca de 1.300 escolas superiores em Comunicação Social, com mais de 400 cursos na habilitação Jornalismo. Ao longo das duas décadas, que indicam a explosão quantitativa no número de cursos de graduação em Jornalismo, o mercado de atuação profissional, mesmo diante do crescimento urbano centrado em médias e grandes cidades, registrou uma redução no número de postos de trabalho nos tradicionais meios de informação. A mesma variável que facilitou a abertura – e, em certos casos, certa proliferação descontrolada – de escolas universitárias de Jornalismo contribuiu, simultaneamente, para a redução direta de espaços e funções de trabalho. A informatização das redações de jornais, tanto quanto facilitou, retirou inúmeros postos de atividade profissional de jornais e, de certo modo, também de emissoras televisivas, à medida que, ao integrar em redes, dispensou equipes outrora imprescindíveis para manter um programa ou periódico sem levar furo. A rápida abertura de cursos de Jornalismo também gerou outra demanda: a contratação de professores. Assim, de uma estimativa de 1.500 docentes que, em 1990, atuavam nos então cursos de Jornalismo existentes no País, passa-se, em 2010, para um número estimado em 6.000 professores que trabalham nas escolas nesta área de formação universitária (em um número estimado de 400 cursos de graduação em Jornalismo, onde estão matriculados aproximadamente
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60 mil estudantes, de acordo com projeções do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). E, aqui, vale considerar que as variadas formas e relações de trabalho em IES de diferentes regiões e estados do Brasil dificultam inclusive o mapeamento das condições de ensino e trabalho, por parte dos professores. Tais variações vão desde a condição de professor horista (que tem contrato de remuneração apenas pela hora do tempo físico, direta, em que ministra aula) à de docentes que se dedicam, em tempo integral, às referidas IES, atuando em variadas ações que envolvem o ensino superior (da graduação à pós-graduação). No intervalo entre as duas condições, há professores em tempo parcial apenas para aula, em tempo parcial com dedicação para aula e atividades de pesquisa ou extensão. Além daqueles com tempo de 30 ou 40 horas, dividido entre atividades de ensino, pesquisa ou extensão. A institucionalização da pesquisa em Jornalismo no sistema de pósgraduação em Comunicação A primeira tese de doutorado em jornalismo no Brasil foi defendida pelo professor José Marques de Melo em 1972 junto à Universidade de São Paulo (USP). Era um tempo de uma intensa presença de estudos de Comunicação de Massa, seja em uma perspectiva funcionalista norte-americana ou crítica européia, que, como vimos, influenciou a organização acadêmica dos cursos na forma de Comunicação Social. Na década de 1970, a comunidade acadêmica de Comunicação estava recém experimentando os primeiros cursos de Mestrado na área (o primeiro surgiu em 1970 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Em 1978, a PUC-SP inaugurou o primeiro doutorado em Comunicação. Hoje, a área possui 39 programas de pós-graduação em Comunicação aprovados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Importa, neste artigo, considerar qual a posição relativa das pesquisas em Jornalismo na construção deste campo acadêmico. Ao analisarmos cada um dos programas brasileiros de mestrado e doutorado em Comunicação em atividade, por meio de suas linhas de pesquisa, é possível obter uma percepção mais precisa do conhecimento científico sobre o Jornalismo. O Quadro 1 apresenta uma descrição das áreas de pesquisa dos programas de pós-graduação conforme dados mais recentes disponíveis (ano de 2007) no site da CAPES sobre as áreas de concentração, linhas de pesquisa e projetos de pesquisa registrados em cada curso. Em alguns casos, foram colhidos dados publicados pelos programas em seus sites institucionais.

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Quadro 1 – Jornalismo como um objeto central nos programas de pós-graduação em Comunicação Linha de pesquisa Jornalismo e Sociedade Curso / Instituição Mestrado e Doutorado em Comunicação (UnB) Ementa Esta Linha de Pesquisa tem como objeto o jornalismo enquanto campo teórico e prático e seus desdobramentos em torno de uma Teoria da Notícia. Aborda a compreensão do jornalismo como categoria cognitiva de representação da realidade, a partir de uma leitura crítica dos processos de produção da notícia (da seleção dos acontecimentos à edição dos fatos hierarquizados) e de uma análise da narrativa jornalística, tendo em vista a correlação estrutural entre realidade e ficção consistente nos valores-notícia. O principal objetivo desta Linha é a realização de estudos e pesquisas sobre gêneros e práticas jornalísticas, de modo a encontrar respostas conciliadoras para as tensões existentes entre as utopias do jornalismo como função pública e social e as reais possibilidades do jornalismo enquanto práxis (ação transformadora da realidade social).

Linguagem e práticas jornalísticas

Mestrado e Doutorado Pesquisa os processos midiáticos e seus em Ciências da desdobramentos em produtos jornalísticos. Comunicação (Unisinos) Considera as rotinas produtivas, os contextos, as mensagens e a configuração de memórias na sociedade midiatizada. Contempla as formulações teóricas específicas do jornalismo articuladas em perspectiva multidisciplinar. Mestrado em Jornalismo (UFSC) Estudo dos pressupostos teóricos, princípios filosóficos, condicionantes e desdobramentos do jornalismo desde a modernidade. Privilegiase nesta linha a observação do jornalismo como fenômeno específico dentro das sociedades complexas, com o objetivo de investigar sua fundamentação epistemológica e suas múltiplas dimensões conceituais. Considerando diferentes contextos espaciotemporais, a linha localiza o jornalismo em suas configurações como processo histórico e político, prática social, exercício ético e estético, mediação cultural, estratégia comunicativa, gênero de discurso e produção de conhecimento.

Fundamentos do Jornalismo

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Processos e Produtos Jornalísticos

Mestrado em Jornalismo (UFSC)

Estudos sobre o funcionamento do jornalismo a partir da análise de seus produtos e de seus processos de produção, com ênfase para as profundas mudanças porque passa a prática do jornalismo em decorrência da disseminação das Tecnologias da Informação e da Comunicação nas sociedades contemporâneas. Esta linha comporta pesquisas sobre os gêneros, formatos, conteúdos, linguagens, técnicas e tecnologias jornalísticas, assim como das organizações, políticas editoriais, rotinas, estratégias e mediações relacionadas aos seus processos de produção. Dimensão informativa, dimensão lúdica, transformações nos conceitos de recepção e interação, cultura da imagem: na sociedade contemporânea, os produtos da mídia (re)elaboram fatos e conteúdos tanto da realidade quanto da ficção, gerando aproximações entre jornalismo e entretenimento. Por vezes, esse contexto tende ao esvaziamento da função pública da informação. Nesta Linha de Pesquisa, pretende-se investigar as narrativas da contemporaneidade e as produções que exploram o universo do imaginário, as relações entre jornalismo e espetáculo. Jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo online e demais produções que transitam como multimídia ou hipermídia e as decorrentes mudanças no receptor/usuário interagente são objetos de reflexão.

Produtos Midiáticos: Jornalismo e Entretenimento

Mestrado em Comunicação (FCL)

Fontes: CAPES (www.capes.gov.br); sites institucionais dos Programas

Algumas observações podem ser obtidas do Quadro 1 e análises conseqüentes: a) No sistema brasileiro de pós-graduação em Comunicação, o Jornalismo é um objeto tradicionalmente presente como tema de dissertações e teses. Entretanto, apenas em quatro programas há um reconhecimento que o fenômeno jornalístico exige um conjunto de conhecimentos que se especializam e geram identidade de pesquisa, tendo consistência para constituir linhas de pesquisa autônomas; b) O crescimento das linhas de pesquisa específicas em jornalismo é um processo recente característico desta primeira década do século XXI no sistema de pós-graduação. Duas experiências são exceções a esta “recenticidade”: o curso de pós-graduação da Universidade de Brasília, que pode ser considerado o mais tradicional curso em atividade que institucionalizou a pesquisa em jornalismo; e o programa da Escola de Comunicações e Artes
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da Universidade de São Paulo, uma referência na pesquisa em jornalismo nas décadas de 1970 e 1980. Este, no entanto, executou um processo de reformulação a partir de 2001, extinguindo as linhas de pesquisa específicas, como a voltada para o jornalismo, e privilegiando abordagens transdisciplinares da comunicação; c) No Quadro 1, os três demais programas (UFSC, Unisinos e FCL) institucionalizaram o foco específico em jornalismo em anos recentes desta década. O Mestrado em Jornalismo da UFSC foi criado em 2007, sendo inovador no sistema de pós-graduação em Comunicação por ser exclusivamente direcionado para estudos de Jornalismo. d) Nas cinco linhas de pesquisa em Jornalismo apresentadas no Quadro 1, ao menos três vertentes de estudo se destacam: uma preocupação em explorar e desenvolver perspectivas teóricas específicas à investigação em Jornalismo, seja em uma perspectiva interna/conceitual ou na relação entre Jornalismo e sociedade; consideração das linguagens, gêneros e narrativas peculiares ao Jornalismo; análise dos processos de produção jornalística, seus específicos aspectos organizacionais, operacionais e tecnológicos e seu respectivo produto; e) A pesquisa em jornalismo, mesmo não estando institucionalmente demarcada em linhas de pesquisa, está presente como fator articulador de docentes e projetos de pesquisa em diversos programas de pós-graduação, como por exemplo, a presença de um reconhecido grupo de pesquisa em Jornalismo online dentro da linha de pesquisa em Cibercultura no programa da Universidade Federal da Bahia; A institucionalização da pesquisa em Jornalismo nas associações científicas A produção científica tendo o Jornalismo como objeto central de pesquisa vem crescendo significativamente nos últimos 10 anos no Brasil, a se considerar também a atuação das associações científicas e os eventos por elas produzidos. Indicadores deste incremento podem ser percebidos ao considerarmos o número de trabalhos científicos apresentados anualmente nos dois principais congressos brasileiros de pesquisa em Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS) -, nos congressos realizados pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) desde 1995 e na criação, em 2003, da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Estes movimentos revelam uma intenção dos pesquisadores em produzir um avanço teórico do campo, melhor definição de metodologias adequadas ao estudo
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do Jornalismo e aprofundamento no conhecimento das especificidades do objeto em relação com conhecimentos sobre a comunicação e a sociedade. A expansão da pesquisa em jornalismo levou a Intecom a diversificar, em seu congresso anual, os grupos de trabalhos dedicados ao jornalismo. Em seu XXXIII Congresso em 2010, foram cinco grupos de trabalho em Jornalismo: Gêneros Jornalísticos, História do Jornalismo, Jornalismo Impresso, Telejornalismo e Teoria do Jornalismo. No 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo (ENPJ), em 2010, foram seis grupos com relatos de experiências de ensino e pesquisa: Atividades de Extensão; Ensino de Ética e Teorias do Jornalismo; Pesquisa na Graduação; Produção Laboratorial Eletrônicos; Produção Laboratorial Impressos; e Projetos Pedagógicos e Metodologias de Ensino. Em 2003, pesquisadores em jornalismo reuniram-se na Universidade de Brasília (UnB) e fundaram a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A entidade busca agregar pesquisadores que têm o Jornalismo como objeto de pesquisa e desenvolvem, a partir de seu estudo, a consolidação da área de conhecimento do Jornalismo, atuando em conjunto com as demais associações científicas ou profissionais já existentes no campo da Comunicação. A SBPJor realiza, desde seu primeiro ano de funcionamento, um encontro nacional de pesquisadores em Jornalismo. A Tabela 1 a seguir mostra, de forma sintética, a evolução dos congressos nacionais da SBPJor. Ressalte-se que este é o número de trabalhos efetivamente aprovados para apresentação, após a etapa de seleção conduzida pela Diretoria Científica da entidade.
Tabela 1 – Encontros anuais da SBPJor Encontro 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º Ano 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Cidade Brasília Salvador Florianópolis Porto Alegre Aracaju São Bernardo São Paulo Universidade Realizadora UnB (Universidade de Brasília) UFBA (Universidade Federal da Bahia) UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) UFS (Universidade Federal de Sergipe) UMESP (Universidade Metodista de São Paulo) USP (Universidade de São Paulo) Trabalhos apresentados 60 95 129 113 114 152 158

Fonte: SBPJor (www.sbpjor.org.br) 110

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Prêmio Adelmo Genro Filho de pesquisa em Jornalismo Como a pesquisa em Jornalismo tem uma longa tradição nas universidades e programas de pós-graduação, a SBPJor decidiu criar, em 2004, uma premiação anual para eleger os melhores trabalhos desenvolvidos em monografias de final de curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado que tenham o Jornalismo como objeto central. Sua finalidade é identificar anualmente quais os pesquisadores que apresentaram contribuições relevantes para o campo da pesquisa em Jornalismo, de modo a construir/consolidar a identidade do nosso campo científico. Esta premiação anual foi denominada “Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo”. Além destas três categorias de premiação (monografias, dissertações e teses), anualmente a SBPJor elege um pesquisador sênior, a fim de identificar, na comunidade científica, pessoas cuja obra de pesquisa em jornalismo seja vasta, tenha repercussões e influências no desenvolvimento teórico em Jornalismo e esteja contribuindo para consolidação científica do campo. A inserção internacional da pesquisa em Jornalismo Além do crescimento dos estudos sobre Jornalismo no País, os pesquisadores da área têm traçado estratégias de inserção destes trabalhos em fóruns internacionais de pesquisa em Jornalismo. Duas estratégias têm sido mais utilizadas: a publicação de estudos brasileiros em revistas disponíveis à comunidade internacional; e a realização de eventos e intercâmbios internacionais. Conforme Marques de Melo e Moreira (2009, p. 5), a primeira vez em que os estudos brasileiros em Jornalismo ganharam alcance internacional foi com a publicação de um trabalho de Danton Jobim em 1954 na revista Journalism Quarterly. Nas décadas seguintes, poucos pesquisadores brasileiros em Jornalismo conseguiram disseminar internacionalmente suas investigações. Nos últimos anos, porém, novos esforços têm sido empreendidos para dar conhecimento em outros países das investigações feitas no Brasil. Talvez um dos indicativos de que estes esforços vêm obtendo algum êxito foi a edição especial da conceituada revista científica Journalism: Theory, Practice and Criticism em 2009 com cinco artigos de autores brasileiros dando um panorama da pesquisa em jornalismo no País. Um segundo esforço bem sucedido ocorreu com uma missão exploratória de pesquisadores em jornalismo brasileiros na África do Sul em 2009 para participar de seminários com investigadores sul-africanos. Este evento resultou na publicação dos papers apresentados neste encontro em uma edição especial da revista Communicatio em 2010, com o tema Journalism in the global South: South Africa and Brazil.
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Além da busca pela aprovação de artigos em periódicos internacionais, outra estratégia de internacionalização tem sido a revista Brazilian Journalism Research, editada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A proposta desta revista tem sido obter reconhecimento como um periódico científico de referência internacional para o campo de estudos em jornalismo. Esta linha de trabalho se definiu desde o lançamento da primeira edição da BJR, em 2005, ao optar pela publicação de artigos em língua inglesa para estimular a inserção internacional da pesquisa brasileira em Jornalismo. A partir de 2008, tornou-se bilíngue, com versões também em português para facilitar o aproveitamento dos textos junto aos cursos de graduação em Jornalismo no Brasil. Nas suas dez edições nestes cinco anos de existência, foram publicados 104 artigos científicos apresentando as principais correntes e tendências contemporâneas da pesquisa em jornalismo, com a participação de 148 autores vinculados a instituições caracterizadas por sua diversidade regional. Ressalte-se que, destes autores, 31 são oriundos de universidades estrangeiras. Outra forma de busca por inserção internacional da pesquisa em Jornalismo tem sido a realização de eventos internacionais. Em 2004, a SBPJor participou da organização do “V Congreso Iberoaricano de periodismo em Internet”, realizado em Salvador, Bahia, promovido pela Sociedad Iberoamericana de Acadêmicos, Investigadores y Profesionales del Periodismo en Internet. Em 2006, a SBPJor promoveu a primeira edição da Journalism Brazil Conference em Porto Alegre, em parceria com o Grupo de Estudos em Jornalismo da International Communication Association (ICA), com a Seção de Educação Profissional da International Association for Media and Communication Research (IAMCR) e com a Seção de Estudos de Jornalismo da European Communication Research and Education Association (ECREA). O congresso reuniu pesquisadores de 18 países: África do Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Estados Unidos, Finlândia, França, Gambia, Ghana, Grécia, Inglaterra, México, Nigéria, Porto Rico, Portugal, Suíça, Turquia e Zimbabwe. Ao todo, houve 210 inscritos – 180 brasileiros e 30 estrangeiros. Descrição das principais áreas de pesquisa em jornalismo A expansão da pesquisa em Jornalismo tem se dado aliada a uma diversificação de tópicos, enfoques e problemas. As tabelas a seguir descrevem os temas mais recorrentes em três cenários diferentes: a) os papers apresentados no grupo de trabalho Estudos de Jornalismo, dos encontros anuais da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS) nos anos de 2000 a 2003 (Tabela 2); b) um total de 263 papers apresentados em 2003 e 2004 no congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
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(Intercom), no congresso da COMPÓS e no congresso da SBPJor (Tabela 3); c) 67 grupos de pesquisa cadastrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em 2004 que foram localizados por meio da palavra-chave “jornalismo”. Em seu resumo de identificação, estes 67 grupos de pesquisa citaram 101 campos de pesquisa em Jornalismo, descritos sumariamente na Tabela 4.
Tabela 2 – Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho Estudos de Jornalismo, da COMPÓS (2000-2003) Categoria Teorias do Jornalismo Jornalismo Digital Ética e Jornalismo Estudos de linguagem Produção de notícias e processos jornalísticos História do jornalismo Distribuição % 35,5 20,8 14,5 12,5 8,3 8,3 Fonte: Machado (2005, p. 36)

Tabela 3 – Temas de trabalhos apresentados em seis congressos brasileiros (COMPÓS, Intercom e SBPJor) em 2003 e 2004 Tema Enquadramento / Temas e cobertura Linguagem / Narrativa / Formato Produção Jornalística / Newsmaking Teorias do Jornalismo História do Jornalismo Recepção e efeitos Estudos da profissão Novas tecnologias Distribuição (263 trabalhos)% 24,3 23,6 13,7 9,9 9,1 4,2 2,4 1,9 Fonte: Meditsch e Segala (2005, p. 53)

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Tabela 4 – Estudos em jornalismo nos Grupos de Pesquisa do CNPq Categoria Produção de notícias e processos jornalísticos Estudos de linguagem Jornalismo especializado Jornalismo digital Teoria do jornalismo História do jornalismo Estudos de recepção Ética e jornalismo Jornalismo e educação Distribuição (67 grupos) % 26,73 22,77 12,87 9,90 9,90 7,92 5,94 2,97 1,00
Fonte: Machado (2005, p. 33)

Ao observar as três tabelas, é possível perceber a presença de algumas áreas cuja pesquisa em Jornalismo é mais intensa: a) há um grupo de pesquisadores que se dedica a analisar os modos como os jornalistas produzem seu material noticioso, suas rotinas de trabalho, as regras, valores e procedimentos organizacionais. Isto reflete a absorção, pelos pesquisadores brasileiros, de uma literatura sociológica de língua inglesa sobre a produção noticiosa, cuja pesquisa teve vigor nos anos de 1970 e 1980; b) Deve-se considerar um esforço em buscar a consolidação teórica do campo do jornalismo ao tentar constituir e consolidar uma teoria do jornalismo como quadro conceitual de análise do fenômeno jornalístico. Conforme apresentado anteriormente, a teorização sobre o Jornalismo não é recente nos estudos brasileiros, mas esta afirmação de uma terminologia que destaca uma especificidade teórica para se investigar este objeto mostra uma preocupação em delimitar e institucionalizar campos de competência e de fundamentação epistemológica; c) Os estudos em jornalismo articulam-se a quadros teórico-metodológicos consolidados nas ciências humanas, como os estudos de linguagem, estudos de recepção, aspectos éticos da atividade ou abordagens históricas; d) Há a emergência de um novo campo de pesquisa, a produção jornalística nos ambientes digitais em rede. Estes trabalhos já ganharam força na primeira metade da década e tenderam a se diversificar e complexificar com a expansão desta tecnologia.
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A publicação de periódicos científicos especializados em Jornalismo Ao realizar um estudo sobre os periódicos científicos brasileiros na área de comunicação, Elias Machado (2010) constatou que, em quase 40 anos de existência destas publicações, oito podem ser considerados especializados em jornalismo: 1. Cadernos de Jornalismo e Editoração – lançado em 1970 pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; 2. Pauta Geral – Revista Brasileira de Jornalismo – publicado desde 1993 pelos pesquisadores Elias Machado e Sergio Gadini; 3. Anuário de Jornalismo – 1991, ECA-USP; 4. Anuário de Jornalismo – Cásper Líbero, 1999-2004; 5. Estudos em Jornalismo e Mídia, editada desde 2004 pelo programa de pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina; 6. Pensamento Jornalístico Brasileiro – PJ:Br, vinculada ao Departamento de Jornalismo da ECA-USP; 6. Brazilian Journalism Research, editada a partir de 2005 pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor); 7. Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo – REBEJ, publicada pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) desde 2007. A maioria destas revistas (Brazilian Journalism Research, Pauta Geral, Jornalismo e Mídia, PJ:Br e REBEJ) continua sendo publicada regularmente e disponível em formato online e com livre acesso.

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Referências Bibliográficas e Sites DIAS, Osni T. “Vitorino Prata Castelo Branco e o primeiro Curso Livre de Jornalismo do Brasil”. Trabalho apresentado no II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho. Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004. Disponível em http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/artigos/1257.html GOBBI, M.C. (coord). “Projetos Experimentais: entre a teoria e a prática do fazer jornalismo”. Revista PJ:BR Revista de Jornalismo Brasileiro. Nº 4, 2º semestre de 2004. São Paulo: ECA/USP, 2004. MACHADO, Elias. Challenges for the consolidation of Brazilian scientific journals in the journalism and communication areas. Routledge/UNISA Press: Communicatio: South African Journal for Communication Theory and Research, Volume 36 Issue 2 2010. MACHADO, Marcia Benetti. Data and Reflections on Three Journalism Research Environments. Brazilian Journalism Research. Vol 1, Number 1, Semester 1, 2005. MARQUES DE MELO, José. Journalistic thinking: Brazil’s modern tradition. Sage: Journalism, 2009. Vol. 10(1). MARQUES DE MELO, José; LINS DA SILVA, Carlos Eduardo e FADUL, Anamaria (org.). Ideologia e poder no ensino de comunicação. São Paulo, Cortez & Moraes, 1979. MARQUES DE MELO, José; MOREIRA, SONIA VIRGINIA. Brazilian journalism – the state of research, education and media. Sage: Journalism, 2009. Vol. 10(1). MEDITSCH, Eduardo; SEGALA, Mariana. Trends in Three 2003/4 Journalism Academic Meetings. Brazilian Journalism Research. Vol 1, Number 1, Semester 1, 2005.

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Elias Machado9

O trabalho para a constituição de uma comunidade de pesquisadores brasileiros em Jornalismo conta com antecedentes de muitos nomes ilustres, com destaque para os pioneiros no estudo deste objeto no país como Alfredo de Carvalho, Alceu de Amoroso Lima, Antonio Olinto, Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini, Luiz Beltrão, José Marques de Melo, Nilson Lage, Cremilda Medina, Muniz Sodré, Luiz Gonzaga Motta, Juarez Bahia, Ciro Marcondes Filho e Adelmo Genro Filho, entre outros. Sem as ações destes desbravadores para a legitimação do Jornalismo como objeto digno de atenção acadêmica, dificilmente se conseguiria, anos depois, a fundação de uma sociedade científica especializada. No período que vai do final do século XIX até o começo dos anos 70 do século XX, a pesquisa em Jornalismo dependia de ações individuais dos interessados no tema devido à inexistência de centros de pós-graduação, com grupos de especialistas na temática. Após a abertura dos primeiros programas de pós-graduação em Comunicação no Rio de Janeiro e São Paulo e a criação de grupos de trabalho na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), o Jornalismo voltou a ganhar relevância como objeto de estudo. Ao menos desde o começo dos anos 90, quando do lançamento do GT de Jornalismo da Intercom, liderado pelo professor José Marques de Melo, existia a preocupação de articular um espaço permanente para institucionalização do Jornalismo como área científica com status próprio, o intercâmbio de discussões acadêmicas, desenvolvimento de metodologias de pesquisa e defesa dos interesses da comunidade dentro do campo multifacetado das Ciências da Comunicação. No lançamento do GT da Intercom, em 1993, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, tivemos as presenças de alguns nomes históricos, como José Marques de Melo, Nilson Lage e Sérgio Mattos e de jovens pesquisadores, então estudantes de Mestrado ou Doutorado como Paulo Roberto Botão, Sergio Gadini, Elias Machado, Victor Gentilli e Gerson Martins. O grande obstáculo para uma maior institucionalização era a falta de pesquisadores doutores. Desde o começo dos anos 2000 o quadro tinha mudado muito. A maioria dos principais pesquisadores, de diferentes gerações, das mais experientes às mais jovens, havia concluído o doutorado e trabalhava em algum dos mais de 20 programas de pós-graduação em Comunicação existentes. O cenário possibilitava a concretização do sonho de uma entidade própria, antes deixado em segundo
9 Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Diretor de Relações Nacionais da Federação Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Socicom).

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plano por absoluta falta de especialistas em número suficiente para viabilizar o projeto. Durante as Jornadas de Jornalismo, na Universidade Fernando Pessoa, em abril de 2003, em Portugal, o tema passou das conversas até então isoladas para uma articulação mais concreta da proposta. Depois de consultas aos colegas presentes a discussão foi ampliada. Dois meses depois, aproveitando a reunião dos pesquisadores no GT de Jornalismo da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS), em Recife, no mês de junho, foi marcada uma reunião para aprovar um Comitê Nacional para formalizar a convocação do I Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, em Brasília, nos dias 28 e 29 de novembro, que tinha como um de seus objetivos a fundação da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR). A Comissão Organizadora estava formada por pesquisadores da Bahia, Brasília, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Com mais de 100 participantes e 66 trabalhos apresentados, o congresso terminou com a aprovação dos estatutos e a eleição da primeira diretoria da SBPJOR. A constituição da SBPJOR era uma demonstração de que a comunidade de pesquisadores que havia cumprido um a um com a quase totalidade dos prérequisitos considerados indispensáveis para a legitimação do Jornalismo como disciplina científica: 1) definição do objeto; 2) adaptação de metodologias; 3) incorporação como disciplina acadêmica; 4) titulação em nível de doutorado dos pesquisadores; 5) criação de fóruns para discussão das pesquisas; 6) grupos de pesquisa e 7) edição de periódicos científicos, estava madura o suficiente para garantir a sua autonomia dentro do multifacetado campo das Ciências da Comunicação. Primeiros passos Vencido o desafio da criação da entidade, o esforço passou a ser a viabilização de um arrojado plano de trabalho elaborado pela diretoria e que incluía, entre outros aspectos, a estruturação legal e financeira da associação, a organização de congressos anuais, a filiação dos pesquisadores, a representação nas agências de fomento, o apoio para projetos de abertura de programas de pós-graduação específicos em Jornalismo, o lançamento de lista de discussão e de um jornal eletrônico mensal, o SBPJor Notícias, a definição de uma política para as redes de pesquisa, o lançamento de uma revista científica em inglês para divulgação internacional da produção brasileira e a atuação em conjunto com as demais entidades do campo do Jornalismo (FENAJ10 e FNPJ11 ).
10 Federação Nacional dos Jornalistas. 11 Fórum Nacional de Professores de Jornalismo

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Passado menos de um ano, quando da realização do II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, na UFBA, em Salvador, em novembro de 2004, a SBPJOR estava legalizada, em plena atividade e com mais de 200 associados, 47 doutores. Neste congresso decidimos adotar uma estrutura diferenciada para apresentação de trabalhos, fugindo dos tradicionais GTs, com dois tipos de comunicações: 1) as comunicações coordenadas, com até seis trabalhos articulados em torno de um tema comum e 2) as comunicações individuais, para os pesquisadores com trabalhos isolados. Com as mesas coordenadas a SBPJOR queria estimular a formação de redes de pesquisa, em consonância com as novas políticas científicas determinadas pelas agências de fomento como CNPq e CAPES. Neste mesmo ano foi criado o Prêmio Adelmo Genro Filho para reconhecer os melhores trabalhos produzidos pelos pesquisadores em Jornalismo, o regulamento com as pré-condições para a montagem dos encontros nacionais e as normas para as redes de pesquisa, uma das apostas estratégicas da SBPJOR. Enquanto o regulamento entrou em vigor de imediato, o Prêmio Adelmo Genro Filho teve que esperar até 2006 pela primeira edição e as redes de pesquisa até 2007, com a oficialização das primeiras propostas encaminhadas para a diretoria nas áreas de telejornalismo e de observatórios de imprensa. Em 2005 vivemos um dos momentos políticos mais importantes para a legitimação institucional da SBPJOR. Se desde 2004 contávamos com o apoio da CAPES e do CNPq para os nossos congressos anuais, neste ano passamos pela prova de fogo de ter que reverter a proposta apresentada pelo CNPq que simplesmente transformava o Jornalismo de subárea em especialidade. A posição de vanguarda na defesa da pluralidade das Ciências da Comunicação contribuiu que fosse consensuada nova versão da Tabela de Área de Conhecimento que acatava as sugestões feitas pelos pesquisadores em Jornalismo. A consolidação institucional A política de institucionalização da SBPJOR pressupunha uma atuação em três frentes: 1) uma para aumentar o número de filiados e profissionalizar mais as atividades dos pesquisadores; 2) uma de relação com as demais associações científicas da área, com as entidades do campo do Jornalismo e com as agências de fomento e 3) uma de contatos de caráter estratégico com os pesquisadores e com as associações relacionadas com o Jornalismo no plano internacional.
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No plano interno, a direção desenvolveu um mapeamento dos pesquisadores e lançou uma campanha de filiações, através de contatos diretos com cada um dos filiados em potencial. Ato contínuo definiu critérios padronizados para a escolha dos trabalhos submetidos aos encontros anuais, revisados por dois consultores escolhidos entre os associados seniores. Ao mesmo tempo passou a publicar, em 2005, a Brazilian Journalism Research, (BJR), com um conselho editorial internacional e a primeira da área com textos em inglês, o que obrigava nossos pesquisadores a melhorar o nível dos seus trabalhos. Desde a criação da SBPJOR, em 2003, tivemos o cuidado de estreitar relações com as agências de fomento, com as demais associações científicas, acadêmicas e sindicais, convidando para os congressos anuais os representantes de área no CNPq e na CAPES e os presidentes FENAJ e do FNPJ. Na fundação da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, além destas entidades contamos com as presenças de diretores da Intercom e da Sociedade Brasileira Para Ciência (SBPC). Depois a instituição passou a fazer contatos com colegas pesquisadores de renome nos cinco continentes para que integrassem o conselho editorial da BJR e com a FENAJ e o FNPJ para fortalecer o campo do Jornalismo. Também houve reuniões com representantes de algumas das principais associações internacionais como International Association for Media Communication Research e a International Communication Association para desenvolver parcerias como a Journalism Brazil Conference, um congresso bi-anual projetado para reunir no país pesquisadores de primeira linha no mundo. Defesa do campo do Jornalismo Na defesa do campo do Jornalismo a direção da SBPJOR, resguardando as particularidades de cada uma das entidades, (acadêmicas, científicas e sindicais), sempre esteve em sintonia com a FENAJ e FNPJ na luta por projetos comuns. A ação conjunta das entidades contribuiu para manifestar a posição unificada do campo do Jornalismo, antes fragmentado em distintas frentes e sem uma voz articulada no plano nacional. Em 2005 foi articulado o apoio da FENAJ e do FNPJ quando das negociações com o CNPq para manter o Jornalismo como subárea na Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC). Entre 2006 e 2007 a SBPJOR participou na discussão das Diretrizes para os Cursos de Graduação então propostas pelo Ministério da Educação e que recomendava a redução do tempo de formação para três anos e a volta dos dois anos de básico. Nos anos de 2008 e 2009 a SBPJOR manteve participação unificada
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com a FENAJ e o FNPJ durante as ações em defesa da exigência da formação superior específica para o exercício da profissão, na elaboração da proposta de Novas Diretrizes para o Ensino de Jornalismo e durante as audiências públicas convocadas pelo Congresso Nacional para discussão da Proposta de Emenda Constitucional que restitui a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo. Legitimação como área científica A SBPJOR representa um marco, possibilitando identificar um antes e um depois, na legitimação do Jornalismo como área científica com status próprio. Ao longo destes últimos setes anos houve crescimento contínuo em diversos indicadores de produção neste campo de conhecimento como número de pesquisadores com doutorado, de grupos de pesquisa registrados no CNPq, de linhas e projetos de pesquisa em programas de pós-graduação, de trabalhos apresentados nos congressos anuais e de pesquisadores PQ do CNPq. Em menos de 20 anos, desde o primeiro levantamento do CNPq em 1993, o total de grupos de pesquisa relacionados com o jornalismo havia saltado de zero em 1993, para 15 em 2002 e, como resultado das articulações existentes entre os especialistas da área, 47, em 2003. Em 2005, o total de grupos de pesquisa passou para 68; dois anos depois, em 2007, a cifra atingiu 106 e uma consulta ao diretório do CNPq em outubro de 2010 revela que o total de grupos chegou a 155. O número de filiados passou de 94 no ato de fundação para 319 em 2007 e está em 380 em 2010. O total de associados doutores que era 47 em 2004 saltou para mais de 150 em 2010. O número de programas de pós-graduação com linhas de pesquisa em Jornalismo passou de um em 2003 para quatro em 2010 e, mais importante que todos estes fatos, em 2007, a CAPES aprovou o primeiro Programa de Pós-Graduação com Área de concentração em Jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina. Na avaliação trienal da CAPES em 2010 o Programa da UFSC subiu de nota 3 para 4, que indica uma consolidação do projeto. Em 2010, ao comemorar os cinco anos de existência regular, a Brazilian Journalism Research divulgou um levantamento que ao longo de suas 10 primeiras edições publicou 104 artigos científicos apresentando as principais correntes e tendências contemporâneas da pesquisa, com a participação de 148 autores vinculados a instituições caracterizadas por sua diversidade regional. Destes autores, 31 são oriundos de universidades estrangeiras, fator que reforça a proposta inicial da BJR de ser um periódico científico de referência internacional para os estudos em Jornalismo.
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Para o VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, organizado em novembro de 2010 em São Luiz, na Universidade Federal do Maranhão, foram selecionados 150 trabalhos. Nas comunicações livres 100 foram aprovados por uma comissão de pareceristas formada por mais de 80 sócios plenos (doutores). A Região Nordeste teve o maior número de trabalhos inscritos (43), seguida pela Região Sudeste (40) e Região Sul (32). Nas comunicações coordenadas foram selecionados 50 trabalhos nas 10 mesas coordenadas. No total participaram 97 doutores. Dividido por regiões, os trabalhos ficam classificados em: Região Sudeste (19), Região Sul (13), Região Nordeste (11), Região Centro-Oeste (7). Ainda que em ritmo lento, vem crescendo o número de pesquisadores relacionados ao Jornalismo contemplados com bolsas de produtividade pelo CNPq, chegando a 24 no total dentre os 106 bolsistas ativos: Ada Machado, Antonio Fausto Neto, Alfredo Vizeu, Afonso Albuquerque, Antonio Hohlfeldt, Ciro Marcondes Filho, Christa Berger, Eduardo Meditsch, Elias Machado, Jacques Wainberg, José Luiz Aidar Prado, Juremir Machado, Luiz Martins, Marcia Benetti, Marialva Barbosa, Mayra Rodrigues, Muniz Sodré, Paulo Bernardo Vaz, Raquel Paiva, Rosana Lima Soares, Rogerio Christofoletti, Sonia Virginia Moreira, Tattiana Teixeira e Zelia Adghirni. Atuação na Área de Comunicação A SBPJOR defende o pressuposto de que a legitimação plena do Jornalismo passa pela consolidação das Ciências da Comunicação como Grande Área do Conhecimento. Para concretizar este propósito a SBPJOR estabeleceu relações com as outras associações e estimulou a criação de novas entidades como a Associação Brasileira de Pesquisadores de Relações Públicas e Comunicação Organizacional e integrou o movimento a favor da Federação Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Socicom) e da Confederação Ibero-americana de Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Confibercom). A SBPJOR esteve na linha de frente com a Intercom nas articulações para a fundação da Socicom, tendo participado na comissão de redação dos estatutos e indicado o ex-presidente Elias Machado para compor a primeira diretoria, eleita em 2008 e Carlos Franciscato e Claudia Lago para integrar o Conselho Deliberativo. A SBPJOR apoiou as propostas aprovadas pela Socicom e compareceu aos seminários anuais de integração. No plano internacional, a SBPJOR esteve no congresso de fundação da Confederação Ibero-americana de Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Confibercom), em abril de 2009, na cidade de Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal. Como no caso da Socicom, o ex-presidente da SBPJOR, Elias Machado, que representou a delegação brasileira nas negociações com os diretores das associações dos outros
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países, assumiu o cargo de Diretor Administrativo da Confibercom. Entre as ações institucionais mais relevantes lideradas pela SBPJOR está a atuação para indicar os representantes nas agências de fomento como CAPES e CNPq a partir de acordos entre as entidades com direito a voto. Desde 2007, antes mesmo da existência da Socicom, a SBPJOR tem feito contatos para a indicação consensual dos representantes no CNPq. Naquele ano, a SBPJOR fechou uma lista tríplice com a Intercom. Três anos depois, em 2010, a SBPJOR voltou a participar de uma articulação desta vez com a ABJC. Do ponto de vista institucional a SBPJOR defende que nestes casos que envolvem interesses estratégicos a decisão seja consensual, apoiando nomes comprometidos com o conjunto da Área de Comunicação.

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Fórum Nacional de Professores de Jornalismo- FNPJ Gerson Luiz Martins12 Carmen Pereira13 Introdução A proposta de reunir professores dos cursos de Jornalismo surgiu do grupo que participou do Seminário de Atualização para Professores de Jornalismo (Labjor/ Unicamp - 1994). Em seguida, foi levada para o Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - Intercom 94 (Piracicaba/SP), na busca de um espaço regular para que os professores de jornalismo pudessem se reunir anualmente. Nesse momento, o Congresso da Intercom tinha organizado um Encontro de Professores de Comunicação Comparada. O número de professores de Jornalismo ampliou-se ano a ano, congresso a congresso. Assim, foi marcado o I Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, num esforço para debater questões inerentes ao Ensino de Jornalismo num momento e espaço próprio. Em ambas as ocasiões foram feitas avaliações gerais sobre a realidade dos cursos de Jornalismo e a necessidade de realizar discussões sistemáticas visando à busca de novos caminhos a partir da experiência que vem sendo desenvolvida pelos próprios docentes. O Fórum Nacional de Professores de Jornalismo tem como objetivo reunir professores e profissionais da área de jornalismo para debater e encaminhar propostas sobre questões inerentes à formação do jornalista profissional. Qualidade da formação, diretrizes curriculares, laboratórios, teoria e técnica do jornalismo, pesquisa, desenvolvimento de novas habilidades e tecnologias, ética e legislação, mercado de trabalho são as principais questões que envolvem a formação jornalística e para as quais os participantes do Fórum buscam o desenvolvimento e melhorias. O I Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Congresso da Intercom 95 (Aracaju/SE). Na oportunidade, vários temas foram levantados. Entre eles o Projeto Pedagógico para o curso de Jornalismo, o perfil dos professores de Jornalismo, o estágio e a inserção dos professores nos projetos de Pesquisa e Extensão. Foi reafirmada, ainda, a oficialização do Núcleo de Professores de Jornalismo junto à direção da Intercom, a fim de que as atividades desenvolvidas passassem a fazer parte das ações da entidade. Como desdobramento foi realizado o Simpósio Didático-Pedagógico de Professores de Jornalismo, em abril de 1996,
12 Diretor de Relações Institucionais do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). 13 Diretora Sudeste do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ).

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na PUC/Minas, quando o debate sobre o processo pedagógico foi aprofundado. Foi decidida a realização de uma pesquisa sobre o Perfil do Professor de Jornalismo, sob a responsabilidade da PUC/Campinas e do Labjor, e a publicação de uma revista reunindo experiências do ensino de Jornalismo. O II Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Intercom 96 (Londrina/PR). Dentre as deliberações, ficou aprovada a denominação Fórum Nacional de Professores de Jornalismo como identificadora do grupo. Foi reafirmado o compromisso do Departamento de Comunicação Social da PUC/ Minas de editar uma revista anual sobre o ensino de Jornalismo e apresentado o projeto para a realização da pesquisa Perfil do Professor de Jornalismo visando a obter, entre outras informações, o número de professores, grade curricular, recursos pedagógicos disponíveis e perfil dos dirigentes destas unidades. O Currículo nas Escolas de Comunicação foi o tema central das discussões a partir da exposição dos professores Erasmo Nuzzi sobre “Atualização das Normas do Ensino de Comunicação Social”, e de Celso Luiz Falaschi sobre “O Jornalismo Brasileiro em crise: a dicotomia entre a formação e o mercado de trabalho”. Foi decidido que o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo retomaria a discussão no Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, promovido pela FENAJ, em maio de 1997, em Vila Velha/ES. Nesse evento alguns professores participaram como delegados indicados pelos sindicatos, pois o tema central foi a qualidade do ensino de Jornalismo. A revista criada pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo recebeu o nome de Cadernos do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e foi publicada em agosto de 1997, editada pela professora Sandra Freitas, com o apoio da PUCMinas. A revista apresenta textos dos professores Celso Falaschi, intitulado “JornalLaboratório estimula primeiranistas”; Carlos Alexandre, “Projeto Sinopse”; Teresinha Maria de Carvalho Cruz Pires, “Teóricos e metodólogos”; Maurício Lara Camargos, “Um ovo de Colombo?”; Maria Isabel Tim, “A produção de hipertextos e a formação de jornalistas”; Dirceu Fernandes Lopes – “Reflexões sobre o ensino de jornalismo”; Victor Gentilli – “Nova prática no ensino de jornalismo: uma experiência no Espírito Santo”; Celso Falaschi – “O jornalismo brasileiro em crise: a dicotomia entre a formação e o mercado de trabalho” e Sandra Maria de Freitas – “Olhos que querem ver”. O III Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Intercom 97 (Santos/SP). Na oportunidade, foi lançada a revista sob o título Cadernos do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo reunindo experiências de professores do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo e apresentados os resultados da pesquisa Perfil do Professor de Jornalismo. Também foi apresentado um relato das propostas do Núcleo de Professores de Jornal-Laboratório.
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O IV Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi em Recife (PE) durante o Intercom 98. No primeiro semestre de 1999, o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo promoveu junto com a FENAJ e a PUC/Campinas o Seminário Nacional de Diretrizes Curriculares do Ensino de Jornalismo visando a discutir a proposta para as Diretrizes Curriculares do Ensino de Comunicação formulada pela Comissão de Especialistas SESu/MEC. O V Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu no Rio de Janeiro no Intercom 99. O tema central foi As Diretrizes Curriculares do Ensino de Comunicação a partir da mesa-redonda que contou com a participação dos professores Sebastião Faro, André Parente, Eduardo Meditsch, Victor Gentilli, sob a coordenação da professora Sandra Freitas. O VI Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Manaus, no Intercom 2000. O 4º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Campo Grande, entre os dias 26 e 29 de abril de 2001. A reclassificação da numeração dos Encontros ocorreu porque os três últimos Encontros, de Recife, Rio de Janeiro e Manaus não tiveram uma participação efetiva dos professores e nenhum registro foi realizado desses Encontros. O evento em Campo Grande foi uma iniciativa do professor Gerson Luiz Martins em contato com os professores Victor Gentilli, Eduardo Meditsch e Carmen Pereira, naquele momento os interlocutores do FNPJ. O Encontro de 2001 se caracterizou como um Seminário no qual foram convidados alguns pesquisadores em jornalismo para apresentar reflexões de interesse dos professores. Foram convidados os professores Nilson Lage, que falou sobre O ensino do jornalismo no século XXI; Eduardo Meditsch, sobre Problemas a superar na pesquisa em jornalismo; Luiz Martins da Silva, sobre Um projeto pioneiro; Francisco Karam, sobre Formação e ética jornalística; e Valci Zucoloto, sobre A qualidade do ensino de jornalismo. O Encontro de Campo Grande também foi marcado pelo retorno dos Encontros Nacionais autônomos, ou seja, fora dos Congressos da Intercom. Este Encontro teve uma grande participação de professores e coordenadores de curso de jornalismo, pois foi realizado concomitantemente com o Seminário de Avaliação do Exame Nacional de Cursos – ENC (Provão) de Jornalismo. Esse fato facilitou a presença de inúmeros coordenadores de curso, tendo em vista que as universidades e faculdades subsidiavam a presença de seus representantes. Também neste Encontro foi realizada uma reunião dos professores e coordenadores de curso de Jornalismo das universidades federais, que, naquele momento, enfrentavam graves dificuldades de infraestrutura nos cursos. Nessa reunião, com a participação do Diretor de Avaliação do Ensino Superior do INEP, professor Tancredo Maia Filho, se definiu por agendar uma reunião com o ministro da Educação, Paulo Renato com objetivo de equacionar o problema de infraestrutura dos cursos.
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Da reunião com o ministro da Educação resultou o Fungrandão que proveu os cursos de jornalismo das universidades federais de inúmeros equipamentos para compor os laboratórios de comunicação deficitários. Ainda neste 4º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ficou definido a realização anual dos Encontros e a alteração de formato para um evento que possibilitasse aos professores e pesquisadores em jornalismo apresentar experiências, pesquisas, projetos sobre ensino de jornalismo. Neste encontro também ficaram na coordenação nacional do FNPJ os professores Carmen Pereira, Gerson Luiz Martins e Sandra de Deus. O Encontro de 2002 ficou programado para Porto Alegre, organizado pela UFRGS. O 5º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Porto Alegre, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenado pelas professoras Sandra de Deus e Márcia Benetti Machado, entre os dias 28 e 30 de abril de 2002. Para este evento foram criados Grupos de Trabalho, espaços para a apresentação de trabalhos dos professores, pesquisadores de jornalismo, divididos nos seguintes temas: Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Gerson Luiz Martins; Projetos Pedagógicos, coordenado pela professora Carmen Pereira; Atividades de Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus e Produção Laboratorial, coordenado pelo professor Juliano Carvalho. Neste encontro a conferência de abertura foi realizada pelo professor da Escola de Comunicações da USP, Bernardo Kucinski com o tema “Uma nova ética para uma nova modernidade”. Também foi publicada a Carta de Porto Alegre que, entre outros temas, definia a “defesa da exigência do diploma de jornalismo”, a parceria do FNPJ com a FENAJ, a institucionalização do FNPJ, a regulamentação dos encontros nacionais e uma nova estrutura para os Grupos de Trabalho que ficaram assim definidos: Projetos Pedagógicos, coordenado pela professora Sandra Freitas; Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Gerson Luiz Martins; Atividades de Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus; Produção Laboratorial nos Meios Eletrônicos, coordenador pelo professor Juliano Carvalho e Produção Laboratorial no Meio Impresso, coordenado pela professora Carmen Pereira. O 6º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu em Natal (RN), em 2003, na Universidade Potiguar (UnP) entre os dias 1 e 3 de maio. A conferência de abertura do Encontro foi realizada pela professora da UFRJ Ana Arruda Calado sobre o tema O desafio do ensino diante da vocação pública do jornalismo. Os Grupos de Trabalho tiveram trabalhos inscritos por professores e pesquisadores em jornalismo. Foram sete trabalhos para o GT de Pesquisa na Graduação; 20 trabalhos para o GT Projetos Pedagógicos; oito trabalhos para o GT Atividades de Extensão; sete trabalhos para o GT Projetos Laboratoriais –
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Eletrônicos e 14 trabalhos para o GT Projetos Laboratoriais – Impressos. O 7º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Florianópolis, em 2004, entre os dias 18 e 20 de abril, com o tema “Os desafios do ensino de jornalismo na transição tecnológica” e conferência realizada pelo professor e pesquisador em jornalismo da Universidade Nova de Lisboa, Nelson Traquina. O Encontro de Florianópolis marcou uma nova etapa do FNPJ, após 10 anos de sua criação. Os professores, pesquisadores, profissionais de jornalismo presentes no evento realizaram a institucionalização da entidade e elegeram a primeira diretoria. Além disso, foi realizado o terceiro Pré-Fórum da Fenaj, sessão realizada na pré-programação do Encontro Nacional de Professores de Jornalismo. Os Grupos de Trabalhos foram coordenados pelos professores Cristóvão Pereira – Projetos Pedagógicos; Sandra de Deus – Atividades de Extensão; Gerson Luiz Martins, Pesquisa na Graduação; Carmen Pereira – Produção Laboratorial – Impressos; e Sandra Freitas – Produção Laboratorial – Eletrônicos. A primeira diretoria eleita do FNPJ foi composta pelos professores Presidente: Gerson Martins – UFRN; Vice-presidente: Carmen Pereira - UCB – RJ; Diretora Administrativa: Sandra de Deus – UFRGS; Diretor Científico: Luis Martins da Silva - UnB – DF; Diretora Editorial e de Comunicação: Sandra Freitas - PUC – MG; Diretor Regional Norte: Narciso Lobo - UNAM – AM; Diretor Regional Nordeste: Boanerges Lopes – UFAL; Diretor Regional Centro-Oeste: Edson Spenthof – UFG; Diretor Regional Sudeste: Juliano Carvalho – PUC- Campinas – SP; Diretora Regional Sul: Valci Zuculoto – UFSC; Conselho Consultivo: José Marques de Melo - UMESP/USP – SP; Ana Arruda Callado - PUC-RJ/UFRJ; Victor Gentilli - UFES – ES; Maria Luiza Nóbrega – UFPE; Celso Schröder - PUC-RS; Joaquim Lannes - UPCB – MG; Cristóvão Pereira - UNP – RN e Conselho Fiscal: Carmem Vieira – UFMG; Moacir Barbosa de Sousa – UFPB; Marcel Cheida – PUC- Campinas – SP. O 8º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em 2005, entre os dias 21 e 23 de abril, em Maceió, organizado pela Universidade Federal de Alagoas e coordenado pelo professor Boanerges Lopes, teve como tema Formação e Responsabilidade no Jornalismo e a conferencia do jornalista Zuenir Ventura. Com base na institucionalização da entidade ocorrida no ano anterior, o Encontro de Maceió consolidou os Grupos de Trabalho e o formato como evento híbrido, científico e acadêmico, com apresentação de trabalhos de pesquisa e experiências pedagógicas no âmbito dos cursos de jornalismo. Em Maceió, foi realizada a primeira Assembleia Geral de associados após a eleição da diretoria. O 8º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo também confirmou a parceria com a FENAJ na realização do 4º Pré-Fórum e a nova parceria com a Agência de Notícias dos Direitos da Infância - ANDI para realização de uma mesa de debates sobre o Ensino de Jornalismo e a Agenda Social Brasileira.
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O 9º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu na cidade de Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, em 2006, entre os dias 28 e 30 de abril, na Faculdade de Filosofia de Campos e teve como tema geral “Novas tendências no ensino de jornalismo”, com conferência de abertura do professor Eduardo Meditsch. Na programação também ocorreu a participação do professor da Universidade de Brasília, Dr. Venício Lima que falou sobre o “Método Paulo Freire e o Ensino de Jornalismo”. O Encontro de Campos foi coordenado pelo professor Andral Tavares. A Carta de Campos, documento final do 9º Encontro Nacional do FNPJ, se destacou pela proposta de suspensão do SINAES, fato que gerou polêmica nos órgãos públicos da educação superior. O 10º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi realizado em Goiânia, entre os dias 27 e 30 de abril de 2007, organizado pela Universidade Federal de Goiás e, coordenado pelo professor Joãomar Carvalho, marcou outra etapa dos eventos do FNPJ. A partir de 2007, os Encontros Nacionais adotaram nova nomenclatura, não mais Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, que identifica a entidade da associação de professores, pesquisadores de jornalismo e jornalista sobre ensino de jornalismo; mas sim a denominação Encontro Nacional de Professores de Jornalismo (ENPJ). Também no Encontro de Goiânia, o FNPJ iniciou o processo eletrônico de submissão e avaliação dos trabalhos inscritos com a plataforma “Open Acess Research” disponibilizada pelo Instituto Brasileiro de Informação, Ciência e Tecnologia. Essa plataforma possibilitou que os Anais dos Encontros Nacionais recebessem o registro ISSN. O tema geral do 10º ENPJ foi “Os 60 anos de ensino de jornalismo no Brasil e suas implicações sociais, profissionais e institucionais”. A conferência de abertura foi realizada pelo professor Dr. José Marques de Melo, além de se realizarem homenagens aos pioneiros do ensino de jornalismo no Brasil, para a Fundação Cásper Líbero, Escola de Comunicação da UFRJ e para o professor Nilson Lage. Neste Encontro também foram realizados os lançamentos da Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo (REBEJ) e do Prêmio Daniel Herz para Projetos Pedagógicos, TCCs e Reportagens sobre Democratização da Comunicação. E se realizou, pela primeira vez, um Encontro de Coordenadores de Cursos de Jornalismo. Os Grupos de Trabalho tiveram uma reformulação com o incremento de mais um GT, que ficaram organizados da seguinte forma: Atividades de Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus; Ensino de Ética e de Teorias do Jornalismo, coordenado pelo professor Edson Spenthof; Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Luiz Martins; Produção Laboratorial – Eletrônicos, coordenado pelo professor Juliano Carvalho; Produção Laboratorial – Impressos, coordenado pela professora Carmen Pereira e Projetos Pedagógicos e Metodologias de Ensino, coordenado pela professora Valci Zuculoto.
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O 11º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi realizado na Universidade Mackenzie, em São Paulo, entre os dias 18 e 21 de abril de 2008, e teve como tema geral “Perfil e condições para o exercício da docência em Jornalismo”, com conferência ministrada pela professora da ECA/USP, Cremilda Medina. Em São Paulo, foi realizado o 2º Encontro de Coordenadores de Jornalismo, coordenado pela professora Carmen Pereira. Neste Encontro foi realizado o 1º Colóquio Ibero-americano de Ensino de Jornalismo que teve a participação dos professores Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra, Espanha, e de Nilson Lage, da Universidade Federal de Santa Catarina. Ainda estava previsto a participação do professor João Canavilhas da Universidade da Beira Interior, Portugal, mas, devido a problemas de saúde, não pode estar presente. Após dois mandatos consecutivos do professor Gerson Luiz Martins, o 11º ENPJ marcou a eleição para presidente do FNPJ do professor da UFG, Edson Spenthof. O 12º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu em Belo Horizonte (MG), coordenado pela professora Sandra Freitas e organizado por três instituições de ensino superior: Centro Universitário Una, Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) e Faculdade Pitágoras. O tema central do Encontro foi “O ensino de jornalismo nas universidades: impactos na prática profissional e conquistas para a sociedade”, com conferência do professor Dr. Alfredo Viseu da Universidade Federal de Pernambuco; no Encontro foram realizados o 3º Encontro Nacional de Coordenadores de Cursos de Jornalismo, o 5º Colóquio ANDI, o 8º Pré-Fórum da Fenaj e o 2º Colóquio Ibero-americano de Ensino de Jornalismo com a participação dos professores João Canavilhas, de Portugal, do jornalista Miguel Wiñaski, da Argentina; do professor Carlos Gerardo Agudelo Castro, da Colômbia, e do professor Sérgio Luiz Gadini, representante brasileiro. Neste Encontro, o FNPJ promoveu um avanço nos Grupos de Pesquisa. O encontro dos GTs se transforma em Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo, o que configura essa seção do Encontro Nacional de Professores de Jornalismo como espaço de intercâmbio e desenvolvimento do conhecimento científico. Tendo em vista que o Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo se configurou num novo formato dos antigos Grupos de Trabalho, a direção e associados do FNPJ decidiu caracterizar o Ciclo conforme o número de Encontros dos GTs realizados até então. Em Belo Horizonte, foi realizado o VIII Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo. O 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu na Universidade Católica de Pernambuco, coordenado pelo professor Ricardo Mello, teve como tema “Ensino de Jornalismo: Novas Diretrizes e Novos Cenários Jurídicos, Profissionais, Tecnológicos e Econômicos”. Neste Encontro foram realizados o 6º Colóquio da ANDI; o 9º Pré-Fórum da Fenaj; o 4º
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Encontro Nacional de Coordenadores de Curso de Jornalismo e o 3º Colóquio Ibero-americano de Ensino de Jornalismo, que teve as participações do jornalista e professor Miguel Paz da Escola de Jornalismo Diego Portales; do jornalista e professor Celso Augusto Schröder, da PUC do Rio Grande do Sul e presidente da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe; e ainda do jornalista e professor Gerardo Albarrán, coordenador do Instituto Sala de Prensa do México, ausente por razões profissionais, devido a um incidente ocorrido com colegas jornalistas. Foi realizado o 9º Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo com seis Grupos de Trabalho: Atividades de Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus (UFRGS); Ensino de Ética e de Teorias do Jornalismo, coordenado pelo professor Sérgio Gadini (UEPG); Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Gerson Luiz Martins (UFMS); Produção Laboratorial – Eletrônicos, coordenado pelo professor Juliano Carvalho (UNESP); Produção Laboratorial – Impressos, coordenado pelo professor Josenildo Guerra (UFS); e Projetos Pedagógicos e Metodologias do Ensino, coordenado pelo professor Leonel Aguiar (PUC-Rio). O 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo marca a eleição da nova diretoria do FNPJ, composta por: Presidente: Sérgio Luiz Gadini (UEPG/ PR); Vice-presidente: Mirna Tonus (UFU/MG); Secretaria-Geral: Ricardo Mello (UNICAP/PE); Segundo Secretário: Edson Spenthof (UFG/GO)Tesoureira: Sílvio Melatti (IELUSC/SC); Segunda-Tesouraria: Sandra Freitas (PUC/MG); Diretoria Científica: Socorro Veloso (UFRN/RN); Vice-diretoria Científica: Marcelo Bronosky (UEPG/PR); Diretor Editorial e de Comunicação: Paulo Roberto Botão (UNIMEP/SP); Vice- diretor Editorial e de Comunicação: Demétrio Soster (UNICS/RS); Diretor de Relações Institucionais: Gerson Martins (UFMS/MS); Vice-diretor de Relações Institucionais: Juliano Carvalho (UNESP/SP). Diretoria Regionais:; Norte I: Cynthia Mara (TO); Norte II: Lucas Milhomens (UFAM/AM); Nordeste I: Mônica Celestino (FSBA/BA); Nordeste II: Fernando Firmino da Silva (UEPB/PB); Sudeste I: Erivam de Oliveira (UFV/ MG); Sudeste II: Wanderley Garcia (PUC-CAMPINAS/UNIMEP/SP); Sul I: Tomás Barreiros (FACINTER/PR); Sul II: Jorge Arlan Pereira (UnoChapecó/ SC); Centro-Oeste I: Samuel Lima (UnB/DF); Centro-Oeste II: Álvaro Fernando Ferreira Marinho (FIAVEC/MT); Conselho Consultivo: Antonio Francisco Magnoni (Unesp/SP); Boanerges Lopes (UFJF/MG); Franklin Valverde (UniRadial/SP); Joaquim Lannes (UFV/MG); Josenildo Guerra (UFS/SE); Leonel Azevedo de Aguiar (PUC/RJ); Valci Zuculoto (UFSC/SC)e Conselho Fiscal composto por Marcel Cheida (Puc/Camp/SP); Sandra de Deus (UFRGS/ RS) e Victor Gentilli (UFES/ES). Também neste Encontro o FNPJ decide pela realização dos Encontros
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Nacionais no período de dois em dois anos e Encontros Regionais ou Estaduais nos anos de intervalo dos Encontros Nacionais. Evento que merece destaque realizado no 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi a homenagem da Unicap ao professor Dr. José Marques de Melo, egresso da Unicap, por ocasião da comemoração dos 50 anos de lançamento do livro do professor Luiz Beltrão, “Iniciação à Filosofia do Jornalismo”, também marcado por um debate com os professores José Marques de Melo e Alfredo Vizeu. Neste Encontro, durante Assembleia Geral dos associados do FNPJ, o professor Gerson Luiz Martins propôs a transformação do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo em Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo. O tema gerou uma ampla discussão e se iniciou um estudo para encaminhar a proposta.

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CAPÍTULO 7 As Origens da Semiótica no Brasil
Ana Claudia Mei Alves de Oliveira1

Introdução Ao retratar a história de uma teoria, a da semiótica, no Brasil, é que mais se ilumina como se é levado a referir-se a uma série de contribuições de teóricos que delinearam as várias correntes semióticas com os fundamentos de abordagens dos sistemas e dos processos de linguagens. Como teoria dos signos, tem-se as contribuições da Semiologia, de Roland Barthes e as da Semiótica, de Charles Sanders Peirce; como teoria da significação os fundamentos são de Algirdas Julian Greimas; como teoria do discurso, as referências são da vertente eslava com destaque para Romam Jackobson, Mikahil Backhtin e Iuri Lotman. Enumerar os marcos desses desenvolvimentos que garantiram a posição dessas teorias na fundamentação de uma complexidade de objetos de estudo é pôr-se na trajetória das idéias desses teóricos, mas também de personalidades acadêmicas brasileiras que a difundiram no país. Essa abordagem é, pois, uma situação contextual inicial que se coloca aberta a uma série de acréscimos a fim de contribuir para os retoques desse retrato multifacetário. Do muito que aqui está sendo exposto no relato de mais de cinco décadas de estudos semióticos no Brasil tem havido ampla participação em uma comunidade científica nacional atuante, por realizações que marcaram as correntes na institucionalização que os brasileiros envolvidos foram lhe dando configurações. A partir dessas, a proposta é de constituir um relato das contribuições das teorias semióticas ao campo da comunicação que se organiza em três grandes partes para oferecer detalhamento sem objetivar uma análise completa, uma vez que estamos no ponto de partida da construção de um quadro histórico. A Semiótica da qual a Lingüística é uma das partes No final da década de 60, no interior do Estado de São Paulo, dois jovens professores Edward Lopes e Ignácio Assis Silva trabalhavam juntos na implementação das novas correntes da lingüística na área de estudos lingüísticos e literários que era marcado por uma forte ação dos estudos da língua latina no país. As novas idéias desencadeadas a partir da publicação do Curso de lingüística geral, de Ferdinand de Saussure compilado por três de seus alunos revolucionou as pesquisas brasileiras. As atividades se davam na Faculdade de Letras e Estudos Literários da Unesp sediada em Araraquara. Nos raios dessa cidade, na São José do Rio Preto onde
1 Professora da PUCSP.

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os dois também trabalhavam, havia um outro colega, Eduardo Peñuela Cañizal, espanhol radicado no Brasil bastante ligado aos estudos de literatura hispânica, latino-americana, e um apaixonado por pintura e cinema. E, na cidade de Ribeirão Preto, na Universidade Barão do Mauá, Edward Lopes animava essa ebulição da Lingüística no Brasil. Os conceitos saussurianos de “estrutura”, “relação”, “diferença” e as dicotomias: “língua vs fala”, “diacronia vs sincronia”, “paradigma vs sintagma”, “sistema vs processo”, foram conceitos-chave do desenvolvimento do pensamento lingüístico, mas também dos estudos das ciências sociais, a partir da década de 40. Essa difusão de uma perspectiva de estudo se constituiu nas tendências conhecidas pela nomeação de Estruturalismo, cujas obras capitais são: A fenomenologia da percepção de Maurice Mearleu-Ponty (1945), Antropologia estrutural (1958), de Claude Lévi-Strauss, Elementos de semiologia (1965) de Roland Barthes, Semântica estrutural (1966) de Algirdas Julien Greimas, Escritos (1966) de Jacques Lacan. Disseminadoras da perspectiva nova em formação, essas obras foram centrais para a vertente francesa de estudos das práticas culturais e das sociais que, no Brasil, e, em especial, em São Paulo, se alicerçou anos antes da tradução dessas obras para o português. A própria presença de Lévi-Strauss no Brasil no início de seus trabalhos antropológicos, quando esteve ligado à criação da Universidade de São Paulo em 1936, proporcionou o grande estado de animo que contaminou as investigações exploratórias das recém criadas disciplinas nas ciências humanas. Os trabalhos de Merleau-Ponty e de Lévi-Strauss merecem ainda destaque por estarem nas bases do escrito de Greimas L’Actualité du saussurisme (1956), no qual postula que a partir de Saussure um mundo estruturado é apreensível nas suas significações. Ligados por um modo de pensar, esses autores se articulam pelo objetivo comum de elaboração de uma metodologia unificada para as ciências sociais. Com o exame das relações e das funções dos elementos que constituem os inúmeros sistemas das línguas humanas, das suas práticas culturais de contos folclóricos aos textos literários, por exemplo, a semiótica e a semiologia deixaram rastros definidores das investigações das ciências das linguagens, das artes e da Comunicação. Greimas e Barthes estiveram bem próximos no início das duas disciplinas distintas que conceberam. Encontraram-se quando lecionaram juntos em Alexandria. No grupo de jovens professores aí sediados, eles leram além de Saussure, também Louis Hjelmeslev. Leituras que debateram e ruminaram, mas que na fatura teórica de ambos frutificou em conceituações teóricas diferentes. Referindo-se a esse período de germinação Greimas afirma que as leituras dos dois podem ser tomadas como sendo uma o avesso da outra, observação que se depreende de um estudo comparativo entre elas. O primeiro estudo de impacto de Barthes Mitologias, datado de 1957, é um
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estudo da cultura francesa com os impactos da cultura de massa. Escritos sobre o cotidiano que mostram da publicidade, notícias de jornal, revistas, cinema, a um prato do dia a dia: o bife com batata frita, e outro grande ícone do século XX, o automóvel, entre tantos outros mais, que destacam como o semiólogo estava interessado em estudar a representação sígnica e a circulação dos valores no social. Todavia, a partir desses estudos dos mitos Barthes foi levado em sua semiologia a se conduzir rumo ao entendimento dos sistemas de signos, usados na formação cultural que a sociedade empreende ao se construir. Por via diversa, Greimas foi abordar o outro pólo da dicotomia saussurreana montada com “sistema”, exatamente o “processo”, do qual se ocupa a fim de dar conta do exame dos usos das linguagens dos distintos sistemas. É o arranjo hierárquico do sentido com seus procedimentos em níveis que permitem ao analista reconstuir a significação por seu percurso gerativo do sentido, a edificação de uma gramática da narrativa, definida a narratividade como um dos universais, tratamento do discurso pela sintaxe da enunciação e a semântica dos temas e de suas figuratividades enquanto operações intersemióticas que as linguagens operam no seu edificar mundos tradutores do mundo e das línguas naturais. As suas teses de doutoramento, a de Barthes, O sistema da moda e a de Greimas La mode em 1830, defendidas na França, são exemplares dos caminhos que distanciaram as duas vertentes do saussureanismo de uma teoria da produção de sentido social. Enquanto a semiologia foi assumida por Barthes como uma ciência dos signos, que o sistema da moda é um exemplar do potencial signo e de suas regras de combinação, a semiótica de Greimas postulava-se enquanto uma disciplina com rigor científico para o estudo da significação de usos da linguagem cuja unidade de análise é o texto, uma totalidade de sentido. Nas rotas distintas de sistematização de conceitos e métodos, as duas teorias se edificaram voltadas para a produção do sentido no seio da vida social realizando diferentemente a projetada teoria antevista por Saussure da qual a lingüística era somente uma das partes da semiologia. A obra de Barthes foi traduzida para o português por uma crítica literária Leyla Perrone-Moyses que contribuiu para a sua difusão no Brasil, em especial, no âmbito da crítica literária e musical, mas também de cinema, televisão. Lopes e Assis Silva trouxeram Greimas para seu primeiro e único curso no Brasil: “Semiótica da narrativa” em julho de 1973, sob os auspícios da Universidade Barão de Mauá. A primeira pedra de edificação da semiótica de Greimas no Brasil estava lançada com um grupo de não mais de vinte pessoas que seguiram esses encontros e criaram o Centro de Estudos Semióticos A.J. Greimas (CESAJG). Em um trabalho intenso de grupo de pesquisa, a equipe de Araraquara
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(SP) levou adiante os estudos das concepções semióticas de Greimas no Brasil. O lançamento de Maupassant : la sémiotique du texte, exercices pratiques (1975) deu uma impulsão à toda gama de análises semióticas. Mas essa obra demorou a ser traduzida no Brasil quase uma década, apesar de ter sido central para os desdobramentos semióticos dos estudos enquanto gramática narrativa. Por sua vez, a sistemática tradução conjunta de uma outra obra, publicada na França do ano de 1979, o Dictionnaire raisonné de la théorie du langage, sob a direção de Greimas e Joseph Courtès, efetivou a compilação dos conceitos e procedimentos metodológicos da teoria da significação. Se Greimas havia deixado a lexicologia em prol da semântica, seus preceitos se efetivaram neste trabalho de dicionário estabelecido coletivamente na França pelo grupo de colaboradores formado entorno de Greimas, o Groupe de recherche sémio-linguistique. O mapeamento dos fundamentos conceituais da teoria semiótica orienta-se por um eixo diacrônico dos estudos e outro sincrônico do estágio atual das concepções sendo possível demarcar os plurais aprofundamentos da disciplina. A tradução do dicionário pelo grupo de estudiosos brasileiros em 1983, deu continuidade na semiótica brasileira das mesmas bases de compartilhamento e debate rigoroso dos conceitos centrais da teoria, ao mesmo tempo em que os seus translados epistemológicos para os campos de interesse dos nossos estudiosos que se caracterizavam por estudos das línguas e seu ensino, estudos literários de prosa e poesia, estudos da visualidade, em particular, pintura e escultura, estudos audiovisuais de cinema e televisão, estudos da canção que pautaram muitas discussões dos seminários de discussão em Araraquara. Para escoar essas primeiras produções bibliográficas em Semiótica, eles criaram a revista BACAB- Estudos Semiológicos, em 1970, metamorfoseada, em 1973, em Significação – Revista Brasileira de Semiótica, que ainda é bastante atuante no país. No inverno de 2009, com 30 números publicados, Significação assume-se “Revista de cultura audiovisual” mantendo o mesmo ISSN 15164330, sediada no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e, publicada pela Editora Annablume, a revista conseguiu verba do CNPq. Em grande parte esse modus operantis fez com que a teoria fosse muito disseminada em análises de textos e objetos da cultura brasileira dando nascimento a vários distintos sub-grupos de desenvolvimento dos estudos semióticos. Como eixo teórico ocupa vários Programas de estudos pós-graduados do país. A saber, tem se mantido presente nos Estudos Literários e Lingüisticos da Pós-Graduação de Letras de Araraquara. Merece destaque todo o trabalho que a Pós graduação em Semiótica e Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP que contou no início com as contribuições de Cidmar Teodoro Paes, a seguir com as de José Luiz Fiorin, Diana Luz Pessoa de Barros, Beth Brait, Luiz Tatit, entre outros. Esse corpo docente tem formado profissionais e pesquisadores
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de grande renome que levaram o ensino da teoria semiótica pelos quatro cantos do país. A equipe atual integrada por Waldir Beividas, Norma Discini, Luiz Tatit, Ivã Lopes, entre outros, tem conseguido manter a avaliação máxima, nota 7, do Sistema de avaliação da CAPES. Advém dessa pós-graduação a formação doutoral da maioria dos professores que atuam no campo, destacando a UFRGS, a UFMG e outras pós-graduações como a de Letras da UFF que tem uma linha em Teoria semiótica do discurso. A Pós-Graduação em Comunicação da PUCSP, desde 1990, implementou no seu eixo teórico a teoria semiótica francesa, denominando esses estudos de semiótica discursiva ou sociossemiótica por ter sido implementada pela ação de Eric Landowski, que atua ainda como professor visitante permanente desta pós graduação e aí criou o Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS), como centro interinstitucional de pesquisa com Ana Claudia Mei Alves de Oliveira e os amigos semioticistas da USP e da UNESP em 1994. Outros grupos de pesquisa atuantes são: o Grupo Casa, fundado em Araraquara por Ignácio Assis Silva em 2001. Hoje é dirigido por Maria de Lourdes Baldan e congrega pesquisadores em semiótica das cidades vizinhas, Ribeirão Preto, Franca, Bauru, São José do Rio Preto, por exemplo. NA USP, a criação do Grupo de Estudos Semióticos (GES), hoje dirigido por Ivan e Marcos Lopes, Waldir Beividas e Elizabeth Arcot, mantém uma programação mensal e eventos. Na Universidade Federal Fluminense (UFF) funciona, em Niterói, o SEDI criado por Lucia Teixeira e um grupo de jovens docentes. Em Bauru, organizou-se o Grupo de Estudos de Semiótica da Comunicação, com a iniciativa de Maria Lúcia Vissoto e a participação de Ana Silvia Médola Davi, Jean Christus Portella e Matheus Nogueira Schwartzmann. Em termos de publicação há as revistas sem continuidade hoje como Semiótica, Acta Semiotica e Linguistica, Linguagens. Os Cadernos de Textos do CPS com nove edições impressas e as demais digitais, duas coleções a de “Documentos de estudo em semiótica” com cinco números publicados e a “Coleção Sociossemiótica” junto a Editora Estação das Letras com dois livros lançados. Entre as revistas eletrônicas tem-se a do grupo CASA dirigida por Arnaldo Cortina e Renata Marquezan; a do GEL que foi dirigida várias vezes por semioticistas e a da Abralin, a outra associação de lingüística que manteve um grupo de trabalhos em semiótica. A Revista de Estudos Lingüísticos (GEL) teve início em 1978 e encontrase vinculada ao Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo, que foi criado em 1968 tendo tido presidido por semioticistas José Luiz Fiorin e Arnaldo Cortina. A criação da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN) em São Paulo, de 1969, foi presidida por Diana Luz Pessoa de Barros. Desde 1972 a Sociedade Brasileira de Professores de Linguística (SBPL) organizou a Revista Brasileira de Lingüística com o apoio do Programa de Semiótica e Linguística da
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USP e o de Tecnologia da informação e Educação da Universidade Brás Cuba. Foi dirigida por Cidmar Teodoro Pais. A Revista Gragoatá é vinculada ao Instituto de Letras – UFF, a Revista: SIGNUM - Estudos da Linguagem é sediada em Londrina no Paraná, no Curso de Mestrado em Letras da Universidade Estadual de Londrina. A semiótica dos signos e das traduções intersemióticas Em outro contexto, o da prática poética e da prática da tradução, Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos que atuaram juntos formando, em 1952, o grupo Noigandres com Eugen Gomringer, e tinham uma ativa produção poética que veio a ser denominada movimento concretista de repercursão internacional, atuavam juntos no Programa de Pós-graduação em Teoria Literária da PUCSP. Idealizado a partir de 1968, no Departamento de Artes da PUCSP, foi criado em 1970 e coordenado por Lucrecia D’Aléssio Ferrara. Transformou-se em Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica em 1972, como um lugar de ensino e contato com a teoria filosófica do norte americano Charles Sanders Peirce e, em especial, com a sua teoria semiótica, um dos ramos de sua arquitetura filosófica que passou a ser estudada como campo de intersemioses entre as artes poéticas do verbal, mas também as da visualidade e das várias artes, assim como as do design e da comunicação com a explosão, após o rádio e cinema, da televisão brasileira, e dos experimentos em vídeo, holografia e, mais recentemente nas mídias móveis. A ênfase era a dos estudos das operações de trânsito entre as linguagens, dos estudos intersemióticos. O pensamento do semiólogo francês Roland Barthes foi aí ministrado pela especialista em literatura brasileira e portuguesa Leila PerroneMoysés que se destacou além da tradução de suas obras para o português, por sua atividade de crítica literária. Também aí atuou o maestro e compositor Gilberto Mendes, com a tradução do verbal e da visualidade para sistemas musicais. Boris Schnaiderman foi outro semioticista bastante presente nesse circuito de práticas semiótica tanto por seu ofício de tradutor de obras primas do russo para o português, tanto por seus conhecimentos de poetas russos como Maiakóvski que interessava muito os poetas concretas. Eles tinham juntos uma prática de confronto das traduções que faziam do francês e do inglês com as direta do russo de Schnaiderman. Ainda esse engenheiro agrônomo de formação foi docente na USP, onde criou o ensino da língua russa e tornou conhecida no Brasil a vasta corrente teórica de semiótica que se desenvolveu em vários países da extinta URSS, obra que foi publicada pela editora Perspectiva e foi decisiva na formação de pesquisadores que atuam na PUCSP como Arlindo Machado e Irene Machado. Uma das características da semiótica praticada na PUCSP nesses tempos dominados pela semiótica de Peirce caracterizou-se pelo estudo dos signos nas
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suas relações de contigüidade que é montada a partir de seleções dos signos nos sistemas e das regras combinatórias, ou seja, das linguagens que passou por uma explosão em novas linguagens, em especial, no campo midiático. Com a atuação de Lúcia Santaella na sua coordenação expandiram-se nessa Pós os estudos das várias midias que foram acompanhados da implementação de outras teorias semióticas que são estudadas como eixos de fundamentação do Programa. As várias linhas de pesquisa dão conta de uma vasta gama de estudos intersemióticos que seu corpo docente praticava, inserindo também as das organizações, design, música, teatro, performance, dança, corpo, arqutetura e urbanismo. Afora a semiótica filosófica de Peirce o seu Pragmatismo, passou a ser estudado pela contribuição de Iso Assad Ibri que mantém uma revista e um evento anual na área. Foi ainda inserida uma tendência semiótica no escopo das teorias da cultura e das mídias postulada por Norval Baitello Jr., seguindo a linhagem dos trabalhos de Ivan Bystrina, Harry Pross e Dietmar Kamper. O Centro Interdisciplinar de Semiótica e Cultura (CISC), mantém a publicação digital de Ghrebh. As problemáticas dos novos meios foram tratadas com as novas tecnologias que adentraram o seu curriculo também integrando os estudos dos processos de criação nas várias mídias pela abordagem de Cecília Almeida Salles. Trouxe também ao ambiente semiótico, as postulações do denominado semion, ou a semiosfera, conceptualizada pelo semioticista estoniano Iuri Lotman, assim como as do dialogismo de Michail Backthin que dedicou a vida à definição de conceitos e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos, artísticos, filosóficos, científicos e institucionais. A ação de Irene Machado, José Amalio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira animaram esses estudos com aspectos vários da cultura brasileira e a latinoamericana nas várias produções das artes e das mídias. Ainda a semiótica interpretativa de Umberto Ecco que visitou São Paulo se expandiu com a publicação de toda a sua obra, muitas delas pela Perspectiva. Por vários anos ligada ao Departametno de Artes da PUCSP foi produzida a revista De Signos. No seu extinguir-se no âmbito do Programa de Comunicação e Semiótica organizou-se e passou a ser publicada pela editora da PUCSP, a Educ, a revista FACE que foi dirigida por Philadelpho Menezes que se dedicava à prática da poesia visual e aos estudos das mídias. Por último, foi criada a revista Galáxia: Revista Transdiciplinar de Comunicação, Semiótica, Cultura com a editoria científica de sete números de Irene Machado, que foi responsável pelo projeto gráfico. Nas suas palavras: “a proposta editorial do periódico abriga confluências e conexões disciplinares com o objetivo de (1) compreender a produção, a circulação e a recepção dos sentidos/signos comunicacionais; (2) demonstrar a variedade das pesquisas na área da Comunicação, em termos de discursos, as práticas sociais e condições de interação, tecnológicas ou não; e, (3) a partir do diálogo e do
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confronto de diferentes pontos de vista, firmar soluções metodológicas num campo do saber cujas bases teóricas e epistemológicas encontram-se em densa discussão. Três outros números foram editados por Eugênio Trivinho, Lucrecia D’Aléssio Ferrara e Ana Claudia de Oliveira. Nos números a seguir a editoria passou a ser de José Luiz Aidar Prado com os trabalhos colaborativos essenciais de Leda Tenório da Motta e José Amálio Pinheiro. A avaliação da revista recebeu e tem mantido a qualificação máxima do Qualis-Capes de periódicos nacionais. Desde 2009, a revista Galáxia tornou-se unicamente digital. ABES: Associação Brasileira de Estudos Semióticos No âmbito dos estudos pós-graduados, os representantes das várias teorias semióticas fundaram a Associação Brasileira de Semiótica (ABS), anos antes de se realizar o I International Congress of Semiotics, em Mlião, na Itália, em 1974. Com a participação da ABS no cenário internacional houve uma consecutiva presença de brasileiros na diretoria internacional, que começou pela vice-presidência de Décio Pignatari, depois Lucia Santaella e Eduardo Peñuella Cañizal. A ABS começou em São Paulo, onde o desenvolvimento das pesquisas semióticas se concentrava, mas à medida em que outros núcleos se organizavam passaram a ser formadas associações regionais. A partir de 1979 vamos ter a de São Paulo presidida por Ana Claudia Mei Alves de Oliveira e Ana Maria Domingues Zilocchi; a do Rio de Janeiro, dirigida por Mônica Rector que organizou dois importantes colóquios. A Regional do Rio Grande do Sul, que teve como impulsionadoras: Maria Graça Krieger, Elizabeth Bastos Duarte, Maria Lílian de Castro e organizou o III Congresso. Havia a atuante Regional da Paraíba e a de Brasília que elaborou um site com uma larga sistematização de seus dados. E sem formalização em uma regional havia uma representação em Salvador, Bahia. Responsáveis por eventos regionais, em 1978, a Regional do Rio de Janeiro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, organizou I Colóquio de Semiótica com a publicação dos Anais do Primeiro Colóquio de Semiótica. (São Paulo: Loyola, Rio de Janeiro: PUC, 1980) e o II Colóquio em 1980 (Anais do II Colóquio de Semiótica (São Paulo: Loyola, 1983). Thomas A. Sebeok presente no evento incentivou os brasileiros a fazerem pesquisas ligadas ao Centro de documentação de Peirce em Bloomington, assim como a participar dos seminários de verão da Indiana University. Essa troca acompanhava a que sempre existiu entre os participantes da Escola Francesa de Semiótica que freqüentavam os seminários de Greimas e seu grupo na Ecole des Hautes Études em Sciences Sociales, em funcionamento desde o final da década de sessenta. Essas condições caracterizam o intenso diálogo entre as semióticas produzidas no país e as dos demais países que se estende a nossos dias.
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Em 1984, foi organizado o I Colóquio Luso-Brasileiro de Semiótica na Universidade Federal Fluminense em Niterói. Em 1985, foi organizado o III Colóquio Brasileiro de Semiótica com a presidência de Lucia Santaella, na Universidade de São Paulo. A associação Semiótica – Regional São Paulo teve participação na organização com a atuação de Ana Claudia de Oliveira. O destaque foi a grande presença do público brasileiro e representações no evento de semioticistas latino-americanos, norte-americanos e europeus. Além de uma exposição, três livros registram os textos do evento com a editoria de Ana Claudia de Oliveira e Lucia Santaella, com o patrocínio da FAPESP. Esses livros são intitulados: Semiótica e outras ciências, Semiótica da Literatura e Semiótica das Artes e da Arquitetura (São Paulo, Educ, 1985). Em agosto de 1990, foi organizado em Porto Alegre, o IV Colóquio Brasileiro de Semiótica pelas representantes da Regional Sul da ABS. Com renomados semioticistas das várias correntes semióticas, o evento também marcou a dissolução dessa primeira associação, mesmo que em 1996 tenha havido um evento internacional organizado na PUCSP, com a coordenação de Lucia Santaella com três livros de seus resultados denominados Caos e Ordem (São Paulo, Hacker, 1998). Em 1996, também as universidades USP (FAU e F.F.L.C.H.), e Anhembi Morumbi em reunião com a PUCSP, sediou o IV então sob a presidência brasileira de Ana Claudia Mei Alves de Oliveira. A rearticulação dos associados só se deu uma década depois pela ação levada a cabo por Irene Machado, quando atuava na PUCSP:COS. Para ato de refundação da Associação, foi organizado o V Colóquio Brasileiro de Semiótica, em 2001, na Faculdade Belas Artes em São Paulo, conseguindo o feito de reunir as principais tendências das semióticas em vigor no país e mais de duzentas pessoas participantes. Se as correntes maiores da semiótica se ligam à lingüística, aos estudos literários, aos de cultura brasileira, mas também aos estudos da comunicação e da produção das mídias, do design, também o campo da filosofia, do pragmatismo, das neurociências, da computação e da música foram marcados e constituíram grupos de pesquisa por essas concepções teóricas e metodológicas diversas. Entre as tendências da semiótica desenvolvidas no Brasil foram destacadas: 1) a semiótica de origem na lingüística de Saussure e no estrutralismo que é representada entorno da teoria da significação de Algirdas Julien Greimas e da semiologia de Roland Barthes; 2) a semiótica de Charles Sanders Peirce com a vertente filosófica que além dos campos da semiótica da comunicação, dos estudos poéticos de várias mídias, dos estudos da produção midiática e dos meios com o transito das linguagens em seus processos tradutórios, também o pragmatismo; 3) uma vertente de semiótica psicanalítica com diálogo com Freud e Lacan; 4) uma semiótica do texto literário a partir dos desenvolvimentos de teóricos
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como: Tzvetan Todorov, Claude Brémond, Roland Barthes e Julia Kristeva; 5) uma semiótica da cultura com foco em Yuri Lotmam, Mikhail Bahktin; 6) uma semiótica da cultura com foco em Ivan Bystrina, Harry Pross, and Dietmar Kamper;7) uma semiótica performativa orientada pela filosofia da linguagem de John Searle e John C. Austin. A ABES foi inteiramente reestruturada a partir de 2001 e sob sua ação temse a edição do quinto congresso dos associados em preparação para o ano 2011, quando a reorganização da Associação Brasileira de Estudos Semióticos celebrará a sua primeira década de renovação. Entre os seus sócios, identifica-se uma parcela de docentes e pesquisadores atuantes na área da Comunicação. As várias teorias semióticas que delineamos a trajetória no país fazem-se presentes nas estruturas curriculares e nas linhas de pesquisa de vários dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação.

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ABES, recriação e percurso de uma Associação
Ana Claudia Mei Alves de Oliveira2

A ABES é a Associação Brasileira de Estudos Semióticos. Seu percurso de nascimento, em 2001, tem no país uma narrativa de passos de reagrupamento dos pesquisadores em semiótica, dispersos em núcleos de pesquisas de várias correntes da teoria semiótica. Esses foram convocados por Irene Machado e um grupo de interessados que vislumbraram as condições de fazer renascer o primeiro agrupamento de semioticistas brasileiros: a Associação Brasileira de Semiótica, extinta ABS. Consta no site da ABES, na sessão “histórico”, a seguinte descrição abaixo, como relato desse primeiro agrupamento: “A Associação Brasileira de Semiótica foi fundada em 1972 na cidade de São Paulo com o objetivo de reunir semioticistas e estudiosos interessados no desenvolvimento e aplicação científica e cultural dos estudos semióticos. A primeira reunião com vistas à fundação da ABS aconteceu no dia 09 de março de 1972, na capital de São Paulo. Naquele momento criou-se uma diretoria provisória constituída pelos seguintes membros: Presidente: Décio Pignatari; Vice-Presidentes: Leyla PerroneMoisés e Lucrecia D’Aléssio Ferrara; Secretária Executiva e Tesoureira: Lucia Helena França Ferraz; Editor: Haroldo de Campos. Em notícia publicada no caderno de Educação do jornal Folha de S. Paulo, de 19 de abril de 1974, pág. 23, anunciou-se ao público a reunião científica de fundação da ABS aconteceu entre 19 e 20 de abril de 1974, na Rua Bartira, 387, sala 1, em São Paulo. Nessa assembléia estavam presentes os seguintes estudiosos das ciências dos signos: Décio Pignatari, Lucrecia D’Aléssio Ferrara, Mônica Rector, Mônica Galceran, Geraldo Mattos, Fernando Segolin, Samira Chalhub, Jorge Rosa, Saldete de Almeida Cara, Dirce Tereza Ceribeli, Lucia Helena Ferraz e Maria Lucia Santaella Braga. A assembléia houve por bem indicar Décio Pignatari para presidir os trabalhos e Mônica Rector para secretariá-lo. Decidiu-se na reunião que os objetivos prioritários da Associação Brasileira de Semiótica seriam: - Congregar estudiosos da área de semiótica; - Promover o desenvolvimento dessa ciência no Brasil, bem como estabelecer contatos internacionais”.
2 Presidente da ABES.

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Nos anos 70 e até meados dos anos 80, a então ABS atuou intensamente realizando uma série de quatro Congressos Internacionais, dois seminários lusobrasileiros de Semiótica, um seminário avançado de Semiótica e uma grande quantidade de eventos locais com a criação de associações regionais. Essas nucleações atingiram o número de cinco regionais, que foram muito importantes nos seus estados, mantendo uma programação que marcava os interesses dos membros congregados e uma troca entre esses por meio de ciclos de conferências e reuniões de estudo e debates. As regionais formadas pela ABS atestavam uma desnucleação da teoria semiótica que deixava de ser unicamente desenvolvida no eixo São Paulo – Rio de Janeiro e passava a reunir pesquisadores em outras regiões. A Regional de São Paulo teve a coordenação de Ana Claudia Mei Alves de Oliveira e Ana Maria Domingues Zilocchi; a do Rio de Janeiro foi coordenada por Mônica Rector e Aloiso Trinta; a Regional Sul teve a participação das professoras Elizabeth Bastos Duarte, Maria da Graça Kriger e Maria Lília de Castro. Também desenvolveram atividades a Regional da Paraíba e a Regional de Brasília. Graças a essas ações foram realizados nas diversas regiões do país um conjunto de eventos da ABS. No Rio de Janeiro realizaram-se o I e II Congresso Brasileiro de Semiótica; em São Paulo, além do III Congresso, o Seminário Avançado de Semiótica no município de Águas de São Pedro; em Porto Alegre, o IV Congresso. Cada evento manteve um número expressivo de convidados internacionais das várias tendências teóricas da semiótica praticada no país, dando testemunhos dos intensos intercâmbios entre a semiótica brasileira e a de centros de pesquisa sediados fora do país. O Brasil ocupou importantes cargos junto ao cenário internacional da Semiótica com delegações nos vários eventos, desde a fundação da Associação Internacional de Semiótica, em Milão, em 1974, com Décio Pignatari, integrando a vice-presidência da International Association for Semiotic Studies (IASS)/ Association Internationale de Sémiotique (AIS), nas duas línguas oficiais, o inglês e o francês. Atualmente, também o espanhol é língua oficial na Associação. Os encontros internacionais mostraram-se importantes em termos de troca e relacionamentos entre os distintos cantos do mundo que se dedicavam às investigações semióticas. Os eventos internacionais, ocorridos até esse ano, são uma dezena que listamos abaixo com as localidades em que ocorreram, as datas e temário: • 1. Milão, Itália, 2 a 6 de junho de 1974. Temário: A Semiotic Landscape. • 2. Viena, Austria, 2 a 6 de julho de 1979. Temário: Semiotics Unfolding. • 3. Palermo, Itália, 24 a 29 de junho de 1984. Temário: Semiotic Theory and Practice.
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• 4. Barcelona, Espanha e Perpignan, França, 31 de Março a 4 de abril de 1989. Temário: Signs of Humanity/L’homme et ses signes. • 5. Berkeley, USA, 12 a18 de junho de 1994. Temário: Signs of the World. Synthesis in Diversity. • 6. Guadalajara, Mexico, 13 a 18de julho de 1997. Temário : Semiotics Bridging Nature and Culture/La sémiotique: carrefour de la nature et de la culture/La semiotica. Intersección de la naturaleza y de la cultura. • 7. Dresden, Alemanha, 6 a 11 de outubro de 1999. Temário: Sign Processes in Complex Systems/Zeichenprozesse in komplexen Systemen. • 8. Lyon, França, 7 a 12 de julho de 2004. Temário: Signes du monde. Interculturalité et globalisation / Signs of the World. Interculturality and Globalization / Zeichen der Welt: Interkulturalität und Globalisierung / Los signos del mundo: Interculturalidad y Globalización. • 9. Helsinki e Imatra, Finlândia, 11 a 17 de junho de 2007. Temário: Understanding/Misunderstanding. • 10. La Coruña, Espanha, 22 a 26 de setembro de 2009. Temário: Culture of Communication/Communication of Culture. Os temários propostos mostram como as teorias semióticas foram caminhando para os grandes interesses de seu tempo com destaque para as questões da Comunicação quer por suas linguagens, sistemas complexos de articulação intersemióticas, quer em termos interculturais na era da globalização, de compreensão e incompreensão, de eficácia, e, sobretudo, da cultura da Comunicação. A comunicação esteve sempre presente mostrando no horizonte dos desenvolvimentos teóricos e metodológicos a vocação da semiótica de ser uma das epistemologias para descrição e análise das codificações em sistemas comunicacionais, bem como de seus modos de organização dos processos que elaboram. Em todos os encontros internacionais, o Brasil manteve atuações significantes e ocupou cargos representando a semiótica brasileira. Entre os nomes de destaque é possível citar: Haroldo de Campos, Lucia Santaella, Eduardo Peñuella Cañizal e Diana Luz Pessoa de Barros, entre outros. Desde 1989 foi criada a International Association for Visual Semiotics/ Association Internationale de Sémiotique Visuelle/Asociación Internacional de Semiótica Visual cujas línguas oficiais são inglês, francês, italiano e espanhol. Os congressos realizados foram: 1. Blois (França) 1989 2. Bilbao (Espanha) 1992
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3. Berkeley ( EUA) 1994 4. São Paulo (Brasil) 1996 5. Siena (Itália) 1999 6. Québec (Canadá) 2001 7. Cidade do México (México) 2003 8. Lyon (França) 2004 9. Istambul (Turquia) 2007 10. Veneza (Itália) 2010 O próximo congresso será na América do Sul, em Buenos-Aires (Argentina) em 2012, quando a Semiótica brasileira terá amplas condições de se fazer mais presente e expor os estudos das mídias audiovisuais, visuais e impressas na era digital, discutir os processos comunicacionais, interativos nas práticas sociais em grande expansão nas pesquisas desenvolvidas no país sobre espaço e urbanidade. Na Associação de Semiótica Visual (AISV/IAVS) o Brasil ocupou a presidência com Ana Claudia Mei Alves de Oliveira, organizando o IV Congresso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1996, com uma representação da Universidade de São Paulo (USP) com os seguintes apoios: Diana Luz Pessoa de Barros e Cidmar Teodoro Paes (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas); Lucrecia D’Aléssio Ferrara (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) e Eduardo Peñuela Cañizal (Escola de Comunicação e Arte). Integrou, ainda, a realização do evento oferecendo apoio de equipamentos técnicos para as sessões de comunicação a recém criada Universidade Anhembi Morumbi. Três livros do evento foram publicados pela Hackers editora, lançados em 1998, com a organização de Ana Claudia de Oliveira e Yvana Fechine, intitulados: Semiótica da Arte, Visualidade, intertextualidade, urbanidade, Imagens técnicas. O evento também contou com uma exposição de arte tecnológica, performances e apresentações no campus, além de uma intervenção nas vitrinas e passagem do Shopping Center Vitrine, na rua Augusta, em São Paulo, organizado por Ana Claudia de Oliveira e Silvia Demetresco. Na década de 90, a associação viveu momentos de dispersão. Ainda que houvesse reuniões científicas importantes, essas representaram muito mais os pólos individuais de estudo e não conseguiram compor reuniões mais frutíferas de diálogos e interfaces entre as teorias semióticas. Somente no ano de 2001, em São Paulo, voltou a ocorrer uma iniciativa de reorganização da associação. No campus da Faculdade Belas Artes (SP), antigos membros, incentivados por Irene Machado, tiveram a iniciativa de reunir
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um grande número de representantes, atuantes em vários grupos de pesquisa cadastrados no CNPq. O V Congresso Brasileiro de Semiótica foi formado com uma denominação que indicava a continuidade dos eventos passados e interrompidos e carregou essa vontade de diálogo e estudo compartilhado. A partir desse agrupamento, projetou-se a realização de eventos de periodicidade bianual, com a denominação de Congresso Internacional de Semiótica. O V Congresso foi assim o marco do renascer da idéia de associação brasileira, contando com representação de instituições de ensino e pesquisa, de grupos e centros de pesquisas das várias correntes semióticas. Todavia, a interrupção dos trabalhos da associação tornou impossível a manutenção da mesma denominação e, no ato de sua recriação, a entidade passou a ser chamada de Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES). A renomeação foi em parte benéfica, pois tratava-se de uma segunda geração de semioticistas que se orientava muito mais por um trabalho coletivo e que visava a integração das várias vertentes teóricas. Todo o mérito cabe justamente a Irene Machado que, dialogicamente, operou os passos dessa recriação, congregando representantes das várias linhas teóricas da Semiótica já bastante sedimentadas em várias instituições do país. O evento foi marcado por uma homenagem aos semioticistas que integrara essa primeira fase associativa da Semiótica brasileira em sinal de reconhecimento ao trabalho de edificação da semiótica no Brasil. A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com o seu Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica (PEPGCOS) e a Faculdade de Comunicação e Filosófica (COMFIL), uniram-se no empreendimento de Irene Machado para realizar em 2001 o V Congresso Brasileiro de Semiótica com o temário “Semiótica e Representação”. Com o apoio financeiro da FAPESP, o evento ocorreu no período de 19 a 22 de setembro de 2001, na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, que não apenas sediou o Congresso como ofereceu toda a infra-estrutura de laboratórios para a apresentação dos trabalhos, em dez sessões de Comunicação, com um público inscrito de 200 pesquisadores das várias regiões do país. Essa participação significativa forneceu um quadro bastante diversificado da pesquisa Semiótica que se realizava no início da década passada, com destaques para a Semiótica Visual (artes, design, arquitetura, webdesign, artemídia); Semiótica Discursiva (linguística, análise do discurso, comunicação, design, arte, canção popular, literatura, poesia); Semiótica da Música; Semiótica das Mídias (mídia impressa, publicidade, televisão, rádio, fotografia, vídeo, cinema, comunicação digital e redes); Semiótica da Cultura (rituais, moda, objetos do design, organizações, leis); Semiótica Cognitiva (comunicação, corpo, dança); Semiótica e Política. Também permitiu uma localização da presença institucional das teorias semióticas, a saber: nas universidades do Estado de São Paulo: USP, UNESP de
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Bauru e Araraquara, UNIMAR de Marília, Unicamp, PUCCAMP, PUC-SP; nas da cidade do Rio de Janeiro (UFRJ, PUC-Rio, UERJ; nas universidades do Estado de Minas Gerais: PUC-Minas, UFJF, UFMG; no Estado do Paraná: UEL, CEFET, Tuiuti, UFPR; e no Estado do Rio Grande do Sul: UFRGS e Unisinos. Houve participação dos alunos de Pós-Graduação e de Graduação. Além do evento atestar um delineamento do estado da arte das teorias semióticas em seus distintos lugares, ele apontou as práticas de estudo voltadas para a cultura brasileira em várias de suas manifestações culturais, políticas, artísticas, educacionais, midiáticas e urbanísticas. Em termos das pesquisas semióticas, a novidade foi o foco nas mídias digitais e nas massivas que apareceram ao lado de outros universos de estudo já consagrados nas teorias semióticas voltados para os estudos das artes plásticas, estudos literários e lingüísticos. O V Congresso marcou a reorganização dos pesquisadores atuantes nas mais variadas regiões do país e acenou para a grande urgência de se empreender um levantamento do ensino da Semiótica no país no âmbito das graduações e das pós-graduações; de verificar o lugar da fundamentação teórica em Semiótica nas várias redes de pesquisa em desenvolvimento. Também apontou a necessidade de inventariar o número de titulados mestres e doutores e sua atuação no mercado profissional. A Associação Brasileira de Estudos Semióticos elegeu a sua primeira diretoria em assembléia deliberativa, ocorrida no evento, e determinou neste ato que as eleições ocorreriam bianualmente para que houvesse um rodízio da direção entre associados, conforme os grupos organizados, estando todos aptos a assumir essa construção do lugar das teorias semióticas no cenário da pesquisa de nosso país. Sob a presidência de Irene Machado, o segundo evento foi então realizado dois anos depois, em 2003, em uma das nascentes da teoria semiótica: a UNESP, de Araraquara, que sediou o II Congresso Internacional da ABES/VI Congresso Brasileiro de Semiótica no coração do estado de São Paulo. Com trabalhos entrosados dos semioticistas que aí ensinam, em um diálogo sustentável entre letras, lingüística, estudos literários e estudos voltados para as ciências sociais e políticas, as pesquisas aí se concentram na linha da Teoria Semiótica do Discurso, também conhecida como Semiótica Narrativa de Algirdas Julien Greimas e seus colaboradores. Foi assim que a recém criada Associação realizou o seu II Congresso Internacional/VI Congresso Brasileiro de Semiótica de 8 a 11 de outubro de 2003. O temário do VI Congresso foi “Percepção e Sentido: Tendências atuais dos estudos semióticos”. Com mais de 300 inscritos, os textos dos expositores em sessões de comunicação foram reunidos em um CD Room com a apresentação de 129 trabalhos, dos quais 94 se mostraram sendo de caráter aplicado, utilizando os
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métodos teórico-analíticos discursivos; conceitos operatórios peirceanos e ainda conceitos originários das correntes russas de semiótica. Uma nova diretoria da ABES foi eleita no evento que recebeu da anterior a missão de dar continuidade à representação da semiótica desenvolvida no Brasil. Pela formação da diretoria ligada a PUCSP, o III Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos/VII Congresso Brasileiro de Semiótica foi marcado para ser realizado em São Paulo, pelo Programa de Pósgraduação em Comunicação e Semiótica e pela Faculdade de Comunicação e Filosofia. De 14 a 16 de novembro de 2005, com a presidência de Ana Claudia Mei Alves de Oliveira, o congresso realizou-se no Teatro TUCA com o temário: “Brasil: Identidade e alteridade” e teve tradução simultânea do inglês e do francês dos convidados internacionais para o português, o que propiciou a participação dos discentes dos cursos de graduação desta instituição em que a semiótica fazse presente em várias faculdades. O evento reuniu mais de 400 participantes, com a edição dos Anais em CD que registrou as apresentações das 10 sessões de Comunicação, apresentadas simultaneamente. No âmbito das atividades, a assembléia elegeu uma nova diretoria encabeçada por Moema Lúcia Rebouças representante, juntamente com seus colegas, de uma terceira geração de semioticistas formados em São Paulo. A sua alocação na Universidade do Espírito Santo (UES) permitiria um saudável deslocamento do evento para Vitória que acolheu conciliadoramente os desenvolvimentos das teorias semióticas. Por sua atuação na Pós-graduação em Educação da UFES, o evento mostrou também como nesta localidade as teorias semióticas encontravamse em grande trânsito de discussão sobre o seu oferecer fundamentação teórica e metodologia a distintos cursos de graduação tais como os de Comunicação, Artes, Arquitetura, Letras e Linguística ao lado da Administração e Educação. Ocorreu um diálogo aberto entre as correntes teóricas da semiótica alavancado pela proposta temática do III Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos//VIII Congresso Brasileiro de Semiótica intitulada: Semiótica e Interações Sociais. O evento, realizado de 14 a 17 de novembro de 2007, reuniu 250 pessoas inscritas com 100 apresentações de trabalhos nas sessões de Comunicação, publicadas em Cd. Uma nova diretoria da ABES foi eleita no evento com representantes de distintas instituições de São Paulo e presidida por Lauer Nunes dos Santos, da Universidade Federal de Pelotas (RS). A concentração de paulistas fez com que o IV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos/IX Congresso Brasileiro de Semiótica fosse realizado na Universidade Anhembi Morumbi, organizado pela Pósgraduação em Design, marcando uma área emergente de aproximação das teorias
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semióticas. Outro destaque no evento foi a concentração de estudos semióticos sobre moda, formas de urbanidade com seus modos de vida, formas de consumo diversas. O evento recebeu mais de 200 participantes inscritos. O temário do IV Congresso Internacional e do IX Congresso Brasileiro de Semiótica foi Semiótica, Hábitos e Estilos de Vida. Um tema que assume uma posição quase limite entre as questões de base que vêm, ao longo do tempo, ocupando os estudos semióticos e alguns dos problemas que são apresentados pelas novas formas de produção e difusão do sentido e da informação. Com esse temário, os hábitos foram problematizados nos seus redimensionamentos das noções de tempo e espaço, bem como na redefinição dos modos de sociabilidade – ou de mediação da sociabilidade. Nesse contexto, uma das formas de compreender os processos de significação foi proposta justamente na desconstrução, a partir de metodologias específicas, daquilo já incorporado aos comportamentos como hábitos – maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente – de modo a resgatar ou rever possibilidades outras e que são consideradas “naturais” e, por isso mesmo, isentas de atenção. Nos dias 3 a 5 de maio de 2010, a ABES indicava contar com 173 membros filiados, que representam 18 universidades brasileiras, nas quais a Semiótica é uma disciplina reconhecida nos cursos de graduação e/ou pós-graduação, assim como na formação dos seus estudantes, professores e pesquisadores. Desde sua reestruturação em 2001, o principal objetivo da ABES tem sido promover o intercâmbio de pesquisas e estudos orientados pelas abordagens semióticas nas mais distintas áreas com o propósito de propiciar meios para dinamizar os debates. Sua tarefa emergencial é a de realizar um mapeamento dos pesquisadores, dos seus objetos de pesquisa, dos centros, núcleos e grupos de pesquisas atuantes e dos resultados de sua inserção em variados campos do saber o que torna significante saber mais sobre o lugar da pesquisa semiótica nos quadros das áreas de conhecimento em vigência no país. Vocacionada para a interdisciplinaridade, as teorias semióticas constituem, hoje, em um referencial teórico e metodológico nos programas de pós-graduação em Comunicação, Ciência da Informação, Marketing, Artes, Arquitetura, Design, Literatura, Letras e Linguística, Educação, Política, configurando-se assim em meio de interlocução multidisciplinar e interinstitucional. Um dos compromissos que a Associação Brasileira de Estudos Semióticos, por sua quinta vez, renovou na assembléia de sócios foi o ato de eleger a diretoria, que se torna assim uma porta-voz não só de seus associados, mas também das pesquisas realizadas nas várias teorias semióticas que se desenvolvem em todo o país. Em 2010, a diretoria eleita é presidida por Lucia Teixeira de Siqueira e Oliveira, da Pós-graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense
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(UFF). Uma eleição que fez a ABES voltar ao Estado do Rio de Janeiro, para sediar em Niterói V Congresso Internacional da Associação Brasileira de Estudos Semióticos/X Congresso Brasileiro de Semiótica, justamente quando completará 10 anos de sua reorganização e reativação como associação científica, uma instância legítima de representação das pesquisas semióticas dos estudiosos brasileiros no âmbito nacional e internacional. Nucleações das pesquisas em semiótica Por necessitar ainda uma pesquisa mais sistemática apenas são destacados em termos de Grupos, Núcleos e Grupos de pesquisa algumas de suas constituições. Essas informações são até então parciais cabendo ser mais aprofundadas a fim de compor uma visão mais integral da construção do saber e das pesquisas produzidas pelas teorias semióticas no Brasil. As nucleações de pesquisas levantadas são: • CISC – Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia - criado em 1992, com coordenação de Norval Baitello Jr. e Malena Segura Contrera. Linhas de pesquisa: 1) Comunicação e Cultura; 2) Comunicação e Imagem; 3) Comunicação e Mídia. Home page: http://www.pucsp. br/~cos-puc • Grupo de pesquisa em processos de criação - criado em 1993, sediado na PUCSP, com coordenação de Cecília Almeida Salles e Christiane Pires Nelson de Mello. Linhas de pesquisa: 1) Processos de criação nas mídias; 2) Teorias da criação. Home page: http://www.pucsp.br/~cos-puc • Centro de Pesquisas Sociossemióticas ( CPS) - criado em 1994, sediado na PUCSP:COS, com coordenação de Ana Claudia Mei Alves de Oliveira e Eric Landowski (CNRS, CEVIPOF). Linhas de pesquisa em semiótica discursiva: 1) Análise de textos, produtos e práticas sociais; 2) Fundamentos da Semiótica, Comunicação e outras áreas; 3) Processos de intertextualidade e interdiscursividade; 4) Regimes de sentido, regimes de interação, regimes de visibilidade. Home page: http://www.pucsp.br/pos/cos/cps • Centro Internacional de Estudos Peirceanos (CIEP) - criado em 1996, está sediado na PUCSP, com coordenação é de Maria Lucia Santaella Braga e Ana Maria Guimarães Jorge. Linhas de pesquisa são: 1) Semiótica Interdisciplinar; 2) Semiótica Teórica; 3) Semióticas Específicas. Home page: http://www.pucsp.br/pos/tidd/ciep/ • OKTIABR - Grupo de pesquisa para o estudo da semiosfera - constituído em outubro de 2002 para estudar semiótica russa, sediado na PUCSP:COS. Linhas de pesquisa: 1) conhecimento das linguagens da comunicação (segundo a perspectiva da ecologia da comunicação); 2)
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relação entre os sistemas culturais (tal como a arqueologia das mídias e de suas medições Homepage: http://semiosfera.iv.org.br/portal/grupo/grupo • GEARTE - Grupo interinstitucional vinculados à linha de pesquisa Educação: Arte Linguagem Tecnologia, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadores de diferentes instituições, docentes e estudantes, constituído desde 1997. Investiga as relações entre educação e arte, dialogando com as áreas da cultura visual, semiótica discursiva, estética, história, teoria e crítica da arte. Tem cinco linhas de atuação: pesquisa; ensino; publicação; assessoria; estudos específicos. Linhas de pesquisa: 1) educação e artes visuais; 2) educação: arte, linguagem, tecnologia; 3) estudos em arte: mídia, discurso e formação. Homepage: http://www.gearte.ufrgs.br/ • Grupo de Estudos Semióticos (GES), da FFLCH-USP - criado em 2001, Caracteriza-se pelas discussão de questões semióticas em geral, com destaque para a escola francesa. Linhas de pesquisa:1) Análise dos discursos sociais (verbais e não-verbais); 2) Linguagem da canção; 3) Teoria semiótica. Homepage: www.fflch.usp.br/dl/semiotica • Cadernos de Semiótica Aplicada (CASA) - criado na UNESP de Araraquara em 2002, por Ignácio Assis Silvia. Com coordenação de Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan. Está sediado na UNESP: Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Linhas de pesquisa: 1) Estrutura, organização e funcionamento discursivos e textuais; 2) Semiótica do texto literário. Homepage: http://seer.fclar.unesp.br/index.php/casa • Grupo de pesquisa Semiótica, leitura e produção de textos (SELEPROT) - criado em 2002 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A coordenação é de Darcília Simões. Linhas de pesquisa: 1) Análise linguísticosemiótica; 2) Linguagens, Tecnologias, Culturas; 3) Semiótica das Culturas. Home page: http://www.darciliasimoes.pro.br • Espaço-Visualidade/Comunicação-Cultura (ESPACC) - criado 2006, está sediado na PUCSP e sua coordenação é de Lucrecia D’Alessio Ferrara e Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa. Linhas de pesquisa: 1) Cidade como Manifestação Social da Cultura; 2) Espaço como Desafio Científico para uma Epistemologia da Comunicação; 3) Espaço e Midias Visuais - do bidimensional ao social ; 4) Espaço e Processos de Mediação e Interação. Home page: http://espacc.incubadora.fapesp.br • Laboratório Multidisciplinar em Semiótica (LABSEM) - criado em 2008 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) como um espaço de trabalho em que os graduandos (entre outros) operam com equipamentos digitais realizando um estágio semi-profissional de qualificação para o
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mercado de trabalho. Sua coordenadora é Darcilia Marindir Pinto Simões. Linhas de pesquisa são: 1) os textos verbais e não-verbais; 2) o objeto literário; 3) o desenho de produtos e 4) a comunicação visual. Home page: http://labsemuerj.blogspot.com/ • Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Linguagem (NIEL). Hopmepage: http://dgp.cnpq.br/diretorioc/fontes/detalhegrupo. jsp?grupo=0338801IRY8KT1 http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhegrupo. jsp?grupo=0326802KF6LE99 • Grupo Avançado de Pesquisa em Semiótica - Criado em 2005 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A coordenação é de Eliana Pibernat Antonini. Dedica-se aos estudos sobre iconicidade, entreligados às produções televisivas nacionais que alcançaram repercussão internacional. Linha de pesquisa: Cultura Midiática e Tecnologias do Imaginário. Homepage:http://www.portcom.intercom. org.br/francobrasil/detalhe.php?c22=grupo&id=381&c10=Brasil&c9=RS • Semiótica, design e arte - criado em 2005 na Universidade Federal de Pelotas. Sua coordenação é de Lauer Alves Nunes dos Santos. Linhas de pesquisa: 1) Arte: reflexão e significação. 2) Design e identidade; 3) Design: planejamento e produção. 4) Semiótica discursiva. Homepage: não indicada • Comunicação e Cultura: Barroco e Mestiçagem - criado em 2005, sediado na PUCSP, a sua coordenação é de José Amalio de Branco Pinheiro. Linhas de pesquisa: 1) Ambientes Midiáticos e Mestiçagem. 2) Comunicação e Barroco nas Américas. Homepage: http://br.groups.yahoo.com/group/ comunicpuc • Semiótica e discurso (SEDI) - criado em 2006, na Universidade Federal Fluminense, Departamento de Ciências da Linguagem. O grupo de pesquisa reúne pesquisadores em Semiótica que trabalham com análise de textos e discursos e produzem reflexão teórica e metodológica sobre a produção de sentido em textos de diversas materialidades significantes. A coordenação é de Lucia Teixeira de Siqueira e Oliveira e Silvia Maria de Sousa. Linha de pesquisa: 1) Discurso e interação. Homepage: http://www.uff.br/sedi/links. htm • Semiótica da Comunicação - criado em 2009, na Universidade São Paulo ( ECA). A coordenação é de Irene de Araújo Machado e Anderson Vinicius Romanin. Linhas de pesquisa: 1) Design da comunicação; 2) Epistemologia, Teoria e Metodologia da Comunicação; 3) Fundamentos sistêmicos da semiótica da comunicação; 3) Linguagens da comunicação.
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Homepage: http://www.semeiosis.com.br • Grupo de Pesquisa Semiótica e Comunicação (GPESC) - criado interinstitucionalmente em Porto Alegre. A sua coordenação é de Alexandre Rocha da Silva (UFRGS). Reúne quatro núcleos de pesquisa : 1) Semiótica Crítica; 2) Design Estratégico; 3) Memória e Informação; 4) Corporalidades, que são articulados em um mesmo diretório do CNPq. Propõe debates acerca das linguagens voltadas à comunicação em diferentes práticas disciplinares, metodológicas, estéticas e políticas. Objetiva a revisão da Semiótica tradicional realizada a partir das obras de autores como Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jaques Derrida. Homepage: http://www.gpesc. caosmose.net/ Periódicos científicos de Semiótica Igualmente é parcial o levantamento das revistas que se declaram dedicadas aos estudos semióticos. Com conselhos editoriais para seleção de artigos e ligados ao sistema de avaliação Qualis da CAPES, os periódicos levantados até então são: Galáxia, Significação, Itinerários, Alfa, Signum, Casa, Cadernos de Textos do CPS, REVISTA DOSSIÊ GPESC. Desdobramentos São muitas as pesquisas ainda a serem feitas para completar o quadro de vida da ABES de forma a delinear o seu retrato. Entre as investigações emergentes a se realizar destaca-se, além das atualizações das revistas e dos grupos de pesquisa, a necessidade de levantar as obras das variadas correntes o que comporá um mapeamento das investigações dos diversos campos semióticos e abrirá possibilidades de realização de um estudo qualitativo da Semiótica desenvolvida no Brasil. Por outro lado, faz-se urgente, igualmente, o levantamento das faculdades com os cursos que inseriram a teoria semiótica em seus grupos pósgraduados e graduados. Essas são tarefas a serem feitas que contribuirão para um delineamento do retrato da Semiótica brasileira, por meio de suas variadas práticas de vida e de presença em uma multiplicidade de campos do saber que apenas começamos a configurar. A todos que puderem colaborar, estou continuando essa coleta de dados por julgá-la da maior importância para que a Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES) possa estar representada junto às várias áreas do saber da CAPES, para as quais as teorias semióticas têm dado a sua colaboração efetiva. De espectro amplo abrangendo da Medicina, Engenharia, Design, Arquitetura, moda, música às áreas de arte, Letras, Literatura e Comunicação, essa tarefa caberia a um grupo de investigadores representativos desse panorama.
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Graças à Socicom e ao apoio do Ipea em fomentar um depoimento sobre o modo como as associações atuam na área da Comunicação, esse primeiro passo foi dado. Contudo, trata-se apenas de um esboço preliminar que buscou retratar a trajetória de uma organização instalada no país há meio século e que está por ser continuado por muitas orquestrações, visando realizar um exame qualitativo das contribuições da Semiótica para os estudos do campo da Comunicação no Brasil. Seria necessário outros pesquisadores de campos teóricos, de ensino e pesquisa da Semiótica darem as mãos para juntos desenvolverem esse projeto de traçado dos resultados e contribuições da semiótica nos vários campos de saber. Meu gesto é apenas um e só pode significar se formar uma aliança a fim de construirmos junto esse retrato coletivo. Meus braços se estendem a todos em um chamado para realizarmos juntos essa tarefa que não pode mais esperar para acontecer.

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CAPÍTULO 8 Economia Política da Comunicação (EPC)
Anita Simis 1 Ruy Sardinha Lopes2

Introdução A Economia Política da Comunicação (EPC) é um constructo teóricometodológico desenvolvido a partir das contribuições de Marx e se constitui como um importante pólo estruturador do pensamento crítico comunicacional. Assim, se a Economia Política Crítica surge para explicar o modo de funcionamento do capitalismo, foi o aparecimento das indústrias da mídia no século XX – e seu papel na lógica de reprodução do estágio monopolista do capitalismo – que aproximou este campo disciplinar das comunicações. Desta forma, as contribuições de Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin e demais colegas da chamada Escola de Frankfurt para o melhor entendimento das especificidades da produção cultural e sua relação com os processos econômicos e sociais mais amplos abriram uma frutífera e longa trajetória investigativa que, passando pelos Estudos Culturais, desembocaram na EPC. Tendo o canadense Dallas Smythe como pioneiro nesse campo (no final da década de 1940 ofereceu o primeiro curso sobre EPC nos EUA) , será sobretudo a partir da década de 1960 que esta nova perspectiva analítica começa a se desenvolver. Para isso contribuíram diversos pesquisadores, que talvez possam ser divididos em duas “escolas”: a “norte-americana”, na tradição de Baran e Sweezy, Dallas Smythe e Herbert Schiller e a “européia”, com setores das academias britânica e francesa, vinculadas à produção intelectual de Nicholas Garnham, Peter Golding e Graham Murdock, de um lado, Patrice Flichy, Bernard Miège e Dominique Leroy, de outro. Seja criticando as teorias que viam os meios de comunicação massivos apenas como uma esfera de produção de ideologia e estratégias discursivas e enfatizando o papel da mercadoria audiência (Smythe), seja ressaltando a função da publicidade como arma fundamental das estratégias competitivas das grandes empresas oligopolistas (Baran e Sweezy), ou ainda, como o trabalho de Herbert
1 Diretora Administrativa da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom) e participa da Redecult e do CULT. Foi presidente da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura – Ulepicc-Brasil e coordenadora da revista Estudos de Sociologia. É professora livre-docente na Unesp – campus Araraquara. 2 Doutor em Filosofia pela FFLCH-USP. Professor e pesquisador do Departamento e do Programa de PósGraduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia da USP de São Carlos. Coordenador do Núcleo de Estudos sobre as Espacialidades Contemporâneas (NEC) e presidente do capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-BR)

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Schiller, estabelecendo os vínculos orgânicos entre os sistemas de comunicação e as operações do capital transnacional, os autores norte-americanos. Já na Europa, os estudos de Graham Murdock e Peter Golding voltaram–se para a relação entre os aspectos simbólicos e materiais das comunicações públicas, superando, desta forma aqueles estudos que centravam o foco analítico em um dos lados; como, por exemplo, as análises sobre os processos de construção e consumo de sentidos oriundas dos Estudos Culturais. Na França, onde predomina a expressão Economia da Cultura e da Comunicação, a par das análises econômicas sobre as artes cênicas realizadas por William Baumol (1968) e Dominique Leroy (1980), ganharam maior repercussão internacional as figuras de Bernard Miège e Patrice Flichy, economistas ligados ao GRESC, da Universidade Stendhall, de Grenoble. O estudo dos processos de trabalho e de valorização dos produtos culturais e suas especificidades, a análise das estruturas dos mercados culturais, a distinção entre setores de edição (livro, disco, vídeo, CD etc)) e a culture de flot (rádio, TV) e a substituição do termo “indústria cultural” por “indústrias culturais” são algumas das importantes contribuições da Economia Política francesa para o campo comunicacional. Ao sintetizar a contribuição dos estudos em EPC, Herscovici, Bolaño e Mastrini (2010) afirmam: “No seu conjunto os estudos em Economia Política da Comunicação representam uma ruptura com certas análises marxistas que, a partir de uma aceitação não problemática do modelo base/superestrutura, entendem os meios de comunicação como instrumentos do domínio das classes no poder. Essa visão reducionista do papel dos meios de comunicação na sociedade foi rebatido a partir da economia política que, embora assumindo a importância da estrutura econômica no funcionamento dos meios e, especialmente a necessidade de analisá-la, insistiu em não cair no erro de uma transferência mecanicista dos efeitos dos meios. Por outro lado, os estudos da economia dos meios se distanciam das teorias que proclamam uma excessiva autonomia dos níveis ideológicos ou políticos, eliminando qualquer influência das relações econômicas no processo de significação. A esse respeito, Garnham (1979) assinala: “essa posição desenvolve corretamente as instituições de escola de Frankfurt sobre a importância da superestrutura e da mediação, mas prescinde do fato de que, na época do capitalismo monopolista, a superestrutura se industrializa, é invadida pela estrutura”. Aparece assim a reivindicação de deixar de considerar os meios de comunicação como aparelho ideológico e se investe na necessidade de centrar-se na sua função econômica”.

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América Latina A história do campo da Comunicação na América Latina sempre ocupou papel de destaque no cenário internacional, sobretudo no que se refere à discussão sobre a aceleração desenvolvimentista presumivelmente proporcionada pelas novas tecnologias de comunicação a serem transplantadas pra o terceiro mundo, numa espécie de Plano Marshall comunicacional. As reflexões dos economistas da Comissão Econômica Para a América Latina e o Caribe (CEPAL), reticentes quanto a esta relação causal, que no campo da comunicação derivam nas teorias da dependência ou do imperialismo cultural e a discussão sobre a repartição dos fluxos globais de informação, sintetizada no Relatório McBride, fruto do movimento em prol de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC) tiveram, assim, grande importância na luta contra-hegemônica e pela democratização da área. Assim, como aponta Berger (2001), as demandas políticas e sociais, mais do que as científicas, foram a mola propulsora da tradição do pensamento comunicacional na região: “Na América Latina, as marcas da dependência estrutural, que evoca uma cultura do silêncio e da submissão, mas também de resistência e de luta, são o pano de fundo da busca por compreender o que acontecia com a comunicação e demarca as fronteiras do emergente campo de estudo” (BERGER, 2001, p.241). A Economia política da região, herdeira dessa herança intelectual, passa a desafiar as premissas do funcionalismo modernizador, refinando os instrumentos de análise das estruturas de poder e dominação, bem como na reflexão sobre o papel das novas tecnologias para a integração hemisférica. As mudanças estruturais que o Capitalismo sofreu a partir de meados da década de 1970, a reconfiguração do sistema-mundo capitalista e a posição central que os sistemas de informação e de comunicação passam a ter neste processo reafirmaram a importância do constructo teórico-metodológico da EPC, quer para o entendimento das funções macroeconômicas que a cultura e a comunicação assumem no processo de acumulação, quer, devido à chamada “convergência tecnológica”, para a análise de seus conteúdos, que cada vez mais não podem ser apreendidos de forma independente das tecnologias de difusão e transmissão da informação. Uma nova agenda analítica se impõe à EPC quer no tocante a redefinição do conceito de esfera pública, quer no que se refere aos mecanismos de regulação dos sistemas midiáticos, por um lado ou no tocante ao funcionamento dos sistemas globais de informação e comunicação, às determinações culturais e econômicas da
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convergência tecnológica, à concentração dos sistemas midiáticos em poderosos oligopólios etc., por outro lado. A EPC no Brasil No Brasil, ainda que reconhecendo, como o faz Marques de Melo (2008,p.10), a precocidade de Barbosa Lima Sobrinho que, em 1923, enfatiza a ótica econômica nos estudos sobre a imprensa brasileira, e de dois estudos marcantes dos anos 1970 – “Notícia, um produto à venda”, de Cremilda Medina (1978) e “O papel do Jornal”, de Alberto Dines – o campo disciplinar da EPC teve de esperar até a década de 1990 para se constituir. Embora não seja o caso de aqui fazermos a genealogia do pensamento brasileiro, mostrando os influxos nacionais e internacionais, com as honrosas participações de Armand Mattelart e Herbert Schiller, cabe ressaltar o pioneirismo de César Bolaño que, formado de Comunicação Social e pós-graduado junto ao grupo de economistas pós-cepalinos da UNICAMP, soube como ninguém articular o entrecruzamento destas duas áreas. Suas duas obras inaugurais – “Mercado Brasileiro de Televisão” (1988) e “Indústria cultural, informação e capitalismo” (2000) – revelam um pesquisador capaz não apenas de lidar de forma crítica com os conceitos-chaves difundidos pelas duas “escolas” mestras, mas também formulador de reflexão própria, contribuindo de forma decisiva para a consolidação da EPC no Brasil. Sua contribuição não pára nos bancos da academia. Em 1992 é fundado o do Grupo de Trabalho (GT) de Economia Política das Telecomunicações, da Informação e da Comunicação (EPTIC) da Intercom e existente, em sua primeira fase, até o ano de 2000. Se, àquela época, já se reconhecia a importância das análises do setor das comunicações a partir do instrumental conceitual-metodológico da Economia Política - o que sempre implicou a constituição de um campo de saber intrinsecamente interdisciplinar –, os esforços empreendidos por este GT foram fundamentais no sentido de reunir material analítico de um campo conceitual que, ao contrário da tradição européia, mostrava-se ainda bastante incipiente no Brasil e na América Latina. Apenas para relembrarmos parte destes esforços, cabe citar a publicação dos Boletins Eptic – distribuídos a todos os participantes do Grupo e interessados em geral e a publicação de duas obras coletivas organizadas por César Bolaño - Economia Política das Telecomunicações, da Informação e da Comunicação. São Paulo: Intercom, 1995 e Globalização e Regionalização das Comunicações, editado pelo EDUC e UFS, em 1999. Ou ainda a organização de mesas sobre o tema, em 1998, no XIII Congresso da Associação dos Cursos de Graduação em Economia,
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em Aracaju e no XXVI Encontro Nacional de Economia/ANPEC, em Vitória e, em 1999, no IV Encontro Nacional de Economia política (SEP), em Porto Alegre e na Sociedade Brasileira de História da Ciência. Em continuidade a esse esforço, em 1999 forma-se a Rede de Economia Política das Tecnologias da Informação e da Comunicação, ligada ao Observatório de Comunicação (OBSCOM) do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe, tendo coordenação geral de. César Bolaño. Divergindo do pensamento único, na multiplicidade organizacional, o Grupo foca seus estudos em Economia Política da Comunicação, em tópicos como o processo de oligopolização da mídia, as políticas de comunicação, as inovações na área informacional, a funcionalidade da cultura no capitalismo e os lugares da democracia e da diversidade nessas dinâmicas. O principal espaço de encontro, articulação e diálogo dos pesquisadores é o portal EPTIC (www.eptic.com.br/), que reúne conteúdos na área de Economia Política da Comunicação, incluindo livros digitais, teses, dissertações, monografias, textos para discussão, boletim noticioso e uma revista acadêmica, de periodicidade quadrimestral, a Eptic On line-Revista Electrónica Internacional de Economía de las Tecnologías de la Información y de la Comunicación, a qual tem como editor Valério Cruz Brittos. O portal Eptic, que em 2003 recebeu o Prêmio Luiz Beltrão da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e tem registrado mais de 130 mil acessos anualmente, articula uma rede de pesquisadores de diferentes países da Europa e da América Latina, participantes de diversos grupos de trabalho vinculados ao tema. Em 2002, a Rede lançou a Biblioteca Eptic, uma coleção sobre Economia Política da Comunicação, que pretende suprir a lacuna da baixa quantidade de obras com este enfoque no país, através do lançamento de títulos individuais e coletivos, de pesquisadores do Brasil e do exterior. Por seu intermédio, pretendese debater como a essencialidade da discussão do papel da mídia e do espaço público eleva-se na medida em que aumenta a tendência mundial de concentração da propriedade midiática, assumindo os meios crescente relevância econômica, política e cultural. O objetivo é que a Biblioteca Eptic consista numa instância de fomento à comunidade acadêmica – e mesmo à sociedade civil – refletir sobre o campo midiático, alinhada com metas de pluralidade e democracia e somando colaborações às pesquisas especialmente de Programas de Pós-Graduação em Comunicação, Ciências Sociais, Ciências da Informação, Economia, dentre outros. Nesta dinâmica, objetiva participar do processo de construção de novas pontes comunicacionais, mais públicas e pluralistas. Até o momento, foram lançados os seguintes títulos pela Biblioteca EPTIC: 1) Comunicação, informação e espaço público: exclusão no mundo
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globalizado – BRITTOS, Valério (Org.). Rio de Janeiro: Papel & Virtual, 2002. 2) Comunicação, informação e cultura: dinâmicas globais e estruturas de poder – JAMBEIRO, Othon; BRITTOS, Valério; BOLAÑO, César (Orgs.). Salvador: Edufba, 2004. 3) Comunicação, hegemonia e contra-hegemonia – JAMBEIRO, Othon; BRITTOS, Valério; BENEVENUTO JR., Álvaro (Orgs.). Salvador: Edufba, 2005. 4) Comunicação na Fase da Multiplicidade da Oferta – BRITTOS, Valério (Org.). Porto Alegre: Nova Prova, 2007. 5) Comunicação, educação, economia e sociedade no Brasil: desenvolvimento histórico, estrutura atual e os desafios do século XXI – BOLAÑO, César (Org.). São Cristóvão: Ed. UFS, 2008. 6) A firma-rede e as novas configurações do trabalho nas telecomunicações brasileiras – SANTOS, Verlane Aragão. São Cristóvão: Ed. UFS, 2008. 7) Comunicação e a Crítica da Economia Política: perspectivas teóricas e epistemológicas – BOLAÑO, César (Org.). São Cristóvão: Ed. UFS, 2008. 8) Rádios comunitárias no Brasil e na França: democracia e esfera pública – LEAL, Sayonara de Amorim Gonçalves. São Cristóvão: Ed. UFS, 2008. O passo decisivo para a consolidação da EPC no Brasil e na América Latina foi dado, entretanto, através da realização do I e II Encuentro de Economia Política de la Comunicación Del Mercosur, respectivamente em maio de 2001, na Universidade de Buenos Aires, e março de 2002, na Universidade de Brasília, culminando na criação da Unión Latina de Economia Política de la Comunicación, la Información y la Cultura (ULEPICC) (http://www.ulepicc.org ), formalizada no III Encuentro Latino de Economia Política de la Comunicación, em julho de 2002, na Universidade de Sevilla. Como podemos observar em seu texto fundador, a Carta de Buenos Aires, formava-se com a ULEPICC o foro ideal à abordagem crítica dos setores da comunicação, alternativa ao “pensamento único”, prioritamente tecnocrático e instrumental, dominante nos estudos sobre as comunicações na América Latina. A partir de sua formalização, a ULEPICC teve até o momento duas juntas diretivas, a primeira (2003-2007) presidida por César Bolaño e a atual (2007-2011), por Luis A. Albornoz (Universidad Carlos III de Madrid). Neste
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período, sete encontros internacionais foram organizados, reunindo intelectuais, pesquisadores, profissionais e alunos de pós-graduação dos mais variados países: 2001 - I Encuentro de Economía Política de la Información y la Comunicación del MERCOSUR Tema: “Concentración y convergencia en las industrias culturales” Local: Universidad de Buenos Aires, Argentina 2002 - II Encuentro Latino de Economía Política de la Comunicación Tema: “Sociedade da Informação e Nova Economia: ruptura ou continuidade? A visão da Economía Política. Local: Universidade de Brasília, Brasília. 2003 - III Encuentro Iberoamericano de Economía Política de la Comunicación Tema: “Comunicación y Desarrollo en La Sociedad Global de La Información” Local: Universidad de Sevilla, Sevilla 2005- V Encontro Latino de Economia Política da Informação, Comunicação e Cultura Tema: “Sociedade do Conhecimento e Controle da Informação e da Comunicação” Local: Universidade Federal da Bahia, Salvador 2007 – VI Encuentro Internacional de la Unión Latina de Economía Política de la Información, Comunicación y la Cultura Tema: Inovaciones tecnológicas, comunicación y cambio social Local: Universidad Autonoma Metropolitana, Cidade do México 2009 - VII Congreso Internacional de la Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura Tema: “Políticas de cultura y comunicación: creatividad, diversidad y bienestar en la Sociedad de la Información”. Local: Universidad Carlos III de Madrid, Madri Estruturada como uma Federação, uma das consequências mais profícuas desta entidade foi a criação dos Capítulos nacionais: a ULEPICC-Espanha (http://www.ulepicc.es ), fundada em março de 2002 e presidida por Ramón Zallo (Universidad del País Vasco), a ULEPICC-Brasil (http://www.ulepicc.
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org.br ), fundada em março de 2004 e a ULEPICC-Moçambique (http:// ulepiccmozambique.blogspot.com), criada em junho de 2008 e presidida por João Miguel (Universidade Eduardo Mondlaner, Maputo). A ULEPICC-Brasil vem ocupando papel de destaque no cenário acadêmico nacional. Em estreita associação com os demais espaços voltados para EPC em âmbito nacional e internacional, a entidade volta-se, dentre outras atividades, para: a) realização de eventos de estudos de Comunicação, numa abordagem interdisciplinar; b) desenvolvimento de pesquisas e atividades que representem uma contribuição para o campo; c) promoção do intercâmbio de informações e experiências entre especialistas da área; d) efetivação de acordos com entidades congêneres, institutos e órgãos de fomento à investigação social; e) publicação de obras de cunho científico Desde sua fundação, a entidade passa por sua terceira junta diretiva: 20042006 – presidente: Valério Brittos (UNISINOS, RS), 2006-2008 – presidente Valério Brittos (UNISINOS,RS) e 2008-2010, presidente: Anita Simis (UNESP, SP). Foram realizados três Encontros Nacionais: 2006 – I Encontro da ULEPICC-Brasil Tema: Economia Política da Comunicação: Interfaces Sociais e Acadêmicas do Brasil Local: Universidade Federal Fluminense, Niterói 2008 – II Encontro da ULEPICC-Brasil Tema: Digitalização e Sociedade Local: Universidade Estadual Paulista, Bauru 2010 – III Encontro da ULEPICC-Brasil Tema: A formação da Economia Política da Comunicação e da Cultura no Brasil e na América Latina: conquistas e desafios Local: Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão Se a constituição da Rede EPTIC e da ULEPICC-Brasil marcam, de forma inequívoca, a consolidação deste campo disciplinar, não menos importante é a
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formação dos Grupos de Trabalhos (existentes nas diversas entidades científicas. Na Intercom, sob a coordenação de Valério Brittos, o GT, significou ratificar o diálogo profícuo deste campo com a Intercom e a necessidade da formação do pensamento crítico comunicacional. O conjunto de trabalhos apresentados nas seções deste GT nos dois Congressos Brasileiros de Ciência da Comunicação, de 2009 e 2010, a presença de pesquisadores de relevante expressão nacional e a qualidade do debate ali travado indicam um futuro promissor. Assim, a ementa propunha que como decorrência da centralidade econômica e política que a informação, comunicação e cultura ganharam no processo de valorização capitalista, foram colocados novos desafios políticos e epistemológicos aos agentes sociais que lutam por uma sociedade mais democrática e inclusiva. A Economia Política crítica, ao mesmo tempo em que reconhece a importância de uma “economia” da informação, da comunicação e da cultura, salienta a insuficiência das abordagens estritamente econômicas e tecnicistas na apreensão e análise deste fenômeno social. Acreditando, pois, que o Social e o Político, em suas múltiplas dimensões, se situam no centro das análises e decisões econômicas a EPC propõe, metodologicamente, a abordagem interdisciplinar e heterodoxa, capaz de pôr em interação diversos campos disciplinares como a Economia, a Comunicação, a Sociologia, a Ciência Política, a Filosofia e os Estudos Culturais Críticos, como necessária à constituição deste corpus teórico-crítico. Este GP propõe ser um fórum de comunicação, debate e reflexão entre os investigadores e profissionais destes campos disciplinares no sentido de formar matéria crítica necessária à apreensão e análise dos fenômenos comunicacionais e culturais contemporâneos, tais como o avanço dos processos de privatização das telecomunicações, a convergência tecnológica, a expansão e novas configurações das indústrias culturais, a digitalização dos meios eletrônicos, TV digital, a privatização do conhecimento, o desenvolvimento de todas as formas de capital intangível, etc. Já na COMPÓS, na coordenação de Elizabeth Saad Correa, a ementa enfatizou que a Economia Política é campo teórico-conceitual multidisciplinar essencial à análise e compreensão da Questão Social e suas potencialidades de emancipação. Neste GT, ela está associada ao estudo e pesquisa das Políticas de Comunicação, entendidas como o conjunto de princípios, disposições constitucionais, leis, regulamentos e instituições estatais, públicas e privadas que compõem o ambiente normativo da televisão, cinema, rádio, internet, publicidade, produção editorial, indústria fonográfica, artes e espetáculos. A ênfase teórico-conceitual do GT na Economia Política é confluente com outras áreas pertinentes do saber, como Filosofia Política, Ciência Política, Sociologia Política e Estudos Culturais Críticos. Outra instituição importante de atuação foi a ALAIC, sob a coordenação de
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César Bolaño. Para o GT então atuante, a análise econômica das comunicações é fundamental para a compreensão dos grandes temas subjacentes à atual crise do capitalismo. A tradição européia dos estudos da economia política da comunicação contrasta com sua pequena difusão no Brasil ou a América Latina onde se encontram raros trabalhos que se dedicam ao tema. Sabe-se o quanto é importante discutir em bases objetivas assuntos específicos urgentes da área latino-americana que não podem prescindir de uma análise econômica. Forma parte dessa necessidade temas como: O desenvolvimento acelerado da chamada “neo-teve”; as novas tecnologias da comunicação em nossos países; o preocupante avanço do neoliberalismo; a privatização acelerada das telecomunicações em certas áreas e a própria expansão internacional de nossas indústrias culturais que não incluíram internamente os temas primários relacionados à estrutura democrática dos meios de comunicação de massa. Este GT tem por objetivo servir à organização dos investigadores latinoamericanos de comunicação preocupados com a temática. Trata-se de criar um canal de comunicação entre os investigadores, economistas, comunicólogos, politicólogos. Em fim, intelectuais críticos capazes de contribuir para a construção do corpo teórico e analítico interdisciplinar que o conhecimento da complexa realidade latino-americana exige na área. Pesquisadores Adilson Cabral – UFF/RJ - acabral@comunicacao.pro.br Alain Herscovici – UFES/ES - alhersco.vix@terra.com.br Anita Simis – UNESP/SP – campus Araraquara – anita@fclar.unesp.br César Bolaño – UFS/SE - bolano@ufs.br Claudio Bertolli Filho - FAAC/UNESP, campus de Bauru - cbertolli@uol. com.br Clovis Ricardo Montenegro de Lima.- UFSC/ SC - clovis.mlima@uol.com. br Doris Fagundes Haussen – PUCRS - dorisfah@pucrs.br Elizabeth Saad Corrêa – ECA/USP - bethsaad@yahoo.com.br Eula Dantas Taveira Cabral – Universidade/RJ: euladtc@comunicacao.pro. br Fernando Oliveira Paulino – Universidade de Brasília/ DF - fopaulino@ gmail.com
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Flávia Seliman – UNISINOS/RS - FLAVIAS@unisinos.br Laurindo Leal Filho – ECA/USP - laloleal@usp.br Leandro Ramires – UnC/RS - ramires@uncnet.br Marcos Dantas Loureiro- UFRJ/RJ - mdantas@inventhar.com.br Maria Teresa Miceli Kerbauy - UNESP/ SP- kerbauy@travelnet.com.br Maximiliano Martín Vicente - FAAC-UNESP - Campus de Bauru maxvicente@faac.unesp.br Micael Herschmann – UFRJ/RJ: micael@alternex.com.br Murilo César Ramos- UnB/DF - mcr.fac@terra.com.br Ruy Sardinha Lopes – USP/SP – campus São Carlos - rsardinhalopes@ sc.usp.br Sayonara Leal. – UnB/DF -sayonaraleal@uol.com.br Sérgio Capparelli – UFRGS/RS - capparel@terra.com.br Suzy Santos- UFRJ/RJ - suzysantos@gmail.com Valério Cruz Brittos – UNISINOS/RS: val.bri@terra.com.br Verlane Aragão Santos – UFS/SE - verloca@oi.com.br William Dias Braga –UFRJ/RJ - db.william@gmail.com Referências Bibliográficas e sites BERGER, C. 2001. A pesquisa em comunicação na América Latina. In: A. HOHLFELDT, L. C. MARTINO; V. V. FRANÇA (Org.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, Vozes. BOLAÑO, César (2000). Industria cultural. Informação e capitalismo. Hucitec y Polis, São Pablo. BOLAÑO, César (1988). Mercado brasileiro de televisão. Editorial de la UFS, Aracajú. BOLAÑO, César; G. MASTRINI y F. SIERRA (2005) (eds.). Economía política, comunicación y conocimiento. Uma perspectiva crítica latinoamericana. La crujía, Buenos Aires. GARNHAM, N. (1979). Contribution to a political economy of mass media, in GARNHAM, Nicholas (ed.) “Capitalism and communication”. Londres, Sage, 1990.
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HERSCOVICI, Alain (1994), Économie de la Culture et de la Communication. L´Harmattan, Paris. MATTELART, A., MATTELART, M. (1999). História das teorias da comunicação. São Paulo, Loyola. MIÈGE, B. et P. PAJON e J. SALAÜn (1986). L’industrialisation de l’audiovisuel. Res Babel, Paris. MIÈGE, B. et P. PAJON (1990). La syntaxe des réseaux. Médias et Communication en Europe, PUG, Grenoble. MOSCO, V. 1996. The political economy of communication. London, SAGE Publications. MURDOCK, G., GOLDING, P. 1997. For a political economy of mass communications. In: P. GOLDING, G. MURDOCK, The political economy of the media. Vol. I. Cheltenham, The international library of studies in media and culture. SCHILLER, H. (1969). Communicación de masas e imperalismo yanqui. Barcelona, Gustavo Gili,Colección Punto y Línea, 1976. _____________ (1986). Información y economía en tiempos de crisis, Madrid, Fundesco. ZALLO, Ramón (1988). Economía de la comunicación y la cultura. Akal, Madrid, 207.

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Valério Cruz Brittos3 César Ricardo Siqueira Bolaño 4

O Capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulrpicc–Brasil) foi fundado em março de 2004, em Aracaju (SE), como seção nacional da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (Ulepicc–Federação), criada, por sua vez, em Sevilha (ES), em 2002, no bojo do terceiro encontro de uma rede de pesquisadores do campo da Economia Política da Comunicação, da Informação e da Cultura (EPC). Os dois primeiros encontros ocorreram em Buenos Aires (2001) e Brasília (2002), tendo como objetivo, justamente, congregar pesquisadores de países de língua latina, visando organizar e fomentar a reflexão e o debate pluralista no interior da EPC e desta com outros campos das Ciências Sociais e das Humanidades. Tanto o Capítulo Brasil, como as demais seções nacionais (Espanha, Moçambique e México, até o momento) e a Federação consideram a EPC como parte do pensamento crítico, diretamente vinculada às transformações das organizações de mediação sócio-simbólica que, no capitalismo monopolista, tomam a forma de indústria cultural, servindo diretamente à reprodução do sistema, em nível material (pela importância que adquire a publicidade para a realização das mercadorias) e em nível simbólico (propaganda). Cabe à Economia Política explicar como funcionam os mercados culturais (em geral, oligopólios) em suas conexões com o processo mais amplo da reprodução social, bem como assinalar as contradições inerentes a sua estrutura, na medida em que se a constituição de sistemas de comunicação social e tecnologicamente mediados se dá basicamente no sentido de reforçar o controle social, abre também possibilidades de comunicação horizontal tendencialmente contra-hegemônica. No referido encontro de Sevilha, definiu-se pela realização do IV Encontro, em 2003, em Salvador, e que os encontros sucessivos da Ulepicc–Federação passariam a ter periodicidade bianual. Assim, foram realizados os encontros de Caracas, México DF e Madri, em 2005, 2007 e 2009, respectivamente. O VIII Encontro da Ulepicc está previsto para 2011, no Chile, com atividades em Santiago (Universidade do Chile) e em Temuco (Universidad de La Frontera). A
3 Professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e vice-presidente da Unión Latina de Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (Ulepicc-Federación). 4 Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e presidente da Associação Latino-Americana de Pesquisadores da Comunicação (ALAIC). Doutor em Economia pela Unicamp. Tem vários livros publicados na área da Economia Política da Comunicação.

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organização do II Encontro (preparatório) em Brasília, do IV (já com estrutura de congresso internacional) em Salvador, bem como o fato de o Brasil ter constituído o primeiro capítulo nacional da entidade (e o primeiro encontro nacional) atestam a vitalidade do grupo brasileiro na entidade, presidida inicialmente por César Bolaño (Universidade Federal de Sergipe), que passou a presidência a Luis Albornoz, tendo este como vice, Valério Brittos (UNISINOS). A própria origem da Ulepicc remete ao diálogo acadêmico entre pesquisadores de Economia Política da Comunicação, em que a Rede de Economia Política das Tecnologias da Informação e da Comunicação (EPTIC), fundada em 1999, a partir dos GT homônimos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), fundado em 1992, e da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (ALAIC), teve um papel protagonista. O portal EPTIC (www.eptic.com.br), produzido no Observatório de Economia e Comunicação (OBSCOM), laboratório acadêmico criado em 1995 e integrante do Núcleo de Pesquisa e Pós-Graduação em Economia (NUPEC) e ao Departamento de Economia (DEE) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) é o espaço na Internet em que se localiza, entre outras coisas, a revista EPTIC ON LINE, cujo diretor é César Bolaño (UFS) e o editor, Valério Brittos (Unisonos), contando ainda com um extenso conselho editorial, do qual fazem parte vários dos ícones da EPC mundial5. Com periodicidade quadrimestral, a revista se encontra no seu décimo primeiro ano de publicação ininterrupta. Fundada em 2004, a Ulepicc–Brasil decidiu por realizar encontros também bi-anuais em anos pares, para não coincidir com os congressos da Federação. O primeiro encontro do Capítulo Brasil foi, assim, realizado em 2006, em Niterói (RJ), na Universidade Federal Fluminense (UFF) e teve como temática central “interfaces acadêmicas e sociais do Brasil”, constituindo-se com uma ocasião de diálogo e debate com outras abordagens da comunicação, envolvendo essencialmente questões de tecnologia, mídias alternativas e relações com a política. O objetivo foi aproximar os programas de pós-graduação em Comunicação e Ciências Sociais afins, especialmente os do Estado do Rio de Janeiro, bem como organizações da sociedade civil envolvidas na luta pela democratização da comunicação6. Essa preocupação com o diálogo interdisciplinar, especialmente no interior do campo da Comunicação, mas não só, é uma característica muito marcante do
5 Sobre a Rede EPTIC, vide BRITTOS, Valério Cruz. Gênese e constituição da Biblioteca EPTIC. Bibliocom – Revista de Divulgação, Análise e Crítica da Produção Bibliográfica, Hemerográfica e Reprográfica em Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 1, n. 2, mar./abr. 2009. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/bibliocom/dois/pdf/valeriobrittos.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2010. 6 Um dos resultados do evento foi o livro BRITTOS, Valério Cruz; CABRAL, Adilson (Orgs.). Economia Política da Comunicação: interfaces brasileiras. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. O livro referente ao II Encontro, de 2008, está em fase de produção, devendo ser lançado durante o III Encontro, em 2010.

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Capítulo Brasileiro e um ponto de força na luta epistemológica maior a que toda a Ulepicc se vincula, em favor do pensamento crítico e socialmente engajado. Assim, sem descuidar do rigor científico, e atuando essencialmente nos ambientes acadêmicos, os pesquisadores vinculados a esse paradigma teórico encaram a ciência como parte das dinâmicas sociais. Com isso, a Ulepicc reafirma-se como uma sociedade civil que reúne pesquisadores e profissionais atuantes na Economia Política da Comunicação, da Informação e da Cultura e se posiciona explicitamente no campo crítico, colocando a sua capacidade criadora e de seus membros a serviço da sociedade, ao propor, por exemplo, a formulação de políticas efetivamente públicas e democráticas de comunicação, informação e cultura. Essa perspectiva está claramente definida na Carta de Buenos Aires, produzida em 2001, ao final do I Encontro, que lançou as bases e a estratégia de constituição daquilo que viria a ser a Ulepicc. A Carta representa os compromissos éticos e políticos da Ulepicc Federação e de seus capítulos nacionais, situando a comunicação no capitalismo re-configurado dos anos 2000 e deixando claro o papel do campo crítico na construção de uma alternativa de comunicação democrática e libertadora, o que passa por uma alteração da condição atual, de um mercado altamente oligopolista, vinculado aos interesses políticos e econômicos hegemônicos. A segunda edição do encontro ocorreu em 2008, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) – Campus de Bauru, abordando a temática “comunicação e sociedade”, sustentada pela importância que as tecnologias da informação e da comunicação (TIC) assumiram no capitalismo contemporâneo, como instrumento de reestruturação do sistema e, secundariamente, como lugares para novas experiências e possibilidades. Com foco nas pesquisas de seus integrantes e com convidado do exterior, no caso, Luis Albornoz, presidente da Ulepicc–Federação, vinculado ao Capítulo espanhol, o objetivo foi avançar na superação de entraves históricos, reconhecendo-se que, hoje, a democratização em geral passa pela discussão sobre o papel das tecnologias sócio-midiáticas, o que requer a ultrapassar os muros acadêmicos. O III Encontro está programado para outubro de 2010, em Aracaju, na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Assim, a Ulepicc volta a seu local de origem, já que sua criação se de naquela cidade, durante o II Colóquio Internacional “Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento”, organizado pelo GT de mesmo nome, do CNPq, sediado no OBSCOM/UFS. O IV Colóquio será realizado, em 2010, como evento paralelo ao III Encontro da Ulepicc–Brasil. A assembléia de constituição, em 2004, foi convocada por Valério Brittos e César Bolaño e a primeira diretoria ficou assim constituída: presidente Valério Cruz Brittos (UNISINOS); vice-presidente Othon Jambeiro (UFBA), secretária-geral Anita Simis (UNESP), tesoureiro Alain Hercovici (UFES) e vogais William Dias
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Braga (UFRJ), Fernando Matos (PUCCAMP), Álvaro Bevenuto Júnior (UCS) e Verlane Aragão Santos (UFS). A diretoria seguinte (2006/2008) foi assim formada: presidente Valério Cruz Brittos (Unisinos), vice-presidente Laurindo Leal Filho (USP), secretária-geral Anita Simis (UNESP), tesoureira Suzy dos Santos (UFRJ) e vogais William Dias Braga (UFRJ), Leandro Ramires Comassetto (UnC) e Adilson Carvalho (UFF). A terceira diretoria (2008/2010) tem na presidência, Anita Simis (UNESP), sendo os demais cargos assim ocupados: vice-presidente Ruy Sardinha Lopes (USP), secretária-geral Jacqueline Dourado (UFPI), tesoureira Suzy dos Santos (UFRJ) e vogais Bruno Lima Rocha (Unesp), Juliano Carvalho (Unesp), Sayonara Leal (UnB) e William Dias Braga (UFRJ)7. Sinteticamente, a Ulepicc–Brasil volta-se, dentre outras atividades, para: realização de eventos, estudos, pesquisas e outras atividades que representem uma contribuição para o desenvolvimento do campo da Comunicação e afins, numa abordagem interdisciplinar; promoção do intercâmbio de informações e experiências entre especialistas da área; efetivação de acordos com entidades congêneres, institutos e órgãos de fomento à investigação social; publicação de obras de cunho científico. Tudo para consolidar o campo científico da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, organizando a subárea, em articulação com o pensamento crítico em geral. Desde o segundo semestre de 2007 o Capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc–Brasil) mantém um sítio na internet. O objetivo é promover o debate crítico no interior da comunidade acadêmica, favorecendo a integração e a produção coletiva de conhecimento, dinamizando a rede de cooperação para o estudo do campo midiático, das políticas culturais e dos processos de comunicação e informação. O sitio é vinculado ao portal da Ulepicc–Federação, ambos inicialmente produzidos no interior do portal Eptic, com a utilização da linguagem PHP – padrão 5 – de software livre, sob a forma de bancos de dados em MySql, hospedado em um
7 Vale ressaltar que todos os membros de todas as diretorias citadas são professores doutores de reconhecida competência na área, com produção regular e elevados índices de produtividade, ainda que com diferentes níveis de maturidade acadêmica. Isto significa que a EPC brasileira – que evidentemente não se limita a esses indivíduos – forma um bem consolidado programa de investigação em nível nacional, vinculado àquele mais amplo da EPC latina e mundial. Para uma visão mais ampla da situação atual em termos de número de pesquisadores e programas de pós-graduação que albergam grupos de EPC, vale consultar o seguinte trabalho apresentado ao GT de Economia Política e Políticas de Comunicação da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS): BRITTOS; Valério Cruz; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira; ROSA, Ana Maria Oliveira. O GT “Economia Política e Políticas de Comunicação” da COMPÓS e a construção de uma epistemologia crítica da Comunicação. In: ENCONTRO NACIONAL DA COMPÓS, 19., 2010, Rio de Janeiro. Anais ... Rio de Janeiro: Compós, 2010. 1 CD. Para uma discussão de ordem epistemológica e interdisciplinar partindo do campo brasileiro da EPC, em diálogo com autores de outras origens, vide BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (Org). Comunicação e a crítica da Economia Política: perspectivas teóricas e epistemológicas. Aracaju: Editora UFS, 2008.

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servidor Apache, em sintonia com as mais recentes tendências de produção digital convergente. O site divulga atividades da ULEPICC, além de eventos, produções acadêmicas e notícias de interesse tanto da entidade quanto do público ligado à área de Comunicação ou interessado no debate das políticas de informação, comunicação e cultura. Destaca-se ainda a atuação permanente da Ulepicc-Brasil no processo de formação da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom)8. Primeiramente a entidade integrou, através de seu então presidente Valério Brittos, a comissão que formulou a proposta de criação da federação, com a convicção da necessidade da relevância da instituição de uma entidade para representar os interesses da área de comunicação como um todo, em particular frente às agências de fomento e os órgãos de governo, contribuindo na elaboração de uma política de ciência e tecnologia. Formada a Socicom, a Ulepicc conta com dois de seus membros em cargos diretivos: Anita Simis é diretora administrativa e César Bolaño, presidente do Conselho Consultivo. Referências bibliográficas e sites BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (Org). Comunicação e a crítica da Economia Política: perspectivas teóricas e epistemológicas. Aracaju: Editora UFS, 2008. BRITTOS, Valério Cruz. Gênese e constituição da Biblioteca EPTIC. Bibliocom – Revista de Divulgação, Análise e Crítica da Produção Bibliográfica, Hemerográfica e Reprográfica em Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 1, n. 2, mar./abr. 2009. Disponível em: http://www.intercom.org.br/bibliocom/dois/ pdf/valeriobrittos.pdf. Acesso em: 20 jun. 2010. BRITTOS; Valério Cruz; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira; ROSA, Ana Maria Oliveira. O GT “Economia Política e Políticas de Comunicação” da COMPÓS e a construção de uma epistemologia crítica da Comunicação. In: ENCONTRO NACIONAL DA COMPÓS, 19., 2010, Rio de Janeiro. Anais ... Rio de Janeiro: Compós, 2010. 1 CD. BRITTOS, Valério Cruz; CABRAL, Adilson (Orgs.). Economia Política da Comunicação: interfaces brasileiras. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.

8 Do mesmo modo a ULEPICC–Federação participou ativamente da formação da Confederação Ibero-Americana das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Confibercom), tendo dois representantes na sua primeira diretoria.

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CAPÍTULO 9 Evolução e perspectivas do campo acadêmico da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas
Ivone de Lourdes Oliveira1

Introdução Para além do conhecimento organizacional e nas interfaces com outros conhecimentos, a Comunicação Organizacional e as Relações Públicas constituem hoje um campo acadêmico já institucionalizado, o qual promove estudos e pesquisas sobre as práticas comunicativas das/nas organizações, a partir dos relacionamentos com seus públicos. Considerar esse campo como acadêmico é trabalhar simultaneamente três dimensões: o corpus teórico que fundamenta o campo e dá estrutura curricular aos cursos de graduação e pósgraduação, a consequente evolução das pesquisas impulsionadas pelas inovações nas abordagens teóricas e a contribuição das associações que contribuem para as pesquisas acadêmicas e para dar visibilidade às práticas de mercado. Nas relações entre organização e os grupos que afetam as práticas comunicativas e/ou são afetados por elas, aspectos multidisciplinares se evidenciam conforme a natureza e o objetivo dessas relações, o que faz com que as pesquisas se voltem à análise de diversas temáticas. Tanto o ambiente intraorganizacional, com as teorias administrativas (marketing, gestão de pessoas, uso estratégico das tecnologias), quanto no ambiente interorganizacional, em seus aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos, compõem a multiplicidade de temas que fazem parte dos estudos e pesquisas, numa perspectiva multivariada, que busca compreender a co-relação entre a sociedade e os processos/estruturas organizacionais, os quais se condicionam mutuamente. Curvello (2009), num mapeamento de 284 artigos apresentados no Núcleo de Pesquisa de Relações Públicas e Comunicação Organizacional da Intercom, nos anos de 2001 a 2008, reforça a transdisciplinaridade das pesquisas que atravessam temas diversos, sendo os mais abordados, cultura organizacional, tecnologia, linguagem, imagem, identidade, discurso, relação com consumidor, marketing social, marketing institucional, ética, poder, conflitos, sustentabilidade. Se por um lado o cenário atual do campo da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas apresenta institucionalização e reconhecimento
1 Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abracorp). Pesquisadora da área de Comunicação, com ênfase em Comunicação Organizacional. É professora adjunta da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Leciona no Mestrado de Comunicação sobre Interações Midiáticas. É diretora da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

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acadêmicos, com cursos de graduação e pós-graduação (lato e stricto sensu), publicações científicas, grupos de pesquisa, congressos nacionais e internacionais específicos, por outro deve-se reconhecer que limites ainda precisam ser superados. Os estudos de Curvello (2009) apontam o estabelecimento de um corpus teórico mais robusto e homogêneo, a integração dos grupos de pesquisa, a reflexão epistemológica, mas mostram também a necessidade de aperfeiçoamento dos métodos como desafios a serem superados. Nessa mesma direção, Kunsch (2006) comenta acerca da polissemia do termo Relações Públicas que, segundo a autora, gera pouca legitimação junto aos governos e organizações por estes desconhecerem o seu verdadeiro significado. Embora esses limites ainda persistam, eles são necessários ao desenvolvimento da Comunicação Organizacional e Relações Públicas, enquanto campo acadêmico. Na breve trajetória histórica do surgimento e desenvolvimento das Relações Públicas, que como atividade profissional no Brasil está próxima de completar seu centenário, pode-se perceber uma evolução cognitiva no modo de concebê-la e praticá-la. De simples atividade profissional, tecnicamente concebida como ferramenta a serviço da administração (Reis, 2009), as Relações Públicas se configuram, hoje, como um campo acadêmico e profissional em constante aperfeiçoamento e ampliação de sua legitimidade junto à academia e ao mercado. Trajetória histórica das Relações Públicas e Comunicação Organizacional Antes de iniciar o relato histórico, é importante ressaltar que o atual cenário do campo das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional é resultado de decisões e tendências que fazem parte da trajetória da atividade profissional, da produção acadêmica, evolução das teorias, metodologias e pesquisas. As associações que fomentam a articulação entre mercado e academia, sendo, por vezes, as responsáveis por apresentar inovações práticas e antever tendências e desafios. Assim, esta breve trajetória histórica pretende contextualizar esses três âmbitos de atuação que juntos, cada qual na especificidade de seu propósito, contribuem para o desenvolvimento e aprimoramento do campo em questão. Na perspectiva da atividade profissional, as Relações Públicas iniciaram sua trajetória no Brasil há quase um século, nos anos 1914, com a implantação do primeiro departamento de RP na multinacional canadense Ligth and Power, atual Eletropaulo (Eletricidade de São Paulo S.A.). Neste início, e principalmente na década de 1950 e no subsequente período militar com o incentivo nacional da política de desenvolvimento industrial (Kunsch, 2006), as Relações Públicas constituíram menos como um campo acadêmico e mais como uma atividade profissional que, junto com as indústrias de comunicação (agências de propaganda, institutos de pesquisa, conglomerados de jornais, revistas e rádios), ganhavam
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espaço e aplicabilidade nas organizações privadas e estatais daquela época2. Em 11 de dezembro de 1967, a profissão de Relações Públicas foi oficializada pela lei nº 5.377 e, em setembro de 1968, regulamentada e aprovada pelo decreto-lei nº 63.283, vinculando a atividade aos bacharéis do curso de Comunicação Social, habilitação em Relações Públicas. Esta regulamentação foi um fato controverso, já que as Relações Públicas ainda não eram reconhecidas pela sociedade como campo acadêmico. Sua regulamentação se deu sob o regime militar brasileiro, na dubiedade do controle e da fiscalização, o que lhe rendeu a imagem de atividade meramente capitalista, suspeita e enganosa, (Kunsch, 2006), que carrega ainda hoje uma desconfiança. Contudo, foi essa regulamentação que despertou algumas reflexões epistemológicas acerca da natureza administrativa e comunicacional das Relações Públicas3(Reis, 2009) que se formou, segundo Kunsch (2006), toda a estrutura acadêmica e dos órgãos de classe que, em suas respectivas atuações, contribuíram para o início da institucionalização das Relações Públicas não só como profissão, mas também como campo acadêmico. Com a reabertura política e a redemocratização do Brasil, na década de 1980, as organizações remodelam suas estruturas e um processo estratégico começa a se instalar na gestão da comunicação, que passa a adotar uma perspectiva mais integrada. É nesta década que as inovações teóricas e de mercado acontecem e dão um salto qualitativo à atividade profissional. Em 1985 ocorre um movimento, a partir da experiência da empresa Rhodia, de integração das atividades de jornalismo (assessoria de imprensa e publicações), relações públicas (projetos institucionais e comunitários) e publicidade, (marketing, pesquisa de mercado, e atendimento ao consumidor) desenvolvidas no ambiente organizacional na perspectiva do campo, de forma a entender a globalidade dos processos comunicacionais das/nas organizações. Neste momento surgem os primeiros estudos sobre a comunicação neste contexto, denominada de comunicação organizacional. Ocorre, então, um processo de redefinição estratégica, tanto teórica quanto prática, que atinge seu ápice na década de 1990 e vem numa crescente até
2 Segundo Kunsch (2006), data de 1951, em Volta Redonda (RJ), a implantação do primeiro departamento de Relações Públicas auteticamente nacional, na Companhia Siderúrgica Nacional; e de 1952, a primeira consultoria que prestava serviços de Comunicação Social, em São Paulo, a Companhia Nacional deRelações Públicas e Propaganda. Reis (2009) apresenta um dado que indica o “volume expressivo” de empresas e profissionais na década de 1960: “mais de trezentas grandes empresas brasileiras possuem (...) departamento regulares e ativos de relações públicas e muitas dependências governamentais instituíram departamentos semelhantes, como a própria Presidênciada República. (...) Cerca de 5000 pessoas estão profissionalmente empenhadas em atividades derelações públicas.” (REIS, apud CHAVES, 1966, p.7) 3 Reis (2009), tomando como referência Kunsch (2005), relata que no período mais duro da ditadura militar, “um decreto federal originado da sugestão de um relações-públicas a um deputado amigo, levou à regulamentação da profissão, sem discussões mais amplas com a categoria.” (Reis, 2009, p.142)

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contemporaneidade4, quando a globalização, as novas tecnologias e a ascensão do mercado consumidor, das relações comunitárias e globais de sustentabilidade, passam a exigir gestão estratégica dos relacionamentos das organizações com a sociedade. Do ponto de vista da formação acadêmica, foi na década de 1960 que os cursos de graduação começaram a se institucionalizar. O primeiro curso de Comunicação Social a oferecer habilitação em Relações Públicas foi a Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo - ECA/USP em 19675. É na década de 1970 que surgem novos cursos de graduação e também os primeiros cursos de pós-graduação que contribuíram, sobremaneira, para a evolução das pesquisas e o incremento do corpus teórico do campo da Comunicação Organizacional e Relações Públicas 6. A partir de sucessivas reformas curriculares e da atuação do Ministério da Educação, o campo acadêmico da Comunicação Social é formatado de modo a pertencer ao âmbito das Ciências Sociais Aplicadas e a abranger várias habilitações - Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV, Cinema, Produção Editorial/ Editoração - dentre elas, as Relações Públicas. A consolidação do campo da Comunicação Organizacional e Relações Públicas Incentivados pelas pesquisas dos programas de pós-graduação ao longo dos anos 1990, as Relações Públicas deixam de adotar uma perspectiva técnico-operacional, com valorização excessiva das ferramentas de comunicação para aproximarem-se, conforme Reis (2009), de uma visão mais holística da comunicação nas e das organizações. A autora, com objetivo de configurar uma identidade disciplinar para as Relações Públicas e Comunicação Organizacional, faz uma contextualização histórica do campo, a qual pode nos ajudar a compreender o processo de questionamento da perspectiva técnico-instrumental. Os primeiros cursos de formação profissional nos anos 1950 foram ofertados por iniciativa da Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (RJ), antes mesmo da
4 Reis (2009), tendo por referência Fausto (2006) contextualiza historicamente os anos 1990, período em que ocorre uma “súbita incorporação do Brasil à realidade da globalização (...) foi em 1990 que o então presidente Fernando Collor de Mello promoveu a abertura econômica do país, praticamente jogando as empresas nacionais em uma realidade concorrencial de características absolutamente inesperadas, algo para a qual o mercado brasileiro, protegido desde a época da instauração da ditadura, não estava preparado.” (Reis, 2009, p.155) 5 Mais a frente, Reis (2009) contextualiza de forma mais precisa os primeiros cursos de Relações Públicas ligados inicialmente às escolas de administração. 6 Curvello (2009) faz um levantamento do cenário da pesquisa sticto sensu a partir do diretório da CNPQ e chega a 49 grupos de pesquisa de Comunicação Organizacional e 172 de Relações Públicas.

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existência das escolas de comunicação no final dos anos 1960. Segundo Reis (2009, p.141), “a formação para a profissão se dava tanto em nível técnico, por meio dos cursos ofertados quanto por instituições, como pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), quanto como parte de cursos de nível superior da área da administração.” Isso indica que, nos primeiros tempos, a administração era o campo do conhecimento que mais se empenhava no entendimento da atividade e na formação dos profissionais da área. Compreender a atividade e capacitar os profissionais do ponto de vista técnico-operacional eram demandas daquela época e com essa necessidade, surgem as primeiras publicações nacionais especializadas, numa tradição evidentemente prescritiva dado a conjuntura. Em 1963 Cândido Teobaldo de Souza Andrade publica “Para entender as Relações Públicas” e aparecem os manuais que prescrevem técnicas e programas de implantação da comunicação de resultados. (Reis, 2009) Em termos de produção e pesquisa acadêmicas, a regulamentação da atividade de Relações Públicas junto aos cursos de Comunicação Social foi, conforme Reis (2009) isenta de uma reflexão teórica e crítica, o que deixou um vazio “identitário-epistemológico” quanto à natureza do conhecimento das Relações Públicas. Ressaltamos que, embora a pesquisa tenha chegado às Relações Públicas com os cursos de mestrado implantados na ECA-USP e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na década de 1970, os propósitos não eram “epistemológicos (no sentido) de ajudar a identificar e caracterizar um novo campo (ou sub-campo) disciplinar e sim, de subsidiar a busca da eficiência e eficácia da atuação profissional.” (Reis, 2009, p.145) Temos, ainda na década de 1970, uma expansão da base conceitual das Relações Públicas que, em função do contexto sócio-político, adquirem uma perspectiva mais crítica. Ainda de acordo com Reis (2009, p.147), novas frentes de interesse ligadas aos movimentos sociais de participação, inserção social, relações de trabalho proporcionaram uma “visão mais ampla, humanizada e politizada da questão da comunicação (...)” e as reformas curriculares incluíram disciplinas como comunicação comunitária, comunicação rural, comunicação popular, mobilização social. Nesse movimento crítico, o público interno das organizações torna-se objeto de estudo e em 1982, numa perspectiva inovadora, Cicilia Peruzzo publica sua dissertação de mestrado no livro “Relações Públicas no modo de produção capitalista”. Essa contextualização é importante e necessária para entendermos porque, só a partir das décadas de 1980 e 1990, condicionadas pelas mudanças sociais, políticas e econômicas que afetaram as organizações, surgem os estudos sobre
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Comunicação Organizacional. A produção acadêmica torna-se menos normativa e mais explicativa, interpretativa, na construção teórica e de inovação metodológica que fundamentam o campo. Sem essa “identidade disciplinar” que nos primeiros tempos não foi bem definida (Reis, 2009), o desafio de chegar a uma base conceitual mais coesa e fundamentada, bem como integrar os diversos grupos de pesquisas num raciocínio mais uniforme, persiste até hoje. A perspectiva integrada, processual, estratégica e de interlocução entre organização e públicos confere às Relações Públicas e à Comunicação Organizacional uma fundamentação teórica e uma concepção que as levam para uma reflexão mais especializada e coloca a discussão na indicação da interface com outros conhecimentos. O termo comunicação organizacional passa a ser utilizado “de forma incipiente, para representar essa concepção mais ampla da atividade de relações públicas.” (Reis, 2009, p.151) É importante lembrar que os dois livros “Processo de Relações Públicas” (Hebe Wey, 1983) e “Planejamento das Relações Públicas na Comunicação Integrada ( Margarida Kunsch ,1986) tornaram-se as referências conceituais utilizadas e discutidas no ambiente acadêmico. A partir da década de 1990 inicia-se uma discussão epistemológica, provocando mudanças no campo, reflexo da produção nos cursos de pósgraduação sricto sensu. Embora o número de doutores e mestres ainda fosse pequeno, o diálogo com outras áreas de conhecimento, especialmente com as teorias de comunicação, dando menos ênfase às teorias administrativas foi ganhando espaço acadêmico. Os estudos e pesquisas da área caminham para a transdisciplinaridade, caracterizando a produção científica do campo das Relações Públicas e Comunicação Organizacional. A criação de entidades e associações, de acordo com Kunsch (2006) marca também o crescimento da área das Relações Públicas. A criação, em 1954, da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), responsável, naquela época, por realizar congressos, seminários e promover o intercâmbio com universidades de outros países é um marco histórico significativo. No início da década de 1980, a ABRP criou-se o Prêmio Opinião Pública com o objetivo de homenagear os melhores trabalhos de Relações Públicas desenvolvidos pelas organizações públicas, privadas e/ou não-governamentais e para atender o campo acadêmico criou o Concurso Universitário de Monografias e Projetos Experimentais que até os dias atuais estimulam a produção intelectual nos cursos de graduação. Juntamente com a criação dos primeiros cursos de pós-graduação stricto sensu nos anos de 1970, nascem também os espaços de discussão nas associações científicas, que desenvolvem um papel fundamental de institucionalizar do debate acadêmico. Essa é a contribuição da Intercom – Sociedade Brasileira de
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Estudos Interdisciplinares da Comunicação criada no final da década de 1970. No entanto, a área de Relações Públicas concretiza sua participação somente em 1988, no seu XI Congresso Brasileiro realizado em Viçosa- Minas Gerais com o I Simpósio Brasileiro de Relações Públicas coordenado por Ivone de Lourdes Oliveira As Relações Públicas e a Comunicação Organizacional só são representadas nos da Intercom em 1992 Grupos de Trabalho (Gs) com a criação do Grupo de Relações Públicas e do GT de Comunicação Organizacional.. Em 2001 as duas áreas se juntaram e foi constituído o Núcleo de Pesquisa de Relações Públicas e Comunicação Organizacional, numa proposta de pesquisa multidisciplinar. Este espaço de discussão teórica e produção acadêmica foram fundamentais para o crescimento e o processo de consolidação do campo acadêmico. A Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) criada em 1967, contribui também para o crescimento acadêmico dos campos analisados, já que reúne cerca de mil organizações públicas e privadas e tem como missão compartilhar o conhecimento de comunicação produzido. Além disso, preocupase em difundir e discutir práticas de vanguarda e inovação na gestão das estratégias de relacionamento das organizações com a sociedade. A mais recente entidade científica é a Associação Brasileira de Pesquisadores Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abrapcorp) criada em 2006, abrindo um importante capítulo da trajetória histórica e consolidação do campo. Abrapcorp - um marco histórico Durante o I Fórum de Pesquisadores de Relações Públicas e Comunicação Organizacional, realizado em São Paulo em outubro de 2005 sob a coordenação da professora Margarida Kunsch, profissionais e pesquisadores votam, em uníssono, pela criação da associação científica Abrapcorp com fins de organizar a comunidade de pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas do Brasil para ter maior representatividade junto ao Ministério de Ciência e Tecnologia, ao CNPq e aos demais órgãos de fomento à pesquisa, bem como na própria comunidade da área de comunicação do país. Atualmente é uma associação indutora e reverbera Dora de pesquisa, que integra pesquisadores e se propõe a provocar a reflexão epistemológica, aproximar os grupos de pesquisa, investir na pesquisa conjunta, na teorização e no aperfeiçoamento dos métodos de investigação. Com quatro anos de vida, podemos afirmar que a associação está consolidada, possui identidade e respeitabilidade no campo da comunicação no Brasil e se tornou conhecida internacionalmente. A Abrapcorp realiza, por ano, um congresso brasileiro com participação
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de pesquisadores internacionais, que ministram cursos em parcerias com os programas de pós-graduação nas universidades, onde são realizados os congressos. Já foram desenvolvidos cursos nos programas de pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da USP, na Faculdade de Comunicação e Artes da PUCMinas, da PUCRS e da UFRGS em Porto Alegre. Com a preocupação de torna-se um espaço abrangente de debate e acolher às tendências de pesquisa, a Associação se constituiu em sete grupos de trabalho (GTs) que consubstancializam a diversidade da produção e da pesquisa do campoi. São eles: Teorias, história e metodologia dos estudos em Comunicação Organizacional e Relações Públicas coordenado por Maria Aparecida Ferrari da USP; Gestão, processos, políticas e estratégias de comunicação nas organizações sob a coordenação de Cleusa Andrade Scroferneker da PUCRS; Comunicação digital, inovações tecnológicas e os impactos nas organizações, coordenado por Elisabeth Saad Corrêa da USP; Linguagem, retórica e análise dos discursos institucionais, sob a coordenação de Luiz Carlos Assis Iasbeck do UCB; Relações Públicas comunitárias, comunicação no terceiro setor e responsabilidade social, coordenado por Márcio Simeone Henriques da UFMG; Comunicação pública, governamental e política, coordenado por Maria Helena Weber da UFRGRS e a partir de 2009 por Ana Lúcia Coelho Romero Novelli da UCB e o de Iniciação Científica coordenado por Valéria de Serqueira Castro Lopes, que tem a preocupação de formar jovens pesquisadores, incentivando a apresentação de reflexões desenvolvida nos projetos de conclusão de curso de graduação e dos projetos de iniciação científica A análise quantitativa dos trabalhos apresentados nesses Grupos de Trabalhos (GTs), totalizando 272 artigos no decorrer dos quatro anos de sua realização (2007 a 2010) demonstra uma vasta produção acadêmica. Fica, no entanto, um trabalho qualitativo a fazer, tanto junto aos coordenadores de GT´s que acompanharam por quatro anos a evolução das produções acadêmicas, quanto uma análise dos conteúdos apresentados, evidenciando as tendências teóricas, as metodologias utilizadas, as discussões geradas e os avanços propostos. A produção acadêmica quantitativamente é assim representada:
GT 1 2007 2008 2009 2010 Total Nº de trabalhos 12 06 06 08 32

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GT 2 2007 2008 2009 2010 Total GT 3 2007 2008 2009 2010 Total GT 4 2007 2008 2009 2010 Total GT 5 2007 2008 2009 2010 Total GT 4 GT 6 2007 2008 2009 2010 Total

Nº de trabalhos 14 12 14 18 58 Nº de trabalhos 08 05 10 11 34 Nº de trabalhos 08 06 12 11 37 Nº de trabalhos 07 08 06 05 26 Nº de trabalhos Nº de trabalhos 06 07 06 07 26

O questionamento dos modelos tradicionais, da perspectiva funcionalista e das influências dos estudos da Administração que tratavam a comunicação como ferramenta no contexto organizacional, transformaram o campo e o levou a um
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patamar diferenciado. As questões epistemológicas passam a ser estudadas e são notórias as mudanças dos temas pesquisados e das posturas dos pesquisadores: Discurso e retórica organizacional; Questões epistemológocas do campo; Novas tecnologias no espaço organizacional; Marca/Imagem e reputação; Avaliação e Mensuração; Responsabilidade social e sustentabilidade. A Revista “Organicom”, lançada em 2004, com periodicidade semestral é um instrumento efetivo de debate e aproximação entre os estudos acadêmicos e experiências profissionais. Consolidação da produção acadêmica Para identificar e caracterizar os lócus de produção da pesquisa brasileira no campo da Comunicação Organizacional e Relações Públicas, Curvello (2009) identifica os programas de mestrado e doutorado, que têm explicitamente linhas de pesquisa vinculadas ao campo em questão. Acrescenta-se a esta dimensão os pesquisadores que fomentam as pesquisas, através dos grupos de pesquisa, em suas respectivas instituições nos programas de pós-graduação. Na Escola de Comunicação e Artes (USP) a linha de pesquisa que trabalha as temáticas da área é denominada Políticas e Estratégias de Comunicação. Fica evidente a multiplicidade de temas relacionados à Comunicação Organizacional que o programa abarca, num trabalho de interface com outros conhecimentos e num alinhamento com a realidade organizacional e social da contemporaneidade. Dentre os pesquisadores, encontram-se Maria Aparecida Ferrari, Mitsuru Higuchi Yanaze, Paulo Roberto Nassar de Oliveira e Margarida Maria Krohling Kunsch, A Universidade Metodista de São Paulo – UMESP tem na figura de Wilson da Costa Bueno um pesquisador importante para o campo. A linha de pesquisa dessa instituição Processos de Comunicação Institucional e Mercadológica busca uma integração entre áreas que contemple as interfaces entre comunicação e consumo, processo de gestão, estratégia empresarial, mobilização social, construção das marcas e a correlação entre imagem, reputação das organizações. Na PUC do Rio Grande do Sul, a linha de pesquisa parte de uma perspectiva mais ampla da comunicação e engloba aspectos do campo da comunicação organizacional, denominada Das práticas profissionais e processos sócio-políticos nas mídias e na comunicação das organizações, A linha de pesquisa tem como principais pesquisadoras Cláudia Peixoto Moura e Cleusa M. A. Scroferneker. Ainda na região Sul, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS a linha de pesquisa denomina-se Mediações e Representações Culturais e Políticas e o campo da Comunicação Organizacional e Relações Públicas encontra-se inserido no macro campo de pesquisa da Comunicação Social. Karla Muller, Maria Helena Weber e Rudimar Baldissera são pesquisadores ligados a essa instituição.
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Na Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, a linha Mídia e Estratégias Comunicacionais diz respeito às estratégias que a esfera midiática promove na articulação com os demais cursos, incluindo nessa linha as estratégias de comunicação organizacional. As pesquisadoras Maria Ivete T. Fossá e Eugênia Maria. M. R. Barichello trabalham com a gestão da comunicação e modelos de comunicação institucional. Em Minas, a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e a Pontifícia Universidade católica de Minas Gerais - PUC-Minas não explicitam as temáticas da Comunicação Organizacional e Relações Públicas em suas linhas de pesquisa. As pesquisas sobre a comunicação no contexto organizacional no Programa de pósgraduação da PUC-Minas são desenvolvidas, na linha de pesquisa Midiatização e Processos de Interação. Ana Luisa de Castro Almeida desenvolve pesquisas sobre imagem e reputação e Ivone de Lourdes Oliveira, com o grupo “Comunicação no contexto organizacional: aspectos teóricos-conceituais”, busca aprimorar os referenciais teóricos que fundamentam o campo da Comunicação Organizacional e Relações Públicas., Na UFMG Márcio Simeone Henriques compõe o grupo de docentes que estão na linha de pesquisa Processos Comunicativos e Práticas Sociais e Maria do Carmo Reis, por muitos anos, foi a referência de pesquisadora na temática sobre Comunicação Organizacional e Relações Públicas neste programa de pós-graduação . No recente mestrado criado na Universidade Católica de Brasília (UCB), a linha de pesquisa Processos comunicacionais nas organizações faz menção explícita ao campo. Desenvolve pesquisas relacionadas às temáticas como relações de poder, jogos de cooperação e competição, imagem, identidade, discursos institucionais, e estratégias de comunicação. O quadro de pesquisadores da linha é composto pelos professores João José Azevedo Curvello, Luiz Carlos Assis Iasbeck, Ana Lúcia Coelho Romero Novelli e Jorge Antônio Menna Duarte, estes dois últimos como professores colaboradores externos. Considerações Finais A partir do cenário traçado, podemos concluir que o campo acadêmico da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas se encontra configurado e em processo de consolidação. A produção científica e a pesquisa crescem cada dia mais e os grupos de pesquisa se fortalecem no diretório do CNPq. Atualmente são registrados 49 grupos que desenvolvem pesquisas sobre Comunicação Organizacional e 172 que trabalham com Relações Públicas. No ano de 2010, ocorreu a conquista de um espaço fundamental para as reflexões epistemológicas, com a criação na Compôs do GT Comunicação em contextos organizacionais.
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Não poderia deixar de mencionar neste texto a importância de Margarida Maria Krolling Kunsch para o crescimento e avanço deste campo. Ela é uma pesquisadora de referência nacional, liderança que sempre esteve à frente de todas as iniciativas de desenvolvimento das experiências acadêmicas e de implantação de espaços de reflexão sobre as temáticas analisadas. Não se cansa de lutar pelo aprimoramento deste campo acadêmico e pelas novas possibilidades que surgem na contemporaneidade. A sociedade contemporânea, que tem as organizações como centralidade exige da comunidade acadêmica entender sua complexidade e as novas exigências buscando ultrapassar os limites de uma ciência positivista e do corporativismo sem eco nos ambientes sociais e organizacionais. Referências Bibliográficas e Sites CURVELLO, João José. Relações Públicas e comunicação organizacional no Núcleo de Pesquisa da Intercom. In: Relações Públicas e comunicação organizacional: campos acadêmicos e aplicados de múltiplas perspectivas. São Caetano de sul, SP: Difusão Editorial, 2009. KUNSCH, Margarida M. Krohling. Gestão das Relações Públicas na contemporaneidade e a sua institucionalização profissional e acadêmica no Brasil. In: Organicom, ano 3, nº 5 (2º semestre de 2006), São Paulo: GESTCORP/ ECA/USP, 2006. REIS, Maria do Carmo. A construção de uma identidade disciplinar e de um corpus teórico para os estudos de comunicação organizacional e relações públicas no Brasil. In: Relações Públicas e comunicação organizacional: campos acadêmicos e aplicados de múltiplas perspectivas. São Caetano de sul, SP: Difusão Editorial, 2009.

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Margarida M. Krohling Kunsch7

Histórico A Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp) foi criada no dia 13 de maio de 2006,, em São Paulo (SP), por ocasião do I Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de Comunicação - Endecom 2006, promovido pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). A finalidade principal foi estimular o fomento, a realização e a divulgação de estudos avançados dessas áreas no campo das Ciências da Comunicação. A iniciativa concreta de reunir pesquisadores dessas áreas na forma de uma associação surgiu em outubro de 2005, durante o I Fórum de Pesquisadores de Relações Públicas e Comunicação Organizacional, que teve lugar na ECAUSP, em São Paulo (SP) e .no qual se debateu a proposta de reclassificação da nova Tabela das Áreas de Conhecimento do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Essa nova entidade expressa a existência de uma comunidade atuante de pesquisadores, originariamente integrados aos núcleos de pesquisa de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom)8, hoje a maior e mais importante associação das Ciências da Comunicação no País. Entidade autônoma, a Abrapcorp, junto com outras doze associações, se vincula à Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom), instituída em setembro de 2008. Com a fundação da Abrapcorp, um novo capítulo foi acrescentado à história desses campos do conhecimento que florescem e se consolidam cada vez mais no conjunto das Ciências da Comunicação. A existência de uma entidade científica nesse contexto exerce um papel fundamental para estimular o fomento, a realização e a divulgação de estudos avançados resultantes de pesquisa e que possam contribuir para a transformação da sociedade, das instituições e das organizações.
7 Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Corporativa e Relações Públicas (Abrapcorp) e Diretora de Relações Internacionais da Socicom .Professora titular da Escola de Comunicações e Artes Universidade de São Paulo. Ex-presidente da ALAIC e da Intercom. Tem vários livros publicados sobre Relações Públicas e Comunicação Organizacional. 8 Para mais informações sobre a Intercom, consultar www.intercom.org.br

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Objetivos Com base no seu estatuto, a Abrapcorp tem como objetivos norteadores: • Congregar pesquisadores de qualquer área do conhecimento, vinculados ou não a organizações acadêmicas, científicas e profissionais, que tenham por objeto de estudo a comunicação sob todas as suas perspectivas e aplicações, em especial aqueles que se dedicam a temática da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas; • Contribuir para o desenvolvimento intelectual de seus associados, por meio do intercâmbio de experiências entre eles e outras organizações, para a difusão do conhecimento científico da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas; • Contribuir, por meio de estudos científicos da Comunicação Organizacional e das Relações Públicas, para maior valorização e democratização dessas atividades no ambiente acadêmico, profissional e social; • Contribuir para o desenvolvimento do País, promovendo e difundindo o exercício da comunicação como forma de colaborar no processo democrático; • Representar os interesses dos associados perante a sociedade, junto às associações congêneres e em fóruns competentes. Estrutura organizacional A Abrapcorp tem como órgãos gestores a Assembléia Geral e a Diretoria Executiva, formada por presidente, vice-presidente, diretor administrativo, diretor científico, diretor editorial e diretor de relações públicas. São órgãos auxiliares da entidade o Conselho Consultivo e o Conselho Fiscal. O mandato dos membros da Diretoria Executiva e dos Conselhos é de dois anos, podendo eles ser reeleitos para apenas um período subseqüente. Frentes de atuação Nestes quatro primeiros anos de existência da entidade, os esforços se concentraram na criação de uma infra-estrutura básica para o funcionamento da Secretaria, nas providências para os registros jurídicos e contábeis, na institucionalização do Congresso Anual, na formatação da dinâmica dos Grupos de Trabalhos Temáticos (GTs Abrapcorp), na construção do site e na publicação de livros, entre outras iniciativas em curso.
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Congressos anuais O I Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas – Abrapcorp 2007 foi realizado nos dias 3, 4 e 5 de maio do ano de 2007, com a presença de pesquisadores e estudantes de todas as regiões do Brasil e, também, de convidados internacionais dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina. Tendo como tema central “A Comunicação Organizacional e as Relações Públicas no século XXI: um campo acadêmico e aplicado de múltiplas perspectivas”, o evento confirmou que, tanto no âmbito acadêmico quanto na esfera do próprio mercado de trabalho, existe hoje no País uma massa crítica capaz de debater as interfaces, as modalidades e a produção científica nas duas áreas. O congresso teve lugar na Universidade de São Paulo, tendo sido promovido em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O II Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas – Abrapcorp 2008 aconteceu nos dias 28, 29 e 30 de abril de 2008, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), em Belo Horizonte (MG), reunindo pesquisadores e estudantes das duas áreas de todo o Brasil O tema central foi “Comunicação, sustentabilidade e organizações”, em torno do qual se discutiram, entre outras questões, a contribuição da comunicação para a sustentabilidade das organizações, ética e transparência nas organizações e avaliação da ação comunicativa na sustentabilidade organizacional. Realizado em parceria com a Faculdade de Comunicação e Artes da PUC-Minas, o evento teve um painel inaugural, quatro mesas-redondas, reuniões de oito grupos temáticos para a apresentação de comunicações resultantes de pesquisas em nível de pósgraduação e de trabalhos de iniciação científica, além de oficinas para alunos de graduação. O III Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas – Abrapcorp 2009 ocorreu nos dias 28, 29 e 30 de abril de 2009, em São Paulo (SP), tendo sido realizado em parceria com a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e seu Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, com o tema central “Comunicação, humanização e organizações”. O evento contou com a participação de cerca de quinhentos congressistas, provindos de todas as regiões do País. Os debates levados a efeito nos painéis, nas mesas-redondas e no II Fórum sobre as Bases Conceituais de Comunicação Organizacional e Relações Públicas ampliaram os horizontes dos estudos e da prática dessas áreas neste novo contexto do século XXI.. O IV Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas – Abrapcorp 2010 ocorreu em maio de 2010, em Porto Alegre (RS), em parceria com os Programas de Pós-Graduação em Comunicação
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da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUC-RS) e da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O tema central do evento foi “Comunicação pública: interesses públicos e privados”. Cursos Paralelamente à temática dos congressos anuais realizaram-se cursos com os convidados internacionais, a fim de otimizar sua presença como professores visitantes. Em 2007 foram oferecidos dois cursos de curta duração para alunos pós-graduação participantes do congresso, ministrados por María Antonieta Rebeil Corella (Escola de Comunicação da Universidad Anáhuac, do México) e Antonio Castillo Esparcia (Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidad de Málaga). Os temas por eles abordados foram, respectivamente, “Soluções de comunicação para os ambientes organizacionais” e “Grupos de pressão, sociedade da comunicação, lobby e Relações Públicas”. Em 2008, Stanley Deetz (University of Colorado at Boulder) deu um curso dobre o tema “Comunicação estratégica e colaborativa: tendências da comunicação organizacional”. Em 2009 foram oferecidos os cursos “Estudos de Comunicação Organizacional numa perspectiva crítica”, ministrado por Dennis Mumby (University of North Carolina at Chapel Hill) e “Desenho e gestão de estratégia em contextos instáveis”, com Marcelo Manucci (Universidad de Salamanca, Argentina). Em 2010, os cursos foram “O sistema de mídia nas organizações”, a cargo de Nicole D’Almeida (CelsaSorbonne, Paris) e “O conceito de utilidade pública na evolução da comunicação pública”, oferecido por Rolando Stefano (IULMl – Universidade de Milão, Itália). Grupos temáticos – GTs Abrapcorp A criação e formatação dos Grupos Temáticos da Abrapcorp (GTs Abrapcorp) representam um salto qualitativo de grande relevância para os estudos de Comunicação Organizacional e Relações Públicas no Brasil. O objetivo dos GTs é incentivar a produção e difusão de relatos científicos de pesquisa, com reflexões sobre os aspectos abordados, a partir de investigações de cunho teórico e prático. Os pesquisadores precisam pensar nos campos das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional, apresentando trabalhos de vanguarda que fortaleçam e sustentem novas concepções para essas áreas. Isso possibilita a realização de pesquisas em diferentes eixos temáticos, tanto para explorar relações complementares como para ampliar as discussões. São cinco os GTs permanentes: GT 1 – História, Teoria e Pesquisa em
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Relações Públicas; GT 2 – Processos, Políticas e Estratégias de Comunicação Organizacional; GT 3 - Comunicação Digital, Inovações Tecnológicas e os Impactos nas Organizações; GT 4 – Estudos do Discurso, da Imagem e da Identidade Organizacionais; GT 5 - Comunicação Pública e Política, Relações Públicas Comunitárias e Comunicação no Terceiro Setor. Além disso, a entidade tem o Espaço para Iniciação Científica. Os trabalhos inscritos e selecionados para discussão nos GTs da Abrapcorp devem ser resultantes de pesquisas realizadas em nível de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e lato sensu (especialização). Publicações Uma das mais importantes frentes de atuação da Abrapcorp é a produção de publicações impressas e eletrônicas das áreas de Relações Públicas e de Comunicação Organizacional, como periódicos científicos e livros. A instituição lança anualmente uma obra coletiva com os principais textos apresentados pelos autores nos congressos, está nos planos produzir também uma serie didática que possa contribuir diretamente com a formação acadêmica e profissional nesses campos. Além desses meios fundamentais de comunicação, difusão e democratização do conhecimento, a entidade criou e mantém também o seu portal (www.abrapcorp.org.br). Organicom – Revista Brasileira de Comunicação Organizacional e Relações Públicas Em 2006 a Abrapcorp fez uma parceria com o Curso de Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Gestcorp), do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da ECA-USP para dar continuidade à publicação da Revista Brasileira de Comunicação Organizacional e Relações Públicas - Organicom, periódico científico dessas áreas de conhecimento. A Organicom criada em 2004, tem como propósito ser um meio de comunicação capaz de reunir os grandes temas contemporâneos dessas duas áreas que estão sendo estudados na universidade e que constituem necessidades e demandas sociais. Com periodicidade semestral, seu projeto editorial reúne contribuições de estudiosos e especialistas brasileiros e de outros países, tendo em cada número, como seção básica, um dossiê temático que atenda demandas de assuntos contemporâneos ligados aos campos das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional. A revista conta com excelente aceitação no meio acadêmico e no mercado profissional, por ser uma referência e estar na vanguarda do pensamento nesses
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campos, ajudando a analisar as tendências e a contribuir com fundamentos conceituais em temas pouco explorados na literatura corrente. Sua abordagem se caracteriza pela diversidade e pluralidade temática e do pensamento dos autores. Livros-coletâneas A Abrapcorp, por meio de uma co-edição com a Difusão Editora, já lançou seus três primeiros livros, com as temáticas dos congressos de 2007, 2008, e 2009, dentro da Série Pensamento e Prática, que trará publicações originadas a partir das discussões realizadas em cada edição do evento. Os temas mais relevantes para a pesquisa em Comunicação Organizacional e em Relações Públicas apresentados durante esses congressos anuais podem ser estudados com mais detalhes, graças à publicação dessas coletâneas. Produzidos por palestrantes, nacionais e internacionais, criteriosamente selecionados pelos organizadores, os textos das obras abordam os temas de forma mais profunda e mais completa que os anais dos congressos, com um conteúdo rico e bem elaborado. Foi uma forma encontrada para democratizar a produção do conhecimento que vem sendo gerado no âmbito da entidade. A primeira obra tem o título Relações públicas e comunicação organizacional: campos acadêmicos e aplicados de múltiplas perspectivas. Reunindo contribuições do primeiro congresso da Abrapcorp (2007), ela é enriquecida com artigos de autores renomados dos Estados Unidos, do México e da Espanha. Em 16 capítulos, distribuídos ao longo de três partes, se analisa a relevância das duas áreas diante dos desafios da sociedade contemporânea, discutem-se as bases de uma teoria brasileira para elas e se apresenta um panorama de seu “estado da arte” no País, avaliando conquistas e tendências. A obra mostra que as interfaces entre esses campos são uma realidade no Brasil, que já dispõe de massa crítica para refletir sobre sua diversificada temática, contribuindo para sistematizar as experiências vivenciadas na prática. A segunda obra é A comunicação na gestão da sustentabilidade das organizações, resultante das contribuições do segundo congresso anual da Abrapcorp (2008). A sustentabilidade, que traz implicações para todos os âmbitos, é o ponto de intersecção entre as estratégias de negócio de uma organização e suas demandas econômicas, sociais e ecológicas. Abordar essa temática, inserindo em sua discussão a dimensão comunicativa, é um dos propósitos da obra. Com reflexões críticas de cunho acadêmico e técnico, ela oferece subsídios a pesquisadores, profissionais e estudantes das áreas de Comunicação Organizacional, Relações Públicas, Jornalismo, Publicidade, Marketing, Administração e correlatas para compreender como a comunicação pode contribuir com projetos de sustentabilidade.
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A terceira obra. A comunicação como fator de humanização nas organizações, trata do tema em dois subtemas: a organização como espaço de diálogo e construção de significado e a comunicação como lugar e processo de humanização da organização nas relações de trabalho. Perspectivas e tendências O trabalho da Abrapcorp, por meio de suas frentes de atuação, já dá sinais concretos de estar contribuindo para o avanço científico das áreas de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas. Os congressos anuais têm um histórico de apenas quatro anos, mas já figuram entre os principais eventos científicos nacionais da área de Comunicação Social do País. Os esforços da entidade fomentam a produção acadêmica e o debate entre a universidade e a sociedade. E contribuem para um frutuoso diálogo internacional entre pesquisadores brasileiros, latinoamericanos, norte-americanos e europeus. O reconhecimento público da Abrapcorp se evidencia pelas parecerias que tem feito para realização dos seus congressos anuais com Programas PósGraduação em Comunicação de importantes universidades e pelo que tem obtido apoio dos órgãos de fomento à pesquisa, tais como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). Os campos acadêmico-científicos de comunicação organizacional e relações públicas estão instituídos no Brasil e contam com pesquisas e literatura significativas. Essas áreas passam por um momento de grande efervescência criativa e produtiva, tanto no meio acadêmico como no mercado profissional. Enfim, as perspectivas são promissoras para as duas áreas. Os novos trabalhos desenvolvidos indicam uma produção inovadora, com pesquisas empíricas e reflexões teóricas com mais rigor metodológico e científico. O estágio avançado da comunicação no Brasil e as novas exigências de uma crescente profissionalização impulsionarão a universidade a criar mais espaços para a pesquisa e o ensino nessas áreas. Temos hoje um mercado amplo e competitivo, tanto no âmbito das organizações quanto no da prestação de serviços. A conjuntura política do País, com o fortalecimento das instituições democráticas, certamente contribuirá para o florescimento e a expansão das duas áreas. Além disso, a nova postura das organizações diante da sociedade, dos públicos e da opinião pública postula bases conceituais mais sólidas para a prática profissional. E a Abrapcorp em todo esse contexto tem uma missão muito importante a cumprir.
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CAPÍTULO 10 ABCiber – Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura
Eugênio Trivinho1

Introdução A Associação Brasiliera de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber2) constitui entidade científica e cultural, interdisciplinar e sem fins lucrativos, com sede em São Paulo/SP, cuja missão principal é congregar pesquisadores(as), Grupos de Pesquisa, instituições e/ou entidades brasileiras em torno de temáticas pertinentes ao campo de estudos sobre o fenômeno da Cibercultura; e de nuclear e consolidar esse campo interdisciplinar de estudos, contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural do país (cf. Artigo 1 do respectivo Estatuto). Fruto de um projeto semeado desde 2000, com a idéia preliminar lançada no IX Encontro Nacional da COMPÓS, realizado na PUCRS, a ABCiber foi fundada em 27 de setembro de 2006, por pesquisadores(as) de vários Programas de Pós-Graduação de diferentes áreas das Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes no Brasil, então reunidos em Plenária Especial do I Simpósio Nacional de Pesquisadores em Comunicação e Cibercultura, organizado pelo CENCIB - Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Comunicação e Cibercultura, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, e realizado nesta Universidade, no período de 25 a 29 de setembro de 2006. A criação da Associação foi divulgada em Nota Pública (de 07/10/2006) para a comunidade nacional e internacional3. Participaram da Plenária Especial de fundação os(as) seguintes pesquisadores(as) (com seus vínculos institucionais à época):Adriana Amaral (UTP);Alex Primo (UFRGS);André Lemos (UFBA);Diana Domingues (UTP);Erick Felinto de Oliveira (UERJ);Eugênio Trivinho (PUC-SP);Fernanda Bruno (UFRJ);Francisco Coelho dos Santos (UFMG);Henrique Antoun (UFRJ);Juremir Machado da Silva (PUCRS);Lucrécia D´Alessio Ferrara (PUCSP);Marco Silva (UERJ e UNESA);Maria Cristina Franco Ferraz (UFF);Othon Jambeiro (UFBA);Rogério da Costa (PUC-SP);Rosa Maria Leite Ribeiro Pedro (UFRJ);Simone Pereira de Sá (UFF);Theóphilos Rifiotis (UFSC);Vinícius
1 Professor da PUC-SP. Presidente da ABCiber. 2 O endereço de referência da entidade é a Rua Ministro Godoy, 969, 4. andar, bloco B, sala 4A-08, Perdizes, São Paulo/SP, CEP 05.015-901. 3 Disponível em http://abciber.org/nota_publica_fundacao.pdf.

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Andrade Pereira (UERJ e ESPM);Yara Rondon Guasque Araujo (UDESC). A necessidade institucional de integração da ABCiber ao sistema jurídico brasileiro levou a primeira Diretoria a adotar procedimentos administrativos, documentais e operacionais necessários ao registro da Associação em Cartório da cidade de São Paulo, nomeadamente no 6. Cartório de Títulos e Documentos e Civil de Pessoa Jurídica, e, posteriormente, à obtenção do CNPJ – n. 11.294.169/0001-18 – junto à Receita Federal. Esses procedimentos incluíram a convocação de uma assembléia geral especial, igualmente liminar, para efeito de fundação de direito da Associação, encontro este realizado na PUC-SP, no dia 05 de outubro de 2009. Participaram dessa assembléia para fins de legalização da entidade os(as) seguintes pesquisadores(as):Eugênio Trivinho (PUC-SP);Gilberto Prado (USP);Gisela Castro (ESPM);Lucia Santaella (PUC-SP); Sebastião Squirra (UMESP);Sueli Mara Ferreira (USP);Lucrécia D´Alessio Ferrara (PUC-SP); Rogério da Costa (PUC-SP). À luz da sistemática axiológica referencial do ordenamento jurídico, os(as) pesquisadores(as) que participaram da Plenária Especial de 26 de setembro de 2007 passaram a ser considerados formalmente como “fundadores históricos ou de fato” da ABCiber; e os(as) pesquisadores(as) participantes da assembléia de fundação jurídica, os seus “fundadores de direito”. A história da ABCiber testemunha, com convicção, que um dos legados intelectuais e éticos mais vigorosos e fundamentais que a criação de uma entidade científica nacional pode oferecer às áreas de conhecimento que a constituem, ao seu desenvolvimento. Estrutura funcional e representatividade nacional A estrutura institucional e o modo de funcionamento da entidade foram estabelecidos em duas reuniões científicas realizadas na PUC-SP, em março e novembro de 2007. O Estatuto da ABCiber prevê uma Diretoria, um Conselho Científico Deliberativo (CCD) e uma Assembléia Geral (de associados). Em março de 2007, foi aprovado um Conselho de Ética, cuja implementação ficou para momento futuro. O CCD constitui instância superior de consulta e deliberação; a Diretoria, instância executiva e propositiva. Acima de ambas, está a Assembléia Geral, órgão máximo de decisão. O Conselho de Ética, por sua vez, se destinará a avaliar e julgar matérias internas e externas atinentes a valores de natureza ética e moral. Além dessas instâncias, o Estatuto prevê Comissões Especiais de Assessoramento da Diretoria e/ou do CCD, para cumprimento de objetivos específicos. A Diretoria, com mandato de dois anos, é formada por 11 pesquisadores
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(as). O CCD, na gestão 2007-2009, foi formado por 21 membros (as); e a gestão 2009-2011, por 20 (até a realização da III Assembléia geral, no dia 02 de novembro de 2010). Participaram da primeira gestão, pesquisadores (as) de 11 Universidades/ Programas de Pós-Graduação (cinco federais, dois estaduais, duas Pontifícias/ Comunitárias e duas instituições privadas). Compuseram o CCD pesquisadores (as) de 15 Instituições de Ensino Superior (IES), /16 Programas de Pós-Graduação (PPGs). No total, 18 IES/20 PPGs estiveram representados nessa gestão, abrangendo as áreas de Comunicação, Ciência da Informação, Antropologia, Psicologia Social, Educação, Semiótica e Artes, conforme segue (com os vínculos institucionais à época): Na gestão 2009-20114, participam pesquisadores (as) de 10 Universidades/11 Programas de Pós-Graduação (duas federais, três estaduais, duas Pontifícias/ Comunitárias e três privadas). Compõem o CCD pesquisadores (as) de 17 IES/15 PPGs. No total, 20 IES, com 21 PPGs estiveram representados nessa gestão, abrangendo as áreas de Comunicação, Ciência da Informação, Antropologia, Psicologia Social, Educação, Semiótica, Design e Artes. Os(as) membros(as) da Diretoria interatuam com frequência via respectiva lista de discussão. O CCD se reúne uma vez a cada semestre [no segundo, durante o Simpósio Nacional (em novembro)] e, sempre que necessário, online, em lista de discussão própria. A Assembléia Geral (ordinária) é realizada anualmente (também durante o Simpósio Nacional). Metas institucionais e objetivos programáticos5 Metas institucionais 1.Nuclear e consolidar no Brasil o campo interdisciplinar de estudos sobre o fenômeno da Cibercultura, entendida em sentido amplo, como categoria referente às configurações socioculturais contemporâneas articuladas por tecnologias e redes digitais, contribuindo para o desenvolvimento científico do país; 2.Congregar pesquisadores (as), Grupos de Pesquisa, instituições e/ou entidades brasileiras em torno de temáticas pertinentes a esse campo de estudos; 3.Garantir condições institucionais e materiais necessárias à organização continuada desse campo de estudos, atribuindo-lhe representação institucional
4 O Plano de Gestão referente a este biênio está disponível em http://abciber.org/diretoria1024.html. 5 Cf. Capítulo II do Estatuto

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unificada e autônoma em relação às demais associações científicas e culturais vigentes e possibilitando a expansão da respectiva pesquisa de excelência no país; 4.Estimular intercâmbios com pesquisadores(as), Grupos de Pesquisa e entidades estrangeiras dedicados(as) ao mesmo campo de conhecimento. Objetivos programáticos 1. Promover a circulação de conhecimento interdisciplinar renovado e questionador no contexto de relações científicas, institucionais e culturais entre 2. Contribuir para a formação continuada de quadros intelectuais de excelência, a partir da esfera de estudos da Cibercultura; 3. Organizar eventos científicos periódicos, com apoio de agências de fomento e/ou instituições privadas, no âmbito de sua competência institucional Eventos realizados e projetados I Simpósio Nacional de Pesquisadores em Comunicação e Cibercultura - organizado pelo Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Comunicação e Cibercultura (CENCIB), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, e realizado nesta Universidade, no período de 25 a 29 de setembro de 2006, com apoio da CAPES e do Itaú Cultural e apoio cultural do Teatro da Universidade Católica (TUCA) e da Livraria Cortez. Estruturado em 15 sessões de trabalho, dentre as quais 11 painéis temáticos, o Simpósio reuniu, em cinco dias consecutivos, 34 pesquisadores (as) - entre conferencistas e mediadores(as) - de Programas de Pós-Graduação das Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas de vários Estados brasileiros. O evento integrou as comemorações dos 60 anos da PUC-SP e dos 34 anos de seu Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. II Simpósio Nacional da ABCiber - organizado pelo CENCIB/PEPGCOS/ PUC-SP e realizado nesta Universidade, no período de 10 a 13 de novembro de 2008, com apoio da CAPES e do Itaú Cultural e apoio cultural do TUCA, da Livraria Cortez e do provedor Locaweb. O Simpósio6 abrigou mais de 130 palestras, distribuídas em quase 50 painéis temáticos (científicos e de arte digital), formados a partir das respostas da comunidade científica ao Call for papers institucional. Igualmente, o evento somou, além de quatro plenárias especiais, 25 conferências ministradas por membros (as) da Diretoria e do CCD e realizadas
6 Os anais eletrônicos, indexados pela Biblioteca Nacional, contendo todas as conferências digitalizadas, estão disponíveis em www.cencib.org/simposioabciber/anais.

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em dez mesas, nos três primeiros dias7. III Simpósio Nacional - organizado pelo Grupo de Pesquisas em Comunicação e Práticas de Consumo, do Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e realizado nesta Universidade, no período de 16 a 18 de novembro de 2009. O IV Simpósio Nacional, foi organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e realizado nos dias 01 a 03 de novembro de 2010, depois da escritura deste artigo. Apoios institucionais e culturais recebidos Desde a sua fundação, a ABCiber recebeu apoio das seguintes Universidades, agências federais e estaduais de fomento e empresas: Apoios institucionais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) CAPES - Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Instituto Itaú Cultural FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo FAPERJ - Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro Apoios culturais UCA - Teatro da Universidade Católica Livraria Cortez (SP) LocaWeb (provedor de acesso) A cada ano, Associação renova o seu interesse de expandir suas parcerias interinstitucionais para patrocínio e/ou promoção de seus Simpósios e projeto

7 Uma apresentação geral da ABCiber e do campo da cibercultura no Brasil pode ser encontrada na conferência de abertura desse Simpósio, disponível em http://www.cencib.org/simposioabciber/anais/mesas/ videos/?autor=Eugenio_Trivinho.

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Programa de Incentivo a Produção Científica e Cultural Este programa constitui empreendimento institucional destinado ao fomento da produção bibliográfica e artística no campo interdisciplinar de estudos da Cibercultura. O Programa abrange a Coleção ABCiber de textos sobre cultura digital e a Coleção ABCiber de poéticas em mídias e redes interativas (nomenclatura referencial provisória). Ambas coleções são caracterizadas em Projetos próprios, a saber: 1.Projeto Editorial da Coleção ABCiber, contendo as normas para proposição, seleção, publicação e divulgação de e-books científicos e/ou reflexivos; e 2.Projeto Curatorial e Editorial da Coleção ABCiber Arte (idem notação acima), abrangendo normas para a proposição e seleção de curadorias e mostras online, workshops presenciais (durante os Simpósios Nacionais anuais) e catálogos de arte digital. Abrigando textos e criações nacionais e estrangeiras, ambas as Coleções permanecerão disponíveis no site da ABCiber, para acesso universal, conforme decisão do Conselho Científico Deliberativo da Associação, em sua IV Reunião ordinária, realizada na UERJ, nos dias 21 e 22 de maio de 2009. Sem descarte de intervenções pontuais necessárias no processo político e social brasileiro, em relação a matérias atinentes ao seu campo de interesse, a ABCiber prioriza, com este Programa editorial, implementado entre seus Simpósios, a sua missão intelectual de esclarecimento público acerca das condições sociais, culturais, políticas e econômicas da vida humana na civilização tecnológica contemporânea. Em cumprimento ao Capítulo II do Estatuto da Associação (reproduzido no tópico acima), esse foco institucional recai – enfatize-se – sobre o que evidentemente consiste no principal legado de uma associação de pesquisadores: contribuir, em sentido extenso, para o desenvolvimento científico, cultural e tecnológico do país, em partilha necessária do conhecimento produzido no contexto internacional. E-books da Coleção ABCiber publicados e previstos O volume inaugural da Coleção ABCiber de textos sobre cultura digital – A cibercultura e seu espelho: campo de conhecimento emergente e nova vivência humana
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na era da imersão interativa – foi lançado em fevereiro de 20108. O e-book de referência do II Simpósio Nacional, cotado como volume 2 dessa Coleção, encontrava-se em fase final de edição e foi lançado no IV Simpósio Nacional, na UFRJ, realizado no dia 02 de novembro de 2010. O e-book de referência do III Simpósio está previsto para meados de 2011 e seu lançamento oficial ocorrerá no V Simpósio Nacional, em IES e período a serem ainda definidos. Informações Relevantes Nota Pública em defesa da liberdade na Internet Em 07 de julho de 2007, a ABCiber, por proposição de seus conselheiros André Lemos (UFBA) e Sérgio Amadeu da Silveira (Cásper Líbero), emitiu Nota Pública em defesa da liberdade na Internet, manifestando preocupação com o teor do Projeto de Lei Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo e empenhando integral apoio à carta-aberta de autoria dos mencionados(as) professores(as)9. Dossiês sobre Cibercultura Cibercultura revisitada Galáxia, revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, n. 16 (dez. 2008)10. Dossiê ABCiber (II Simpósio Nacional, 2008) Famecos: mídia, cultura e tecnologia - revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, n. 37 (dez. 2008)11. Os dossiês representam o estado da arte das pesquisas em desenvolvimento em Programas de Pós-Graduação brasileiros em diferentes áreas das Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas (em especial a Comunicação) e Linguística, Letras e Artes. Os artigos põem em discussão o encadeamento simbólico entre mídia de massa e mídia interativa; o fenômeno glocal e seu bunker típico; as tecnologias móveis e
8 Está disponível em http://www.abciber.org/publicacoes/livro1. 9 A Nota Pública, com a íntegra da carta, está disponível em http://abciber.org/nota_publica.pdf. 10 Disponível em: http://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/issue/current/showToc. 11 Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/issue/view/337/showToc.

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a reconfiguração dos lugares; as relações entre território e identidade em práticas online e off-line; as comunidades virtuais; as interfaces multissensoriais; a inclusão social; a apropriação do ciberespaço na periferia; a vigilância eletrônica; os sites de relacionamento; as trocas afetivas online; a nova indústria do entretenimento; o YouTube e a cultura trash; os fotologs; a estética e a sociedade de controle; o jornalismo digital; os commons; os ambientes virtuais de aprendizagem e a produção científica, entre outros temas emergentes e relevantes. Campanha de filiação e horizontes Desde o seu II Simpósio Nacional, a ABCiber mantém-se em campanha de filiação com anuidade referenciada em novembro de 200812. A trajetória da ABCiber confirma, para os próximos anos, a intensificação e ampliação do trabalho de nucleação e desenvolvimento do campo de estudos da Cibercultura no país, com amplo apoio de professores(as)/pesquisadores(as), alunos de Pós-Graduação e Graduação e profissionais interessados(as) em compreender as múltiplas relações entre as tecnologias/redes digitais e a vida social, cultural, política e econômica contemporânea.

12 Planilha disponível em http://abciber.org/comoassociar1024.html

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CAPÍTULO 11 ALCAR: a história de um “pragmatismo utópico”
Marialva Carlos Barbosa1

A Associação Brasileira dos Pesquisadores de História da Mídia (ALCAR) foi, oficialmente, constituída como associação científica de caráter nacional, no VI Congresso de História da Mídia, realizado em 14 de maio de 2008, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). Naquela ocasião, 81 sócios fundadores assinaram a ata de constituição da Associação, em plenária realizada na noite que marcou o encerramento do Congresso. Ainda que o ato formal de instituição da Associação tenha se dado em maio de 2008, um longo caminho fora percorrido até então. É um pouco desse percurso que esse textodepoimento, misto de trabalho memorável e documental, procurará enfocar. A história começa sete anos antes: exatamente em 5 de abril de 2001, quando, em reunião realizada na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), um grupo de pesquisadores que se dedicava há à temática da história dos meios, reuniu-se para dar início as ações de uma Rede de Pesquisadores que tinha como propósito constituir, até 2008 – ano dos 200 anos de implantação da imprensa no Brasil - um inventário crítico reflexivo sobre a história da mídia no Brasil. Espécie de utopia idealizada por José Marques de Melo, tinha como objetivo refazer o percurso realizado na alvorada do século XX pelo pesquisador pernambucano Alfredo de Carvalho, que mapeou a imprensa brasileira em todas as suas regiões para um estudo alentado produzido para ser apresentado durante as comemorações do centenário da implantação da imprensa brasileira, em 1908. Objetiva-se, no início do século XXI, ações semelhantes aquela feita por Alfredo de Carvalho, na medida em que a plataforma de ação da Rede Alfredo de Carvalho incluía, como item prioritário, a atualização do inventário da imprensa brasileira, com o propósito de completar as lacunas deixada pelo inventário de 1908, além de avançar na crítica reflexiva desse mapa inventarial das pesquisas brasileiras, até 2008. Como enfatizou, na época, o idealizador da Rede, José Marques de Melo, num texto síntese do “pragmatismo utópico da Rede Alfredo de Carvalho”2, “deseja-se completar as lacunas deixadas pela equipe de 1908, além de fazê-lo avançar até 2008. Mais do que isso: pretende-se realizar a interpretação dos dados acumulados,
1 Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia - ALCAR. 2 MELO, José Marques de. O pragmatismo utópico da Rede Alfredo de Carvalho. Preservando a Memória e construindo a História dos 200 anos da Imprensa no Brasil. In http://comunicacao.feevale.br/redealcar/index. php?option=com_content&view=article&id=59&Itemid=66. Acesso em 20/05/2010.

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construindo indicadores capazes de balizar o trabalho dos historiadores e dos cientistas da comunicação”. Naquela reunião pioneira estiveram presentes, além do idealizador da Rede, José Marques de Melo, o então Presidente da ABI, Fernando Sigismundo, Cibelle Ipanema, representando oficialmente o IHGB, Ana Arruda Calado (ABI), Esther Bertoletti (MinC), Francisco Karam (UFSC), Marco Morel (UERJ), Tania Bressone (UERJ) e Lúcia Neves (UERJ), Ana Paula Goulart Ribeiro (UFRJ) e Marialva Carlos Barbosa (UFF). Ali mesmo, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, a Rede, uma iniciativa conjunta da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação e Cátedra FENAJ/UFSC de Jornalismo, ampliava substancialmente o seu escopo de atuação, incluindo, já no primeiro ano de criação, dezenas de instituições e pesquisadores.A partir daí outros pesquisadores foram convocados a participar desse percurso e passaram a apresentar o resultado de suas pesquisas em diversos encontros e, sobretudo, nos congressos anuais realizados. O primeiro Congresso, ainda em 2002, foi realizado na UERJ e na Univercidade, no Rio de Janeiro, com a presença de 100 pessoas. Um número reduzido, mas estava lançada a senha para a recuperação da importância histórica dos processos midiáticos brasileiros. O resultado mais visível desse encontro foi a publicação do livro História e Imprensa: representações culturais e práticas de poder, organizado por Lucia Maria Bastos P. Neves, Marco Morel e Tania Maria Bessone de C. Ferreira, com apoio institucional da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)3. A caminhada de construção da Associação nesse momento fundador incluiu também a promoção de uma dezena de eventos realizados em todo o país para despertar o interesse dos pesquisadores; constituiu-se os Grupos de Trabalho, inicialmente em torno de cinco propostas; foi construída uma metodologia unificada para possibilitar o trabalho de inventário, sobretudo, das fontes impressas. A Rede tinha hora marcada para terminar: esperava-se que o trabalho estaria encerrando em 2008. “Essa pesquisa deverá estar concluída em 2008, esperando-se cobrir todo o território nacional. Os levantamentos e análises tomarão a cidade como espaço referencial, buscando-se, em fase mais avançada, tecer as malhas das conexões regionais, identificando também aqueles traços nacionalmente hegemônicos”, sentenciava José Marques, no seu texto fundador. Ainda em 2001 foi programado um calendário de eventos para conquistar novas adesões acadêmicas e angariar apoios instutucionais. O início do que chamou então “maratona cultural” foi em Salvador, com a realização de um ciclo de conferências, entre os dias 25 e 27 de abril de 2001. A Rede também
3 NEVES, Lucia, MOREL, Marco, FERREIRA, Tania (organizadores). História e imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: DP&A; FAPERJ, 2006, 448 p.

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ALCAR: a história de um “pragmatismo utópico”

esteve presente na 51ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho daquele ano. Iniciou-se também a programação dos Congressos anuais, sendo o primeiro realizado, em 2003, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sediou o II Encontro de História da Mídia e, a partir daí, sem qualquer interrupção, todos os anos os pesquisadores sabiam que tinham um encontro anual marcado em torno do pragmatismo utópico da ALCAR. Foram seis os encontros anuais realizados até a constituição formal da instituição, em 2008: em 2003, na UERJ e na Univercidade, no Rio de Janeiro, o seguinte em Santa Catarina (UFSC), seguido dos encontros de Novo Hamburgo (Feevale), São Luis (AMI), São Paulo (Casper Líbero) e Niterói (UFF). Assim, do objetivo inicial de “desenvolver ações públicas destinadas a comemorar os 200 anos de implantação da imprensa no Brasil”, a partir do desejo de centenas de pesquisadores que se filiavam a rede ano após ano, foi constituída em 2008 a Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, que manteve como sigla complementar ao nome, ALCAR. Essa marca indica a vinculação aos propósitos da Rede de Pesquisadores que deu início a uma utopia que se transformou em ações orgânicas no sentido de construir reflexões críticas conceituais duradouras em torno dos processos históricos dos meios de comunicação no Brasil. Convém relembrar a plataforma original da Rede Alfredo de Carvalho (ALCAR). Além do objetivo de “contribuir para o avanço da mídia impressa no novo século, de forma integrada com a mídia eletrônica e a digital, tornando-a patrimônio coletivo do povo brasileiro”, tinha como motivação principal “alavancar iniciativas capazes de converter a imprensa em instrumento civilizatório”. A partir do conhecimento dos processos históricos dos meios de comunicação poder-se-ia “sociabilizar seus benefícios culturais por toda a sociedade” e não apenas entre os que são nominados como elites, “como vem ocorrendo historicamente nos dois primeiros séculos de sua existência em território nacional”4. O objetivo de reflexão profunda sobre os processos históricos de um passado longínquo ou mais recente com a intenção de, pelo conhecimento, produzir ações duradouras na sociedade brasileira era (e é) a marca mais emblemática da Associação. Além do programa de estudos, através de pesquisas desenvolvidas em todo o país, refazendo, aprofundando e atualizando as pesquisas históricas dos meios de comunicação no Brasil, a ALCAR mantém, também, desde o início, amplo programa de eventos, com a realização não só dos encontros anuais, mas de simpósios, colóquios e outras iniciativas destinadas a fortalecer a identidade da imprensa brasileira. Faz parte ainda das ações da instituição a publicação de
4 Cf. Plataforma da Rede Alfredo de Carvalho. In: http://comunicacao.feevale.br/redealcar/index. php?option=com_content&view=article&id=59&Itemid=66. Acesso em 20/05/2010.

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“reedição de coleções, livros raros e outras peças, potencializando os recursos das tecnologias digitais e contribuindo para a difusão do conhecimento estocado sobre a memória da imprensa brasileira”. Constitui-se em momento fundador dessas ações, a organização dos quatro volumes dos “personagens que fizeram história” e que, inicialmente, foram publicados como encarte na Revista Imprensa, durante todo o período que antecedeu o bi-centenário da implantação da imprensa no Brasil5. Destacamse também edições de livros conjuntos organizados no interior dos Grupos de Trabalho da Associação, mostrando claramente a ampliação e sedimentação das pesquisas históricas em torno dos meios de comunicação no Brasil6. Depois da constituição da ALCAR como associação, as ações têm se voltado para sedimentar as pesquisas em torno da temática histórica e fomentar estudos integrados, de forma a construir pesquisas duradouras e reflexões em torno de generalizações históricas, indispensáveis para esta área de estudos. A regionalização das ações da ALCAR, a constituição de núcleos de pesquisas integradas e a realização de uma pesquisa verdadeiramente integrada a nível nacional sobre processos históricos fundadores da mídia no país (Projeto “A Imprensa antes da Impressão”) são ações no sentido de solidificar uma Associação que possui, no final da primeira década do século XXI, apenas dois anos de constituída. Jovem, nascida de uma utopia, quer continuar fazendo do pragmatismo utópico lugar de produção de reflexões duradouras em torno de processos históricos que, falando do passado, informam muito das práticas e valores de uma comunicação que se volta, sempre, para o futuro.

5 MELO, José Marques de (organizador). Imprensa brasileira: personagens que fizeram história. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; São Brnardo do Campo, SP; Universidade Metodista de São Paulo. Vol. 1 (2005). Vol. 2 (2005), Vol. 3 (2008) e Vol. 4 (2009). 6 Merece ser mencionado os quatro volumes organizados pelo GT de Publicidade e Propaganda, em torno das reflexões sobre a história da publicidade no Brasil, bem como o livro organizado pelo GT de Mídia Sonora: Klöckner, Luciano e Prata, Nair (Orgs.) HISTÓRIA DA MÍDIA SONORA Experiências, memórias e afetos de Norte a Sul do Brasil, sob a forma de e-books, publicado pela EDIPUCRS, 2009, bem como MOURA, Claudia (organizadora). História das Relações Públicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.

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Marialva Carlos Barbosa1

Introdução2 Os estudos enfocando a historicidade dos meios de comunicação têm se complexificado de forma acentuada, sobretudo, a partir do último decênio do século XX. Ainda que possamos identificar uma longa tradição, sobretudo no que diz respeito à história da imprensa, dos impressos e do jornalismo em geral, a multiplicação dos processos comunicacionais nas últimas décadas acentuou a necessidade de reflexões mais pontuais em torno dos meios eletros-acústicos e digitais3. Por outro lado, há que se considerar ainda que só recentemente os estudos de história da mídia deixaram de considerar uma dinâmica linear para a análise histórica dos meios de comunicação. Se durante o século XIX e boa parte do século XX, dominaram as análises a perspectiva de uma história que pretendia resgatar a integralidade do passado e, muitas vezes, limita-se a descrever práticas desenvolvidas pelos atores sociais dominantes, observa-se gradativamente outro direcionamento das análises, como procuraremos mostrar nesse texto. Como quando nos referimos à história da mídia, estamos enfocando complexos processos comunicacionais que dizem respeito ao jornalismo, às mídias impressas em geral, às mídias visuais, audiovisuais, digitais e também a uma reflexão historiográfica (envolvendo a dimensão teórica e metodológica desses estudos) dos meios de comunicação, dividimos esta exposição em duas etapas. Na primeira parte vamos, mapear brevemente a tipologia dos estudos históricos dos meios de comunicação, a partir dos 1183 trabalhos apresentados, desde 2004, nos Congressos Anuais da Rede ALCAR, hoje, Associação Brasileira dos Pesquisadores de História da Mídia. A partir desse diagnóstico numérico, procuraremos enunciar os principais focos de pesquisa da área, a análise das temáticas dos estudos históricos dos meios de comunicação, apresentando, enfim, as tendências observadas no decênio 2000-2010. Num segundo momento identificaremos os pesquisadores, descrevendo brevemente a comunidade
1 Presidente da Rede ALCAR. 2 Agradecemos os relatórios produzidos por Karina Woitowicz e Rozinaldo Antonio Miani (Mídia Alternativa); Maria Berenice da Costa Machado (Publicidade e Propaganda); Claudia Moura (Relações Públicas); Ana Regina Rego e José Ferreira Jr (Mídia Impressa); Luciano Klöckner (Mídia Sonora) e Valquíria Kneipp e Iluska Coutinho (Mídia Visual e Audiovisual), sem os quais não teria sido possível a construção desse texto. 3 Sobre a longa tradição dos estudos históricos dos meios de comunicação, particularmente no que diz respeito aos meios impressos cf. o prefácio de Marco Morel, em BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa (1800-1900). Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.

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acadêmica envolvida com os estudos históricos dos meios de comunicação e as instituições a que pertencem. E, finalmente, apresentamos uma reflexão a partir desse diagnóstico, indicando as carências e que ações devem ser propostas para fazer avançar o conhecimento teórico-conceitual em torno dos estudos históricos da comunicação. Diagnóstico em números O primeiro Quadro (I), meramente quantitativo, indica o interesse crescente de algumas áreas de estudos – como Mídia Impressa, Alternativa e Mídia Visual e Audiovisual – e deixa evidente também a sedimentação, em termos numéricos, de estudos em torno da história do Jornalismo, da história da mídia sonora e da publicidade e propaganda, os que apresentaram, durante todo o período, constância em termos de números de trabalhos apresentados nos Congressos. Enquanto em Jornalismo, há uma média de 40 trabalhos apresentados em cada um dos Congressos - com duas exceções, o menor número (29) no Congresso de Santa Catarina, em 2004, e o maior número, no Congresso de Niterói, em 2008 (69) -, em Mídia Sonora obteve-se a média histórica de 30 trabalhos por congresso. Já o GT Publicidade e Propaganda possui média histórica de 20 trabalhos por congresso (exceto, o Congresso de Niterói, que foi atípico).
Quadro I - Total de trabalhos apresentados GTS Impressa Jornalismo Visual e Audiovisual Sonora Digital Publicidade/Propaganda Alternativa RP Midiologia Total 70 13 2003 17 40 2004 20 29 24 5 14 8 100 2005 22 38 16 29 13 20 10 12 17 177 2006 2007 22 41 11 21 8 18 15 7 13 156 10 44 18 24 11 20 11 4 10 152 2008 33 69 39 37 28 43 27 11 17 304 2009 34 42 38 31 18 23 19 12 217 TOTAL 158 303 122 166 83 151 82 42 69 1183

Obs: 1) O grupo de Mídia Alternativa só foi instituído a partir de 2005. O GT de Publicidade e Propaganda existiu com esta denominação de 2004 a 2008. Em 2003, denominava-se Mídia Persuasiva. Em 2009, com a fusão dos GTs História da Publicidade e História das Relações Públicas, passou a ter nome História da Comunicação Persuasiva e Institucional. 2) Não apresentamos os resultados referentes ao I Encontro de Pesquisadores, realizado no Rio de Janeiro, entre 1 e 5 de junho de 2003, pois tivemos acesso a um pequeno número de trabalhos então apresentados. Como foram pouco mais de 70 trabalhos em todos os grupos, a falta desses dados não altera o diagnóstico. 3) O GT Jornalismo passou a existir de maneira 208

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autônoma a partir do II Encontro. No I Encontro havia apenas o de Mídia Impressa, englobando pesquisas históricas de jornais, rádio e livro. 4) Ainda que os trabalhos de Mídia Visual e Audiovisual tenham sido apresentados em separado, agrupamos no quadro os dois grupos, que a partir de 2008 passaram a constituir um único GT. 5) No I Encontro não havia o GT de Midiologia que só foi criado em 2005. 6) No I Encontro haviam seis grupos, assim constituídos: Mídia impressa (Jornal, Revista, Livro), Mídia Sonora (Rádio, Disco), Mídia Visual (Fotografia, HQ, Cartazes), Audiovisual (Cinema, Televisão), Mídia Digital (Web e NTCs), Mídia Persuasiva (Publicidade e RP).

No Quadro I, pode-se notar igualmente o crescimento do número de trabalhos desde o III Encontro, realizado em Novo Hamburgo - RS, mostrando uma espécie de represamento das discussões em torno da temática História da Mídia, em todas as suas possibilidades. Mesmo grupos menores, como Midiologia ou RP, mostraram certa constância – ainda que o número de trabalhos fosse menos expressivo – em termos de discussões nos congressos anuais. A demanda menor de pesquisadores nessas duas áreas levou a integração do Grupo de RP no de Comunicação Persuasiva e Institucional, englobando Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Comunicação Organizacional. O mapeamento de 1183 trabalhos de pesquisadores de todas as regiões brasileiras, representando também a quase totalidade dos programas de pósgraduação em Comunicação do país, deixa evidente a importância dos estudos em torno das práticas e processos históricos midiáticos na área de comunicação no Brasil, fornecendo material teórico-conceitual e empírico de importância considerável. O Quadro II é bem mais representativo para um diagnóstico dos focos de pesquisa e para a análise das tendências observadas no decênio. Complementado pela análise das temáticas enfocadas nos textos (Ver Quadros III – A a I), resultado a maioria das vezes de pesquisas empíricas, apresentados nos encontros anuais dos pesquisadores, fornece um mapa operacional dos estudos da área. Observamos, em primeiro lugar, a ampla supremacia da pesquisa empírica, como meio fundamental para o desenvolvimento dos estudos, o que, a nosso ver, resulta da própria natureza dessas pesquisas: focadas em estudos de caso, envolvendo um veículo, uma instituição, um personagem localizável historicamente; ou concentradas em períodos claramente demarcados em torno de práticas midiáticas qualificadas como pertencendo a um dado passado. Dos 1183 trabalhos, aproximadamente, 70% foram classificados como resultado de pesquisa empírica, contra 30% predominantemente enfocando estudos de natureza teórica. Observando mais detalhadamente os números dos quadros a seguir (II e II A), nota-se, como exceção em relação aos demais grupos, a natureza dos trabalhos de Mídia Digital apresentar resultados não advindos necessariamente de análises empíricas, sendo objetos muitas vezes de impressões reflexivas, tendo como foco
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igualmente a característica presentista dessas análises. No que diz respeito aos estudos de Publicidade/Propaganda observa-se paridade entre esses dois universos de análise: 72 trabalhos de natureza teórica e 73 trabalhos decorrentes de análises empíricas. Merece atenção também a inconteste supremacia das análises decorrentes de pesquisa empírica nos estudos de Jornalismo (231), Mídia Sonora (160), Mídia Impressa (103) e Mídia Alternativa (75).
Quadro II - Natureza da Pesquisa - Teórica GTS Alternativa Digital Impressa Jornalismo Midiologia Publicidade/Propaganda RP Sonora Visual e Audiovisual TOTAL 2003 2004 4 1 1 3 2 6 1 9 1 19 0 4 2 1 10 8 2005 8 2 7 7 2006 2007 2008 1 1 7 6 7 4 4 9 11 4 7 9 18 7 8 4 4 20 2009 TOTAL 07 36 13 28 31 72 38 06 41 235

Quadro IIA- Natureza da Pesquisa-Empírica GTS Alternativa Digital Impressa Jornalismo Midiologia Publicidade/Propaganda RP Sonora Visual e Audiovisual TOTAL 23 28 13 20 5 22 9 36 20 31 14 9 2003 2004 3 19 19 6 2005 5 22 36 10 13 2006 7 22 40 6 12 2007 4 10 40 6 11 17 4 62 8 25 11 26 34 8 14 2008 2009 TOTAL 75 47 103 231 38 73 22 160 61 772

Obs.: Dois GTs apresentaram o resultado agrupado pelo total (RP e Mídia Alternativa), razão pela qual não reproduzimos a quantificação por ano.

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Nas pesquisas que envolvem análises empíricas, destacam-se os chamados estudos de caso: a maioria foca preferencialmente um veículo de comunicação, uma instituição (emissora de rádio, emissora de televisão, uma universidade, um curso, etc.). A análise das temáticas mostra também a supremacia de focos demarcados pela natureza dos objetos de pesquisa: jornais, emissoras de rádio, cinema, documentário, fotografia, etc. Gradualmente, observa-se que questões mais holísticas começam a ter certa supremacia: memória, identidade, minorias, resistência, estratégias, política, etc. Ou seja, de maneira geral e esquemática, podemos dizer que as pesquisas dos processos históricos midiáticos são demarcadas, sobretudo, pela natureza do veículo/instituição analisada, mas que, cada vez mais, a partir de marcos teórico focais procura-se interpretar processos mais abrangentes. Apresentamos, a seguir, o levantamento das temáticas das pesquisas apresentadas nos Encontros anuais, divididas por Grupos de Trabalhos. A partir da análise desses quadros algumas conclusões a cerca da perspectiva dos estudos da área se sobressaem4.
Quadro III (A) - Temática – Mídias Alternativa (82) Número de trabalhos Comunicação comunitária/independente/contra-hegemônica Resistência à ditadura Minorias sociais Radiodifusão comunitária Trabalhos conceituais Aproximações temáticas Trabalhos biográficos Experiência acadêmica 26 19 15 10 5 4 2 1

4 Os quadros apresentam configurações um pouco díspares, uma vez que usamos a sistematização feita por cada coordenador dos Grupos de Trabalho (GTs).

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Quadro III (B) - Temática – Mídia Digital (83) 2004 Linguagens Cultura do Ciberespaço Jornalismo TV Digital/Vídeo Games Rádio Digital Marketing/Publicidade/ Com. Organizacional Redes Sociais Blog Twitter Ensino Política Inclusão Digital Portais CD Room Outros 1 2 2 1 1 2 1 3 1 1 2 4 2 1 1 2 4 5 2 2 1 3 5 1 1 2 3 1 2005 2 3 5 1 4 1 2 1 1 4 1 2006 1 2007 1 2008 3 5 4 3 3 4 2009 TOTAL 8 11 21 6 6 1

Quadro III (C) - Temática – Mídia Impressa (158) Processos Gráficos e Redacionais Processos Históricos Artes gráficas Design gráfico Desing da notícia Livro reportagem Sensacionalismo Fotojornalismo Anúncios Classificados Gêneros Jornalísticos 4 4 4 1 1 2 1 2 Censura Gênese Anti-Comunismo Nazismo 7 10 1 1 Processos Espaço/Temporal Imprensa Regional Imprensa Partidária Imprensa Nacional Revistas Nacionais Imprensa Internacional Imprensa Esportiva Imprensa Juvenil 65 2 2 8 2 1

Infanto- 1 15 1 1

Estudos Jornalismo Imprensa Feminina Imprensa e Educação

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Tal como os trabalhos de Mídia Impressa, também nos de Jornalismo sobressaem-se os estudos de caso, que, no que diz respeito às análises históricas, são extremamente importantes, já que só podemos passar às generalizações depois de estabelecer marcos que se refiram a momentos/produções específicas. Mais de uma centena de veículos de comunicação (jornais, revistas, emissoras de rádio, de televisão, etc.) foi estudada por uma centena de pessoas que, de fato, se constituíram numa rede de pesquisadores dos processos históricos da comunicação. O avanço das reflexões e a densidade das análises também são flagrantes nesses estudos. Se somarmos as duas categorias nas quais as análises particularistas dão oportunidades para as futuras generalizações indispensáveis, temos 93 trabalhos dessa natureza (71 de caráter regional e mais 22 estudos enfocando personagens da história da mídia – jornalistas, donos de publicações, etc.). Há que se referir ainda, no que diz respeito aos estudos de Jornalismo, ao avanço das reflexões em torno das práticas profissionais, das rotinas produtivas, da chamada identidade profissional (35 trabalhos) e o declínio gradual das pesquisas que, focando os discursos/coberturas da imprensa realizados num tempo considerado passado, acreditavam estar realizando estudos de natureza historiográfica dos meios. Essa tendência parece configurar um processo de amadurecimento dos estudos históricos da área, no qual a questão das coberturas e a caracterização discursiva da imprensa cedem lugar às análises que visualizam os processos comunicacionais e os sistemas de comunicação em toda a sua complexidade.
Quadro III (E) - Temática – Midiologia (69) 2005 Fronteiras/Globalização Mídia Regional Personagens Televisão Produção Científica Jornalismo Linguagem/Discurso Instituições de Ensino/Pesquisa Revistas Acadêmicas Censura Outros 4 1 1 3 1 1 2 1 2 1 4 1 2 4 3 2 1 1 1 2 2 1 1 4 3 3 2006 2007 2008 1 1 6 3 5 2009 TOTAL 2 5 17 8 1 5 7 3 1 4 14

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

O quadro anterior reproduz um pouco a tendência dos estudos de midiologia quando inseridos num contexto cuja perspectiva de análise é dominantemente histórica. Nesse viés, destacam-se as reflexões em torno de personagens que construíram com ações educacionais e/ou profissionais históricas em torno de instituições de comunicação. Assim, ao lado de uma pulverização temática, as pesquisas do grupo concentram-se, sobretudo, em torno da análise de personagens singulares
Quadro III (F) - Temática – Publicidade e Propaganda (168) 2003 Estratégias Mídias Publicitários e Agências Ensino Propaganda Política Questões Contemporâneas 3 1 1 1 9 2 2004 2005 3 4 0 1 5 1 7 4 4 0 4 1 2006 6 5 2 0 2 3 2007 3 3 4 0 7 3 2008 11 10 5 4 4 9 2009 6 10 3 6 3 8 TOTAL 39 37 19 12 34 27

Quadro III (G) - Temática – Relações Públicas (42) ANO Temática A Temática B

Reflexões e Ações de Relações Ensino e Formação de Relações Públicas Públicas 2004 2005 2006 2007 2008 Total 4 6 3 4 9 26 4 6 4 -2 16

Os dois quadros anteriores, apresentando as temáticas mais recorrentes dos GTs de Publicidade e Propaganda e Relações Públicas, mostram igualmente um avanço das reflexões da história da mídia nesses segmentos em torno de processos históricos delimitados por questões teórico-metodológicas envolvendo dois grandes eixos temáticos: práticas e processos históricos das ações de propaganda/ relações públicas e reflexões em torno do ensino e da formação dos profissionais. Tanto no primeiro, quanto no segundo grupo destacam-se os chamados estudos de caso, envolvendo a análise de agências, instituições, estratégias, personagens que fizeram essa história.
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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Quadro III (H) - Temática – Mídia Sonora (166) 2009 1.TEMÁTICAS
1.1 Educação no rádio 1.2 Memória do rádio 1.3 Perfil de personagens radiofônicos 1.4 Música no rádio/ indústria fonográfica 1.5 Política/Propaganda no rádio 1.6 Comunicação pública radiofônica 1.7 Religião e rádio 1.8 Tecnologia e o rádio 1.9 História oral/rádio 1.10 Audiência no rádio 1.11 Linguagem radiofônica 1.12 Publicidade no rádio 1.13 Gênero no rádio (mulher/criança) 1.14 Rádio e jornalismo 1.14 Rádio e sociedade 1.15 Censura no rádio 1.16 Mediação cultural no rádio 1.17 Construção da identidade 1.18 Recepção 1.19 Rádio e desenvolvimento 1.20 Rádio e a II Guerra 1.21 Rádio e a interatividade 1.22 Futebol e o rádio 1.23 Suicídio de Getúlio Vargas e o rádio
31 artigos

2008
37 artigos

2007
24 artigos

2006
21 artigos

2005
29 artigos

2004
24 artigos

TOTAL 166 11 67 13 10 10 4 5 7 1 1 2 3 2 6 2 4 1 1 1 1 3 1

4 9 3 1 2 4 1 6 1 -

2 20 5 4 1 1 1 2 -

2 8 2 2 2 2 1 2 1 2 -

2 11 1 2 1 3 1 -

1 10 2 3 2 3 1 1 1 1 3 1 1
-

9 1 2 1 1 1 -

1
8

2
8

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Quadro III (I) - Temática – Audiovisual/Visual (122) 2005 Cinema Comunicação Cultura Documentário Educação à distância HDTV Identidade regional Internet Interatividade Língua Portuguesa Memória Programação local Televisão 2006 Cinema Espaço público Identidade Jornalismo Memória Nazismo Política sociedade Televisão 2007 Animação 2D/ 3D Cinema Comunicação Documentário Educação Efeitos Visuais Fantasia medieval História em quadrinhos Iconografia Linguagem verbal e não-verbal Políticas de comunicações Técnicas de Animação Televisão 2008 Adaptação Cineclubes católicos Cinema Comunicação Cultura Democratização da comunicação Documentário Educação Identidade Imprensa Interculturalidade Literatura Brasileira Memória 2009 Artes visuais, Audiovisual, Biblioteca Nacional, Cinema, Comunicação, Constituição de 1988, Dança contemporânea, Divulgação Científica, Ditadura militar, Documentário, Entretenimento, Fotografia, Homossexualidade,

Humor, Narrativa ficcional televisiva IPTV, Qualidade da TV Reality Show Televisão Videodança Jornalismo, Melodrama, Memória, Neo-realismo, Produção de Sentido, Reality show, Televisão, Web 2.0

Videorreportagem Poder Político,

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Os dois últimos quadros – referentes à temática de Mídia Sonora e de Mídia Visual e Audiovisual – sedimentam, de certa forma, as análises que fizemos anteriormente sobre as tendências dos estudos em história da mídia. Se, por um lado, é possível observar aparente dispersão temática, por outro, um olhar mais acurado revela a tendência das pesquisas em concentrar-se em torno de duas grandes linhas de análise: a memória histórica dos meios de comunicação e a construção de perfis dos personagens chaves agentes dessa história. É assim que no grupo de Mídia Sonora registra-se dos 166 trabalhos apresentados, 67 enfocando diretamente a memória do rádio. Em segundo lugar, aparecem os perfis dos personagens radiofônicos (13). Em Mídia Visual e Audiovisual também não é diferente: a televisão e o cinema assumem a dianteira temática, seguida de diversas outras expressões audiovisuais que são analisadas, na maioria das vezes, sob a forma metodológica dos estudos de caso, que, como já enfatizamos, se constitui numa espécie de marca indicial dos estudos de história da mídia nesta primeira década de constituição da Rede de Pesquisadores de História da Mídia. Devemos agora, ultrapassar essa fase, corrigindo uma carência fundamental, decorrente do ainda incipiente desenvolvimento de pesquisas integradas. Só em 2009 foi realizada a primeira pesquisa verdadeiramente integrada da Rede, desenvolvida pelo Grupo de Mídia Sonora, e coordenado por Nair Prata, inventariando e mapeando as rádios existentes em 28 regiões metropolitanas brasileiras. Quem é quem nesse universo A Rede de Pesquisadores de História da Mídia reúne professores, alunos e pesquisadores de todas as regiões do país, de uma centena de universidades brasileiras e de praticamente todos os programas de pós-graduação em Comunicação do Brasil. Evidentemente, que algumas regiões detêm a supremacia da pesquisa, enquanto outras se destacam pela formação de grupos orgânicos que sistematicamente e, nos últimos anos, de maneira mais integrada realizam pesquisas em torno dos múltiplos processos históricos envolvendo os meios de comunicação. Apresentamos a seguir quadros e gráficos que sistematizam a participação dos pesquisadores tanto nos Encontros Anuais, como nos Regionais, e nas pesquisas desenvolvidas sob a égide dos Coordenadores dos Grupos de Trabalho. Evidentemente, fora esses pesquisadores, que constituem o núcleo mais dinâmico da Associação e da Rede de Pesquisadores de História da Mídia, há outros que, eventualmente, participam das ações.
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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Coordenadores dos Grupos de Trabalho (2004-2010)
Nome Adolpho Queiroz Ana Baumworcel Ana Paula Goulart Ribeiro Ana Regina Rego Antonio Brasil Claudia Moura Cristiano Max P. Pinheiro Iluska Coutinho José Amaral Argolo José Ferreira Jr José Marques de Melo (*) Karina Woitowicz Luciano Klöckner Luis G. Tavares Maria Berenice da Costa Machado Marialva Carlos Barbosa Marlene Blois Nair Prata Robson Bastos Rosa Maria Ferreira Nava Rozinaldo Antonio Miani Ruth Vianna Sonia Luyten Sonia Virginia Moreira Valquíria Kneipp Walter Teixeira Lima Jr UEL UFMT UNISANTOS UERJ UFRN Cásper Libero Instituição UMESP/Mackenzie UFF UFRJ UFPI UERJ PUC RS FEEVALE UFJF UFRJ UFMA Cátedra UNESCO/ UMESP/INTERCOM UEPG PUC RS NEHIB UFRGS UFF UNICARIOCA UNI BH UNITAU GT Publicidade e Propaganda Mídia Sonora Jornalismo Impressa Mídia Digital Relações Públicas Mídia Digital Audiovisual/Visual Midiologia Impressa Midiologia Alternativa Mídia Sonora Mídia Impressa Publicidade e Propaganda Jornalismo Audiovisual Mídia Sonora Mídia Visual Midiologia Alternativa Audiovisual Visual Midia Sonora Audiovisual/Visual Mídia Digital Período 2003-2007 2004-2007 2008-2011 2009-2011 2003 2004-2008 2009-2011 2009-2011 2005 2009-2011 2004-2005 2005-2008 2009-2011 2004-2008 2008-2011 2003-2007 2003 2009-2011 2005-2008 2004-2009 2009-2011 2006-2008 2003-2004 2003 2009-2011 2004-2008

Obs. (*) José Marques de Melo, criador da Rede, foi também coordenador geral dos Grupos e de todos os Congressos até 2008.

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Para melhor caracterização da comunidade acadêmica participante da Associação, apresentamos a seguir indicadores da dimensão quantitativa do grupo de pesquisadores mais atuante, organizado numericamente, inicialmente, por Regiões e depois por Instituições parceiras. Há que se acrescentar também que a Rede ALCAR é constituída de diversos Núcleos Regionais, também listados a seguir.

Instituições por Região

Sudeste Nordeste Sul Norte

Os pesquisadores da ALCAR aglutinam-se além dos Grupos de Pesquisa, também, por Núcleos Regionais. São os seguintes os Núcleos Regionais (NE) da ALCAR: 1. Núcleo de Alagoas – coordenado pela prof. Rossana Gaia (CEFET-AL) 2. Núcleo da Bahia – coordenado pelo prof. Luiz Guilherme Pontes Tavares (NEHIB) 3. Ceará – coordenado pela prof. Erotilde Honório (UNIFOR) 4. Rio Grande do Norte – coordenado pelas professoras Maria Érica (UFRN), Valquíria Kneipp (UFRN) e Maria Angela Pavan (UFRN) 5. Campina Grande – liderado pelo prof. Luis Custódio (UEPB) 6. Maranhão – em Imperatriz, coordenado por Roseana Pinheiro (UFMA – campus Imperatriz) e em São Luiz, coordenado por José Ferreira Jr (UFMA) 7. Piauí – coordenado por Ana Regina Leal (UFPI) e Samantha Castelo Branco (UFPI 8. Rondônia – coordenado pelo prof. Edileuson Almeida (UNIRON)
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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

9. Juiz de Fora- coordenado pela prof. Iluska Coutinho (UFJF) 10. Belo Horizonte – coordenado pela prof. Sandra Freitas (PUC Minas) 11. Vitória – coordenado pela prof. Jussara Brittes (UFES/UFOP), Hérica Lene (UFES) e José Antonio Martinuzzo (UFES) 12. Viçosa – coordenado pela prof. Kátia Fraga (UFV) 13. Ouro Preto – coordenado pela prof. Nair Prata (UFOP) 14. São João Del Rei – coordenado pelo prof. 15. Santa Catarina – coordenado pelo prof. Francisco Karam (UFSC) 16. Paraná – Curitiba, coordenado pela prof. Cláudia Quadros (UTP); Ponta Grossa – coordenado pelo prof. Sérgio Gadini (UEPG) e Karina Woitowicz (UEPG); Guarapuava – coordenado pelo prof. Márcio Fernandes (UNICENTRO) e pela prof. Ariane Pereira (UNICENTRO) 17. Rio Grande do Sul – coordenado pelas professoras Maria Berenice Costa Machado (UFRGS) e Claudia Moura (PUCRS) 18. Rio de Janeiro – coordenado por Joëlle Rouchou (FCRB e UNICARIOCA) e por Esther Bertoletti (IHGB). Destaca-se também no Rio de Janeiro a participação do Grupo de Pesquisadores de Mídia, Memória e História, integrado por professores, graduandos, mestrandos e doutorandos da UFRJ, além de egressos, e da UFF (Ana Paula Goulart Ribeiro, Marco Roxo, Igor Sacramento, Danielle Ramos Brasiliense, Letícia Cantarela Matheus, Silvana Louzada, Hérica Lene, José Antonio Martinuzzo, Cássia Louro Palha, Renata Rezende, Bruno Fernando Castro, Fernanda Lima Lopes, Márcio Castilho, entre outros). 19. São Paulo – coordenado pelas professoras Gisely Hime (UNIFIAM), Angela Shawn (Mackenzie), Adolpho Queiroz (UMESP), Ciça Guirado (UNIMAR), Graças Caldas (UNICAMP). No que se refere às parcerias internacionais, a Rede ALCAR desenvolve ações de cooperação com as seguintes instituições: EUROPA 1. Université Versailles; 2. EHESS (Paris) 3. Universidade Fernando Pessoa (Porto) AMÉRICA CENTRAL E LATINA 1. Universidade de Córdoba
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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

2. Universidade de Buenos Aires 3. Universidade do México 4. Pontifícia Universidade Católica do Peru. Do ponto de vista das parcerias nacionais, mantemos cooperação com as seguintes instituições: Intercom; Socicom; Globo Universidade; Cátedra Unesco/ UMESP para o Desenvolvimento Regional; Cátedra FENAJ; Revista Imprensa; Associação Maranhense de Imprensa (AMI); Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB); Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (NEHIB); Biblioteca Nacional (FBN); entre outros. Do ponto de vista da recorrência de pesquisadores em todas as edições nacionais dos Congressos da ALCAR, mapeamos, ainda, as instituições que mais se fizeram representar nesses oito anos de funcionamento da Rede (Anexo I). Mais uma vez observamos o predomínio dos pesquisadores da Região Sudeste, seguidos dos da Região Sul, em decorrência, sobretudo, da supremacia das pesquisas pósgraduadas nessas duas regiões. Considerações Finais Deixamos para as últimas linhas desse texto algumas reflexões sobre o que, no nosso entendimento, podem ser consideradas carências nos estudos envolvendo a dimensão histórica dos meios de comunicação e as ações que a ALCAR pode desenvolver no sentido de avançar essas reflexões. Em que pese o crescimento expressivo das pesquisas, dos evidentes avanços teóricos e metodológicos, observa-se ainda a carência de reflexões conceituais mais globais sobre períodos, processos, meios de comunicação. Com isso, a pesquisa apresenta-se, ainda, de forma fragmentada, o que impede, em certa medida, maior complexificação das análises. É, portanto, necessária a implantação de ações no sentido de construir Núcleos Regionais fortes que, de maneira integrada, promovam pesquisas também integradas sob temáticas pouco exploradas do ponto de vista das análises conceituais. A regionalização das ações da ALCAR, a constituição de núcleos de pesquisas e a realização de pesquisas temáticas, com a participação de todas as regiões do país são algumas das ações não apenas para solidificar a Associação, mas, sobretudo, os estudos históricos sobre a mídia no Brasil. A primeira pesquisa desta natureza, sobre as rádios de 21 regiões metropolitanas brasileiras foi realizada pelo GT de Rádio. A segunda – A imprensa antes da Impressão – será realizada a partir do início de 2011, sob a coordenação geral da Diretoria Científica da ALCAR.
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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Há também uma necessidade premente de dar maior visibilidade às pesquisas que vêm sendo realizadas, seja através de ações pontuais (divulgação através do site da Rede, reimplementação do Jornal da ALCAR, etc.), ou mais duradouras (dinamização do site, criação de revista científica on-line, produção de livros temáticos, tal como já faz, por exemplo, o GT de Publicidade e Propaganda que já editou três livros dessa natureza). A contigüidade com outros campos de saberes – notadamente a história – o que leva a uma natural aproximação com pesquisadores desta área das Ciências Humanos, por outro nos obriga a sedimentar nossos referenciais teóricos e metodológicos de análise, para que possamos ter reconhecido o nosso lugar de pesquisadores históricos da mídia, não abandonando a idéia de que a troca de conhecimento entre os dois campos é fundamental. Nesse sentido, a participação freqüente e sistemática de pesquisadores oriundos da história tem enriquecido as discussões nos grupos. Assim, no nosso entendimento, torna-se fundamental a institucionalização dessas parcerias, fazendo do campo de estudos de história da mídia um lugar de participação plural, com a necessária multiplicidade de olhares, sem que percamos a liderança do processo. Detentora do universo do chamado tempo presente para as suas análises, que se realizam em concomitância com a vida que se desenvolve em processos cada vez mais complexos, nos quais as ações de comunicação assumem protagonismo inconteste, os estudos de Comunicação não valorizam, de maneira geral, a dimensão histórica. Há, portanto, que mostrar na própria área e para os nossos próprios pares as razões da urgência da inclusão da dimensão histórica em nossas análises. Não por mera questão de construção de um lugar de fala reconhecido e validado, mas por acreditar que o entendimento de processos que se faz em concomitância com o tempo da vida só pode ser compreendido numa dimensão que é, sempre, histórica.

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Anexo I Instituições mais presentes nas oito edições dos Congressos da ALCAR Região Norte UFT UNIRON Região Centro Oeste UFMT UNB Região Nordeste UFRN UFPI UFMA UFC UNIFOR UFPE UFPB FIB CEFET-AL UEPB AMI UEMA UNICEUMA Fac. São Luiz Região Sudeste MG/ES/RJ/SP UNI-BH UFMG UFJF UFV UFSJ UVV FAESA UFOP UNIPAC .................. UFRJ UFF UNICARIOCA UERJ UNIRIO UNESA UCAM FSD .................. UNIMAR UNIFIAM UMESP MACKENZIE UNISANTA UNITAU FACASPER UNIP UNESP PUCCampinas IHGSP USP CIEESP ABERJE Região Sul PR/SC/RGS UEL UNICENTRO UEPG UFSC UTP ........................ FEEVALE UFRGS PUCRS UFSM UCS São Borja UPF UNIVATES UCPel

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História da mídia no Brasil, percurso de uma década

Anexo II Data/Local 1-5/06/2003 Rio de Janeiro 15-17/04/2004 Florianópolis Congresso I Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho Instituições Promotoras ABI, ABL, IHGB, ABECOM, INTERCOM, UERJ e UniCarioca Cátedra FENAJ - UFSC de Jornalismo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina UFSC Centro Universitário FEEVALE AMI, UNICEUMA, UFMA, Faculdade São Luis Faculdade Casper Líbero, Centro de Integração EmpresaEscola Universidade Federal Fluminense (UFF) Universidade de Fortaleza (UNIFOR)

1-5/06/2005 Novo Hamburgo, RS 30/05-2/06/2006 São Luís – MA 30/05-2/06/2007 São Paulo – SP

III Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho IV Encontro Nacional de História da Mídia V Congresso Nacional de História da Mídia

13-16/05/2008 Niterói – RJ 19-21/08/2009

VI Congresso Nacional de História da Mídia VII Encontro Nacional de História da Mídia

ENCONTROS REGIONAIS – 2010

13-14/05/2010 Natal, Rio Grande do Norte 12-13/05/2010 Porto Alegre, RGS 17-18/06/2010 Guarapuava, PR 9-10/07/2010 Nova Friburgo, RJ 29-30/04/2010 São Paulo, SP 7-8/10/2010 Palmas, TO

I Encontro de História da Mídia Regional NE III Encontro de História da Mídia RS I Encontro de História da Mídia PR/SC I Encontro de História da Mídia do RJ I Encontro de História da Mídia do Sudeste I Encontro de História da Mídia do Norte

Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Pontifícia Universidade Católica do RGS – PUCRS UNICENTRO Faculdade Santa Dorotéia, Nova Friburgo Universidade Mackenzie Universidade Federal de Tocantins - UFT

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CAPÍTULO 12 Politicom: o marketing político entre a pesquisa acadêmica e o mercado profissional
Adolpho Queiroz1

Introdução A redemocratização do Brasil, nos anos 1980, ensejou ao campo profissional e acadêmico, no entorno da atividade político-comunicacional, um desenvolvimento muito grande. Se antes dos dias mais difíceis da ditadura militar, era impossível conjugar possibilidades de pesquisa e atividade profissional no campo, depois dela, cresceu em interesse, proporção e competência, o espaço brasileiro de observação, análise e inovação no campo da propaganda política. A abertura política da década de 1980 trouxe consigo uma vida pluripartidária, liberdade de imprensa e expressão em todos os veículos, bem como a necessidade de profissionalização neste campo de atuação, fazendo surgir uma série de espaços para a pesquisa, para o desenvolvimento profissional de jornalistas, publicitários, relações públicas, cineastas, escritores e planejadores, que trouxeram para a interface comunicação e política um nível de interesse acentuado. Além de exportador de mão de obra qualificada para a realização de campanhas eleitorais na América Latina, Europa e África, o Brasil possui hoje um repertório acadêmico de excelente nível, por conta de suas ações no ensino de graduação e nas pesquisas de pós-graduação. Vários cursos de Publicidade e Propaganda – hoje são mais de 600 espalhados pelo país – possuem em sua grade curricular, a disciplina “Propaganda Política”, onde seus alunos aprendem a realizar campanhas eleitorais completas (briefing, planejamento, história do candidato e da cidade onde ocorrerá o pleito, pesquisas de intenção de voto, agenda política e mercadológica de uma campanha, legislação eleitoral, criação dos brindes gráficos de uma campanha, produção de programas de rádio e televisão, planejamento de mídia e dos custos de uma campanha). Tais ações são desenvolvidas para o lançamento de campanhas municipais de prefeitos e vereadores, tem apresentações públicas realizadas diante dos próprios candidatos/clientes, que avaliam todos os aspectos técnicos e estéticos das peças e discutem a viabilidade financeira dos exercícios propostos. Em outras instituições, é comum os estudantes de graduação debruçarem-se
1 É pós-doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e atualmente é o presidente da Politicom.

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Politicom: o marketing político entre a pesquisa acadêmica e o mercado profissional

sobre outras metodologias, como a análise de discurso e de conteúdo, para avaliar de que forma jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, e sites na internet, cobrem o dia-a-dia de um candidato, reforçando nestes estudantes, noções de cidadania, de compromisso com a ética profissional e, sobretudo, fazendo uma crítica à realidade política e comunicacional das cidades, Estados e do próprio País. A realização no Brasil de eleições a cada dois anos – para presidente da República, senadores, deputados federais e deputados estaduais, num momento e, de prefeitos e vereadores, no período seguinte, fez com que emergissem os estudos de caso, análises sobre o comportamento dos candidatos diante da imprensa, às críticas aos abusos do poder econômico e os exageros das alianças políticas com a finalidade de ampliação da presença do candidato no horário eleitoral de propaganda gratuita; a divulgação de pesquisas eleitorais, pelos institutos apropriados ou por prestadores de serviços locais/regionais, deu ao campo, uma tensão saudável para o exercício da comunicação como ferramenta necessária e estratégica aos processos eleitorais. Simultaneamente ao crescimento do ensino das noções do marketing político em cursos de graduação em Publicidade e Propaganda pelo País, há um avanço das contribuições oferecidas pelos programas de pós-graduação em Comunicação, especialmente no desenvolvimento de teses, dissertações e artigos científicos sobre esta temática. Vale registrar os espaços para a difusão científica sobre comunicação e política em diversas entidades científicas e profissionais, que realizam encontros anuais pelo País, caso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) que através do núcleo de pesquisa sobre Publicidade e Propaganda, tem aberto nos congressos anuais, espaços para apresentação de comunicações científicas sobre o tema. Em 2005, em conjunto com alunos do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Bernardo (UMESP), foi debatido um texto, construído coletivamente, mostrando “De Quintino Bocayuva a Duda Mendonça: breve história dos marqueteiros políticos no Brasil republicano”, posteriormente transformado em artigo para a revista Comunicação e Política, editada em 2006 pela Universidade Fernando Pessoa, da cidade do Porto, em Portugal. A entidade co-irmã da Intercom na América Latina, a Associação LatinoAmericana de Pesquisadores de Comunicação (ALAIC), nos seus encontros bianuais, também tem aberto espaços para este diálogo em dois GTs: em Publicidade e Propaganda e no de Comunicação Política. A Intercom, em colaboração com a Cátedra UNESCO de Comunicação
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para o Desenvolvimento Regional, também apoiou a publicação do livro “Marketing político brasileiro, ensino pesquisa e mídia”, em 2005, onde foram reunidos parte dos artigos apresentados com os alunos nos congressos anuais da entidade. Outro espaço de destaque foi o convite para participar do colóquio binacional, Brasil/Itália, do qual resultou o texto “Reflexos fascistas na propaganda política do Brasil”2. Já na Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, a COMPOS, o GT de Comunicação e Política, tem-se mostrado, nos últimos anos, um dos mais ativos e produtivos, com uma contribuição enriquecedora aos estudos sobre comunicação e política. É possível encontrá-los agrupados no site da entidade. Outro grupo que tem se mostrado simpático à temática é a Rede Alfredo de Carvalho, Rede (ALCAR), montada com o objetivo de estudar a história da imprensa no Brasil, que completou dois séculos em 2008. Esta Rede formou também o seu Grupo de Publicidade e Propaganda, que além de publicar livros nos últimos congressos, abriu espaços expressivos para comunicações sobre propaganda política3. Tem havido espaço também para o diálogo entre comunicadores, sociólogos, historiadores e pesquisadores cujo interesse comum tem sido a política e a comunicação, nos congressos nacionais da Associação Nacional de História (ANPUH) e na Associação Nacional de Ciências Sociais (ANPOCS), em cujos congressos se reservam espaços para o diálogo, debates e produção no campo. Há que se registrar também as contribuições de duas entidades paradigmáticas. Uma é o Instituto de Pesquisas Eleitorais da Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro (IUPERJ), que além de contribuições fundamentais para a formação deste campo, possui o maior acervo de fitas de vídeo sobre programas eleitorais veiculados pela televisão brasileira. Outra instituição deste porte é a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro que concentra microfilmados ou preservada originalmente, grande coleções de jornais impressos e revistas do país, onde tem sido possível realizar inventários e pesquisas temáticas sobre comunicação e política.
2 Entre os artigos apresentados nos congressos da INTERCOM e reunidos naquele volume estão “O pittagate num jornal de causas”; “Mário Covas e o imaginário de um povo na mídia”; “Roseane Sarney, que era de vídeo e se quebrou”; “As eleições de 2002 nas entrelinhas das revistas”. 3 Os livros são “Propaganda, história e modernidade”, Editora Degaspari: 2005, Piracicaba, onde é possível encontrar os artigos “Floriano Peixoto, consolidador da República no Brasil”, de Bruna Vieira Guimarães; “Marketing político de Lula em 2002: os posicionamentos das revistas Cartacapital, Veja e Primeira Leitura”, de Ingrid Gomes e “Propaganda política no Estado Novo”, de Patrícia Polacow e Mauricio Romanini, todos os alunos do programa de pós-graduação em Comunicação da UMESP. O outro livro referência é “Sotaques regionais da propaganda”, Editora Arte e Ciência, São Paulo: 2006, onde é possível encontrar o artigo “A censura na propaganda ideológica nos impressos no início da república”, de Bruna Vieira Guimarães, sendo os dois livros organizados pelo autor deste artigo.

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Foi criada em dezembro de 2006, a Associação Nacional dos Pesquisadores de Comunicação e Política (Compolítica), em evento realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos grandes centros de pesquisa sobre esta temática no País. Trata-se da reunião de um grupo seleto integrado pelos mais experientes pesquisadores instalados nas principais universidades públicas e privadas do Brasil, que também passará a realizar congressos anuais com o objetivo de discutir as várias dimensões da comunicação política no rádio, televisão, jornais e revistas, Internet entre outras temáticas. Em todos estes segmentos a interface ensino/pesquisa/difusão tem sido muito acentuada, mostrando o vigor e o interesse pela temática. Além destes segmentos acadêmicos ressalte-se ainda a existência da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), entidade que reúne profissionais e pesquisadores, que trabalham no dia–a-dia de campanhas eleitorais por todo o País. Fundada em 1991, a entidade reúne centenas de profissionais das áreas de planejamento, pesquisa, produtoras de vídeo e áudio, que atuam em campanhas eleitorais, bem como dão suporte aos políticos e partidos, desde vereadores ao Presidente da República. A entidade realiza periodicamente o seu Congresso Brasileiro de Estratégias Eleitorais e Marketing Político e têm estimulado a publicação, entre seus associados, de livros, boletins eletrônicos e informações visando à troca de experiências sobre resultados obtidos a partir das técnicas tradicionais e contemporâneas de comunicação política. Vale ainda registrar o interesse do jornal especializado em propaganda, “Meio e Mensagem”, no assunto. O periódico realizou em abril de 2002 no Brasil um evento denominado “Maxivoto, Encontro Internacional de Marketing Político”, que reuniu na ocasião especialistas ligados ao mercado, como representantes do Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) ou publicitários famosos como Duda Mendonça e Nizan Guanaes e estrelas do marketing político norte-americano como Joe Napolitan, um dos pioneiros da área e Dick Morris, consultor de marketing político do ex-presidente americano Bill Clinton. As contribuições da UMESP/UNIMEP à pesquisa sobre propaganda política Desde 1998, quando obtive meu titulo de doutor em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, venho conduzindo um projeto de pesquisa que procura recuperar a memória das eleições presidenciais brasileiras, na ótica da propaganda política. De lá pra cá, já foram defendidas 29 dissertações de mestrado, que mostraram de que forma os ex-presidentes brasileiros venceram suas eleições e quais as estratégias comunicacionais utilizadas. São estudos que reúnem as contribuições de pesquisadores de diversas universidades brasileiras sobre Deodoro da Fonseca, Getulio Vargas (o primeiro e o segundo governos), Jânio Quadros, Juscelino Kubitsheck, Fernando Collor, Itamar Franco, Tancredo
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Neves, Prudente de Morais, José Sarney, Rodrigues Alves, Campos Sales, Castelo Branco, Emilio Médici, Ernesto Geisel,Costa e Silva,Fernando Henrique Cardoso,Washington Luiz,Nilo Peçanha,Artur Bernardes, e dois estudos específicos sobre a vitória de Luis Inácio Lula da Silva, uma vendo a cobertura jornalística através da Folha de S.Paulo e outra sobre as revistas CartaCapital, Veja e Primeira Leitura. Também foram defendidas três teses de doutorado sobre o tema: uma fazendo um inventário das opções metodológicas utilizadas nas dissertações de mestrado, mostrando de que forma os candidatos se articularam com jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão; outra mostrando a evolução do conceito de marketing político na televisão brasileira; e uma terceira, mostrando de que forma um ex-prefeito de cidade do interior conseguiu reverter um processo eleitoral desfavorável ao seu candidato indicado, através do canal de TV local. Há ainda em processo, estudos sobre as campanhas eleitorais de João Goulart, João Baptista Figueiredo e o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Outra tese de doutorado em construção discutirá o impacto da urna eletrônica no processo comunicacional sobre eleições majoritárias e proporcionais no Brasil. Em outra vertente, a UMESP, em parceria com a Cátedra UNESCO de Comunicação para o desenvolvimento regional já organizou no seu próprio campus e nos campi de outras instituições de ensino do Estado de São Paulo, o Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais em Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) que tem sido igualmente um espaço de difusão e troca de idéias sobre o tema. Nas suas nove edições – três na UMESP, uma no Instituto Superior de Ciências Aplicadas, de Limeira/SP, outro nas Faculdades Claretianas de Rio Claro/SP, na Faculdade Anhanguera de Santa Bárbara d Oeste, na Faculdade Prudente de Moraes em Itu, na Universidade de Taubaté e em 2010, no Centro Universitário Salesiano de Americana, Unisal reuniu especialistas de renome como Gaudêncio Torquato, Carlos Eduardo Lins da Silva, Venício Artur de Lima, Graça Caldas, Carlos Manhanelli, Marcelo Melo, Cristiane Salles, Letícia Costa, Antonio Hohlfeldt (presidente da Intercom), Sonia Virginia Moreira, Luciana Panke, Paulo Roberto Figueira Leal, além dos deputados Francisco Sardeli (PV), Célia Leão (PSDB) e Roberto 0Felício(PT) e do diretor para assuntos da América Latina da Fundação Konrad Adenauer, Peter Beherens. Ao lado deles, pesquisadores de diversas universidades brasileiras apresentaram suas comunicações, bem como estudantes de graduação puderam apresentar trabalhos de pesquisa aplicada, com resultados concretos de campanhas eleitorais construídas especialmente para esta finalidade. Em 2007 o evento aconteceu na Faculdade Anhangüera, em Santa Bárbara d´Oeste/SP e além de palestras, conferências, lançamentos de livros e revistas especializadas, o evento possui Grupos de Trabalho sobre propaganda política em jornais,
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rádios, televisão, internet, pesquisa aplicada de campanhas eleitorais e teoria da propaganda política, reunindo centenas de participantes. Outra contribuição expressiva da nossa Universidade se dá através da Revista Comunicação e Sociedade ou por intermédio das publicações editadas pela Cátedra UNESCO. Nas edições de números 30 e 33, a revista publicou ensaios e dossiês contendo farta referenciação bibliográfica produzida no Brasil pelos comunicadores políticos, bem como montou um dossiê sobre o tema telepolítica, mostrando o impacto da televisão nos processos eleitorais brasileiros, reunindo autores como Albino Rubim e Neusa Gomes. Periodicamente a revista tem-se aberto a contribuições sobre comunicação e política em suas páginas. Já através da Cátedra UNESCO são editados anualmente os seus Anuários UNESCO/UMESP de comunicação para o desenvolvimento regional, que tem feito a divulgação do Politicom, bem como aberto espaços para divulgação de textos de reflexão sobre o campo. O livro “Pensamento Comunicacional Latino-Americano, da pesquisa denúncia ao pragmatismo utópico”, organizado por José Marques de Melo e Maria Cristina Gobbi, foram abertos espaços para a difusão de conceitos sobre a evolução do marketing político no continente latino-americano, entre outras idéias sobre o campo. Dos vários desdobramentos do projeto que ora coordeno na UMESP, vale, por fim, um registro importante, que foi a transformação—através de um conjunto de artigos – no livro “Na arena do marketing político, ideologia e propaganda nas campanhas presidenciais brasileiras”, editado pela Summus Editorial, uma das mais prestigiadas editoras ligadas ao campo da comunicação no Brasil. Nele são divulgadas parcelas das pesquisas que – com apoio dos meus orientandos – ajudei a concluir4. Outra contribuição importante são os ebooks lançados a partir destes congressos, côo “A propaganda política no Brasil contemporâneo”, em 2008; ”Marketing internacional, a propaganda ideológica diante da globalização”, em 2009 e “Eleições brasileiras, estratégias de propaganda política 2010, que superam 25 mil acessos”. Além da produção científica em livros, artigos, espaços na Internet, CD’s dos eventos, todas estas discussões recentes sobre o papel do marketing político na consolidação da democracia do Brasil tem sido difundidas através de artigos e entrevistas para jornais, emissoras de rádio e de televisão do país, sites e blogs especializados, fazendo com que aumente o interesse pelo
4 Entre os artigos, destaco “Prudente de Morais: a visão singular como sustentáculo do fenômeno coletivo”, de Mauricio Romanini; “Getúlio Vargas: a propaganda ideológica na construção do líder e do mito”, de Karla Amaral; “Peixe vivo em água fria: Juscelino e a propaganda política”, de João Carlos Picolin; “Jânio Quadros: as representações metafóricas da vassoura no imaginário popular”, de Eduardo Grossi; “Tancredo Neves: muda Brasil! Volta a sorrir meu Brasil!”, de Hebe Gonçalves; “José Sarney: você conhece o mapa da mina”, de Paulo César D´Elboux; “Fernando Collor de Melo: encenações rituais do espetáculo político”, de Ricardo Costa; “Itamar Franco: imagem política nas conotações do fusca”, de Aparecida Amorim Cavalcanti.

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assunto. Por fim, com estas informações e referências, é possível constatar que o marketing político e a propaganda política deixaram de ser utilizados de forma amadora no Brasil após a ditadura militar e têm experimentado um crescimento muito grande no campo profissional e no âmbito da pesquisa científica. Setores que se retro alimentam em períodos eleitorais, que refletem sobre causas/efeitos na presença da mídia nos períodos eleitorais e, especialmente, que têm sido levadas as salas de aula, presenciais ou virtuais, do Brasil contemporâneo, para que seja compreendido teoricamente, aplicado metodologicamente e difundido como ciência. E mais do que isso, estas técnicas e procedimentos têm sido repassadas também – a partir de sua dimensão teórica – a outras organizações que delas se utilizam, como eleições que ocorrem periodicamente no País em sindicatos, ONGs, associações de classe, clubes sociais/esportivos/recreativos. A propaganda política no Brasil no século XX O século XX iniciou-se no Brasil com o impacto da industrialização da imprensa. A proclamação da República e o estímulo às atividades jornalísticas, fizeram florescer o debate político-partidário. A partidarização da imprensa naqueles tempos é uma das marcas notáveis do processo. O surgimento das revistas de sátira e humor, como “Careta”, “Fon” e “O Malho”, fizeram com que as figuras políticas de presidentes da república, governadores, prefeitos passassem a receber um olhar severo e crítico. O humor político foi, portanto, uma expressão para popularizar e estigmatizar os representantes do poder público. Já o surgimento do rádio, em 1922, com uma inauguração festiva feita no Rio de Janeiro, tendo como principal orador o Presidente Epitácio Pessoa, deu ao veículo, uma amplitude maior de comunicação para as ações políticas. Essa percepção se confirmou a partir da sua utilização durante a II Guerra Mundial, de forma intensa pelo então Ministro da Propaganda do governo dirigido pelos nazistas, Joseph Goebbels. Sob este tipo de influências, o então Presidente brasileiro, Getúlio Vargas, criou o D.I.P., Departamento de Imprensa e Propaganda, com o duplo objetivo de controlar as emissoras de rádios, os jornais e revistas através da censura e da distribuição de verbas públicas para a construção de uma imagem pública que lhe fosse favorável. Nos anos 40, Getúlio não tinha receio de ser caricaturado pelos cartunistas e chargistas da época; orgulhava-se de ser chamado pelo apelido de “Gegê”, era freqüentador habitual de programas de auditório promovidos pelas emissoras de
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rádio e ficou feliz da vida quando lhe compuseram uma marchinha de carnaval, cuja estrofe dizia o seguinte: “Bota o retrato do velho / bota no mesmo lugar/ o retrato do velhinho,/ faz a gente trabalhar. “ Nos anos 50, Juscelino Kubistcheck de Oliveira, consagrou sua ação a partir da criação de um slogan imbatível, construído pelas letras iniciais do seu próprio nome. “JK” foi uma poderosa marca de comunicação no período em que ele governou o Brasil, construiu Brasília, programou a primeira fábrica de automóveis e adotou como marca a frase “fazer o Brasil crescer 50 anos em 5.” Depois dele, Jânio Quadros, com seu estilo peculiar de fazer propaganda política, vestindo-se como um ferroviário ou como molambento, criou outra marca histórica da propaganda política do Brasil, utilizando-se de uma vassoura como símbolo para eliminar a corrupção no cenário político nacional. É daquele período o jingle “varre, varre, vassourinha...” Os anos 60 encontraram o Brasil mergulhado numa profunda crise institucional, com reflexos no desenvolvimento das ações político-partidárias, a criação e manutenção de um regime de exceção sob governos militares , fechamento do Congresso Nacional, perseguições a militantes políticos, entre outras ações nefastas. É daquele período o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, cunhado pela equipe do general Emílio Médici, como um convite às oposições para que se calassem, condenando-as ao exílio. A apreensão do tablóide humorístico “O Pasquim”, que satirizou o slogan, incluindo a ele o complemento, “Brasil, ame-o ou deixe-o... e o último que sair, apague a luz”, é apenas uma das marcas da censura e da repressão política no período, quando os jornais publicavam receitas de bolo, poemas de Camões ou fotos de flores e borboletas quando tinham suas matérias censuradas. Os anos 70 pegaram o Brasil numa luta intensa pela sua redemocratização, com movimentos de fortalecimento da sociedade civil, cujos slogans mais marcantes foram o da “anistia, ampla, geral e irrestrita”, ou a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte. Nos anos 80, do ponto de vista da propaganda política, o movimento pelas eleições “Diretas-Já”, foi sem dúvida o momento mais expressivo. Um movimento nacional que empolgou a sociedade civil e promoveu grandes concentrações populares. As “Diretas-Já” transformaram-se em slogan, jingles, outdoors, cartazes e uma parafernália de peças que saíram dos grandes, médios e
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pequenos centros urbanos para que o Brasil pusesse fim ao período da ditadura militar. É do final dos anos 80 também o episódio da realização das primeiras eleições livres e diretas para a escolha de um Presidente da República. Sob o slogan “Caçador de marajás”, o governador de Alagoas, Fernando Collor de Melo enfrentou as primeiras eleições sob um movimento cultural diferenciado da propaganda política. Foi a primeira eleição que teve todos os requintes da moderna comunicação de massa, envolvendo simultaneamente jornais, rádios, televisões, outdoors, revistas e mídias promocionais e alternativas distribuídas fartamente. Seu maior opositor, o ex-metalurgico Lula, do PT, criou o slogan “sem medo de ser feliz”. Os anos 90 surgem com o “impeachment” de Collor, a ascensão de Itamar Franco ao poder, com a ridicularização do seu “topete” como marca registrada dos chargistas contra sua postura de indeciso, ao lado de um provincianismo marcante, que legaram poucos momentos criativos em termos de propaganda política. Seu sucessor, o presidente Fernando Henrique Cardoso participou dos embates políticos e da segunda eleição presidencial, tendo como símbolo a mão espalmada, mostrando nos cinco dedos, suas prioridades políticas no campo da educação, saúde, transportes, habitação e agricultura. Cardoso venceu as eleições no primeiro turno, contra o slogan igualmente marcante de Lula, com o “Lulalá”. Na seqüência foram oito anos do governo Lula, inspirados sob a propaganda eleitoral e pós eleitoral de Duda Mendonça e João Santana, que coordena também em 2010 a campanha da presidenciável Dilma Roussef pelo Partido dos Trabalhadores. A par destes acontecimentos nacionais, que nos ajudam a refletir sobre o impacto da comunicação política, o restabelecimento dos procedimentos democráticos e a realização de eleições livres e diretas em todos os níveis, de vereador a Presidente da República, possibilitaram a presença de profissionais de comunicação especializados em propaganda política. Trata-se de um campo em busca de aperfeiçoamento de ações e de aprofundamento qualitativo. Uma legislação em contínua mudança tem impedido um planejamento mais adequado na área. A cada novo ano, uma novidade. A novidade de 97 é a apresentação de forma diluída pelas emissoras de rádio e televisão, em forma de “clips”, das propostas dos partidos. O que virá pela frente? Os desafios nos levam a acreditar na pesquisa de novas formas de utilização destes espaços como perspectiva inexorável para a consolidação deste campo de ação. A construção da imagem pública de um ator político deve passar pelo crivo inexorável da ética. Afinal, ao fabricarmos Collors
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e Pittas—com dois eles e dois tês—nós publicitários e jornalistas especializados estamos prestando um desserviço à democracia. Também nos anos 90 iniciei, com apoio da Universidade Metodista de Piracicaba, um projeto de disseminação de conteúdos sobre propaganda política nos cursos de graduação. Entre os resultados a partir da realização de quatro projetos de pesquisa, no ano de 1997, feitos por professores do Curso de comunicação, em Cooperação com o Núcleo de Pesquisa e Documentação Regional, e professores do Departamento de Ciências sociais e Geo-História da própria Universidade Metodista de Piracicaba, representa outra referência importante para o trabalho de sistematização das ações da propaganda política na cidade de Piracicaba. Com linhas de pesquisa voltadas para acontecimentos local-regionais no campo da Comunicação, temos procurado contribuir para o desenvolvimento do repertório sobre assuntos relativos à comunicação política. A realização destes quatro estudos resgatou parcelas das eleições municipais de Piracicaba no período que compreende os anos 1968/92 e publicadas em 1996 em livro intitulado “Imprensa e eleições em Piracicaba”, contribuiu igualmente para o aperfeiçoamento deste trabalho. O livro contém basicamente textos que enfocam as eleições municipais e as eleições gerais daquele período. E noutra vertente, faz a análise do discurso do principal periódico da cidade, o “jornal de Piracicaba”, mostrando a evolução da cobertura jornalística que desenvolveu nos últimos anos, passando pelo período de maior presença de seu diretor-proprietário, que atuava de forma crítica e opinativa sobre os pleitos eleitorais e evoluindo para uma fase em que a opinião deu lugar ao noticiário, reportagens, pesquisas, maior volume de fotos, etc. Este livro, em seus vários capítulos, virou igualmente obra de referência para o curso de “Propaganda Política”. Percebe-se que a disciplina “Propaganda Política”, ao invés de trabalhar como elemento de desagregação e desinteresse dos estudantes, tem feito esforços significativos no sentido de consolidar-se como peça importante para a ampliação dos conhecimentos entre os estudantes do Curso de Publicidade e Propaganda. À falta de uma melhor sistematização das suas ações, estas iniciativas começam a lhe dar um perfil mais sugestivo. E o debate, sempre presente entre os estudantes e professores da área, pode ampliar o grau de compreensão sobre o seu papel no conjunto das disciplinas e atividades do curso. Bem como despertar novas vocações e talentos para virem a trabalhar, de forma conseqüente, em projetos de campanhas políticas e eleitorais no futuro.

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Politicom, a regionalidade na propaganda política Desde que foi estabelecida a Cátedra UNESCO de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, junto ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Metodista de São Paulo, em 1998, a meta dos seus executores foi a de dar visibilidade para temas contemporâneos, construindo repertórios adequados para interpretá-los. A partir de 29 de agosto de 2002, no anfiteatro do Edifício Capa, do Programa de Pós- Graduação em Comunicação da UMESP, começou a ser escrita uma nova história na área de Comunicação. Primeiramente com o nome de Seminários Brasileiros de Marketing Político e depois renomeado em 2006, com as comemorações dos 10 anos da Cátedra UNESCO em São Bernardo, transformado em Conferência Brasileira de Marketing Político. E finalmente em 2008 determinado como sendo o Congresso Brasileiro de Marketing Político. Com modéstia, naquele ano, o então reitor da Universidade, Davi Ferreira Barros, ao lado do diretor da Cátedra UNESCO, José Marques de Melo, abriram solenemente o encontro que percorreu três períodos do dia, entre palestras, apresentações de trabalho, culminando com uma conferência pronunciada pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva sobre a temática do marketing político e eleitoral. Entre alunos do mestrado e doutorado da Metodista, fixou-se o objetivo de dar prosseguimento ao evento no ano seguinte. Em 2003, ainda no mesmo auditório, tendo como convidado especial Gaudêncio Torquato, o II Politicom já recebeu uma estrutura organizacional mais adequada. Teve até cartaz e folder e uma programação rica apreciada igualmente por alunos de pós e de graduação da Metodista. Foi também em agosto de 2004 que o III Politicom realizou-se sob o patrocínio do Instituto Superior de Ciências Aplicadas, de Limeira/SP, tendo como coordenadora local. Adriana Pessate Azolino e como conferencista Graça Caldas, do programa de pós-graduação em comunicação da Metodista. Naquela ocasião, a primeira vez que o evento saia de São Bernardo, optou-se também por agregar às palestras, a apresentação de trabalhos em GTs, Grupos de trabalho que receberam contribuições da propaganda política no rádio,televisão, Internet, jornais, revistas, bem como um especial, tratando das campanhas políticas desenvolvidas pelos alunos dos cursos de publicidade das várias instituições de ensino superior presentes. O IV Politicom realizou-se também em agosto de 2005, nas Faculdades Claretianas de Rio Claro/SP, sob a coordenação local de João Carlos Picolin e colocou o evento na modernidade, construindo o seu primeiro site de divulgação, feito especialmente pelos acadêmicos da agência escola de publicidade da instituição. O presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), Carlos Manhanelli fez então a conferência de abertura, mostrando
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um pouco da facetado mercado aos presentes. A comemoração dos dez anos de existência da Cátedra, realizada entre 9 a 11 de outubro de 2006, fez com que inúmeros eventos simultâneos fossem realizados, para comemorar a efeméride. Junto com o V Politicom, realizaram-se as etapas do Folkcom, ComSaúde, Regiocom, Unescom, Celacom, promovidos igualmente pela Cátedra. E o evento ganhou nova denominação, passando a chamar-se Conferência Brasileira de Marketing Político. Além disso, ganhou um tema central para as suas discussões. “Comunicação política na Internet” ficou sendo um marco importante no debate, que reuniu pela primeira vez pesquisadores de universidade públicas e privadas, como da Universidade Federal de Juiz de Fora/ MG, Universidade Federal de Tocantins/TO, Universidade Federal do Paraná, Universidade federal de São Carlos, entre outras. Pelo sexto ano consecutivo, foi realizado o Congresso Brasileiro de Marketing Político (Politicom), em outubro de 2007 no campus da Universidade Metodista de São Paulo, em comemoração aos dez anos de instalação da Cátedra Unesco/ UMESP. O evento recebeu 42 papers de diversas universidades brasileiras, que trataram de temáticas contemporâneas sobre comunicação e política, quer sob o viés mercadológico, ideológico ou sob a ótica dos estudos das linguagens. Durante dois dias, pesquisadores dividiram-se entre Grupos de Trabalho e apresentaram comunicações sobre propaganda política no rádio, na televisão, na Internet, nos jornais impressos e outdoors. Na mesma oportunidade, alunos de cursos de graduação de universidades paulistas, como as Faculdades Claretianas de Rio Claro ou do Instituto Superior de Ciências Aplicadas, de Limeira da própria Unisal e das Faculdades Anhanguera, de Santa Bárbara d´Oeste apresentaram trabalhos de conclusão de curso, versando sob o tem,a onde os estudantes foram estimulados a realizar campanhas eleitorais completas (planejamento estratégico e de mídia, criação, custos,etc.) que tem sido desenvolvidos nos cursos de publicidade daquelas instituições. Do Centro Universitário Barão de Mauá, de Ribeirão Preto, vieram estudos de linguagem sobre o comportamento da mídia nas eleições presidenciais de 2006. Análises de linguagem e discurso, apresentadas por professores de programas de comunicação das Universidades Federais do Paraná, de São Carlos e de Juiz de Fora, mostraram de que forma a imprensa brasileira vem evoluindo na cobertura das eleições brasileiras, quer no nível nacional, quer no municipal, através de estudos de caso contemporâneos. Da Universidade Federal de Palmas/Tocantins, um grupo de iniciação científica mostrou de que forma os outdoors e a Internet influíram nas eleições municipais da cidade no ano passado. As eleições presidenciais brasileiras de 2006 também ensejaram um criterioso estudo realizado pelos alunos do programa de pós-graduação em comunicação da UMESP, que inventariaram o comportamento da mídia em doze jornais
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regionais brasileiros: Correio Braziliense, Correio do Estado/Mato Grosso do Sul; Meio Norte/Teresina-PI e mais nove jornais do Estado de São Paulo, mostrando os espaços dados aos principais concorrentes das eleições presidenciais deste ano. Além de dar destaques a charges, caricaturas, títulos, fotografias, noticias, entrevistas, reportagens, cartas de leitores, entre outros gêneros jornalísticos. No espaço dedicado às conferências, várias personalidades e pesquisadores dividiram-se para avaliar os efeitos da Internet nos processos de comunicação política do Brasil e do exterior. Carlos Manhaneli, presidente da ABCOP, Associação Brasileira de Consultores Políticos, defendeu, por exemplo, que a Internet tem muito mais valor do ponto de vista administrativo e de gerenciamento de campanhas, como motivadora de adeptos e difusora rápida de informações, do que como instrumento de comunicação política. Para ele, o processo de difusão através da Internet ainda é mal feito pelos partidos políticos, admitindo que há muito ainda a ser feito para a consolidação deste veículo como fundamental para processos de comunicação eleitoral. Paulo D‘Elboux, mestre em comunicação pela UMESP e diretor das Faculdades Anhanguera, na mesma linha de Manhaneli, contou episódios sobre a força da Internet em campanhas eleitorais contemporâneas, mostrando que em sua cidade natal, Santa Bárbara d´oeste, a Internet funcionou como indutora de um voto de protesto nas eleições municipais de 2004, quando um catador de papel – de apelido Arruia –foi eleito como um dos vereadores mais votados da cidade, sem fazer campanha, apenas com o voto dos internautas da cidade. Débora Tavares doutora em comunicação pela UMESP e professora das Faculdades Prudente de Moraes, Itu, mostrou de que forma as relações política