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Representações Teatrais na IASD

Escrito por Eduardo André Vargas de Araujo

Apesar de bastante controverso, o uso de representações teatrais nos programas da Igreja


Adventista é amplamente aceito e estimulado tanto pelos líderes como pelos membros em geral.
Considerando desde as dramatizações mais elaboradas, como as “cantatas”, até as mais simples
representações dos Departamentos Infantis, o uso de recursos teatrais incorporou-se de tal forma
às nossas práticas que tornou-se difícil conceber um programa de Culto Jovem ou de nossos
acampamentos sem a utilização destes recursos.

Sendo este o contexto, este artigo propõe-se a fazer um exame do assunto de forma
detalhada, buscando compreender o pleno sentido das orientações de Ellen White sobre o
assunto.

Primeiramente, definimos o termo teatro. Segundo a Wikipédia, teatro “é uma arte em


que um ator, ou conjunto de atores, interpreta uma história ou atividades, com auxílio de
dramaturgos, diretores e técnicos, que têm como objetivo apresentar uma situação e despertar
sentimentos no público.”1

Portanto, para caracterizar uma atividade como teatral é necessário que um indivíduo ou
grupo de indivíduos desempenhem o papel de personagens em uma história (real ou fictícia) com
a finalidade de impressionar um público expectante. Examinando a Bíblia, não é possível
encontrar nenhum relato que sequer se assemelhe ao que hoje conhecemos como teatro. No
entanto, a origem do teatro remonta a muitos séculos antes de Cristo e já fazia parte da cultura de
alguns povos antigos quando o Novo Testamento foi escrito.

O apóstolo Paulo, ao orientar as primeiras igrejas cristãs, apresenta alguns elementos que
deveriam fazer parte do culto a Deus:

“Falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração, ao Senhor com hinos e
cânticos espirituais”. Efésios 5:19

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente


em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão,
em vosso coração”. Colossenses 3:16
1
Wikipédia Enciclopédia Livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro>. Acesso em 14 de abril de
2009.
2

Notadamente, as programações religiosas da primeira comunidade de crentes eram


marcadas pela simplicidade e humildade cristãs. Paralelamente ao cotidiano destes primeiros
cristãos, desenvolvia-se nas grandes cidades do vasto Império Romano uma grande variedade de
entretenimentos voltados à satisfação dos sentidos e das propensões carnais. A importância que o
teatro assumia neste contexto é testemunhada pela grande quantidade de obras dramáticas e
anfiteatros que sobreviveram à ação do tempo e ainda hoje falam um pouco da cultura e hábitos
daqueles povos pagãos.

Para elucidar um pouco mais a origem do teatro e sua vinculação com o paganismo
reproduzimos o seguinte texto, também extraído da Wikipédia:

Muito se discute a origem do teatro grego e, consequentemente, das tragédias.


Aristóteles, em sua Poética, apresenta três versões para o surgimento da tragédia. A
primeira versão argumenta que a tragédia, e o teatro, nasceram das celebrações e ritos a
Dionísio, o deus campestre do vinho. Em tais festividades, as pessoas bebiam vinho até
ficarem embriagadas, o que lhes permitia entrar em contato com o deus homenageado.
Homens fantasiados de bodes (em grego, tragos) encenavam o mito de Dionísio e da
dádiva dada por ele à humanidade: o vinho. Esta é a concepção mais aceita atualmente,
pois explica o significado de tragédia com o bode, presente nas celebrações dionisíacas.2

Vemos então que, na sua origem, o teatro funde-se com o culto idólatra e a todos os
outros males que homens sem o temor a Deus e entregues ao álcool poderiam inventar.

Com a difusão da cultura grega para outros povos, movimento denominado helenismo, o
teatro ganhou maior expressão, sendo inclusive adotado pelos romanos.

Apesar de ter sido totalmente baseado nos moldes gregos, o teatro romano criou suas
próprias inovações, com a pantomima, em que apenas um ator representava todos os
papéis, com a utilização de máscara para cada personagem interpretado, sendo o ator
acompanhado por músicos e por coro. Com o advento do Cristianismo, o teatro não
encontrou apoio de patrocinadores, sendo considerado pagão. Desta forma, as
representações teatrais foram totalmente extintas.3

Quando Paulo escreveu o seguinte texto aos romanos ele devia ter em mente os perigos
espirituais que assediavam os crentes em Roma, incluindo as práticas teatrais:

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente, para que possam experimentar qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
Rom 12:2

2
Wikipédia Enciclopédia Livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_teatro>.
Acesso em 14 de abril de 2009.
3
LOURO, Fabiana. A Origem e Evolução do Teatro. Disponível em :
<http://liriah.teatro.vilabol.uol.com.br/historia/aorigemeevolucaodoteatro.htm>. Acesso em 14 de abril de 2009.
3

Imaginem que os apóstolos tivessem apresentado as boas-novas da salvação em Cristo


por meio de representações teatrais. A mensagem poderia ter corrido o mundo com muita
rapidez, alcançando praticamente todos os públicos, e trazido para a Igreja muitos conversos. No
entanto, todas as práticas teatrais foram rejeitadas, tanto pelos apóstolos como pelos pais da
igreja. Muito provavelmente, os primeiros cristão viam uma profunda incompatibilidade entre a
religião de Cristo e os métodos teatrais, baseados na mentira e falsidade. Por isso, o teatro caiu
no esquecimento por cerca de mil anos!

O teatro só reaparece a partir do século X e, “paradoxalmente, foi a própria Igreja que


"ressuscitou" o teatro, na era da Idade Média, através de representações da história de Cristo” 4.
Posteriormente, o conteúdo bíblico destas representações foi abandonado, cedendo espaço para
as representações teatrais seculares.

A iniciativa da Igreja Católica no renascimento do teatro não pode ser entendida como
uma legitimação das encenações de caráter religioso. Muito pelo contrário, o “teatro religioso” é
apenas mais uma das muitas invenções da Igreja Católica em que o santo funde-se ao profano.
Outros exemplos são a guarda do domingo e a adoração de imagens.

Há um texto de Ellen White que demonstra a maneira deliberada com que Satanás usa o
teatro para alcançar os seus objetivos:

“Muitos dos divertimentos populares no mundo hoje, mesmo entre aqueles que
pretendem ser cristãos, propendem para os mesmos fins que os dos gentios de outrora. Poucos
há, na verdade entre eles, que Satanás não torne responsáveis pela destruição de almas. Por meio
do teatro ele tem operado durante séculos para excitar a paixão e glorificar o vício... Em todo o
ajuntamento onde é alimentado o orgulho e satisfeito o apetite, onde a pessoa é levada a
esquecer-se de Deus e perder de vista interesses eternos, está Satanás atando suas correntes em
redor da alma.”5

No entanto, este texto fala do teatro como forma de entretenimento e sem relação com o
seu uso em contextos religiosos, objeto do nosso estudo. Cabe então a pergunta: seria a prática
teatral um elemento em si mesmo neutro, podendo, apesar de sua origem pagã, ser usada
corretamente para pregar o evangelho?

4
Teatro, A Origem. Disponível em : http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/teatro/origem>.
Acesso em 27 de abril de 2009.
5
Patriarcas e Profetas, p. 459.
4

Examinemos o exemplo de Jesus:

“A obra feita por Cristo em nosso mundo, eis o que deve constituir nosso exemplo, no
que respeita à exibição. Temos que nos manter tão afastados do que seja teatral e extraordinário,
como Cristo se manteve em Sua obra. Sensação não é religião...”6

“Não tenho conseguido encontrar nenhum caso em que Ele tenha ensinado os seus
discípulos a empenharem-se na diversão do futebol ou em jogos de competição, a fim de fazerem
exercício físico, ou em representações teatrais; e, no entanto, Cristo era nosso modelo em todas
as coisas.”7

Nota-se claramente que não havia nenhum aspecto teatral no ministério de Cristo.

Ao defender o uso de representações teatrais (sob a expressão “dramatização”) no


cotidiano da igreja, o Pr. Alberto Ronald Timm, em seu artigo “O Uso de Dramatizações na
Igreja”8, argumenta que “o Antigo e o Novo Testamento estão permeados de dramatizações
simbólicas. Especialmente o Batismo e a Santa Ceia são dramatizações do plano de salvação,
instituídas pelo próprio Cristo como parte da liturgia da igreja.” Em outro ponto, o mesmo autor
escreve: “Por outro lado, várias citações de Ellen White desaprovam o uso de qualquer tipo de
exibicionismo teatral. Estariam essas citações condenadas indistintamente todo tipo de
dramatização? Eu creio que não, pois, se assim fosse, Teríamos que eliminar até mesmo o
Batismo e a Santa Ceia de nossas igrejas.”

Desta forma, o Pr. Timm pretende que cerimonias religiosas como o Batismo e Santa
Ceia são “dramatizações”. E, considerando que estas “dramatizações” foram instituídas na igreja
cristã pelo exemplo de Cristo, outras formas de expressão dramáticas poderiam ser permitidas
desde que atendidos alguns critérios.

Como vimos anteriormente, nos textos em que Ellen White se refere ao ministério de
Cristo, não é possível interpretar o Batismo e a Santa Ceia como uma dramatização (no sentido
teatral da palavra), pois não havia nada de teatral na obra de Jesus e de seus discípulos. Logo o
argumento não é válido para permitir o uso atual de encenações e a preocupação de que,
proibindo-se o uso de representações teatrais na igreja, deve-se eliminar o Batismo e a Santa
Ceia se esvanece.

6
Evangelismo, p. 396.
7
Fundamentos da Educação Cristã, p. 229.
8
TIMM, Alberto Ronald. O Uso de Dramatizações da Igreja. Revista Adventista, Tatuí, setembro de 1996.
5

Aliás, a abordagem adotada pelo Pr. Timm na análise do assunto, quando coloca sob a
expressão “dramatização” todos os rituais cerimoniais do Antigo e Novo Testamentos e também
as manifestações teatrais modernas, não contribui para o estudo do assunto dada a grande
variedade de significados atribuídos ao termo.

De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o termo “dramatizar”, de


onde deriva a palavra “dramatização” pode possuir os seguintes significados:

1. dar forma de drama 1.1 converter (romance, conto, poema etc.) em peça
teatral; adaptar para o palco e, p. ext., para o cinema e televisão 1.2 transportar
para a linguagem dramática por meio de diálogos e/ou ação cênica, com fins
didáticos ou buscando maior expressividade, um texto discursivo qualquer;
2. tornar (fato situação, estado, sofrimento etc.) interessante e comovente como
um drama, apresentando-o sob aspecto trágico ou dramático, ou evocando-o
com cores mais vivas do que as que tinha ou tem na realidade;
3. exagerar na representação ou evocação de fatos, situações, estados,
sofrimentos etc. ou conceder importância exagerada a algo;
4. atribuir-se modos dramáticos (ger. com fins determinados).

De uma leitura superficial destes conceitos depreende-se que nada ou muito pouco está
relacionado com as experiências bíblicas. E, se aprofundarmos o exame, perceberemos que o
propósito da dramatização é revestir uma situação com novas cores, não necessariamente as
reais, ou seja, uma falsidade.

O simples fato de um evento ser cheio de emoção e expressão (como a morte de Cristo na
cruz) não o transforma numa dramatização no sentido dicionarizado do termo, ao contrário do
que sugere o Pr. Timm em seu artigo. Por uma cerimônia como a Santa Ceia ser “dramática”, no
sentido de surpreendente, tocante ou notável, não podemos pensar nela como uma dramatização
no sentido de representação teatral.

Desta forma, os variados ritos celebrados pelo corpo de crentes em Cristo, como o
Batismo, a Santa Ceia e o Lava-Pés, não constituem-se numa autorização bíblica para o uso de
representações teatrais nas atividades da igreja, por constituírem-se manifestações bastante
distintas e com origens diametralmente opostas: as primeiras, no claro “assim diz o Senhor”, e as
últimas, no culto idolátrico ao deus do vinho.

Um outro argumento, evocado pelos que defendem o uso de representações teatrais na


igreja, aponta para ocasiões em que o próprio Deus valeu-se de ilustrações para simbolizar ou
representar uma verdade espiritual. Realmente, a Bíblia está repleta de símbolos e recursos áudio
visuais, tanto no Antigo como no Novo Testamento. É o caso da serpente de bronze erguida por
Moisés no deserto, do serviço no Santuário, das visões dadas aos profetas, especialmente as
6

apocalípticas. O próprio Jesus procurou transpor as profundas realidades eternas para situações
mais próximas dos seus ouvintes ao proferir suas parábolas, todas esplendidamente ricas em
ilustrações e comparações de todo o tipo.

Contudo, há uma grande distância entre o uso de recursos áudio visuais e a representação
teatral. A encenação até pode ser entendida como um recurso áudio visual, porém muito mais
elaborado do que o mero uso de figuras e símbolos. Ela envolve a participação de atores que se
fazem passar por aquilo que não são na realidade.

Este ponto pode ser bem esclarecido citando o que Ellen White escreve sobre o assunto:

“Mediante o emprego de cartazes, símbolos e ilustrações de várias espécies, o ministro


pode fazer a verdade destacar-se clara e distintamente. Isso é um auxílio, e está em harmonia
com a palavra de Deus.” Obreiros Evangélicos, 355-356.

O segundo mandamento proíbe o culto das imagens; Deus mesmo, porém, empregou
figuras e símbolos para apresentar aos Seus profetas lições que queria que eles
transmitissem ao povo, e que assim seriam compreendidas do que se fossem dadas de
outro modo. Ele apelou para o entendimento através do sentido da vista. A história
profética apresentada em Daniel e João em símbolos, e estes deviam ser representados
claramente em tábuas, para que os que lessem os compreendessem.9

Considerando atentamente estes textos é possível traçar uma linha bem clara do que Deus
permite e aprova no uso de recursos pictóricos. Ellen White aprova o uso de cartazes, símbolos,
ilustrações e figuras na pregação da mensagem. Neste sentido, está de acordo com a orientação
divina o uso de flanelógrafos em nossas Escolas Sabatinas infantis, de gravuras em nossos livros,
de desenhos da estátua do sonho de Nabucodonozor e muitos outros recursos com os quais
estamos bastante familiarizados. Tratam-se de recursos predominantemente estáticos em que a
participação humana limita-se a explicar uma história ou realidade conforme encontra-se na
Bíblia. Não há aqui nenhuma autorização para encenações onde há representação de papéis e
falas de personagens.

O objetivo do uso de recursos como diagramas e desenhos é tornar um pouco mais


compreensível a mensagem transmitida. Porém, o uso de pessoas representando uma história,
bíblica ou não, afeta esta compreensão na medida em que desvia a atenção do expectante da
mensagem para o instrumento humano. Notem o que Ellen White escreve:

“Cumpre guardarmo-nos, pois satanás está determinado, se possível, a entremear com os


serviços religiosos a sua má influência. Não haja exibição teatral, pois isto não ajuda a fortalecer
9
Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 319-320.
7

na palavra de Deus. Antes distrairá a atenção para o instrumento humano.”10

“Foi-me mostrado que nos defrontaremos com todas as espécies de experiências e que os
homens procurarão introduzir representações estranhas na obra de Deus. Já nos encontramos
com tais coisas em muitos lugares. No início de meu trabalho, foi-me dada a mensagem de que
todas as representações teatrais, em conexão com a pregação da verdade presente fossem
desaconselhadas e proibidas.”11

Quando Ellen White usa a expressão “foi-me dada a mensagem” o seu propósito é
enfatizar a origem divina daquela orientação. Portanto, aqui está o próprio Deus, por intermédio
do humano instrumento, ensinando sua igreja.

Neste ponto alguns argumentam que muitas das reprovações de Ellen White contra
práticas teatrais referem-se ao modo como alguns pregadores de sua época comportavam-se no
púlpito. Realmente esta é uma preocupação presente nos seus escritos como podemos ver no
seguinte texto:

Os pastores não têm de modo algum permissão de se conduzir no púlpito como os


atores, assumindo atitudes e expressões com fins de mero efeito. Eles não são atores,
mas mestres da verdade. Gestos menos dignos, impetuosos, não emprestam nenhum
vigor à verdade exposta; ao contrário, desagradam a homens e mulheres que julgam
calmamente e vêem as coisas no seu verdadeiro aspecto.12

Embora uma “tendência teatral” seja por vezes associada ao comportamento de


pregadores excêntricos, em muitos outros textos não se observa uma relação direta. Há exemplos
em que a proibição de atividades teatrais nos escritos de Ellen White reveste-se de um caráter
absoluto. Eis alguns exemplos:

Tenho uma mensagem para os que estão com a responsabilidade de nossa obra. Não
animeis homens que devem empenhar-se neste trabalho a pensar que devam proclamar a
solene e sagrada mensagem em estilo teatral. Nem um jota ou um til de qualquer
coisa teatral deve aparecer em nossa obra. A causa de Deus deve ter molde sagrado e
celestial. Fazei com que tudo quanto esteja em conexão com a apresentação da
mensagem para este tempo tenha o sinete divino. Não permitais qualquer coisa de
natureza teatral, pois prejudicaria a santidade da obra...13

“Nesta época de extravagância e ostentação, em que os homens julgam necessário fazer


aparato para conseguir êxito, os escolhidos mensageiros de Deus devem mostrar a falácia de
gastar meios desnecessariamente, para fazer efeito. Ao trabalharem com simplicidade, humildade

10
Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 23-24.
11
Evangelismo, p. 137.
12
Obreiros Evangélicos, p. 172.
13
Evangelismo, p. 137 (grifo nosso).
8

e gentil dignidade, evitando tudo que seja de natureza teatral, sua obra fará duradoura
impressão para o bem.”14

“Homens e mulheres judiciosos podem ver que as representações teatrais não estão em
harmonia com a solene mensagem que tendes a apresentar.”15

“A obra nas grandes cidades deve ser feita segundo a ordem de cristo, não segundo os
métodos teatrais. Não é uma realização teatral que glorifica a Deus, mas a apresentação da
verdade no amor de Cristo.”16

“Nosso bom êxito dependerá de realizarmos a obra com a simplicidade com que Cristo a
realizou, sem nenhuma demonstração teatral.”17

Com base numa análise racional destes textos, concluímos que Ellen White condena todo
e qualquer tipo de manifestação teatral no âmbito da igreja. Nem seria necessário fazer esta
afirmação, não fosse a postura complacente de alguns, pois Ellen White é bastante clara em sua
posição.

Algumas vezes as reprovações às práticas teatrais aparecem contextualizadas pois


referem-se a situações específicas. É esse o caso quando Ellen White condena os gastos
dispendiosos na preparação de representações teatrais ou quando crítica o baixo nível da arte
teatral de sua época. Alguns, sem considerar o conjunto dos escritos de Ellen White, tomam estes
textos por base e advogam que é permitida a utilização de encenações na igreja desde que não se
incorra nesses males.

O Pr. Timm estabelece alguns critérios para a prática de representações teatrais na igreja:

“As dramatizações devem: (1) evitar o elemento jocoso e vulgar; (2) evitar o uso de
fantoches (animais e árvores que falam, etc.); (3) ser bíblica e historicamente leais aos fatos,
como estes realmente ocorrem; e acima de tudo, (4) exaltar a Deus e a Sua palavra (e não os
apresentadores da programação).”18

Apesar de essas orientações estarem revestidas de boas intenções e de um aspecto


bastante prático, elas não encontram respaldo na Bíblia ou Espírito de Profecia. Ellen White não

14
Evangelismo, p. 66.
15
Evangelismo, p. 127.
16
Obreiros Evangélicos, p. 356.
17
Evangelismo, p. 140.
18
TIMM, Alberto Ronald. O Uso de Dramatizações da Igreja. Revista Adventista, Tatuí, setembro de 1996.
9

estabeleceu nenhum tipo de condicionante, nenhuma regra que, se observada, tornaria a prática
teatral aceitável na igreja. Neste ponto podemos afirmar seguramente que os seus escritos são
inflexíveis, de outro modo seriam contraditórios.

Considerando a totalidade dos textos de Ellen White não é possível encontrar


absolutamente nenhuma frase ou expressão que, sequer tangencialmente, endosse ou aconselhe o
uso de representações teatrais na igreja. Muito pelo contrário, o conjunto da obra de Ellen White
aponta para uma firme condenação a qualquer atividade teatral relacionada à obra da Igreja. Ela
deixa esta questão bem clara ao usar expressões absolutas como “nem um jota ou um til de
qualquer coisa teatral deve aparecer em nossa obra”, “não permitais qualquer coisa de natureza
teatral”, “sem nenhuma demonstração teatral” etc., não deixando margem alguma para
interpretações permissivas.

E se Ellen White desejasse preservar qualquer coisa de natureza teatral para ser usada na
pregação de nossas mensagens, ela mesma poderia ter feito ressalvas e estabelecido exceções. Se
esta fosse sua intenção, não lhe faltariam oportunidades para manifestar-se em seus mais de 70
anos de ministério público e dezenas de milhares de páginas de conselhos e instruções para a
igreja. Porém em nenhum momento isto ocorreu, o que mais uma vez testemunha da coerência e
integridade de seus escritos.

Em artigo denominado “Representações Dramáticas em Instituições Adventistas”, o


então Secretário das Publicações Ellen G. White, Arthur White, assim expressa o seu
entendimento sobre a questão:

Um exame desses conselhos não revela uma condenação peremptória de todos os


programas dramatizados. Em outras palavras, Ellen White não condena um programa só
pelo fato de ser dramatizado. A esse respeito os conselhos relacionados com
apresentações dramatizadas são muito parecidos com os conselhos sobre esportes, e
curiosamente, os dois são tratados juntos em duas de suas declarações de precaução. A
Sra. White não condena o “simples exercício de jogar bola” (AH 499), mas ao enumerar
os princípios envolvidos, ela salientou os graves perigos que normalmente acompanham
as atividades esportivas.19

A comparação entre as instruções sobre representações teatrais e jogos com bola,


defendida por Arthur White, não nos parece razoável. O próprio Arhur White apresenta,
involuntariamente creio, a chave para o entendimento deste assunto quando cita o texto que se
encontra à página 499 do livro “O Lar Adventista”: “Não condeno o simples exercício de brincar
com uma bola; mas isto, mesmo em sua simplicidade, pode ser levado ao excesso”. Outra
19
WHITE, Arthur. Representações Dramáticas em Instituições Adventistas. Centro de Pesquisas Ellen G.
White. Disponível em: <http://www.centrowhite.org.br/diversos.htm>. Acesso em 14 de abril de 2009.
10

orientação de Ellen White sobre jogos com bola é mais dura: “Não penso, segundo a maneira em
que o caso me foi apresentado, que vossos jogos de bola sejam conduzidos de modo que o
registro dos estudantes, na estima dAquele que pesa as ações, seja da espécie que traga
recompensa aos participantes.”20

Assim, reunindo-se todos os textos que falam sobre jogos com bola é possível
compreender claramente que Ellen White não assume uma postura radical sobre o assunto, visto
que ela própria estabelece condições para o exercício da prática esportiva, como, por exemplo,
não cometer excessos no jogar bola. Ela afirma categoricamente que “não condena o simples
exercício de brincar com uma bola”. No entanto, não existe em seus escritos nada semelhante a
respeito das práticas teatrais. Não é possível encontrar uma afirmação de Ellen White parecida
com “não condeno a simples encenação de uma história bíblica por crianças da Escola Sabatina”.
E afirmações dessa natureza não podem ser encontradas porque nunca foram escritas.

Além disso, o tema das representações teatrais aparece nos textos de Ellen White numa
frequência muito maior do que o dos jogos com bola e sempre num tom negativo, que ora critica,
ora desaconselha e ora proíbe as atividades teatrais de qualquer natureza. Portanto, não há base
nos escritos de Ellen White para colocar no mesmo nível o conjunto de conselhos sobre
representações teatrais (composto por uma grande variedade de textos) e o conjunto de
instruções sobre práticas esportivas (poucos textos).

A própria natureza das atividades desaconselha qualquer tipo de comparação. Na


brincadeira com bola temos uma atividade exclusivamente recreativa, secular e de caráter
privado. As representações teatrais na igreja, contudo, possuem uma natureza diversa, ou seja,
religiosa e pública. Nos conselhos sobre a recreação cristã, Ellen White está disciplinando um
aspecto do estilo de vida do cristão. Mas, ao escrever sobre representações teatrais em conexão
com a pregação do evangelho, ela aborda a forma como apresentamos as últimas e mais solenes
mensagens de advertência ao mundo.

Um último argumento levantado em favor das manifestações teatrais precisa ser também
analisado. Arthur White, no mesmo artigo, afirma que

nas primeiras horas de 26 de dezembro de 1888, Ellen G. White escreveu a respeito de


um programa de Natal em Battle Creek, apresentado pelas crianças da Escola Sabatina,
que ela havia assistido na noite anterior. Foi um programa de simples dramatização,
apresentando um farol, crianças usando disfarces, e havia discursos, poesias e músicas.
Ella M. White, a netinha de seis anos da Sra. White, estava no programa, vestida de

20
Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 323.
11

anjo. (...) É significativo que o conselho dado ao homem que organizou o programa
relaciona-se como as representações do programa poderiam ter exercido maior efeito,
mas não havia nenhuma condenação do programa por causa das cenas representadas.21

Posteriormente esse argumento foi reproduzido pelo Pr. Timm em seu artigo sobre o
assunto, já mencionado neste estudo.

Para compreendermos esse episódio faz-se necessário ler o inteiro teor da carta enviada
ao organizador do evento:

Prezado irmão;

Levantei-me às três horas da manhã para escrever-lhe algumas linhas. Gostei do


farol. A cena que exigiu um esforço tão esmerado poderia ter sido mais impressionante,
mas não foi tão vigorosa e apelativa como devia ter sido, já que custou tanto tempo e
trabalho para prepará-la. A parte desempenhada pelas crianças foi boa. A leitura foi
apropriada. Porém se nessa ocasião houvesse apresentado uma mensagem relacionada
com as crianças e professores da Escola Sabatina trabalhando diligentemente para a
salvação das almas das crianças sob seus cuidados, apresentando uma oferta mais
aceitável a Jesus, o dom de seus próprios corações, e se tivessem feito observações
breves e objetivas de como poderiam fazer isso, não teria sido associar-se com a obra
que estamos tentando fazer na igreja? Cada esforço deve estar em harmonia com o
único grande propósito, o de preparar corações, e que individualmente, alunos e
professores sejam como a luz de um candelabro que pode dar luz a todos que estão na
casa, que seria apresentar a notável idéia de um farol que guia as almas para que não
aconteça um naufrágio na fé. Pode me dizer qual foi a impressão marcante que os dois
poemas ensaiados pelas duas senhoras na plataforma tinham a ver com essa obra? Os
cantos eram semelhantes aos que esperaríamos ouvir em qualquer representação teatral,
porém não se podia distinguir uma só palavra. Certamente o barco sacudido pela
tempestade naufragaria contra as rochas, se não viesse mais luz do farol do que se via na
cena. Devo dizer que lamentei essas coisas, tão fora de lugar com relação ao momento
de reforma que estamos tratando de levar avante na igreja e em nossas instituições. Eu
teria me sentido melhor se não tivesse estado presente. Aquela era uma ocasião que
deveria ter sido aproveitada não somente pelas crianças da Escola Sabatina, mas
também deveriam ter sido pronunciadas palavras que aprofundassem a impressão da
necessidade de buscar o favor desse Salvador que os amou e se deu a si mesmo por elas.
Se tivessem sido cantados os preciosos hinos “Rocha Eterna, lá na cruz, seu olhar ficou
sem luz”, e “Ó Jesus meu bom pastor, quero em Ti me refugiar, ondas mil da angústia e
dor, querem vir a me tragar!” Que almas foram inspiradas com novo e vigoroso zelo
pelo Mestre com aquelas canções, cuja virtude estava nas diferentes interpretações do
cantor? Enquanto se realizam esmerados esforços para preparar estas representações,
estavam sendo realizadas reuniões de interesse mais profundo que requeriam a atenção e
solicitavam a presença de todos para que não se perdesse nada da mensagem que o
Mestre lhes havia enviado. Agora, este Natal passou para a eternidade com o peso do
seu registro e nós estamos ansiosos para ver os resultados. Terão uma mente mais
espiritual os que desempenharam uma parte? Aumentará seu senso de obrigação com o
nosso Pai Celestial, que enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo por um preço tão
infinito para salvar da ruína total o homem caído?

Despertará a mente para buscar a Deus pelo grande amor com que nos amou?
Confiamos que, agora que o Natal está no passado, aqueles que dedicaram tanto esforço,
manifestarão profundo zelo e um ardente e desinteressado esforço pela salvação dos
professores da Escola Sabatina e que estes, por sua vez, trabalharão pela salvação de
seus alunos e lhes darão instrução pessoal para que saibam o que devem fazer para ser

21
WHITE, Arthur. Representações Dramáticas em Instituições Adventistas. Centro de Pesquisas Ellen G.
White. Disponível em: <http://www.centrowhite.org.br/diversos.htm>. Acesso em 14 de abril de 2009.
12

salvos. Confiamos que acharão tempo para trabalhar com simplicidade e sinceridade
pelas almas que estão sob seus cuidados e que orarão com eles e por eles para que
possam dar a Jesus a preciosa oferta de suas próprias almas, que tornarão literalmente
verdadeiro o símbolo do farol nos raios de luz que brilham de seus próprios e poderosos
esforços realizados em nome de Jesus e feitos com amor; que eles mesmos se apegarão
aos raios de luz para difundi-la a outros e que não se conformarão com trabalho
superficial. Mostrai tanta habilidade e aptidão para ganhas almas para Jesus, como
haveis demonstrado no esforço esmerado que fizestes nesta ocasião que acaba de
ocorrer.

Apontai em vossos esforços, com alma e coração, para a Estrela que brilha no
céu deste mundo moralmente obscurecido, a Luz do mundo. Que vossa luz brilhe para
que as almas sacudidas pela tempestade possam fixar seus olhos nela e escapar das
rochas que estão escondidas sob a superfície das águas. As tentações estão à espera para
enganá-los; há almas oprimidas pela culpa prontas a afundar no desespero. Trabalhai
para salvá-los; apontai-lhes Jesus que tanto as ama e que deu Sua vida por elas...

A luz do mundo está brilhando sobre nós para que possamos absorver os raios
divinos e permitir que essa luz brilhe sobre outros em boas obras, para que muitas almas
glorifiquem ao Pai que está no céu. “Ele é longânimo para convosco, não querendo que
nenhum pereça senão que todos cheguem ao arrependimento”. (II Pedro 3:9)

Todos que desempenharam uma parte no programa da noite passada


trabalhariam tão zelosa e interessadamente para ser aprovados por Deus ao realizar sua
obra pelo Mestre, a fim de apresentar-se como obreiros inteligentes que não têm de que
se envergonhar? Oh, que os professores da Escola Sabatina estejam plenamente
imbuídos do espírito da mensagem para este tempo, e tenham sempre presente a
mensagem em todo o seu trabalho. Há almas para salvar e enquanto que no trabalho da
Escola Sabatina tenha havido muito formalismo e se tem dedicado muito do precioso
tempo à leitura de relatórios e registros, não tem havido tempo suficiente para que a luz
brilhe realmente com claros e potentes raios, da instrução tão necessária para a salvação
das crianças e dos jovens. Menos discursos elaborados, menos observações extensas, e
mais verdades simples; nem uma palavra com o fim de demonstrar conhecimentos, nem
apenas uma, pois a maior evidência de um verdadeiro conhecimento é a grande
simplicidade. Todos os que adquiriram conhecimento de Cristo o imitarão na maneira
de comunicar instruções.22

Esse episódio da experiência de Ellen White, dada a importância que lhe é atribuída no
contexto das representações teatrais, merece um exame mais cuidadoso.

Devemos reconhecer que não temos o relato preciso dos eventos que ocorreram naquela
noite. Além daquilo que podemos inferir da leitura direta da carta, não existe qualquer descrição
pormenorizada daquele programa, escrita por alguém presente ao evento. Na carta de Ellen
White existem menções vagas de elementos que compunham aquela celebração natalina.
Logicamente, como a carta foi escrita na madrugada imediata e dirigida ao elaborador do
programa, não havia necessidade de muitos detalhes. Portanto, os dados que chegaram até nós
permitem apenas compor um quadro fragmentado daquela apresentação. Sabemos que havia um
cenário composto de um farol, um barco e rochas, bem como uma simulação de tempestade.
Houve alguma espécie de leitura, declamação de poemas e cantos. Também sabemos que houve
a participação das crianças, não sendo possível precisar de que forma contribuíram para o
22
Carta 5, 1888.
13

programa. Afirmar que foi realizado algo além disso é ir além das palavras de Ellen White e um
exercício de imaginação.

Logo no início de sua carta, a Sra Ellen White deixa bem claro o tom de gravidade de
seus comentários a respeito do evento da noite anterior ao afirmar: “levantei-me às três horas da
manhã para escrever-lhe algumas linhas”. Neste e em outros textos semelhantes, o relato das
circunstâncias extraordinárias em que o texto foi escrito permite pressupor a importância do
assunto abordado logo em seguida. Continuando a carta, Ellen White elogia, de maneira bem
sucinta, três aspectos da programação. São eles:

1. O farol

2. A participação das crianças

3. A leitura

“Gostei do farol”. Como já vimos anteriormente, Ellen White apoiou o uso de


ilustrações e símbolos na apresentação de nossas verdades o que certamente justifica o uso do
“farol”. Suas palavras são precisas ao identificar o farol como um símbolo de uma realidade
espiritual: “Confiamos que acharão tempo para trabalhar com simplicidade e sinceridade pelas
almas que estão sob seus cuidados e que orarão com eles e por eles para que possam dar a Jesus
a preciosa oferta de suas próprias almas, que tornarão literalmente verdadeiro o símbolo do farol
nos raios de luz que brilham de seus próprios e poderosos esforços realizados em nome de Jesus
e feitos com amor; que eles mesmos se apegarão aos raios de luz para difundi-la a outros e que
não se conformarão com trabalho superficial.” (grifo nosso)

“A parte desempenhada pelas crianças foi boa”. Em nenhum outro lugar no texto
Ellen White explica no que consistiu essa participação das crianças. Se afirmarmos que elas
realizaram uma representação teatral, teremos que buscar apoio para isso em fontes não
inspiradas. Arthur White, ao abordar o assunto, afirma que naquela noite houve uma “simples
dramatização”23. Já demonstramos como o uso do termo “dramatização”, dado o amplo
significado que alguns lhe atribuem, traz mais dificuldades do que respostas para a questão do
uso de representação teatral na igreja. Contudo, se pensarmos em dramatização como a
representação de uma verdade espiritual através de figuras, objetos e símbolos devemos
concordar que houve realmente isto naquela noite, com base nas evidências textuais da carta de

23
No original inglês: “It was a simple dramatized program featuring a lighthouse, children wearing costumes, and
speeches, poems and songs.
14

Ellen White. Porém, não há sustentação alguma para afirmar que tenha havido qualquer
dramatização no sentido de representação teatral.

“A leitura foi apropriada”. Também não conhecemos a natureza do texto lido, nem a
relevância desta leitura no contexto geral do programa. É possível aceitar que falasse sobre o
menino Jesus, sobre a estrela que brilhou apontando o caminho para o Messias aos magos do
Oriente, ou outro assunto relacionado ao nascimento de Jesus, visto ser aquele um programa de
natal. Mas certamente Ellen White não se refere às “falas” de uma encenação, pois num teatro,
mesmo que infantil, os discursos não são lidos e sim recitados de memória.

É importante ressaltar que não há, em toda a carta, nenhum outro aspecto positivo além
destes três, abordados com a máxima brevidade. Estes pontos são apresentados logo no primeiro
parágrafo da carta. Depois disso, o tom é exclusivamente de repreensão. É natural que Ellen
White buscasse equilibrar o seu testemunho de reprovação com manifestações de apreço com o
propósito de suavizar a frustração daqueles que se envolveram de boa-fé na organização do
evento.

Contudo, ela é bastante incisiva ao fazer um balanço geral do programa: “eu teria me
sentido melhor se não tivesse estado presente”. Se o conselho de Ellen White pretendesse apenas
que as “representações do programa poderiam ter exercido maior efeito”, como afirma Arthur
White, ela não precisaria ter sido tão dura ao ponto de afirmar que preferiria não ter estado lá.
Como vimos, não há evidência alguma de que tenha havido uma encenação ou algo parecido. No
entanto, não podemos negar que tenha havido alguma coisa de natureza teatral. Mas é certo que,
independentemente do que realmente tenha acontecido naquela noite, isso desagradou muito
Ellen White.

Há uma frase que pode nos ajudar a compreender o motivo pelo qual Ellen White foi tão
firme em sua reprovação. Ela escreveu que “os cantos eram semelhantes aos que esperaríamos
ouvir em qualquer representação teatral, porém não se podia distinguir uma só palavra”24. Uma
leitura superficial deste texto pode dar a impressão de que Ellen White estava preocupada apenas
com que a letra das canções fosse compreensível. Porém, ao analisarmos detidamente alguns
aspectos do texto, vamos perceber que há muito mais além disso. No original inglês, a expressão
“representação teatral” é “theatrical performance”. Usando um mecanismo simples de pesquisa
nos escritos de Ellen White, tal como o White Estate disponibiliza em seu site 25, podemos
24
No original inglês: “The singing was after the order we would expect it to be in any theatrical performance, but
not one word to be distinguished”.
25
Excelente ferramenta de pesquisa nos textos de Ellen White em inglês está disponível no sítio eletrônico do
15

encontrar algumas dezenas de textos onde encontramos a mesma expressão. Contudo, não é
possível encontrar em seus escritos nenhuma menção de apoio a tal prática, dentro da igreja ou
fora dela. Muito pelo contrário, ela sempre reprova qualquer tipo de representação teatral26.
Inclusive afirma, sem qualquer tipo de atenuante, que as representações teatrais (theatrical
performance), juntamente com o jogo de cartas, apostas e corridas de cavalos, são uma invenção
de Satanás:

Satanás tem inventado muitas maneiras de malbaratar os


meios que Deus tem dado. O jogo de cartas, as apostas, o jogo de azar, as corridas de
cavalo e as representações teatrais, são todos de sua invenção, e ele tem induzido os
homens a levarem avante esses divertimentos com tanto zelo como se estivessem
adquirindo para si mesmos a preciosa dádiva da vida eterna. Despendem os homens
somas imensas em busca desses prazeres proibidos; e o resultado é que, as faculdades
que Deus lhes deu, que foram compradas pelo precioso sangue do Filho de Deus, são
degradadas e corrompidas. As faculdades físicas, morais e mentais que por Deus são
dadas aos homens, e que pertencem a Cristo, são zelosamente usadas em servir a
Satanás, e para desviar os homens da justiça e da santidade.27

É interessante notar que todas as demais “invenções satânicas” (jogo de cartas, apostas,
jogos de azar e corridas de cavalos) são repudiadas pela Igreja, mas as encenações são permitidas
e incentivadas. Só podemos concluir que o uso de representações teatrais na igreja é tão seguro,
para nossa vida espiritual, quanto jogarmos cartas usando um baralho com personagens bíblicos.

Portanto, se entendermos que, em sua afirmação sobre o canto do programa de natal,


Ellen White estava apenas comparando-o com o de alguma representação teatral aceitável,
encontraremos uma contradição em seus escritos, pois, se as representações teatrais são uma
invenção de satanás, não pode haver nenhuma delas que seja aceitável. Logicamente, se em
algum outro texto, Ellen White expressamente permitisse o uso destas representações, desde que
imbuídas de espírito religioso, não haveria problema algum. Mas, como já vimos, esta
autorização não existe.

O que Ellen White estava dizendo então? Não é preciso recorrer aos quase ilimitados
recursos da imaginação humana para encontrar uma resposta plausível. Ellen White afirmou que
os cantos daquele programa eram semelhantes aos cantos que se esperariam ouvir em uma
representação teatral comum. Aqui, em vez de aprovar o uso de representações teatrais, ela faz
uma severa crítica porque as músicas não foram mais elevadas e nobres do que as que são
White Estate: <http://www.egwtext.whiteestate.org>
26
Perceba a semelhança na construção gramatical no original inglês entre a frase da carta (“The singing was after
the order we would expect it to be in any theatrical performance, but not one word to be distinguished”) e um
texto onde Ellen White reprova as representações teatrais: “The work in the large cities is to be done after
Christ's order, not after the order of a theatrical performance. It is not a theatrical performance that glorifies
God, but the presentation of the truth in the love of Christ.” Testimonies, vol. 9, p. 142. (1909).
27
Conselhos Sobre Mordomia, p. 134-135 (grifo nosso).
16

apresentadas nas reprováveis representações teatrais. Este é o sentido mais coerente com a
totalidade dos escritos de Ellen White.

E o próprio texto traz outras evidências de que os organizadores daquele programa


erraram ao permitir que os cantos apresentados se aproximassem das músicas próprias de uma
apresentação teatral. Logo depois de falar do canto, ela escreve: “devo dizer que lamentei essas
coisas, tão fora de lugar com relação ao momento de reforma que estamos tratando de levar
avante na igreja e em nossas instituições. Eu teria me sentido melhor se não tivesse estado
presente.”

Notem que a motivação destas repreensões foi o fato de as canções apresentadas terem se
assemelhado às canções usadas em representações teatrais quaisquer. Ela está falando de uma
parte do programa: o canto, não de encenações propriamente ditas. Com base em todas as
passagens que estudamos até agora, qual teria sido a reação de Ellen White se tivesse assistido
uma representação teatral naquela noite? Certamente ela teria manifestado a sua reprovação com
ênfase ainda maior.

Esta passagem da carta deixa ainda mais evidente a sua reprovação ao estilo teatral com
que as canções foram apresentadas:

Se tivessem sido cantados os preciosos hinos “Rocha Eterna, lá na cruz, seu olhar ficou
sem luz”, e “Ó Jesus meu bom pastor, quero em Ti me refugiar, ondas mil da angústia e
dor, querem vir a me tragar!” Que almas foram inspiradas com novo e vigoroso zelo
pelo Mestre com aquelas canções, cuja virtude estava nas diferentes interpretações
do cantor? Enquanto se realizam esmerados esforços para preparar estas
representações, estavam sendo realizadas reuniões de interesse mais profundo que
requeriam a atenção e solicitavam a presença de todos para que não se perdesse nada da
mensagem que o Mestre lhes havia enviado. (grifo nosso)

Portanto, refutamos o argumento de Arthur White de que no conselho de Ellen White


“não havia nenhuma condenação do programa por causa das cenas representadas”. Se bem que
não havia propriamente uma “cena representada”, mas houve uma espécie de “canto
interpretado” que, devido ao seu estilo teatral, recebeu a devida reprimenda e condenação.
Tampouco merece prosperar a afirmação do Pr. Timm de que Ellen White “não criticou a
dramatização a que assistiu na Escola Sabatina de Battle Creek, em 1888” e “não condenou a
encenação do Natal de 1888, em Battle Creek, mas simplesmente expressou sua aprovação aos
pontos positivos dos programa e sua desaprovação aos pontos negativos.”28 Primeiramente,
porque é bastante improvável que tenha havido qualquer dramatização ou encenação no sentido
que conhecemos hoje na igreja. E, como vimos, ela reprovou quase tudo no programa, e com
28
TIMM, Alberto Ronald. O Uso de Dramatizações da Igreja. Revista Adventista, Tatuí, setembro de 1996.
17

grande veemência.

Diante destes argumentos, concluímos que, ao invés de favorecer o uso de representações


teatrais na igreja, a experiência do Natal de 1888 em Battle Creek manifesta a coerência com que
Ellen White reprovava tudo que fosse de natureza teatral. Como já estudamos, ela não definia
como “teatral” o uso de símbolos, gravuras e imagens na pregação do evangelho.

Procure entender a experiência do Natal de 1888 à luz do seguinte conselho de Ellen


White:

Formalidade, orgulho e amor à ostentação têm ocupado o


lugar de verdadeira piedade e humilde devoção. Veríamos diferente estado de coisas se
determinado número se consagrasse inteiramente a Deus, e então devotasse seus
talentos à obra da Escola Sabatina, avançando sempre em conhecimento, educando-se
para que pudessem instruir a outros quanto aos melhores métodos a serem empregados
na obra; mas não devem os obreiros procurar métodos pelos quais ofereçam um
espetáculo, consumindo tempo em representações teatrais e exibições de música, pois
isto não beneficia a ninguém. Não é bom ensaiar crianças para que façam discursos em
ocasiões especiais. Devem elas ser ganhas para Cristo, e em lugar de despender tempo,
dinheiro e esforço para uma encenação, que todo esforço seja feito a fim de preparar os
molhos para a colheita.29

Aqui está claro que Ellen White se opunha ao uso de representações teatrais,
especialmente se relacionadas com a Escola Sabatina e apresentadas por crianças.

Mas, mesmo que os defensores do uso das representações teatrais na igreja não tenham a
disposição de aceitar o peso destes argumentos, de forma alguma poderiam apontar a
apresentação de natal de 1888 como evidência em favor de suas ideias, pois não há evidências
seguras da natureza exata do programa.

Excluída esta apresentação de natal da argumentação, ainda resta o todo coerente e


inconfundível dos escritos de Ellen White que, do início ao fim do seu ministério, rejeita tudo o
que seja de natureza teatral em conexão com nossa obra de pregar o evangelho.

Se focarmos exclusivamente a questão do uso ou não de representações teatrais na igreja,


corremos o risco de perder de vista o que realmente está em jogo. A discussão vai muito além da
simples escolha dos métodos ou estratégias na pregação do evangelho. Afeta a nossa identidade e
tudo aquilo que nos caracteriza como povo de Deus, incluindo nossa santidade e fidelidade.

Ellen White assim escreve:

O Senhor escolheu para Si aquele que é piedoso; essa


consagração a Deus e a separação do mundo é clara e positivamente ordenada em

29
Fundamentos da Educação Cristã, p. 253.
18

ambos os Testamentos. Há um muro de separação que o Senhor mesmo estabeleceu


entre as coisas do mundo e as coisas que Ele escolheu do mundo e santificou para Si. A
vocação e o caráter do povo de Deus são peculiares, suas perspectivas são peculiares, e
essas peculiaridades os distinguem de todos os outros povos. Todo o povo de Deus na
Terra é um corpo, desde o princípio até o fim do tempo. Ele tem uma Cabeça que dirige
e governa o corpo. A mesma imposição feita ao antigo Israel, pesa agora sobre o povo
de Deus – serem separados do mundo. O grande Líder da igreja não mudou.30

Muitos outros texto sobre a separação do mundo poderiam ser aqui reproduzidos, mas
cremos que este é suficiente para os objetivos deste artigo.

Ellen White fala de “um muro de separação que o Senhor mesmo estabeleceu entre as
coisas do mundo e as coisas que Ele escolheu do mundo e santificou para Si”. Em todas as
referências de Ellen White a respeito de práticas teatrais, ela as condena. Então, de que lado do
muro se encontram as representações teatrais, no pensamento de Ellen White? Logicamente
junto com as demais coisas imundas como apostas e jogos de cartas. Se houvesse um único texto
onde Ellen White expressamente aconselhasse o uso de representações teatrais, mesmo que de
modo restrito, essa prática poderia ser considerada como “uma coisa que Deus escolheu do
mundo e santificou para Si”. Porém, esse texto não existe.

Então, surge a pergunta: como a Igreja pode transitar de um ao outro extremo? Como as
representações teatrais passaram a fazer parte de nossos programas e cultos? A resposta não é
simples e exige uma pesquisa acurada de nossa história denominal recente, o que foge ao escopo
do presente estudo.

Porém, sabemos que as práticas teatrais na igreja continuaram sendo rejeitadas mesmo
vários anos após a morte de Ellen White. O pastor Francis McLellan Wilcox (1865-1951),
renomado administrador e editor da Review and Herald por 33 anos, assim escreveu em 1945:

“Métodos mundanos, tais como exibições dramáticas, peças religiosas e espetáculos tem
sido empregados em algumas de nossas igrejas e instituições. Tudo isto está errado.”31

Estas palavras foram escritas mais de 30 anos após a morte de Ellen White como parte de
um editorial onde o Pr. Wilcox chama a igreja a um reavivamento e reforma. Ali também são
apontados outros desvios como a indiferença em relação à reforma de saúde. Note-se que o Pr.
Wilcox foi contemporâneo de Ellen White e desfrutava de sua confiança, tendo sido apontado

30
Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 283.
31
WILCOX, F. M. Revival and Reformation – Part 1. Review and Herald, Takoma Park, v. 122, nº 42, 18 de
outubro de 1945.
19

em seu testamento como um dos depositários originais do Patrimônio Literário Ellen G. White.

Porém, em algum momento de nossa história, num processo de conformismo com o


mundo e suas práticas, o uso de representações teatrais começou a fazer parte de nossos
programas religiosos. Talvez curvando-se à conveniência de tais instrumentos, tal prática não foi
de pronto rechaçada. Lamentavelmente, hoje

grupos de dramatização têm participado frequentemente em vários programas de TV


mantidos pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, ao redor do mundo. Elencos especiais
de dramatização foram necessários também para a produção de filmes e/ou
videocassetes (...). Dramatizações fazem parte ainda da vida da grande maioria dos
internatos mantidos pela denominação. Elas são usadas também em nível de igrejas
locais, tanto em programas alusivos ao Dia das Mães e Natal, como nos departamentos
infantis da Escola Sabatina.32

Não se pode desprezar a influência que o artigo, publicado em 1963, de Arthur White,
neto da Sra Ellen White e então Secretário das Publicações Ellen White, teve na afirmação das
representações teatrais como prática aceitável no seio da igreja. No entanto, em razão disto e
outras coisas, a Igreja Adventista do Sétimo Dia cumpre seu papel profético de Laodiceia.

Ao falar sobre a condição da igreja nestes últimos dias Ellen White escreve:

Vivemos num importante, soleníssimo tempo da história


terrestre. Achamo-nos entre os perigos dos últimos dias. Importantes e tremendos
acontecimentos se acham diante de nós. Quão necessário é que todos os que temem a
Deus e amam Sua lei, se humilhem diante dEle, e se aflijam e pranteiem, e confessem os
pecados que têm separado Deus de Seu povo! O que deve suscitar o maior alarme, é que
não sentimos nem compreendemos nossa condição, nosso baixo estado, e satisfazemo-
nos de permanecer como estamos. Devemos refugiar-nos na Palavra de Deus e na
oração, buscando individual e fervorosamente ao Senhor, para que O possamos achar.
Cumpre-nos fazer disto nossa primeira ocupação.33

Infelizmente, alguns pensarão que o uso de representações teatrais em nossos cultos não é
um assunto de grande importância. Porém essa postura já estava predita: não compreendemos
nossa condição espiritual. Achamos que estamos no favor de Deus, quando na realidade estamos
no Seu desagrado, quase a ponto de sermos vomitados de Sua boca.

E o que devemos fazer?

Precisa haver um reavivamento e uma reforma, sob a


ministração do Espírito Santo. Reavivamento e reforma são duas coisas diversas.
Reavivamento significa renovamento da vida espiritual, um avivamento das faculdades
da mente e do coração, uma ressurreição da morte espiritual. Reforma significa uma
reorganização, uma mudança nas ideias e teorias, hábitos e práticas. A reforma não
trará o bom fruto da justiça a menos que seja ligada com o reavivamento do Espírito.
Reavivamento e reforma devem efetuar a obra que lhes é designada, e no realizá-la,
32
TIMM, Alberto Ronald. O Uso de Dramatizações da Igreja. Revista Adventista, Tatuí, setembro de 1996.
33
Testemunhos para a Igreja, vol. 3, p. 53.
20

precisam fundir-se.34

Se nossas “ideias e teorias, hábitos e práticas” fossem aceitáveis diante de Deus jamais
precisariam ser reformadas.

Cabe, então, aos adventistas modernos uma mudança de práticas e hábitos na forma como
apresentamos a mensagem do evangelho, especialmente naquilo que diz respeito às
apresentações teatrais.

34
Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 128 (grifo nosso).