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Esse Jesus chamado Cristo

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Título original: Jésus le Christ

Dieu se donne un visage

INTRODUÇÃO

Tradução de: Manuel de Aguiar

Fotocomposição: SOTECLA. LDA.

ISBN 972-30-0447-X (edição original: ISBN 2-227-30137-6 Paris. França)

«Não nos cansamos de repetir frases feitas sobre Deus feito homem. Temos, porém, de reconhecer que ainda não tomámos perfeita consciência do que há de inaudi to na aproximação da palavra Deus à palavra homem, a propósito de Jesus de Nazaré». (1) Estas linhas exprimem bem qual o espírito das dili gências que nós faremos ao longo desta obra. Com efeito, quereríamos que aparecesse, ao longo destas páginas, o que efectivamente há de inaudito na fé cristã na apro ximação destas duas palavras Deus e homem. Que Deus Se tenha feito homem, que Ele tenha tomado cafne hu piana eis o grande problema dos nossos contemporâ neos. Pelo que não é possível, hoje em dia, prender-se a fórmulas já gastas. No mundo em que nós vivemos, que perdeu as suas raízes cristãs, a fé dos cristãos em Jesus de Nazaré é, se não aberrante, ao menos vazia. Pelo que é necessário encontrar-lhe o conteúdo. Afé dos cristãos pode resumir-se no subtítulo desta pequena obra: emJesus de Nazaré, «Deus assume um rosto». Para ii1Er exprimir o que tem de inesperado iimaial afirmação, podem fazer-se testes, aliás fáceis e úteis: basta considerar a forma como se fala de Jesus,

© Éditions du Centurion, 1988, Paris

©

1990. EDIÇÕES PAULISTAS Rua Dom Pedro de Cristo, 10

-

Tel. 80 52 73 1700 LISBOA

(1) Claude Geffré. L’historicité de Dieu ou le vrai scandale de la foi’, Catéchèse, n.° 76, Julho de 1979, p. 31.

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quer à nossa volta, no falar espontâneo das pessoas, quer nas próprias expressões mais elaboradas da literatura e do cinema. O problema que se poderia pôr, a pergunta que se poderia fazer já foi feita por Cristo: «quem di zem os homens que Eu sou?» (Mc 8,27). Os estudos e os inquéritos, susceptíveis de dar resposta contemporâ nea a esta pergunta estão aí e são muitos. Contentemo -nos com indicar algumas pistas. Quem dizem os homens que Eu sou? Há muito pouco tempo, surgiu uma nova colecção «Jesus depois de Jesus» (2), cuja ambição é delinear, em vinte volumes, os retratos de Jesus através da história. Ao longo dos vinte séculos que nos separam do nasci mento de Jesus multiplicaram-se os retratos. Assim e para não falar senão do século XIX surgiu-nos um Jesus romântico, um Jesus revolucionário e violento, coum Jesus oscilante entre «a doçrae a munista até dor») Cada época nos deixou os seus próprios retra • Jesus. E tão diferentes uns dos outros ue nos oderemos justamente perguntar se tiveram ou não diante dos olhos o mesmo. moeo. os retratos se afastaram bastantes vezes da fé cristã. Um outro teste pode ser o cinema. O «rosto de Cris ) 4 to»( do cinema é pelo menos tão variado como o da literatura. Umas vezes, animado por uma vontade im piedosa de desmistificar a figura de Jesus, outras vezes, desejoso de apresentar ou, pelo menos, de fazer pres


(2) Colecção Jesus depois de Jesus»’, Cerf. 1987. Anunciados, vinte volumes. Ver igualmente a colecção .»Jesus e Jesus Cristo’. dirigida por J. Doré, Paris, Desclée, colecção em que os colaboradores são não só teólogos corno também representantes de outras religiões e até agnósti cos. Afinal apareceram mais de trinta volumes. (3) Frank Paul Bowman. Le Christ des barricades. 1789-1848, Pa ris, Cerf, 1987. (4) Henri Agel. Le visage du chrisr à 1 ‘écran. Paris, Desclée. 1985.

sentir o Seu mistério, o cinema é de facto uma lingua gem muito difícil. Entre o Jesus Superestrela dos filmes do Oeste, contado pelo cinema americano, e o «Mes sias» visto pelo italiano Rosselini, há a imensa distância do oceano. O cineasta italiano, com a sua evocação da simplicidade do Jesus que trabalha a madeira, e vive pró ximo dos Seus pela Sua humilde condição de carpintei ro, faz-nos pensar em Jesus numa outra dimensão, a dimensão do mistério, que um Jesus superestrela não po de deixar de escamotear. O Jesus do cinema, as mais das vezes, é a expressão da sensibilidade de uma época. Mas, numa civilização da imagem, como é a nossa, o cinema é, talvez, um dos meios pelos quais os nossos contemporâneos podem mais frequentemente entrar em contacto com Jesus. E é por isso que o cristão consciente não tem outra alternativa senão estar atento àquilo que aparece no cinema. Um dos testes mais significativos poderia ser to de Jesus pintado pelas seitas, um Jesus à margem da Igreja, um Jesus com todas as cores do arco-íris. Estu dando a «nova religiosidade» (5) que se manifesta nestas seitas, J. Vernette notou que a figura de Jesus sofre em tudo isto uma distorção em função dos dois pólos em volta dos quais estas seitas se podem classificar. que bebem na mística orien, designam Jesus como Cristo, crístico, iniciado, Mestre, instrutor, guia. Jesus, que ocupa um lugar ao lado de outros mestres da sabedoria, não tem qualquer identidade divina. Outras teorias religiosas, próximas do fundo judeo-cristão, con sideram Jesus como Salvador, Filho de Deus, Messias, etc. E correm o risco de esguecepor seu lado, a Sua Eiiuianidade. Ora estas seitas revelam bem uma tendên ia que nos ameaça a todos: a de fragmentar a figura
(5) Jean Vernette, Jésus dans Ia nouvelle religiosité, col. Jésus et Jésus-Christ, núm. 29, Paris, Desclée, 1987.

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mas admira mais que. O que eles criam acerca d’Ele_foi-nos_transi do pe1in. izer de Jesus que é Cristo sig nitica dizer que toi reconhecidomo o Desejado.1) Este simples enunciado contém o essencial acerca da fé cri’tã. entre aqueles que se dizem explicitamente católi cos. Ela já não sealimenta unicamente dos ensinamentos da Igreja pelo que a imagem de Jesus se torna pouco nftida. Desde que um «certo Jesus» surgiu na história dos homens. a salvífica e a ontológica. uma dimensão histórica.ge1hq. A fé vai mais longe! Com efeito. Uma sondagem (6) efectuada em Setembro de 1986 revelou que 64 % dos franceses acre ditam em Cristo como Filho de Deus. Esta Boa-Nova tem. reter dela apenas um aspecto. o qual lhe ia permitir realizariiTa 9 E vós. em grego. E. o filho do carpinteiro. «messias». mas ainda menos limitar a ela o nosso olhar. considerado o mais antigo de todos. prega a palavra de Deus. Jesus não passa de um sábio ou de um super-sábio. não podemos recusar a Sua condi ção humana. E caminhando que nós nos damos conta (6) Sondagem efectuada em Setembro de 1986 pelo Sofres. somente 72 % reconheçam que Jesus é Filho de Deus. Este nome. só que esta imagem é muito — — daquilo de que são feitas as vias da cristologia e da ma neira como foram. que evoca a unção com azeite recebida pe los reis de Israel. ps Concflioseos testemunhos que nos ficaram. 8 . rapidamente nos damos conta de que a sua fé é bastante incerta. traçadas ao lon go da história. o derradeiro teste: as sonda ens. apresenta Jesus como a figura do Mes sias. quem dizeis que Eu sou? Aquilo que dissemos sobre a imagem de Jesus e que é expressão da opinião pública pode servir-nos de pon to de partida para a descoberta daquilo que sobre Jesus afirma o discurso cristão.de Jesus. o Evangelho de Marcos acrescenta ao nome de Jesus o título de «Cristo». quer dizer «ungido» e. progressivamente. uma res posta teórica. aquele que Israel esperava. um programa. um profeta. cujos pais são conhecidos. que inauguram o Evangelho. Marcos leva-nos imediatamente à fonte do testemunho apostólico pelo simples título do seu Evangelho: «BOA-NOVA DE JESUS CRISTO FILHO DE DEUS» (Mc 1. antes de mais. gerações de homens e de mulheres reconheceram neste homem o Filho de Deus. ao passo que 11 % dizem que não é e 17 % não sabem que responder. etc. que tem um nome ju deu. porém. te nome de Jesus Cristo só por si. 1 a 7 de Outubro de 1986. Jesus tem sem dúvida e ao contrário do que acontece com a Igreja uma boa «imagem de marca». pois diz respei to a Jesus. o da Sua hurna ndade&io da Sua divindade. que Deus envia para salvar o Seu povo e estabelecer no mundo o Seu Reino. finalmente. exprimem o carácter inesperado deste acon tecimento. Ao falar mos deste Homem. Para descobrirmos as etapas que vão organizar este percurso e dar dele a primeira visão global. palavra esta que. publi cada em Le Monde de 1 de Outubro de 1986 e no número 2144 de La Vie. que ensina um código de moralidade. Podemos descobrir nelas três dimensões: a histórica. As perguntas que fazemos a n6 próprios acerca de Jesus não encontrarão. Quando interrogamos. Para alguns... Boa-Nova: estas palavras. um Homem situado. em hebraico. e que viveu num lugar e momento precisos da história dos homens. aqui. sugerimos que comecemos por ler as primeiras palavras do Evan gelho de Marcos. as pessoas acerca daqui o em que elas crêem.

soteriológico. mas cada uma delas oferece um ponto de vista particular.vocação. sempre que procuraram mostrar. mas também com o dom que Deus nos faz de Si mesmo. perante um verdadeiro caso de es pantar. O que quer dizer qiie toda a palavra sobre Jesus Ciito tem igualmente uma dimensão ontológica no sentido de que. que não se pode iludir: quem é esse Deus que Se revela numa morte destas? li . a glória de Deus. de uma forma especial. anunciar o nome de Deus a todas as na que quer dizer que o nome de Jesus Cristo é uma boa nova para o mundo e tem por isso uma dimen são salvadora. Estas três dimensões são inseparáveis. a ideia de redenção. Foi esta expe riência que guiou os Padres da Igreja. de pois. A Páscoa fez com que os discípulos vivessem uma es perança de salvação. Paulo. que guiou. um alcance salvífico ou. afirmamos a propósito do homem Je sus não somente que Ele é o enviado de Deus para sal var. Ãó dizer deste Jesus que é Filho de Deus.15). para falarmos como os teólogbs. da dimensão salvífica. ou se ja. Como é possível que a história de um Homem possa trazer ai dãhumanidade a salvação de Deus? A resposta cristã éuma resposta de fé. Uma vez que a fé dos cristãos se apoia na fé dos Apóstolos. como dirá S. ter-nos-ia sido possível partir das nossas próprias indagações humanas. Pre cisaremos então de clarificar. que é um caminho paradoxal: sendo um caminho de vida. a qual os levou a reconhecer. que nos obriga a dar mais um passo. é o pr6jio Deus que Se insere na nossa história. Eis-me.. dizemos qual quer coisa que pertençe à própria essência de Cristo. Pelo que é muito importante que. com precisão. Ela ronhece que. Na primeira etapa. Eles reconheceram n ‘Ele o Filho Eterno de Deus. 3. passa pela morte na cruz. estejamos atentos à experiên çia pascal dos discípulos. 2. as grandes testemunhas da tradição teológica até aos nossos dias. enquanto Filho. quereríamos que o nos so percurso fosse mostrando. progressivamente. Ficará sempre a pergunta. Por outras palavras.23)._ Entre os itinerários possíveis. numa primeira parte. levada a cabo por Deus em Jesus Cristo.enuncia alguma õia sobro serde Jesus Cristo identificado.). o mais possível. mas que ele próprio é Deus. estas três. Por que vias chegaram os discípulos à afirmação de que o seu Mes lo. A nossa terceira etapa ocupar-se-á da obra da sal vação. Mas pareceu-nos prefe rível seguir o caminho escolhido por Deus. tre estava de novo vivo? É esta experiência que consti tui a matriz do cristianismo. neste Homem Jesus. e manter-nos fiéis ao sentido da figura do crucifica do. loucura para os pagãos» (iCor 1. no rosto do seu Mestre ressuscitado. Numa segunda etapa. resumida na seguinte fórmula: a pes soa de Jesus é em si mesma a «imagem do Deus invisí vel» (Cl 1. que lhes revelou o papel único e decisivo de Jesus no desígnio de Deus. Será o momento de aprofundar o sentido que tem para nós esta Boa Nova da salvação. não somente com o dom da salvação que Deus nos concede n’Ele. ficar-nos-emos pela dimensão histórica. veremos como os primei ros cristãos descobriram a dimensão ontológica de Je sus. a misteriosa identidade de Jesus. porém. Tratá-las-emos pela ordem seguinte: 1. que tanto marcou a cultura ociden tal. começaremos por recolher os testemu nhos que estes deram de Jesus. isto é. conforme estão consig nados nos escritos apostólicos (N.T. dimensões ao mesmo tempo que se mantém fiel. «escândalo para os judeus. Todos dão conta da mesma fé. à caminhada da fé dos cristãos através dos séculos. Para o fazer.

1 «NÓS VIMOS À SUA GLÓRIA» A experiência pascal dos Apóstolos o Verbo Se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a Sua glória» Jo 1.14 .

«Quem é, para mim, Jesus Cristo?» Antes de aceitar o percurso que propomos, poderá o leitor aceitar o ris co de responder a esta pergunta à sua própria custa. Dis porá, assim, de uma primeira confissão de fé, que poderá ir ampliando e corrigindo à medida que for realizando a sua progressão (Ver Anexo 1). O itinerário que lhe é proposto aqui não parte, porém, desta experiência pes soal. Caminhando através das Escrituras, estará sempre atento aos discípulos de Jesus para poder acolher o seu testemunho acerca do Ressuscitado bem como a leitura que eles próprios fizeram da sua experiência de Jesus de• Nazaré, cujos passos e vida decidiram seguir. A nossa fé nasceu na Páscoa com um grito de ale gria: Cristo ressuscitou! Que terá acontecido para que os discípulos do Pro feta de Nazaré se tenham posto a proclamar que o seu Mestre estava vivo, viveria para sempre e n’Ele todas as promessas de Deus haviam de ser cumpridas? «Cris to ressuscitou !» E escutando este anúncio pascal e deixando-nos guiar pela sua força organizadora que po deremos compreender como nasceu a fé dos Apóstolos. As raízes desta fé mergulham na história de Israel. Te mos de o demonstrar. Mas temos, sobretudo, de dar con ta, neste livro, dos grandes momentos que viveram com 15

Jesus e recolher a sua mensagem destinada ‘s cristãos de todos os tempos. O anúncio da ressurreição de Jesus exprime-se, no Novo Testamento, de diversas maneiras: confissões de fé, relatos de aparições, exposições bem documentadas, como iCor 15. Uma das formas mais desenvolvidas deste anúncio é o discurso missionário, também chamado «que rigma». termo de uso profano. que designava a procla mação oficial das novidades nas cidades gregas. Nos Actos dos Apóstolos, podem ler-se seis destes discur sos. Cinco são de Pedro (1,14-39; 3.13-26; 4,9-12; 5,30-32; 10,34-43). e um de Paulo (13,16-41). Lucas apresenta-os sob a forma de esquemas cuja estrutura se pode ver muito facilmente no esboço da página seguinte: No coração da mensagem, há o anúncio da res surreição d’Aquele que foi crucificadó. Em torno deste anúncio fundamental (círculo central do desenho) estão dispostos certos traços do ministério de Jesus, assim co mo os sinais que acompanharam a Sua ressurreição (cír culo intermédio). Este acto de Deus, que, em Jesus, sai vitorioso da morte, ocupa lugar numa história da salvação: men ção do desígnio de Deus, recordação dos textos da Es critura que apresentam a Páscoa como a realização deste desígnio e a inauguração dos últimos tempos, os tem pos do Espírito. Desta maneira, o acontecimento pas cal, alargado ao conjunto da vida de Jesus, faz parte de um círculo muito mais amplo, para manifestar que este acontecimento se situa no desígnio criador e salvador de Deus. Esta primeira leitura do esboço, de acordo com o eixo horizontal, que mostra a dimensão histórica, deve ser completada com uma leitura vertical de cima a baixo, ao longo do esboço (A-B-C), a qual manifesta a dimen são trinitária do acontecimento. A partir deste primeiro
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Estrutura do anúncio pascal

DEUS

A

ANTES

1’
4,
DEPOIS

JESUS SENHOR B

ESPÍRITO

C

A: O desígnio de Deus ((Os profetas dão testemunho de Jesus» B: O 1. 2. 3. “facto Jesus» Começo, na Galileia Condenação à morte: Eles eliminaram-n’O» Ressurreição: ((Deus ressuscitou-O» ((Deus designou-O Juiz e Salvador)> 4. Testemunho: «E nós somos testemunhas disso» «Nós comemos e bebemos com Ele, após a ressurreição»

C: Iniciou-se o tempo do Espírito O perdão foi concedido em nome de Jesus o Espírito derramou-Se
Coordenar os discursos dos Actos dos Apóstolos com os capítulos 2, 10 e 13.

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olhar sobre a estrutura da confissão pascal é possível in dicar o itinerário que vamos seguir. 1. O tempo das promessas. Na Páscoa, Jesus é pro clamado Cristo porque n’Ele se realizam as promessas de Deus feitas ao Seu povo, O que quer dizer que a fé pascal radica numa esperança geral, culminada, aliás, na esperança específica da ressurreição dos mortos. Es ta esperança tomou corpo de uma forma literal na pes soa de Jesus. Só nos resta perguntar de onde vem esta esperança. 2. O tempo de Jesus. A fé pascal refere-se à obra realizada por Jésus de Nazaré, reconhecido como Aquele pelo qual veio a Boa-Nova da Paz (Act 10,36). Os dis cípulos, que viveram com o Mestre durante meses, fi caram marcados profundamente, como o prova muito bem o seu desapontamento no dia a seguir à morte de Jesus (Lc 24,19-24). O lugar dos relatos evangélicos na vida da Igreja testemunha a importância desta referên cia à vida de Jesus para se compreender verdadeiramente quem era o Ressuscitado.
3. Reconhecer o Crucificado. A esperanças que vi via no coração dos discípulos e que, como filhos de Is rael, eles partilhavam com o seu povo, bem como o encontro que tiveram com Jesus na Sua vida terrestre, permitir-lhes-ão compreender melhor as dimensões ‘es senciais da experiência pascal.

1. O tempo das promessas
Se quisermos recapitular a totalidade do tempo das promessas, temos de evocar todo o Antigo Testamento. Obrigados a escolher, fixaremos a nossa atenção sobre três dados essenciais: as traves mestras da fé de Israel, a fé na ressurreição dos mortos e a situação do Povo deDeus na época deJesus. 1. Escuta, Israel! Estas duas palavras «escuta, Israel!» constituem o começo de uma oração que o Judeu piedoso recitava vá rias vezes por dia, e que se chamava o «shemá» (Dt 6,4-9; 11,13-21; Nm 15,37-41). A alma do Povo eleito expri mia-se inteiramente nesta oração, Um povo que tinha a consciência de ser um povo escolhido e, por isso mes mo, chamado por Deus. Israel nasceu da Aliança que Deus fez com ele, ao tirá-lo da servidão do Egipto para fazer dele um povo de filhos. A este povo deu Deus a Sua Palavra (a Lei), na qual devia discernir a vontade divina, uma Terra que era preciso pôr a dar fruto, um Templo no qual esse povo podia encontrar-se com Deus. Toda a esperança de Israel nasceu desta iniciativa divi na e desta história de amor (Os 2), sem que as outras nações sejam por isso postas de parte. Para correspon der à sua vocação, Israel deve, com efeito, «escutar o seu Deus», mas igualmente testemunhar diante de todos os outros povos o amor que Deus lhe tem (Gn 12,2-3). O que quer dizer que a história de Israel está em ten são para o pleno cumprimento. No entanto, esta espe rança foi, ao longo dos séculos, evoluindo sempre. No reino de Judá, no Sul, foi a dinastia real que se tornou instrumento de Deus para realizar o Seu desígnio. Só que a infidelidade dos reis, a destruição do país, a deporta19

4. A mensagem pascal. Após a análise desta expe riência dos discípulos, estaremos em condições de per ceber o alcance da mensagem pascal, mensagem sem a qual, no dizer de S. Paulo, «a nossa fé não teria conteú do e a nossa pregação seria vã» (1 Cor 15,14). 18

ção das populações levaram à esperança num Messias.cristãos. disperso.° 3: uma excelente apresentação dos con tributos bíblicos para o esclarecimento dos textos referentes à ressur reição de Cristo. ainda não tinham aderido à fé na ressurreição. por muito tempo. depois. afastado da sua terra. 2. Uma vez que a fé na ressurreição é. exilado.11). a parecer impossível que o justo que morria mártir por causa da sua fidelidade a Deus ficasse. Por esta razão se esperava em Israel que. a qual realizaria a profecia feita por Moisés: «Será um profeta como eu que o teu Deus suscitará no meio de ti de entre os teus ir mãos» (Dt 18. Os semitas não consi déram o homem como um composto de alma e corpo. para Jesus e para os. Duas experiências fundamentais levaram os crentes a esta conclusão: • primeiro. Um tempo de crise Na época de Jesus.4) Só muito tardiamente o povo de Deus chegou à fé na ressurreição dos mortos. no termo da história. Esta ressurrei ção é mais do que uma vitória sobre a morte: é a vitória sobre a injustiça. e num outro mundo. em plena efervescência. separado de Deus definitivamente (2Mc 7 e Dn 12. o rei Ezequias (7 16-687) exclamava: «Não mais verei a Deus na terra dos vivos !» (Is 38. que o próprio Deus mandaria. o hõrizon te da vida com Deus limitou-se. A fé na ressurreição alimenta-se. com aquela a sobreviver à desaparição deste. Eis um aspecto importante. Deus (1) Cadernos Évangiie. O que quer dizer que. Também se esperava uma última testemunha de Deus. Deus Se revelasse e manifes tasse a Sua glória. Então. algo de muito importante. foi a experiência colectiva do regresso do exflio (séc.15). Israel es tava. No tempo de Jesus. foi a experiência das perseguições no tem po dos Macabeus. pela morte. os judeus não acreditavam numa ressurreição pessoal dos mortos. parecia que os céus estavam fe chados: há muito tempo que os profetas se tinham cala do e o Espírito de Deus já Se não manifestava. Ocupada pelos Romanos. então. em todo o caso. pode restituir a vida àqueles que enfrentaram o martírio. VI a. á que a salvação não podia nascer deste vale de lágrimas. à vi da terrena. há toda a conveniência em procurar descobrir como esta fé apa rece(’). fez um povo ressuscitado. semelhante a Moisés e as Profetas. na essência. assim. n. até por volta do ano 200 antes de Cristo. que nos ajuda a compreender o testemunho dado pelos discípu los acerca da ressurreição de Jesus. Se chega ram ao ponto de acreditar na ressurreição. no século II antes de Cristo. o Espírito seria dado ao povo e infundido no coração de cada um. sem rei nem templo. baseada em Deus como parceiro da Aliança. que regressa à sua terra para aí adorar o seu Deus e viver segundo as Suas leis.2). Tes temunho desta fé é a extraordinária visão de Ezequiel dos ossos ressequidos (Ez 37) que voltam à vida pelo sopro de Deus.): De um povo morto. os Saduceus. 3. Come çou. Para o israelita. Assim surgiu a ideia de que o justo devia voltar a viver após a morte. Esta lei é.C. foi por causa desta Aliança com Deus: sendo Deus vivo e justo. No limiar da morte. partido de chefes religiosos. da relação pre sente e viva com Deus já neste mundo. O ardor 21 20 . Era na Escritura (a Torah) e na prática dos mandamentos que os Judeus piedosos redescobriam Deus e viviam com Ele a sua relação filial. «Deus reclama a Tua vida na tumba» (Salmo 103.

para a ilustrar concretamente (Mc 2fi). ter saúde. o. depois de ter baptizado du rante brevíssimo tempo. liberta os doentes. na sua essência. Neste sentido. Jesus quer preparar os corações para acolherem a Boa-Nova.4-8). Deus re1iãas pro messas que fez. No fundo da sua prisão. Desclée._io sim. E foi neste clima de expectativa e de crise que Jesus apareceu.religioso de certos estratos da população era atiçado pela aspiração à liberdade: Deus havia de vir! • Um Messias Rei. que vai em busca daqueles que se perdem. Opõe-se a tudo aquilo que separa os homens de Deus e os homens uns dos outros. M. Jesus fez-lhe com preender que as promessas feitas aos profetas se tinham tornado realidade (Lc 4. Os milagres não pretendem provar nada: são sinais do Reino de Deus. sem exigir 05 Custosos sacrifícios do Templo. Os milagres de Jesus Os milagres de Jesus np ervç prja Isagem. O tempo de Jesus (2) Jesus vem da de Jerusalém por causa dos resíduos de presença pagã que ali continuavam. 1986. Filho de Israel. Miracles de Jésus et théologie du mi racle. Les Miracles dans I’évan gile. 1987. Jesus vai mudar o Seu compor tamento. cada um deles desenvolvia esta esperança de acordo com o seu próprio guião ou argu mento preferido. E este o sentido da Sua mensagem como o demonstram os milagres que faz e o modo como vive. Anunciam. 130. Cerf. Deus em pessoa purificaria a Sua própria terra. II. P. Mas Jesus recusa o espec táculo. René Latourefle. havia de surgir. Enquanto João levava as pessoas para fora das cidades na direcção do deserto Jesus andava de cidade pregando a vinda de Deus para rnuitob 1. fariseus e baptistas. A salvação que o milagre manifesta respeita a ne cessidades fundamentais como comer. radicalmente novo. ou talvez dois. p. viver. 1983. por via das interdições que a lei fazia pesar sobre eles. os pre sos são libertados. mais fácil: Jean-Pierre Charlier. faz com que as pessoaidescubram (2) um Deus misericordioso. socorre os pobres. em vez degar um Deus terrível. Jésus de Nazareth. etc. Beaude. Testemunha da vinda do Deus da Aliança e da recõnciliação. ParisfMontréal. que Se ocupa dos pobres e mar ginalizados. Jesus a uncia a ma stS sgie. através da solicitude de Deus (3) Cf.16-2 1): os cegos vêem. dos que não têm esperança. Ou então. João Baptista sentiu-se confuso (Mt 11. No entanto.2-6) e precisou que Cristo o esclarecesse. o tempo de Jesuséum tempo novo. jiLais do Reino de Deus em Com Jesus e através d’Ele. Jesus apa rece neste contexto onde está bem viva a esperança do fim dos tempos. A originalidade dos Seus milagres (3) está em que eles são. E tocante verificar que os Seus adversá rios chegam a censurá-l’O por não fazer milagres sufi cientemente convincentes. Essé nios. O reino de Deus está no meio de vós Exactamente como João Baptista. reintegra na comunidade aqueles a quem a doença afas tou. Paris. Cerf/Bellarmin. que atrai as multidões com o anúncio do A mensagem de João é o mais simples possível: procla ma um baptismo para a remissão dos pecados (Mc 1. surge na órbita de João Baptista. Signes etprodiges. 22 23 .

ao contrário. De onde virá esta hostilidade? Vem. de vistas deiasiado cur mas deve. etc. Filipe. claro. através do Seu comportamento. originário de uma cidade fronteiriça. ficam escandalizados com as Suas compa nhias.ue Jesus vi senteeéde Deus tudo aquilo que rnamfD aueseti-atrata. Em tudo aquilo . mas suscitam também a oposição de fariseus e chefes religiosos. pelo £dão. Simão.19). E não só pede que O sigam como exige também que deixem tudo para o poderem fazer. O modo de viver de Jesus Como os milagres. Pressentem. con siderados como •pecadores). Jesus aparece ciio uma ameia para a ordem da salvação con !da pelos homens religiosos da época. Nada chama va estes discípulos a viver em comum a não ser a escolha -convite de Jesus. os que se dedicavam ao estudo da Torah é que escolhiam os seus mestres. o Templo. A maneira de agir de Jesus torna cadu cas todas as mediações instimídas para assegurar a ão entre o homem e Deus no mundo judeu: a To rah. um mundo «onde deixará de haver morte. O problema põe-se com toda a crueza. Não veio aboli-la. Nesse tempo. um helenista. Tiago e João. a pre tensão invulgar de ser. que consideram Jesus um homem justo e recto. Um grupo com elementos tão diferentes não podia deixar de ser um sinal vivo de re conciliação. mas dar-lhe cumpri25 . Natanael. há um fiel cumpridor da Lei. • A relação entre Jesus e a Lei Torah o modesprezo. o que era contrário aos costu mes da época. Ao comer com os pecadores. por exemplo. um pu blicano. entre esses discípu los. Três debates essenciais o demonstram: A relação de Jesus com os pecadores Fariseus e sábios. Mesmo com o risco de passar por «glutão e bebedor» (Mt 11. Esta opção de Jesus poderia também ser ilustrada ob servando como Jesus escolhe os Seus discípulos. O próprio Jesus não deixa que subsistam quaisquer dúvidas sobre esse assunto: Quem não é por Ele é con tra Deus. gritos e lágrimas» (Ap 21. Mateus (os publicanos eram. 24 2. partidários da violência. os Seus milagres. um judeu pie doso. sem qualquer ideia de voltar atrás. quem O aco lhe acolhe a Deus. Ora a mesa de Jesus deixou de ser a mesa da separação para ser a mesa da reconcilia ção.38). quem O contesta contesta a Deus. Jesus. uma mesa aberta a todos. essencialmente. para não falarmos de Judas e de Pedro. entre os homens. as refeições eram lugar e tempo de divisão: as regras de pureza ritual não permitiam aos membros de certas seitas comer à mesma mesa com aqueles que eram considerados impuros. Mc 8. Se reconcilia com os pecado res. Entre os Seus discípulos. algumas mulheres. ao comer com os pecadores. Nesta época. o Zeloso. Quem é Jesus para ligar desta forma a vinda de Deus e a concessão do Seu perdão à simples presença da Sua pessoa? Uma tal pretensão lança a confusão em todas as representa ções religiosas.4). às pretensões inaudi tas que eles vislubravam nos propósitos e gestos do profeta de Nazaré. nesse tempo. Jesus dá uma ideia do perdão de Deus. o Seu mo do de vida. que os abandonados se transformaram em hóspedes de Deus. etc. escolhe os Seus discípulos por Si mesmo e. testemunha. a presença de Deus. Os homens serão julgados em função da atitude que tiverem a Seu respeito (cf.pelos abandonados. que. suscitam entusiasmo. o modo de viver de Jesus incar na a Sua mensgm. As pretensões de Jesus A mensagem de Jesus.

Desclée.16).» as sim como todos os textos que sublinham a Sua autori dade (Mt 7. Quando reliam estes episódios. E neste sentido que devemos ler textos como aquele em que Ele afirma: «Ouvistes o que foi dito aos antigos. «a Sua consciência do reino soberano de Deus em Si e através de Si» (4). igualmente atribuída a Moisés. Para um Judeu.21-21). Ora Jesus situa as Suas palavras ao nível desta «tradição dos antigos» e mes mo acima dela. 155 e ss. pp. A menção da autoridade de Jesus não aparece como uma nota temperamental. suspendendo o culto. pura e simplesmente acaba com ele. Jesus sente-Se no Templo como em Sua casa (Lc 2.46-49). Paris. porque Ele é «o caminho. centro das peregrinações que celebram os feitos notá veis de Deus na história de Israel.29). trans mitida pelos sábios e qualificada de «tradiçâõ dos anti gos». Basta reler a parábola do «Bom Samaritano» (Lc 10) em que os levitas e os sacerdotes não são lá muito exemplares! Ou o episódio dos nego ciantes expulsos do Templo: as palavras que Jesus pro nuncia nesta ocasião serão o pretexto principal para Ele ser preso e condenado à morte (Mc 14. p. daí para diante. 19. «Facilmente se compreendem a emoção e as con sequências que irão seguir-se» (5). E neste sentido que se deve ler o episódio dos negociantes ex pulsos do Templo: «Jesus não permitia a ninguém trans portar um objecto através do Templo» (Mc 11. Jesus toma o lugar do Templo e apresenta-Se a Si próprio como aquele que abre cami nho para Deus e manifesta o Seu perdão. Eu. ora Jesus fala da Sua própria auto ridade. E neste senti do que devemos ler os episódios que põem em cena os Samaritanos opostos aos Judeus precisamente no que diz respeito ao Templo. a Ele que se deve seguir. é intolerável.70. Não Se con tenta com criticar o sacerdócio de Jerusalém. a Sua presença. também criticavam este sacerdócio. o (4) W.mento em todos os seus aspectos. Outros. como os Essénios. que transcende aquestãoda loca çolo Templo (Jo 4. a verdade e a vida»! Jesus manifesta. Com esta crítica. 26 27 .. Considera-se acima das regras. D. A Torah revestia. mas assume uma atitude de relativo distanciamento em relação ao Templo e ao Sa cerdócio que o serve. o que quer dizer que Se substitui à tradição oral. O sentido do epi sódioé claro: Jesus detém o processo do culto sarifi cial. nessa época. • Jesus e o Templo O comportamento de Jesus em relação ao Templo vai no mesmo sentido: o Templo é op o lugar no qual se oferecem os sacrifícios pelo perdão dos pecados. Seuil. isto tem um significado muito preciso: um mestre. Mas a atitude de Jesus vai mais longe.27-30). Objecto quer dizer material do culto. 147. enunciando em Seu próprio nome a vontade de Deus. os pri meiros cristãos compreenderiam que Jesus era por Si o (5) Charles Perrot. para os Judeus. torna o Templo inútil. Jésus et I’histoire. Davies. o que.. com esta liberdade. Paris. Jesus não Se situa entre Deus e o povo. ensina nos seus átrios. cla ro está. dá as suas referências. Só que Jesus. como intérprete da Lei. duas formas: a Torah escrita (identificada com os cinco primeiros Livros da Bíblia) e a Torah_oral. Jesus faz compreender à Samarita na que. E portanto n’Ele que se deve acreditar. mas enun cia a Lei e exige aos que O ouvem que sejam Seus dis cípulos porque aSua autoridade foi-Lhe dada por Deus (Mt 11. digo-vos. 1979.. Jesus frequenta o Tem plo. ultrapassar Moisés. quando fala. o que quer dizer que Ele pretende. porém.. Pour comprendre Je serrnon de Ia montagne.53-65).

já que Jesus punha em causa o Templo. O espaço do culto. mas o espaço quo tidiano dos homens. Por isso se compreende bem que Jesus tenha sido incompreendido e rejeitado. posto sistematicamente pelos evangelistas nos lábios de Jesus. aliás. ). quem é Jesus? Que diz Ele de Si mesmo? Jesus não Se pregou a Si próprio nem declinou a Sua própria identidade. ao apresentar-Se como mensageiro decisivo de Deus. Mas Pedro ainda não sabe a quem ou a quê deu a sua palavra. Então quem é Jesus? As pretensões de Jesus mostram que se trata de fac to da vinda de Deus. Diction.66). 6 (6) J.25-37). e Ch. Paris. Os chefes viam n’Ele um pertur bador. 7. pensando que Ele perdera o juízo. «Eu sou o Filho de Deus». con siderando uma blasfémia a pretensão de Jesus de Se si tuar entre Deus e a Lei. e. entusiasmavam-se por uns momentos. 10. Os fariseus rugiam. como «Mestre» e «Profeta». Perrot. Um deles atraiçoa-O. A Sua famiia. ver P. o Templo vivo de Deus.13-14) e à qual é confiado o julgamento dos homens.36.novo Templo. Jesus não re cusou certos títulos. porque o outro. Para o uso evangélico do título de Filho do homem». Nem os discípulos se mantêm unânimes. cit.. Jesus pôs contra Si a opinião pública. 853. que era a fonte dos proventos deles.29-37). etc.23-24). p. mas de uma vinda que. que construiu o Templo de Jerusalém (Mt 12.) Com Ele. O espaço onde o per dão é concedido não é o do Templo. no essen cial. ao mes mo tempo. Um dos tftulos que melhor O revelam é sem dúvida o do «Filho do Ho mem)>. cumprindo muito embora as promessas. que garantia a permanência de Deus en tre os homens (Jo 1. inquietava-se. as subverte e ultrapassa. que se abre diante de Cristo e vai renegar o Mestre. é mais do que um profeta. nós temos alguém que é «mais que Salo mão».42). 1984. Os Saduceus tinham medo d’Ele. como o espaço da Lei. mas. uma vez que julga indigno do Messias o caminho que Jesus escolheu (Mc 8. Este título. 12. Se o re ferirmos a outros modelos preexistentes. Cla ro que Pedro.66-72). que se arriscava a irritar o ocupante romano que lhes dava protecção.32-33.naire des Religions. numa palavra. depois. Beaude.. seja ele quem for. que esperavam uma libertação política. cap. «Eu sou o Filho do Homem». Doré. quando o Seu destino se confirmar»( Mas porquê estas reticências de Jesus. no artigo «Jésus-Christ”. deixa pressentir que é o Profeta esperado dos úl timos tempos.27-29). correremos o risco de «passar à margem daquilo que Ele é. Recusa o caminho do sofrimento. Jesus é Aquele pelo qual Deus torna presente o Seu perdão. Mais que testemunha de Deus. 29 . op. Não Se identifica com nenhum modelo do passado. cap. op. cit.15). alargou-se ao outro. afastavam-se d’Ele. Mas. o certo é que Jesus não diz em parte alguma de maneira peremptória «Eu sou o Messias». sem excepção. surge como o nome que Ele deu a Si próprio. como outros. deve tornar-se o próximo (Lc 10. na verdade. reconhecia em Jesus o Messias prometido: a Sua acção traz a assinatura di vina que liberta aqueles que vivem na servidão (Mc 28 8. O que quer dizer que os discípulos estão divididos sobre o assunto. M. anunciado em (Dt 18.14. essa personagem misteriosa que aparece no li vro de Daniel (7. Puf. Pregou o Reino de Deus e deu-Se a conhecer pelas obras que fez (Jo 5. onde Jesus Se situa (Mt 5. Mas o que as Suas obras deixam pressentir é de tal modo inau dito que a maior parte fecha-se na recusa. Alguns separam-se d’Ele (Jo 6. Seja como for. Ao fim e ao cabo. no essencial porque aquilo que Ele é não se revela rá plenamente senão mais tarde. 3. Ef 2.14. Uma tal irrupção de Deus não responde de imediato às expectativas das multidões. As multidões.

Nessa noite escura em que a morte O submerge. esperando que. rejeitado por todos. depois de ter sido condenado como um agitador. Preso e interrogado. Morreu. é. O Sinédrio julga que Ele merece a pena capital porque ousou falar con tra o Templo e fazerSe igual a Deus. A morte de Jesus parece uma vitória dos Seus inimi gos.36). mau grado o si lêncio que O cerca. o percurso de Jesus não pára na Sua mor te. 4. na confiança e na esperança. Ao grito de Jesus moribundo responde Deus com a ressurreição. O tempo de Jesus termina com um fracasso. a Sua obra venha a sobreviver. antes de mais. As razões dadas para a Sua morte são reveladoras. e condenado ao suplício da cruz. Queria morrer em Jerusalém. A esperança de Jesus Jesus viverá «até às últimas consequências» (Jo 13. onde o direito judaico nem sequer é respei tado. se entrega a Deus e d’Ele tudo espera. pela qual Jesus entra na gló ria do Pai. Esperará pela Sua ressurreição «no ter ceiro dia». Jesus é todo Ele uma ofe renda ao Pai. a Deus. Como foi recebida esta boa-nova da Páscoa? Está no cerne de que experiência? Para responder a es tas perguntas. Apesar do fracasso. recapitulando assim toda a esperança do Antigo Testamento. Jesus conserva a Sua esperança em Deus. E. A Sua morte revela um homem que viveu até ao fim o abandàno de Deus. estudo exegético. mas foi crucificado fora da ci dade. como o justo que. Sch}osser. por isso. recita a oração do justo perseguido (Salmo 22). E terá de o viver na fé e na esperança. é entregue à autoridade romana como se fosse um agitador. a quem chama «Pai» de uma maneira única (ab ba) (Mc 14. abandonado de todos. 30 31 . Pelo modo de viver a relação com o Pai. as «nar rativas das aparições» em que são 4adas as dimensões essenciais da experiência pascal. é preciso examinar. que é o triunfo dos Seus inimigos e mostra que Jesus é o Justo fiel até áo fim. na oração. Pa ris. pp. E teve de viver a esperança. Cerf. Reconhecer o Crucificado De facto. (7) Ver J. ou seja. gravado no letreiro da cruz. Mas a revelação não fica por aqui. cujo Reino anunciava (7). aparentemente abandonado por Pedro. como o testemunham as pala vras e os gestos da Ultima Ceia. no entanto.quando se trata de Se definir? Se Ele não Se define. político: pretendeu ser rei no império de Cé sar. ifi. a esperança de Jesus nunca será desmentida. Jesus dá testemunho de um Deus de Amor. nestas difíceis condi ções. entre gue por um dos Seus. Esse caminho vai desembocar na ressurreição. à maneira dos justos que investiram em Deus toda a sua vida. no dia em que Deus há-de ressusci tar todos os justos. Na hora da morte. Jesus é despojado até do sentido da Sua própria morte. no decurso de um processo desonesto. morreu como um escravo entre dois malfeitores. Deve igualmente levantar-se o problema da historicidade dos factos que nos são relatados. nu ma atitude de fé. 1987. desta maneira. desta maneira. Le Dieu de Jésus. é porque Se quer totalmente transparente a um outro. co- mo um profeta que era para dar testemunho de Deus.1) este radical serviço de Deus e dos homens. 203-209. o motivo oficial da Sua condenação. Mas no próprio fracasso da Sua missão. e pela relação de serviço que mantém com todos.

3-8. A partir de então. 16-17. S. conserva-se sempre e. ofté: iCor 15. que é uma alusão às teofa nias (manifestações) de Deus no Antigo Testamento.13. ratificada por Deus. Através da sua diversidade. foi algo que se ofereceu à sua livre decisão. Quando re cordamos acontecimentos que nos marcaram a vida. E toda a existência de Jesus que é. (8) - Um reconhecimento Este Jesus que aparece aos discípulos é. ao mesmo tempo. Jo 20. e que se ocupam do esseniil. Kasper. Jésus le Christ. digam irn. E mesmo quando são dados si nais. Várias vezes se diz que Ele «Se mostrou» (em grego. nem as portas fecha das. mesmo nessa altura. As narrativas sublinham este aspecto de muitas e variadas maneiras. mas parte de Jesus: aparece quando «todas as portas estão fechadas» ou vem juntar-Se inesperadamente a dois discípulos no caminho de Emaús. algu mas vezes. Lc 24.16. é necessária a adesão do coração (Lc 24. habitado pela glória de Deus (Rm 6.4).34.17. 21. Já não estamos perante o mesmo tipo de relato que fala de Jesus ao longo dos ca minhos da Galileia. As sim acontece com as narrativas das aparições de Cristo. 32 . Paris. o fundamental. diferente d’Aquele que eles conheceram e. tra zem.6). Mas também nada os obriga a ela: ela acontece na fé. como é o caso de Tomé. podemos distinguir quatro aspectos fundamentais: • Uma revelação divina Todas as narrativas sublinham o carácter inesp1do do encontro com Jesus Ressuscitãdo. mas não reconhecem imediatamen te. 26. 211. o que é uma maneira de dizer que a iniciativa do encontro nada tem a ver com os discípulos. quer dar a entender que as manifestações do Ressuscitado têm uma íntima relação com uma manifestação de Deus. Não se trata de relatos jornalísticos. Estes pormenores não só que rem estabelecer uma relação de identidade entre Aque le que morreu e Aquele que Se mostra vivo.16). pág. no fim e ao cabo. a Sua assinatura: Deus manifesta-Se na glória (divindade) «no facto de Se identificar com ). nada se opõe a esta comunicação: nem o temor.24-29. a fracção do pão. • Uma tarefa da fé A ressurreição de Jesus não foi imposta aos discípu 1os. Cerf. com o tempo. continua o mesmo. Eles reconheceram-n’O com os olhos da fé.31. a dúvida permanece. o que é sublinhado pelos si iEempiulhes aparece: os vestígios dos cravos. garantindo a vitória de Jesus não só sobre a morte como sobre a injustiça da Sua condenação. po demos enganar-nos sobre os pormenores. Ressuscitando-ÓDis revê o processo que O condnou. Euma maneira de dizer que o próprio Deus ratifica a obra de Jesus. A comunicação do Ressuscitado com os Seus situa-se a um nível radi calmente novo. Paulo evoca uma aparição «a mais de qui nhentos irmãos ao mesmo tempo» (iCor 15. como pretendem sublinhar que Aquele que ressuscitou é exac tamente O que foi rejeitado por todos e como tal conde nado à morte. Ora este vocábulo. 1976. No fim dos Evangelhos. mas o sentido profundo. ainda mais se aprofunda. Mt 28. As componentes da experiência pascal As narrativas das aparições do Ressuscitado são bem diversas. Mc 16. 33 W. os olhos vêem. trazendo-O da morte à vida»( O Res suscitado fica.11-14). temos várias narrativas. 8 o Crucificado.4.1. a partir de então. Act 9. mas de meditações sobre uma experiência.to davia.

a se gunda sublinha a passagem a uma vida que não pode ser medida pelos mesmos parâmetros com que me dimos a vida que se deixou (a Sua vida de ressusci tado é outra. que não se rege pelas leis do nosso mundo. este mundo de Deus. por exemplo com a narrativa da Transfiguração. entendi do. é elevado à glória de Deus). 2. como acontece. A ressurreição de Cristo é sem dúvida um acon tecimento real e. mas não Se manifestou ao mundo. O único vestígio histórico é este: a existência de uma comunidade que testemunha que Ele está vivo. que testemunhou que Jesus tinha de facto ressuscitado.15. pois diz respeito ao destino do homem histórico de Nazaré.21-23. Mas não se pode dizer que seja um aconte cimento histórico no sentido de que.19-22).17. ao juntá-los de no vo e ao arrancá-los às garras do desespero. que acreditaram n’Ele. ao mundo de Deus. E este o facto que se pode assinalar. Vestígios históricos do Ressuscitado Poderemos ir além do testemunho dos discípulos de Jesus.49. na Sua nova con é acessível que transcende a história dição através dos vestígios deixados na História. Pertencendo. neste sentido. desde então. deve surgir de novo com um testemunho autónomo. isso sim. vestígios esses que podem ser udos e decifrados pelos histo riadores. Lc 24.18. não usam o estilo das teofa nias. — — 34 35 . esta escapa à condição de aconte Se a Ressurreição de Jesus é a Sua entrada no cimento histórico.Uma experiência missionária Os textos que se referem ao encontro com o Ressus citado são muito sóbrios. Aos discípulos compete ressuscitar-Lhe a palavrã e anunciá-la ao mundo. como um sinal no qual a fé reconhece. que «não vol tará a vê-l’O» (Jo 14. como podemos ver pelas narrativas de aparições. Jo 20.7. a posteriori. Para exprimir esta transcendência do Ressusci tado em relação ao mundo em que vivemos. ressuscita-os. no qual se ins creve de uma maneira visível a acção de Deus que res suscita Jesus. O verdadeiro vestí gio histórico é o grupo dos discípulos. O nimulo vazio não é uma prova em favor da ressurreição. a Ressurreição escapa à ciência histórica e só é acessível por uma relação estabelecida através da fé. é um facto histórico. radicalmente diferente daquela que era a Sua neste mundo). que faz apelo ao esquema antes/depois (antes. Com toda a razão dirá Paulo que a Igreja é o Corpo de Cristo. Este regres so acontece por obra e graça da ressurreição do Mestre. que recorre ao esquema em baixo/no alto (Jesus é exaltado. Mt 28. E assim os discípulos podem verificar que a Palavra de Jesus. os quais «viram» o Ressuscitado? Haverá porven tura um «vestígio histórico» do acontecimento? O Res suscitado manifestou-Se aos discípulos. sepultada com Cristo. o facto pascal. No entanto. mas surgem como gestos de quem en via outrem em missão (Mc 16. Só que esta relação só com a fé se pode apreender. A missão é o sinal de que Jesus está vivo. está em relação com ele. depois. a Sua pre sença no mundo. Act 1. — Será a ressurreição de Jesus um acontecimento histórico? mundo de Deus. retrospectivamente. antes e após a morte (é a mesma pessoa que morreu e agora está viva). mas também ao da exal tação. En quanto a primeira destas linguagens sublinha a Iden tidade da pessoa de Jesus. foi.7. E que o historiador não podé tar senão aquilo que é Imanente ao nosso mundo. está morto. Podemos explicitá-lo do seguinte modo: Este acontecimento dá aos discípulos uma nova vida. está vivo).8). por assim dizer. o Novo Testamento utiliza uma dupla linguagem: a da ressur reição.

A aventura de Jesus ressurge nas suas vidas. mas para d’Ele fazer os outros participarem (Jo 20.20-27. Os discípulos passam do desespero à espe rança. ensinar. Que espécie de tempo? Os sinais indicadores essenciais são-nos dados por três afirmações do Credo: mos que evocavam o fim do mundo: o 3. A ressur reição de Jesus fá-los passar da dúvida ao espanto e do espanto à fé. em bora tenha entrado nesse mundo.4) diz respeito a toda a humanidade. o Deus da Aliança. com os Seus discípulos até ao fim dos tempos. o mais velho de uma multidão de irmãos». Eles. no entanto. investido na Sua qualida de de «Filho de Deus em poder» (Rm 1 . o que quer dizer que há na ressurreição de Jesus um duplo movimento: Ele passa com todo o Seu ser movimento para o Pai ao mundo de Deus e movimento para os Seus irmãos. Jësus.45-50). A mensagem pascal Os discípulos proclamam aquilo que experimentaram na Páscoa.22). De onde se conclui que em Jesus se cumprem as Es crituras (Lc 24. — — 1. fonte de libertação. Estamos agora em condições de iden tificar o último elemento desta pregação: com a Páscoa inaugurou-se um tempo novo.° dia. finalmente. sem dúvida.6-8). li bertador do Seu povo: descobrem n’Ele o Deus salva dor já actuante na existência pré-pascal de Jesus. — — IV.9-10). Subiu aos céus Nos escritos do Novo Testamento. 37 . N’Ele Deus «deu-nos a conhecer o mistério da Sua von tade. foi porque a força do Espírito surgiu no mun do para o levar ao seu termo.16). do medo ao júbilo. (Mt 28. partir o pão (Act 2. do temor ao testemunho. continua. Só relacionando todos os fac tos da Escritura é que podemos descobrir.32). convidar à comunhão. a imagem da su bida aos céus tem um duplo alcance teológico. mas a experiência na própria vida deste perdão que caracte rizava Jesus na Sua atitude para com os pecadores.27 e 44).19-23). que tinham abandonado Jesus. A Sua ressurreição inaugura a ressur reição dos mortos. O que é atribuído a Jesus. Encontramos aqui um dos aspectos importantes da experiência pascal: a ressurreição de Jesus manifesta-se na vida de um grupo ressuscitado. para os fazer entrar neste mundo de Deus. «Príncipe da vida» recebeu o Es pírito. ICor 15.42). O acontecimento pascal é.18. des cobrem que estão reconciliados com Ele e tornam-se testemunhas da Sua misericórdia (Jo 20.18-20). Jesus é o «primogénito». Vi mos que a esperança de Jesus se tinha exprimido em ter36 2. segundo o beneplácito que n’Ele de antemão esta belecera para ser realizado ao completarem-se os tempos: reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas no céu e na terra» (Ef 1. As apa rições não são apenas uma identificação de Jesus. o «primeiro de uma humanidade acabada» (Cl 1. O acontecimento pascal é uma experiência do per dão de Deus. de uma vez por todas. Quem Se lhes manifesta é. Se Jesus ressuscitou. porque começou a ressurreição geral dos mortos. que «tudo fora criado para Ele» (Co! 1. O terceiro dia ou o tempo do Espírito Jesus ressuscitou porque chegou o «30 dia» ou seja. preferindo obedecer a Deus a obedecer aos homens (Act 5. Eis a razão pela qual ela é o aconte cimento salvador por excelência.24. Rm 8. já que a missão de les consiste em fazer aquilo que Ele fez: curar os doen tes (Act 3. cuja aventura prossegue neles e por eles.

um lapso de tempo de quarenta dias. 393. que devem permitir que O reconheçam (Act 2. pp. 38-39. seja qual for a aflição em que se encontrem. refugiando-Se por assim dizer.6. Act 2.17). cit. E o tempo da Igreja que se inaugura. em Le Retour du Christ. no artigo «Descida aos infernos» do Dictionnaire des Religions.18-20). Por outro lado. apoiada na promessa de uma vinda do Senhor. mas Lucas menciona três vezes que eles O vêem. Rm 10. No fim dos tempos. por vezes ímpaciente. como a partilha e a fracção do pão. propõe sem impor. Há uma profunda unidade no comportamen to de Jesus antes e depois da Páscoa: antes. Saint-Louis. Ef 4. Demorando. completar-se-ão os acontecimentos iniciados no Exodo: Cristo virá buscar o Seu povo e levá-lo-á ao Pai. ou se ).Por um lado. Perrot. 1983. a subida aos céus inaugura o tem po da Igreja. 3. durante os quais Jesus instruiu os Seus discípulos. O mo delo bíblico implícito é o da manifestação da glória de Deus no Sinai (Ex 19). Jesus venceu até ao fim a condição mortal. A lição é evidente: uma vez que viram Jesus partir têmo sinal anunciador de que receberão o Seu Espírito.42). A salvação tem uma dimensão colectiva. A Páscoa inaugura um tempo novo e contém uma promessa de salvação. op. «A vinda do Senhor». recusa qualquer actuação espectacular. apesar da vitória de Jesus. são os gestos evangélicos dos cristãos. — J.8-9. exprime a ideia de uma vitória total de Cristo sobre todas as forças que se opõem a Deus Esta ideia anda ligada à da descida aos infernos: na Sua morte. os Actos que rem responder a uma pergunta essencial dos cristãos: como pode explicar-se que. O mesmo acontece com a Ascensão: Jesus deixa os Seus. Os infernos representam o destino mais trágico. E preciso lê-la à luz de 2Rs 2. apesar do silêncio e das não evidências de Deus. Doré. (9) 38 39 . E por isso que não convém limi tar a salvação à dimensão individual. conserva exactamente a mesma discrição: não confunde aqueles que O conde naram à morte. Bruxelas.24. Publicação das Fac. p. manifesta-Se como servo. lPd 3. «A descida aos infernos convida a reconhecer até que pon to Jesus Cristo desceu nas profundezas da morte. «Assim estaremos sempre com o Senhor» (lTs 4. 17-50. se constrói a história colectiva da salvação dos homens. o mundo continue por mudar? A narrativa da Ascensão esclarece esta pergunta. Há-de vir julgar os vivos e os mortos A Páscoa acontece no silêncio e inaugura entre os primeiros cristãos uma espera. terás o meu espfrito e a minha força para prosseguires a mi nha missão. 9-12. depois. O tempo que se segue à Páscoa não é um tempo vazio: é um tempo em que. até que ponto a Sua ressurreição foi vitoriosa»( Nenhuma das potestades que pretendem dominar o uni verso resiste ao Seu avanço vitorioso. E verdade que a Parusia realizará o desígnio do Cria (lO) Ver Ch. Nosso Senhor» (Rm 8. nada poderá «separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus. entre a Ressurreição e a As censão. o abando no mais absoluto. Cristo traz a salvação a todos os ho mens. 9 ja. Morte e ressurreição são coi sas inseparáveis. Esta vinda (não se trata de um «regresso»!) ou esta «parusia» (ter mo profano que designava a visita de um rei a uma das suas cidades) é evocada de variadas maneiras (lo). em que o profeta Elias diz ao seu discípulo Ehseu: se tu me vires quando eu for separado de ti. obra colectiva.. isto realça um outro aspecto do mistério pascal: a — discrição. na co munidade.

(12) * * * atravessar a Tradição viva segundo uma ordem crono lógica. que manifeste de uma forma clara. Paris. a percepção de Jesus como Salvador do mundo. Por um lado. que elaboraram a tradição dogmática da mesma. Filho de Deus. sobretudo. 281-317. A primeira parte deste percurso situou-nos na fonte da fé em Jesus Cris to. foi sendo explicitada até re conhecer em Jesus o Filho eterno do Pai (dimensão ontológica). Escolhen do a ordem inversa. Le Messie.dor mas também se requer que a Promessa inaugurada com a Ressurreição de Jesus se verificou à escala do mundo criado para que. em con tacto estreito com a Escritura. A primeira etapa põe-nos. João. 1972. perguntar como foi com preendida a dimensão soteriológica deste acontecimen to. Releia-se Mt 5. Por outro lado. Segundo S.19) na recusa ou na aceitação da luz de Cristo. soteriológica e ontológica. fizemos notar que toda e qualquer reflexão cristológica devia ter três dimensões: histórica. p. (12) Ibidem. 317. Christologie Ii. Teremos de prosseguir a nossa refle xão em duas direcções. se acendam no mun do a luz da Sua vida e a verdade da Sua vitória. A lógica exigirá que a reflexão sobre Jesus Salvador precedesse a outra sobre Jesus Filho de Deus. Mas outros textos situam-no no fim dos tempos. nascida historicamente da experiên cia pascal dos discípulos. pp. isto é. Teremos mesmo de imaginar. o juízo da História faz-se desde já (Jo 3. um juízo. fazemos uma opção pedagógica: (li) Ver Ch. Cerf. No começo desta busca.21-46: a pa rábola chamada do juízo final exprime a identidade entre a causa do homem e a causa do Messias de Deus. finalmente. Estas duas posições não são contraditórias: a Parusia revelará a verdade do juí zo já em acção desde agora. A segunda situar-nos-á mais ao nível da Igreja dos Padres. no fim de tudo. 40 41 . a omnipotên cia de Deus? (11) Há duas perspectivas. Duquoc. Ao passo que a terceira nos fará descobrir a teologia medieval e da época da Re forma e conduzir-nos-á até aos nossos dias. perguntar como é que a fé em Jesus.

que se reflecte na face de Cristo.II IMAGEM (OU ÍCONE) DO DEUS INVISIVEL A fé em Cristo. 2Cor 4.6 . Filho de Deus Deus que disse que das trevas resplandecesse a luz. é que brilhou nos nossos corações para que irradiássemos o conhecimento da glória de Deus.

esta elaboração tem as suas raí zes nessa mesma experiência e culmina nas definições dos primeiros Concílios ecuménicos e será comentada pela teologia medieval. que nos fará atraves sar toda a história do Cristianismo. Uma tradição contestada: A expressão eclesial da fé foi sendo contestada no decurso dos séculos. Filho de Deus. tentare mos discernir os caminhos actuais da cristologia. Apoiada na experiência pascal. Seu Pai.progressiva. Retere mos dois momentos importantes desta contestação: a Re forma e o Racionalismo. 3. as suas aberturas a novas posições. transmitida de geração em ge ração. 2. tentaremos perce ber como foi descoberta e expressa a identidade de Jesus. cuja influência ainda hoje se exerce no Ocidente. chegou até nós. Aberturas actuais: Numa última secção. e co mo esta confissão de fé. A fé da Igreja: A Igreja elaborou a sua fé na di vindade de Jesus de uma maneira. 45 .No decurso desta nova etapa. as formas que reveste hoje o testemunho eclesial a respeito de Jesus. Esta segunda parte vai dividir-se em três secções: 1. confessado como Filho Eterno de Deus.

que sempre tentou e tenta recolher daquela a riqueza de que vive e que comunica aos outros. de Niceia a Calcedónia. está.. deve existir alguma correspondência. A preexistência exprime a transcendncia de Jesus em relação à História. não pode ser evitada. por exemplo. existir antes. como pelo facto da Sua nature za. 1986. 1. Mas não queremos deixar de evocar dois pontos que a Igreja precisou. De Jerusalém a Niceia A — O TESTEMUNHO APOSTÓLICO O testemunho apostólico. entre o alfa e o omega. Não queremos ser exaustivos. tendo como referência a vida de Jesus. de rosto descoberto. em que se põem em jogo pessoas e culturas. du Moulin. E indispensável recuperar esta memória da Igreja. A fé da Igreja Desde os começos da Igreja(’) que a reflexão sobre o mistério de Cristo se foi fazendo em referência às tra dições culturais e religiosas das diferentes comunidades que a compunham. Fresco sugestivo dos primeiros movimentos cristãos é o que se (1) propõe em F. a experiência pas cal. no Novo Testamento. conforme dissemos já. quando afirma de Jesus que Ele é «o Filho bem-amado do Pai». parecerá ár dua. Se em Jesus se realiza o desígnio de Deus. mas será muito útil propor alguns pontos in dicadores. muito cedo. obrigou a fé a novos esforços de inteligência. edit. que nos leve de Jerusalém a Niceia e. A preexistência 1. e num diálogo cons tante entre a Palavra de Deus e a inteligência humana. por isso. que a fé não é um sistema de ideias anónimas. A 1 ‘aube du christianisme. Descobriremos. O nosso propósito não é. que. sem pre em ligação com a vida da Igreja e a sua missão. «fazer história». Entre os dados que permitiram chegar a estas prodi giosas afirmações.13-20). então. a Imagem ou Icone do Deus invisível. A segunda secção mostrará como a aparição de desafios novos. Paulo. «Preexistir» significa. Suíça. Quando os pagãos. mas preparar-nos para compreender certas interrogações contempo râneas que nos são feitas por esta história. mas também por S. as sumiu formas diversas.1-18). Não queremos apresentar o desenvol vimento integral que levou da fé pascal inicial à fé trinitária. João.Esta retrospectiva. conforme a situação das comu nidades. depois. Vouga. mas que a transcende não só pelo facto de ter sido elevado à direita do Pai. por S. Foi-se afeiçoando a partir da meditação das Escrituras. «em quem por quem e para quem» todas as coisas foram criadas (Cl 1. Aubonne. inéditos na época do racionalismo. por exemplo no Pró logo do seu Evangelho (Jo 1. é de tudo isto a ilus tração mais clara. que não se podem reduzir a um só. A existência de quatro Evangelhos. algumas vezes. Esta noção sublinha a ideia de que Jesus não tem a Sua única fonte de existência na his tória. etimologi camente. Esta preexistência é afirmada de várias maneiras. Esta experiência é a experiência da salvação. une surprenante di versité. adorado47 46 . Só que a memória não basta. antes de mais. mas uma realidade ela borada na confrontação. de clarificar: a preexistência de Jesus e a Sua designa ção como Filho de Deus. que sejam a garantia de um percurso balisa do. não é porque Ele Se encontra em pessoa na origem deste desígnio? Entre começar e acabar.

Têm tal consciência desta oração que a atribuem ao Espírito Santo (GI 4. aos anjos e. o próprio mistério de Jesus na Sua relação com Deus. A autoridade de Jesus antes da Páscoa manifesta que já então actuava n’Ele o poder de Deus. e que. Faltava compreender que o Rei Messias é «Filho» num sentido diferente dos outros reis porque o reino cujo centro Ele ocupa se identifica com o reino decisivo de Deus. sobretudo.1) e ao rei que incarna o mistério deste povo.22). os Evangelhos.32) e notam como algo de muito singular Jesus cha mar a Deus «Abba» (meu Pai !).31). Lembremos. depois.14). mas é o Filho que. «Santo» e «Justo» (3. até então. ao Mes sias (Sl2. os discípulos compreenderam que a Sua pretensão de Se situar acima da Lei e do Tem plo. No Antigo Testamento. pelo contrá rio e. vive a própria vida de Deus. a ponto de poder designar.15.13. coisa que nenhum ju deu piedoso ousaria fazer.7. «Salvador» (5.36. lhes revela que também eles participam desta relação radicalmente nova. O estudo dos dois pontos que acabamos de esboçar mostra como os discípulos chegaram à confissão do ca rácter único e transcendente da relação de Jesus com Deus. Mais que o representante do povo (2) E. nessa altura.25-27: os discípulos percebem que existe entre Deus e Jesus uma relação úni ca. Esta particularidade da filiação de Jesus enriqueceu-se no decurso do acompanhamento dos discípulos pelo seu Mestre.20 e 22). Morin. Pensemos na figura do «Filho do Homem» e. L ‘événement Jésus. compreendem que este Jesus está acima dos seres invisíveis que eles adoravam e que lhes serviam. p. e este título de Fi lho. Paulo. Ele não é somente o justo e exaltado à direita de Deus. Jesus nunca reivindicou para Si este título. A filiação divina Como se chegou à designação de Jesus como Filho de Deus? Nos Actos. neste ponto. na da «Sabedoria» apresentada nos grandes Textos Sapienciais como uma personagem que goza da intimidade de Deus e preside aos destinos do mundo. até ao cerne da Sua pregação. Ao reler esta vida de Jesus à luz da Páscoa. 145.36). que permitia aos dis cípulos chegar à ideia da preexistência: o Antigo Testa mento. naturalmente. dão ao título «Filho de Deus» uma importância considerável.6. um último dado.res que eram dos poderes celestes. antes de mais. identidade divina. que este título não é re 48 servado a Jesus. ensinando-os a chamar por Deus nos mesmos termos em que Ele O chama. este título aplicado a Jesus ressus citado aparece en simultâneo com outros títulos igual mente prestigiantes: «Senhor» (2. como representante do Deus único que perdoa. por vezes. Já não se trata de qualquer reino terrestre» (2). 49 . descobrem em Jesus o caminho para Deus.15). em João. Mas não podemos deixar de ser tocados pela afinidade que existe entre o anúncio do «Reino» de Deus. Act 9. exi gia. ao povo de Israel (Ex 4. cuja vida lhes testemunhava em todos os por menores uma relação privilegiada com Deus. Os discípulos não tiveram grande dificuldade em identificar Jesus com estas figuras e em compreendê-l’O a partir delas. Paris.22. sobretudo. sem ambiguidades: situam Jesus muito claramente entre os anjos e o Pai (Mc 13. depois. a qualidade de Filho de Deus é reconhecida. Um outro dado é a vida de Jesus. «Profe ta» (3. desde toda a eternidade. Rm 8. Seria preciso reler também a bênção de Mt 11. Os 11.23). 1978.31 . Finalmente. As narra tivas evangélicas são. «Príncipe da Vida» (3. Cerf.10.5. de mediadores para chegarem a Deus. A meditação do Antigo Testamento permitiu-lhes descobrir uma linguagem apropriada para expri mir esta transcendência de Jesus.

os cristãos de cultura grega lançarão’ mão de outras esquemas de explicação para exprimirem a unidade de Jesus com Deus. que se chama Lógos. que concebe a intervenção de Deus na História de maneira concreta através de in termediários que Deus escolheu (os Patriarcas. Que significado tem esta referência? Os que vêm do judaísmo tentarão inter pretar o mistério do Ressuscitado a partir de figuras e mediações bíblicas. Ele é o próprio dom de Deus ao Seu povo e à humanidade. os dois meios em que se desenvolvem as jovens Igrejas. estabelece uma nítida diferença por uma figura mais abstracta. Paris. Doré. ninguém po derá contentar-se com proclamar a mensagem. Ao está dio da pregação pura sucede-se o da «argumentação e mesmo da demonstração: Ele foi visto e nós podemos acreditar porque. . no baptismo ou aquando da Sua Ressurreição. nascido de uma mulher» (GI 4. em Initia tion à la pratique dela théologie.). de facto.6-7). Contacto com o judaísmo Uma primeira confrontação foi a que se produziu en tre cristãos que tinham vindo do judaísmo e cristãos oriundos do mundo pagão. A partir de então. que tem uma concepção hie rarquizada do mundo (o mundo material é uma emana ção degradada do mundo imaterial e invisível).eleito e da humanidade diante de Deus. mas despojou-Se a Si mesmo assumindo a condição de ser vo. 194. o Grego. que concebe a carne como a prisão da alma. B — Contentar-nos-emos com apontar três: o adopcionis mo. E neste contexto grego que se desenvolve um esforço novo para pensar a unidade de Jesus com Deus. 50 . usada pelos pensadores gregos. os Profetas. As cristologias patrísticas e conciliares». já que repousa so bre uma experiência privilegiada e intransmissível. a incarnação é uma coisa difícil de conceber. O moda lismo. Moisés. os cristãos dos séculos II e III terão de argu mentar numa dupla frente (a do judaísmo e a do hele nismo). Para testemunharem o mistério cristão. 51 CULTURA JUDAICA E CULTURA GREGA O testemunho apostólico é único. Será neste contexto que aparecerão alguns desvios. tomo 2. E muito cedo aparecerão os desvios. O patripassionismo entende que não teria sido Jesus mas o Pai a sofrer a Paixão na cruz. vê em Jesus uma simples forma na qual o Pai Se manifesta: Jesus não passaria de um modo de ser do Pai. uma Palavra que conduz a História até incarnar nela. Com o período dos «Padres da Igreja». 1982. tal qual a concebe o Judaísmo. Deus enviou o Seu Filho. Mais afastados da sensibilidade bíblica. tornando-Se semelhante aos homens» (FI 2. . etc. Precisamos de medir bem toda a distância que existe entre este Lógos grego. ao contrário.4). tem uma concepção dualis ta do mundo (oposição ente matéria-má e espfrito-bom). inaugura-se o tempo daqueles que não viram. » (3). Razão do Universo e a Palavra de Deus. Confrontação com o helenismo Uma segunda confrontação vai produzir-se no con tacto com o helenismo pagão e terá uma dureza invul gar. Ao contrário do Judeu. de inspiração grega. Para a sabedoria grega. p. (3) J. o modalismo e o patripassionismo. O gnosti cismo. será largamente usada a partir do Evan gelho de João. grande polémica pelo facto de as comunidades cristãs continua rem a viver segundo a Lei judaica. Cerf. Levantou-se. O adopcionis mo concebe Jesus como um homem adoptado por Deus. Noção filosófica. «Na plenitu de do tempo. «Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus.

— «Homem-Deus» (teantropos). O seu Adversus haereses é dirigido contra os Gnós ticos. mais tarde. inaugurada pela vinda de Deus na carne e que se completa na ressurrei ção do corpo. Condenado às feras no reinado de Trajano (98-117). Um pensamento destes contraria frontalmente a salvação cristã. pa triarca de Constantinopla. procurando ligar a doutrina do Lógos à doutrina do Jesus Incarnado. Filósofo ori ginário da Palestina. do verbo latino «docere». este apologista deixou um Diálogo com Trifão. dirigida ao imperador romano em defe sa dos cristãos. face ao judaísmo. o próprio S. que o Logos di vino só na pessoa de Cristo apareceu plenamente. cujos partidários conseguirão. Originá rio de Alexandria. João. a verdadeira relação entre o Filho e o Pai e apresenta o Filho como Aquele que recapitula toda a criação (Ver Anexo II). expressão que irá manter-se. Bispo de Lião. JUSTINO (por volta de 100-164/165). que tem como interlocutores os Judeus. Patriarca de Alexandria. que quer dizer ensinar ou parecer. nos tempos que se segui ram ao Concílio de Efeso. Nele.Algumas grandes figuras da cristologia antiga INÁCIO DE ANTIOQUIA. Procurou conciliar a filosofia pagã e o cristianismo. tornar-se-á um ardente defensor da fé de Niceia con tra os erros de Ano. Se Cristo não assumiu uma carne verda deira. Foi o primeiro a utilizar a expressão Trata-se de um movimento religioso que propõe a sal vação através do conhecimento: para se salvar é preci so evadir-se deste mundo mau. a realidade da humanidade de Cristo. Cristo ter-Se-ia limi tado a assumir a aparência de carne. vai defender com toda a ener gia a fé católica contra Nestório. Originário da Ásia Menor. Bispo de Roma (Papa) a partir de 440. tenta descobrir. para isso. TERTULIANO (155-220). é o primeiro escritor cristão de língua latina. Escreveu numerosas obras contra toda a espécie de adversá rios. Na sua cristologia. — ORÍGENES (por volta de 185-252/253). afirmando. através des te. A gnose encontrará um adversário terrível em S. foi. de uma maneira espe culativa. nós não fomos salvos. Patriarca de Alexandria. Inácio. dá realce especial e isto contra os docetas ao carácter real e verdadeiro da carne humana de Cristo e da ressurreição do corpo resgatado por Cristo. Para os gnósticos. foi aceite como norma de fé (449). desempenhou um papel decisivo nas controvérsias cristológicas. porque só foi salvo o que foi assumido por Ele. Policarpo e. bem como uma du pla Apologia. «O Verbo de Deus fez-Se o que 53 52 . Nascido em Cartago. CIRILO DE ALEXANDRIA (por volta de 380-444). mas domiciliado em Roma. exilar o patriarca. o que levou a que a sua posição fosse qualificada de docetismo. ou seja. como expressão autêntica da fé ca tólica. insistiu na novida de cristã. Desenvolveu uma teoria completa sobre a preexistência da alma hu mana de Cristo. afirmando. na terminologia teológica. Vai ser o animador do concílio de Efeso. por cinco vezes. Ire neu de Lião. de quem nos ficaram Cartas. onde conheceu S. Bispo de Antio quia. A sua Carta a Flaviano. consagrou a vida ao estudo cientí fico da Escritura. ATANÁSIO (298-373). no qual a sua teologia triunfará. IRENEU (por volta de 130-202). LEÃO MAGNO (+ 461).

Prólogo). isto é. Ário. o debate cristológico vai conhecer ainda outros progressos. gerado não criado. Vão surgir então duas posições contrárias sobre o conhecimento do mistério de Cristo. um sacerdo te de Alexandria. — — A crise rebentou em Alexandria. depois de Ireneu e para além dele. Uma tal concepção põe em causa de uma for ma radical a salvação cristã.. não está suficientemente preparada para dar conta da Sua união com Deus e da Sua divindade. embora se corra o risco de atenuar. segundo ele. 54 . pelo contrário. V. ao qual acrescentaram algumas fórmulas des tinadas a suprimir a ambiguidade que surgira. criador de todas as coisas. único gerado do Pai. escreve ele no seu Tratado contra as here sias. a transcendência de Deus em relação ao mundo. que. luz de luz. tal qual acontece pelo Verbo fei to carne? E a crise ariana que vai obrigar a Igreja a pre cisar a sua linguagem a fim de salvaguardar uma fé ameaçada pelo racionalismo grego. senão de esquecer. põe-se a tónica na humanidade de Jesus. que privilegia a autenticidade humana de Je sus. Jesus Cristo. E em um só Senhor. Reunidos em Niceia. Filho de Deus. E uma criatura hu mana. Em Alexandria. propõe uma doutrina bastante simples. sobretudo no século IV. visíveis e invisíveis. todo-poderoso. A sua argumentação será retomada constantemente pe los Padres da Igreja. não passa de uma substância criada. o Verbo. posições essas que se vão desenvolver. Eis o referido texto: Cremos em um só Deus-Pai. O esforço de Ano pode ser considerado como uma ten tativa de helenizar o cristianismo: Deus. da substância do Pai. ao longo das controvérsias. e a Sua imanênciana história. depois é que Se tornou Pai. C — A FÉ DE NICEIA (325) Duas posições contrárias sobre o Mistério de Cristo Mas Santo Ireneu não trava sozinho esta luta da fé. Por isso Ano afirma que «houve um tempo em que Deus ainda não era Pai. a Sua realidade humana (perspectiva «Verbo-carne»). para apresentar a unidade de Cris to com Deus.nós somos. desde o momento em que é criada. lugar de residência de Verão do Imperador Constantino. Adoptaram esse credo. a um tempo. Deus verdadeiro de Dus verdadeiro. Mas.) O próprio Verbo de Deus foi criado do nada». criada por Deus.. Por isso mesmo o Filho não pode ser considerado como Deus que toma carne humana. Esta cristologia do «Homem-Verbo». considera-se o mistério de Cristo a partir da Sua origem divina. Deus de Deus. ligada a certas passagens bíblicas. O Filho nem sempre foi Filho (. Como é possível afirmar. 318 Bispos orientais vão res ponder ao desafio ariano e propor uma definição da fé elaborada a partir de um credo já existente. consubstancial ao Pai (também se pode traduzir a palavra grega homoús sios por «da mesma natureza») 55 O problema fundamental posto por estas duas posi ções contrárias é o da vinda de Deus à história dos ho mens para partilhar plenamente a condição carnal da humanidade. segundo a qual era impossível que Cristo fosse Deus. para que nós fôssemos o que Ele próprio é» (Con tra as Heresias. Em Antioquia. uma em Alexandria e outra em Antioquia. não pode comunicar-Se ao mundo de uma forma autên tica.

recusando. conforme vimos atrás. a rea lidade divina e a realidade humana do Seu ser? Sobre estas questões. em 377. 2. faz parte do próprio ser de. sobre o estatuto trinitário do Es pírito Santo. Sobre a pessoa de Cristo. o que é expresso pela palavra «con substancial». dois pontos importantes: • Se Jesus é Deus. Por causa desta diferença de perspectiva irá ressurgir a questão cristo lógica. que exprime a salvação cristã sob a forma de relato das intervenções de Deus na história dos homens revela-se insuficiente para ex primir o dom da fé. 1982. a compatibilidade desta transcendência com a sua comunicação absoluta aos homens em Jesus Cristo. pp. Na sequência do Concilio. vai nas cer uma outra posição radical por volta dos anos 428-429. Irá ser denunciado por San to Atanásio. Sesboüé. Mas nem por isso ela deixa de ser essen cial. Fixaram e basearam o que Deus fez por nós por e em Jesus Cristo naquilo que Ele é em Si mesmo. • Os Padres do Concilio completaram a linguagem descritiva da Escritura acrescentando-lhe a linguagem ontológica. novo Patriarca de Constantinopla. porém. no Concilio de Alexandria. a transcendência (4) CÍ.Deus. • Os Padres conciliares quiseram. Sem pretendermos separar do resto o contributo deste Concilio. que Jesus. e subiu aos céus. Por outras palavras. 97-98. e pela nossa salvação desceu e Se fez carne.B. que por nós. de forma clara. Teve. depois de Niceia. esse Homem que sofreu sob o poder de Pôn cios Pilatos. de onde virá julgar os vivos e os mortos. que re 57 56 . na «relação ontológica» que liga o Pai com o Filho. que Ele tenha urna alma humana: «A natureza incarnada do Verbo Divino é uma só». E no Espfrito Santo. Sublinham. ressuscitou ao terceiro dia. Antioquia e Alexandria tinham visões diferentes. de uma vez por todas. com Nestório. déste modo. uma intensa reflexão sobre Deus e o conhecimento que podemos ter d’Ele. na Igre ja. por isso. mas mantendo. por nós e pela nossa salvação. desenvolveu-se. proclamará ele. como salvaguardar integralmen te a Sua humanidade? • Como se conjugam n’Ele. em todo o caso. achamos importante reter alguns pontos fun damentais: A linguagem da Escritura. Jésus-Christ dans Ia tradition de 1 ‘Église. Desta maneira se salvaguarda a trans cendência de Deus em relação à história. etc. (362) e conde nado pelo Papa Dâmaso. sem se exclufrem. os homens. tornou-Se homem. face à ameaça ariana.por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra. absoluta de Deus em relação ao mundo. restavam em suspenso. Apolinário de Laodiceia assume a defesa da úni dade de Cristo. CONCÍLIO DE ÉFESO (431) Da tendência de Antioquia (homem/Verbo). Desclée. Os Concilios cristológicos Não se deve limitar o trabalho de Niceia à questão cristológica. afirmar. de integrar vocábu los técnicos pedidos de empréstimos à cultura grega e explicitar-se através de um «ou sei a» (4). sofreu. Pa ris.

CONCÍLIO DE CALCEDÓNIA (451) Apesar do pacto de unidáde assinado pelas duas par tes. é o próprio Deus que é encontrado. encarregada de «negociar» esta unidade. para nós e para a nossa salvação gerado da Virgem Maria. após a união da humanidade com a divindade. uma graça particular. ficando salvaguardadas cada uma das duas naturezas 13 sem divisão nem separação 15 e juntando-se numa só pessoa e numa só hipostase. como o simbolo dos Padres da Igreja no-lo deu a conhecer. porém. Será Cirilo de Alexandria que se tornará. Foi o triunfo da teologia de Alexan dria: em Jesus. não produ ziu nenhuma nova definição. segundo a humanidade 11 um só e mesmo Criato Filho. o ser de Cristo não é verdadeiramente uno: se Ele é ho mem. confessamos e ensinamos unanimemente 1 um só e mesmo Filho. Monogénlo ( = Único) reconhecido em duas naturezas 12 sem confusão nem mudança 14 não sendo a diferença das naturezas suprimida pela união. o paladino da fé: em Cristo. outrora. é mais propriamente mãe de Cristo. ou seja. mãe do homem em quem Deus habita». mas é o Verbo em pessoa que é ho mem. pelo contrário. O problema que se pu nha era real: Se Jesus é Deus. como pretender que Ele seja ainda um homem autêntico? Se Lhe reduzimos a humanidade. e Deus aproximou-Se autenticamente dos homens. ser uma pessoa divina: a Sua humanidade é posta em relação com o Verbo por uma graça particular. certas fórmulas de Cirilo e começou a defender que. deve ser então uma pessoa humana. condenando e depondo Nestório. sem discernimento. não é o Verbo que assume o homem. apenas se man tém em Jesus a natureza divina. Para ele. excepto rio pecado 9 gerado do Pai antes de todos os séculos. Maria não é «nem mãe apenas do homem. Jesus Crlsto. Eutiques.cusa dar a Maria o título de «Mãe de Deus» (teotókos). Nestório introduz um terceiro ele mento. mas. em tudo semelhante a nós. isto é. Monógeno. não (um ser) partido ou dividido em duas pessoas 16 mas um só e mesmo Filho. Por volta de 448-449. não pode. por isso. Jesus Cristo como os profetas. 59 . retomou. segundo a divindade 10 mas nos últimos dias. certos escritos de Cirilo. Verbo. no-lo disseram acerca d’Ele. nem mãe de Deus. Não chegando a pensar na unidade da humanidade e da di vindade em Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo 2 o mesmo 3 perfeito em dMndade 5 verdadeiramente Deus o mesmo e o mesmo 4 perfeito em humanidade 6 verdadeiramente homem (constituido) por uma alma raclonai e um corpo consubstancial a nós 7 consubstanclal ao Pai segundo a divindade o mesmo 8 segundo a humanidade. um monge mais teimoso. Para Nestório. no-lo ensinou. como Ele próprio. O Concilio de Efeso (431). Senhor. reunido para acabar com estas discus sões que ameaçavam a unidade do império. com a sua autoridade. Senhor. face a Nes tório. comprometemos toda a mensagem cristã: 58 Definição de Calcedónia (Ler o texto segundo a ordem dos números) Segundo os ensinamentos dos Padres da Igreja. o Verbo tornou-Se verdadeiramente ho mem. Antioquenos e Alexandrinos continuaram a opor-se entre si. Reforçou. Deus.

Kasper. 1962. que procuravam. 216-223. 356-357. Ao afirmar a liberdade hu mana de Jesus. isto. reduzida a um instru mento passivo da Sua natureza divina. reúne-se um novo concilio. «O mesmo e único Cristo tem uma vontade divina e humana. Que é que está em jogo em todos estes debates? Os Concílios sempre tiveram a preocupação de definir com exactidão a identidade de Jesus: Ele é verdadeiramente Filho eterno de Deus (Niceia) e por Ele Deus tornou-Se autenticamente «Deus connosco» (Efeso). a cristologia dogmá tica atinge o auge. à comunicação com o ho mem: Ele é verdadeiramente Deus e autenticamente ho 61 60 . O que quer dizer que a incarnação de Deus não foi representação. Se há alguma diferença radical a manter entre Deus e a humanidade. em Deus. na qual reafirma os grandes dados da cristologia. ao recusar a Cristo a vontade divina. Mas. Um novo Concí lio ecuménico. ou se ja. Th. Nele se afirma cla ramente a unidade de Cristo («um só e mesmo»). Para o texto da carta de Flaviano. que concorre em conjunto para a sal vação do género humano». para dar uma interpretação autori zada das formulações de 451. incluindo a Sua morte. de facto. Por espfrito reconciliador. só e mesma pessoa. Ephèse et Chal cédoine. Em Ale xandria. reafirma o dado de Calcedónia. certos limites. a vontade divina: é o monotelismo. quem morre é realmente «um da Trindade» (Unus de trinitatepassus est. pp. porém. Na cruz. na autentidade da divindade e. reunido em 680-68 1 (Constantinopla 111). em Calcedónia. Convocou-se um Concflio. como se pode notar pela disposição do texto que acrescentamos em local próprio. apesar de ter. Por outras palavras. Este texto continua a ser uma referência fundamental para todas as Igrejas. pp. ele «separa este problema de todo o conjunto do destino e da história de Jesus».da humanidade de Cris to. perto de Cons tantinopla. ao insistir «exclusivamente na constituição íntima do sujeito divino-humano». conforme afir mam os monges chitas dessa época). é levada a cabo na liberdade humana de Jesus e através dela. Kasper. para realçar um novo enun ciado da fé. A definição de Calcedónia é um modelo de equilíbrio. 1976. Paris. estes últimos punham em causa a autenticidade humana de Jesus. o Concílio quer sublinhar que a nossa salvação. Em 451. Com efeito. a natureza divina: é o monofisismo. conforme escreve W. toda a história humana de Jesus. amea çada pelos Alexandrinos. Orante. mas insiste-se igualmente na distinção das naturezas. Faltava garantir a estabilidade. Este Concilio reafirma com vigor a unidade das naturezas na pessoa concreta de Je sus: o Filho eterno de Deus e o homem Jesus são uma (5) W. em 553 (Constantinopla II). à católica e à protestante. Camelot. não tinham acabado. Para salva guardar a unidade da fé. e em particular da relação que Ele tem com o «Seu Pai». alguns recusaram os Concílios precedentes e começaram a professar que em Cristo não havia senão uma natureza. ver P. a todo o preço. tem por agen te o Filho Eterno. Cerf. Paris.( ) 5 SEGUNDO CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA (553) Com o Concilio de Calcedónia. certos teólogos orientais puseram-se então a proclamar que em Cristo só havia uma von tade. o Papa Leão escreveu a famo sa Carta a Flaviano. TERCEIRO CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA (680-68 1) As querelas.Deus não é realmente o «Deus connosco». mas alargando-o até às vontades. ela não se opõe. desde a ortodoxa. fruto da acção de Deus. Jésus le C’hrist. conciliar a definição de Calcedónia com as fór mulas de Cirilo. patriarca de Constantinopla.

o cuidado especial de não esquecer que o argumento da salvação foi o apoio cons tante desta busca. precisamos de evocar ainda dois momentos que marcaram de forma decisiva a con frontação sobre o mistério de Cristo: a Reforma e o sé culo das Luzes. A sua busca. o homem só merece a cólera divina. Em nome da Escritura: Lutero (1483-1546) Lutero não é um contestatário da tradição cristoló gica. por exemplo. A Reforma. a começar pela autoridade da fé. Ninguém pode consegui-la pelas obras. Percorrendo estes dois séculos. Homem profundamente religioso (). Estas contestações vão inaugurar os tempos modernos. nunca rejeitou a fé cristã. Paris. porém. a dimensão histó rica. que nós distinguimos. uma viva consciência da sua condição de pecador. que ressoa ainda muito fortemente na teologia protestante dos nossos tempos. soteriológica e histórica). quis apenas renová-la. A teologia de Lutero não aceita ou tras fontes para além da Escritura: sola scriptura. era de natureza soteriológica: o que não foi assumido não ficou salvo. nestes debates. é muito importante que entendamos o que está em jogo nos momentos essenciais em que se foi cons truindo a regra da fé das Igrejas. Desta maneira se torna presente. podere mos medir todo o esforço que uma verdadeira compreen são da fé exige do crente. Luther. «crucificado por nós sob Pôncio Pilatos». Se quiser ser salvo. La foi de Luther. 5. contes tou toda e qualquer autoridade que não fosse a sua. pela (6) Ver M. témoin de Jésus-Christ. 1973. Teremos. em comparação com as três dimensões re feridas (ontológica. a dimensão ontológica que sai honrada. foi sempre guiada pelo acolhimento do dado fundamen tal da fé: tratou-se.. Olivier. de forma implícita. 1978.mem (Calcedónia). porém. Cerf. Lienhard. Quanto ao Século das Luzes. da total incapacidae do homem para alcançar por si próprio a salvação. é. En quanto pecador. sobretudo. 1. Para situar correctamente o seu contributo. Dá-se conta. o facto Jesus Cristo. já que um dos argumentos mais fre quentes. La cause de l’Evangile dans I’EgIi se. Beauchesne. é Deus em pessoa que actua (Constantinopla II) e a salvação que nos é oferecida n’Ele e por Ele. Antes de abordar os 62 63 . A Tradição contestada Não é propósito deste nosso livro expor toda a his tória da fiem Jesus. Na vida ena morte de Jesus. Lutero colhe na Escritura um acutilante sentido da transcendência e da glória de Deus e. II. oferecido por Deus nesta singular figura de Jesus de Nazaré. Les étapes et les thèrnes dela christologie du Réformateur. envolve também e ple namente a sua liberdade humana (Constantinopla III). porém. mas proporcionar aos cristãos dos nossos tempos a assunção da fé como coisa própria. ao mesmo tempo. bem como D. As duas contestações não são. no entanto. Pa ra isso. * * * Estes debates mostram até que ponto os Padres da Igreja tiveram o cuidado de exprimir a fé utilizando ex pressões da sua própria cultura. cap. de comunicar o dom da salvação. idênticas. só pela fé o pode conseguir. nos quais lança raízes o nosso século. para eles. a sua teologia tem uma tonalidade no va. Todavia. convém recordar algumas traves mes tras da sua teologia. deste modo. debates contemporâneos. Paris.

no mundo antigo. A partir de aqui são fáceis de compreender as orien tações cristológicas de Lutero. alguns. esta «idade da razão» identifica-se com o século das Luzes. Enquanto.fé em um Deus que o declara justo sem que para isso haja qualquer mérito da sua parte. Lutero tem realmente em conta a humanidade de Cristo. Esta filosofia nasce de várias fontes: o Renascimento e a Reforma. Como poderemos ca racterizar esta época filosófica? Emancipação da razão De modo geral. no que diz respeito à vi são do mundo. importa tudo o que Cristo é «para nós»: o Seu amor. a que se dá relevo. apesar da cólera contra o pecador. Paulo. sote riológica. Em nome da Razão (século XVffl-XIX) Dados os limites do nosso projecto. reflexo de um mundo imaterial e imutável. Em relação ao Mundo Antigo. o Universo era entendido como um cosmos organizado. Anexo 11). que servem para desvalorizar a própria ideia de religião. as grandes desco bertas e o desenvolvimento do comércio. que especula sobre o modo de incarnação e o modo da união das duas naturezas em Cristo. Acontece ainda que. E um regresso aos problemas dos Padres da Igreja. 5 65 . mas para ser transformado. o século XVIII. a redenção que Ele ga rante à humanidade. Aufkliirung. Quanto a Jesus Cristo. surgem então muitas e variadas rupturas cujos efeitos se fazem sentir até às problemáticas do século XX. E é a este tí tulo que pode tornar-se objecto de ciência. e a expressão da solida riedade de Cristo com os pecadores. da emoção. da piedade. Já não é al go para ser contemplado. que ocupa um lugar cen tral na sua teologia. chegam mesmo a pensar que Ele não é mais que a projecção desta pro fundidade. chamado. é. A cruz. protegido por um de sígnio de Deus. Mas. a Sua realidade corporal e psi cológica. mas na fraqueza. torna-se incompreensível para a própria razão. essencialmente. como Feuerbach. A teologia de Lutero é uma reacção contra a Esco lástica. o qual. 2. para não falarmos das guerras de Religião. já que toma sobre Si esta mesma cólera para também dela libertar os homens.18-31). Como em S. a sua contestação é. sem prestar muita atenção à dimensão ontológica (o que Cristo é em Si). o mundo moderno concebe-se como um mundo autónomo em que o mun do tira a sua consistência e as suas leis de si mesmo e depende única e simplesmente do homem. ai64 guns aspectos indispensáveis para compreender as problemáticas cristológicas actuais. assiste-se a uma verda deira subversão coperniciana. a propósito do século das Luzes. entrega o Seu Filho. a soteriologia corre o risco de se evaporar por falta de fundamento. a consciência que Ele tem da Sua missão (cf. na Alemanha. a expressão deste amor de Deus. Não rejeita as definições conciliares. ao mesmo tempo. e daí em que é que isto me diz respeito?» O que Cristo é «em Si» pouco importa. mas es quece a história concreta de Jesus e o Seu empenhamento na história dos homens. Apenas sobrevive o Deus do co ração. o drama da cruz é de novo situado no coração da cristologia: Deus não Se re vela no poder. «Ele confunde a sabe doria dos inteligentes» (lCor 1. E conhecido o texto célebre: «Cristo tem duas naturezas. vamos contentar-nos com evocar. se a existência de Deus não é negada como tal. um Deus que já não está ao lado dos objectos mas na insondável profundidade humana. o nascimento da ciência. Deus não é necessariamente rejeitado neste mundo que tem o homem por centro.

o qual escreveu: «Não me pergunto o que foi ou o que pode ser por ventura o Cristo real e natural oposto a este outro Cris to sobrenatural. pelo contrário. a teologia protestante. Jesus é. consiste inteiramen te no apego a Jesus de Nazaré e à salvação de que Ele é portador. escreve ele. 1968. contingente. uma vez alcança da a sua própria maturidade. Nestas condições. 1977. «A especifici dade do cristianismo. a resultados bastante contestáveis. Para dar conta do facto cristão e da sua pretensão à universalidade. regressa à figura concreta de Jesus. faz desaparecer a dimensão soteriológica. tem a ver. particularmente o capítulo sobre Feuerbach. Pensa reconduzir a ela a sua época e. um ser necessário. e pretende emancipar-se da tutela do dogmatismo: a interpretação da Escritura não compete à autoridade eclesiástica. Dá-se então uma ruptura essencial: o mistério de Cristo é esvaziado do seu sentido. A especificidade de Jesus. Paris. Desclée. que é o resultado de uma ficção ou de — — — um devir. por isso. sem. Tilliette. vai falar-se de «teo logia liberal». pode ser salvador em benefício dos ou(7) L. L ‘essence du Christianisme. deve mes mo fazê-lo. para isso. toda ela. por assim dizer.Um primeiro divórcio aparece logo no fim do sé culo XVII entre Escritura e Dogma. é Deus que é pensado como determina do pelo homem. e. Prefácio da segunda edição. em Cem anos de Debates sobre Deus. Pensamos que basta referir três tentati vas neste sentido. A história deixou de ser um lugar de verdade. Jesus foi salvo. Com o racionalismo. na Alema nha. Paris. de um andaime. mas a discipli nas científicas. Tal é a tese de Feuerbach (1804-1872). já que os factos contingentes da história não podem ser fonte de verdades necessárias. a razão do sécu lo XVIII faz muito mais do que isso. um sábio. De onde re sulta que a vida de Jesus. não tendo necessidade de salvação para Si mesmo. vai reagir a esta situação que socavava os alicerces da fé em Cristo. prosseguido em nome da razão e à revelia de todo o dogmatismo. Maspero. não pode tornar-se o lugar de nenhuma verdade sobre Deus. que a razão. vai revalorizar a histó ria. Ver ainda: X. este Cristo religioso. 66 67 . como se sabe. fá-lo-á através da reintrodução da di mensão histórica. (7) Revalorização da história No século XIX. Enquanto Lutero en fraquecia consideravelmente. Schleiermacher (1768-1834): Schleiermacher con siderava o cristianismo como «a mais eminente religião do mundo». por sua vez. não passando mesmo de uma projec ção deste. com a intensidade e eminência da Sua «consciência de Deus». Cen trurion. Estando em comunhão total e constante com Deus. La christo logie idéaliste. a dimensão ontológica da fé em Cristo. como toda e qual quer vida humana. um mestre de moral (Kant). aceito. Um outro divórcio aparece com Lessing (1729-1781) entre história e razão. Chegará. no entanto. Feuerbach. que é. a negar. no entanto. com Baruch Spinoza (1632-1677) e Richard Simon (1638-1712). 1968 e Marcel Neusch. sem nada negar das exigências da razão. A insistência unilateral de Lu tero na pessoa de Cristo «para nós» tinha como resulta do pensar o homem como determinado por Deus. na Sua essência. Embora permitisse à razão pro gredir em direcção à verdade. Para quali ficativo deste esforço. Aux sources de I’athéisme contemporain. pode dispensar. no máximo. O estudo científico da Bíblia aparece. a história não passou. mas mostro que este ser supra-humano não passa de um produto e um objecto dos sentimentos sobrenaturais do homem».

obra da comunidade cristã. nos Evangelhos senão a con cretização da ideia. por isso. de todas as suas dimensões: ontológica. as reivin dicações de uma razão que se pretende autónoma e re cusa toda e qualquer autoridade exterior. na sequência de outros. Estes trabalhos trouxeram para o primeiro pia no a dimensão histórica rejeitada por Lessing. subli nha o afastamento que há entre o Jesus histórico e o Cris to da fé. A cristologia contemporânea irá esforçar-se por recompor este conjunto. Com os tempos modernos. O catolicismo. como também ar quétipo (Urbild). Em boa verdade. que opõe quer História (Jesus)/Ideia (Deus). à margem das interpretações doutrinais já propostas no Novo Testa mento. um mito criado pelas comunidades. Enquanto o catolicismo. na perspectiva anterior. Puseram-se então a estudar cientificamente. (8) • As Vidas de Jesus: Numerosos autores tentaram reencontrar. era o autor a projectar a sua ideia sobre Jesus. cada autor criava pa ra si um rosto de Jesus. o protestantismo entra de rompante na problemática moderna. Esta tarefa será assumida sobretudo pelo protestan tismo. tentando assumir a no va cultura dominada pela Razão. A escola da História das formas (Formgeschichtschule) virá confirmar esta toma da de posição pelas comunidades na elaboração dos evan gelhos. Aparece uma dupla bipolarização. recusando o divórcio en tre a fé e a razão. porém. * ** No decurso do período em que se elabora a tradição dogmática da Igreja. como iria demonstrar Alberto Schweitzer. Fracassaram. Deixa de haver cristologia no sentido estrito. como uma experiência salvadora. A partir de então. a situação desta comunidade. Ao passo que. soteriológica e histórica. a dualidade inerente a todo o dis curso sobre Jesus Cristo muda de lugar. Estas novas bipolari zações exprimem-se. F. porém. que acumula69 68 . verificar e fundamen tar o seu apego à personalidade de Jesus. os Padres tentaram exprimir o mis tério começando por acolhê-lo como uma revelação e vivendo-o. através da história. através do estudo. uma vez que a Pa lavra de Deus foi despojada de toda a autoridade. pelo contrário. A quem aceitar seguir a via religiosa por Ele aberta. isto é.tros: não somente imagem ( Vorbild). concluir que Cristo não passa de uma Ideia. mas sem. (8) J. quer História/Senso (fé). Só que a sua fé continuava viva e submissa à Palavra de Deus. Doré. Puf. No decurso desta travessia da modei ni dade. 1984. Paris. Vêm. sob a forma de oposições: E a história ou a fé. então. sucessivamen te. portador da Ideia. deste modo. artigo Schleiermaeher no Dictionnaire des Religions. porém. Deus não passa de uma palavra que recusa o homem. p. Strauss (1800-1874) te ve o cuidado. 1547. agora. a cristologia foi sendo despojada. o homem torna-se senhor do próprio mundo e toma consciência de si e das suas próprias possibilidades. perpetua as problemáticas centradas sobre o modo de união da divindade e da humanidade do Verbo Incarnado. na sua História da pesquisa sobre as vidas de Jesus (1913). os alicerces mais fun dos do cristianismo e. é a comunidade crente que se projecta. o Jesus da História ou o Cristo da fé. No século das Luzes. Já Lutero deslocara a tónica para o homem e a sua salvação. que a reli gião tem por função servir». e a tarefa da história consiste em reencontrar. as mais das vezes. • Um mito concreto: D. de regressar à his tória. Jesus revela como e porquê a essência humana se realiza nesta unidade com Deus. Não via. depois.

Deus-connosco e fonte de salvação. Filho de Deus? Será possível con tinuarmos fiéis à tradição dos grandes Concflios cris tológicos. A partir dos anos 60. ifi. Corte. e o Cristo da fé. uma respeitante ao ser filial de Jesus. Hegel). que não ad mite senão os factos da experiência e afasta a busca das causas. 1123. Estes homens perguntam-se a si mesmos se o sobrenatural não teria sido excluído pela filosofia e escorraçado pela história. do aparecimento das ciências bíblicas. a teologia católica entra em diálogo permanente com a teologia protestante. apesar da diferença cultural que nos separa deles? Estas perguntas devem merecer toda a nossa aten ção. também eles impressionados com os grandes textos místicos da India antiga. à Sua cons ciência e à Sua liberdade. homens muito ao corrente dos esforços do positivismo. Schopenhauer. Os debates da cristologia do século XX foram suscitados pelas exigências da modernidade. Corte entre uma Revelação em que Deus Se dá por e em Jesus Cristo e uma procura humana que não aceita outra autoridade senão a sua e que tem tendência para reduzir Deus a uma projecção que o homem faz de si mesmo. sempre se posicionaram de uma forma re lativamente autónoma. fundado res do Idealismo alemão (Fichte.ra atrasos sobre atrasos. Pannenberg e ou tros) não têm cessado de a influenciar. não devem ser interpretados apenas num sentido negativo. p. As vias da cristologia A crise modernista O cerne do Modernismo consiste no seguinte: homens inquietos. Pesquisas contemporâneas Como haveremos de assumir.. a cristologia estava. porém. entre o Jesus da história. teólogos) impressionados com a fi losofia alemã. Shel ling. que vinha da Idade Média. de algum modo deslocada. sofre o verdadeiro choque da modernidade no começo deste século com a crise mo dernista. depois. Nos começos do século XX. sobretudo a de Kant. que tem uma significação universal e actual. Trataremos. 1. e as descobertas das ciências auxiliares da História. Puf. duas propostas. face ao progresso da ciência. e a dos seus sucessores. críticos.. Desenvol — — — 70 71 . que era resultado de uma certa hegemonia da reflexão metafísica e. que levam a pôr em causa o conteúdo his tórico dos Livros Sagrados. desde que apareceram. que nenhuma cristologia pode ignorar. 1984. a confis são de fé em Jesus. com os atrasos acumulados pela Igreja. E que eles puseram em relevo alguns aspectos. segundo a qual já não é possível atingir a ordem metafísica. Estes «cortes». Faremos. mais tarde. Modernisme. que. no entanto e em primeiro lugar. (Extracto de Y. e outra relativa ao conhecimento de Cristo. in Dictionnaire des Re ligions. art. alimentados também pela tradição neoplatónica. Podem assi nalar-se vários cortes mortais: Corte entre o estudo bíblico e o estudo cristológi co. marcada pelo debate da teo logia liberal ao menos no Ocidente. con forme vimos. ao Seu agir filial. das vias actuais da cristologia. hoje em dia. Marchasson. finalmente. discípulos e intérpretes. homens (histo riadores.. e os gran des teólogos protestantes (Bultmann. numa palavra.

a redenção e Deus. Corset. p. a renovação da cris tologia católica demonstrou estar em plena vitalidade. em 1951. ouvinte desta Palavra. por um lado.0 centenário do Concilio de Calcedónia. opondo «a determinação teológica irreversí vel do homem por Deus à determinação filosófica libe ral de Deus pelo homem». Mas. (10) Cf. diferente mente de Barth. Bultmann (1884-1976) põe em muito maior relevo a dimensão antropológica da fé. Só temos uma res posta: Jesus Cristo. Labor et Fides. A tal ponto que não faltou quem o acusasse de regresso à teologia liberal e racionalizante do século XIX. p. Recherches de Science Reiigieuse. Por ocasião da celebração do 15. Bultmann. Genebra. Barth». Esquisse d’une dogniatique. Assim se proclama uma teologia que recusa todo o compromisso com o mundo ou com a razão hu mana. Da mesma maneira não podemos compreender a relação entre a criação. 101. para o homem. a Sua natureza ou até a Sua história concreta. primeiro. pelas renovações missionária e litúrgica. partindo da história das religiões. no terreno. não o Cris to em Si. julga ele que é preciso interpretar a Escritura com novos cuidados. incluindo o per curso histórico de Jesus. Eo homem que interessa. Só que. Karl Barth escreve: «E a partir de Jesus Cristo e só d’Ele que podemos tentar ver e compreender aquilo de que se trata na ópti ca cristã. separá-la das reresen tações demasiado ligadas a uma visão pré-científica do mundo: é !quilo a que ele chama a «desmitologização». R. 72 (1984).» (10) A busca do homem (Rudolf Bultmann) Enquanto Barth encara com alguma negligência as vias humanas que nos conduzem a Deus. 9 tem outro fundamento que não seja a Palavra do mes não mo Deus. sobretudo pela renovação dos estudos bíblicos e patrísticos e. E sobre o horizonte de uma vida confrontada com a morte e o absurdo que a Palavra de Deus podé ter. Logo a seguir à Primeira Guerra Mundial. e Paris. acha que é preciso prestar uma enorme atenção às condições da compreensão: o homem só po de acolher a Palavra de Deus a partir da compreensão que tem da sua própria existência. em terreno protestante. 495. 483-526. 72 73 . e a Igreja. a criatura e a exis tência.veram-se. um sentido. mas. 1984. por — — outro. faz esta pergunta: é possível ao homem do século XX crer nesta Palavra? Este cuidado de apresentar a Palavra de Deus de tal maneira que possa ser compreendida pelos nossos con temporâneos leva Bultmann a fazer uma dupla opera ção: por um lado. atingiram também o mundo ca tólico. que sublinha a objectividade da Pala vra de Deus. pp. Estamos em presença de um esforço teológico que faz lembrar Lutero. por outro lado. embora viesse a ser preparada de longa data. (9) P. pondo-se do lado do sujeito. começou a expurgar as pesquisas da teologia liberal e a trazer para primeiro plano a Palavra de Deus. quando abordamos o grande problema que não deixa nunca de nos espantar e que nós não pode mos formular sem correr os mais graves riscos de erro da relação entre Deus e o homem. A Aufldirung nascida da razão opõe ele a Aufklãrung do Evangelho( A fé em Deus ). A oferta de Deus (Karl Barth) Pode ser considerado pioneiro desta renovação o teó logo Karl Barth (1886-1968). Une Aufkhirung à Ia lumière de I’Evangile: K. Karl Barth. tanto em Bultmann como em Barth. Cerf. só partindo da relação que a pessoa de Jesus Cristo exprime o pode mos conseguir. a partir da década de cinquenta. a busca humana é de si incapaz de se apoderar da fé. E verdadeiramente Deus que retoma a Palavra.

Rahner introduz uma ideia forte. a única que interessa realmente ao homem. 2. A figura de Jesus Faltava reintroduzir no cerne mesmo da reflexão cris tológica a história de Jesus. Paris. quando ela. assim. (11) Teremos oca sião de reencontrar Karl Rahner. pelo menos ao nível da expressão. W. Do lado católico poderia encontrar-se um ensaio com parável na cristologia de Karl Rahner (1904-1984). Para ele. que é a razão de ser da sua existência. Em compensação. Só que o que está em jogo é uma mudança de sensibilidade e de cul (12) W. E que é no contacto com a figura concreta de Jesus Cristo que o desejo desperta e Deus Se revela. protestan te. para acolher esta salvação. por fim. Desclée de Brou wer. é o teólogo que mais fez neste sentido. Só nos falta mostrá-lo.mas o «Cristo para mim». Entre a história e a mensagem opera-se um divórcio. Pannenberg. E por causa desta busca de sentido. 85-88. Não se trata de um defeito. enquanto tal. Mas a pesquisa teológica dá-lhe a sólida arti culação entre aquilo que Jesus viveu e o que viveu a co munidade apostólica. que pode resumir-se nestas palavras: Deus revelou-Se (‘‘) Cf. quando falarmos do ser filiar de Jesus. KarI Rahner também se preocupa. Censuraram a Pannenberg ter atin gido a gratuidade da fé e a sua liberdade. O aprofundamento da existência concreta da figura de Jesus. Esquisse d’une christologie. neste homem». permitir o acesso directo à fé. pp. Por isso se realça uma oposi ção já descoberta no século XIX entre o Jesus da histó ria e o Cristo da fé. que constitui preocupação da terceira perspec tiva (de Pannenberg). Deus oferece-Se em silêncio como o absoluto. de algum mo do. naturalmente. que o homem pode reconhecer em Jesus o dom ou oferta de Deus. E com toda a razão. se manifesta em Cristo». E necessário que cada uma destas perspectivas con tinue aberta às outras. 26. «a tarefa da cristologia é apoiar na história de Jesus o verdadeiro conhecimento da sua significação. O ser filial de Jesus Ao apresentar as definições conciliares. Pannenberg. em última análise. que a segunda (a de Rahner) tem ten dência para atenuar. Cert 1971. E esta presença silenciosa de Deus no homem que permite ao mesmo homem perceber a men sagem última ou definitiva sobre a existência. mesmo tendo em conta que foi demasiado longe. Paris. na medida em que parece pôr a fé na dependência da investigação históri ca. Aujourd’hui Dieu. Estas duas dimensões são insepa ráveis. A primeirã (Karl Barth) tem o mérito de sublinhar a gratuidade e a liberdade absoluta da oferta de Deus. o mistério sagrado. com o homem e a sua sal vação e interroga-se sobre as condições que preparam o homem. também é muito importante. p. o empenhamento de Deus na história. 1987. (12) A análise exaustiva do facto históri co Jesus Cristo deveria. A dimensão salvífica. elimina. atenuando. já sublinhá mos que elas integram pouco a ordem do devir e a ex periência de Jesus de Nazaré. já inscreveu nele o desejo de conhe cer o Rosto divino. ao criar o homem. 74 75 . a dimensão ontológica (o que Cristo é em Si) e a dimensão histórica (o que Cristo fez e viveu em concreto). E possível resumir deste modo a mais notável das suas in tuições: «Antes de Se revelar na figura histórica de Je sus. na medida em que sublinha que Deus. ainda que em contexto muito diferente. Marcel Neusch.

Embora este Outro esteja dependente d’Aquele que o criou. 1959. Rahner abriu um caminho que nos leva a uma melhor compreensão do devir de Deus e da Sua «passibilidade». 282: «Jesus homem é Deus porque é Filho: existe divinamente sobre o modo filial. como é o caso do homem criado à imagem e semelhança d’Ele. em suma. Esta maneira de compreender as coisas torna-se clara à luz da criação. Jesus define-Se por referência a Alguém que Ele chama Seu Pai’. 121. Eis o ter tornado homem essencial. 1983. anthropologie». Deus constitui o que é distinto d’Ele (o ho mem) como sendo algo de Seu (Jesus homem é Deus). podemos partir de uma intui ção de Karl Rahner. dado que Jesus é um homem livre que fala em Seu próprio nome: «Eu. porém. 1963. que Ele pode ser «afectado» no Seu empenhamento na his tória humana no que ela tem de mais íntimo. vista no seu conjunto. a incarnação e a salvação. Esta perspectiva. Quanto mais radical é a de pendência em relação a Deus. Cerf. Para exprimir o ser filial de Jesus. tal qual a evocam os Evangelhos. Tem a possibili dade de sair de Si mesmo. na Incarnação. Ver. Falar de passibilidade. Foi neste sentido que Karl Rahner tentou si tuar a incarnação do Filho na economia criadora e salvadora de Deus. «sofrer». ao mesmo tempo. Deus constitui o outro a criatura como radicalmente distin. ou seja. pp. Duquoc. mas é um Absoluto que pode sujeitar-Se.tura. Centurion. Paris. (14) So bre este ponto precisamos de aprofundar a sua reflexão. 148-161: II. p. tem o mérito de reunir o que a teologia clássica separava. a cria ção. 76 77 . criação e incarnação. seja de que modo for.14 («o Verbo fez-Se carne») e vendo a incarnação como o ponto mais alto da criação Karl Rahner toma muito a sério o facto de Deus Se tira daí as consequências. Karl Rahner foi neste senti do. (‘hristologie 1. 241-258: Ai nier Jésus. porém. a que convém regressarmos ainda. a propósito de Deus. no entanto. Pelo que nos resta dizer de outro modo a mesma verdade. chris tologie. pp. (13) Partindo de João 1. Deus constitui aqui lo que é distinto d’Ele como a Sua própria realidade. estabelecendo o outro com a Sua própria realidade. Todas es tas expressões são tiradas de um documento da Comis são teológica internacional. ibidem. digo-vos !» Desta maneira. Desclée. Deus. não apa rece lá muito bem na sua teologia é a união concreta do Filho ao Pai. Para evocar o mistério do Filho. per manece todavia autónomo. Catholique. partiremos do empenhamento de Deus na história. Com a Incarnação. Paris. mais a criatura é autónoma e livre. e isto por amor e com toda a liberdade. o «sofrer» de Deus bem como o Seu envol vimento na história da salvação. e. Deus é o Absoluto. Criando. honrando assim a busca de uma leitura contem porânea de Calcedónia. Este nosso propósito su põe que entendemos o discurso actual acerca da «passibilidade» de Deus. — — (13) Para o documento da comissão teológica. cujo estatuto no seio da Igreja romana é mais que oficial. de uma forma real. que nem vislumbrada foi pelos Padres da Igreja. a qual estabelece uma correspon — — (14) CI. de 16 de Janeiro de 1983. 40-54. o que. DescléedeBrouwer. Paris. tal qual Jesus o pô de viver concretamente. deste modo.pp. demasiado presos à expressão da nião na pes soa de Jesus do divino e do humano. pro ximidade radical já que Jesus é Deus. é admi tir que Ele pode. 81-101: Traité fondamental dela foi. L honlInc Jéus. sobretudo: Ecrits théologiques 1. ver: Thologie.to d’Ele. humilhar-Se e sofrer. pp. que algo de novo Lhe pode ainda acontecer. Por um acto de livre despoja mento de Si. Voltando a ligar. atingimos o ponto mais alto da obra criadora: temos. p. au tonomia não menos radical. Aquele que em Si mesmo é imutável. Permite exprimir. tal qual o expri me a teologia contemporânea. 1985. Ch. Paris. tem a capacidade de «Se tornar». 1968. número 1844. in Doc.

impli citamente.) sobre o assunto da revelação da Sua missão. pois não tomaram inteiramente a (15) Este problema da consciência de Jesus é um proble ma moderno.15). há dois problemas que merecem atenção: a consciência de Jesus e a Sua liberdade. Dreyfus. pensa que. no decurso da Sua vida. que Ele vai exprimir a Sua relação eter na com o Pai. o impasse sobre os limites da Sua humanidade. bem como as narrativas da agonia). 106-1 15. já que muitos cristãos continuam. 1981. Ora dos Evangelhos podem tirar-se dois dados: A ignorância de Jesus. a saber. A Sua perfeição está ao nível da Sua santidade. 1984. como pensavam os es colásticos. muito mais modesta. é assumir uma história.dência entre o facto de ser homem e o de ser filho. D. desde este mundo.10. Do mes mo modo que ser filho é receber-se de um Pai como ser autónomo. Paris. que só pela morte atingirá a sua plenitude. Se alguma perfeição se pode procurar na huma nidade de Jesus.5-11. Trata-se. pro blema difícil. a visão dos bem-aventurados. Não introduzimos estas perspectivas por pretender mos procurar a novidade a qualquer preço.. (15) sério a humanidade de Jesus. perfeito só Deus. (16) Deduzia ela a psicologia de Jesus da união hipostática. Embora seja o Filho. Jesus também está.36 e par. mas reconhecendo esta origem. 2. Se este (16) Distinção que falta na obra de F. O agir filial de Jesus As reflexões precedentes são um bom começo para abordarmos a questão relativa ao agir filial de Jesus. O que Jesus é como Fi lho eterno revela-se e realiza-se na Sua história de ho mem e é na Páscoa que se manifesta definitivamente e em plenitude o Seu ser-filho. entrar no tempo hu mano e participar no seu devir. Cerf. já que não existe uma «natureza humana» per feita. Nasce de tudo isto uma visão dinâmica da Incarnação. E deve pôr-Se nas mãos de Deus numa obediência total (Fi 2. E nesta relação que Jesus vive como homem. O ser-Filho de Jesus devia ter o carácter de tornar-se-Filho». isso sim. Ver a posição do Autor em Jésus-Christ chemin de notre foi. Wiederkehr. Incarnar. assim. criando.. pp. temos de basear-nos no testemunho evangélico. a relação com o Cria dor manifesta-se na condição de criatura. Os evangelhos mencionam claramente esta ignorância de Jesus (Mt 24. Cerf. docetas.Esquisse d’une théologie systématique. na perfeita obediência ao Pai. pp. em Mysreriurn saluris. Ora a Escritura diz-nos que Ele é «em tudo igual a nós. XI. A este respeito. Hb 5. . Pelo simples facto de que Jesus era de natureza divina logo O dotavam de um saber perfei to e atribuíam-Lhe. A teologia moderna. de honrar as novas tentativas contemporâneas dando razão à história e à experiência de Jesus. excepto no pecado» (Hb 4. a caminho da realização efectiva do Seu ser de Filho. não é somente atingir a humanidade em determi nado ponto. que traz inscrito em Si. 1975. 123-125. Apenas este último interessou à teologia clássica. Ser criatura é assumir a relação de origem procedente do Criador. Jésus savait-iI qu’iI était Dieu? Paris. «a hora da vinda do Reino». Para um homem. Jesus não sabe tudo. se queremos falar da consciência e do conhecimento de Cristo. supe rior aos anjos. 78 79 . «Como todo e qualquer homem. essa perfeição não está certamente ao nível da Sua «natureza humana».7-10. que deve distinguir-se do problema do co nhecimento de Jesus. Ser homem é receber-se do Criador como um ser diferente e autónomo. Paris. Cerf. A consciência de Jesus 3. para Deus.

E isto porque Ele é o Filho. O Seu comportamen to e as Suas palavras. O portador da sua Palavra. mesmo na angústia e na noite (Get sémani e Calvário). respeitando a condição de homem dependente de Deus. E preciso considerá-los em conjunto. se queremos prestar justiça ao mistério de Jesus. Estes dois aspectos contrastantes (ignorância e au toridade). cuja única in terpretação possível. tomada a coisa no seu conjun to. A consciência que Cristo tem de ter sido en viado pelo Pai com o objectivo de salvar o mundo e — 80 81 . quando diz «Eu». Este primeiro dado sobre a ignorância e o fracasso de Jesus deve conjugar-se com outra atitude do mesmo Jesus: a Sua extraordinária au toridade. é a preparação da Igreja. permaneceu fiel. devem também fazer-nos descobrir o verda deiro rosto de Deus: um Deus-Amor. Foi em vista deste desígnio que Jesus realizou acções concretas. a qual apenas será constituída definitivamente aquando dos acontecimen tos da Páscoa e Pentecostes. Jesus é umho mem verdadeiro. Seu Pai. O privile giado da Sua intimidade (abba). Jesus quis juntar os homens em vista do Reino e reuni-los à Sua volta. Sempre Se apresenta como O repre sentante de Deus. Como Filho. a quem pertence o Reino e de quem depende e de mais ninguém o desígnio criador e salvador. Aceitou livremente a vontade do Pai e deu a vida pela salvação dos homens. A este título Jesus não recebe a Sua autoridade de nenhum me dianeiro humano. homem de fé. 3. não se opõem. Ele assume-Se como procedente do Pai. de modo que o mundo se reconcilie com Deus e se renove. Apesar do fracasso e no fracasso. que prejudicam as nossas ideias acerca de Deus. A vida de Jesus é testemunha da consciência da Sua relação filial com o Pai. Jesus tirava esta autoridade incomparável da Sua singular relação com Deus.5) ou não poder reunir os filhos de Jerusalém (Mt 23. coabitar perfeitamente com a consciência muito viva da Sua missão. Sendo Pessoa divina. também há nessa vida uma consciência segura de estar acima de todas as mediações da Antiga Aliança (lei. Para ter uma cons ciência bem apurada dessa missão. Jesus não tem ne cessidade ser dotado de um conhecimento sobre-humano. Mc 14. 4.24). Anjos). 2.abaixamento de Cristo e a Sua morte na cruz são para nós um escândalo. neste caso. tinha consciên cia de que o Pai O enviara para servir a multidão e por ela dar a vida (cf. a quem chama «Meu Pai». que são as do «Servo» perfei to. Templo. Mas este «Eu» divino incarnou de verdade.37). Jesus conhecia o objectivo da Sua missão: anunciar o Reino de Deus e torná-lo presente desde logo na Sua pessoa. portanto. Tinha consciência de ser o Filho único de Deus e. Se há momentos de ignorância na vida de Je sus. A autoridade de Jesus. A ausência de conhe cimento pode. de ser Ele próprio Déus. mesmo assim. é verdadeiramente um «Eu» divino que Se exprime. que teve de enfrentar o fracasso: Ele próprio declara não poder efectuar certos milagres (Mc 6. implicam uma autoridade que ultrapassa a dos antigos profetas e que Lhe vem de Deus e de mais ninguém. nas Suas palá vras. Com o objectivo de realizar a Sua missão salví fica. nos Seus actos. Pelo que se impõe a afirmação clara de que Jesus teve intenção de fun dar a Igreja. não escapa aos condicionalismos do conhecimento e do querer huma — Quatro proposições da comissão teológica internacional sobre a consciência que Cristo tinha de Si mesmo (Dezembro de 1985) 1.

meio deuses. n. apesar do desmen tido dos factos.. a saber. 916-921. um comentário a cada uma destas proposições). com uma soberana liberdade. meio homens. no qual todo o homem pode ler o que Deus espera de cada um. Deus assume um rosto na pessoa de Jesus. goza também de plena e inteira liberdade.° 1926. que seja a imagem deste Filho para «receber» a Sua plena humanidade. de modo misterioso. pô de apresentar uma cristologia com o título de «Jesus.20). de tal modo está presente n’Ele a Palavra que (17) Edições Paulistas. * * * A liberdade de Jesus Jesus é um homem plenamentê livre nas Suas deci sões. E este ros to é o de um judeu no qual se realiza a vocação do povo de Israel. de 19 de Outubro. o Seu querer «recebe-se» totalmente do querer do Pai. Lisboa. por outro lado. este é. E. não para o encerrar numa compreensão pretensamente exaustiva e irreformável. Sempre atento ao Pai e em comu nhão com Ele. vive apenas da vontade do Pai. quer se trate de regressar à representação do mundo grego. porém. De tal maneira que é possível dizer que «o Filho de Deus amou-me e entregou-Se à morte por mim» (GI 2. na Sua vida. Este aparente para doxo mostra o que os Padres da Igreja tinham intuído já no Concílio de Constantinopla ifi: verdadeiro Filho. Se mostre neste homem de uma forma imediata. Cristian Duquoc. Enrai zado na vontade do Pai.convocar todos os homens na formação do povo de Deus implica. para os Gregos. o verdadeiro escândalo para os Judeus. ao mesmo tem po. E do maior interesse realçar que a extrema sub missão de Jesus a Deus harmonizou-se. na liberdade e no reconhecimento d’Aquele que Lhe deu a vida. Documentation Cathollque. Para o cristão. 2. Jesus não procura o apoio de outras autoridades para sobre elas assentar a Sua. quer da 83 82 . (17) E no entanto esta extrema liberdade não faz com que Jesus hesite entre múltiplas escolhas possíveis. Prescrutando-o. (o Documento é. Lucas diz-nos que Ele «crescia em sabedoria e em estatura» (2. de facto. Ele é o homem total mente filho. a vocação de todo o homem. ou seja. mas. realiza plenamente a vocação de Adão. é um mistério que é preciso acolher. fonte e fim de todas as coisas. Por um lado. com tudo aquilo que significa não só de possibili dades como também de obscuridade. a inteligência cris tã conseguiu «defini-lo». 1979. uma loucura. Como poderemos ad mitir um tal paradoxo? Que o Deus invisível. Todas as nações são chamadas a reconhecer n’Ele a imagem do Deus invisível.a cd. mas para fixar as regras da linguagem destinadas a respeitá-lo e a salvaguardar a unidade da fé das diver sas Igrejas. é preciso actualizar nos factos e nos gestos. Os discípulos acolheram-no e entregaram-lhe a vi da. eis o que não po dia deixar de ser. devotadamente. neste homem que viveu e morreu du rante o governo de Pôncio Pilatos. Ele é o homem diante de Deus. tanto que um teólogo. fala como se Ele próprio decretasse a lei. em que os deuses ina cessíveis comunicam com a humanidade através de in termediários.52). nunca hesita diante do caminho a tomar. no seu conjunto. estatu ra esta que não tem a ver apenas com o corpo. homem autêntico. o amor pelos ho mens. pp. E desta maneira que Jesus é o modelo acabado da salvação. nos. e. ho mem livre». Jesus não conheceu o pecado. E tendência dos homens transformar o inau dito no muito bem conhecido.

no qual Se reflecte a ternura de Deus. como muito bem presentiu Lutero. porque foi rosto de cru cificado. Tanto num caso como no outro. que. é consti tuído fonte de salvação. O ícone do Deus invisível é o rosto de Jesus: o rosto de um homem autêntico. o rosto do Salvador. apenas temos um deus à imagem dos homens: não um ícone. na Sua própria morte. iCor 1. mas um ídolo. para a qual só o verificível é verdadeiro. E este rosto que precisamos de contemplar.23-25 84 . mas rosto desfigurado.representação racionalista. III O MESSIAS CRUCIFICADO Deus salva-nos em Jesus Cristo Nós pregamos um Messias crucificado. Aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens.

A Igreja nasceu desta ex periência.18-25). Vimos. temos a garantia de que aquilo que Cristo levou a cabo.A dimensão da salvação. mas. que o argumento da salvação era. os quais exprimem a salvação: re conciliação. 1. abordada nesta última eta pa.8. para os cristãos. que marca a diferença cristã.A experiência pascal é. a nossa reflexão vai desenvolver-se à volta de três termos-chave. redenção e revelação (Anexo II). para os Santos Padres. o principal apoio. Reconciliação O cristianismo propõe-se. Por isso a nossa atenção se vai agora concentrar num aspecto essencial. loucura para os pagãos». há-de desenvolver-se em todos aqueles que O acolherem na realização do Reino de Deus. Preocupados com dar conta desta fé. Com o dom do Es pírito. uma esperiência de salvação. como nosso irmão mais velho. que continua a ser o melhor instrumento re gulador de pesquisa da Igreja. com efeito. a fé cristã pretende que a salvação veio para todos os homens através da morte de Cristo. Com efei to. igualmente. expressão da sua mais profunda fé: «Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores» (Rm 5. já estava presente desde o princípio do nosso per curso. na sua es sência. fazer um percurso de salvação. 87 . isto é. iCor 1. como aliás acontece com outras religiões. Esta linguagem é «escândalo para os Judeus. sempre que tentavam definir a identi dade de Jesus na Sua relação com Deus.

A salvação salvação no singular porque é apreendida como uma realidade absoluta e inultrapas sável traz em si o desejo de uma plenitude tal que o homem não a pode alcançar por si mesmo: donde o apelo a . — — — — 1. chamada a partici par da Sua vida divina. que o homem pretenderia manipular.. marcado pela finitude e pela morte. No entanto. a libertação de ai uma coi sa. intervenção essa considejpda. Jesus de Nazaré. neste ser de carne. Por outro lado. para a vinda do Messias. a Sua Palavra (Ver bo). livres de ambiguidade: um homem pode sonhar-se como um «ser pleno». a 1 ertação através de Alguém. Quem fala de salva ão fala mente da ui lquesa va como d’Aquele que salva. cujo nome significa «Deus salva». cujo percurso histórico o Antigo Testamento nos relata. seja qual for a sua raça ou nação. o recurso a um outro para se completar mesmo que pelo recurso à alteridade de Deus comporta o risco de reduzir o outro a um ser «utilitário». a noção de salvaçao cristã não se limita ao rimeiras Imp ica. o Seu Filho. os Padres da Igreja quiseram dar conta da salvação como um encontro com Deus em pessoa. Desde logo. recusando a sua condição de «ser inacaba do». antes de mais. sem duvida. N’Ele se completam e se ãbam todas as mediações. Através deste povo escolhi do. A salvação evoca. a libertaçãoe um perigo grave. mira culosa. a aspiração irreprimível à trans cendência e à plenitude pode ser compreendida como sinal gravado no homem pelo acto criador de Deus de uma «vocação» à comunhão com Aquele cuja imagem ficou gravada no coração do ser humano (Gn 1. dá-lhe uma terra e um rei. Confia-lhe instituições. so re o.um outro. porveze. Ao criar o homem. homem da nossa raça. Eimportan 88 te sublinhar isto. o caminho da salvação não parte do homem. Neste povo particular Deus abre um caminho para chegar a todos os povos. Estas ambiguidades de vem ser reconhecidas no exacto momento em que pro curamos definir o lugar essencial que Cristo ocupa lá bem no cerne da interrogação humana. Deus abre um caminho para Si próprio. Esta oferta de Deus à humanidade vai «tomar cor po»ffnitivameniiiste homem Jesus de Nazaré. p1. já que Ele é o dom de Deus. «Deus recebido» e «Deus co municado».27-28). Aquele que recebe totalmente do Pai. como um Templo e uma Lei. Deus dá-Se livremente e por amor a um com parsa. a Sua aliança. A salvação que ele espera pode depender deste sonho insensato. cujadinastia se dirige.dar uma resposta às aspirações humanas mais fundamen tais. Emanuel (Deus connosco). começa no próprio Deus. Ao definir a au tenticidade da divindade e da humanidade de Jesus. Jesus. por pura escolha divina. que Ele convida a selar com Ele a Aliança que lhe propõe. a uma espécie de ídolo. Deus quer fazer aliança com todos os homens. con cretamente. caminho de Deus para a humanidade Na revlaçãojqdeo-cristã. Escolhe um povo determinado. numa palavra. a Sua comunicação sem reservas. Jesus é. Estas aspirações humanas não estão. Só que o encontro entre Deus e os homens não é ai de automáfiëõPara que ele aconteça e préiiqiie gp sejam suprimidos diniausejpëcãEffihiïgarsco — —- 89 . Supõe também a ipiejveçãp de um outro. que o ateísmo contemporâneo não cessa de denunciar como uma ilusão. ao mesmo tempo. porém. face à suspeita dos que vêem na ideia iãiima projecção dos sonhos humanos. mas.Para Se unir a esta humanidade. mas não pode renunciar a essa pleni tude sem se renegar a si próprio como ser de desejo e de ultrapassagem. com as quais exprime.

e que vai do homem para Deus. qe Deus arrancaàservidão do Egpp. Isto explica que a morte de Cristo já se anuncia de algum modo nestes textos. iluminação. no seio de um mundo que recusa a imagem de Deus proposta por Jesus. esta última é particularmente cara à tradição oriental. exprime-se em noções como sacrifício. Les tentations ei le ehoix de Jésus. A escolha de Jesus é a escolha do Pai. já que a sua me mória está carregada de más interpretações. mas é seu advogado diante de Deus. levadas a cabo or Deus em favor do homem e em vista e uma comunhão perfeita com Ele. percopçjp aminho que o próprio Deus abriu. Efectiva e completa a salvação na medida em que realiza em ple nitude a vocação de Adão: n’Ele se revela uma humani dade totalmente filia]. um caminho de abaixamento. ascendente e descendente. a humanidade pode recusá-l’O ou escolher outras salvações diferentes da que Deus oferece. da salvação que Cristo trouxe à humanidade. enquanto «filho mais velho de uma multidão de irmãos (Rm 8. expiação. este as pecto da salvação aparece em variadas noções tais co mo libertação. E é p6r isso que o dom da salvação é ao mesmo tempo liberta ção das escravidões e das cadeias que a humanidade pôs nos próprios pulsos. Na vida de Jesus. O êxodo do povo judeu. é a figura priiordjld todas as libertações. 1986. E aqui que surge a outra linha da salvação.lher Deus. coisa que a teologia irá exprimir com o termo «Kênose». Aquele que nos reconcilia Estas duas vias. Document Episcopal. Quan do Se faz carne. este dom da salvação também to ma forma: a forma de uma luta contra as alienações. pôr a Sua complacência (Mt 3. que não se quer dessolidari zar dos homens.5-11) é uma das mais belas expressões. divi nização. aliás fundamen tal. esta Viã «ascendente» no seguimento de Cristo. em Notes sur Ia théologie de Ia Rédemption.17). justificação. Deus «esvaziou-Se de Si próprio». Cerf. exprimem orTstério de Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro ho mem e no qual se efectua a reconciliação de Deus e da (1) Ver B. representação. Toda a Sua vida é modelada pela Sua relação com o Pai que d’Ele 90 e n’Ele recebe a resposta que espera da humanidade: urna resposta livre de um Homem que nada reserva para Si. mérito. Assim se traça uma Drimeira linha. (1) O Seu sim a Deus contrasta com o não dos homens em favor dos quais Ele veio ao mundo e pelos quais oferece a Sua vi da. e será isso que O levará à cruz. Estes termos são particularmente frequentes na tradição ocidental e deverão ser esclarecidos. Na tradição. satisfação. a resposta de Jesus não será possível sem combate. Paris. (2) As principais noções que moldaram a linguagem da salvação cristã são apresentadas de forma sistemática por B. também esicial. caminho da humanidade para Deus O encontro entre Deus e a humanidade atinge o seu ponto culminante na existência de Jesus de Nazaré. Jesus. A ilustração des ta luta em que teve de envolver-Se e que O levará ao Calvário é dada na narrativa das tentações. que morreu por nós e em nosso nome. via «descendente». manifestando. 91 .29). perdão. no seu náme ro 18 de Dezembro de 1983. (2) 3. pelo perdão que concede. Vivendo num mundo que recusa Deus. Rey. como diz o hino. 2. Na tradição. por isso mesmo. Sesboüé. de que o hino da Carta aos Filipenses (2. Abaixando-Se. o Verbo de Deus torna-Se história. E verdadeiramente homem se gundo o coração de Deus e no qual Deus pode. Até na renúncia e no despojamento mais absoluto Ele é solidário dos homens. mo mento decisivo da nossa história humana.

entretanto. Deus livra-os também das escravidões. A. Perdoando aos homens os seus pecados.19-2 1). Redenção «Redenção» é um termo medieval. 1985. sobretudo. «Este Homem. 3 demos distinguir três etapas. pouco a pouco. sem dúvida Aquele pelo qual o Reino de Deus vem. uma liberdade tomada filial. para que entre eles possa ser restaurada a reconciliação. 1. 1987. é preciso começar por lembrar a forma como foi compreendida pelas pri meiras comunidades cristãs a significação da morte de Cristo. Por isso a Sua morte não pode continuar a ser encarada como um acidente. os Profetas (o Servo sofredor) ou os Salmos (o justo perseguido. compreenden do que.8-9).30). animada pelo Espírito do Filho. N. • Um derradeiro avanço seproduz. a redenção reencontra o seu destino original . antes de mais. mostrando co mo as grandes figuras da Torah. 92 . E o que faz Jesus no caminho de Emaús (Lc 24. é porque dá razão à Sua mensagem e à Sua acção. lhe descobrir o significado exacto. Face a es ta morte. «Não era pre ciso que o Cristo padecesse e que entrasse na Sua gló ria?» A ressurreição deixa de ser uma coisa oposta (mas) para estar associada (e) à morte de Jesus. uma fa iiade.36. pouco a pouco. Para. cap. Em Cristo. Besançon( po ). na sua sede de poder. A expressão «por isso» une num todo o que o «e» da fór mula precedente se contentara com justapor. Vai-se assim criando. Paris. • Numa segunda etapa. reedição. à ressurreição de Cristo. Não é. Morto pelos nossos pecados Se as primeiras comunidades prestaram atenção. por isso Deus O exaltou» (Fl 2. que os discípulos não compreendem. Torna-os novamente irmãos no seio de uma criação li bertada. não cessam de pilhar e degradar.1) e que entra «livremente na Sua paixão». cruz scânda lo. Foi-se. a morte é integrada no de sínide Deus. que ama «até ao extremo» (Jo 13. mas de ve ser integrada no desígnio de Deus. Deus concede ao homem o &m de ir ao Seu encontro com uma liberdade renovada pelo Seu perdão.27 e 44). Desclée de Brouwer. Basta pensar nas armas nucleares. Jesus é. Este termo. 93 iZui II. se Deus justifica Jesus desta maneira. é vivida como um fracasso do desígnio de Deus (Lc 24. 2. «Humilhou-se a Si mesmo tornando-Se obediente até à morte de cruz. pois é a morte de um inocente. à criação. de facto. que apanhasse Deus desprevenido. ohia to entre a morte ea ressurreição. Dieu sauve. Bezançon. 13. im pregnou profundamente a nossa cultura religiosa. igualmente. que vós entregastes e eliminastes. em J. quan do os discípulos compreendem que esta morte eÏiína Tõgica da existência de Jesus. sublinham. que significa a mesma coisa que salvação ou libertação em linguagem bíblica. Como é que os discípulos conseguiram ultrpassar o escând?jo da cruz e compreender que era obra de salvação? Na peugada de J. A redenção diz respeito. para esta passagem. a ressur reição surge como um protesto de Deus contra a injustiça. • Numprimeiro tempo.24.19). um laço de causa a efeito entre a morte e a ressurreição.humanidade (2Cor 5.18-25). também é verdade que muito cedo começaram a interrogar-se acerca da Sua nçii. mas o resultado das escolhas de Jesus. que os homens. Deus ressuscitou-O» (Act 2. (3) O autor inspira-se. dominante na tradição latina. Salmo 22) são anúncios antecipados do Cruçificado. 5. N.

ao passo que o «sob Pôncio Pilatos» chama a atenção para a particularidade desta morte. assim associadas. Paris. a morte de Jesus não voltará a repetir-se: «Morrendo. Turner. pura e simplesmente. • Uma outra figura da salvação é a de C’risto vítima. mostrando-nos o cami nho. Essai sur Ia doctrine patristique de la Ródempdon. 1965. Só que o seu alcance atinge todos os homens e todas as épocas. Houve quem vis se nisto uma teologia de inspiração joanina. com preendendo aquele «por nós» na sua dimensão univer sal. Cerf. a reflexão sobre a morte de Cristo deve tirar dela o seu sentido universal. as quais. Esta orienta ção.27. insiste menos na acção dos homens do que na acção de Cristo. a par tir de então. Inspira-se em noções pedidas de empréstimo sobretudo a domínios como o do culto (sacrifício) e do direito (satisfação). destinado a reconduzir a Deus o coração endurecido do homem.10). aqui. o lu gar em que o próprio Deus nos garante a Sua presença. O escândalo da cruz começa a ser vencido a partir do momento em que a morte de Jesus é assim inserida num sistema explicativo. para S. Insistir exclusivamente na história de Jesus leva a que consideremos a Sua morte. que é um aconteci mento datado e situado historicamente. Cristo é.Morte e ressurreição. mantém os olhos fixos no que foi historicamente a vida e a morte de Jesus. por outras palavras. compreendido como o Cordeiro. podem resumir-se a quatro( A primeira é a de Cristo luz: Cristo salva-nos. 95 . sem que esta realidade fosse nomeada. Jésus le sauveur. Hb 7. mantendo-se o mais possível perto dos motivos que O levaram à condenação. na peugada de ) 4 H. (4) H. Paulo e os outros Evangelistas fazem dela o substituto do Templo. tendo em conta a Sua vida. Insistir exclusivamente no alcan ce universal da morte de Cristo seria outro exagero: fa 94 ria dessa morte algo de abstracto. Esta perspectiva siblinha claramente o papel de Deus na sal vação do homem e o papel do homem. A morte na cruz aparece aqui co mo o supremo acto de amor. E o papel de Deus na história lá se es fumava pura e simplesmente. João. Para evitar estes dois extremos. A cruz.10. como dizia Bultmann. como a morte de um herói: uma morte como outras ou o «fim de um coração generoso». Na era patrística. E assim se compreende que o Novo Testamento veja na cruz a mais sublime expressão da salvação hu mana. então. no entanto. 2. foi o pecado que Ele matou de uma vez por todas» (Rm 6.34-37). De uma vez por todas A teologia da redenção tenta explicar o carácter sal vífico da morte de Jesus. Turner. é uma árvore de vida de que o Espfrito brota (Jo 19. 9. Enquanto acon tecimento particular. co mo mestre de sabedoria que é. Os primeiros cristãos tinham conse guido conservar este equilíbrio. Como pode um destino particular dizer respei to a toda a humanidade? Aqui temos nós um dado que desenha os contornos de toda a soteriologia cristã. tal qual aparece enunciada no Credo: «crucificado por nós sob Pôncio Pilatos». que as sume como Seus os pecados do mundo. o qual. muito realçada na teologia latina. o risco de apresen tar o combate de Cristo-como um gigantesco drama em que lutariam Deus e o pecado. iniciando-nos no conhecimento do Pai. 10. Correríamos. compreendidas como uma única fonte de salvação. já que não dava a devida importância às circunstâncias históricas nas quais ela aconteceu. são.12. formulou-se a salvação alcançada por Cristo em dife rentes proposições teológicas. etc. que é convidado a acolher a salvação.

adquirido pelo esforço do homem. aliás. o serviço do Templo e o serviço da caridade (Lc 10e também Rm 12). parti cularmente sob a influência de Santo Anselmo (1033-1109). Ora estes desvios não podem fazer com que esque çamos o essencial. Grandes teólogos sou beram. por exemplo. A teologia me dieval. estabeleceu um rigoroso laço entre a incarnação e a redenção: se o Filho veio para o meio dos homens. o dom que Cristo fez aos homens. que supõe o dom radical por parte de quem o faz. Vulgarizada de forma desajeitada. Aquele a quem o sacrifício se destina. que reclama que se faça justiça a um pre — — • Sacrifício: O sacrifício. que transfigura o homem pecador com o sopro recriador do Espírito. Toda a vida de Jesus foi uma ofe renda absoluta de Si aô Pai e. por vezes. porque a Sua exis tência abre na história dos homens um espaço em que Deus é reconhecido como Deus de maneira absoluta.• Outro tema é este: o Cristo vitorioso sobre os po deres do mal. para a libertação da escravidão. pois faria d’Ele um monarca ciumento. To más de Aquino. Uma vez que os homens não podiam pagar. Ele «esvaziou-Se» e fez-Se servo. próximo do homem. por Aquele que Se fez. Este. Quando Cris to morre. através desta teologia da redenção. isto é. neste sentido. o qual retomando a história de toda a humanidade. E na sua peugada que nós devemos reexaminar as três noções-chave de sacrifício. opostos. em si mesmo. 3. a dívida que eles tinham contraído. mérito e satisfação. na vitória sobre os demónios. as noções tradicionais da teologia da redenção ficam falseadas: o sacrifício de Cristo é. por um Deus irritado. consti tuintes indispensáveis de uma teologia da redenção. a saber. com a insistência. mas não confere. em que aparecem. que é a nos sa poderia resultar numa verdadeira caricatura de Deus. e a satisfação não passaria do apaziguamento reclamado pela ira de um Deus vingador. sem 97 96 . tem o mérito de sublinhar que a salvação é alcançada através de um combate. foi para pagar. • Uma última forma de exprimir a salvação é a divi nização. que pensou a salvação como redenção. cioso dos Seus direitos. exigida. sem pactuar com quaisquer desvios. esta teoria que marcou profundamente a cultura ocidental. O sacrifício de Cristo salva-nos. verter toda a seiva evangélica. E. Esta figuração. pelo pe cado. de facto. a «re capitula» para a salvar (Santo Ireneu). certo ar mitológico. foi um sa crifício. Comparado com os temas precedentes. que põe a tónica nos méritos de Cristo. em todo o Seu ser. entendido como uma oferenda expiató ria. este tem a vantagem de orientar o olhar para a perspectiva da sal vação. porque o lugar da comunicação entre o céu e a terra passa. em Seu nome e em Seu lugar. Esta vida de filhos é uma vida natural com Deus. que assume. então. com o ob jectivode nos tornarmos filhos. E neste sentido que se deve ler a parábola do bom Samaritano. a partir daí. que só pode vir do Outro. dizendo um último «sim» a Seu Pai. Em nosso nome A tradição latina valorizou sobretudo a segunda pers pectiva. Ainda hoje lhe é sensível a teologia da libertação. como muito bem viram Santo Agostinho e S. ço exorbitante. o Fi lho ocupou o lugar deles. o da Sua própria vida. nessa altura. essa comunhão. sentiu grande atracção por esta maneira de encarar o proble ma. não reivindicando a Sua igualdade com Deus. é sempre orientado para o ou tro. o mérito ape receria como um direito. o véu do Templo pode rasgar-se de alto a baixo.

Redenção é um termo medieval. estabelecemos um laço sobre a base de um contrato. são os cristãos de outros continentes que dizem aos cristãos dos países ricos que descobriram o Deus salvador através da sua própria luta contra a injustiça. Paris. já denunciado por Lutero. E é tudo o que sabemos! Que uma noção de salvação traga consigo cono tações políticas é mais um sinal de boa saúde cristã. Desclée. Deus Lhe fez. em Théologies chré tiennes des tiers mondes. mesmo sem o dizer. à humanidade e à criação. entre um acto determina do e um fim conseguido. que é preciso salvar». abre um espaço para o Ou tro que é Deus (Mt 25. Sig nifica muito simplesmente que a salvação tem uma dimensão colectiva: trata-se da salvação do povo eleito. e os es tudos bíblicos aparecidos nos Cadernos «Evangile». é ‘ resposta ao dom que. 98 99 . Quando falamos de mérito. já que é uma ameaça que pode atingir a gratuitidade divina.°’ 7 e 8. os Bispos franceses propuseram esta as sunto à reflexão dos cristãos. sem o menor pecado. e levar os fiéis a acumular méritos ou a fazer colheitas nos mé ritos dos Santos. em Seu Filho. 101. Preferir palavras aparentemente mais «neutras» não é menos «perigoso»: nessa altura. Em 1974. que significa resgate. o sacrifício. 1979. sem cair na perspectiva mercantilista? Com este conceito corremos o risco de desenvolver um cristianis mo comercializado. Tentemos. que querem dizer tirar da servidão. 5 Deus( Do lado do discípulo. p. Redenção e Libertação Tem pouco sentido opor entre si as noções de re denção e libertação. tudo repousa sobre a gratuitidade soberana de ).9). a teologia da redenção sublinha que a salvação é fruto de uma ac tividade e de um combate humano travado por Jesus. «Desta maneira. por isso.. A noção do mérito é de muito difícil utilização em teologia. 1975. Lembremo-nos do velho cântico «Só tenho uma alma. prometida às multidões. ver: Le onardo e Clódovis Boff em Que é a Teologia da Li bertação? Para uma visão mais ampla de todos os continentes. à declaração que o fiel faz de ir por ele a Deus e de que. Centurion. Mas também está presente na re denção e nos seus antecedentes hebraicos. Paris. ver Bruno Chenu.3 1-46). Jósus-chris ou Dionysos. Li bertação é. Mas nem por isso podemos recusar o vocabu lário social e político. • Mérito: como entender a noção de mérito. que reo (5) P. Cf. Paris. E neste sentido que lemos o «por isso» (FI 2. La ti chrétienne en con fronlation avec Nietzsche. E neste caminho que Cristo compromete os Seus discípulos: onde quer que o homem dê lugar ao outro. Que há de espantoso que as noções que exprimem tudo isto tenham sido tiradas do vocabulário social e político? Claro que a salvação cristã tem um âmbito mais vasto e é de uma natureza diferente da das libertações hu manas. já que traz consigo conotações políticas. por vezes. 1987. daríamos a entender que a salvação não passa de uma coisa pessoal e reduzir-se-ia a sal vação de Deus à salvação do indivíduo. tan to a Ele como a todo o homem.a menor recusa. Traduz as palavras bíblicas de raiz he braica g’l e pdh. entendido no sentido de dom radical de si mesmo ao outro. Libérations humaines et salut en Jésus-Crist. O trabalhador merece o seu salário por causa do contrato entre ele e o empregador este contrato estabeleceu uma relação entre o valor do trabalho prestado e a remuneração devida. Para uma primeira documentação. Valadier. que tam bém faz parte da constelação de uma teologia da reden ção.. com preendê-la de uma maneira correcta. o sacrifício está ligado à confissão da alteridade divina. suspeita. Hoje. n. todavia. Recorrendo a esta noção de mérito para falar de salvação. Centurion.

* * * Sacrifício. Trata-se. compreendida como uma compensação que Deus exigi ria como contrapartida da salvação que nos oferece e que o Filho. pp. muitas vezes.». substituição.nhece um laço semelhante entre a vitória da ressurrei ção e o preço pago para a conseguir. Ele não exige do ecador que adquira a sua salvação e o re o ço so re. Pela satisfação. • Satisfação: Esta terceira noção é. radicalmente (sacrifíciol concede-lhe o dom de tomar parte no seu destino eterno a partir des mundo (mérfto). por causa de Cristo. Se há uma relação entre as ac ções humanas e a recomp&i esta relação é estabelecida - mente por Deus. por si mesma. o «resgate» não designa o preço a pagar pela remissão dos pecados. no entanto. tomando parte na libertação alcançada por Cris to na cruz. a histórdoeu pecado (satisfação). mas por arnor( ) 6 Dizendo que os cristãos devem «satisfazer» pela sua salvação. portanto. na obra da salvação. Schenker «Substitulion du châtiment prix de la paix? Le don de la vie du Fils de I’homme en Mc 10.45). Na existência cristã. Mas idoutrina católica fãIëfa iiFueus dá aos homens a possibilidade de ticipar na sua salvação.45 OU et par. a noção de mérito não deve ser desjua1ificada apriori. à Ia Iumière de I’A. em La Pâque du christ mystêre du Sa lur. Dizer que Cristo deu a Sua vida em «res gate» quer dizer que Ele Se entregou livremente para nos salvar. quan o (6) Sobre este ponto. satisfação três noções ititerli gadas no processo da redenção alcançada por Cristo. 1982. Se teria oferecido em nosso lugar. não da exigência de um juiz.T. E ainda: C’hemins bibliques dela non -violence. mérito. O destino de finitivo de cada um está ligado à sua maneira de viver e de se dar aos outros. pode particjpa construção do nosso ser . simplesmente. Deus dá ao homem o poder de «inverter a história que Ele próprio criou» (Ch. se cons 1 ui sem eus. Uma tal interpretação precisa de ser rectificada. E. 75-90.O Deus da Aliança concede ao homem o dom de se voltar converter a Ele. 100 101 . No Antigo Tes tamento. é. ver A. E sobre a base da solidariedade de Cristo connosco que nós cremos que a i5 liberda di. o facto de se de votar ao serviço dos outros não dá qualquer direito. a grande quantia de dinheiro que era preciso pagar para que fosse poupada a vida a um condenado.e filhos de Deus. satisfação. Du quoc). evoca. mas do dom livremente consentido para que o outro viva. Claro que nenhum homem tem direito à salvação. Deus respeita suficien temente o homem para o tratar como um ser respon vel. A sa tisfação sublinha o facto de que a salvação é onerosa e que é preciso «pôr-lhe um preço». Chambray-Ies-Tours. Deus estabelece um laço entre a nossa forma de viver hoje e a vida que Ele nos oferece em Cristo para sempre. concede-lhe o dom de inverter. Vê-se isso muito bem na Parábola do Juízo Final (Mt 25). Cerf. um fruto da graça e uma expressão do amor de Deus. por isso. •‘bérn ela. não para aplacar a justiça vingadoura de Deus. CId. não se sugere de forma nenhuma que Deus é Alguém que exige que Lhe paguemos as dívidas. Mas. também ela um dom de Deus. resgate e outras. Uma busca rigorosa sobre as noções de expiação. Paris. mas dá-lhe o poder de reconstruir oqe destruiu através da sua recusa. A satisfação. não é uma compra nem uma pa ga. des te modo.umano. 1987. «oferecendo-Se em resgate pela multidão» (Mc 10. Jesus faz iiexista um eS aço para Deus nesta nossa histó ria. que.nenhurnaten ratuitidade 7 taiti da salvação. Nãose co nete por isso. E isto porquê? Por que Deus respeita o hrnm.

que nos impedem de concluir gueJe qide facto. abandonado por todos. identificado com os pecadores. cego ou cruel. Primeiro. é um Deus embaraçoso. E é por isso que é uma prova para os que crêem emEus (lCor 1. i: atingido pelo mal. porque dá importância de nasiada. na cruz. sendo sempre o inocente tortura do. rejeitar o Seu Filho.$e calou no alto do Gólgota? Será que a cruz dá um sentido ao Seu sofrimento? Estas questões são me (Ivitáveis. Os gestos e i vida Je Jesus fazem vislumbrar um Deus totalmente incapaz le abandonar o Seu Filho no exacto momento da Sua maior angústia. Deus não tem mais resposta que o silêncio? E o rnisté rio do sofriiiento. E o eixo a partir do qual a história da huma nidade pode voltar para Deus. es 4uecendo as outras palavras do Crucificado. à citação de um salmo. usando para isso as palavras do Salmo 22: lamentação do justo per seguido. Revelação A cruz resulta do cruzamento de dois caminhos: o caminho de Deus para ÕTiomem e o caminho do hom para Deus. Pelo perdão e misericórdia. abandonado por Deus.46). os internos. Vamos dividir a nossa tentativa em três questões diferentes: como é pos ísj que Deus tenha deixado morrer o Seu Filho? Por i frtjw’ que é que.não contra Ele. o silêncio de Deus. E há outras razões mais teológiças pinda. Será este porventura o Deus anunciado por Jesus? A vida de Jesus revela um rosto de Deus bastante diferente.18-25). que surge. sem razão aparente parajsso. Face a tanto sofri mento e a este mal. a cruz não é so a «lingua em da salva ão dos homens». o Seu abandono. E cá teríamos nós a expressão extrema do amor de Deus. nu e cru. na peugada de Lutero.9). Depois. por exemplo. que sempre pra ticou. Se isso aconte cesse por Jesus ter assumido os pecados do mundo. Jesus retoma a prece de um justo perseguido. Mas será digno de fé o Deus que Se revela na cruz? Seja corno for. Jesus revela um Deus de uma extrema ternura. Vários teólogos do nosso tempo. aceita o castigo que Deus lhes destinou e assume o silêncio dos condenados. É o dom de Deus feito ao homem em Jesus Cristo. «Quem Me vê. ante o mistério de Deus. Poderá Q Deus de Jesus. O Filho abandonado Tanto Mateus como Marcos sublinharam o facto de Jesus ter gritado. r Não achamos aceitável esta maneira de dramatizar. que torna possível o dom do homem a Deus. seu criador. III. ps Ju deus tragados pelos campos nazis (ou a choá) fazem com que o vejamos em toda a sua crueza. habitados pelos pecadores e os d perados. que Se humilha até ao lugar onde Ele não habita. A mensagi da cruz não consiste apenas numa pa1vra sobre al ro do homem. era porque Deus continuava a ser o Deus do castigo. no trá 103 102 . Seu Filho. exclusiva mesmo. o Deus de Jesus Cristo. em parte alguma Se iden tifica com o pecador. tam ém reve a eus. interpretam este grito no sentido literal: Je sus.ito é. E são de agora como de todos os tempos. como. Mas porque é também a expressão por excelência do dom de Deus aos homens e o objectivo da incarnação. porque o salmo em si não quer dizer isso. que vem corrigir todas as palavras que os homens religiosos podem dizer acerca de Deus. deve ser entendida como uma pala viacerca de Deus. que Se põe à procura de quem se perdeu. vê o Pai» (Jo 14. a Sua oração confiante (Lc 23. pelo caminho que Jesus abriu. 1.

cap. Labor et Fides. E que Deus manifesta-Se gratuitamente. porque o amor não po de deixar de se expor à liberdade daquele que se ama. Deus habita o sofrimento O sofrimento é chocante e desde o princípio que os cristãos têm tentado dissipar-lhe a sombra. «Perante Deus e com Deus vivemos sem Deus.Ç. colect. Paris. Jesus. dá a dimensão exacta desta fraqueza. E têm gasto (8) Résistance er soumission. desta maneira. executado pelos nazis em 1945. faih-nos omni tentWëinflexíveis. «O Deus que está connosco nos abandoni». o seu me é amor. o qual. dá testemunho da gratuitidade de Deus. v. Será que Deus podia desfazer esse silêncio e mostrar. 1986. Ao dizer isto. 1963. O silêncio de Deus Partamos do princípio que Deus não podia abando nar o Seu Filho. Genebra. mas pe1iífiiqueza e pelos Seus sofrimentos». D. Quando os homens inventam deuses para si mesmos. escreve ainda Bonhoef fer. Então porque Se fecha num defensivo silêncio? Atingimos ás fronteiras do mistério. E nem após a ressurreição o Filho ensina aos Seus inimigos o que devem fazer. (9) Cf. a Sua «temível força»? Deus não costuma proceder desta maneira.gico momento em que Este não passa de um agonizante mergulhado em trevas? E uma perspectiva que se não pode aceitar. p. como nunca. os próprios discípu los se admiram com esta discrição. amor que se faz próximo. 162. Ainda que isso lhe custe. J. p. por isso mesmo. 1976. 104 105 . Penser après Auschwitz. (8) Estar diante de Deus e com Deus e viver sem Deus sig nifica aceitar a nossa condição humana e não esperar que Deus ocupe o nosso lugar.:. Nada há mais desarmado que o amor. Desclée. Sobriflo. Já em Belém Se mani festou num Menino pobre e recusado (Lc 2. ao silên cio de Deus no Monte Calvário. Leures de prison. . Um Deus fraco não corre o ris co de ser confundido com um Deus fabricado pela mão do homem. cruz e o ugar em que Deus diz o Seu verdadeiro no me. Deus-connosco. neste capítulo. Se Deus guardou si lêncio no Calvário. como um Deus silencioso. Limitar-nos-emos.rio deixaria de ser o Deus que Cristo manifestou. emJésus et Ia libération en Arnérique latine. (9) 3. «deixa-nos viver no mundo sem termos a hipótese de Oencontrar». Não o faz para que a Sua justiça ou a Sua honra seja salvaguardada. 275. Bonhoeffer está a assumir a posição teológica de Lutero: a fraqueza do Crucificado é a con dição da Sua revelação. Bonhoeffer. E por isso mesmo o Pai não intervém. face aos pecadores que condenaram o seu Filho. que em nac1se contunde com outrosdeuses. Deus deixa que O epul sem do mundo e que O cravem numa cruz.La mort de Jésus eL la libération de l’histoire»’. 7 de Jesus Cristo aparece.s 2. Para o Ju deu que viveu a experiência de Auschwitz( o Deus ). na cruz. Paris. Um Deus que interrompesse o silêncio do Calvá. Ver E Fackenheim. Deus éim potente e fraco no mundo e só assim está connosco e fiãs_ajuda.12). reve lava um Deus que Se oferêce e entrega. Cristo não nos ajuda pela Sua omnjp2ncii.. sem condições e sem nada exigir em troca. até no abandmais absoluto. 3. Esta aparente fraqueza de Deus remete para a liber dade e responsabilidade do homem. A ciii e esus e. Um teólogo protes (7) tante. Cerf. bem revel4pçlopçhomens que que m chgáiwveus segumdo sem re as suas rs tivas. fê-lo para não contradizer o testemunho de Seu Filho.

mas tenha a vida eterna» (Jo 3. a partir de então.1-4): pretende-se ex 0 plicar o sofrimento como castigo dos nossos pecados. para quem o homem está bem cotado.somas enorme de sabedoria humana para o conseguir. E. (10) Ora Jesus. Se sofre e morre. Jesus. E. deste modo. Conhecemos os discursos dos amigos de Job. Foi o que fez na Páscoa. fatalmente. Criando a hu manidade. às velhas explicações. assume este risco. Deus pode fazer com que nasça a vida e nasça com abundância. sim. E. Enquanto ou tros procuram o culpado. é inocente. Os que sustentam estas ideias e se exprimem nesta linguagem são precisamente os ini migos de Cristo. A morte de Jesus naquele extremo despojamento não explica o mal nem o sofrimento. E assim Jesus continua a ser. pois o Seu no me é amor. Fayard. Solidário com todos. Ele cura o doente (lo 9. sem con dições prévias nem outra qualquer razão. o «Deus connosco»: Deus que Se entrega aos homens. é o homem sem pecado. mais do que men sagem trágica. é o criador. Uma perspectiva destas levará. O Filho. Tornando-Se homem. Cristo não po dia consentir que o homem fosse desfigurado. justiceiro). ficamos a saber que não há miséria humana que Deus não possa visitar e partilhar. Cristo morto na cruz não sofre de facto a cólera de Deus. Tem uma atitude prática e sente pressa de aliviar os que sofrem. *** «Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entre gou o Seu Filho único para que todo aquele que acredi ta n’Ele não mais pereça. uma espécie de salário da culpabilidade. 331-338. sempre se retomaram as mes mas explicações. J 9. La culpabilitó en Occi dent (séculos XIII-XVIII). que morre na cruz. na cruz. o Deus de aliança correu o risco de apostar na liberdade humana: o risco da recusa. que onde houver sofrimento. é como vftima de uma violência que procede dos homens e não de Deus. E. 1983.16). A ressurreição não vem dar solução aos dramas que afligem a condição humana. Só o perdão de Jesus quebra o silêncio de Deus. Ela ma nifesta. Assim se vê como é preciso afas tar a ideia de que sobre Ele. fez tu do o que pôde para o minorar. não é certamente por cau sa dos Seus pecados. até à morte. O silên cio de Deus não é cumplicidade com a violência. Estas poucas linhas resumem toda a mensagem da Páscoa. pela Sua graça. mas mostra um Deus que aceita sujeitar-Se ao sofrimento. desesperado. A cruz rompe o cer co. mas exprime a recusa de participar no círculo infernal violência-repressão (violência do culpado-repressão do (lO) Ver J. este Deus. descobre e denuncia uma asso ciação que se apossara da consciência humana: o sofri mento era o preço a pagar pela falta cometida. que ten tam justificar o sofrimento humano. Delumeau. não é castigado por ser culpado de culpas pró prias ou das nossas culpas. pesa a cólera de Deus. ao longo da história. que viam no castigo uma vingança de Deus. como se Deus exigisse so frimento e morte para fazer deles brotar a vida. Pelo que a cruz. Se é esmagado. Lc 13. no evangelho. rasga para a humanidade um caminho de vida. nota-se a mesma atitude (cf. Deus fez-Se solidário com aquilo que estava perdido.2-6). Le péché et Ia peur. 106 107 . é uma mensagem de amor. já que o Seu Pai é o Deus da vida. em vez de justificar o sofrimento. o Crucificado. A cruz de Jesus bem como o perdão que Ele concede ao morrer são a clara denúncia desta violência. que se tornaram um lugar-comum. que é a sua vida divina posta à dispo sição dos homens (ver Anexo IV. Paris. pp.

Conclusão CRISTO ESTÁ VIVO Como redescobri-1’O? .

que iam de longada até Emaús. mas não está longe. Quando se trata de esclarecer problemas essen ciais da condição humana. ocupa e ocupará sempre um lugar central. dois discípulos. ficou bem claro que Jesus Cristo ocupou. Uma vez que na tradição bíblica o número sete é o número per feito. Tem como base o testemu nho dos Apóstolos. para nos — — 111 . como a vida.No termo deste percurso através de todas as épocas da história. afastando-Se dos nossos olhos carnais. a morte. nós que não vimos nem ouvimos Jesus Cristo. E esta a situação do crente. a salvação. na vida dos homens. Atentos à tradição. vamos marcar as sete maneiras pelas quais Jesus Cristo. o sofrimento. só que os olhos deles estavam impedidos de O reconhe cer» (Lc 24. Deus está ausente. só que ele não tem os olhos suficientemente abertos nem tem uma fé sufi cientemente forte para O reconhecer ao longo do cami nho. 15-16). que lhes dinamiza a vida. ainda é junto de Cristo que os cristãos procuram. E levanta se. como sempre procuraram e en contram a indispensável luz. falavam um com o outro sobre os factos suce didos. «Jesus em pessoa aproximou-Se e seguiu com eles. e cada geração a recebe da geração imediatamente anterior. encontrarmo-nos com Ele? Certo dia. não é coisa que se invente. apren demos que a fé em Cristo. o amor. um proble ma inevitável: como poderemos. então. A pre sença de Jesus Cristo não lhe falta.

estarei COflVOSCO todos 113 ‘1 112 . que é o corpo de Cristo. A ESCRITURA. Paulo desenvolveu toda uma teol6gia da Igreja como «Corpo de Cristo»: Deus «constituiu-O acima de tudo como Cabeça de toda a Igreja. Foi o diácono Filipe que o instruiu.4). Mas esta rea lidade do Seu corpo. levava consigo a Escri tura. Pa ra tudo contar em miúdo pormenor.. indivi dualmente ou em grupo. subtraído ao nosso olhar após a Ascensão. e os Sacramentos que nós celebramos são outros tantos sinais que remetem para o Seu corpo de crucificado/res suscitado. A iGREJA CORPO DE CRISTO. «Saulo. Houve um tempo em que os cristãos liam pouco a Escritura. E um verdadeiro encontro com Cristo: «Quem vos escuta escuta-Me a Mim» (Lc 10.30-3 1). A Eucaristia. já que ((nun ca ninguém viu a Deus. Trata-se de uma última etapa do nosso percurso.16). davam testemunho dessa mesma fé. muito embora nem tudo ali venha relatado. A PREGAÇÃO. Um corpo que tem a garantia da presen ça de Cristo: «Eu. mas lia e não entendia.16). O termo — «pregação». Esse foi que O revelou» (Jo 1. 2. é necessária a pregação da Igreja. Paulo escreve: «A fé nasce da pre gação. continua a existir sob a forma de Sacramen to. há unia rea lidade sagrada. não como espectador. 1. crendo n’Ele. se ninguém no explica?» (Act 8. (<penso que o mun do não bastaria para conter os livros que se escreveriam» (Jo 21.17). mas como a re-actualização de uma presença viva. Não basta ter uma Bíbliá para descobrir a Cristo. Jesus Cristo é o Sacramento fundamental. por meu lado. e também os outros Sacramentos. já que é a Igreja que faz nascer da letra o espírito e a verdade. a um tempo. Mas o livro que nós te mos diz-nos o essencial: a saber. que Deus está «com o homem». se é que o Nome de Jesus continua a ser hoje a razão da nossa vida. o anúncio de Cristo (Kerigma) e o en sino da doutrina (Didaké). são um acto de «memória». pouco a pouco. e o instrumento da pregação é a Palavra de Cris to. «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22. englo ba. da fé recebida dos Apóstolos: «Eu vos transmiti o que eu mesmo recebi» (iCor 15. OS SACRAMENTOS. para nós essencial. conforme sublinhámos em várias ocasiões. Paulo compreendeu que Cristo constituía um só «corpo» com a comunidade daqueles que. muito valorizado pelos Protestantes. essencialmente. que o nosso olhar se pode abrir. por que Me persegues?» (Act 9. Ora a Escritura é a Pa lavra de Deus. aqui e ago ra. mas como actor. Ela conserva os vestígios dos feitos e gestas de Deus em favor da Sua criação. que está no seio do Pai. Para o cristão.3). Para bem compreender a Escritu ra.19). ga rante a Sua presença na vida do crente. No caminho de Damas co. Aquele em que Deus assumiu rosto e pelo qual Se tornou visível. o Filho único. mis turado com ele na mesma história.deixar entregues à nossa própria responsabilidade.» (Rm 10. 3.. Nela se conserva a memória das passa gens de Deus na história dos homens. A acção de Deus no mundo ultrapassa os limites das folhas de um livro. 4. assumindo também a condição humana. que é o Seu Cor po» (Ef 1. que não deve entender-se como sim ples recordação de uma lembrança conservada nos ar quivos de uma biblioteca. A pregação é algo de urgente: <(Ai de mim se não pregar o Evangelho!» (iCor 9. S. Logo a seguir a es ta experiência. Consiste.18). O eunuco da rainha da Etiópia deixava Jerusalém e seguia para Gaza. novo Templo. ((Porventura compreendes de verdade o que lês? E como poderei compreender. ao verdadeiro rosto de Deus.25). na transmissão.22). E meditando na Escritura.

(4) 6.os dias até ao fim do mundo» (Mt 28. Já noutros tempos. mão. não é para colocar ao lado de Cris to. A Ninguém se deixa encerrar em fronteiras muito estreitas. Gosta de Se dar a conhe (Escritura e cer. levanta-te! (Lc 8. não somos Bispos para nós próprios. 114 115 . depois.24). entre o grupo dos espaço da Sua pre existiu tal tentação: querer delimitar o expul sença e da Sua acção. Ele. como que o Seu Corpo». é Cristo que baptiza». A oração. antes feridos vai de Jerusalém a Jericó. o aspecto do Seu rosto mudou» (Lc Santo Agostinho. mas. (3) De sacra liturgica n. que é um serviço (Jo 13. mis ticamente. Cristo veio exclui seja quem for. 562 e ss. Cristo torna-Se visível não somente através de sinais. que prometeu: reunidos em Meu nome.5). seria falsa. pp. diz Santo Agostinho. ora em segredo (Mt 5. ibidem: é uma passagem que evoca várias presenças de Cristo das que a nossa conclusão indica.29-37. Cristo põe uma que para que seja autêntica qualquer oração: o perdão ir se concede. do. todos os recusados. O ministério eclesial. Santo Agosti nho vai tirar daqui as suas conclusões: «A cabeça e o corpo constituem um só Cristo. identifica-se de modo particular com cluídos. «Vai. (2) De onde se conclui que o ministro nada tem a dar que seja próprio. mas para aqueles a quem servi mos a palavra e o sacramento do Senhor». não somente no caminho de Emaús de tudo. Mt 25. como também por meio de homens escolhidos para serem os ministros da Sua pre sença e a garantirem. (1) Explicitando esta identificação.° 7. no caminho que fracção do pão). vimos alguém a sar demónios em Teu nome e quisemos impedir-lho. Ver ainda La foi des catholiques. Centurion. vo-la «Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome. Eu te ordeno. (4) Santo Agostinho. Paris. «Mestre. que não é conclusão.30). condição se fosse dissociada da vida. Cristo ressuscitado «está presente sempre que «quari Igreja ora e canta os Salmos». concederei» (Jo 14. (1) (2) a 9. o Concílio Va ticano II irá dizer: «Comunicando o Seu Espírito aos Seus irmãos. «Se alguém (5) De sacra liturgica n. dá-o «em nome de Cristo».13). retirado seu quarto.31-46). «Bispos. o todo o ser humano e não cidade excluído. Foi na oração que Jesus viveu mais intensamente a Sua relação com o Pai e era na oração que se podia ver no Seu rosto o resplendor da glória: «enquanto orava. Quandõ o ministro perdoa.. Cristo apenas num destes eixos. primeiro.° 7. presença de Cristo não preciso alargar os horizontes. A ORAÇÃO. (2) 5. que foi crucificado fora dos muros da todos os ex santa. Je sus Cristo vai curar-te!» (Act 9.9.34).49). OS MINISTÉRIOS.54). para porque não anda connosco» (Lc 9. que reunira de todas as nações. de porta fechada. reconciliar-te com o teu a tua oferenda» (Mt 5. pois Cristo quis dar-Se-nos e estar connosco todo inteiro». apresentar horizon O eixo vertical da oração cruza-se com o eixo nunca está tal da relação sincera com os homens. 13. vem. TODO E QUALQUER ROSTO HUMANO. 1984. Nem tringir a Sua acção a um espaço previameflte delimita discípulos. cit. Contra Cresconium X. res O pode monopolizar..7.1-17). Desenvolve-se no seio dela como um seviço. op.20)(). Eu porém. Ele. Está também pre no sente da mesma maneira junto daquele que. Concilio Vaticano II. Nem sequer na Igreja.29). tudo o que dá. Eu do dois ou três estiverem estarei no meio deles» (Mt 18. O ministério ecle sial não mais pode ser colocado ao lado ou acima da comunidade eclesial. Sermão 341. É . fez deles. Pedro diz: «Eneias. onde jazem todos os vir um da vida (Lc 10. Enquanto Jesus age em Seu próprio nome («Jovem. Lumen Gentium 7.

Os dados bibliográficos e outras pis tas de trabalho permitirão a cada um prosseguir o labor e progredir na compreensão da sua fé em Jesus Cristo. e devem. «não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos» (Act 4. Mas todas estas coisas só têm sentido a partir do centro. para que cada um possa desco brir nela a resposta mais ajustada . a Igreja ou o compromisso dos cristãos nas lides do mundo. salvação oferecida a todo o homem. Aí está o núcleo «indivisí vel». que são importan tes.17). Mas esta responsabilidade deve ser acompanhada de um enorme respeito pela liberdade de cada ser. E esta a responsabilidade da Igreja e de todo o cristão. Este último aspecto leva-nos ao que foi a nossa preo cupação constante ao longo deste percurso: uma fideli dade plena à Palavra de Deus. A Sua Palavra é uma Palavra para todas as nações.irmão em necessidade e lhe fechar o seu coração. ANEXOS 116 . muitas mais páginas tería mos de escrever.12). Para sermos exaustivos. O essencial daquilo que nos propusemos terá sido con duzir a fé cristã ao seu centro de gravidade.às suas buscas de sentido e salvação. pois Jesus Cristo continua a caminhar entre eles. Esta Palavra deve ser proclamada e já o é agora na cultura dos homens do nosso tempo. que é Jesus Cristo. mas uma fidelidade que requer uma intensa atenção aos nossos contemporâneos. como os Sacramentos. uma Pala vra que questiona todo e qualquer homem. quer não. Quer o homem o saiba. morto e ressuscitado. Jesus de Nazaré. de um modo ou de outro. Claro que há outros aspectos no cristianismo. como estará com ele o amor de Deus?» (iJo 3. remeter para Ele. uma vez que o próprio Deus respeita esta li berdade mesmo naqueles que se fecham na recusa. Filho de Deus. a chave da abóbada de todo o edifício.

E.. QUEM É JESUS CRISTO? Muitas confissões de fé redigiram e publicaram.. Recordar as grandes afirmações do Credo referentes ao mistério de Cristo: em relação a Deus. Seu Pai. em que cren tes e não-crentes assumem o risco de dizer o que era para eles esse homem que os cristãos reconhecem como Filho de Deus. Jesus. Ele «morreu pelos nossos pecados». etc.1 E PARA MIM. salvador. a partir e com base em cada um desses episódios. Exemplo: perante o centurião. esse Jesus que me taz viver. finalmente. razão da nossa esperança. corrigir aqueloutro. sobre quem é Jesus. primeiro. Tentar. Ele é o Seu Filho ánico. depois. Jesus aparece-me como um homem que se alegra com este aconteci mento de fé e que o oferece a Deus.» 119 . e por aí adiante. em relação a nós. decidirmos então: «para mim. mas escrevê-la é bem mais difícil. Acrescentar este termo. 3. é. 2. Procurar. os episódios evangélicos que consi deramos os mais significativos. Dizer a própria fé não é coisa fácil. depois de termos examinado e ruminado bem as propostas de trabalho sobre cada um dos três pontos supra. qualificar Jesus. Talvez ajude o método progressivo a seguir enunciado: 1. por tanto.

homem sujeito à escravidão do peca do e escravizado ao poder da morte. um de Ireneu e o outro de um teólogo contemporâneo. Já na antiguidade. que foi o primeiro. modelado a partir de uma terra virgem (Gn 2. E que. intérprete de Lutero.2 A HUMANIDADE DE CRISTO E A SALVAÇÃO Conforme sublinhámos na segunda parte deste nosso livro. que explicita de modo perfeito o seu pensamento: «Era necessário que Aquele que devia matar o pecado e res gatar o homem. Ireneu argumenta assim a favor da verdadeira incarna ção: se Cristo não incarnou realmente. Seleccionámos dois textos. os teólogos aprofundaram de diferentes maneiras. que merecia a morte. Se fizesse aquilo que o próprio homem era. 1984). o homem se libertasse da morte. então o homem não está salvo de facto. Marc Lienhard. o seu entendimento de Jesus Cristo. isto é. que negavam a real incarnação de Cristo. tiveram de insistir so bre a verdadeira humanidade de Cristo. escrito contra os gnósticos. du Cerf. como no tempo da Reforma protestante. Ireneu: Homem para nossa salvação No seu tratado Contra as heresias (cf. «muitos se tornaram pecadores». da mesma maneira que. ao longo da história. «pela desobediência de um só Homem». condição por excelên cia da salvação.5). ed. para que o pecado fosse morto por um homem e. e 121 . Da mos a seguir um trecho. desta maneira. E o que se chama o argumento da salvação. tanto um como o outro põem a tónica na natureza humana de Cristo.

desta maneira. foi porque quis participar plenamente da his tória dos homens e permitir-lhes. «A glória de Deus é que o homem viva e a vida do homem é a visão de Deus. mas de um Deus que revela. ter sal vo os homens como os criou. «Mas.7). Cerf. Fala também. Luther. Lutero descreve Cristo. a Sua obra não teria si do perfeita. que é o primeiro. que é o amor. A humanidade é. Lutero: Solidário com os homens para revelar o amor do Pai e reconciliar o homem com Ele Para Lutero. 387-388): «O Filho incarna para revelar o amor do Pai aos homens su jeitos à cólera de Deus. por isso. numa linguagem humana. apreender o verdadeiro rosto de Deus. nascido da Vir gem. «pela obe diência de um só homem». ou seja. através da história de Jesus. a suportar o castigo merecido pela humanidade pecadora e reconciliando Deus com os homens. já que resolveu fazer apelo à fé dos homens». como os filósofos O tinham imaginado. E uma primeira perspectiva de Lutero. confrontado com a cólera do Pai. instrumento da divindade. revela. Se incarnou. «muitos fossem justificados e recebessem a salvação». Marc Lienhard es creve (cf. se não Se tivesse tornado homem? Poderia. como poderia Ele triunfar da lei da morte.7). Mas Ele era realmente aquilo que parecia ser. para matar e destruir a morte e dar vida ao homem. o que se encara é nem mais nem menos que o drama da salvação levado a cabo por Jesus. que recapitulava em Si mesmo esta antiga obra re modelada. não de um Deus impassí vel.18. Deus é perfeitamente livre e poderia. deste modo. condições de historicidade acima indicadas. 1973. ou seja. Resumindo o pensamento de Lutero. que é o homem.4). esses poderes que su jeitavam os homens por causa da cólera de Deus. do combate glorioso travado por Cristo contra a lei. a fim de revelar. por isso mesmo é que as Suas obras eram ver dadeiras» (111.20.perderam a vida. mas não foi esse o caminho que Deus quis seguir. Aqui. o pecado. o ser profundo de Deus. trinitário. assim também era conveniente que.9). témoin de Jésus-Christ. Por isso o Verbo de Deus Se tornou homem desta maneira de acor do com aquilo que diz também Moisés: «A obra de Deus é per feita» (Dt 32. deste modo. Se não se tivesse feito homem e apenas tivesse assumido a aparência da carne humana. que é também o Filho eterno tornado carne. através de gestos e actos humanos. viu o Pai» (Jn 14. sem participar da Sua con dição humana. sem dúvida. Filho de Deus. «Quem Me viu. nas 122 123 . quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo não há-de conceder a vida àqueles que contemplam a Deus» (IV. o diabo e a morte. O homem-Jesus. que subsiste mes mo quando a cólera de Deus submerge o Filho. Ora como po deria o Filho assumir de verdade o pecado dos homens e suportar assim a cólera de Deus. numa outra perspectiva. sejá a revelação de Deus pela criação conce de a vida a todos os seres que vivem na terra. o Seu ser eterno. pp. numa outra perspectiva. o amor eterno do Pai. ter salvo os homens de uma outra maneira que não a Incarna ção. a que se poderia chamar joanina. Deus.

agora e mais uma vez. de quê. E que este texto é o vosso compromisso numa obra comum. Esta etapa. por quê e por quem. a) que cada um escreva as coisas essenciais que quer dizer acerca das coisas da salvação e tendo em conta a sua experiência. que exprimam. de quem. é. de assumir o risco de produzir um texto. Trata-se. 125 . de propor um caminho. cujo ponto de chegada é exacta mente a elaboração de um texto. em que se trabalha sobre as palavras. 1. por imperfeito. para quê fostes vós (já) salvos ou desejais sê-lo? Trata-se. agora. na verdade. Através das experiências humanas fundamentais. passagem obrigatória. Fazer um breve inventário de todas as palavras do campo vocabular da fé. Finalmente. directa ou indirectamente. podereis dizer: • em que é que estas experiências vos ajudaram a ver mais claro o tema da salvação? • em que é que o tema da salvação tornou mais claras estas experiências? 3. que mar caram a vossa vida. incompleto e mal redigido que seja.3 «DIZER» A SALVAÇÃO COM AS NOSSAS PALAVRAS Este exercício é mais para grupos. o te ma da salvação: Quais são essas palavras? Provocam ou não a vossa rejeição? Por que razões? Deixam-vos indiferentes? Porquê? Interpelam-vos ou entram em ressonância com a vossa expe riência? Em quê? 2.

acrescentando o tes temunho de um teólogo da teologia da libertação. retiveram. Entre as figuras que queremos evocar. redigir. a uma espécie de ocultação do «Deus revelado». tentando desco brir os elementos comuns. Escreve Teilhard: «Se a análise precedente é exacta. o sentido que Cristo introduziu na nossa existência e na nossa condição humana. momentaneamente para o Universo e «aparecer co mo oposto ao Deus cristão». mas que alcançaram o consenso do grupo. como parece certo. Os nossos contemporâneos. tiveram os teólogos de exprimir a sal vação concedida ao homem em Jesus Cristo. retocemos Teilhard dc Chardin (1881-1955) e Albert Carnus (1913-1960). os elementos particulares deste ou da quele. A terceira Parte tentou pesquisar as diferentes linguagens. um texto que seja a expressão dos ele mentos comuns e das posições divergentes não contraditórias. mesmo tendo em conta o facto de o seu «poder natural de adoração’> se ter desviado. Depois. aos problemas existen ciais. isto é. o meio de corrigir directamente o mal de que hoje sofremos surge com da 126 127 .b) Confrontem todos estes textos pessoais. c) Poderão. Teilhard de Chardin: Só Cristo pode marcar o ritmo da nossa caminhada Ao interrogar-se sobre a Incredulidade moderna (1933). formular as diver gências. 4 JESUS CRISTO UM SENTIDO PARA A NOSSA CAMINHADA — Em todas as épocas. poderão ainda. Mas este mundo não lhe parece «radicalmente descrente ou arreligioso». John Sobrifio. as posições opostas ou as formulações diferntes de elementos que não estão em contradição. sensíveis. bem como os pontos de divergência. Tei lhard descobriu a causa principal da descrença no divórcio exis tente entre «crer em Deus» e «crer no mundo». sobretudo. substituído pelo «Deus-mundo>. sobretudo. a partir da proposta de um ou dois elementos. eventualmente. através das quais a Igre ja exprimiu esta salvação e procurou torná-la crível. se for caso disso. O «melhor» que os homens espe ram só pode vir de Cristo. que aparece como uma réplica indirecta a Camus. se a descrença mo derna é devida.

não a muda realmente. transportados pe la mesma força que. parti ela revela um Deus que não seria credível se não tivesse humana até à morte. os afasta d’Ele? Abramos. já que também Ele é dilacerado e história dos ho noite do Gólgota tem a importância que tem na abando mens exa.reza. Paris. o Crucificado. Quando. apenas está à espera de ser transfigurado e completado por Ele. que são precisamente os consistiu. demasiadas vezes. «Primeiro. se mantêm estranhas ao espírito da Hu manidade. se pudesse contar homem é necessário perança eterna. O Deus-homem nem a morte Lhe pode ser imputável seja paciência.6-11). o Universo. John Sobrifio: Latina. vagas e ina cabadas. Cerf Ver o comentário de Jürgen Moltmann.. A de que modo for. um teólogo da Teologia da cruz de Jesus «A impotência de Deus. a angústia da o «Lamá sabactani» e a dúvida atroz de Cristo Tentam explicar com a es na agonia. de estabelecer que. ao fim. nós os cristãos. que só a realidade concreta de Cristo tem condições para as tornar fir mes. E que a impotência de Deus é a expressão da participação no destino deabsoluta proximidade dos pobres. (2) Um Deus credível através da cruz Se. Obras de Pierre Teilhard de Char din. a divindade.). na nossa religião. Nem o mal morre. na Libertação. privilégios tradicionais. 1961. que que dição humana. na sua plenitude natural. pessoas que. e morte de cruz (FI 2. para o ateu.. a mais perigosa parte da descrença humana ficará desarmada até ao âmago». para o crente. (1) — Albert Camus: o divino Resignado opti Camus é um descrente. apoclererno-nos delas. no plano cristão. 152-153. viveu até nando ostensivamente os Seus morte. então. p. em vez do seu brilho?. antes de mais. Olhando para o Crucifi mas. então. «Decerto que nem tudo é mau nesse sopro de optimismo con quistador que move a massa humana. que elimine os falsos materialismos e os fal sos panteísmos. 40. nós próprios. Trata-se. tomemos posse delas e cristianizemo-las. inclusivamente. torna Sua ressurreição. a cruz é mais um escândalo. ainda o silêncio de Deus. nestas trevas. até ao desespero. Seuil 1965. que temos obrigação de salvar? (. E mais uma vítima. sobretudo com o mista que a de Teilhard.. sed adimplere». isto é. que vai manifestar-se na (. centrá-las e salvá-las. lhado a condição América E isto mesmo que sublinha muito veementemente. com generosidade. Gallimard. a sombra da cruz. problemas dos revoltados. Paris. Queremos que os Homens regressem a Deus. torna mais escandaloso «Cristo veio resolver dois problemas principais: o problema grandes do mal e o problema da morte.) Não temos dei xado (e estou a citar) «hipertrofiarem-se. -Mame. 1974. a Extracto de L’homme révolté. porque haveremos então de defender-nos dele? Não será o Evangelho um fermento que é preciso pôr lá muito dentro do coração do mundo?» Non veni sol vere. A nós compete mostrar. «Consumar é cristianizar.. verbo et exemplo. 9. a me lhor.. As aspirações reli giosas do Humanismo moderno são. na aparência. pela riqueza operante da sua renúncia. exactamente em virtude do seu Cristianismo. plena e sinceramente. as noções de pecado e de salvação individual»? Não é verdade que irradiamos. nessa altura. Não temos continuado a ser. a alma religiosa do Mundo actual e vivê -la. Paris. longe de eclipsar o Deus cristão. no estado actual das investigações.. 128 129 . pp. Façamos. não pode bastar e sentimo-lo bem — uma crítica puramente inte lectual ou negativa. na verdade. assume totalmente a Sua con na realidade. pela actividade construtiva da sua caridade. Camus reconhece que não é possível acusar a Deus. sofrimento e com a morte do Inocente. Le Dieu Crucifié. A sua solução sofre com em assumi-los como coisa própria. A sua visão do mundo é menos Sentimo-lo chocado. os cristãos se mostrarem os pri meiros entre os Homens a espiritualizar os valores terrestres e a caminhar ao encontro do Futuro. aqui. o espírito e o coração às perspectivas e aspirações novas. que se manifesta na credível o poder de Deus. o nosso exa me de consciência. 259. Esta seria muito ligeira. (2) (i) Extracto de Science et Christ. Para que Deus sejam um que desespere». Para operar esta transformação..ctamente porque. pelo arrojo confiante das suas perspectivas sobrenaturais. A nossa missão é voltar a vestir (induere). cado. para nós. p. tristemente.

E se Ele estava. ao longo de toda a Sua vida. Lecture de la réssur rection de Jésus a partir des crucifiés du monde’.‘Le Ressuscité et le crucifié. Então quem é Jesus 4. se Ele conheceu dessa maneira os horrores da história. em Jésus et Ia Iibtra tion en Amérique Ititine (Colectj. Israel’ 2. nada foi capaz de impedir que Deus Se aproximasse dos homens’.les até às últimas consequências. então a Sua acção na ressurreição é uma acção credível. a apro ximação de Deus em relação aos homens. As pretensões de Jesus A relação de Jesus com os pecadores A relação entre Jesus e a Lei Jesus e o Templo (3) Extracto de . anunciada e tornada um facto por Jesus. Se Deus estava na cruz de Je sus. que escandaliza tanto a razão natural e a razão moderna. 1986. 298-299. O reino de Deus estó no meio de vós Os milagres de Jesus O modo de viver de Jesus 2. Paris. na História. iniciada na Incarna ção. é que. pelo menos para o crucificado. «Deus reclama a Tua vida na tumba» (Salmo 103. (3) Índice Introdução 7 Quem dizem os homens que Eu sou 9 E vós.. O tempo das promessas 1. Desclée. não é escandaloso para os crucificados porque o que interessa aos crucificados é saber se Deus estava ou não na cruz de Jesus. quem dizeis que Eu sou 5 6 8 Primeira Parte VIMOS A SUA GLÓRIA» «NÓS A experiência pascal dos Apóstolos Estrutura do anúncio pascal 17 1. O que a cruz diz em linguagem humana. pp.4) 3. 19 19 20 21 22 22 23 24 25 25 25 26 28 30 131 9 3. Um tempo de crise II. O silêncio de Deus na cruz. A esperança de Jesus 130 . consuma-se aqui. Escuta. O TEMPO DE JESUS 1.

RECONCILIAÇÃO 1. RECONHECER O CRUCIFICADO 1. A 1. Jesus.III. Em nome da Razão (séc. MENSAGEM PASCAL O terceiro dia ou o tempo do Espfrito Subiu aos céus Há-de vir julgar os vivos e os mortos 35 36 36 37 39 Segunda parte IMAGEM (OU ICONE) DO DEUS INVISIVEL A fé em Cristo. 31 32 32 33 33 34 34 Definição de Calcedónia Segundo Concilio de Calcedónia (553) Terceiro Concilio de Constantinopla (680-681) II. As vias da cristologia A oferta de Deus (Karl Barth) A busca do homem (Rudolf Bultmann) A figura de Jesus 2. Vestígios históricos do Ressuscitado . PESQUISAS CONTEMPORÂNEAS 1. Aquele que nos reconcilia 81 82 Algumas grandes figuras da cristologia antiga C — 2. 3.AFÉDAIGREJA 1. As componentes da experiência pascal Uma revelação divina Um reconhecimento Uma tarefa da fé Uma experiência missionária 2. Filho de Deus I. Jesus. caminho da humanidade para Deus 3. De Jerusalém a Niccia o testemunho apostólico A A preexistência A filiação divina — 46 47 47 47 48 50 50 51 52 54 55 57 57 58 B — Cultura judaica e cultura grega Contacto com o judaísmo Confrontação com o helenismo Duas posições contrárias sobre o Misté rio de Cnsto A FÉ DE NICEIA (325) 3. O agir filial de Jesus A consciência de Jesus Quatro proposições da Comissão Teológica inter nacional sobre a consciência que Cristo tinha de Si mesmo (Dezembro de 1985) A liberdade de Jesus Terceira parte O MESSIAS CRUCIFICADO Deus salva-nos em Jesus Cristo 1. Em nome da Escritura: Lutero (1483-1546) 2. A TRADIÇÃO CONTESTADA 1. Os Conciios cristológicos Concilio de Efeso (431) Concilio de Calcedónia (451) 132 87 88 90 91 133 . 2. caminho de Deus para a humanidade 2. O ser filial de Jesus 59 60 61 62 63 64 65 67 67 68 68 70 70 71 73 74 75 78 79 Será a ressurreição de Jesus um acontecimento histórico’ IV. XVIJI-XIX) Emancipação da razão Revalorização da história Schleiermacher As Vidas de Jesus Um mito concreto A crise modernista ifi.

O silêncio de Deus 3. 3. A Escritura A pregação Os Sacramentos A Igreja Corpo de Cristo Os ministérios A oração Todo e qualquer rosto humano ANEXOS 1. O Filho abandonado 2. REDENÇÃO 1.II. 7 E para mim. 2. Em nosso nome Redenção e Libertação ifi. 2. quem é Jesus Cristo A humanidade de Cristo e a salvação «Dizer» a salvação com as nossas palavras Jesus Cristo um sentido para a nossa cami nhada — 112 112 113 113 114 114 115 119 121 125 127 134 . REVELAÇÃO 1. 3. 6. 5. 7. De uma vez por todas 3. 4. Deus habita o sofrimento 92 92 94 96 99 102 103 104 105 Conclusão CRISTO ESTÁ vivo Como redescobri-l’O? 1. Morto pelos nossos pecados 2. 4.

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