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7035385 Organizacoes Internacionais Direito USP

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DIREITO DAS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS – DIN 418 Professor Alberto do Amaral Júnior INTRODUÇÃO Nesta primeira aula do semestre

, o Professor Alberto tratará de alguns exemplos de organizações internacionais (OI) com questões de ordem prática, atinentes ao cenário das relações internacionais. Depois desta contextualização, passará a abordar nas próximas aulas elementos característicos das OI, a fim de se possibilitar o estudo de uma teoria sobre tal tipo de organização. Exemplos para contextualização do tema das OI. 1) Aproximação ao Mercosul – temática das questões tarifárias entre Brasil e Argentina. Mercosul surge pelo Tratado de Assunção de 1991. Quase quatro anos depois, os países membros decidiram configurar ao Mercosul um caráter institucional (de permanência de suas instituições), estabelecendo seus órgãos básicos. No seu tratado constitutivo já havia uma previsão da política a ser adotada. A grande novidade introduzida pelo Protocolo1 de Ouro Preto foi a definição da Comissão de Comércio, a qual surgiu com uma missão específica: fixar uma tarifa externa comum (o que daria um caráter de união aduaneira, necessária para a verificação de uma área de livre comércio: abolição de tarifas comerciais praticadas entre países que mantém relações entre si, ou seja, relações interestatais). Além da abolição de tarifas, significa a adoção de uma política comercial (não confundir com política econômica) comum em relação a outros mercados, bem como em relação a importações de produtos e serviços de outros países, não-membros do bloco. É preciso que os governos não pertencentes ao bloco conformem-se com as decisões do mesmo. Tanto a política interna quanto externa desses Estados membros são adotadas no plano regional, tão somente. 2) Brasil – acordos TRIPs (Trade Related Intelectual Property Rights). Esse tipo de acordo surgiu mediante uma reivindicação de países desenvolvidos na Rodada Uruguai da Organização Mundial do Comércio (OMC). Tais acordos foram um importante passo para as legislações domésticas, uma vez que ensejaram certa uniformização da mesma, em relação aos diversos sistemas jurídicos estatais existentes. Havia, contudo, a fragilidade de saber quem iria fiscalizar a observação de tais acordos: não havia um sistema sancionatório eficaz. Não havia no cenário internacional, quanto ao comércio, um órgão desse tipo. A lei brasileira é um espelho fiel em relação ao que o País se comprometera durante a rodada Uruguai. O Brasil não pode, por decisão unilateral, suspender o patenteamento de produtos farmacêuticos. Essa medida não pode ser tomada em âmbito doméstico, uma vez que há previsão nos TRIPs de concessão ampla a produtos industriais de patentes. Anteriormente a esses TRIPs, não havia patenteamento desses produtos. Com a possibilidade, após a Rodada, de patentearem, houve um enorme aumento no preço dos farmacêuticos. 3) Legislação de defesa comercial – impedir o comércio desleal e evitar que um país sofra as conseqüências desfavoráveis em virtude da prática de
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subsídios, de dumping, do aumento súbito de importações, sem adotar qualquer providência para coibi-la. A previsão de tal tipo, mune o Estado de instrumentos para prevenção dessas conseqüências e para a adoção de políticas industriais. 4) Questão da segurança nas relações internacionais, atinente a conflitos de qualquer tipo, principalmente, entre Estados. Uma resolução do Conselho de Segurança (CS) da ONU, como as resoluções que estabelecem embargos econômicos / comerciais (exemplo célebre é o da África do Sul pela prática de discriminação racial – política de apartheid). Isso demonstra o papel importante que as OI têm atualmente. Vivemos num mundo de porosidades: vida doméstica do Estado e externa. No passado, podia-se estudar Direito sem se saber o que ocorria no âmbito das relações internacionais. Hoje, não é mais possível: quem quiser se especializar em carreira doméstica jamais poderá dispensar os conhecimentos obtidos em direito internacional. O curso de direito das OI cuidará do aparecimento, das características, da competência e dos desafios enfrentados pelas organizações internacionais. Ordem de Vestefália (Westfalia) – de 1650 a 1950, aproximadamente. Dominou durante o período acima, até o momento em que é influenciada, a ordem internacional, pelo aparecimento das OI. Os Estados percebem que precisavam de uma estrutura internacional nova que comportasse e respondesse as suas novas necessidades (oriundas de uma crescente interdependência de suas relações políticas, econômicas, sociais, culturais, jurídicas); as OI emergem nos mais variados assuntos da esfera internacional, a partir do início de sua criação pelos Estados soberanos. Não é a Ordem de Westafalia mais suficiente para o mundo em que vivemos, o qual exige uma organização institucional mais complexa (não só mais o Estado é o centro de tudo; não se tem mais somente o Estadonação como soberano na ordem internacional, conferindo-lhe, portanto, o caráter de ser o único ente apto a relacionar-se na esfera externa). As Organizações Internacionais definem regras, que se constituem pólos de poder, os quais têm um destaque inconfundível e incontestável na formação da vida internacional contemporânea. Há também um processo de sofisticação institucional em andamento: antes se tomava como processo decisório a unanimidade formal para que se agisse (como, por exemplo, a maioria absoluta em alguma votação); hoje, contudo, prevê-se a necessidade de que haja consenso (preponderância, portanto, de um elemento mais material em relação a um aspecto de mera forma). As OI trouxeram uma nova dinâmica para as relações internacionais (RI): as organizações internacionais aparecem com recursos de poder, que em princípio, só os Estados possuíam. A chamada diplomacia parlamentar faz com que haja uma diferenciação,

Protocolo como “atualização” do conteúdo do Tratado.

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inovando nessa dinâmica. Tal tipo de diplomacia muda o panorama de negociações: as conformações de interesses mudam conforme os temas analisados e discutidos. Este tipo diplomático introduz aspectos novos como a formação de alianças para garantir peso àqueles países menos expressivos, tanto em relação ao poder político, quanto econômico, refletidos em seu poder de negociação no panorama mundial. É importante observar que tais alianças mudam conforme os temas tratados. Assim sendo, é diferente a diplomacia parlamentar da diplomacia secreta, exercida durante a ordem vestefaliana com maior ênfase; este tipo era visto naquela ordem como o que seria o maior elemento de confronto entre os Estados, já que por seu caráter secreto trazia maior insegurança e instabilidade à cena internacional. As OI adquiriram personalidade jurídica, e tornaram-se centro de imputações de obrigações e de direitos – têm, como finalidade, a persecução de interesses supraindividuais. O início das OI se dá com a interpretação dada pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) sobre a Carta de 1946, a qual fundava a ONU. A interpretação dada era a de que a ONU seria um centro diferente, descolado dos países-membros, a que seriam imputáveis obrigações e direitos. Organizações Não-Governamentais (ONGs) – participação no processo decisório, início da sociedade civil, como ativa no cenário internacional – questão de tais organizações possuírem legitimidade e efetividade para participação e transparência nos processos decisórios das OI. Efetividade e transparência: temas intimamente ligados à questão da legitimidade. Toda a questão da reforma do CS é uma discussão sobre a representatividade e sobre a legitimidade da ONU em um mundo em intensa e constante transformação. Desafios. Assim, sendo, há novos desafios a serem enfrentados pelas OI. Um bom exemplo seria o surgimento de novos atores no cenário internacional: indivíduos, empresas transnacionais, ONGs. Isso trouxe maior complexidade ao processo, o que implica numa revisão institucional, fortemente divulgada pela mídia. Outro aspecto é garantir a representatividade e a transparência das OIs, esses temas se ligam intimamente à questão da legitimidade (vide discussão sobre a formação vestfaliana do CS e a recente questão da substituição da Comissão de Direitos Humanos da ONU, por um Conselho de Direitos Humanos - com a transformação dessa ordem, a estrutura internacional do CS passa a ser questionada quanto à representatividade e à legitimidade, o que implica no questionamento do papel da própria ONU). CAUSAS DE SURGIMENTO DAS OI Desde a 2ª metade do século XVII houve a predominância da Ordem Internacional de Westfalia, que tem como eixo central de seu padrão o conceito de Estado-nação soberano. Soberania: face externa – independência em relação às demais unidades soberanas e face interna – supremacia em relação às demais fontes de poder. Ordem internacional: conjunto de relações entre Estados

soberanos; é um sistema cuja principal unidade é o Estado, se observada uma concepção vestefaliana. Durante os dois primeiros séculos dessa ordem, a maioria das relações era do tipo bilateral e o direito internacional era predominantemente consuetudinário2. A partir de então, os tratados começaram a se tornar mais importantes com a ordem de Westafalia. Tratado de Westfalia: agrega tratados bilaterais. Por um longo período havia poucos Estados, o que ensejava poucos tratados bilaterais e as discussões eram feitas em conferências diplomáticas. De tempos em tempos, as principais nações se reuniam e deliberavam como agir em períodos de crise. Esse esquema foi-se mostrando insuficiente com o crescimento da interdependência, que pode ser simétrica ou assimétrica. Esta última consiste em relações recíprocas, nas quais um dos países predomina sobre o outro, ao contrário da interdependência simétrica. Na segunda metade do século XIX aprofunda-se a consciência entre os Estados de que há uma interdependência entre eles, o que fica mais acentuado durante todo o século XX. Com a facilitação dos meios de transporte, as relações de interdependência aumentaram demasiadamente, de tal ordem que as conferências diplomáticas não bastavam. Assim, era preciso dar um ar de permanência e estabilidade às conferências existentes. Dessa necessidade nasceram as OI que se transformaram em centros de poder. As primeiras OI surgiram para resolver problemas comuns, como a navegação dos Rios Reno e Danúbio. Além disso, tinham um caráter eminentemente técnico-administrativo. A essa se somam outras causas importantes que deram ensejo ao nascimento das OI, como o aspecto da segurança e proteção dos direitos. Um exemplo são os direitos dos trabalhadores, cuja crescente organização representa um conflito aberto de classes, que vai, aos poucos, se institucionalizando em sindicatos. Aqui se encontram os germes dos atos sociais da primeira metade do século XX (Constituição de Weimar e atos mexicanos). Surgimento da OIT: desigualdade social no plano interno e guerras no plano externo; os conflitos internos acabavam por precipitar os conflitos externos. Conexão do processo de consolidação dos atos sociais na esfera doméstica e os atos sociais no plano internacional. OIT: atividade bastante significativa nas recomendações na esfera trabalhista. Representa um ponto de força na preocupação com os direitos sociais. Outra causa para o surgimento das OI é a proteção de valores que só podem ser garantidos na esfera internacional. Valores estes, como por exemplo, o respeito e a observância aos tratados de Direitos Humanos (principalmente à Declaração de 1948). As OI nascem como meras reuniões administrativas, sem personalidade jurídica e com o sistema de
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Antes de Westfalia.

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votação baseado na unanimidade; as características que podem ser observadas hoje, apresentam-se ao longo do século XX e eram inexistentes no século XIX. O aparecimento das OI traz uma nova dinâmica para as relações internacionais em que o coeficiente de poder dos Estados não é a única determinante, pois as alianças entre os Estados passaram a ser muito significativa. Tema da paz e da guerra. Na ordem vestefaliana, os tratados de paz eram os resultados dos anseios pela paz e não havia ainda a concepção de uma organização para esse fim; a guerra era um meio considerado legítimo para a solução de controvérsias e tido como justo na Ordem Internacional da Cristandade3. Na primeira metade do século XX, esse estado de coisas se alterou porque a paz e a guerra não eram mais um tema a ser deixado ao mero arbítrio dos Estados (Luigi Ferrajoli chama as duas Guerras Mundiais do século XX como 2ª Guerra dos Trinta Anos, em alusão ao conflito que, após terminado, deu início à Ordem de Westfalia) como na ordem vestefaliana Causas de surgimento das OIs: • interdependência entre os Estados no cenário mundial; • facilitação dos transportes; • proteção dos direitos; • determinação do espaço internacional. As OI passam a ser espaços de solução de controvérsias, sejam elas administrativas ou judiciais. Normas de adjudicação: contribuem para transformar as normas de ato internacional (regras de condutas primárias do ato internacional clássico). As OI cooperam para mudar este quadro, pois propiciam a criação de regras de mudança e regras de adjudicação. Nascem, no século XX, OI específicas com a finalidade de solucionar conflitos, como o GATT – OMC. Elas assinalam uma mudança sem precedentes no relacionamento entre os Estados, sendo tidas como pólos emanação de poder e de produção de normas. Pólo de produção de normas: os Estados deixam de ser os únicos sujeitos responsáveis pela produção normativa. Esses novos fatores dão a dimensão do papel das OI na alteração do cenário mundial; com o decorrer do tempo a atuação das OI se dirige para uma multiplicação das áreas consideradas importantes para a vida internacional. Poder regulamentar das OI: tido basicamente como sendo relativo à produção normativa. Centros de imputação de atos e obrigações: as OI adquirem personalidade jurídica, fato que se consolida após a 2ª Guerra Mundial, com o estabelecimento da ONU e parecer consultivo da CIJ favorável à existência de personalidade jurídica desta organização universal.
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ASPECTOS GERAIS DAS FUNÇÕES DAS OI Diplomacia parlamentar: exemplo – rodada do Uruguai que discutiu a questão relativa à propriedade intelectual e a questão da agricultura – acesso aos mercados através de um trade-off entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Exemplo: grupo de Cairnes: congrega grupo de países desenvolvidos e em desenvolvimento no interesse de liberalizar o comércio agrícola. A diplomacia parlamentar cria uma nova dinâmica no interior das OI que as aproxima dos parlamentos internos dos Estados. Seu mecanismo de negociação atua de maneira muito similar ao mecanismo de funcionamento de um parlamento de um Estado; tratam-se de configurações de interesses ou de jogos de geometria variável, pois elas mudam conforme o tema em discussão, logo não há alianças definitivas. Constitucionalismo Internacional. As constituições das OI, suas cartas, assemelham-se às constituições nacionais com a sua estruturação em princípios básicos e mecanismos. Exemplo: Acordo que criou a OMC – princípio da não-discriminação (cláusula da nação mais favorecida), princípio da transparência. Esse constitucionalismo estabelece um horizonte de possibilidades em torno do qual os países analisam o posicionamento recíproco e definem diretrizes. As OI têm uma capacidade de supervisão sobre os assuntos domésticos, o que era impensável no passado. Globalização vertical; assuntos internacionais que se inserem no plano interno; Globalização horizontal: organização das relações entre Estados. As OI podem se inserir também na globalização vertical, quer pelos tratados celebrados em seu âmbito, quer por exigir uma atuação das OIs que verifique a compatibilidade do posicionamento adotado pelos Estados e seu plano interno. Exemplo: globalização vertical fixação de alíquotas no Mercosul que se refletem em cada membro, individualmente (regional); acordo TRIPs na OMC (universal). Supervisão das OI sobre as políticas externas, financeiras, econômicas, educacionais, etc. dos Estados. A ONU verifica se o comportamento de seus membros é adequado aos princípios da organização. O FMI tem como uma das funções estabelecer paridades entre as moedas nacionais; se um país quer estabelecer paridades, deve consultar o Fundo; em geral, os acordos com o Fundo obrigam os países a não estabelecer barreiras ao comércio internacional (política condicionante). A OMC dispõem de um sistema de notificações que estabelece o grau de publicidade e transparência das políticas comerciais. A supervisão exercida pelas OI pode ser instrumento importante para permitir aos outros membros conhecer o grau de comprometimento dos Estados nas obrigações assumidas. Exemplo: controle da observância dos direitos humanos na ONU – atualmente, mais enfatizado com a criação do Conselho de Direitos Humanos em substituição à antiga Comissão de Direitos Humanos. As OI deram origem a uma espécie de tensão valorativa que trouxe à tona o problema da vinculação (linkages); em

Esta sendo como antecessora da Ordem de Westfalia: na Cristandade organiza-se a sociedade transnacional, quanto as suas relações, através de uma visão do mundo cristão, submetendo os Estados aos mandos tanto do Imperador, quanto do Papa. Este era tido como árbitro supremo e inapelável dos conflitos estabelecidos entre os Príncipes cristãos.

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que medida seria possível estabelecer um grau de comprometimento que permitam a implementação dos valores que as OI visam a resguardar e difundir. Exemplo: caso dos hormônios na carne bovina dos EUA e Canadá, embargada pela UE – sanção da UE por violar a rodada do Uruguai – este caso evidencia o tema da proteção à saúde em relação ao comércio. Proteção ao meio-ambiente presente no preâmbulo do acordo da OMC através da menção ao desenvolvimento sustentável. Deve a OMC se preocupar com a proteção do meio-ambiente? Certas ONGs condenam a OMC pela pouca proteção ou por não considerá-la devidamente. Ver interpretação do artigo 20 do GATT que permite a suspensão da liberalização do comércio em virtude de certas proteções, como proteção à vida humana, aos animais, ao ambiente, etc. Exemplo: discussão da relação entre OMC e atos humanos na relação entre comércio internacional e atos trabalhistas. Funções das OI. As OI cumprem diferentes papéis ou funções: elas podem ter sido criadas para desempenhar uma determinada função, mas efetivamente acaba cumprindo outras. Exemplo; a Sociedade das Nações foi criada para atuar sobre o problema da guerra e da paz, mas acabou atuando em outros temas, não relacionados diretamente com este. As OI atuam para evitar as falhas de mercado, as falhas dos governos e prover os meios necessários (bens públicos). Exemplo: OMC tenta coibir o dumping (falha de mercado). A provisão de bens públicos é feita pelas organizações econômicas ou não. Elas têm um papel de destaque na introdução de regras de conhecimento que dão origem a regras de finalidade, pela instituição de princípios que devem ser seguidos uniformemente. Com as OIs há uma previsão de um telos, que é um fim a ser perseguido de forma homogênea e serve de parâmetro para a análise da atuação dos Estados. Outro papel das OI é alterar o padrão de justiciabilidade, o que é algo muito novo. Elas constituem mecanismos (softs ou hards) que as possibilitam controlar o efetivo cumprimento das regras instituídas. Há uma mudança sem precedentes do padrão das relações internacionais com a atribuição de poderes normativo e supervisional às OIs. DIFERENÇAS ENTRE O DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO (DIP) E O DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO (DIPR) A imagem do DIP como um direito de subordinação é cada vez mais contestada pela transformação progressiva da esfera pública moderna. As esferas governamentais são cada vez mais dependentes do apoio das organizações das esferas privadas. O Direito Público passa a ser cada vez mais um direito pactuado, em que o governo atua como um garante das obrigações. Ainda a noção de DIP como subordinação é utilizada como distinção nos manuais de DIP, ao tratarem do DIP e do DIPR. Paz de Westfália: é emblemática porque assinala uma nova conformação das relações internacionais, substituindo a ordem da cristandade que vigorava anteriormente. Grotius é um autor vestefaliano, e via o DIP

como um conceito fundado na noção de bem-estar, de bem-comum. Nenhum projeto individual pode ser concebido sem que haja a possibilidade de que haja a interferência de terceiros. Pacto de sujeição: indivíduos abdicam de seus direitos para transferi-los ao Estado. O pacto de sujeição demonstra que o direito e a moral são produtos de uma convenção e que o estado de natureza seria a anarquia e seus significados. Para Hobbes, a ordem somente é possível quando há a centralização do poder. As relações internacionais seriam comparáveis com aqueles que antecedem o estado de natureza; a guerra de todos contra todos é permanente e os momentos de paz são interrupções desse estado de natureza entre os Estados. A obediência aos Tratados somente se justifica nessa concepção se a obediência estiver em harmonia com a busca do interessa nacional. A ordem descentralizada não é igual à ordem doméstica. Esta não tem os mesmos atributos que aquela ainda que a ordem internacional esteja envolta num quadro de descentralização de poder. Definição de Ordem Internacional Seria tal ordem padrão previsível de determinação de relações internacionais e que permite a gestão internacional por um determinado tempo. A noção de ordem evoca a noção de totalidade, de um conjunto de elementos; não é uma relação qualquer entre elementos, mas uma relação ordenada. A ordem comporta um repertório, este é representado por um conjunto de elementos, mas é composta igualmente por uma estrutura. Esta define os modos de relacionamentos aceitáveis entre os elementos constitutivos de um determinado sistema. As regras entre os elementos constitutivos do sistema, podem ser regras empíricas, regras lógicas e axiológicas. A ordem contempla uma margem de variação das relações entre os elementos, margem essa que nos é dada pelas regras dos elementos estruturais. A substituição de uma ordem por outra ocorre no momento em que relações novas acabam por abalar as regras baseadas em relações de estruturas diversas. Aplicação do conceito anterior à transição da Ordem da Cristandade para a de Westfália A soberania é o centro das relações – rebelião do Estado, com uma face que olha pro interior, a qual evoca uma supremacia do Estado, não submetida a nenhuma outra organização. A ordem internacional, portanto, assim concebida, pode existir a despeito de haver um poder centralizado. Noção de governança: delineia-se, sobretudo, na década de 80, por obra da ciência política norte-americana. Não é semelhante a governo; enquanto este, no interior dos Estados, pressupõem a centralização do poder para o seu exercício, a governança é intrinsecamente mais fácil e se ajusta a uma realidade internacional de descentralização de poder. Assim, sendo, o surgimento das OI, dotadas de

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personalidade jurídica, pode ser visto como uma visão prática do que pode ser caracterizado como governança, nesse contexto dado. Retira-se do caráter de competência do Estado a discussão e regularização de certas matérias que, originariamente, numa ordem vestefaliana, lhe pertenceriam. Há, portanto, uma limitação da soberania externa, como observado por Luigi Ferrajoli ao analisar a formação da Organização das Nações Unidas. A governança, portanto, tem uma conexão direta com o conceito de ordem. Uma das funções básicas da ordem, interna ou externa, é regular o uso da força. No interior dos estados, a sua figura representa a centralização da coação política do poder (Max Weber). Na esfera internacional, isso não há (teoria hobbesiana do estado de natureza predominar nas relações interestatais). O dado importante aqui a ser observado é que uma OI, como a ONU, foi e continua a ser um veículo para se lidar com o tema do uso da força na medida em que ela retira dos Estados a faculdade de definir quais são as hipóteses em que a violência pode ser legitimamente empregada. Há aqui um avanço notório do que se sucedia desde o século XVII, até a 2ª Guerra Mundial. Isso pelo fato de que o Direito Internacional (DIN), nesse período, procurava definir tal direito pelo da guerra justa, quanto ao emprego da força, e agora há a preocupação da formação de um corpo de normas que distingue as zonas bélicas das civis, institui regras de tratamento e dignidade de civis e militares perseguidos, ou feridos (Convenções de Viena e Protocolos Adicionais de 1967). A guerra é ainda permitida como forma de resolução de conflitos, mas vedada pela ONU: art. 4º da Carta da ONU; o art. 2º estabelece princípios de não intervenção reserva ao CS a faculdade exclusiva para o uso da força art. 7º. Primeira função importante para a observância da ordem e da governança: papel da OI como instrumento de controle da violência. Uma segunda função importante é que as OI possibilitam o adensamento da cooperação internacional. Tal cooperação se dá pela utilização do direito internacional de cooperação, o qual justapõem interesses para os mais diversos fins. Direito Internacional de Existência Internacional de Cooperação. e o Direito

imprescindível que os Estados pensassem em uma nova forma de organização de interesses, semelhante ao que as sociedades privadas se organizavam no direito interno. O contrato social de Ascarelli foi pensado num contrato plurilateral, diferente de um de compra e venda, por exemplo; enquanto este contrapõem interesses, aquele justapõem os mesmos. Isto permite falar em um regime jurídico diferente às relações bilaterais – regime jurídico entre contrato e sociedade. As OI criam um espaço para a cooperação ao qual se agrega ao elemento da diplomacia parlamentar. Terceira função das OI para a governança e ordem internacionais : as OIs são instituições que criam espaços institucionais. As instituições são importantes para o direito privado e público no âmbito interno dos Estados e não o são menos no DIP. A idéia de objetividade das instituições, de organização permanente, que suplanta os fins individuais e imediatos, têm sido apontadas como características da instituições. Elas servem para rotilizar as ações (expressão de um famoso cientista político argentino), ou seja, registrá-las, reduzi-las a termo (escrito), conferindo, portanto, um caráter de maior perenidade. As OI regulam as ações dos Estados que delas pertencerem, separando assim os seus Estados-mebros dos não-membros; seus poderes irradiam para os Estados membros. As OI precisam ter como um tema decisivo seus mecanismos de tomada de decisões – necessidade de se afastar a questão de não ser as OI meios de se obter decisões apropriadas à ordem internacional. CRIAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA OI: SUJEITOS DE DIREITO E ANALOGIA A PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO Noção kantiana - o homem é visto como um fim em si e não como um meio. Como um fim em si, o homem deve ter seus direitos consagrados e sua dignidade reconhecida. Isso é característica do juspositivismo do século XIX: todo homem é visto como sujeito de direito e suscetível de capacidade. Capacidade: na teoria moderna, é elemento para atribuição de responsabilidade. Capacidade pode ser conferida mesmo que os indivíduos não venham a exercer seus direitos, simplesmente porque são sujeitos de direito. Noção de personalidade jurídica (pj), enquanto extensão da capacidade: define direitos e obrigações. Na construção jurídica moderna algumas tentativas foram feitas para se perceber a importância do conceito de personalidade jurídica como um conceito chave para o jurista. Não é senão um ato de ficção atribuir capacidades a entes coletivos, pois somente ao homem é capaz de se estabelecer capacidade, pois ele possui vontade. Tulio Ascarelli concebe a personalidade jurídica como um centro de imputação de direitos e obrigações. Tal centro distingue os indivíduos dos entes coletivos, aos quais podem ser conferidos direitos e obrigações, e que, por esta razão, são sujeitos jurídicos independentes. Se pensarmos no desenvolvimento das S.A. modernas, o fator da personalidade jurídica, sem o conceito capitalista,

O primeiro estabelece o dever de respeitar as normas de um governo estrangeiro em relação a sua população: respeito a soberania externa. O que demonstra uma das características da Ordem Internacional de Westfalia. Já o Direito Internacional de Cooperação não é produto exclusivo do século XX; encontra-se em gênese desde o advento da ordem vestefaliana. Cria ele opções para a mudança da agenda internacional. A agenda internacional clássica é composta por temas políticos e estratégicos. A nova agenda que surge no século XX já tem uma multiplicidade de 3 de temas, como a proteção do meio ambiente, comércio e agricultura, e direitos humanos. Para lograr objetivos tão vastos era

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certamente não teria ocorrido. A atribuição de pj data da final da Idade Média (Banca de San Giorgio, Renascimento italiano). As pj de S.A. estabeleceram uma diferença entre o patrimônio dos acionistas e o da empresa e subscreveram o patrimônio investido destes nas ações da empresa. Há uma separação entre o patrimônio de cada um destes entes com a criação das pj. A menção destas sociedades é necessária, pois há um ponto muito estreito de contato entre a personalidade jurídica internacional e as associações societárias. O contrato social serve para aglutinar esforços e recursos que serão postos em torno de uma finalidade comum. Ele é diverso do contrato de compra e venda típico em que as duas partes comparem e estabelecem deveres e direitos em face de uma a outra. O contrato de sociedade, para Ascarelli, é plurilateral. Além de ele reunir mais de duas partes, a sua principal peculiaridade está na criação de um regime jurídico. O contrato social dá origem a uma instituição. As sociedades anônimas (S.A.) modernas têm uma faceta institucional, pois o seu estatuto social serve como um guia constitutivo do seu funcionamento, organiza as relações internas e, logo, define as relações orgânicas. Mas as S.A. são instituições porque adquirem estabilidade, tornam-se algo separado da figura de seus criadores, que têm um fim a realizar e perseguir. Nestas S.A. a separação radical inicialmente estabelecida entre a figura dos acionistas e a da sociedade foi esmaecida pela desconsideração da pj, obra dos tribunais ingleses (disregard of legal entity) do final do século XIX, progressivamente adota pelos tribunais do civil law. Não pode haver uma confusão entre o patrimônio societário e o de seus acionistas. Todas as vezes em que esta confusão se manifestar é permitido aos tribunais “levantar o véu”, descondiderar as pj, para atingir a figura dos acionistas. A confusão patrimonial configura-se em que os acionistas fazem com que a pj torne-se uma longa manus, uma extensão para a garantia do interesse individual. Isto tudo é significativo para o tema da pj no plano internacional. As OI repetem no plano externo o que ocorreu com as S.A. do ponto de vista interno. Aquelas são produto da vontade dos Estados, foram criadas através de contratos semelhantes àqueles constitutivos das S.A. (melhor dizendo, tratados constitutivos). Há uma reunião de interesses para a realização de uma finalidade comum. O tratado constitutivo dá surgimento a um ente que, muito embora semelhante à vontade dos Estados, a vontade da OI é diferente: há a formação de uma vontade decisória peculiar daquela vontade dos Estados membros. Cria uma estrutura orgânica (órgãos diretores, órgãos de fiscalização e mecanismos de solução de controvérsias), na qual todos os membros participam. Percebemos assim a analogia entre as pjs das S.A. e a criação das OIs, enquano a pj destas. Aspecto interno e externo da pj, em relação às OI. Antes, ressaltar o fato de que as OI são sujeitos de direitos e obrigações. São, para usar a expressão clássica de Ascarelli, centros de imputação dos direitos, diferentes dos dos Estados. A relevância teórica está no fato de que as OI também são agora sujeitos de direito, ao lado dos Estados. A importância prática repousa no fato de que as OI exercem direitos e obrigações de forma independente dos Estados, ainda que originárias da vontade estatal.

As antigas OI não se referiam à pj interna que as OI detém no interior dos Estados. A definição de direitos e obrigações que tais OI exerciam eram produtos dos acordos de sede: celebrados entre a organização e o Estado hospedeiro. O artigo 104 da Carta da ONU atribui a ela personalidade jurídica de direito interno: apesar disso, ela celebrou com a Suíça, em 1946, um acordo de sede definidor de seus direitos e obrigações. O artigo 9º do Estatuto do FMI prevê quais os direitos e obrigações que o Fundo exerce no plano doméstico. O acordo de sede da ONU com a sociedade foi importante devido ao caráter lacunar deste referido acordo, pois não tinha uma previsão suficiente. As OI detém internamente o direito de contratar, de adquirir bens imóveis ou móveis e de estar em juízo. Basicamente o conteúdo da pj das OI no plano interno se resume ao direito de contratar, de adquirir bens e de estar em juízo. Qual é, portanto, o conteúdo externo de tal pj? A construção da pj das OI sob o âmbito externo teve como um dos principais artífices a questão do caso Bernadot, decidido pela CIJ, em 1949, parecer consultivo em que a ONU consultou a CIJ sobre a possibilidade de oferecer proteção diplomática a um membro seu, assassinado na Palestina. A CIJ analisou o pleito formulado pela ONU e concluiu que a ONU é detentora de pj internacional. Este leading case foi posteriormente confirmado em manifestações sucessivas da CIJ. Em 1950, ao se manifestar sobre o Sudoeste Africano, a presença ilegal da África do Sul no sudoeste africano, a CIJ voltou a ressaltar a pj da ONU, o mesmo se repetindo em 1954 quando a corte abordou o tema dos efeitos das decisões do tribunal administrativo da ONU; certas despesas de 62, a corte se pronunciou sobre esta questão, coisa que se voltou a verificar em 1971, quando a corte manifestou sobre a presença continuada da África do Sul na Namíbia. A consolidação da pj no âmbito internacional é, portanto, obra pretoriana. A Suprema Corte dos EUA utilizou-se da teoria do implied powers: poderes da União em relação ao dos Estados. Tudo que o fosse necessário para a realização das finalidades da União, deveria ser visto como seu poder implícito, tal teoria significa: a despeito da fixação constitucional, a União tem poder para atingir tais finalidades previstas. A CIJ utilizou este raciocínio na esfera internacional: a ONU tem os poderes necessários para a realização de suas finalidades. E é justamente a carta constitutiva da ONU que fez com que a CIJ considerasse, a partir da teoria dos poderes implícitos, que as OI detém pj e que tal pj possibilita a realização das funções para as quais tal org foi criada. No plano comunitário, a Corte Européia utilizou idêntico raciocínio para definir a pj das entidades da comunidade européia. As OIs, ao terem pj, estão habilitadas para a realização de múltiplas atividades. O conteúdo da pj, das OI se consubstancia, portanto, em uma multiplicidade de direitos e de obrigações. Em primeiro lugar, as OI podem celebrar tratados. Esta era uma prerrogativa que incumbia antes somente aos Estados e que agora, em virtude da pj das OIs, é reconhecido. Em segundo lugar as OIs podem exercer a proteção diplomática de seus agentes; tal proteção era antes atributo exclusivo dos Estados. Em terceiro lugar, as OIs podem solucionar os mecanismos de solução de controvérsias; os organismos da ONU podem pedir à CIJ providências, sob a forma de

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parecer consultivo, a despeito de certas questões. As OI podem ser responsabilizadas pelos atos que praticam, figurando assim, quer como pólo ativo, quer como pólo passivo. O direito de legação também é reconhecido ao dizer que elas enviam representantes seus a outras OI ou a outros Estados. Estas são atribuições típicas das OI. Na próxima aula: terminar esta concepção e demonstrará como algumas OI acabaram por exercer competências no plano pessoal, que são similares ao dos Estados nacionais, no caso de Cambodja e outros. O DIREITO DE LEGAÇÃO NAS OI Retomada da aula anterior: comparação entre personalidade jurídica de direito interno e a das OIs. a

Banco Mundial. O CS da ONU, condenando as discriminações da África do Sul e de Portugal em relação às suas colônias, recomendou que as organizações pertencentes à chamada família ONU não fizessem empréstimos aos mesmos. Em relação à África do Sul, Resolução nº 418, o CS decreta embargos econômicos impostos a este país. Mesmo assim, ela toma empréstimos do FMI. Vale lembrar que ambos (Banco Mundial e FMI) disseram que não estão subordinados à ONU, de acordo com suas cartas constitutivas. O feixe de competências das cartas constitutivas das OI reúne competências tanto materiais quanto territoriais, análogas aos dos Estado-nação. O ato instituidor das OI tem semelhança com o contrato plurilateral: justaposição de interesses e perseguição de uma finalidade comum. Tal ato instituidor das OI é um embrião de atos materiais, para que ele se efetive. O ato instituidor é uma ato jurídico e internacional; jurídico porque cria, extingue e limita direitos e internacional porque é um ato que dá vida a uma finalidade comum. Neste campo, o ato instituidor se reveste tanto na forma de tratado, quanto na forma de costume. É regulado pela Convenção de Viena dos Tratados. É reguladora dos direitos e obrigações decorrentes do ato instituidor. Serve de grande baliza para que quaisquer conflitos sejam resolvidos com base na mesma convenção. O artigo 31 de tal convenção fala sobre a interpretação dos tratados, a qual deve ser feita de boa-fé, de acordo com o significado originários das palavras, estipulando ainda algumas regras sobre a interpretação. O contexto deve ser levado em conta: quando foi celebrado, o seu preâmbulo e os seus anexos. É ainda preciso fazer referência aos acordos interpretativos que as partes venham a celebrar sobre o tratado. Tais acordos podem vir a contar com a participação de todos os integrantes do tratado ou de algumas partes. Para que estes acordos possam servir como elementos úteis de interpretação, é preciso que ele seja aceito pelas demais partes. Ainda que ele não contenha o mesmo número de partes que o tratado original, ele deve conter algo de uma futura adesão das partes não aderentes. Natureza jurídica do ato instituidor. Duas são as teses: a tese pactista e a tese constitucionalista. Para a pactista, o ato instituidor é um mero pacto, simples tratado que requer a conjugação de outros atos jurídicos e materiais para lhe conferir validade (como, por exemplo, a ratificação do tratado pelos Estados signatários do mesmo). A constitucionalista vê no ato instituidor uma grande civilitude em relação às Constituições nacionais, ou seja, entende tal ato instituidor como sendo algo transcendental à própria noção de Estado. A tese constitucionalista tem mais capacidade de explicar o ato instituidor. Modificações do ato instituidor: podem brotar da vontade dos membros da OI, ou do ambiente e circunstâncias em que a OI se insere. Tais modificações podem se referir a alguns aspectos menores da OI, ou ao todo. Uma vez ocorridas, interferem na sistemática individualizada da OI. São tidas como modificações aquelas que interferem como um todo na OI, mas que não levam a sua desfiguração completa. Vias de alteração do ato instituidor: modificação

Direitos e obrigações dos acionistas de uma S.A. não se confundem com os da empresa, em virtude da personalidade jurídica. O mesmo pode ser dito em relação às OIs. Significa dizer que o Estado membro de tal OI não detém mais o monopólio do exercício de tais direitos e obrigações. As OIs detém personalidade jurídica de direito internacional. O reconhecimento deste fato é recente e ocorreu graças ao parecer consultivo feito pela CIJ, após pedido da ONU de querer proteger um agente seu, assassinado na Palestina (caso do Conde Bernadotte). A CIJ indicou um fato de grande importância para as relações internacionais, servindo de um divisor de águas: as OIs passaram a gozar de personalidade jurídica internacional. O conceito de pj da ONU foi estendido, ao passar do tempo, às demais OIs. Na última aula, foi também falado sobre o conteúdo da pj das OIs: conjunto de direitos e obrigações. As OIs podem celebrar tratados; a celebração de tratados sempre foi algo reconhecido único e exclusivamente aos Estados. Porém, com a mudança dos cenários internacional, este direito é estendido às OIs. Elas também podem acionar os mecanismos de solução de controvérsias; podem configurar nos pólos passivos e ativos das relações jurídicas internacionais. As OI e o direito de legação, propriamente ditos. Tal direito era exclusivo do Estado. Só estes poderiam receber e enviar representantes a outros Estados. Este atributo não é mais exclusividade dos Estados, podendo ser atribuição das OI. Estas podem, portanto, exercer o direito de legação, enviando representantes seus a um Estado estrangeiro. O Ato instituidor das OI é à semelhança do contrato de constituição das pj de direito interno o principal instrumento a fixar os seus direitos e obrigações e a limitar a competência por ela exercida. Esta idéia é extremamente relevante para as OI: a sua carta constitutiva fixa as competências e delimita os poderes exercidos pelos seus dirigentes. Com relação às prerrogativas e privilégios, estes funcionários não podem exercer instruções diretas de seu Estado patrial e agir em interesse de indivíduos nacionais. O estabelecimento de privilégios e prerrogativas demonstra a necessidade de um corpo burocrático e específico que não esteja relacionado a um Estado específico. Dois casos célebres, um na década de 60 e outro na de 70. O primeiro caso envolveu o

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do ato instituidor por um procedimento por ele regulado, ou por um outro acordo. DESAFIOS QUE A GLOBALIDADE APRESENTA PARA AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS Durante a primeira fase do curso, estudamos o surgimento das organizações e suas principais características. Agora continuaremos a analisar alguns aspectos das organizações. Com a globalização, as organizações internacionais começam a enfrentar desafios. O que é Globalização? A globalização é um fenômeno marcado pela compressão do espaço e do tempo. É um aumento sem precedentes das interações sociais, que confere a esse fenômeno uma natureza eminentemente social (mais do que econômica, política). A intensificação das relações sociais significa que na globalização há uma dialética, um processo contraditório, em que os acontecimentos locais são influenciados por certos eventos. Assim, certos eventos são capazes de moldar acontecimentos em um determinado ponto do planeta e, ao mesmo tempo, são por eles moldados. A globalização apresenta tanto uma tendência ao universal quanto ao particular determinado. Há uma tendência centrípeta e outra centrífuga (há tanto elementos que visam a fortalecer a especificidade quanto aqueles que visam a fortalecer o universal). Pode-se perceber essa “contradição” tanto no plano econômico quanto no social e jurídico. Assim as empresas transacionais representam o efeito da globalização no plano econômico. Elas agem em plano internacional. Há uma política comum que deve reger as empresas onde quer que elas estejam situadas, que se expressa pelas cláusulas gerais de contratos. O surgimento e a organização dessas empresas correspondem a um efeito econômico da globalização, mas têm repercussões também nos campos jurídico e social. Nesse sentido, já estudamos a massificação dos contratos no direito civil. O movimento codificar concebeu o contrato como uma instituição jurídica regida por dois grandes princípios: da autonomia das partes e da liberdade contratual. A liberdade contratual é a idéia de que as partes podem escolher o contrato que mais se adequa aos seus interesses. A autonomia se refere à possibilidade de as partes inserirem nos contratos aquilo que, em seu conteúdo, é de seu interesse. Com o advento da macro-empresa e, posteriormente, com as transnacionais, começou-se a se questionar esses dois valores. Essas empresas não mais permitem a discussão das cláusulas contratuais, pois isso enseja uma elevação dos custos. Por isso, é preciso prever uma política contratual comum, que irá se expressar em cláusulas gerais de contrato que se repetirão, de maneira uniforme em todas as contratações. Essas cláusulas servem para definir a responsabilidade dos agentes que participam da contratação. Além isso, são uma manifestação da gerência e da racionalização da gestão.

Os contratos massificados foram uma restrição, quer à autonomia das partes, quer à liberdade contratual. Essa restrição transparece, sobretudo, pelo fato de que não mais as partes podem, conjuntamente, definir o conteúdo dos contratos. Ademais, não é mais dada a possibilidade de a parte escolher com quem quer contratar e por qual tipo de contrato. Outro efeito da globalização é o de que os contratos tendem, cada vez mais, a se tornar "contratos cativos", relações contratuais que se estendem por lapsos temporais extremamente demorados, que relacionam de um lado o consumidor e de outro o fornecedor. São exemplos os contratos bancários, previdenciários, educacionais - o consumidor se prende a uma relação contratual que se estende por um tempo demasiado longo. O contrato não consegue prever, com minúcias, tudo o que irá acontecer ao longo dos tempos. Ele é muito mais um mecanismo para instituir como as partes deverão se comportar no caso de conflitos nesta relação contratual. É possível, ainda, perceber a atuação da globalização em outras dimensões. Se, de um lado, ela consagrou movimentos separatistas ao redor do mundo (Québec, movimento basco - ETA, etc.), também trouxe uma tendência de se pensar conceitos que não se regem pelo princípio partitivo da soberania. Assim, a idéia do patrimônio comum da humanidade (oriundo da Conveção de Montego Bay, de 1982, sobre Direito do Mar4), que instituiu que nenhum país é dono desses patrimônios, sendo de propriedade de todo o mundo. Globalização no Presente. A globalização atual apresenta, destarte, um ineditismo em relação a todas as demais formas de globalização que ocorreram no passado. O mundo, desde a Antiguidade, conheceu épocas de globalização. Assim, e.g., no Império Romano (com a conquista de territórios), no colonialismo ou no neocolonialismo, etc. Mas nada disso se compara à globalização hodierna. Isso porque ela foi responsável pela retirada das restrições espaciais e temporais para as relações humanas. Características da Globalização. 1. Evolução dos meios de comunicação A globalização é um evento que repercute na economia, na política e no direito. A evolução dos meios de comunicação não é um processo novo. Desde o século XIX, a melhoria dos meios de transportes proporcionou uma redução do custo das viagens e impulsionou os transportes de mercadorias. Mas ele se intensifica após a 2ª Guerra Mundial (2ª GM). Com a evolução da microeletrônica, deuse uma das principais condições para que todo o desenvolvimento da informática e da telemática se processasse. E foi esse desenvolvimento que permitiu o surgimento da sociedade em rede, que interliga pessoas, empresas em diferentes sociedades do mundo. Essa evolução tem um impacto social porque intensificou as relações humanas; cultural, porque trouxe nova cultura
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Tal convenção estabeleceu os fundos (leitos mais profundos) marinhos como sendo patrimônios comuns da humanidade; além disso, regulamentou a polêmica questão acerca da delimitação e definição da plataforma continental.

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com a Internet; político, porque as empresas e ONGs podem divulgar suas idéias na rede mundial. No âmbito jurídico, a grande prova de seu impacto nos é dada pelos chamados “contratos eletrônicos”, que incorporaram as características dos contratos de massa e cativos. Tais contratos tornaram muito mais acentuados os riscos do consumidor, pois este não conhece o fornecedor, se submete a um contrato determinado e a campanhas publicitárias maciças. A própria celebração dos contratos, por meio da assinatura digital, criou discussões no mundo jurídico. Ademais, a moeda vai se tornando cada vez mais desmaterializada, perdendo seu aspecto físico. Ilustração desse fato é o surgimento das ações de S.A.5 2. Passagem do modelo fordista de organização industrial para o modelo da especialização flexível O modelo de Henry Ford baseia-se na organização de trabalhadores e é característica dominante da indústria da primeira metade do século XX. É concomitante com o modelo de consumo de massa. A intenção não é atender a finalidades específicas, mas produzir bens em larga quantidade para o atendimento da maioria dos consumidores. Nesse modelo, os trabalhadores são organizados na linha de montagem e desempenham tarefas específicas, à semelhança de um organismo, em que cada um é responsável por uma etapa. Os trabalhadores são semiespecializados. É nesse contexto que surgem os sindicatos. Mas essa idéia entra em crise na segunda metade do século XX, com o surgimento do modelo da especialização flexível. Ele possui uma nota diferenciadora, porque não mais se organiza para a produção de bens em série para os mercados de massa, mas passa a ser possível a reconversão das plantas industriais, para o atendimento de atividades específicas, diferenciadas e muito distintas. Não é por acaso que diversos tipos de bens podem ser produzidos sem que isso implique o aumento considerável dos custos. Esse novo modelo conta com trabalhadores não mais semi-especializados, mas especializados que realizam múltiplas tarefas. No âmbito jurídico, os

chamados “contratos relacionais”6 são decorrência deste modelo. 3. Substituição da sociedade industrial pela sociedade pós-industrial A sociedade industrial se caracteriza pela substituição da energia humana pela energia mecânica. Ela transforma a natureza sem ter uma visão clara da finitude dos recursos naturais. Os bens, aqui, são produzidos em larga quantidade. Isso se modifica completamente com as sociedades pósindustriais. A indústria não deixa de produzir, mas o comércio de serviços passa a crescer muito mais do que o de bens. Assim, medicina, advocacia, transportes são expressões do comércio de serviços que marcam essa segunda fase. Nesse sentido, vemos a preocupação da comunidade internacional com a celebração, na Rodada do Uruguai, do acordo sobre comércio de serviços (em oposição ao GATT, que regula o comércio de bens, quanto à aplicação de alíquotas tarifárias nas relações comerciais entre os Estados signatários de tal acordo). O comércio de serviços não tem a mesma dimensão física que o comércio de bens, exatamente porque ele está disperso nos países. As formas de sua proteção são diferentes das do comércio de bens. Aqui, a proteção se dá por meio da restrição da prestação de serviços pelo servidor estrangeiro. Vemos, aqui, a grande diferença, pois antes o que prevalecia era o domínio sobre a produção; hoje, prevalece o domínio sobre a informação. Nesse sentido, quanto mais educado for um povo, maior é a probabilidade de superação da pobreza. 4. Desregulamentação dos mercados financeiros e de capitais. É um fenômeno que remonta ao final da década de 70 ao início da década de 90. Ocorre simultaneamente aos
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O que pode levar à como sendo uma das causas da volatilidade do capital.

O modelo de “especialização flexível” possui, como características principais: oferecer um produto ao mercado com tecnologia, ou qualidade, ou apoiado em um serviço singulares. Para tanto, há a necessidade de flexibilidade dos termos contratuais (por exemplo, adoção de cláusulas abertas ou “openend terms”), a fim de garantir um atendimento à demanda de maneira ininterrupta, a partir da concepção de que, caso necessário, as circunstâncias contratuais possam ser rapidamente alteradas, sem que, para isso, haja a necessidade da celebração de novo contrato. Assim, de acordo com a obra de Ronaldo Porto Macedo Júnior, “Contratos Relacionais e Defesa do Consumidor”, na página 127, “a especialização flexível oferece 1) a redução do trabalho envolvido (‘work-in-progress’), à medida que o trabalho qualificado e a inovação tecnológica aumentam a produtividade e diminuem o número de trabalhadores diretamente envolvidos nas tarefas produtivas; 2) a redução do ‘lead time’, isto é, tempo requerido desde o início da produção até o seu final (...); 3) a redução do trabalho direto; 4) a geração de um produto final de alta qualidade”. Vale lembrar que o contrato relacional é marcado pelas características de solidariedade, permanência e cooperação, a fim de caracterizarlhe devidamente (Isto leva-nos a perceber que o contrato passa a compreender uma relação que se protrai no tempo, adquirindo um caráter processual e não mais monástico). Para uma análise mais direcionada, vide a seguinte obra: MACEDO Jr., R. P. Contratos Relacionais e Defesa do Consumidor. 1. ed. São Paulo. Max Limonad. 1998.

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efeitos que sucederam à erosão do regime de Bretton Woods. Rompeu-se a paridade fixa entre o ouro e o dólar, instalando-se uma crise nas economias internacionais no câmbio de taxas flutuantes. Foi um processo em que os países reduziram as regras incidentes sobre o controle financeiro e de controle internacional sobre suas economias. Há uma busca intensa dos governos para investimentos externos em seu país. Esses fluxos de capital geram enorme preocupação sobre os efeitos que podem surtir nas economias nacionais. 5. Manifestação das empresas transacionais como pólos de produção do direito e do poder. Tais empresas são conhecidas de há muito, desde o século XVII. Mas a dimensão de seu poderio só se tornou um fato inédito na realidade internacional na segunda metade do século XX. São agentes do direito mundial, ou de uma lex mercatoria. Configuram uma rede de relações com consumidores, fornecedores, mas, principalmente, relações entre si. Nessas relações, procuram afastar a aplicação do direito nacional. Normalmente, inserem-se cláusulas de arbitragem, que afastam o judiciário nacional da solução de qualquer controvérsia em relação aos problemas com os contratos internacionais. Isso porque essas empresas temem a falta de especialização e extrema morosidade dos judiciários nacionais, que provocam incertezas que elas procurar evitar. Esses são típicos atos confirmadores da nova lex mercatoria. Todas essas características repercutem no funcionamento das organizações internacionais, pois elas foram concebidas como eminentemente estatais. Mas, em uma era em que há um relacionamento complexo entre o mundo estatal e o não-estatal, não é possível pensar o funcionamento das organizações sem analisar esse fenômeno. Por isso, os desafios enfrentados pelas organizações internacionais podem ser institucionais, participatórios, regulatórios, decisórios e sancionatórios, e serão descritos nas próximas aulas. OS DESAFIOS, PROPRIAMENTE DITOS, QUE A GLOBALIDADE IMPÕEM ÀS OI Desafio participatório. O desafio participatório diz respeito a quem tem direito de participar das organizações e de seu processo de deliberação. Assim, é a análise sobre quem são os membros das organizações internacionais e sobre se a participação desses membros é suficiente para dar respostas adequadas aos desafios das organizações. 1. Membros das organizações internacionais A noção dos membros nos remete à discussão de seus elementos característicos. Em primeiro lugar, são membros os sujeitos de direito internacional. Como vimos nas aulas anteriores, os Estados são os grandes sujeitos das relações internacionais, e, como tal, exercem direitos e deveres na esfera internacional. Por isso, a primeira condição para que alguém seja membro de uma organização é que seja sujeito de direito internacional atribuição que é específica de Estados. É muito raro uma organização internacional participar como sujeito de uma outra, pois os Estados são os grandes interessados na

instituição de vínculos de natureza associativa para a satisfação de interesses comuns. A segunda condição é a de que o membro tenha condição de sujeito ativo na comunidade internacional. Não basta a condição de portador de direitos e obrigações - é preciso que esses direitos e obrigações possam ser exercidos em um âmbito específico, determinado pelo tratado constitutivo da organização. O terceiro requisito é a existência de um vínculo associativo, que é verdadeiramente responsável pelo surgimento da organização. Ele está presente no ato instituidor, que congrega Estados diferentes para a realização de fins comuns. A participação nesse vínculo é, pois, requisitos para que um Estado se torne membro de uma organização. A quarta condição é que os membros da OI tenham, em função do vínculo associativo, direitos e deveres específicos. Os Estados, enquanto sujeitos de direito internacional, são portadores de direitos e deveres; mas, ao atuarem na esfera própria das organizações internacionais, detêm direitos e deveres que não são repetíveis em outras esferas de ação. Esses direitos e deveres só existem enquanto o Estado é membro da organização. Os demais direitos subsistem, mas criam-se novos. O quinto requisito é aquele que se refere a uma participação constitutiva na organização internacional, que quer dizer que o Estado interfere quer na criação da organização, quer no desenvolvimento normal das suas atividades. O Estado coopera, contribui e age para a realização das suas finalidades. Para isso, ele participa dos seus órgãos representativos e de seu processo de deliberação. Definição de membro de OI: Membro de uma organização internacional é, assim, um sujeito ativo que, por força do vínculo associativo, assume direitos e deveres próprios. Essa condição de membro não se confunde com os funcionários das organizações, que têm direitos e deveres funcionais e não pessoais, na medida em que decorrem de um estatuto próprio que rege a sua atividade profissional. O membro também não se confunde com as entidades consultoras, que são convidadas esporadicamente a se manifestar a propósito de algum tema que seja do interesse da organização. Pode surgir a necessidade de se ouvir a manifestação de especialistas em um determinado ramo de atividade para o processo de deliberação. Quando uma entidade é consultada, ela não participa da organização enquanto membro, mas como um terceiro convidado para opinar sobre um assunto, mas que não pode interferir predominantemente em seu processo deliberativo. Não se deve confundir também o membro com seus observadores; estes são representantes de Estados, ou de movimentos, que são convidados a participar na qualidade de observadores, assistindo às reuniões e se informando acerca dos assuntos debatidos. Há uma série de exemplos na ONU (e.g., quando a Organização para

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Libertação da Palestina foi convidada, ou movimentos de proteção aos direitos humanos, etc). Tipos de Membros das OI. Há três tipos de membros de organizações internacionais: - membro de pleno direito: é aquele que exerce, sem quaisquer restrições, todos os direitos e obrigações decorrentes do vínculo associativo. Não há, em princípio, nenhuma restrição à sua capacidade de atuação na organização. - membro associado: participa do processo de deliberação em alguns níveis, mas não pode, via de regra, participar das votações, das deliberações assembleares e das decisões em matéria financeira. Há uma clara diferença com os membros de pleno direito (que atuam sem quaisquer restrições). Os membros associados têm limitações evidentes no que tange a sua participação. - membros parciais: apenas participam dos órgãos subsidiários da OI. Não participam das deliberações assembleares, ou dos órgãos centrais. Sua participação só é aceita em caráter subsidiário, nos órgãos que desempenham função essencial à organização. Ainda: - membros originários: aqueles que desde o primeiro momento participaram das discussões e do momento constitutivo da OI. São os criadores da organização. Pode-se, porém, atribuir a condição de membro originário ao Estado que não tenha participado de seu surgimento, mas que tenha tomado a deliberação de participar da organização, desde que o tratado constitutivo preveja isso. - membros em via sucessiva ou derivada: ingressam em instante posterior, e devem se submeter a um regime especial de admissão, que é regulado pelo ato instituidor. O ato pode definir regras com diferentes teores. Pode, e.g., estabelecer que o ingresso na organização resultará de um convite da própria OI, para o qual a manifestação de vontade do aderente é essencial. Ou pode especificar que o ingresso na organização dependerá apenas da manifestação de vontade do Estado postulante. Nessa condição, o Estado pode manifestar seu interesse em ingressar, sem convite. Ele pode, também, especificar que os membros da OI receberão informações do postulante (para ver se ele se adequa à organização). Pode também prever que haverá um comitê de admissibilidade, ou que a Secretaria regulará a admissão. Pode, ainda, estipular qual será o procedimento de deliberação para a aceitação do Estado, e também qual o órgão encarregado de tomar a decisão final. Normalmente, cabe à Assembléia Geral a responsabilidade de admitir um Estado ou não na OI. Variam os critérios para a deliberação. As organizações regionais, normalmente, adotam o critério da unanimidade (assim, e.g., como ocorre no Mercosul). É mais comum, entretanto, a adoção do critério da maioria simples; assim, a OMS. Outra modalidade de critério é o da maioria de 3/4; assim, a OPEP. Também é possível a adoção do critério de 4/5; assim, a Organização Internacional da Aviação Civil. A regra, no entanto, é a maioria qualificada de 2/3. Assim, a OMC, que usa esse critério e regula um regime de exceção. Para o ingresso de um membro, é preciso que se travem longas e demoradas discussões. O aderente precisa demonstrar que vai adequar a sua política comercial aos ditames da OMC. Na basta a manifestação formal da intenção de integrar a organização. Mais do que

isso: é preciso o compromisso formal de que o Estado adotará uma política comercial inteiramente compatível com o teor dos acordos nela abrangidos. Depois disso, há o escrutínio, e os membros se manifestam sobre o ingresso, e se 2/3 aprovaram, o Estado é aceito. Mas o membro deve concordar com a totalidade dos acordos comerciais realizados - ele não pode, assim, apenas concordar com alguns acordos, deve ser com todos. É necessário, ainda, quanto à classificação dos tipos de membros de uma OI, pensar, sob ponto de vista da sucessão dos direitos e obrigações dos Estados, em algumas situações, em que há a formação de um novo Estado pela dissolução de Estados precedentes: 1. Dois Estados formam um terceiro: se os dois eram membros, o terceiro é automaticamente membro. Mas, se um era e outro não, não se pode atribuir a este Estado, automaticamente, a condição de membro da OI. 2. Estado Federal, estados de recente independência, Estados em que existe uma separação territorial: há um surgimento de um novo Estado mas à continuidade de um anterior. Nessas três hipóteses, o Estado não é de iure membro da OI simplesmente porque o Estado ao qual ele se integrava anterior o era. Para se tornar membro, deve seguir o procedimento de aceitação. Ainda, a suspensão e a cessação do vínculo associativo são duas hipóteses que têm características diversas: suspensão: caracteriza-se pela não manifestação em caráter temporário dos direitos e obrigações dos membros - cessação: o vínculo pode se romper por manifestação de vontade do membro ou por decisão de algum órgão competente da OI. Nesse sentido, a organização pode decidir que não é mais desejável a permanência de um membro em seus quadros. Assim, e.g., como uma sanção pela infração de direitos e obrigações previstos. A expulsão é um direito que tem a ver com a defesa, pela OI, de sua ordem jurídica. Mas ela (e também a suspensão) pode derivar de um ato de vontade do próprio Estado em duas situações: 1. quando o ato instituidor da OI claramente reconhece o direito de retirada. Esse fato precisa ser levado ao pleno conhecimento dos demais membros e, por isso, deve ter no mínimo 12 meses de antecedência; 2. mas esse direito também é reconhecido quando ocorre uma alteração substancial do ato instituidor que modifique suas competências e seus objetos. Isso é previsto pela Convenção de Viena sobre tratados. Por isso, ele não precisa estar no ato instituidor necessariamente. Direitos dos membros: A)AUTONOMIA: a OI deve respeitar a vontade dos Estados. Ela só pode interferir em seus propósitos; B)DISSOLUÇÃO: os membros podem dissolver a OI, por vontade própria; C)PARTICIPAÇÃO DELIBERAÇÃO; NO PROCESSO DE

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D)EFETUAR O CONTROLE DAS ATIVIDADES DA OI, PRINCIPALMENTE EM MATÉRIA ORÇAMENTÁRIA E FINANCEIRA; E)PARTICIPAR DOS BENEFÍCIOS GERADOS PELA OI. Deveres dos membros: A)DEVER POSITIVO DE COOPERAR, PRINCIPALMENTE EM TERMOS FINANCEIROS, PARA A MANUTENÇÃO DA OI; B)DE NÃO ATUAR COM VISTAS A AGIR PARA, DE ALGUM MODO, NÃO SE OBTER OS FINS PREVISTOS PELA OI. Não pode se comprometer com quaisquer atos que possam importar no rompimento do ato instituidor. O desafio participatóro é proposto na medida em que as organizações internacionais contam com a participação dos Estados primordialmente. Mas um dos problemas que a globalização enseja é o desejo de a sociedade civil participar da tomada de decisões das organizações internacionais. Com efeito, as decisões das organizações afetam as pessoas, onde quer que elas estejam. Além disso, a resolução dos grandes problemas atuais passa, necessariamente, pela união das OI com a sociedade civil e com os Estados. Art. 13 do Entendimento de solução de controvérsias da OMC: recurso a especialistas para a solução de um determinado conflito quando isso for necessário. Essa determinação veio com a idéia do amicus curie (amigos da Corte). Essa é, portanto, uma questão muito importante para esse desafio das organizações internacionais: de enfrentarem uma realidade diversa, múltipla, em que a sua legitimidade está em constante desafio, com a necessidade de participação da sociedade civil Na aula passada, vimos como o desafio participatório se apresenta nas organizações internacionais. Refletimos sobre a natureza de seus membros e frisamos que um de seus desafios se relaciona justamente a quem deve participar da organização, e quem pode figurar como membro. Quanto à participação, é possível distinguir duas dimensões: - intervenções que se processam no âmbito do sistema de solução de controvérsias. Aqui a menção feita aos “amigos da Corte”, figura que não se encontra expressamente prevista no entendimento de solução de controvérsias da OMC, mas o órgão de apelação, com base no já citado art. 13, tem reconhecido a possibilidade de se recorrer a painéis de especialistas que não figuram no âmbito de solução de controvérsias propriamente dito. A atuação dos especialistas - amigos da Corte - é importante para o trato de questões mais técnicas, e adquire relevo no processo de solução de controvérsias. da OMC. - quem deve ser efetivamente membro das organizações internacionais. Desde o início do curso salientou-se que a condição de membro das organizações se restringe exclusivamente aos Estados. O problema está em saber se com a transformação das relações internacionais, com o advento do transnacionalismo e a participação crescente de novos atores (ONGs e empresas

transnacionais) é possível manter restrita aos Estados a participação nas organizações internacionais, ou se se deve promover reformas a fim de promover a inserção dos novos atores do cenário internacional, como forma até de melhor tratar temas atuais, como o meio-ambiente, e.g. A idéia é de se saber como elaborar um novo esquema de funcionamento das organizações internacionais que não crie sobrecarga de demandas e não afete sua eficiência, tudo isso combinado à legitimidade - esta a nova dimensão a ser tratada (o embate do equilíbrio entre efetividade e legitimidade). O desafio participatório, assim, terá que lidar com as questões da eficácia e da efetividade, em cenário internacional em que os novos atores clamam por participação ampliada. Desafios decisório e regulatório. Ganham tais desafios expressão particular quando analisados sob o enfoque da OMC. Isso porque é ela instituição paradigmática, em que muitos dos problemas vivenciados pelas organizações internacionais fazem-se presentes com especial relevância. Salientou-se que são as organizações internacionais instituições, e como tal cumprem papel quanto à rotinização de comportamentos (criam padrões de comportamentos). São, pois, maneiras pelas quais as idéias ganham durabilidade ao longo do tempo. A durabilidade se comprova por estrutura posta a serviço de seus objetivos fundantes. A OMC, por paradigmática, deve ser estudada. Para tanto, deve-se retroceder ao estudo do seu acordo constitutivo (GATT). Os três grandes pilares da ordem internacional são: FMI, Banco Mundial e acordo geral de comércio. Cada um deles combate as dificuldades surgidas no pós-II GM. Uma dessas dificuldades visava a coibir que problemas na balança de comércio dos Estados alcançassem dimensão global. Em Bretton Woods, em 1944, criou-se, diante desse problema, o FMI. Problema outro, porém, havia: superar o aumento da pobreza decorrente do conflito mundial. Era preciso criar uma instituição complementar ao FMI. A estabilidade das balanças de pagamentos devia ser complementada pela oferta de recursos para países em desenvolvimento para que realizassem projetos de infra-estrutura sem precisar reconhecer à iniciativa privada - o que lhes possibilitaria transpor o patamar do subdesenvolvimento. Daí o Banco Mundial. Restava, porém, completar ainda o sistema com uma terceira instituição, que cuidasse especificamente das restrições de caráter tarifário que impediam o fluxo do comércio internacional. Durante a guerra houve o uso das moedas nacionais de forma competitiva (desvalorizavamse as moedas como forma de aumentar a competitividade dos produtos nacionais no meio externo). A isso se aliavam práticas abusivas. Reforma, pois, fazia-se necessária, sob pena de não se poder criar condições para boa realização das transações internacionais. Daí o terceiro pilar da ordem econômica internacional projetada para o pósguerra: a Organização Internacional do Comércio (OIC) . Jamais, porém, entrou em funcionamento a OIC, tendo em vista que os EUA se recusaram a ratificar seu tratado

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constitutivo, temendo haver restrição excessiva a seu governo quanto à realização de sua política externa. Daí decidiram os países realizar acordo provisório - o acordo geral de comércio e tarifas (GATT) -, com a função de liberalizar o comércio internacional. Isso se deu em 1947, e não precisava esse acordo ser ratificado pelos EUA. Foi esse acordo o grande propulsor do comércio internacional no pós-guerra. Ao fim da Rodada Uruguai, em 1994, a comparação com o cenário internacional de 1947 permitia mostrar quão expressiva foi a liberalização (que se deu por etapas) realizada (com redução de tarifas). Foi na Rodada Uruguai, então, que se criou a OMC. As rodadas anteriores visavam inicialmente à redução de tarifas de produtos industrializados. Posteriormente - e isso engloba também a rodada Uruguai, além da de Tóquio - é que outros temas também foram tratados (e.g., antidumping, etc.). O destaque da Rodada Uruguai, em contraposição às outras, se deu, contudo, não só pela abrangência dos assuntos tratados, mas também porque nela (que foi de 1986 a 1994) se decidiu criar a OMC. O GATT, quando constituído, tinha 23 partes contratantes. Não era organização internacional de direito, mas se tornou OI de fato, posteriormente, graças à habilidade dos seus sucessivos administradores. Motivado pelo princípio da não-discriminação, o GATT, na década 80, entrou em processo de declínio, devido a acontecimentos peculiares à realidade internacional do período, tais como os dois choques do petróleo (1973 e 1979), a mudança da configuração do poder econômico mundial com o desenvolvimento europeu motivado em grande parte pela comunidade econômica européia, e pelo despontar de países industrializados na Ásia e na América Latina, além obviamente do crescimento do Japão. Com o princípio da não-discriminação e a conseqüente perda de legitimidade do GATT em relação aos inúmeros países não-membros (os quais tinham crescente destaque no cenário internacional), há enfraquecimento da instituição. O ingresso de novos membros trouxe à tona o tema então inovador da proteção dos interesses dos países em desenvolvimento (até então o intuito era tãosomente regular a relação entre os países desenvolvidos). O comércio internacional em desenvolvimento causava também, nessa fase, novo cenário, além de que o desenvolvimento econômico tornava necessária a análise dos direitos de propriedade intelectual (tema que foi até debatido na rodada Uruguai). O desenvolvimento de outros países que não aqueles membros iniciais do GATT, e a conseqüente pretensão de entrada na instituição, e o advento, pelo ingresso desses novos participantes, de novos temas, aos quais o GATT não estava preparado, tudo isso levou à necessidade de rediscutir a instituição. Daí a rodada Uruguai, no decorrer da qual o embate entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento acabou por fazer premente a necessidade de novo acordo global. O Professor Amaral menciona a necessidade de o GATT deixar de ser OI de fato para se tornar OI de direito - tal como deveria ter ocorrido em Bretton Woods caso os EUA

não tivessem se recusado a assinar o tratado constitutivo da OMC. Em 1994 foi celebrado o ato constitutivo de criação da OMC, a qual começa a funcionar em 1995, reunindo mais de 100 países (hoje possui quase 150 membros). Enquanto o GATT tinha partes contratantes, a OMC tem membros, já que é OI de direito (não só de fato). Mudanças: - ratione personae: a OMC tem muito mais membros do que o GATT tinha partes contratantes (23 partes); - ratione materiae: alargamento considerável também. Enquanto o GATT se restringia à redução das tarifas incidentes sobre produtos industrializados, o espectro de abrangência da OMC é bem maior - não só ampliou os acordos de comércio de bens (e.g. acordo sobre agricultura), como também levou a acordos sobre o comércio de serviços e propriedade intelectual, dentre outros acordos também importantes. Estrutura da OMC. A estrutura institucional da OMC é peculiar. O órgão máximo é representado pela Conferência Ministerial, que se reúne pelo menos a cada dois anos, reunindo os ministros das relações exteriores dos membros. É o órgão verdadeiramente deliberativo da OMC - o grande palco de negociação de novas regras do comércio internacional. Abaixo vêm: conselho geral, órgão de solução de controvérsias e mecanismos de revisão das políticas comerciais. Têm a mesma composição, mas diferentes funções: - o Conselho Geral é órgão diretor. - o de Solução de Controvérsias visa a resolver conflitos, decidir pela instauração de painéis, etc. - Mecanismo de Revisão de Políticas Comerciais visa a examinar a compatibilidade da política comercial de um país com as regras da OMC. OMC como paradigma de Organização Internacional que enfrenta os desafios propostos pela Globalização hodierna. O desafio decisório que se propõe às organizações internacionais, e que aparece nitidamente na OMC, surge quando se analisam suas regras para a tomada de decisões. A OMC é OI que prevê critérios para o processo de deliberação (maioria qualificada - 2/3 ou 3/4). A peculiaridade do processo decisório está não na previsão de regras formais para a deliberação por maioria qualificada, mas na tomada de decisões por consenso este é o critério normalmente utilizado para a adoção de novas regras quando um Estado, mesmo que não manifeste explicitamente seu apoio, silenciar sobre nova medida, tacitamente consente em sua adoção. O consenso significa obstáculo: é preciso que todos os Estados estejam de acordo para que determinada regra possa valer - o que é muito complicado tendo em vista que a OMC reúne a quase totalidade dos Estados. A vantagem é que com a obtenção do consenso há maior grau de comprometimento com as regras adotadas. Vigora na OMC o princípio do single undertaking: só se adota regra quando há acordo sobre a totalidade das

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regras de execução. Isso pode ser ilustrada pelas atuais discussões da rodada Doha. Somente com concordância sobre tudo o que é objeto de negociação é que se pode concluir a rodada. Há, pois, singularidade evidente no processo decisório. Singularidade também há no órgão de solução de controvérsias. Este deve avalizar medidas tomadas por outros órgãos, só não o fazendo se não houver unanimidade quanto à não-avalização. Existe, portanto, especificidade no âmbito da OMC quanto ao processo decisório. Isso traz obstáculos, mas, ao mesmo tempo, assegura maior legitimidade aos tratados negociados nas rodadas de liberalização comercial. Veremos na próxima aula outra singularidade da OMC, que aponta a terceiro desafio: o desafio regulatório (como as organizações internacionais podem regular questões que relacionem o público e o privado, e diferentes organizações que atuam em campos conexos). Na aula passada, analisamos a OMC, em que existem procedimentos para a tomada de decisões com base na maioria qualificada (2/3 ou 3/4, dependendo da deliberação), mas também o consenso pode ser utilizado. Para complementar o estudo sobre como o desafio decisório se apresenta, utilizaremos um exemplo regional. Com a análise da OMC, vimos como isso se dá em uma organização de nível mundial. Vejamos, pois, o que ocorre com o Mercosul. O Mercosul é uma organização internacional após a celebração do protocolo de Ouro Preto, em 1994. Constitui-se a partir do Tratado de Assunção, celebrado em 23 de março de 1991. Ele só foi possível quando da mudança de relacionamento entre Brasil e Argentina. Na década de 70, esses dois países lutaram pela hegemonia nacional. Houve, inclusive, uma preocupação com a questão nuclear. E isso só foi passível de solução em 1990. Assim: 1979: acordo para a preservação dos recursos hídricos do Rio Paraná 1980: tratado que determinou o uso pacífico da energia nuclear. 1985: ata do Iguaçu 1986: programa de cooperação econômica 1988: tratado de integração que os dois países vieram a celebrar. Verifica-se, portanto, que se instaurou um esquema de cooperação mútua entre Brasil e Argentina. E, para a formação do bloco econômico, eles resolveram incluir dois novos parceiros: o Uruguai e o Paraguai. Assim, em 1991, foi celebrado o Tratado de Assunção, criando o Mercado Comum do Sul. O Mercosul veio à luz dentro de um conceito mundial muito específico. Com efeito, nas décadas de 70 e 80, os países latino-americanos foram governados por regimes militares, o que dificultava a formação dos blocos, uma vez que era impedida a comunicação entre cidadãos e Estados. Por isso, era necessário que se regularizasse essas relações, o que só ocorre no final dos anos 80. No plano mundial, já havia uma tendência de formação de acordos de

integração de comércio, alguns com densidade jurídica bastante consolidada, outros nem tanto (e.g., Nafta). O Mercosul surgiu com o propósito de criação de um mercado comum. Mas esse propósito contrasta com as finalidades do Tratado de Assunção, cujas regras tinham muito mais em mente a criação de uma união aduaneira. Observação importante: área de livre comércio abolição das restrições alfandegárias e não alfandegárias entre os Estados partes; união aduaneira - caracteriza-se pela existência de uma política comercial comum adotada em relação aos Estados não-parte, e que se expressa por uma tarifa externa que todos os países aplicam em relação aos demais, que não fazem parte do bloco; mercado comum - livre circulação das pessoas e dos bens de produção. O mercado comum foi o que aconteceu com a criação de uma comunidade econômica européia. No âmbito sulamericano, a meta não possuía as condições adequadas para sua realização - tudo levava a crer que somente seria possível se criar uma união aduaneira. Destarte, o Mercosul nasceu simplesmente como um tratado e não como uma organização internacional. Esse tratado previa um sistema deliberativo, baseado no conselho do mercado comum (presidentes dos países) e o grupo do mercado comum (ministros de relações exteriores). O conselho tinha função eminentemente decisória e o grupo, executiva. Em dezembro de 1991, foi concluído o Protocolo de Solução de Controvérsias, para resolver as contendas nascidas da interpretação do Tratado de Assunção. Mas faltava criar uma estrutura institucional para o bloco. Esse esquema era provisório, delimitado a um determinado tempo. Por isso, em 1994, os países resolveram transformar o bloco em uma organização internacional de direito, que ganhou personalidade jurídica e, dessa forma, passou a poder celebrar tratados com terceiros. Antes, não existia a possibilidade de o Mercosul tratar com OI - eram os Estados-parte que individualmente assim procediam. Desde 1994, o bloco passou a ter competência para celebrar esses tratados, que vinculam todos os seus membros. Conforme ocorreu com a OMC (antes, GATT), o Mercosul possuía partes; agora, possui membros, pois é organização internacional de direito. O Protocolo de Ouro Preto instituiu a Comissão de Comércio, que tem a função de administrar a tarifa externa comum imposta aos produtos provenientes de terceiros mercados. Ainda, a partir de 1994, tem início o aprofundamento da integração com a realização da união aduaneira, mas uma série de produtos ficou inicialmente excluída da tarifa externa comum. Os países membros elaboraram listas específicas desses produtos. O que é preciso observar, aqui, é que qualquer decisão tomada no Mercosul requer a aceitação de todos os membros. Agora, o Mercosul também conta com a participa da Venezuela. Vigora, aqui, o princípio da unanimidade decisória, já que o Mercosul não tem caráter universal, supranacional, mas intergovernamental. Isso significa que não foi criada uma instância decisória, cujas decisões vinculam diretamente os Estados. Essa

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intergovernabilidade tem um problema: a concordância de todos os membros é requisito prévio para a tomada de deliberações - e isso é difícil de ser conseguido. Não há, como na Europa, um sistema de maioria qualificada (conforma a natureza de algumas matérias, mais rigorosa ou não). Mas a deliberação por uma maioria qualificada no Mercosul sempre foi contestada pelos países menores, como Paraguai e Uruguai. O peso do Brasil seria muito grande. Pensemos no caso da ONU, que procurou superar as dificuldades em termos de procedimentos decisórios que tinha a Liga das Nações. Com efeito, seu sistema decisório foi uma das causas do fracasso da Sociedade (unanimidade). Por isso, a ONU foi mais sábia ao prever um sistema decisório em que a desigualdade do voto na Assembléia contrasta com a do Conselho de Segurança. Na AG, todos os membros têm voto. No CS, somente os membros permanentes têm direito de veto. O sistema decisório do CS hoje está profundamente modificado, pela mudança do mapa mundial, em que há inúmeros países que pleiteiam a participação no CS como membros permanentes. Ainda, esse sistema de veto não traz um sistema de equilíbrio com o voto na AG. Desafio institucional Com relação ao desafio institucional, é necessário salientar que as organizações internacionais enfrentam, nesse campo, o grande problema do relacionamento de caráter transversal dos temas internacionais (como, e.g., a proteção do meio-ambiente ou da propriedade intelectual). Assim, e.g., a proteção do meio-ambiente tem uma dimensão local, nacional, regional e mundial, e todas estão intrinsecamente relacionadas. Pesemos na dimensão regional. Há um acordo que foi adicionado ao acordo original de livre comércio da América do Norte, sobre o meio-ambiente. Ainda, várias medidas foram tomadas na Europa. No âmbito mundial também a ONU tem sido um nascedouro de importantes acordos e tratados sobre meioambiente. Mas existe uma transversalidade desse tema, na medida em que ele já entrou nas discussões da OMC. Muitos são os acordos que se referem à proteção do meio-ambiente. É muito difícil tratar desse assunto por uma organização sozinha. Quando o assunto é transversal, é preciso que ele passe por todas as organizações, para que elas possam lidar com um tema tão complexo. Outro grande tema é o da proteção da propriedade intelectual. Após a 2ª GM, houve a necessidade de se superar o regime de tratados específicos sobre o assunto. E se decidiu criar uma OI específica para isso, que estimula uma harmonização para as regras internacionais sobre o tema – Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI). Mas ela não tem capacidade sancionatória para fazer valer essas regras. O acordo TRIPs é o acordo que estabelece uma regulamentação mundial da propriedade intelectual. Mas é preciso mostrar que a OMC já celebrou um acordo de cooperação com a OMPI - a indicar a clara transversalidade desse tema, que remonta à atuação de mais de uma OI. O mesmo se dá com a atuação da OMC e do FMI, para o equilíbrio da balança internacional. Buscase permitir a cooperação do FMI dando pareceres em que

se discutem soluções para a balança de pagamentos. Destarte, a governança global deve enfrentar essa transversalidade. Desafio regulatório. Os temas do direito internacional clássico eram os temas do direito de coexistência - política, estratégia, questões militares. O século XX ampliou de forma vertiginosa esses temas; o direito internacional passou a se preocupar com questões econômicas, de trabalho, de saúde, de meioambiente, etc. Com isso, as organizações internacionais ganharam nova feição. Antes, eram monofuncionais - e.g., organização para propiciar a navegabilidade nos Rios Reno e Danúbio7 - e agora são multifuncionais - assim, e.g., a ONU não lida só com assuntos da paz, mas dos direitos humanos. As organizações internacionais passam a exercer uma multiplicidade de papéis - e o insucesso de um não leva ao insucesso de outro necessariamente, e não se pode julgar uma OI pela incapacidade de atingir uma de suas finalidades. PREPARAÇÃO PARA O EXERCÍCIO PRÁTICO – SIMULAÇÃO DA REUNIÃO DO COMITÊ DA ASSEMBLÉIA GERAL SOBRE REFORMA DA ONU Comparação entre as regras do Conselho de Segurança (CS) e da Assembléia Geral (AG) – preparação para o seminário (simulação da AG). Parar para pensar a razão dos procedimentos entre os dois: CS e AG – ponto para a prova! AG debate os temas mais ou menos do mesmo modo que o CS: cada país tem o direito à palavra, mas o que tem sido feito, há uma sessão na AG em que os países colocam formalmente sua posição para o público. Não é uma discussão acerca dos temas, as reuniões da AG – as decisões, na prática são tomadas antes. Para sabermos como são essas discussões, ler o texto de cada um dos discursos dos países. Mas essa série de discursos é filtrado em uma linguagem diplomática, sendo apresentado não como um debate, mas como palestras. Significativo foi que na reforma do CS, foi-se pedido que houvesse o reconhecimento do direito de réplica, o que não é algo normal nem na AG e nem no CS. O relatório, “In larger freedom: towards development, security and human rights for all”8, do atual SecretárioGeral (SG) da ONU, Koffin Annan, exemplifica bem o debate sobre a necessidade de reforma da ONU, assim como a discussão acerca da institucionalização do Conselho de Direitos Humanos na mesma organização. Duas propostas de resolução para reforma do CS: países africanos (Gana e Nigéria) e do Brasil, Índia e Alemanha, além da proposta genuinamente brasileira, de 2004. Delegações para a simulação: Brasil, Alemanha, Índia e Japão; EUA, UK, França, China e Rússia; Argentina, Itália, Paquistão

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Tidas como Organizações Internacionais meramente de caráter administrativo. 8 Disponível no sítio: http://www.un.org/largerfreedom/contents.htm

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OS DESAFIOS, PROPRIAMENTE DITOS, QUE A GLOBALIDADE IMPÕEM ÀS OI Desafio Sancionatório. A eficácia da norma internacional quanto à sanção prevista naquela. A sanção é uma conseqüência do ilícito; ela é uma conseqüência que a norma jurídica prevê para uma conduta considerada como ilícita. No pensamento jurídico ocidental há duas correntes para considerarmos o ilícito: a primeira refere-se ao jusnaturalismo, como referência a um desvalor de comportamento. Ilícitos nada mais são do que comportamentos tidos como desvaliosos, que merecem pena ou punição. A posição oposta é a defendida pelo positivismo: o ilícito é o resultado de uma figuração jurídica. Ele decorre de uma previsão normativa e ele é o efeito natural da existência de uma pena para um comportamento qualquer. Assim, o que é ilícito hoje, poderá não sê-lo amanhã – exemplo: adultério. A ordem jurídica estabelece o regramento da sociedade mediante o uso da força. A sanção é vital para o Direito: ela é a conseqüência atribuída a uma conduta, precisa ser regulada pela norma, não existe fora desta e somente pode ser contemplada nos termos estabelecidos pelo Direito. O Direito interno e o Direito Internacional conhecem dois tipos de sanção: a pena e a multa, de um lado, e a sua execução de outro. A pena não visa a restaurar uma situação anteriormente existente; seu objetivo é a punição de um comportamento socialmente indesejado. A execução é um mecanismo pelo qual o direito é restaurado na sua integralidade. A sanção no Direito Privado possui uma natureza peculiar, muito embora, a pena própria do Direito Penal, possa ser utilizada pelo Privado para a obtenção de certos fins previamente estabelecidos. O Direito Internacional também prevê esses dois tipos de sanções. Estado centralizado: cabe a um órgão superior a execução da sanção de modo incontestável. Não podem os indivíduos o fazerem. Cabe aqui uma distinção a fazer entre o Estado moderno, o direito que dele brota e as sociedades primitivas. A vendeta era um mecanismo pelo qual os indivíduos, de acordo com seus interesses, aplicavam o direito, quando lhes fosse conveniente. Com o advento do Estado moderno, este assumiu a titularidade de imposição da sanção. No DIN não há um órgão central que possa impor a sanção e controlar a legalidade destas. Não obstante, o DIN possui sanções. É um profundo equívoco sustentar que a sanção é somente típica do direito interno. Há as guerras e retaliações como formas de sanções, além das penas estabelecidas pelo estatuto do Tribunal Penal Internacional (crimes que estão sob sua competência: crime de guerra, crimes de genocídio e crimes de agressão). Ele atribui a aplicação de multas e de penas, inclusive a perpétua. É necessário lembrar que a descentralização do poder na esfera externa possa gerar conseqüências problemáticas. Contudo, o advento das OI fez com que houvesse uma maior centralidade na aplicação de sanções: artigo 7º da Carta da ONU – CS. Há assim a supressão da força dos Estados para que estes atinjam interesses particulares, de acordo com seus interesses. Exercício da legítima defesa, apesar de parecer uma exceção, é limitado às previsões da Carta: sem excesso e que respeite o que foi previsto na Carta. Esta centralização, no entanto, é parcial; apesar de

a Carta da ONU ter assegurado ao CS uma função primordial à promoção da paz e da estabilidade mundial, tem havido desafios para tanto. O CS não possui um aparato coercitivo análogo ao disposto pelos Estados nacionais, acionável a qualquer momento pelo CS, para questões conflitantes internacionais. Ele depende da boa vontade dos Estados para custear quaisquer operações de caráter militar. Se esta é uma dificuldade com qual p CS se depara, a execução de sanções, no que diz respeito ao uso da força, tem, na esfera internacional um custo muito elevado. No plano econômico, as sanções possuem particularidades que não podem ser esquecidas. A OMC procurou remediar uma das deficiências do GATT: inexistência de punição ao violadores do acordo. A sanção, no plano econômico, permite induzir a uma mudança do Estado quanto à desobediência. Há diversos especialistas que vêem críticas na questão da sanção como um uma interrupção do comércio internacional, atravancando ainda mais sua economia. Tal interrupção pode ter efeitos muito danosos, porque faz cessar a importação de bens de capital de que toda a economia necessita. Ou a interrupção de insumos necessários à produção nacional. Essa sanção não atinge apenas a parte bilateral, como possui um efeito sistêmico. No momento em que esses Estados elevem tarifas, como sinônimo de retaliação, eles criam uma consciência de que sua indústria nacional será privilegiada e que gerará uma Comunidades Européias. Distinção entre estas e a UE. A UE é um conjunto de relações cooperativas, composto por três pilares: um comunitário; um intergovernamental, em que há um relacionamento informado pela diplomacia clássica na área da política externa e da segurança comum; e um terceiro na área da cooperação judiciária internacional. As comunidades européias surgiram da comunidade econômica européia da energia atômica, da de carvão e do aço As Comunidades Européias, assim como a ONU e a OMC espelhem os desafios trazidos pela globalização em relação às organizações internacionais. As Comunidades Européias não são uma organização monotemática ou monofuncional. São uma complexidade de temas. No que diz respeito ao desafio institucional, as comunidades européias não dispensam o apoio de outras OI. No plano do desafio sancionatório, o problema está em encontrar as sanções adequadas para um tipo de integração específica e particular, em que houve a superação do estágio da integração da intergovernabilidade para o da supranacionalidade. O quadro que atualmente possuímos em termos da atuação da OI mostra que elas são, ao mesmo tempo, essenciais para a governança global, e ao mesmo tempo se confrontam com desafios que precisam ser superados para que esse papel seja superado com êxito. Devemos ter em vista o aspecto macro que as organizações internacionais têm. O funcionamento das OI está presente da definição da advocacia, da atuação jurisdicional do

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estado, enfim, em todos os aspectos da esfera doméstica. Vivemos em uma era de complexidades9. Por todos os desafios expostos acima e suas particularidades não é mais possível, portanto, pensar que a existência interna dos Estados, que a vida das populações internas, não dependa mais das OI. DIREITO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS (DRI) – DIN 420 Professor Alberto do Amaral Júnior INTRODUÇÃO AO CURSO E OS DIREITOS HUMANOS (DH) INTERNACIONAIS A conversão dos DH em tema internacional desperta, de imediato, o repúdio da comunidade internacional em relação às crises que envolveram os DH. Nos anos 90, os massacres declarados à população bósnia, crise na Somália, na Libéria, no Haiti, massacre de Saddan Hussein aos curdos do norte do Iraque, em abril de 1991 e a população xiita em agosto de 1992. Todas estas crises possuíram divulgação e repercussão maiores, graças ao auxílio dos meios de comunicação (uma das características da globalização). Problemas relativos ao Desenvolvimento – uma das facetas dos DH é o direito ao desenvolvimento. Não é possível pensar o desenvolvimento na órbita global sem dissociar os temas da segunda metade do século XX: descolonização da África e aumento do número de Estados. Com a criação de novos Estados, houve também a perspectiva das dificuldades dos Estados recém criados para combater problemas estruturais. Não apenas a dificuldade dos Estados recém criados, mas enfrentaram toda sorte de obstáculos. Esta situação veio a desaguar na Conferência da ONU em 1964, em que os países em desenvolvimento se reuniram nesta para reivindicar a divisão da riqueza mundial. Os anos 60 trouxeram o tema do desenvolvimento à tona. Uma quarta problemática refere-se à questão do uso da força, principalmente quanto à distribuição do poder nuclear na vida internacional (crise recente que o governo iraniano provocou em não respeitar o TNP (tratado de nãoproliferação de armas nucleares), do qual o Irã é signatário). A Carta da ONU demonstrou uma atenção maior quanto ao uso da força: capítulo 7° da Carta: tentou corrigir as deficiências que o Pacto da Liga tinha. Este T é importante porque ele submete à fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) as pesquisas nucleares. Certificar que um Estado não utilizará a energia nuclear para fins bélicos. Noção de paradigma: conjunto de hipóteses, teorias e métodos compartilhados pela comunidade científica em um dado momento (conceito de Thomas Kun, segunda metade do século XVII). O paradigma delimita quais são os problemas que haverão de ser preocupação da comunidade científica, o que exclui questões que os cientistas não procurarão resolver. A história do paradigma tem dois momentos: vida normal e sua transformação. A normal ocorre quando os cientistas são formados para a resolução de problemas. Em certo instante, ele pode ser
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insuficiente, porque começa a resolver problemas, mas não surte efeitos, com base em tal paradigma. Momento de repensar o paradigma – momento de transição paradigmática. O momento da crise paradigmática será um dos tópicos que nos orientará neste curso. A primeira pergunta a se fazer aqui, a respeito de tal crise, é sobre o papel do Direito para a comunidade internacional. Sabe-se que o direito tem o papel de permitir uma sociabilidade, garantir ordem, segurança e permitir aos homens a realização de projetos comuns – regras de coexistência e de cooperação. A crise paradigmática no DRI ocorre justamente aí, quando as Relações Internacionais (RI) não mais cooperam com o Direito Ordem Internacional de Westfália – padrão de relações internacionais que domina desde a segunda metade do século XVII até a segunda metade do século XX – substitui a ordem da cristandade. Na Ordem Internacional de Westafália (OIW), o ESTADO é o grande núcleo. A OIW acaba por fornecer uma fórmula de compreensão das relações internacionais, em que o Estado nacional está no centro de todas as atenções. O fator da soberania é um fator essencial e central, quer na ordem doméstica ou internacional. A globalização questiona a centralidade do Estado e o papel da soberania. Há um conjunto de fatores, como a interdependência e a revolução das comunicações, que dão uma certa compreensão das transformações que a globalização. Não há apenas uma passagem do direito de coexistência para um direito de cooperação. Há toda uma mudança sobre os sujeitos de direito internacional (DIN) (quem seriam eles?) – os Estados passam a depender de outros sujeitos para enfrentarem dificuldades internas e externas – Estados, mais empresas e mais ONGs. O governo atuará como uma espécie de “garante” entre atores com sujeitos diversos e distintos. Refletir sobre o DRI é de um lado pensar sobre a questão da ordem, como um tema que a convivência humana necessita de padrões estáveis, de regras de coexistência e cooperação, mas precisa pensar também na forma da distribuição de recursos e na legitimidade dessa distribuição. Ordem e justiça – padrões a serem perseguidos pelos Estados como uma distribuição mais justa das condições sociais, da riqueza e de preservação das riquezas naturais e recursos. O DRI visa a focalizar temas para a ordem clássica internacional e de temas relacionados à inspiração de visar um mundo mais justo. MODELO HOBBESIANOS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS 1º Aspecto do modelo (Aspecto descritivo) de Hobbes, demonstrado através da elucidação de suas características. São quatro: 1) relações internacionais são compostas exclusivamente por Estados; 2) há uma relativa igualdade de poder dentro do estado de natureza de modo que o mais fraco possa sobrepujar o mais forte; 3) há a possibilidade de uma organização interna em relação à ordem externa; 4) há ausência de obediência a qualquer ordem nas relações internacionais.

Parágrafo extraído das anotações desta aula feitas por Renata Orsi Bulgueroni.

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Falhas de tal sistema: 1) não só os Estados são atualmente sujeitos de direito – há as OI, as empresas transnacionais (capazes de influenciar as políticas dos Estados e podem fazer com que o Estado dependa dela para sua sobrevivência) e as ONGs e indivíduos. ATOR – sentido grego: aquele que possui a capacidade de voluntarização dos seus interesses. Sujeito de Direito: é imputável deveres e direitos – Estados e OI são sujeitos de DIN enquanto que os demais possuem personalidade jurídica, mas não o são ainda tidos como sujeitos de DIN; 2) não há essa igualdade – disparidades econômicas, sociais e a existência de potências mundiais; 3) As OI possuem mecanismos que auxiliam a eficácia do DIN, quer por que podem excluir a participação de membros de seus quadros, quer por que podem impor sanções. Segundo aspecto do modelo hobbesiano: aspecto prescritivo. Diferença entre este e o descritivo: descrição do que acontece; capacidade está em descrever adequadamente as RI; já o prescritivo se volta para a exortação, determinação de quais comportamentos devem ser seguidos em determinadas situações. O modelo hobbesiano define como os Estados devem agir em relação ao interesse nacional. A noção deste guarda profunda contato com a idéia de autopreservação: o homem deve se esforçar para obter a paz, tanto quanto ele tem a esperança de obter. No estado de natureza tal manutenção é precária, daí porque a busca de auto-preservação é constante. Noção equívoca: int. nacional pode aludir a uma multiplicidade de situações – este pode ser forjado num Estado totalitário, no qual determina-se o interesse nacional através de uma elite, pequena. Não há uma noção unívoca de int nacional, mas ela aponta para situações diferentes. A orientação básica que o modelo hobbesiano orienta os soberanos a agirem no interesse nacional não é do ponto de vista moral a mais adequada. A busca do interesse nacional tem a ver com a busca da auto-preservação: não agir desta forma, significaria a perda de poder por parte do Estado. O homem, no entanto, não age eminentemente como um ser maximizador de interesses; não se pode dizer que em todas as situações há uma regra moral que mande o indivíduo maximizar os interesses e que isso seria o comportamento mais adequado (tal maximizador, ocorre no âmbito dos Estados). O modelo hobbesiano não é um modelo fiel da descrição das relações internacionais, tampouco é um modelo moral prescritivo para determinar as ações dos soberanos a serem tomadas. Pensamento realista: resposta ao idealismo do Presidente Wilson (peaceful law) – ele procurava conceber as RI à imagem e semelhança do conserto europeu que predominava no século XIx e que se embasava em tratados formais. Tal idéia é tida como importante por dar publicidade ao DIN, publicidade aos tratados. O realismo desconfia da organização das RI pura e simplesmente a partir das regras jurídicas e assim, segundo uma tradição clássica e racionalista, aproxima-se do modelo hobbesiano. Este pensamento racionalista não se confunde com uma crença negativa da natureza humana

como um ser maximizador de interesses e necessidades. Para o realismo, a natureza humana é constante e imutável; a cooperação nas relações internacionais não existe porque a cooperação não é inerente ao ser humano, à natureza humana. Pós-guerra: RI como cooperação, ainda que haja uma busca da maximização de necessidades e interesses, apesar de um aumento de circulação de informações e aumento dos custos de transações. O modelo hobbesiano pode ser pensado como um ponto de partida útil para investigar as características do modelo atual. Muito embora ele não seja fiel, ele é importante não só pela influência intelectual que exerce, como é importante para explicar as relações internacionais: não podemos utilizarnos de um modelo único para explicarmos relações extremamente complexas. O modelo hobbesiano tem uma escassa utilidade prática: ele não explica adequadamente o aumento de cooperação nas RI, a solidariedade dos interesses e a responsabilidade intergeracional quanto às populações de outros Estados. Este aspecto envolve as características de um aspecto kantiano porque mostra tanto a presença de relações que suplantam as fronteiras internacionais e marcam a cooperação; o Estado embora seja um ator importante, não é o principal foco de poder. Nas RI contemporâneas há aspectos conflitivos diretamente vinculados à tradição hobbesiana de maximização de interesses, um segundo aspecto cooperativo presente na proliferação de OI pós 2ª Guerra Mundial (2ª GM), e há um terceiro aspecto de idéia de solidariedade, de responsabilidade, de um ethos comum, que valoriza as obrigações individuais em relação às gerações futuras e seus semelhantes. Este ponto é importante para fixar o conceito de ordem. Contestar o modelo hobbesiano: fixar em que medida falamos de uma ordem nas relações internacionais. Se eu parto do pressuposto de que o modelo hobbesiano não é, do ponto de vista descritivo e prescritivo, adequado para guiar as RI, pode-se pensar a ordem a despeito da centralização de poder. Dois conceitos de ordem: normativo e empírico. O primeiro vinculado à tradição jusnaturalista – Bull: ordem internacional de um ponto de vista normativo, refletir antes sobre a ordem social interna. A ordem tem a ver com certas crenças, com valores e com idéias. Para ele a ordem social é um padrão, no qual existem certas regularidades, é uma formam de configuração da vida social, mas não é qualquer forma. Tal config. Precisa, para ser chamada de ordem, realizar certos fins, daí a idéia de valor e de concepção normativa de ordem. A vida social é governada por uma multiplicidade de valores. Como escolher dentre valores múltiplos aqueles essenciais para a formação de uma ordem? Elege três fatores primários, elementares e universais. Primários porque a partir deles surgirão outros, elementares porque são inerentes à existência e relativos a todos. 1) PAZ: intrínseca vulnerabilidade da condição humana – condição necessária para a existência de relações pacíficas 2)COOPERAÇÃO: tem a ver com a escassez dos bens – é preciso estabelecer regras que possibilitem um mínimo de organização e de altruísmo 3)RELAÇÕES DE PROPRIEDADE ESTABELECIDAS: é impossível conceber uma sociedade sem que as relações de propriedade

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estejam organizadas, não só numa sociedade capitalista; seja numa sociedade com predominância do Estado ou do mercado, com predominância da propriedade pública ou da privada. A ordem social é assim um padrão de organizaçãos das relações sociais, capaz de organizar as relações de paz, coop e de propriedade. Transporta isso para as rel int. A ordem int não é uma unidade empírica, mas uma unidade na qual estes três valores estão organizados. O monopólio da violência legítima é uma maneira de domesticar a violência doméstica – com a centralização do Estado, só este é considerado o detentor do uso legítimo da força. As rel int são relações que se organizam com base em hiperconexões que os Estados soberanos estabelecem, eles formam um sistema internacional. Toda ação que tem por vista a supressão do sistema de Estados é uma situação que deve ser repelida. As rel int são rel pacíficas, mas a paz aqui não é tida como uma paz permanente, semelhante ao projeto de paz perpétua de Kant; a guerra é uma possibilidade e legítima todas as vezes que ela queria a supressão do sistema int ou suplante a forma da propriedade erigida. Os Ts int são um importante instrumental para a organização da coop, eles viabilizam a coop sobretudo pela justaposição dos int com a finalidade de alcance de fins comuns. (da mesma maneira que o contrato social: indivíduos deixam de lado para um fim comum). A soberania, por útlimo, é uma forma de organização das rel de propriedade porque define o dever de respeitar aquilo que se passa na intimidade soberana de outro de Estado. Há no pensamento de Bull a possibilidade de se falar em uma nova sociedade internacional. John Vincent (london shool of economics) critica o pensamento de Bull; para ele, o conceito de Bull é estático e não dinâmico, contempla as rel int em um determinado momento somente. Para ele Bull não esclarece se as suas pré condições para a existência da ordem são consideração genealógicas ou empíricas. Bull dá excessiva ênfase a ordem em detrimento da justiça (é ou não uma ordem justa). James Rousenall – concebe a ordem não como uma ordem social voltada a realização de fins e resultados, mas só qdo estes fossem atingidos é que se poderia falar em ordem. Ordem de maneira empírica é uma regularidade, gestão da política internacional através do tempo. Alia ao conceito de ordem o conceito de governança, sendo este largamente mais utilizado nas situações mais diferentes (fala-se de governança corporativa: grau de gestão interno das gdes corporações). Fala-se em governança no sist int como uma fragmentação do poder e de sua descentralização. Ordem e governança são conceitos complementares. A ordem int evoca a situação em que as rel são rel interestatais, a ordem global aponta para uma situação em que as relações não envolvem apenas as multiplicidades de Estados, mas apenas como de ações. 3 Dimensões que se retroalimentam: a ordem global seria um composta destas três dimensões. Ao se falar de ordem, devemos pensar na existência de valores, sendo estes que permitam a filtrangem dos acontecimentos internacionais. Sem eles não é possível pensar no sistema de relações internacionais. Pensar por exemplo a influência e importância dos valores durante a Guerra Fria; tais valores faziam com que os EUA e a URSS reagissem a essa multiplicidade de coisas. Não basta apenas professar crenças ou ter valores sobre algo, é preciso dirigir as

relações e os comportamentos. Estes são frágeis e necessitam de uma consolidação institucional, que permita a continuidade, estabilidade dos comportamentos e dos valores. Daí a formação de instituições para a preservação de tais valores (OTAN e CEI, na Guerra Fria, por exemplo). A ordem tem a ver com valores e com a eleição de determinados valores: a ordem é a eleição de valores e da regularidade daqueles que se repetem. Seminário sobre os textos de Luigi Ferrajoli, “A Soberania no Estado Moderno” – Caio Gracco Pinheiro Dias Reflexão do pensamento do texto surge a partir da introdução do texto: as 3 aporias – 1) soberania é um conceito presente em toda doutrina juspositivista do direito, mas sua origem é jusnaturalista: como é que um conceito presente numa discussão juspositivista serve para uma discussão juspositivista? 2) Idéia de soberania durante seu percurso histórico, no âmbito interno tende para o desaparecimento e no externo para a absolutização e 3) soberania e direito. Ferrajoli é um positivista, foi orientado por Bobbio e não discorda de Bobbio quanto a teoria do direito: é a autoridade que coloca o direito, não importando o conteúdo da norma. Já pro direito natural, é o conteúdo da norma que determina o direito e não quem o coloca. O Ferrajoli parte de um instrumental conceitual que aceita os preceitos positivistas como uma ferramenta descritiva do direito. Não é um positivismo extremado de Kelsen e também não é um positivismo valorativo de Bobbio. O positivismo extremado fala que a norma vale apenas porque foi posta por uma autoridade. A idéia de um Estado de direito, com uma Constituição, diz que deve-se obedecer ao direito, mas dizer que só o direito do Estado, posto por este, resolve o problema da sua aplicação, não é o suficiente: só porque o direito nazista foi posto pelo Estado nazista não significa dizer que é legitimado o direito ao extermínio. Nata-se na teoria jurídica um revival da teoria jurídica jusnaturalista após a 2ª GM. O que é o direito natural, no entanto, varia muito de autor para autor e no final, ninguém tem razão, porque ele é aberto justamente para a discussão do conteúdo da forma. Ferrajoli diz que quando uma Constituição coloca em seu corpo legal garantias fundamentais, ele aplica o direito natural – o direito positivo incorpora direitos naturais. Ele insere dentro do sistema jurídico uma forma de controle do conteúdo da norma jurídica. Ferrajoli é formalista: mas num Estado de direito nós vivemos de acordo com a lei, mas não há como estabelecer o controle da norma. A partir do momento em que há um estado constitucional de direito, há uma forma de controle do direito, justamente por ser positivado. Há aí, para ele, um salto evolutivo – chega a dizer que é melhor um Estado constitucional de direito – a constitucionalidade, que incorpora os direitos fundamentais (naturais), sujeitam-se estes ao controle da legalidade. Validade para Ferrajoli: há a formal (→ vigência: observação dos procedimentos para a elaboração da lei) e há a substancial (→ validade: conteúdo de acordo com o direito natural). Uma norma que institua a violência de acordo com o processo legislativo é válida

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formalmente, tem substancialmente.

vigência;

mas

não

á

válida

Questão da discussão de soberania: é um conceito filosófico ou de direito? É um conceito jurídico, ou filosófico, ou os dois, e depende muito de quem a analisa. A questão de analisar a soberania, obriga a quem a faz a sair do âmbito do direito, enxergá-lo de fora – teoria kelseniana: útil do ponto de vista prático, mas não do ponto de vista explicativo do surgimento do direito. A soberania é um conceito que coloca política e direito, ou poder e direito em contato. Há aí algumas alternativas: para Ferrajoli soberania é um conceito antiômico ao do direito: soberania é um poder arbitrário e direito quer controlar esse poder arbitrário. Assim, no pensamento de Ferrajoli, ele faz uma prescrição de que todos os poderes soberanos devem ser eliminados; ele sabe da existência de poderes arbitrários, mas a idéia de soberania deve ser extirpada do direito por ser um resquício do direito naturalista e não pode existir com o direito positivista constitucional e moderno. Uma outra idéia de soberania, oposta, é o pensamento hobbesiano que se tem: alternativa que subordina o direito à soberania – mesmo o direito internacional. McDougal: poder e direito não são idéias opostas, pelo contrário – R. Higgins: “Problems and process” (tem na biblioteca). A decisão é tomada por quem tem autoridade para tomá-la: o poder é o instrumento através do qual o direito se torna eficaz. O poder em si, ele não tem uma finalidade autônoma, que para McDougal, o direito tem essa finalidade autônoma. Dado histórico de quando o texto do Ferrajoli apareceu: 1994 – ocorrendo Ruanda e Bósnia. Celso Lafer: forças centrípetas, que atrem para o centro, como forças globalizantes (a OMC seria isso); forças centrífugas, aquelas que excluem do centro, movimentos mais regionalistas. O mundo passa por espasmos: o processo de globalização acaba por ser este misto. A análise que o Lafer faz dos anos 80 para o 2000 faz o progressivo aumento das forças centrípetas e que depois realizará as centrífugas. Bull - a ordem internacional não é qualquer regularidade empírica, mas é uma ordem capaz de configurar as relações de paz, de propriedade e de segurança. Bull é um autor que dá uma excessiva importância à ordem, em detrimento a outros valores, como o da Justiça, segundo Vincent. Poderíamos pensar a ordem como um padrão previsível de relações que permite a gestão da política internacional ao longo do tempo. Podemos falar atualmente em uma ordem global, diferente do conceito de ordem internacional. Tal diferença reside no seguinte ponto, a ordem internacional clássica é uma ordem entre Estados, entre entidades políticas soberanas. A ordem interestatal refere-se a um complexo de interações, entre agentes públicos e agentes privados. Neste sentido, a ordem internacional é neste sentido uma ordem global. A ordem internacional, portanto, não se refere mais tão somente

a um conjunto de relações meramente entre os Estados, mas entre agente públicos e privados (podemos falar em ordem internacional, desde que com esta ressalva que caracteriza a ordem global; a ordem global é internacional e vice-versa, com esta ressalva). Noção de valores tem importância na determinação da visão de mundo da administração Bush: adoção de guerra preventiva, adoção de uma política externa em que os EUA têm uma missão missionário de divulgação da liberdade e da democracia. Conflito entre Israel e Palestina: valores diferentes entre o que é segurança, o que deva ser território palestinho; estes valores são determinantes para a organização das relações entre as partes. Uma segunda dimensão, além dos valores, são os comportamentos. Os valores são muito frágeis, eles precisam ser traduzidos em comportamentos regulares. Mesmo assim, apenas valores e comportamentos não são suficientes para a caracterização da ordem. A terceira dimensão seria a de instituições: conferem solidez aos valores e aos comportamentos. Ela consolida a certeza, garantindo a segurança e previsibilidade: outros Estados podem verificar a previsibilidade de expectativas em relação a outros Estados. Mas não se pode pensar na dimensão institucional sem regras. Tema das regras nas relações internacionais: elas viabilizam a construção de instituições e estabelecem um patamar em que as ris podem ser pensadas como relações estáveis. O comportamento humano é regulado por uma multiplicidade de normas: religiosas, jurídicas, morais, etc. As jurídicas têm um diferencial em relação às demais. Tal diferencial repousa na consideração de que as normas jurídicas regulam o uso da força, como afirma Bobbio. Se as normas jurídicas regulam o uso da força, as normas jurídicas internacionais constituem um instrumento valioso para regular as relações internacionais para o uso da força, estabelecendo as circunstâncias e o momento para utilização da força, definindo o lícito, ilícito, o legal, o ilegal, o proibido ou não. Tais normas internacionais resultam de um processo de negociação e de barganha. Separar aqui tal processo da gênese de formação de normas no âmbito interno dos Estados. Dentro dos Estados, sabe-se que L produz as normas e as executa, apesar da ingerência de E na produção das normas. Nas relações internacionais, a formação de normas ocorrem ou pelo costume ou pela celebração de tratados internacionais. O costume no passado, e os tratados internacionais são atualmente a principal forma de produção do direito internacional. Para que um T possa produzir validamente seus efeitos, é preciso que ele conte, sobretudo no plano multilateral, com a adesão de todas as partes. E isto conduz a um grande processo de negociação e de barganha, sendo que neste processo há um trade-off: as potências não conseguem fazer valer sua vontade de maneira deliberada. Em tal processo é preciso que as nações poderosas acolham, ao menos em alguma

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medida, as reivindicações dos demais parceiros. O que não quer dizer que as nações desenvolvidas não tenham um processo deciviso em tal processo de negociação montar uma ordem internacional à sua imagem e semelhança. As normas internacionais são restrinções voluntárias ao comportamento dos Estados. Uma das explicações para a durabilidade das normas internacionais pela teoria dos regimes (EUA, a partir dos anos 80). As normas internacionais perduram porque produzem benefícios funcionais, quais sejam a redução dos custos de transação, o aumento de aprendizado e de circulação de informação e a previsibilidade do aumento do grau de previsibilidade na ordem internacional. Esses benefícios funcionais por si só não explicam convenientemente a durabilidade das normas internacionais ao longo do tempo. É necessário dar um passo à frente. Duram também em relação à legitimidade. Disto, extraem-se dois conceitos fundamentais: legalidade e legitimidade. O poder é legal quando é exercido nos termos e em consonância com as normas jurídicas estabelecidas. O direito é o elemento básico que deve orientar o comportamento dos indivíduos e dos governantes. Kelsen: o ordenamento jurídico não apenas define as condutas lícitas, mas regula as condutas ilícitas – a uma determinada conduta se aplica uma conseqüência: a sanção. A legalidade, deste modo, atesta a maneira de exercício do poder. Já a legitimidade aponta não para o modo como o poder é exercido, mas para o título do poder, qual é o título que outorga a um governante o poder de governar. Rousseau: nenhum senhor é tão forte se não for capaz de transformar seu poder em direito e em sanções. As relações de poder só são estáveis de maneira em que os comandados encarem tal relação de poder como uma obrigação de obedecer. Podemos associar esta discussão com a análise da discussão do texto de Ferrajoli (capítulo 3 do seminário): em que medida a carta da ONU mesmo tendo sido produzida pelo acordo dos Estados, pela conferência de SF, é ainda hoje uma carta legítima capaz de exercer uma restrição ao comportamento dos Estados e constituir deste modo um pacto social que estabeleça os princípios e comportamentos que devam regular as relações internacionais. Santo Agostinho: o que distingue um reino de um bando de ladrões? Resposta: a noção de justiça. Na vida moderna: legitimidade e justiça têm uma proximidade estreita. Para o positivismo a noção de eficácia é uma noção cara, havendo uma conexão entre legalidade e legitimidade, no sentido de que um ordenamento jurídico capaz de produzir efeitos é um ordenamento legítimo. Pode-se pensar sobre o Estado, desta maneira, a partir do momento em que um grupo que sobrepujar os demais e consiga fazer com que os demais o obedeçam, haverá um Estado, organizado dentro de um território. Desenvolvimento histórico: legitimidade ora como proveniente da vontade do povo, do governante, da

natureza, como uma tentativa de conservar o que o passado erigiu (a tradição é um grande elemento do presente ou de apressar o futuro). A noção de regra internacional somente pode ser compreendida se associada aos conceitos de legalidade e de legitimidade. Legalidade é importante, enquanto forma de exercício do poder, pois diz quando a força poderá ser utilizada: quando estaremos diante de um ato de mera força ou de um ato legal. Legitimidade: as noções de comando e de obediência devem ser justificadas, e na era moderna têm a ver com a noção de um fundamento democrático de poder, o qual tem raízes no desenvolvimento de uma democracia representativa, a partir do século XIX – desde então, tentase transportar para as relações internacionais a noção de democratização de poder. Até o século XIX a política externa era obra de nobres e monarcas; não era algo que interessava ao povo. No século XX, os temas da política exterior começaram a freqüentar a agenda doméstica, o que também contribui para a democratização dos assuntos exteriores, antes somente de monopólio de alguns membros dos Estados. Na atualidade esta situação tende a se alterar principalmente porque a maneira como o país se insere nas relações internacionais tem um reflexo profundo na conformação da sociedade doméstica. Há hoje uma relação indissociável entre o modo de inserção de um país na esfera internacional e a maneira de distribuição de renda e de poder na esfera interna. Paralelamente a este processo, tendo em vista a formação de uma sociedade civil internacional, ainda que embrionária, há uma preocupação com o tema das distribuições dos recursos naturais, com o tema do desenvolvimento e da democratização da participação desta nas decisões internacionais. O que antes era de monopólio do Estados, lentamente passa à sociedade internacional civil. Além disso, paralelamente, tem-se a preocupação em transformar os processos de negociação e decisório internacionais em algo de maneira mais transparente e de maneira a fazer com que a sociedade civil possa participar de maneira mais ativa. Entre as múltiplas normas que governam o comportamento humano, as jurídicas têm uma posição central, pois regulam a sociedade internacional mediante o uso da força. As normas jurídicas são constrangimentos aceitos, se pensados na ordem internacional. Têm relação com as noções de legalidade e de legitimidade. Não é possível pensar apenas em normas jurídicas internacionais legais, mas requerem também legitimidade. Esta guarda conexão estreita com a democratização do poder, o qual pressupõem não apenas a democratização dos mecanismos de poder e de decisão, mas com a democratização das esferas domésticas. Próxima aula:

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discussão das características da ordem internacional de Westfália e da transformação desta ordem em função da globalização. CONSEQÜÊNCIAS DA GLOBALIZAÇÃO Retomada da última aula sobre a globalização quanto a desregulamentação de mercados financeiros, superação do modelo fordista, início do modelo de especialização flexível, etc. A ordem internacional clássica, formada pela Paz de Westfalia, tem como elemento constitutivo a figura dos Estados nacionais e as relações que eles estabelecem entre si. As relações internacionais (RI) assim concebidas permitem falar em sistema e sociedade internacional. Pela primeira vez, em cerca de três séculos e meio, os pilares de uma ordem passam a ser questionados pela profunda alteração dos padrões do sistema. É a crise da ordem internacional clássica em virtude da intensificação da interdependência, do aumento dos atores internacionais (ONGs, empresas transnacionais, grupos de indivíduos, etc.) e das mudanças nas RI. Há um gap entre a capacidade de demanda e a impossibilidade de resposta. O aumento das relações entre os elementos do sistema não é comportado pela estrutura que o sistema oferece, logo, as RI passam a não poder ser concebidas dentro dos moldes clássicos. A crise se desenha em 3 grandes dimensões: 1. Macroparâmetro: Conjunto de relações entre Estados e OI, em que há um modelo das RI composto por Estados e Organização Internacional; aqui, neste aspecto, a crise se dá porque passou-se de RI clássicas (Estados) para uma situação mais complexa; houve uma bifurcação: relações entre Estados e relações entre estes, OI, ONGs e empresas transnacionais. Essa bifurcação traz um dado novo para as RI, porque supera a fase de que o DIN é produto das relações interestatais; a complexidade do mundo das organizações tem uma natureza variada e diversa em que há situações de conflito e de cooperação, ora o interesse é apenas dos Estados, ora de ações exclusivas das organizações desvinculadas dos Estados. Exemplo: Greenpeace, Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras – concebem o mundo e as RI numa lógica de solidariedade , desconsiderando os limites, como soberania nacional e as fronteiras, e adotando um pressuposto de globalidade, de humanidade. Estas organizações atuam de maneira fundamental quando os conflitos ou as situações põem em crise a sociedade civil. Ora essa atuação se faz com críticas aos Estados, ora se faz com a cooperação, a solicitação e a participação destes. Somália – EUA tiveram papel proeminente na crise da Somália e as ONGs de caráter humanitário pressionaram os EUA para que este amenizasse os efeitos que o conflito produzia. Relação entre empresas transnacionais e Estados, duas situações: empresas de capital misto e empresas totalmente de capital privado. Não há dúvidas de que, no

presente, o poderio de empresas transnacionais as constitua como grandes atores das RI. Exemplo: Argentina e Brasil – ameaças de empresas transnacionais instaladas nesses países a deixarem-nos, o que gerou muita instabilidade. Na primeira hipótese (empresas de capital misto: público e privado), há o exemplo mais do que atual da Petrobras e o governo da Bolívia (situação mal administrada pelo governo brasileiro). Os erros cometidos pelo Brasil permitem observar que há (1) um equívoco em se confundir soberania com a quebra de relações estabelecidas contratualmente estabelecidas mediante a inobservância de princípios internacionais maiores. Nos contratos entre empresas e governos há previsão de solução das controvérsias, geralmente na ordem arbitral; (2) não se pode considerar que a pretexto de se cooperar com um país como a Bolívia se aceite a transgressão de regras internacionais, sem a expressão de um documento – obviamente que se deve cooperar com um país como a Bolívia, mas não se deve tentar corrigir as injustiças praticando outras injustiças (transgressão de direitos e obrigações). Tal forma não é correta para a correção de injustiças. (3) O Brasil não deveria ter tratado o problema numa reunião quadripartite, com a presença de terceiros não-afetados, como a Venezuela. Ao fazer isso, nosso País permitiu a união de Bolívia com Venezuela numa crítica propagandística contra o Brasil. (4) Mostra de uma forma desagradável como o Brasil atua com ignorância e desconhecimento histórico em relação a atos transgressores alheios, o que revela insuficiência para gerir uma situação de crise. A complexidade das novas RI mostra que os Estados não são os únicos atores internacionais, sendo necessária a atuação de outros elementos para resolver as crises. 2. Macro-microparâmetro: Reunião da relação complexa entre os Estados e a fragmentação deste poder interna e externamente. Os poderes e as competências do Estado sofrem hoje uma dupla fragmentação: transferência de parte das competências para as OI (até que ponto os Estados estão dispostos a transferir essas competências em prol do universal é uma grande questão). Exemplo: União Européia, que não tem personalidade jurídica de direito internacional, mas exemplifica a fragmentação do poder nacional para o alto e também para baixo (parte das competências migrou para a comunidade européia, parte migrou para as ONGs e para o setor privado, mediante delegação – o que demonstra um Estado mais regulador do que interventor. Essa fragmentação e delegação de competências pressupõem a existência de um consenso entre o Estado e a sociedade civil. O direito passa a ser mais pactuado do que imposto. 3. Microparâmetro: Alteração do indivíduo nas RI. Pela primeira vez, o indivíduo é capaz de agir sem a intermediação do Estado ou a autorização deste. Exemplo: Al Qaeda – movimento terrorista fragmentado – consegue efetuar o cálculo de quanto suas ações abalam os Estados. Ainda que limitados, os indivíduos podem passar a reivindicar direitos e mesmo contra o Estado de que é nacional.

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A) Idéia da Lógica Westfaliana B) Idéia da Lógica da Autonomia dos Atores Transnacionais C) Idéia da Lógica Identitária (que se move pelos vínculos religiosos, de sangue, ideológicos dos indivíduos). A lógica de A é assim aquela que quer instituir obrigações jurídicas por meio dos contratos; tal lógica foi transferida para o plano internacional. Exemplo: contratos constitutivos das OI. A lógica B é uma desconhece o controle como seu elemento determinante. A autonomoia envolve a criação de regras para o comportamento dos agentes. A lógica C é de caráter excludente – linha divisória entre aqueles que têm o mesmo credo, a mesma língua e os que não têm; o que leva ao fundamentalismo. Há um antagonismo entre essas três lógicas, como o elemento do controle presente em A, mas não em B (Exemplo: Petrobras e Bolívia; Anistia Internacional). Há também um conflito entre A e C, pois aquela é elaborada pela inclusão, realizada através dos contratos e esta é excludente, com a impossibilidade de aceitação do diferente. Há conflito entre B e C, pois, aquela expande as RI em âmbito universal, enquanto esta as restringe a aspectos globais. Isso permite ver que a globalização é um movimento complexo e antagônico, vê-se que hoje os grandes conflitos da ordem mundial são aqueles que envolvem pelo menos duas das três lógicas. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS HUMANOS (DH) NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS (RI) Retomada da aula anterior: conflito de racionalidades e globalização como um processo dialético e contraditório (tendências à agregação e à desagregação, atuando conjuntamente). A aula de hoje tem como objetivo mostrar como se pode pensar em um processo de reconstrução do universal – mundo como uma totalidade e não composto de fragmentos. Este tema leva à análise do impacto dos DH para as RI. Para o Professor Alberto, os DH representam uma tendência a essa universalidade. O que são os DH? De que modo os DH interferem na configuração da ordem internacional? A expressão DH tem dois sentidos: (i) fraco – exigências ao poder político, reivindicações sociais não consagradas; (2) forte – DH como bens efetivamente protegidos que podem ser efetivamente reivindicados perante tribunais; tome-se reivindicação como sendo igual a um direito e não mera pretensão. Os DH surgem como uma exigência social formulada ao poder político estabelecido; surgem num sentido fraco e depois passam a ter uma conotação de sentido mais forte. A primeira exigência vem do Absolutismo Monárquico e se constitui na reivindicação da limitação do poder – soberano editava normas a todos, mas não se vinculava a elas (não é um tirano, pois este é ilimitado moralmente).

Construção social elaborada por Hobbes: soberano personificado na figura do Leviatão estatal; construção hobbesiana como legitimação do Absolutismo Monárquico. Neste âmbito, a teoria dos DH na época visava a limitar a extensão pela divisão do poder em órgãos diferentes; o propósito da teoria dos DH não é propriamente a divisão do poder com freios e contrapesos, ela procura limitar o poder estatal impedindo que ele adentre a certas esferas, como regular a vida privada dos cidadãos, tratase de uma exigência de liberdade face ao Estado que configura uma ampliação da margem de autonomia dos indivíduos: quanto mais se amplia a liberdade, mais se restringe o poder e vice-versa. Benjamin Constant (1821): discurso distinguindo a liberdade dos antigos (autonomia) e a dos modernos (autonomia face ao poder estatal). As Constituições dos EUA e da França são as primeiras a regular os DH: passagem de uma concepção filosófica abstrata (Locke, Rousseau), para uma concepção positivada. Os DH nascem como teoria abstrata (conjunto de reivindicações ao poder para ampliação da autonomia do individual). Liberdade como autonomia (antigos): “liberdade para” se fazer algo é diferente da liberdade moderna, face ao Estado, “liberdade de” fazer algo – conceitos presentes em Montesquieu e Rousseau. Montesquieu vê liberdade como fazer tudo o que a lei permite (seus limites são os limites legais – concepção de que todos são iguais perante a lei). A “liberdade para” (antigos) é vista como autonomia e esta noção se revela no sentido etmológico da palavra: capacidade de obedecer as normas formuladas pelos sujeitos da polis. Na era moderna, a noção de autonomia está presente no sufrágio universal, na participação direta do indivíduo no processo decisório. No Direito Privado, ela está presente no regime dos contratos (auto-regulação pelos interesses dos sujeitos envolvidos). A autonomia e a liberdade são conceitos essenciais aos DH. A primeira geração dos DH é formada pela reivindicação das liberdades, que permitem a reunião, o pensamento, a imprensa, a religiosa. As Constituições do fim do século XVIII positivaram, pela primeira vez, as liberdades como direitos individuais e as concretizaram no interior dos Estados e não entre eles. Século XIX: liberdades pensadas como individuais e também como coletivas, extendida aos grupos e organizações (“corpos intermediários entre indivíduos e Estado” – definição liberal) – Exemplo de organizações da época: associações e sindicatos. Direitos sociais: embrião na concentração do poder e da riqueza formada pela Revolução Industrial. Século XX: institucionalização dos direitos sociais e dos conflitos entre capital e trabalho, reivindicação pela divisão da riqueza de uma forma mais justa e eqüitativa. Tema que realça a participação estatal como condição / requisito para essa divisão, para o reequilíbrio das posições. Essa intervenção do Estado muda a distinção entre o público e (que é alargado) e o privado – Exemplo: Constituição mexicana e Welfare State: este é uma montagem de um sistema tributário progressivo para amenizar as diferenças sociais

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– representa a institucionalização do conflito de classes Welfare State na Europa até 1975 com a crise do petróleo. Pós 2ª Guerra Mundial (GM): advento da Carta da ONU e Declaração dos Direitos do Homem (1945 e 1948) (DDH) – Terceiro Momento da Evolução dos DH: de direitos positivos e concretos no interior dos Estados para a universalização, positivação e disseminação dos DH – que passam a ser direitos de todos os seres humanos e não dos cidadãos de um Estado. A Carta da ONU (CO) – paradoxo: consagra a Ordem de Westfalia e, ao mesmo tempo, alça dos DH acima dos Estados, criando condições para a superação dessa ordem por uma Ordem Cosmopolita. DDH: consagração histórica de consenso sobre os fundamentos da vida universal. Concepção histórica dos DH pressupõem um acordo sobre quais valores devem reger a experiência humana – esse acordo veio com a DDH. Essa concepção referenciada na Conferência de Viena de 93, DH como indivisíveis, universais e interdependentes: eles não se restringem a um grupo de seres humanos, mas alcançam, toda a humanidade, eles não podem ser pensados de forma racionaria (Exemplo: liberdade requer direitos sociais e econômicos) e quando um DH é violado, isso afeta os DH em sua totalidade. Este processo de evolução dos DH revela 5 grandes características:

Os DH deram ao indivíduo a legitimidade de agir mesmo em face do Estado de que é nacional; por outro lado, vigora o princípio do Esgotamento dos Recursos Internos, a fim de evitar conflitos entre a proteção conferida ao nacional em nível interno e internacionalmente. No plano universal, o sistema de proteção dos DH é feito por meio de relatórios a instâncias superiores. Na próxima aula será analisado o grande processo de evolução e transformação dos DH, registrando este processo, de um lado, a seletividade (Exemplo disto: o uso ideológico dos mesmos, pelas grandes potências, durante a 2ª GM) e de outro, a responsabilidade (Exemplo: tentativa mais rigorosa de se compelir o Estado, pela pressão das OI, a respeitar os DH incondicionalmente). Além disto, será visto também a seguinte questão: como pensar em mundo multicultural, num âmbito de conflito de racionalidades? CONCLUSÃO - 3 Momentos dos DH: I) II) Reivindicação das liberdades face ao Absolutismo Monárquico; Passagem da Concepção Abstrata para a Positivação dos DH com as Constituições dos EUA e da França Universalização: DH concebidos, como universais, indivisíveis e interdependentes. DIREITOS HUMANOS E GLOBALIZAÇÃO Na aula passada, foi analisado o modo pelo qual surge e se consolida, no plano internacional, o regime dos direitos humanos (DH). A Declaração dos Direitos Humanos corresponde a uma terceira fase do processo de concretização dos DH, este que vem ocorrendo desde o século XVII. A Declaração de 1948 é o elemento consitutivo de um sistema internacional que tem uma bifurcação nítida. De um lado a celebração de tratado que privilegiam os DH, no âmbito da ONU, levando em conta a especificação dos indivíduos (critério da seletividade): negros, mulheres, crianças, etc. Há a passagem de uma concepção concreta para uma abstrata. Além disso, há uma abrangência muito maior do que aquela que se deu tanto no âmbito nacional, quanto no regime universal. Com o estabelecimento da proteção de tais direitos em nível regional, isto fez com que tais direitos fossem assegurados mesmo que o indivíduo não pertencesse a um determinado Estado, podendo pleiteá-los contra outro Estado. Pela primeira vez há mecanismos que autorizam a reivindicação de direitos humanos no plano nacional, mesmo contra o Estado nacional. Há aqui uma repercussão profunda nas próprias fontes dos direitos. A legitimidade de pleitear foi estendida aos grupos e não apenas aos indivíduos. Dualidade dos DH no Pós 2ª Guerra Mundial Os tratados de DH não se submetem aos mesmos critérios de interpretação dos tratados normais. Os tratados de DH encerram a proteção de um direito público e por isso merecem uma atenção específica quanto a sua interpretação. Neste mesmo período, percebemos uma

III)
26/05/2006

1) são UNIVERSAIS, porque alcançam todos os 2) 3) 4)
indivíduos; são DIREITOS MORAIS antes de serem jurídicos, pois comportam uma justificação racional; são DIREITOS PREFERENCIAIS, porque relacionam-se com outros direitos e predominam sobre estes na ordem jurídica; são DIREITOS FUNDAMENTAIS, porque sua violação afeta o núcleo da autonomia (liberdade) e interesses vitais dos indivíduos, cuja violação causa grande sofrimento e até a morte dos mesmo; os DH exigem uma INSTÂNCIA PARA SUA CONCRETIZAÇÃO, seja esta nacional ou internacional, retirando-os da abstração e, assim, consagrando-os e delimitando-os.

5)

Pode-se perceber uma ampliação da esfera dos DH, da liberdade a que se somam direitos sociais e econômicos e direitos de 3ª Geração (Exemplo: não manipulação da vida). O Professor Amaral destaca o processo de evolução histórica dos DH. No período posterior à 2ª GM, verifica-se uma direção da universalização, ou seja, celebração de tratados concebendo o homem como um ser concreto em suas especificidades (homem, mulher, criança, negros, etc.). Contudo, a maior conquista dos DH se deu no âmbito regional, em que a proteção dos DH ocorreu em escala mais avançada e profunda (a exemplo da consolidação institucional tanto da Corte Européia de Direitos Humanos, quanto da Corte Interamericana de Direitos Humanos).

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dualidade no campo dos DH: de um lado, pelo aumento da seletividade (apesar de haver normas internacionais que tutelem tais direitos, muitos Estados só agiram quando a tutela atendesse aos seus interesses). Por outro lado, na Guerra Fria, tal proteção tinha um cunho ideológico: os EUA alegavam que a União Soviética e seus países satélites não respeitavam os DH. Esta alegava que os países capitalistas não respeitavam os direitos econômicos e sociais. Apesar desta guerra ideológica, os DH foram aplicados de maneira seletiva. O grande desafio proposto aos DH em relação à globalização refere-se ao fato de que, pela primeira vez na história, os DH deixaram de ser um direito restrito à realidade interna, uma vez que cabia somente aos Estados regularem tais questões. No segundo pós-guerra, há uma mudança sem precedentes: o campo de competência da proteção de tais direitos não é somente da esfera nacional. Os DH, a partir do momento em que se tornam objeto de proteção de um tratado internacional, perdem o caráter da proteção da esfera exclusiva, e convertem-se em um tema de relevância internacional. Violações, massacres, perseguições a lideranças civis, minorias religiosas ou etnias, são hoje de interesse universal; não só porque despertam o interesse generalizado, mas porque são transmitidos diretamente pelos mais diversos meios de comunicação. Além disso, também os DH são direitos regulados por matéria de tratado internacional ou são referentes a um costume internacional, mesmo que o Estado não seja parte. Exemplo: Convenções contra a Tortura e a Discriminação racial não regulam unicamente seus signatários; são costumes internacionais; sua transcendência atinge até mesmo os não signatários. O conteúdo de tais convenções encerram valores que são aceitos de maneira consensual e generalizada da comunidade internacional. A noção de responsabilidade de proteção aos DH refere-se também à atuação que as OI têm nesse domínio. ONGs, como a Anistia Internacional, dão apoio e proteção às vítimas sucessivas de violações dos DH. Há assim na globalização, de uma perspectiva como feito pelos países árabes e pela China, que os DH são vistos como históricos e regionais, assim como há outra visão, que tem como objetivo fazer com que tal tema tenha importância global e seja de interesse internacional. Nas últimas aulas, falamos do conflito de racionalidades, sendo que um deles refere-se sobre a identificação de entidades minoritárias, vinculadas a uma minoria lingüística e cultural. A eficácia dos DH no plano global tem de ser feito com base no diálogo intercultural. Um núcleo que possua a noção de diálogo entre diversas entidades religiosas com a percepção de dignidade humana poderia ser uma saída. O diálogo intercultural favoreceria a eficácia das normas provenientes de tal núcleo. USO DA FORÇA POR PARTE DA ONU PARA PROTEÇÃO DOS DH Necessidade de associação de ameaça à paz e à segurança internacionais, quando houver estas nos planos nacionais. Agora analisaremos o tema de Direito e Força:

qual é o papel que o DIN ocupa na manutenção da paz? A relação entre direito e força pode ser vista, sob perspectiva da teoria do direito, a força é tida como elemento essencial do direito, ora é vista como dispensável para eficácia das normas jurídicas. A força no jusnaturalismo moderno tem uma importância menor; atualmente, a validade de uma norma resulta do fato de que esta norma esteja em harmonia com valores universais. A mera relação entre direito positivo e natural é mera condição para sua validade e eficácia. Na tradição positivista, a força passa a ser um dado imprescindível para o direito. Mesmo nessa tradição, de Austin a Jhering, a força é vista sob duas formas: Austin, autor chave do common law, via a força como um elemento necessário para fazer com que a norma se impusesse todas as vezes que ocorresse uma violação. Havendo uma violação, assim a força restauraria o direito e garantiria a imperatividade da norma. Na obra de Jhering, ele via na força um elemento externo para a eficácia do direito. Esta tradição do século XX encontra uma outra corrente, com Kelsen e os realistas escandinavos (Ross, Kronnan). A força não é um elemento externo ao direito, mas interno da norma jurídica. Na teoria do Estado, Kelsen via a força como elemento interno da norma, já que a sanção é condição essencial para que tal norma jurídica se distinga da norma moral. O ato de força interno define a juridicidade. O direito para Kelsen é uma ordem normativa da conduta humana. Tal ordem constitui um conjunto de norma escalonadamente colocadas, com o uso da força. A diferença entre um ato de força que não constitui sanção e uma que a constitui, é que o ilícito é definido pela norma e a sanção seria sua conseqüência de aplicação. A ordem jurídica, assim, se transforma numa ordem coativa da ordem humana; se a força é objeto do direito, logo a ordem humana é coativa. Dirito i forza: quais os agentes competentes para a utilização da força. O direito não outorga competência a todos os agentes para o uso da força, ocorrendo uma monopolização para o uso da força no interior do Estado. A forma para escolha de tais agentes, o Direito define os procedimentos os quais tais agentes utilizarão para aplicar o uso da força. Não se pode aplicar uma multa, sanção, sem que haja um processo para que se determine a responsabilidade e para que se determine o uso lícito da sanção. Há necessidade também de se definir o quantum de força a ser utilizado: o direito define na pena tal quantum. Pensar num sentido mais amplo, relação entre direito, força e paz. Nesta reflexão é preciso verificar como na tradição ocidental moderna, surge a dicotomia entre guerra e direito. Surge esta de duas maneiras diferentes: captadas em duas máximas de Cícero. A guerra é a antítese do direito, as armas tornam vãs as leis. A segunda é que o direito é uma condição de paz, já que as leis calam as armas. Há no pensamento moderno uma dicotomia clara entre direito e guerra. O direito é condição para ausência da guerra e estabelecimento da paz enquanto aquela faz o oposto. Na tradição hobbesiana, o estado de natureza é um estado de guerra, não sendo um estado jurídico. Ao contrário, o estado social é um estado de paz, já que na sua origem há uma ato jurídico: no seu início há um contrato que institui o uso da força de maneira discriminada.

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A resolução dos conflitos é uma função mínima do direito. Contudo, é uma condição básica para que exista. Há dois modos de se resolver: de modo preventivo, através de refgras contratuais, em que as partes organizam seus interesses, regulam seus comportamentos. Modo sucessivo, através do direito penal e processual, em que há a definição de procedimentos para determinação da responsabilidade e imposição da sanção. Como se fala como direito elemento de paz é preciso tomar cuidado com o conceito de paz comom asuência de guerra. A guerra é um tipo de conflito em que há dois grupos que se impingem uns contra os outros. A paz é sim a ausência do conflito. Se considerarmos a figura do contrato como uma maneira pragmática em que os indivíduos buscam organizar seus direitos e interesses, ele não o é feito de maneira tão somente prática. Não é possível pensar sem a idéia de que todos os pactos têm que ser observados e cumpridos. O princípio pacta sunt servanda tem um princípio moral, do direito canônico. Transpor para o plano internacional: os tratados internacionais devem ser cumpridos. Podemos fazer a pergunta: porque cumprir um contrato ou um tratado? Uma das maneiras para se responder tal questão, poderia ser utilizar a máxima Kantiana de que devo agir de maneira tal que outros indivíduos possam agira das mesmas condições que outros indivíduos possam agir. Funda um contrato ou tratados, não garante a sua obediência, ainda que eu tenha excelentes razões de que eles devam ser obedecidos. A mera fundamentação de um contrato ou de um tratado não é suficiente, uma vez que seria necessário que todos os homens agissem racionalmente; mas como a maioria deles age movida pela paixão e pelo interesse, há a necessidade haver um elemento supletivo para que o faça. Isso apareceu com o Leviatã de Hobbes: num mundo em que a violação é a regra, somente é possível o cumprimento das promessas de um modo que haja a certeza de que os outros cumprirão a mesa. J. W. Watkins, estudioso de Hobbes: imagine dois indivíduos armados, em clareira de um bosque. Ambos sabem que poderão se destroçar em uma luta sangrenta, já que são hobbesianos. Mas um diz para o outro: “Espere! Não nos destrocemos!”. Há 4 possibilidades: ambos jogam as armas, um jogo e o outro não, este joga e o outro não ou ambos entregarão as armas a um outro. Isto demonstra que não basta haver regras sobre a validade dos acordos. Há a necessidade de regras que garantam o cumprimento; palavra sem espada é vazia. A noção do cumprimento da norma é necessária. Podemos transpor tal noção para o plano internacional. O recente fracasso sobre o acordo do controle de mísseis entre EUA e Rússia, tem justamente a ver com a questão da desconfiança. Uma potência que se desarme se colocará como presa fácil da outra potência. No plano jurídico internacional somente podemos falar da paz quando falamos da regulação do exercício jurídico da força. A paz através do direito requer a passagem de um pacto de união para um de sujeição. O de união é aquele em que as partes se comprometem com certos objetivos. O de sujeição é que além do estabelecimento do comprometimento dos objetivos é o que há uma sujeição das partes ao uso da força para um terceiro. Aí podemos falar como um estado jurídico de paz, como ausência do

conflito. Não se fala em total ausência de conflitos, mas sim em uso da força de maneira regulada. Tal uso necessita, no plano internacional, de uma passagem do mero pacto de união para um de sujeição. Este é o grande desafio pelo qual passa a ONU. Ela ainda não conseguiu fazer tal passagem de modo completo. Somente neste sentido é possível falar em estado jurídico da paz. A paz somente é possível através do uso regulado da força, através do direito. Seminário: Order and Justice in the International Relations – Monitor Caio Gracco Pinheiro Dias Apresentação por Thiago Vidal A ONU desde sua criação diz que a paz foi concebida com um comprometimento duplo: tanto quanto à ordem quanto à justiça. Esse sucesso de comprometimento duplo é sem precedentes; nem a Liga das Nações fazia tanto, pois estava mais preocupada em manter o status quo de 1939. Tais princípios de ordem e justiça têm conflitos entre sim; apesar de haver tal conflito aparente, uma paz segura e duradoura tem de ser apoiada em uma ordem justa. Justiça significa coisas diferentes para pessoas diferentes: direitos civis são considerados diferentes de direitos econômicos. Não se tem de procurar lógica na ONU: não é um sistema que tenha consistência. Ele propõem-se a responder a três questões: quais os principais pontos de ordem e justiça na ONU, há algum consenso entre ambos e como tais conflitos são tratados como uma framework na ONU. Não tocará na CIJ e também na questão do desenvolvimento econômico e questões comerciais. Inicia falando sobre a Carta da ONU: preocupada tanto em manter a ordem quanto a justiça. Há certo dualismo, podendo considerá-la como não-intervencionista. Nela há duas seções em que há o uso da força: caso de autodefesa individual e coletiva e nos usos militares pela ONU – duas visões não-intervencionistas. “We the peoples”: não os Estados como destinatários, mas os povos, em si (Constituição EUA: “We the PEOPLE...”). A linguagem dos DH na ONU, apesar de parecer uma influência americana, também se deve a uma influência soviética socialista. Até que ponto a Carta da ONU permite a intervenção, dentro da Carta da ONU? Como os DH são um direito central e são um propósito da Carta da ONU, o artigo 2.4 poderia ser interpretado como o uso da força em defesa dos direitos humanos. A questão de intervenção de um Estado para defender noções de justiça é também um tema central do trabalho. Questão da descolonização: a Carta é opaca, não tem um comprometimento explícito da descolonização, mas a observação de governança dos Estados. Segundo ponto: análise dos documentos da AG de 65 a 81, durante a Guerra Fria. Há cerca de cinco resoluções importantes que estabelecem a não intervenção na ordem internacional, justamente num período em que duas grandes potências o fazem. Cita Ian Brownlie: tentam estabelecer nova definições legais, as potências, para

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explicar as situações atuais (e não estabelecem novos conceitos jurídicos). Outro ponto: questão dos DH. Ele vê uma evolução de tal direito, principalmente o que ocorreu internamente na ONU: fazem a Convenção sobre Genocídio e no dia seguinte a Declaração Universal dos DH, sendo uma declaração não vinculante aos Estados, mas que pertence às Nações Unidas. Apesar de tal desenvolvimento ser impressionantes, os DH possuem várias fases. Numa segunda fase, os DH foram feitos para haver uma guerra ideológica e numa terceira fase, os DH foram utilizados como forma de coação aos Estados por outros Estados. Questão: há um consenso global genuíno de DH? Segundo o autor, eles são produtos de negociações entre as potências da guerra fria e os países descolonizados. China só ratificou o Pacto de Direitos Econômicos e Sociais, por acreditar se este mais importante do que o Pacto de Direitos Civis e Políticos (sequer ratificou este último). Cita a participação importante das ONGs enquanto observadoras de toda esta evolução das negociações. Direito de auto-determinação: década de 60 – alguma forma de auto-governo e de democracia. Questão: direito de guerra. A ONU não daria muita atenção porque havia uma falsa visão de que a ONU nasceu para acabar com a guerra. Jurisdição universal: até que ponto os Estados podem declará-la? Caso da Bélgica e do Congo – ela declarou ter tal jurisdição para julgar crimes de guerra - mas isso, segundo o Professor Alberto geraria uma crise diplomática internacional. A CIJ se pronunciou a respeito, quando a Bélgica expediu mandado de prisão a um general congolês, sobre o massacre entre Congo e Ruanda. Haveria um precedente geral de se autorizar a guerra em caso de intervenções humanitárias. Na terceira parte ele analisa os casos da Rodésia e da África do Sul, da ocupação do território palestino e da construção do mundo israelense. A partir da década de 90, a ONU começa a ter um papel muito mais intervencionista: suas missões de paz e os blue helmets (capacetes azuis). Talvez haja um consenso efetivo sobre a questão de que para haver paz faz-se necessária a concepção de justiça a intervenção estatal para proteção de questões humanitárias violadas seria possivelmente tida como justa (deste modo, texto antes da Guerra do Iraque, poderia ser uma justificativa legal). Não se pode ter a idéia da ONU como um sistema em que o processo de construção da paz não é um processo teológico, mas um processo político, o qual levará à construção da paz. Principal do texto: durante todo ele, são levantadas algumas questões relativos a soberania de um Estado permitiria a intervenção por violações de direitos humanos, até mesmo como um critério de Justiça. Este texto foi elaborado com base em seminários na Universidade Oxford, durante outono de 2000, e o livro publicado em 2002, antes da Guerra do Iraque de 2003.

Resoluções do CS sobre a Guerra do Iraque: 14 no total. A 1441 refere-se a Saddan Hussein. Os EUA, mesmo que sem apoio da ONU, afirma uma justificativa legal para tanto – diz que a 1441 a questão de “séria conseqüência” poderia ser vista como a invasão do Iraque. Outra possível, é que eles estariam em trégua desde 1991 (!). Koffi Annan, SG, diz que a invasão é ilegal. Bush não queria passar por cima da ONU, mas o fez. Adam Roberts analisa o tema da ordem e justiça na prática, durante todo o livro. Caio: o Estado é o autor e destinatário ao mesmo tempo do direito internacional – teoria do desdobramento funcional. Quando analisamos a questão da invasão do Iraque, sob esta teoria. Os EUA se colocaram na posição de órgão aplicador do direito: eles se arvoraram no direito de auto-decisão – vide texto de 1953, Leo Ross. Diferenciação entre a idéia de auto-interpretação e a idéia de auto-decisão. Ele diz que os Estados têm o primeiro direito, mas não o segundo. Quando temos uma norma, como juristas, pensamos que quem faz tal interpretação é o juiz. Para Kelsen, quem faz uma auto-interpretação não é vinculativa, sob o ponto de vista do direito: haveria assim um interpretação da lei e uma interpretação para decisão com base na lei. O problema do direito de auto-decisão ele é contrário ao direito da igualdade soberana dos Estados: um não tem o direito de decidir e impor tal decisão aos outros. Eles têm o direito de interpretação, mas do ponto de vista kelseniano, tal comportamento não é legítimo. Afinal de contas, o direito não se realiza sem a intervenção humana – mas é necessário que, para haver um mínimo de ordem, sabermos quem aplicará a regra. Na ordem internacional atual, este texto é bastante atual. Quem é o órgão encarregado para discutir tal questão quando o CS não consegue levar em conta? Poderia ter o uso da Res. 737, “United for Peace”, quando a AG poderia opinar sobre questões de segurança. É interessante notar que a maior parte das resoluções editadas pelo CS não chegaram nem perto de serem. Artigo que defende que os EUA ao defenderem a posição de Israel é contrário aos interesses internos deles. Haveria um lobby pro Israel: na internet – Autor: Mearsheimer, “Israel Lobby”. Texto do seminário: texto de 2000, série de anacronismos referente à realidade presente. Esta discussão entre ordem e justiça faz necessário nós alinhavarmos alguns fios soltos. Estes conceitos faz com que amarremos desde o texto de Vitoria, passando por Ferrajoli. Além disso, texto do Koffi Annan “In larger freedom”: texto de defesa, um pedido desesperado de socorro de uma organização que está vendo seu chão desaparecer. As condições políticas para prosseguimento da ONU estão se esvaziando, não há mais um consenso. Koffi Annan tem mais uma visão americana da ONU de quando ela foi lançada na 2ª GM. O afirmar na luta contra o terror não é uma conduta condusiva da ONU; vivemos em uma sociedade cheia de ameaças e que elas assolam os Estados. Mas não é só a ameaça do terror, são várias essas ameaças. Os estados percebem as mesmas de maneira seletiva, já que para os estados africanos, o que ameaça são a fome, o desenvolvimento, falências institucionais e não o terrorismo. Mas eles não percebem como o terror que ocorre com so desenvolvidos impossibilita tal diálogo, não seria um problema excludente. Há uma interconexão entre

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as ameaças que não pode ser negada. Tratar as ameaças de maneira seletiva na ordem internacional, não torno tal enfrentamento efetivo. Haveria a necessidade de um enfrentamento conjunto de todas elas, sem negligenciar nenhuma delas. Ele retorna à Carta da ONU ao dizer que os “founding fathers” ao fundarem a ONU tinham uma noção de enfrentamento conjunto das ameaças. Para eles, uma Organização Internacional para sobreviver precisa reconhecer em que uma ordem internacional para ser mantida precisa ser baseada na justiça das pessoas e não dos Estados (“We the peoples”). Na página 53 do texto “to reaffirm...IN LARGER FREEDOM – numa liberdade mais ampla” – na leitura de Koffin Annan, não adianta fazer tanta luta se não se garantir uma maior liberdade. Sendo que esta se divide em três vertentes: liberdade do medo, liberdade da necessidade, da privação e liberdade para viver com dignidade – garantia dos direitos humanos fundamentais: liberdade de expressão, democrática, etc. (essas três compõem a de se viver em uma liberdade). Essas três liberdades precisam ser garantidas conjuntamente porque umas excluem as outras se garantidas de modo separado. Ele tenta demonstrar de um ponto de vista argumentativo muito bom. O que acontece é que os povos não são livres dessas três vertentes de modo total: cada povo está amarrado a um problema decorrente da falta de uma liberdade de privações. Para Koffin Annan, se você não for livre sob os três aspectos, você não é livre de maneira alguma: você pode ser livre das privações, mas num local em que você não pode dizer o que pensa, você não é livre! O único local em que podemos discutir tudo isso é a ONU. A lógica do texto é um pedido de socorro. Mas a sacada de ordem e justiça do texto é que ele reformula as questões de justiça a partir da ordem – ordem e justiça podem ser opostas no discurso; a justiça não é nada mais do que uma ordem e talvez é a ordem que nós queiramos que exista (para Bull, ordem e justiça seriam excludentes). Texto de Bobbio, “Positivismo jurídico”, a justiça não é nada mais do que ordem – os romanos chamavam de justiça o quê? Viver honestamente é o justo, viver de acordo com o que as regras disserem, não causar dano a outrem, também é justo e fazer o que o direito faz, e dar a cada um o que é seu, seria dar a cada um conforme a regra de cada ordenamento. Até que ponto esses três pontos romanos não seriam convergentes com as três vertentes de liberdade do Koffi Annan? É algo que poderíamos analisar... Um tema que não foi discutido ainda no texto do Ferrajoli refere-se ao tema, porque a Carta da ONU poderia ser utilizada como um pacto mundial? Quais seriam os valores que podem fundar a ordem internacional e que possam ser aceitos por todos os Estados e os subordine? Percebemos atualmente que a ordem internacional não digeriu bem a noção de soberania. Bull divide as ordens e as justiças em três planos (ordem humana e justiça humana, ordem estatal e justiça interestatal e ordem mundial e justiça mundial). A crise da ordem internacional é temos um ordem fundada em determinados princípios de convivência em certos princípios de procedência westfaliana e que vivemos em um mundo em que as coisas não funcionam mais dessa maneira. A questão de igualdade soberana, como princípio pertencente à Carta da ONU, em aseu artigo 2.3, criada em relação à necessidade de Estados grandes não cometerem injustiças contra Estados descolonizados

recentemente, pequenos, é diferente da noção de justiça que temos nos dias de hoje. Hoje temos muito mais uma questão de justiça humana do que uma justiça interestatal. O que Ferrajoli fala no final de seu capítulo terceiro, e que se queremos garantir a paz, segurança, etc., é que os povos aceitem os direitos naturais exigidos da aceitação dos povos indígenas da América, como dito no texto de Vitoria. Ferrajoli justifica através de alguns direitos naturais: direito das comunicações, direito de comércio, direito de viajar e de se estabelecer e que a violação destes direitos é que permitiriam o confronto com os índios; se os bárbaros não deixassem os europeus entrarem, isto permitira fazer guerra, se eles se fechassem, os europeus, através de tal tese legal, permitiriam a invasão. Hoje ocorre uma inversão de papéis: quem se fecha e se restringe são os Estados europeus e os americanos. Os direitos naturais do século XVI também têm que ser aplicados aos europeus atualmente; as pessoas não se locomovem por questões outras que senão a de necessidade, por exemplo. Os Estados desenvolvidos violam atualmente os mesmos direitos reconhecidos no século XVI, por eles e aplicados aos outros povos. Aí é que é interessante: um positivista retinto que é o Ferrajoli, vai buscar seus argumentos no direito natural. Conexão entre o texto de Ferrajoli e o de Koffi Annan: buscam em elementos que fundaram alguma ordem a necessidade de se tentar resolver a crise da ordem atual. Ou melhor, a relação entre o texto de um e de outro é que há a necessidade de fazermos com que um ser humano se importe com o outro de modo efetivo; que um se importe com a necessidade de outro e saber que tal necessidade importará nos seus problemas. PAPEL DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS NA IMPLEMENTAÇÃO DAS NORMAS INTERNACIONAIS DOS DIREITOS HUMANOS Surgimento do direito de assistência humanitária (década de 90): é novo, ausente na Ordem de Westfalia, esse direito assinala uam preocupação e um vínculo entre a manutenção da paz e a proteção dos DH. Antecedentes (década de 80 e início da de 90): ONGs e alguns diplomatas – caldo de cultura em favor da intervenção internacional em situações de crise interna de graves violações dos DH. Intervenção por razões humanitárias (fim do século XIX) é diferente de direito de assistência humanitária (década de 90 do século XX). Aquelas são exemplares: massacre dos cristãos na Síria e tratamento recebido pelos europeus na China – reflexão: é possível intervenção para proteger violações de DH em países alienígenas? Doutrina Monroe (soberania – ordenar relações interestatais): o princípio de não-intervenção tinha limites; por exemplo, valia entre os países europeus. Com a Doutrina, esse princípio atinge o continente americano,mas não proíbe intervenções entre os Estados americanos – nítida preocupação em querer afastar os problemas do colonialismo. Intervenção por humanidade: unilateral e com fins específicos (proteção de nacionais no exterior que têm seus DH violados); distinta de intervenções ameaçadoras à

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soberania e movida por outros interesses. Por isso, a doutrina defendia que essa intervenção fosse desinteressada de razões políticas e econômicas e realizadas por um conjunto de países, como no caso do massacre de cristãos na Síria pelos druzos. O direito de assistência humanitária é desconhecido da ordem internacional clássica (obra de Christian Wolf – rompe com Grotius, Vitoria e Soares, que sustentavam a intervenção em determinadas condições). Década de 80 e de 90: ocorrência de crises naturais e industriais que causam um npumero elevado de vítimas em Estados que não podem debelar tais crises; problema que ganha maior notoriedade em conflitos armados, que eclodiam nos anos 90 por motivos étnicos e não interestatais (estes últimos regulados na Carta da ONU). É nesse contexto que o direito de assistência humanitária se configura e que se somam duas resoluções da Assembléia Geral (AG) da ONU, propostas pela França (43.181/ 88 e 45.100/ 90). Esses documentos consagram o princípio de que os Estados devem prover assistência às vítimas dessas grandes catástrofes. Caso não possa fazê-lo, caberá a comunidade internacional (esta tem, portanto, responsabilidade subsidiária). Tais resoluções são precedentes valiosos do direito de assistência humanitária, desenvolvido nos anos 90. Observação: célebre correspondência da Embaixada da Jordânia ap Secretário-Geral da ONU à época, em relação à proteção em grandes catástrofes – buscava a facilitação da atuação das ONGs nestes casos. Esse direito cristalizou-se com as crises da época, a começar pela crise do Iraque (massacre contra a minoria curda em abril de 1991 no norte do Iraque, o que levou os curdos à refugiarem-se nas montanhas e, em agosto de 1992, há uma ação estatal contra a população xiita, no sul do Iraque). Em relação à primeira crise, com base nas Resoluções 660 e 688 do Conselho de Segurança (CS), a comunidade internacional resolveu agir para a proteção das vítimas. As Resoluções da AG propostas pela França propunham livre acesso às vítimas, mas sendo da AG não tinham força vinculante. Foi com base nesse precedente que as forças internacionais, por meio da Resolução 688, interviram nessa crise. Essa resolução do CS garantiu o corredor humanitário: viabilizar o acesso da ajuda humanitária às vítimas e as zonas de exclusão aérea que visavam a evitar os freqüentes bombardeios aéreos à população curda refugiada nas montanhas. Outro conflito, com questões semelhantes, ocorreu na Bósnia-Herzegovina, durante a dissolução da URSS. Morte do general Tito: problemas étnicos e religiosos na região se tornaram estopins de conflitos armados, que se tornaram inevitáveis com a independência da Croácia e da Eslovênia, eclodindo na região da Bósnia-Herzegovina de maioria muçulmana. Iniciativa das forças internacionais: criação de um corredor humanitário aéreo que foi muito importante em relação aos feridos. Mesmo sendo pequena e tardia, a intervenção humanitária no local evitou que um número maior de vítimas existisse. Conflito na Somália: (desintegração das estruturas dos Estados e crises derivadas dos rigores do clima seco que prejudicou a agricultura). Aqui também sem a ajuda

internacional o número de vítimas seria ainda maior. Há, neste caso, além de estabelecer os corredores (aéreo, fluvial, terrestre), as forças de paz buscavam desarmar grupos rivais, o que trouxe muitos problemas às forças. Viu-se, pela primeira vez, que além das intervenções era preciso reestruturar o país. Haiti (anos 70 e 80): ditadura da família Chevalier. Ação internacional patrocinada pela ONU com o propósito de impedir a chegada de refugiados a outros países e permitir a reestruturação interna. Crise na Libéria: (país paradigmático pelo número de escravos que saíram de lá com o destino para os campos de algodão do sul dos EUA) – preocupava a comunidade internacional por ser um símbolo da reestruturação de um país em crise. Direito de Assistência Humanitária: nasceu dessas crises e da forte atuação do CS no pós-Guerra-Fria. Ao menos até 1994, vê-se que essa atuação foi possível graças ao entendimento das potências no período, o que não ocorreu até 1988. Neste contexto, a ação humanitária em Ruanda (500 mil mortos) foi igualmente importante, embora tenha suscitado menos interesse que a crise na Bósnia. Mudança no CS: interpretação diversa da Carta da ONU em relação à paz e à segurança internacionais em virtude da vagueza das expressões, contidas no artigo 39, Capítulo VII da Carta, bem como da discricionariedade das potências em agir. O que é fruto das diferentes propostas existentes à época da elaboração da Carta (proposta grega, norueguesa e francesa), o CS alterou a interpretação da Carta de que sua atuação se limitava a conflitos interestatais. Exemplo disso seriam as Resoluções do referido órgão de números 418 (de 1967) e 332: mudanças sem precedentes, pois traz um tema essencialmente interno (proteção dos DH) ao plano das relações internacionais, o que possibilitou as ajudas humanitárias às crises aqui citadas. Essa mudança interpretativa veio do pensamento de que crises internas de DH proporcionavam problemas de paz e de segurança internacionais. Exemplo: problema dos refugiados dos países vizinhos. Paz (Carta da ONU): possui duas dimensões, sendo uma conjuntural e a outra, estrutural. Artigos 1º e 4º da Carta e artigos do Capítulo VII. Neste segundo caso, o CS precisa agir em situações específicas – ação conjuntural porque o CS age a fim de evitar que uma crise interna se propague internacionalmente, enquanto que, no primeiro caso, a ação é estrutural, feita a longo prazo, pelos órgãos da ONU conjuntamente. O CS criou na década de 90 perspectivas para as ações em relações às crises (conjunturais) e para ações de curto prazo (estruturais). O direito de assistência humanitária é um recurso de última ratio, e não uma panacéia para resolver todos os problemas. Aqui há a discussão sobre a reforma da ONU e a efetiva função do CS na manutenção da paz e da segurança em suas ações humanitárias. 2º pós-guerra: aumento dos arsenais militares, equilíbrio do terror (mudança da arquitetura das guerras) e fragmentação do monopólio do uso da força (organizações

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terroristas de uso flexível, não hierarquizado ou burocratizado, mas estruturado em pequenos grupos). Papel do CS e da ONU num momento de conflitos que não são mais estatais, mas que antagonizam movimentos de cunho fundamentalista com Estados e fundamentalistas entre si - como o CS e a ONU devem atuar? Professor Amaral acredita que há a necessidade de repartição de competências dos Estados para com a ONU (Exemplo: forças de paz), à semelhança do que ocorreu na Europa, com a União Européia, ao se criar este ente supranacional. Problemas: como repartir competências quando o uso exacerbado de prerrogativas soberanas ameaça a paz internacional e quando os Estados não conseguem dialogar entre si. CONSIDERAÇÕES INICIAIS: SOBRE O COMPORTAMENTO DECISÓRIO DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU Crescente é o interesse tanto nos meios acadêmicos jurídicos, quanto na diplomacia brasileira e mesmo nas esferas das ciências sociais e políticas sobre o assimétrico processo e o comportamento decisórios do CSNU na pósbipolaridade, [01] especialmente, diante da ênfase dada ao engessamento do Conselho por conta de seu "déficit de representatividade e de composição". A justificativa do presente artigo reside na necessidade de se explorar, criticamente, a seara pouco estudada que é o conjunto de tentativas fracassadas (até o presente momento) e as ilusões sobre a reforma ou expansão do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), fornecendo reflexões sobre seu papel, suas assimetrias e política na (re)distribuição do poder mundial. Além disso, como mostra o Plano Razali (Razali Reform Paper) de 1997, a reforma do CSNU, cuja candidatura do Brasil é motivada pela percepção do Chanceler Amorim nos princípios de efetividade, eficiência e representação geográfica legítima, não é vista tão positivamente pelos EUA que teria que se desdobrar mais para articular os mesmos consensos. [02] O jargão sonoro de "democratizar" o CSNU significaria esforços maiores e maior grau de concessão pelos EUA. O poder e a liderança hegemônicos não seriam conservados e sim redistribuídos, parcialmente, por meio de favores, trocas políticas de alta densidade, articulações paralelas e consentimentos. É assim que o poder, de acordo com a percepção de Wiener, é exercido e distribuído entre os membros do CSNU por meio dos consensos coercitivos dos EUA tanto no nível de articulações político-diplomáticas prévias na relação dos P3 com o P-5 [03] e no processo de negociação e feitura das drafts resolutions, quanto de debates no pleno do CSNU com a presença dos países-membros. [04] II. UM DIÁLOGO QUASE INCONCILIÁVEL: O G-4 VERSUS O GRUPO "UNIDO PELO CONSENSO" A atual ordem mundial unipolar é fator relevante para a continuidade do que chamo de "jogo do poder international" do CSNU. Caso a atual ordem mundial (unipolar) venha a ser alterada, também serão alterada as regras e os arranjos negociais desse jogo do poder. [05] Por isso tem havido pressões, desde quando foi formado o G-4 em setembro de 2004 na ONU, com pouca efetiva no curto

ou médio prazo, do G-4 (bastante fragilizado com o Japão, segunda maior economia do mundo e segundo maior contribuinte do orçamento regular da ONU) para expandir o rol de membros permanentes do CSNU sob a égide do "déficit de representatividade" – expressão grandiloqüente de pouco interesse em Washington com sua administração neoconservadora atual. Postula o G-4 a expansão dos membros permanentes sem direito ao veto para que assim o CSNU seja mais reflexivo das realidades geoeconômicas e geopolíticas do início do século XXI. Serão analisadas logo adiante os fundamentos, as falhas e os dilemas das duas principais correntes hoje de reforma / expansão do CSNU: a posição minoritária do G-4 e a posição do grupo "Unido pelo Consenso". [06] É preciso rever com cautela tais teses e plataformas, como as do G-4, pois se mostram falhas na análise da macroestrutura (cratologia e axiologia) da ordem mundial unipolar. Ora, se a ordem mundial [07] fosse multipolar tendo a Índia, o Japão, a Alemanha e o Brasil como centros inequívocos de poder, possivelmente, a proposta de expansão do G-4 teria êxito; caso contrário, continuaremos diante da monótona troca de boas intenções (muitas vezes vazias) na ONU sem nenhuma efetivação visível. [08] É preciso levar em conta quando se analisa tais propostas idealistas-principistas a perspectiva da efetividade e da eficácia decisórias no atual ciclo hegemônico dos EUA. Um CSNU expandido, como deseja o G-4, seria ceteris paribus mais ágil e efetivo na tomada de decisões? Seria eficaz na "fabricação de consensos"? [09] Continuaria a manter a ordem mundial com os mesmos mecanismos coercitivos? Possivelmente, não, pois iria requerer da superpotência maiores esforços na articulação de seus interesses para atingir a fabricação dos mesmos consensos. Os EUA com sua administração neoconservadora (segundo mandato Bush) poderiam, em tese, optar pela postura de default (ruptura) e poderiam agir sem o aval da ONU ou do CSNU. Fundamentalmente, os EUA não desejam recorrer a tal arbitrariedade (pelo menos com freqüência), pois seria fator para o colapso da "aliança euroatlância" – ponto de equilíbrio entre os P-5. Seria, além disso, fator decisivo para o colapso da atual ordem mundial, quando os atores políticos no CSNU não mais depositariam fé e credibilidade na Organização e no Direito Internacional e iniciariam a agir individualmente e belicosamente de acordo com a descrição tétrica do "Estado da natureza" de Hobbes. Um dos dilemas, portanto, para os EUA é entender até quando poderá manter a ordem mundial e o atual status quo na composição do CSNU, sem que venha a trazer problemas irremediáveis de rejeição completa dos países aliados no processo de estabelecimento de sua governança global. O ciclo de longa duração do poder hegemônico ainda permanece centrado no conservadorismo dos vencedores na Conferência de Yalta (especialmente os EUA) de fevereiro de 1945 sem visíveis sinais de modificação no curto ou médio prazo. É importante discernir objetivos e propósitos de alta densidade da ordem mundial e os propósitos da manutenção da paz e da segurança internacionais com o envio de tropas multinacionais em operações de paz da

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ONU. Quando estas duas dimensões estão alinhadas pelo interesse pontual dos EUA, detentores do arranjo político da nova ordem mundial de 1991, então o CSNU será eficaz e terá uma resposta ágil e proativa, porém, quando os interesses de alta densidade dos EUA estiverem em dissonância ou atingirem, imediatamente, os interesses dos demais países permanentes, então o CSNU terá papel menos preponderante na política internacional. Esta posição se torna, empiricamente, clara após a Guerra do Golfo (1991). Fazendo uma leitura oficial diplomática brasileira com a experiência do Golfo é que se consolidou o paradigma verdadeiro da segurança coletiva no âmbito do CSNU. III. DA ORDEM MUNDIAL: TESES DECLINISTAS E OUTRAS PSICOGRAFIAS A única superpotência atual vive os dilemas e os desafios de todo grande império em meio à sua dependência energética (combustíveis fósseis) e as crecentes tendências contrariedades à sua trajetória hegemônica. A falta de apoio dos países periféricos, a autonomização da Europa dos 25 na zona do Euro e o terrorismo antihegemônico trazem graves problemas e elevados custos para a manutenção da ordem unipolar. Não é objeto central deste livro analisar o atual estágio do ciclo hegemônico dos EUA, pois demandaria intensos estudos históricos quantitativos (utilizando por vezes regressão logística e outras ferramentas estatísticas); nosso objetivo primordial é bem mais modesto neste artigo sintético, é mostrar os desafios, dilemas e perspectivas da manutenção da ordem mundial tendo o CSNU como instrumento político do "jogo do poder internacional" não somente dos EUA, mas dos demais P-5 com seus interesses, agenda e relações de força. De qualquer maneira, convém relatar algumas teses mais recentes, além da visão tradicional de Kennedy, Organski e Moldelski, e de autores denominados "declinistas", como Emmanuel Todd. O controverso Todd, que faz uma investigação entre demografia, história e política internacional, traça uma correlação entre o comportamento arrogante dos grandes impérios no processo de militarização de sua política externa como indício da fase final, cotejada por perda de vitalidade econômica, de seu próprio ciclo hegemônico. [10] Todd defende a tese do que chama "micromilitarismo teatral" onde os EUA ao atacar países de reduzida força político-militar, demonstra muito mais um sinal de fraqueza que de força e onipotência. Seu modelo de análise, ao final da introduçao, se fundamenta em três variáveis: resolução somente parcial dos problemas na periferia gerando um sentimento de necessário paternalismo dos EUA; ataque a países de pequeno porte em termos de poder militar; e, por fim, continuidade do complexo industrial-militar como forma de projetar seu poderio militar com base no keynesianismo bélico. [11] A nossa análise correlaciona o declinismo dos grandes impérios (e conseqüentemente da ordem mundial atrelada), resultante da exaustão no campo do poder (cratologia) e da ilusão partilhada no campo dos valores (axiologia) do aparato hegemônico, à gênese de uma nova ordem mundial. Outros fatores também analisados neste tema complexo são o declínio da competitivade econômica

e tecnológica e o pesado fardo orçamentário pela manutenção do aparelho militar para manter a ordem, simultaneamente, em várias partes do mundo. Uma nova tentativa de expansionismo do CSNU vai tomar corpo a partir da divulgação do Relatório do Painel – abordado no próximo item deste artigo – embora defede-se aqui que o mesmo ainda esteja dissociado da teleologia estrutural do CSNU que não é, necessariamente, preserva a paz e a segurança internacionais, como assim reza a Carta da ONU. Os debates então acerca da expansão do CSNU estariam polarizados entre o Grupo dos 4 (G-4), composto por Brasil, Alemanha, Índia e Japão [12] – autoproclamados candidatos às novas cadeiras permanentes que nem ainda haviam sido criadas – e o Grupo Unido pelo Consenso (Uniting for Consensus) que defende que os novos arranjos negociais e de processo decisório no contexto da expansão do CSNU tenham legitimidade pelo consenso de grande parte dos países da AGNU. O consenso, nesse caso, constituiria óbice à posição brasileira que é a posição do G-4, trazendo dificuldades nova configuração das forças regionais neste órgão. [13] IV. O RELATÓRIO DO PAINEL (2004): UMA SÍNTESE INCOMPLETA Para tentar corrigir as distorções, assimetria de representatividade e seu arranjo político-decisório, o Relatório do Painel vai, por designação do SecretárioGeral Kofi Annan, se reunir por pouco mais de um ano (2003-2005) para propor uma série de reformas da ONU para serem aprovadas no transcurso de seu sessenta anos. O Relatório do Painel A More Secure World: Our Shared Responsibility de 2004, composto por 16 notáveis, incluindo o Embaixador brasieiro Baena Soares, utiliza em sua concepção expansionista alguns elementos do Plano Razali de 1997, embora ofereça duas alternativas (modelo A e B) de modificação da composição do CNSU. É importante salientar que o Relatório do Painel e o Plano Razali estão centrados na expansão do CSNU, não na reforma mais profunda de seus processos decisórios, seu comportamento como colegiado assimétrico e conservador. Luck alerta sobre a complexidade e a dificuldade de consensualização da temática, asseverando que há diferenças estruturais entre reforma e expansão. Reformar e expandir o CSNU não são, necessariamente, tendências semelhantes. Aliás, são tendências, em determinados pontos, opostas. Muitas das posições, incluindo a fracassada plataforma de defesa do G-4, especialmente após o abandono da coalização por parte do Japão em finais de 2005, ainda de acordo com Luck, estão equivocadas pelo fato de confundirem, propositalmente, processo de reforma, que é bem mais amplo, problemático e multifacetado, com o desejo político de expansão das cadeiras dos países emergentes na nova configuração de forças das Relações Internacionais pós-bipolaridade. [14] Nos modelos A e B, propostos pelo Relatório do Painel, há mudanças inclusive de tipologia de cadeira no CSNU quando, no caso do modelo B, há a indicação de um vaga semi-permanente com mandato de quatro anos com possibilidade de reeleição que ainda ficaria a cargo da

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AGNU (órgão que conta com os totais 191 Estadosmembros da ONU). Tais modificações estruturais são altivas e não refletem a realidade da ordem mundial unipolar e exoneram a posição norte-americana de uma reforma bem menor, privilegiando os países que têm alinhamento direto com os EUA em temáticas estratégicas, como fora com a intervenção no Iraque a partir de março de 2003. [15] Além disso, os modelos A e B são fundamentados no principismo da expansão como forma de democratizar o Conselho de Segurança quando o mesmo está, desde sua idealização em Dumbarton Oaks e, mais precisamente em Yalta, fadado à assimetria e ao exclusivismo.Como já externado anteriormente, a fórmula de Yalta que criou o instituto do veto e a presença de membros permanentes já mostra que sua caminhada futura seria calcada nos arranjos negociais que privilegiariam a eficiência decisória conservadora e não, necessariamente, os critérios idealistas da Carta da ONU de manutenção da paz e da segurança internacionais por meio de critérios objetivos, pontuais e imparciais. As duas tabelas, extraídas diretamente do Relatório do Painel, mostram os modelos com suas potenciais configurações de expansão do CSNU, sem a devida atenção que deve ser dada à teleologia essencial do CSNU. Abaixo, encontra-se a tabela 1 com a estrutura do modelo A e adiante a tabela 2 mostra o esquema proposto pelo modelo B: O modelo B, como já dito antes, propõe que sejam criados novos tipos de assentos, no caso 8 assentos com mandatos de quatro anos, que podem ser renováveis por meio de confirmação de 2/3 da AGNU – como ainda é praticado hoje no CSNU com quinze membros – e novos assentos com 2 anos de duração não-permanente e não renováveis, distribuídos de acordo com a próxima tabela. A distribuição geográfica é determinada pelo peso político, econômico e orçamentário para a ONU. A distribuição dessa representatividade leva, necessariamente, em conta a capacidade de os Estados estarem aptos a contribuir de forma efetiva para os princípios da Carta da ONU refletindo a nova geopolítica e geoeconomia do início do século XXI. Retomando a discussão iniciada sobre a polarização das iniciativas de expansão do CSNU, sem a devida atenção à estrutura de poder da ordem mundial unicêntrica e também sem a devida atenção à necessidade de entendimento dos custos políticos e efeitos colaterais do processo de reforma, deve-se vislumbrar que há ainda muitos interesses dissociantes no entorno do CSNU. A coalizão de países na AGNU contrários às iniciativas expansionsitas do G-4, intitulado do "Grupo Unido pelo Consenso" (Uniting for consensus) que compõe de países como Itália, Paquistão, Coréia do Sul, Espanha, México e Argentina, alega que a ausência de consenso constitui principal óbice para a expansão do CSNU. [16] Vale enfatizar que Itália e Espanha foram países que não somente apoiaram a intervenção no Iraque, mas também forneceram efetivos militares para a empreitada bélica e assim se alinham à posição dos EUA de contraridade a expansão como defende o G-4 – enfraquecido com a saída do Japão em finais de 2005. Além disso, o Grupo Unido pelo Consenso enfatiza que expandir o CSNU significaria iniciar um largo processo de reforma da Carta da ONU, em

particular seu Artigo 23, que levaria longo tempo e delicada articulação político-diplomática e jurídica pela rigidez de seus mecanismos e que envolveria uma mobilização dos 191 Estados-Membros da ONU. O jogo do poder internacional com teor de doutrinarismo conservador encontra-se, portanto, mais preemente após as intervenções no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003 em diante). A prática do terrorismo anti-civilizacional, por seu turno, tem utilizado como mote a presença ocidental nestes dois países assim justificado no processo de assunção dos vários atentados. A nova tentativa de expansão, não necessariamente de reforma densa do CSNU com o Relatório do Painel, ao não levar em conta o jogo do poder internacional com suas três variáveis (unipolaridade, realismo multilateralista e a fabricação de consensos), tende a não se concretizar no curto e médio prazos, especialmente em um momento delicado pósintervenção no Iraque com a agenda de doutrinarismo do CSNU. Muitos dilemas ainda permeiam a agenda antagônica do CSNU, trazendo total desinteresse em expandir o rol de membros permanentes em um contexto de embate na guerra contra o terrorismo (doutrinarismo dos EUA) nas Relações Internacionais no início do século XXI. ROSENAU, James e CZEMPIEL., Ernst-Otto. (orgs.) Governança sem governo: ordem e transformação na política mundial. Tradução de Sérgio Bath. Brasília: Editora da Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000. Que tal a leitura de um livro sobre as transformações do poder no sistema mundial, principalmente no que se refere ao caráter da governança neste sistema? Embora seja uma obra coletiva, o livro tem um fio condutor que transpassa todos os artigos. Esse objetivo parece ter sido perseguido pelos autores, procurando, dessa maneira, fazer um trabalho de reflexão com um fôlego maior do que muitas análises imediatistas escritas ao calor da hora. De fato, os autores debateram durante quatro anos, período no qual houve 5 encontros, do final dos anos 1980 ao início da década seguinte, precisamente num período de perplexidade produzido pelos eventos do final da Guerra Fria, do fim da URSS e dos debates sobre as transformações da hegemonia estadunidense em nível internacional As perguntas que os autores formularam para orientar o processo de discussão consistiram basicamente nas seguintes: o que se entende por governança em escala mundial? De que maneira ela pode operar sem um governo? Se a governança não está apoiada em uma governo organizado, quem vai formular e implementar as regras a seguir? James Rosenau busca, no capítulo introdutório, intitulado “governança, ordem e transformação da política mundial”, estabelecer os parâmetros destes debates e suas principais dimensões teóricas. E o faz com extrema maestria. Segundo Rosenau, governança não é o mesmo que governo. Os dois conceitos referem-se a um comportamento visando a um objetivo. No entanto, governo sugere atividades sustentadas por uma autoridade formal e pelo poder de polícia, que garante a implementação das políticas previamente instituídas, enquanto governança refere-se a atividades apoiadas em

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objetivos comuns, que podem ou não derivar de responsabilidades legais e formais e não dependem do poder de polícia para serem aceitas. Assim, a governança é um conceito mais amplo que o de governo. Abrange não só o governo, mas também as instituições de caráter nãogovernamental. Além disso, governança é um sistema de ordenação que só funciona se for aceito pela maioria. Em seguida, Rosenau procura também diferenciar governança dos conhecidos regimes internacionais. Estes são, por definição, o conjunto de princípios implícitos e explícitos, normas, regras e procedimentos decisórios para os quais convergem as expectativas dos atores para uma determinada área das relações internacionais. Enquanto os regimes internacionais são entendimentos mais especializados relativos a atividades bem definidas, a governança atinge amplitude global, não se limitando assim a uma esfera singular da realidade internacional. Cada um dos capítulos seguintes do livro explora algum aspecto da governança global. No capítulo 2, K Holsti procura examinar as origens e funcionamento do sistema de governança que prevaleceu entre as grandes potências européias do século XIX. Enquanto isso, no capítulo 3 Mark Zacher trabalha com a hipótese da decadência do templo westfaliano, numa referência ao sistema de Estados que tem moldado o sistema mundial desde o século XVII. Conforme o autor, os Estados têm perdido a centralidade no sistema mundial, em função da ampliação das redes de cooperação e de transnacionalismo. No capítulo 4, Thomas J. Biersteker trabalha com o assunto da governança global a partir da relação dos países do Terceiro Mundo com a economia política internacional. No capítulo 5, Robert Cox examina a governança sem um governo nos textos de Ibn Kaldum, um filósofo islâmico do século XIV. Conforme o trabalho, as teorias baseadas no positivismo são menos adaptadas à investigação das mudanças complexas, surgindo, assim, a necessidade de uma epistemologia que afirme o relacionamento dialético entre o sujeito e o objeto. Para o autor, a contribuição da filosofia islâmica de Kaldum, nesse particular, consiste na noção de que os analistas precisam ter consciência do condicionamento histórico do período em que trabalham e capacidade para interpretar as mudanças. Oran Young, no sétimo capítulo, discute a questão da eficácia das instituições internacionais. Trabalha com a idéia dos “casos difíceis” que, quando se trata de avaliar a efetividade as instituições internacionais, é uma situação em que os participantes têm oportunidade e incentivos para desobedecer ou mudar os requisitos institucionais. Conforme o autor, uma maior transparência, a difusão do poder e níveis crescentes de interdependência têm servido

para ampliar a efetividade das instituições internacionais, assim como para intensificar a necessidade de instituir novos arranjos no campo internacional. No capítulo 8, Linda Cornett e James Caporaso discutem os interesses dos Estados e as forças sociais na comunidade européia. Os autores comparam o valor explicativo de várias correntes teóricas das relações internacionais, como o neo-realismo, o institucionalismo liberal, o funcionalismo e o neo-funcionalismo. Concluem que somente em conjunto essas teorias conseguem captar a realidade dos sistemas de governança existente na Europa. Governança e Democratização é o tema do nono capítulo, escrito por Ernst-Otto Czempiel, que parte da tradição liberal como referencial teórico das relações internacionais. A tese central do autor é que a maior interdependência entre Estados com orientação liberal tende a fortalecer o pacifismo no sistema internacional, ou seja, teria como resultado um sistema pacífico de governança. Finalmente, no décimo capítulo, James Rosenau trabalha com a questão da cidadania no contexto da ordem mundial em mutação. Afastando-se de uma leitura exclusivamente macroscópica das transformações internacionais, o autor explora o papel dos atores do nível micro no desenvolvimento da governança sem governo. Durante a leitura do livro, transpassa a ênfase dada pelos autores no transnacionalismo. A turma toda não parece nutrir simpatias pelas abordagens realista e marxista do sistema internacional. De fato, desde os anos 1960, diversos intelectuais buscam fornecer alternativas de estudo das relações internacionais que desafiem a hegemonia do realismo – com sua análise centrada na soberania do Estado. Embora por muitos momentos tenham alguma aproximação temática com o marxismo, em especial na análise da economia política internacional, também evitaram um contato maior com estes. O resultado foi um conjunto de teorizações sobre o aspecto transnacional e interdependente das relações internacionais, buscando a comprovação empírica para sua hipótese central: a de que o Estado e a sociedade estão cada vez mais ligados. Assim, a abordagem transnacionalista produziu diversos avanços no conhecimento das Relações Internacionais, como, por exemplo, nos estudos sobre a formulação da política externa. No entanto, ainda não ofereceu uma teoria capaz de explicar de forma orgânica e sistemática o conjunto do sistema internacional. Para finalizar, acredito que o trabalho organizado por James Rosenau e ErnstOtto Czempiel só vem a acrescentar para o debate e a compreensão do sistema internacional contemporâneo.

Tabela 1 - A proposta de expansão do CSNU pelo modelo A Região Quantidade total de Estados África 53 Assentos Permanentes atualmente 0 Novos assentos permanentes 2 Novos membros nãopermanentes (nãorenováveis) 4 6 33

Total do modelo A

Ásia-Pacífico e Oceania Europa Américas e Caribe Total do Modelo A

56 47 35 191

1 3 1 5

2 1 1 6

3 2 4 13

6 6 6 24

Fonte: A More Secure World: Report of the High-level Panel on Threats, Challenges and Change. Tabela 2 - A proposta de expansão do CSNU pelo Modelo B Novos Novos assentos com 2 assentos com 4 anos de Total do anos de mandato modelo B duração (não(renováveis) renováveis) 2 2 2 2 8 4 3 1 3 11 6 6 6 6 24

Região

Quantidade total de Estados 53

Assentos permanentes atualmente 0 1 3 1 5

África

Ásia – Pacífico 56 e Oceania Europa Américas e Caribe Total do Modelo B 47 35 191

Fonte: A More Secure World: Report of the High-level Panel on Threats, Challenges and Change.

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