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RESENHAS - História do Estruturalismo

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RESENHAS História do Estruturalismo François DOSSE. História do estruturalismo. Tradução de Álvaro Cabral.

São Paulo, Ensaio; Campinas, Editora da Unicamp, 1994. Vol. 1: O campo do signo, 1945-1966, 447 páginas. Vol. 2: O canto do cisne, de 1967 a nossos dias, 518 páginas. Edgard de Assis Carvalho Quarenta e seis anos de estruturalismo, expressiva documentação fotográfica, 150 entrevistas com antropólogos, economistas, psicanalistas, sociólogos, lingüistas, filósofos, historiadores, geógrafos, escritores - este é o pano de fundo da empreitada de François Dosse, professor da Universidade de Nanterre, nos dois volumes de sua História do estruturalismo. O volume 1, O campo do signo, 1945/1966, divide-se em três blocos. No primeiro, intitulado "A época clássica", Dosse trabalha com os anos 50 e com as fundações do estruturalismo. Tomando a lingüística como modelo de cientificidade que permitirá analisar os fenômenos culturais em sentido amplo, o paradigma estruturalista toma de assalto a vida intelectual francesa, derrocando a suposta hegemonia do existencialismo sartreano, valorizador do sujeito, da existência e da liberdade. A partir de Estruturas elementares do parentesco, em 1949, passou-se a entender a totalidade dos fenômenos sociais como linguagens, de fundo inconsciente, que propiciam a comunicação de mulheres, bens e mensagens. Daí foi um passo para que a psicanálise com Jacques Lacan, a teoria literária com Roland Barthes e o Michel Foucault de As palavras e as coisas vissem no novo paradigma uma forma de consciência renovada para o saber moderno, que destronava as arrogâncias da razão, através de um processo de descentramento do homem sem precedentes em toda a história do pensamento ocidental. Se o inconsciente era mesmo trans-histórico e transpessoal, a distinção entreprimitivos/civilizados, nós/outros, que tanto sentido deu ao funcionalismo e à posição relativista, não apresentava mais nenhum sentido epistêmico, pois o pensamento selvagem passava a possuir o mesmo estatuto do pensamento domesticado, apresentando inclusive um caráter mais totalizador, porque inscrito na lógica do sensível. Com isso, passou-se a postular um humanismo universalista, que reintegrava o outro no mesmo e não será por acaso que o período abundará em referências a Montaigne e Rousseau, este último o "verdadeiro fundador das ciências do homem", para Lévi-Strauss pelo menos. Para Dosse, a helle époque do paradigma, que constitui o bloco dois, situa-se entre 63 e 66, quando o furacão estruturalista transpôs as fronteiras francesas, inundando o Ocidente - o Brasil inclusive - com suas linguagens binárias, cadeias significantes, mitemas, parentemas e tudo aquilo que pensava as expressões empíricas como um mero pretexto para se acessar as verdadeiras estruturas, que jaziam nos pianos mais profundos da mente humana.

de suicídio da razão ocidental e da morte do Homo Historicus. natureza/cultura. Tel Quel. Máquinas de supressão do tempo. ela acabou por se refletir na conquista de posições de poder acadêmico. precisava expiar toda sua culpabilidade colonialista. Anti-historicista e anti-humanista foram alguns dos qualificativos atribuídos a esse paradigma que propunha a morte do homem e que jogava a história num grau zero condenado à inércia. a decifração da alteridade se deslocará do mundo indígena da América do Sul para os enigmas que sociedades africanas exibiam perante uma Europa que. posteriormente. Mas será Maurice Godelier quem ocupará a cena teórica com mais destaque. psicanalistas e marxistas de todos os matizes exibissem suas convicções em simpósios. La Pensée e Les Temps Modernes. antropólogos. Communications. em 1962. mas que anseia por um tempo futuro que não contenha o pessimismo nem o otimismo históricos. pelo menos nos anos 60. dentre outras. em revistas especializadas como Critique. principalmente da história e da filosofia. obrigando os intelectuais a viajar por outros territórios do conhecimento. L'Homme. seria identificado como marxista-estruturalista. Cahiers pour l' Analyse. o que é discutível. é exemplar a esse respeito. no qual os domínios de competências foram questionados. se fizeram ouvir e a polêmica de Lévi-Strauss com Sartre. Georges Balandier ocupará aqui uma posição de destaque. principalmente. pelo menos. abundantes em articulações político-ideológicas. que não encontram vez num homem que se esforça por se emancipar da ordem do tempo. A belle-époque foi o momento desse debate salutar que fez com que lingüistas. Pierre-Philippe Rey. Pierre Bonte. principalmente nas sempre tumultuadas eleições para o Collège de France. expressão até hoje paradoxal feita em Tristes Trópicos. debates e. com seu diagnóstico da situação colonial e como o articulador de um grupo de pesquisadores que. engendre um homem mais contente consigo mesmo e com os semelhantes. no qual desenhar-se-ão as pretensões de uma ciência unitária localizada na . Nesse cenário poliforme de esquecimento do ser. nas quais a defesa da história ou da estrutura se apresentava como as pedras angulares de qualquer prática teórica. Se Lévi-Strauss detestava viagens. as bases constitutivas de uma antropologia simultaneamente estrutural e histórica. na tentativa de trazer a antropologia para a história e de ir buscar. Emmanuel Terray.Mas essa hegemonia não passou inconteste pelos umbrais da vida intelectual. Embora Dosse qualifique toda essa fecundidade como mais ideológica do que científica. de modo sistemático. forma/conteúdo são construções dualistas oriundas do pensamento cartesiano. já preconizada por Nietzche no século XIX. Como resultado disso houve a instalação de um debate interdisciplinar. Resistências de várias áreas. mas. o primeiro volume dedica algumas páginas à tetralogia levi-straussiana que se inicia em 1964 com O cru e o cozido e finaliza em 1971 com O homem nu. na obra de Marx. Marc Augé dentre outros. e que não busca um tempo perdido. formado por Claude Meillassoux. os mitos pretendem demonstrar que as dicotomias necessidade/contingência. Mesmo que o autor não respeite integralmente a cronologia que ele mesmo se impôs.

Se já se afigurava no horizonte a possibilidade de uma estruturalização da dialética. com a totalidade de seus escritos. Talvez na literatura os efeitos desse movimento tenham adquirido visibilidade mais explícita. passou a ser entendido como uma polifonia de vozes e imagens. Foucault. é que se inicia o volume 2. Esse canto do cisne preconizado por Dosse. serão os primeiros cantos desse cisne errante que abalarão a hegemonia da estrutura. E Dosse remarca com objetividade o papel que Julia Kristeva. Bakthin. ainda que de modo não-homogêneo. teve nessa virada que a teoria literária passaria a assumir nas décadas posteriores. de outubro de 67. Se a Derrida importava introduzir a temporalidade das e nas estruturas. Se parece não terem havido vencedores nem vencidos. O texto literário. ainda mais vindo de alguém identificado com o paradigma. pelo menos em algumas de suas formulações básicas. à dialetização da estrutura era ainda algo impensável e a polêmica entre o próprio Godelier e Sève será o exemplo mais cabal dessa impossibilidade. que se estende de 1967 aos nossos dias. Lacan e toda a dicotomia significante/significado que animava a tese do "arbitrário do signo". e Gramatologia. cujo objetivo mais amplo é identificar as fissuras e condições básicas do declínio paradigmático do estruturalismo. o esforço de sua Gramatologia não conseguiu produzir uma estocada fatal no programa estruturalista e isso porque seus fiéis mosqueteiros . e isso porque foram tantas as linhas de fuga produzidas pelo paradigma que se torna difícil entender sua morte definitiva. Foucault. a análise do homem sempre tendeu a se enriquecer e. Jean Deschamps e Henri Weber são alguns dos integrantes desse histórico debate que pretendia solapar o estruturalismo de suas bases constitutivas. Roger Garaudy. Claude Lefort. Lucien Sève. Entre 67 e 68 intensificaram-se os debates entre estruturalismo e marxismo com o histórico número 135 do La Pensée. de 1973.Lévi-Strauss. Lacan . apto a estabelecer contrapontos imediatos a qualquer sorte de crítica. A escritura e a diferença. Desconstrução foi a palavra de ordem de Derrida que atingiu principalmente Lévi-Strauss. Basta ler o itinerário intelectual. oriunda da lingüística estrutural. a instauração de uma dialogia entre o mesmo e o outro. não apenas uma irrupção juvenil. foi a crítica do logos ocidental. de 1971. desses cinco epígonos do paradigma estruturalista . mas uma mobilização de toda a sociedade contra tudo aquilo que desvalorizasse o sujeito e as práticas manipulatórias introduzidas pelas tecnocracias selvagens da modernidade. parece que nunca foi ouvido integralmente.sempre exercitaram um aguçado senso crítico. 1968 conseguiu perpetrar com suas barricadas e imprecações uma descida aos infernos. e até subjetivo. a valorização das imagens míticas como formas "científicas" de cognição e. conseqüência disso. . de Jacques Derrida. como a proposta de Godelier deixava claro. Althusser. se houve um movimento sem retorno.intersecção das ciências da natureza e do homem. visto pela análise estruturalista ortodoxa como um conjunto de oposições formais. composto por cinco blocos. Charles Parain. Cornelius Castoriadis e Edgar Morin irão identificar em 68. devidamente influenciada por M. Barthes. da primitividade.e de muitos de seus descendentes .para perceber que. mediante a fundação de uma ciência estrutural da diacronia.

mostrando que a contestação universitária. Mas a verdadeira reconciliação da estrutura com a história chegaria com a escola dos Annales. Todo esse vanguardismo. na análise do declínio Dosse opta pela ênfase na necessidade de um retorno do sujeito. por vezes deslocadas. essa ânsia. concretizado nos três volumes de sua História da sexualidade. acabaria por produzir uma nova onda de críticas. Embora esse redirecionamento tenha sido creditado por Dosse principalmente a Foucault. fica extasiado com toda essa movimentação cultural. muito menos. como o caso das referências demasiado positivas dirigidas a Pierre Bourdieu e Louis Dumont. a falsa competência do especialista. e se as estruturas não desceram às ruas. como afirma Georges Balandier em uma das entrevistas que integram o livro. Como não poderia deixar de ser. negandose a ver o movimento histórico como uma mera narrativa de eventos.adviria de um estruturalismo historicizado praticado por Foucault. Sem que se conseguisse sair dessa circularidade. do ódio. Le Roy Ladurie e François Furet. que em nada esclarecem o sentido do declínio e. Nesse texto . e todos os seus fantasmas. um triunfo institucional do estruturalismo que assumiu departamentos e políticas de pesquisa e. o retorno do sujeito recalcado e da historicidade nele contida. reorientou-se na busca de novos horizontes interpretativos. em afirmar que essa queda da hegemonia estruturalista trouxe consigo a normatividade disciplinar. os filhos de maio propiciaram que a estrutura se tornasse mais aberta e plural. como as assembléias universitárias deixavam transparecer em suas moções. como a formulada por Pierre Fougeyrollas em seu livro Contra Lévi-Strauss. 1968. porém. talvez seja a mais frágil dessa História do estruturalismo. A parte final do livro. representou.o tom acusatório permaneceu ligado às ausências do sujeito. concedida a Dosse. ao defrontar com o calhamaço de informações e com o elenco de pensadores mais ou menos identificados com o estruturalismo. da história e do humanismo. a partir de 1975. mesmo com todas as suas diferenças. que iria adquirir expressão legitimada sob a rubrica da pesquisa das mentalidades. do medo. o que convenhamos é uma avaliação apressada. ocuparão um grande espaço em todo o volume 2. mesmo que a desconstrução da histórica linear e irreversível permanecesse. identificada com Fernand Braudel. por totalizações mais amplas. a salvação . Se o leitor.para Dosse pelo menos . como o elemento que garantiria o fim da hegemonia estruturalista. perdendo-se em considerações. Dosse tem plena razão. de um lado. só para referenciar alguns nomes que adentrariam nas alteridades. intacta. dos odores irão progressivamente se sobrepor ao caráter datado e irreversível dos acontecimentos e das contingências históricas. nas quais as linguagens do amor. mas algo parecido com uma história das inércias. que acabou por produzir a experimentação verificada em Vincennes (Paris V111) como uma contraposição à esclerose reinante na Sorbonne. de certo modo. conseguiu reunirem torno de Foucault um conjunto expressivo de pensadores que investiriam na pluridisciplinaridade do conhecimento.e em outros que se seguiram a ele . o consenso cínico dos .Se os efeitos de 68 desmentiram o homem estrutural. de outro. a fragmentação do conhecimento. Lacan e Althusser. o estruturalismo. que visa analisar mais explicitamente "O declínio do paradigma".

Sartre encontram-se mortos e. não dualizado. algumas tentativas de redirecionar a consciência do conhecimento poderiam ter sido mais explicitadas. É o caso de Edgar Morin. com eles. ele afirmou ironicamente que se tratava de uma moda francesa que se renovava de cinco em cinco anos. renascido de sua própria morte. em uma de suas múltiplas entrevistas. a idéia de que vinte séculos de história não afetaram de modo sensível o conhecimento da natureza humana e que o homem integral ainda está para ser criado. mais policêntrico e imaginal. onde mesmos e outros são sempre irreconciliáveis. na qual o dualismo presente no "grande paradigma do Ocidente" seria ultrapassado em nome de uma forma unitária de conhecer. Lacan. que recebe poucas referências no texto como um todo. Talvez. EDGARD DE ASSIS CARVALHO é professor de Antropologia da PUC de São Paulo e da Unesp. por isso. Não é por acaso que as páginas finais do livro se encerram com referências esparsas a aspectos do pensamento moriniano e com a concordância de Dosse de que se deva instituir na explicação teórica a idéia de um real indivisível e complexo. até porque é difícil pensar em qualquer destino teleológico para o processo histórico nesse final de século. campus de Araraquara. condições essas que o paradigma parecia haver exorcizado do horizonte da Academia. Sabe-se que esse pensador vem investindo contra qualquer totalitarismo do conhecimento. por que não. com ele. desligado das materialidades irreversíveis de processos socio-históricos hoje alcunhados de pósmodernos. descentrado de si mesmo. impondo como horizonte epistemológico uma paradigmatologia transdisciplinar. .departamentos universitários. quando instado a definir pela enésima vez o que era o estruturalismo. Foucault e. Althusser. É triste constatar que muitos dos mosqueteiros estruturalistas não estão mais entre nós. talvez definitivamente sepultadas as esperanças da constituição de um homem menos arrogante. Mesmo que o vício da História não seja mais condenado. Sobrou Lévi-Strauss e. por exemplo. na qual as distinções entre ciências da natureza e do homem estariam definitivamente sepultadas. no qual as práticas e fragmentações disciplinares não mais existiriam. Barthes.

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