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O homem cordial

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Universidade Estadual Paulista-Faculdade de História, Direito e Serviço Social- Campus Franca.

JOSÉ DA SILVA MATOS MAIA

O HOMEM CORDIAL NA BAHIA

FRANCA

2006

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Universidade Estadual Paulista-Faculdade de História, Direito e Serviço Social- Campus Franca.

JOSÉ DA SILVA MATOS MAIA

O HOMEM CORDIAL NA BAHIA

Trabalho de Conclusão de curso apresentado para obtenção de titulo de Bacharel em História, à Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, faculdade de História, Direito e Serviço Social. Orientador: Profº. Dr°. Moacir Gigante

FRANCA

2006

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RESUMO:

O presente texto tem o objetivo de examinar os fatores históricoestruturais que permitiram o desenvolvimento acentuado do personalismo político na política brasileira, analisando as estruturas clientelísticas, a partir da família patriarcal ao desenvolvimento do coronelismo. Compreender o fenômeno de comunicação de massas na sociedade que vai se modernizando, midiátizada, mediante sua influência sobre o personalismo na sociedade contemporânea. Analisada através da figura e trajetória de Antonio Carlos Magalhães na política e transversalmente em suas ações politicas, utilizando o mito da baianidade associando-a ao carlismo e na aplicação do projeto de modernização turístico cultural no estado da Bahia, acionado dentro dessa nova realidade. Os resultados do estudo indicam a permanência do personalismo na política brasileira sobre uma rede clientelística, comprometendo a participação política institucional, e potencializado pela associação entre mídia e política. Descaracterizando o desenvolvimento pleno da democracia e da cidadania no país, pela concentração e utilização para uso político das empresas de comunicação que favorecem a permanência do personalismo. PALAVRAS CHAVE: coronelismo; História Bahia; clientelismo; política; prsonalismo político.

ABSTRACT:

The present synopsis is intended to exam the historical and structural facts that allowed the accented development of political “personalismo” in Brazilian politic, analyzing the clientelism structure, starting from patriarchal families to the development of “coronelismo”. Understanding the phenomenon of communication of masses in a society which is in constant modernization, impregnated of the influence of media, by means of your influence in “personalismo” in the contemporary society, analyzed through the figure and trajectory of Antônio Carlos Magalhães in politics and in his political actions by the myth of “baianidade” associated with “carlismo” and by the application of the modernizing project of tourism and culture in Bahia inserted in this new reality. The results of the present study indicate the permanence of “personalismo” in Brazilian politics inserted in a clientelism net which compromises the institutional politic participation and is powered by the association with media and politics, uncharacterizing the complete development of democracy and citizenship in the country by the concentration and utilization of communication’s enterprises for politics causes, reaffirming the existence of “personalismo”. KEYWORDS: “coronelismo”; History Bahia; “coronelismo”; clientelism; political ”personalismo”.

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In memorem Rosane Maia Marcela Irmão ... Antenor Magalhães de Matos Adélia da Silva Matos José Maia Filho Laurinda Defensora Rocha Corinto Maia Corinaldo Lira

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Agradecimentos
À minha mãinha, Eclelisia da Silva Matos, pois sempre encheu nossa estante de livros onde pude mergulhar e conhecer os mundos dentro dos mundos nos mundos diversos de onde nunca mais saí, a não ser é claro para pisar, de vês em quando, o chão de uma realidade sistêmica. A toda minha família estendida sobre o Brasil, em Iguaí, Botuporã, Vitória da Conquista, Salvador, Jequié, Rio de Janeiro, São Paulo, Barueri, Itapevi, São Carlos e Suíça. Em especial a meus irmãos Rosene Matos do Santos, Ricardo e família; Simone Matos da Silva, Carlos e família; Alexandre da Silva Matos Maia, Washington Luis Maia e família, Godofredo Maia e família, Aier da Conceição Maia e família, Paulo Eduardo Maia e família, Jean Carlos Maia e familia, Isa Bruna da Conceição Maia, Eva Bruna da Conceição Maia, Norma Bruna da Conceição Maia, Paulo Rodrigues da Conceição Costa, ao Janir esposo de mainha. Nena esposa de painho. À Janaína que sempre será minha rainha dos mares. A todos os meus sobrinhos, Alana, Alam, Ana, Bianca, Camila, Elielton, Everton, Guilherme, Hagatha, Keyse, Letícia, Paulinho, Paulinha. Aos meus tios Antonio e família, Amália e família, Fábio e família, China e família. A Jack e a Mônica Geografa, primas. Da parte de Conquista, Miguel, Miguel Junior, Neinha, Niniha, Michele, Henrique e Tatiana. (Parece uma grande família patriarcal, mas não, é uma Grande Família). À minha primeira e grande república ou seria “res pública” integrada por Adriano, vulgo Bozo; Carlos, vulgo Pupa; Carlos, vulgo Robts e ao integrante de ultima hora Ulisses, vulgo Pelegásso. Aos amigos, Clara Holanda musa inspiradora; Carlinhos, André, Raimundo e Ivone, Marcelo, Roger; Thiago, vulgo Carneiro; Rodrigo e Renã. E a minha ultima república integrada pelos meus amigos e psicólogos Rafael e sua noiva Carol, Fabio e sua noiva.

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Aos amigos Lília e Layner que sempre me receberam em sua casa para longas conversas memoráveis. A todos os funcionários da UNESP. A todos os professores e ao professor Jean Marcel. A toda a Quadragésima Primeira Turma de História, afinal se a história começa depois dos quarenta, então a primeira sempre será melhor. Finalmente ao nosso querido professor Gigante que, me estendeu seus braços intelectuais tranqüilizando-me em momento oportuno. Moacir que não é nenhum monstro mitológico, mas é nosso Gigante Professor e ficará para sempre, em um capitulo, na “Odisséia” de nossas vidas.

La Marseillaise: Le jour de gloire est arrivé

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EPÍGRAFE

Eu sei que ao longe na praça, Ferve a onda popular, Que à vezes é pelourinho, Mas poucas vezes – altar. É hoje, senhores, o dia da pátria. Que d’alma – os Baianos – conservam no fundo, Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo... Que marca um processo na vida do mundo. Senhores, a glória de um povo é ser livre... O nome de livres é nosso brasão. Seja esta a divisa da nossa existência. E este epitáfio se escreva no chão... Castro Alves, poeta baiano

Berço deste gigante que é Brasil minha terra, que amo e admiro Bahia, que tem um céu, mais cor de anil Meu recanto espiritual, o meu retiro Desfraldando a bandeira da vitória Nas Lutas de Cabrito e Pirajá Cobrindo a pátria de honras e glórias Nossa pátria dos tiranos não será José Maia, poeta e político baiano

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................08

1 PARA UMA COMPREENÇÃO DO PERSONALISMO POLÍTICO NA POLÍTICA BRASILEIRA.........................................................................................................11

2 UMA CRÔNICA BAIANA: “O Palácio de Ondina”.............................................36

CONCLUSÃO.......................................................................................................66

BIBLIOGRAFIA.....................................................................................................74

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INTRODUÇÃO

Em 1948, em uma polêmica com Cassiano Ricardo, Sérgio Buarque de Holanda manifestou um “bocejar” quando encerrou a polêmica, anunciando que talvez tivesse gastado, em demasia, sua pena, com o pobre defunto do Homem Cordial. Cassiano Ricardo queria acender e “botar lenha na fogueira” da polêmica, prolongando-a. Para Cassiano o homem cordial era a expressão de uma bondade e amabilidade latina, e não o “embusteiro” afável e longânime interesseiro, fundido no caldeirão da família patriarcal e exposto por Sérgio Buarque. Cassiano Ricardo argumentou que: “a única característica incorrigível no brasileiro era sua bondade”. Enquanto Sérgio Buarque mostrou que: ”o brasileiro fazia uso de uma técnica de bondade”.1 Vamos ressuscitar o defunto, mas antes é preciso encontrar seu rastro na História, pois, o fantasma sempre assombrou o passado na política e no cotidiano das relações sociais brasileiras. O personalismo político é intrinsecamente atado à política brasileira em especial, vaga no tempo e no espaço das transformações políticas, impedindo o desenvolvimento democrático. Emperrando a institucionalização da participação política dentro do organismo partidário, favorecendo a guerra por hegemonia, mas posicionado sobre o prato da balança que está ao lado das elites oligárquicas, senão ao menos os detentores do capital e do poder, a nata do vinho podre que virou vinagre, comprado em 1500, a safra ninguém se lembra mais. Na superestrutura, na esfera cultural
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Tanto a resposta de Sérgio Buarque como o texto de Cassiano Ricardo – “Variações sobre o Homem Cordial” Colégio, n.2, São Paulo, julho de 1948, foram incluídos como apêndice a partir da terceira edição de Raízes do Brasil.

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moderna, ganha visibilidade e sacia sua vaidade nas paginas dos jornais e na tela da TV . O publico aplaude, mas desconfia, tarde demais. Ora, nunca é tão tarde ainda, existe movimento na guerra por hegemonia, movimento desagregador, em que a história sempre estará em processo. O leitor poderá acompanhar duas partes, que compõem este trabalho, na primeira procura-se um tipo ideal para navegar na História e encontrar algumas manifestações do personalismo, o personalismo político transmutado em tipo ideal será nosso guia nessa façanha nos meandros da política brasileira. A família patriarcal, na sua manjedoura impudica dará nosso homem cordial, talvez o malandro seja mais charmoso, versão popular desse oligarca hierárquico. Nos currais do voto de cabresto nosso herói sem nenhum caráter, era coronel da guarda nacional, depois virou coronel empobrecido na poeira do sertão, trocou votos por favores para manter a pompa oligarca desnudada. O Estado Novo centralizou uma figura pública, árbitro no jogo de compromissos, onde as pressões e o apoio das classes em formação era medido em função de seu equilíbrio no poder, provocando rupturas nos rearranjos das estruturas sociais classistas. Mas manteve-se a antiga estrutura, renovada agora em redes de clientela, possuindo cada uma, um átimo sustentador. O resto já foi dito acima. Na segunda parte, o leitor poderá encontrar um reflexo, um espelho da primeira ou na penumbra, centralizado em um único ator público, ou principal. Por trás de um personalismo ressonante muito conhecido na política brasileira nos últimos quarenta anos, mito, talvez não seja mais, desmascarado por sua própria produção. A Bahia se sobrepõe a ACM, ou será Antonio Carlos Magalhães. O nome que virou, sigla, a sigla que virou, mito, o mito que virou, gente, ou como diz o poeta, gente é outra alegria. Porque o palco armado do seu conglomerado midiático, subiu o pano no final de seu

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espetáculo e mostrou as artimanhas políticas desse ator ultrapassado. Talvez a baianidade possa ser dês-contaminada e revelar uma brasilidade, talvez até uma universalidade, ou seja, a cultura de um povo que é sua maior riqueza, e o é em todos os lugares no mundo. Uma universalidade singular em todos os lugares no mundo. Mas enfim, o texto não vai tão longe assim, não tem essa pretensão, é uma simples análise de história sociológica política, e isso é apenas um desabafo.

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1- Para uma compreensão do personalismo político na política brasileira.

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Mais do que em seu desenvolvimento histórico, o Estado é estudado em si mesmo, em suas estruturas, funções, elementos constitutivos, mecanismos, órgãos etc., como um sistema complexo considerado em si mesmo e nas relações com os demais sistemas contíguos. Noberto Bobbio

Para entendermos a trajetória de Antonio Carlos Magalhães e inseri-lo dentro de uma abordagem personalista, faz-se necessário uma análise conceitual e teórica acerca do personalismo político, seu enquadramento histórico, suas particularidades e seu desenvolvimento no tempo e no espaço das transformações na política brasileira. Tendo em vista que, no Brasil, existe uma profunda herança patriarcal2 e portanto uma extensa base de fermentação e incubação para o personalismo. Por isso é de grande importância entender a formação do patriarcado brasileiro. Entretanto é preciso encontrar o fio condutor na análise, que precisa de um elemento comum, com liberdade para transitar entre diversas manifestações do personalismo e seu desdobramento no campo da ação, tendo em vista a experiência moderna e particularmente o fenômeno da comunicação de massas. Esse fio possibilitará agregar outros cenários de desenvolvimento ao personalismo, que não seja somente a formação da tradicional família brasileira a partir da sua influência ibérica, mas dentro de uma gama maior de relações que será trabalhado e apresentado no decorrer do trabalho.

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Tanto Sérgio Buarque de Holanda (HOLANDA,1956) quanto Gilberto Freyre (FREYRE, 1994) abordam o tema do patriarcalismo, entretanto para Sérgio Buarque, essa nossa tradição patriarcal é responsável pela invasão do público pelo privado, enquanto para Gilberto Freyre o patriarcado é visto de maneira positiva, socialmente integrada e economicamente justa.

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Para tanto faremos uso da noção de tipo ideal, teorizado por Max Weber3, aparato conceitual necessário para tornar possível a investigação e encontrar resultados plausíveis. Esta ferramenta metodológica permite uma superação da realidade empírica para tecer os fios significativos, no interesse de desenvolver as conexões que, entre os indivíduos, se apresentam de maneira geral, possibilitando seu conhecimento em uma maior dimensão e através de particularidades que os unem. Para Weber o interesse está na experiência e não na vivência dos sujeitos, não o interessa as ações dos indivíduos por si, são necessárias um estabelecimento de conexões causais que acionem as ações de um mesmo agente ou acionem as ações de uma diversidade de sujeitos que estejam inseridos num mesmo contexto, onde será perceptível a teia estabelecida.
[...] Daí a importância, nesse ponto, do conhecimento monológico do pesquisador, pois o que importa é transcender a ação singular como puro evento. Daí também a importância dos procedimentos construtivos envolvidos no tipo, pois do contrário não há como transcender a pura realidade empírica vivida, que é um fluxo inesgotável de eventos singulares. (COHN, 1977. p. 66)

É importante frisar que a busca e o uso do tipo ideal é importante, pois não é uma delimitação absoluta, mas um guia no caminho da pesquisa, sua abrangência permite que através dessa ferramenta se possa operar no rastro de elementos causais.
Não há atributos intrínsecos aos fenômenos que permitam o seu conhecimento pleno, através das supostas exigências ensejadas por alguma forma de captação intuitiva definitivamente, e isso nunca será suficientemente enfatizado, a compreensão não diz respeito às personalidades dos agentes, muito menos a quaisquer “vivências”, mas às suas ações. (WEBER, 1979, p. 79)

Portanto, quando Weber nos mostra que a compreensão não diz respeito às personalidades dos agentes e sim às suas ações, fica claro que é nas repetições das ações dos indivíduos que encontramos uma possível formatação de tipo ideal. Não está
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WEBER, Max. A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais.: in COHN, Gabriel (Org.) Max Weber. Sociologia. São Paulo: Ática, 1977, p. 79-127.

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negando o personalismo, mas nos guia na compreensão de um tipo ideal para a análise. Para elevarmos a condição do “personalismo político” para uma noção de “tipo ideal”, temos que ter em mente que não se trata das personalidades de um modo isolado e sim de um atributo comum às diversas ações, ou seja, “conexões de sentido que ligam os indivíduos e suas ações em torno de certas atitudes típicas, eventualmente em torno de uma ética particular” (COHN, 1979. p. 66) Agora que delimitamos nossa noção de tipo ideal como personalismo político, é importante dar forma ao conceito e entender seu desenvolvimento no Brasil. O termo personalismo se refere às relações sociais sustentadas por laços pessoais dentro de uma escala hierárquica particularizada4. No Brasil quem melhor trabalhou o conceito, ou melhor, sua origem, foi Sérgio Buarque de Holanda5. Olhando para o passado colonial, faz uma reconstituição da nossa história com vista a explicar o presente, buscando um traçado comum na constituição e formação de nosso povo, que sugerissem pistas para esclarecer a frágil estrutura pública no Brasil, que é confundida com o privado e familiar. Nossa origem ibérica formou e forjou uma particularidade de homem lânguido que tem sua mais profunda representação em nossa gente. O caldeirão propulsor desse “tipo humano” foi o ambiente familiar, senão a própria família, suas raízes se assentam em bases dos relacionamentos pessoais, respaldados por uma hierarquia de “família tipo primitivo”.6 Onde a figura do pai surge poderosa, centralizando o comando
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OTTIMANN, Goetz. Cidadania Mediada: Processos de democratização da política municipal no Brasil , in: Novos Estudos, CEBRAP.74, março 2006, p.157.Disponível em <http://scielo.br/pdf/nec/n74/29645.pdf>. Acessado em: 11de setembro de 2006. 5 HOLADA, S.B., Raízes do Brasil. São Paulo: Livraria José Olimpio Editora, Rio de Janeiro, 1956. 6 Ibid., p. 207

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da família no topo da hierarquia, ele é também o mantenedor da “sociedade” familiar. É na família que se encontra o terreno fértil para o assentamento de relações de tipo personalista, pois é uma organização quase alto-suficiente onde se representa e exercita-se uma esfera “pública”, entenda-se por isso que é no domínio da família que ocorre toda atuação dos indivíduos dentro das “relações sociais”, em um primeiro momento restrito ao âmbito doméstico rural. Tudo que diz respeito ao desenvolvimento dos indivíduos, ocorre em um ambiente recluso situado na esfera da família. É claro que essa família primitiva, aqui institucionalizada, traz as marcas da colonização portuguesa, mas, que tomou formas originais na mescla com as culturas nativas (posteriormente a africana) e na própria alocação e acomodação em ambiente vasto oferecido pela natureza faustosa quase nua, que oferecia as condições, devido a vastas porções de terras, para se desenvolver um núcleo familiar quase autônomo.
[...] A casa de cada habitante ou de cada régulo uma verdadeira república, porque tinha os ofícios que a compõem, como pedreiros, carpinteiros, barbeiros, sangrador, pescador, etc. Com pouca mudança, tal situação prolongou-se, aliás, até bem depois da Independência e sabemos que, durante a grande época do café na Província do Rio de Janeiro, não faltou lavrador que se vangloriasse de só ter de comprar ferro, sal, pólvora e chumbo na cidade, pois o mais dava de sobra em suas próprias terras. (HOLANDA, 1956, p. 101-102)

É no desenvolvimento de relações “dentro da casa” que frutificará nosso homem público, o senhor de engenho, autoridade política nos primeiros séculos, surgido de uma composição social calcada nos valores da família, que entre nós é, talvez, único modelo de organização. Desse modo, o patriarca, o senhor de engenho, fará do ambiente público uma extensão das relações familiares. Ao extrapolar o domínio da família e atingir os indivíduos, o poder da família patriarcal estende aos organismos de atuação impessoal as práticas do ambiente

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doméstico, impondo práticas de cunho sentimental como o afeto e as emoções, que ligam as pessoas ao ambiente da família. Portanto práticas irracionais que não permitem o estabelecimento de princípios coletivos abstratos, atravancando o desenvolvimento de uma cultura pública, principalmente em um momento de formação. A invasão do público pelo privado, através da família sobre o Estado, se dá em decorrência da incapacidade dos indivíduos se desligarem dos laços pessoais quando estão em vias de estruturarem esse mesmo Estado. Assim como nas famílias, as relações se impõem de maneira biológica, ou seja, dentro da hierarquia patriarcal. Ocorre o mesmo na esfera pública, o princípio que norteia os indivíduos é o principio da hierarquia patriarcal. Portanto, não são relevantes as idéias e os interesses, e sim os deveres e sentimentos a que os membros estão associados. “Dessa forma, assiste-se a uma enorme impossibilidade de publicização das relações políticas e sociais, o que é, sem dúvida, o alimento que embasou a estruturação de uma sociedade que vai elevar o autoritarismo às alturas”. (REZENDE,1996, p.34). A cultura da personalidade é característica dos povos ibéricos “[...] o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais” (HOLANDA, 1956, p.17), desse modo, a colonização nos logrou o personalismo como agente mistificador da pessoa humana, uma originalidade ibérica que proclama a autonomia da pessoa em relação aos demais. Essa cultura se enraizará na formação da família brasileira, até mesmo, pelas condições em que aqui chegaram os colonizadores, em condição de “desbravadores do novo mundo”. Aliado à cultura da pessoa, havia a necessidade de sobreviver em ambiente hostil, alheio à sua origem, causando uma sedimentação na experiência colona dessa exasperação pessoal, o que seria relegado no plano da família e futuramente nas relações sociais fora dela.

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O indivíduo, elevado a uma postura autônoma, desenvolveu particularidades que o distanciam de uma atitude impessoal, o personalismo gerado o conduzirá, sempre, à sua própria afirmação diante dos outros. Desse modo, suas relações estarão baseadas sob personalidades, a anulação da sua só ocorre mediante uma outra maior, ou mediante um interesse particular que o faz isolar momentaneamente seu personalismo. Isso não acontece através de um contrato abstrato entre os indivíduos, mediante um bem comum, mas sim através de uma hierarquia da personalidade, onde as relações dos indivíduos se dão mediante suas personalidades, ou seja, o que elas representam, e dificilmente em uma esfera impessoal e objetiva. A idéia de uma organização abstrata presidindo os destinos dos indivíduos e atuando sobre eles, torna-se impossível diante dos valores pessoais, onde impera os laços concretos, numa relação entre pessoas, com suas idiossincrasias, vontades e gostos. Por isso, ao não se desligaram desses laços, que para eles eram mais importantes, os indivíduos só poderiam se associar a uma excessiva concentração de poder ou a uma obediência incondicional.
À autarquia do individuo, à exaltação extrema da personalidade, paixão fundamental e que não tolera compromissos, só pode haver uma alternativa: a renúncia a essa mesma personalidade em vista de uma bem maior. Por isso mesmo que rara e difícil, a obediência aparece algumas vezes, para os povos ibéricos, como a virtude suprema entre todas. [...] A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares. (HOLANDA, 1956, p.29).

A herança personalista recebida por nós dos ibéricos, floresce na família patriarcal dentro de uma unidade rural quase autônoma. No momento em que ultrapassa as fronteiras da casa estabelece associações entre os indivíduos, em torno de vínculos domésticos e afetivos, contaminando as relações sociais, que serão condenadas à irracionalidade da vontade da pessoa. Essa é a base que será edificada a nossa vida política, o personalismo se imbricando nas relações políticas, que numa

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inversão absoluta, vai se manifestar em termos familiares e pessoais. Ao contrário do que deveria ocorrer em uma democracia, essa herança personalista, por vezes, nos induzirá a lutar por um personalismo ou contra outro. A partir dessa orientação de ordem particular, as relações se darão de forma não objetiva, a cooperação e a competição que são orientas mediante um objetivo material comum, dentro dessa nova composição, serão reorientadas para o campo da rivalidade e da prestância, onde o que importa é a possibilidade de perda e ganho, dano ou benefício, proporcionado pelas relações entre pessoas e grupos envolvidos.7 Portanto os vínculos de pessoa a pessoa determinam as ações dos indivíduos e se tornam, quase sempre, os mais decisivos para as associações entre si, em detrimento de um verdadeiro compromisso onde impera a racionalização e consideração de valores impessoais e abstratos, para uma melhor acomodação dos interesses, sem as afinidades que sucinta o tratamento afetivo.
Ao recorrer a uma distinção de ordem antropológica, Sergio Buarque esclarece as peculiaridades de uma associação sobre bases afetivas, personalizadas e concretas, no caso da rivalidade e da prestância, e a especificidade das relações mais abstratas da competição ou da cooperação, que tem um fim material comum , isto é um interesse objetivo. (MONTEIRO, 1999, p.174)

O apego ao personalismo, configurado pelo ambiente doméstico, fará aqui confundir o espaço público com o privado. Para fora do ambiente familiar, esse personalismo ganha vida na postura do “homem cordial”,8 a cordialidade permite ao indivíduo uma ligação, mais “frouxa”, com o mundo e as outras pessoas, dentro de relações sociais que deveriam requerer códigos de conduta. Usando da cordialidade o sujeito se aproxima dos outros numa ligação concreta, minimizando ou mesmo excluído toda abstração da ordenação impessoal que caracteriza a vida em sociedade, invoca a
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Ibid., p. 66 Ibid., p. 209

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emoção diante da razão. Personaliza a relação que é a priori social. Não se trata puramente de “bondade” ou “boas maneiras”, mas sim um mecanismo de aproximação de fundo emotivo, uma tentativa de fazer da sociedade um prolongamento de si, da família e do ambiente domestico. O homem cordial é alheio a tudo que implica em códigos rituais da vida, no âmbito social, a ele importa antes de tudo o sentimento, apelo constante ao íntimo, daí no Brasil, o apego ao tratamento pelo primeiro nome e a tendência aos diminutivos numa tentativa de aproximação informal. A necessidade de aproximar as relações para a escala do íntimo, do pessoal e do informal, absorve o trato entre o patrão e empregado, o cliente e o vendedor. Envolve mesmo o culto religioso, relegado à superficialidade, mais atento à forma exterior para romper a barreira da ordem, almeja o espetáculo no ritual religioso, que para ele é a pompa dos encontros de domingo, o “mostrar-se em público” na reunião social do fim de semana na praça.
No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro – como bom americano – tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. (HOLANDA, 1956, p.211)

O homem cordial se origina na necessidade de se colocar em público, de sair da casa e enfrentar o lugar de todos, vivenciar o mundo fora da base familiar; mas ao sair da área doméstica ele a estende à dimensão da sua atuação personalista, e ao pisar o ambiente público o transforma, de maneira que o confunde com seu mundo dentro da casa, no domínio do íntimo e do pessoal. A cidade se torna o palco da sua atuação política dissimulada, pois sua bondade envolvente é uma técnica provida de capital sentimental, o homem cordial pode ser entendido como um personalista político. O personalismo político é a própria atitude do homem cordial na sua maneira de lidar com

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o outro dentro da esfera pública e tratar as coisas públicas, trazendo para o particular e o privado a ação, que ao contrário, deveria ser considerada de forma impessoal e abstrata. É nessa evolução que se formará nossa oligarquia, como um prolongamento do personalismo “no espaço e no tempo”,9 levando até a esfera política as ligações concretas que ligam pessoa a pessoa, provocando uma atrofia das organizações abstratas e do aparelho do Estado, o que permitiu a contínua manutenção dessa oligarquia. E impediu o desenvolvimento de uma organização coletiva que pudesse superar a ordem doméstica. A cordialidade, que só reconhece a “benevolência” no círculo dos iguais, ou dos conhecidos, não possui a abstração necessária para entender o Estado democrático, não pode, por isso mesmo, compreender a neutralidade necessária e imprescindível à formação de organismos coletivos, despersonalizados, pautados no interesse comum. O personalismo da cordialidade oligárquica controladora do Estado, só poderia instituir o funcionário “patrimonial”,10 que, ao contrário do burocrata, administra em causa própria, busca a vantagem e o enriquecimento ilícito, através do organismo do Estado em associação à família patronal. A indicação dos homens públicos não acontece por sua capacidade administrativa ou habilidades técnicas, mas em decorrência de sua aproximação, confiança e ligação diante da oligarquia. A especialização das funções, próprio de um Estado burocrático e impessoal, com o interesse de montar o aparato governativo com o intuito de proporcionar as garantias aos cidadãos. No “funcionalismo patriarcal” acontece o contrário, ocorre o domínio do

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Ibid., p. 271 Ibid., p. 207

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Estado para a perpetuação oligárquica, e a divisão da coisa pública entre os setores dominantes da sociedade. O homem cordial não ficou no passado e na pena de Sérgio Buarque. O personalismo político, que é sua mais profunda atuação, ganhará novos rumos, em tempos que, a sociedade estará, cada vez mais, sob a influência da comunicação de massas. “Parece que o Homem Cordial ainda respira, apesar de Sérgio Buarque ter encerrado a polêmica com Cassiano Ricardo dizendo, melancolicamente, que receava já ter gasto muita cera com esse pobre defunto". (NOVAIS, 1995)11 Já vimos acima que, no Brasil, o personalismo político se erigiu em bases históricas, seus elementos constitutivos se apresentam desde a colonização, dão base para formação da família patriarcal. E esta é quem estrutura os órgãos públicos e administrativos brasileiros, um organismo que, por isso mesmo, terá uma dimensão centralizada e autoritária. Essa dimensão, autoritária e centralizada, acompanhará todo o processo de consolidação do Estado no Brasil, na Colônia, Império e República. É essa a herança política que nos foi legada, sua presença pode ser reconhecida até nossos dias, no particularismo do sistema político brasileiro, substanciado pelo clientelismo12. No momento da proclamação da República, em 1889, é estruturada uma nova configuração no sistema político brasileiro. Entretanto a velha estrutura subsiste,

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NOVAIS, Fernando. De volta ao homem cordial. São Paulo, Folha de São Paulo, jornal de resenhas: Tendências e Debates, 1 de maio 1995, p. 2. 12 In: CARVALHO, Jose Murilo de. Mandonismo, coronelismo, Clientelismo: uma discussão conceitual. Pontes & Bordados: Escritos de História. BH. UFMG, 1999, p. 134. Usamos o conceito de clientelismo apresentado neste artigo, para se afastar das confusões que sugerem a literatura política. Então clientelismo está delimitado enquanto às “relações entre atores políticos, que envolve concessão de benefícios públicos, na forma de empregos, vantagens fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto”.

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permeando a nova reformulação, imbricada nas amarras do poder a herança patriarcal se adequou e se acomodou, contrariamente a uma realidade republicana democrática. Ao ser aplicado um regime político de extensa base representativa, o vício personalista da estrutura familiar patriarcal se alocou nesse novo cenário democrático republicano, e deu origem a uma forma específica de poder político brasileiro denominado coronelismo13. Suas raízes remontam ao Império, onde, nos municípios, já existia uma transmissão por herança dos nichos de poder. Essa transmissão não estava subordinada a uma orientação oficial, mas se dava de maneira informal. À proclamação da República, que perpassavam idéias liberais, tinha por interesse anular esse processo com a modificação do sistema eleitoral, mas o que surpreendeu foi a permanência dessa prática. Ao ampliar a base da antiga estrutura eleitoral, observou-se a permanência dos antigos chefes políticos, e estes continuaram a eleger, tanto para as Câmaras quanto para outros setores da administração pública, como o Senado e o governo dos Estados, seus parentes, aliados e seus protegidos. “O coronelismo seria uma forma de adaptação entre o poder privado e um regime político de extensa base representativa” (LEAL, 1978, p.20). O coronelismo não expressa, necessariamente, a exuberância do poder local privado, mas antes sim a confluência e o compromisso entre os poderes estaduais, dadas sua necessidade de votos, e o poder econômico privado que satisfaz a demanda, ou seja, ocorre uma troca mediada pelos interesses. Se por um lado o poder estadual anseia pelos votos ampliados, os chefes locais, detentores de um poder econômico decadente, anseiam pelas parcelas de poder que lhes garanta
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LEAL, Vitor Nunes. Coronelismo Enxada e voto. São Paulo, Alfa e Omega, 1976, p. 19

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sobrevivência. Assim o coronel pode controlar e nomear desde o delegado até a professora primária. As eleições no âmbito municipal e estadual não obedeciam a uma lógica real partidária, o que gerou a troca, de um lado o Estado que fornecia a política e do outro os coronéis que forneciam os votos de cabresto. A que se destacar os conflitos, fomentado pelas oposições locais, que às vezes se arrastavam nas manutenções vingativas, as disputas que se davam pelo fator personalista do coronelismo procuravam a concentração do poder para sua distribuição em uma ação patrimonialista e clientelística, por isso a necessidade da centralização do poder local em um coronel ou uma coligação de coronéis onde despontava uma figura prevalecente. Nas pendengas os coronéis governistas tinham a seu favor a estrutura da máquina do Estado. Esta situação conflituosa levava à fraude eleitoral escancarada, arquitetada entre os políticos e os coronéis governistas, da mesma forma entre as dissidências e as diversidades de oposições abafadas. A situação conflitante no seio do aparelho do Estado irrompia os dissidentes a buscarem apoio, momentaneamente, entre os coronéis não oficialistas14. O poder do coronel, que em momento anterior era quase sempre coronel da Guarda Nacional e por isso a nomenclatura coronel, é medido pela quantidade de votos que o chefe político, local ou regional, dispõe no momento da eleição.
[...] “a sociabilidade brasileira nasceu influenciada pela pirâmide familiar, tendo como fundamento a organização patriarcal, a fragmentação social, as lutas entre as famílias, as virtudes inativas e a Ética da aventura. Originalmente o caudilhismo e, posteriormente, o coronelismo, que implicava a existência de lideranças carismáticas, substituíam a racionalidade dos interesses individuais e estabeleciam a matriz sobre a qual a organização social e as fundações da política e do Estado foram delineadas. Com efeito, na medida em que as
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QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O Brasil Republicano. Estrutura de Poder e Economia (1889-1930). Tomo III, volume I, Rio de Janeiro, Difel, 1977. p.164. (Coleção História Geral da Civilização Brasileira).

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relações afetivas ou familiares precederam a constituição do espaço público, o poder público incorporou uma dimensão personalista em que o carismaonipotente e a dependência do homem comum geraram uma atitude instrumental em relação à política” (BOQUERO, 2001, p.3).

O fim do coronelismo é marcado pela revolução de 1930 e com a prisão dos coronéis baianos em 1932 , mas não de todo, no norte da Bahia ainda se encontravam formas da estrutura coronelistica em 195315. Pode-se dizer que o vício da estrutura patriarcal familiar vai se metamorfoseando e se ajustando à implantação de cada nova estrutura de poder, como se estivesse assente na estrutura social e impedisse a mudança através de uma adaptação. A centralização e a concentração de poder subsiste e vai se afirmando como a melhor forma de distribuição das parcelas do Estado. Assim é que o populismo surge como expressão do poder político nos anos de 1937 a 1945. O processo de democratização do Estado, as crises do liberalismo e da oligarquia se assentam no autoritarismo da ditadura do Estado Novo, entre 1937-1945 e, no autoritarismo paternalista ou carismático dos lideres de massas da democracia no pós- guerra, entre 1945-1964. É também a necessidade de novos grupos dominantes entrarem no jogo político, reclamando sua parcela, da mesma forma a explosão de classes populares e, por outro lado, a decadência política dos grupos dominantes urbanos interessados em substituir as antigas oligarquias. Isso produto da revolução de 1930 que gerou uma crise política e econômica e, através desta mesma crise, foi possível o desenvolvimento de um estilo de governo sensível às pressões populares e a evolução de uma política de massas manipuladora de suas vontades.

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QUEIROZ, 1977, p. 187

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É importante ter em mente que, nesse momento, o país caminhava para uma tentativa de desenvolvimento capitalista, sendo tradicionalmente agrário16. À

incorporação das massas ao desenvolvimento industrial urbano, também se fazia importante, sua inclusão no jogo político e, isso foi perceptível a setores dominantes. Essa percepção deveu-se ao crescimento das cidades e do proletariado, portanto a absorção desse contingente populacional é de extrema importância em um novo cenário político, onde as massas se tornam cada vez mais parte da vida política. Dessa maneira se dá a incorporação das classes populares urbanas na política brasileira, representam uma singular fonte social de poder para o governante e até mesmo se configuram em única força de legitimidade para o Estado. O árbitro será o chefe de Estado dentro de uma situação de compromisso, e as massas populares urbanas serão suas aliadas, porém o chefe de Estado irá controlar as aspirações e representações das massas nesse jogo. Como árbitro, é necessário fazer um jogo de equilíbrio onde suas ações políticas contrabalancem entre a menor resistência ou um maior apoio popular. Quase todos os chefes políticos, entre 1930 e 1964 irão se guiar por esse equilíbrio. Entretanto as políticas do Estado Novo, não se submeteu a nenhuma delas, mesmo dando resposta às pressões. O Estado de compromisso que é tanto um Estado de massas quanto a expressão de uma longa crise agrária, da dependência social dos grupos de classe média, da dependência social e econômica da burguesia industrial e da crescente pressão popular. A dependência das massas e sua debilidade como classe, sua fragmentação, são empecilhos para que assumam por si, enquanto classe, as responsabilidades do Estado, por isso recorrem a intermediários, chefes políticos, para
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WEFFORT, Francisco Correia, O populismo na política Brasileira. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1980. p. 61.

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estabelecerem alianças. Aí está a fragilidade do populismo, se por um lado sua eficácia, como liderança, depende da margem de compromisso entre os grupos dominantes e de sua habilidade de árbitro, por outro, sua manipulação personalista estará cerceada pela pressão das massas, advindas das cidades e da proletarização17. A identificação das massas com uma figura pública, não ocorre de maneira ,simplesmente, passiva. Na medida em que exista uma cultura da personalidade controlando a crença, a tendência é elegermos, ou nos contentarmos com candidatos que demonstram autocontrole, que tenham integridade e pareçam críveis. Essas personalidades recorrem a diversidades de interesses, no intuito de barganhar as intenções. Desse modo uma política de classe é enfraquecida, enfraquecendo a própria classe e em especial as novas que se formam18.
O ator público é enganosamente uma figura simples, na medida em que domina uma multidão de expectadores silenciosos. A personalidade pública domina de fato os expectadores silenciosos, em um sentido raso. Eles não mais exigem um “ponto” nem uma situação “dele”. Mas o termo “dominação” tem dois sentidos enganosos. Os expectadores silenciosos precisaram ver no ator público certos traços de sua personalidade, quer ele a possuísse ou não. (SENNETT, 1988, p. 244)

Portanto é importante que ocorra, em uma relação personalista, a identificação das massas com o líder, e essa identificação ocorre de maneira ilusória, a personalidade do chefe político reflete de maneira induzida os anseios e expectativas das massas, entretanto as massas se sentem correspondidas, na personalidade do líder. Esse é o momento que ocorre a manipulação consentida. No prisma político, a substância primordial no relacionamento entre o líder e as massas, é o reconhecimento da cidadania e de sua igualdade, pelo menos o necessário, na esfera institucional. Isso causa a identificação com o líder, dos
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Ibid., p. 67- 71 SENNETT, Richard. O declínio do homem público As tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 137

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contingentes com o homem público, chefe político representante do Estado integrante de outra classe. A permanência de estruturas remanescentes provoca o vício personalista e atravancam o processo democrático; os novos contingentes, na qualidade de massas e classes em formação, são capitaneados para o jogo político como força política de barganha. Onde as pressões que estas exercem tem importante impacto nas políticas e nas decisões.
Após a crise da hegemonia oligárquica, os novos grupos, não encontraram autonomia de ação frente às antigas formas de poder e propriedade. Ocorreu possibilidades de desenvolvimento de um projeto de mudança, aliado em certa medida, a projetos de desenvolvimento nacional e democratizante. Entretanto não foi possível desenvolvê-la de forma completa. Pela limitação interna de situações remanescentes. Esses novos grupos só lideraram o processo de mudança enquanto aproveitaram, para fins de sua classe, de uma dinâmica exterior a eles, no qual a pressão das massas era instrumento de extrema importância. (WEFFORT, 1980, p. 100)

É dentro dessa nova realidade política em formatação, que os novos contingentes, classes em formação, são alçados à esfera do universo político. Amoldados em uma realidade, onde participam do jogo político, porém sem intervenção direta, mas impulsionados pelos ditames de uma lógica de contrapeso político. Assim, mesmo após 1945, dentro de um ambiente eleitoral que é por excelência o campo da representatividade, não ocorreu a identificação do eleitor, e sua expressão enquanto corpo social alocado em uma classe. “Pelo contrário, na ausência de partidos eficientes, o sufrágio tende a transformar a relação política numa relação entre indivíduos” (WEFFORT, 1980, p. 20)
Trata-se, com efeito, de uma situação em que a expressão política é, no essencial, individualizada através do sufrágio, fenômeno que se associa a estas duas outras características da política brasileira, a hipertrofia dos executivos e o elevado grau de personalização do poder governamental. (WEFFORT, 1980, p. 21)

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Historicamente, a construção democrática baseada na participação política, não correspondeu satisfatoriamente devido a um direcionamento ideológico ou a um funcionamento comprometido dos aparelhos que possibilitariam essa construção. Os meios de comunicação são importantes exemplos disso. Os sistemas partidários, igualmente, não se constituíram em um aparelho que possibilitassem a participação e a mobilização política, tanto por sua fragilidade estrutural como por sua credibilidade. Nesse contexto, os pleitos eleitorais têm se caracterizado, ao longo do tempo, por apelos subjetivos, emocionais, personalistas e clientelísticos. A fragilidade dos sistemas partidários no Brasil, é resultado da não institucionalização da participação política no país, ou seja, não funciona uma interação participativa que esteja presente, e representado, todos os setores da sociedade. Como herança do interregno de 1930 a 1945, (acrescido dos resíduos de formação da estrutura de poder) em que a participação de novos grupos estava impedida devido à instalação de uma estrutura corporativa. Assim, no período entre 1945 a 1964 e após 1979, o sistema partidário foi institucionalizado de forma precária, portanto, para criar corpo teria que dominar parcelas de poder no interesse de repartir seus despojos entre sua clientela19. A estrutura centralizada do Estado no momento da formação do sistema partidário emperrou sua institucionalização, e dá substância à política clientelística. Segundo Souza (1976, p. 36), poderíamos observar que, ao contrário, quando o Estado proporciona condições para o estabelecimento de organismos partidários que ofereçam

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SOUSA, Maria do Carmo Carvalho Campello de. Estado e partidos políticos no Brasil (1930 a 1964). São Paulo: Alfa e Omega, 1976. p. 32.

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alternativas e projetos nacionais, o clientelismo perde espaço na condução e utilização dos recursos políticos. O interesse aqui é mostrar como o formato do organismo partidário, e o modo como foi erigido, tendo como base uma esteira clientelística de sobrevivência e o Estado centralizado, não permite uma institucionalização política, e de participação, verdadeira. Portanto o clientelismo funciona como sobrevivência do partido político, enquanto organização, pois se enquadra no esquema de controle sobre recursos públicos para uso político na geração de poder e, com isso se consolidar como instituição. Mas o fato de os partidos políticos se alimentarem e usá-lo, sistematicamente, para a produção e afirmação de poder, pode ser entendido como empecilho à institucionalização do sistema partidário na sua esfera total20.
Sem capacidade efetiva de participação na formulação de decisões de grande alcance social, e mais que isso, forçados a operar de uma maneira dispersa e mesmo deslegitimadora de seu papel como instituição política, o sistema de partidos não tem chances apreciáveis de se desenvolver: a estrutura centralizada de decisões confirma-se e se revigora em seu próprio funcionamento. O clientelismo, que a compatibiliza com o caráter formalmente democrático do sistema político, representa, assim, em sentido estrutural, a força e a fraqueza dos partidos. (SOUZA, 1976, p. 37)

O fenômeno do clientelismo é inflado por uma estrutura centralizada de poder, aumentando com isso seu controle e utilização dos recursos públicos, enquanto que o inverso, ou seja, a descentralização, proporcionaria uma melhor institucionalização do organismo e sistema partidário.
[...] Principal característica do sistema partidário brasileiro, seu baixo grau de institucionalização. Essa precariedade se expressa, por sua vez na circunstância de não serem os partidos, em conjunto e enquanto sistema, uma instituição governativa; ou, dizendo-o de outra maneira, na inexistência, no Brasil da norma de governo partidário, com alternância regular e legítima. (SOUZA, 1976, p.44)

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Ibid., p. 35-36

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A inexistência de uma norma de governo partidário, como está dito acima, provoca a intensificação centralizada em uma figura pública, como forma de arregimentação dos recursos públicos para a distribuição em uma rede de clientela. Portanto como a estrutura de poder emana do clientelismo, entretanto, no topo da pirâmide existe o personalismo que estrutura com malhas de ligação à base clientelística sua liderança, e essa base está atada à necessidade de um centro provedor. E aqui está um ponto importante do trabalho, entender a descaracterização do organismo partidário, e a emergência do personalismo na política, como efeito da amplitude, que teve no Brasil, do clientelismo amalgamado pela formação do Estado. A realidade política brasileira, que se assenta na prática das trocas de favores onde é promovida a repartição do espólio do Estado, não poderia prescindir de um elemento que congregue os interesses e satisfaça a distribuição. Com efeito, é de extrema importância que haja legitimidade, dentro de uma democracia, e a emersão de uma figura carismática, que tenha aceitação pública, que ativa a rede clientelística e é ativado por ela. A perpetuação do poder, está tanto na capacidade do político personalista se manter na mídia, ou melhor, se reinventar enquanto figura pública, como em atender e dialogar com a teia clientelística. Sua reinvenção pública está atrelada ao potencial que sua personalidade possa provocar como força de identificação com a massa de eleitores, notadamente uma identificação artificiosa. Em um cenário democrático onde não existe institucionalização da participação política e os partidos políticos funcionam como meras agremiações, a mídia desenvolveu-se como espaço, primordial, da competição política. Partindo dessa análise, a aquisição dos meios de comunicação é capital político de extrema importância, e se configuram em uma grande vantagem na arena de enfrentamento

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político, já que no mundo contemporâneo as recepções dos fatos políticos, temas e acontecimentos estão interligados ao emaranhado da comunicação de massas. A maior parte da sensibilização do público, no que se refere à política, encontra-se na informação midiatizada, dessa forma o poder político relacionado aos meios de comunicação, principalmente a mídia televisiva, intensificou-se em nossa época. “No Brasil, a pesquisa Cultura Política e Consolidação Democrática realizada pelo CEDEC/Data Folha/USP, verificou que “86% (1989) e 89% (1990) dos entrevistados declararam que tomam conhecimento sobre os acontecimentos políticos pela televisão” (LIMA, 1994, p. 12). E este é o cenário essencial da atuação personalista do ator público. Vemos então a necessidade dos políticos em adequar-se a uma nova realidade, em que as novas condições de competição política, vigentes na sociedade brasileira, pós-ditadura, se configuram e estão estruturadas pela comunicação midiática. A rede midiática começou a desenvolver-se durante o período da ditadura militar, sendo então orientada por uma subordinação da cultura e da comunicação ao capital, na forma de uma indústria cultural21. Essa particularidade de sua estruturação pode ser percebida como um sistema de mídias que, além de ser um corpo político com grande poder de intervenção e interesses próprios, produz um espaço constitutivo da nova luta política da atualidade brasileira. O processo de formação, desse novo cenário e espaço, apresentam dois quadros em separado. Em uma dimensão funcionam como incorporação de “substâncias não vividas”, ou seja, introduzem na cena política ocorrências que não se

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RUBIM, Antonio Albino Canelas. Democracia, cultura e comunicação. In: Cadernos do Ceas. Salvador, (100):56-62, novembro - dezembro de 1985.

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presenciam. Em outra é a própria montagem de um ambiente novo, no qual se trava a luta política. Dessa maneira, cria-se toda uma confluência de informações produzidas à distância, que incorrem na percepção não-presencial do homem contemporâneo, tecidas pelas redes midiáticas que ligam e relacionam o corpo social. É nesse novo campo de embate que acontece grande parte da disputa política, mediante o confronto dos imaginários, dos ideários e das imagens dos atores públicos. A personalidade aqui, é de extrema importância, pela capacidade que apresenta em aglutinar a percepção da imagem condensada e direcionada a partir dos ideários, centralizando a informação, nas possíveis identificações que, através da comunicação, possam causar nos variados grupos de interesse dos receptores. É a partir do processo, no qual se prolonga e manifestam em profundidade a importância política e econômica da mídia, que deve ser entendida a midiatização da sociedade contemporânea, sua extensão e ampliação de uma maior parcela territorial alcançada, bem como a predominância entre as mídias do veículo midiático televisivo. Desse modo, a mídia tem papel configurante na dinâmica da percepção do real, fortalecendo sua função de gerar mudanças nos padrões cognitivos e culturais, infligindo uma caracterização ambientada pela mídia na sociedade contemporânea. Se por um lado, a nova comunicação foi resultado do desenvolvimento econômico e tecnológico da sociedade capitalista, passa a atuar sobre ela configurando a sociedade contemporânea e sendo configurada por esta22. Outro conceito que procura entender as relações entre mídia, sociedade e política é o CR-P (Cenário de Representação da Política). O desenvolvimento deste

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RUBIM, Antonio Albino Canelas. Mídia e Política no Brasil, João Pessoa: Editora Universitária, 1999. passim

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conceito parte da idéia na qual a sociedade organiza um aparelho onde se constrói grupos de referenciais simbólicos, capaz de produzir representações que englobam toda a esfera da sociedade, como um sistema ordenado onde cada elemento possui uma posição, identidade e razão de ser, promovendo um determinado imaginário social23. A análise é posta em paralelo com o conceito de hegemonia de Gramsci, pois entende uma dinâmica na sociedade capaz de gerar, no interior desta, contestação à interpretação dominante. Dentro desta dinâmica, os sujeitos estão em constante produção de cenários e, onde os detentores do poder, por sua hegemonia, procuram afirmar-se mediante o conjunto de práticas e expectativas sobre a totalidade da vida que, interpenetram-se e superpõe-se. Essas ações acontecem nas disputas por hegemonia, no terreno político e na sociedade de um modo geral, transversalmente nos meios de comunicação, por ser um organismo moderno para essas manifestações. Mas as disputas ocorrem em todos os setores, onde se dão as relações da sociedade. Assim, à produção de idéias hegemônicas perpassam as transformações e construções da opinião pública dentro da sociedade, em uma confluência, mediante a divulgação por meio da mídia. O CR-P então se constrói em uma sociedade, intermediada, através dos medias, em que participam o Estado, a esfera pública, a sociedade civil e o próprio corpo midiático. Hegemonia é compreendida, como uma combinação de liderança ou direção moral, política e intelectual que exerce dominação na sociedade. Ocorre mediante o consentimento e mediante a coação, imposição e concessão, de classes ou entre blocos de classes. Concretiza-se de forma ativa, como vontade coletiva, ou de maneira

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LIMA, Venício. Televisão e poder: a hipótese do ‘cenário de representação da política’. Comunicação & Política, Rio de Janeiro, n.s., v1, numero 1, 1994. p. 5-22

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passiva, por meio de um apoio disperso ao grupo dominante. Constitui-se através do Estado e das diversas instituições da sociedade civil24. Ligado ao conceito de hegemonia está o conceito de Bloco Histórico, que seria um conjunto de fatores que articulam, hegemonicamente, baseada na estrutura e superestrutura da sociedade, sedimentada na cultura. Os fatores se articulam a partir de uma aliança de classes e frações de classes, porém, é só na conquista do poder de Estado que ocorre a consumação de um sistema social, forma-se então um bloco histórico.
O Bloco Histórico deve ser entendido como o ponto de partida de uma análise da maneira como um sistema de valores culturais (ideologia) impregna, penetra, socializa e integra um sistema social. Um sistema social só se integra quando se edifica um sistema hegemônico, dirigido por uma classe fundamental que confia a gestão aos intelectuais. Realisa-se aí um Bloco Histórico [...] Só esta concepção do Bloco Histórico permite captar, em realidade social, a unidade orgânica da estrutura e superestrutura. (PORTELLI, 1977, p. 43.)

É a partir da compreensão sobre hegemonia, referenciados por noções de recepção da informação no mundo contemporâneo, que entendemos o conceito de midiatização. A mídia, assim, pode ser mais bem entendida, como uma parte que integra o bloco de poder e não como uma instituição à parte, com característica política própria, diferente dos demais. Compreendido por instâncias do Estado, poder econômico e sociedade civil. Tanto no sentido hegemônico e contra hegemônico existe a ação, que é fundamental, das mediações culturais, sociais e políticas da sociedade tanto na recepção como na produção e reprodução das comunicações midiáticas. Entretanto, o grupo que está no controle do Estado ou a sociedade política, agrupa o conjunto das atividades da superestrutura que, estão relacionadas à função de coerção25. Nesse sentido, o uso autoritário do Estado, no mundo contemporâneo, é perceptível até mesmo por meio do papel ampliado que exerce, que não é somente de
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GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 10. 25 PORTELLI, Hugues. Gramsci e o Bloco Histórico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 33

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coerção, também é exercido como direção. E este uso, está atrelado à necessidade de se manter no poder de Estado, no controle do núcleo central da economia e na direção da mídia.
A articulação do bloco histórico permite, pois, distinguir metodologicamente duas esferas complexas: a estrutura socioeconômica e superestrutura ideológica e política, cujo vinculo orgânico é assegurado por uma camada social diferenciada, os intelectuais. O papel essencial dessa camada aparece na análise dinâmica do bloco histórico, particularmente no exercício da hegemonia. (PORTELLI, 1977, p. 71)

Neste contexto, as comunicações de massas tornam-se palco central do cenário político, importante instrumento de perpetuação de poder na luta por hegemonia, alocada na superestrutura, na esfera cultural. O obstáculo com o qual os atores do mundo da política provavelmente se deparam, passa a ser: como gerenciar e projetar sua imagem pública. Um ambiente novo para a potencialização do personalismo.

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2- Uma crônica baiana: “O Palácio de Ondina”

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Marchons, marchons! Qu’un sang impur abreuve nos sillons! La Marseillaise

É bastante claro entrever no discurso de Antonio Carlos Magalhães (que será referido a partir de agora por ACM), seu personalismo e sua truculência, bem como, o interesse que demonstra em chamar para si o topo de uma cadeia hierárquica de poder, e a identificação com uma “baianidade”, identidade pretensiosa com o intuito de o relacionar ao conjunto da sociedade estadual, fonte e base de sua força política. “Eu me julgo poderoso pelo prestigio que tenho na Bahia. Eu me julgo poderoso pelo que sou, pelos amigos que tenho na bancada baiana. Temos uma bancada de 24 deputados federais de amigos meus, muitos deles eleitos com meu apoio [...] o baiano é um povo cordial[...]” (MAGALHÃES, 1995, p.150 e 192)26 Para se compreender o desenvolvimento da figura pública de ACM é preciso fazer uma incursão na sua trajetória política, onde serão destacados alguns pontos necessários para a análise do seu personalismo na política baiana. A introdução de ACM na esfera política ocorre, oficialmente, em 1954 quando é eleito deputado estadual pela UDN, torna-se-á em seguida líder da banca udenista. É importante salientar que a UDN como o PSD e PTB eram partidos organizados de cima para baixo, obedeciam a uma lógica de organização que impedem a institucionalização da participação política. Mas sua emergência política já se costurava nos anos de 1940, além de ter acompanhado os debates na câmara federal, no Rio de Janeiro, procurou angariar

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MAGALHÃES, Antonio Carlos. Política é paixão (entrevista). Rio de Janeiro: Revan, 1995. Entrevista concedida aos jornalistas Ancelmo Góis, Marcelo pontes, Mauricio Dias, Miriam Leitão e Rui Xavier em janeiro de 1995.

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relações de amizades de resultados27 com personalidades de destaque na política baiana, como Juracy Magalhães e Odorico Tavares. Este ultimo, influente, pois dirigia na Bahia, a rede dos Diários Associados; Odorico Tavares adicionou ACM como “foca” no jornal Estado da Bahia, jornal de propriedade da Rede, lá foi promovido à repórterauxiliar; depois, repórter e redator. A posição estratégica no jornal lhe permitiu acompanhar, e travar conhecimento, com os destaques da política e da sociedade local. Ao mesmo tempo recebeu a nomeação para o cargo de redator, na Assembléia Legislativa da Bahia, onde intensificou suas aproximações, tanto com políticos quanto com a prática política. Já nesse momento ensaiava sua liderança, incisiva de tipo mandonista: ”Mesmo sem ser deputado, eu comandava a bancada da UDN. Tinha mais prestígio que muitos deputados. Saía com eles para almoçar, para jantar combinava tudo com eles antes das sessões, dizia “façam isso, façam aquilo” (Magalhães, 1995, p. 55) A experiência como jornalista proporcionou uma apurada sensibilidade em relação à importância da comunicação e, ao papel da mídia na sociedade que vai se modernizando. Tão importante que o fará, futuramente, montar sua própria rede de comunicação, a Rede Bahia. Essa percepção, o “faro” jornalístico para a importância da notícia como veículo da imagem, é descrita no comentário do jornalista Marcos Sá Corrêa: “[...] ACM é de longe, o político brasileiro que melhor trafica com a moeda de mais alta cotação nesse mercado, a única universalmente valida para comprar espaço na imprensa ano após ano, regime após regime. Essa moeda é a notícia” (Magalhães,
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A idéia de amizade de resultados é trabalhada como uma percepção, em que se identifica quem detenha o poder e sua rede hierarquizada, para cooptá-los agregando a uma rede personalizada de relações, como forma “relacional” da pratica política: em ALMEIDA, Gilberto Wildberger de. Política e Mídia na Bahia: com ênfase na trajetória de Antonio Carlos Magalhães. Salvador: FACOM/UFBA, 2000. P. 67. Essa análise é relacionada à interpretação de malandragem em, MATTA, Roberto da. Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1979. Aqui, em consonância a essa relação, sugiro como uma evolução do homem cordial.

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1995, p. 16). Em outro momento, em um comentário sobre a fotografia publicada no Diário Oficial de 24 de janeiro de 1975, na qual ACM está junto a Dodô e Osmar, Góes (1982, p. 82) assinala “[...] Antonio Carlos Magalhães não costuma perder oportunidade em nada que tenha repercussão junto ao grande público” A partir de amizades de resultados, ACM obteve o apadrinhamento de Juracy Magalhães e este lhe transferiu parte de seu capital político, não obstante sua eleição em 1954 só foi possível por intermédio dessa associação. Entre os anos 1930 a 1940, o deputado Magalhães Neto, pai de ACM, travou conhecimento com Juracy Magalhães e com este desenvolveu vigorosa amizade. Parte desse capital político já é resultado de repasse, em outras palavras, é transferência de capital simbólico, por parte de Magalhães Neto. Capitais simbólicos, que resultam em capital político, compreendem uma série de conexões que envolvem: rede de relações pessoais sedimentadas no Estado, em especial pessoas que atuam no organismo de governo ocupando posições estratégicas; rede de relações com grupos de pessoas que possam capitanear votos em diversas regiões do território estadual; promoção da imagem, capaz de ser revertida em votos, através de um reflexo positivo dentro da sociedade28. Juracy Magalhães aportou na Bahia com a revolução de 1930, como interventor no Estado, contrariando os interesses da oligarquia local, lideradas por figuras tradicionais da oligarquia baiana como J.J. Seabra, Simões Filho, Pedro Lago, Góes Calmon e Otávio Mangabeira. A oligarquia baiana desencadeou oposição ao interventor, diante do temor em que se viram tomados, pois havia a possibilidade de modificação da ordem estabelecida, que representava o atraso, o provincianismo, em
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BOURDIEU, Pierre. A economia das Trocas Simbólicas. São Paulo, Perspectiva – Novos Estudos, 1974. passim

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suma era a razão de ser e viver destas elites e não o fato de Juracy ter vindo de fora, haja vista ter ele sua origem no Ceará. Formaram, por isso, o Partido Autonomista contra a intervenção “estrangeira”. O interventor então ensaiou um “retorno a Republica Velha”, logo percebeu que não encontraria apoio político na oligarquia local, teve também a perspicácia de encontrar na oligarquia rural a tradicional vocação de apoiar quem tem ou está no poder, foi criar base política no interior procurando o médico do lugar, o advogado, enfim a pessoa que liderava a política municipal para em torno dela arregimentar uma maioria29. Como resultado, ocorreu um desaguar de apoio de todos os cantos do estado, que foi inundar o palácio do Governo. “Em cada município, duas ou mais facções disputavam as simpatias do interventor, posto que só ele poderia conceder novos favores e garantir aqueles concedidos em governos anteriores” (SAMPAIO, 1992, p. 90) Desse modo, a oligarquia rural se posicionou ao lado do interventor, e não se aliou à oligarquia urbana na luta contra a “intervenção estrangeira”. Portanto a Bahia permaneceu a mesma da primeira república, pobre e sem perspectiva. Dentro desse molde a política funciona como um projeto pessoal, e sua realização está em apoiar quem poderia garantir favores concedidos e proporcionar novos benefícios. Juracy dividiu o estado em amplas coligações municipais, para melhor administrar o apoio recebido. Encabeçavam essas coligações, chefes políticos tradicionais locais como o coronel Franklin Lins de Albuquerque do município de Pilão Arcado, que representava a coligação sertaneja, instalada em janeiro de 1933 em Juazeiro, com vinte municípios agregados. Outra coligação encabeçada pelo engenheiro José Jatobá, prefeito da

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MAGALHAES, Juracy. Minhas memórias provisórias. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1981, P. 80. (Depoimento prestado ao CPDOC).

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cidade Senhor do Bonfim, denominada Aliança Social e Política Municipal acumulou dez municípios. Para a manutenção desse apoio, o interventor permitiu a autonomia dos chefes locais em seus municípios. Com isso, pôde realizar a convenção, em janeiro de 1933, que criou o PSD (Partido Social Democrático) com a presença de representantes dos 151 municípios, que reuniu 346 delegados. A composição da mesa diretora teve em seus quadros, membros do regime deposto pela revolução de 1930, do mesmo modo o diretório do PSD. Para a Assembléia Constituinte de 1933, através da tática aplicada, Juracy conseguiu eleger 22 deputados do PSD e a oposição, apenas 2 deputados. A mesma tática será usada por ACM quando foi alçado ao governo do Estado em 1971, quando introduziu um novo modelo de gestão, instalou o organismo administrativo do Estado nas sedes das micro regiões, por um período de uma semana. Logo após publicar seu plano de governo, em maio de 1971, o governador transladouse, juntamente com todo o corpo do secretariado, para à micro região do sul do Estado de onde governou por uma semana o Estado da Bahia. Além da visibilidade promovida pela presença do governador nas micro regiões, a ação do deslocamento do secretariado permitiu a solução, quase imediata, de pequenos problemas locais. Aproximava os políticos locais aos membros da administração e à própria figura do governador, cooptando os políticos de diversas facções numa aliança governamental, tendo em vista a teia clientelística carente de recursos e auxílio do governo, além do caráter desses políticos de se ligarem ao centro provedor do poder capaz de sanar suas necessidades. Nem todos os municípios sede de micro regiões receberam a comitiva governamental com seu aparato administrativo, mas a grande maioria recepcionou a comitiva e, de modo geral, a proximidade dentro das regiões permitiu a

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integração das lideranças políticas, que não receberam a administração, junto ao governador. A estratégia resultou em grandes dividendos políticos, pois, por mais que a comitiva não tenha realizado grandes obras no interior, a presença do Governo nas micro regiões agregou apoio suficiente para as conquistas políticas, que foram consumadas nas eleições municipais de 1972 e para o parlamento em 1974. Com a estratégia, ACM promoveu sua imagem no interior do Estado e fortaleceu-a em Salvador na capital baiana, ao dar início à implantação, inicial, de um projeto turístico/cultural. Angariou a fidelidade de políticos mediante a assistência e o favorecimento governamental, intensificou, com isso, sua liderança no Estado. Já vimos que o apadrinhamento de ACM por parte de Juracy Magalhães foi sua principal alavanca política em 1954, o mesmo aconteceu em 1962 quando é reeleito deputado para a Câmara Federal. Sua projeção nacional aconteceu, ainda em 1959, quando coordenou a campanha de Juracy à Presidência, durante a convenção nacional da UDN. Juracy Magalhães era então governador da Bahia, e continuou sendo na gestão de 1958 a 1962. Como deputado federal ACM começou a pretender a liderança da UDN, e para tanto articulou com as principais lideranças udenistas, conseguindo em 1963 a liderança da UDN no Congresso Nacional. É nesse momento que se dá, sua aproximação com lideranças favoráveis a setores militares interessados em impedir o governo de João Goulart. À frente da bancada udenista ACM articula-se com a chamada Banda de Musica da UDN, em que figuravam parlamentares oposicionistas, contrários ao governo constitucional de Jango, e se torna porta voz da UDN

pronunciando discursos ácidos contra o governo. Quando o jornalista Marcelo Pontes perguntou se ACM tinha conspirado em 64, respondeu: “Eu não fui conspirador. O que fiz mais foram discursos na Câmara.” (MAGALHÃES, 1995, p. 102); mas diferente em

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outra resposta, a partir da pergunta do jornalista Maurício Dias, se realmente tinha conspirado, como afirmava em uma entrevista anterior “Conspirei mesmo”; ACM confirmou mas de maneira mais branda: “Com pessoas de menor calibre: militares baianos, coronéis” (Magalhães, 1995, p. 210). Mas ainda é Juracy Magalhães o elemento chave na conexão entre os políticos baianos e os militares, após a queda do governo João Goulart em 1964, pois Juracy advindo das linhas militares desde a revolução de 1930, tinha livre acesso à cúpula militar antes e depois do golpe de 1964. Dentro do novo governo foi embaixador nos Estados Unidos, Ministro da Justiça e das Relações Internacionais. Com efeito, o relacionamento de Juracy com o alto círculo militar foi imprescindível para os políticos baianos como ACM e Luiz Viana Filho; este último por intermédio do próprio Juracy foi convidado para compor o ministério do primeiro Governo Militar, onde foi Ministro Chefe da Casa Civil. ACM procurou estreitar seu relacionamento com Luiz Viana Filho em busca de consolidar suas relações de interesse, tanto com civis e militares, agora dentro dos altos círculos do poder federal a fim de acumular capital simbólico para promover sua ascensão ao governo da Bahia. No governo de Castelo Branco, como liderança da UDN nacional, e por mediação de Luiz Viana, ACM se aproximou dos chamados Ministros da Casa de Castelo que correspondiam ao General Ernesto Geisel, Chefe da Casa Militar, e o General Golbery do Couto e Silva, Chefe do SNI, intensificando seu relacionamento com os militares dentro da alta cúpula do poder. A promulgação do Ato Institucional n° 2, em 1966, que reformulou o sistema partidário e eletivo brasileiro com o estabelecimento do bipartidarismo, criou o MDB partido de oposição ao governo e a ARENA, de sustentação ao governo. A eleição para Presidente e Vice-presidente da Republica passa a ser feita de modo indireto, no

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colégio eleitoral, por membros do Congresso em votação aberta sem o voto secreto. ACM se tornou presidente regional da Arena baiana, como já o era da UDN, representando desse modo os interesses das classes conservadoras baianas, elemento principal de sua sustentação política. Ainda em 1966 foi editado o AI-3, com referência às eleições de governadores, prefeito de capitais e determinados municípios considerados estratégicos, dava a esses pleitos a mesma consideração que às eleições presidenciais, ou seja eleições indiretas em que figuravam como principais eleitores o Presidente da Republica, o chefe do SNI, os presidentes nacionais e regionais da ARENA e outros poucos políticos e Ministros. É nesse contexto que se efetivou a ascensão e o escalamento dos políticos ligados ao regime militar, como por exemplo, Luis Viana que articulou para si o governo do Estado da Bahia e ACM que foi indicado para a prefeitura de Salvador. ACM logrou êxito com sua política de amizade de resultados para o acumulo de capital simbólico, por meio de relações cultivadas desde 1964, agora como prefeito de Salvador tratou de costurar sua escalada ao governo do Estado para assegurar a hegemonia como liderança na política baiana. Assumiu a prefeitura em 13 de fevereiro de 1967, seu primeiro cargo executivo, mas manteve a coordenação política da ARENA baiana com a intenção de manter as relações com os políticos arenistas do interior da Bahia. Respaldado pelas classes conservadoras, era representante e identificado a elas, que correspondiam aos proprietários de terras do interior, profissionais liberais conservadores a comerciantes urbanos de Salvador. Suas principais metas administrativas anunciadas, eram aumentar a arrecadação, melhorar os serviços de limpeza e modernizar o sistema viário. Aumentou a arrecadação em 27%, intensificou a fiscalização e a limpeza urbana, abriu avenidas e melhorou a elaboração da festa do carnaval. O prefeito também

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removeu favelas da orla marítima, invasões de bairros como Bico de Ferro e Ondina foram removidas para extremos da cidade, quase sempre em ações violentas, com estas ações ACM obteve visibilidade nos altos circulo militares. É nesse período que ACM começou a demonstrar irritação com as criticas veiculadas na imprensa, sobretudo contra o Jornal da Bahia. Quando foi governador fez perseguição cerrada ao jornal quase o levando à falência, através da intimidação aos anunciantes e à proibição de propaganda oficial no Jornal da Bahia; o que resultou em luta acirrada na qual figurava como defensor do Jornal da Bahia, seu editor chefe, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes.30Já dava mostra da preocupação com sua imagem veiculada na imprensa, perseguindo aqueles que não apresentavam uma figura positiva de sua imagem. O caso da perseguição ao Jornal da Bahia teve repercussão na imprensa nacional, ocorrendo manifestações de organismos internacionais e nacionais como a Associação Brasileira de Imprensa e a Comissão de Liberdade de Imprensa da Associação Interamericana de Imprensa. O prefeito, depois governador, não se intimidou e ademais, aumentou a pressão sobre os anunciantes, na verdade o fato lhe deu visibilidade nacional, mesmo que de maneira negativa. A sucessão para o governo baiano em 1970 foi um importante marco na carreira de ACM, e aciona o momento fundamental na guinada para sua ascensão à liderança estadual. Sob o governo Médici, a política partidária foi confiada ao Chefe da Casa Civil, João Leitão de Abreu, a ordem era conter a oposição e assegurar a vitória do partido do governo. Como coordenador da ARENA baiana, ACM procurou garantir, dentro da Bahia, a eleição de maioria arenista nas eleições parlamentares de novembro

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Uma abordagem mais completa sobre a perseguição ao Jornal da Bahia, ver: GOMES, João Carlos Teixeira. Memórias das Trevas: uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães. São Paulo: Geração Editorial, 2001.

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de 1970 ao lado de Luis Viana. Com isso conseguiu a indicação para a eleição indireta de governador, apoiado por Luis Viana, que foi indicado para senador nas eleições de 1974. Havia em 1970, a previsão de crescente demanda por produtos plásticos, (e de fato de 1979 a 1996, a demanda cresceu a taxas superiores ao PIB brasileiro), era então de extrema importância que o país investisse na produção interna de insumos básicos para essa indústria, pois a demanda incorria em aumento das importações desses produtos, causando pressões na balança de pagamentos. Foi então que a Bahia se tornou forte candidata à instalação de um pólo petroquímico, para suprir a demanda, que futuramente seria instalada em Camaçari. Na década de 1960 o governo brasileiro deu inicio a implantação do projeto que previa a instalação do setor petroquímico, erigido em uma base tripartite; ou seja, investimentos de capital privado nacional, formado por um grupo capitalista; capital estrangeiro na forma de capital tecnológico e o capital público, financiado pelo governo federal. É de caráter do setor, na implantação da planta do projeto, uma estrutura de pólo, pois o escoamento das matérias primas, que são gases, é feita de maneira mais prática e simples através de dutos; por isso as empresas se instalam em conglomerados, divididos por tríplice relação. As empresas de primeira geração capitaneiam os insumos iniciais da indústria de petróleo e os transformam em matérias primas, insumos básicos das indústrias; chamadas de centrais petroquímicas e por logística localizam-se perto de suas fontes de insumos primeiros, compreendidos por refinarias de petróleo e campos de produção de gás natural. As de segunda geração recebem os petroquímicos básicos e os transformam em insumos básicos que, serão utilizados por outras empresas de segunda geração na produção de resinas plásticas. As de terceira geração

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compreendem as demais empresas abaixo dessa cadeia, que geram produtos plásticos e satisfazem a demanda. O projeto, estabelecia planos para a implantação de três pólos, a fim de atender a demanda no país de forma regional, o pólo de São Paulo, em Capuava e posteriores Camaçari e Triunfo no Rio Grande do Sul; a Petrobrás Química S.A. participou como acionista na maior parte das grandes empresas. Entretanto existia uma forte corrente no país contrária aos investimentos estatais do setor petroquímico em solo baiano, a argumentação, contrária à instalação, dizia respeito à localização, segundo esta a indústria deveria estar localizada próximo ao maior mercado consumidor, portanto no estado de São Paulo. Ainda segundo esta corrente, a implantação da petroquímica na Bahia aumentaria os custos de transportes, e determinariam maiores investimentos em infra-estrutura. O modelo tripartite foi acionado pela primeira vez na Petroquímica União, através do Estado, de um grupo capitalista nacional e outro internacional. Como foi o primeiro a ser implantado, incorporou empresas já existentes localizadas em Santo André e Cubatão, “assim fazem parte desse pólo empresas fisicamente distantes da petroquímica31”; essa planta difere dos futuros projetos, pois a implantação de uma nova planta sempre tem capacidade maior que as anteriores, haja vista o planejamento visando a crescente demanda. Tanto o governador Luis Viana e o prefeito, durante o ano de 1970, intensificaram as conversações nos gabinetes de Brasília, para garantir a implantação da petroquímica em Camaçari. Entretanto as transformações havidas em salvador, a implementação de uma administração consistente no Estado, as conquistas políticas
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NAKANO, Davi. Relatório Setorial final. FINEP – Rede DPP. 2006, p. 06. Disponível em : < http://www.finep.gov.br/PortalDPP/relatorio_setorial_final/relatorio_setorial_final_impressao.asp?lst_setor=29>

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industriais, foram barganhadas desde a gestão de Luis Viana em 1967, ele implantou a Secretaria da Educação e o CEPED centro de desenvolvimento tecnológico, que desenvolveria tecnologia para o apoio das empresas do pólo. Luis Viana foi também responsável pela implantação do Centro industrial de Aratu e todo o tramite para a instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari. Rômulo Almeida teve também papel importante como principal idealizador para a industrialização baiana junto aos empresários e à burocracia Estatal Federal, e foi estigmatizado e neutralizado político e profissionalmente a partir do primeiro governo ACM32. Juracy Magalhães, ligado ao grupo paulista Petroquímica União, fazia lobby em Brasília para centralizar os investimentos federais em São Paulo. Posto que, a distância entre os pólos não cria competitividade entre as três grandes empresas de primeira geração, uma vez que a distância provocam fidelidade de seus clientes, empresas de segunda e terceira geração; porém essa mesma fidelidade ocasiona uma atrofia, se seus clientes perderem mercado as empresas de primeira geração estão impedidas de criar novos clientes. Evidentemente, que Juracy estava representando os interesses do grupo União do qual fazia parte no Conselho de Administração. Agora um fato curioso é que a balança de pagamentos pendeu contra o favor brasileiro, e tem contribuído substancialmente para o déficit comercial, chegando a 12%, em 1983, do total de importações. Isso se deve à divisão internacional do trabalho; de maneira crescente é estabelecidas relações de troca e fornecimento entre alguns países produtores. Assim os países europeus transferiram a produção de produtos menos diferenciados para países em desenvolvimento e os produtos diferenciados se concentram na Europa e E.U.A. Em momento recente o setor vem
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Ver: FILHO, Luis Viana, 1984.

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sofrendo processo de reestruturação, e perde um de seus principais tripés, com as privatizações que vem ocorrendo no setor; A Petroquisa (Petrobrás Química S.A.) em uma de suas ultimas ações, vendeu sua participação na COPENE, a matriz baiana de matérias primas:
O impacto do ajuste estrutural sobre o emprego na petroquímica baiana são refletidos nos seguintes números.33 Em março de 1991, havia 8.081 pessoas trabalhando no conjunto de doze empresas de Camaçari, sendo que, deste total, 6.756 eram empregados diretamente (pessoal próprio) e 1.325 eram terceirizados, com vínculo empregatício com firmas prestadoras de serviços. Já em dezembro de 1997, havia um total de 5.180 empregados, sendo 3.285 pessoal próprio e 1.895 terceirizados. No ano seguinte, o número de empregados decresceu ainda mais, atingindo 4.085. Porém, houve uma redução maior entre os terceirizados, que somavam 840, do que de pessoal próprio, que atingiu 3.245, evidenciando uma mudança na política de pessoal das empresas. Houve, portanto, de 91 a 98, uma redução de 3.996 postos de trabalho, significando 49,5% do total. Quanto ao percentual de terceirizados, ele passou de 16,3%, em 1991, para 36,5% da força de trabalho, em 1997, diminuindo para 20,5%, em 1998.34

A indústria química tem importância econômica significativa, representa cerca de 3% do PIB brasileiro, a maioria de seu controle está sobre mãos de capital privado nacional, isso é representativo pois é a maior concentração do setor industrial; mesmo alocado em capital privado responde à lógica da divisão internacional do trabalho. A industria petroquímica representa, isoladamente, a maior parcela do setor químico. Na Bahia, o Pólo de Camaçari confirma esses dados, localizado no recôncavo baiano, no momento se posiciona como a principal atividade econômica do Estado da Bahia. Com a instalação da Indústria petroquímica, entre 1974 e 1989 foram
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Os dados referentes ao Pólo Petroquímico de Camaçari provêm de uma base de dados, mantida pelo Sindicato da Indústria Química e Petroquímica do estado da Bahia - Sinper, formada por 12 empresas, que representam cerca de 80% do faturamento desse Complexo. Essa base possui uma forte dose de precisão, uma vez que os dados são recolhidos diretamente pelo sindicato patronal junto às empresas. Por esse motivo, além da alta representatividade da amostra, não só em termos da Bahia mas de toda indústria petroquímica brasileira (Camaçari concentra quase 50% da produção de petroquímicos brasileira), optou-se por utilizá-la nesse trabalho. – C.f. MAGALGÃES, Francisco Teixeira Camille, da Produtividade e a Reestruturação Produtiva na Petroquímica Brasileira Conceito de Competitividade e sua Relação com o Crescimento. 2000, p. 10, nota de rodapé. disponível em: <http://www.adm.ufba.br/teixeira/apostila/ANPEC2000.doc>. Acessado em: 11de novembro de 2006. 34 Ibidem. p. 10.

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desaguados investimentos no montante de US$ 6 bilhões; todo o conglomerado empresarial representa 16% do PIB baiano e contribui com 25% da arrecadação de ICMS do estado. O impacto na economia do estado é evidente, definitiva industrialização com implicações sociais, alicerçou a classe média composta por prestadores de serviço, técnicos e gerentes. Em 2001, em associação com o Grupo Mariani, a Odebrech adquiriu o controle da Copene Petroquímica do Nordeste S.A.; a central de matérias prímas do pólo de Camaçari, a integração envolveu seis empresas que deu forma a Braskem, criada em 16 de agosto de 2002, o que fez da Odebrech o maior grupo petroquímico da América Latina. A manobra de Juracy, aliado ao Grupo União, promoveu uma acirrada querela entre este e ACM, mas é claro que também estava em jogo a disputa pela liderança da ARENA baiana no interior do estado. Por essa época ACM já havia cooptado, da corrente juracisista, apoio e votos no interior. Ao assumir o governo do Estado baiano tornou público o desligamento, apoiado por Leitão de Abreu que, confirmou a implantação da petroquímica em Camaçari já em 1970, por intermédio do ministro Delfim Neto. Na Bahia ACM denunciou as ligações de Juracy com as empresas contrarias a instalação da petroquímica em Camaçari, além de exigir a desvinculação de deputados e prefeitos ligados ao ex-governador, passou a determinar a submissão destes à sua liderança. A consolidação do poder do novo governador, se constrói a partir de sua ruptura com a figura que o alçou na política, suplantando-o. Permitiu a ACM associar e projetar sua imagem à identidade baiana, como defensor dos interesses da Bahia. Quando assumiu o governo do Estado em 1971, havia três figuras de destaque na ARENA baiana; Luis Viana Filho, que deixava o governo e com isso parte de sua força

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política; Lomanto Júnior ex-governador já sem muita expressão na política baiana e Juracy Magalhães, cujo envolvimento com a Petroquímica União e as constantes denúncias do novo governador, vai se isolando cada vez mais no cenário político. O nome de Luis Viana ainda estava ligado à conquista da petroquímica e isto lhe garantia prestígio na política estadual, ACM procurou minimizar essa ligação abafando sua repercussão, buscou não abordar publicamente o assunto a fim de não o relacionar ao ex-governador. O distanciamento entre os dois políticos era propício, para o governador era o momento decisivo para se despontar como única liderança e apagar a figura de Luis Viana dissociado-o da petroquímica. Assim a implantação do pólo petroquímico de Camaçari foi um projeto de extrema importância, e ao qual ACM se empenhou profundamente, dando seguimento ao projeto em sua gestão. Através desse projeto estreitou laços com o presidente da Petrobrás, na época o General Ernesto Geisel e com o presidente da Dow Química do Brasil General Golbery. Sem dúvida a implantação da petroquímica foi de grande importância para a economia baiana e para a estratégia carlista, representava uma soma vultosa de investimentos públicos e privados, além de atrair outras empresas ligadas ao setor. A ascensão e a consolidação de ACM e o desenvolvimento do carlismo, está intrincado ao momento político ditatorial, em uma nova realidade caracterizada pelo funcionamento protocolar do sistema político, submetido agora ao poder militar. ACM manteve laços privilegiados com essa nova fonte de poder, graças a esses relacionamentos, construídos antes da articulação do golpe, pode escolher cargos estratégicos como a prefeitura de Salvador (1967-1970), o governo do estado baiano (1971-1975 e 1979-1983), entre o período dos dois governos presidiu a Eletrobrás (1975-1979). A estratégia permitiu o desenvolvimento e solidificação do carlismo, como

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expressão política, através da disputa com outras correntes políticas baianas conservadoras, como o vianismo e o juracisismo. Ao final do regime, a política no estado da Bahia se encontrava majoritariamente dominada pelo carlismo. ACM acumulou poder ao se aproximar do poder central durante o regime militar, e por isso recebeu apoio dos políticos do interior e os da capital. Impôs-se aos demais como única liderança política, a oligarquia baiana se identificou com o governo estadual e este com o governo central. Assim o poder local estava resguardado pelo poder central, mormente o apoio do regime militar aos chefes locais na razão direta de sua fidelidade e sua capacidade de garantir votos para o partido do governo. A aprovação no congresso de uma nova Lei Orgânica dos Partidos em 1979, extingue a ARENA e o MDB, ou seja o bipartidarismo, estes são reorganizados respectivamente como PDS e PMDB. A hegemonia construída por ACM ao longo dos anos de 1970 na ARENA, fazia do carlismo a corrente predominante dentro do PDS baiano. Nas eleições de 1982 conseguiu eleger para o governo estadual, o ex-prefeito de Feira de Santana, João Durval, escolheu a maioria do seu secretariado, inclusive passou a controlar o novo governador e continuou a comandar o PDS a partir de um escritório do novo edifício do Desembanco em Salvador. Esta gestão causou um desgaste na liderança de ACM, pois era evidente a sujeição do governador a seu chefe político, e o caso acabou de domínio público. O primeiro a romper com ACM foi Nilo Coelho, prefeito de Guanambi, seguindo-se a este, mais tardiamente, Jutahy Magalhães, filho de Juracy, e Luis Viana Filho que se mantiveram no PDS e votaram em Maluf em 1985, na indicação para concorrer à sucessão presidencial. Todo esse rearranjo de forças nos quadros políticos baianos, sobretudo no PDS, aliado à

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campanha das diretas, permitiu a composição de forças da oposição para a eleição de Waldir Pires ao governo da Bahia em 1986. Na convenção do PDS, ocorrida em 1984, Maluf venceu a indicação do partido para disputar a sucessão presidencial no colégio eleitoral, após o interregno de Figueiredo, derrotando Mario Andreazza. Contudo diante da vitória malufista houve deserções nos quadros do partido do governo, os primeiros foram Sarney, Marco Maciel e Jorge Bornhauser, que formavam a Frente Liberal dentro do PDS. Ao saírem do partido governista, formaram o Partido da Frente Liberal (PFL). A adesão de ACM ao novo partido era iminente, pois como um dos principais articuladores da candidatura Andreazza se posicionara contra Maluf, principalmente após o episódio em que prefeitos baianos do PDS aceitaram ambulâncias do assistencialismo malufista, este já com interesse eleitoreiro. Em seguida ao ocorrido teceu duras críticas ao governador paulista pela invasão na política estadual baiana. Novamente lograva êxito político, em 1984 percebeu o fim do regime militar, controlava 22 votos no colégio eleitoral e poderia os arrastar consigo para o PFL, o que realmente aconteceu após seu

“desentendimento” com o Ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos, em 4 de setembro de 1984; o Brigadeiro o chamou de traidor e ACM respondeu: “Que traidor era o ministro que apoiava um corrupto como Maluf”.35 (o fato teve ampla cobertura e repercussão midiática; a revista Veja chegou mesmo a sugerir, que era a primeira vez, em 20 anos, que um civil levantava a voz contra um militar). O apoio a Tancredo Neves no colégio eleitoral arrastando a bancada baiana, lhe rendeu um ministério na futura Nova República. Desse modo manteve-se no poder, se por um lado sua ascensão política se deve ao apoio à ditadura, agora se inscreve em um governo
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MAGALHÃES, 1995, p. 118. (nota de rodapé)

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que se pretende democrático. Mas um “democrático” entendido por fisiologismo, sempre fiel à estratégia de ser governo. E de fato quando ACM foi perguntado se Tancredo acreditava nas “Diretas Já” ele respondeu: “O Tancredo nunca acreditou nas diretas [...]” (Magalhães, 1995, p. 115). A fim de compreender a atuação que ACM vem tendo nos partidos, desde a UDN até o atual PFL, a partir de sua visão sobre os organismos partidários, procuramos analisar sua entrevista tomada em 1995. A conclusão é que por vezes ele se torna contraditório ao tratar do assunto, não declara um conhecimento teórico sobre o assunto, e de maneira geral sua análise sobre os partidos faz referência a uma relação personalista e hierarquizada, prioriza um suposto “objetivo” em detrimento de projetos e debate de idéias necessário à democracia e ao desenvolvimento partidário. Ao ser perguntado sobre fidelidade partidária respondeu: “[...] Fidelidade partidária, sem que você forme partidos, fica muito complicada. Primeiro, porque você tem que fazer partidos, porque os partidos hoje são um amontoados de políticos, não são partidos. Falo isso muito à vontade, porque os partidos giram muito em torno de pessoas, e eu sou um representante disso”(MAGALHÃES, p. 265-266). Perguntado se era liberal ou neoliberal: “liberal, neoliberal, social-democrata... deixe essa discussão para os acadêmicos. Isso tudo está superado e não diz nada ao povo. O importante são os objetivos. O mundo está vivendo uma fase circunstancial, onde tudo isso é irrelevante [...]” (MAGALHAES, p.261), em outro momento: “Acho portanto que os partidos deveriam girar mais em torno de princípios.” (MAGALHÃES, p. 266). Perguntado sobre esquerda, direita, centro: “Eu acabei de dizer, não acredito nisso. Essa discussão está completamente superada no mundo de hoje.” (MAGALHÃES, p. 267), na insistência do repórter, responde: ”Eu prefiro ser julgado. Porque, na realidade, não me julgo, de

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direita, não me julgo de esquerda. Eu sou um político sem rótulos, sem etiquetas, porque acho que isso não existe, isso não está mais na cabeça de ninguém, isso já acabou” (MAGALHÃES, p. 267) Como já vimos acima, o apoio político a Tancredo Neves e depois a José Sarney proporcionou a ACM um ministério na Nova Republica, este foi estrategicamente escolhido diante do novo cenário que se configurava, ou seja uma sociedade cada vez mais midiatizada. O jornalista Anselmo Góis interpelou ACM sobre Tancredo: “Ele disse que o senhor ia ser o ministro do cargo que quisesse. Disse isso mesmo?”, e ele respondeu: “Disse isso. Depois, quiseram sabotar a minha nomeação para o ministério” (MAGALHÃES, 1995, p. 114). Deter controle sobre a mídia, ou parte dela, significava influir nos cenários de representação da própria atividade política. Portanto ACM foi nomeado Ministro das Comunicações, como ministro conseguiu manter sob seu comando parcelas dos aparelhos federais alocados na Bahia e mesmo fora dela, mas que influíam fortemente no estado, como por exemplo a Sudene, administrada por Paulo Souto36. Por meio dessas agências e de seus recursos pôde intervir na Bahia e atender as demandas em todo o estado. Próximo ao Presidente, principalmente por sua atuação na articulação política que estendeu o mandato presidencial de Sarney para cinco anos, utilizando as políticas do Ministério para manter os currais eleitorais e fazendo uso indiscriminado de concessões de rádio e televisão, de maneira a garantir apoio e legitimidade política à Nova República, qualificando-se como seu principal avalista. Quando foi perguntado acerca do critério político usado nas concessões ACM foi incisivo: “E qual o critério você quer que se obedeça? Há algumas condições
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ALMEIDA, 2000, p. 448

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preliminares: ter capital para a instalação da emissora e qualificação do ponto de vista técnico [...] Porque economicamente não era um bom negócio. Agora, politicamente era vantajoso [...]”; Em outro momento Góis perguntou: “Entregar concessão de rádio a político em troca de voto, o senhor acha que isso é uma coisa certa?” e ACM: “E quem disse que houve isso?”, e depois respondeu, sob igual pergunta de Miriam Leitão: “Eu acho. meus amigos terem concessões não é nada demais. Acho isso tão correto quanto você trabalhar [...]” (MAGALHÃES, p. 85 -88). E veladamente fez uso político delas, em uma ação regional distribuiu, para políticos e correligionários baianos, 96 concessões de rádio e 6 de televisão, o que representou 10,2% sobre o total das concessões praticadas no ministério. ACM tomou providências para montar seu próprio conglomerado na área de comunicações, na expansão de seus negócios organizou a TV Bahia, em princípio filiada à Rede manchete, somando-a ao jornal O Correio da Bahia adquirido em 1978 com o apoio financeiro de empresários liderados pelo Grupo Odebrecht. Em 1987 a TV Bahia assinou contrato com a TV Globo para retransmitir sua programação. Então quem detinha os direitos de transmissão era a TV Aratu, de propriedade da família Viana, parceira há dezoito anos das organizações Globo. A transação, no mínimo nebulosa, com a empresa de Roberto Marinho foi realizada em janeiro de 1987, logo após a Globo adquirir a direção da NEC do Brasil, no final de 1986. A Brasilinvest Informática e Telecomunicações (BIT), empresa de Mario Garnero, participava da NEC do Brasil através de parceria com a multinacional japonesa NEC Corporation, empresa especializada em equipamentos e serviços de telefonia37. As organizações Globo já demonstravam interesse em se associar a NEC do Brasil, especialmente porque o país
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GÓES, 1988, p. 23

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representava o segundo maior mercado em potencial nesse segmento, foi então que ACM através do Ministério das Comunicações interferiu pressionando a BIT para se desassociar da japonesa NEC38. O Ministro autorizou as empresas do sistema Telebrás a cancelar os pagamentos à NEC, alegando que não cumpriram os contratos de fornecimentos de peças. Mas estranhamente, quando os japoneses ameaçaram demitir funcionários, da NEC, a Telebrás reativou a transferência de recursos, garantindo a folha de pagamentos da empresa, argumentando que tinham encomendas a receber. Após isso o empresário Garnero saiu da NEC do Brasil, ao fazer um acordo que lhe garantiram cinco milhões de dólares, e a Globo se associou com a empresa japonesa. O caso rendeu uma CPI no congresso nacional, a CPI da NEC, mas não foi conclusiva39. A TV Aratu entrou com processo judicial contra a transação entre as emissoras de Roberto Marinho e ACM, mas a TV Bahia ganhou nos tribunais os diretos de retransmissão da programação da TV Globo. Ao responder aos jornalistas sobre a transferência do contrato, ACM associou a transação à amizade que tinha com Roberto Marinho:
Terminou o contrato com a TV Aratu, que até então retransmitia a Globo. Era mais que óbvio, que no dia em que eu tivesse uma emissora de televisão na Bahia – inauguramos em março de 85 – o Roberto Marinho, quando acabasse o contrato da Globo com qualquer outra emissora, transferiria o direito de retransmissão para mim. Ele é meu amigo desde 1959.(MAGALHÃES, 1995 p. 97)

A partir das empresas TV Bahia e o jornal Correio da Bahia, somadas às concessões de TV e rádio, ACM e seus aliados adquiriram um peso econômico significativo no estado. Só a Bahiapar Participações e Investimentos Ltda, Holding das empresas da família Magalhães, por exemplo, engloba as seguintes empresas: Bahia Telecomunicações Ltda, Bahia Eventos Ltada, a Empresa Baiana de Jornalismo (que
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ALMEIDA, 2000, p. 425-431 MAGALHAES, 1995, P. 93-98.

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edita o jornal Correio da Bahia), Gráfica Santa Helena Ltda e a Santa Helena S/A Incorporações e Construções40. Em um levantamento elaborado em 1997, mostra o alcance, dentro do estado, das emissoras ligadas à Rede Bahia: • TV Norte Baiano, em Juazeiro, com 47 municípios de alcance (322.925 consumidores), concessão de 8 de junho de 1988. • TV Oeste Baiano, situada em Barreiras, atingindo 26 municípios (192.500 consumidores), concessão de 7 de maio de 1988. • TV Santa Cruz, em Itabuna, alcançando 58 municípios (621.472 consumidores), concessão de 4 de novembro de 1986. • TV Subaé, de Feira de Santana, 15 municípios de alcance (o numero de consumidores não constava do Atlas de Cobertura da Rede Globo 1995) e concessão de 10 de abril de 1985. • TV Sudoeste, sediada em Vitória da Conquista, Abrangendo 71 municípios (575.412 consumidores) concessão de 8 de janeiro de 1988. • TV Bahia, de Salvador, a sede da rede, atingido 151 municípios (3,5 milhões de telespectadores), concessão de 5 de agosto de 1984.41 Nos anos de 1980 ACM somou algumas derrotas dentro do estado, a transição para a democracia, no seu momento inicial, comprometeu o desempenho das forças políticas ligadas à ditadura, maiormente pela campanha das “Diretas Já”; essa tendência foi percebida em muitos estados brasileiros. O carlismo perdeu a eleição à prefeitura de Salvador em 1985 para Mario Kértesz (PMDB). em 1988 para Fernando
40

FARIAS, Edison. Ócio e negócio: Festas populares e entretenimento – Turismo no Brasil. Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, 2000, p. 312. 41 LUZ, Jane Márcia Lemos. Radio e TV na Bahia: o partido eletrônico de ACM. Salvador, FACOM/UFBA, 1997, p. 17.

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José (PMDB), e em 1992 para Lìdice da Matta (PSDB). Mas foi em 1986, que o carlismo amargou uma das suas maiores derrotas ao perder o governo do estado para Waldir Pires (PMDB)42. Pois houve um espírito de transformação e mudança, dentro da Bahia contra o carlismo, influenciado pela “onda” democrática de contestação aos setores dominantes, a partir dos palanques em que se pregavam o retorno, às eleições diretas. A estruturação de uma rede midiática tão influente, foi cuidadosamente arquitetada paro o retorno carlista em 1990, sua primeira eleição pelo voto direto, e suplantar a oposição dentro do estado, impregnando sua personalidade no imaginário social, através do discurso da baianidade. Com efeito sua vitória nas eleições de 1990 está associada à consonância de dois fatores principais, a associação de seu nome ao universo baiano e ao uso e controle da mídia capaz de promover essa estratégia. Já em 1989 as mensagens veiculadas em suas empresas de comunicação mostravam ACM, como um grande administrador em detrimento da figura de Waldir Pires, relacionado ao despreparo e ao interesse pessoal, pois Waldir deixara o governo do estado para tornar-se candidato à vice-presidência. O lançamento de um jingle intitulado “ACM meu amor” foi intensamente executado nas rádios e tvs e nos showmicios, e mostra de forma substancial a estratégia carlista: Você se lembra de mim? Eu nuca vi você tão só Oh meu amor, oh meu xodó Minha Bahia ...

42

MAGALHÃES, 1995, p. 84 e 233.

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Permeando as estratégias políticas emaranhadas nos veículos de comunicação, são acionados dispositivos de caráter subliminar articulando sua imagem pública à identidade social, incrementando sua visibilidade no estado. A associação entre a sigla ACM e a campanha “Ação, Competência e Moralidade” foi desenvolvida

propositadamente na sua empreitada para retornar ao governo do estado. Essa campanha reafirmava ainda a distinção entre ACM e seus opositores na Bahia, pois contrapunha “ação e competência” contra um Waldir sinônimo de “moleza”, rotulagem tendenciosa imprecada pelo carlismo na época. Em momento posterior o código ACM foi re-transportado e inserido no pelourinho para titular uma de suas praças como, Artes, Cultura e Memória.
Em sua performance de Fênix, o carlismo reforçou a dimensão paroquial de seu discurso, usando a imagem de maus baianos para estigmatizar os adversários vencidos, apelando para os brios de uma baianidade ferida por fracassos administrativos e anunciando uma nova era de reconstrução e progresso (ação, competência e moralidade) para a Bahia, que passaria a ser uma virtual ilha de prosperidade num país tomado pela recessão e por uma crise de credibilidade política. (NETO, 2000, p. 77) [...] O que eu tenho é um perfeito sentimento de baianidade, e acho que ele me ajuda bastante, porque me defino, entre os políticos baianos, como aquele que mais tem interesse na terra. Isso me distingue realmente, e os baianos reparam nisso, e dão um tratamento melhor do que a qualquer outro político [...] É um caso de amor à terra, mais do que uma estratégia política. Agora, se há dividendos políticos, vamos intensificar. Faz-se um bom casamento. (MAGLHÃES, p. 189 e 191)

O ideal de baianidade vai se incorporando na campanha ao governo e no decurso de seu mandato, o próprio ACM vai se tornar o exemplo mais genuíno desse construto. O carlismo se apropria das cores baianas, utilizando suas bandeiras, para assumir e identificar-se ao mito da baianidade, perceptível ao longo das campanhas eleitorais da confraria carlista. A possessão vai além das cores e das bandeiras do estado, os signos da baianidade, originário da tradição afro-descendente e cristã serão anexados aos recursos simbólicos utilizados para dar identidade e produzir a imagem

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de ACM e de seu grupo, mormente desde a campanha de 1990. A formulação do mito remete a um orgulho de ser e afirmar-se baiano, à tradição e a uma ancestralidade ostentada pelos baianos ligada a um mito de origem que tem a “boa terra” como o berço da pátria e da brasilidade. Nesse contexto reivindica-se para a Bahia o lugar de tradições, tanto das famílias e elites oligárquicas quanto do seu povo, afro-descendente ou sertanejo. Um dos eixos centrais do ideário da baianidade circunscreve a familiaridade, modo de agir ambivalente que pressupõe a sociedade baiana, uma associação de comadres e compadres onde as relações entre as pessoas se manifestam com extrema pessoalidade. Em suma uma família patriarcal, dificultando a compleição da cidadania no Estado permitindo as desigualdades sociais existentes 43. A aplicabilidade e elaboração e re-elaboração do ideal de baianidade não foi iniciada com a estratégia de retorno do carlismo, mesmo que durante o período tenha amplamente ganho o imaginário sedimentando-se. Toda a política do turismo, desde os anos 1970, quando a Bahia estava sob o governo carlista, tem como maior idealizador Paulo Gaudenzi44 que ressaltou a Bahia a partir de suas belezas naturais e suas tradições culturais, enfatizando prioritariamente aquelas de caráter afro-descendente, mas todas alocadas no contexto da baianidade. Ele foi o principal articulador dessas políticas que tem no turismo seu ponto de confluência e irradiação45. A nova gestão de ACM no governo do estado, inaugurou um novo período de redefinição das políticas culturais na Bahia, instituiu o alicerce para a futura criação da Secretária da Cultura e do Turismo do Estado. Promoveu reformas no patrimônio
43 44

MOURA, 2001, p. 260-262. Professor de História e economista, em 1995 assumiu a Secretária de Cultura e Turismo. Na área do turismo desenvolveu trabalhos desde 1973, como Coordenador de Fomento ao Turismo da Secretaria de Industria e Comércio por seis anos. Deixou a direção da Bahiatursa em 1986, onde esteve desde 1979, e retornou em 1991 com o novo mandato de ACM. 45 FARIAS, 2000, p. 230-316.

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histórico e material da capital Salvador, em especial no Centro Histórico Pelourinho Maciel, e no Teatro Castro Alves. As políticas culturais no novo governo demonstram as tendências, de priorização do turismo em detrimento da cultura, orientadas a partir deste governo para uma gestão cultural mediada por fatores econômicos. Paulo Souto ocupou a Secretaria da Industria Comércio e Turismo, e o sucederia no comando do governo em 1995, dando seguimento a essa política. Pulo Gaudenzi, na gestão ACM, era o presidente da Bahiatursa e seria o futuro Secretário da Cultura e Turismo na gestão de Paulo Souto. Paulo Gaudenzi, em uma entrevista concedida ao Brasil Turisjornal, comentou a idealização e a associação entre turismo e cultura:
O turismo é consumidor adicional da atividade cultural baiana. Essa é uma coisa que já se faz desde a década de 70, foi feita em 80 e 90 coma criação da STC da Bahia. Essa é a visão que nós tivemos de que a cultura é o grande diferencial do turismo na Bahia. Nos conceitos de promoção que vendemos da Bahia, estão os elementos da cultura como a baianidade, a baiana típica, a comida, o acarajé, a capoeira, o folclore, o artesanato, a música, as festas populares, o carnaval, o são João, etc. Ao destacar esses elementos, agregamos um percentual altíssimo. Isso sem falar no patrimônio histórico que é outro apelo cultural forte[...] Esse processo é advindo de um ponto importante que é a diversidade cultural que a Bahia possui. É a contextualização daquilo que nós somos é a grande diferença de um lugar para outro. É a diferença cultural que você tem em cada lugar. Porque a natureza é bonita, interessante, mas você a tem parecida em vários lugares. O grande diferencial é a parte cultural que é o processo criativo acumulado. Nossa cultura é diversificada e interessante, com o diferencial que nós temos e os outros não tem . E é exatamente isso que fez com que fossemos conjugar turismo com a cultura dentro de uma conceito prático de que ela era o grande diferencial do segmento turístico da Bahia.46

Mas segundo o arquiteto Antonio Heliodorio Sampaio, em um seminário intitulado Pelourinho: O Peso da História e Tendências Recentes, realizado em 1994, pelo Mestrado em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da UFBA, esse projeto turístico já é uma idealização de 1930:
[...] As transformações recentes no pelourinho não respondem à problemática do centro de Salvador como totalidade, ou seja, aquela relação centro-cidaderegiao, mas respondem a um projeto mais amplo, cuja estratégia foi esboçada
46

Brasil Turis Jornal. Entrevista com Paulo Gaudenzi – Operário do Turismo. Disponível em <http://www.brasilturisjornal.com.br/site.cfm?tp=WL&cg=ENTRE&noticia=5213>. Acessado em 21/09/2005.

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nos anos 50-60 e detalhada nos 60-70, que define para Salvador um papel de cidade voltada para o turismo e lazer. Este discurso foi um discurso oficial muito veiculado nos anos 70. Quem analisou os planos e projetos sabe que ele é um discurso de governo, por isso a orla e o centro Histórico sempre foram localidades privilegiadas para os investimentos do estado, visando o binômio turismo/lazer, em Salvador. Esta estratégia foi adredemente teorizada e planejada pelo governo estadual, e inclui o setor produtivo industrial moderno que deveria ficar como ficou, fora de Salvador. Refiro-me ao Centro industrial de Aratu – Cia e ao Complexo Petroquímico de Camaçari – COPEC. Assim, o que o estado fez e faz hoje no Pelourinho responde a um movimento de idéias que, a rigor, se inicia nos anos 30, na semana de Urbanismo, quando já ali se observa claramente que as elites intelectuais, econômicas e os meios responsáveis pela formação de opinião, mesmo que de forma embrionária, anteviam um vir a ser para Salvador e sua região não muito distante do que se observa hoje47.

Portanto o carlismo se apropriou de um projeto urbanístico inicia em 1930, reorientado-o em uma abordagem, mítico-baiana, introduzida e induzida no imaginário social. O projeto carlista de modernização capitalista, teve o apoio irrestrito e condensado de setores do empresariado no estado, o apoio desses setores a essa modernização conservadora é um importante elo na cadeia de interesses conjugados, que possibilitaram a intensificação de tão vasto poder do carlismo no estado, poder político e econômico partilhado com os setores empresariais. A associação entre o carlismo e empresários na aplicação do projeto, imprimiu uma caracterização excessivamente economicista. O governo carlista, ao revitalizar um espaço com tamanha capacidade turístico cultural, vitimou a sociedade local do bairro. Mesmo hoje, o problema com a população do Pelourinho, não está de todo resolvido, organismos nacionais e internacionais ligado aos direitos humanos, vem contribuindo em defesa da população junto aos órgãos jurídicos, nas ações judiciais contra a administração pública. O custo social na implantação do projeto foi vultoso, mas não estavam contabilizados nas pranchetas dos gestores, apesar da enorme quantidade de recursos
47

A apresentação do arquiteto Antonio Heliodorio Sampaio, está disponível em: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=k478387308>. Acessado em: 23/05/06

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somados para dar continuidade ao projeto. É significativos o depoimento, de João Jorge Rodrigues, integrante do movimento negro Olodum, e morador do bairro:
É importante observar que hoje, apesar de recuperado fisicamente e com grandes problemas sociais, o Pelourinho Maciel ainda dá muito o que falar porque, apesar da recuperação física, houve, na verdade, uma exclusão social gigantesca que afastou do Centro Histórico 90% dos seus antigos moradores. Moradores estes que, durante os últimos 40 anos, foram a principal alternativa de sobrevivência para o pouco que restou da área. A saída das pessoas do Pelourinho/Maciel se dá neste momento, por dois aspectos. Primeiro, pelo aspecto econômico. Houve uma definição do atual governo, definição essa que já tinha sido feita nas administrações anteriores do atual governador da Bahia: o Pelourinho/Maciel deveria ser uma vitrine do turismo baiano, e, portanto, deveriam se realizar ali obras que recuperassem fisicamente a área, mas que estivessem atentas às novas necessidades, que seriam instalar lojas de artigos turísticos, bares, etc., criando-se ali um centro de convivência, uma espécie de Quartier Latin.48

A apropriação sistemática do mito da baianidade, pelo carlismo, não se restringiu às manutenções políticas nos pleitos eleitorais, ela está intrinsecamente ligada, além das políticas culturais e turísticas, ao seu império midiático. Em princípio a TV Bahia e posteriormente toda a Rede Bahia que congrega quase todas as emissoras do interior, como destacado acima, propagaram e cristalizaram o ideário da baianidade. Por meio de uma conveniente campanha de marketing, a TV Bahia procurou consumar essa associação.
[...] Definir elos que aproximassem a emissora de uma “regionalidade baiana”; ou , segundo as palavras da própria direção, a intenção de molda-la, dar-lhe uma “cara da Bahia”, porque sua imagem “estava restrita à de repetidora da Globo e faltava identidade entre o veiculo e a comunidade” (FARIAS, 2000, p. 234)

A TV Bahia articulou uma série de iniciativas, que a associaram ao contexto da baianidade e à imagem da Bahia, muitas delas empreendimentos de cunho cultural como por exemplo o Projeto Verão iniciado em 1992. A repercussão obtida com esses eventos, levou o grupo empresarial da família Magalhães a investir maciçamente na
48

O depoimento de João Jorge Rodrigues, está disponível em: <http://www.cult.ufba.br/arquivos/Politicas_Culturais_da_Bahia_Cesar_Borges_e_Paulo_Souto_Gi%E2%80%A6.p df>. Acessado em : 04/05/06.

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industria do entretenimento, organizou a Bahia Eventos Ltda, uma nova empresa especificamente direcionada nesse segmento. Pouco depois criou a TV Salvador, um canal dentro da rede NET de TV a cabo, implantado na capital baiana com programação direcionada à cultura, dentro do contexto do ideário da baianidade. Os vultosos investimentos amplificaram o mito da baianidade associado à sigla ACM e ao carlismo, prevalecendo uma visão específica dessa identidade comumente aceita, sobretudo pelos não baianos. O que significa um construto para consumo em escala nacional.
A ‘baianidade’ está definitivamente incorporada às consciências social, local e nacional. E embora a própria estrutura econômica e social tenha se modificado radicalmente, o mito apresenta a ‘baianidade’ como natural, dissimulando agora uma nova realidade social em que aquele desempenha a função de licor digestivo. Os efeitos sobre a representação dos interesses sociais e sobre a política não são desprezíveis. Tudo se dissimula sob a capa da informação da mídia, cuja função principal é, em vendendo a Bahia dos catões-postais, vender na verdade a identidade das classes sociais e de seus interesses antagônicos. (OLIVEIRA, 1987, p.113 apud ALMEIDA, 2000, p. 309)

A recente história do carlismo na Bahia revela uma situação dispare, ao mesmo tempo em que aglutinou forças e interesses diversos em seu entorno, percebe-se uma oposição sagas importante à intervenção político midiática do grupo. O que representa uma dinâmica no interior da sociedade baiana e reafirmam uma história em movimento.

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Conclusão

ACM construiu um império midiático e promoveu seu codinome associando ao ideário da baianidade, por isso acumulou poder, que por isso mesmo tem repercussão nacional. E não como questionara Maria Inês Nassif, em um artigo intitulado “ACM as trevas e o dilema Tostines”, publicado na revista Valor Econômico: “Antonio Carlos manda na Bahia porque tem poder nacional, ou tem poder nacional porque é o rei da Bahia?”.49 Não é rei da Bahia e não manda nela (ou sua corte provavelmente esteja se desfazendo) muito embora tenha forte influência no estado. Essa influência só é mantida pelo vício clientelista na política brasileira. O eixo central do texto procurou justamente compreender e para isso dissolver esse emaranhado, configurado pelo clientelismo, presente nos diversos momentos da política no Brasil. O personalismo político só permanece na política, em especial a baiana, pela necessidade da rede de clientela necessitar e erigir uma figura central que possa concentrar poder para distribuir as benesses do Estado. Assim o foi no inicio o patriarca familiar na origem colonial, que transferiu para o ambiente público as estruturas sentimentais da casa nuclear. Atravancando o processo democrático futuro, extraviando e promiscuindo público e privado mediante o exercício do poder familiar sobre o Estado. Perpetuado nas amarras oligarcas da estrutura coronelísticas que subsistiu no Estado Novo, por baixo de um governo excessivamente centralizado. Este sim talvez o maior representante do personalismo na política brasileira, bombardeando através da propaganda sua imagem, no imaginário das massas, impedindo a realização
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NASSIF, Maria Inês. “ACM, as trevas e o dilema Tostines”. São Paulo, Valor Econômico, 31 de janeiro de 2001.

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absoluta, dentro dessas, da formação de pensamento político nos grupos sociais e noutras classes, formação necessária ao bom funcionamento das lutas pela hegemônica no interior do Estado. A criação do DIP teve esse papel fundamental na política de compromissos do Estado Novo. O personalismo político assente no topo da pirâmide clientelística, realizado sempre em um Estado hierárquico de viés autoritário, impediu a organização de partidos políticos realizada numa instituição participativa. Representativa dos anseios das classes sociais em constante formação e reformação. Por isso o vício constante, na política brasileira, do personalismo. Todos representantes que foram, PTB, PSD, UDN, ARENA, PDS e PFL, etc, de organizações estruturadas de cima para baixo. O vício permaneceu e ganhou nova vida nos veículos de comunicação de massas, a sociedade contemporânea, midiatizada, favoreceu o ator público na sua expressão agora amplificada. Possuindo a indústria de sua propagação, teceu hegemonicamente, tanto na estrutura, por ser um aparato econômico, quanto na superestrutura na esfera cultural, sua rede artificiosa na busca pelo poder hegemônico no Estado, em conluio com setores do empresariado capitalista, interessados em compartilhar poder, classes conservadoras em busca da permanência na direção do Estado, como bloco de poder. Mas, por mais que, controlem as instâncias midiáticas e econômicas, facilitando sua perpetuação, ainda está em aberto a luta hegemônica. Pois existe a contra hegemonia que permite uma articulação dinâmica, geradora de contestação. A interpretação dominante já foi posta em xeque, o movimento pode representar mudança, e a mudança pode abrir caminho para um novo momento histórico. A ver. A conferir.

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A trajetória de ACM é um rico exemplo desse vício na política brasileira, fez carreira se embrenhou nas amarras do poder e atou o nó que o ligou ao núcleo central, permitindo seu império midiático mantenedor de sua hegemonia mediante a apropriação e associação à cultura regional baiana, que sendo popular transformou-se em moeda política de seu projeto modernizante. Mas a cultura e a estrutura popular, herança africana e sertaneja, está resistente, ainda subsistem sob a máscara maquilada da apropriação carlista. A cultura popular, heranças africanas e sertanejas, é usada momentaneamente, e até que ocorram profundas mudanças no âmago da sociedade atual. Agora, no momento em que é apropriada para a produção de valor para os capitais locais, pela ação dos capitais locais liderados por ACM e o empresariado baiano, produzem concomitantemente a força-de-trabalho que viabilizam os capitais locais. A “indústria” do turismo é uma expressão que vai se consolidando, nesse contexto. Ao mesmo tempo em que, produz força-de-trabalho e capitais locais, essa “indústria” aciona um conjunto de fatores baseado na recomposição da força-de-trabalho externa, ou seja de outras regiões, onde se realimenta constantemente. São os trabalhadores esfacelados do centro, sul e sudeste, bem como os trabalhadores estrangeiros, que no decurso de dias, semanas ou meses procuram conforto e entretenimento nas viagens turísticas, na esperança de re-humanizarem suas vidas alienadas por jornadas de trabalhos cáusticos e desumanos, esperançosos que são, de se recomporem como sujeitos, que não são, na expressividade de suas subjetividades. Pois o próprio turismo é uma grande linha de desmontagem de sujeitos, porque opera dentro da lógica da formação de valor na sociedade atual. O turismo faz aquilo que realmente lhe importa, recompor a capacidade de trabalho da força de trabalho. Apropriando-se das manifestações

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culturais que significam, apenas do ponto de vista formal, o resgate cultural afrodescendente e sertanejo. Fazendo isso dá às pessoas a ilusão, pois se trata de mera formalidade e não de recomposições essenciais de culturas obliteradas, de resgate de suas “raízes históricas”, “perdidas” pela “perversidade” da vida “moderna”.

Subjetividades que se realizam no plano formal. Viabilizam e são viabilizadas nas realizações concretas: produção e reprodução de valor na sociedade capitalista.50 O que não faltam são exemplos de famílias oligarcas que sob o império da comunicação, atados aos nós dos privilégios ligados ao poder do Estado, prorrogam sua dominação. No maranhão o clã Sarney, que controla o estado há quarenta anos, possui a concessão direta ou indireta de mais de vinte e cinco emissoras de radio e televisão, além de outros tantos jornais. Ainda no Maranhão, há um município com o nome de Presidente Sarney, onde somente 5% e 6% de esgoto e água, respectivamente, são encanados, 38% dos habitantes acima de 15 anos são analfabetos. O estado apresenta os piores índices de desenvolvimento humano entre os estados da federação. Segundo Marco Antonio Villa, ao comentar um excerto da obra “O Problema da Descrença no Século XVI: A religião de Rabelais” do Historiador Lucien Febvre, que analisou a dominação ideológica da Igreja Católica sobre a Europa Ocidental, “O nascimento, a morte. Entre esses dois limites, tudo que o homem realiza, vivendo normalmente, fica com a marca da religião”, emendou: “se Febvre vivesse no Maranhão, trocaria a religião pela família Sarney”.51 Podemos fazer a mesma relação com o carlismo na Bahia.
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Parágrafo redigido a partir de um dialogo travado em 08 de novembro de 2006, com o Prf° Dr° Moacir Gigante, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- Faculdade de História Direito e Serviço Social - Campus Franca. 51 VILLA, Marco Antonio. A crise política e o coronelismo. São Paulo, Folha de São Paulo: Tendências e Debates, 04 de outubro 2005.

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Neste contexto ACM e seus herdeiros parecem que vão ter uma vida política longa, pois a classe dominante, e que portanto se sobrepõem, são aquelas que detêm os poderes reais na sociedade. Por enquanto ACM tem poder de fato, mas parece estar se esgotando, entretanto seu poder real está baseado na “indústria” do turismo, que foi erigida a partir de uma base de clientela que lhe proporcionou poder para a partilha. Pela natureza de seu poder, ACM e o carlismo permanecerão por tempos no imaginário e na estrutura social. Mas o personalismo de ACM consumado no carlismo na Bahia esteja, talvez, sob um processo de desagregação. Ao analisar o pleito eleitoral em 2002 na Bahia concluímos que, apesar de isolado no plano nacional o carlismo manteve o controle do estado, a representação no Senado e ampla representação da bancada carlista nas assembléias estadual e na Câmara Federal. Entretanto parece que a Bahia tenha ingressado em uma era pós-carlista, em que o comando unilateral de ACM sobre o grupo e a política baiana tem dado espaço a uma nova estrutura em transição, onde coexistam, no mínimo, uma bipolaridade partidária competitiva, em vez de uma dominação única carlista. A princípio essa mutação estrutural parece imbricada na esteira da candidatura de Luis Inácio Lula da Silva e sua ascensão à presidência da República em 2002. Porém o carlismo vem se desgastando desde 1998 quando no plano estadual, a bancada governista liderada, a maioria centralizada, pelo carlismo nuclear, havia conquistado 47 cadeiras na Assembléia Legislativa do estado, em outubro de 2002 houve uma regressão nesses números, percebida ao longo da legislatura, passando a compor 42 cadeiras representativas, nas eleições de 2002 conseguiram eleger apenas 39 deputados estaduais. No plano federal a bancada governista liderada pelo carlismo

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nuclear alçou 28 cadeiras na Câmara dos Deputados, em outubro de 2002 ocorreu um retrocesso, ao longo da legislatura, conformando em 21 cadeiras o número da bancada carlista, que elegeram no pleito de 2002 vinte e dois deputados federais. A oposição experimentou uma curva ascendente, em 1998 na esfera estadual possuía 16 cadeiras no legislativo, passou a 18 em outubro e elegeu 24 deputados nas eleições de 2002. Para a Câmara Federal elegeu 11 deputados, em outubro somou 18 e nas eleições de 2002 alçou 17 cadeiras representativas52. Claro que se observa uma tendência, em consonância ao crescimento da candidatura petista, com vista a barganhar em uma, futura nova, rede de clientela, mas é notório o enfraquecimento carlista a partir de 1989. Com efeito, nas eleições de 2006 para o governo do estado baiano, contrariando as pesquisas veiculadas nos meios de comunicação, que mostravam o candidato carlista Paulo Souto com 50% das intenções de voto, à frente do candidato petista Jacques Wagner com 28%53. A vitória de Jacques Wagner no primeiro turno, por 52,89% contra 43,03%54 de Paulo Souto, provaram a desagregação. E aqui quero mostrar o porquê deste intercurso nos números do universo político. A reação de ACM com a derrota, estampado no seu discurso pronunciado, no Senado após as eleições, em 03 de outubro de 2006:
Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, seria, sem dúvida, um discurso difícil o que vou pronunciar, não tivesse eu a coragem que o tempo tem mostrado que tenho e a experiência de 50 anos de vida pública. Isso me dá autoridade para discorrer aqui sobre as eleições no Brasil e, em particular, em primeiro lugar, na Bahia. Devo dizer a V. Exª que o Senhor Presidente Lula venceu na Bahia surpreendentemente o Governo, levando também um Senador que jamais seria eleito normalmente, mas por ter abandonado o seu partido e por ter feito
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NETO, Paulo Fabio Dantas. Carlismo e Oposição na Bahia Pós-Carlista. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obed003j.html-9k Acessado em: 05/06/2006 53 Números oficiais pesquisa Voxpopuli. Disponível em : http://www.voxpopuli.com.br/eleicoes_2006/estadual/ba2006-136r02.pdf>. Acessado em 07/11/06 54 Números oficiais TRE-Bahia. Disponível em : <htpp://www.treba.gov.br/eleicao2006/1turno/index.php?opcao=estado >. Acessado em: 07/11/06

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composição com o candidato do PT, venceu. Portanto, as minhas primeiras palavras são no sentido de que, no caso, o Presidente Lula foi vencedor. Não importa como. Jogando muito dinheiro do Governo? Sim. Dinheiro da Petrobras? Sim. Dinheiro dos ladrões que o cercam? Sim. Mas o fato é que ele venceu.[...] Sei que ele comemorou a vitória na Bahia. Fez bem em comemorar. Em 1986, eles comemoraram; em 1990, eu voltei. Voltei e formei uma série de homens públicos naquela terra que honra o Brasil e da qual ninguém é acusado de roubar.[...] Sr. Presidente, ao confessar o caso da Bahia, sem nenhuma dúvida, inclusive, ontem, quando fui perguntado a esse respeito, disse: "Derrotado não fala, espera". Estou esperando, como esperei em 1986, e venci, em 1990, as eleições diretas para Governador do Estado, tendo havido a derrota, em 1986, não minha, mas do candidato Josaphat Marinho. Portanto, Sr. Presidente, quero advertir a Nação brasileira, sobretudo, para esse segundo turno. Chamo a atenção do Nordeste, principalmente, da minha Bahia, para que impeçamos essa reeleição tão danosa para o País e coloquemos à frente do Governo um homem de bem, honrado, como é o ex-Governador Geraldo Alckmin. Desse modo, Sr. Presidente, estou convencido de que vamos ter um novo Brasil e sem roubo; um novo Brasil com um PT sério, porque também no PT há pessoas sérias, tirando os ladrões, que não são poucos. Sr. Presidente, venho a esta tribuna, com a coragem que Deus me deu, para dizer que continuarei lutando e amando cada vez mais a Bahia, e que, em breve, V. Exªs verão o desastre que será o governo baiano e a volta triunfal do "carlismo" na Bahia. O "carlismo" é uma legenda que não se apaga, queiram ou não os cronistas políticos. Ela existe porque o povo quer! E quando o povo quer, pode tudo.55

O ator público é o mesmo, só que agora a maquilagem está desbotada, o discurso também é o mesmo, o amor à Bahia, o carlismo, seu personalismo, sua altivez e sua afabilidade ao condenar o novo governo, e concomitantemente o povo, ao desastre. Talvez o carlismo seja seu amor à Bahia, amor que não pretende altruísta, mas egoísta e vaidoso. ACM continua contraditório, primeiro ele reconhece a derrota em 1986, quando perdeu o gabinete do Palácio da Aclimação, depois a atribui a Josaphat Marinho; seguindo a risca as recomendações do Cardeal Mazarim 56 “simula e dissimula”. Após as eleições, em 29 de novembro de 2006 foram veiculados pela mídia televisiva, ajuntamentos populares em diversos “altares” em Salvador, que aos brados em uníssono cantavam palavras de ordem contra o carlismo; por ter sido uma programação nacional da TV Globo, acabaram retransmitidos pela Rede Bahia. Parece
55

MAGALHÃES, A. C.: Discurso pronunciado no Senado Federal em 03/10/06 Disponível em: <http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTesto.asp?t=364455>. Acessado em 05/10/06. 56 MAZARIM, Cardeal Jules. Breviário dos Políticos. São Paulo: Editora 34, 1997. Substituiu a Richelieu, no cargo de primeiro ministro, na França em 1643. Assim Mazarino ficou até 1651 e preparou o jovem Luis XIV”Rei Sol”.

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que a história se repete, ao menos é o que flui no domínio popular, e nas filosofias da História que a tem como cíclica em espiral cônico. ACM afirma em seu discurso veemente, acima, que o carlismo voltará triunfal à Bahia daqui a quatro anos, no próximo pleito eleitoral para o governo do estado, como em 1986 na eleição de Waldir Pires; lá voltou em 1990 dando continuidade ao seu projeto “capitalista modernizante turístico cultural midiatizado”, aqui (e agora) é uma incógnita, talvez o ator esteja ultrapassado. E este texto não se pretende a previsões nem ao exercício de futurologia política. A História submerge agora para emergir, quando o evento for naufragado em seus oceanos e mares de passado, aí o compreenderá, pois, estará sob seus domínios. Segundo o jornalista Marcos Sá Corrêa (MAGALHÃES, 1995, p.13) “ACM difere de Antonio Carlos Magalhães por ser um monstro mitológico” e com efeito ACM é uma personagem criada no país um pouco à sua revelia. O monstro mitológico talvez esteja deixando a “Odisséia” para entrar nas “Coleções de Contos da Carochinha”. Quando a coroa de louros usurpada e possuída, for desfolhada e correr o vento aos quatro cantos da Bahia, ACM será despido, expondo “o cabeça branca57”, revelando Antonio Carlos Magalhães, o “Cordial”.

BIBLIOGRAFIA

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Foram veiculados na mídia baiana, com vistas a inundar o imaginário popular por alusões a Antonio Carlos Magalhães, epítetos como “Toninho ternura” para abafar “Toninho malvadeza” uma de suas primeiras alcunhas. “O cabeça branca”, que remete a uma figura paterna anciã, ou “pai(inho) da Bahia”. Se de fato a tradição da baianidade mostra uma família patriarcal na sociedade baiana, a alusão aqui e para o caracterizar como o patriarca dessa grande família.

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