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Pedagogia: sobre Diretrizes Curriculares1.

SELMA GARRIDO PIMENTA Professora Titular da FE - USP

Quero NACIONAL DE

iniciar

agradecendo por

aos

organizadores a

do

FORUM esta

PEDAGOGIA,

me convidar

pronunciar

conferência e dizer que leio nesse convite a possibilidade de alguma contribuição que eu possa trazer, não apenas por minhas preocupações históricas com o tema2, mas também na atual condição de Diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e, nessa condição, estar participando do Fórum Nacional dos Diretores das Faculdades de Educação das Universidades Públicas – FORUMDIR, que acaba de apresentar ao Conselho Nacional de Educação – CNE, uma proposta para as Diretrizes Nacionais dos Cursos de Pedagogia, construída nos seus XVI, XVII e XVIII Encontros Nacionais, realizados respectivamente na Chapada dos Guimarães – MT, em 2002; em Fortaleza – CE, em 2003; e em Porto Alegre – RS, também em 2003, e nos vários Encontros Regionais que entremearam esses nacionais. Informo que anexo essa Proposta ao presente texto. Desde logo, explicito que em minhas produções sobre o tema, defendo que a pedagogia é uma ciência da educação e que uma das modalidades de inserção
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profissional do pedagogo é a docência,

Transcrito das apresentações da autora no XVI ENCONTRO NACIONAL do FORUMDIR, realizado na Chapada dos Guimarães – MT, agosto de 2002 e no FORUM NACIONAL DE PEDAGOGIA 2004, realizado em Belo Horizonte, julho de 2004.

À propósito, ver as seguintes publicações: PIMENTA, S.G. O Pedagogo na escola pública. SP. Ed. Loyola. 1979 (1a. Ed.); PIMENTA, S.G. (org) Pedagogia, ciência da educação? SP. Cortez Ed. 1996 (1a. Ed.), na qual publico o cap. Panorama atual da Didática no quadro das ciências da educação: educação, pedagogia e didática, p. 39:70; PIMENTA, S.G. (org) Didática e Formação de Professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. SP. Cortez Ed. 1997 (1ª. Ed.), na qual publico o cap. Para uma re-significação da Didática: ciências da educação, pedagogia e didática, p.19-76; PIMENTA, S.G. (org) Pedagogia e Pedagogos: caminhos e perspectivas. SP. Cortez Ed. 2002 (1a. Ed.), na qual publico , em parceria com LIBÂNEO, J.C., o cap. Formação dos Profissionais da Educação: visão crítica e perspectivas de mudança, p. 11-58. E o livro de LIBÂNEO, J.C. Pedagogia e Pedagogos, para quê? SP. Cortez Ed. 1998 (1a. Ed.), no qual publico o Prefácio.

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entendendo, pois, que a pedagogia é a base da formação e da atuação profissional do professor, e não o contrário como configura a posição da ANFOPE. Organizei minha exposição em três partes. Na primeira, sintetizo os conceitos de educação e de pedagogia que orientam nossa reflexão. Na segunda, que denominei Quem tem medo da pedagogia? discuto questões da política do recente governo FHC afetas ao tema e o quadro atual dos cursos de pedagogia. Na terceira, que denominei de Propostas e encaminhamentos, aponto questões sobre as profissões de pedagogo e de professor e apresento alguns dos antecedentes que precederam a proposta do FORUNDIR, 2004, e apresento o texto final, enviado ao CNE em junho de 2004. 1. Educação e pedagogia – breve introdução conceitual A educação é uma prática social humana. Ou seja, característica dos seres humanos, e realizada por todo e qualquer cidadão, em todas as instituições sociais. A educação tem por finalidade possibilitar que as pessoas se tornem seres humanos; é processo de humanização. É somente na sociedade humana que ocorre um processo de educação, um processo de humanização. Tornar-se humano significa tornar-se partícipe do processo civilizatório, dos bens que historicamente foram produzidos pelos homens em sociedade e dos problemas gerados por esse mesmo processo. Nesse sentido, a educação tem uma dimensão de continuidade que se traduz na transmissão dos conhecimentos, da cultura e dos valores, e, ao mesmo tempo, de ruptura, ou seja, de produzir-se novos conhecimentos, novas culturas, novos valores, a partir não apenas do avanço do conhecimento, mas da análise crítica dos resultados desse processo civilizatório, produto de grupos de interesses dominantes nas sociedades. Nesse sentido, a educação é, ao mesmo tempo, permanência e transformação, em busca de condições

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para o desenvolvimento humano de todas os sujeitos que nascem, garantido-lhes o usufruto dos bens da civilização e dotando-os de uma perspectiva analítica e crítica a fim de que se coloquem como construtores de novos modos de se processar a civilização. Uma civilização que garanta as condições humanas de vida a todos, que assegure os direitos humanos para todos, de sobrevivência, de alimentação, de trabalho, de participação social, de elaboração da lei, de construção da democracia etc. A educação é inerente ao processo de humanização que ocorre na sociedade em geral. Por isso, afirmamos que a educação é uma prática social, histórica e situada em determinados contextos. Nesse sentido, é que podemos afirmar que a educação é uma práxis social. Estudá-la, analisá-la, compreendê-la, interpretá-la em sua complexidade, e propor outros modos e processos de ser realizada com vistas à construção de sociedade justa e igualitária, supõe a contribuição de vários campos disciplinares, dentre os quais o da pedagogia. A pedagogia é um campo de conhecimento específico da práxis educativa que ocorre na sociedade. Diferente dos demais que não têm a educação como objeto específico de análise, mas que a ela podem se voltar. A sociologia, por exemplo, na sua raiz não tem a educação como objeto de estudo, mas há sociólogos que se voltam a ela, se valendo dos aportes da ciência sociológica para estudar dimensões da práxis educativa. O mesmo ocorre com a filosofia, a psicologia, a história e outras ciências que se voltam à educação. Essas disciplinas quando voltadas ao campo da educação, constituem nos cursos de pedagogia os fundamentos da educação. Curiosamente não há dentre eles uma disciplina denominada pedagogia que se voltaria ao estudo do campo do pedagógico. Essa perspectiva, em geral, é coberta pela didática e por estudos do campo curricular, quando estudam as teorias e as idéias

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pedagógicas, sintetizando os aportes das disciplinas anteriores, focando nos resultados do ensino e da educação e dos sistemas escolares. Por sua vez, ciências como a física, a matemática, a geografia, a história, a biologia, as letras, têm-se constituído também como campo da pedagogia, por se voltarem aos estudos dos fundamentos dos métodos do ensino, uma das atividades profissionais do pedagogo. A natureza dessas áreas de conhecimento de análise crítica dos modos de produção do humano e o desenvolvimento da pesquisa na própria formação dos pedagogos, em geral, têm possibilitado que o curso de pedagogia se constitua no único curso de graduação no qual se realiza a análise crítica e contextualizada da educação e do ensino enquanto práxis social. Talvez por isso, alguns hão de temer a pedagogia. 2. Quem tem medo da pedagogia? Diferentemente do que ocorreu com os demais cursos de graduação no país que tiveram uma nova edição de suas diretrizes curriculares após a promulgação da LDBEN de 1996, o curso de pedagogia permanece sob a égide legal do parecer 252/69, que consagrou a definição do curso em habilitações. Não por falta de propostas, considerando a apresentada pela Comissão de Especialistas, composta pelo MEC, entregue e não examinada pelo CNE. Os educadores que a compuseram, representam, em sua maioria, as discussões do amplo movimento iniciado em 1978, pelo então Comitê de Reformulação das Diretrizes Curriculares do Curso de Pedagogia, hoje ANFOPE, e as discussões no âmbito do FORUMDIR3. Em parte, essas discussões resultaram e/ou interferiram em modificações dos cursos no

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Um breve histórico do curso de pedagogia no Brasil pode ser examinado no item 1. O CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA NO CONTEXTO ATUAL, da proposta de Diretrizes Curriculares para os Cursos de Pedagogia, apresentada pelo FORUMDIR ao CNE, em junho de 2004, e anexa a este.

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interior das instituições de ensino superior. Uma amostra do quadro atual desses cursos4, na região sudeste, apresenta os cursos de pedagogia em diferentes formatos: cursos que mantém as habilitações conforme o parecer 252/69 e acrescentaram outras; cursos que retiraram as habilitações e se transformaram em formação de professores para as séries iniciais do Ensino Fundamental; cursos que combinam essas duas modalidades; cursos que mantém a formação de professores adultos, das séries iniciais e oferecem em forma modalidades de cursos de de aprofundamento em educação especial, educação infantil, jovens e empresas, indígenas, etc., especialização, com variação de horas, enriquecimento curricular, etc. Outros cursos fundiram as habilitações em uma só. De modo geral, os cursos que mantiveram as habilitações fizeram modificações e atualização no interior das mesmas. O fato novo que se observa é a ênfase à formação de professores para as séries iniciais, muitas vezes reduzindo a formação do pedagogo a professores para esse segmento do ensino. Nesse contexto, a LDBEN de 1996, representando segmentos neo-conservadores, reduz o curso de pedagogia à formação de especialistas conforme o parecer 252/69 e define uma nova instituição para formar professores para as séries iniciais, os Institutos Superiores de Educação, ISE, amplamente questionados por seu caráter nãouniversitário e de simples reprodução, no nível superior, dos antigos (e quase totalmente extintos) cursos normais de nível médio. Essa medida, seguida de outras tentativas de desqualificação do curso de pedagogia e medidas políticas do governo FHC como a desqualificação das universidades públicas em geral e da liberalização
Fonte: Carta de Uberlândia, Relatório do Encontro da Regional Sudeste do FoRUMDIR, realizado em Uberlândia – MG, em janeiro de 2003.
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da abertura indiscriminada de universidades particulares, representam ações ideológicas claramente voltadas à dimensão da análise crítica necessária à atuação dos educadores. No caso da investida contra o curso de pedagogia, o sentido ideológico foi o de desvalorizar o único espaço nas universidades, ao nível de graduação, que se volta a fazer, intencionalmente, a análise crítica da educação praticada na sociedade. O curso de pedagogia tem conseguido fazer isto com a colaboração e a presença das demais áreas do conhecimento, quando estas se voltam ao estudo da educação5. O projeto político inicial do governo FHC para a educação faliu. Qual era esse projeto e por que faliu? O governo FHC assumiu, politicamente, a área de educação com um projeto que apontava para a expansão quantitativa e melhoria qualitativa da escolaridade básica pública. No momento em que esse projeto estava sendo gestado na campanha para as eleições, os empresários da educação, que sempre tiveram uma fatia enorme na oferta de escolaridade básica, portanto privada, reagiram e colocaram o confronto que se o governo investisse na escolaridade pública de 1º a 8º série, sobretudo e depois no ensino médio, como se viu algumas tentativas, o que sobraria para eles? Então a negociação que a política do governo FHC fez com os empresários da educação foi a de externas, além que procederia à expansão da escolaridade básica de reivindicação histórica da população e dos pública, porque essa era a exigência das agências financiadoras educadores, e que aos empresários da educação seria assegurada a fatia de mercado no ensino superior na formação de professores. É nesse contexto que surgiu criados os ISEs, ao lado do descaso ao ensino
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Esse destaque é importante, porque nem sempre os professores que assumem as disciplinas do curso de pedagogia têm a clareza de que seu objeto é a educação enquanto práxis social. Marcados por sua formação de origem no campo da sociologia, da filosofia, da psicologia, etc., muitas vezes desconhecem o campo da educação e do ensino ou por eles não se interessam.

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superior público, especialmente as universidades. Ilustra essa afirmação o discurso governamental de que as universidades não são capazes de formar professores que se inseriram na escola pública e lá permaneçam. Esse discurso ignora a desvalorização histórica dos salários e das condições de trabalho dos professores, mantida nesse mesmo governo, como o fator preponderante para que os jovens bem formados busquem outras alternativas de inserção profissional6. A falência do projeto inicialmente anunciado, também se atesta pela ignorância a outras medidas que além da valorização salarial dos professores, afetam a melhoria da qualidade do ensino. Assim, repetiuse a ampliação apenas quantitativa da oferta de escolaridade básica e empurrou-se a desigualdade escolar para a exclusão social que se opera quando os certificados não conseguem garantir melhores condições de vida e de trabalho. Nesse contexto, após os oito anos de governo, não se expandiu a escolaridade básica, pública e de qualidade; pelo contrário, estamos assistindo uma desqualificação dos alunos que saem da escolaridade básica, sobretudo pela implantação da progressão continuada, que virou promoção automática. Por outro lado, o mercado para a formação de professores que se esperava com a criação dos ISEs ocorreu de modo muito tímido, frustrando os empresários do ensino. E por que os ISEs não se proliferaram como se esperava? Porque os movimentos dos educadores reagiram fortemente contra essa criação. Mas, sobretudo, porque a população de imediato identificou o seu curso mais visível, o Normal Superior, como um curso superior de segunda categoria, que se identificava, no nome, ao que já conheciam, o Curso Normal médio, e menor em relação ao curso de

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É importante lembrar que o pacto estabelecido pela Conferência Nacional de Educação, promovida pelo MEC e várias entidades civis e governamentais e sindicatos de educadores, em 1993, no governo anterior, para o estabelecimento de um salário mínimo nacional de R$ 300,00, foi ignorado pelo governo FHC.

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pedagogia, quer no âmbito de suas representações sobre esse curso, quer pela maior valorização do diploma de pedagogo nos estatutos do magistério dos estados e municípios. Esse dado cultural os legisladores de então não haviam previsto. Apesar de que em alguns lugares do país ocorreu considerável proliferação de ISEs, em decorrência de uma fragilidade dos cursos de pedagogia na formação de pedagogos e de professores para as séries iniciais. Nesses lugares, o forte empenho do setor de mercado interessado nesse segmento, deu resultado. Nesse contexto, como situar o curso de pedagogia e seus profissionais? 3. Propostas e encaminhamentos Inicialmente, nos parece oportuno tecer considerações sobre a questão da profissionalização e da profissionalidade do pedagogo7. O curso de Pedagogia forma pedagogos. E pedagogo é o profissional que estuda e que se insere na práxis da educação na sociedade. Portanto, vale dizer que esse estudo somente pode ser realizado como pesquisa das manifestações educativas, incluindo o ensino, que ocorrem nas sociedades. Para isso, são necessários os fundamentos de várias áreas do saber, inclusive daquelas que estudam o ensino. Sua inserção profissional será transformadora e propositiva se baseada nesses princípios. E ocorrerá nas instituições educativas existentes e a serem criadas, que não apenas a escola É através do campo profissional, da profissão que se muda o mundo. É através de

Sobre esse tema, ver o excelente texto de Jacques THERRIEN, A Pedagogia no atual contexto de formação, apresentado na Semana de Pedagogia da FEUSP – 2003 (versão em CD Rom) e que subsidia a proposta de Diretrizes do ForumDir no seu item 2. PRESSUPOSTOS E FUNDAMENTOS DA PROPOSTA DE DIRETRIZES CURRICULARES PARA O CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA, especialmente o item O trabalho pedagógico. Ver também o livro de LIBÂNEO J.C., Pedagogia e Pedagogos, para quê?, referido em nota anterior.

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minha inserção profissional, de meu trabalho que crio as condições para sobreviver e para me constituir como ser humano e contribuir para que outros o sejam. Para ampliar essas considerações ao campo dos profissionais professores e pedagogos, vou situar a importância que a pesquisa nas universidades vem atribuindo à questão da profissionalização, da formação e da identidade docente. No início dos anos 90, e um pouco antes, o enfoque sobre a profissão de professor foi acentuada8 com um amplo investimento de pesquisas demonstrando o caráter ideológico da visão de ‘missionário’ que marca a profissão docente e a importância de se valorizar os professores em sua formação, autonomia e condições de trabalho, como mediação para melhoria social e política da qualidade da escolarização. categoria Profissionalização que enquanto a identificação dimensão de uma profissional ultrapassa meramente

corporativista e que coloca esse sentido social da intervenção do professor como uma forma de transformação da sociedade. Nesse contexto, ganha relevância o fato que está ocorrendo com os professores do ensino superior, que não recebem preparo para sê-lo e, muitas vezes, acabam realizando sua atividade de ensinar como simples reprodução de suas temáticas de pesquisa, sem qualquer preocupação com os resultados do ensino na formação de futuros profissionais. Por vezes esses profissionais buscam ajuda junto aos pedagogos, ou Faculdades de Educação, que estão despreparadas para o tema da pedagogia universitária9.

Sobre esses temas ver, por exemplo, BRZEZINSKI, Iria. Pedagogia, pedagogos e formação de professores. Campinas. Papirus. 1996; LIBÂNEO, J.C. Adeus Professor, adeus Professora? São Paulo. Cortez. 1998; PIMENTA, Selma G. Saberes pedagógicos e atividade docente.(org). São Paulo. Cortez. 1999; GUIMARÃES, Valter. Formação de Professores: saberes, identidade e profissão. Campinas. Papirus, 2004.
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Não vou desenvolver esse tema neste texto. Para aprofunda-lo ver o livro de PIMENTA, Selma G. e ANASTASIOU, Lea. Docência no Ensino Superior. São Paulo. Cortez Ed. 2003.

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Essas questões referentes à profissionalização docente reveste-se de grande importância, especialmente quando se trata dos professores das séries iniciais, tradicionalmente desqualificados social e profissionalmente como ´tias´. Por isso, a conquista de se elevar sua formação ao nível superior na LDBEN, em que pesem suas contradições, é indiscutivelmente uma conquista, pois ensinar crianças é tão complexo quanto o pediatra (médico formado em nível superior) cuidar da saúde dessas crianças. Para essa formação, estão aí as universidades e, nelas, o curso de pedagogia. Não seria, pois necessário inventar-se nova instituição! Mas, é preciso re-inventar o curso de pedagogia para dar conta também dessa formação! A valorização profissional de professores enquanto profissionais, coloca a importância de se refletir sobre o significado de se sair de um curso superior sem uma clara identidade profissional. É o que está acontecendo com os pedagogos. É preciso que os cursos assumam a responsabilidade de formar seus pedagogos, com condição legal de inserção no mundo social do trabalho (o que é muito diferente de formálos para o mercado de trabalho), condição para mudarem as formas e os processos de se proceder a educação, o ensino, as políticas de educação de crianças, jovens e adultos, os processos educativos formais e nãoformais, a gestão do ensino e das escolas e instituições educativas e outras demandas sociais necessárias. Penso que o avanço na área da formação de professores, colocando em pauta e apontando caminhos para a construção da identidade docente, dos saberes que o identificam, da profissionalização e da profissionalidade, da formação e das condições de inserção no mundo do trabalho, pode iluminar a área da pedagogia no que se refere à profissionalização do pedagogo, que, a meu ver, não se resume a ser professor das séries iniciais. Da profissão de pedagogo

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Admitindo, pois, que a docência é uma profissão com identidade e estatuto epistemológico próprios, e que em si, o ensino é uma das manifestações da práxis educativa, definir o pedagogo como professor (e das séries iniciais) é reduzir a potencialidade de sua inserção na práxis educativa10. Por outro lado, dizer que enquanto pedagogo ele pode também ser docente das séries iniciais (para o que ele tem que ser formado e preparado, através do conjunto das disciplinas e atividades que compõem o curso, orientadas por docentes de várias áreas que tenham a educação e o ensino como objeto de estudo), significa garantir o único espaço adequado na universidade para a formação dos professores e pesquisadores para esse nível de escolarização (lembrando que o curso normal médio está em extinção e lembrando que onde se faz pesquisa é na universidade). Essas considerações apontam caminhos que poderão orientar a elaboração de diretrizes curriculares nacionais para os cursos de pedagogia que retirem o pedagogo do limbo profissional e identitário em que se encontra. Entendendo que o pedagogo é um profissional que domina determinados saberes, que, em situação, transforma e dá novas configurações a estes saberes e, ao mesmo tempo, assegura a dimensão ética dos saberes que dão suporte à sua práxis no cotidiano do seu trabalho, e que a Pedagogia se aplica ao campo teóricoinvestigativo da educação e ao campo do trabalho pedagógico que se realiza na práxis social, entendo que, o curso de graduação em Pedagogia forma (deva formar) o Pedagogo com uma formação integrada para atuar na docência nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, na Educação Infantil e nas disciplinas pedagógicas dos

Para aprofundar esse tema ver FRANCO, Maria Amélia. Pedagogia como ciência da educação. Campinas. Papirus. 2003; e PINTO, Umberto A. O Pedagogo escolar: avançando no debate a partir de experiência nos cursos de Complementação Pedagógica. In: PIMENTA, S.G. (org) Pedagogia e pedagogos: caminhos e perspectivas. São Paulo. Cortez Ed. 2002.

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cursos de formação de professores e na gestão dos processos educativos escolares e não-escolares, assim como na produção e difusão do conhecimento do campo educacional (cf. item 2. da proposta de Diretrizes, ForumDir, 2004). A meu ver essa proposta de diretrizes, além de avanços construídos pela Comissão de Especialistas11, enfrenta, estrategicamente, a importância da formação dos professores das séries iniciais no curso de pedagogia, único espaço em nível superior para se proceder sua formação com a qualidade desejada, entendendo-a como uma das inserções profissionais possíveis dos pedagogos, e entendendo que essa formação não se reduz a sala de aula, mas inclui a gestão das políticas e dos espaços de ensino e aprendizagem, sejam eles escolares ou não. Portanto, implica a formação de um pedagogo da educação infantil (da criança de 0 a 10 anos). Considerando a complexidade dessa educação, admite-se áreas de aprofundamento para uma formação mais voltada para a criança de 0 a 06 anos (Educação Infantil) e para a criança de 07 a 10 anos (séries iniciais do Ensino Fundamental). Portanto, tendo a pedagogia como base para a formação docente. Um curso de pedagogia não dá conta de formar pedagogos para se inserirem em inúmeras áreas de atuação como hoje se constata com as várias modalidades de currículo existente nas universidades e nas demais instituições de ensino superior. Daí se assumir com tranqüilidade o que seria o essencial da formação do pedagogo, o que o identifica epistemológica e profissionalmente em todo o território nacional. Mas vamos também assumir que sua formação se dá com pesquisa que confronta o real e o produzido sobre o real, que aponta possibilidades e perspectivas de transformação da realidade existente, que supere a visão fragmentada dos espaços escolares e não-escolares. Mas assumir

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Essa Comissão teve como coordenadoras as profas. Dras. Mérion Bordás, diretora da Faculdade de Educação da UFRGS e Yoshie Ussami Ferrari Leite, da UNESP de presidente Prudente.

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que as áreas e demandas específicas, como educação de pessoas com necessidades, educação no campo, de indígenas, para a inserção nas mídias, etc. se faça fora do curso de pedagogia, como aprofundamentos, enriquecimento curricular, especialização, etc., e não necessariamente restritos a pedagogos. Concluo esta minha exposição convidando os colegas a examinar a proposta de Diretrizes Nacionais para os Cursos de Pedagogia (a seguir anexa), elaboradas num amplo processo coletivo de discussão no âmbito do Fórum Nacional de Diretores das Faculdades de Educação das Universidades Públicas – FORUMDIR, que foi entregue ao Conselho Nacional de Educação, em junho de 2004. O FORUMDIR, entendendo-se como um sujeito coletivo com diferentes vozes ressonantes em seu interior, e num consenso possível, propõe uma identidade para os cursos de pedagogia e para os pedagogos de todo o país. Esperamos que o CNE capte a direção de sentido dos encaminhamentos aí postos e siga conosco. Esperamos, também, que com suas experiências e práticas e suas análises críticas destas, os cursos de pedagogia que assumirem esses desafios, possam re-iniciar, em breve, um movimento de re-formulação dos cursos de pedagogia e de suas novas diretrizes. Antes, é preciso fazer e, depois (ou durante), mudar a história.

(anexo)

Minuta de Proposta decorrente de estudos e debates desenvolvidos pelo FORUMDIRFórum de Diretores de Faculdades/Centros de Educação das Universidades Públicas

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Brasileiras, aprovada no XVII Encontro Nacional realizado em Porto Alegre/RS –dezembro de 2003. DIRETRIZES CURRICULARES DO CURSO DE PEDAGOGIA

1.

O

CURSO

DE

GRADUAÇÃO

EM

PEDAGOGIA

NO

CONTEXTO ATUAL Evolução do Curso: dos anos oitenta à atualidade do século XXI Os cursos de graduação em Pedagogia em desenvolvimento no país configuram-se, a partir da meados da década de 80, em duas grandes tendências: 1) obediência ao modelo tradicional, fixado no Parecer CFE 252/69, formando profissionais licenciados habilitados para o exercício da docência das disciplinas pedagógicas nos cursos de Magistério em nível médio e os profissionais licenciados conhecidos como especialistas, para atuarem junto às escolas e sistemas de ensino: administradores escolares, supervisores e orientadores educacionais e inspetores do ensino; 2) implementação de novo modelo, voltado à formação de licenciados habilitados para o exercício do magistério nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e, em alguns casos, na Educação Infantil e para o magistério das disciplinas pedagógicas do nível médio. A implantação desse novo modelo por diferentes instituições de ensino superior foi acolhida pelo CFE, que autorizou as primeiras experiências e, posteriormente, pelo CNE, através de Pareceres específicos. É importante ressaltar que esta segunda tendência – formação de professores - passou a ser dominante na década de 90 ainda que conviva, em muitos casos, com o antigo modelo. Assim, muitas IES
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agregam à habilitação para o magistério, uma ou mais habilitações de especialistas, obedecendo parcialmente ao Parecer CFE 252/69. Este predomínio foi uma decorrência natural do entendimento cada vez mais claro da urgência em prover uma formação em nível superior a novas gerações de professores, como instrumento de aperfeiçoamento profissional e, conseqüentemente, de melhoria do ensino fundamental e da educação infantil do país. Em seu processo de consolidação do novo modelo de curso, boa parte das instituições formadoras tem contemplado o atendimento a demandas sociais específicas com a oferta de disciplinas optativas, enriquecimento curricular, cursos de extensão e desenvolvimento de projetos especiais. Nesta ultima categoria, encontra-se a formação para a docência na Educação de Jovens e Adultos, na Educação Indígena, na Educação para os portadores de necessidades especiais, entre outras, a partir da capacidade instalada e do desenvolvimento da pesquisa das respectivas áreas nessas instituições. ] Ocorre que todas as perspectivas inovadoras que marcam a trajetória dos Cursos de Pedagogia nos últimos quinze anos foram ignoradas pelos reformadores oficiais que instauraram uma nova ordem para a educação do país, a partir da promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases, a LDB nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diante das sucessivas determinações legais que se seguiram à Lei, instituições, entidades de classe e educadores responsáveis pelos cursos de Pedagogia, durante os últimos seis anos, agora foram insistentes na busca de diálogo com o Conselho Nacional de Educação e com o Ministério de Educação, procurando não apenas tornar claros os dados da realidade dos Cursos como explicitar as razões de seu desacordo com os rumos traçados pelas novas políticas governamentais em relação aos mesmos. Os resultados insatisfatórios dessa busca revelam-se, hoje, na confusa e quase insustentável situação legal em
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que se encontram os Cursos de Pedagogia, dada a inexistência de Diretrizes Curriculares Nacionais que os orientem. No sentido de contribuir para encontrar uma saída institucional que responda às expectativas dos educadores e aos interesses da educação básica do país, o Fórum de Diretores de Faculdades/Centros de Educação das Universidades Públicas Brasileiras – FORUMDIR – vem, mais uma vez, apresentar o resultado concreto das discussões realizadas ao longo dos últimos cinco anos, consubstanciado no presente documento. Acreditamos que este representa o máximo de consenso possível ao sistematizar idéias e proposições debatidas nacionalmente nas instituições de ensino superior e nas diferentes entidades que reúnem os profissionais da formação de professores e os pesquisadores da área da educação, bem como incorpora as propostas de diretrizes encaminhadas ao MEC e ao CNE pelas Comissões de Especialistas da Pedagogia, chamadas a manifestar-se formalmente em 1998 e em 2002. Modificações no contexto legal e a situação do Curso de Pedagogia O estabelecimento da Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996 (LDBEN/96) ao criar os Institutos Superiores de Educação (ISEs) e o Curso Normal Superior (CNS), tornou a questão da identidade legal do Curso de Pedagogia em um dos temas mais polêmicos e de complexa regulamentação na área da graduação. Mas gerou, igualmente, situações inadequadas em relação aos demais cursos de formação de professores, as quais merecem ser aqui, destacadas. A caracterização legal dos ISEs, aos quais se atribui a responsabilidade da formação de todos os professores para a Educação Básica, sob a justificativa de integração espacial e pedagógica no
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processo

formador,

mostrou

sua

precariedade

em

termos

de

constituição e titulação acadêmica de seu corpo docente, tornando-os inaptos para o desenvolvimento da pesquisa. Assim, ao separar atividades de formação e atividades de produção de conhecimentos essenciais à docência de cada área, desenvolvida fundamentalmente no ambiente universitário e responsável pelos significativos avanços teóricos na área da Educação nos últimos trinta anos, o novo achado oficial acabou exacerbando o dualismo que caracteriza o modelo de licenciatura ainda vigente. Mesmo admitindo as possibilidades de um currículo melhor definido, mais integrado, abertas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, aprovadas em 2002, é difícil sustentar a hipótese de que os ISEs ultrapassem os limites de uma formação profissional eminentemente prática ou técnica, por não contarem com o indispensável aporte da produção de novo conhecimento. Isto porque os Institutos, na verdade vieram, tão somente substituir, por mera mudança de nome e razão social de mantenedoras, a legião de Faculdades isoladas que formam professores em todas as regiões do país, com uma qualidade menor, senão suspeita. Já em relação ao Curso de Pedagogia, os sucessivos ordenamentos legais que instituíram o Curso Normal Superior como espaço preferencial da formação de professores para os Anos Iniciais e para a Educação Infantil, além de desestabilizar o cumprimento de uma função desempenhada com sucesso nos Cursos desenvolvidos pelas universidades, pretendem consagrar uma indesejável separação entre docentes e especialistas que se ocupariam da gestão educacional. Esta separação é indicadora de uma visão ultrapassada entre o fazer e o pensar a docência e a escola, contraditada na própria LDB/96, como evidenciado no seu Título VI que trata dos “Profissionais da Educação”.

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Curso

basilar

da

formação

acadêmico-científica,

teórico-

investigativa do campo educacional e do trabalho pedagógico, o Curso de Pedagogia passou a ter sua existência ameaçada; quando, através de Decretos e Pareceres do CNE
12

, foi proposto transferir ao Curso Normal

Superior sua competência de formar professores para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental e/ou para a Educação Infantil. Mais ainda, as vozes oficiais insistiram em fundamentar sua proposta excludente no disposto no Art. 64 da LDB/96 pretendendo atribuir ao Curso apenas a responsabilidade em formar os profissionais especializados nas áreas de coordenação, administração, planejamento, orientação, etc.. O entendimento do referido artigo decorre de leitura enviesada, pois atribuir ao Curso de Pedagogia a responsabilidade dessa formação de nenhum modo implicaria impedi-lo de formar os profissionais do ensino, como vinha e segue fazendo. De qualquer modo, a insistência em descaracterizar o Curso, sem considerar o caminho por este percorrido em mais de quinze anos de trabalho inovador, aliada à resistência por parte do MEC e do CNE em definir as Diretrizes nacionais para a Pedagogia, a partir da contribuição apresentada em 1998 e reapresentada em 2001 pelas Comissões de Especialistas da área que atenderam ao chamado da SESu/MEC, em Edital de 1997. A proposta das Comissões orientou-se pelos pontos de vista dos educadores de todo o país, congregados em diferentes associações e entidades e nos dados recolhidos em estudos e pesquisas desenvolvidos desde a década de oitenta. Constatamos que o extenso período decorrido entre o Parecer 252/69 e o momento atual tornou possível não apenas uma ampla e aberta discussão entre os educadores, nas instituições e em seus movimentos organizados, como também a implementação de inúmeras
12. Decretos nºs 3276/99 e 3 554/00, Pareceres CNE/CP 0009/2001, 028/2001, Resoluções CNE/CP NºS 1/2002 E 2/2002.

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experiências praticadas nas diversas instituições de Ensino Superior Universitárias que formam o pedagogo, além da produção de novos conhecimento através da pesquisa realizada em contextos escolares e não-escolares. Esse movimento de experimentações e de pesquisas possibilitou a que se chegasse a uma clara explicitação da identidade dos cursos de pedagogia e do pedagogo: A Pedagogia se aplica ao campo teórico-investigativo da educação e ao campo do trabalho pedagógico que se realiza na práxis social. Assim, o curso de graduação em Pedagogia oferece ao pedagogo uma formação integrada para exercer a docência nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, na Educação Infantil e nas disciplinas pedagógicas dos cursos de formação de professores e para atuar na gestão dos processos educativos escolares e não-escolares bem como na produção e difusão do conhecimento do campo educacional.

2.– PRESSUPOSTOS E FUNDAMENTOS DA PROPOSTA DE DIRETRIZES CURRICULARES PARA O CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA. Fundamentar a proposta de Diretrizes Curriculares do Curso de Pedagogia pressupõe identificar os pilares sobre os quais se efetua o cotidiano do processo educacional. Dois elementos básicos condicionam sua direção: os conteúdos que caracterizam esse campo científico e os profissionais que lhe dão efetividade, ou seja, a dimensão teórica que lhe dá sustentação e a dimensão prática do seu acontecer. Concebendo a pedagogia na base do que move o processo educacional no cotidiano, ou seja, o seu saber-fazer situado em contexto de interação de humanos com humanos, essas duas vertentes são essencialmente integradas e inseparáveis. Essa compreensão aponta, portanto, para
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uma práxis transformadora repleta de intencionalidade que se expressa na conceituação de trabalho voltado para a emancipação profissional e humana de sujeitos. O trabalho pedagógico Privilegiar o ângulo do trabalho, da ação como vetor

epistemológico e sociológico de análise do fazer cotidiano do pedagogo significa focalizar o profissional na sua práxis, destacando sua relação essencial com o ‘saber situado’ em contexto pedagógico-didático. Significa igualmente compreender os processos de aprendizagem como interações de sujeitos em contexto de cognição situada. A noção de práxis destaca o trabalho do profissional de pedagogia focalizando os seus fins, ou seja, sua função mediadora de construção de saberes junto a outros sujeitos em processos de formação que, de modo reflexivo, têm acesso ao conhecimento tornando-se igualmente sujeitos transformadores. Trata-se de uma função eminentemente profissional fundada numa concepção de educação como ciência objetivando os processos de aprendizagem para a emancipação social e profissional do ser humano. A natureza pedagógica das atividades desse profissional é vinculada a objetivos educativos de formação humana e a processos metodológicos e organizacionais de apropriação, re-elaboração e produção de saberes e modos de ação. O trabalho do pedagogo é impregnado de intencionalidade, pois que visa a formação humana através de conteúdos e habilidades de pensamento e ação, implicando escolhas, valores e compromissos éticos, ao mesmo tempo em que procede a transformação pedagógico-didática dos conteúdos da ciência ou técnica que ensina.

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O Profissional de Pedagogia e seus Saberes A noção de trabalho como práxis é incompreensível sem o sujeito dessa ação intencional. Ao conceber que a formação do pedagogo deve prepará-lo para o trabalho pedagógico na docência e na gestão educacional, faz-se necessário focalizar os conteúdos dessa formação. Seu currículo de formação, compreendido como conjunto de atividades, disciplinas e posturas, graças às quais ele pode incorporar, desenvolver e se apropriar de conteúdos formativos, induz à concepção de um profissional com uma tríplice relação do seu trabalho ao saber: o pedagogo é um profissional que domina determinados saberes, que, em situação, transforma e dá novas configurações a estes saberes e, ao mesmo tempo, assegura a dimensão ética dos saberes que dão suporte à sua práxis no cotidiano do seu trabalho. Essa tríade - domínio de saberes, transformação de saberes e atuação ética - é inseparável nos processos de formação desse profissional. A base de conhecimentos do pedagogo Numa primeira dimensão, o pedagogo trabalha com uma pluralidade de saberes já definidos e produzidos e que constituem parte insubstituível do repertório de informações de que deve dispor e ter domínio para o exercício de sua profissão. Dentre estes destaca-se, inicialmente, um conjunto de saberes que lhe proporcionam condições de leitura do mundo nos múltiplos olhares que a ciência desenvolve. São os saberes situados na confluência da teoria da educação e da pedagogia e das demais ciências: sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, história, política, linguagem, ciências exatas e da natureza, ciências da saúde, para exemplificar alguns dos campos da ciência aos
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quais o pedagogo, sem ser um profissional da área, deve ter iniciação. Sua familiarização com esses, na perspectiva da inter e transdisciplinaridade, capacita-o a proceder à leitura do mundo onde se situa e atua cotidianamente, construindo os saberes educacionais de uma pedagogia de emancipação humana que a função de gestão educacional requer. Uma segunda dimensão de saberes próprios ao pedagogo e à profissão que exerce diz respeito ao campo específico da pedagogia e da gestão pedagógica propriamente dita. São os saberes que caracterizam e fundamentam os processos de ensino-aprendizagem, suas teorias, as determinações legais necessárias ao exercício da docência, e particularmente o conjunto de saberes necessários à gestão educacional entendida como a organização do trabalho em termos de planejamento, coordenação, acompanhamento e avaliação nos sistemas de ensino e em processos educativos escolares e não escolares, bem como o estudo e a formulação de políticas públicas na área da educação. Uma terceira dimensão de saberes próprios ao pedagogo, integrados organicamente aos demais, refere-se aos saberes de cada uma das áreas específicas de trabalho docente. Assim, a docência na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental, com seus fundamentos, conteúdos e métodos, constitui lócus de práxis onde o pedagogo exercita cotidianamente sua função pedagógica e amplia seu reservatório de experiências – seu saber experiencial aplicado à reflexão na pesquisa do cotidiano. A estes podem se acrescentar saberes de disciplinas optativas para o atendimento a demandas específicas (educação de jovens e adultos, educação de portadores de necessidades especiais, educação em sistemas sociais ou empresariais, educação popular, entre outras). Estas poderão, também, ser objeto de cursos de especialização após a conclusão do curso de pedagogia.

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Finalmente, não podem ser negligenciados os saberes construídos na experiência cotidiana da trajetória pessoal de vida social e cultural, de formação e particularmente de trabalho profissional, os quais moldam a identidade do repertório de saberes disponíveis. Um produtor de saberes Mediador de saberes no processo de ensino-aprendizagem, o profissional de pedagogia desenvolve uma segunda relação com o saber como sujeito O que, desafio além da de trabalhar com saberes e da múltiplos e heterogêneos, produz saberes. gestão pedagógica transformação pedagógica da matéria em situações reais de prática e de tomada de decisão na sala de aula ou em outros espaços educativos obriga o pedagogo a gerar ou produzir saberes quando articula adequada e criativamente seu reservatório de saberes num determinado contexto de interação com outros sujeitos, alunos na ecologia da classe ou em diferentes contextos de trabalho. Essa necessidade de re-traduzir e transformar os saberes de que dispõe, sejam eles de origem científica ou de outras fontes da experiência reflexiva no cotidiano de trabalho, situa o pedagogo na categoria de sujeito hermenêutico produtor de sentidos. Não se trata de uma capacidade inata ou meramente espontânea, mas de uma real competência que a reflexão para, na e com a ação potencializa cada vez mais. A formação inicial assim como a formação continuada do pedagogo pesquisador possibilita o desenvolvimento do disciplinamento necessário à reflexão individual e coletiva essencial para uma prática reflexiva e transformadora.

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Um sujeito ético Enfim, o terceiro elemento da tríplice relação do profissional de pedagogia com o saber diz respeito às implicações éticas do trabalho pedagógico. O contexto de interação dos processos educacionais, seja ele na sala de aula ou em outros ambientes educativos, envolve, além dos saberes aos quais nos referimos, fenômenos tais como a complexidade, a imediaticidade, a incerteza, a instabilidade e a singularidade da situação, a deliberação individual e coletiva, além de conflitos de valores, entre outros. As direções dadas aos processos de gestão pedagógica e de ensino-aprendizagem situam-se num patamar ético porque envolvem com teor tomadas de decisão, direcionamento, de afetar a de intervenções A político-ideológico situada suscetíveis três

concepção de vida e mundo dos sujeitos envolvidos. ação pedagógica conjuga modalidades elementos: os saberes de uma ação objetiva definida pelo objeto de aprendizagem ou de gestão; os saberes de uma ação estratégica que o contexto de tomada de decisão condiciona; e, os saberes de uma ação interativa de sujeitos que inclui subjetividades e individualidades a serem respeitadas. da A autonomia pedagógica relativa do pedagogo seus limites no na encaminhamento ação encontra

normatividade ética fundada na emancipação humana. É essencial, nos processos de formação, compreender e reconhecer que a dimensão ética do trabalho pedagógico tem suas raízes no compromisso coletivo elaborado na construção do projeto político-pedagógico da instituição, da escola ou do curso, e assumido individualmente por todo educador que participe da comunidade de ação. Assim emerge a função de compromisso do pedagogo com a escrita da história de cada sujeito no mundo onde vive como cidadão situado numa nação.

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É nesta perspectiva que a tríplice relação ao saber – a base de conhecimentos conhecimentos como segue: • Um profissional que na escola conheça os caminhos da do e pedagogo, sua atuação sua atuação como a produtor de ética funda característica

eminentemente profissional do trabalho do pedagogo, sistematizada

prática docente ou atue como tal, saiba trabalhar no coletivo, participar e envolver-se com a equipe pedagógica na construção de projetos educativos, saiba analisar a contextualidade das práticas, estar sintonizado com processos de construção da identidade docente, mediatizar o diálogo entre o contexto escolar e o social. • outras Um instâncias professor-pesquisador sociais onde a dos caminhos transita, de apto, humanização dessa prática e que tenha os olhos voltados para educação portanto,a coordenar processos emancipatórios de reflexão sobre a prática; a analisar e incorporar criativa e coletivamente os produtos do processo reflexivo; capaz de perceber a complexidade de sua ação, decidir na diversidade e trabalhar integrando afetividades, sentimentos e cognição, pautado por compromissos éticos transparentes e discutidos; um pesquisador que saiba formar pesquisadores. • Um professor-pesquisador com possibilidades de intervenção pedagógica nas práticas sociais fora da escola, para tanto sabendo analisar os condicionantes históricos de cada contexto saiba social, integrar-se dentro dos nas questões do coletivas da humanidade; que seja um leitor e consumidor de cultura; que trabalhar princípios planejamento

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participativo; que saiba lidar e gerenciar projetos e processos educativos. Processos de Formação do Profissional de Pedagogia: indicativos para a estrutura curricular do curso de Pedagogia Considerando-se que o pedagogo é um profissional que domina determinados saberes, que, em situação, transforma e dá novas configurações a estes saberes e, ao mesmo tempo, assegura a dimensão ética dos saberes que dão suporte à sua práxis no cotidiano do seu trabalho, sua formação assenta-se em três pressupostos: construção do conhecimento e pesquisa; formação integrada e trabalho em equipe; articulação entre teoria, prática e experiência profissionais. O percurso do processo de formação para a competência profissional do pedagogo condiciona, de certo modo, a construção dos saberes que dão conteúdo e forma à sua práxis. Atividades, tarefas e estratégias diversas predispõem o alcance dos objetivos de formação dentro dos princípios e pressupostos já estabelecidos. Construção do Conhecimento e Pesquisa Dominar conhecimentos não se refere apenas à apropriação de dados objetivos pré-elaborados, produtos prontos do saber acumulado. Mais do que produtos, trata-se de processos, ou seja, da própria produção dos conhecimentos. Todo conteúdo de saber é resultado de uma construção de conhecimento e, portanto, ensino e aprendizagem se constituem, em última análise, em um processo de pesquisa. O curso de formação do pedagogo configurará a pesquisa como princípio cognitivo e formativo, conduzindo os estudantes a

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investigarem a realidade escolar e demais espaços educativos, neles desenvolvendo essa atitude em suas atividades profissionais. Nesse sentido, a introdução do Trabalho de Conclusão de Curso, articulado preferencialmente às atividades desenvolvidas nas práticas pedagógicas (de ensino) e nos estágios supervisionados, e à participação em diferentes projetos educativos desenvolvidos pela instituição formadora, pode constituir-se em instrumento que possibilita a formação na pesquisa fundada na possibilidade de intervenção e transformação das práticas educativas que ocorrem na sociedade. Por esta razão, os ambientes de formação do pedagogo devem propiciar, ao mesmo tempo, vivências reais da prática educativa, assim como garantir familiaridade com as práticas científicas e tecnológicas direta ou indiretamente envolvidas. Também o exercício crítico, o desenvolvimento de atitudes e valores, a promoção do sentido maior de cidadania, são mais ampla e efetivamente realizados diante de situações reais, que podem igualmente ser encontradas ou suscitadas nas condições de formação. Para isso, é preciso assegurar que o currículo contemple estudo de metodologia de pesquisa, seminários de discussão/análise das práticas, dentro de um movimento geral de realização de trabalhos coletivos. Formação Integrada: trabalho em equipe A complexidade da educação como prática social não permite tratá-la como fenômeno universal e abstrato, mas sim imerso num sistema educacional, em uma dada sociedade e em um tempo histórico determinado. Uma organização curricular propiciadora disso tem que partir da análise do real com o recurso das teorias, da cultura pedagógica, para propor e gestar novas práticas, num exercício coletivo de pesquisa e de criatividade.
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O

currículo

para

a

formação

do

pedagogo

deve

ser

simultaneamente, multidisciplinar, ou seja, estar fundado numa série de disciplinas autonomamente constituídas, mas também interdisciplinar ou transdisciplinar, no sentido de que determinado saber sobre determinado objeto ou situação não resulta apenas da soma de elementos fornecidos pelas várias disciplinas, mas de sua articulação numa concorrência solidária que transcende cada uma das disciplinas para a construção do conhecimento. Estas exigências também devem estar presentes na implementação das atividades de prática pedagógica. Assim, o trabalho em equipe não é uma alternativa opcional, é uma necessidade intrínseca da complexidade dos processos de ensinar e de aprender. Os estágios supervisionados devem, igualmente, preparar para o exercício coletivo da docência e da gestão, na perspectiva de que as demandas e tarefas do cotidiano escolar precisam ser compreendidas e respondidas como exigências a serem coletivamente elaboradas, executadas e acompanhadas. As experiências docentes dos alunos que já atuam no magistério devem ser valorizadas como referências importantes a serem discutidas e refletidas nas aulas, programando seu aproveitamento como outra mediação de seu processo formativo. Articulação entre teoria, prática e experiência profissionais A integração entre a teoria e a prática é exigência do processo de formação do pedagogo. Daí a necessidade de que o currículo envolva um contínuo e permanente processo de prática de ensino, entendida esta como mediação de ensino e de aprendizagem no âmago do qual o fazer concreto, orientado pelo saber teórico, possa integrar e consolidar a formação do profissional.

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Os espaços da prática educativa, as escolas e outras instâncias existentes num tempo e num espaço, são o campo de atuação dos pedagogos (os já formados e os em formação). O conhecimento e a interpretação desse real existente devem constituir o ponto de partida dos cursos de formação (inicial e contínua), uma vez que se trata de dar instrumentos aos futuros pedagogos para sua atuação profissional. Os currículos dos cursos de formação de pedagogos serão assim organizados garantindo uma articulação direta com as escolas e demais instâncias educativas da sociedade, num projeto que contemple a análise dos saberes nelas praticados como recurso para o preparo dos futuros pedagogos, bem como para a organização de programas de formação continuada dos profissionais dessas instâncias. Por isso, é importante desenvolver nos alunos, futuros pedagogos, habilidades para o conhecimento e a análise das escolas e demais espaços institucionais onde ocorre o ensino e a aprendizagem, bem como das comunidades onde se inserem. Da mesma forma, a utilização e a avaliação de técnicas, métodos e estratégias de ensinar em situações diversas, a habilidade de leitura e reconhecimento das teorias presentes nas atividades escolares e não escolares, são conhecimentos a serem mobilizados nas diferentes situações de aprendizagem oferecidas pelo curso. As práticas pedagógicas/de ensino, que culminam com os estágios supervisionados, comporão o currículo do curso de formação de pedagogos, entendidas como espaços interdisciplinares, com clara definição de responsabilidades para sua organização e supervisão. Terão por finalidade proporcionar o conhecimento da realidade educativa através da pesquisa, envolvendo o estudo, a análise, a problematização, a reflexão e a proposição de soluções às situações de ensinar, aprender e de elaborar, executar e avaliar projetos e programas educativos, não
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apenas nas salas de aula, mas também na escola e demais ambientes sociais voltados à educação e ao ensino. Ocorrerão, portanto, desde o início do curso, possibilitando que a relação entre os saberes teóricos e os saberes das práticas se efetive durante todo o percurso da formação, garantindo, inclusive, que os alunos aprimorem sua escolha profissional a partir do contato com as realidades de sua profissão. Para isso, é importante a realização de projetos conjuntos entre as escolas de formação e as escolas dos sistemas, entre seus professores, alunos e coordenadores.

3.

O

CURSO

DE

PEDAGOGIA PARA

QUE AS

PENSAMOS

E

CONSTRUÍMOS.-

PROPOSTA

DIRETRIZES

CURRICULARES NACIONAIS. A Pedagogia se aplica ao campo teórico-investigativo da

educação e ao campo do trabalho pedagógico que se realiza na práxis social. Assim, o curso de graduação em Pedagogia forma o Pedagogo com uma formação integrada para atuar na docência nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, educativos na Educação e Infantil e nas assim disciplinas como na pedagógicas dos cursos de formação de professores e na gestão dos processos escolares não-escolares, produção e difusão do conhecimento do campo educacional. Nesse sentido, constituem-se como áreas integradas de formação profissional do Pedagogo, suportadas na teoria e na pesquisa do campo da pedagogia e da educação: a) Docência na Educação Infantil, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e nas disciplinas pedagógicas para a formação de professores (e em outras áreas emergentes do campo educacional).
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b) Gestão Educacional,

entendida como a organização do

trabalho em termos de planejamento, coordenação, acompanhamento e avaliação nos sistemas de ensino e em processos educativos escolares e não-escolares, bem como o estudo e a formulação de políticas públicas na área da educação. As instituições formadoras deverão enfatizar a especificidade dos projetos de formação para a docência e a gestão nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e na docência e gestão da Educação Infantil de modo a superar a compreensão de que um possa ser entendido como mero complemento do outro, sem, contudo, negar os inúmeros pontos de confluência e de aproximação existentes nos processos de formação de pedagogos para atuação nos dois níveis de escolarização. Nessa perspectiva, as instituições de ensino superior que oferecerem, no âmbito do seu Curso de Pedagogia, a formação para atuar nos dois âmbitos, explicitarão em seu projeto político-pedagógico a especificidade dessas áreas de formação, bem como os percursos formativos a elas correspondentes, de modo a contemplar a inegável especificidade e complexidade de que se reveste a educação da criança de 0 a 10 anos e, em decorrência, a dos espaços escolares e nãoescolares nos quais se dá sua educação. A depender e de sua capacidade produção institucional de com pessoal sobre a

especializado

comprovada

conhecimento

educação da criança e dos adolescentes em fase de escolaridade inicial, as instituições poderão oferecer o Curso de Pedagogia com formação para Docência na Educação Infantil e Gestão ou para Docência nos Anos Iniciais e Gestão. Nesses casos, a carga horária mínima de integralização de cada projeto será fixada em 3.200 horas, observado o tempo mínimo de integralização de 4 anos.
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A possibilidade de exercer a docência das disciplinas pedagógicas na formação de professores é garantida pela configuração específica do Curso de Pedagogia, que ao garantir aos estudantes uma apropriação consistente dos conhecimentos básicos que fundamentam os processos educativos e ações de ensino, distingue-se dos cursos de Licenciatura que formam professores para atuar a partir do quinto ano do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. A formação de educadores para atuar no atendimento a demandas específicas, em nível dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (Educação de jovens e adultos, Educação indígena, Educação Especial, destinada aos portadores de necessidades especiais) ou, ainda, em novos espaços educativos, (Pedagogia na empresa, Pedagogia em espaços culturais, Pedagogia nas Mídias, Pedagogia da Educação do Campo, Pedagogia na área da saúde, etc.) dar-se-á de forma suplementar, através de disciplinas optativas, enriquecimento curricular, cursos de extensão, de especialização, projetos especiais e outras modalidades, sempre a partir da identificação das demandas e da capacidade instalada nas instituições em termos de pessoal docente e de conhecimento que se produz nas suas áreas de pesquisa, não configurando, portanto, campo profissional específico aos graduados no Curso de Pedagogia. Orientado por estas Diretrizes o Curso de Pedagogia supera: • • a dicotomia bacharel e licenciatura; as habilitações fragmentadas e técnicas características

da peça legal anterior ( Parecer CFE 252/69);

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a tendência a ficar reduzido a um curso de formação

do professor para os anos iniciais do Ensino Fundamental; e/ ou Educação Infantil • a tendência em se inflar o curso de pedagogia com inúmeras habilitações ou especializações desfigurando o campo do trabalho pedagógico e investigativo-teórico da educação. Essa definição das Diretrizes do Curso de Pedagogia se justifica como segue: a) A docência e gestão nos anos iniciais e na

educação infantil constituem um campo teórico-investigativo historicamente produzido pelos estudos no campo da Pedagogia e nas esferas dos cursos de pedagogia. Estes representaram um avanço em relação à então habilitação Magistério desenvolvida no ensino médio, uma vez que esta não estava dando conta da complexidade que envolve a educação das crianças e a gestão dos processos educativos escolares e nãoescolares que envolvem sua formação nessas faixas de escolarização. Essa habilitação, como as inúmeras pesquisas revelam, vinha e ainda vem formando um professor ‘com pouca educação’, ou seja, com uma formação de técnico do ensino, restrito à sala de aula, sem condições de lidar com os determinantes escolares, dos sistemas de ensino, da comunidade, sem condições para pesquisar os problemas de sua ação nos contextos nos quais se realiza, para propor transformações nos programas de ensino, nos currículos escolares, no trabalho pedagógico, no planejamento e na gestão das escolas e dos sistemas de ensino. Vários cursos de pedagogia, especialmente os das Universidades, ao formarem o
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professor, têm possibilitado essa compreensão mais ampla dos processos educativos através dos fundamentos da teoria pedagógica e da gestão educacional e da pesquisa da realidade escolar, incluindo a de sala de aula. b) O curso de graduação em pedagogia constitui o único espaço universitário de formação de professores para os anos iniciais e para a educação infantil, nos quais a pesquisa é um componente essencial de formação desse professor. c) O curso de graduação em pedagogia constitui um espaço no qual a formação dos professores dos anos iniciais e da educação infantil se dá na sua integralidade, diferente da formação dos professores que requer que para se as demais conjunto aos etapas entre da os escolaridade, projeto

institutos/departamentos científicos específicos. d)

voltam

conteúdos

O curso de pedagogia, dada sua identidade

téorico-investigativa do campo da educação e do campo do trabalho pedagógico na práxis social, forma seus profissionais com condições de desenvolverem as disciplinas pedagógicas nos diversos cursos e programas de formação de professores.

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RESOLUÇÃO CNE/CP ...................de 2004

, de .................de

Dispõe sobre Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação do Pedagogo no Curso de Pedagogia, em nível superior, graduação plena, considerados os Art.62, 63 e 64 da Lei 9.394/96 e o Art. 9º, par. 2º, alíneas “c” e “h” da Lei 4.024/61, com a redação dada pela Lei 9.131/95.

O Presidente do Conselho Nacional de Educação, no uso de suas atribuições legais e tendo em vista o disposto no................................................................................... ..................................................................................................... ........................ RESOLVE : ART.1º As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Pedagogos, em nível superior, em curso integrado de graduação plena, constituem-se em um conjunto de princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados na organização institucional e curricular de cada instituição de ensino superior. ART.2 A preparação do profissional de pedagogia se dará numa dimensão integrada e indissociável para o exercício da docência e para a gestão dos processos educativos escolares e não-escolares assim como para a produção e difusão do conhecimento do campo educacional.
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ART.3. Constituem-se em dimensões integradas e indissociáveis à formação profissional do Pedagogo: - Docência na Educação Infantil, nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, nas Disciplinas Pedagógicas para a Formação de professores e em outras áreas emergentes no campo educacional. - Gestão Educacional entendida como a organização do trabalho pedagógico em termos de planejamento, coordenação, acompanhamento e avaliação dos processos educativos escolares e não escolares e dos sistemas de ensino, como também o estudo e a participação na formulação de políticas públicas na área de educação. ART. 4. A formação do pedagogo se dará em cursos de pedagogia organizados nas seguintes áreas: - Docência na Educação Infantil e Gestão Educacional; Docência nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Gestão Educacional Par. 1º A formação para o exercício da docência nas Disciplinas Pedagógicas para formação de professores será garantida pela organização curricular de cada área, calcada nos conteúdos básicos que fundamentam os processos educativos Par. 2º . As instituições formadoras poderão optar por oferecer uma ou mais áreas do Curso, estabelecendo Projetos Acadêmicocurriculares específicos, de acordo com as necessidades e prioridades locais e/ou regionais, resguardando, em qualquer caso, a integração entre as dimensões da Docência e da Gestão Educacional. .

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Par.

.

As

instituições

formadoras

poderão

oferecer

integradamente, em seu Projeto Acadêmico-Curricular específico, Curso de Pedagogia contemplando a formação para os diferentes níveis de docência e gestão educacional, respeitados os mínimos de carga horária e duração estabelecidos no Art. 12 desta Resolução. ART. 5. A formação integrada dos pedagogos que atuarão na docência e na gestão de processos educativos escolares e não escolares, obedece a princípios norteadores fundamentados na práxis profissional: • em sua • tríplice • O trabalho pedagógico voltado à formação humana, estreita relação com os saberes profissionais,

considerados em sua tríplice dimensão: social, ética e técnica; A interação teoria-prática como elemento fundador da relação O entre o trabalho pedagógico das e os saberes e

indispensáveis ao exercício da docência e da gestão educativa; (re)conhecimento características determinantes da realidade educativa escolar e não-escolar, percebidos na vivência do cotidiano das escolas e de outros ambientes educativos. • A pesquisa como princípio cognitivo e formativo, eixo da organização e desenvolvimento do currículo para a docência e para a gestão. • A integração dos conhecimentos nas perspectivas multi e transdisciplinar, capazes de promover a complementaridade dos saberes para o entendimento da complexidade do real. • O trabalho coletivo como base para a estruturação e condução das atividades desenvolvidas em ambientes educativos escolares e não escolares. •

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ART.6. O(s) Projeto(s) Acadêmico-Curricular(es) do curso de Pedagogia será(ão) estruturado(s) tendo como eixos articuladores da dinâmica do currículo a relação teoria-prática e a produção de conhecimento sobre a realidade da escola, o trabalho docente, os processos de aprendizagem, respeitadas a necessária diversidade sóciocultural no âmbito nacional e a especificidade eleita pela instituição formadora. ART. 7. O todo orgânico em que se constitui(em) o(s) projeto(s) acadêmico-curricular(es) de cada área desenvolvida no curso deverá abranger e articular conhecimentos que conduzam à reflexão crítica sobre (i) contextos (ii) (iii) (iv) (v) educação, escola e sociedade no contexto sócioespecificidades da docência e dos processos de organização e gestão de sistemas, escolas, econômico-cultural brasileiro e mundial; ensino e aprendizagem; projetos e experiências educativas escolares e não escolares; produção do saber científico e tecnológico no campo educacional. ART. 8. Os conhecimentos que constituem o(s) projeto(s) acadêmico-currícular(es) do Curso de Pedagogia serão organizados em núcleos, que articularão o saber científico, a pesquisa e as práticas educativas, considerando as dimensões ética e estética da educação: a construção do pensamento pedagógico e seus

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l. Núcleo de conteúdos básicos, que propõe a reflexão crítica sobre sociedade, educação, escola, profissional da educação e compreende estudos referidos: (i) à construção contexto estudos histórica do campo e teórico e

investigativo da pedagogia; (ii) ao abrangendo: histórico sócio-cultural, políticos, filosóficos, históricos,

econômicos, sociológicos, psicológicos e antropológicos que fundamentam a compreensão da sociedade; (iii) ao contexto sócio-histórico do desenvolvimento do campo educacional e da criação dos cursos de Pedagogia no Brasil; (iv) ao exercício profissional em contextos escolares e nãoescolares; (v) à escola como espaço específico do processo educacional educativo. 2. Núcleo(s) de conteúdos relativos ao exercício da docência e da gestão educacional, compreendendo o estudo: (i) de teorias pedagógicas em articulação com as de ensino, tecnologias de informação e considerando o trabalho como princípio

metodologias

comunicação e suas linguagens específicas aplicadas ao ensino e à aprendizagem; (ii) dos conteúdos específicos que compõem os currículos dos níveis de ensino em que irão atuar os pedagogos, articulados às respectivas metodologias, decorrentes da (s) opção (ões) da instituição formadora;
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(iii) dos escolares;

processos

de

organização

do

trabalho

pedagógico e gestão em espaços e sistemas escolares e não(iv) das relações entre educação e realidade social em suas diferentes manifestações; (v) das relações e tensões constitutivas do exercício profissional e da participação política dos profissionais da educação em âmbitos escolares e não-escolares. 3. Complementação da formação (Atividades acadêmicocientífico-culturais) O(s) projeto(s) acadêmico-curricular(es) incluirá(ão) estudos com vistas ao aprofundamento e/ou diversificação da formação profissional e atividades que incentivem a autonomia do futuro profissional, sob a forma de: (i ) articular a Tópicos formação especiais a de estudo, para atender do a

interesses dos estudantes e as diferentes demandas sociais e aspectos inovadores mundo contemporâneo; (ii) Estudos independentes, reconhecidos pelas e/ou atividades pelos acadêmicas estudantes formadoras, e como

realizados

instituições

integrantes do currículo de cada aluno, em termos de integralização da carga horária mínima exigida. ART. 9 A Prática Pedagógica, concebida no trabalho coletivo da instituição formadora e entendida como eixo articulador da produção
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de conhecimento sócio-educacional, constitui-se em espaço privilegiado de integração teórico-prática do(s) projeto(s) acadêmico-curricular(es) do curso e em instrumento de aproximação e inserção do estudante à realidade social e pedagógica dos espaços educativos escolares e nãoescolares e ao cotidiano do trabalho de docência e de gestão educacional. Par. 1º. A Prática Pedagógica envolve distintas atividades que podem ser concomitantes ou seqüenciais ao longo do desenvolvimento do curso, articuladas aos diferentes núcleos de conteúdo que compõem o currículo e organizadas em distintos níveis de complexidade, a partir do início do Curso. Par. 2º A Prática Pedagógica deve assegurar aos estudantes as condições para: (i) (ii) (iii) gradativa aquisição de conhecimentos pela iniciação às atividades de pesquisa; intervenções planejadas e acompanhadas

inserção no contexto do sistema educativo e da escola;

de iniciação profissional junto às escolas e/ou outras instâncias educativas; (iv) (v) desenvolvido Resolução. planejamento e desenvolvimento progressivo do Trabalho de Conclusão do Curso (TCC) vivência de prática profissional de docência nas áreas de atuação previstas nesta e gestão educacional mediante Estágio Supervisionado

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Par. 3º. A Prática Pedagógica, sob a forma de Estágio (s) Supervisionado (s) realizado (s) a partir da metade do curso, implica a inserção efetiva do estudante nas atividades de docência, como regente de classe ou grupo de alunos e/ou nas atividades referidas à gestão da escola, do sistema de ensino ou a outra instância educativa não-escolar. ART. 10. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) deve decorrer da reflexão sobre as experiências propiciadas pelos diferentes conteúdos e práticas pedagógicas desenvolvidas ao longo do curso, incluindo o Estágio Supervisionado. ART. 11. A instituição formadora estabelecerá, em seu(s) projeto(s) acadêmico curricular (es) adequados mecanismos de orientação, acompanhamento e avaliação das atividades da Prática Pedagógica e daquelas relacionadas à produção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). ART. 12 A carga horária mínima do Curso de Pedagogia será de: - 3.200 horas, quando se tratar da opção por apenas uma das áreas previstas no Artigo 4 desta Resolução; - 800 horas a mais, no mínimo, para a área adicional a qual a instituição optar, a fim de complementar a formação integrada nas áreas previstas no Artigo 4 desta Resolução Par. Único : Em qualquer dos casos, o tempo mínimo de integralização do Curso será de no mínimo 04 (quatro) anos e no máximo de 07 (sete ) anos. alternativa

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Par. Único – O tempo de integralização, para cada uma das áreas básicas do Curso – Docência e Gestão dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental ou Docência e Gestão na Educação Infantil, será de no mínimo quatro (04) anos e no máximo de sete (7) anos.

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