UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE PESQUISAS HIDRÁULICAS DEPARTAMENTO DE OBRAS HIDRÁULICAS

IPH 214 - TRATAMENTO DE ÁGUA
Qualidade das águas naturais Introdução ao Tratamento de Água para consumo humano

(Pontos 1 e 2)

Profa Carmen Maria Barros de Castro

PONTO 1 - QUALIDADE DA ÁGUA 1.1 A ÁGUA NA NATUREZA A água é o constituinte inorgânico mais abundante na matéria viva: no homem, mais de 70% de seu peso é constituída por água, e em certos animais aquáticos esta proporção pode chegar a 98%. O nosso planeta tem quase ¾ de sua superfície coberta por água, continuamente movimentada através do ciclo hidrológico (Figura 1), que tem na irradiação solar a sua principal fonte de energia e na evaporação e precipitação as suas principais forças condutoras. O escoamento ou deflúvio superficial, o escoamento subterrâneo ou infiltração e a transpiração são os demais estágios deste ciclo.

Figura 1. 1 – Ciclo hidrológico O volume de água movimentado através deste ciclo é estimado em aproximadamente 1370 km3, distribuídos entre mananciais superficiais (rios, lagos e reservatórios); mananciais subterrâneos (fontes, poços rasos e profundos, galerias de 2

infiltração, drenos) e mananciais meteorológicos (águas de chuva, granizo e neve). Deste volume mais de 97% é água salgada, não utilizável para agricultura, uso industrial ou consumo humano. Dos 3% de água doce existente, apenas 0,3% aproximadamente é aproveitável ou de extração mais fácil, pois a maior parte encontra-se presente na neve, gelo ou em lençóis subterrâneos situados abaixo de uma profundidade de 800m, tornandose inviável ou dificultando o consumo humano. Uma distribuição geral da quantidade de água na natureza é apresentada no quadro 1.

Quadro 1 - Distribuição da Água na Natureza
LOCAL Área Terrestre . Lagos . Lagos Salinos . Rios . Umidade Terrestre . Águas Subterrâneas . Áreas Glaciais Subtotal Atmosfera (vapor) Oceanos Total Geral VOLUME (l012m3) l25 l04 l,25 67 8350 29200 37800 l3 l.320.000 l.360.000 % TOTAL 0,009 0,008 0,000l 0,005 0,6l 2,l4 2,8 0,00l 97,3 l00

O Brasil dispõe de 15% de todo o volume de água doce existente no mundo, ou seja, dos 113 trilhões de m disponíveis para a vida terrestre, 17trilhões estão concentrados no nosso país. Deste total, 80% distribui-se pela Bacia Amazônica que engloba 3% do total da população brasileira.
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A água quimicamente pura não existe na natureza, pela sua própria condição de solvente universal pode dissolver uma série de substâncias que vão definir suas características (qualidade). Também, condições climáticas, geográficas e geológicas, assim 3

como a composição e ocupação do solo são fatores de influência que definem as características da água e influem no grau de tratamento e nos diversos usos a que ela se destina. 1.2 O USO DA ÁGUA – A ÁGUA E O HOMEM Em termos globais, a água disponível é muito superior ao total consumido; estimase que o consumo anual mundial de água esteja em torno de 4500 km3, no entanto, o aumento da população, o desenvolvimento industrial e outras atividades humanas, são fatores estimulantes do consumo. A distribuição geográfica é também extremamente desigual e não está de acordo, na maioria dos casos, com a população e as necessidades prementes. A maior parte do planeta tem déficit de recursos hídricos.

“Caso não ocorram mudanças na gestão mundial dos recursos hídricos, em 2025, 2/3 da população mundial deverá sofrer conseqüências da falta de água” Conferência HABITAT 2 – Istambul / 1996 Além da má distribuição e das perdas, deve ser considerada também a crescente degradação dos recursos hídricos como resultado da ação antrópica. Assim, muitas regiões apresentam problemas relacionados com a água, seja pela sua disponibilidade ou por sua qualidade ou por ambas. O homem utiliza a água para os mais diversos fins, que implicam ou na retirada de água dos cursos d’água, podendo ocorrer perdas entre o que é retirado e o que retorna ao sistema natural; ou em atividades desenvolvidas no próprio ambiente aquático. Entre os principais usos da água citam-se: o abastecimento doméstico e industrial, a irrigação, a dessedentação de animais, a aqüicultura, a preservação da flora e da fauna, a recreação e o lazer, a harmonia paisagística, a geração de energia elétrica, a navegação e a diluição e transporte de despejos. A inter-relação entre o uso da água e a qualidade requerida para a mesma é direta. Entre os usos relacionados, pode-se afirmar que o uso mais nobre é representado pelo abastecimento doméstico, que exige a satisfação de certos critérios específicos de qualidade, enquanto o menos nobre é o da diluição de despejos. Deve-se lembrar que 4

alguns corpos d’água apresentam usos múltiplos, decorrendo daí a necessidade de satisfazer simultaneamente aos diversos critérios de qualidade. O quadro 2 relaciona de forma sintética os usos da água aos requisitos mínimos de qualidade correspondentes. Quadro 2 – Usos da água e seus requisitos de qualidade
REQUISITO DE QUALIDADE Isenta de substâncias químicas e organismos prejudiciais à saúde. Consumo humano, higiene Baixa agressividade e dureza. ABASTECIMENTO DOMÉSTICO pessoal e usos domésticos Esteticamente agradável (ausência de cor, sabor, odor e turbidez) A água não entra em contato com Baixa agressividade e dureza o produto (refrigeração, caldeiras) A água é incorporada ao produto (alimentos, bebidas, remédios) Isenta de substâncias químicas e organismos prejudiciais à saúde. Esteticamente agradável A água entra em contato com o (ausência de cor, sabor e odor). produto Variável com o produto. Hortaliças, produtos ingeridos Isenta de substâncias químicas e crus ou com casca. organismos prejudiciais à saúde Salinidade controlada Isenta de substâncias prejudiciais ao solo e as plantações Salinidade controlada Isenta de substâncias químicas e organismos prejudiciais à saúde dos animais Variável com os requisitos ambientais da flora e da fauna a preservar Contato primário (natação, esqui, Isenta de substâncias químicas e surfe) organismos prejudiciais à saúde Baixos teores de sólidos em suspensão, óleos e graxas. Contato secundário (pesca, navegação de lazer,...) Usinas hidrelétricas GERAÇÃO DE ENERGIA TRANSPORTE Usinas nucleares ou termelétricas Baixa dureza Baixa presença grosseiro de material Aparência agradável Baixa agressividade Demais plantações USO GERAL USO ESPECÍFICO

ABATECIMENTO INDUSTRIAL

IRRIGAÇÃO

DESSENDENTAÇÃO DE ANIMAIS PRESERVAÇÃO DA FLORA E FAUNA

RECREAÇÃO E LAZER

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AQUICULTURA PAISAGIAMO E MANUTENÇÃO DA UMIDADE DO AR E DA ESTABILIDADE DO CLIMA

Presença de nutrientes e qualidade compatível com as exigências das espécies cultivadas

Estética e conforto térmico

1.3 A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS Entende-se por poluição das águas como o processo de adição de substâncias ou de formas de energia que, direta ou indiretamente, alterem a natureza do corpo d’água de uma maneira tal que prejudique os legítimos usos que dele são feitos. A poluição dos recursos hídricos pode ser originada por processos naturais ou antropogênicos de natureza orgânica ou mineral, radioativa, termal, doméstica ou industrial. Entre os principais agentes poluidores da água estão relacionados:    A matéria orgânica provocando consumo de oxigênio, mortandade de peixes, ocorrência de maus odores e de condições tóxicas, etc, O material em suspensão, levando a problemas estéticos, depósitos de lodo, adsorção de poluentes, Os nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, conduzindo ao crescimento excessivo de plantas, cuja posterior decomposição irá prejudicar o balanço de oxigênio do corpo d’água,   Os microorganismos patogênicos, provocando o surgimento de diversas enfermidades de veiculação hídrica, Os metais pesados, produzindo toxicidade e prejudicando o desenvolvimento da vida aquática. 

As formas como estes poluentes chegam aos mananciais são variadas, podendo ocorrer de forma pontual, isto é, concentrada no tempo e espaço ou de forma difusa, com distribuição de poluentes ao longo do curso de água A origem destes poluentes é diversa, podendo situar-se tanto no ciclo hidrológico como no próprio sistema de abastecimento da água. 6

É de fundamental importância, particularmente para a saúde dos consumidores que todo o sistema de abastecimento de água seja bem projetado, construído, conservado e operado, em outras palavras, é necessário que várias medidas sejam observadas, para evitar que a água seja contaminada na captação, no tratamento, na distribuição e na reservação, bem como nas próprias instalações domiciliares.

O crescimento industrial e populacional desenvolvido de forma concentrada e desordenada aliado à ausência de planejamento, legislação, fiscalização e controle podem ser apontadas respectivamente como as principais causas diretas e indiretas para o crescente aumento dos níveis de poluição. O intenso crescimento populacional observado nas últimas décadas tem conduzido a um incremento na geração de esgotos e a uma maior demanda de alimentos, o que por sua vez implica em um crescente consumo de agrotóxicos e fertilizantes. Esta explosão populacional ocorre fundamentalmente nos países mais pobres, que não dispõem de infra-estrutura adequada de esgotamento sanitário e de controle de poluição. A expansão das atividades industriais está intimamente relacionada ao crescimento populacional. A transformação de matérias-primas em bens de consumo gera por sua vez grande quantidade de rejeitos, cujo destino final freqüentemente é o ambiente aquático.

As conseqüências da poluição hídrica podem ser variadas dependendo do tipo de poluente e se manifestar através de prejuízos ou limitações de suas características ecológicas, como por exemplo: prejuízos diversos no uso da água; efeitos nocivos à vida aquática; toxidez; qualidade insatisfatória para água de abastecimento; tratamento mais caro; prejuízo na alimentação e sobrevivência das comunidades (piscicultura); perda de valores estéticos e recreativos: formação de lodo (sedimentação); exalação de gases; mineralização excessiva; eutrofização; corrosividade; redução da penetração da luz (turvação); origem ou transmissão de doenças.

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1.4 FORMAS DE IMPUREZAS PRESENTES NA ÁGUA Durante a circulação da água pela biosfera, processos de lixiviação e dissolução de rochas e vegetais além de fatores antropogênicos, vão acumulando e/ou transportando diferentes constituintes que vão conferir à água características próprias que naturalmente variam de acordo com as situações geológicas e climatológicas locais. Estes diferentes constituintes genericamente chamados de "impurezas" se distribuem na massa líquida conforme seu tamanho de partícula entre formas solúveis (dp ≤ l0-3 ), coloidais (l0-3  ≤ dp ≤ 1 ) e suspensos (dp > l), conforme é mostrado na figura 2.

Figura 1.2 – Distribuição das impurezas na água em função de seu tamanho

As impurezas solúveis são aquelas que se apresentam dissociadas, ou seja estão dissolvidas em água como os sais (cálcio, magnésio, sódio, ferro) e gases como oxigênio, dióxido de carbono, nitrogênio, sulfídrico, etc... As partículas ou gotículas muito pequenas dispersas em água como as substâncias vegetais (corantes), argila, bactérias e vírus são exemplos de impurezas coloidais. Já as

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partículas relativamente grandes de substâncias que flutuam sobre a água são chamadas de impurezas em suspensão. Algas, fungos, bactérias inócuas e patogênicas, vermes, larvas, areia, silte, argila e resíduos industriais e domésticos são os principais exemplos desta forma de impureza. No quadro 3 podem ser observados os efeitos diretos ocasionados pela presença de impurezas em função do estado em que se encontram na água.

Quadro 3 - Efeitos do estado das impurezas sobre a água
Impurezas Areia Silte Argila Bactérias Microrganismos Resíduos industriais Resíduos domésticos Corantes vegetais Sílica Bicarbonatos de cálcio e magnésio Carbonatos de cálcio e magnésio Sulfatos de cálcio e magnésio Cloretos de cálcio e magnésio Bicarbonato de sódio Carbonato de sódio Sulfatos de sódio Fluoretos de cálcio Cloretos de cálcio Ferro Manganês Oxigênio Bióxido de carbono Nitrogênio Estado Suspensão Suspensão Suspensão Suspensão Suspensão Suspensão Suspensão Coloidal Coloidal Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Dissolvidos Efeitos Turbidez Turbidez Turbidez Doenças e prejuízo às instalações Turbidez, cheiro e cor Poluição Poluição Cor, sabor e acidez Turbidez Alcalinidade e dureza Alcalinidade e dureza Dureza Dureza e corrosividade em caldeiras Alcalinidade Alcalinidade Ação laxativa Ação sobre os dentes Sabor Sabor, cor Cor Corrosividade Acidez e corrosividade Nulo

1.5 - A ÁGUA NA VEICULAÇÃO DE DOENÇAS Dos muitos usos que a água pode ter alguns estão mais intimamente relacionados com a saúde humana, como por exemplo: (a) A água utilizada como bebida ou na preparação de alimentos,

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(b) A água utilizada no asseio corporal ou a que, por razões profissionais ou outras quaisquer, venha a ter contato direto com a pele ou mucosas do corpo humano: ex.: trabalhadores agrícolas em cultura por inundações, lavadeiras, atividades recreativas (lagos, piscinas, etc). (c) A água empregada na manutenção da higiene do ambiente e, em especial, dos locais, instalações e utensílios usados no manuseio, preparo e ingestão de alimentos (domicílio, restaurantes, bares, etc). (d) A água utilizada na rega de hortaliças ou nos criadouros de moluscos, ostras, mariscos e mexilhões. Nos usos citados em (a) e (b) há contato direto entre água e o organismo humano, em (c) e (d) há principalmente contato indireto. Também em (a) e (d) influi a qualidade, e em (b) e (c), além da qualidade, é muito importante a quantidade disponível, que em alguns casos é fator preponderante. Se a nocividade da água pode resultar de sua má qualidade, a quantidade insuficiente de água também gera graves problemas de saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde OMS, aproximadamente um quarto dos leitos existentes em todos os hospitais do mundo está ocupado por enfermos, cujas doenças são ocasionadas pela água, seja pela sua escassez ou pela sua qualidade, ou ambas. A relação entre a qualidade da água e doenças, intuitivamente suspeitada ou admitida desde a mais remota antigüidade, só ficou comprovada cientificamente a partir de meados do século XIX com a epidemia de cólera em Londres. (John Snow). Reconhece-se que o fator quantidade tem tanta ou mais importância que a qualidade, na prevenção de algumas doenças. A escassez da água, dificultando a limpeza corporal e a do ambiente, permite a disseminação de enfermidades associadas à falta de higiene. Assim, a incidência de certas doenças diarreicas, do tipo shigelose, varia inversamente à quantidade de água disponível "per capita", mesmo que essa água seja de qualidade muito boa. A tracoma, que ocorre em vastas áreas de zona rural brasileira, tem como uma das bases de sua profilaxia, o abastecimento d'água no domicílio, em quantidades para permitir o asseio corporal satisfatório.

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Também algumas doenças cutâneas e infestações por ectoparasitos, como os piolhos, podem ser evitadas ou atenuadas onde existe conjugação de bons hábitos higiênicos e quantidade de água suficiente.

1.5.1 - Principais doenças veiculadas pela água De acordo com os seus mecanismos de veiculação ou da forma como chegam até ao homem, as doenças veiculadas pela água podem ser denominadas como doenças de TRANSMISSÃO HÍDRICA e de ORIGEM HÍDRICA As primeiras, são aquelas em que a água atua como veículo propriamente dito, do agente infeccioso, as demais são aquelas decorrentes de certas substâncias denominadas contaminantes tóxicos contidas na água em teor inadequado.

a) Doenças de transmissão hídrica  A água é um importante veículo de transmissão de doenças notadamente do aparelho intestinal. Os microrganismos patogênicos responsáveis por essas doenças atingem a água com os excretas de pessoas ou de animais infectados. Entre os principais microrganismos encontrados nas águas contaminadas e as doenças por eles veiculdas citam-se:     bactérias: febre tifóide, febres paratifóides, disenteria bacilar, cólera; protozoários: amebíase ou disenteria amebiana; vermes (helmitos) e larvas: esquistossomose; vírus: hepatite infecciosa e poliomielite. O quadro 4 apresenta os principais tipos de microrganismos associados a doenças de transmissão hídrica. A água é imprescindível também, ao ciclo biológico de muitos vetores animados, responsáveis por graves doenças. Por exemplo, os mosquitos que transmitem a malária e a febre amarela, têm a fase larvária, obrigatoriamente, em meio aquático. Assim, doenças, como a malária, indiretamente, estão relacionadas com a água. Neste caso, a água não atua como veiculo, mas o mosquito transmissor se procria nas coleções de água, e portanto, ao se estudar a construção de um reservatório de acumulação destinado ao 11

abastecimento de água deve-se investigar as espécies de mosquitos existentes na área de inundação e vizinhanças, bem como aspectos epidemiológicos relacionados à malária. Quadro 4 - Principais Doenças de Transmissão Hídrica.
DOENÇA AGENTE INFECCIOSO Cólera Febre Tifóide Febre paratifóide Amebíase Víbrio comma Salmonella typhosa Salmonella paratyphi Entamoeba histolytica S. mansoni, S. haematobium, S. japonicum Necator americanus e ancylostomo duodenale Vírus da Hepatite infecciosa Vírus da poliomielite ocorrendo no Brasil freqüente no Brasil difundida no mundo difundida no mundo. Atinge até 50% da população onde não há saneamento. muito difundida no Brasil, especialmente no Nordeste Água contaminada água contaminada, leite, ostras, insetos igual à febre tifóide água contaminada, alimentos crus, moscas, baratas água contaminada OCORRÊNCIA TRANSMISSÃO

Esquistossomose

Ancilostomose

água, alimentos crus muito difundida no Brasil

Hepatite infecciosa Poliomielite

difundida no mundo difundida no mundo

água, alimentos Contágio direto e através da rede de esgoto

b) Doenças de origem hídrica Os contaminantes tóxicos que dão origem a esta espécie de doença podem ser de quatro tipos:    contaminantes naturais de uma água que esteve em contato com formações minerais venenosas (fluor, arsênio, boro, etc...); contaminantes naturais de uma água na qual se desenvolveram determinadas colônias de microrganismos venenosos (maré vermelha); contaminantes introduzidos na água em virtude de certas obras hidráulicas defeituosas (principalmente tubos metálicos) ou práticas inadequadas no tratamento da água (chumbo, alumínio); 12

contaminantes introduzidos nos cursos d'água por certos despejos industriais.

Os contaminantes de origem mineral incluem o flúor, o selênio, o arsênio e o boro, e, com exceção do flúor, raramente são encontrados em teores capazes de ocasionar danos. Os contaminantes naturais ocasionados por colônias de microrganismos venenosos, como certos tipos de algas, dão à água aspecto repulsivo ao homem, que tem assim uma defesa natural através dos seus sentidos, não obstante, a mortalidade de gado que ingere esses contaminantes tem sido verificada. Os contaminantes introduzidos pela corrosão de tubulações metálicas podem ocasionar distúrbios. Dos metais empregados nas tubulações, o único de toxidez comprovada e acumulativa é o chumbo, que pode ocasionar o envenenamento conhecido como saturnismo. Cobre, zinco e ferro, mesmo em pequenas quantidades, dão à água gosto metálico característico e são responsáveis por certos distúrbios em determinadas operações industriais. O tratamento químico da água para a coagulação, desinfecção e destruição de algas ou controle da corrosão pode ser uma fonte potencial de contaminação (alumínio, cobre, cloro, flúor). Outras variedades de contaminantes tóxicas podem provir dos despejos líquidos industriais. Daí a importância sanitária do controle dos desejos industriais. Na água de abastecimento, o perigo maior está na possibilidade de que a mesma se tenha contaminado recentemente por águas residuárias ou por excretos humanos ou de origem animal. Se a contaminação é recente e para ela contribuíram doentes ou portadores de doenças infecciosas, organismos patogênicos podem encontrar-se vivos na água e o seu consumo poderá vir a provocar novos casos. O quadro 5 apresenta alguns exemplos das conseqüências da presença de certos contaminantes na água

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Quadro 5 – Contaminantes x conseqüências
IMPUREZAS Flúor CONSEQUÊNCIAS Fluorese dentária, quando o teor > l,5 mg/l Prevenção contra a cárie dentária: 0,6 mg/l > teor < l,5 mg/l Produzem cianose para teores > 50 mg/l Produzem morte em dose de 1,5 mg/l Produzem cor, sabor e odor em teores > 0,00l mg/l Produzem sabor em teores acima de l00 mg/l Produzem influência nociva sobre afecções cardíacas como hipertensão arterial Produz cor e sabor em teores > 0,5 mg/l A sua carência concorre para a existência do bócio Podem produzir grandes malefícios ao organismo,sendo as mais perigosas os isótopos (Sr90 e y90) do estrôncio e do ítrio. Produz irritações no organismo humano Produz envenenamento para teores > 2 mg/l Produz envenenamento (saturnismo) Produz efeito tóxico

Nitratos Fenóis

Cloretos

Ferro odo Substâncias radioativas

Cromo (VI) Cobre Chumbo Selênio

Magnésio

Produz incrustações nas caldeiras e aumenta o consumo de sabão Produzem efeitos laxativos Tornam a água inadequada ao consumo

Sulfatos Sólidos totais

1.5.2 - Profilaxia 14

O perigo da transmissão de doenças infecciosas pela água, refere-se, na prática, às doenças infecciosas intestinais e portanto, a profilaxia deve necessariamente girar em torno de medidas como:  proteção dos mananciais, inclusive medidas de controle de poluição das águas;  tratamento adequado da água, com operação continuamente satisfatória;  sistema de distribuição da água bem projetado, construído, mantido e operado. Deve-se manter a água na rede com pressão adequada;  controle permanente da qualidade bacteriológica e química da água na rede de distribuição, ou preferivelmente, na torneira do consumidor;  solução sanitária para o problema da coleta e da disposição dos esgotos, e, em particular dos dejetos humanos, tendo sempre como uma das finalidades a proteção do abastecimento de água potável.  observar, na zona rural, as medidas indicadas para a proteção dos poços, nascentes e mananciais de superfície, inclusive a construção de sistemas mais aconselháveis para o destino satisfatório dos dejetos, evitando a poluição direta da superfície, do solo ou das coleções líquidas;  melhoria da qualidade da água suprida às pequenas comunidades, auxiliando-as técnica e financeiramente a utilizarem métodos simples e pouco dispendiosos de tratamento, inclusive desinfecção, quando necessário.  controle do ciclo do agente infeccioso.

Assim, dados os diferentes modos de transmissão das doenças relacionadas à água e sua profilaxia, torna-se necessário que, a par dos serviços de abastecimento de água, outros também devam ser executados, tais como: acondicionamento, coleta, transporte, tratamento e/ou disposição final do lixo; controle de artrópodes, notadamente das moscas domésticas e das baratas; controle de roedores; saneamento dos alimentos, inclusive controle dos seus manipuladores. Assim, o abastecimento de água potável, o tratamento e a disposição adequada dos esgotos (na água e no solo), o tratamento e disposição adequada dos resíduos sólidos, as melhorias habitacionais, a identificação e eliminação

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dos criadouros de insetos vetores, a higiene pessoal e doméstica são fatores preventivos essenciais no controle das doenças clássicas ocasionadas por falta de saneamento básico.

1.6 PADRÕES DE QUALIDADE DA ÁGUA – CARACTERÍSTICAS DA ÁGUA As impurezas contidas nas águas conferem as mesmas certas características que podem alterar positiva ou negativamente seu aspecto físico, químico e biológico. Em

decorrência disto, a qualidade da água é definida através de suas características físicas, químicas e biológicas, avaliadas pela interpretação das análises de parâmetros físicos, químicos e biológicos. Importante distinção deve ser feita entre as propriedades e as características das águas naturais. As propriedades constituem-se no que é inerente à água como fluido e a distingue dos demais fluidos. Já as características diferenciam as águas naturais entre si, podendo se manifestar em uma ou outra condição. São propriedades da água: o calor específico, a viscosidade dinâmica, a tensão superficial entre outras. São características da água: a temperatura (que pode afetar certas propriedades), a cor, a turbidez entre outras. 1.6.1 CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DA ÁGUA – PARÂMETROS DE QUALIDADE

a) Cor A água pura é incolor. No entanto, devido à presença de substâncias coloridas

dissolvidas (resíduos industriais, compostos de ferro e manganês) e coloidais finamente dispersas, resultante do contato da água com resíduos orgânicos e extratos vegetais (folhas, madeiras, taninos, ácidos húmicos) a água adquire cor. As águas superficiais podem ainda adquirir cor por poluição com águas residuárias altamente coloridas, como os esgotos provenientes das operações de tingimento da industria têxtil e das operações de polpação da indústria do papel. As águas superficiais podem parecer altamente coloridas ou apresentar turvação devido à matéria corante em suspensão. A cor causada por matéria em suspensão é designada 16

por "cor aparente" e é diferençada da cor devida aos extratos vegetais ou orgânicos que são coloidais e que constituem a "cor verdadeira". Em análise de água é importante

distinguir entre cor "aparente" e cor "verdadeira", pois parte da "aparente" pode ser removida por coagulação-floculação-sedimentação, enquanto a cor "verdadeira" é mais difícil de ser removida pelos processos convencionais. A cor é determinada por comparação visual da amostra com soluções padrão de platina-cobalto de concentrações conhecidas, sendo o resultado fornecido em unidades de cor, também chamadas de unidades Hazen (uH). Em geral, as águas naturais apresentam teores de cor variando de 0 a 200 unidades Hazen (uH), sendo que valores superiores a 25 uH usualmente exigem, para sua remoção, de coagulação química e filtração. Deve-se observar que a cloração de águas coloridas para finalidades de abastecimento pode gerar produtos potencialmente cancerígenos (trihalometanos), derivados da complexação do cloro com a matéria orgânica dissolvida (ácidos húmicos).. Para água potável, a Portaria 518/2004 estabelece em 15 uH o valor máximo permissível (VMP) como padrão de aceitação para consumo humano.

b) Turbidez É uma característica decorrente da presença de substâncias em suspensão (argila coloidal, areia, silte, limo, lodo) de matéria orgânica e inorgânica finamente dividida em estado coloidal e de organismos microscópicos que absorvem e dispersam os raios luminosos em lugar de permitir sua passagem através da água. A turbidez, é portanto, uma medida da resistência da água a passagem da luz em linha reta. A origem destes materiais na água pode ser natural como a devida à erosão do solo pelas águas de rolamento e a do próprio leito do rio, além das contribuições de esgotos domésticos e industriais. Pode ser causada também por bolhas de ar finamente divididas, fenômeno que ocorre com certa freqüência em alguns pontos da rede de distribuição ou em instalações domiciliares.

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A turbidez é utilizada não só como um parâmetro de caracterização de águas brutas e tratadas, mas também como parâmetro de controle de operação das estações de tratamento de água.

A determinação da turbidez é feita através de um processo de nefelometria, ou seja, através de uma fotocélula (turbidímetro) que compara a intensidade de luz dispersa pela amostra sobre condições definidas, com a intensidade de luz dispersa por uma solução de referência padrão (polímero de formazina) sobre as mesmas condições. O método dá resultados em unidades nefelométrica de turbidez (N.T.U.), também denominado por uT. A turbidez natural das águas está geralmente contida na faixa de 3 a 500 unidades (uT). Para fins de consumo humano, a turbidez da água potável deve ser inferior a 5 uT.

c) Sabor e odor Embora sabor e odor sejam sensações distintas e não mensuráveis, usualmente são referenciadas conjuntamente através de uma conceituação e interação entre ambos. Sua origem está associada tanto à presença de substâncias químicas ou gases dissolvidos nas águas naturais, - por vezes utilizados no próprio tratamento, como o cloro - quanto ao metabolismo de alguns microrganismos, principalmente as algas e cianobactérias. A importância deste parâmetro está relacionado à significativa possibilidade de rejeição, pela população abastecida, de água adequada ao consumo e uso de outra fonte de qualidade duvidosa mas sem odor e sabor. Embora possam existir sabores agradáveis, freqüentemente considera-se o odor nas águas de consumo sob o ponto de vista negativo. Efluentes industriais com pequena concentração de fenóis produzirão odor característico que, por outro lado, não se manifesta quando da presença de metais. Dentre os compostos responsáveis por conferir sabor e odor às águas de consumo, destacam-se os compostos orgânicos naturais, como o 2-metilisoborneol (MIB) e geosmina, compostos produzidos por algas, cianobactérias e actinomicetos, não associados a efeitos deletérios à saúde e passíveis de serem percebidos a concentrações inferiores a 5,0 ng.L . Além de naturalmente presentes no ambiente, esses compostos apresentam padrão variável de ocorrência e difícil remoção com as tecnologias usuais de tratamento, recaindo quase que 3
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exclusivamente no emprego de carvão ativado, tornando-se a principal causa de reclamações de sabor e odor entre os consumidores. A quase totalidade das estações de tratamento de água do País encontra-se impossibilitada de realizar análises de MIB e geosmina, direcionando o controle nos microrganismos responsáveis por sua geração. O padrão de potabilidade vigente exige que a água para consumo humano seja insípida e completamente inodora. Todavia, mesmo em nível internacional, não há metodologia estabelecida bem como padrões de qualidade aptos a se inserir na rotina operacional das estações de tratamento para detecção de odor e sabor nas águas de abastecimento.

1.6.2 CARACTERÍSTICAS QUÍMICAS - PARÂMETROS DE QUALIDADE Os exames químicos visam determinar os teores qualitativos e quantitativos de certas substâncias, que embora não sejam nocivas até determinados limites, devem ser conhecidas para aferir a perfeição ou a necessidade dos processos de tratamento, ou ainda, no caso de uma água desconhecida, alertar sobre a viabilidade de uso da água para fins domésticos. Entre as principais características químicas devem ser avaliados:

a) pH (potencial de hidrogênio) Expressa a concentração de ions hidrogênio de uma solução em termos de seu log negativo: pH = - log H+ ou pH = log l/H+ e representa a intensidade das condições ácidas ou alcalinas do ambiente aquático. Na prática, utiliza-se a escala de pH que varia na faixa de 0 a 14 unidades, com o pH = 7 representando a neutralidade faixa ácida 0 7 faixa alcalina 14

O valor do pH influi na distribuição das formas livre e ionizada de diversos compostos químicos, contribui para um maior ou menor grau de solubilidade das substâncias e pode definir o potencial de toxicidade de vários elementos. As alterações de pH na água podem ter origem em fatores naturais como a dissolução de rochas, a fotossíntese e na absorção 4

de gases da atmosfera ou em fatores antropogênicos como o lançamento de despejos domésticos e industria.

A determinação do pH tem especial importância nas águas de abastecimento, dada a sua influência no processo de tratamento e no processo de corrosão das estruturas das instalações hidráulicas. Em águas de abastecimento, valores baixos de pH podem contribuir para a corrosividade e agressividade da água, enquanto valores elevados aumentam a possibilidade de incrustações.

Os padrões de potabilidade vigentes não fixam valores de pH para águas potáveis mas recomendam que, no sistema de distribuição o mesmo seja mantido na faixa de 6,0 a 9,5. As águas naturais podem apresentar valores de pH bastante variados, dependendo de suas características de formação, mas de um modo geral para a adequada manutenção da vida aquática, o pH deve situar-se entre 6 a 9 unidades. b) Acidez A acidez das águas pode ser do tipo natural ou mineral. A acidez natural ocorre devido à presença do ácido carbônico (H2CO3), formado pela reação da água com o dióxido de carbono (CO2) que pode ter sido absorvido da atmosfera por fenômenos de superfície ou ser resultado de processos de oxidação biológica da matéria orgânica. O ácido carbônico é um ácido fraco, que logo após a sua formação (CO2 + H2O -> H2CO3) poderá sofrer dissociações formando íons, bicarbonato e carbonato responsáveis por outra característica que é a alcalinidade (ver item seguinte). As formas predominantes destes íons estão fundamentalmente relacionadas com o pH do meio, como pode ser visto na figura 3. Desta forma, águas com pH entre 4,5 e 8,0 podem apresentar acidez natural devido à presença de CO2 na forma de H2CO3. A acidez natural tem pequena significância do ponto de vista sanitário pois nenhum efeito nocivo é atribuído ao CO2.

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Figura 1. 3. Relação entre pH e percentual de CO2 "livre" HCO-3 e CO2-3 (Modificada de Golterman et al, l978). A acidez mineral ocorre devida principalmente a lançamento de despejos industriais. Para ilustrar, podemos citar o exemplo da drenagem de minas abandonadas que contém quantidades significativas de enxofre, sulfetos e piritas. Esses materiais quando expostos ao ar (condições aeróbicas) são convertidos através da ação de bactérias oxidantes de enxofre a ácido sulfúrico (H2SO4) e sulfato (SO4), que são drenados até os cursos d'água próximos a mina. As águas que contém acidez mineral são usualmente tão desagradáveis que não existem registros de problemas relacionados ao consumo humano. Porém são de interesse sanitário devido as suas características corrosivas e ao custo envolvido para remover ou controlar as substâncias que promovam a corrosão. A acidez mineral ocorre em águas com pH abaixo de 4,5. A acidez da água é expressa em mg/l CaCO3.. c) Alcalinidade É devida a presença de substâncias comumente encontradas em águas naturais tais como bicarbonatos, carbonos e hidróxidos. bicarbonatada (HCO-3) Como visto na figura anterior, a forma

irá predominar em águas com pH entre 6,5 e 10,3. A partir de pH

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10,3 o íon dominante é o carbonato (CO2-3). Em águas não poluídas, onde o pH em geral não excede a 8,3 a alcalinidade é devida principalmente à presença de bicarbonatos. A alcalinidade da água é expressa em mg/l CaCO3.

A alcalinidade da água usada para abastecimento público é importante porque afeta a quantidade de substâncias químicas a serem adicionadas no processo de coagulação e no controle da corrosão dos sistemas de distribuição. d) Dureza Característica conferida à água pela presença de sais de metais alcalino terrosos (cálcio, magnésio, etc.) e alguns outros metais, em menor intensidade. Quando os metais estão ligados a carbonatos (CO3) ou bicarbonatos (HCO-3) a dureza é

denominada temporária ou carbonatada, pois pode ser eliminada quase totalmente por processo de fervura. Quando é devida a sulfatos alcalinos terrosos e cloretos é

denominada permanente ou não-carbonatada porque não é removida por aquecimento. A soma das duas espécies chama-se de dureza total. Não há evidências de que a dureza da água cause problemas sanitários, mas em determinadas concentrações, causa um sabor desagradável e pode ter efeitos laxativos. A dureza da água também reduz a formação de espuma no processo de lavagem, induzindo a um maior consumo de sabão, podendo também, provocar incrustações nas tubulações de água quente, caldeirase aquecedores. Segundo o grau de dureza as águas podem ser classificadas em águas moles, moderadamente duras, duras e muito duras. e) Ferro e Manganês O ferro e manganês são elementos muito abundantes na crosta terrestre e apresentam comportamento químico semelhante. Nas águas superficiais aparecem nas formas insolúveis ou oxidadas (Fe3+ e Mn4+) associados a moléculas orgânicas, enquanto nas águas subterrâneas aparecem em suas formas solúveis ou reduzidas (Fe2+ e Mn2+). Caso a água contendo as formas reduzidas seja exposta ao ar atmosférico (ex: na torneira do consumidor), o ferro e o manganês voltam a se oxidar às suas formas insolúveis (Fe3+ e 7

Mn4+), o que pode causar cor na água, além de manchar roupas durante a lavagem. Embora, nas concentrações normalmente encontradas esses elementos não apresentem inconvenientes à saúde humana, sendo inclusive essenciais à dieta nutricional, eles podem apresentar problemas de ordem estética ou prejudicar determinados usos industriais da água. A dissolução de compostos do solo é a principal causa da presença desses elementos na água. Assim, águas de determinadas regiões podem apresentar, em função das características geoquímicas das bacias de drenagem, teores elevados de ferro e manganês. Altas concentrações podem também ser encontradas em situações de ausência de oxigênio dissolvido, como p.ex. em águas subterrâneas ou nas camadas mais profundas dos lagos. Em certas concentrações, podem causar sabor e odor (mas, nessas concentrações, o consumidor já rejeitou a água, devido à coloração característica da água conferida pela presença desses elementos .Em termos de tratamento e abastecimento público de a água a Portaria 518/2004 estabelece em 0,3 mg/L de Fe e em 0,1 mg/L de Mn o padrão para consumo humano. f) Matéria Orgânica A matéria orgânica presente nos corpos d´água e nos esgotos é uma característica de primordial importância para a qualificação da água, pois é a matéria orgânica, a causadora do principal problema de poluição das águas: o consumo do oxigênio dissolvido pelos microorganismos nos seus processos metabólicos de utilização e estabilização dessa matéria. Os principais componentes orgânicos são os compostos de proteína, os

carboidratos, a gordura e os óleos, além da uréia, surfactantes, fenóis, pesticidas entre outros. Essa matéria orgânica de origem vegetal ou animal pode estar naturalmente

presente na água ou ser resultado de lançamento de despejos domésticos e/ou industriais, podendo ainda estar na forma de sólidos em suspensão ou dissolvidos de natureza biodegradável ou não. Em termos práticos, usualmente não há necessidade de se caracterizar a matéria orgânica em termos de proteínas, gorduras, carboidratos, etc. Assim, adotam-se normalmente métodos indiretos para a quantificação da matéria orgânica, ou do seu potencial poluidor através da medição da demanda (consumo) de oxigênio registrada no processo de oxidação dessa matéria. 8

g) Oxigênio Dissolvido (OD) O Oxigênio Dissolvido (OD) é um dos elementos químicos mais importantes na água e na natureza, devido às várias funções que exerce sobre atividades químicas e bioquímicas. É fundamental para a respiração da maioria dos organismos aquáticos e sua diminuição freqüentemente está associada à poluição orgânica da água, onde o consumo de oxigênio é proporcional a decomposição da matéria orgânica biodegradável através da atividade bioquímica e ou poluição química (oxidação de certos compostos). A quantidade máxima de concentração de OD na água é chamada de concentração de saturação (mg/l O2) e depende da temperatura, salinidade e pressão atmosférica (altitude) do local. O quadro 6 apresenta alguns valores destas concentrações para água doce e do mar, para diferentes temperaturas e pressão constante de uma atmosfera.

Quadro 6 - Concentração de OD na água TEMPERATURA (°C) DOCE (mg/L) SALINA (mg/L) 0 l4,6 ll,3 10 ll,3 9,0 20 9,2 7,4 30 7,6 6,l

O nível de oxigênio dissolvido é utilizado como parâmetro indicador da capacidade receptora dos cursos de água em relação aos esgotos orgânicos, servindo para o gerenciamento dos níveis mínimos de tratamento para manutenção das condições aeróbicas em cursos d'água.

h) Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) É definida como a quantidade de oxigênio dissolvido na água, necessária para oxidação bioquímica das substâncias orgânicas presentes na água, ou seja, é a quantidade de O2 requerida pelas bactérias para estabilizar a matéria orgânica "decomponível" (biodegradável). Na prática, a DBO é medida em um período de 5 dias, que corresponde a um consumo de 60 a 70% do total de oxigênio utilizado na biodegradação da matéria orgânica. A DBO 9

retrata, de uma forma indireta, o teor de matéria orgânica nos esgotos ou no corpo d´água, sendo, portanto, uma indicação do potencial do consumo do oxigênio dissolvido. É, portanto, um parâmetro de fundamental importância na caracterização do grau de poluição de um corpo d’água, sendo freqüentemente utilizado na caracterização de águas residuárias brutas e tratadas e na caracterização de corpos d’água. Não são monitoradas nas estações de tratamento de água, pois as águas naturais utilizadas para abastecimento apresentam comumente DBO inferior a 5,0 mg.L-1

Em águas naturais não poluídas a concentração de DBO é baixa, em torno de 1 a 10 mg/L, enquanto nos esgotos domésticos é da ordem de 200 a 300 mg/L, podendo chegar a valores muito altos em efluentes industriais como os de laticínios, cervejarias ou frigoríficos.

i) Demanda Química de Oxigênio (DQO) O teste de DQO é largamente empregado como meio de medir o grau de poluição de despejos domésticos e industriais. A DQO permite avaliar o efluente em termos de quantidade total de oxigênio requerido para oxidação completa (até Co2 e H2O) de toda a matéria (biodegradável, pouco e não biodegradável). Como resultado, os valores de DQO são maiores ou no máximo iguais aos de DBO. A diferença entre a DBO e a DQO constitui uma indicação das matérias orgânicas pouco ou não biodegradáveis. A principal vantagem deste teste é o curto tempo exigido para seu desenvolvimento (cerca de 3 horas).

DQO  DBO DQO = DBO + Matéria Orgânica não biodegradável

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j) Grupo nitrogênio Os compostos de nitrogênio são de grande interesse devido a importância do nitrogênio nos processos vitais de todas as plantas e animais, sendo um dos mais importantes nutrientes para o crescimento de algas e macrófitas (plantas aquáticas superiores). Na biosfera, o nitrogênio alterna-se, dentro do seu ciclo, entre várias formas e estados de oxidação, no meio aquático o nitrogênio pode ser encontrado nas formas de: a) nitrogênio molecular; b) nitrogênio orgânico (N2); c) amônia (NH3)-, d) nitrito (NO-2), e) nitrato (NO-3).

j.1) Nitrogênio molecular (N2): fração que escapa diretamente para a atmosfera

j.2) Nitrogênio orgânico: No esgoto doméstico, o nitrogênio orgânico está principalmente na forma de proteína. O crescimento no teor do nitrogênio orgânico é indício da poluição da água com esgoto ou resíduo industrial.

j.3) Nitrogênio amoniacal: Considera-se como nitrogênio amoniacal, aquela fração de nitrogênio como íon amônio no equilíbrio: NH4+  NH3 + H+. O nitrogênio amoniacal está

presente naturalmente nas águas superficiais e esgotos. A concentração de amônia nas águas varia de menos de 10 mg/l em algumas águas naturais, superficiais e profundas, a mais de 30 mg/l em águas residuárias. j.4) Nitrito (NO2-): O nitrito, junto com o nitrato, constitui o nitrogênio total oxidado e pode entrar nos sistemas de abastecimento público como conseqüência do uso como inibidor de corrosão em águas de processos industriais. Sua concentração em águas superficiais ou profundas sempre é inferior a 0,1 mg/l. Nos sistemas de distribuição de águas podem aparecer devido à redução de nitratos de ferro, zinco e chumbo dos condutos. Em solução acidificada, pode reagir para formar nitrosaminas muitas das quais são conhecidas como carcinogênicos j.5) Nitrato (NO3-): A presença de nitrato na água é uma indicação da última etapa da oxidação da matéria nitrogenada. Ele pode indicar poluição com resíduos animais, antes da 11

poluição vegetal, uma vez que os ácidos animais são mais ricos em nitrogênio que os vegetais, além da decomposição animal ser mais fácil. As águas de chuva carregam uma quantidade considerável de nitrogênio nítrico (NO3) da atmosfera. As águas superficiais de boa qualidade são em geral, pobres em nitratos em face deste ânion ser facilmente absorvido pela vegetação em crescimento, embora atinja altos níveis em águas de profundidade. Em quantidades excessivas, ele contribui para o desenvolvimento em crianças da doença conhecida como metahemoglobinemia (cianose), quando se usa tal água para preparação de alimentos. O limite de 10 mg/l de nitratos como nitrogênio é imposto em águas de consumo para evitar tal distúrbio. O nitrato é encontrado em pequenas quantidades em esgotos domésticos frescos. A análise das formas de nitrogênio predominantes em um curso d’ água permite verificar o grau de estabilização da matéria nitrogenada na água fornecendo indicações sobre o estágio da poluição ocasionada pelo lançamento de esgotos nesse curso d’água. Assim, se a forma orgânica ou amoniacal for predominante, a poluição é recente e, se predominar nitrato a poluição é mais antiga, em outras palavras, o grau de estabilização da matéria nitrogenada na água, pode indicar a “idade” de ocorrência da poluição orgânica. podendo indicar a "idade" de ocorrência da poluição orgânica.

l) Fósforo (Fosfatos) O fósforo na água apresenta-se principalmente na forma de fosfatos (PO4)- e sua presença está relacionada a processos de ocorrências naturais como lixiviação de rochas minerais, processos de degradação, chuva e carreamento do solo, ou a processos de origem antropogênica como o lançamento de resíduos industriais, agrícolas e domésticos. Os compostos de fósforo são essenciais para todas as formas de vida e são considerados os nutrientes mais facilmente controláveis para limitar o crescimento de plantas objetáveis. As principais fontes de fosfato na água são o solo, detergentes, fertilizantes, despejos industriais e efluentes domésticos. Alta concentração de fosfatos na água está associada com o processo de eutrofização de lagos e represas, provocando o desenvolvimento de algas ou outras plantas aquáticas desagradáveis. Em águas naturais não poluídas as concentrações de fósforo situam-se na faixa de 0,01 a 0,05 mg/L. 12

m) Cloretos Ocorrem em águas naturais com variadas concentrações. Na maioria dos corpos d'água, o seu conteúdo é normalmente pequeno quando comparado a outros componentes principais. Por isto, um aumento considerável em águas superficiais pode estar relacionado com poluição de industrias ou esgotos domésticos. Deve ser notado, que o cloreto é um constituinte natural das fezes e urina. O aumento de sua concentração pode servir como um dos sinais de poluição fecal. Sua presença torna-se objetável quando acima de 250 mg/l devido ao gosto salino (cloreto de sódio), porém teores até l000 mg/l de cálcio e magnésio podem não dar gosto.

n) Micropoluentes inorgânicos e orgânicos São considerados como micropoluentes aqueles elementos e compostos químicos que, mesmo em baixas concentrações, conferem à água característica de toxicidade, tornando-a imprópria para grande parte dos usos. Entre esses, têm especial destaque os micropoluentes inorgânicos como os metais pesados: arsênio, cádmio, cromo, chumbo, mercúrio e prata. A presença de metais na água apresenta efeitos diversos que vão desde efeitos benéficos, passando por efeitos incômodos e indo até efeitos perigosamente tóxicos. Alguns metais são essenciais (ex.: cobre), outros podem afetar adversamente os consumidores (chumbo, cádmio, mercúrio, cromo). Alguns metais podem ser benéficos ou tóxicos, dependendo de suas concentrações (ferro, manganês, zinco). Vários destes metais se concentram na cadeia alimentar, resultando num grande perigo para os organismos situados nos degraus superiores. Além dos metais pesados, há outros micropoluentes inorgânicos de importância em termos de saúde pública, como o cianeto e o flúor entre outros. A origem natural desses micropoluentes em ambientes aquáticos é de menor

importância, entretanto, várias outras atividades de origem antropogênica como os despejos industriais, as atividades mineradoras e de garimpo e a agricultura podem ser responsáveis pela presença dessas substâncias nos corpos d’água em concentrações capazes de comprometer o equilíbrio do ambiente aquático e/ou de prejudicar o consumo humano. Entre os micropluentes orgânicos destacam-se os defensivos agrícolas, alguns 13

tipos de detergentes e um grande número de produtos químicos sintéticos de uso industrial. Além de sua difícil biodegradabilidade, muitos desses compostos apresentam

características carcinogênicas, mutagênicas (atuam sob as células reprodutoras) ou até mesmo teratogênicas (geração de fetos com graves deficiências físicas). 1.6.3. Características biológicas (bacteriológicas) da água Entre o material em suspensão na água inclui-se a "parte viva" ou seja, os organismos presentes que também constituem impurezas e que conforme sua natureza têm grande significado para os sistemas de abastecimento de água. A diversidade de espécies no meio aquático depende de condições físicas e químicas que propiciam a sobrevivência dos organismos. Entre os organismos de maior interesse em relação ao abastecimento de água incluem-se as algas (verdes, azuis e diatomáceas) do reino vegetal e as bactérias, vírus, protozoários e vermes do reino animal. Alguns desses organismos, como certas algas, são responsáveis pela ocorrência de sabor e odor desagradáveis, ou por distúrbios em filtros e outras partes do sistema de abastecimento. Outros, como bactérias, vírus e protozoários são patogênicos, podendo, portanto, provocar doenças e até mesmo ser a causa de epidemias, o que é particularmente importante no caso de águas de abastecimento. No entanto, a determinação individual da eventual presença de patogênicos em uma amostra d’ água é extremamente difícil, complexa e cara. Desta forma, a avaliação da qualidade bacteriológica das águas é feita através da pesquisa de microorganismos indicadores de contaminação fecal. Os organismos mais comumente utilizados com tal finalidade são as bactérias do grupo coliforme.

1.6.3.1 O grupo coliforme No grupo dos coliformes encontram-se os coliformes totais (CT), constituído de bactérias isoladas em amostras de água e solos poluídos e não poluídos e os coliformes fecais (CF) constituídos por bactérias habitantes normais dos intestinos dos animais de sangue quente. O grupo coliforme é constituído de dois grandes gêneros: o gênero Escherichia e o gênero Aerobacter. Entre as várias espécies que constituem o gênero Escherichia, a Escherichia coli é a espécie mais importante, pois constitui 95% dos coliformes presentes nas fezes. A 14

presença de E. coli, então não oferece dúvida sobre a origem fecal da contaminação. É importante observar que, esses microorganismos não são patogênicos, mas a sua presença na água dá uma indicação segura da contaminação da mesma por fezes humanas ou de animais e, portanto, da sua potencialidade para transmitir doenças, tendo em vista que a maior parte das doenças associadas com a água é transmitida por via fecooral, i.e, os organismos patogênicos são eliminados pelas fezes, atingem o ambiente aquático e voltam a contaminar as pessoas que se abastecem indevidamente dessa água. Resumidamente, as principais razões para a utilização do grupo coliforme como indicadores de contaminação são que:  Os coliformes apresentam-se em grande quantidade (em média, cada indivíduo elimina de 1010 a 1011 células por dia) apenas nas fezes dos animais de sangue quente. Assim a sua presença deve ser encarada como um sinal de alerta, indicando a possibilidade de haver uma poluição e/ou contaminação fecal, principalmente quando ocorrem variações bruscas do número de coliformes numa determinada água.   Os coliformes apresentam resistência aproximadamente similar à maioria das bactérias patogênicas As técnicas bacteriológicas para a detecção de coliformes são rápidas e econômicas.

A determinação de coliformes pode ser realizada para coliformes totais (CT) e/ou fecais (CF). Usualmente só uma pequena parte dos totais não representam contaminação fecal, geralmente seu aumento indica maior poluição fecal. O teste de fecais indica realmente contaminação por fezes, mas em algumas estações de pequeno porte às vezes só o teste de coliformes totais é facilmente executável, servindo no acompanhamento do tratamento da água de abastecimento. A portaria de padrões de potabilidade do Ministério da Saúde especifica valores para coliformes totais e fecais. O número de coliformes é expresso pelo denominado "número mais provável" (N.M.P.) que é obtido através de estudos estatísticos e representa a quantidade mais provável de coliformes existentes em 100ml de água da amostra.

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O exame de coliformes é recomendado para o controle de sistemas de abastecimento de água, e, em particular, da eficiência do tratamento, podendo ser complementado por outros testes microbiológicos.

1.7 - Utilização dos parâmetros de qualidade Para avaliar-se a qualidade de uma água através da interpretação de suas diferentes características é necessário selecionar-se adequadamente os parâmetros que possam traduzir de forma ampla a qualidade da mesma e ao mesmo tempo reconhecer-se as conseqüências da presença dessas impurezas sobre o uso da água. No quadro 7 é mostrada a forma predominante das impurezas encontradas na água. O quadro 8 apresenta uma relação dos principais parâmetros a serem analisados nas águas destinadas ao abastecimento público. Quadro 7 - Forma física preponderante representada pelos parâmetros de qualidade
Característica Parâmetro Cor Turbidez Sabor e Cor pH Alcalinidade Acidez Dureza Ferro e manganês Cloretos Nitrogênio Fósforo Oxigênio dissolvido Matéria orgânica Metais pesados Micropoluentes orgânicos Organismos indicadores Algas Bactérias Sólidos em suspensão X X Sólidos dissolvidos X X X X X X X X X X X X X Gases dissolvidos

Parâmetros físicos

X X X

X X X X X X X X

Parâmetros químicos

X

Parâmetros biológicos

16

Quadro 8 - Principais parâmetros a serem investigados numa análise de água
Águas para abastecimento Característica Parâmetro Água Água superficial subterrânea Bruta Tratada Bruta Tratada X X X(1) X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X Águas residuárias Bruta Tratada Corpos receptores Rio Lago

Parâmetros físicos

Parâmetros químicos

Parâmetros biológicos

Cor Turbidez Sabor e odor Temperatura PH Alcalinidade Acidez Dureza Ferro Cloretos Nitrogênio Fósforo O.D M. orgânica Micropl. Inorg. (diversos)3 Micrpol. Orgân. (diversos)3 Org indicadores Algas (diversas) Bactérias decomp. (diversas)

X X X X X X X

X X X X

X

X X X X X X X(2) X(2)

X X X X

X X X

X X X

X X X

X X

X X X(2) X X X X

X X X X X X X X

Notas
(1) Causada por Fe e Mn; (2) Durante o tratamento, para controle do processo; (3) Devem ser analisados aqueles que possuírem alguma justificativa, devido ao uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica

1.8 Requisitos e Padrões de qualidade Os requisitos de qualidade de uma água devem estar associados aos usos pretendidos para essa água. Se um corpo d'água é de uso múltiplo, a qualidade das suas águas deverá ser ta! que possa atender aos requisitos dos diversos usos previstos. Porém, além dos requisitos de qualidade, é necessário estabelecer-se também padrões de qualidade, embasados em um suporte legal. Os padrões devem ser cumpridos, por força de legislação, pelas entidades envolvidas com a água a ser utilizada. Da mesma forma que os requisitos de qualidade, os padrões também são função do uso previsto para a água. Em termos práticos, há três tipos de padrão de interesse para a qualidade da água. São eles:  Padrões de lançamento no corpo d’água 17

 

Padrões de qualidade do corpo d’água Padrões de qualidade para uso específico - Padrões de Potabilidade

1.8.1 Padrões de lançamento e de qualidade do corpo d’água Devido aos diversos tipos e graus de poluição que um curso d'água venha a adquirir e aos seus diferentes usos, faz-se necessário preservar a sua qualidade para que se possa atender as necessidades da comunidade que dele faz uso. As condições e padrões de qualidade de água necessários ao atendimento dos usos preponderantes são determinados pelo Ministério do Meio Ambiente através de resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) que dispõe sobre a classificação dos corpos d´ água e estabelece as condições padrões de lançamento de efluentes. A resolução atualmente vigente é a Resolução no 357 de 17/03/2005. Para efeito desta Resolução as águas do Território Nacional são divididas em águas doces, salobras e salinas segundo a seguinte definição: I - águas doces: águas com salinidade igual ou inferior a 0,05%, II - águas salobras: águas com salinidade superior a 0,05% e inferior a 3%, III - águas salinas: águas com salinidade igual ou superior a 3%. As águas doces, salobras e salinas são classificadas, segundo sua qualidade requerida para os seus usos preponderantes, em treze classes de qualidade. Desta forma os cursos de água doce podem ser classificados em: classe especial, classe l, classe 2, classe 3 e classe 4; as águas salinas são classificadas em classe especial, classe 1, classe 2 e classe 3 e as salobras em classe especial, classe 1, classe 2 e classe 3. A cada uma dessas classes corresponde uma determinada qualidade a ser mantida no corpo d’água, qualidade esta, expressa na forma de padrões, através da referida Resolução CONAMA. Além dos padrões de qualidade dos corpos d’água, a Resolução CONAMA apresenta também, os padrões para o lançamento de efluentes nos corpos d’água. Esses padrões estão interrelacionados, no sentido de que um efluente, além de satisfazer os padrões de lançamento, deve proporcionar condições tais no corpo 18

receptor, de forma que a qualidade do mesmo se enquadre dentro dos padrões para corpos receptores, não prejudicando o seu uso preponderante. Resumidamente, os principais usos relativos a águas doces de acordo com sua classe, são: Classe Especial: águas destinadas a) ao abastecimento para consumo humano, com desinfecção; b) à preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas; b) à preservação dos ambientes aquáticos.

Classe 1: águas que podem ser destinadas: a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento simplificado; b) à proteção das comunidades aquáticas; c) à recreação de contato primário: natação, esqui aquático, mergulho; d) à irrigação de hortaliças e frutas que são consumidas cruas e de frutas que se desenvolvem rentes ao solo e que sejam ingeridas sem remoção de película; e) à proteção das comunidades aquáticas em terras indígenas.

Classe 2: águas que podem ser destinadas: a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional; b) à proteção das comunidades aquáticas; c) à recreação de contato primário: natação, esqui aquático, mergulho; d) à irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa a vir a ter contato direto; e) à aqüicultura e à atividade de pesca.

Classe 3: águas que podem ser destinadas: a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convenciona ou avançado; b)à irrigação de culturas arbórea, cerealíferas; e forrageiras; c) à pesca amadora; 19

d) à recreação de contato secundário; e) à dessedentação de animais.

Classe 4 águas que podem ser destinadas: a) à navegação; b) à harmonia paisagística.

Obs: A classe especial pressupõe os usos mais nobres e a classe 4 os menos nobres. A maioria das águas doces se encontram entre classe 1 e classe 4. Cada classe deve se encontrar dentro dos limites estabelecidos para cada parâmetro, senão fugirá da classe. Um aumento de classe, entre 1 e 4, corresponde à água com pior qualidade, usualmente mais poluída. 1.8.2 - Classificação das águas para consumo humano - Padrões de Potabilidade De uma rnaneira geral a qualidade da água destinada ao consumo depende não só das condições do manancial de origem, mas também e principalmente das condições de preparação e de distribuição dessa água (processo de tratamento, sistema de fornecimento de água, etc). Portanto, há necessidade e conveniência dos órgãos competentes estabelecerem os limites gerais aceitáveis para as impurezas contidas nas águas, de acordo com o fim a que as mesmas se destinam. No caso da água destinada ao consumo doméstico são fixados os denominados "padrões de potabilidade".

Os padrões de potabilidade indicam as condições que a água deve preencher para poder servir e ser utilizada como bebida, e para outros fins domésticos, isto é, para que seja considerada uma água potável.

Assim, os padrões de potabilidade ou de água potável são as quantidades limites que, com relação aos diversos elementos, podem ser toleradas nas águas de 20

abastecimento, quantidades estas fixadas, geralmente por decretos, regulamentos ou especificações. Podem ser estabelecidos, exigidos, adotados ou recomendados pelos diferentes organismos relacionados à saúde pública (poder públicos, órgãos internacionais, instituições técnicas), usualmente com pouca variação nas faixas dos valores limites toleráveis.

No Brasil, os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano são estabelecidos pelo Ministério da Saúde através da Portaria n (www.anvisa.gov.br).
o

518 de 25 de março de 2004

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Ponto 2 - Introdução ao tratamento de água

2.1 Breve histórico Desde os tempos mais remotos, o homem se viu confrontado com questões de sobrevivência e a água de qualidade adequada e em quantidade suficiente para atender não só a necessidades mais prementes, mas também como forma de proteção à saúde e desenvolvimento econômico é uma dessas questões que ainda desafiam a engenhosidade dos seres humanos. Os primeiros registros sobre instruções de controle de fluxo de água com finalidades de irrigação e abastecimento são anteriores à era cristã. Em documentos datados de 2000 a.C já se encontravam orientações para o acondicionamento da água em vasos de cobre, ou sobre sua exposição ao sol, e ainda, para o uso de areia e cascalho para filtração da água. A canalização da água para os múltiplos usos já existia, por exemplo, no Antigo Egito e na Mesopotâmia. Na formação das aglomerações humanas, uma das primeiras preocupações era de estabelecer uma rede para a circulação da água, assim, inicialmente, as povoações se localizavam nas proximidades de fontes abastecedoras, mas com o crescimento das populações e conseqüente transformação dos povoados em cidades, as reservas tornaram-se escassas ou insuficientes e inevitavelmente expostas à contaminação. Já se reconhecia a importância de se manter saudáveis as populações, necessitando para isso, dispor de canalizações para o abastecimento de água e esgotamento sanitário. No período colonial as questões relativas ao abastecimento de água e evacuação dos dejetos ficavam sob encargo dos indivíduos, ou seja, eram de natureza privada ou familiar. Somente no século XVII surgem as primeiras grandes obras de intervenção ambiental, buscando principalmente eliminação de pântanos e áreas úmidas através de obras de aterramento e drenagem, construção de diques, canais e ancoradouros. A partir do século XVIII, o abastecimento público passa a ser feito através de aquedutos e a distribuição à população por meio de chafarizes e fontes próprias, mas a remoção de dejetos e de lixo continua sendo executada de forma individual pelas famílias. No Brasil, as questões relacionadas à água, em particular, e ao saneamento de forma geral, sempre estiveram relacionadas a mudanças políticas e/ou aos ciclos econômicos estabelecidos ao longo da nossa História.O primeiro aqueduto brasileiro foi construído no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro em 1723 e a partir daí foi adotado como modelo por outras cidades do país. No entanto, a oferta de água ainda não era satisfatória, grande parte da população

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continuava a utilizar as fontes centrais e a água era transportada por escravos ou comprada dos pipeiros. Além disso, a população mais carente era obrigada a realizar longos deslocamentos por falta de chafarizes próximos, ou por serem estes comercializados por companhias particulares. Entre o final do Império e o início da Primeira República, os serviços de água e esgoto estavam sob o encargo do Estado, porém executados por intermédio de concessão à iniciativa privada, mas ainda atendendo, apenas, uma pequena parcela da população concentrada nos centros urbanos e de forma bastante insatisfatória. Em 1920 surgem as primeiras instituições públicas que aperfeiçoam os serviços sanitários de água e esgoto. No que diz respeito aos recursos hídricos, em 1934 deu-se a aprovação do importante Decreto que instituiu o Código de Águas ainda vigente no país. Este tinha, como objetivo geral, estabelecer regras de controle federal para o aproveitamento dos recursos hídricos através da formulação de princípios que podem ser considerados um dos primeiros instrumentos de controle do uso de recursos hídricos no país e a base para a gestão pública do setor de saneamento, sobretudo no que se refere à água para abastecimento público.

2.2 Importância sanitária e econômica de um sistema de abastecimento A implantação ou melhoria de serviços de abastecimento de água traz como resultado uma rápida e sensível melhoria na saúde e condições de vida de uma cidade. Desta forma, a importância de um sistema de abastecimento de água pode ser avaliada através de aspectos sanitários, sociais e econômicos. No que diz respeito aos aspectos sanitários e sociais, um sistema de abastecimento visa fundamentalmente, ao:     Controle e prevenção de doenças de veiculação hídrica; Favorecimento e implantação de hábitos higiênicos na população e adoção de práticas de limpeza pública; Estímulo a práticas desportivas; Uso de dispositivos de engenharia que melhorem o conforto e garantam segurança, como a implantação de sistemas de esgotos sanitários, os aparelhos de condicionamento térmico e os de combate a incêndios;   Aumento da esperança de vida da população.

Sob o aspecto econômico, a existência de um sistema de abastecimento se traduz em: Aumento da vida média pela redução da mortalidade;

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 

Aumento da vida produtiva Garantia de desenvolvimento industrial e incentivo à indústria turística.

2.3 Sistema de abastecimento de água Um sistema de abastecimento de água caracteriza-se pela retirada da água da natureza, adequação de sua qualidade, transporte e fornecimento à população em quantidade compatível com suas necessidades. Conceitualmente, é constituído por um conjunto de obras, equipamentos e serviços destinados a produzir e distribuir água potável para fins de consumo seja doméstico, público ou industrial. O sistema de abastecimento de água pode ser executado através de uma:  Solução coletiva  aplicada em áreas urbanas e áreas rurais com população mais concentrada, onde se inclui também a solução alternativa de abastecimento de água definida como aquela modalidade de abastecimento coletivo de água distinta do sistema de abastecimento de água, incluindo, entre outras, fonte, poço comunitário, distribuição por veículo transportador e instalações condominiais.  Solução individual  aplicada, normalmente, em áreas rurais de população dispersa. A adoção de uma solução coletiva para o abastecimento de água é mais interessante, pois permite não só maior controle sobre a qualidade da água consumida, como também facilita a proteção do manancial abastecedor e a supervisão e manutenção das unidades instaladas. A elaboração de um projeto de abastecimento de água exige um amplo estudo dos dados e características da comunidade a ser abastecida, para que se possa levantar as soluções alternativas possíveis e estabelecer um cotejo técnico-econômico viável. Estes estudos preliminares devem considerar, entre outras:       as características dos mananciais; o número de habitantes a ser abastecido no período previsto; as variações de demanda; as condições climáticas locais; as atividades econômicas da cidade; as características sócio-culturais da população.

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Qualquer que seja a solução escolhida, ela deverá fornecer água em quantidade suficiente à prevista no projeto e com qualidade atual e futura condizente com o tratamento proposto, atendendo os padrões de potabilidade vigentes.

2.4 Partes constituintes de um sistema público de abastecimento Os sistemas de abastecimento de água constituem-se de unidades de captação, adução, tratamento, reservação e distribição: Manancial  Captação  Tratamento  Reservação  Distribuição

Captação: conjunto de equipamentos e instalações projetados para a tomada de água do manancial. As obras de captação variam conforme as condições locais, hidrológicas, topográficas ou hidrogeológicas (para as águas subterrâneas). É a primeira unidade do sistema de abastecimento de água, e sua concepção deve considerar que não são admissíveis interrupções em seu funcionamento, para não comprometer as demais unidades do sistema e garantir água em quantidade suficiente para atender o consumo.

Adução: transporte da água desde a captação até a comunidade a ser abastecida, sem distribuição ao longo da rede, passando pelo tratamento e reservação, se necessário. As adutoras podem ser de água bruta (transporta a água bruta até a Estação de Tratamento) ou de água tratada (transporta água da ETA aos reservatórios de distribuição).

Tratamento: eliminação de impurezas e/ou correção de propriedades inadequadas ao uso da água, implicando em instalações específicas apropriadas (estações de tratamento de água - ETA).

Reservação: unidade destinada ao armazenamento de água para absorver as variações do consumo, manter a pressão adequada na rede, promover a continuidade do abastecimento no caso de paralisação da produção de água e garantir uma reserva estratégica para consumos emergenciais, como incêndios.

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Distribuição: condução da água através de tubulações, formando uma rede que leva água aos diversos pontos de consumo na comunidade (com distribuição ao longo das canalizações). A rede de distribuição é a estrutura mais integrada à realidade urbana, e a mais dispendiosa.

2.5 Cálculo da demanda de água O volume de água necessário para abastecer uma cidade dependerá fundamentalmente de suas características econômicas, sócio-culturais e climáticas, enquanto o consumo médio por habitante (consumo per capta) dependerá dos usos diversos a que se destinará a água: doméstico ou domiciliar; público; comercial e industrial. O valor do consumo médio per capta (q) é obtido dividindo-se o volume total de água distribuída durante um ano (vazão anual) pelo número de habitantes beneficiados. Em geral o consumo per capta é expresso em litros por habitante por dia (L/hab.dia). No entanto, a vazão de água distribuída para uma cidade não é constante. São observadas variações, às vezes bastante significativas, que podem ser mensais (o consumo é maior nos meses mais quentes), diárias, horárias ou instantâneas (para atender usos emergenciais como grandes incêndios). No projeto do sistema de abastecimento são consideradas as variações diárias e as variações horárias: a) Variações diárias: é utilizado o coeficiente do dia de maior consumo (k 1), que é obtido da relação entre o maior consumo diário verificado no ano e a vazão média anual. O valor usualmente adotado no Brasil está entre 1,2 a 1,5.

1,2  k1 1,5

b) Variações horárias: é utilizado o coeficiente da hora de maior consumo (k 2), que é a relação entre a maior vazão horária observada e a vazão média horária do mesmo dia. Durante um dia a variação horária é bastante significativa, observando-se um consumo maior nos horários próximos das refeições e diminuindo no início da madrugada. O valor usualmente adotado no Brasil está em torno de 1,5 a 2,0.

1,5  k2 2,0

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O coeficiente (k1) é utilizado como reforço para cálculos de projeto em todas as unidades do sistema, enquanto (k2) é adotado como reforço apenas para a rede de distribuição. Desta forma, podemos calcular a demanda de água distribuída através da fórmula:

Q( L / s ) 
P = população (hab) q = consumo (taxa) per capta (l/hab.dia) k1 = coeficiente do dia de maior consumo k2 = coeficiente da hora de maior consumo

P.q.k1.k2 86400

E a vazão de água aduzida a ETA para tratamento é estimada através da fórmula:

Q( L / s ) 

P.q.k1  qETA  Qs 86400

Onde: qETA = percentual de água retido na ETA para consumo próprio Qs = vazão singular

2.6 Processos de tratamento O tratamento de água tem por finalidade a eliminação de impurezas e/ou correção de propriedades inadequadas ao uso da água. A água a ser utilizada para o abastecimento público deve ter sua qualidade ajustada de forma a:     atender os padrões de potabilidade exigidos pelo Ministério da Saúde e aceitos internacionalmente; prevenir o aparecimento de doenças de veiculação hídrica, protegendo a saúde da população; tornar a água adequada a serviços domésticos; prevenir o aparecimento de cáries dentárias, através da fluoretação;

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proteger o sistema de abastecimento de água, principalmente tubulações e órgãos acessórios da rede de distribuição, dos efeitos danosos da corrosão e da deposição de partículas no interior das tubulações.

O tratamento da água pode ser parcial ou completo, dependendo da análise prévia de suas características físicas, químicas e biológicas. Os mananciais subterrâneos, não poluídos, geralmente não necessitam de tratamento completo, o que ocorre diferentemente para os mananciais superficiais que normalmente carreiam maior quantidade de matérias em suspensão, estando sujeitos a maior contaminação. O tratamento da água também poderá ser executado de forma individual ou domiciliar ou ser efetuado numa Estação de Tratamento de Água (ETA).

2.7 Tratamento completo ou convencional As águas de mananciais superficiais destinadas ao abastecimento público normalmente são submetidas a um tratamento completo ou convencional constituído por etapas de:  Clarificação: conjunto de processos destinados à remoção das impurezas presentes na água.  Desinfecção: para eliminação dos microrganismos que provocam doenças Os processos que constituem as etapas citadas são: COAGULAÇÃO  FLOCULAÇÃO  SEDIMENTAÇÃO  FILTRAÇÃO  DESINFECÇÃO (1) (2) (3) (4) (5)

Os processos de (1) até (4) são partes da etapa de clarificação e se adaptam bem a remoção de impurezas de águas superficiais. Tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas já clarificadas, devem passar pelo processo de desinfecção, como medida básica de proteção e prevenção de transmissão de doenças e controle da saúde pública. Atualmente, os sistemas públicos também são obrigados a fazer a fluoretação da água para prevenção de cáries. A figura 2.1 representa uma Estação de Tratamento de Água (ETA) do tipo convencional.

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Fig. 2.1- Estação convencional esquemática

2.7.1

Coagulação

Processo de adição de um coagulante, geralmente sulfato de alumínio ou sulfato ferroso, com a finalidade de transformar desestabilizar as partículas de impurezas presentes na água, permitindo que posteriormente elas se aglutinem, formando flocos passíveis de serem removidos com maior facilidade e rapidez pelos processos subseqüentes. Para efetivação deste processo são adotadas unidades de mistura rápida do tipo hidráulico ou do tipo mecânico. A adição e dispersão do coagulante à água exigem um tempo de mistura muito pequeno, da ordem de 1 a 20 s e uma elevada intensidade de mistura.

Fig. 2.2 - Misturador rápido hidráulico – calha Parshall

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2.7.1

Floculação

Processo onde se dá o contato entre as partículas já desestabilizadas na etapa anterior, permitindo a sua agregação e conseqüente formação dos flocos. Esta parte deve ser bem conduzida, pois é da boa formação dos flocos, que devem ser do tamanho de uma cabeça de alfinete, que dependerá a eficiência e melhores condições de funcionamento das outras fases do tratamento; a velocidade de escoamento por exemplo, não poderá ser menor que 10 cm/s e nem maior que 30 cm/s, pois no primeiro caso poderá haver deposição do floco e no segundo poderá quebrar o floco já formado. As unidades de mistura adotadas para promover a floculação são denominadas de mistura lenta constituídas por sistemas hidráulicos (canais de mistura) como os floculadores de fluxo horizontal ou vertical ou por sistemas mecânicos como os agitadores de paletas de eixo vertical ou horizontal. O tempo de mistura lenta é de 20 a 80 minutos e o gradiente de mistura(G) fica entre 10 a 100 s-1.

Fig 2.3 - Floculador hidráulico de chicanas

2.7.2 Sedimentação ou Decantação Processo de separação das impurezas sólidas, em forma de flocos, da água pela ação da gravidade, ou seja, é um processo dinâmico de separação das partículas suspensas na água e sua deposição no fundo dos tanques ou bacias de sedimentação (decantadores). Estes tanques podem ser do tipo convencional ou de baixa taxa ou de alta taxa com escoamento laminar. O decantador convencional (tanque de forma geralmente retangular de fluxo horizontal) é o tipo mais adotado. Nestes tanques o tempo de passagem do fluxo de água é de 2 a 3 horas.

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Fig. 2.4 - Decantador convencional

2.7.3

Filtração

Processo de passagem da água por um meio granular (geralmente areia), com o objetivo de reter as partículas residuais, que não foram removidas na fase anterior de sedimentação, normalmente é utilizado após a coagulação-sedimentação. Os filtros podem ser lentos (adução direta da água bruta) ou rápidos (após coagulo-floculação e sedimentação), de camada simples (areia) ou dupla (areia + antracito), de fluxo descendente (por gravidade) ou ascendente.

Fig 2.5 - Filtro rápido

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2.7.4

Desinfecção

Processo que emprega agente físico ou químico (desinfectante) com a finalidade de eliminar organismos patogênicos que possam transmitir doenças através da água. No Brasil o agente desinfectante mais empregado é o cloro, quer seja na forma gasosa (cloro gasoso), granular (hipoclorito de cálcio) ou líquida (hipoclorito de sódio). Sua importância está diretamente ligada ao combate das infecções hídricas.

2.7.5

Fluoretação

Etapa adicional que se integra ao tratamento após o processo convencional. Consiste na aplicação de flúor na água já tratada e tem função de combater a incidência de cárie dentária, principalmente entre crianças e adolescentes. A concentração eficaz e ideal está em torno de 1,0 mg/L, não produzindo efeito em concentrações baixas enquanto que concentrações altas podem causar problemas físicos como fluorose dentária e complicações ósseas. Em uma ETA convencional o processo de coagulação com mistura rápida leva em torno de 1 minuto, enquanto a floculação com mistura lenta leva em torno de 30 a 40 minutos, a sedimentação gira em torno de 1 a 4 horas e a filtração 20 minutos. Todo o processo, juntamente com correções de pH, fluoretação, etc. leva de 3 a 5 horas. Na figura abaixo é mostrada a seqüência do tratamento convencional.

Fig 2.7 - Seqüência do tratamento clássico ou convencional

2.7.6 Tratamentos complementares Além dos processos básicos descritos acima, existem tratamentos complementares e avançados para correção ou redução de acidez, alcalinidade, sabor e odor, que podem ser

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adotados pelas ETA´s de forma sistemática ou eventual, dependendo das características da água bruta e sua adequação aos padrões de potabilidade e exigências do consumidor. De uma forma ampla, os principais processos de tratamento, com os respectivos objetivos, são apresentados no quadro a seguir:
Processos de tratamento de água Processos Clarificação

Objetivos Remoção de turbidez, microrganismos e alguns metais pesados

Desinfecção Fluoretação Controle de corrosão e incrustação

Remoção de microrganismos patogênicos Prevenção à carie dentária Acondicionar a água, de tal maneira a evitar efeitos corrosivos ou incrustantes

Abrandamento Adsorção

Redução da dureza Remoção de contaminantes orgânicos e inorgânicos, controle de sabor e odor

Aeração Membranas Troca iônica

Remoção de Fe e Mn Remoção de contaminantes orgânicos e inorgânicos Remoção de contaminantes inorgânicos

Entre os métodos de tratamento adotados a nível domiciliar, citam-se: a fervura, a sedimentação simples, a filtração lenta e a desinfecção.

2.8 Qualidade da água tratada A qualidade da água produzida em uma ETA deve ser acompanhada ao longo de cada processo do tratamento. Desde a entrada da água bruta até a saída para os reservatórios e distribuição devem ser realizados exames físicos, químicos e bacteriológicos que permitam atestar a eficiência operacional das unidades de tratamento. Antes da filtração e após as etapas de coagulação, floculação e sedimentação, a turbidez já deverá estar reduzida em 90% do seu valor bruto, porém somente o processo de desinfecção dará garantia de distribuição de água não sujeita a transmissão de doenças. A água distribuída pelos sistemas públicos de abastecimento deverá atender aos padrões de potabilidade vigentes, expressos atualmente na Portaria 518 de 25/03/2004 do Ministério da Saúde, que estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano.

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